Editorial
Em O princípio esperança, Ernst Bloch propõe a recondução da Filosofia e
das Ciências Sociais ao estudo das pulsões humanas ligadas à esperança e à sua
repercussão no âmbito das relações sociais e do pensamento científico. Na oportunidade, ele qualifica como “prelúdios” o emergir no pensamento de traços do
devir inerentes ao desenvolvimento histórico da realidade social; uma resposta
intelectual antecipadora da consciência diante dos incessantes desejos, sonhos
e anseios dos indivíduos por uma vida coletiva melhor ou mais favorável. Os
prelúdios são, portanto, abstrações pré-conscientes sobre o mundo que levam
o sujeito a abandonar “a introversão ou o relacionamento tão-só com o entorno mais imediato” da vida cotidiana para “comunicar-se com o que está além
de si mesmo”. Um desdobramento da pulsão de autopreservação humana, que
começa pela pulsão da fome, passa pelo interesse na compreensão e superação
dos obstáculos inerentes às condições objetivas de existência e chega no “afeto
expectante” mais importante da existência humana: a esperança.
Neste sentido, o conceito e a discussão construída por Bloch têm a qualidade de demonstrar como, na consciência, antes de chegar a uma leitura objetiva sobre o desdobramento da realidade social, surgem para o indivíduo pensamentos e elaborações pré-conscientes que antecipam seus termos ao captar, no
presente, os primeiros traços de sua manifestação, restando a ele desenvolver
uma compreensão mais profunda do vindouro que, naquele momento, pode
carecer apenas de uma elaboração mais rigorosa. Algo que, como nos mostra
Bloch, foi esquecido por uma perspectiva contemporânea de ciência essencialmente instrumental, voltada para a resposta e a análise de estímulos meramente imediatos da sociedade moderna.
É com este espírito que os discentes do Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (PPGCS/UFBA) fundaram,
no ano de 2013, em Salvador, a revista Prelúdios. Pretende-se que ela se torne um
canal aberto para exposição, socialização e difusão de reflexões dos estudantes
de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia e de parceiros oriundos de
outros centros universitários, sofisticando abordagens teóricas já existentes ou
antecipando elementos da realidade social e histórica de modo a contribuir com
a emancipação do indivíduo no mundo contemporâneo.
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Este primeiro número da revista Prelúdios não propôs uma temática para
a qual poderiam convergir os trabalhos. Entretanto, em cada uma de suas linhas
teóricas e abordagens os textos convidam o leitor a revisitar objetos e noções
das Ciências Sociais que são de extrema relevância para reflexão sobre as transformações e contextos presentes no mundo moderno. Entre os autores convidados, o Prof. Dr. Antônio da Silva Câmara analisa A representação do conflito nos
filmes documentários de Carlos Pronzato, um estudo que toma o gênero do cinema
documentário enquanto representação da realidade social e como uma produção subjetiva na qual transparece a cosmovisão do documentarista, constituindo-se como fonte histórica e sociológica que contribui para o entendimento da
própria supraestrutura social. Em seguida, temos em Notas sobre experiência em
Thompson, Benjamim e Adorno, um trabalho onde o Prof. Dr. Jair Batista da Silva recupera com a ajuda da teoria sociológica e da história crítica a noção de
“experiência” como categoria analítica fundamental para o entendimento dos
complexos fenômenos vigentes no mundo contemporâneo, passando em revista três concepções diferenciadas sobre o assunto e mostrando suas articulações
recíprocas. Por último, contamos com o trabalho Discursos sobre o sistema de cotas para afrodescendentes na formação da opinião e vontade política: o mito da deliberação racional, da Profª Drª Maria Victoria Espiñeira Gonzalez e do Prof. Dr. Rui
Aguiar Dias, o qual abrange uma amostra de aproximadamente 1390 estudantes
com objetivo de perceber os argumentos envolvidos no processo deliberativo no
espaço público e tem como tema a questão do sistema de cotas para afrodescendentes.
O primeiro número conta ainda com três importantes trabalhos de
pesquisadores que escolheram o primeiro número da Prelúdios para publicar e
difundir as suas produções. No texto O engajamento individual: entre intenção, redes e estruturas, Alex Menezes de Carvalho procura demonstrar, consultado um
conjunto de bibliografias, como as redes e/ou os laços interpessoais podem funcionar muito bem como ligações entre as disposições individuais e as estruturas. Já em Algumas categorias para análise dos sonhos no candomblé, Luiz Felipe de
Queiroga Aguiar Leite apresenta uma adaptação de parte da sua dissertação de
mestrado, trazendo a partir da Nova Antropologia Onírica algumas categorias
facilitadoras da apreciação dos sonhos no candomblé. Por fim, contamos ainda
com o texto de Bruno Evangelista da Silva, que nos traz em O ‘lugar’ do conhecimento sociológico: o sensível e o inteligível entre os clássicos da sociologia, um ensaio
que busca evidenciar o “lugar” do conhecimento para os clássicos da sociologia, dissecando as principais obras de Durkheim, Marx e Weber para desvelar
o ponto nodal para o qual o conhecimento deveria emergir para os respectivos
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representantes da teoria clássica – a saber, o mundo sensível, da materialidade
das ações e do corpo ou o mundo inteligível, da transcendência e da alma.
O Conselho Editorial responsável pela criação e lançamento do primeiro número da revista Prelúdios agradece profundamente a todos aqueles que de
alguma forma contribuíram, incentivaram ou deram qualquer tipo de apoio a
este grupo de trabalho. Sem sombra de dúvida, privados do apoio de colegas,
professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e apoiadores
externos este projeto não teria se tornado realidade.
Boa leitura a todos.
Comissão Editorial
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