X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
O ENSINO DE MATEMÁTICA FINANCEIRA ABRINDO PORTAS PARA A
CIDADANIA
Rafael Santos Cruz
Colégio Estadual Marcílio Dias
[email protected]
Rosemeire de Fátima Batistela
Centro Universitário Jorge Amado - Unijorge
[email protected]
Resumo: O objetivo desse trabalho, que é uma síntese do nosso trabalho de conclusão de
curso apresentado em 2008 ao Centro Universitário Jorge Amado, é apresentar uma
proposta de trabalho com a matemática financeira realizado com jovens recém
aproximados do primeiro emprego com contrato de trabalho, além disso, descrever o
desenvolvimento de tal proposta e os resultados obtidos. A pesquisa foi realizada no
CEDEP no segundo semestre de 2008 na cidade de Salvador/BA. O trabalho desenvolvido
permitiu-nos perceber a importância do ensino da matemática financeira e as inúmeras
possibilidades de desenvolvimento de comportamento cidadão por meio das discussões e
das atividades desenvolvidas.
Palavras-chave: Educação Matemática; Matemática Financeira; Cidadania.
1. Matemática Financeira e cidadania: uma aproximação
O processo de globalização faz com que todos os tipos de relações - econômicas,
sociais e culturais - tornarem-se complexas, dificultando o entendimento da realidade. Esta
dificuldade é agravada pelo ensino disciplinar, no qual o educando toma parte de uma
visão muito limitada do conhecimento, não conseguindo decifrar as tramas da realidade.
A complexidade que falamos se colocava sob os nossos olhos no ano de 2008. O
cenário econômico nacional apontava um ano bastante promissor para o comércio e
indústria, com a contradição uma eminente crise. Esta contradição levava a uma grande
oferta de crédito, mas devido ao risco de uma grande crise, tivemos um aumento da
inadimplência e por conseqüência o aumento da taxa de juros. Com o intuito lidar com
esta complexidade que os Parâmetros Curriculares Nacionais apresentam uma visão de
cidadania abrangente quando afirma que:
falar em formação básica para a cidadania significa refletir sobre as
condições humanas de sobrevivência, sobre a inserção das pessoas no
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
1
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
mundo do trabalho, das relações sociais e da cultura e sobre o
desenvolvimento da crítica e do posicionamento diante das questões
sociais. [grifo nosso]
BRASIL (1997, p. 26).
E dentre as finalidades do ensino de matemática os PCN’s do ensino médio afirma-se
compreender a responsabilidade social associada à aquisição e uso do
conhecimento matemático, sentindo se mobilizada para diferentes ações,
[...] em defesa de seus direitos como consumidor[grifo nosso]
BRASIL (2000, p.118).
A partir da visão dos PCN’s do ensino médio, nota-se que o espaço da sala de aula
de matemática, é o local indicado dentro da estrutura escolar, para discutirmos sobre os
direitos do consumidor.
Ao nascermos somos potenciais consumidores, o tempo todo bombardeados pelas
propagandas publicitárias, extremamente belas, ligando nossas emoções - e por que não
sonhos - ao consumo dos produtos que nos querem fazer consumir. Mas o que é consumo?
A palavra é bastante conhecida e geralmente só se pensa em consumo relacionado ao ato
de comprar. Esta visão é certa, porém limitada. Consumir implica num processo de seis
etapas que geralmente realizamos de modo automático, e pior ainda, muitas vezes
impulsivo. Antes de comprar decidi-se o que consumir, por que consumir, como consumir
e de quem consumir. Depois de refletir sobre estes pontos é que efetua-se a compra, seu
uso e descarte.
Então notamos que pensar em uma formação para cidadania é também fornecer aos
educandos, situações para refletirem criticamente sobre as relações de consumo. Isso abre a
possibilidade a duas afirmações. A primeira é que:
1.
para exercer a cidadania é importante refletirmos sobre as relações de
consumo.
Continuemos nossa reflexão. Em breve esta nos levará a um segundo ponto. No
quarto passo do ato de consumir temos que escolher de quem consumir. Neste passo
decidimos de qual marca comprar, em que loja, se financiaremos o produto ou pagaremos à
vista com desconto por exemplo. Para tomarmos esta decisão conscientemente, precisamos
ter certos conhecimentos que estão dentro do campo da Matemática Financeira. Com isso
afirmamos que:
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
2
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
2.
Para refletir sobre as relações de consumo é necessário termos
conhecimentos em matemática financeira.
Partindo dessas duas afirmações(1 e 2), podemos afirmar que para exercer a
cidadania é necessário conhecimentos em matemática financeira.
Torna-se neste momento oportuno observar um dos trechos do Código de Defesa
do Consumidor, na Seção III, Artigo 18, que aborda a responsabilidade por vício do
produto ou serviço, onde observamos que conhecimentos sobre matemática financeira são
indispensáveis para a sua interpretação.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha : [...]
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.[grifo nosso]
Concluímos então que a cidadania, relações de consumo e a Matemática Financeira
se relacionam mutuamente. O que implica na necessidade de discussão destes temas. Quer
dizer que para exercer a cidadania plenamente, é necessários conhecimentos de
Matemática Financeira.
Os estudantes têm acesso aos conhecimentos de Matemática Financeira somente no
ensino superior ou em cursos voltados especificamente para esta área. Então, se partimos
do fato de que uma esmagadora fatia da população no Brasil não tem acesso à
universidade, muitos acabam sendo privados de obter conhecimentos que permitam, por
exemplo, decidir por um melhor plano de pagamento de um bem, principalmente se ele for
financiado, devido às altas taxas de juros que reinam no Brasil. Na escola, a matemática
financeira não tem espaço garantido no conteúdo programático do currículo da disciplina
escolar matemática.
Com isso, observamos que ao final de onze anos de ensino básico obrigatório por
lei no Brasil - oito no Ensino Fundamental e três no Ensino Médio – o educando ao sair da
escola nem sempre terá conhecimentos para decidir racionalmente, como entre uma
compra à vista com desconto e uma parcelada. Isto é uma contradição se pensarmos nas
considerações e objetivos da educação de D’AMBROSIO(2000) e na formação para a
cidadania proposta pelos PCN’s.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
3
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
Ao mesmo tempo em que o aluno aprendeu a somar matrizes, calcular
determinantes, racionalizar denominadores, a escola deixou de lado a discussão de tópicos
tão importantes para o pleno exercício da cidadania. Neste tópico desenvolvemos uma
reflexão sobre a proximidade entre a Matemática Financeira e cidadania. No próximo
retrato a opinião dos professores ouvidos por NASCIMENTO(2004) e FIEL(2005), na
tentativa de esclarecer quais os motivos levam a Matemática Financeira a não ser discutida
na Educação Básica.
2. A opinião dos professores sobre a Matemática Financeira: que pensam?
NASCIMENTO(2004) e FIEL(2005) ouviram professores procurando identificar
em seus discursos opiniões que clareassem o que pensam e como eles agem os professores
quando pensam/discutem o conteúdo Matemática Financeira.
Com relação à importância do ensino da matemática financeira ambos afirmam que
os professores acham importante ensinar matemática financeira na rede básica. Porém esta
opinião não tem sido refletida na práxis docente de todos os professores ouvidos como
afirma (FIEL 2005 e NASCIMENTO 2004).
Quer dizer, apesar dos professores acharem importante trabalhar com Matemática
Financeira, não levam tal assunto para a sala de aula sob algumas alegações, como falta de
tempo disponível, falta de conhecimentos nesta área ou até mesmo o uso da calculadora.
Falta de conhecimentos na área e a restrição ao uso de calculadoras apontam para
uma estratégia equivocada de formação inicial ou continuada dos professores, que deveria
contemplar estes aspectos. No próximo tópico apresento alguns obstáculos ao ensino da
Matemática Financeira.
3. Alguns Obstáculos ao ensino da Matemática Financeira
Existem alguns empecilhos com o trabalho com a matemática financeira. Um deles
é a forma que a Matemática Financeira trata do dinheiro e das aplicações financeiras,
muitas vezes contradizendo nosso senso comum. É comum pensarmos que um empréstimo
de qualquer valor, feito com uma taxa de juros de 10 % ao mês, dobre o seu saldo devedor
no 10º mês, porém antes do sétimo mês ela terá alcançado o dobro. É por isso que a falta
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
4
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
de conhecimento pode ser aproveitada pelas instituições financeiras e pelo comércio que
divulgam ter menores taxas e melhores condições, mas sem um conhecimento básico de
Matemática Financeira o consumidor não terá condições de analisar criticamente as
possibilidades.
Outro ponto fundamental é o uso da calculadora na sala de aula. Temos uma
posição muito clara com relação a isto e afirmamos ser bastante trabalhoso uma abordagem
da Matemática Financeira, pensando na cidadania, sem o uso das calculadoras,
principalmente se utilizarmos situações com referência na realidade.
Destaca-se também a omissão dos PCN’s pensando em Matemática Financeira no
ensino fundamental.
Não existem referências explícitas nos PCN’s ao ensino deste
conteúdo na Educação Fundamental. É importante salientar, que muitas vezes quando as
noções de Matemática Financeira são desenvolvidas, o currículo oferece apenas conceitos
sobre o sistema de juros simples, sem ressaltar que na vida real - nas relações
consumidores/instituições financeiras ou consumidores/instituições comerciais - os juros
simples não existem. O que existe é o sistema de juros compostos, no qual se calcula juros
sobre juros.
Neste tópico analisamos alguns obstáculos para o ensino da Matemática Financeira.
No próximo apontaremos algumas pesquisas sobre o ensino de Matemática Financeira na
Educação Básica.
4. Pesquisas sobre o ensino-aprendizagem da Matemática Financeira
Neste tópico discorreremos sobre os trabalhos que tem sido proposto para o ensino
da Matemática Financeira no Brasil através da análise dos anais dos trabalhos apresentados
no XII EBEM (Encontro Baiano de Educação Matemática - 2007), do IX ENEM (Encontro
Nacional de Educação Matemática – 2007) e da análise das dissertações e teses dos
diversos programas de mestrados e doutorados existentes no país.
No XII EBEM foram apresentados 98 trabalhos, sendo que 2 deles foram
relacionados à Matemática Financeira. Com isso temos que aproximadamente 2 % dos
trabalhos abordavam direta ou indiretamente o conteúdo matemático financeira. Já no IX
ENEM foram apresentados um total de 725 trabalhos, sendo 8 deles relacionados a
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
5
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
Matemática Financeira. Decorre do exposto que menos de 2% dos trabalhos abordava
direta ou indiretamente o conteúdo matemática financeira.
Os diversos encontros científicos destacados neste trabalho – XII EBEM e IX
ENEM – são espaços para o fomento da ciência, nos quais pesquisadores, professores,
alunos e interessados pelo ensino da matemática se encontram, divulgando e discutindo
aspectos importantes sobre este e certamente um dos objetivos dos encontros mencionados
é servir como um espaço para formação continuada de professores.
Esta pesquisa nos anais dos encontros indicou diversas referências de teses e
dissertações dos diversos programas de mestrado e doutorado em Educação Matemática
dentre elas: FIEL (2005), OLIVEIRA(2004), NASCIMENTO(2004), STEPHANI(2005),
CARVALHO(1999) e LEME(2007). Por problemas de espaço não detalhei esses estudos
que estão disponíveis em CRUZ(2009).
Com isso apontamos a escassez de estudos sobre este tema, o que associado a
análise feita dos anais do XII EBEM e IX ENEM talvez apontem para um “desprestígio”
do tema perante a comunidade de Educação Matemática.
Com isso temos excelentes espaços para pesquisadores aprofundarem os estudos e
propostas para intervenção seja na formação dos professores – inicial ou continuada – ou
no trabalho direto na sala de aula. Percebe-se então que existe uma carência de formação
dos professores quando pensamos em matemática financeira.
Verificada essas demandas aproveitamos o momento em que se desenvolvia a
presente pesquisa para desenvolvermos uma proposta de ensino-aprendizagem da
Matemática Financeira, dando um foco na atividade que visava discutir o funcionamento
do cartão de crédito, como faremos no próximo tópico.
5. Desvendando as tramas do cartão de crédito: relatando uma experiência
Em outubro de 2008, realizamos um trabalho sobre Matemática Financeira no
Centro Desportivo e Profissionalizante do Boiadeiro(CEDEP) localizado no bairro de
Plataforma, subúrbio de Salvador, na comunidade do Boiadeiro. O espaço é mantido pela
ONG CDM – Cooperação para o Desenvolvimento da Morada Humana – e através do
projeto Educar para Construir oferece cursos – pedreiro/pintor, hidráulica/elétrica e
carpintaria - para 250 jovens em situação de risco social com idade entre 18 e 24 anos, pelo
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
6
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
período de 10 meses com o objetivo de formarção mão de obra qualificada para inserção
no setor da construção civil, sendo financiada pelo Governo da Bahia, através da Secretaria
de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza.
No mês de outubro de 2008 dedicamos algumas das aulas de matemática para
discutir o conteúdo Matemática Financeira, visto que muitos destes jovens começaram a
receber seus primeiros salários com descontos de INSS, transporte, alimentação e alguns
tendo contato pela primeira vez com instituições financeiras que os assediavam para
fazerem cartões de crédito, tomar empréstimos dentre outros.
Um tema que suscitou muitas dúvidas e discussões foi o funcionamento do cartão
de crédito. Então foi comum perguntas como: “o que significa pagar o mínimo?”, “Como é
calculado os juros que incidem sobre a fatura?”, “Se eu não conseguir pagar nada da fatura
o que acontece com a conta do cartão?”.
Com o intuito de tematizar e procurar respostas as questões apresentadas acima
ouvimos duas músicas e demos a letra das musicas digitadas em uma folha de ofício aos
alunos. A primeira era Sem Entrada e Sem Mais Nada interpretada e escrita por Tom Zé,
retirada do seu cd Grande Liquidação, lançada em LP pela primeira vez em 1969. A
segunda música era Classe Média escrita e interpretada por Max Gonzaga. Ambas as
músicas “poetizam” conceitos e palavras relacionadas à Matemática financeira.
Salientamos, por exemplo, na música Sem Entrada e Sem Mais Nada trechos como:
“... entrei na liquidação/Saí quase liquidado/Vinte meses vinte vezes/Eu perdi meu
ordenado” ou “ ... mas hoje serenamente/Com a minha assinatura/Eu compro até alfinete,
palacete e dentadura/E a caneta para assinar vai ser também facilitada”, ou ainda: “ você
compra troca e vive/Sufocado, a prestação/Vou propor no crediário/A minha eterna
salvação/E a gorjeta de São Pedro/Vai ser também facilitada”.
Já na música Classe Média destacamos o trecho “... sou classe média/Compro roupa
e gasolina no cartão/Odeio coletivos/E vou de carro que comprei a prestação/Só pago
impostos/Estou sempre no limite do meu cheque especial...”.
Todos os trechos citados acima foram apontados pelos próprios alunos e discutidos
em sala de aula. Logo após, nos dirigimos ao laboratório de informática com o intuito de
pesquisarmos mais sobre o cartão de crédito e colaborativamente encontramos um texto no
site do Banco Central e assistimos ao documentário “Cartão de Crédito: um breve conto
de uma longa história ”.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
7
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
Após essa etapa discutimos sobre o que é o pagamento mínimo, e simulamos uma
compra no valor de R$ 100,00 no qual pagamos o mínimo durante 10 meses, com uma taxa
de 12% de juros a mês, e foi solicitado aos alunos que discutissem sobre o que aconteceria
nesta situação sendo disponibilizado uma calculadora para cada aluno.
Diante da exclamativa de um dos alunos ao afirmar, que “ninguém compra algo no
cartão um mês e passa outros 10 meses sem comprar nada” passamos a um segundo
modelo, no qual todo mês o dono o cartão comprava R$50, exceto o primeiro que
continuaria com uma compra de R$100 e pagava somente o mínimo da fatura durante os
10 meses seguinte.
Os alunos se surpreenderam ao perceber como a dívida crescia rápido tornando
muito difícil o seu controle. Surgiu-me então, repentinamente a curiosidade em saber
quantos alunos tinham cartão de crédito e quantos estavam inadimplentes. Ao fazer a
pergunta cerca de quinze alunos entre dezessete afirmaram estarem inadimplentes. Este
dado aponta para duas afirmações. A primeira é que infelizmente, nossos jovens, estão
sendo jogados para o mercado consumidor sem a devida preparação para saber como lidar
com o crédito generalizado e a complexidade das informações.
A segunda é que poderíamos ter começado todo o trabalho pesquisando sobre quem
estava ou não inadimplente. Isto seria congruente ao pensamento de Paulo Freire, quando
ele afirma no documentário Paulo Freire Contemporâneo que “a educação implica uma
certa convivência [...] entre o conteúdo que se pretende ensinar e a experiência social e
cultural, [...] do educando e não do educador [...]”
Isto não leva a diminuir o trabalho feito, mas só a mostrar novos caminhos para a
nossa pratica docente, haja vista, que não estamos indicando o caminho e sim um caminho.
Logo após exibimos duas reportagens retiradas no site globo.com – “Como se livrar
das dividas do cartão de crédito ” no Fantástico e “Os Cuidados com os juros do cartão de
crédito ” no jornal Em Cima da Hora - na qual, especialistas dão dicas de como se livrar da
situação de inadimplência. No final dos trabalhos foi feita entrevista com diversos alunos
e contatou-se em alguns casos uma mudança de comportamento entre eles que fica
evidenciado nos trechos1:
1
Disponível no site < http://www.youtube.com/watch?v=CISBzUL1qGg> postado pelos autores deste relato de experiência.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
8
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
Estou muito endividada [...]. Não só em um cartão de crédito mas em
três, entendeu? E se eu tivesse uma noção básica eu não teria feito isso,
pelo contrário, eu nem teria feito o cartão de crédito. Porque uma coisa
que você acha uma besteira Começa a ver coisas bonitas [...]. Não, o
cartão tá (sic!) aqui e salva todo mundo. E aí passa o cartão e quando vai
ver no final do mês a fatura "bombástica" E aí você acaba se endividando
mais e mais e vai naquele famoso "pagamento mínimo" e os juros vão
aumentando. [Depoimento da aluna A].
Eu mesmo fiz dívida em dezembro do ano passado e quando chega em
dezembro tem aquela promoção que eles dobram o limite[...] Me
empolguei, aí gastei tudo. Não consegui pagar. A dívida tava em mil e
pouco agora deve está mais que isso. [Depoimento da aluna B].
Percebe-se também que alguns alunos tiveram a oportunidade de refletir
criticamente sobre os produtos financeiros, descobrindo as artimanhas das instituições
financeiras, para mantê-los presos sem conseguir pagar os seus compromissos, virando
refém dos juros como destacado pelo aluno C:
eles oferecem várias vantagens e a gente acaba se empolgando e quer
comprar, quer... e acaba extrapolando assim o limite da gente, né? E até
pelo fato de quanto mais endividado mais limite eles dão. [Depoimento
do aluno C].
Neste tópico descrevemos como a experiência de ensino que intitulamos
“desvendando as tramas do cartão de crédito” e passamos agora as palavras finais.
6. Palavras finais
Com este trabalho esperamos estar contribuindo para a difusão das propostas e para
o ensino da Matemática Financeira. Ao propormos a pergunta diretriz da pesquisa “Quais
os motivos que levam a Matemática financeira a não ser ensinada no sistema escolar?”
tínhamos o interesse de propor e experimentar práticas de ensino no estudo deste conteúdo.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
9
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
Como visto, o conhecimento da Matemática Financeira é necessária para o pleno
exercício da cidadania na sociedade contemporânea com isso reforça-se a importância do
ensino de tal conteúdo durante todo o período de escolarização.
Ao propor atividades que, por exemplo, visavam desvendar o funcionamento do
cartão de crédito tínhamos o objetivo de, ao refletir sobre o produto financeiro, saber
como, quando e porque usá-lo racionalmente e não impulsivamente como foi constatado
em alguns casos através de afirmações como por exemplo” Eu mesmo fiz dívida em
dezembro do ano passado e quando chega em dezembro tem aquela promoção que eles
dobram o limite [...] Me empolguei, aí gastei tudo”(Depoimento da aluna B) , pois para
consumidores que somos, a falta de informação é uma arma
poderosa na mão das
empresas que oferecem estes produtos financeiros, pois se não conhecemos seu
funcionamento, como subsidiarmos/sustentaremos nossas reclamações?
Salientamos também que a falta de conhecimento pode ser aproveitada pelas
instituições financeiras e pelo comércio que divulgam ter menores taxas e melhores
condições, mas sem um conhecimento básico de Matemática Financeira, o consumidor não
tem condições de analisar criticamente as possibilidades.
No percurso da pesquisa algumas lacunas que surgem como sugestão para outras
pesquisas – análise dos livros didáticos, propostas de ensino aprendizagem baseadas no
tema transversal trabalho e consumo, utilização de planilhas eletrônicas para o ensino da
Matemática financeira, criação de transposições didáticas, intervenções no processo de
formação continuada dentre outros que tenham nos escapados no momento da conclusão
deste trabalho.
Nota-se que existe um problema na formação inicial/continuada dos professores
quando pensamos no conteúdo Matemática financeira, visto que estas não têm suprido as
demandas para os professores lecionarem este conteúdo.
A “omissão” dos PCN’s de matemática no ensino fundamental é outro ponto de
destaque. Não notamos referencias explícitas no documento direcionadas ao ensino deste
conteúdo. O que pode ser um “ponto de fuga” para o desconhecimento dos professores
sobre o tema.
É importante salientarmos o “desprestígio” do tema perante a comunidade de
educadores matemáticos, visto que nos anais dos eventos pesquisados, menos de 2% dos
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
10
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
trabalhos se referiam direta ou indiretamente par este conteúdo e o pouco número de teses
e dissertações que encontramos.
Um aspecto que chamou atenção dos pesquisadores somente depois de concluído o
trabalho, foi à busca de textos e vídeos na internet - youtube.com, globo.com,
googlevideos.com – no qual se mostraram produtivos e importante para a obtenção dos
resultados desta pesquisa. Não temos notícias de pesquisas que apontem caminhos,
sugestões e perspectivas para utilização de vídeos colhidos pela internet no processo
educacional e fica também à sugestão de pesquisas.
Pelo laço estabelecido dentro desta pesquisa entre cidadania e Matemática
Financeira compartilhamos da idéia de D’AMBROSIO(2001, p.91) quando afirma que
o que interessa, do ponto de vista do indivíduo e da sociedade chegar à
conclusão de que os jovens brasileiros atingem os 12 anos e não sabem
conjugar corretamente o verbo "sentar"? Talvez esse jovem, mesmo sem
saber conjugar, tenha percebido o que significa, socialmente, estar
sentado. Mas talvez saiba conjugar e não seja capaz de avaliar tudo que
passa com o ato de sentar. Igualmente podemos questionar que importará
saber se, nessa idade, ele é capaz de extrair a raiz de 12764? Ou de somar
5/39 + 7/65? O que isso tem a ver com a satisfação e ampliação de seu
potencial como individuo e de seu exercício de cidadania?
D’AMBROSIO(2001, p.91)
Estas palavras sinalizam a necessidade de refletirmos sobre o que, como e por que
ensinamos. A Matemática Financeira deve ser vista como um elemento essencial ao
exercício pleno da cidadania.
Referências
BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio:
orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC, SEMTEC, 2002.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:
matemática, 3º e 4º Ciclos. Brasília: MEC/SEF, 1998.
CRUZ, R. S. ; Batistela R. F. Desvendando as tramas do Cartão de Crédito: O relato
de uma experiência. In: XIII Encontro Baiano de Educação Matemática, 2009, Jequié.
Anais do XIII Encontro Baiano de Educação Matemática, 2009.
D`AMBROSIO, U. Educação para uma sociedade em transição. Campinas: Papirus,
2001.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
11
X Encontro Nacional de Educação Matemática
Educação Matemática, Cultura e Diversidade
Salvador – BA, 7 a 9 de Julho de 2010
ENCONTRO BAIANO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA. 12, 2007. Senhor do Bonfim.
Anais do XII Encontro Baiano de Educação Matemática. Sociedade Baiana de Educação
Matemática. Bahia, 2007.
ENCONTRO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA.
9, 2007. Belo
Horizonte. Anais do IX Encontro Nacional de Educação Matemática. Minas Gerais,
2007.
FIEL, Mercedes Villar. Um Olhar para o Elo entre Educação Matemática e
Cidadania: A Matemática Financeira sob a Perspectiva da Etnomatemática. PUC-SP.
2005. 165 p. São Paulo. Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Matemática.
Dissertação (Mestrado em Educação Matemática) - Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, 2005.
NASCIMENTO, Pedro Lopes do. A formação do aluno e a visão do professor do
ensino médio em relação à matemática financeira. PUC-SP. 2004. 187 p. São Paulo.
Programa de Mestrado em Edução Matemática. Dissertação (Mestrado em Educação
Matemática) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004.
OLIVEIRA, Paulo Roberto Vieira de. A cidadania no livro didático de matemática. Um
diagnóstico a partir dos temas transversais trabalho e consumo. PUC-SP. 2004. 149
p. São Paulo. Programa de Mestrado em Educação Matemática. Dissertação (Mestrado em
Educação Matemática) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2004.
PAULO FREIRE CONTEMPORÂNEO. Produção de Toni Venturi, Helena Tassara,
Sylvia Lohn, Jay Yamashita, Samuel Braga, Sergio Kieling. 53 min e 30 s. TV ESCOLA,
2007.
STEPHANI, Marcos. Educação Financeira: uma perspectiva interdisciplinar na
construção da autonomia do aluno. PUC-RS. 2005. 79 p. Porto Alegre. Programa de
pós-graduação em educação em ciências e matemática. Mestrado em Educação em
Ciências e Matemática. Dissertação (Mestrado em Educação Matemática) - Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2005.
Anais do X Encontro Nacional de Educação Matemática
Comunicação Científica
12
Download

o ensino de matemática financeira abrindo portas para a