DOM BOSCO QUERIDO, ROGAI POR NÓS. POLÍTICA E
RELIGIÃO NUMA INSTITUIÇÃO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
Autores:
Thais Nascimentoi
Beatriz Mateus Pereiraii
Daniela Bogado Bastos de Oliveiraiii
Introdução
O Centro Juvenil São Pedro, instituição não governamental, sem fins lucrativos, de
assistência social, vinculada à Rede Salesiana de Ação Social (RESAS) é mantido pela
Inspetoria São João Bosco (ISJB). O Centro Juvenil está localizado na Comunidade da
Margem da Linha, segundo dados do Observatório Socioeconômico da Região Norte
Fluminense do Rio de Janeiro do ano de 2000iv, a maior comunidade de baixa renda de
Campos dos Goytacazes. Os moradores sofrem com falta de saneamento básico, moradias
precárias, acesso restrito aos serviços de lazer, escolares e hospitalares que são frutos do
descaso e da ausência de políticas públicas, além da presença significativa e crescente do
controle pelo tráfico de drogas que envolvem os moradores da Comunidade e reforça a
vulnerabilidade individual no contexto social excludente do nosso país.
O trabalho realizado pelo Centro Juvenil vem apresentando resultados positivos,
com grande aceitação e participação da comunidade, incentivando uma reflexão sobre sua
condição de cidadãos. Nos últimos anos – a partir de 2007 – foram desenvolvidos projetos
com o suporte financeiro do CMPDCA (Conselho Municipal de Promoção dos Direitos da
Criança e do Adolescente) e através da Inspetoria São João Bosco (ISJB) – mantenedora
do Centro Juvenil - que disponibilizaram à comunidade além das oficinas pedagógicas
voltadas para as crianças, cursos de iniciação profissional para adolescentes, e orientação
sociofamiliar.
A perspectiva pedagógica utilizada no Centro Juvenil é a do sistema preventivo de
Dom Bosco, também conhecido como pedagogia salesiana. Embora o sistema preventivo
já existisse antes de Dom Bosco, era empregado através da ameaça da punição a fim de
prevenir que delitos fossem cometidos. Dom Bosco reformula o sistema preventivo,
ancorando-o no tripé: “razão (sob o signo da educação e trabalho), religião (sob o signo
da capela), e amorevolezza (representada pela benevolência, amabilidade, alegria dos
mestres e auxiliares)”. (Bonifácio e Freitas, 2011, p. 616).
Sistema Pedagógico Salesiano
Giovanni Melchiorre Bosco, no Brasil conhecido por João Melchior Bosco, foi um
padre católico e educador nascido em 1815 na Itália, fundador da Pia Sociedade de São
Francisco de Sales (1859), conhecida por salesianos, co-fundador da congregação das
Filhas de Maria Auxiliadora, conhecidas por irmãs salesianas e fundador da Associação
Internacional dos Cooperadores Salesianos. Dom Bosco criou um tipo de obra assistencial
para jovens denominada oratório, que se ocupava de lazer, educação e catequese, hoje
conhecido como socialização infanto-juvenil. No site da Inspetoria São João Bosco, lê-se:
O trabalho educativo de Dom Bosco (São João Bosco) em favor dos jovens era baseado
num espírito de amor. Mais do que educador, o santo era um amigo dos jovens e eles
sabiam que poderiam contar com aquele padre dotado de grande inteligência e, ao mesmo
tempo, de simplicidade. Com o seu Sistema Salesiano de Educação, ou Sistema Preventivo,
Dom Bosco transformou o ato educativo em espiritualidade e vice-versa.
A Inspetoria São João Bosco, com sede em Belo Horizonte, promove, além dos
oratórios, outras obras sociais em cinco estados brasileiros e no Distrito Federal. Os
salesianos de Dom Bosco estão presentes em mais de centro e trinta países, nos cinco
continentes, e estão organizados em seis regiões administrativas, chamadas de inspetorias,
a saber: Inspetoria São Domingos Sávio (Amazonas, Pará, Acre e Rondônia); Inspetoria
Santo Afonso Maria de Ligório (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e Noroeste de São
Paulo); Inspetoria São Luís Gonzaga (Pernambuco, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte,
Sergipe e Alagoas); Inspetoria Nossa Senhora Auxiliadora (São Paulo); Inspetoria São Pio
X (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná); e Inspetoria São João Bosco (Rio de
Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Tocantins e o Distrito Federal), a qual
mantém o Centro Juvenil na cidade de Campos dos Goytacazes - RJ.
A diferença entre os centros juvenis e os oratórios é que os primeiros têm uma
estrutura física e uma abrangência maior quando comparadas aos últimos. O grande
número de crianças e adolescentes que participam nessas obras, a diversidade das ações e o
predomínio de trabalhos desenvolvidos em grupos são as principais características dos
centros juvenis. (Cf. Site da ISJB)
O Centro Juvenil funciona em dois turnos, manhã e tarde, cada turno atendendo
respectivamente crianças entre 6 e 13 anos e adolescentes entre 14 e 17 anos. Atualmente
totalizam 157 crianças e adolescentes atendidos pelo centro juvenil. Ao chegar, as crianças
se encaminham para a quadra para a oração matinal, e então para o refeitório onde tomam
café da manhã composto em geral por pão francês com margarina ou biscoitos, e leite
achocolatado ou suco de frutas. Bonifácio e Freitas relatam sobre as práticas numa
instituição de ensino no estado de Sergipe que trabalha com a pedagogia salesiana, que a
oração era a primeira atividade do dia, antes mesmo do desjejum. As autoras escrevem
que:
Com relação ao tempo reservado à prática religiosa, no decorrer da pesquisa verificou-se
que as atividades religiosas das alunas eram intensas. As depoentes de todas as categorias
(internas, externas e oratorianas), ao falarem sobre o cotidiano, foram enfáticas ao dizer
que a missa era a primeira atividade do dia, antes mesmo da alimentação matinal. (...)
recomendava-se primeiro alimentar o espírito para depois cumprir as obrigações materiais.
(Bonifácio e Freitas, 2011, p. 639).
Só então se reúnem no espaço destinado à acolhida, um hall na entrada do Centro
Juvenil com várias cadeiras brancas de plástico onde acontecem os ritos de boas-vindas
denominados bom dia pela manhã e boa tarde quando no turno da tarde. Neste momento,
todas as crianças e jovens atendidos pelo Centro Juvenil ficam juntos no mesmo ambiente
e participam da mesma atividade, e ao fim da acolhida eles se dividem em quatro turmas
em cada turno de acordo com as idades e são encaminhados às oficinas destinadas à turma
em questão. As atividades do bom dia e do boa tarde são lideradas por algum colaborador
do Centro Juvenil de acordo com uma escala pré-estabelecida.
O bom dia e o boa tarde têm caráter evangelizador e politizador, ainda que não
diretamente. Podem ser exibidos filmes, slides ou vídeos musicais, realizadas dinâmicas
que permitam a interação das crianças e jovens, realizadas leituras ou contações de
histórias, ou mesmo apresentações de esquetes teatrais. Essas atividades visam criar uma
integração entre as crianças e adolescentes, bem como fazê-los refletir sobre suas ações e
suas vidas, corrigindo comportamentos que os estejam prejudicando ou que sejam
considerados inapropriados. Muitas vezes são contadas histórias bíblicas ou, mais
frequentemente, histórias da vida de Dom Bosco. Alguns educadores sociais e membros da
equipe técnica finalizam a acolhida dizendo Dom Bosco querido, ao que as crianças e
jovens respondem Rogai por nós!, mas nem todos o fazem. É importante ressaltar também
que nem todos os membros da equipe técnica e educadores sociais são católicos (há
protestantes, uma umbandista e uma vaishnavi). As acolhidas são momentos importantes
de convivência e interação onde as crianças e adolescentes recebem orientações sobre a
rotina no Centro Juvenil e sobre como se comportar diante da vida. Nesses momentos os
educandos têm ainda a chance de ter contato com toda a equipe, o que de outro modo
ficaria mais restrito aos educadores sociais com os quais desenvolvem suas oficinas de
modo mais direto, e/ou com a equipe interprofissional em face apenas de alguma
intervenção.
A cada semana um tema da atualidade é debatido através dos momentos de
acolhida. Em geral esse tema aparece como orientador das conversas, jogos e dinâmicas do
bom dia e do boa tarde durante toda a semana. As pedagogas Campi e Pátaro (2011) em
artigo sobre a ação pedagógica na formação e participação política de uma associação de
moradores em Engenheiro Beltrão - Paraná, afirmam ter utilizado dinâmicas de grupo
como base para reflexões quanto à força da coletividade e para pensar o funcionamento de
uma associação de moradores. A estratégia das dinâmicas mobiliza os participantes a
pensar e discutir o assunto em pauta, atuando como um momento importante no processo
de educação informal, o que é percebido no discurso de algumas crianças e adolescentes:
“Eu acho muito bom o boa tarde quem presta atenção aprende muita coisa. Não
tenho crítica ou reclamação, sei que tudo que vocês oferecem é com muito carinho e boa
intenção. Não tenho mais palavras para definir tudo o que acho de vocês. Obrigado por
tudo.” (Não se identificou)
“Eu aprendi muitas coisas no bom dia, nas oficinas, eu adorei.” (Não se identificou)
“Tudo o que foi passado, nas acolhidas, nas oficinas, são coisas boas, coisas que
não sabemos, hoje eu posso dizer que entendo um pouco de cada coisinha que me
perguntarem”. (Tamires - 14 anos)
Observa-se nos depoimentos das crianças e adolescentes que os momentos de
acolhida são importantes para a socialização e aprendizado. As acolhidas duram em média
15 ou 20 minutos e é o momento dos avisos, recados e lembretes sobre regras de
comportamento antes das oficinas. Bonifácio e Freitas falam de um momento similar às
acolhidas do Centro Juvenil cujos relatos elas recolheram em sua pesquisa: “quando todas
estavam na cama, Genésia Fontes [diretora da unidade pesquisada pelas autoras] fazia a
alocução do Boa Noite, que consistia numa prática cultural salesiana cuja diretora dizia
algumas palavras de reflexão e conselhos para um bom comportamento”. (Bonifácio e
Freitas, 2011, p. 639.) As acolhidas são um momento vital para preparar as crianças e
adolescentes para as oficinas que virão a seguir, para o ensino de valores de
comportamento, e para o trabalho de fortalecimento de vínculos, estabelecimento de uma
identidade de grupo, estimular o trabalho em equipe e a amizade, incentivar à organização
política e social para a defesa de direitos, além do aprendizado acerca de temas práticos,
muitas vezes relacionados ao dia-a-dia e à realidade dos educandos, como questões de
higiene, saúde e cidadania, para citar somente alguns exemplos.
Um dos depoimentos que mais emocionou a equipe de educadores foi o de uma
adolescente que relatou a importância que o momento de acolhida teve em sua vida
escolar, e que até então ela própria não se dera conta do valor dessa prática:
“Uma vez eu fui fazer uma prova de história, que eu não estudei, mas eu lembrei de
uma coisa que falaram no boa tarde e olha que eu sempre estou desligada no boa tarde. Eu
coloquei tudo o que falaram no boa tarde na prova, botei na prova fui lá e acertei”. (Julia 18 anos)
Nayara Romero afirma que as ações educativas dentro da política de assistência
social visam promover aprendizagens de convívio social e de participação na vida pública
para crianças de adolescentes provenientes de uma população mais vulnerável social e
economicamente, a fim de que contribuir para o crescimento pessoal e social desses
sujeitos para garantir proteção social, fortalecimento de vínculos de pertencimento, e
outras garantias para extinguir ou mitigar a vulnerabilidade. As crianças e adolescentes
atendidos no Centro Juvenil demonstram, muitas vezes, uma baixa autoestima e falta de
segurança e confiança em suas próprias potencialidades. O que se vê no depoimento de
Julia é uma conquista inesperada que ela teve, quando a experiência e as circunstâncias a
levariam a pensar num resultado diferente do obtido: indo fazer a prova de história sem
estudar o conteúdo previamente, somado ao fato de estar sempre desligada no boa tarde,
era esperado que errasse todas as questões da prova, no entanto, ao se lembrar de
informações que foram transmitidas no boa tarde, ainda que ela não tenha prestado muito
atenção, e colocado essas informações na prova, a adolescente acertou a questão e isso a
fez valorizar os momentos de acolhida em seu discurso. Naquele momento, a conquista do
acerto da questão ajudou Julia a se sentir mais capaz de realizar suas tarefas, aumentando a
autoestima da jovem e a alimentar uma visão positiva sobre si mesma.
Souza explica que o Sistema Preventivo de Dom Bosco diz respeito a “um proceder
preventivo quanto à aplicação do processo de ensino e aprendizagem, tem como
configuração, dois elementos básicos: a disponibilidade empática de Dom Bosco para com
seus jovens atendidos e a estruturação de grupo, comunidade, com foco na finalidade do
aprendizado humanístico, social e religioso”. (Souza, 2012, p. 2). Assim, o objetivo das
acolhidas não é apenas social e cultural, mas também religioso. Histórias bíblicas são
narradas, bem como as histórias da vida de Dom Bosco e o surgimento da rede salesiana de
ensino. São apresentados vídeos e esquetes teatrais (performados tanto pelos próprios
educandos, quanto pelos educadores), utilizadas músicas e canções com caráter
evangelizador, que podem ser ou não músicas católicas, e realizadas dinâmicas de grupos e
outras atividades e jogos interativos que permitam levar à reflexão e crítica do assunto a
ser debatido. Essas atividades lúdicas ajudam a internalizar os valores que estão sendo
transmitidos através da experimentação e da vivência de uma situação que remeta ao tema
da acolhida.
Na semana anterior à Páscoa, o bom dia e o boa tarde são encurtados a fim de que
os educandos ensaiem as músicas da Missa Pascoal. É interessante pensar que neste caso a
moralidade religiosa tem contribuído para favorecer a sociabilidade das famílias, crianças e
adolescentes. O sistema preventivo de Dom Bosco inova com relação às pedagogias
preventivas existentes antes dele por não propor a preventividade no sentido de se
antecipar a algo que está para acontecer, encarando as crianças e adolescentes pobres como
delinquentes em potencial cujos instintos criminosos devem ser contidos antes que sejam
realizados, numa perspectiva “preventiva”. Antes disso, o sistema preventivo de Dom
Bosco busca estar presente na vida desses educandos de modo sistemático e amoroso, a ser
presença amorosa, amiga.
Este sistema - baseado na razão, na religião e no amor - visa impedir que os alunos
cometam erros ou falhas. Por isso, exclui todo tipo de castigo violento e procura evitar os
castigos leves. Salvaguardando o princípio da autoridade e disciplina, indispensável para a
boa ordem, procura, entretanto, tornar a vida colegial o mais branda e amena possível,
transformando-a num prolongamento da vida familiar. Visa educar através da persuasão,
pelo apelo aos bons sentimentos e à boa vontade do aluno. O objetivo principal é corrigir,
estimular e melhorar o educando. (HIGINO, 2006, p. 37).
Nessa perspectiva, permite-se ao sujeito (criança/adolescente) sentir-se sujeito,
amado, acolhido na sua individualidade, na sua potencialidade, naquilo que ele pode
oferecer para vida comunitária, acreditando no potencial positivo que tem todo o ser
humano enquanto criação de um Deus bom e justo. Este sistema, mais do que um modo de
agir, é um modo de sentir e ver que rompeu o paradigma da preventividade na época de seu
surgimento. É também na acolhida, no modo de sentir, que a religiosidade do sistema
preventivo se aproxima da assistência social, pois desta forma são decodificados os
códigos de sociabilidade de cada grupo e as relações sociais estabelecidas a partir de um
contexto social, cultural e econômico a ser descoberto. Neste contexto serão vividos os
encontros. Neste lugar onde a alteridade é percebida, permitida e querida se conforma o
espaço de convivência, aí se forjam os vínculos, quer comunitários, quer familiares. Assim
se estabelece o diálogo. As acolhidas são momentos cruciais para a prática pedagógica
salesiana e a compreensão das questões sociais que se colocam no contexto daquela
comunidade, realizando-se um diálogo prático entre religiosidade e assistência social.
Igualmente importante para a aproximação dos educadores e equipe técnica com
as crianças e adolescentes são os momentos de recreação. Dom Bosco entendia que não
havia lugar melhor para captar o sujeito do que o pátio - lugar de brincar, confraternizar,
espaço de lazer, no que Paulo Freire está de acordo ele, como assinala Pereira et all. Os
autores afirmam que o pátio é o espaço privilegiado para a manifestação da presença
preventiva, um “lugar educativo fundamental no qual o jovem vive a experiência
comunitária, ambiente da iniciativa e da criatividade juvenil, do seu protagonismo e
espontaneidade” (PEREIRA et all., 2011, p.12 – nota de rodapé número 13). Os
educadores sociais costumam afirmar que quando estão “desarmados” se dão a conhecer,
permitindo-se alcançar pelos educandos e, desta forma, a aproximação se torna mais
sólida. Os modos de interação se dão partindo da premissa de que o outro é um sujeito com
uma cultura que precisa ser considerada no processo de vivência do carisma salesiano, pois
este está em relação com cada contexto social, cultural e econômico. Aqui reside a riqueza
do sistema preventivo: a aproximação. Isto fica claro em diversos momentos as acolhidas
do Centro Juvenil, para citar somente um exemplo, consideremos os últimos bom dia e
boa tarde do mês. Mensalmente, nos últimos bom dia e boa tarde daquele mês são
homenageados os aniversariantes do mês a se findar. Em uma dessas acolhidas de
aniversário, especificamente num boa tarde, que alcança os adolescentes, a pedagoga da
equipe exibiu um vídeo onde uma criaturinha engraçada em desenho animado dançava
“Parabéns a você” em ritmo de funk, tipo de música preferida pelos rapazes e moças da
comunidade. Os modos de ver são então determinados não apenas pela racionalidade que
se traz ou pela fé que marca a trajetória salesiana, mas pelos valores encontrados no lugar
da ação desenvolvida junto às crianças e adolescentes. A utilização da alteridade respeitada
no momento da atuação permite alcançar os educandos de maneira mais sólida.
Considerações Finais: fortalecimento da relação do Centro Juvenil e da Comunidade
Por fim, diante de todas as aproximações, da compreensão de um contexto que
nos permite visualizar uma ampla rede de apoios ofertados comunitariamente por famílias
extensas, o surgimento do projeto de mobilização e defesa de direitos marca um momento
importante no que diz respeito ao vínculo construído entre o Centro Juvenil São Pedro e a
Comunidade Margem da Linha. A motivação para elaboração e execução deste projeto se
deu a partir da inquietude que a equipe compartilha com o processo de remoção da
comunidade. O projeto propõe ações que objetivam potencializar os recursos existentes na
comunidade para buscar a garantia dos seus direitos, através de uma série de estratégias
que serão experimentadas para a mobilização, dentre as quais a reativação da associação
dos moradores, na qual o Centro Juvenil terá o papel de assessoramento, e o fomento para
a criação de uma organização de usuários da assistência social, a fim de ampliar a
participação para além da linha que segrega a comunidade a um território que na medida
em que gera interesse imobiliário deixa de ser lugar seguro para os mesmos sujeitos que
nele habitam há décadas.
A partir do final dos anos 90 nos arredores da Comunidade, o Bairro vizinho
passou a receber empreendimentos imobiliários. De início com perfil “popular”, como foi
o caso do Condomínio Recanto das Palmeiras e posteriormente com perfil de “luxo”
Condomínios residenciais de alto acabamento e empreendimentos comerciais como
supermercados, e mais recentemente Shopping e previsão de dois hotéis. Essa valorização
da área em função dos investimentos públicos e privados feitos no entorno, potencializam
os rumores e a ausência de informações sobre o projeto do Poder Público para as famílias
desse território, além da precariedade que marca a vida da população nele residente, é a
motivação do Centro Juvenil São Pedro para propor este Projeto.
O processo de mobilização da Comunidade para Defesa dos seus direitos não
somente no que se refere às condições de moradia, mas, também, no que diz respeito à
manutenção dos vínculos comunitários numa hipotética remoção pressupõe o
amadurecimento do processo de participação. Tanto direito como participação e mesmo o
direito a participação como nos diz Demo “é algo incondicionalmente devido, porém só
efetiva, se conquistado. Por isso não basta consignar os direitos na letra, fazer
declarações verbais, aprimorar textos constitucionais, se os interessados não urgirem na
teoria e na prática seus direitos.” (DEMO, 1993, p.61.)
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VOGEL, Arno. O Pastor Peregrino - Ritual, simbolismo e memória da primeira visita de
João Paulo II ao Brasil. Ed. Eduff: Niterói, 1997.
Thais Nascimento é mestre em Sociologia com ênfase em Antropologia pelo PPGSA – IFCS – UFRJ,
professora da Faculdade Redentor campus Itaperuna e Campos dos Goytacazes-RJ, e atua como antropóloga
no Centro Juvenil São Pedro.
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Beatriz Mateus Pereira é mestre em Políticas Sociais pela UENF, professora da Faculdade Redentor campus
Itaperuna e Campos dos Goytacazes-RJ e atua como coordenadora da ação educativa no Centro Juvenil São
Pedro.
Daniela Bogado Bastos de Oliveira é doutora em Sociologia Política pelo PPGSP – LESCE CCH – UENF,
professora do Instituto Federal Fluminense e Faculdade de Direito de Campos, e atua como socióloga no
Centro Juvenil São Pedro.
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Esta pesquisa foi a última desenvolvida especificamente sobre a comunidade com dados já publicizados.
Sabe-se da realização de uma nova pesquisa na comunidade numa parceria entre a UENF e o IPPUR, porém
tais dados não estão disponíveis ao público ainda.
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DOM BOSCO QUERIDO, ROGAI POR NÓS