A SINCRETIZAÇÃO DE LINGUAGENS: leitura na interação verbo-visual
Neiva Senaide Petry Panozzo
Doutora em Educação
Professora da Universidade de Caxias do Sul
([email protected])
RESUMO: Este trabalho discute a leitura a partir de uma abordagem discursiva de textos
constituídos por diferentes linguagens, suas combinações e a formação do leitor. A
pressuposição é a de que o processo de leitura desse gênero ainda ocorre de forma espontânea,
sem se efetivar de modo sistemático. O contato com objetos culturais contemporâneos mostra
que o universo verbal escrito não é exclusivo; que as características de articulação verbovisual existem, porém relegadas nos processos de mediação de leitura. A articulação entre
linguagens é aqui focalizada em diferentes textos: literatura infantil, capa de revista e
publicidade. A análise busca as interfaces entre expressão e conteúdo das linguagens,
homologados entre a visualidade e os elementos lingüísticos, contrastes plásticos, temáticos e
jogos de palavras. A interação com esses objetos de leitura implica um leitor que dialoga com
todos os aspectos que constituem o texto.
PALAVRAS-CHAVE: leitura, discurso, objetos culturais
RESUMEN
En este artículo se analiza la lectura de un discurso de los textos que consiste en diferentes
lenguajes, sus combinaciones y la formación del lector. El supuesto es que el proceso de
lectura de este tipo también se produce en espontánea, sin efecto de forma sistemática. El
contacto con los objetos culturales contemporáneos muestra que el universo no es sólo verbal
escrito, que las características de la articulación verbo-visuales existen, pero relegados en el
proceso de mediación de la lectura. La relación entre el lenguaje aquí se centra en los
diferentes textos: la literatura infantil, la cubierta y la publicidad. El análisis tiene por objeto
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las interfaces entre expresión y contenido del lenguaje, aprobado entre los elementos visuales
y lingüísticos, del universo plástico, contrastes temáticos y juegos de palabras. La interacción
con estos objetos implica una lectura de diálogo con todos los aspectos que constituyen el
texto.
PALABRAS-CLAVE: lectura, discurso, objetos culturales
Elaborar uma introdução q costure o tópico 1 e o 2. Levei um susto qdo cheguei no 2…
1 ABRINDO CAMINHOS DE LEITURA
O leitor é um caçador que percorre terras alheias.
Michel de Certeau
Olhar livros para crianças parece ser uma ação simples. Como tantos outros artefatos e
produtos destinados ao mundo da infância, a literatura contemporânea produz objetos que são
considerados como facilmente apreensíveis, já que parecem pertencer ao território do
conhecido, do familiar. Essa perspectiva inicial pode ser explicada desde uma concepção de
infância como um período em que predomina o espaço seguro, ou o ingênuo encantamento
que nasce do sonho e da fantasia. Porém, uma atenção maior sobre o que inicialmente é
simples e natural pode gerar dúvidas, desde a condição de ser criança na atualidade aos
objetos a ela destinados. Considera-se, aqui, infância e seus objetos como produtos da cultura
e, como tal, constituem-se numa construção complexa e intencional, gerada num determinado
contexto e carregada de efeitos de sentidos. Inúmeros estudos contemporâneos se debruçaram
para mostrar as mudanças havidas, desde tempos e espaços diferenciados, nos modos de
produzir verdades sobre essa fase da vida humana. Este trabalho não busca aprofundamentos
sobre o fenômeno infância, mas pretende se deter na análise de um produto que lhe é
destinado, o texto de literatura infantil.
Abrindo Caminho (2004) é um texto de Ana Maria Machado, ilustrado por _____ que se
enquadra na categoria que remete ao poético, pois mistura prosa e poesia, numa espécie de
sincretismo de gêneros literários. O texto configura-se de tal forma que é possível identificar a
narrativa poética, cuja característica é a de apresentar simultaneamente as particularidades da
narrativa e aquelas da poesia, seus meios e seus efeitos, considerando, principalmente, as
rimas e o jogo de palavras. Textos com essas particularidades são também qualificados como
híbridos, ou sincréticos. Sabe-se que a narrativa poética é um gênero de discussão recente no
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meio literário, liderado por Jean-Yves Tadié e M. Schneider (1997), entre outros. A narrativa
poética é assim descrita: (fazer a tradução em nota de rodapé e acrescentar tradução nossa)
Le récit poétique en prose est la forme du récit qui emprunte au poéme ses
moyens d'action et ses effets, si bien que son analyse doit tenir compte á la
fois des techniques de description du roman et de celles du poéme: le récit
poétique est un phénoméne de transition entre le roman et le poéme.
(TADIÉ, 1997).
(articular com a citação anterior , fazer um gancho) aui tu já vais para a intertextualidade,
sugiro antes discutir o poético e depois vir para a intertextualidade O texto em foco é
construído de tal maneira que articula múltiplas referências, como à poesia de Carlos
Drummond de Andrade, No meio do caminho, e à música de Tom Jobim, Águas de Março. A
marca do poema de Drumond é a repetição:
No meio do caminho / No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma
pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha
uma pedra. / Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de
minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do
caminho / no meio do caminho tinha uma pedra. (tem pagina?)
E a letra da música de Jobim caracteriza-se pela afirmação cadenciada:
É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco, é um pouco
sozinho / É um caco de vidro, é a vida, é o sol / É a noite, é a morte, é o
laço, é o anzol...
A figuração de personagens e o uso de seus prenomes, cenários e caracterizações permitem
identificar a presença de personalidades conhecidas no mundo da cultura, como Dante
(Alighieri), Carlos (Drummond de Andrade), Tom (Jobim), Cris (Cristóvão Colombo), Marco
(Polo) e Alberto (Santos Dumont). O texto engendra o verbal e o visual, a paródia (Neiva, a
parodia ridiculariza, não é o caso, aqui há um enalteciemtno do original, sugiro usar apenas
intertextualidade) e a intertextualidade, a poesia e a música, personagens e história, tudo se
mescla numa trama sincrética.
Antes de citar o entrelaçamento do verbal e visual escreva uns dois parágrafos sobre o visual,
caracterizando-o) No entrelaçamento do verbal e do visual, produzem-se as conexões entre as
diferentes referências que permitem ao leitor fazer as relações e atribuir sentido, como na
página de abertura, cujo teor escrito diz: “No meio do caminho de Dante tinha uma selva
escura”, na primeira página. Esta frase, isolada da ilustração, traz poucos dados para provocar
associações no leitor, considerando que uma criança ainda não deve ter tido acesso à Divina
Comédia de Dante Alighieri para reconhecer o jogo de palavras.
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A frase inicial do livro é uma paráfrase do Canto I do capítulo Inferno, na versão de Alighieri.
Esse canto menciona a entrada na “selva escura” e os encontros do autor Dante 1 . A ilustração
ocupa página dupla, com caracterizações figurativas de personagens; a parte escrita está no
lado esquerdo e no espaço inferior da folha. A imagem é composta por uma floresta à direita,
e nela um leopardo, uma loba, um leão, o poeta Virgílio, considerado o mestre e autor
predileto de Dante. Também mostra um anjo e um demônio, em meio às árvores distantes,
além da presença de Beatriz, a musa inspiradora, por quem o autor nutriu um amor
impossível. Nesse cenário ilustrado há dois espaços diferenciados, um iluminado, onde se
localiza Dante, e outro, a floresta, de sombra. Dante contempla a floresta e seus componentes
ali figurativizados, que são os mesmos da parte inicial do Canto I da obra original.
O escritor, Dante Alighieri, (1265 – 1321) é caracterizado, em inúmeras obras de arte que
retratam o autor, pelo traje vermelho e pela coroa de louros à cabeça, sendo que o mesmo
ocorre na obra infantil examinada. Nessa, ainda leva no braço direito um livro de tamanho
considerável e na mão traz uma pena de ave, típico instrumento da escrita. Esses dois últimos
objetos são indicadores importantes, pois mostram a atividade intelectual da personagem.
Um adulto sem alguns conhecimentos prévios provavelmente teria dificuldades para
relacionar os elementos escritos e visuais deste texto. (talvez pudesse falar aqui de letramento
ou d emediação articulando com a mesa onde o trabalho será apresentado Gêneros
literários na escola: propostas de formação de leitor? É necessário um leitor que
possua informações tais que permitam organizar a rede de significações. Numa experiência
informal de leitura com esse texto, uma pessoa adulta, de nível universitário, interpretou
Dante com a personagem Chapeuzinho Vermelho, justificando-se pela veste vermelha e pela
presença do lobo atrás de uma árvore. O poeta Virgílio foi confundido com o caçador.
Analisando-se essas respostas, fica claro que o leitor cria um filtro de leitura que remete ao
universo conhecido da literatura tradicional, já que o livro Abrindo caminho é classificado na
categoria infantil. Na contracapa do livro há o selo de sugestão de faixa etária a partir de 8 ou
9 anos para leitura individual e de 5 anos se for leitura compartilhada. E isso também serve de
indicador para encaixar o não compreendido dentro de referências existentes. O resultado
mais provável da leitura desta obra é de levar o leitor a criar estratégias de inteligibilidade,
mesmo que sejam totalmente desvinculadas ao que se apresenta. Cabe ao adulto responsável
1
A Divina Comédia está dividida em Inferno, Purgatório e Paraíso. No Canto I, do tomo Inferno, o
autor divide em Selva escura; As feras e O espírito de Virgílio. O canto inicia na frase: “Quando eu me
encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida
não mais seguia o caminho certo”.
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pela mediação de leitura disponibilizar-se a um diálogo prévio com o texto e oportunizar a
conversa sobre o que foi lido, com a criança leitora.
O livro em foco é um exemplo da tendência contemporânea da utilização da prosa poética,
pois reúne elementos da poesia e da prosa, sem configurar a estrutura clássica do conto, mas
contém alguns elementos da narrativa e traz níveis intrincados de realização da leitura, entre
eles, a aparente fragmentação, pela omissão das funções tradicionais do conto. Nesta obra, a
visualidade contribui decisivamente para a significação, fornecendo à escrita um suporte
definidor de referências ao leitor. Mesmo assim, a leitura será mais ou menos aprofundada na
medida de competências já instaladas, configurando-se este como um texto sincrético de
dificuldade considerável, mesmo sem aprofundamento nas demais páginas, que se anunciam
tendo as mesmas características complexas.
Outro aspecto que se considera para que essa obra tome uma distância considerável da
simples categorização de literatura infantil é a conexão com o patrimônio artístico e cultural
da humanidade, e da realidade brasileira, contribuindo para convertê-la em um gênero cuja
natureza é ainda mais híbrida e intertextual. Pois, para além do texto literário, do poético e da
música, podemos fazer articulações com o acervo fornecido pela História da humanidade e
das artes plásticas, dos descobrimentos e das grandes invenções. O jogo intertextual se
manifesta nas ilustrações de (titulo de livro? Use itálico) “Abrindo caminho” e o texto da
“Divina Comédia”, além de tantos outros que se desdobram a cada página, num desafio à
compreensão do leitor infantil.
2 Caminhos enquadrados
O gênero da história em quadrinhos (não seria literatura ou seria? Veja o titulo da sessão
Gêneros literários na escola: propostas de formação de leitor?)
possui
características marcantes e diferenciais que organizam seu sistema narrativo: as imagens,
quase sempre criadas em desenhos, e a escrita. Os elementos narrativos se desdobram em
espaços devidamente enquadrados visualmente; o diálogo entre personagens é registrado em
balões, cujos contornos indicam tom de voz e emoções, ou então, com legendas. Há uma forte
articulação entre os elementos figurativos e os aspectos narrativos, na dimensão do plano da
expressão, até mesmo preponderando a visualidade, em alguns casos, sobre o discurso
quadrinizado, conforme análise semiótica de Pietroforte (2004).
Um olhar sobre textos de leitura destinados ao público infantil ancora-se aqui num exemplar
de revista infantil e brasileira, os quadrinhos da Mônica, criada por Mauricio de Sousa. Essa
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personagem é bem conhecida e caracterizada como uma menina forte, explosiva, decidida,
que, por vezes, também se mostra feminina e carinhosa. Mônica sempre está com um vestido
vermelho, possui um coelhinho de pelúcia azul, Sansão, que é de estimação e utilizado como
artefato para bater nos meninos, principalmente Cebolinha e Cascão. Mônica é tipificada
como “baixinha, gorducha e dentuça”, na voz sarcástica de Cebolinha, e assim representada
visualmente. Ser baixinha gorducha e dentuça se opõe ao idealizado para o protótipo da
beleza feminina. Esses personagens revestem os estereótipos identificadores de modelos
criados pela cultura e do permanente conflito entre o gênero feminino e o masculino.
Uma capa da revista é o primeiro convite à leitura, elemento de sedução do leitor, onde
predomina o espaço da ilustração, deixando uma parte mínima para a escrita. O exemplar
número um da “Revista Mônica”, reeditado pela editora Panini, em janeiro de 2007,traz a
personagem no balanço, em primeiro plano, e é empurrada por Cebolinha, acompanhado pelo
cão Bidu. A situação seria de puro divertimento, não fosse o papel colado embaixo do assento
do balanço, com um desenho da personagem, evidenciando seus “dentões”. A localização
dessa caricatura é estratégica, para que o leitor tenha seu olhar direcionado para o mesmo e
assim “leia” a situação de contraste ali criado: a face ingênua de Mônica sorri, sem saber o
que ocorre a partir do movimento do balanço. (poderia inserir ilustrações) Cebolinha
ironicamente pisca um olho, enquanto Bidu tem uma expressão de espanto, testemunhando a
tapeação do menino. Distingue-se aqui a importância da imagem, cujo sistema assume a
direção da leitura, exigindo o diálogo do leitor com seus componentes, para a apreensão de
sentido do texto. Não são considerados apenas os aspectos formais e figurativos, mas,
principalmente, as relações sociais e éticas entre meninos e meninas, constituídas pelo
discurso visual, na temática do conflito e da trapaça. Na edição aqui focalizada inaugura-se o
apelo para a leitura da revista, enquanto leva o leitor a participar das artimanhas de Cebolinha
contra Mônica, minimizando o valor da atividade lúdica e seus resultados: a alegria e a
amizade sugeridas neste texto visual, numa brincadeira compartilhada entre a dupla, ela no
balanço e ele a embalar.
A questão das relações entre os universos feminino e masculino é tematizada na capa da revista e
na figuração das personagens e em seus elementos expressivos, constituintes da imagem. No
objeto de análise, a artimanha de Cebolinha em colar o desenho embaixo do balanço atesta o seu
desprezo às características físicas de Mônica, e isso reforça e modela um protótipo negativo da
menina. Provavelmente toda menina que tiver dentes grandes, o que é comum no início da
segunda dentição, for baixinha e gordinha, poderá ser alvo de provocações semelhantes e também
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poderá reagir da mesma forma que a personagem, que sai ameaçando e batendo nos meninos, com
seu coelho Sansão. Constata-se que essas manifestações, e até mesmo outras, mais contundentes,
ocorrem com frequência no interior das escolas e fora delas.
Vale lembrar, que as identidades feminina e masculina são construídas a partir de um caminho
social que vai se realizando pela incorporação de valores próprios do contexto cultural, incluindo
a família, a escola e todos os processos de mediação externa, incluindo-se os objetos disponíveis
pela cultura. As concepções, os preconceitos, os papéis, as diferenças e os privilégios são
apreendidos na convivência e no acesso do patrimônio constituído socialmente, dentre seus
componentes, os gêneros e textos lidos.
Apesar do investimento da sociedade no sentido de transformações que são urgentes, quando se
pretende alcançar mais qualidade de vida, pelo fomento de uma cultura de paz, os produtos
culturais podem atuar de modo a manter, e até consolidar as assimetrias existentes. Sob a égide do
incentivo à leitura e do lazer, a revista infantil em quadrinhos pode ser veículo de um discurso de
conservação, e mesmo de cultivo de conflitos, modelando estados de ânimo e provocando ações
indesejadas.
Percebe-se aqui que os modos de ver/ler uma capa apresentam uma complexidade que requer
atenção sobre a natureza peculiar de uma imagem, no caso a ilustração da revista, bem como
sinaliza a necessidade de processos de leitura para além do verbal escrito, abarcando o
universo visual.
3 Indicadores de caminhos
Na atualidade, a produção cultural das mídias está atrelada à sociedade de consumo e, como
tal, seus objetos são padronizados de forma a atender a maior demanda possível de
consumidores e, dessa maneira, eles acabam por padronizar seus consumidores. A publicidade
tem um discurso persuasivo, sedutor, que está voltado para o consumo. Ela informa
características reais ou imaginárias de certo produto, a fim de envolver seu público, criando
um desejo que precisa ser satisfeito, por meio do produto.
O gênero publicitário (ichi Tb não é literário. Pq não usas so abrindo caminho? combina as
linguagens verbal e não-verbal e inclui as relações com discursos existentes na sociedade.
Pode-se afirmar que a publicidade veicula um discurso social que age sobre o lado
psicológico de seu público, a fim de alcançar o maior número de consumidores para suas
ofertas. As relações entre o discurso publicitário e a construção da identidade na sociedade
pós-moderna são estudados por Stuart Hall (2000), numa abordagem de construção de
identidade individual e de sociedade. A publicidade relaciona e cria identidade de sujeitos na
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medida em que a representa em seus discursos. Nessa construção, utilizam-se temas que
fazem com que o público se identifique, se projete no personagem, ou no produto apresentado
na peça publicitária, e traz, dentro deste discurso, valores contemporâneos que podem
substituir aqueles que antes ancoravam a identidade, ou consolidam papéis legados pela
tradição. Portanto, a publicidade constroi, ou reconstroi, representações do seu público, com a
finalidade de facilitar o alcance do mesmo. Nem sempre esta construção corresponde à
realidade, pode idealizar e sempre incorpora valores. Logo, o leitor está exposto a textos que
pertencem à cultura do cotidiano, produzem efeitos e precisam ser incorporados aos processos
didáticos e ser apropriados criticamente.
No recorte deste estudo sobre leitura como construção discursiva, busca-se a concepção de
infância em publicidade veiculada pela revista “Nova Escola”, em duas edições, outubro e
dezembro de 2008. As duas edições mostram uma peça anunciando as matrículas em uma
escola particular do centro do País. A composição da página está organizada em duas partes
verticais básicas, à esquerda há uma imagem de criança e à direita o texto verbal, cuja
chamada é “Aqui o futuro é presente”.
Na parte de cima de imagem de criança, e é
acrescentado o recurso de imitação de desenho infantil.
A edição do mês de outubro (2008) da revista mostra a imagem de um menino feliz que
mostra o logotipo da escola, pela abertura da sua jaqueta (de piloto?). A página tem fundo
branco no lado esquerdo, onde se situa o menino, e vermelho, no lado direito que traz o texto
escrito. No espaço acima da cabeça do menino há uma metade de um carro desenhado, que se
completa à direita, de modo fotográfico e realista. Assim, depreende-se que esta criança tem
um sonho infantil de futuro: ter o “carrão vermelho” e, estando na escola que diz “Aqui o
futuro é presente”, então já está garantido o alcance desse objeto de valor, porque estuda nessa
instituição. Ter posse de um veículo vai além da categoria meio de transporte, indica um
determinado status, dependendo do modelo possuído. O restante do texto verbal confirma a
garantia do processo educativo completo: “Comece, no presente, a construção do futuro do
seu filho”. O tempo futuro está na representação do carro e o tempo presente, na criança.
Além disso, a letra manuscrita e a imagem desenhada são estratégias discursivas que reforçam
a ideia de “feito pela criança”, como se fossem projetos dela própria. O texto verbal, o
presente do futuro desse menino, está posto sobre uma superfície toda vermelha, que faz eco à
cor do veículo sonhado, e que provavelmente seja concretizado pela proposta escolar.
Portanto, a realização futura desse menino situa-se no sucesso material, simbolizado em poder
adquirir o carro vermelho, de modelo clássico. Aqui está construído um sujeito desejante, que
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pode realizar seu sonho (de consumo) a partir do saber adquirido na escola X, desde que faça
ali a sua matrícula. Os eixos semânticos do querer, do poder, do saber e do fazer ficam
explicitados, principalmente na imagem, complementada pelo verbal, ou seja, o discurso se
constitui pela encenação criada, pela tematização e pela figuração.
Na edição de dezembro, o mesmo anúncio é mostrado, agora utilizando a imagem de uma
menina (que poderia ser uma princesinha loira?). Há alterações no uso de um fundo, agora
amarelo e o objeto de desejo foi substituido. Acima da menina há um desenho infantil de
outra menininha que segura um regador verde, pela metade. Na parte direita da página, o
regador se completa, mostrado realisticamente por foto, molhando dois girassóis que
aparentemente nascem da tarja identificadora da escola.
A partir da descrição do contexto figurativo, a menina que rega flores, utiliza água, que é
vida, dá a vida. Cuidar de jardim é fazer crescer, aqui, dar vida às plantas. A terra,
simbolizada na instituição, as flores são especiais, orientam-se pela luz do sol. Não se pode
afirmar que a menina deseja ser jardineira, pois seria muito simplista a associação literal aos
objetos. Antes, esses elementos provavelmente revestem o tema da maternidade, pela
figuração do regador e da água – dar vida, dos girassóis – crescimento e manutenção da vida,
acrescidos pelo amarelo, da luz. Assim, depreende-se que o eixo semântico situa o futuro
ancorado no desejo de dar vida (à luz), poder ter uma prole e saber cuidá-la. Isso tudo
garantido no presente da menina, estudando na escola X.
O discurso, criado na publicidade acima, traz uma concepção de infância capaz de planejar e
ter perspectiva futura de vida, porém com distinções diametralmente opostas quanto aos
interesses e principalmente, aos papéis definidos para o menino e para a menina. Fica claro
que há uma identidade projetada em cada uma das personagens, cujos valores privilegiam o
representante masculino, numa analogia de “dar-se bem na vida” com o consumo de bens
materiais e à mulher está reservado o exclusivo papel da maternidade, herdado do passado.
Assim, a instituição escolar assume suas concepções pretensamente contemporâneas sobre
infância, finalidades da educação e gêneros, mas que seu anúncio publicitário contradiz nas
suas articulações verbais e imagéticas.
4 Caminhos percorridos
Diante do exposto, os apontamentos de leitura verbo-visual mostram a importância da junção
das linguagens que constituem os diferentes textos e seus gêneros. As discussões sobre os
processos de leitura mostram uma rede produtora de discursos e cada objeto aqui analisado
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possui marcas próprias que definem as diferentes categorias priorizadas e as relações
estabelecidas na construção do significado.
Uma aproximação deste estudo às práticas pedagógicas busca ressaltar a natureza híbrida
presente na literatura infantil, na revista de histórias em quadrinhos e no anúncio publicitário.
Constitui-se aqui o destaque da legibilidade desses gêneros e, como tal, é preciso tratá-los,
sistemas basicamente verbo-visuais.
Também importa reconhecer que a complexidade existente em cada uma das linguagens
participantes, e a variedade de combinações nos recortes aqui examinados, estão presentes no
universo cultural do cotidiano e aprender a leitura na perspectiva híbrida é condição do leitor
contemporâneo.
Referências
ALIGHIERI. Dante. A Divina Comédia, São Paulo: Ed. 34, 1998. 3 vol.
HALL, S. Identidade cultural na pós-modernidade. 8 ed. Rio de Janeiro. Editora DP&A.
2000.
MACHADO. Ana Maria. Abrindo caminho. Ilustradora Elisabeth Teixeira. São Paulo: Ática,
2004.
MÔNICA. Revista nº 1. Estúdios Maurício de Sousa. São Paulo: Panini Comics, 2007.
NOVA ESCOLA. Revista ed. 216, outubro, 2008, São Paulo: Editora Abril, 2008.
______. Revista edição 218, dezembro, 2008, São Paulo: Editora Abril, 2008.
PIETROFORTE, Antonio Vicente. Semiótica visual – os percursos do olhar. São Paulo:
Contexto, 2004.
TADIÉ, Jean-Yves; SCHNEIDER, M. Le récit poétique. Paris: Gallimard, 1997.
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A SINCRETIZAÇÃO DE LINGUAGENS: leitura na interação