EDITORIAL
A
“
doro um amor inventado”, cantava Cazuza, intuindo talvez, que todos
os nossos amores são inventados, assim como os sexos e suas
diferenças e nossas tão caras identidades. Pois a APPOA inventou
de por na roda, neste ano, este assunto: como andam as invenções contemporâneas relativas ao amor e ao sexo. Não é que a gente saiba! Mas andamos perguntando. Rita Lee e Arnaldo Jabor concordam conosco ao cantar
“amor é novela, sexo é cinema”! Bem sabem os analistas das novelas que se
inventam e reinventam nossos pacientes em sua trajetória analítica.
Já que falamos de música e de novela, porque não seguir a senda que
a arte nos abre, falando de cinema? Três filmes que despertam a atenção e
a polêmica neste momento, tem um tema comum: ficção e transmissão.
São eles, o alemão “Adeus Lenin” (de Wolfgang Becker), o canadense “Invasões Bárbaras” (de Denys Arcand) e o americano “Peixe Grande” de Tim
Burton. Em todos, está em pauta a relação de pais e filhos e as ficções que
marcam cada geração, afastando-os, produzindo conflitos, mas, mesmo
assim, permitindo que algo se transmita, que é precioso, que os aproxima e
produz o reconhecimento de uma filiação, aparentemente negada. Que um
filho encontre um lugar na ficção paterna para desenrolar sua própria ficção é
o trabalho psíquico a fazer. Não estamos longe do trabalho da instituição
analítica, de dar voz e lugar para as novas novelas de sua época e para novas
gerações de analistas. Apegar-se aos velhos e conhecidos roteiros de uma
geração (sejam eles teóricos ou pessoais) produzirá posições prescritivas
ou apocalípticas, distantes do lugar do analista na cultura. Melhor ser “apóscalipso”, como cantam os eternos jovens do “Mutantes”.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
1
NOTÍCIAS
NOTÍCIAS
AULA INAUGURAL DO PERCURSO
Segunda-feira, dia 15 de março, teve início na Associação o Percurso
de Escola VII. Uma noite de trabalho e de confraternização. Uma noite de
expectativas. A sala estava cheia. Eram quarenta novos alunos, a direção da
APPOA, a comissão do Percurso e os coordenadores dos seminários que
terão lugar este semestre. Era o encontro do novo com o antigo – poupemosnos do “velho”. Um novo que não era assim tão novo, afinal muitos daqueles
rostos são presença marcante no trabalho da instituição – grupos de estudo,
seminários, jornadas, congressos. Era um antigo que não é assim tão antigo, pois mesmo que já estejamos na sétima turma do Percurso de Escola, o
trabalho com cada grupo se constitui no desafio que toda novidade representa. Isto, porque vivemos e construímos uma Instituição que se refunda a cada
dia, alicerçada na confiança do laço transferencial que nos permite trilhar
uma trajetória de quase quinze anos de trabalho. A mobilidade necessária é
instigada por uma abertura que possibilita o não se deixar levar pela resposta, que por vezes poderia parecer mais fácil, mas que cobra o seu preço, a
do “aqui se faz assim”.
Retomar aquilo que nos reúne como Instituição faz sentido quando se
quer convidar o leitor para compartilhar o espírito desta noite de trabalho. Foi
este o fio condutor da fala de Jaime Betts que versou sobre o ensino e a
transmissão da psicanálise. Retomando a ata de fundação da APPOA, Jaime teceu os fios daquilo que se constitui como compromisso da Instituição:
permitir a formação do analista. E no que concerne à responsabilidade de
cada um, sustentar seu percurso de formação referido a um terceiro elemento – não por acaso terceiro –, o da dívida simbólica que aí se inscreve. Essa
tecitura sustenta o trabalho de ensino e transmissão no Percurso de Escola.
Este, por sua vez, não somente se inclui neste tecido, mas é, ele mesmo,
um dos espaços que a Instituição encontrou para fazer operar este tear, que
almeja, como efeito, o adensamento dos laços transferenciais que nos reúnem e o engendramento das condições para que algo da Psicanálise se
opere em todos que dessa experiência participam – seja como alunos, como
coordenadores de seminários, ou como membros da comissão.
2
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Renovados pela consistência da aposta que a APPOA inscreve na
cidade, ao dar início a mais uma turma do Percurso de Escola, festejamos a
possibilidade de construir e compartilhar esse espaço de trabalho.
Simone Rickes
p/ Comissão do Percurso
CARTEL “RELENDO FREUD
E CONVERSANDO SOBRE A APPOA”
No dia 10 de março, teve início o cartel preparatório do próximo “Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA”, que acontecerá nos dias 18,
19 e 20 do próximo mês de junho. Três textos de Freud constituem o eixo
para os trabalhos do evento deste ano – “Um tipo especial de escolha de
objeto feita pelos homens” (1910), “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (1912) e “O tabu da virgindade” (1918). No primeiro
encontro do cartel, definimos algumas diretrizes para o funcionamento do
mesmo e iniciamos a discussão do conjunto de textos, procurando pensar a
atualidade das idéias propostas por Freud nestes três escritos. A partir do
segundo encontro, ocorrido no dia 24 de março, propusemo-nos a dedicar ao
menos uma reunião do cartel para trabalhar cada um dos textos, iniciando
por aquele publicado em 1910.
O cartel acontece quinzenalmente, nas quartas-feiras às 20h30min, e
é aberto a todos os interessados.
Gerson Smiech Pinho
EXERCÍCIOS CLÍNICOS
O CORPO E A DIREÇÃO DA CURA
Data: 24/04/2004 – Sábado
Hora: 9h30min
Proponentes: Adão Luiz Lopes da Costa e Luciane Loss Jardim
Debatedor: Edson Luiz André de Sousa (a confirmar)
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
3
NOTÍCIAS
NOTÍCIAS
PARTICIPAÇÃO DA APPOA NO CONGRESSO DA CONVERGENCIA
De 27 a 29 de maio de 2004 acontecerá no Rio de Janeiro o II Congresso Internacional da Convergência. A APPOA vai ser representada através do trabalho de Lucia Serrano Pereira a Ana Maria da Costa, dentro do
sub-tema “Transferência, resistência e interpretação”.
Uma outra forma de participação da APPOA se dará a partir da circulação de textos de membros da instituição no site da Convergencia. Estes
trabalhos preliminares ao Congresso vão estar à disposição no endereço
www.convergenciafreudlacan.org
Abaixo, listamos os textos e seus autores:
– “A transferência e o amor” – Liliane Seide Froemming
– “Será que ainda ES psicanálise? – questões sobre actualização da prática” – Robson de Freitas Pereira
– “Algumas questões sobre o trabalho do psicanalista” – Marta Pedó
– “Os caminhos da cura analítica hoje” – Gerson Smiech Pinho
– “Mania” – Alfredo Jerusalinky
– “A direção da Transmissão em psicanálise – passes e impasses” – Jaime
Betts
– ”Variantes topológicos da cura”– Lígia Víctora
– “Utopia e ato analítico” – Edson Sousa
– “Letra e transmissão da experiência” – Ana Costa
– “Vou apertar, mas não vou acender agora” – Otávio A. Winck Nunes
– “Psicose” – Adão Costa e Maria Auxiliadora Sudbrack
– “Impasses no reconhecimento: autenticação e autorização” – Maria Cristina
Poli
Comissão de Relações Interinstitucionais
Mesa Diretiva da APPOA
4
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
JORNADAS ANUALES DE REUNIONES DE LA BIBLIOTECA
5 E 6 DE DEZEMBRO DE 2003
As Jornadas de 2003 de Reuniones de la Biblioteca – Rede de Pesquisa em Psicanálise, se organizaram sob o eixo do tema “A experiência
real da análise – temporalidade e representação”. Anualmente, esta rede de
pesquisa escolhe uma temática, que é trabalhada durante encontros semanais que se estendem ao longo do ano, para culminar nas suas Jornadas.
Assim, foram trabalhadas em Jornadas anteriores, temáticas como
“Figuras do Pai”, “Violência e desamparo, fronteiras da subjetividade”, geralmente orientadas na iniciativa de pensar uma psicanálise que possa interrogar os fenômenos e saberes que atravessam seu tempo.
Entendo as Jornadas fundamentalmente como uma interseção de
muitas vozes: as daqueles analistas que se alinham nessa inquietação, e
nesse sentido encontram-se tanto analistas de diversas orientações teóricas – sendo a orientação lacaniana uma forte presença, embora não exclusiva – em intenso debate, quanto as vozes de escritores, artistas, sociólogos, filósofos, que vem se somar ao esforço de debelar os caminhos do
inconsciente na direção da cura e do laço social, que, sabemos, estão intrinsecamente articulados.
Além de numerosos trabalhos livres, merecem destaque as mesas
redondas: “Presença do analista e sua incidência na cura” e “A psicanálise
nos tempos da destruição da experiência”, onde participaram analistas de
Buenos Aires, Tucumán e São Paulo; e dois painéis sobre Representação e
Temporalidade, com aportes de figuras significativas de diversas áreas da
cultura.
Posso, retomando um dos termos principais desta Jornada, validar
amplamente esta experiência de trabalho e criação, que se assemelha em
muito à orientação que a APPOA propõe para pensar a psicanálise de nosso
tempo.
O site da Rede é www.reunionesdelabiblioteca.com
Isabel Marazina
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
5
SEÇÃO TEMÁTICA
JERUSALINSKY, A. Nos tempos...
NOS TEMPOS DO MULTISSEXUALISMO1
A
sessão temática de abril nos convida e prepara para a Jornada de
Abertura de 2004 – A Diferença Sexual. Como de costume, a Jornada introduz, a partir da produção de membros da APPOA, a discussão de um tema norteador do trabalho do ano. Neste caso, o debate sobre a
diferença sexual na contemporaneidade constitui um dos eixos de estudo ao
qual nos dedicaremos, voltados que estamos para a realização de nosso
Congresso em outubro.
Reunimos, neste número do Correio, trabalhos atuais e outros que já
vinham em circulação na cultura há algum tempo, publicados em jornais ou
apresentados em eventos. Podemos perceber, assim, que a discussão acerca da diferença sexual não é recente, sendo este um tema difícil de bordear
pela rapidez com que vem deslizando e se complexificando no decorrer da
história. A diversidade de posições sexuais e amorosas na atualidade nos
convoca ao debate na tentativa de dar conta de perguntas que não cessam
de se relançar: o que é o feminino e o masculino? O que é um pai? Qual a
posição da mulher e do homem em relação ao falo? Em que consiste a
diferença sexual, se é que ela existe?
Estas questões nos impõem uma tarefa complexa, pois se trata de
tentar elaborar respostas que não banalizem e tampouco forneçam regras ou
normas de conduta. Pelo contrário, esperamos que estas interrogações nos
permitam avançar teoricamente, refletir sobre nossa cultura repensar nossa
clínica.
Ana Laura Giongo
Fernanda Pereira Breda
Afredo Jerusalinsky
O
s homens já não são os de antigamente. As mulheres tampouco.
Elas descobriram que a demanda é deles e que elas são as donas
da oferta. Com efeito, são as mulheres – tradicionalmente – as que
se enfeitam, pintam, rebolam e exibem, enfim, as que se colocam na vitrine.
Eis ali que elas descobriram o poder de dizer ‘não’. Foi trabalhoso que o
‘não’ feminino fosse levado a sério. O pacto entre o pai da moça e o futuro
genro dispensava qualquer consulta à opinião dela. Foi o romantismo que
instalou o ideal de que casamento e amor deviam marchar juntos. O que
passou, então, a justificar a união com o homem deixou de ser a conservação do patrimônio transmitido pela via patriarcal – sublinhamos aqui as duas
palavras que indicam a prevalência masculina – para situar o amor como
eixo da decisão matrimonial. Se até então a dialética entre patrimônio e
matrimônio tendia a se resolver sobre o eixo objetivo dos bens – fossem eles
materiais ou de sangue –, a partir desse momento a subjetividade amorosa
tornou-se o centro de gravidade da união entre um homem e uma mulher.
Essa mudança no discurso social abre as portas para a transformação da
posição feminina: se o eixo da união é subjetivo elas precisam ser consultadas. Que a mulher tenha acedido ao exercício de uma relativa liberdade
amorosa mercê ao romantismo explica, certamente, por que durante quase
duzentos anos ela se tornou uma ardente defensora e uma assídua
demandante do comportamento romântico nos homens. Para demonstrar
que é esta uma das chaves fundamentais do acesso feminino ao poder, está
aí a “dama das camélias” a quem bastava mudar a cor do seu buquê de flores
para expressar uma afirmativa ou uma negativa que, aos homens, só cabia
aceitar. O sorriso enigmático que invariavelmente acompanhava o gesto floral
1
6
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Publicado originalmente no jornal Zero Hora, Caderno Cultura, em 21/02/2004.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
7
SEÇÃO TEMÁTICA
JERUSALINSKY, A. Nos tempos...
cumpria a função de ocultar seu desejo. Qual, senão esse sorriso indecifrável,
seria o motivo da poderosa atração de La Gioconda, considerando que a
modelo era apenas uma dama napolitana, pintada por Leonardo Da Vinci no
início do século XVI (1502), que aparece com vestes modestas, sem título de
nobreza que a ampare, sem jóias nem peruca sofisticada, ou seja: apenas
uma mulher.
Durante milênios os homens contornaram o fato de serem eles os
pedintes (pedem para dançar, pedem em namoro, pedem em casamento)
rebaixando a mulher e submetendo-a a sua autoridade. Paradoxalmente, a
passagem da paulada na cabeça – do homem das cavernas – para a privação de direito (de dizer não) da mulher, constituiu um ato civilizador. O que
quer dizer que a mulher entra na civilização, já desde o início mesmo dela,
privada de direito, o que, em bom romance, significa privada da palavra.
Não é de estranhar, então, que durante milênios não tenha havido
filósofas, estadistas, políticas, cientistas, pintoras, escultoras, matemáticas, estrategistas, e até mesmo, líderes religiosas. Apenas algumas princesas cuja notoriedade ficava por conta da quantidade de babados que enfeitavam seus corpos, algumas rainhas por exceção (seus pais falharam na tentativa de produzir um primogênito varão) e um escasso punhado de mulheres
valorosas (Joana D’Arc, por exemplo) que, para se fazer valer, tiveram que
vestir as armaduras e os elmos masculinos. Geralmente reduzida à escrava
de serviço, a objeto de satisfação, ou a artefato estético, santa como mãe e
diabólica como mulher, a posição feminina recebeu atônita a pergunta que
lhe endereçou o romantismo: Que desejas?
Foi, a partir de então, o abrir da caixa de Pandora. É claro, o que ela
poderia responder a semelhante pergunta a não ser: tudo? Sabedora da precisa localização do que até esse momento tinha constituído sua arma fundamental, foi subindo bem devagar sua saia e baixando seu decote até chegar
à transparência total. Que essa manobra demorasse nada menos, que duzentos anos demonstra duas coisas: a primeira é a delicadeza e o temor
com que a mulher encarou essas mudanças – não era para menos, já que a
pergunta sobre seu desejo ia acompanhada de severas ameaças morais; a
segunda é que a ordem do masculino, se por um lado convocava o desejo da
mulher – que lhe era inconscientemente necessário –, por outro lado, para-
doxalmente, continuava a lhe exigir o recalque de sua sexualidade – imprescindível para a conservação de seu império.
A fórmula do “amor cortês” – amor sem sexualidade – costumava
terminar de três maneiras clássicas: os homens acabavam suas noites no
prostíbulo, as mulheres choravam neuroticamente por qualquer coisa, ou
tudo terminava nas Bodas de Sangue de Federico García Lorca (1932).
Diante desse fracasso, houve um curto período de tentativa de reunir
amor, matrimônio e sexo. A prevalência das uniões estáveis de fato, substitutivas dos matrimônios formalizados juridicamente, constituíram – e ainda
constituem – ensaios nessa direção. Porém, as separações não têm sido
menos freqüentes nesse tipo de casais, compostos aparentemente “por livre
opção”, e, também aparentemente, sem outro laço a não ser uma boa conjugação do amor e o gozo sexual de ambos os cônjuges. Também faz parte
dessas recentes tentativas de encontrar uma nova forma de enlace entre o
masculino e o feminino, a desvinculação da atividade sexual com o ato matrimonial; de fato a “noite nupcial” vai perdendo seu sentido assim como a
virgindade vai perdendo seu caráter de tabú .O interessante nessas propostas é que elas sempre consistem em suprimir alguma das condições do
ideal suposto para um casal permanente: ora se suprime o matrimônio como
condição prévia à relação sexual, ora se suprime o amor como condição
dela, ora se suprime a exclusividade ou bem amorosa ou bem sexual (de fato
a figura do adultério como ofensa moral vai perdendo consistência). O ideal
de reunir matrimônio, sexo e amor, se torna cada vez mais difícil pela
prevalência no discurso atual de um ideal de gozo máximo e constante (trocamos nossos aparelhos não porque eles não servem mais, mas porque o
próximo pode nos dar mais satisfação). Não somente é improvável que duas
pessoas possam manter, cada uma delas em reciprocidade com a outra,
esses três “fatores” num nível máximo e constante de satisfação, senão que
é totalmente impossível. Essa impossibilidade não reside em nenhum cálculo matemático de probabilidades, mas por duas razões: a primeira, de estrutura, e a segunda, histórica. A de estrutura: os impulsos amorosos e sexuais são necessariamente intermitentes, o registro da satisfação se produz
por contraste com momentos de insatisfação. A histórica: o discurso social
atual nos empurra a supor que a mudança de objeto – seja uma lava-roupas,
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
8
9
SEÇÃO TEMÁTICA
um parceiro amoroso ou sexual – pode nos dar a solução dessa intermitência.
Mas há outra razão histórica: ao ser interrogada acerca de seu desejo, a mulher já não mais se dispõe a se moldar na posição de objeto que ao
homem lhe convém. Safando-se do recalque que lhe era imposto, ela escapa
da posição passiva e toma a iniciativa no affaire sexual. Se identifica com o
homem separando amor e sexo – uma prática na qual os homens já tinham
desdobrado uma longa experiência – e exerce sua negativa configurando
diversos quadros ( também eróticos) de alianças entre mulheres (veja-se por
exemplo o sucesso do seriado Sex in the City). O homem, desorientado
diante do novo poder feminino, começa a se identificar com as mulheres: usa
maquiagem, entra no circuito da moda, tinge os cabelos, faz cirurgia plástica, e adota modos próprios da sensibilidade feminina.
Tais identificações cruzadas resultam numa grande diversidade de
posições sexuais e amorosas que quebram as identidades clássicas. Essa
variedade de posições imaginárias não mais responde ao sistema de oposição binária: masculino-feminino. Que elas ainda não tenham nomes específicos que as diferenciem na linguagem corrente, demonstra a dificuldade que
existe para conjugar esse novo imaginário – embora não sejam novas as
suas fantasias – com a ordem simbólica que organiza nossa cultura.
Ao mesmo tempo, devemos perceber que o notório aumento das práticas homoeróticas circunstanciais nada tem a ver com alguma mudança
hormonal ou genética, mas, evidentemente, com as vicissitudes do inconsciente, que, empurrado pela história, situa de modo diferente as relações
entre o masculino e o feminino.
No Museu do Prado (Madrid) há uma pintura de Velázquez (15991660) onde Felipe IV monta um corcel negro que ficou desproporcionado:
sendo o cavalo demasiado largo e baixo, as pernas de Felipe pendem bem
abaixo da barriga do animal. Contam que, quando cobrado pelo rei acerca de
tal desproporção, Velázquez justificou que a deformidade pintada era proposital, com a finalidade de dar maior volume e importância à figura de sua
majestade. Aos homens de hoje em dia, como ao rei Felipe IV, cabem duas
possibilidades: ou bem acreditam na história de Velázquez, ou bem descem
do cavalo.
10
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
CALLIGARIS, C. Diferenças Sexuais.
DIFERENÇAS SEXUAIS1
Contardo Calligaris
S
exos biológicos ainda há dois: mulher e homem. Isso, se definirmos
o sexo pelos órgãos externos e a função de reprodução. Mas parece
estabelecido que os órgãos sexuais externos e internos dizem pouco sobre nossa futura vida sexual. Há alguns anos, graças aos trabalhos de
Robert Stoller, existe a distinção entre sexo biológico e identidade de gênero, sendo entendido que sexo e identidade podem não corresponder. A identidade de gênero (masculino, feminino) não depende (só) do sexo biológico,
mas é o resultado de uma série de fatores: desde o desejo dos pais em suas
manifestações mais concretas (o jeito de tocar e de falar do corpo do nenê)
até – naturalmente – determinações biológicas mais sutis do que os órgãos
externos e reprodutores. Que sexo e identidade de gênero possam não
corresponder significa que é possível se viver como mulher em um corpo de
homem e vice-versa.
Mas, cuidado: existir como homem ou como mulher não implica nada
no que concerne ao desejo sexual. Paradoxo: se tenho um corpo de mulher,
mas vivo como homem, isso não quer dizer que eu prefira desejar mulheres.
A coisa atrapalhou, por exemplo, as clínicas americanas que têm a tarefa
oficial de decidir quem estaria suficientemente em discordância com seu
sexo anatômico para ter direito a uma operação de mudança de sexo (biológico). Justamente, uma mulher – embora preenchendo todos os requisitos
psíquicos e físicos – não conseguiu durante dois anos a dita autorização,
porque preferia desejar homens. Assim, lhe era dito: ‘’Mas, se você gosta de
homens, por que quer se tornar homem? Não vai ser um problema?’’. Ela
respondia: ‘’Nada disso, gosto de homens e seguirei gostando como um
homem homossexual’’.
1
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, Caderno Mais, em 17/04/1997.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
11
SEÇÃO TEMÁTICA
CALLIGARIS, C. Diferenças Sexuais.
Complicado, mas respeitável. Então: sexo biológico é diferente de
identidade de gênero, que é diferente de orientação sexual. Nesta recente
altura da discussão, florescem pesquisas para mostrar que a orientação
sexual tem fundamento biológico (logicamente diferente dos órgãos sexuais
externos e reprodutores).
Os resultados não são conclusivos: algumas especificidades biológicas (cerebrais, por exemplo) parecem corresponder (não mecanicamente e
com amplas margens de variação) a definidas orientações sexuais. Resta
saber se estas diferenças são genéricas ou então produzidas pelo próprio
comportamento sexual.
O debate assume tons propriamente ideológicos. Alguns acham que
justificar, por exemplo, o homoerotismo por via biológica deveria aumentar a
tolerância, outros acham que o jogo não vale a aposta.
A questão, na verdade, se formula melhor de outro jeito: certamente
vai ser possível encontrar diferenças biológicas (cada vez mais finas) segundo as quais dividir os seres humanos. Mas, se as diferenças encontradas
são sem dúvida biológicas, as categorias segundo as quais os humanos são
divididos por estas diferenças são culturais. Para maior clareza: não se trata
de discutir se o homoerotismo é determinado biologicamente ou não. O problema é que, para procurar uma especificidade biológica do homoerotismo, é
necessário primeiro considerar (culturalmente) que o homoerotismo seja uma
categoria relevante. Daí, procura-se ver se existe ou não algum traço biológico dos homoeróticos.
Então, por mais que encontremos uma especificidade biológica do
homoerotismo que seja estatisticamente significativa, resta que a divisão da
sociedade sexual em homoeróticos e heteroeróticos não tem nada de biológico. Ao contrário, é uma distinção cuja existência é extremamente recente,
data do século 19 (os trabalhos de Jurandir Freire Costa a este respeito são
dificilmente contestáveis).
Volta-se, assim, à estaca zero: o sexo não coincide com a identidade
sexual (de gênero), que por sua vez não coincide com a orientação sexual.
Desta orientação talvez seja possível encontrar uma marca biológica. Mas,
de qualquer forma, as categorias, os grupos que acabaremos confirmando
graças a estas marcas não serão nunca ‘’naturais’’, mas sempre decididos
previamente pelo estado de nossa cultura.
Assim, se ainda subsistem as categorias que dividem a sexualidade
segundo o sexo do parceiro, de fato o cotidiano as desmente. A Associação Nacional do Couro, dos EUA, abre-se aos amadores de couro de qualquer “orientação’’. O que significa reconhecer que a verdadeira orientação é
o couro, não o sexo do parceiro. Paralelamente, o debate sobre o casamento homoerótico força a similitude entre maneiras de amar, independentemente do sexo dos parceiros.
Assim, o movimento queer (estranho) – embora emanação do movimento gay – parece defender uma pluralidade indefinida de sexualidades que
se definem pelas fantasias e, de novo, não pelo sexo dos parceiros.
A problemática das diferenças sexuais se transforma, neste fim de século,
em uma questão sobre as próprias categorias segundo as quais se colocariam as diferenças. A coisa vai mais longe do que as orientações sexuais.
As categorias (masculino e feminino) da identidade de gênero são também
discutidas: com efeito, se tenho um corpo de mulher e me sinto homem,
será que minha identidade de gênero (masculina) não concorda com meu
corpo de mulher ou será que – nesta contradição – minha identidade de
gênero é diferente tanto do masculino quanto do feminino? Será que o
transexualismo, o drag, mesmo o travestismo, não são identidades de gênero específicas, diferentes de masculino e feminino?
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
12
PRÁTICAS SEXUAIS
A perda de relevância da orientação sexual ou – no mínimo – das
categorias tradicionais da orientação sexual (e mesmo da identidade de gênero) é o sinal de uma mudança mais decisiva. Desde o primeiro volume da
“História da Sexualidade’’, de Michel Foucault – mal recebido na época, mas
a meu ver, cada vez mais influente –, já começamos a reconhecer que a
própria relevância do sexo em nossas vidas, e ainda mais em nossa fala, é
um fenômeno cultural moderno, e não uma descoberta de alguma ‘’essência’’ humana que seria sexual.
13
SEÇÃO TEMÁTICA
Aos poucos, a modernidade nos levou a falar de nossa vida sexual, a
confessá-la, contá-la e, finalmente, erigi-la em peça chave de nossa verdade
mais íntima. Me digas como trepas, te direi quem és. A psicanálise foi um
momento decisivo nesse processo. É possível que, como teria dito Foucault,
esse novo pegajoso sexualismo fosse e seja, fundamentalmente, uma técnica do poder, ou, mais deleuzianamente, do micropoder (“Fala, que saberei
como lidar contigo’’).
De qualquer forma, o crepúsculo das categorias inventadas pelo mesmo poder que nos levou a falar tanto de nossa sexualidade sugere que talvez
o sexo esteja perdendo seu lugar de exceção.
A orientação sexual categorizada segundo fantasias e práticas (e não
segundo, por exemplo, o sexo dos parceiros) parece implicar uma relação
mais pragmática com o sexo. Seminários sobre práticas sexuais, manuais
para invenção de práticas novas, lojas cada vez menos sinistras e mais high
tech de auxílios para a vida sexual e, enfim, até a educação sexual nas
escolas não são sinais da boa saúde do sexo moderno como mestre pretensamente secreto e, de fato, tanto falado de nossa verdade íntima.
Ao contrário, o sexo – falado sim, mas pragmaticamente – talvez não
seja mais o interpretante de nossas vidas, mas só o campo de uma prática
(prazerosa, se possível).
KEHL, M. R. Existem mesmo “as mulheres”?
EXISTEM MESMO “AS MULHERES”?1
Maria Rita Kehl
A
recente polêmica entre Otavio Frias Filho e Marta Suplicy a respeito
do artigo “O que querem as mulheres?” (escrito por ele na Folha)
esteve longe de ser uma dessas brigas quentes, que a gente paga
para entrar. Mas sinto-me convocada a participar, não por nenhum dos articulistas, mas pela condição que tenho inscrita, desde a certidão de nascimento, nos documentos que me identificam: sexo – feminino. Um traço
identificatório que, assim como outros igualmente genéricos (cor – branca;
nacionalidade – brasileira, etc), diz muito pouco sobre minha pessoa e, como
traço genérico, tende a desorientar nossas percepções na exata medida em
que parecem organizar nosso campo de visão.
O que significa, hoje, sermos “homens” ou “mulheres”, “jovens” ou
“velhos”, “brancos” ou “negros”, etc? O mesmo que significou no Brasil colonial? O mesmo que significou na Europa no período das Luzes? Na Antiguidade clássica? Alinhar traços gerais de comportamento e personalidade e
outros traços (ditos) naturais é uma tentativa de ordenar o caos das formações sociais que sempre produz mal-estar.
Quando me sinto compelida a participar de uma discussão que está
posta em termos de “as mulheres são assim”, não é porque alguém das
hostes inimigas ousou invadir “nosso” território (sentimento que parece motivar o artigo da deputada Marta Suplicy). É pelo desconforto que me causa o
fato de que – partir do tal “sexo – feminino” escrito na minha carteira de
identidade – alguém esteja querendo me empurrar para um território aparentemente bem delimitado. E, neste caso, tanto faz que o polemista em questão seja “homem” ou “mulher”, feminista de primeira linha ou porco chauvinista.
As generalizações de Suplicy são tão desconfortáveis quanto as de Otavio
Frias Filho.
1
14
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, Caderno Mais, em 11/12/1994.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
15
SEÇÃO TEMÁTICA
KEHL, M. R. Existem mesmo “as mulheres”?
Vamos tentar esquecer, então, por algum tempo, as categorias de
gênero e pensar em termos das sexualidades: masculino/feminino. É aí que
a coisa complica, já que os dois termos deste par antitético só podem se
definir um em relação ao outro. Freud resolveu limitar modestamente as duas
definições em termos de ativo (do lado do masculino) e passivo (do lado do
feminino), e ainda assim percebeu que sobrava muita coisa para fora desse
cobertorzinho.
Se a, até então incontestável, passividade das mulheres de sua época foi socialmente produzida pelo tabu da virgindade e as restrições por ele
impostas – com vantagens e desvantagens para homens e mulheres, como
o próprio Freud não cansou de constatar –, hoje, poucas décadas depois
que o feminismo e a tecnologia anticoncepcional tornaram a virgindade um
bem obsoleto, a voracidade com que muitas moças partem à conquista de
seus parceiros sexuais chega a assustar e até mesmo, sim, intimidar, cavalheiros que teriam se vangloriado de estar sempre prontos a corresponder a
qualquer assédio.
Pois o romantismo e os eufemismos de estilo são, a meu ver, mecanismos de defesa contra a fúria do sexo. Não são mais próprios das mulheres do que dos homens: são utilizados, indiferentemente, por quem se vê
muito diretamente interpelado pelo tal “olho lúbrico” do assediador, que parece querer arrancar de dentro de sua presa o objeto de seu desejo, que o
assediado, por sua vez, ignora o que seja.
A fórmula da demanda eufemística foi bem estabelecida por Lacan no
famoso “Seminário 20”, em que ele tenta, mas não muito convincentemente,
seguir o rastro deixado pela histórica pergunta freudiana sobre o querer da
mulher. “Eu te peço que recuses o que te ofereço, porque não é isso”, diria o
assediado, homem ou mulher, em resposta à fúria do desejo do outro, tentando talvez evitar a doce e perigosa alienação em que a condição de objeto
do desejo alheio nos atira sem piedade.
Tenho tido a curiosa experiência de escrever uma coluna mensal para
a revista Playboy, em que tento discutir comportamentos masculinos e femininos, e onde raramente consigo evitar generalizações do tipo “mulheres são
assim; homens, assado”. O curioso é que, sendo a articulista uma mulher,
muitos leitores (homens) escrevem cartas, furiosos, com a falta de... romantismo... eufemismo... com que abordo os temas-tabu da fantasia falocêntrica.
Quem se sente despido pelo olhar, pelo desejo, ou mesmo pelo senso crítico
do outro, sempre tende a pedir a restituição de algum véu, algum mistério:
“não me diga que é ‘só’ isso”... etc.
O fato de que, historicamente, mulheres tenham ficado do lado dos
assediados (na defensiva/na demanda romântica) e homens do lado do assédio (no ataque/na abordagem direta) é tão contingente que não resiste a
uma leve brisa nem aos “novos ventos” da história. Basta ler as declarações
de colegiais no Folhateen, a respeito de quem “ataca” quem, hoje.
Quanto ao papo de as mulheres andarem querendo “tudo”, isto não é uma
característica de gênero: é uma característica humana. As condições de
opressão, seja de classe, gênero ou raça, sempre existiram em função desta desmesura: para que uns tenham “tudo”, outros precisam ser sacrificados. Seria chover no molhado lembrar que a opulência só existe às custas
da pobreza, o ócio às custas da escravidão, etc.
Em termos edipianos, é próprio da constituição do masculino a tal
renúncia reivindicada por Otavio Frias Filho. A renúncia que o menino faz à
posse do corpo de sua mãe, ele a sustenta pela possibilidade de, em troca,
ter acesso a quê? A todas as outras mulheres. A família ocidental (não
excluo as sociedades orientais, mas não sei nada delas) é organizada em
torno da negociação edípica que constitui a identificação da sexualidade ao
gênero. É organizada de modo que o menino receba seu prêmio pela renúncia que, afinal, organiza toda a nossa cultura: tudo, em troca de abrir mão da
mãe. Ao menino, na família ocidental, é dado o direito de amar e trabalhar.
De ter vida pública e privada, esposa em casa e mulheres na rua (a esposa é
rapidamente excluída do conjunto das mulheres). Às custas, é claro, da
domesticação da mulher que ocupa o lugar de esposa e mãe.
Mudanças ideológicas e tecnológicas, sim, econômicas e culturais –
incluindo o ideário feminista – vêm confundindo, há mais de um século, estes territórios aparentemente bem delimitados, reduzindo os traços que dis-
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
16
17
SEÇÃO TEMÁTICA
KEHL, M. R. Existem mesmo “as mulheres”?
criminam homens e mulheres àqueles, irredutíveis, de uma mínima diferença. Mulheres podem ter filhos ou não, mas a sexualidade feminina não é
mais condicionada pelas consequências biológicas da maternidade. Podem
ir para as universidades ou não, mas a tal incapacidade sublimatória de que
suspeitava Freud não resistiu a meio século de escolarização nas mesmas
condições dos homens. Podem ser boas profissionais ou não, mas o mercado de trabalho e a emancipação econômica veio dissociar a castração feminina da condição da castração infantil de mulheres sustentadas por seus
pais e maridos.
Já que mencionei a castração feminina, vale arriscar uma generalização autorizada pela teoria psicanalítica: a sexualidade feminina se constitui,
em relação à castração, de modo muito diferente da masculina. Se o menino
teme perder aquilo que pensa que tem, e que seria a causa do desejo de sua
mãe, todos os avanços de sua sexualidade estão condenados a se defrontar
com a angústia da castração. A renúncia edípica, fundante da masculinidade, é a negociação possível do menino com sua angústia.
Em seu artigo, Otavio Frias Filho mostra saber, como todo homem,
que a renúncia primordial é que lhe permite todas as conquistas posteriores.
Já a menina – pensem bem nas consequências devastadoras deste fato –
percebe, desde muito cedo, que nada tem a perder. Falo de perdas (e falos)
imaginários, mas é nesse plano que a angústia se inaugura. Se a sexualidade masculina se estrutura na base de uma renúncia, a feminina se constitui
– mais confusamente – em torno de uma decepção. Nenhuma ameaça imaginária paira sobre a menina, que passa a vida na busca incessante de compensar sua decepção inicial.
O destemor em relação à castração e a fantasia de que essa decepção pode ser compensada produzem, na feminilidade, uma espécie de
desmesura que o psicanalista Joel Birman chamou de “excesso” feminino.
Não é que as mulheres não saibam o que querem, mas que ignoram o preço
a pagar, de modo que se mantêm reivindicando sempre mais.
A insatisfação feminina, que tanto persegue os homens, faz par com
a possibilidade de negociações mais amistosas, mais transgressivas com o
superego, que têm suas vantagens e desvantagens. Muitos parecem invejála, ao mesmo tempo em que sentem a necessidade de alguma instância que
possa pôr limite a este excesso.
Por outro lado, vejo a onda puritana que assola a militância feminista
atual, principalmente a parte americana a que se refere Otavio Frias Filho,
não como uma defesa contra os avanços sexuais dos homens – que, abusos à parte, não sei por que não seriam bem vindos – mas como uma violenta reação inconsciente contra os abusos de que as próprias mulheres desconfiam ser capazes. As líderes feministas parecem assustadas, como os
mancheviques, com a dimensão da desordem provocada pelas forças que
elas contribuíram para libertar. Ainda assim, os mancheviques foram bem
mais ousados na negociação!
É possível, para falar em termos brandos, que a desmesura feminina
(e não “das mulheres” – quantas não preferem mantê-la domesticada?), que
essa dificuldade de orientar escolhas em função de renúncias, agora que a
cultura já não nos exige mais tantos sacrifícios, torne muitas mulheres
dispersivas, pouco especializadas – medíocres, na opinião de Otavio Frias
Filho. É possível que a especialização seja uma organização tipicamente
masculina, o que não significa que não seja acessível a mulheres que escolham essa via.
Mas, se a especialização não é feminina, o diletantismo (tão banido
da cultura capitalista industrial) o é – a capacidade de criar, forçar limites,
produzir uma estética da existência, estilos, diversidades, possibilidades de
prazer. “Bah!” – dirá um homem especializado, ou uma feminista falocêntrica
– “essas não são as coisas sérias da vida!” Não, não são as mais sérias.
Mas são imprescindíveis para que valha a pena viver.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
18
19
SEÇÃO TEMÁTICA
FONTENELLE, M. I. Algumas questões...
ALGUMAS QUESTÕES SOBRE O MASCULINO HOJE
Texto apresentado na Jornada anual do Percurso Psicanalítico de Brasilia “O masculino:
neurose obsessiva, paternidade, masculinidade”, em 2003.
casa. Todas as palavras sobre o assunto são interditadas entre os membros
da família. Os Moso vivem no mais completo isolamento, apesar de há pouco tempo ter chegado por lá a televisão. O autor que visitou e escreveu sobre
essa comunidade coloca questões sobre o futuro dela, agora tendo acesso
à mídia e à educação, mas nos coloca pontos para reflexão até os dias
atuais. Os Moso não produziram nem psicose nem nenhuma doença à partir
do sistema em que vivem. O que nos coloca De Neuter, ao fim de seu trabalho Les fonctions paternelles chez les Moso de l’Himalaya chinois, é que, “no
momento que os interditos essenciais são assegurados, – canibalismo, incesto e assassinato – e, desde que os ideais sejam suficientemente promovidos pelo social, numerosas formas de paternidade podem aportar estrutura, saúde psíquica e felicidade aos sujeitos.”
Quando comecei a pensar nas questões que eu tinha para tentarmos
discutir aqui nessa jornada, uma das que me apareceu foi a figura do pai de
realidade. Tentar pensar esse homem e, mais precisamente, esse homem
hoje. Tentar pensar que o pai simbólico, real e imaginário ou que o nome-dopai, são encarnados por um homem que tem corpo, matéria. Tentava pensar
que não pode ser anódino se ter tido, ou não, um pai de realidade na vida, um
homem que tenha encarnado para um sujeito as funções que conhecemos.
Minha clínica sempre me mostrou que o pai de realidade sempre foi importante para o futuro psíquico de uma criança, ou do adulto. Segundo o que
depreendo do ensinamento de Lacan, principalmente o Lacan que afirma ser
o pai um puro significante, o genitor é sem nenhuma importância. O que vai
importar para a estruturação do sujeito é o pai passado no discurso da mãe,
é para onde se voltam os olhos, o desejo dela, é quem corta a relação dual
estabelecida entre mãe e filho, em seu primeiro tempo de vida, e interdita a mãe
para a criança. Bastaria, assim, o pai simbólico, o pai como puro signifi-cante.
Em outro momento, a teoria lacaniana converge para a não necessidade de
que a função paterna seja feita pelo genitor, mas por qualquer homem, encarnado, que esteja na posição de causar o desejo da mãe, um padrasto, um namorado, um amante, até o genitor. Por todos os caminhos teóricos e clínicos
pelos quais temos tentado andar somos levados a pensar que realmente não
é anódino se ter tido ou não um pai de realidade, mas não é necessário.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Maria Ida Fontenelle
N
o sudoeste da China, no sopé do Himalaya, perto do Tibet e da
Birmânia, existe uma comunidade de mais ou menos 25000 pessoas, muito singular, com características e hábitos até difíceis de serem pensados por nós, ocidentais. São os Moso. É uma sociedade matrilinear
mas, para além disso, é uma sociedade onde não existe mesmo a figura do
pai, do genitor. Os habitantes vivem em casas que são compostas pela mãe,
pela avó, os filhos e as filhas. Quando as filhas têm seus filhos, estes também passam a habitar juntos, no mesmo espaço, e são cuidados e educados por todos os membros daquela casa não hierarquizada. Todos os rapazes saem todas as noites e vão encontrar moças de outras casas, onde
passam a noite, só voltando pela manhã. As moças ficam e recebem, em
lugar apropriado e já destinado a estes encontros, os rapazes que vêm das
outras casas. Esses encontros são secretos, ou seja, nunca se sabe quem
elas estão recebendo. Os filhos produzidos nessas relações não têm nada
nunca a ver com o genitor. Este não tem nenhum dever, nem nenhum direito,
sobre essa criança. Mesmo quando se sabe quem é o pai e este pode visitar
a criança uma vez por ano, não se estabelece nenhuma relação de dependência entre eles. Há casos raríssimos em que amantes vão viver juntos, na
casa da moça, sem que isso confira ao homem algum direito em relação ao
filho. Entre eles há a crença de que todos os filhos já estão na mulher, que só
precisa de um homem para “regar” e fazer desenvolver o que já está dentro
dela. As manifestações de ciúme ou propriedade são fortemente reprimidas
e rejeitadas nesse sistema. É uma sociedade onde as regras são claras. Há
a interdição ao assassinato, ao canibalismo e, principalmente, a proibição
do incesto é rigorosamente obedecida a ponto de ser expressamente proibido entre eles a simples alusão ao sexo entre irmãos ou pessoas da mesma
1
20
21
SEÇÃO TEMÁTICA
FONTENELLE, M. I. Algumas questões...
Minhas questões me trouxeram para o nosso tempo. O que é um pai
hoje? O que é um homem hoje? Que funções esses homens exercem nesse
nosso tempo? Percebo que estou falando de pai e de homem, coisas diferentes, mas até agora, minhas perguntas valem para os dois. Talvez por aí
estejam as mudanças mais profundas pelas quais têm passado nossa sociedade ocidental. As mudanças provindas dos efeitos do feminismo, ou das
novas posições da mulher, em que lugar puseram o homem? Com as conquistas feitas pelas mulheres a partir das revoluções da década de 60, onde
estas começam a aparecer e se afirmar como seres desejantes, como profissionais, como provedoras, como produtoras de conhecimento, os homens
foram deslocados das funções que exerciam há séculos sem nenhuma contestação. Eram funções garantidas, lugares garantidos.
Acompanhando o texto de Phillippe Julien vemos como, no homem, o
masculino foi representado historicamente pela figura de soberano, de rei, de
guerreiro, ou seja, funções bem definidas e incontestáveis em determinadas
sociedades. Na atualidade, as funções de um homem não ganham nenhuma
clareza em sua definição. Na função de pai, ele passa, nesses últimos dois
séculos, desse pai soberano para um “progressivo destronamento da realeza doméstica”. Além de a função paterna estar hoje espalhada por vários
agentes, vários modelos. Como genitor, reprodutor, pode ser um doador de
espermatozóide para um óvulo a ser fecundado.
É impossível pensar a posição do homem sem pensá-la na relação
com a mulher. É impossível também deixarmos de levar em conta, para uma
análise, as queixas que ouvimos diariamente em todos os consultórios vindas de mulheres: – os homens hoje têm dificuldade de se engajar em compromissos. O homem hoje está mostrando mais dificuldade de mostrar seu
desejo diante dessa mulher que se mostra ativa no seu próprio desejo. Passamos de um estado em que a posição do homem em relação à mulher era
de absoluta garantia com a submissão desta – nada o ameaçava nas posições ocupadas, nada o interrogava – para algo em que ele tem que batalhar,
tem que lutar por uma posição. Nada está garantido, nem sua virilidade.
Teremos que caminhar por caminhos muito inexplorados ainda para darmos
conta de pensar todas as mudanças que a engenharia genética, a biologia, a
ciência e a tecnologia estão promovendo. Hoje uma mulher pode, perfeitamente, recorrer a um banco de esperma para conseguir ter seu filho.
Na análise do nosso novo Código Civil podemos constatar, cada vez
mais, homens e mulheres tratados com total igualdade. Hoje os homens
podem ganhar o nome da mulher, no casamento. Não necessariamente são
seus nomes de família que serão dados aos filhos. Podem ganhar pensão
alimentícia, ser sustentados pelas mulheres em caso de divórcio. “Pelo casamento, homem e mulher assumem mutuamente a condição de consortes,
companheiros e responsáveis pelos encargos familiares” (Art. 1565 do cap.
IX).
Com toda essa igualdade, onde está a marca da diferença? Essa
está profundamente abalada pelas mudanças nos homens e nas mulheres.
Se pensarmos em termos de estrutura, por exemplo, onde a demanda da
histérica procura um pai, um mestre, mesmo que seja para desqualificá-lo e
desalojá-lo de sua posição fálica, o que ela encontra, cada vez mais, na
atualidade? Como fica essa operação numa sociedade onde a potência fálica
está desgastada e distribuída igualmente entre homens e mulheres? Por
outro lado, o homem é cada vez mais levado a atos que lembram a mascarada feminina no sentido do ter de exibir-se em modas sedutoras, colocandose numa mostração, como objeto de desejo em todos os ambientes onde é
convocado, até no profissional. Numa crônica interessante de Joaquim Ferreira
dos Santos, no Globo do dia 10 de novembro, isso está mostrado claramente e ele aponta a opressão que os homens sofrem hoje, pela mídia, a ditadura das tendências de moda. Cada vez mais estão sob a tirania de decálogos
de leis de moda, de comportamentos, de kits básicos para se ganhar a
inclusão sexual. É interessante pensarmos uma tendência que ele denuncia: aos homens é indicado serem mais sensíveis, suavizar os instintos,
pegar com jeito, serem melhores ouvintes, mostrarem mais os sentimentos
(homem chora sim!). Por sua vez, as mulheres são convocadas a uma maior
agressivi-dade, a recuperarem o tempo perdido, cair matando, como tigresas, guerreiras, turbinadas, mantendo todo o controle de qualquer situação.
Aonde isso está nos levando? Penso que tem a ver com esse ponto o
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
22
23
SEÇÃO TEMÁTICA
número crescente de homens histéricos e de mulheres obsessivas que temos recebido em nossos consultórios. Diante de um saber em que tudo se
equivale, isso apontaria para uma direção de termos cada vez mais estruturas menos definidas mas, com traços de várias, exatamente para responder
ou dar conta das exigências atuais?
Durante o tempo em que formulava essas questões, uma hipótese me
apareceu, nessa tentativa de localizar o homem hoje. Será que num futuro o
homem vai inverter com a mulher o papel que ela jogava anteriormente? Víamos a mulher, antes de suas revoluções e ainda hoje em culturas mais
conservadoras, não representando mais do que uma matriz procriadora e
como objeto do desejo masculino. Será que num futuro, não sei se longínquo, o homem corre o risco de ser transformado em mero objeto de desejo
da mulher e de doador de esperma, para uma mulher ou para um banco?
Seriam os homens futuros mais próximos dos homens Moso?
CORSO, D. L. As filhas de Alice...
AS FILHAS DE ALICE
(OS DESAFIOS DAS MULHERES PARA ESTE SÉCULO)
Diana Lichtenstein Corso
G
ostaria de estar errada, mas o século da mulher já passou. Se o
século XX for lembrado por fatos ignóbeis, como duas guerras mundiais, não podemos lhe negar este mérito: foi nele que a mulher
maciçamente se igualou aos homens. Hoje, mais do que nunca, a mulher
tem as mesmas possibilidades que eles. É claro que nem todas, nem da
mesma maneira, mas por certo elas nunca mais serão as mesmas e nem
mesmo a humanidade.
O século XIX viu nascerem algumas mulheres notáveis, primeiros brotos de uma vitória a ser colhida no seguinte. Em um século apenas, reparase uma injustiça milenar. Desnecessário dizer que existem ilhas de medievo
para a condição feminina, a cultura islâmica certamente ainda precisa fazer
a revolução que as mulheres ocidentais fizeram recentemente, e mesmo o
ocidente não garantiu esse espaço a todas.
O século XXI vai estar para a mulher como a maturidade está para a
adolescência, tempo de consolidar um avanço tão desejado, mas que chega
sem manual de instruções. É impossível e desnecessário que se repita o
salto que foi dado, trata-se mais de consolidar as conquistas e se apaziguar
com as vitórias. Não, você não entendeu mal, é isso mesmo, fazer as pazes
com as conquistas.
Mas a questão é: se as mulheres ganharam espaço, o feminino acompanhou o passo?
Criaturas deste tempo, o adolescente e a mulher tem muito em comum, pois sempre se incumbiram da inquietude. Em vertentes diferentes, o
jovem grita suas discordâncias, a mulher murmura suas críticas. O fato é
que ambas vozes ganharam amplitude social. Há algo em comum na constituição da adolescência e da feminilidade, que me levaria a arriscar dizer que
1
24
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Publicado originalmente no Caderno de Cultura do jornal Zero Hora em 03/04/2000.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
25
SEÇÃO TEMÁTICA
CORSO, D. L. As filhas de Alice...
há uma adolescência incurável na mulher e uma feminilidade intrínseca na
adolescência. É sobre isto que pretendo me debruçar.
É aqui que entra uma personagem síntese, a curiosa e irreverente
menina criada por Lewis Carroll, vejamos como ele a narra: “Alice observou
atentamente o Coelho Branco, enquanto este se atrapalhava todo com a
lista de testemunhas, curiosíssima de saber de quem seria o depoimento
seguinte, ‘pois até agora’- disse consigo – ‘não conseguiram juntar muitas
provas’. Imaginem a surpresa dela quando o Coelho Branco leu, alteando
sua vozinha esganiçada, o nome ‘Alice!’.
Presente! gritou Alice, esquecendo-se totalmente, com a excitação
do momento, o quanto tinha crescido nos últimos minutos: saltou com tal
pressa que virou o banco do jurí com a orla de sua saia, atirando os jurados
em cima dos assistentes que estavam em baixo.
Embora surpresa de ser chamada a declarar, esta menina crescida,
tem muito a dizer. Ela virá emprestar seu devaneio de uma tarde de sol para
que vejamos quão absurdo nosso mundo pode ser quando paramos para
olhá-lo. Como o ridículo coelho branco, corremos do nada para lugar nenhum
em nome de ninharias, distraímo-nos com conversas ridículas e rituais circulares como o chapeleiro, temos contendas imbecis e medimos os valores
conforme nosso tamanho, como a maioria dos personagens. Isso sem falar
na autoridade e justiça, que vão ao chão numa simples revoada da saia de
Alice. Reis, Rainhas e tribunais revelam toda sua inconsistência e despencam, literalmente como um castelo de cartas, sob os olhos da menina-moça.
Tudo era mais fácil de compreender quando a prioridade era conquistar direitos básicos. Direitos fundamentais, como foi o sufrágio feminino, a
equiparação salarial, como o é o direito ao aborto, lutas de tal transcendência
(algumas ainda em curso), que reservarão para si a gratidão de mulheres de
todo o porvir.
O problema abre-se junto com os portões do calabouço. Agora e cada
vez mais, as mulheres podem ocupar lugares de realização e poder, tendo
garantida a possibilidade de um reconhecimento social. O mesmo ocorre
com o adolescente, que a partir de um determinado momento tem acesso a
experimentar o doce que contemplava desde pequeno naquela estante alta.
Agora crescido, pode saborear o sexo, a liberdade, o físico de adulto. A
mulher pode finalmente votar, ser eleita, falar, escrever, mandar, descobrir,
inventar. As possibilidades só se multiplicam, mas assim como o jovem deve
carregar consigo a criança que foi, a mulher precisa arrastar consigo seu
passado de sombras e sua densa intimidade.
Séculos de silêncio público construíram uma cultura de observação, o
ceticismo próprio de quem não participa da hierarquia e fica livre para ver o
jogo se desenrolar. O jovem, que fica da altura da estante do doce cobiçado
e pode por fim pegá-lo, fica também da altura dos pais e adultos. Agora ele
pode olhá-los nos olhos. Quando pequeno, observava lá de baixo e suspeitava
que a guloseima era mais bonita que saborosa, mas, como convém à criança,
calava ou o que dizia soava pitoresco. O jovem descobre e revela o que a
criança desconfiava: os grandes mentem ou omitem. Não dizem, nem para sí
mesmos, que o sexo tem seus percalços, a beleza dá trabalho, a diversão é
plena de chatices e as realizações pontilhadas de angústias, tudo temperado
de incertezas e autocríticas. O doce, para falar a verdade, é bem amargo.
Aqui termina o paralelo entre o jovem e a mulher. Este inaugura-se
imaturamente no novo cenário. Agressivo, reclama, esperneia e reivindica. A
mulher também o faz, mas suas palavras são cortantes, verdadeiras e, como
todo homem que já discutiu com uma mulher sabe, são certeiras. A entrada
da mulher na cena pública, se não tem o tom de confronto explícito do adolescente, tem o efeito da revoada da saia de Alice, derruba consigo muitas
convenções e certezas. A mulher sempre soube que o rei era um tolo nu.
Ela, como a criança, há séculos observa calada e joga o jogo nos bastidores. Detém o poder da intimidade e é com ele que tem que aprender a viver.
Por isso mencionei a diferença entre o espaço para a mulher e para o
feminino. As mulheres iniciaram sua vida pública como George Sand, fantasiadas de homens. O expediente já não é necessário, mas resta levar a
mesma visibilidade para o pensamento feminino. As idéias, a especificidade
de sua visão de mundo, a mulher as oculta como antes fazia com seus seios
para se fazer passar por homem. Não se trata de que acredite na especificidade
de um pensamento feminino, que elas são de Vênus e eles de Marte, mas
do efeito das marcas de sua história sobre as mulheres.
O século passado encerrou com alguns sinais da presença da subjetividade feminina nos destinos da cultura. Para citar alguns, vale mencionar a
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
26
27
SEÇÃO TEMÁTICA
CORSO, D. L. As filhas de Alice...
valorização da sensibilidade por sobre outros atributos masculinos e a presença disseminada do discurso amoroso em ambos os sexos. Além disso, contribuíram para a maior importância da beleza sobre a força, onde mesmo os
músculos são para olhar, para um sistema de avaliação de desempenho das
pessoas que inclui a realização subjetiva, como o coeficiente emocional, por
exemplo. São novos parâmetros que pautam a humanidade em busca de uma
coerência entre o ser e a fachada, como um encontro do íntimo com o público.
É preciso notar que a saída da mulher de casa produziu a fusão dos
cenários doméstico e laboral. Agora pais engravatados são vistos nas portas
das creches, mães amamentam nos intervalos de trabalho, solteiros fazem
suas compras em supermercados que funcionam até a meia noite, crianças
precisam ligar para o trabalho dos pais para falar com eles, ambos os sexos
levam trabalho para casa e resolvem assuntos domésticos no telefone comercial. As casas vazias, sem horário certo para serem habitadas, aguardam o retorno ruidoso de seus habitantes. Dentro e fora, noite e dia, a rotina
doméstica foi para o beleléu. A separação de cenários público e privado
perdeu sua fiel guardiã.
Mas não foi só a casa que foi virada do avesso, a rua também. A
mulher foi passear seu olhar feminino por sobre todas as coisas. Antes, a
movimentação feminina na rua era pautada por tarefas domésticas ou de
lazer entre mulheres. Mercados, casas de chá, magazines, elas saiam para
abastecer o lar ou conversar entre si. Caso fossem trabalhadoras, seu serviço era também doméstico. A casa era o mirante desde onde contemplava o
mundo e suas conclusões não eram de uso público. A palavra da mulher
tinha o tom murmurado da queixa, o sussurro da fofoca, o grito, quando
subia, era entrecortado de soluços.
A nova possibilidade de circulação das mulheres fez com que o mundo se descortinasse ao seu olhar como se os homens tivessem aberto as
portas de seu clube. Mas ela não entrou sussurrando queixas e murmurando
fofocas. Competente, logo estava cuidando do livro caixa e mudando o estatuto. Enquanto isso, as vozes femininas dentro dela perguntavam: “afinal
para que tudo isto, vale a pena trabalhar tanto?”; “porque organizar as coisas
desta e não daquela forma?” “para que serve o poder?”, hábitos e tradições
eram questionados, vistos como ridículos, dispensáveis, obsoletos. Imagine
qualquer pessoa que entre num quartel sem fazer parte da hierarquia militar,
certamente ele vai achar cômicos os tratamentos entre os militares, os nomes que se dão, as saudações, as cerimônias.
Ao entrar no mercado de trabalho, a mulher calou (inclusive para si)
esta estrangeiridade radical que sua posição de exclusão transformou em
jeito de ser. Ocorre que esse jeito de ser é um modo de ver. Que os seres
humanos fêmeas começaram a descobrir que sua competência no mundo
não vinha apesar, mas graças à riqueza de seu olhar, ao potencial crítico de
seu pensamento. O pensamento feminino não é, então, um empecilho à
realização da mulher no mundo, mas um forte aliado, e porque não dizer um
instrumento?
Provavelmente com o tempo isso seja absorvido por uma sociedade que
devora as especificidades e produz novas sínteses. Mas agora é o tempo de
identificar e saber usar esta bagagem que as mulheres trouxeram consigo.
O problema é que um olhar crítico desmonta e muitas vezes imobiliza
o seu proprietário. Por isso também as mulheres precisaram calar as vozes
das antepassadas para desempenhar suas novas tarefas. Aqui surge a maior queixa das mulheres: a da insuficiência de parâmetros e garantias. Mais
uma vez, como o jovem, precisa lidar com este mundo de papelão onde tudo
parecia tão maior e mais sólido quando a gente era pequena, mas a comparação termina aí.
A mulher amadureceu para saber que é tudo um jogo de cena, mas
sem motivos para enganar-se, pois sempre trabalhou no camarim. Agora
sobe ao palco e queixa-se de que ninguém lhe ensinou, está desamparada e
perdeu o disfarce das sombras. O apelo à própria mãe (que é quem afinal
chamamos na hora da morte) pouco oferece. Quando ela atende ao apelo da
filha, o desencontro é certo. Nada do que ela diz parece servir, pois as próprias mães não se admitem como exemplo.
Se a queixa é de que as mães teriam sido um fracasso enquanto
modelo, a pergunta é como poderiam não ser? A bisavó era analfabeta, a avó
fez o primário, a mãe fez uma faculdade que a preparou para uma profissão
mas não para a vida. Como cada mulher pode pensar que tem algo a dizer a
sua filha? A primeira não sabia o que era sexo, apenas reprodução, a segunda provou e não gostou e a terceira não sabe o que dizer a respeito.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
28
29
SEÇÃO TEMÁTICA
CORSO, D. L. As filhas de Alice...
O tempo voa o mundo gira e o pouco que sabemos já não vale. Se
essa é a marca da modernidade – as distâncias entre as gerações – no caso
das mulheres é ainda maior. Cada geração tem que inventar seus ídolos,
seus modelos. Se o homem deu dez passos neste findo século, a mulher
deu cem. Por isso a distância entre as avós, mães e filhas são abismos.
Isso gera uma imensa solidão, não há ninguém atrás para nos amparar.
Recorrendo mais uma vez à literatura, lançaremos mão de algo mais
moderno, que provavelmente não merece o nome de literatura, mas sim o
nosso interesse. Trata-se de um livro da alemã Gaby Hauptmann, publicado
em 1995, mas traduzido para o português em 2000. Chama-se “Mulher solteira procura homem impotente para relacionamento sério”, convenhamos
que o título é bem chamativo.
Os pesquisadores que narraram a história das mulheres são unânimes em situar a importância do romance na vida feminina. Limitada quanto
ao fazer, a mulher encontrou no devaneio uma forma de driblar a passividade
que lhe era imposta. Fantasia própria ou emprestada, todas servem, por isso
as mulheres foram sempre leitoras vorazes. Por este motivo vale a pena dar
uma olhada neste que foi um boom editorial na Europa e encontrou boa
repercussão no Brasil.
A idéia do livro é simples: moça bela, bem sucedida, do tipo que tem
tudo, enfada-se de ser vista como objeto sexual. Quer para si “um homem
impotente com uma cabeça esclarecida”. Segue-se o previsível desfile de
personagens clichê e encontros amorosos idem. Óbvio que a idéia da impotência é aquela nada incomum às mulheres: impotente com as outras, a
mim ele desejará o suficiente.
O problema para a moça surge quando ela se apaixona e não consegue reverter o quadro de impotência do amado. Surgem então personagens
encarnando as várias faces do feminino como figuras identificatórias e
conselheiras, é o momento que a mulher sai em busca do que seria uma
sabedoria própria do seu sexo. Ela consulta uma mulher mais velha, uma
bruxa e uma psicoterapeuta. Todas descritas como mulheres interessantes,
dignas de alguma forma de identificação. Com elas, a personagem Carmem
aprende a se descobrir e realizar junto do homem que ela escolheu.
Há aqui uma virada fundamental: a mulher exige dizer quem, como e
quando quer. Exige ser amada como pessoa na íntegra e recusa a posição
passiva que a condição de objeto sexual a colocava. Carmem pensou que
retirando o sexo da relação com o homem, encontraria a profundidade que
busca. Esta solução esbarra no fato de que ser explicitamente desejada tem
uma função: do desejo sexual ela retira a certeza às suas perguntas sobre o
amor de que é digna. Acreditava que ser desejada não significava ser amada,
descobriu que para ela, ser amada significava ser desejada. É um momento
de validação de séculos de pensamento feminino.
Mas o que fazer com isto quando se trata de trabalhar, mandar, administrar, inventar, sendo que o que temos a herdar parecem ser histórias de
ardilosas alcoviteiras, que não saberiam assinar um cheque?
Já são umas quatro gerações de mulheres tentando encontrar um jeito
de ser. A mulher aprendeu rapidamente a cumprir com seus compromissos,
com uma eficiência muitas vezes superior à masculina. Mas dentro dela estão
todas as bruxas, as amantes, as intriguentas, as misteriosas, as fofoqueiras,
as românticas. Todas elas sussurram pontos de vista, histórias, devaneios que a
princípio parecem estrangeiros ao mundo das gravatas, do relógio, do trânsito.
A mulher continua a olhar o mundo com olhos de ressaca. Ressaca
de mar, dessa que expulsa coisas que estavam dentro e engole coisas que
estavam fora, onda que fascina e mete medo.
Isso mesmo, a definição não é minha, é de Machado de Assis, que
assim descreve, em “Dom Casmurro”, o efeito produzido no apaixonado
Bentinho pelos olhos de Capitu:
Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas,
aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saia delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me.
Querendo ou não somos filhas de Alice e Capitu. Somos irreverentes, mesmo quando não queremos sê-lo, somos de uma profundidade ameaçadora, pelo
simples efeito de um olhar. Que a mulher possa ocupar este recém inaugurado
espaço público na plena posse de seus dotes é a saída para o desafio.
Do ceticismo nascerá a capacidade de revolução, da fantasia a condição da invenção, da intimidade a exigência de coerência. Convencionamos
chamar tudo isto de “sensibilidade feminina”. Talvez seja um bom nome.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
30
31
SEÇÃO TEMÁTICA
MEES, L. A. Os abusos do macho...
OS ABUSOS DO MACHO BRASILEIRO
s homens não são mais os mesmos”, afirmam alguns, o que, sem
dúvida, vale para muitos deles. Não para todos, entretanto: o
abusador sexual parece encarnar o masculino do passado. Autoritário, violento, auto-erigido senhor dos sujeitos de sua casa, ele se posiciona
no lugar do excesso de macho. Reivindicando a potência do falo na sua
expressão mais visível, o abusador almeja encontrar a certeza subjetiva e
sexual que não é dada ao humano, a não ser em situações extremas de
“loucura”. Saudoso da ilusão de um suposto tempo no qual homens não
eram questionados sobre seus lugares, reivindica um reconhecimento que
nunca chega, seja por ser calcado em uma ilusão, seja porque ele pede de
forma a não receber.
Retrocedendo no tempo, tem-se que a visibilidade do abuso sexual no
Brasil data dos anos 80, quando o feminismo e os direitos da criança e do
adolescente estavam florescendo por aqui. Porém, não podemos esquecer
que foram também nos anos 80 que a abertura política se efetivou em nosso
país. É claro que esses movimentos ganharam força também a partir disso,
entretanto, interessa olhar o abuso na amplitude que o tema merece e, por
isso, buscar seus “macrodeterminantes”.
Ainda antes, na história brasileira encontramos, reiteradamente, traços de uma “cultura autoritária” (Martins, 2002), a qual nos diz respeito
desde a chegada por aqui dos portugueses e, com eles, uma grande ânsia
de exploração, passando pela nossa longa história de escravidão, para
citar apenas alguns poucos momentos históricos, mas fundamentais na
determinação da cultura autoritária. Por isso, Martins (2002) diz que “a
cultura autoritária tem importância na definição de um conjunto de significações identitárias difusas que podemos chamar de brasilidade. Assim, por trás das aparentes cordialidades que marcariam os modos tradicionais de relacionamentos pessoais, existem clivagens rígidas que limitam o caráter democratizante dessas práticas afetivas e gentis” (p.66).
Algumas características definidoras do autoritarismo, portanto, vemos
fundamentar a identidade brasileira, a qual se relaciona com o abusador
sexual, como ficará mais claro mais adiante. São algumas dessas características do autoritarismo: a centralidade do princípio de autoridade, o comando irrefutável e obediência incondicional, a degeneração das figuras de autoridade, as restrições aos pluralismos de qualquer natureza e a ausência de
uma ideologia elaborada (Martins, 2002).
Retomando o tema específico do abuso sexual, considero que o
autoritarismo de nossa brasilidade, antes exercido no coletivo, hoje deu lugar
ao tirano do lar. Ou seja, o autoritarismo foi deposto, em grande parte, no
âmbito coletivo, mas, no meu entender, ressurgiu na vida privada. O abusador
de hoje parece ser o colonizador, ou senhor dos escravos, ou ditador, de ontem.
Sabe-se o quanto esses deslocamentos de uma posição para outra
bastante similar são sinais de que não houve verdadeira mudança. Ou mais
do que isso, que aquilo que a cultura não simboliza, pode vir a emergir em
atos, na medida em que, “o sintoma no laço social (...) se expressa por um
certo desajuste, como manifestação de um fenômeno do qual a ordem social
predominante não consegue dar conta, não consegue incluir”(Kehl, 2001).
Não poderíamos considerar o abuso sexual um sintoma social no Brasil (mesmo que seja um fenômeno internacional, importa aqui questioná-lo
na especificidade brasileira)? Não seria o não elaborado das relações de
autoritarismo – presentes nos fundamentos da brasilidade – que retornariam
agora na esfera privada? Mais especificamente, no Brasil moderno, não haveria uma dificuldade de distinguir o autoritário, da autoridade? As figuras de
autoridade em nosso país não ficaram marcadas justamente por seus abusos? Será possível para o brasileiro ter um laço com a autoridade, sem achar
que ele se tornará autoritário e o abusará?
Já está consagrada a interpretação sobre as mudanças, na modernidade, nas esferas pública e privada. O reconhecimento público que os
sujeitos almejavam, por intermédio de seu grupo social amplo, hoje é buscado no micro-organismo da família, ou mesmo em si mesmo. Antes, cada
sujeito sabia quem era, a partir do que a esfera pública lhe indicava como
posição. Atualmente, no coletivo não há respostas sobre isso; apenas a indicação social de que é individualmente que se deve encontrar uma saída.
Na formulação de Hannah Arendt o termo “público”, antes da nossa
atual modernidade, significava o próprio mundo, na medida em que reunia
uns na companhia dos outros, contudo, evitando que colidissem uns com os
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Lúcia Alves Mees
O
“
32
33
SEÇÃO TEMÁTICA
MEES, L. A. Os abusos do macho...
outros. “Na sociedade de massas, o mundo entre elas perdeu a força de
mantê-las juntas, de relacioná-las uma às outras e de separá-las” (p.62). Ou
ainda, que “durante muitas eras antes de nós – mas já não agora – os homens ingressavam na esfera pública por desejarem que algo seu, ou algo
que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas
vidas terrenas” (p.65). Quer dizer, a esfera pública cumpria a função simbólica de promover um laço entre os sujeitos, diferenciá-los entre si e, por conseguinte, fornecer um lugar particular a cada um. Ao fazer isso, o público
dava a possibilidade de transcenderem à vida real, ao realizarem atos simbólicos, com inscrição no social, que perdurassem além da vida real. Com a
transformação ocorrida na modernidade, essa função do público se esvazia,
transferindo-se, em parte, para o privado. Porém, tal alteração diminui em
muito a possibilidade do sujeito se reconhecer satisfatoriamente no âmbito
privado, na medida em que necessariamente precisa do Outro para fazê-lo.
Afora isso, o privado não deixou completamente de ser o sítio daquilo que o
sujeito esconde em si mesmo, no duplo sentido: aquilo que não se mostra
na cena pública e aquilo que ele tem a ocultar.
Para alguns sujeitos – e hipotetizo que assim seja para alguns dos
abusadores sexuais – essa transferência do público para o privado é intolerável. Não lhes é possível viver em tal suspensão de identidade subjetiva e
sexual, ou seja, não saber quem é, nem a que extrato sexual pertence. O
temor é de desfalecimento subjetivo e indefinição sexual, o que para alguns
homens significa o mesmo que não ser homem.
Alguns fatores sócio-econômico-culturais podem incrementar, ou mesmo definir, essa exclusão da definição subjetivo-sexual, ao situar – ainda mais
dramaticamente – o sujeito fora do laço cultural. Refiro-me aqui ao que – talvez
– dê conta dos abusadores de classes populares, os quais vivem a mais intensa marginalização na sociedade atual. Entretanto, obviamente, não deixamos
de considerar o abusador de classe média ou alta, sedento de um reconhecimento, mesmo que suas condições de fato não pareçam exclui-lo da cultura.
Provavelmente é por essas razões que o abusador é descrito, em
geral, como um homem aparentemente certinho, que não costuma ter outros
problemas com a lei, não “arranja encrenca” no trabalho, ou em qualquer
parte da vida social, pois, para ele, a demanda de reconhecimento está completamente dirigida à vida privada, portanto, a encenação de sua problemáti-
ca se dará entre quatro paredes. Ele é, assim, a caricatura da modernidade
brasileira: incapaz de diferenciar a autoridade do autoritarismo, pouco
expectante do grupo, politicamente indiferente, passivo na busca de transformações sociais, ou ainda mais, crédulo que é objeto do autoritarismo de um
outro (o amo capitalista, no mínino),
Como disse, nada é problematizado/anseado no âmbito público, pois
tudo é esperado da esfera privada, mais exatamente da esposa e filhos. Com
estes encena o pior drama: é implacável na demanda de reconhecimento, a
qual busca sem saber e, mais do que isso, sem que possa revelá-la. Se o
fizesse, a sua já desconfiança sobre sua falta de masculinidade se confirmaria, já que, supostamente, homens não pedem, mandam. E é isso que ele
faz, e muito e a qualquer preço. Tudo aquilo que acha que não recebeu na
vida, acredita – sem sabê-lo – que foi a família que recusou e espera poder
“tomar de volta”. Sua ascendência sobre a esposa, sua autoridade sobre os
filhos se desvirtua em domínio sobre eles. Quer dizer, na esfera privada, é a
autoridade em relação aos filhos e esposa que forneceria um parâmetro sobre o lugar do subjetivo e do masculino, mas o pedido de ganhar um lugar vira
anseio de dominação, a qual se estende a tudo dos familiares; seus corpos
que – acredita – podem ser usados, batidos, seviciados, sem limite e sem
diferença entre as posições na família. E, ainda por cima, sem culpa, pois
pode lhe parecer que age em “legítima defesa”, ou que não é culpado porque
está usando e abusando do que é “seu patrimônio”. Ele se torna, assim, o
autoritário doméstico, autoconvocado a “zelar” pela manutenção de um poder ilegítimo, pois calcado na violência e não no reconhecimento.
Assim como o autoritário coletivo, o abusador encarna a degeneração
da autoridade; exige uma obediência total, não possui um conjunto de idéias
que fundamente suas ações (pois, ou negam o abuso, ou dizem que era
natural que assim acontecesse), aplica o princípio da centralidade do poder
e exclusão de qualquer diferença.
Desse modo, forma-se um círculo vicioso: tenta encontrar o reconhecimento, usando armas que, de antemão, atestam o seu fracasso; demanda
reconhecimento exclusivamente no âmbito privado, fazendo-o desde um lugar que destrói a legitimidade da autoridade e responsabilizando o outro pelo
sem saída que ele mesmo se colocou. Assim sendo, a cena precisa ser
novamente repetida e mais uma vez encenada, numa elaboração que não tem
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
34
35
SEÇÃO TEMÁTICA
como se efetivar. O abusador, portanto, pune aqueles que supostamente ameaçariam sua posição. E é punição também, parece-me, a relação sexual que
vem a manter com a filha ainda criança. Com a mulher, em geral, não mantém
relações sexuais, pois esta poderia aproveitar do momento e sua função – crê
– é roubar como foi roubado. A filha não poderia gostar de transar, é uma
criança que ainda nem sabe bem o que é o sexo. A precocidade da proposta, logo, garantiria que o sexual seria uma punição e que ele, assim, seria o
único a gozar. Gozo com gosto de desforra, vil como uma vingança cruel.
Vêem-se aí os elementos fantasmáticos do abusador: a relação sexual como devolução forçada do que acredita ter sido usurpado de si mesmo, o
que implica que o outro nada ganhe, que esteja em pura entrega. Fazer ao
outro o que supõe ter sido feito consigo mesmo: atacado em sua ingenuidade, roubado em sua boa-fé nas pessoas e lançado a dar conta do que acha
que não tem como fazê-lo.
O que está, logo, excluído da cena é a autoridade naquilo que ela se
traduz em diferença: a que delimita os lugares diferenciados entre mulheres
e homens e entre crianças e adultos, a que distingue as posições na família
(e, logo, que uma filha não é amante) e, como já referi, distingue o legítimo
de um ato produzido a partir de um lugar de autoridade, em diferença à
deturpação disso, a qual se reverte em autoritarismo e abuso.
Para concluir, é condição para a existência dos “homens diferentes”,
citados no início, ou de um novo estatuto do masculino, que a consistência
anseada através do autoritarismo (de aí encontrar algo da identidade brasileira e masculina) dê lugar à diferença que não supõe hierarquia, mas sim a
inscrição de uma marca indelével – transmitida pela autoridade – a qual nem
batendo ou estuprando se apaga ou é substituída.
SEÇÃO DEBATES
BENJAMIN, OS BRINQUEDOS
E A INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA 1
Ana Marta Meira
M
emória dos brinquedos, memória do brincar, são processos que
Walter Benjamin analisa no livro Reflexões sobre o brinquedo, a
criança e a educação. Ao mesmo tempo em que realiza uma análise histórica, aponta para a crescente massificação própria da evolução industrial que acaba por inscrever o brinquedo em uma dimensão de homogeneização. O apagamento da singularidade, a “plastificação” dos brinquedos,
evoca a era social própria do capitalismo que avança revelando seus contornos no campo da infância. Neste sentido, os brinquedos evocam as formações do social, são objetos que revelam em sua configuração os traços da
cultura em que se inscrevem. A infância contemporânea apresenta traços que
nos remetem a pensar acerca do que se encontra apagado no brincar, hoje.
Das bonecas de porcelana às Barbies podemos transitar pela história
dos brinquedos que na contemporaneidade tende a ser homogênea, globalizada, apagando e gestando esquecimentos 2 ali onde se inscreveria a singularidade. A memória do brincar encontra-se apagada pelo excesso de estímulos oferecidos incessantemente, em um ritmo veloz e instantâneo3. A
1
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Arendt, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
_____. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
Kehl, Maria Rita. O sintoma no laço social contemporâneo. Transcrição de palestra proferida na UFRGS, 2001.
Martins, Paulo H. Cultura autoritária e aventura da brasilidade. In, Cultura e Identidade – perspectivas interdisciplinares. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
Mees, Lúcia A. Abuso sexual: trauma infantil e fantasias femininas. Porto Alegre:
Artes e Ofícios, 2001.
O presente trabalho faz parte da tese de mestrado em Psicologia Social e Institucional da
UFRGS, sobre “A Infância, o brincar e os ideais sociais contemporâneos ”, com orientação
de Edson Sousa.
2
Andreas Huyssen, Seduzidos pela memória, RJ, Ed. Aeroplano, 2000.
3
Encontramos no trabalho de Freud sobre os sonhos uma afirmação que é reveladora dos
efeitos dos sobre-estímulos sensoriais: “... Em igual sentido atua ao despertar o total apagamento da atenção pelo mundo sensorial, que com seu poder destrói quase a totalidade das
imagens oníricas, que fogem ante as impressões do novo dia, como ante a luz do sol o
resplendor das estrelas.” (p.375). Em A literatura científica sobre os problemas oníricos , A
interpretação dos sonhos, cap. I, Obras completas, Vol. I, Madrid, Ed. Biblioteca Nueva,
1973. Sendo o brincar tecido por devaneios, podemos pensar acerca dos efeitos da sobreestimulação em sua configuração. Observamos que o excesso de estímulos acaba por
apagar a possibilidade criativa da criança, na medida em que não possibilita o tempo de
suspensão necessário para a criação própria da brincadeira.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
36
37
SEÇÃO DEBATES
MEIRA, A. M. Benjamin, os brinquedos...
exaltação do objeto eleva minúsculos brinquedos à extrema potência, para
dali a alguns dias serem substituídos por outros, novas versões tecno do
mais avançado. Hoje, a dimensão do social confere ao sujeito um lugar onde
o singular encontra-se fragmentado na multiplicidade que o rege. Os brinquedos, como bem aponta Benjamin, refletem esta transformação. Acabam por
transformar-se em “brinquedos em série”4.
Hoje, os brinquedos mais prezados são os games, jogos virtuais que
não têm a mesma dimensão simbólica de uma brincadeira com carrinhos,
bonecas, ou outros objetos. Obviamente, são formas que as crianças encontram de falar deste universo que as cerca, de apropriar-se dele ao navegar
nas vias eletrônicas, mas a automatização que os rege apresenta efeitos de
apagamento do tecido social que se construiria em presença, mediante o
estabelecimento de laços de troca.
A dimensão com que os adultos encontram-se frente ao desfile de
objetos de consumo no social é marcante e opera de forma avassaladora o
apagamento da história, onde gestões de memória e esquecimento se enlaçam5. A referência ao que falta ou a um passado que confronte o sujeito com
esta dimensão se apaga e é considerada nostálgica. O “moderno” é não ter
a história como referência, prescindir do outro, ser autônomo, artificializado
em meio a um emaranhado sem fim de objetos sem nenhuma utilidade a não
ser a de sustentar a ilusão de uma completude impossível. Benjamin, a este
respeito, escreve: “A cega vontade de salvar o prestígio da existência pessoal, de preferência a destacá-la, pelo menos, através da soberana avaliação
de sua impotência e de seu embaraço, do pano de fundo do enceguecimento
geral, impõe-se quase por toda parte.” (p.24)6
Benjamin realizou vários escritos sobre os brinquedos e os livros infantis onde registra sua história e configurações ao longo do desenvolvimento industrial e pós-industrial. Remete-nos a museus de brinquedos onde se
encontram, entre outros brinquedos clássicos, bonecas de porcelana,
soldadinhos de chumbo, já na época em processo de “esquecimento”, conforme observa.
No séc. XIX vão surgindo os primeiros meios de diversão que possuem
traços da virtualidade: “Ainda mais profundamente do que por teatro de marionetes, somos introduzidos nos mistérios do mundo lúdico pelas câmaras ópticas,
pelos dioramas, mirioramas e panoramas 7, cujas imagens eram confeccionadas
em sua maioria na cidade de Ausburgo. “Já não se tem mais isto”, ouve-se
com freqüência o adulto dizer ao avistar brinquedos antigos. Na maior parte
das vezes isso é mera impressão dele, já que se tornou indiferente a essas
mesmas coisas que por todo canto chamam a atenção da criança.” (p.84)8,
comenta o autor. Benjamin realiza um interessante enlace entre a imagem e
o lúdico, prenúncio da evolução posterior do brinquedo, do jogo e do avanço
das transformações que se processariam neste campo na direção do virtual.
A partir da segunda metade do século XIX Benjamin aponta para a
mudança que se revela na forma dos brinquedos, que deixam de ser miniatu-
4
Benjamin, comentando a obra de Karl Gröber sobre a história do brinquedo aponta para o
mérito deste em “ter mostrado de maneira concludente que o brinquedo é condicionado pela
cultura econômica e, muito em especial, pela cultura técnica das coletividades.” (p.100), em
Brinquedos e Jogos, Reflexões sobre o brinquedo, a criança e a educação, SP, Ed. 34,
2002.
5
Andreas Huyssen, em Seduzidos pela memória, realiza uma análise dos processos de
gestão de memória e esquecimento que se operam na sociedade contemporânea: “A
crescente aceleração das inovações científicas, tecnológicas e culturais numa sociedade
orientada para o consumo e o lucro cria quantidades cada vez maiores de objetos, estilos de
vida e atitudes fadados à rápida obsolescência, e assim faz encolher efetivamente a duração temporal daquilo que pode ser considerado o presente, num sentido concreto. O aspecto temporal dessa obsolescência planejada é, evidentemente, a amnésia. (...) Seja um paradoxo ou uma dialética, a disseminação da amnésia na nossa cultura se faz acompanhar de
um incoercível fascínio pela memória e pelo passado.” (p.75-76) Op. cit.
38
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
6
Benjamin, Walter. Rua de mão única, op. cit.,p.24.
Em Infância em Berlim, Benjamin escreve sobre o Kaiserpanorama, descrevendo de
forma singular estes antigos aparelhos visuais coletivos: “No ano de 1822, Daguerre
inaugurara seu Diorama em Paris. Desde então essas caixas claras, cintilantes, aquários do
distante e do passado, aclimataram-se em todas as avenidas e bulevares da moda. Aí, como
nas passagens e quiosques, ocuparam esnobes e artistas antes de se transformarem nas
câmaras, onde, no interior, as crianças estreitavam amizade com o globo terrestre, de cujos
círculos o mais agradável – o meridiano mais belo e mais rico em imagens – atravessava o
Kaiserpanorama.” Em Rua de mão única, op. cit., p. 76.
8
Benjamin, Walter. Velhos brinquedos, em Reflexões sobre o brinquedo, a criança e a
educação, SP, Ed. 34, 2002.
7
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
39
SEÇÃO DEBATES
MEIRA, A. M. Benjamin, os brinquedos...
ras. Refere que estes objetos, próprios para o quarto de criança que na época estava sendo criado, prescindem dos cuidados maternos. Escreve: “...
em seus pequenos formatos, os voluminhos mais antigos exigiam a presença da mãe de maneira muito mais íntima; os volumes in quarto mais recentes, em sua insípida e dilatada ternura, estão antes determinados a fazer
vista grossa à ausência materna. Uma emancipação do brinquedo põe-se a
caminho; quanto mais a industrialização avança, tanto mais decididamente
o brinquedo se subtrai ao controle da família, tornando-se cada vez mais
estranho não só às crianças, mas também aos pais.”9
É interessante a observação de Benjamin sobre a transformação do
brinquedo como efeito da industrialização marcando o distanciamento entre
as crianças e seus pais que antes produziam-nos juntos. O autor aponta
para os objetos prediletos da criança no brincar: “Madeira, ossos, tecidos,
argila, representam nesse microcosmo os materiais mais importantes, e
todos eles já eram utilizados em tempos patriarcais, quando o brinquedo era
ainda a peça do processo de produção que ligava pais e filhos. Mais tarde
vieram os metais, vidro, papel e até mesmo o alabastro10.” Mais adiante,
afirma: “Conhecemos muito bem alguns instrumentos de brincar arcaicos,
que desprezam toda máscara imaginária (possivelmente ligados na época a
rituais): bola, arco, roda de penas, pipa – autênticos brinquedos, “tanto mais
autênticos quanto menos o parecem ao adulto”. Pois quanto mais atraentes,
no sentido corrente, são os brinquedos, mais se distanciam dos instrumentos de brincar; quanto mais ilimitadamente a imitação se manifesta neles,
tanto mais se desviam da brincadeira viva 11.”
Estes objetos que propiciam à criança o contato, a construção e a
deconstrução, encontrados nos mais insólitos lugares, produzem mais prazer à criança do que os brinquedos artificiais, até hoje. Mas observamos que
a preocupação extrema com a segurança, a higiene e a saúde, marcas ideais da sociedade contemporânea, acaba por revelar-se na dimensão dos
9
Idem, p. 91-92.
Idem, p.92.
Idem, p. 93.
10
11
40
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
brinquedos, que na maioria são plastificados, esterilizados, inquebráveis12.
No escrito Brinquedos e jogos, Benjamin analisa a repetição intrínseca ao brincar: “Sabemos que para a criança ela é a alma do jogo; que nada
a torna mais feliz do que o “mais uma vez”. ...Para ela, porém, não bastam
duas vezes, mas sim sempre de novo, centenas e milhares de vezes.” Nesta
passagem, ele evoca o duplo sentido da palavra jogos – spiele -, na língua
alemã13: “...talvez aqui resida a mais profunda raiz para o duplo sentido nos
“jogos” alemães: repetir o mesmo seria o elemento verdadeiramente comum.
A essência do brincar não é um “fazer como se”, mas um “fazer sempre de
novo”, transformação da experiência mais comovente em hábito.” Entre o
brincar e o jogar, o autor aponta as vias de confluência que os instalam em
uma direção própria da repetição, em que “o “de novo” é o prenúncio de uma
trajetória que não cessa14.”
A polissemia própria da palavra brincar, referida por Benjamin, também ocorre na língua inglesa: play pode ter o sentido de jogar ou brincar.
Cabe analisarmos esta dupla dimensão que é própria da intersecção entre o
jogo e o brincar15.
Os videogames são considerados brinquedos, mas seus roteiros evidenciam traços de jogos. Podemos colocar a questão referente ao duplo
sentido que opera em relação a este jogo virtual a partir da investigação
acerca do próprio estatuto do brincar, sintoma da infância. No caso dos games
evidencia-se que a dimensão virtual revela a subtração da relação da criança
com o processo de criação e ensaio imaginário e simbólico próprios do brincar,
12
A superproteção de muitos brinquedos modernos revela o excesso de preocupação com
a segurança e a saúde, que acaba por anestesiar o próprio processo de criação do brincar.
Nos próprios detalhes de sua descrição evidencia-se este excesso.
13
O tradutor do livro, nesta passagem, comenta que spiele, no original, pode ser traduzido
tanto por “jogos” como por “brincadeiras”; além disso, o verbo spielen, relacionado a esse
substantivo, tem, entre outros significados, o de “brincar”, “jogar”, assim como o de “representar” (no teatro, por exemplo)”. Benjamin parece aludir à polissemia desta palavra quando
fala do “duplo sentido nos “jogos” alemães.” (p.102), op.cit.
14
Idem, p.101-102.
15
Idem, p.101-102.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
41
SEÇÃO DEBATES
MEIRA, A. M. Benjamin, os brinquedos...
já que os processos dos games estão previamente determinados, convocando as crianças ao automatismo e à velocidade que são marca do social.
As imagens na contemporaneidade são marcadas por um culto
totêmico e a resistência a analisa-los é reveladora desta dimensão. Concede-se a estes jogos uma autonomia ilusória com a crença de que não produzem efeitos, como se fossem objetos “assépticos” em sua significação.
Benjamin refere-se às fantasias que a criança revela no brincar, nas
lutas, na destruição dos brinquedos. A diferença em relação aos games é
que nestes o roteiro da fantasia é pré-programado, sua travessia é virtual e
veloz, marcada pelo raciocínio. As lutas nos vídeos são narcísicas por excelência, sendo que a criança para jogar não necessita trocar com seus pares,
sendo remetida ao isolamento.
Escrevendo sobre a mimesis, Benjamin afirma que “Os jogos infantis
são impregnados de comportamentos miméticos, que não se limitam de
modo algum à imitação de pessoas. A criança não brinca apenas de ser
comerciante ou professor, mas também moinho de vento e trem. A questão
importante, contudo, é saber qual a utilidade para a criança desse adestramento da atitude mimética.”(p.108)16
A mimesis que se revela no brincar de “faz de conta” tem uma dimensão que se diferencia do jogo virtual. O trabalho psíquico de inventar o personagem17 e de vestí-lo imaginariamente com traços, palavras, gestos, colocando o corpo em jogo, encontra-se subtraído deste.
Poderíamos considerar os games como sendo vias de passagem do
brincar ao jogo. Hoje, muitas crianças não realizam esta travessia ou a abre-
viam, instalando-se em uma posição onde os jogos virtuais prevalecem precocemente sobre o brincar com brinquedos ou outras crianças.
As contribuições de Benjamin a respeito da história do brinquedo e
suas configurações sociais determinadas pela tecnologização crescente são
marcantes. Nestes pequenos objetos cotidianos da infância o social se revela nas dimensões que se estendem da cultura ao inconsciente.
A memória do brincar, hoje apagada pelo excesso paradoxal de oferecimento de objetos às crianças, pode ser resgatada através de novas vias
narrativas 18 que operem a aproximação da criança a seus pares e à cultura.
É através de sua transmissão que o brincar pode manter seu lugar de enlace
metafórico entre a criança e seu mundo. Transmissão que se opera para
além da pedagogização do brincar, referida várias vezes por Benjamin.
Em O narrador, Benjamin escreve: “Contar histórias sempre foi a arte
de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas. Ela se perde porque ninguém mais fia ou tece enquanto ouve a
história. Quanto mais o ouvinte se esquece de si mesmo, mais profundamente se grava nele o que é ouvido. Quando o ritmo do trabalho se apodera
dele, ele escuta as histórias de tal maneira que adquire espontaneamente o
dom de narrá-las. Assim se teceu a rede em que está guardado o dom
narrativo. E assim essa rede se desfaz hoje por todos os lados, depois de ter
sido tecida, há milênios, em torno das mais antigas formas de trabalho manual.” (p.205)19
Podemos refletir sobre a dimensão da memória e do esquecimento a
que Benjamin se refere em seus escritos sobre a infância como sendo tecida
a partir das trajetórias que fundam uma posição diante do mundo e da cultu-
16
Benjamin, Walter. A doutrina das semelhanças, Obras escolhidas – Magia e técnica, arte
e política, SP, Ed. Brasiliense, 1986.
17
Mostapha Safouan escreve sobre o processo psíquico em jogo no brincar, onde “ausência
e presença se integram um no outro; e essa integração é precisamente o que constitui a
essência da representação como tal: por exemplo, a do leão, ao qual seu nome, apenas,
basta para dar uma presença feita de sua própria ausência. Não há, em suma, tomada
possível no significante sem a posse in absentia do significado, do mesmo modo que não se
pode brincar com as ondas sem mergulhar na água.” (p.90) Em O fracasso do princípio do
prazer, Moustapha Safouan, Ed. Papirus, SP, 1988.
42
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
18
Sobre a narrativa, Benjamin escreve: “Esta não tem a pretensão de transmitir um acontecimento, pura e simplesmente (como a informação o faz); integra-o à vida do narrador, para
passá-lo aos ouvintes como experiência. Nela ficam impressas as marcas do narrador
como os vestígios das mãos do oleiro no vaso de argila.” (p.107) Em Obras Escolhidas III,
Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo, SP, Ed. Brasiliense, 1989.
19
Walter Benjamin, O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov, em Obras
escolhidas I, Magia e técnica, arte e política, SP, Ed. Brasiliense, 1986.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
43
SEÇÃO DEBATES
PEREIRA, R. DE F. Em busca da letra perdida...
EM BUSCA DA LETRA PERDIDA – UMA JORNADA
SOBRE LETRA, SIGNIFICANTE E OBJETO
ra. Ali onde a sociedade insiste em apagar sua história, ele registra com
preciosidades, com singulares descrições, com reflexões críticas, os pequenos detalhes que fundam o tecido que marca a vida cotidiana.
Robson de Freitas Pereira
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Benjamin, Walter – Reflexões sobre o brinquedo, a criança e a educação, SP, Ed.
34, 2002.
_____. Rua de mão única, Obras escolhidas II, SP, Ed. Brasiliense, 1993.
_____. Magia e técnica, arte e política, Obras escolhidas I, SP, Ed. Brasiliense,
1986.
_____. Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo, Obras Escolhidas
III, SP, Ed. Brasiliense, 1989.
Dean, Katie. Attention, Kids: play this game, em www.wired.com
Freud, S. A interpretação dos sonhos, Obras completas, Vol. I, Madrid, Ed. Biblioteca Nueva, 1973.
Gagnebin, Jeanne Marie – História e narração em Walter Benjamin, SP, Ed. Perspectiva, 1999
Huyssen, Andreas. Seduzidos pela memória, RJ, Ed. Aeroplano, 2000.
Meira, Ana Marta. Pequenos brinquedos, jogos sem fim, em Novos Sintomas, Ana
Marta Meira (org), Ed. Ágalma, Salvador, 2003.
_____. Palavras Mágicas: As crianças de hoje, em Revista da APPOA n.13, POA,
1997.
Porge, Erik. Os nomes do pai em J. Lacan, Companhia de Freud, RJ, 1998.
Safouan, Moustapha. O fracasso do princípio do prazer, Ed. Papirus, SP, 1988.
Wellens, M. Marc. Os primeiros jogos e os jogos da Antigüidade, Revue Musée du
Jouet, França, 2001.
Vandroux, Karine. Du jouet mécanique au jouet électronique Ou 150 ans de jouets
animés, de Jouet MAG ! N°14, décembre 2001.
44
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
O
conselho científico da Association Lacanienne Internationale fez uma
jornada no mês de fevereiro passado1. O tema da reunião era “Le
signifiant, la lettre, l’object: avec quoi travaillons-nous?”. O encontro
aconteceu nos dias 7 e 8 de fevereiro, no anfiteatro Charcot 2, do hospital
Salpêtrière, em Paris.
Ao propor discutir as diferentes abordagens destes conceitos
lacanianos, os organizadores procuraram dar espaço para a diversidade de
elaborações que os psicanalistas pudessem aportar, tanto na experiência
clínica quanto na tentativa de conceitualização. 3
Pois, como disse Christiane Lacôte na abertura dos trabalhos,
significante, letra e objeto não estão dados de antemão. “É preciso que nós
os trabalhemos como parte de nossa responsabilidade com a psicanálise”.
Foram dois dias de palestras e discussões onde o tema da letra, a
partir da psicanálise, foi um dos pontos fundamentais. Uma forma de tentar
elaborar uma prática, onde a letra seria tomada na direção lógica do inconsciente estar estruturado como uma linguagem.
Cyrill Veken com “L’être de la lettre” inicia dizendo que a letra não
existe, existem letras (parafraseando o aforismo lacaniano “A mulher não
1
Em outubro de 2002 aconteceu uma outra jornada a propósito do significante, da letra e do
objeto da qual resultou numa publicação que embasou os trabalhos de 2004.
2
Neste anfiteatro do hospital Pitié-Salpêtrière, Freud acompanhou as apresentações de
pacientes feitas pelo Dr. J. M. Charcot .
3
Criado em 2002, pouco depois da fundação da Association Lacanienne (a partir da Associação Freudiana Internacional), o conselho reúne psicanalistas de diversas instituições de
diferentes países e línguas que aceitaram o convite para trabalhar sobre questões relevantes para a psicanálise. Nas palavras de um de seus responsáveis, Claude Landman, falando
na abertura do encontro, o conselho nasceu do reconhecimento de que “não há instituição
lacaniana isoladamente”.
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
45
SEÇÃO DEBATES
PEREIRA, R. DE F. Em busca da letra perdida...
existe”). E esta letra se define basicamente por duas instâncias: sua distinção com as outras e sua relação com as outras letras em situações determinadas. Trouxe como exemplo o fato de que as letras USSR e CCCP (em
português URSS) perfazem uma sigla em línguas diferentes, tem grafias
diferentes mas tentam nomear o mesmo lugar. A instância da letra no inconsciente, de Lacan, falaria dos efeitos, dos jogos com a palavra e seus
desdobramentos, onde podemos acompanhar a elaboração lacaniana da letra como suporte do significante. Para C. Veken, a partir dos anos 70, Lacan
torna-se “joyceano”. Lituraterre e l’Etourdit são exemplos de textos abertos
ao jogo da letra. Razões? Falar como analisante implica mostrar em ato seu
atravessamento pela letra. Com uma diferença importante em relação à Joyce:
em Finnegans Wake parece haver relação sexual todo o tempo, “uma sorte
de incesto proposital”, no dizer do palestrante. Lacan, no L’etourdit, por exemplo, se diferenciaria radicalmente desta posição. Seguindo a discussão
provocada; em Joyce parece que a tentativa é constituir uma teologia invertida, tipo “eu sou o que não sou”, da qual os universitários vão se ocupar
(seguindo desejo expresso do autor como sabemos).
Patrick Vallas intitulou sua fala “Le désir est indestructible”. Para dar
conta dela fez um comentário da Terceira, de Lacan, seminário ao qual ele
assistiu e transcreveu ainda nos anos 70. Para Vallas, neste texto Lacan
retoma tudo o que disse anteriormente e anuncia/apresenta o nó borromeano.
Nele estaria indicado que o gozo tem antecedência sobre a representação, o
gozo do corpo é anterior ao significante. “Lituraterrorizer le monde”, afirmou o
autor para, em seguida, enunciar uma série de tópicos que tentavam abarcar
quase todas as questões atuais da psicanálise. Tais como: prática e discurso analítico poderiam ser lidos a partir da distinção entre RSI; o valor agalmático
do objeto e sua relação com o corpo; o Real volta sempre ao mesmo lugar,
impossível de dizer e de representar; a psicanálise é um sintoma que vem do
real e o sentido do sintoma é o real do seu gozo; se o psicanalista é que é o
sintoma da análise, qual o futuro da psicanálise? Ainda: no trato da língua e
do corpo o corpo goza e alíngua mortifica. E, para finalizar, a interpretação
está no equívoco (Lacan o reafirmou em diversas vezes), então torna-se necessário estarmos abertos a uma “poemática”, pois na relação da psicanáli-
se com a ciência e a religião a internet tem efeitos interessantes e os verdadeiros cientistas não são inimigos.
Para Roland Chemama, “Le travail du rêve” evidencia sua importância
porque, entre outras razões, na clínica nos permite sair do nível do enunciado. Para tentar articular os conceitos valeu-se do relato de um sonho pessoal produzido em sua última viagem ao Brasil, em 2003. São Luís do Maranhão
e os lençóis estão presentes. Luís, do Maranhão, mas também rei da França, santo. Diferença entre pai real e pai imaginário. Do pai real só podemos
falar metaforicamente, como num ato falho , por exemplo: trocar grãos de sal
(sale) por grãos de areia (sable). Neste caso, a letra seria algo que se destaca na palavra, que cai do significante, como nestas formações do inconsciente, onde a letra se revela mas não se reduz ao signo escrito. Nos comentários, foi lembrado que no sonho a dimensão transferencial e a relação com
o Outro são fundamentais porque quando falamos de desejo inconsciente
estamos nos referindo ao desejo do Outro.
J. P. Hiltebrand, com o título “Chercher la lettre?” parecia parafrasear o
mote “chercher la femme”. Sua pesquisa passou por diversos textos lacanianos
de onde ele extraiu observações tais como: só apreendemos a letra por seus
efeitos, por sua queda. Assim, atenção para as cadeias de Markoff evidenciadas no texto sobre A carta roubada. Lacan escreve que a função fálica está
ligada ao simbólico, mas também ao pulsional. Como? Seriam formas de
reconhecermos as incidências da letra no discurso. Em Lituraterre nem primazia, nem significante, a letra faz litoral. É uma via para o trabalho de
distinguir letra e significante: a função da letra faz litoral, entre a vida e morte.
Philippe Julien perguntava “Qu’est-ce-qu’à me dire cela, tu veux?“ e
respondia que não há significante sem letra, não há letra sem objeto (a), um
é condição do outro. Seguiu respondendo com um percorrido do conceito de
letra na obra de Lacan apontando diferentes modalizações. Em 64, por exemplo, a letra é identificada na falha, no sem sentido, na “rature”. Em 1971,
Lituraterre mais uma vez, ela faz litoral, faz borda no saber, como no sonho
freudiano: “pai não vês que estou queimando?”.
M. Strauss – com “Equivoque et lettre”, observa a passagem /ultrapassagem do plano das identificações a partir de Variantes da Cura e, sobretudo nos seminários Angústia, Os quatro conceitos fundamentais da psica-
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
46
47
SEÇÃO DEBATES
PEREIRA, R. DE F. Em busca da letra perdida...
nálise e seguintes nos quais aparece uma concepção mais elaborada de
objeto a. Isto possibilitou avançar sobre questões a respeito do fim de análise, passe e transmissão onde conceituações como ultrapassagem do fantasma, destituição subjetiva e, depois, identificação ao sintoma/sinthoma
tomam importância crescente. Joyce, le sinthome apresenta uma relação
com a escrita muito particular, onde a questão sobre a diferença entre escritos inspirados e impostos fica a ser trabalhada.
Charles Melman apresentou uma dupla questão: 1. Há no Outro um
texto que nos espera?, ou 2. Não há qualquer sentido no Outro, apenas uma
estrutura literal? Apenas suporte material? O real é um efeito de escritura (ou
estrutura) que nos interroga sobre o bem fundado de nossa leitura. Será que
teríamos que vir para uma jornada repetir que nossa leitura é a correta? A
Torá, texto fundamental para a cultura judaica, só tem consoantes, exige
que cada um leia e coloque algo de si. No entender de Strauss é uma questão complexa, mas talvez se trate um pouco do exercício das duas posições
citadas.
Claude Jeangirard, “L’inscription et le corps”, fala de sua longa experiência clínica como psiquiatra e descreve como a psiquiatria define e situa a
psicose, principalmente seus impasses com a esquizofrenia. “Durante a II
Guerra, contabilizaram-se 40 mil mortos nos asilos” afirmou Jeangirard. “Hoje
vivemos a diabolização dos asilos”, continuou, “porém é preciso reconhecer
o retorno do recalcado, sem desconhecer que a função do Estado precisa
ser repensada”.
Para ele a esquizofrenia parece ainda não ter lugar no espaço do
significante. Na maioria dos casos, os pacientes quando não estão internados, vivem em casa, geralmente com a mãe. A crise esquizofrênica coloca
em cena um corpo inerte, caído por terra, sem iniciativa própria que subverte
qualquer situação de senso comum. “Os tratamentos psiquiátricos tentam
controlar o delírio e não atentam para o corpo pulsional”, continua o médico,
“há um silêncio, um desinvestimento do corpo e um desinteresse por qualquer atividade terapêutica por parte do paciente”. Um outro aspecto ressaltado foi o das relações com os monitores e a dimensão privilegiada do olhar
e da voz. No hospital as relações são diretas com o monitor, principal figura
de referência.
Anne Lehmann , com “Reel du corps, marque, signifiant, lettre” apresentou um caso clínico para pensar as diferenças e articulações entre uma
clínica do significante e a clínica do real. Na primeira o fantasma seria privilegiado através do sentido e dos buracos no sentido e, na segunda o real faria
com que o sentido estivesse articulado com o gozo. Onde a colisão entre a
marca no corpo e a história do sujeito possa funcionar como uma abertura, a
partir do que é “lisible”. Tratava-se do relato de uma paciente hospitalizada
após uma reconstituição mamária, pós mastectomia.
Claude Dumézil – “Le signifiant, la lettre dans la cure: ancrage et
déliaison” lembrou inicialmente o seminário da Transferência e a menção de
Lacan ao trabalho de Paul Claudel onde logo no início da trilogia sobre o pai
aparece a invenção de uma letra para designar o nome próprio do personagem: “Signe de Coûfontaine”. A partir desta elaboração Dumézil trabalhou
com exemplos de sua própria experiência cotidiana e clínica. Com um de
seus netos para abordar as questões da letra e da nominação. O avô deseja
ensinar como quer ser chamado pelo neto (Arthur Dumézil), quer fazer valer
uma certa tradição familiar. Ele (Claude) e seu filho(pai do menino) tratam-se
afetivamente por “Dume”, contração do nome de família. O menino chama de
Mani a avó Monique. Quando o menino aponta para o avô, este lhe repete
Dume, dume. Ao que o neto responde Manu. Vovó Mani e vovô Manu. A
troca de uma letra do nome joga um fator preponderante. Apesar de não
atender inteiramente a demanda de Claude, preservou uma letra do nome
Dume, a letra u. Assim, o avô fracassa em sua intenção, mas aprende a rir
com seu desejo.
Mark Morali, “L’accident Occident”. O ocidente é um caso clínico,
afirmou em determinado momento. Utilizou-se de uma leitura particular de
Lituraterre. Lacan fala da paisagem, da precipitação da chuva entre as nuvens, da pintura, do teatro. Moralli vai buscar Giorgio Agamben e seu textos
sobre a paisagem, um lugar de enigma e extimidade. Comentando a relação
entre o teatro ocidental e o teatro japonês fica mencionada esta questão de
quebrar o ideal do Um e ainda assim buscar uma “cor (p)respondance”. Nas
discussões perguntava-se: será a letra um acidente? Ou pelo menos a marca dele. A letra não se resume a sua representação alfabética. “Parece que
estamos fetichizados pela busca da letra”, ao que acrescentaríamos: estamos
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
48
49
SEÇÃO DEBATES
PEREIRA, R. DE F. Em busca da letra perdida...
capturados pela busca de uma imagem, pelo grafismo da imagem da letra.
Gerard Pommier, trabalha “Relation de l’object pulsionnel à la cause
du désir”. Com sua intervenção retoma pressupostos freudianos para pensar
com Lacan que a relação “causa do desejo” e “objeto causa do desejo” está
para ser questionada. O desejo sexual, orientado pelo fantasma é uma relação de negação com relação a pulsão. O desejo se apóia sobre uma pulsão
que ele negativiza. “É o fantasma que erogeiniza a pulsão”, afirma Pommier
e segue: “A sexualidade dita ‘adulta’ se orienta pelo fantasma, em oposição
à sexualidade perversa polimorfa infantil apoiada na pulsão. Uma análise
termina quando o desejo começa. Como o desejo em si é inanalisável, podemos tentar modestamente, permitir que o desejo não adoeça”.
A partir deste ponto, a fala de G. Pommier foi construindo uma elaboração sobre a pulsão e “suas vicissitudes” com os respectivos efeitos para o
sujeito. A passagem da atividade para a passividade estaria neste percurso.
A masturbação infantil faria frente à sexualidade polimorfa, sendo uma maneira de romper com a demanda materna. Como dar-se-ia a passagem da
masturbação-autoerótica para a sexualidade com o outro? Na adolescência,
por exemplo, esta passagem está articulada com o movimento da endogamia
para a exogamia das relações familiares. A pulsão incestuosa na família é
transformada em impulso à exogamia. Um auto-erotismo a dois que implica
uma relação ao semelhante regida pela busca de satisfação. A demanda
narcísica, a demanda de amor, implica o ciúme como algo de estrutura onde
se reativam situações novas e antigas. Antiga porque reaviva o Édipo. O
recalcamento do pulsional implica reviver o conflito edípico em sua face traumática, com uma novidade: penetrar o corpo do outro é traumático e o sujeito tem que descobrir nisto um novo prazer. Nas discussões, J. J. Moscovici
sublinhou a questão do objeto a partir da constatação de que desejo sexual
é diferente da atividade sexual.
C. Hoffmann – “Ce qui le signifiant résonne” retoma algumas considerações contidas no “sinthome” e no neologismo lacaniano “sintomadaquin”
para reafirmar que é pelo equívoco que combatemos o sintoma. “Réson”,
homofônico de “raison” alude à consonância do símbolo, algo que já estaria
presente na estética tomista e que Lacan se utiliza para demonstrar a mudança de paradigma na própria psicanálise. Lembra as Conferências nos
EUA, na universidade de Columbia, onde segundo ele Lacan estaria apontando esta aproximação entre a interpretação e o som4. Para pensar como a
voz se transforma em letra, C. Hoffmann retomou F. de Saussure, M. Safouan
em sua “lacaniana” e J. Aubert que em seu mais recente trabalho aponta o
valor fonético para o sentido da identificação. Pierre C. Cathelineau afirmou
nos debates que o trabalho do “sinthome” ao distinguir símbolo e sintoma
retoma a função da dupla verdade em Santo Tomás de Aquino.
A discussão sobre Joyce continuou tendo seus ecos ao ser lembrado
que no escritor irlandês seu sintoma é o Ego, no qual sua escrita não dá
conta de parar e assinalar o lugar do sujeito. Joyce tentaria vencer o impossível pela escrita. Talvez valesse a pena dizer que as articulações Lacan/
Joyce ainda esperam mais trabalho (como uma ironia do desejo) e que o
suporte da escrita em Joyce também está referenciado, principalmente, na
música; pois sua admiração pela música se traduzia em sua vontade de
cantar, criticar, se comprazer em escutar e, fundamentalmente conseguir
transportar esta musicalidade para o texto.
Charles Melman, “Structuré comme um language”, o que isto quer
dizer perguntava? Qual a diferença entre estrutura do Ics e da linguagem?
Antes da pergunta, ele fizera a observação: “é normal que tentemos mostrar
nossa qualidade de leitores de Freud e Lacan. Não nos esqueçamos, porém,
de nossa prática na qual encontramos dificuldades. É importante compartilhar as dificuldades”. Assim, após as considerações sobre a questão do “
como uma linguagem”, Melman retornou aos conceitos, “tentando fazer valer
sobre o que nós trabalhamos”. O inconsciente é este tecido, seqüência de
letras que fala a intimidade do sujeito, apesar dele. Uma das conseqüências
clínicas , para o obsessivo, por exemplo, é que na relação com o objeto, ele
se recusa a separar-se do objeto a. Mesmo nos pensamentos inaceitáveis
de uma mãe para com seu filho – sádico-anais por exemplo, o que fala é o
objeto, deixando o sujeito apavorado. O obsessivo se esforça pelo
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
50
4
A respeito das conferências de Lacan nos EUA é de se notar que elas foram proferidas
logo após o início do seminário “Le sinthome” e pouco depois da conferência de junho/75
“Joyce le sinthome”. Além disto, Sherry Turkle nos faz um interessante e detalhado relato
destes episódios nos Estados Unidos em seu livro “Psichoanalysis and politics”
51
SEÇÃO DEBATES
RESENHA
empilhamento de significantes para fazer Um. Mas a causa do desejo é a
queda da letra, não o Um fálico.
Nossa resistência é de liquidar a transferência. E a letra torna-se objeto real de nosso gozo. Se tornamo-nos analistas é para ser um verdadeiro
objeto de gozo5.
Quanto ao gozo da escrita, talvez fosse interessante retomar antigas
discussões sobre a relação da mulher com a escrita. Lacan falou no caráter
feminizante da escrita. O dito: no começo era o verbo, denuncia a queda do
verbo. Indica a vigência do gozo fálico. Gozamos desta instância, este gozo
fora do corpo. No Homem dos Ratos as letras W L K poderiam suscitar a
pergunta: qual o sentido desta escrita? Talvez denunciar o Wolf – le Loup – a
boca aberta que nos ama e pode nos engolir.
OUTRAS LETRAS/OBSERVAÇÕES
O encontro foi marcante por vários aspectos, entre eles o fato de fazer
trabalharem juntos psicanalistas de diferentes instituições e lugares. Aceitar
escutar o diferente, é um exercício saudável de heteronomia, principalmente
onde as barreiras transferenciais, de língua e cultura já fazem suficiente obstáculo. A proposta de abrir espaço para as dificuldades e superar o impulso
de apresentar a melhor leitura de Freud e Lacan também é interessante.
Neste sentido, os psicanalistas americanos (leia-se latinoamericanos, brasileiros e mesmo norte-americanos) poderiam dar uma contribuição nas próximas edições das jornadas do conselho científico. Trata-se de um trabalho
em andamento para o qual não existem fórmulas mágicas, tampouco garantias de seu desdobramento a não ser o desejo de seus participantes de fazer
vigorar um conselho científico que interrogue os efeitos de transmissão do
discurso psicanalítico. Não é pouca coisa.
5
No melhor dos casos, conseguiríamos fazer semblante de objeto causa do desejo e,
simultaneamente aceitar ser o resto da operação – vide o discurso do analista. O que já seria
uma forma de “valorizar os benefícios” da própria análise.
52
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
TATUAGEM E MARCAS CORPORAIS
COSTA, Ana. Tatuagem e marcas corporais. Ed. Casa do
Psicólogo, São Paulo, 2003. 144p.
A
o terminar de ler o livro “Tatuagem e marcas corporais”, ocorreu-me a seguinte
questão: poderíamos fazer um paralelo
entre as letras escritas sobre uma folha de papel e uma tatuagem que se faz sobre a pele?
Certo, não se trata do mesmo invólucro corporal, mas em todo caso, tanto numa quanto noutra produção coloca-se em jogo uma série de
representações e de criações próprias da condição humana.
O terceiro livro de Ana Costa, editado pela Casa do Psicólogo, dentro
da série Clínica Psicanalítica, produz, na verdade, uma série de interrogações e de esclarecimentos quanto a função que a tatuagem, o piercing,
entre outras marcas corporais, têm na nossa cultura. Ou melhor, todos esses nem tão modernos adereços trazem, em torno de si, uma história e uma
incidência psíquica muito mais elaborada que a de um simples enfeite e, na
verdade, têm sido pouco discutidos apesar da sua constante presença no
nosso dia-a-dia.
Um dos grandes trunfos dessa obra é destacar e fornecer elementos
para que possamos refletir, do ponto de vista psicanalítico, sobre o uso cada
vez mais atual e corriqueiro da incidência do olhar sobre o corpo. Como se
pudéssemos pensar no corpo como o palco onde acontece o espetáculo da
vida. E como sabemos, um espetáculo precisa ter um cenário, por mais
simples que seja. Então, por que não uma tatuagem?
Óbvio que a obra vai mais além do que analisar o valor estético desses
adornos, mesmo que isso já não fosse tarefa das mais simples. Mas quando
seguimos o roteiro proposto pela autora, avançamos naquilo que é seu objetivo: analisar o entendimento das produções humanas, ou seja, o que há de
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
53
RESENHA
RESENHA
constante, o que há de permanente na criação, e o que revelam as produções humanas no específico de sua cultura.
Para conceber sua obra, Ana Costa estabelece alguns pressupostos
que ajudam a entender o quanto as produções ditas individuais são, na verdade, construções de incidências individuais/sociais. Dizendo de outra forma, a fita moebiana (que, aliás, daria uma bela tatuagem!) serve como um
paradigma para toda e qualquer representação humana. Podemos tomar como
exemplo, as chamadas bordas corporais (nesse sentido, as tatuagens, e os
piercings são formas de fazer bordas, de situar os limites corporais) que, ao
mesmo tempo, delimitam um corpo “interior” e são o ponto de contato com o
“exterior”. Esse é um exemplo simples, mas que serve para situar a abordagem estabelecida pela autora com as produções humanas, das quais somos feitos e efeitos.
Ao longo do livro, outros exemplos surgem de forma a precisar o lugar
na cultura que as tatuagens e o uso de piercings têm e tiveram desde o seu
surgimento. Claro, não seria de estranhar que, por muito tempo esses adereços servissem para marcar os degradados, os excluídos, os hereges, os
homossexuais. Assim, o corpo servia como suporte para a representação de
algo, de uma marca que designava uma forma identitária – um estigma –
pois a ausência destas marcas no corpo, de alguma maneira, serviria para
demarcar o caráter sacro no seu viés cristão. Em razão disso, o uso da
tatuagem e do piercing ficou recalcado na cultura ocidental, o que lhes dá
um ar de aparente modernidade. Isto para destacar um ponto do livro.
Um outro aspecto que merece consideração é a análise que a autora
faz a respeito da posição do sujeito quanto ao uso da tatuagem e do piercing
e, mais ainda, das escarificações frente à posição sado-masoquista. Poderíamos ser mais precisos dizendo que a autora retoma a idéia freudiana das
disposições do sujeito frente ao Outro, tanto na sua versão ativa quanto
passiva, para marcar a possibilidade de um apagamento subjetivo frente ao
ato. Posição que parece ser bastante corriqueira nos tempos atuais, onde
parece haver um incentivo à subtração do sujeito frente ao seu ato. Mas,
além disso, ajuda-nos a pensar o quanto a circulação entre as posições
ativas e passivas tem conseqüências clínicas importantes quanto ao estabelecimento de uma circulação fálica.
Outro detalhe que chama a atenção nesse livro, entre outros pontos
mencionados, é a possibilidade de transpor o diálogo que fazemos com o
texto facilmente para um diálogo com a clínica psicanalítica do dia-a-dia. A
sua leitura traz elementos que nos permitem, sem dúvida, estabelecer e
repensar o mais vivo da experiência clínica. Das escolhas das representações feitas pelos sujeitos em diferentes momentos de suas análises, bem
como, nas suas construções fantasmáticas. Como, por exemplo, aquele
paciente que chega para lhe contar da escolha do desenho de sua tatuagem
que, segundo ele, embeleza seu corpo, ou o momento da tomada de decisão de fazer em seu corpo uma outra borda, que serviria como uma maneira
de ultrapassar um momento dado da existência. Momento onde o fazer outro
corpo torna-se imperativo.
O livro de Ana Costa está dividido em dezesseis capítulos, sendo que
no seu transcurso a autora propõe e estabelece um rico diálogo com a obra
de Freud e de Lacan, de onde retira e aprofunda, com rigor e precisão, conceitos próprios e caros à psicanálise. Mas, além disso, propõe, também, um
diálogo com outros pensadores da cultura e da psicanálise que lhe auxiliam
a compor um panorama sobre o tema de maneira a deixar no leitor a impressão de que, definitivamente, se está caminhando num fértil terreno, onde há
muitas marcas e questões a serem feitas.
Boa leitura.
C. da APPOA, Porto Alegre, 123, abr. 2004
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
54
Otávio Augusto Winck Nunes
55
AGENDA
Capa: Manuscrito de Freud (The Diary of Sigmund Freud 1929-1939. A chronicle of events
in the last decade. London, Hogarth, 1992.)
Criação da capa: Flávio Wild - Macchina
ABRIL – 2004
Dia
08, 15,
22 e 29
05 e 19
08
16 e 30
12 e 26
16 e 30
22
Hora
19h30min
Local
Sede da APPOA
Atividade
Reunião da Comissão de Eventos
20h30min
21h
8h30min
20h30min
16h15min
21h
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Sede da APPOA
Reunião do Serviço de Atendimento Clínico
Reunião da Mesa Diretiva
Reunião da Comissão de Aperiódicos
Reunião da Comissão do Correio da APPOA
Reunião da Comissão da Revista da APPOA
Reunião da Mesa Diretiva aberta aos Membros da APPOA
ASSOCIAÇÃO PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE
GESTÃO 2003/2004
Presidência: Maria Ângela C. Brasil
a
1 Vice-Presidência: Mario Corso
2a Vice-Presidência: Ligia Gomes Víctora
1a Secretária: Marieta Rodrigues
2a Secretária: Marianne Stolzmann
1a Tesoureira: Grasiela Kraemer
2a Tesoureira: Luciane Loss Jardim
MESA DIRETIVA
Alfredo Néstor Jerusalinsky, Ana Maria Medeiros da Costa, Ângela Lângaro Becker,
Carmen Backes, Clara von Hohendorff, Edson Luiz André de Sousa,
Gladys Wechsler Carnos, Ieda Prates da Silva, Jaime Betts, Liliane Seide Froemming,
Lucia Serrano Pereira, Maria Auxiliadora Pastor Sudbrack, Maria Beatriz Kallfelz,
Maria Lúcia Müller Stein e Robson de Freitas Pereira
EXPEDIENTE
Órgão informativo da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre
Rua Faria Santos, 258 CEP 90670-150 Porto Alegre - RS
Tel: (51) 3333 2140 - Fax: (51) 3333 7922
e-mail: [email protected] - home-page: www.appoa.com.br
Jornalista responsável: Jussara Porto - Reg. n0 3956
Impressão: Metrópole Indústria Gráfica Ltda.
Av. Eng. Ludolfo Boehl, 729 CEP 91720-150 Porto Alegre - RS - Tel: (51) 3318 6355
PRÓXIMO NÚMERO
CONVERGÊNCIA E PSICANÁLISE
C. da APPOA, Porto Alegre, n. 123, abr. 2004
Comissão do Correio
Coordenação: Marcia Helena de Menezes Ribeiro e Robson de Freitas Pereira
Integrantes: Ana Laura Giongo, Fernanda Breda, Gerson Smiech Pinho,
Henriete Karam, Liz Nunes Ramos, Maria Lúcia Müller Stein,
e Rosane Palacci Santos
S U M Á R I O
EDITORIAL
1
NOTÍCIAS
2
SEÇÃO TEMÁTICA
NOS TEMPOS DO
MULTISSEXUALISMO
Alfredo Jerusalinsky
DIFERENÇAS SEXUAIS
Contardo Calligaris
EXISTEM MESMO “AS MULHERES”?
Maria Rita Kehl
ALGUMAS QUESTÕES
SOBRE O MASCULINO HOJE
Maria Ida Fontenelle
AS FILHAS DE ALICE
(OS DESAFIOS DAS MULHERES
PARA ESTE SÉCULO)
Diana Lichtenstein Corso
OS ABUSOS DO
MACHO BRASILEIRO
Lúcia Alves Mees
SEÇÃO DEBATES
BENJAMIN, OS BRINQUEDOS E A
INFÂNCIA CONTEMPORÂNEA
Ana Marta Meira
EM BUSCA DA LETRA PERDIDA –
UMA JORANDA SOBRE LETRA,
SIGNIFICANTE E OBJETO
Robson de Freitas Pereira
RESENHA
“TATUAGEM E
MARCAS CORPORAIS”
AGENDA
6
N° 123 – ANO XI
ABRIL – 200 4
7
11
15
20
25
32
37
37
45
53
53
56
DIFERENÇA SEXUAL
Download

EDITORIAL Adoro um amor inventado”, cantava Cazuza, intuindo