ÁREA DE VIDA E USO DE HÁBITAT DE TAMANDUÁ-BANDEIRA - Myrmecophaga
tridactyla Linnaeus, 1758 - NAS FAZENDAS NHUMIRIM E PORTO ALEGRE,
PANTANAL DA NHECOLÂNDIA, MS.
ÍSIS MERI MEDRI
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação
em
Ecologia
e
Conservação,
da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, como
parte dos requisitos para a obtenção do título de
Mestre.
ORIENTADOR: Dr. GUILHERME DE MIRANDA MOURÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
CAMPO GRANDE – MS
2002
ÁREA DE VIDA E USO DE HÁBITAT DE TAMANDUÁ-BANDEIRA - Myrmecophaga
tridactyla Linnaeus, 1758 - NAS FAZENDAS NHUMIRIM E PORTO ALEGRE,
PANTANAL DA NHECOLÂNDIA, MS.
ÍSIS MERI MEDRI
Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação
em
Ecologia
e
Conservação,
da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, como
parte dos requisitos à obtenção do título de Mestre.
BANCA EXAMINADORA:
_______________________________
________________________________
Dr. Guilherme de Miranda Mourão
Dr. Flávio H. G. Rodrigues
Embrapa Pantanal
Fundação Pantanal ComCiência
_______________________________
________________________________
Dr. Rodiney de Arruda Mauro
Dr. Franco Leandro de Souza
Embrapa Gado de Corte
UFMS
TAPERAMBULANDO
Lá vem um tamanduá-bandeira
perambulando pela grama verde
Faz ares de desconfiado ao sentir meu cheiro
Faz ares de apaixonado
Mudam-se dias, mudam-se noites
E muda meu pensamento
Se às vezes choro noutras vezes rio...
mas sem peixes.
Ísis
agosto/2001
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ..............................................................................................
i
LISTA DE FIGURAS ................................................................................................
iii
LISTA DE TABELAS ................................................................................................
v
LISTA DE APÊNDICES ............................................................................................
vi
CAPÍTULO I - “Um novo método de monitorar tamanduá-bandeira em curto espaço de
tempo”.
RESUMO ....................................................................................................................
1
INTRODUÇÃO ...........................................................................................................
2
MATERIAL E MÉTODOS ........................................................................................
3
Área de estudo ...................................................................................................
3
Coleta de dados ..................................................................................................
3
RESULTADOS .............................................................................................................
6
DISCUSSÃO .................................................................................................................
8
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..........................................................................
10
CAPÍTULO II – “Área de vida e uso de hábitat de tamanduá-bandeira - Myrmecophaga
tridactyla Linnaeus, 1758 nas Fazendas Nhumirim e Porto Alegre, Pantanal da
Nhecolândia, MS”.
RESUMO ......................................................................................................................
12
INTRODUÇÃO ............................................................................................................
13
MATERIAL E MÉTODOS ........................................................................................
16
Área de estudo ...................................................................................................
16
Coleta de dados .................................................................................................
18
RESULTADOS ............................................................................................................
25
Área de vida por rádio-telemetria convencional ...............................................
25
Uso de hábitat e atividade por rádio-telemetria convencional ..........................
30
Área de vida pelo método GPS modificado ......................................................
35
Uso de hábitat e atividade pelo método GPS modificado .................................
37
Injúrias nos animais monitorados ......................................................................
42
Dieta ...................................................................................................................
42
Ectoparasitas ......................................................................................................
43
Comportamento ..................................................................................................
48
DISCUSSÃO ..................................................................................................................
52
Recomendações para estudos futuros ................................................................
60
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................
62
APÊNDICES ..................................................................................................................
70
i
AGRADECIMENTOS
- Ao Dr. Guilherme de Miranda Mourão pela orientação assídua, paciente, e sobretudo amiga
neste trabalho.
- À Conservation International, especialmente ao Reinaldo F. F. Lourival e à Mônica Harris,
pelo financiamento de rádio-transmissores VHF e unidades de GPS.
- À Embrapa Pantanal pelo apoio logístico.
- À Gláucia Helena Fernandes Seixas pelo empréstimo de materiais de rádio-telemetria e
valiosas dicas.
- Aos professores e funcionários do Mestrado em Ecologia e Conservação da UFMS e
CAPES pela bolsa concedida durante dois anos.
- Aos funcionários da Fazenda Nhumirim que, além de dirigirem o veículo, foram
imprescindíveis na captura e contenção dos tamanduás-bandeira: Henrique de Jesus, Armindo
Angelo Gonçalves, Maciel de Arruda Ferreira, Márcio da Silva, Sebastião de Jesus, Sebastião
Murilo Maciel, Vandir Dias da Silva e Roberto dos Santos Rondon.
- Às funcionárias da Fazenda Nhumirim pela colaboração sempre presente: Aide Medeiros de
Barros, Maria Aparecida de Lima (Jô), Maria Adineize Medeiros de Jesus e Kátia Aparecida
Medeiros de Jesus.
- Ao Luís Carlos Fernandes dos Santos, funcionário da Fazenda Rio Negro, que auxiliou na
captura e contenção de dois tamanduás-bandeira.
- Ao pessoal do Centro de Reabilitação de Animais Silvestres - CRAS, em Campo Grande –
MS, especialmente aos veterinários Marcos Adalberto Lenharo e Jaqueline Marques de
Oliveira, aos auxiliares Vandir Fernandes da Silva e Genivaldo Alencar e à bióloga
ii
Alessandra Mara Sá Firmino, pela aula prática de captura e contenção física e química de um
tamanduá-bandeira que estava em cativeiro, garantindo experiência e segurança para minha
primeira captura e contenção desta espécie em campo.
- À Equipe da GIROS Produções, no Rio de Janeiro, especialmente à: Cláudia Lima, Beto
Campos, Luís Antonio Silveira e Pedro Faria, pela divulgação do nosso trabalho através da
produção do documentário “Novos Heróis” exibido no canal Animal Planet no dia
25/11/2001.
- Ao Guilherme Henrique B. de Miranda pela gentileza em ceder material bibliográfico e
pelas conversas sobre tamanduá-bandeira.
- Ao Flávio H. G. Rodrigues pela amizade, sugestões durante o trabalho e pelas fotos de
tamanduá-bandeira cedidas.
- Ao Dr. João Ricardo S. Martins, do Centro de Pesquisa Veterinária Desidério Finamor CPVDF, em Eldorado do Sul – RS, pela identificação dos ectoparasitas dos tamanduásbandeira.
- À Prof. Ana Yoshi Harada, do Museu Emílio Goeldi, em Belém – PA, pela identificação das
espécies de formigas, e ao Prof. Reginaldo Constantino, da Universidade de Brasília – DF,
pela identificação dos cupins que os tamanduás-bandeira utilizaram como alimento.
- A minha família, aos amigos e amigas por participarem de forma indireta neste trabalho,
garantindo força contínua e mantendo viva minha energia em todos os momentos.
- Um obrigado especial a todos os tamanduás-bandeira que participaram deste trabalho.
Abraço e beijo de tamanduá...
iii
LISTA DE FIGURAS
CAPÍTULO I
FIGURA 1 – Aparelho GPS modificado .................. ..................................................... 4
CAPÍTULO II
FIGURA 1 – Mapa de localização da área de estudo ..................................................... 17
FIGURA 2 – Tamanduá-bandeira #2 sob efeito de anestesia ......................................... 20
FIGURA 3 – Aparelhos de rádio-telemetria VHF........................................................... 21
FIGURA 4 – Curva de área acumulada para os tamanduás-bandeira monitorados no
Pantanal da Nhecolândia ................................................................................................27
FIGURA 5 – Áreas de vida de cinco tamanduás-bandeira monitorados no Pantanal da
Nhecolândia ....................................................................................................................29
FIGURA 6 – Número de observações dos tamanduás-bandeira monitorados
(#2 a #6) em atividade e em repouso em função do hábitat ........................................... 33
iv
FIGURA 7 – Repouso (0) e atividade (1) dos tamanduás-bandeira em relação
à hora (a) e à temperatura (b) .......................................................................................... 34
FIGURA 8 – Área de vida obtida por rádio-telemetria VHF e estimada segundo o
método do Mínimo Polígono Convexo e rota dos tamanduás-bandeira obtidas pelo
método GPS modificado .................................................................................................36
FIGURA 9 – Distância percorrida pelo tamanduá-bandeira #2, em relação à hora do
dia e temperatura .............................................................................................................39
FIGURA 10 – Distância percorrida pelo tamanduá-bandeira #3, em relação à hora do
dia e temperatura ............................................................................................................ 40
FIGURA 11 – Escavação no solo feita por tamanduá-bandeira ..................................... 49
FIGURA 12 – Tamanduá-bandeira #2 tomando banho-de-sol num dia frio .................. 49
FIGURA 13 – Tamanduá-bandeira #2 protraindo a língua logo após acordar ............... 50
FIGURA 14 – Tamanduá-bandeira #5 se coçando em um carandá ................................ 51
v
LISTA DE TABELAS
CAPÍTULO II
TABELA 1 – Data de captura, sexo, massa, número de localizações e área de vida obtida
para os tamanduás-bandeira monitorados desde a captura até dezembro de 2001 ......... 26
TABELA 2 – Porcentagem de sobreposição das áreas de vida dos tamanduás-bandeira
monitorados no Pantanal da Nhecolândia ....................................................................... 28
TABELA 3 – Porcentagem de disponibilidade de hábitat dentro da área de vida dos
tamanduás-bandeira #2 e #3, de tempo gasto em cada hábitat, e índice de seleção ....... 41
TABELA 4 – Espécies de cupins forrageadas por tamanduá-bandeira no Pantanal da
Nhecolândia ....................................................................................................................44
TABELA 5 – Amostras de formigas forrageadas por tamanduá-bandeira no Pantanal da
Nhecolândia ....................................................................................................................45
TABELA 6 – Espécies de carrapatos encontrados parasitando tamanduás-bandeira no
Pantanal da Nhecolândia .................................................................................................47
vi
LISTA DE APÊNDICES
CAPÍTULO II
APÊNDICE 1 – Morfometria dos tamanduás-bandeira do Pantanal da Nhecolândia .... 70
APÊNDICE 2 – Área de vida (km2) estimada para os tamanduás-bandeira, no Pantanal da
Nhecolândia, através do programa CALHOME (Kie et al. 1996) .................................. 71
1
CAPÍTULO I – “Um novo método de monitorar tamanduá-bandeira em curto intervalo
de tempo”.
RESUMO
O objetivo deste trabalho foi desenvolver um método que atendesse as mesmas
necessidades de um colar GPS em um curto intervalo de tempo, mas com um custo financeiro
mais acessível. Uma unidade de GPS (eTrex Venture – Garmin) foi programada para registrar
localizações em intervalos de 10 minutos, impermeabilizada em resina epóxi e ligada a um
compartimento externo de baterias, que foi impermeabilizado com silicone fundível. Tanto a
unidade GPS quanto o compartimento de baterias foram acoplados em um rádio-transmissor
convencional, totalizando uma massa de 1,3 kg. O aparelho registrou as localizações de dois
tamanduás-bandeira. Estes animais, os indivíduos #2 e #3, vinham sendo monitorados por
rádio-telemetria convencional à cerca de seis meses e permaneceram com o GPS modificado
durante os períodos de 20 a 03/10 e de 05 a 14/12 de 2001, respectivamente. Para o tamanduábandeira #2, o GPS modificado armazenou 1.372 localizações, durante as 214,7 horas de
duração das baterias. Para o tamanduá-bandeira 3, o aparelho armazenou 947 localizações
durante as 211,3 horas de duração das baterias. O método testado parece ser viável para
monitorar outros vertebrados em curto espaço de tempo.
2
INTRODUÇÃO
Aparelhar animais com colares rádio-transmissores tem sido um dos métodos mais
comuns de monitorar a vida silvestre nas últimas décadas. Entretanto, o uso de colares
receptores é relativamente recente nos estudos da vida silvestre (Merrill et al. 1998). Colares
receptores usam um Sistema de Posicionamento Global (GPS) para calcular e armazenar as
posições dos sinais transmitidos de um conjunto de 24 satélites em órbita na Terra e,
usualmente, os colares permitem a transferência remota dos dados estocados.
Os colares GPS são cerca de 10 vezes mais caros que os colares de rádio-telemetria
convencional, mas muitos pesquisadores relatam que a quantidade de dados produzidos
compensa amplamente os custos (Rodgers e Anson 1994; Ballard et al. 1998) ou que as
estimativas baseadas nas localizações VHF estão provavelmente subestimando as áreas de
vida quando comparadas com coleções de dados intensivos obtidos por colares GPS (Ballard
et al.1998).
Recentemente, Merrill et al. (1998) testaram um modelo de rádio-colar GPS
removível, que reduziu os custos. Todavia, o preço por unidade é ainda elevado, ao menos
para o padrão dos pesquisadores de países subdesenvolvidos (cerca de US$ 3,300, Advanced
Telemetry Systems, comunicação pessoal).
O objetivo deste estudo foi apresentar um novo método, economicamente mais
acessível, de usar uma unidade modificada de GPS para monitorar tamanduá-bandeira
(Myrmecophaga tridactyla Linnaeus, 1758) em curtos períodos de tempo.
3
MATERIAL E MÉTODOS
Área de estudo - O Pantanal é uma planície sazonalmente inundável localizada
próximo do centro geográfico da América do Sul. É drenada a oeste pelos tributários do Rio
Paraguai, que flui em direção sul ao longo da borda oeste do Pantanal. A região é baixa,
aproximadamente 100 m de elevação, com inclinação de cerca de 6–12 cm/km no sentido
leste-oeste e 1–2 cm/km no sentido norte-sul. (Brasil 1982).
O verão é quente e chuvoso e delimitado pelos meses de novembro a março. O
inverno é quente e seco, compreendendo o período de abril a outubro. Frentes frias ocasionais,
vindas do sul, podem causar quedas abruptas na temperatura do ar durante o inverno. Durante
a estação chuvosa, a profundidade da água na planície inundável é maior que 1 m,
ocasionando inundação em grandes áreas de campo.
A área de estudo incluiu partes das Fazendas Nhumirim e Porto Alegre (Corumbá –
MS), totalizando 104,2 km2, localizadas conforme Universal Transverse Mercator (UTM) na
Zona 21 K, entre as latitudes de 537020 a 549599 e longitudes de 7898182 a 7904468. Esta
área é caracterizada por solo altamente arenoso (mais de 90% de areia) e a vegetação consiste
num mosaico de tipos fisionômicos determinados pela topografia e pelo grau de inundação.
Os principais tipos de hábitat são lagoas (permanentes ou temporárias), floresta, cerrado,
campo cerrado e campo sazonalmente inundável.
Coleta de dados - Uma unidade GPS Garmin eTrex Venture (US$ 194 em 3 de
janeiro de 2001), foi conectada a uma fonte externa de bateria, constituída por quatro pilhas
“grandes” (tamanho D) alcalinas, conectadas em dois conjuntos de duas baterias em circuito
paralelo, que resultou em uma tensão de 3 volts (figura 1). Este pacote de bateria foi protegido
e impermeabilizado com uma camada silicone fundida e os fios foram inseridos no
compartimento da bateria.
4
+
+
---
-
+
+
+
--
-
FIGURA 1 – Ilustração esquemática da unidade adaptada GPS-VHF, utilizada nos
tamanduás-bandeira #2 e #3, de 20 de setembro a 3 de outubro e de 5 a 14 de dezembro de
2001, respectivamente, no Pantanal da Nhecolândia (MS).
5
O cabo Garmin (P/N 010-10205-00) para conectar o GPS no computador foi cortado
cerca de 8 cm do conector eTrex Venture e adaptado a um monoplug stereo 35 mm na
extremidade (foi necessário muito cuidado para não trocar as conexões entre os fios durante
este procedimento), e o conector foi então ligado à unidade GPS.
O GPS foi programado para registrar a posição geográfica a cada 10 minutos.
Entretanto, quando o aparelho encontra-se sob cobertura vegetal densa, ocorre interferência na
recepção do sinal do satélite. Quando o GPS busca retomar a conexão com o satélite, os
intervalos registrados podem ser menores ou maiores que os 10 minutos programados.
A unidade GPS foi protegida em filme PVC e coberta com resina epóxi transparente
com cerca de um cm de espessura. Para permitir a operação de ligar e desligar o aparelho com
o auxílio de um palito, após a impermeabilização do GPS, um tubo foi colocado na região do
botão onde liga o GPS, antes de envolver a unidade na resina.
Foram fixados dois anéis no lado de trás da unidade para prendê-la num rádio-colar
regular (Advanced Telemetry Systems – ATS, Colar 2/5920), cujo peso aproximado é de 360
gramas, duração de baterias de 550 dias e custo de US$ 259. Os demais materiais, pilhas,
resina epóxi, fios e o monoplug, utilizados na elaboração do GPS modificado, somaram um
total de US$ 37.
No final, o peso total da unidade foi cerca de 1,3 kg sendo a maior parte do peso
devido ao pacote de baterias (aproximadamente 700 gramas) e o custo total da unidade foi
US$ 490.
As 09:30 h do dia 20 de setembro, um tamanduá-bandeira macho (tamanduábandeira #2), com peso de 35 kg, que vinha sendo monitorado através de rádio-telemetria
VHF à cerca de seis meses, foi recapturado com auxílio de laço e cambão.
O animal foi sedado com injeção intramuscular de Zoletil 50 (associação de
tiletamina e zolazepan), sob a dose recomendada para Edentata de 2 mg/kg (Gláucia Seixas
6
2001, comunicação pessoal). Posteriormente, foi aparelhado na cintura escapular com o
rádio-colar, de modo que a unidade GPS permaneceu no dorso e o pacote com baterias e a
unidade VHF ficou disposta na região ventral, entre as patas dianteiras do animal.
Depois de 13 dias, o tamanduá-bandeira foi recapturado e contido mecanicamente
com cambão, e o colar foi retirado sem a necessidade de uso de sedativo. A unidade GPS
estava desligada, indicando que as baterias tinham acabado. No laboratório, as baterias
externas foram trocadas e a unidade de GPS, através do cabo modificado, foi conectada ao
computador para a transferência dos dados através do programa GPS TrackMaker (Ferreira Jr.
2002).
O mesmo aparelho GPS modificado foi reutilizado num tamanduá-bandeira fêmea
(tamanduá-bandeira #3) de 35 kg, que também vinha sendo monitorado à cerca de seis meses.
A fêmea foi capturada no dia 05 de dezembro, por volta das 16:00 h. Após a sedação, o
animal foi equipado com o rádio-GPS modificado, permanecendo com o aparelho até o dia 14
de dezembro. Quando o aparelho foi retirado, o GPS ainda estava funcionando e foi então
desligado. Posteriormente, o GPS foi conectado ao computador e foi realizada a transferência
dos dados do mesmo modo como foi feito para os dados do tamanduá-bandeira #2.
RESULTADOS
A relação peso da unidade de GPS modificado versus peso do animal foi de 3,7%,
para ambos os animais de 35 kg.
Para o tamanduá-bandeira #2, o GPS modificado armazenou 1.372 localizações,
durante as 214,7 horas de duração das baterias, resultando em quase 9 dias completos de
monitoramento. Do total de localizações, 890 pontos (65%) foram registrados nos exatos
7
intervalos programados de 10 minutos, 271 pontos (20%) foram registrados em intervalos
menores que 10 minutos e 201 (14%) em intervalos entre 11 a 60 minutos e em somente 10
casos (1%) os intervalos entre os registros de localizações foram maiores que 60 minutos.
A velocidade máxima do tamanduá-bandeira #2 entre posições consecutivas foi 6,6
km/h (mediana = 0,2 km/h; amplitude = 0 a 6,6 km/h) e o animal percorreu um total de 51,2
km (4,5 a 8,7 km/dia; média = 5,8 km/dia; n = 8) durante os dias em que permaneceu com o
GPS modificado, sendo que foi desconsiderado o dia da captura para o cálculo deste dado a
fim de evitar uma possível influência do sedativo e do estresse da captura sobre o resultado.
O método do GPS modificado resultou em grande quantidade de informações e nível
de detalhes. Por exemplo, pode-se determinar que o tamanduá-bandeira repousou na mesma
mancha de árvores (coordenadas UTM 21 K 543030, 7901250) por 3 dias consecutivos (25 a
27/09), das 19:42 as 20:03 h, 00:33 a 00:58 h e 08:32 as 09:23 h, respectivamente.
Para o tamanduá-bandeira #3, o GPS modificado armazenou 947 localizações, entre
o período de 05 a 14 de dezembro de 2001, durante as 211,3 horas de duração das baterias.
Dos quase 9 dias completos de monitoramento, 741 pontos (78%) foram registrados nos
exatos intervalos programados de 10 minutos, 159 pontos (17%) foram registrados em
intervalos menores que 10 minutos, 23 (2%) em intervalos entre 11 a 60 minutos e em 24
(3%) casos os intervalos entre os registros de localizações foram maiores que 60 minutos.
A velocidade máxima do tamanduá-bandeira #3 entre posições consecutivas foi de
2,8 km/h (mediana = 0,1 km/h; amplitude = 0 a 2,8 km/h) e o animal percorreu 31,7 km (2,2 a
4,9 km/dia; média =3,5 km/dia; n = 8) durante os nove dias em que permaneceu com o GPS
modificado, considerando que o dia em que o animal foi capturado foi excluído desta análise
para evitar possível influência do sedativo e do estresse da captura sobre o comportamento do
animal.
8
DISCUSSÃO
O colar removível testado por Merrill et al. (1998) produziu de 1.310 a 1.477
localizações, sendo programado para registrar pontos em intervalos de 15 minutos. O GPS
modificado, testado neste trabalho, produziu 947 e 1.372 localizações, sendo programado para
registros de pontos em intervalos de 10 minutos. A unidade de GPS modificada produziu
resultados semelhantes, mas custou US$ 490, contra cerca de US$ 3,300 por unidade do colar
GPS removível testado por Merril et al. (1998). Conforme os resultados obtidos, a quantidade
de informações produzidas pela unidade de GPS modificada foi alta em relação aos custos.
O colar GPS modificado foi compatível com o peso dos animais estudados pois a
relação peso da unidade versus peso do animal, em ambos os animais de 35 kg, foi 3,7%.
Brander e Cochran (1971), sugerem que o limite máximo do peso do transmissor não deve
ultrapassar 6% do peso do animal, e seguindo esta recomendação, o método do GPS
modificado poderia ser empregado em tamanduás-bandeira de peso igual ou maior que 22 kg.
O tamanduá-bandeira #2 atingiu uma velocidade máxima de 6,6 km/h enquanto que
o tamanduá-bandeira #3 apresentou uma velocidade máxima de 2,8 km/h. Esta diferença pode
ser devido ao fato de que o animal #2 foi monitorado por radio telemetria convencional
durante o período que permaneceu com o GPS modificado e neste dia em que apresentou a
velocidade de 6,6 km/h (25/09/2001) o animal foi encontrado e correu de nossa presença.
Merrett (1983) relatou que tamanduás-bandeira, quando em cativeiro, utilizam os
mesmos locais de dormir consistentemente, selecionando aqueles mais protegidos. Isto pode
ocorrer algumas vezes no campo, pois o GPS modificado registrou que o tamanduá-bandeira
#2 repousou por três dias consecutivos na mesma mancha de árvores.
Shaw et al. (1987) sugeriram que a temperatura ambiente pode afetar a atividade dos
tamanduás-bandeira, mas até agora estes efeitos têm sido pouco estudados. A informação da
9
atividade do animal monitorado pode ser facilmente acessada através do GPS modificado e a
associação de registradores de temperatura, a esse aparelho, poderia ser factível.
Este método de monitorar a vida silvestre em curto espaço de tempo pode ser factível
para vertebrados de médio e grande porte, que vivem em áreas abertas. O material usado é
barato e a unidade de GPS modificada pode ser reutilizada após a troca das baterias. Pode-se
ainda remover a cobertura de resina e reutilizar o GPS da maneira pela qual é utilizado
normalmente. Outra vantagem do método é que por ser viável em curto período de tempo,
reduz o risco de causar lesões no animal estudado.
Ballard et al. (1995) revisaram a relação custo e benefício de rádios associados ao
uso de recepção por telemetria de satélite versus telemetria por VHF, e relataram que o custo
por localização foi US$ 44 para satélite e US$ 148 para telemetria VHF. Neste estudo, o custo
por localização foi cerca de US$ 2.1 (incluindo o aparelho GPS modificado, as despesas de
viagem, e os salários do orientador, da bolsista e do ajudante de campo), podendo ser
reduzido ainda mais através da reutilização do GPS adicionado à unidade VHF. A maior
desvantagem é que, com a configuração econômica do GPS modificado, as localizações
podem ser registradas somente por curtos períodos de tempo. O peso padrão das pilhas
tamanho “D” limita o número de baterias que podem ser usadas em circuito paralelo e,
conseqüentemente, o número de dias de monitoramento.
10
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. 1982. Ministério das Minas e Energia. Departamento Nacional de Produção
Mineral. Projeto RADAM-Brasil. Folha SE. 21 Corumbá e parte da folha SE 20:
Geologia, geomorfologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. Levantamento
de Recursos Naturais, 27 Rio de Janeiro. 448 p.
BALLARD, W. B., M. EDWARDS, S. G. FANCY, S. BOE, e P. K. KRAUSMAN. 1998.
Comparison of VHF and satellite telemetry for estimating sizes of wolf territories in
Nortwest Alaska. Wildlife Society Bulletin 26:823-829.
BALLARD, W. B., D. J. REED, S. G. FANCY e P. R. KRAUSMAN. 1995. Accuracy,
precision, and performance of satellite telemetry for monitoring wolf movements. Pp.
461-467 in Ecology and conservation of wolves in a changing world (L. N. Carbyn, S. H.
Fritts e D. R. Seip, eds.). Canadian Circumpolar Institute, University of Alberta,
Edmonton, Canada.
BRANDER, R. B. e W. W. COCHRAN. 1971. Radio-location telemetry. Pp. 95-103 in
Wildlife management techniques (R. H. GILES Jr., ed.). The Wildlife Society, Inc. by
Edwards Brothers, Inc. Ann Arbor, Michigan.
MERRETT, P. K. 1983. Edentates. The Zoological Trust of Guernsey, Guernsey, U.K.
MERRIL, S. M., L. G. ADAMS, M. E. NELSON, e L. D. MECH. 1998. Testing releasable
GPS radiocollars on wolves and white-tailed deer. Wildlife Society Bulletin 26:830-835.
FERREIRA Jr., O. 2002. GPS TrackMaker. Versão11.7 http//www.gpstm.com
RODGERS, A. R. e P. ANSON. 1994. Animal-borne GPS: tracking the habitat. GPS World
5:20-32.
11
SHAW, J. H., J. MACHADO-NETO, e T. S. CARTER. 1987. Behavior of free-living giant
anteaters (Myrmecophaga tridactyla). Biotropica 19:255-259.
12
CAPÍTULO II – “Área de vida e uso de hábitat de tamanduá-bandeira Myrmecophaga tridactyla Linnaeus, 1758 nas Fazendas Nhumirim e Porto Alegre,
Pantanal da Nhecolândia, MS”.
RESUMO
Este estudo teve como objetivo investigar a área de vida, o uso de hábitat e a
atividade do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) numa região de cerca de
104 km2, no Pantanal da Nhecolândia, Mato Grosso do Sul, entre o período de janeiro a
dezembro de 2001. Oportunisticamente, obtivemos algumas informações sobre as
espécies de formigas e cupins utilizadas como alimento pelo tamanduá-bandeira na área
estudada; listamos as espécies de ectoparasitas (carrapatos); obtivemos as medidas
morfométricas, a massa e o sexo dos indivíduos estudados e registramos alguns
comportamentos da espécie.
Doze animais foram capturados e contidos farmacologicamente. Destes, 5
machos e 2 fêmeas foram aparelhados com transmissores VHF e obtivemos localizações
suficientes para a análise dos dados de 4 machos e 1 fêmea. As localizações foram
utilizadas para o cálculo da área de vida bem como para a análise do uso do hábitat. A
área de vida dos machos variou de 4,0 a 7,5 km2 (0 = 5,7 ± 1,7), enquanto a fêmea teve
área de vida de 11,9 km2. Em geral, houve ampla sobreposição das áreas de vida.
Nenhuma das curvas de área acumulada estimada para estes animais atingiu
inequivocamente a assíntota, ficando clara a necessidade de mais localizações para a
estimativa da área de vida. Quanto ao uso de hábitat, os cinco animais usaram as
diferentes categorias de hábitat (lagoa, floresta, cerrado, campo cerrado e campo
inundável) na mesma ordem de postos em que elas ocorreram dentro de suas áreas de
vida. Dois animais previamente monitorados por rádio-telemetria VHF, os indivíduos
#2 e #3, receberam adicionalmente aparelhos de GPS modificado durante 14 e 10 dias,
13
respectivamente. Com o auxílio desta técnica, foi possível determinar que os dois
animais preferiram principalmente o cerrado e evitaram as lagoas e o campo cerrado, e
que ambos apresentaram um padrão de atividade semelhante, sendo mais ativos durante
a noite, e apresentando atividades diurnas sob temperaturas mais amenas. A área de vida
obtida pelo GPS modificado complementou a área estimada somente através da rádiotelemetria convencional.
INTRODUÇÃO
O
tamanduá-bandeira,
Myrmecophaga
tridactyla
Linnaeus,
1758
(Myrmecophagidae) é a maior das quatro espécies de tamanduás existentes, podendo
atingir mais de 2 metros de comprimento total e massa corpórea superior a 39 kg
(Wetzel 1985; Eisenberg 1989). Os membros desta família possuem adaptações
anatômicas, comportamentais e fisiológicas voltadas à alimentação constituída em
grande parte de formigas e cupins. Apresentam crânio alongado, língua longa e protátil,
e glândulas salivares desenvolvidas, cuja secreção auxilia na atividade alimentar. As
garras dianteiras são bastante desenvolvidas, sendo usualmente utilizadas na abertura de
formigueiros e cupinzeiros, além de poderem servir como defesa (Nowak e Paradiso
1983; Rossoni et al. 1981).
São usualmente solitários, com exceção da fêmea com filhote (Nowak e
Paradiso 1983). Os machos apresentam criptorquidia, e externamente possuem um saco
urogenital similar ao da fêmea, tornando a identificação sexual somente possível por
exame detalhado (Pocock 1924; Shaw e Carter 1980; Diniz et al. 1995). Os tamanduás,
14
em geral, têm percepção olfativa mais desenvolvida do que a visão e a audição (Nowak
e Paradiso 1983).
A espécie ocorre desde o sul de Belize até o norte da Argentina e sul do Brasil
(Wetzel 1985), numa ampla variedade de tipos de hábitat de baixa altitude,
principalmente em áreas com altas densidades de formigueiros e cupinzeiros (Eisenberg
1989).
O tamanduá-bandeira apresenta taxa basal de metabolismo e temperatura mais
baixas do que as esperadas para mamíferos de mesmo porte. Dessa maneira, sua
pelagem densa possivelmente destina-se a reter o calor corporal, ainda que ocorra nos
trópicos (McNab 1984, 1985). Quando dorme, o tamanduá-bandeira deixa sua cauda
sobre o corpo, conservando o calor e auxiliando em sua camuflagem (Shaw e Carter
1980).
O baixo nível basal de metabolismo do tamanduá-bandeira é importante no
estabelecimento de período de gestação longo - aproximadamente 190 dias; cuidado
maternal extenso - a mãe carrega o filhote no dorso até a próxima gravidez; e tamanho
de ninhada pequeno - 1 filhote por parto, indicando taxa intrínseca de crescimento
populacional baixa (Nowak e Paradiso 1983; McNab 1985).
A extensa ocupação humana nos mais variados tipos de hábitat, implicando em
prováveis alterações nas comunidades de térmitas e formigas (Drumond 1994),
atropelamentos de fauna silvestre (Fischer 1997), a caça predatória (Leeuwenberg 1997)
e incêndios florestais (Silveira et al. 1999) são fatores que podem ter contribuído para a
diminuição da densidade das populações de tamanduá-bandeira e seu desaparecimento
de certas regiões inclusas na sua área de distribuição original. A espécie é classificada
como vulnerável pela IUCN (2000) e está na lista dos mamíferos brasileiros ameaçados
de extinção do IBAMA (1989).
15
Estudos feitos com tamanduá-bandeira abordaram principalmente a dieta
(Montgomery 1985; Redford 1985, 1986; Shaw et al. 1985; Drumond 1992),
morfologia (Rossoni et al. 1981; Naples 1999), energética (McNab 1984, 1985) e
parasitologia (Diniz et al. 1995). Dados sobre aspectos ecológicos como a área de vida,
uso de hábitat e atividade são escassos. Os estudos de referência relacionados à área de
vida de tamanduá-bandeira são aqueles de Shaw et al. (1987), em pesquisa desenvolvida
em campos rupestres do Brasil (Parque Nacional da Serra da Canastra, MG) e o de
Montgomery e Lubin (1977), nos Lhanos da Venezuela. Drumond (1994) indicou que a
atividade do tamanduá-bandeira varia de principalmente noturna a diurno-noturna em
função da interferência antrópica e da temperatura ambiente.
Este foi o primeiro estudo sobre área de vida de tamanduá-bandeira, no
Pantanal, e teve como objetivos: 1) estimar as áreas de vida de tamanduás-bandeira por
rádio-telemetria VHF e compará-las com as disponíveis na literatura, 2) comparar as
áreas de vida obtidas através do método convencional de rádio-telemetria VHF com as
obtidas pelo método do GPS modificado, 3) determinar a freqüência de uso de hábitat,
comparando-a com a disponibilidade do tipo de hábitat dentro da área de vida do
animal, e 4) adicionalmente, obter informações sobre a atividade, o comportamento e as
medidas morfométricas dos indivíduos estudados, listar as espécies de formigas e cupins
utilizadas como alimento pelo tamanduá-bandeira na área estudada e listar as espécies
de ectoparasitas (carrapatos) que utilizaram o tamanduá-bandeira como hospedeiro.
16
MATERIAL E MÉTODOS
Área de Estudo - O Pantanal é uma planície sedimentar de origem
relativamente recente, com área de aproximadamente 140.000 km2. Grande parte da
área fica alagada durante o transbordamento do Rio Paraguai, ficando livres da
inundação apenas as áreas mais elevadas (poucos metros acima do nível médio da água)
(Adámoli 1982).
O clima do Pantanal é tropical semi-úmido, sendo o mês de janeiro o mais
quente e o de julho o mais frio. A estação seca acontece de maio a outubro e a estação
chuvosa de novembro a abril, com maior concentração de chuvas entre dezembro e
fevereiro (Cadavid 1984).
O Pantanal pode ser dividido, conforme Hamilton et al. (1996), em dez subregiões,
cada
uma
apresentando
diferentes
características
hidrológicas
e
fitofisionômicas (figura 1).
Este projeto de pesquisa foi desenvolvido no Pantanal da Nhecolândia, uma
região de inundação média, onde se situam as Fazendas Nhumirim e Porto Alegre, cerca
de 160 km a leste de Corumbá, MS.
A área de estudo incluiu partes das Fazendas Nhumirim e Porto Alegre,
totalizando 104,2 km2, localizadas conforme Universal Transverse Mercator (UTM) na
Zona 21 K, entre as latitudes de 537020 a 549599 e longitudes de 7898182 a 7904468.
A Fazenda Nhumirim é de propriedade da Embrapa Pantanal, abrangendo uma
área de 43 km2. Segundo Alho et al. (1987), a vegetação da Fazenda Nhumirim é
caracterizada por manchas de floresta semidecídua ou “cordilheiras”, manchas de
cerrado, cerradão e vegetação arbustiva esparsa, além de um grande número de lagoas
permanentes ou temporárias e campos sazonalmente inundáveis.
17
FIGURA 1 – Mapa de localização da área de estudo no Pantanal da Nhecolândia
(MS) e demais sub-regiões, segundo Hamilton et al. (1996): CORI=Corixo
Grande,
CUIA=Cuibá,
PIQU=Piquiri/São
Lourenço,
PARA=Paraguai,
TAQR=Rio Taquari, TAQF= Leque do Taquari, AQUI=Aquidauana e Negro,
MIRA=Miranda, NABI=Nabileque e NHEC=Nhecolândia.
18
A Fazenda Porto Alegre faz divisa a leste com a Nhumirim e apresenta
vegetação semelhante. A Fazenda Nhumirim apresenta uma estação agroclimatológica e
os dados de temperatura coletados entre o período de 1986 a 1996 registraram uma
temperatura média anual para a área de 24,9 °C (24,6 °C a 25,4 °C). A média anual de
temperatura máxima foi de 31,4 °C, sendo que os meses de setembro a janeiro
apresentaram as mais altas máximas absolutas. De maio a agosto, pode ser detectado um
declínio considerável na temperatura do ar, devido à entrada de massa de ar frio vinda
do sul. A média anual das mínimas naquele período foi de 20 °C e a mínima absoluta
foi de 0,2 °C (Soriano 1997). Durante o período de estudo, a temperatura variou de 7,7
°C (registrada em junho) a 38,1 °C (registrada em setembro), com média anual de 26,4
°C .
Coleta de dados – O estudo foi realizado durante o período de janeiro a
dezembro de 2001. Para capturar os animais, a área de estudo foi extensamente
percorrida em veículo motorizado, sendo os tamanduás-bandeira avistados a olho nu ou
com o auxílio de binóculos Nikon 8 x 40. A aproximação aos animais foi feita a pé e,
quando possível, os mesmos foram laçados pela cintura escapular ou cauda, a fim de
evitar uma sufocação caso fossem laçados na região cervical.
O primeiro tamanduá-bandeira foi capturado em março. A contenção física foi
feita com auxílio de cambões do tipo “Ketch-All Pole” nas patas dianteiras do animal. A
maioria das capturas e manuseio foi realizada por duas pessoas. Após a contenção
mecânica inicial, o animal foi sedado com Zoletil® 50 (associação de tiletamina e
zolazepan), sob a dose recomendada para Edentata de 2 mg/kg de peso do animal, por
injeção intramuscular (Gláucia Seixas 2001, comunicação pessoal). A sedação foi
19
alcançada em torno de 5 minutos e a duração da anestesia variou entre 25 e 40 minutos.
Durante a sedação, as garras do animal foram atadas com fita adesiva para garantir
maior segurança no manuseio e na aparelhagem do tamanduá-bandeira.
Cada tamanduá-bandeira imobilizado teve seu peso registrado por um
dinamômetro de 50 kg. Dados biométricos foram obtidos com fita métrica, além de ser
feita a identificação do sexo do animal.
Alguns dos tamanduás-bandeira capturados foram aparelhados com colares de
couro contendo rádio-transmissor ATS (Advanced Telemetry Systems – Colar 2/5920)
na região da cintura escapular (figura 2). Segundo o fabricante, o tempo de vida da
bateria era de 550 dias. A massa de toda a unidade foi cerca de 360 gramas, que
corresponde a 1,5% da massa de um animal de 24 kg, por exemplo. Os tamanduásbandeira capturados foram monitorados à distância até seu completo restabelecimento
da anestesia.
Dois tamanduás-bandeira equipados com transmissor VHF, foram recapturados
para adição de unidade de GPS modificado, de 1,3 kg, programado para registrar
localizações a cada 10 minutos (capítulo I). Estes animais permaneceram com o
aparelho nos dias 20 de setembro a 03 de outubro (tamanduá-bandeira #2) e 05 a 14 de
dezembro de 2001 (tamanduá-bandeira #3).
Os ectoparasitas foram coletados e acondicionados em frascos com álcool
70%, e enviados ao Centro de Pesquisa Veterinária Desidério Finamor - CPVDF, em
Eldorado do Sul – RS, para a identificação.
20
FIGURA 2 – Tamanduá-bandeira #2 sob efeito de anestesia, no dia 20/09/2001, no
Pantanal da Nhecolândia (MS). As patas dianteiras estão seguras por cambão e as garras
atadas com fita adesiva. O rádio-transmissor foi fixado na região da cintura escapular.
Nota-se a presença de carrapatos no pescoço do animal.
Durante o período de estudo, os animais aparelhados foram monitorados, com
auxílio de veículo. Os rádio-transmissores emitiam um sinal em uma freqüência de 164
MHz, que era captado pelo rádio-receptor Telonics TR-2. O rádio-receptor inicialmente
ficava acoplado a uma antena omni-direcional Telonics, que recebia o sinal de um
ângulo de 360°. Assim que o sinal era captado, mudava-se a antena omni para a
unidirecional Telonics RA-2AK (figura 3), que detectava a direção de onde vinha o
sinal emitido pelo rádio-transmissor. A partir deste momento, seguindo a pé, foi
possível efetuar a localização dos animais aparelhados e registrar a coordenada
geográfica com um aparelho GPS.
21
FIGURA 3 – Aparelhos de rádio-telemetria VHF: a) antena omni-direcional, b) antena
direcional, c) rádio-receptor, d) fone de ouvido, e) rádio-transmissor e f) GPS.
Este procedimento possibilita localizações mais acuradas do que o método de
triangulação e, além disso, permite o acompanhamento do estado do animal após a
implantação do rádio-transmissor, além de propiciar a vantagem da obtenção de
informações sobre comportamento, dieta, atividade, uso de hábitat e interações intra e
interespecíficas.
Quando os tamanduás-bandeira, com ou sem rádio-transmissor, foram
encontrados em atividade de forrageamento, os animais foram acompanhados e as
formigas e/ou cupins foram coletados nos locais exatos onde os animais haviam
forrageado. As formigas e os cupins foram conservados em frascos com álcool 70%, e
posteriormente enviados ao Museu Emílio Goeldi, em Belém – PA, e à Universidade de
Brasília - DF, respectivamente, para a identificação das espécies.
22
Uma câmera de vídeo Sony Handycam foi utilizada para registrar os
comportamentos dos tamanduás-bandeira.
Em todas as localizações dos tamanduás-bandeira, a aproximação foi feita com
cuidado para o animal não notar nossa presença. A posição geográfica do animal foi
registrada através de uma aparelho GPS - Global Positioning System, e dados como a
data, a hora e o tipo de hábitat em que encontramos o animal e se ele estava em
atividade ou em repouso, foram anotados. Quando os animais foram encontrados em
repouso nos fragmentos de mata, foram medidas as temperaturas ambientes de dentro e
de fora dos fragmentos.
A maioria das localizações dos tamanduás-bandeira equipados somente com
rádio-transmissor convencional foi feita durante o período diurno, devido às
dificuldades logísticas. Para os animais que foram localizados, por rádio-telemetria
VHF, mais de uma vez por dia, foi utilizada somente a primeira localização com o
propósito de minimizar a dependência estatística dos pontos.
As áreas de vida dos tamanduás-bandeira foram estimadas através do método
do Mínimo Polígono Convexo - MPC (Mohr 1947), que consiste na ligação dos pontos
referentes às localizações do animal de modo a formar um polígono sem lados
côncavos. Apenas para comparação dos resultados de nosso estudo com estudos futuros,
que possam adotar outros métodos de cálculos de área de vida, foram utilizados também
os métodos de Kernel Adaptativo, Média Harmônica e Normal Bivariada. Todos os
cálculos das áreas de vida foram feitos no programa CALHOME (Kie et al. 1996).
Uma foto aérea da região de estudo em escala de 1: 60.000 foi digitalizada no
programa IDRISI 32 (Eastman 2001), e através de verificações de campo e da
capacidade de discriminação da vegetação a partir de interpretação visual da foto aérea,
foram identificados e quantificados 5 tipos principais de hábitat: lagoas, floresta,
23
cerrado, campo cerrado e campo sazonalmente inundável. As manchas de cerradão e de
floresta semidecídua foram incluídas na categoria de hábitat denominada floresta.
A discriminação entre as diferentes fitofisionomias da área de estudo foram em
grande parte baseadas no trabalho de Abdon et al. (1998).
A plotagem das localizações dos tamanduás-bandeira sobre a foto aérea
georeferenciada da área, permitiu analisar o tipo de hábitat associado a cada localização
bem como a porcentagem de utilização de cada hábitat. As localizações foram obtidas
através de rádio-telemetria, e deste modo não houve interferência do diferente grau de
visibilidade de cada tipo de hábitat.
A comparação do uso em relação à disponibilidade do hábitat foi feita através
do programa PREFER – Preference Assessment versão 5.1 (Windows, OS/2), outubro
de 1994. O programa PREFER executa os cálculos descritos por Johnson (1980), para
determinar a preferência dos indivíduos pelos componentes, através dos dados de uso e
disponibilidade de hábitat. PREFER testa a hipótese de que todos os componentes são
igualmente preferidos e compara os componentes usando o procedimento de múltipla
comparação usando a estatística W (Waller e Duncan 1969).
O teste χ2 foi utilizado para analisar se a proporção de uso das categorias de
hábitat diferiu em função da atividade ou do repouso dos tamanduás-bandeira, a
regressão logística para analisar a atividade dos animais estudados em função da hora e
da temperatura, e o teste t para saber se as temperaturas medidas dentro dos fragmentos
de floresta diferiram significativamente das medidas fora dos fragmentos.
Os tamanduás-bandeira equipados com o GPS modificado foram recapturados
e os dados estocados no aparelho, como a rota do animal, foram transferidos para um
computador através do programa GPS TrackMaker versão #11.7 (Ferreira Jr. 2002).
24
Os dados de atividade, distância e tipos de hábitat percorridos foram plotados
em gráficos feitos no programa SYSTAT para Windows, versão 9 (Wilkinson 1998) e
não foram utilizados os dados do dia de captura de ambos os animais, devido aos
prováveis efeitos da contenção mecânica e farmacológica sobre o comportamento dos
tamanduás-bandeira estudados. As horas do dia foram apresentadas como horas e
centésimos de hora. Os dados regulares de temperatura ambiente (ºC) registrados as
08,00, 14,00 e 20,00 h pela estação meteorológica da Fazenda Nhumirim, foram
utilizados para relacionar à atividade dos tamanduás-bandeira.
A sobreposição das rotas percorridas pelos tamanduás-bandeira, registradas no
GPS, sobre a foto aérea georeferenciada da área, permitiu acompanhar os
deslocamentos dos tamanduás-bandeira em detalhes e determinar o tipo de hábitat
associado a cada localização, bem como a porcentagem de tempo de utilização de cada
hábitat.
A comparação do uso em relação à disponibilidade do hábitat para os animais
aparelhados com o GPS modificado, não pode ser feita através do programa PREFER
pois para empregar este método, o número de observações independentes (isto é, o
número de animais estudados) deve ser maior ou exceder o número de componentes
(isto é, o número de categorias de hábitat). Para esta análise foi utilizado o método do
índice de seleção, IS, (Fagerstone e Williams 1982; Crawshaw Jr. e Quigley 1991). Este
índice foi derivado da razão entre a proporção de tempo gasto em cada hábitat e a
proporção da disponibilidade de cada hábitat dentro da área de vida do animal. Um IS >
1 indica seleção para um hábitat, IS < 1 ocorre sub-uso do hábitat e IS = 1 indica que o
hábitat é utilizado na mesma proporção em que ocorre.
25
RESULTADOS
Área de vida por rádio-telemetria convencional - Eu capturei 9 tamanduásbandeira machos e 3 fêmeas entre março e setembro de 2001, dos quais 5 machos e 2
fêmeas foram equipados com rádio-transmissor. Duas fêmeas apresentaram porte adulto
(37 e 46 kg) e uma porte sub-adulto (24 kg). A massa dos machos variou de 31 a 39 kg
(0 = 34,7 ± 2,53 kg; apêndice 1), e todos eram presumivelmente adultos.
O número de localizações obtidas para cada tamanduá-bandeira variou devido
a diferenças na data de captura, na acessibilidade ao local de estudo e à casualidade.
Uma das fêmea foi localizada apenas duas vezes e depois não obtivemos mais sinal,
talvez por falha técnica do rádio-transmissor, e um dos machos apenas 8 vezes, embora
ambos tenham sido procurados com esforço desde a captura, março e setembro
respectivamente, até dezembro de 2001. Devido ao baixo número de localizações não
estimei a área de vida destes animais. Os outros quatro machos que receberam rádiotransmissores tiveram de 22 a 57 localizações e a fêmea foi localizada 28 vezes. A área
de vida dos machos variou de 4 a 7,5 km2 (0 = 5,67 ± 1,66), enquanto a fêmea teve
praticamente o dobro da área dos machos (11,9 km2; tabela 1).
Para facilitar a comparação dos resultados deste estudo com estudos
posteriores, eu estimei a área de vida segundo os métodos de Kernel Adaptativo, Média
Harmônica e Normal Bivariada (apêndice 2).
Nenhuma das curvas de área acumulada estimada para estes animais atingiu
inequivocamente a assíntota. Entretanto, o tamanho da área de vida dos tamanduásbandeira #2, #4 e #6 tendeu a se estabilizar após cerca de 56, 29 e 38 localizações
respectivamente (figura 4), equivalentes a 242, 60 e 163 dias após a captura de cada
animal, respectivamente. Os animais #3 e #5 apresentaram uma curva ainda em franco
26
crescimento, indicando que suas áreas de vida foram grosseiramente subestimadas,
mesmo depois de praticamente quase nove meses de monitoramento.
As sobreposições analisadas para cada par de animais variaram de 0 a 55%
(tabela 2) e os tamanduás-bandeira #2 e #4 tiveram suas áreas de vida amplamente
sobrepostas pelas áreas dos demais indivíduos monitorados, com sobreposições totais de
91,4 e 67,7% de suas áreas de vida, respectivamente (figura 5).
TABELA 1 - Data de captura, sexo e massa corpórea dos tamanduás-bandeira
capturados de março a setembro de 2001, no Pantanal da Nhecolândia (MS). São
registrados o número de localizações e a área de vida, estimada pelo método do Mínimo
Polígono Convexo para os indivíduos monitorados no período compreendido entre a
captura até o meio de dezembro de 2001.
Tamanduá
Data de
Nº de dias de
Sexo
-bandeira captura (2001) monitoramento
Massa
Número de
Área de
(kg)
localizações
vida (km2)
#1
17-03
02
fêmea
24
2
-
#2
29-03
252
macho
36,5
57
6,5
#3
31-03
259
fêmea
37
28
11,9
#4
04-04
168
macho
32,5
37
7,5
#5
22-04
165
macho
31
22
4,5
#6
25-04
224
macho
39
41
4
-
25-04
-
macho
35
-
-
-
24-05
-
fêmea
46
-
-
-
25-05
-
macho
35
-
-
-
24-07
-
macho
36
-
-
-
25-07
-
macho
32
-
-
#7
20-09
86
macho
36
8
-
Área acumulada (km2)
#2
6
4
2
0
0
8
16
#4
4
2
0
0 10 20 30 40 50 60
Nº de localizações
#3
12
20
40
60
Nº de localizações
6
8
Área acumulada (km 2)
8
Área acumulada (km2)
Área acumulada (km2)
Área acumulada (km 2)
27
8
4
0
0 10 20 30 40 50 60
Nº de localizações
8
#5
6
4
2
0
0 10 20 30 40 50 60
Nº de localizações
#6
6
4
2
0
0 10 20 30 40 50 60
Nº de localizações
FIGURA 4 - Curva de área acumulada para os tamanduás-bandeira (#2 a #6)
monitorados no Pantanal da Nhecolândia (MS), em intervalos diferentes, no período
compreendido entre março e dezembro de 2001.
28
TABELA 2 - Porcentagem de sobreposição das áreas de vida dos tamanduás-bandeira
monitorados no Pantanal da Nhecolândia (MS), em intervalos diferentes, no período
compreendido entre março e dezembro de 2001. Observe que a mesma área absoluta de
sobreposição representa porcentagens diferentes da área de vida de cada animal e cada
célula representa a porcentagem pelo qual o animal da fileira sobrepõe com o da coluna.
#2
#3
#4
#5
#6
#2
100
33
55
0
3
#3
18
100
11
0
0
#4
31
18
100
1
18
#5
0
0
2
100
0
#6
5
0
29
0
100
Tamanduábandeira
29
FIGURA 5 - Áreas de vida de cinco tamanduás-bandeira monitorados no Pantanal da
Nhecolândia (MS), em intervalos diferentes, no período compreendido entre março e
dezembro de 2001.
30
Uso de hábitat e atividade por rádio-telemetria convencional - A área de
estudo representa um mosaico vegetacional compreendendo principalmente campo
cerrado (30,1%), campo inundável (25,2%), floresta (24,6%), cerrado (14,5%) e lagoas
(5,6%).
A fitofisionomia floresta correspondeu às áreas de cobertura arbórea de 70 a
100%, com altura média das árvores variando entre 8 e 15 metros. Esta fitofisionomia
foi diferenciada na foto aérea em função de sua alta densidade de cobertura arbórea, em
grande parte com formas alongadas e contornando baías e salinas, que por sua vez
foram incluídas na fitofisionomia lagoas. A fitofisionomia cerrado, correspondeu às
áreas de cobertura arbórea menor que 70% e a altura média das árvores foi 12 metros. O
cerrado foi diferenciado na foto aérea em função da menor densidade arbórea. O campo
cerrado apresentou alturas predominantes do estrato arbóreo em torno de 5 metros e foi
diferenciado na foto aérea em função de conter arbustos esparsos em menor densidade
que o cerrado. Na fitofisionomia campo inundável prevaleceu gramados que ocupam
extensas áreas alagáveis entremeadas por subarbustos. Esta fitofisionomia foi
diferenciada na foto aérea por apresentar-se desprovida de cobertura arbórea.
Em geral, os cinco tamanduás-bandeira estudados usaram as diferentes
fitofisionomias de hábitat na mesma ordem de postos em que elas ocorreram dentro de
suas áreas de vida [F (4, 1); P = 0,222], embora o teste de múltipla comparação tenha
revelado uma diferença significativa entre as categorias floresta e campo cerrado
(Wcrítico = 4,41; Diferença Média Padronizada = 4,45), sugerindo a seguinte
representação de sobreposições de razões uso / disponibilidade:
Floresta
Cerrado
Lagoas
Campo inundável
Campo cerrado.
31
Em geral, cada fitofisionomia de hábitat foi utilizada em proporções diferentes
em função da atividade ou repouso do animal (χ2 = 62,8; n = 5; P < 0,001), já que os
tamanduás-bandeira usaram com maior freqüência os tipos de hábitat de maior
cobertura vegetal (floresta e cerrado) para repousar e apresentaram-se mais
freqüentemente ativos no campo sazonalmente inundável (figura 6).
Foram ao todo 185 localizações dos tamanduás-bandeira monitorados, e em
154 destas, eu registrei se o animal estava em atividade (55 casos) ou em repouso (99
casos). Entretanto incluindo registros de tamanduás-bandeira sem rádio-transmissor,
houve um total de 191 observações, sendo 83 casos de atividade e 108 casos de repouso.
O exame do gráfico de pontos de atividade em função da hora do dia sugeriu a
existência de dois pontos de inflexão, um relacionado ao momento em que os
tamanduás-bandeira foram repousar e outro relacionado ao momento em que os animais
retornaram a atividade (figura 7a). Por isso eu analisei separadamente dois grupos de
observações, um incluindo aquelas obtidas até o meio-dia e o outro incluindo as
observações tomadas após o meio-dia.
As análises de regressão logística indicaram um ponto de inflexão as 7,20 h (P
= 0,001, IC95% = 3,68 a 8,20 h) relacionado ao momento em que 50 % das vezes os
tamanduás-bandeira foram repousar e outro as 15,27 h (P < 0,001, IC95% = 14,05 a
16,04 h), relacionado ao momento em que 50% das vezes os animais retornaram a
atividade.
O exame do gráfico de pontos de atividade em função da temperatura sugeriu a
existência de apenas um ponto de inflexão (pelo menos dentro da amplitude de
temperatura em que os dados foram tomados) (figura 7b), que a análise indica ter
ocorrido aos 26,7 ºC (IC95% = 19,9 a 30,1). Porque se espera que a temperatura e a hora
do dia sejam correlacionadas, e porque houve poucas observações de temperatura sob
32
cada nível de atividade considerando os grupos separados antes e depois do meio-dia, eu
não analisei os fatores hora e temperatura simultaneamente no mesmo modelo.
As temperaturas medidas dentro das manchas de floresta nas quais os
tamanduás-bandeira foram encontrados estiveram, em média, cerca de 2 ºC
(IC95% = -2,603 a -1,335) mais baixas do que as temperaturas medidas fora dos
fragmentos (n = 52, t = -6,236, P < 0,001), indicando que as florestas e fragmentos de
mata funcionaram como um tampão em relação à temperatura do ambiente externo.
33
EM ATIVIDADE
EM REPOUSO
20
15
#2
#2
#3
#3
#4
#4
#5
#5
#6
#6
10
NÚMERO DE OBSERVAÇÕES DO TAMANDUÁ-BANDEIRA
5
0
20
15
10
5
0
20
15
10
5
0
20
15
10
5
0
20
15
10
5
0
r.
ta g o a
n. a d o
er
es
nu
La
o c po i C e r r F l o r
p
m am
Ca
C
HABITAT
r.
ta g o a
n. a d o
er
es
nu
La
o c po i C e r r F l o r
p
m am
Ca
C
HABITAT
FIGURA 6 – Número de observações dos tamanduás-bandeira monitorados (#2 a #6)
em atividade e em repouso em função do hábitat. As observações foram feitas no
Pantanal da Nhecolândia (MS), em intervalos diferentes, no período compreendido entre
março e dezembro de 2001.
34
Atividade
2
a
1
0
-1
0
3
6
9 12 15 18 21 24
Hora
2
Atividade
b
1
0
-1
10
20
30
40
o
Temperatura ( C)
50
FIGURA 7 – Repouso (0) e atividade (1) dos tamanduás-bandeira em relação à hora (a)
e à temperatura ambiente (b). Os dados foram obtidos no Pantanal da Nhecolândia
(MS), em intervalos diferentes, no período compreendido entre março e dezembro de
2001.
35
Área de vida pelo método GPS modificado - A relação peso da unidade de
GPS modificado versus peso do animal foi de 3,7%, para ambos os animais que tiveram
o mesmo peso de 35 kg na recaptura.
A rota do tamanduá-bandeira #2 foi, em sua maior parte, compreendida dentro
do MPC estimado como área de vida para este animal (figura 8a). Entretanto, 141 das
1.372 localizações registradas no GPS ficaram fora desta área obtida a partir das
localizações convencionais pelo método de rádio-telemetria VHF.
A área de vida estimada exclusivamente a partir das posições obtidas pelo GPS
modificado, em nove dias, resultou em 7,3 km2, e foi maior que a estimada a partir das
posições obtidas, em nove meses, pelo método tradicional VHF (6,5 km2). A estimativa
de área de vida obtida a partir de ambos os métodos resultou em 9,2 km2.
Das 947 localizações do tamanduá-bandeira #3 registradas no GPS, 629
ficaram fora do Mínimo Polígono Convexo estimado a partir das localizações
convencionais (figura 8b).
A área de vida estimada para o tamanduá-bandeira #3 a partir dos dados
obtidos por rádio-telemetria convencional, em nove meses de monitoramento, resultou
em 11,9 km2, enquanto que a área estimada através dos dados obtidos pelo GPS
modificado, em nove dias, resultou em 9,5 km2. A estimativa de área de vida obtida a
partir de ambos os métodos resultou em 19 km2.
36
a)
b)
FIGURA 8 - Área de vida obtida por rádio-telemetria VHF e estimada segundo o
método do Mínimo Polígono Convexo (em vermelho), e rota dos tamanduás-bandeira
obtidas pelo método GPS modificado (em azul), no Pantanal da Nhecolândia (MS), em
intervalos diferentes, no período compreendido entre março e dezembro de 2001: a)
tamanduá-bandeira #2, b) tamanduá-bandeira #3.
37
Uso de hábitat e atividade pelo método GPS modificado - Os tamanduásbandeira #2 e #3, monitorados por quase nove dias através do GPS modificado não
apresentaram padrão em comum de utilização do hábitat (figuras 9 e 10).
Durante os cinco primeiros dias em que o tamanduá-bandeira #2 esteve com o
GPS modificado, o animal exibiu um padrão de atividade noturna e foi inativo ou quase
inativo durante o dia. Neste período, o hábitat mais utilizado foi o campo inundável,
especialmente durante o repouso (figura 9). Entretanto, este padrão mudou e o
tamanduá-bandeira #2 ficou ativo das 18,00 h do dia 25 as 18,00 h do dia 26/09,
incluindo o período diurno, diversificando seu uso de hábitat. Esta mudança coincidiu
com uma chuva ocorrida no dia 25 de setembro de 2001, e com uma queda na
temperatura. O dia seguinte, 26 de setembro, apresentou temperaturas mais baixas que
os demais e o animal #2 apresentou atividade durante o dia inteiro. Após cerca de 24
horas contínuas de atividade, este tamanduá-bandeira repousou, desta vez no cerrado.
No dia 28 de setembro a temperatura tornou a subir e foi semelhante a dos
primeiros dias de monitoramento, mas o animal #2 ainda apresentou atividade diurna,
visitando vários tipos de hábitat.
O tamanduá-bandeira #3 também apresentou atividade noturna, utilizando as
horas mais quentes do dia, entre as 06,00 h até por volta das 20,00 h, para repousar,
utilizando diferentes tipos de hábitat a cada dia. Este tamanduá-bandeira passou menos
tempo no campo sazonalmente inundável do que o tamanduá-bandeira #2, e em geral,
passou mais tempo no cerrado. Entretanto, estas diferenças podem ser devidas à
disponibilidade dos tipos de hábitat dentro das respectivas áreas de vida, já que, de uma
forma geral, ambos os animais preferiram marcadamente o cerrado e evitaram as lagoas
e o campo cerrado (tabela 3).
38
No dia 14 de dezembro, o animal #3, que geralmente exibia repouso a partir
das 06,00 h, apresentou atividade durante a manhã até por volta das 12,00 h, sob
temperatura de 26,6 a 32,1°C, quando o GPS foi retirado (figura 10). Assim como
aconteceu no caso do animal #2, choveu no dia anterior.
39
9000
21set01
22set01
23set01
6000
Distância percorrida (m)
3000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
26.2
35.1
23.2 C
23.2
34.1
26.0 C
24.2
35.1
25.2 C
9000
24set01
25set01
26set01
6000
3000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
27.2
35.1
28.2 C
24.0
33.1
22.2 C
23.2
23.2
22.2 C
9000
27set01
28set01
29set01
6000
5
4
3
2
1
0
3000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
23.2
30.1
23.2 C
28.2
34.9
22.2 C
24.0
32.9
25.2 C
Hora
FIGURA 9 – Distância e tipos de hábitat percorridos pelo tamanduá-bandeira #2, em
relação à hora do dia. As temperaturas, medidas na Estação Meteorológica da Fazenda
Nhumirim (UTM, zona 21 K, 536841 7900980), as 08,00, 14,00 e 20,00 h, estão
assinaladas abaixo de cada gráfico. Os dados foram obtidos no Pantanal da Nhecolândia
(MS), de 21 a 29 de setembro de 2001. Legenda: 0 = hábitat indeterminado, 1 = lagoas,
2 = floresta, 3 = cerrado, 4 = campo cerrado e 5 = campo inundável.
40
6000
06dez01
07dez01
08dez01
4000
Distância percorrida (m)
2000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
26.2
31.5
27.8 C
28.4
33.1
26.8 C
28.2
30.1
25 C
6000
09dez01
10dez01
11dez01
4000
2000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
25.6
28
27.2 C
27.6
28.1
25.4 C
24.4
29.3
25.6 C
6000
12dez01
13dez01
14dez01
4000
5
4
3
2
1
0
2000
0
0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24 0 3 6 9 12 15 18 21 24
26.2
31.3
26 C
25.5
24.2
24.8 C
26.6
32.1
27.8 C
Hora
FIGURA 10 – Distância e tipos de hábitat percorridos pelo tamanduá-bandeira #3, em
relação à hora do dia. As temperaturas, medidas na Estação Meteorológica da Fazenda
Nhumirim (UTM, zona 21 K, 536841 7900980), as 08,00, 14,00 e 20,00 h, estão
assinaladas abaixo de cada gráfico. Os dados foram obtidos no Pantanal da Nhecolândia
(MS), de 06 a 14 de dezembro de 2001. Legenda: 0 = hábitat indeterminado, 1 = lagoas,
2 = floresta, 3 = cerrado, 4 = campo cerrado e 5 = campo inundável.
41
TABELA 3 - Porcentagem de disponibilidade de hábitat dentro das áreas de
vida dos tamanduás-bandeira #2 e #3, de tempo gasto em cada hábitat, e índice de
seleção, IS, (derivado da razão entre a proporção de tempo gasto em cada hábitat e a
proporção de disponibilidade de cada hábitat). Um IS > 1 indica seleção para um
hábitat, IS < 1 ocorre sub-uso do hábitat, e IS = 1 indica que o hábitat é utilizado na
mesma proporção em que ocorre. Os dados foram obtidos no Pantanal da Nhecolândia
(MS), de março a dezembro de 2001.
Tamanduá-bandeira #2
Tamanduá-bandeira #3
Hábitat
% área
de vida
%
tempo
IS
% área
de vida
%
tempo
IS
Lagoas
9
5
0,56
6
2
0,33
Floresta
11
11
1
19
15
0,79
Cerrado
10
22
2,20
23
41
1,78
Campo cerrado
25
9
0,36
23
12
0,52
Campo inundável
45
53
1,18
29
30
1,03
42
Injúrias nos animais monitorados - O tamanduá-bandeira #5 foi encontrado
no dia 03/10/2001 com uma escoriação no dorso próxima do cinto com rádiotransmissor. A lesão de 4 x 2 cm, pode ou não ter sido causada pelo atrito com o cinto.
Capturei o animal, retirei o rádio-transmissor, e tratei a ferida com Cyanamid aerossol.
Este animal tinha sido vistoriado e filmado com atenção no dia 26/09/2001, quando não
apresentava lesão.
O tamanduá-bandeira #4 foi capturado no dia 04/04/2001 e após 168 dias da
data de captura encontrei sua carcaça em campo aberto, em adiantado estado de
decomposição, duas semanas após a sua última localização em atividade. Não pude
determinar a causa da morte. Seu rádio-colar foi desinfetado e reutilizado.
Dieta - Observei algumas atividades de forrageamento de 5 tamanduásbandeira com rádio-transmissor e de 3 indivíduos não aparelhados, entre abril e outubro
de 2001.
A maioria das atividades de forrageamento ocorreu nos campos em bordas de
lagoas, onde havia grande concentração de formigueiros, embora algumas vezes tenha
havido forrageamento dentro da floresta. Em dias mais frios, encontrei os tamanduásbandeira com maior freqüência nos campos de capim carona (Elyonurus muticus) onde
os cupinzeiros ocorrem em maior quantidade.
Encontrei os tamanduás-bandeira se alimentando de cupins apenas no mês de
junho. Coletei amostras de 8 cupinzeiros forrageados por 3 indivíduos com rádiotransmissor. Em sete casos, a espécie forrageada foi Nasutitermes coxipoensis e em
apenas um caso Armitermes sp. (tabela 4).
43
Entre abril e outubro, coletei 42 amostras de formigueiros, dos quais 4
tamanduás-bandeira aparelhados e 3 sem aparelho utilizaram como alimento (tabela 5).
Ao todo foram nove espécies de formigas consumidas, distribuídas conforme
as seguintes freqüências relativas: Solenopsis interrupta (36%), Solenopsis saevissima
(36%), Solenopsis pusillignis (5%), Camponotus crassus (7%), Camponotus renggeri
(5%), Solenopsis invicta (5%), Ectatomma planidens (2%), Labidus spininodis (2%) e
Odontomahcus minutus (2%).
Ectoparasitas – Entre março e novembro de 2001, coletei 309 ectoparasitas de
12 tamanduás-bandeira, sendo 7 com rádio-transmissor e o restante sem aparelho (tabela
6).
A espécie de carrapato mais freqüente foi Amblyomma cajennense, coletada em
11 animais. Houve exemplares de Amblyomma parvum em 4 tamanduás-bandeira.
44
TABELA 4 - Espécies de cupins forrageadas por tamanduá-bandeira no Pantanal da Nhecolândia
(MS), em junho de 2001. As horas são apresentadas em hora e centésimos de hora.
Amostra
Data
Hora Temperatura Coordenada UTM Tamanduá-
(2001)
(ºC)
Zona 21 K
bandeira
Espécie de
cupim forrageada
1
19-06
16,13
12.4
542716 7902766
#3
Nasutitermes
coxipoensis
2
20-06
10,02
22.2
542641 7902033
#3
Armitermes sp.
3
20-06
14,93
22.1
542203 7899736
#4
N. coxipoensis
4
20-06
14,98
22.1
542206 7899742
#4
N. coxipoensis
5
21-06
11,15
26.2
542263 7900085
#4
N. coxipoensis
6
22-06
14,93
20.2
542376 7900128
#6
N. coxipoensis
7
22-06
15,00
20.2
542373 7900121
#6
N. coxipoensis
8
22-06
15,12
20.2
542388 7900124
#6
N. coxipoensis
45
TABELA 5 - Amostras de formigas forrageadas por tamanduá-bandeira no Pantanal da
Nhecolândia (MS), de abril a outubro de 2001. As horas do dia são apresentadas em hora e
centésimos de hora.
Amostra
Data
Hora
(2001)
Temperatura
Coordenada UTM
Tamanduá-
Espécie de formiga
(ºC)
Zona 21 K
bandeira
forrageada
1
25-04
14,62
24
542940
7900745
#2
Solenopsis saevissima
2
30-04
19,53
18,4
542261
7900930
#2
3
01-05
16,30
29,9
543051
7903198
#4
Odontomahcus
minutus
S. saevissima
4
08-05
17,57
23,4
542303
7901424
#2
Solenopsis interrupta
5
09-05
16,70
28,2
543409
7903281
#2
S. saevissima
6
09-05
17,60
23,8
543252
7903864
#4
S. saevissima
7
09-05
17,65
23,8
543255
7903864
#4
S. saevissima
8
18-05
16,80
26,2
542972
7900768
-
S. interrupta
9
21-05
16,05
33,1
542220
7901419
#2
S. saevissima
10
13-06
15,57
33
541002
7901221
#4
S. saevissima
11
13-06
15,63
33
540993
7901214
#4
Camponotus crassus
12
13-06
18,17
24,3
543526
7903109
#2
S. saevissima
13
18-06
14,62
14,6
542930
7900746
#3
S. interrupta
14
18-06
14,80
14,6
542947
7900742
#3
S. interrupta
15
19-06
15,13
13,4
542902
7902542
#3
S. saevissima
16
19-06
15,23
13,4
542907
7902537
#3
S. interrupta
17
19-06
16,20
12,8
542812
7902662
#3
S. interrupta
18
19-06
16,27
13,1
542825
7902656
#3
Solenopsis pusillignis
19
19-06
16,53
12,8
542860
7902552
#3
S. saevissima
20
19-06
16,68
12,4
542762
7902533
#3
S. interrupta
46
Amostra
Data
Hora
(2001)
Temperatura
Coordenada UTM
Tamanduá-
Espécie de formiga
(ºC)
Zona 21 K
bandeira
forrageada
21
19-06
16,88
12
542693
7902328
#3
S. interrupta
22
20-06
10,13
22,2
542803
7901976
#3
S. interrupta
23
20-06
16,10
18
542335
7901461
#3
S. saevissima
24
20-06
17,93
10,3
542237
7901406
#3
S. interrupta
25
21-06
11,20
26,2
542239
7900080
#4
S. saevissima
26
21-06
11,30
26,2
542206
7900045
#4
S. interrupta
27
21-06
16,38
17
542842
7901830
#2
S. saevissima
28
21-06
16,68
17
543033
7902034
#2
S. pusillignis
29
21-06
16,77
17
543068
7902018
#2
S. interrupta
30
21-06
16,80
17
543075
7902020
#2
Solenopsis invicta
31
21-06
16,82
17
543112
7902015
#2
S. invicta
32
21-06
17,02
17
543176
7901958
#2
S. interrupta
33
14-08
14,93
36,8
542709
7903317
#2
Camponotus renggeri
34
14-08
16,67
33,3
539746
7906654
-
Labidus spininodis
35
15-08
17,02
24
544627
7902452
-
S. saevissima
36
28-08
16,47
22,4
541878
7900783
#2
Ectatomma planidens
37
04-09
06,33
22,7
543249
7902364
#2
S. interrupta
38
04-09
06,58
22,7
543482
7902554
#2
S. saevissima
39
21-09
07,70
32,9
542500
7899911
#6
C. renggeri
40
02-10
09,33
22,9
542693
7902934
#2
C. crassus
41
02-10
09,45
22,9
542692
7902931
#2
C. crassus
42
03-10
14,53
38
543703
7902577
#2
S. interrupta
47
TABELA 6 - Espécies de carrapatos encontrados parasitando tamanduás-bandeira no
Pantanal da Nhecolândia (MS), entre março e novembro de 2001.
Amostra
Data
Nº de
Fazenda
Tamanduá-
Espécie de carrapato
(2001)
Carrapatos
1
17-03
23
Campo Dora
#1
23 - Amblyomma cajennense
2
29-03
48
Nhumirim
#2
02 - Amblyomma sp.
46 - A. cajennense
3
31-03
36
Porto Alegre
#3
16 - Amblyomma sp.
20 - A. cajennense
4
04-04
28
Nhumirim
#4
11 - A. cajennense
17 - Amblyomma parvum
5
22-04
39
Porto Alegre
#5
13 - A. cajennense
26 - Amblyomma sp.
6
25-04
30
Nhumirim
#6
04 - Amblyomma sp.
26 - A. cajennense
22-11
6
Nhumirim
7
25-04
11
Nhumirim
-
11 - A. cajennense
8
24-05
11
Porto Alegre
-
02 - Amblyomma sp.
09 - A. cajennense
9
25-05
26
Porto Alegre
-
08 - A. cajennense
18 - Amblyomma sp.
10
24-07
16
Nhumirim
-
03 - A. cajennense
13 - A. parvum
11
25-07
13
Nhumirim
-
01 - A. cajennense
12 - A. parvum
12
20-09
22
Nhumirim
#7
bandeira
06 - A. cajennense
22 - A. parvum
48
Comportamento - Os tamanduás-bandeira utilizaram capões e cordilheiras
para dormir, sendo muitas vezes encontrados no meio dos gravatás (Bromelia balansae
e Aëchmea distichantha). Os animais geralmente, deitavam sobre escavações rasas no
solo arenoso (figura 11). Entretanto nos dias mais frios, encontrei os tamanduásbandeira dormindo em campo com capim de alto porte.
Na maioria das vezes, encontrei os tamanduás-bandeira dormindo com a cauda
sobre o corpo. Entretanto, na manhã fria do dia 21/06/2001 (cerca de 17º C), vi o
tamanduá-bandeira #2 totalmente estirado ao chão, incluindo a cauda, tomando sol em
campo aberto (figura 12).
Em outra oportunidade, presenciei este mesmo tamanduá-bandeira banhandose numa lagoa rasa, em 03/04/2001, por volta das 07,00 h, sob temperatura em torno de
26,8º C. O tamanduá-bandeira dirigiu-se vagarosamente rumo ao centro da lagoa,
forrageando durante o seu percurso. Quando chegou na lagoa, entrou na água rasa, e
numa posição quase sentada, começou a passar as garras dianteiras nos pelos das costas.
Depois se deitou sobre a região dorsal e passou as garras dianteiras nos pelos do peito,
como se tivesse desembaraçando os mesmos. Após aproximadamente 7 minutos, deixou
a lagoa e ficou forrageando no campo próximo dali. Por volta das 07,83 h, o tamanduábandeira deslocou-se para o fragmento de mata mais próximo.
No dia 24/07/2001, encontrei o tamanduá-bandeira #2 dormindo, as 09,93 h, na
borda de um fragmento de mata. Ao acordar, levantou o focinho e salivou. Depois
protraiu a língua por alguns instantes (figura 13).
Presenciei 1 defecação de tamanduá-bandeira na borda de uma lagoa no
Pantanal, mas presenciei também 3 casos de defecação desta espécie dentro de
fragmentos de mata.
49
FIGURA 11 – Escavação no solo feita por tamanduá-bandeira, no Pantanal da
Nhecolândia (MS), em 2001.
FIGURA 12 – Tamanduá-bandeira #2 tomando banho-de-sol no dia 21/06/2001
(temperatura em torno de 17º C), em campo aberto, no Pantanal da Nhecolândia (MS).
50
FIGURA 13 – Tamanduá-bandeira #2 dormindo com a cauda sobre o corpo e protraindo
a língua logo após acordar, no dia 24/07/2001, em torno das 09,93 h, no Pantanal da
Nhecolândia (MS).
51
Outra observação ocorreu no dia 26/09/2001, por volta das 10,70 h. O
tamanduá-bandeira #5 estava andando em campo aberto e começou a cheirar um
carandá (Copernicia alba), encostou o focinho no caule e depois o corpo, se coçando
(figura 14). Então, de frente para o carandá, levantou uma pata dianteira e depois a outra
e abraçou o caule, coçando o peito. Por último, esfregou a parte lateral do corpo e saiu
em direção ao fragmento de mata mais próximo.
No dia 18/10/2001 as 08,12 h, localizamos o tamanduá-bandeira #2 a menos de
um metro de outro tamanduá-bandeira não aparelhado. Ambos estavam dormindo num
fragmento de mata repleto de acuris (Scheelea phalerata) e acordaram com nossa
presença. O tamanduá-bandeira #2 levantou-se e deixou vagarosamente o local,
enquanto o outro permaneceu deitado mas inquieto e farejando o ar.
FIGURA 14 – Tamanduá-bandeira #5 se coçando em um carandá, no dia 26/09/2001,
no Pantanal da Nhecolândia (MS).
52
DISCUSSÃO
Muitos métodos têm sido empregados para estimar a área de vida de várias
espécies, e o mesmo conjunto de dados analisado por diferentes métodos pode
apresentar resultados muito distintos. O Mínimo Polígono Convexo - MPC (Mohr 1947)
consiste na ligação dos pontos referentes às localizações do animal de modo a formar o
menor polígono que compreenda todos os pontos de localização, sem lados côncavos.
Este método tem sido amplamente utilizado pois é simples, intuitivo e oferece a
oportunidade de comparar os resultados obtidos com pesquisas similares realizadas no
passado. Entretanto, Powell (2000) indicou que o MPC provê somente a área de vida
bruta do animal, sendo altamente sensível aos pontos extremos, ignorando todas as
informações do conjunto de pontos do interior do polígono, podendo incorporar amplas
áreas que nunca foram utilizadas pelo animal em questão.
Apesar destas limitações, optei pelo emprego do MPC neste estudo, para
permitir a comparação dos resultados com os estudos de Montgomery e Lubin (1977) e
Shaw et al. (1987). Adicionalmente estimei as áreas de vida dos tamanduás-bandeira
utilizando os métodos Kernel, Média Harmônica e Normal Bivariada (apêndice 2), para
permitir aos estudos posteriores meios de comparação com os resultados deste estudo.
Existem poucos trabalhos na literatura relatando sobre estimativas de área de
vida de tamanduá-bandeira. Silveira (1969), apresentou uma estimativa de área de vida
baseada exclusivamente em características ecológicas da espécie, sem uso de dados de
localizações obtidas no campo, sugerindo que os tamanduás-bandeira no Brasil
requeriam ao menos 9 km2 como área de vida. Outros, com estimativas calculadas a
partir do registro de localizações no campo, resultaram em valores muito diferentes.
Montgomery e Lubin (1977) registraram uma área de vida de cerca de 25 km2 para os
53
tamanduás-bandeira dos Lhanos venezuelanos, e Shaw et al. (1987), num estudo
realizado no Parque Nacional da Serra da Canastra - MG, encontraram uma área de vida
média de 2,74 ± 1,24 km2 para os tamanduás-bandeira machos e 3,67 ± 1,8 km2 para os
tamanduás-bandeira fêmeas. Tal variação nas estimativas de área de vida, pode ser
devido a diferentes protocolos de estudo e/ou a diferenças entre as áreas de estudo. As
diferenças entre as áreas de estudo podem estar relacionadas à disponibilidade de
formigas e/ou cupins ou a outros fatores.
As estimativas de área de vida para os tamanduás-bandeira no Pantanal da
Nhecolândia (MS), obtidas no presente estudo, usando apenas os dados de rádiotelemetria convencional, foram próximas do valor sugerido por Silveira (1969) de 9
km2, pois a área de vida média dos tamanduás-bandeira machos foi de 5,67 ± 1,66 km2,
enquanto a única fêmea com volume de dados para estimar a área de vida apresentou
praticamente o dobro da área dos machos, com 11,9 km2. Entretanto, os valores que
registrei são subestimativas das áreas de vida, pois de acordo com as curvas de área
acumulada as assíntotas não foram atingidas claramente. É possível que tanto os valores
apresentados por Montgomery e Lubin (1977) quanto os de Shaw et al. (1987) sejam
subestimativas, já que estes estudos não fazem menção à curva de área acumulada.
Além disso, estudos onde estimativas de área de vida obtidas por rádio-telemetria
convencional são comparadas com estimativas obtidas por protocolos de coleção
intensiva de dados, indicam que a rádio-telemetria convencional tende a subestimar as
áreas de vida (Ballard et al. 1998; este estudo).
Para os mesmos animais, as áreas de vida baseadas na combinação dos
métodos de VHF e GPS modificado foram maiores do que as obtidas somente com o
método convencional VHF. A fêmea, identificada como #3, apresentou uma área de
vida igual a 19 km2, a partir de cálculos baseados nos dados obtidos por ambos os
54
métodos. Este valor foi mais próximo do registrado por Montgomery e Lubin (1977),
nos Lhanos venezuelanos, embora a área de vida do macho que recebeu o GPS
modificado tenha sido muito menor (9,2 km2).
Os tamanduás-bandeira apresentaram, geralmente, ampla sobreposição de suas
áreas de vida, variando de 0 a 55% de sobreposição para cada par de tamanduásbandeira machos e até um total de 91,4% da área de vida de um indivíduo sobreposta
por diferentes indivíduos. Shaw et al. (1987) estimaram que os tamanduás-bandeira
machos, na Serra da Canastra, ocupando áreas menores do que no Pantanal,
sobrepuseram em média, menor porcentagem de suas áreas de vida (6,1%) do que a
média estimada para o Pantanal (11,2%). As sobreposições foram menos freqüentes na
Serra da Canastra do que no Pantanal (apenas 2 pares em uma combinação de 6 pares
possíveis, sendo que em um dos dois casos, a sobreposição foi decorrente da morte de
um dos animais). Shaw et al. (1987) não relataram o valor da média de sobreposição das
fêmeas mas comentaram que a quantidade de sobreposição das áreas de vida das fêmeas
foi significativamente maior do que a dos machos.
A sobreposição encontrada para os tamanduás-bandeira no Pantanal da
Nhecolândia refere-se a um valor mínimo, visto que, não foram capturados todos os
indivíduos presentes na área de estudo, e provavelmente o mesmo fato tenha ocorrido
para os tamanduás-bandeira estudados por Shaw et al. (1987), na Serra da Canastra.
Em geral, os tamanduás-bandeira repousaram predominantemente nos
ambientes de floresta e cerrado, enquanto que utilizaram com maior freqüência o campo
inundável e o campo cerrado para as atividades de forrageamento ou de movimentação.
Entretanto, este padrão pode variar de indivíduo para indivíduo, pelo menos durante
alguns dias. Por exemplo, o tamanduá-bandeira #2 utilizou o campo inundável tanto
para a atividade quanto para o repouso, no período de monitoramento intensivo pelo
55
GPS modificado. Na época do monitoramento por GPS deste animal, grande parte do
campo sazonalmente inundável, estava seco e invadido em alguns locais por arbustos
como o “assa-peixe” (Vernonia ferruginea), de cerca de 1 a 4 metros de altura, o que
parece ser suficiente para servir de abrigo para o repouso dos tamanduás-bandeira.
Algumas vezes, encontrei tamanduás-bandeira forrageando em campos
alagados, mas a maioria dos encontros, de atividade de forrageamento ou de
deslocamento, foram observados em áreas de pastagens inundáveis, que na época do
estudo apresentaram-se secas. Já a fêmea #3, na maioria das vezes, utilizou os
ambientes mais fechados (cerrado e floresta) para o repouso, embora em duas ocasiões
tenha repousado no campo inundável, durante o período de monitoramento intensivo
por GPS.
A despeito destas diferenças, ambos os tamanduás-bandeira (#2 e #3)
preferiram o cerrado, e evitaram as lagoas e o campo cerrado, durante período de
monitoramento intensivo por GPS modificado. Os animais #2 e #3 também
apresentaram um padrão de atividade semelhante, sendo mais ativos durante a noite, e
apresentando atividade diurna sob temperaturas mais amenas. Os padrões de atividade
da espécie estudada aparentemente variam de região para região, pois os tamanduásbandeira monitorados por Montgomery e Lubin (1977) na Venezuela, foram mais ativos
durante a noite, alimentando-se principalmente de uma formiga noturna, Camponotus
abdominalis. Já os tamanduás-bandeira observados por Shaw et al. (1985), na Serra da
Canastra, foram ao menos parcialmente diurnos, e Shaw et al. (1987), em estudo
realizado no mesmo local, relataram que os tamanduás-bandeira tornaram-se ativos
entre as 13,00 e 14,00 h, com pico de atividade entre as 18,00 e 19,00 h.
No Pantanal, geralmente, os animais foram encontrados dormindo com a cauda
sobre o corpo, mesmo em dias com temperaturas elevadas. Talvez o ato de dormir com
56
a cauda sobre o corpo propicie isolamento térmico ao animal. Entretanto, numa manhã
especialmente fresca (17º C), encontrei o tamanduá-bandeira #2 deitado em campo
aberto com a cauda totalmente estirada no chão, sugerindo um comportamento para
aumentar a superfície de exposição ao sol.
Shaw et al. (1985) sugeriram que a superfície da água ou ambientes com
condições semelhantes estimulariam a defecação dos tamanduás-bandeira, pois
encontraram 3 defecações, todas próximas da superfície da água, na Serra da Canastra
(MG). Presenciei 1 defecação de tamanduá-bandeira na borda de uma lagoa no
Pantanal, mas presenciei também 3 casos de defecação desta espécie dentro de
fragmentos de mata.
Estudos feitos em cativeiro, sobre a dieta de tamanduá-bandeira reportam que a
espécie prefere cupins a formigas (Carvalho e Kloss 1951; Carvalho 1966). Entretanto,
os poucos estudos sobre dieta de tamanduá-bandeira em ambiente natural, têm
apresentado diferenças quanto à predominância de formigas ou cupins. Tais
discrepâncias podem ser devido às diferentes disponibilidades de presas conforme a
área (Drumond 1992; Redford 1986) incluindo a dificuldade diferenciada do tamanduábandeira em encontrar formigas ou cupins durante suas atividades de forrageamento, à
sazonalidade (Drumond 1992; Montgomery 1985) e/ou aos diferentes protocolos de
estudo.
As diferentes disponibilidades de presas podem variar geograficamente e
sazonalmente. Por exemplo, Shaw et al. (1985) trabalhando no Parque Nacional da
Serra da Canastra (MG), encontraram predominância de formigas (88%) em relação aos
térmitas (12%), nos meses de fevereiro e março de 1978, enquanto Drumond (1992), no
mesmo local, registrou 55% de térmitas e 45% de formigas, sendo que os térmitas
contribuíram com maior porcentagem nos meses de abril, agosto e outubro e as
57
formigas foram mais representativas nos meses de março, julho e setembro de 1990.
Entretanto os dados de Drumond (1992), referentes apenas ao mês de março, apontaram
maior percentual de formigas (82%) na dieta dos tamanduás-bandeira. Drumond (1992),
sugere que a curta duração do estudo de Shaw et al. (1985), ligada à provável
sazonalidade explica em grande parte as diferenças encontradas para ambos os registros,
e que tanto seu estudo quanto o de Redford (1985) no Parque Nacional das Emas – GO,
foram realizados na época seca, o que poderia explicar a maior proporção de térmitas
em ambos, em comparação com os demais, ou que apenas a diferente disponibilidade de
térmitas e formigas nos locais de estudo podem explicar a divergência entre os
resultados.
Entretanto, no Pantanal da Nhecolândia (MS), os cupins contribuíram com
apenas 19% na dieta dos tamanduás-bandeira, e só obtive amostras de cupins no mês de
junho, enquanto que as formigas (81%) foram coletadas em todos os meses em que
investiguei a dieta. Estes resultados foram semelhantes aos obtidos por Montgomery e
Lubin (1977) e Montgomery (1985), que encontraram mais de 85% de formigas
compondo a dieta dos tamanduás-bandeira. O Pantanal, com solo altamente arenoso e
sujeito a inundações, assemelha-se mais aos Lhanos venezuelanos, do que à Serra da
Canastra, que apresenta escoamento rápido da chuva, estando pouco sujeita à
inundações. A inundação pode ser um fator que altera a disponibilidade de recursos para
os tamanduás-bandeira, e Montgomery (1985) sugere sazonalidade no consumo de
cupins por tamanduá-bandeira, com um aumento na proporção da dieta formada por
térmitas quando os Lhanos estão alagados, apresentando diminuição da disponibilidade
de formigas do gênero Camponotus.
A despeito das diferenças observadas nas freqüências relativas de formigas e
cupins, houve semelhanças na composição da dieta dos tamanduás-bandeira do Pantanal
58
da Nhecolândia e da Serra da Canastra, com ocorrência dos gêneros de térmitas
Nasutitermes e Armitermes e dos gêneros de formigas Camponotus, Ectatomma e
Solenopsis, nos dois locais (Drumond 1992; este estudo).
Nowak e Paradiso (1983) relataram que as glândulas salivares do tamanduábandeira parecem secretar somente quando o animal está se alimentando, mas observei
salivação logo após o repouso do tamanduá-bandeira #2, que logo após acordar, salivou
e protraiu a língua.
Shaw et al. (1987) relataram uma razão sexual de aproximadamente 1:1 (13
machos e 12 fêmeas) para os tamanduás-bandeira estudados no Parque Nacional da
Serra da Canastra. Entretanto, neste estudo, eu capturei mais tamanduás-bandeira
machos do que fêmeas (9 machos e 3 fêmeas), uma razão sexual muito próxima da
encontrada em dois meses de estudo (agosto e setembro de 2001) no Parque Nacional
das Emas (10 machos e 3 fêmeas) (Guilherme Henrique B. de Miranda 2002,
comunicação pessoal). Talvez razões sexuais desviadas em favor de machos sejam
características de alguns locais.
Os transmissores VHF utilizados foram adequados à proporção de peso
recomendada por Brander e Cocharn (1971), que sugerem que o limite máximo do peso
do transmissor não deve ultrapassar 6% do peso do animal, e quanto ao peso parecem
não ter causado nenhum impacto negativo sobre os animais aparelhados. A anatomia
particular do tamanduá-bandeira torna inapropriado o uso de rádio-colar no pescoço,
como é comumente utilizado em mamíferos, devido ao alto risco de perda do rádiocolar. O aparelho colocado na cintura escapular do animal e, nesta situação,
assemelhando-se mais a um cinto, sendo utilizado por tempo prolongado, pode ter
causado a escoriação notada no dorso do tamanduá-bandeira #5.
59
Tamanduás-bandeira são animais reconhecidamente fortes e as fêmeas da
espécie podem carregar seus filhotes no dorso por vários meses. Em cativeiro, a fêmea
de tamanduá-bandeira pode carregar um filhote de até 31 kg sobre o dorso (Bartmann
1983). O colar GPS modificado, de 1,3 kg, foi compatível com o peso dos animais
estudados pois a relação peso da unidade versus peso do animal, em ambos os animais
de 35 kg, foi 3,7%. Dentro do limite proposto por Brander e Cochran (1971), esse
método poderia ser empregado em tamanduás-bandeira de peso igual ou maior que 22
kg.
Em uma ocasião o tamanduá-bandeira #2 foi encontrado a menos de um metro
de outro animal não aparelhado, de sexo desconhecido. Se o tamanduá-bandeira, não
aparelhado, fosse uma fêmea, isto poderia sugerir que a utilização do rádio-transmissor
não impediu a capacidade do macho aparelhado #2 formar par.
A maioria dos tamanduás-bandeira analisados, neste estudo, foi parasitada pelo
carrapato Amblyomma cajennense. Pereira et al. (2000), em estudo sobre a associação
de carrapatos e animais selvagens em áreas localizadas no Pantanal da Nhecolândia,
citam o tamanduá-bandeira como um dos hospedeiros mais infestados, sendo o
carrapato Amblyomma cajennense o ectoparasita mais comum, estando presente na
maioria dos hospedeiros. Diniz et al. (1995) também encontraram carrapatos do gênero
Amblyomma parasitando tamanduás-bandeira em cativeiro.
As informações sobre atividade e comportamento do animal, obtidas neste
trabalho, podem ser utilizadas diretamente no ecoturismo. Saídas a campo durante as
horas de temperatura mais baixa ou principalmente depois de chuvas e conseqüente
queda na temperatura, podem aumentar a probabilidade de avistar a espécie.
60
Este trabalho, indicou que os tamanduás-bandeira do Pantanal da Nhecolândia
requerem áreas de vida maiores do que as encontradas para os tamanduás-bandeira da
Serra da Canastra, sugerindo que as áreas necessárias para a conservação de populações
viáveis desta espécie no Pantanal, devem ser muito maiores do que se acreditava até
então.
Recomendações para estudos futuros – O tamanduá-bandeira é uma espécie
endêmica da região Neotropical e distinto em sua fisiologia, por apresentar tanto a
temperatura corporal quanto a taxa de metabolismo, baixas, quando comparadas às de
outros mamíferos de mesmo porte. Estas características, aparentemente, são uma
adaptação à sua alimentação de baixo teor calórico, composta predominantemente por
formigas e cupins o que, provavelmente, limitam a distribuição da espécie, que só
ocorre nas regiões mais quentes do continente. No Pantanal, os tamanduás-bandeira
monitorados por GPS modificado apresentaram maior atividade em horas de
temperaturas relativamente amenas, e geralmente, utilizaram os fragmentos de mata
como abrigo nos períodos mais quentes do dia, sugerindo que talvez tenham uma
estreita faixa ótima de temperatura, quando comparada à de outros homeotermos.
Portanto, questões sobre a atividade e uso de hábitat desta espécie em função da
temperatura são relevantes.
Razões sexuais desviadas em favor de machos foram encontradas no Pantanal
da Nhecolândia (este estudo) e no Parque Nacional das Emas (Guilherme Henrique B.
de Miranda 2002, comunicação pessoal). Entretanto, para ambos, o número amostral
ainda é baixo e restrito espacial e temporalmente e será necessário maior quantidade de
61
informações antes que se possa concluir que as razões sexuais dos tamanduás-bandeira
sejam realmente enviesadas em partes de sua distribuição.
Ectoparasitas foram freqüentes nos tamanduás-bandeira deste estudo.
Entretanto, não há estudos sobre quais doenças estes vetores podem transmitir.
Há falta de informação sobre as densidades populacionais desta espécie, listada
como ameaçada de extinção. Os poucos trabalhos que tratam de estimativas
populacionais são os de Shaw et al. (1985), na Serra da Canastra, que encontraram
densidades de 0,17 a 1,31 tamanduás-bandeira/km2, e os dados de levantamentos aéreos
de Coutinho et al. (1997), que relataram uma densidade de 0,035 tamanduásbandeira/km2 em todo o Pantanal. Entretanto, os autores indicam que o método
empregado não é muito adequado para estimar densidades populacionais desta espécie.
Informações sobre o real “status” de densidade e abundância da espécie são necessárias
para esclarecer e orientar ações de manejo no Pantanal e no restante de sua área de
distribuição.
Os poucos estudos sobre área de vida dos tamanduás-bandeira apresentaram
resultados discrepantes, senão contraditórios (Montgomery e Lubin 1977, Shaw et al.
1987, este estudo), sugerindo que serão necessários muitos outros estudos relacionando
o tamanho da área de vida dos tamanduás-bandeira com a disponibilidade de formigas e
cupins em diferentes hábitats e regiões, antes que se possa compreender toda a variação
da área de vida destes animais em toda a sua distribuição geográfica.
62
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Prairie
Wildlife
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Ecology 61:65-71. Jamestown, ND: Northern
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70
APÊNDICE 1
Dados biométricos dos tamanduás-bandeira capturados de março a setembro de 2001, no Pantanal da Nhecolândia (MS).
Tamanduá
-bandeira
Massa
(kg)
Sexo
Comp.
total
(cm)
Comp.
cabeçacorpo (cm)
Comp.
cauda
(cm)
Circ.
cabeça
(cm)
Circ.
tórax
(cm)
Circ.
abdômen
(cm)
Altura
escapular
(cm)
Comp.
crânio
(cm)
Larg.
crânio
(cm)
Comp.
orelha
(cm)
Larg.
orelha
(cm)
Comp.
pata
anterior
(cm)
Larg.
pata
anterior
(cm)
Comp.
pata
posterior
(cm)
Larg. pata
posterior
(cm)
1
24
F
185
113
72
29
61
60
58
38
10
6
4,5
14
9
16
8
2
36,5
M
188
112
76
28
66
76
54
31
10
5
4
12
9
15
8
3
37
F
198
117
81
28
68
76
59
37
10
5
3,6
15
9
14
7
4
32,5
M
184
116
68
28
61
71
52
32
10
5
4
14
8
14
7
5
31
M
195
118
77
27
67
78
56
37
10
5
3,5
14
9
15
8
6
39
M
192
122
70
30
69
78
58
39
10
5
4
15
9,5
16
9
7
36
M
185
114
71
29
85
74
50
37
9
4,5
3,5
11
9
15
7
8
46
F
205
130
75
30
74
89
56
38
10
5
5
14
10
15,5
7,5
9
36
M
192
124
68
28
65
74
57
34
10
5
3,5
10
9
15
7
10
32
M
193
126
67
27
60
64
54
37
10
5
4
12
10
15
7
11
35
M
183
115
68
30
67
76
57
36
10
5
3,5
13
8
13
7
12
35
M
198
123
75
27
65
72
54
36
8
5
4
13
9
15
7
* Abreviações: Comp. = comprimento; Circ. = circunferência; Larg. = largura
71
APÊNDICE 2
Área de vida (km2) estimada para os tamanduás-bandeira, monitorados por rádio-telemetria VHF, no Pantanal da Nhecolândia, em intervalos
diferentes, no período compreendido entre março e dezembro de 2001. As últimas duas linhas correspondem à soma dos dados obtidos por
rádio-telemetria VHF (entre março e dezembro de 2001) e pelo método GPS modificado (de 20/09 a 03/10 para o animal #2 e de 05 a 14/12 de
2001, para o #3). Os cálculos foram efetuados no programa CALHOME (kie et al. 1996).
Tamanduábandeira
N° de localizações
Mínimo Polígono Convexo
Kernel Adaptativo
Média Harmônica
Normal Bivariada
100%
95%
100%
95%
100%
95%
100%
95%
#2
57
6,5
5,8
8,7
6,8
7,4
4,8
27,5
11,9
#3
28
11,9
9,4
24,7
18,7
11,5
9,3
47
20,4
#4
37
7,5
6,9
15,6
10,9
9,9
6,2
28
12,1
#5
22
4,5
3,5
14,3
8,3
6,7
2,8
23,1
10
#6
41
4
3,3
9,5
6,7
5
2,9
19
8,2
#2
1.429
(VHF + GPS)
9,1
6,8
19
10
15
9
35,6
15,4
#3
975
(VHF + GPS)
19
12,4
36,6
14,1
42,2
14,3
43,1
18,7
* CALHOME, opções: 1 metro, tamanho do grid = 0.
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