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Natalie Lima
Luz em busca da
Conheça o projeto luminotécnico de lojas
que optaram por uma cara própria
Q
uando a lighting designer Diana
Joels colocou os pés no espaço que
seria a loja Pano Nosso, em uma
galeria de Ipanema, deu de cara com um
primeiro nível, cujo pé-direito era bastante
reduzido, e um mezanino. A idéia inicial
de suas clientes, as irmãs Paula e Gisele
Licht, era cobrir o teto do primeiro andar
com tecidos suspensos, pelos quais passaria
a luz embutida. A pequena extensão do
pé-direito e a temática da loja – produtos
de origens variadas cujo ponto comum é o
pano como matéria-prima – fizeram com
que Diana, sócia no escritório Maneco
Quinderé e Associados, optasse por um
projeto luminotécnico que não provocasse
a sensação de claustrofobia e que ao mesmo
tempo pudesse ter a cara de sua dona.
O case Pano Nosso é apenas um exemplo
de como, nos últimos anos, lighting designers têm cada vez mais liberdade para criar
projetos diferenciados para lojas. Mais que
isso: que não existe uma regra sobre o que
é certo usar, mas sim uma tendência na
adoção de alguns materiais, cuja aplicação, essa sim, varia de acordo com o perfil
da loja e o objetivo a ser alcançado.
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luz & cen a
PARA REVELAR DETALHES
Inaugurada em setembro de 2004, a Pano
Nosso é o resultado de um trabalho que
Gisele implementa há algum tempo, a
customização de tecidos. Mas além do material confeccionado por ela, a empresária
dá espaço a artistas plásticos e designers
que usam o pano para fazer objetos como
lustres, espelhos, jóias e móbiles. O resultado é um imenso caleidoscópio de peças
dispostas em diferentes níveis, pulverizando assim o olhar do visitante.
Mas dirigir (ou não) o olhar do visitante não
era o único desafio do projeto luminotécnico. Gisele diz que um de seus principais
desejos era fazer de sua loja um ambiente
acolhedor. “Queria que as pessoas se sentissem bem aqui dentro”, diz.
Como então iluminar um número tão
grande de produtos num espaço reduzido
e ainda somar pontos a favor da sensação
de conforto do cliente? “Busquei acompanhar a proposta da loja, de maneira
que a luz estivesse coerente com cada
detalhe”, relata Diana.
Loja Tim, em Curitiba: projeto
luminotécnico foi fundamental
para dar identidade à loja
divulgação
identidade
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divulgação
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ESCOLHAS
Na Pano Nosso, pé-direito
baixo e grande quantidade de
elementos visuais foram os
desafios para a iluminação
Para isso, ela assumiu a subjetividade como o
norte estético de sua iluminação. A intenção
era permitir ao visitante a livre experimentação visual da loja revelando objetos de
tamanhos, texturas e formas diversas.
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Quem entra na loja se depara com nichos
mais iluminados do que outros, assim
como regiões com cores mais quentes,
e outras mais frias. “Chamo este tipo de
loja de loja de dono. São esses casos em
que você percebe a alma da pessoa no
estabelecimento”, aponta Diana.
A opção de inserir fontes de luz na parede
rebaixada por causa do mezanino, que acaba
funcionando como lounge, foi logo descartada por Diana. Em vez disso, ela decidiu
gerar a iluminação geral da loja sempre de
baixo para cima, a fim de ampliar a sensação de altura. “Incorporei as fontes de luz à
ambientação em vez de criar um elemento
a mais”, diz a lighting designer.
Aplicadas em rodapé destacado da parede,
as fluorescentes T5 foram cobertas com
acrílico leitoso e inseridas em uma espécie
de calha. “Além de esconder as lâmpadas,
o acrílico atua como difusor”, diz. Para
destacar detalhes expostos nas prateleiras,
muitas AR 70, soluções apropriadas para
ambientes com pé-direito baixo.
No fundo da loja, em sua parte mais alta,
Gisele aplicou um revestimento em placas
de aço para esconder a saída de ar condicionado. Levemente inclinada, essa aplicação
acabou funcionando como um rebatedor
de luz. Diana, assim que percebeu esse ponto forte, criou um sistema de iluminação
com cabo tensionado e lâmpadas halógenas
palito. “A luz vai para o rebatedor e volta
para o ambiente”, explica.
Também prejudicada pelo pé-direito
baixo, a vitrine da Pano Nosso mereceu
atenção especial. Diana criou uma espécie de ribalta móvel de madeira que, vista
de fora, assemelha-se a um rodapé. Ali
foram instalados trilhos eletrificados com
spots PAR (flood) 20 e AR 70. “O trilho
permite flexibilidade e mobilidade, uma
vez que se pode retirar ou acrescentar os
spots, além de afiná-los de acordo com
Fluorescentes T5 geram luz
difusa quando recobertas
por superfície de acrílico:
iluminação gerada de
baixo para cima para dar
sensação de altura
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a arrumação da vitrine, que nessa loja está
sempre mudando”, explica Diana. Enquanto as PAR têm facho mais aberto, as AR,
por apresentarem ângulo mais fechado,
podem destacar pontos específicos.
CLEAN, A PALAVRA DE ORDEM
A alguns quilômetros da Pano Nosso, no
bairro do Leblon, a primeira loja de rua
da estilista Isabela Capeto aposta em um
visual bem mais clean. E a iluminação é
fundamental na obtenção desse resultado.
A idéia de combinar funcionalidade e discrição, sempre escondendo as fontes de luz, dá
a tônica do projeto luminotécnico, também
assinado por Diana Joels.
O aspecto dissonante está no teto do ambiente
principal. Nele, luminárias de grande porte
foram escolhidas pela própria Isabela. Com
finalidade apenas decorativa, elas chamam
atenção para uma fiação aparente e uma pintura mal-acabada, heranças deixadas pelo antigo
ocupante do espaço, a livraria Dantes.
“A loja tinha que ser compatível com os
produtos à venda, ou seja, com peças especiais, super diferenciadas e de renome
internacional. Tínhamos que acompanhar
as definições de conceito da loja como um
todo, que pretendia criar um ambiente
chique e limpo para permitir que as roupas
se destacassem e para evitar excesso de
informação, uma vez que as próprias peças
são super decoradas”, analisa Diana.
Assim, ao lado do arquiteto Leonardo Braile, a lighting designer ocupou-se em criar
soluções que dessem suporte à proposta
minimalista da arquitetura. Para as araras,
fluorescentes T5 com gelatina corretiva em
rasgo na cinta de gesso promovem uma luz
suave e ao mesmo tempo eficaz. Do outro
lado da loja, na outra parede, arandelas,
também escolhidas pela estilista. “Isabela
esteve super presente e influente em todo o
processo”, declara Diana.
Bastante interessante foi a solução adotada
para a minivitrine de madeira, localizada também no espaço principal da loja. Distribuídos
por prateleiras, anéis, brincos, colares, presilhas
de cabelo e outros itens são iluminados de maneira cuidadosa: instaladas nas laterais de cada
nível, luminárias de embutir com lâmpadas
bipino de 20W/12V ganharam toque especial
quando Diana usou transformadores eletrônicos dimerizáveis da marca Intral. Eles estão
escondidos na base do móvel e proporcionam
luz para todas as prateleiras, permitindo assim
evidenciar cores e texturas dos objetos expostos
com maior ou menor intensidade.
Na vitrine da Pano Nosso,
iluminação ribaltada
confere caráter cênico
aos elementos e ao mesmo
tempo diminui a percepção
do pé direito baixo
Já a vitrine – cuja principal característica é
não se parecer com uma – recebeu minidicróicas embutidas. Elas lavam as cortinas
brancas de baixo para cima. Nada de roupas
ou peças expostas: a idéia é ser o mais discreto possível.
Mas a parte preferida de Diana é o provador
da loja. Com pé-direito baixíssimo e teto em
laje, o espaço teve suas paredes recobertas por
espelhos. “A idéia era criar uma caixa de espelho”, diz a lighting designer. A solução foi usar
luz difusa e rebatida. A partir desse conceito,
Diana sugeriu que os espelhos não se estendessem até o teto. O objetivo era poder instalar
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Ugo Nitzsche
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lâmpadas fluorescentes por trás dos mesmos
e fazer com que a luz emitida rebatesse no
teto branco. “O resultado foi uma caixa de
espelhos com iluminação difusa e homogênea, sem sombras”, define Diana.
LIMPEZA VISUAL
A mesma filosofia usada na loja de Isabela
Capeto – “estética clean para peças com
colorido e texturas intensas” – norteou o
trabalho assinado pelo lighting designer
Ugo Nitzsche, da NTZ Iluminação Arquitetônica, para a loja Q-Vizu do shopping
Rio Sul, no Rio de Janeiro.
Ugo procurou fazer com que seu projeto
complementasse o que foi criado por
Frederico Cruz, Ilana Binzstok e Mariana
Violante, do escritório TRINI Arquitetura. O trio optou por dar ênfase às roupas
– que têm no design exclusivo e nas cores
fortes suas principais características – a
partir de uma arquitetura praticamente
monocromática. “O intuito era criar
uma espécie de moldura, deixando cores,
texturas e desenhos apenas nas roupas e
demais produtos, evitando o excesso de
informação”, explica Ugo. A exceção vai
para a volumetria de painéis geométricos
de madeira nas laterais da loja.
A união de simplicidade e eficiência fica
evidente também na iluminação. No
teto, duas reentrâncias longas, esbeltas e
pintadas internamente de preto abrigam
equipamentos de luz de destaque e formam (visualmente) uma área retangular.
“Dentro dessa área, criamos nichos geométricos, gerando luz geral indireta”, relata Ugo. No entanto, quem olha para o teto
da loja percebe a ausência de continuidade
entre esses nichos. O lighting designer
conta que a supressão de duas unidades
foi proposital: sua intenção era quebrar
a monotonia visual do espaço através do
recurso da descontinuidade.
As fluorescentes T5 aparecem mais uma vez
como opção para o projeto. Ugo conta que
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as usou nos nichos quadrados para gerar
um nível médio de luminância na loja (cada
uma delas tem 14W e temperatura de cor
de 3000K). Já nas reentrâncias, para destacar
produtos, ele optou por dicróicas GE Precise
25º. “Elas destacam sem interferir na iluminação feita no painel lateral”, diz.
PERCEPÇÃO DIRECIONADA
Para Ugo, um dos aspectos mais interessantes do trabalho é poder influenciar
na percepção visual do visitante. “A luz
indireta dentro dos nichos gera a sensação
de que a área restante do teto é mais escura, embora seja da mesma cor, branco”,
comenta. Nessa parte mais “escura” estão
sprinklers (equipamento antiincêndio),
detectores de fumaça e saídas de ar condicionado – elementos que obviamente não
poderiam ser retirados. Deslocados para
as áreas entre-nichos, ficam na sombra
quando a luz é acionada. “Assim eles ficam
menos perceptíveis”, diz.
Vale lembrar que com o nível médio
de luminância é possível destacar peças
consumindo menos carga e ainda permitir a aparição de efeitos gerada por
outras fontes de luz, como as lâmpadas
incandescentes refletoras R63, instaladas
No teto da loja Q-Vizu,
n ic ho s ge o m é t r ic o s
geram luz geral indireta
Nas araras, a iluminação realizada de
baixo para cima foi feita por lâmpadas
fluorescentes T5. O resultado, a sensação
visual de que as roupas flutuam, também
se deve, em parte, ao nível médio.
CUMPRINDO A MISSÃO
Enquanto que fluorescentes T5
fazem a roupa “flutuar” (à esquerda),
incandescentes refletoras, também
localizadas no piso, geram efeito
uplight no teto da loja
no chão, rentes ao painel volumétrico.
Posicionadas neste setor, elas promovem
o efeito de uplight, fazendo com que a luz
reflita no teto da loja.
Qual seria a principal missão de um (bom)
projeto luminotécnico? “A iluminação
dá o tom e pode ajudar a definir o tipo
de todo e qualquer estabelecimento comercial; atrai o cliente em potencial, dá
destaque aos produtos e os diferencia entre
si; sugere um trajeto a ser percorrido pelos
clientes; cria o clima adequado para visitação e incentiva vendas”, enumera Ugo.
Se ajudar a definir a identidade de uma loja
é condição que caracteriza um projeto lumi-
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notécnico eficaz, a isso podemos acrescentar,
diante da realidade brasileira, o fator economia como elemento de grande importância.
“A idéia é tentar sempre obter o máximo
de efeitos visuais com o mínimo de carga
necessária”, diz Ugo. Tudo para diminuir
o gasto energético. Apostar em materiais
que não necessitam de tanta manutenção
também é uma boa opção.
A dobradinha “atratividade e relação custo/benefício satisfatória” parece ter dado
a tônica do projeto que Neide Senzi, da
Senzi Consultoria Luminotécnica, criou
para a loja GSM da operadora Tim, em
Curitiba. Convidada para o projeto pelo
arquiteto Átila, do escritório CAD Design, localizado em Porto Alegre, Neide foi
a opção para o trabalho com um sistema
totalmente fora do convencional.
No espaço GSM, sistema
de color mixing com
fluorescentes T5 dão ar
futurista à loja
Ela conta que a proposta da Tim era criar
uma loja que fosse também um espaço
institucional propício para enfatizar,
através de elementos visuais de aparência
high-tech, os benefícios da então nova
tecnologia GSM (a loja foi inaugurada
no início de 2004). “Este seria o local
de apresentação do sistema e ao mesmo
tempo de interface com diversos aparelhos
celulares com sistema GSM, como Nokia,
Siemens, Motorola etc. Portanto, não seria
uma loja convencional de relação compra
e venda, mas acima de tudo um showroom
institucional”, analisa Neide.
Criar um projeto luminotécnico à altura da
ambição da Tim. Isso significava planejar
algo fora dos padrões – era preciso remeter
o espaço da nova loja ao conceito de inovação. Pensando nisso, a lighting designer
decidiu trabalhar com um conceito flexível
de luz, que ela chama de “experience”. E
a experiência é do visitante. Ele vivencia a
mudança das cores do piso vidro no espaço
GSM graças a sensores ativados pelo toque
dos pés, por exemplo; vê projeções com
gobos que passeiam pelo espaço exibindo
as logomarcas das empresas de telefone;
tem acesso os aparelhos instalados em
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módulos com backlight, entre outros pontos. “Fiz uso de um conjunto de recursos
de iluminação que se integra à proposta
arquitetônica para transmitir imagem de
avanço tecnológico”, resume Neide.
Iniciado em 2003, o projeto da loja de
Curitiba contou com Neide desde sua
fase mais embrionária. Muitas vezes, conta
ela, a linguagem da iluminação determinou a inserção de detalhes específicos,
mas foi além. A influência ocorreu até
mesmo durante a escolha de materiais
fundamentais, como “piso e forro, nichos
expositores de produtos, paredes e vãos”,
relata. Resultado: um projeto que teve
como linha-mestra a integração entre
espaço, arquitetura e luz.
APOSTA NO RGB
Com formato de elipse, a loja da Tim está
dividida em ambiente de recepção, lounge
central, miniauditório para apresentação
de audio-visuais e treinamento, área de
atendimento e espaço GSM (com bancada
de pesquisa e acesso à internet através de
monitores). Justamente neste espaço, um
sistema RGB com fluorescentes T5 (sim,
elas estão em todo lugar!) de 28W salta
aos olhos.
“Por se tratar de um espaço experience, era
importante utilizar o recurso de troca de
cores para dar dinamismo e flexibilidade”,
conta Neide. A opção pelas fluorescentes
coloridas (verde, vermelho e azul), conta
ela, foi uma solução barata e eficaz. “Se
esse projeto fosse realizado nos EUA ou na
Europa, toda a luz seria feita com LEDs”,
comenta.
Inseridas abaixo do piso de vidro, essas
T5, através do sistema de colormixing,
podem produzir cores secundárias e até
mesmo o branco. O resultado é um ambiente com características extremamente
cênicas. Além de ser ativado à medida que
os visitantes pisam no chão de vidro, o
sistema de color mixing ganha destaque
quando combinado com as paredes, todas
na cor preta. “O entorno preto enfatiza a
dramaticidade da luz e torna o ambiente
mais cenográfico, sem tantas reflexões”,
diz Neide.
Mas não é só no espaço GSM que as paredes dão ar cenográfico ao local. Graças
a essa escuridão é possível setorizar os
ambientes, compartimentando-os. “Mas
ao mesmo tempo eles são integrados e não
têm divisórias físicas”, arremata.
Já a parte central, onde se localiza o
lounge, com pufs e poltronas coloridas,
ganhou caráter nada cênico, mas ainda
assim de grande dinamismo visual. Ali
estão os movings heads que a todo momento projetam imagens das logomarcas
das empresas parceiras da Tim. Formada
por fluorescentes compactas brancas, a
iluminação deste setor tem característica
mais técnica e funcional.
Essa área contrasta muito com o auditório, onde uma estrutura metálica em
formato elíptico ganha vida a partir de
três lâmpadas T5 em color mixing ,
localizadas no piso dessa elipse. Através
do sistema RGB, as hastes da estrutura
mudam de cor, tornando o ambiente bastante atraente para quem o visita. Quem
entra dentro da estrutura, cujas paredes
são transparentes, sente-se em uma bolha
que muda de cor constantemente. “Por
ser institucional e informativo, esse espaço se transformou num grande ponto
de interesse visual”, opina Neide.
PARA DEFINIR O PRODUTO
Também em formato de elipse, a vitrine
da loja da Tim em Curitiba ganhou luz
wash a fim de evitar o potencial reflexo
sobre as imagens institucionais que constituem a fachada.
Na loja da Tim foi utilizado um backlight
de acrílico leitoso no teto interno da vitrine.
Ali foram instaladas lâmpadas coloridas T12
de 40W nas cores azul e vermelho.
Os únicos elementos de LEDs usados
na loja da Tim foram os balizadores
da LED Point, localizados no hall de
entrada. “Eles ajudam a promover uma
recepção calorosa na chegada do cliente”,
diz Neide.
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Conheça o projeto luminotécnico de lojas que optaram por uma