Injustiça necessária
Tentar conceituar Justiça é abrir possibilidades infinitas e trabalhar em
absoluta dificuldade. A injustiça prescinde de conceituação, se sente e tudo fica
claro.
A mediana cidade do Litoral Sul do Estado estava em êxtase. A mais
ilustre conterrânea, a mundialmente conhecida professora Solange Arton,
voltara a seu torrão natal para visitar familiares e descansar após o mais
estrondoso sucesso do lançamento de seu último livro: "A Injustiça sempre
sobrepujou a Justiça." A obra fora lançada simultaneamente em dez idiomas. A
crítica saudava a publicação
como um estudo lúcido, incontestável,
devidamente documentado, cuja linguagem agradável escancarava que na
história da humanidade as instituições político-jurídicas sempre permitiram, ou
até mesmo ajudaram a solidificar: a Injustiça sobre a Justiça. De fato, muitos
Estados são mais criminais, mais assassinos, do que a soma das máfias,
quadrilhas e celerados individuais. O livro foi considerado por alguns como uma
obra prima de história; por outros como o mais denso tratado de filosofia da
pós-modernidade; para determinados estudiosos, como o opúsculo que fez ruir
definitivamente boa parte da teoria do Direito.
Dentre os moradores da cidade, o livro não atingia uma dúzia de efetivos
leitores, mas todos se gabavam da imensa inteligência de Solange e, de uma
forma ou outra, muitos, quando dela falavam, buscavam narrar algum fato para
aproximar tão eminente figura à sua própria pessoa. Apesar da condição de
prócer, Solange era uma mulher humilde. Beirando os sessenta anos de idade,
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com um metro e sessenta e cinco de altura, corpo forte, mas não gordo,
cabelos levemente grisalhos, olhos negros e arredondados, faces limpas com
traços suaves, mantinha uma postura serena e agradável. Aparentava ter
menos idade. Não falava muito e buscava escutar mais. Cansada de tantas
entrevistas pelo mundo afora, decidira ficar distante da imprensa por um bom
tempo. Foi quando recebeu uma carta com uma fotografia de uma repórter com
uns 25 anos de idade. A jovem, com mais ou menos 1,78 de altura, magra,
com formas bem traçadas, cabelos castanhos lisos e longos, olhos verdes e
rosto francês, pedia uma entrevista para fundamentar sua tese de doutorado,
cujo tema de pesquisa era a vida e obra de Solange Arton. Gostou da foto e do
tema de estudos e resolveu aceitar o pedido.
O encontro foi marcado para o fim de tarde de uma sexta-feira. O local
seria a própria casa da escritora. De frente para o mar, distante da cidade, a
residência fora construída em uma espécie de sítio. Havia muitas árvores
frutíferas, várias plantadas pela escritora, um riacho de água potável ao fundo,
com uma pequena e bela cachoeira capaz de proporcionar banhos
inesquecíveis. Também havia uma piscina com uma enorme banheira Jacuzzi
ao lado dela. O acessório podia ser usado nas quatro estações e ali dentro
momentos inolvidáveis poderiam ser vividos. A morada era muito agradável.
Ampla, com três quartos, cozinha maravilhosa, sala relaxante, três banheiros e,
como destaque principal, uma biblioteca com uns dez mil livros, dentre os quais
não havia nenhum de qualidade inferior. Embora a maioria fosse composta de
obras de literatura, havia muitos livros de história, filosofia, artes, sociologia,
antropologia, poesia, dicionários especializados, além de uma infinidade de
outros temas específicos, incluindo semiologia, linguística, psicanálise, cinema,
teatro, entre tantos outros assuntos. Na parte da frente havia uma vasta
varanda, com redes e poltronas confortáveis.
Eram dezoito horas quando Amanda chegou. Estacionou seu veículo
diante da residência e entrou caminhando elegantemente. Estava formalmente
vestida, com tailleur requintado, cuja saia curta dava à jovem estudante um
toque de sensualidade. Ao perceber que não havia campainha na casa, ficou
sem saber o que fazer. Já na varanda, diante da porta, pôs-se a bater palma e
chamar de forma repetida: "Senhora Solange." Como ninguém aparecia, ficou
um pouco tensa. O cair da tarde estava ameno e uma fraca brisa refrescava o
ar. Solange vinha da parte de trás da casa e, pelas amplas janelas, avistou
Amanda. Seus cabelos balançavam levemente e sua figura estonteava pela
beleza. Ela parou um pouco e ficou a observar a atraente moça. Em seguida
dirigiu-se à porta.
Após cumprimentos amáveis, ambas foram se sentar em duas
espaçosas poltronas, muito afagáveis e dispostas na varanda de forma a
permitir vasta visão do mar. O visual era lindo. A casa, um pouco mais ao alto,
permitia plena visualização da faixa branca de areia, seguida de uma mais
escura, banhada pelas lindas ondas azuis e suas espumas brancas. Logo à
frente havia uma graciosa ilha, em forma de tartaruga, que dava um toque
especial à paisagem. Uma pequena canoa de pescador arrematava a estética
natural. No primeiro aperto de mãos houve uma empatia recíproca. As duas
mulheres pareciam felizes por estarem ali, uma diante da outra. Corria uma
energia por seus corpos. Amanda admirava profundamente Solange por suas
obras, por sua história de vida e, apesar de nunca antes tê-la visto
pessoalmente, sentia que a conhecia de maneira íntima. Solange era uma
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mulher solitária que tinha grande apreço por jovens estudiosos. A suavidade do
ser, a gentileza dos gestos, a timidez e a sensualidade dos sorrisos, o encanto
e a formosura de um corpo moço e um rosto magnífico, tudo somado à
inteligência profunda e o gosto pelo estudo, fez com que Solange sentisse
enorme prazer em ver Amanda com seus cabelos ondulando ao sabor do vento
fraco e fresco.
– Amanda, li todo o material que você me mandou, em especial seu
currículo e seu projeto de tese. Gostei muito. Fiquei honrada com a escolha de
meu nome como objeto de pesquisa. Tentarei ajudá-la no que for possível.
A jovem estava extasiada por estar ao lado daquela mulher que tanto
admirava. Seu coração batia forte e não conseguia agir com naturalidade.
– Doutora Solange, a senhora não sabe o quanto a admiro. É uma honra
muito grande estar aqui e muito obrigado por suas palavras sobre meu
trabalho. Não sei o que dizer de tanta alegria.
– Minha jovem, já que temos um trabalho a realizar juntas, o melhor a
fazer no momento é relaxar. Vejo que você está um pouco tensa. Vou à
cozinha pegar um tererê. Você gosta de tererê?
– Não, senhora. Quero dizer, não sei. Nunca tomei.
– É uma espécie de chimarrão gelado. Há várias formas de fazer. Eu
apenas ponho erva-mate para tererê na cuia junto à bomba, espremo um limão
sobre ela e ponho duas pedras de gelo por cima. Na garrafa térmica ponho
água gelada e muito gelo, acrescento suco de limão e as frutas já espremidas.
Nada de açúcar. Fica uma espécie de limonada com o sabor da erva. A grande
vantagem é a forma de sorver o líquido, chupando a bomba. No mínimo mata
um pouco de nossa necessidade oral.
Amanda desprendeu um leve riso, o que tornou seu rosto encantador.
Solange partiu lentamente e Amanda ficou sentada, olhando o mar e curtindo o
grande prazer de estar ali, junto de sua autora preferida. Sua mente a fez
flutuar. O favônio lhe acariciava e refrescava suas faces. Nunca havia estado
tão feliz em toda sua vida. Sentiu que amava profundamente aquela mulher.
Passados alguns minutos, Solange voltou trazendo na mão direita uma
grande garrafa térmica de aço inoxidável e na outra um chifre de boi
trabalhado, com uma base ornamentada e na abertura um enfeite de couro. De
dentro dele saía uma bomba também de aço inoxidável, ajustada à erva
depositada. Após sentar confortavelmente em sua poltrona a mestre pôs água
gelada no recipiente e deu para a estudante provar. Amanda sorveu
lentamente o líquido gelado e ficou fascinada.
– Muito refrescante e saboroso!
Solange, ao ver Amanda levar aos lábios à bomba e sugá-la
suavemente, sentiu algo primitivo. Seu corpo estremeceu e ficou totalmente
sem jeito, como uma adolescente. Recompostas, iniciaram a conversa.
Amanda perguntava e Solange ia respondendo. A conversa era gravada
e, logo depois das primeiras perguntas, ambas ficaram muito à vontade.
Trocavam ideias, riam, mas a aluna buscava sempre aprender, mantendo a
atenção às palavras da professora. Solange narrou toda sua vida acadêmica.
Iniciou contando seus estudos de mestrado, doutorado e pós-doutorado.
Descreveu como e por quais motivos escrevera cada um dos seus livros, que
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ao todo somavam vinte e cinco. Explicitou as bases de seu pensamento.
Relembrou seu concurso para professora da Universidade Federal e como foi
convidada, alguns anos depois, para ministrar aulas nas universidades norteamericanas: California Institute of Technology, Harvard University e Stanford
University, bem como na inglesa University of Oxford e na francesa Sorbonne.
Falou de tantas outras universidades e das incontáveis traduções de seus
livros para os idiomas mais importantes do planeta, incluindo outros menos
conhecidos, além de palestras e conferências que proferira pelo mundo afora.
A conversa/aula estava animada e descontraída até o momento em que
Solange passou, mais uma vez, a cuia de tererê para Amanda. Dessa vez,
quando da troca de mãos, elas se tocaram, aparentemente sem desejar. Houve
um instante de paralisia total. As duas mulheres ficaram imóveis por segundos
até os movimentos voltarem, o que coincidiu com mais um sorriso encantador
da jovem e bela moça. Trabalharam, ou conversaram, ou se divertiram, ou tudo
junto, sem sentirem as horas passarem. Já havia escurecido e o tererê
acabado, quando Solange se deu conta do mundo cotidiano.
– Nossa, que horas são?! Creio que estou com fome.
– São vinte duas horas e quinze minutos, Solange.
– Credo, o tempo! Como passa lento nos momentos ruins. Como passa
rápido quando se está feliz.
– Eu nem senti. Parece que começamos agora.
– Bom, Amanda, acho que por hoje chega.
– Obrigada, Solange, eu já vou... mas há um tema muito importante para
minha tese que não consegui abordar. Desculpe-me. Será que não poderíamos
conversar só mais um pouco? Prometo que vou embora em seguida.
– Não, não, nada disso, nada de trabalho agora. Vamos parar e preparar
algo para comer. Amanhã, seguimos os trabalhos. Venha comigo à cozinha.
Amanda quase desmaiou de alegria. Levantou-se reflexivamente e
seguiu sua mestra até a cozinha.
– Tive uma ideia melhor. Vamos tomar um bom e relaxante banho de
banheira.
– Mas Solange eu não trouxe roupa. Só tenho essa que estou vestindo.
– Ora, Amanda, fique simplesmente à vontade.
Não pressentindo censura e ao constatar que não havia olhos
malévolos, nem bocas ávidas para destruir a vida alheia, Amanda pôs-se à
vontade.
No dia seguinte acordaram cedo e foram direto tomar um banho de
cachoeira. A água fria e natural a massagear os corpos relaxados e bemdormidos. Não havia lugar para a tristeza e os sorrisos comandavam as ações.
Tomaram um gostoso café da manhã, com frutas que elas mesmas colheram,
e iogurte com granola e frutas secas. A manhã estava esplendorosa. O Sol
dava um brilho especial às árvores, ao riacho e ao mar. A cachoeira, a piscina
e a banheira – sim, a banheira dos fatos inesquecíveis – formavam um
conjunto perfeito. Os passarinhos cantavam como tenores e barítonos. Por
algum motivo, tudo parecia mais lindo, acima do normal. Sentaram-se nas
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mesmas poltronas e nos mesmos lugares e, de uma forma diferente, olharam o
mar, a ilha e a canoa, que não estava mais lá. Por um longo momento ficaram
caladas, alegres, sem preocupação, como se fossem duas pessoas que há
muito conviviam juntas e no silêncio tudo falavam. Amanda quebrou a
taciturnidade.
– Solange, existem temas sobre tua vida sem muitos dados. Pelo menos
os livros que li não abordam. Eu mesmo não sei se são verdadeiros os falsos.
É verdade que você já foi juíza de Direito?
– Não gosto de falar sobre isso, Amanda, mas é verdade sim.
– Mas por que você não gosta de falar sobre isso? Por que é um tema
praticamente desconhecido? O que houve?
– É algo muito pessoal e me custou caro. Minha família, na época, não
conseguiu entender. Tive de enfrentar todo mundo. Quase me internaram como
louca por pedir demissão da função de magistrada. Para eles, era uma decisão
inconcebível. Afinal, hoje mais do que nunca, ser juiz de Direito é o sonho
profissional da juventude e de quase todos os juristas. Eu passei no concurso,
em primeiro lugar, quando tinha um pouco menos que sua idade. Estava com o
futuro garantido, conforme o imaginário da classe média. Todos acreditavam
que era uma estupidez jogar isso tudo fora sem motivo. A estabilidade
econômica sobrepõe-se à felicidade. Mas se eu ficasse, iria morrer de tristeza.
– Mas o que houve de tão importante? O que lhe causava tanta tristeza?
– Nunca falei disso para ninguém. Nem meus pais souberam os motivos
de minha inesperada decisão. Já faz mais de trinta anos. Foi a derrocada de
meu Ideal de Ego.
– Como assim, Solange?
– Amanda amada, vou lhe contar tudo. Pela primeira vez, falarei sobre o
tema e, caso você queira, considere-se autorizada a publicar. Mas tenha
paciência, pois agora falarei longamente. Eu era uma estudante profundamente
idealista. Havia um grupo grande de jovens muito influenciados pelo velho
professor Ivon, um jusnaturalista clássico, muito culto e persuasivo. Com suas
palavras encantadoras, nos convenceu da existência de uma Justiça Natural,
embora nunca tenha deixado bem claro quem a conceituava aqui na terra. As
palavras se bastavam e nunca eram comparadas com a realidade. E nós
adorávamos aquilo. Ah, como adorávamos! Tínhamos reuniões permanentes e
estávamos plenamente convictos de que entraríamos na magistratura e iríamos
realizar a mais plena e absoluta justiça. Também havia um professor crítico no
corpo docente que nos mostrava o Direito de forma totalmente diferente. Nós o
odiávamos. Ele depreciava nossos objetivos e falava coisas más sobre o Poder
Judiciário. Era tachado de comunista e vivia isolado. Seu nome era Osmar.
– Fui a primeira do grupo a ser aprovada e ingressar na magistratura.
Fizerem uma grande festa em minha homenagem. Naquela época não havia
idade limite e nem tempo de experiência para participar do concurso. Eu me
formei e em seguida me inscrevi no primeiro concurso disponível e passei. Isso
demorou uns dois anos. Como juíza substituta, de início, fui para uma cidade
de grande porte atuar em uma vara criminal, como cooperadora. O tempo foi
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passando e eu condenava, dia após dia, pobres, analfabetos e excluídos. As
exceções eram raríssimas. Dentre os processos criminais, quase setenta por
cento eram denúncias para apurar crimes contra o patrimônio privado. Nada de
crime financeiro, do colarinho branco, de corrupção, de tortura, de sonegação
de impostos, de contrabando ou descaminho. Furto, roubo, alguns poucos
latrocínios e alguma coisa relacionada a drogas, mas só com pequenos
traficantes. Essa rotina começou a me sufocar. Com muito custo consegui
convencer o assessor do Presidente do Tribunal a me trocar de lugar.
Mandaram-me para uma pequena cidade. A população estava distribuída em
umas sete mil pessoas no perímetro urbano e umas quinze mil no rural. Na
cidade havia só a rua principal, passagem para os veículos que trafegavam
entre as duas cidades maiores que havia na região, de onde saíam outras ruas
menores. A urbe havia decrescido nos últimos anos, pois a atividade
econômica preponderante era a extração de madeira e, como os madeireiros
haviam destruído a natureza, não havia mais madeira a ser extraída. O lugar
também não possuía qualquer atividade cultural ou de lazer, salvo os bares,
inacessíveis às mulheres e, principalmente, para uma mulher juíza. Mas eu
estava feliz, pois me afastara da vara criminal e estava assumindo uma
comarca sozinha, mesmo sendo juíza substituta, era uma oportunidade para
fazer a minha Justiça e do meu modo. Todavia, em todas as áreas de atuação,
os fatos não mudaram muito. No cível eu servia para cobrar conta para os
bancos e os agiotas. No penal, as coisas não eram diferentes. Na área de
menores – na época ainda não havia o Estatuto da Criança e do Adolescente –
havia um número interminável de crianças miseráveis sem qualquer
perspectiva de vida e sem as mínimas condições de existência, pelas quais
nem o Estado, nem a família, nem ninguém queria assumir a responsabilidade.
Não havia escola, psicóloga, ou qualquer instituição para encaminhar aquelas
crianças pobres. Os direitos constitucionais à saúde, à educação, ao lazer,
enfim, o grande rol de direitos previstos no artigo quinto da nossa, como dizem
os juristas, Carta Magna, simplesmente não existiam e não eram tema dos
processos que eu instruía e julgava. Era notável a ausência desses direitos no
cotidiano da grande maioria da população do município, mas a minha Justiça
natural não conseguia fazer nada.
Amanda escutava quieta e observava como o rosto da querida Solange
se entristecia a cada frase. Seus olhos se enchiam de lágrimas e algumas
vezes sua voz se embargava.
– Sabe, Amanda, eu ainda estava entusiasmada com a ideia de Justiça,
apesar de um pouco confusa teoricamente. As palavras perdiam, a cada dia, o
encanto diante da realidade. Em uma noite fui convidada para um jantar no
Rotary Club. Era um jantar festivo e permitiam a entrada de mulheres. Então,
eu fui. Deram-me a palavra e fiz um discurso igual ao tempo da universidade.
Conclamei a todos para o bem e para a Justiça. Olhava nos olhos daquelas
pessoas e sentia que não me compreendiam ou não acreditavam em minhas
palavras. Mas foi um advogado beberrão a gota d'água. Nunca esqueci o nome
dele: Geremias. No exato momento em que eu falava da Justiça acima de tudo,
ele levantou-se e, com voz trôpega, disse para todos ouvirem: "Doutora!!
Justiça se faz com dinheiro. O resto é balela, é conversa fiada. Esse negócio
de Justiça sem dinheiro, sem comida na mesa dessa gente, venho ouvindo há
anos lá na igreja. Por favor, pare com isso. Não somos idiotas!" O ambiente
ficou tenso, eu queria prender o advogado. Felizmente o velho escrivão,
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homem sempre ponderado, fez-me desistir dessa besteira e fui para casa. Não
dormi a noite toda, mas na verdade o sono não veio porque lá no fundo da
alma eu já sabia que o advogado estava certo e que eu havia feito um papel
ridículo. Entrei em conflito. Meus ideais se rompiam e eu tentava juntar os
cacos como um vaso quebrado espalhado no chão.
– Solange querida, mas a magistratura é isso. Não, não...
– Agora eu sei, Amanda. Mas foi muito difícil abandonar a fantasia e
entrar na realidade. Um sonho torna-se pedra sólida em nossa mente.
Abandoná-lo é tarefa difícil. Muitas crianças sofrem quando descobrem que
Papai Noel é um embuste, não é mesmo? Não penso que a magistratura seja
algo inútil. Mas não servia para concretizar meus ideais e não suportei isso.
Não sou contra que outros assumam essa tarefa, desde que saibam bem o que
fazem. Bom, mas o pior mesmo veio depois. Aí não suportei mais.
– Houve algo grave?
– Grave!? A vida é grave! Não é feita para amadores como eu era
naquele momento. Meu trabalho estava absolutamente em dia. Eu havia
baixado muito o número de processos na comarca. Os que tramitavam eu
conhecida quase todos de memória. Lembro-me de uma semana na qual havia
marcado uma audiência de instrução e julgamento em um processo de pedido
de alimentos. No dia seguinte, me enviaram mais dois processos, ambos de
investigação de paternidade com pedido de alimentos. Notei que o réu era a
mesma pessoa do processo de alimentos. De forma mecânica mandei reunir os
três processos e designei uma audiência conjunta para todos. Após uma
semana, finalmente seria realizada a bendita audiência. Já sabia que o
advogado de réu era o advogado borracho. Ele sempre chegava atrasado às
audiências e isso me irritava. O escrivão consecutivamente deixava tudo pronto
antes de eu entrar na sala de audiências. Mas como estava demorando, e não
gostava de atrasar as audiências, resolvi entrar na sala. Fui direto para minha
mesa. Quando olhei, sentados à minha direita, no lugar destinado às partes,
havia uma mulher com três crianças. A mais nova, um bebê de colo e as outras
duas com dois e quatro anos, mais ou menos. Ao lado dela havia outra mulher,
também com um bebê de colo e outra criança, talvez com um ano e meio. E ela
estava grávida. Ao lado dessa última havia outra mulher, com outro bebê, esse
com apenas dias de vida. As três possuíam o mesmo defensor aditivo. A
Promotora de Justiça estava sentada ao meu lado direito. Assustada, chamei o
escrivão e lhe perguntei, em voz inaudível, o que estava acontecendo. Ele me
disse que a primeira mulher era a esposa do requerido e pleiteava alimentos
para ela e para os filhos. As outras duas requeriam o reconhecimento da
paternidade das crianças e, de igual forma, alimentos para si e para a prole.
Nesse momento já comecei a não me sentir muito bem. Deu-me um forte calor
e o ar ficou pesado, difícil de respirar. Cinco minutos depois, entra o advogado,
sóbrio, mas com uma fisionomia de ressaca de dar dó. Logo atrás dele entrou o
réu segurando a mão de outra mulher, cuja barriga indicava que em breve
haveria um parto, talvez naquele mesmo dia. Os três sentaram-se ao meu lado
esquerdo, um pouco mais abaixo. Antes mesmo de eu falar qualquer coisa o
patrono disse, com voz enojada: "Doutora, prezada colega, meu cliente não
nega a paternidade dessas crianças. Ao contrário, reconhece e assume todas
elas como suas filhas. Aqui está sua folha de pagamento. Ele é gari da
Prefeitura Municipal e seu salário bruto é de exatamente um salário mínimo.
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Não possui outra fonte de renda. Peço a Vossa Excelência, que sabe fazer
Justiça sem dinheiro, que julgue esse caso da melhor maneira possível. Não há
contestação e o requerido concorda em pagar alimentos. A função de fazer
Justiça é de Vossa Excelência." Aquelas palavras me atingiram de forma
violenta. Meu cérebro foi cortado com cada sílaba mencionada. Olhei para a
Promotora que baixou os olhos. A advogada das mulheres levantou os ombros,
num gesto anunciando que não tinha a menor ideia do que fazer. O escrivão
aproximou-se temendo que eu desmaiasse. Levantei-me com dificuldade e
caminhei com as pernas bambas até meu gabinete. Sentei em minha
confortável poltrona e entrei em crise de choro. Chorei por mais de uma hora,
enquanto todos conversavam na sala de audiências. Quando tive condições de
me restabelecer, peguei um papel e fiz umas contas. Na época o salário
mínimo correspondia a sessenta dólares. E diante de mim estavam quatro
mulheres, seis crianças e duas outras para nasceriam em breve. Como dividir
sessenta dólares por onze pessoas, na verdade doze, pois o homem também
teria de viver? Menos de cinco dólares por pessoa ao mês. Fiquei sentada por
um longo tempo, pensando no que fazer. Começaram a me martelar a mente
as palavras do detestado professor Osmar, quando citava um filósofo espanhol:
“É impossível fazer Justiça em um país estrutural e economicamente injusto.”
Que ódio eu senti! O professor abominado retornava como porta-voz da
realidade, do bom senso, enquanto meu amado professor jusnaturalista nada
mais tinha a me dizer.
– Quando me convenci da impossibilidade de fazer alguma coisa, voltei
à sala de audiências. Ao entrar todos pararam imediatamente de conversar e
passaram a me olhar, em silêncio absoluto. Em tom maquinal, apenas disse
que tínhamos de fazer um acordo. E fizemos. O salário foi divido
percentualmente por pessoa e cada mulher ganhou seu quinhão de acordo
com a quantidade de filhos. Ao dar a sentença de homologação do acordo
sentia forte dor, talvez mais uma repulsa, no sentimento. Estava sentenciando
a Injustiça, jogando todos na miséria e fazendo de conta que o sistema
funcionava. Daí em diante, criei uma ojeriza profunda pela Justiça sem
dinheiro, por esse discurso metafísico enganador, mas entrei em conflito.
Sempre fui preparada para a magistratura que até então me parecia a única
opção profissional. Qualquer alternativa representava a instabilidade, a certeza
de dificuldade. Meu mundo estava restrito a ser funcionária do Estado ou ser
subjugada à insegura e à dificuldade. Pensava que não havia possibilidade de
outra vida. Mesmo assim, pedi demissão da magistratura naquela semana. Foi
nesse momento que minha família reagiu violentamente. Na verdade, tentaram
me internar. Foram falar com o Presidente do Tribunal de Justiça para não
aceitar o pedido. Meus colegas de trabalho me criticaram muito. Mas eu não
esmoreci e, então, decidi procurar o professor comunista que odiava tanto. Ele
me atendeu, respeitou minha decisão, mencionou ser corajosa minha atitude e
me apresentou caminhos. Em tempo curto entrei para o mestrado da minha
antiga universidade. Ele foi meu orientador. Passei a viver com o dinheiro da
bolsa de estudos. Minha dissertação foi meu primeiro livro e teve grande
sucesso. E foi assim que minha nova vida começou.
Nesse momento Solange entrou em prantos e as lágrimas golfaram por
ambas as faces. Amanda pulou para sua poltrona, sentou-se ao seu lado,
colocou sua cabeça sobre seus seios e passou a acariciar seu cabelo. Solange
sentiu-se confortada e, pouco a pouco, parou de soluçar. Ficaram assim por
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longo tempo. Levantaram-se e caminharam de mãos dadas até o mar, quando
se atiraram nas águas. Brincaram e acabaram rindo.
Solange e Amanda produziram muitos fatos juntas. Livros bem-falados
por bocas de olhos leitores. Episódios malfalados por bocas ferinas de olhos
medíocres.
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