OS DESCONHECIDOS TERRITÓRIOS DA SUBJETIVIDADE: um corpo febril e a descoberta de si em “Uma italiana na Suíça”, de Clarice Lispector Samarkandra Pereira dos Santos Pimentel Doutoranda em Letras pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB Samara Inácio da Silva Universidade Regional do Cariri (URCA). Mestre em Letras pela Universidade Federal do Ceará - UFC. Palavras-chave: corporeidade. gênero. narrativa. Abstract A remarkable trait in Clarice Lispector's work is the inner investigation that reflects on the problems of the human condition. In “An italian in Switzerland”, a narrative published in her collected writings “Para não esquecer”, she follows her own rule. In this story, we get to know Rosa who, after some hard inner discoveries, when wandering by the dominions of an unknown subjectivity, finds herself a woman, revealing secrets of a prior abulic body. Therefore, in analizing the constituent elements in this narrative, we shall make use of the theories that discuss the subjectivity and the relationship of the subject with his own body, that is thus understood as a territory full of emotions and feelings. In order to proceed with this analisys, it shall be of great importance the work of Garcia, Nunes, Xavier and Birman. Keywords: corporeity; gender; narrative. n. 36 2011 p. 103-111 vivência Traço marcante na obra clariceana é a sondagem interior que reflete acerca dos problemas da condição humana. Em 'Uma Italiana na Suíça', crônica publicada na coletânea Para não esquecer (1978), a autora não foge à regra. Nesta história, conhecemos Rosa que, após algumas difíceis descobertas íntimas, ao trilhar os territórios de uma subjetividade desconhecida, descobre-se mulher, desvelando os segredos de um corpo antes abúlico. Assim, analisando os elementos que compõem esta narrativa, acercar-nos-emos também das teorias que buscam debater a subjetividade e a relação do sujeito com seu próprio corpo. Este é assim compreendido como território fértil de emoções e sentimentos. Para tanto, será de grande valia recorrermos a Garcia, Nunes, Xavier e Birman. 36 Resumo 103 “O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las era preciso apontá-las com o dedo”. Gabriel Garcia Márquez Considerações preliminares vivência 36 A abordagem que norteia este breve estudo acerca da crônica “Uma Italiana na Suíça”, de Clarice Lispector, leva-nos a recorrer às teorias que trabalham a narrativa da autora sob o ponto de vista filosófico-literário, como a de Nunes (1995), em que as estratégias da linguagem são debatidas para estabelecer o caráter, por vezes, existencial das obras clariceanas. De certa forma, tal ponto de vista tem-se tornado comum entre os estudiosos ou admiradores da escritora, o que não implica a invalidação dessa atitude crítica. 104 No entanto, tendo em vista que a abordagem literária se constrói a partir de um pensamento pretensamente “interdisciplinar” à crítica literária, juntaremos os trabalhos que têm sido desenvolvidos em torno da consistente relação que se apresenta entre os sujeitos e seus corpos. A idéia de corpo nos remete a uma compreensão que o apreende, enquanto território a ser descoberto e mapeado, evidenciando, assim, a necessidade de promover um encontro entre o sujeito e seu próprio corpo, como forma de travar conhecimento com o mundo e consigo. Daí a necessidade de dialogarmos com Garcia (2006), que nos proporciona a percepção das trajetórias do corpo em face do mundo, da época, da identidade e da territorialidade. Caminho semelhante segue Xavier (2002-2004), quando se propõe a discutir o tratamento dispensado ao corpo, percurso traçado desde os gregos até a contemporaneidade e que se divide em dois momentos de extrema importância em nosso trabalho: o corpo invisível e o corpo subalterno. À crítica literária e aos estudos acerca do corpo, contudo, é necessário relacionar os trabalhos desenvolvidos por Birman sobre o feminino, investigação de base freudiana e que nos fornece subsídios para observar de que maneira se apresenta o feminino na crônica clariceana, o que indubitavelmente nos leva a considerar os estudos sobre gênero como elemento complementar na fundamentação discursiva que empreendemos sobre o estatuto do feminino em “Uma Italiana na Suíça”. Portanto, compreendemos que a reflexão teórica somada ao texto literário é fundamental para o andamento de nosso trabalho, haja vista a relevância que se tem dado aos territórios da subjetividade, ao (re) conhecimento do corpo como conhecimento de si e ao embate travado entre o estatuto do feminino em face da sociedade. Todos estes elementos estão estrategicamente dispostos na narrativa clariceana, explícita e intrinsecamente, pois a personagem que protagoniza a crônica em estudo é construída a partir da ausência dolorosa do conhecimento, confrontando-se consigo. Assim, a autora, ao construí-la, pressupõe que sua necessidade de conhecimento de si - mesmo que tardiamente - avulta como elemento indispensável. Já a felicidade, por sua vez, não poderia ser alcançada, não em virtude de seus quarenta anos de idade, mas, sobretudo, pela ineficiência de saber que se é. O mundo obscuro de Rosa As obras de Clarice Lispector integram a geração de 45 do Modernismo brasileiro e se situam naquilo que se convencionou chamar de corrente intimista, o n. 36 2011 p. 103-111 que proporciona uma análise sempre voltada para a investigação do “ser”, do “eu”; o viés de exame se constrói sob a ótica filosófica ou filosófico-literária, em que, muitas vezes, o elemento literário é ofuscado em virtude de estudos que supervalorizam apenas um dos caminhos percorridos pela autora na concepção de seus escritos. No entanto, a 'falha' da crítica não diminui o valor de suas obras literárias que dignificam a perscrutação interior da corrente intimista, quando a sondagem circula pelo íntimo das personagens, procurando descrever seus estados de alma e suas angústias. Seu cotidiano cinzento pode ser apreendido tanto pela ambiência da crônica quanto pelo título que a ficcionista escolhe em que se confrontam Itália e Suíça, isto é, cria-se uma oposição entre o clima da Itália, nem sempre de atmosfera fria, e o clima suíço, quase sempre gélido. 105 A narrativa se inicia mostrando o suplício de Rosa, uma italiana na Suíça, conforme indica o título da crônica, cuja angústia logo é explicitada: “Rosa perdeu os pais quando era pequena. Os irmãos se espalharam pelo mundo e ela entrou para o orfanato de um convento. Lá levava uma vida sóbria e dura com as outras crianças” (Lispector, 1999, p. 88). Além da tentativa de mostrar o cotidiano da protagonista, esta passagem demonstra a semelhança entre Rosa e as outras crianças, pressupondo que ela não se destacava, não era “diferente” de nenhuma outra, fazendo com que a similaridade entre os seres do orfanato denotasse um dado cruel, já que subverte as questões referentes à subjetividade e à individualidade. Órfã muito cedo, ela foi morar num convento, longe dos outros irmãos, fator que nos coloca frente a um profundo estado de solidão, porque esta mesma similaridade entre os seres também delibera um estado de isolamento. Sobre a “orfandade”, assevera-nos Pellegrino (1988): “Há uma orfandade das coisas e dos seres, no mundo de hoje. E entre coisas e seres órfãos vagueia o homem órfão, pois só se conquista a plena pertinência ao mundo na medida do consentimento às coisas para que existam, no esplendor de sua graça” (Pellegrino, 1988, p.191). n. 36 2011 p. 103-111 vivência A assertiva de Picchio vai ao encontro do discurso de Auerbach (2004) quando de suas observações sobre To The Lighthouse, romance de Virginia Woolf, em que se percebe claramente a alusão às cenas “miniaturizadas”, isto é, aos acontecimentos sem importância na narrativa, como o momento em que Mrs. Ramsay mede o comprimento das meias no filho caçula, James. Acerca disso, afiança-nos Auerbach (2004): “Neste episódio totalmente carente de importância são entretecidos constantemente outros elementos, os quais, sem interromper o seu prosseguimento, requerem muito mais tempo para serem contados do que ele duraria na realidade” (Auerbach, 2004, p. 477). Assim, tanto Picchio quanto Auerbach tocam em pontos decisivos da prosa clariceana, porque os acontecimentos cruciais da narrativa são gestados através das (des) importantes cenas ou falas que compõem a história de Rosa. 36 Segundo Stegagno Picchio (1997), o estilo da autora é compacto e pode ser percebido nas suas coletâneas de contos, em que “o encontro entre o quotidiano cinzento e os atos de rebelião vem celebrado de ceninhas familiares, miniaturizadas e cruéis” (Stegagno Picchio, 1997, p. 612). Nós acrescentamos as crônicas de Clarice Lispector, porque estas também perseguem, na maioria das vezes, o mesmo desejo de desvendamento do eu e, principalmente, os aspectos elencados acima são plenamente percebidos na crônica “Uma Italiana Suíça”, sobretudo quando se ressalta a aparente ingenuidade da personagem, que nem por isso se priva de sair em busca do “conhecimento”. A orfandade de Rosa se complementa com o status de “estrangeira” da personagem, que não havia perdido somente os pais, mas também sua Pátria, o que inviabiliza a conquista da “plena pertinência” mencionada por Pellegrino. Também vale lembrar que, de certa forma, os órfãos irmanam-se na elaboração diária de uma solidão acompanhada. Deste modo, sem vaidades, a vida da protagonista passa a girar em torno de pequenos e permitidos prazeres como o simples gosto pelo clima outonal, haja vista seu cotidiano, antes da saída do convento, resumir-se ao ora et labora: “Ela lavava roupa, varria os quartos, costurava. Enquanto isso as estações se sucediam. Com a cabeça raspada e o longo vestido de fazenda grosseira, às vezes, com a vassoura na mão, espiava pêlos vidros da janela. O outono era a estação de que mais gostava porque não era preciso sair para vê-lo: atrás dos vidros as folhas caíam amareladas no pátio, e isso era o outono”. (Lispector, 1999, p. 89) vivência 36 Como todo convento, não havia a presença de homens, porém, neste, o sexo masculino representava o impuro, tanto que “quando um homem pisava no patamar, lavava-se o chão e queimava-se álcool em cima” (Lispector, 1999, p. 88). Novamente, a similaridade de gênero entre as internas do convento ressalta a solidão, evidenciando o ausente conhecimento do corpo, enquanto instrumento sexual. Acerca do tema, Bernell (2002) afirma: 106 “[...] o período de internação em ambiente especial constitui parte significativa do período vital total do indivíduo. Esse lapso de tempo no qual o indivíduo vive confinado pode deixar marcas profundas na subjetividade e se configura enquanto tema de estudo apropriado em si mesmo. A condição de internado, seja num hospital geral, num hospital psiquiátrico, numa prisão, num colégio interno, num convento ou seminário, nos parece em si mesma como um assunto que merece ser estudado e compreendido” (Bernell, 2002, p. 02) Ora, as marcas aludidas por Bernell podem ser percebidas na narrativa através, por exemplo, do gosto pelo outono, que, em princípio, Rosa admira “porque não era necessário sair para vê-lo” (Lispector, 1999, p. 89), sugerindo, de início, que o hábito de ficar sempre dentro do convento já fazia parte da própria subjetividade da personagem e demonstra o desconhecimento acerca do mundo e de outros indivíduos; entretanto, o outono adquire certo valor para a protagonista: “atrás dos vidros as folhas caíam amareladas no pátio, e isso era o outono” (Lispector, 1999, p. 89). Chevalier; Gheerbrant (1997), acerca do simbolismo que há em torno da folha, afirma: “un bouquet ou une liasse de feuille désignent l'ensemble d'une collectivité, unie dans une même action et une même pensée” (Chevalier; Gheerbrant,1997, p. 438). Era isso que Rosa conhecia: uma única ação, um mesmo pensamento, a coletividade do convento. Apesar de ter sido publicado como crônica, percebemos que Rosa destoa das personagens de Clarice Lispector, sempre apontada como criadora de personagens de ampla densidade psicológica e indecifrável complexidade. Não obstante ser diferente de personagens como G. H. e Joana há certa fidelidade no tom narrativo também comum à autora: “Clarice Lispector se manteria fiel às suas primeiras conquistas formais. O uso intensivo da metáfora insólita, a entrega ao fluxo de consciência, a ruptura com o enredo factual têm sido constantes do seu estilo de narrar que, na sua manifesta heterodoxia, lembra o modelo batizado por Umberto Eco de “opera aperta”. Modelo que já aparece, material e n. 36 2011 p. 103-111 semanticamente, nos últimos romances, A Paixão Segundo G. H. e Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres.” (Bosi, 1994: p. 424) [grifos do autor]. Apesar dos traços do perfil de Rosa serem simplórios e dos problemas próprios de quem descobre o mundo, o que acentua a admiração adolescente da protagonista diante de suas descobertas, a fidelidade ao insólito permanece assim como o fluxo de consciência, o que demonstra a profunda necessidade da autora em criar personagens que desconstruam a visão corriqueira da vida e das coisas. O mundo recente de Rosa “Todas as histórias que mencionei tratam direta ou indiretamente da característica humana da curiosidade. Esta, por seu turno, leva quase fatalmente ao tema do conhecimento proibido, a um limite potencial à curiosidade. A curiosidade conduz certos indivíduos a atos como os de Pandora e de Psique, do Peregrino de Dante e do Filho do Elefante. No Paraíso Perdido, a imaginação sonhadora de Eva transforma a curiosidade em uma forma de subversão lírica. Por medo de perder tudo, a princesa de Clèves restringe sua ansiedade de descobrir novas dimensões do amor” (Shattuck, 1998, p. 166). Ora, Shattuck ressalta algo importantíssimo para nosso estudo, a curiosidade é uma característica humana, portanto, trata-se de algo inerente aos indivíduos que se encontram sempre diante do mesmo, no caso específico de Rosa, a curiosidade se efetiva frente à necessidade de conhecer o diferente: o mundo e a si. Acerca da saída de Rosa, a narradora descreve suas palavras que, mesmo sem ela saber elucidar, afirma e corrobora nossa observação: “O mundo me pareceu...” (Lispector, 1999, p. 89). Termo bem escolhido, pois, para ela, o mundo apenas parecia, conhecia a aparência do mundo, a essência ela descobriria por meio da curiosidade que a levaria à empreitada de afastar-se do convento, embora fosse também lá fora viver de maneira subalterna. Com a saída de Rosa, temos a primeira referência ao corpo: “saiu com sua trouxa pequena, a cabeça raspada, a saia nos calcanhares” (Lispector, 1999, p. 89). Esta passagem nos direciona à condição subalternizada da protagonista, quando a autora colore a saída de Rosa com a “trouxa na cabeça” e a “saia nos calcanhares”, refletindo a categoria a que pertencia, sugerindo que ela não era apenas interna, porque a narradora a caracteriza como empregada doméstica, além de atribuir-lhe qualidades de ex-prisioneira que, mesmo a contragosto das cruéis freiras, havia pago a sua pena. n. 36 2011 p. 103-111 vivência A saída de Rosa equivale à primeira tentativa de se descobrir, de saber se era capaz, como um primeiro passo decisivo para (re) afirmar sua subjetividade frente ao novo. Assim, este dado leva-nos a considerar que o estado recluso de Rosa desperta sua curiosidade – mesmo que monótona – , o que, segundo Shattuck (1998), é uma das temáticas presentes na literatura de todos os tempos: 36 Como mencionamos, Rosa sairia do convento que, para ela, em nada deveria se assemelhar ao paraíso. Assim sendo, aos vinte anos, decidiu partir, a contragosto das freiras. Foi o primeiro passo dado sozinha: “Era uma vontade obstinada, monótona, passiva. As irmãs se espantaram, disseram que ela iria para o inferno. Mas como Rosa não retrucava sequer com um argumento, venceu. Saiu, foi empregar-se como criada” (Lispector, 1999, p. 89). 107 vivência 36 O corpo da personagem, ao sair, ainda estava profundamente marcado pelo tempo vivido no convento, cujas roupas suscitam o recato, utilizado indubitavelmente para refrear a subjetividade e a impulsividade sexual das internas. A saia comprida é a marca levada por Rosa para o mundo de aparências, de sonhos. Não obstante, ser uma marca criada de forma artificial, assemelha-se ao que Neto assevera sobre a cicatriz de Ulisses: “o território do corpo é uma carta – no sentido mesmo cartográfico – a enunciar uma série de experiências que foram sendo impressas ao longo do tempo e das quais nem sempre se pode fugir ou apagar” (Neto, 2006, p. 57). Os anos experienciados no convento acarretam uma nova compreensão da carta/corpo, em que a corporeidade passa a ser constituída a partir da substancialidade da vivência, não podendo, portanto, ser meramente esquecida. 108 Na nova morada, devido aos costumes adquiridos no convento, ficava semanas sem pôr o pé fora, pois, segundo ela explicou à narradora, “naquela época “não sabia sair” (Lispector, 1999, p. 90). Assim, o “novo” ambiente familiar, em si, não trouxe, inicialmente, a carga semântica esperada, pois, apesar da mudança de lar, Rosa demonstrou um enraizamento dos costumes adquiridos, acentuando sua solidão, tão corriqueira no antigo habitat. Porém, graças Cooper, o “novo”, numa inconsciente e inusitada tarde de ócio, começou a lhe aparecer: “Numa tarde em que tudo lhe pareceu vasto demais – livre e sem trabalho era quase pecaminosa – sentiu que deveria se aplicar, ter um sentimento mais limitado...” (Lispector, 1999, p. 89). Aqui, a literatura representaria aquilo que Shattuck chama de conhecimento proibido, muito embora a leitura não fosse proibida a Rosa, no convento, a liberdade de ler não era exercitada, devido a uma vida dedicada ora et labora imposto pela diretora. Assim, Rosa, já livre dessa severa mulher, “com grande austeridade”, decidiu ler: “[...] a cabeça pôs-se então a flutuar. Fechou o livro, deitou-se, cerrou os olhos. Seus olhos estavam crescidos, quentes, imóveis: ela ardia em febre. A dona da casa passou a noite a velá-la, mas nada havia a fazer, ela não se queixava, não pedia nada, e a febre a consumia. De manhã estava emagrecida, de olhos menos abertos. Assim passou mais um dia e mais uma noite. Então chamaram o médico” (Lispector, 1999, p. 89). O culpado pela febre de Rosa foi Le corset rouge! Obra do escritor inglês Fenimore Cooper, cuja história se passa nas cercanias de Paris (daí o título em francês), que narra uma história bem trivial: um homem inescrupuloso que, graças à irmã, consegue regenerar-se, porém, que havia um claro despreparo de Rosa, acostumada a ler somente a Bíblia e livros religiosos, repletos de homens bons e regenerados, para os livros românticos e açucarados, está claro no texto. O estranhamento, certamente, se deu devido à ausência no Livro Sagrado de mulheres capazes de provocar tamanha modificação. Levando-se em conta que tanto no Velho e no Novo Testamento a sujeição feminina era pregada, como nos diz Timóteo: “A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio." (I Timóteo 2:11-12). Assim, como sempre a mulher está sujeita ao homem, codificá-lo, mesmo que a um irmão, através de atos e palavras, seria bem improvável e confuso para a despreparada Rosa. Mas a confusão entre fato e ficção foi desfeita pelo médico, “o primeiro homem bom”, que ela conheceu. No entanto, este homem significava não apenas a bondade, mas simbolizava o primeiro passo rumo ao estabelecimento da relação n. 36 2011 p. 103-111 com o outro do sexo masculino, porque, no convento, esta relação era explicitamente proibida e simbolizava a impureza. Assim, ela, que quase morreu, “dormiu magra e pálida. A febre diminuiu, ela se levantou” (Lispector, 1999, p. 89). A suposta impureza, atribuída aos do sexo masculino, desfaz-se com a atitude do médico, no que concerne à doença de Rosa, pois, sabedor do motivo de sua febre nervosa, ele tenta dirimir a relevância adquirida pela leitura do livro, assegurando a Rosa que ela não “deve ler essas coisas, elas são mentira” (Lispector, 1999, p. 89). Ora, vê-se claramente que o médico tenta preservar a inocência de Rosa, não se configurando, portanto, na figura perigosa antes representada. Este, como o filho de Apolo, Asclépio, Deus da Medicina, que não só curava praticamente todas as doenças e traumas, como também ressuscitava os mortos, ressuscitou Rosa. Surge, então, o momento epifânico da protagonista: “É que eu pensava que tudo o que se escreve num livro e que se publica é verdade, disse olhando com tanto pudor o primeiro homem–bom” (Lispector, 1999, p. 89). Através da descoberta de que nem tudo que se escreve é verdade, Rosa descobrese, embrenhando-se, por conseguinte, nos caminhos do ser. A menina que, de “cabeça raspada e o longo vestido de fazenda grosseira”, surgiu do susto, transformou-se, dando lugar a uma mulher que, “aos quarenta anos, ficou tão alegre, não sei explicar”, diz o narrador. Mas também tentou se matar, por amor. Anos depois, risos, namorados, novas experiências. Ao que parece, as novas experiências despertam também o erotismo da personagem. Para Birman (2001), o erotismo deveria ser sublinhado no psiquismo do sujeito, o que, por sua vez, desnuda a atitude do sujeito em face da modernidade. É desta forma, portanto, que Rosa se insere no espaço e no tempo, afirmando-se enquanto sujeito, fixando sua identidade e, conseqüentemente, deixando de ser o sujeito deslumbrado com o mundo para despir-se e deslumbrar-se. Transcrevendo seu diálogo com a protagonista, a narradora, que só no fim da crônica descobrimos que se trata de uma mulher, revela-nos mais sobre a conversa entre as duas – é assim que ela legitima sua história: “Também diz: não sou muito inteligente, tenho a impressão de que a senhora é mais do que eu. Também diz: “a senhora alguma vez já chorou como uma boba e sem saber por quê? Pois eu já!” – e cai na gargalhada” (Lispector, 1999, p. 90). Muito embora possa se dizer que a personagem inscreve-se na associação espaço-temporal daqueles que são, ela continua sendo a partir do outro, o que revela a profunda necessidade desse outro enquanto elemento apaziguador da solidão. No parágrafo acima, referimo-nos às novas experiências de Rosa, como item de captação de sua capacidade de ser e da necessidade do outro para a n. 36 2011 p. 103-111 vivência “[...] Em que o instante mais banal estimula a suspensão do tempo e a descrição da realidade. Este instante de real perigo dentro do texto expressa a razão fundamental de ser ele próprio, uma vez que expõe a desestabilização da ordem natural das coisas. (...) O texto abre-se para a experiência pessoal e vivencial, possibilitando o retorno às instâncias da exterioridade, em estágio de suspensão e de questionamento dela própria” (Rossoni, 2001, p. 158). 36 Dissertando acerca da epifania, termo tão explorado pelos estudiosos da obra clariceana, Rossoni (2001) fez uma colocação bastante pertinente ao nosso estudo, ao afirmar que na escritura de Clarice persiste uma “técnica do susto”: 109 vivência 36 inscrição de sua identidade. Cabe-nos, assim, também relacionar a presença e a pretensa proximidade do outro como a crescente consciência da sexualidade, em que o feminino desenha-se em traços levíssimos, apesar de Birman (1999) relatar que a “sexualidade se inscreve na fantasia”, culminando na relação aprofundada entre o sujeito e seu corpo, como assevera ainda o autor de Cartografias do Feminino: “Essa ênfase conferida ao registro da fantasia indica o lugar psíquico onde a sexualidade se esboça e se materializa, para se desdobrar então no registro do corpo” (Birman, 1999, p. 22). Mostra-se inevitável a recorrência à importância do corpo para a definição da subjetividade e, conseqüentemente, da identidade de gênero, apesar do autor considerar que a feminilidade se coloca além das questões referentes a homens e mulheres. 110 A descoberta de si torna-se patente quando Rosa, depois da febre, passa a perceber-se através do outro, com o qual dialoga e lhe assegura que “você tem cabelos muito pretos. Rosa dizia, tocando-se: é mesmo! (Lispector, 1999, p. 90). A figura do outro, portanto, será responsável pela inserção da personagem no âmbito de si, do corpo, porque é a fala do outro que lhe desperta o desejo de tocar-se, de perceber-se, sem ressalva. Afirma-nos Neto (2006) que “sobre o mapa mutável do corpo, podem se realizar objetos que o ocupam territorialmente de maneira efêmera e aí valem os adornos, as perfumações, as pinturas que desaparecem” (Neto, 2006, p. 58). Dentre os objetos, poderíamos citar a saia nos calcanhares e, agora, a cor, não uma tintura que desaparecerá, mas a cor natural do cabelo da personagem, que se apresenta como propriedade do corpo para a definição gradativa de pertencimento do eu de Rosa, porque a partir dos pequenos eventos que a circundam, ela vai mapeando a cartografia de seu corpo, desvelando evidências que a tornem Rosa. O processo iniciado com a saída do convento converge, agora, para o mapeamento de um território que possa se constituir como elemento edificador da identidade da personagem, não basta simplesmente demarcar o território compartilhado com o outro, porque a nova Rosa – uma italiana do sul, de olhos arredondados e cabelos muito pretos –, aquela que se descobriu através do outro, necessita delimitar o mundo que a cerca, por isso, novamente, recorremos a Neto (2006), quando afirma: “[...] corpo e território são indissociáveis e determinantes de identidade. O primeiro território onde a identidade se inscreve é a do próprio corpo – sobre o qual e decide que marcas fazer, que símbolos imprimir, que gestos expressar, que adereços usar”. (Neto, 2006, p. 63) A conscientização da existência de um corpo, para Rosa, significa aquilo que anteriormente falamos acerca dos primeiros passos dados sozinha, o que se torna crônico com os momentos epifânicos da personagem em sua batalha com o mundo que a cerca, com a inclusão de outros em seu cotidiano e com a possibilidade sempre crescente de descobrir um novo território a ser explorado. Considerações Finais Assim, “Uma Italiana na Suíça”, de Clarice Lispector, publicada na coletânea de crônicas, intitulada Para não esquecer, mostra claramente a luta de seres comuns num cotidiano atroz, em que o comum aparece como marca indelével destes mesmos seres. No entanto, por meio de um jogo linguageiro, também inusitado, a autora cria uma série de conflitos que terminam por colocar seus personagens em face de si mesmos. É a partir da tensão entre personagem e n. 36 2011 p. 103-111 os territórios desconhecidos da subjetividade que a autora delineia seus livros que vêm se tornando clássicos para uma determinada casta de intelectuais que a qualifica como complexa, difícil, existencialista, intimista, etc., adjetivos que, de certa forma, (des) qualificam a ficção da escritora. REFERÊNCIAS BERNELL, Sílvio José. O internato escolar como instituição total: violência e subjetividade. In: Psicologia em estudo. vol. 7, 2002. BIRMAN, Joel. Cartografias do Feminino. São Paulo: Ed. 34, 1999. BIRMAN, Joel. Gramáticas do Erotismo: a feminilidade e as suas formas de subjetivação em psicanálise. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 34ª Ed. São Paulo: Cultrix, 1994. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Diccionaire des simboles. 19 ed. Paris: Editions Robert Laffont/ Jupiter, 1997. LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. Rio de Janeiro: Siciliano, 1999. 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Disponível em: http://www.amulhernaliteratura.ufsc.br/artigo_elodia.htm. Acesso em: 30, junho, 2008. n. 36 2011 p. 103-111 vivência 36 Dentre os adjetivos elencados acima, talvez, a de escritora intimista seja o que mais se aplica aos seus escritos, haja vista a sondagem psicológica na qual ela se aplica, na tentativa recorrente de compreender seus personagens e a si mesma. Os fatores concernentes a esta compreensão funcionam como catalisadores ineficientes, já que a temática é – e sempre será – o humano e sua atitude diante do mundo, em que uma das frases mais célebres da autora vem a desfazer uma crença de muitos de seus leitores, a de que Clarice desvenda o humano. Mas é através do próprio discurso clariceano que desfazemos essa aura pretensiosa que gira em torno de sua literatura. Conforme a autora, “Não se preocupe em 'entender'. Viver ultrapassa qualquer entendimento”. Ora, essa famosa frase não desmerece a tentativa de entender, apenas contesta a possibilidade de uma efetiva compreensão do humano, o que se reflete, enfim, na postura de Rosa diante do mundo que, por agora, já não mais lhe parecia. O mundo, agora, era. 111 112 vivência 36