COORDENAÇÃO DE ENSINO E PESQUISA, CIÊNCIA E
TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Relatório de Estágio de Pós-doutorado
Dr. Eduardo Ismael Murguia Maranon
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT)
Supervisão Profa. Dra. Maria Nélida González de Gomes,
Outubro de 2009 a maio de 2011
[email protected]
Niterói
Junho de 2011
APRESENTAÇÃO
O presente relatório visa apresentar as atividades desenvolvidas nos meses nos
quais efetuei meu estágio de pós-doutorado no Instituto Brasileiro de Informação em
Ciência e Tecnologia (IBICT), cidade do Rio de Janeiro.
Considero o estágio de pós-doutorado como o momento no qual no qual
o profissional professor/pesquisador encontra as condições para aprofundar um tema de
interesse, seja por via de uma pesquisa; de leituras guiadas e comentadas de autores ou
tópicos importantes para o momento da sua vida profissional; ou de atividades
relacionadas a diversos aspectos dignos de atenção.
Poucas ocasiões como o estágio de pós-doutorado, oferecem a
possibilidade de um
momento
de plena liberdade intelectual no qual o
professor/pesquisador escolhe um tempo e um lugar nos quais possa refletir e incorporar
conhecimentos que servirão para o aprimoramento de sua formação constante. Além, de
que seu retorno mais rico e mais consolidado incrementará as atividades que vinha
desenvolvendo até esse momento.
Depois
de
varias
décadas
desempenhando
afazeres
docentes,
administrativos e de pesquisa, considerei que seria oportuno dedicar um momento da
minha trajetória para focalizar algumas atividades que embora não tivessem um retorno
imediato, pudessem oferecer posteriores subsídios teóricos para minhas tarefas
acadêmicas.
O momento para começar o estágio (outubro de 2009) foi escolhido
considerando que meu projeto pesquisa PQ estava ainda em plena realização. Assim, as
atividades propostas seriam totalmente condizentes e necessárias para as atividades de
pesquisa institucional.
Da mesma forma em que o apoio da supervisão veio ao encontro das minhas
preocupações teóricas. A escolha da Profa. Maria Nélida González de Gómez, obedeceu
ao fato do intercambio constante de idéias desenvolvido ao longo dos últimos anos e
também pela trajetória e as preocupações da pesquisadora, coincidentes com as minhas.
Nesse sentido, ou na procura de uma temporada de reflexão produtiva,
procurei que meu pós-doutorado contemplasse essas ações mencionadas. Basicamente
os meses de pós-doutoramento foram divididos para as seguintes atividades: 1) Revisão
e discussão bibliográfica. 2) Produção de uma exposição. 3) Realização de um evento
acadêmico.
Essas atividades que para fins de apresentação dividimos no presente
relatório em duas partes: a primeira referida às atividades mencionadas anteriormente
(revisão, exposição, evento); e a segunda referida á pesquisa com os colecionadores
participantes da exposição.
Menciono ainda que optei por colocar as referências bibliográficas não
no final do texto, mas como nota de rodapé, por ser um tipo de apresentação mais
adequado para a leitura de um relatório.
PARTE I
ATIVIDADES
1) Revisão e discussão bibliográfica.
O projeto apresentado e aprovado para o desempenho de atividades foi: Da
Ciência da Informação à Cultura Material: os conceitos de Fundo e Coleção como
princípios da organização. Esse projeto inicial apresentava uma discussão sobre a
coleção bibliográfica, no caso, a abordagem desenvolvida dentro da biblioteconomia,
sobre o livro e a biblioteca. Seguidamente, o foco era deslocado para o fundo
arquivístico e não mais a coleção. Nesta parte se tratou de enfatizar que o conceito
basilar da organização arquivística é o fundo. Finalmente desde a perspectiva da Ciência
da Informação observamos também como, auxiliada pela contribuição dos estudos de
cultura material, o documento emerge como uma discussão central.
Destacava-se ainda o valor material do documento. Um retorno à materialidade
versus a imaterialidade da informação. Essa apresentação serviu também de substrato
para entender os princípios sobre os quais, no caso, a Biblioteconomia e a Arquivística
se sustentam: coleção e fundo, respectivamente.
No momento da apresentação do projeto, entendia que os conceitos de fundo e
coleção
serviriam
para
estruturar
uma
discussão
pela
qual
pudéssemos,
comparativamente, entender a maneira pela qual a Arquivologia e a Biblioteconomia,
respectivamente, incorporam na sua teoria e nos seus fazeres o documento e sua
organização. No decorrer do estagio, como veremos, focalizamos unicamente nossa
atenção na formação das coleções num sentido muito amplo, por considerar que este
aspecto ilumina e oferece posteriores subsídios para observar e explicar a formação das
bibliotecas.
Norteado pela hipótese aventada no projeto inicial, e guiado pela Profa Nélida
González de Gómez, iniciei algumas leituras que redundariam no andamento da
pesquisa. Resumidamente, num primeiro momento fui introduzido aos textos Que é uma
coisa?1 O origem da obra de arte2 e Em saios e conferências3 de Martin Heidegger com
a finalidade de focalizar e aprofundar no conceito de coisa. Isso porque um
entendimento ontológico da coisa, vinha em contraposição às leituras de materialidade
que eu vinha desenvolvendo. Dentro dessa discussão a obra de arte adquire contornos
peculiares enquanto coisa e enquanto arte. E, complementando o conceito de obra de
arte, discutimos também a questão da técnica, fenômeno ao qual Heidegger dedica
especial atenção no devir do século XX.
A revisão exaustiva da obra de Bernd Frohmann foi um segundo passo.
Disponível na pagina do autor na internet, foram revisados todos os artigos disponíveis.
O papel de Frohmann como um dos autores de maior contribuição recente a nossa área é
inquestionável. Sua contribuição reside basicamente na incorporação de autores com
novas abordagens vindas da filosofia, lingüística, ciências sociais, para o entendimento
de aspectos da Ciência da Informação e Documentação. O autor, dessa forma, abre
novas
possibilidades
metodológicas
que
possibilitam
novas
interpretações
epistemológicas para diversos setores da nossa área.
Bruno Latour foi abordado a partir de duas obras: Ciência em ação...4 e
Reensamblar lo social5. A primeira, na qual, com o seu nome indica, o autor trata de
descrever o fazer dos cientistas. Desde o ponto de vista da sociologia a Ciência é
considerada em muitos mais aspectos do que sua teoria. Assim, destacam-se os trajetos
dos cientistas em espaços específicos de criação de sabres como os laboratórios e os
instrumentos como as máquinas.
No segundo livro, Latour se propõe a fazer um tratado sobre o método
empregado em seus estudos anteriores. Ainda, nesta obra o social é redefinido,
propondo-se um outro entendimento baseado nas associações necessárias para se
constituir um acontecimento. De onde, a sociedade seja entendida no seu sentido mais
1
HEIDEGEGR, M. Que é uma coisa? Lisboa: Edições 70, 2002.
Idem. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70, 2008
3
Idem. Ensaios e Conferencias. Petrópolis: Vozes, 1997.
4
LATOUR, Bruno. Ciência em Ação. Como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São
Paulo:UNESP, 2000
5
Idem. Reensamblar lo social. Uma introducción a la teoria del actor-red. Buenos Aires: Manatial, 2008
2
lato: associação. A obra ainda, destaca o papel das coisas, dos objetos como agentes
sociais, motivo pelo qual essa discussão mereceu uma observação mais minuciosa pois
aportava importantes idéias para o entendimento de nosso tema proposto.
Finalmente, essas leituras nos levaram para o debate da questão da instituição.
Motivo pelo qual me foram indicadas alguma sobras de Foucault como Em defesa da
sociedade6 e Vigiar e punir7. Esses dois trabalhos aportam importantes temas e
perspectivas de entendimento das instituições como dispositivos sociais necessários
para qualquer agenciamento de poder.
Esta breve apresentação mostra um percurso de autores que se definem
basicamente pela sua contemporaneidade, em primeiro lugar; e também pela proposta
de conseguir articular – como acontece em ensaios atuais- a sociologia com a filosofia.
Junto com a supervisora, pensamos que essas leituras ao mesmo tempo em que
servissem para meu projeto de pesquisa, me atualizassem numa discussão de
possibilidades interpretativas muito ricas para nossa área.
2) Exposição Para que guardar?
A exposição Para que guardar? foi realizada sob minha curadoria, no SESC
Ribeirão Preto de 14 de janeiro a 25 de fevereiro de 2010. O evento teve como objetivo
principal Organizar uma exposição de coleções feitas de objetos corriqueiros, por
pessoas comuns. Com a finalidade de desenvolver o projeto, foram estipulados alguns
passos que foram devidamente cumpridos no decorrer do evento.
Difusão
Nos meses de junho e julho de 2010, foi elaborado um folder de divulgação da
exposição. 500 exemplares foram distribuídos em diferentes eventos culturais da cidade
(v.g. Féria do Livro) e em locais como escolas, universidades, pontos de informação e o
próprio SESC.
O folder (anexo 1) explicava sucinta e brevemente as intenções e propósitos da
exposição, estipulava a data para manifestação de interessados e uma ficha. de inscrição
(no verso) que poderia ser enviada pelo correio ou entregue pessoalmente no balcão do
SESC. Os dados requeridos na ficha de inscrição eram basicamente dados sobre a
6
7
FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
Idem. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1997.
própria coleção: que tipo de objetos, aproximadamente a quantidade, dimensões médias
dos objetos e tempo da coleção. Alem desses dados foram perguntados dados muito
gerais sobre o colecionador: nome, idade e endereço. O objetivo da ficha era ter uma
primeira aproximação com os colecionadores, para assim, no conjunto poder programar
os passos posteriores da curadoria. Das respostas recebidas, poucas foram rechaçadas.
Ainda pesando na difusão, dividimos nossas ações dedicando os dois meses para
a difusão do folder e o mês de julho para explicar a exposição nos meios de
comunicação da cidade: entrevistas para os jornais e a TV. Mesmo assim, o número de
respostas não foi tão alto como esperávamos.
Seleção do material
Nos meses de agosto a outubro depois de análise das fichas de inscrição visitei,
acompanhado dos estagiários do projeto, todas as pessoas que enviaram a ficha
preenchida, no total de 23. As visitas foram realizadas tendo como fim:
- Ver in situ as coleções. Assim os objetos foram fotografados nos seus
diferentes ambientes, nos seus respectivos móveis e armários. Tratamos que o
ordenamento dos objetos aparecesse o mais possível, pois tão importante quanto aos
objetos, é a sua ordenação, a sua disposição física.
- Também foi avaliado, na visita, o estado da coleção, isto é, a quantidade
aproximada de itens, o estado de conservação, a possibilidade de transporte, etc., com a
finalidade de saber se realmente a coleção poderia ser usada na exposição final.
- Realização das entrevistas. As entrevistas foram realizadas segundo a
disponibilidade de tempo dos colecionadores e da equipe de pesquisadores. Elas foram
realizadas sempre na residência dos donos das coleções e o tempo sempre foi segundo o
próprio devir da conversa.
Quando realizamos o questionário não pretendemos fazer quadros estatísticos,
nem tabulações das respostas. Simplesmente quisemos nos aproximar do mundo do
colecionismo, através dos colecionadores, sabendo sobre seus sentimentos, suas
ligações com o mundo dos objetos, seus fetiches para assim poder expor o mais fiel
possível a esses sentimentos.
Consideramos como ponto de partida para a elaboração das entrevistas o
questionário que aparece no livro de Susan Pearce Collecting in contemporary
practice.8 O questionário ofereceu não somente uma estrutura geral, mas uma acurada
precisão no tipo de perguntas e as respostas desejadas. Obviamente as perguntas foram
adaptadas á realidade local.
O roteiro de perguntas (anexo 2) foi estruturado em varias partes, porem
sugerimos que a ordem fosse flexível e se adaptasse ao diálogo entre as partes. A
primeira parte do roteiro procurava os dados gerais do colecionador, como nome e
idade. A segunda esteve direcionada para saber como a coleção foi formada, seu
percurso, suas motivações. A terceira procurou saber como os itens eram dispostos,
como se mostravam, quais as mensagens implícitas no arranjo dos objetos. A quarta foi
pensada para conhecer a percepção que as pessoas têm não em relação a determinado
objeto, mas em relação á coleção. E, finalmente tratamos de colocar algumas perguntas
aparentemente soltas, mas que procuravam complementar de forma anedótica todas as
anteriores.
O mês de novembro foi dedicado às transcrições das entrevistas. Como
mencionamos anteriormente, alem de adentrarmos no mundo dos colecionadores e seus
anseios através de suas falas; as entrevistas serviram para que escolhêssemos os textos
que acompanhariam as coleções na exposição.
Dezembro foi mês no qual, visitamos novamente os colecionadores e explicamos
as condições físicas da exposição e o roteiro museográfico inicialmente ideado. Pedimos
também que eles escolhessem as peças da coleção que melhor a representavam e que
explicitassem os critérios dessa escolha.
Montagem
Embora a montagem começasse desde o momento da elaboração do projeto, pois
nele imaginamos e tratamos de visualizar o evento, os primeiros quinze dias de janeiro
de 2010 foram dedicados à execução dessa concepção. Assim, revisamos cada uma das
entrevistas separando os textos mais representativos, ou em todo caso as frases que
melhor representassem o colecionador e a sua coleção. Da mesma forma selecionamos
também as fotos do colecionador e sua coleção. Tratamos de mostrar a coleção no seu
habitat natural, isto é na casa, no armário, no dia a dia do colecionador.
8
PEARCE, Susan. Collecting in contemporary practice.London: SAGE, 1998.
A montagem física da exposição contou com o apoio do SESC. A exposição foi
realizada na sala reservada para tais fins e que conta com um sistema de iluminação
adequado. Alem da pintura da sala, o SESC proporcionou estantes e mesas
especialmente feitos para o evento. Foram consideradas a unidade entre os móveis, as
cores, a capacidade e funcionalidade dos mesmos.
A cada colecionador lhe foi outorgada ou uma mesa ou uma vitrine. Tratamos
que o móvel formasse um espaço que ao mesmo tempo (inserido na totalidade da
exposição), representasse uma unidade em si mesma. Para isso colocamos em painéis as
frases escolhidas de cada autor. Assim, objetos e palavras davam uma idéia da relação
dele com seus objetos. (anexo 3)
Junto com a exposição, no fundo de uma parede foram projetados slides com
fotos dos colecionadores, com seus objetos nas suas moradias e com outras frases que
complementavam suas vivências enquanto tais. Esses slides tinham uma duração de dez
minutos e eram passados sem interrupção.
Complementando a exposição, foram chamados cinco artistas plásticos locais
que foram convidados para elaborarem painéis de interpretação livre sobre o tema
objetos e coleções. E, também foi elaborado um folder com texto explicativo da
exposição, nome e a coleção de cada um dos participantes. Esse folder foi disposto para
os visitantes ao longo do tempo que curou o evento. (anexo 4)
3) Seminário Instituições, Dispositivos e Mediações.
O Seminário Instituições, Dispositivos e Mediações, foi realizado de 29 a 31 de março
de 2010. Esse evento foi ideado e realizado junto com a Profa. Nélida González de Gómez, com
atividade do Centro de Altos Estudos em Ciência da Informação e Inovação (CENACIN),
vinculado à Coordenação de Ensino e Pesquisa em Ciência e Tecnologia da Informação do
IBICT. O qual organiza Colóquios e seminários, como parte dos estágios de Pós-Doutorado que
são desenvolvidos dentro do contexto de atividades de pesquisa na nossa instituição.
Os Colóquios fazem parte de um processo de pesquisa sustentado pela interlocução
crítica entre especialistas e pesquisadores com trajetória relevante nos temas em debate. Assim,
o presente Seminário tem como ponto de partida o reconhecimento da importância da pesquisa e
da reflexão contemporâneas sobre as instituições de memória, e as suas contribuições para o
entendimento das relações entre informação, sociedade e cultura material, nas suas expressões
mais específicas: coleções e documentos.
Os três dias do evento foram distribuídos segundo os seguintes temas que se
articulavam entorno de uma pergunta:
- Primeira reunião: 29 de março, 14.00. Participação do Dr. Frederic Vanderberghe
(UPERJ) e da Dra. Solange Puntel Mostafa, sendo mediada pela Dra. Maria Nelida Gonzalez de
Gómez.
Ementa da reunião: As mudanças ocasionadas pela inserção das inovações tecnológicas
em todos os âmbitos sociais se apresentam como uma realidade que requer de novas abordagens
para seu entendimento. Nesse sentido, Bruno Latour propõe uma nova teoria metodológica
Actor-Network-Theory (ANT), como uma tentativa de entender o social como processo em
constante formação. Teoria que, como o autor propõe, precisa da Filosofia para poder entender
fenômenos em constantes relações assimétricas. Concomitantemente, depois da avalanche
desconstrutivista do recente pensamento Francês, a Filosofia volta seu olhar para uma
fenomenologia também relacional. Assim, percebemos dos dois lados uma intencionalidade de
descrever o evanescente. Nesse sentido, caberia indagarmos quais as principias opções teóricas
e metodológicas da Sociologia e a Filosofia contemporâneas em torno de uma ontologia do
social, e quais as relações que se estabelecem entre ambas?
- Segunda reunião: 30 de março, 14,00. Participação do Dr. José Augusto
Chaves Guimarães (UNESP), Lídia da Silva Freitas (UFF) e Dra. Vera Dodebei
(UNIRIO), sendo mediada pela Dra. Rosali Fernandez (IBICT).
Ementa da reunião: O chamado neo-documentalismo, em linhas gerais, surge como uma
releitura de Ottlet e Briet feita por autores como Rayward, Buckland e Frohmann, entre outros.
Essa releitura, acrescentada com os aportes das reflexões dos chamados estudos da Cultura
Material, supõe um deslocamento das preocupações em torno da informação para a emergência
do objeto, no caso documento, como motivo principal de preocupação.
Essa oscilação pendular do imaterial para o material faz parte de um marco
maior, pois a preocupação vem ganhando a atenção da academia, desde diversas áreas
como a Antropologia, a História, a Museologia, etc. Mas, no meio dessas
movimentações subsiste a velha pergunta sobre se a informação nada mais seria que um
atributo, entre outros, outorgado a um suporte material? E, também, podemos considerar
o documento como um agente social ou como um agenciamento?
- Terceira reunião: 31 de março, 14.00. Participação da Dra. Icleia Thiesen
(UNIRIO), Dr. José Mauro Loureiro (UNIRIO) e eu. E, a moderação da Dra. Evelyn
Goyannes Dill Orrico.
Ementa da reunião: Conforme a conceituação estabelecida, toda instituição
possui suas práticas, representações e porta-vozes que procuram sua sustentação. Ainda,
essas práticas e as representações são atualizadas em lugares específicos. Da mesma
forma, as instituições não são isoladas, elas mantêm relações adversas ou de similitude
com outras instituições. Desde essa perspectiva tanto o Arquivo, como a Biblioteca e o
Museu são instituições que embora procurem uma permanência, estão imersas no fluxo
de mudanças constantes, como por exemplo, o advento das Novas Tecnologias. Assim
sendo, em que medida as novas práticas de informação e/ou de documentação criam um
novo objeto e seus desdobramentos na organização, busca e disseminação? Existiria
uma mudança na representação que levaria a valorizar a gestão pela superação de
representações baseadas na validação cultural e pedagógica? Resumindo, existiria um
movimento de aproximação ou afastamento dessas instituições determinadas pelas
considerações anteriores? Caberia indagar pela reformulação desses espaços
institucionais a partir dos conceitos de composição ou “assemblage”? (anexo 5)
4.- Publicações e orientações
As leituras de das discussões do estágio depôs-doutorado também deram lugar a
algumas publicações que traduzem as preocupações que tratei de sistematizar através
das indicações e sugestões da Profa. Nélida González de Gómez. Assim, publiquei um
artigo na revista Encontros Bibli9 sobre o tema que me levou à realização do estágio: o
colecionismo bibliográfico. E, o capítulo de livro publicado em Werzburg10, em 2010,
9
MURGUIA, Eduardo Ismael . O colecionismo bibliográfico. Uma abordagem do livro para além da
informação. Encontros Bibli (Online), v. Edição, p. 87-104, 2009.
10
Idem. Collecting and knowledge organization: a theoretical approach from the material culture studies.
In: GNOLI, C.; MAZZOCCHI, F. (org).. (Org.). Paradigms and conceptual systems in knowledge.
Würzburg: Ergon-Velag, 2010, v. 12, p. 391-404
no qual discuti o arranjo dos objetos da coleção como determinação da organização e
recuperação da informação e suas representações.
E, ainda em 2010, organizei um livro que contou coma participação de varias
universidades, no qual se discutiam desde diferentes óticas e recortes os possíveis
diálogos e articulações que se a Arquivologia, a Biblioteconomia e a Museologia11 em
torno da memória.
Coloco essas três publicações, porque considero, tal como mencionei
anteriormente, que existe uma relação direta entre elas e o crescimento e
amadurecimento que adquiri no estágio.
Da mesma forma, os trabalhos de conclusão de curso, mestrado e doutorado que
orientei durante esse período e que ainda oriento, o estágio de pós-doutoradon me
permitiu uma abertura e um aprofundamento maior nos temas dos meus orientando, os
quais começam a articular-se com minha pesquisa de uma forma mais harmônica e
orgânica.
11
Idem. Memória: Um lugar de diálogo para Arquivos, Bibliotecas e Museus. São Carlos: Compacta,
2010
PARTE II
AS COLEÇÕES
Os estudos marxistas da primeira metade do século XX chamaram a atenção
para um entorno alem das formas de produção e as relações sociais. Assim os meios de
produção e o trabalho foram entendidos como uma forma de domínio do homem sobre a
natureza que pressupunham o uso de utensílios e artefatos. Uma produção tangível da, e
sobre o entorno que deu lugar à cultura material.
Desposuida da escrita como forma de aproximação do passado, a Arqueologia
teve que se contentar em narrar esse passado baseada em instrumentos, utensílios e
artefatos, vindo a contribuir, junto com a Antropologia, aos estudos dos objetos. Da
mesma forma que a História, notadamente com a Nouvelle Histoire, ampliando seu
conceito de fonte histórica para os objetos veio a oferecer novas formas de aproximação
ao entendimento dos objetos em nosso entorno. E, também a Linguística,
principalmente a Semiótica quando estende o conceito de narração aos objetos e à
relação entre eles, no momento de sua exposição ou em outros contextos como o
Museu.
Com a finalidade de iniciar, delimitar, ou em todo caso direcionar minhas
posteriores afirmações sobre cultura material, utilizo dois artigos de uma coletânea
organizada por Appadurai12 Em primeiro lugar o artigo do próprio Appadurai no qual
introduz o conceito de “vida social das coisas”; e o artigo de Kopytoff13 que aborda a
“biografia cultural das coisas”. A articulação desses dois conceitos é importante porque
de um lado temos um panorama sincrônico no qual se insere o social; e um outro eixo
diacrônico que contempla a biografia, o lado individual do objeto.
Kopytoff começa dizendo que a separação entre pessoas individuais e coisas
mercantilizadas é um fenômeno relativamente recente na cultura. Depois, passa resenhar
a maneira pela qual a biografia foi abordada pela Antropologia. Quando se faz a
biografia de uma coisa se fazem perguntas similares às que se fazem para as pessoas: de
onde vem a coisa? Quem a fabricou? Qual é o percurso real percorrido, o qual o ideal
que se espera percorrer? Quais são as idades ou ciclos de vida das coisas? Como mudam
seus usos e que acontece quando ela chega ao fim?
12
APPADURAI, Arjun. Ávida social das coisas. As mercadorias sob uma perspectiva cultural. Rio de
Janeiro: EDUF, 2008.
13
KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas. A mercantilização como processo. IN Op. Cit.
Ainda, cada biografia deve ser feita tendo como ponto de partida, a clareza
daquilo que se quer focalizar. Isso tem a ver com que uma biografia cultural não
dependa simplesmente do objeto abordado mas da perspectiva pela qual o objeto é
abordado.
Feitas essas considerações o autor sustenta a biografia das coisas pelo fato delas
serem mercadorias. Porem o termo mercadoria não deve ser restringido ao sistema
capitalista, como comumente acontece. A mercadoria antes de mais nada é uma
tecnologia de troca. Todavia, a mercadoria é um fenômeno cultural universal. Ela
pressupõe o intercambio de alguma cosia por outra de valor equivalente dentro de um
contexto homogêneo. Essa transação pode ser feita através do dinheiro mas não
necessariamente.
No entanto, embora a mercadoria seja um fenômeno cultural, a própria cultura é
seu limite, pois ela impede que todos os objetos sejam trocáveis. Dessa forma objetos
singulares – e os critérios para dotá-los de singularidade são vários – podem ser
proibidos de transação.
Nas sociedades complexas existe uma contradição entre o impulso de tudo ser
mercantilizado e ao mesmo tempo tudo ser singularizado pelos indivíduos e grupos.
Dentro de determinados grupos alguns objetos são singularizados devido à existência de
“instituições públicas de singularização”, que se preocupam, por exemplo, com o
tombamento, o embelezamento, etc. Ainda, o fenômeno da singularização também é
operado no interior dos indivíduos que atribuem às coisas valores externos como os
estéticos, morais, os antigos.
Paradoxalmente: “Coisas velhas, como latas de cerveja, caixas de fósforo e
revistas em quadrinho, de repente assumem valor, e passa a ser vantajoso coleciona-las;
assim, passam da esfera do que é singularmente sem valor para a esfera do que é
singularmente caro” (p. 109).
Finalizando, Kopytoff resolve essa tesão: “ No mundo homogeneizado das
mercadorias, uma biografia rica de uma coisa é a historia de suas varias singularizações,
das classificações e reclassificações num mundo incerto de categorias cuja importância
se desloca com qualquer mudança do contexto. Tal como ocorre com as pessoas, o
drama aqui reside nas incertezas da valoração e da identidade”. (p. 121)
Embora no livro, o ensaio de Appadurai anteceda o de Kopitoff, invertemos a
ordem porque partindo do conceito restrito de biografia, a discussão sobre as
mercadorias se amplia para a vida social. As coisas possuem rotas e desvios, e é nessa
tensão entre as rotas socialmente atribuídas a determinados tipo de coisas, e seus
possíveis desvios que podemos falar da sua vida social.
É nas trajetórias das coisas que devemos prestar atenção, pois embora desde o
ponto de vista teórico são os humanos os que significam as coisas, do ponto de vista
metodológico são as coisas as que mostram os movimentos humanos. Novamente, o
autor destaca, é no Ocidente recente que se as palavras foram desvinculadas das coisas.
Um outro ponto importante na circulação de mercadorias é que existe uma
demanda. “A demanda não é uma reação mecânica à estrutura e ao nível de produção,
nem uma ânsia natural insondável. È um complexo mecanismo social que intermedeia
padrões de circulação de mercadorias de longo e curto prazo” (p. 60)
Se considerarmos a mercadoria como um instrumento de troca, essa troca cria
um valor que se concretiza e materializa nas próprias mercadorias trocadas. Ainda, o
vínculo que aproxima, ou que faz possível o valor da mercadoria é a política. A política
no seu sentido mais amplo possibilita as trocas na vida diária, motivo pelo qual ela não
é evidenciada. Mas, essas negociações corriqueiras não seriam possíveis se não existisse
uma esfera maior que decide o desejável. Desse modo o político assume um outro
sentido, o da tensão dos quadros e as tendências das mercadorias romperem tais
quadros.
Isto é, o sentido de tesão entre mercantilização e singularização apontado por
Kopytoff, da um passo a frente com Appadurai quando este autor destaca a política
como vinculo ou elo de negociação, embora sempre tenso e conflitante.
O enfoque das coisas como mercadorias dos dois autores, serve como ponto de
partida para discutir a cultura material. Ou seja, senta as bases para que os objetos
possam ser observados e interpretados das mais diversas abordagens, pressupondo que
os trajetos que percorrem são causa e efeito das negociações entre eles e os sujeitos e
entre eles e outro objetos.
Desde
uma
perspectiva
mais
humanística
e
menos
etnológica,
Csikszentmihalyi14 se pergunta num artigo o por que precisamos de coisas?. Uma das
maiores consequências de sermos seres culturais reside no fato de sermos dependentes
dos objetos para nossa sobrevivência. Porem, os artefatos são uma “espécie” de seres
biológicos, no sentido de sua reprodução. Isto é, artefatos geram outros, sem o controle
consciente do ser humano. Assim, embora os objetos sejam produtos de uma
14
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Why we need thongs. IN. LUBAR, Stevem (edit.) History from
things. Essays on material culture. Washington: Smithsonian Press, 2000
intencionalidade, essa intencionalidade é condicionada pela existência anterior de outros
objetos da mesma espécie.
Continuando com esse raciocínio, o autor destaca que a construção do eu (self),
o estado de consciência não existe por si mesmo, mas pela relação dele com o mundo
exterior, com as coisas. Essas relações podem ser de três tipos:

Relação objeto/poder. Refere-se à pose do objeto como meio de criação
do eu. Objetos que servem para darmos identidade, mostrando nosso
lugar dentro do grupo.

Relação objeto/continuidade do eu. São objetos que estão no nosso
entorno no dia a dia, objetos que formam parte de nossas vidas e nos
ajudam a viver. Nesse sentido, podem se estabelecer relações afetivas
com esses objetos, já que muitos deles nos aproximam também do
tempo.

Os objetos e as relações. São os objetos compartilhados por um grupo
que nos remetem as mesmas recordações e identificações, sejam pelo seu
uso ou pela sua representação.
Dessa forma, o autor conclui: “Our addiction to materialism is in large part due
to a paradoxical need to transform the precariousness into the solidity on things. The
body is not large, beautiful, and permanent enough to satisfy our sense of self. We need
objects to magnify our power, enhance our beauty, and extend our memory into the
future”. (p. 28)
Não mais preocupado com o self, mas com a exterioridade da relação dos
objetos, Maquet15 localiza sua discussão no objeto/instrumento e no objeto/signo.
Enquanto instrumento, podemos inferir do objeto informação sobre sua forma, sua
constituição física e sua localização social. São artefatos projetados para realizar alguma
ação, seja modificando a natureza ou produzindo outros objetos. Ainda, os artefatos são
subdivididos em ferramentas e máquinas.
Enquanto signo podemos atribui-lhe significados. Esses significados não são
inerentes ao próprio objeto à diferença da instrumentalidade. Eles não estão embutidos
ou alojados dentro do objeto na espera de alguém recupera-los. Também não são
atribuídos pela pessoa que o projetou, a intencionalidade não determina os significados.
15
MAQUET, Jacques. Objects as instruments, objects as things. IN. Op. cit.
Os significados são outorgados pelos grupos de pessoas para o qual o objeto adquire
alguma relevância. É essa a razão pela qual o significado dos objetos muda quando os
grupos mudam.
Os signos também têm divisões: imagens que nos remetem a uma similaridade,
os indicadores que se estabelecem por associações, os referentes que se sustentam
unicamente na convenção do grupo e os símbolos que atuam pela participando na
natureza do signo.
A mistura das qualidades de instrumento e signo no artefato, faz com que, por
exemplo, um instrumento possa ser analisado desconsiderando seu aspecto cultural.
Assim, poderíamos inferir seu uso (um objeto feito para cobrir o rosto será sempre uma
máscara). Mas, não poderíamos inferir sua função porque esta sim, é cultural (a máscara
para fins religiosos ou para perpetrar um assalto).
O autor finaliza: “For historians and social scientists, who are always concerned
with socially constructed realities, it is essential to know what objects mean for the
people who make them and use them. [However] Their reading of objects always has to
be supplemented by what people say and write about them. Objects can illuminate
words; they cannot replace them”. (40)
Retomando a idéia de desvio de Appadurai e de singularidade de Koptyoff,
preparamos o terreno para aventurarmos na biografia dos objetos, especificamente os
objetos de coleção. Assim, um dois primeiros autores a pensar sobre os objetos, embora
desde uma perspectiva sistêmica foi Baudrillard16 nesta obra escrita na década de
sessenta, o autor faz uma interpretação psicanalítica muito rasa do colecionismo como
uma questão pulsional localizada em determinados estágios da sexualidade. Porem, ele
chama a questão para uma questão que me parece interessante, a questão do que ele
chama a abstração do objeto.
O raciocínio para definir o objeto abstraído é o seguinte: a relação que
estabelecemos com utensílios é sempre mediada na medida em que não são objetos
possuídos. Um objeto possuído, à diferença de um utensílio que remete ao mundo, ele
será sempre abstraído de sua função, relacionando-se assim com o indivíduo. Assim os
objetos que são abstraídos se remetem entre si, na medida em que é um individuo que os
articula e os reconstrói como um mundo a parte: a coleção.
16
BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. São Paulo: Perspectiva, 1997.
Quando um objeto perde sua função primeira, ele é abstraído do seu uso e
adquire uma característica estritamente subjetiva, eis o que faz dele um objeto de
coleção. Porem não se trata unicamente de um único objeto quando se trata de uma
coleção. Existe um projeto seriado, no sentido de que cada objeto adquirido é a
satisfação de um desejo, ao mesmo tempo em que inicia uma outra necessidade, um
outro desejo que precisa de completude, ocasionando a dinâmica sem fim da coleção.
Mas, o fenômeno da coleção não existe sem o colecionador. Nesse sentido é
interessante aproximar-se na motivação daquele que coleciona. Acho que a discussão
deva ser iniciada com uma questão de extrema importância: a diferença entre
acumulação e coleção. A acumulação é um processo passivo que consiste em acumular
qualquer tipo de objeto que passa na frente da pessoa. Já a coleção é um processo ativo
pelo qual o colecionador escolhe algum tipo de objetos que lhe interessam por algum
motivo, não importa qual.
Belk17 trata de fazer algumas inferências sobre colecionismo e colecionadores a
partir duma pesquisa maior da qual ele extrai seus dados. Essa pesquisa foi o Consumer
Behavior Odyssey, o projeto executado no verão de 1986, foi definido como um
trabalho intercontinental e interdisciplinar realizado por uma equipe de pesquisadores
provenientes de quinze universidades americanas e canadenses. O autor ressalva que as
conclusões às quais chega, mereceria maior cuidado metodológico já que a questão das
coleções não foi o objetivo principal do projeto.
No entanto, merece prestar atenção para alguns dados levantados. Assim,
geralmente, o início de uma coleção se da de forma acidental, ou em todo caso não
consciente. Muitas vezes começa devido a um ou vários objetos presenteados, que aos
poucos adquirem algum tipo de unidade. Embora muitos vejam a atividade como
inconsciente, todos coincidem em defini-la como uma atividade materialista e
prazerosa.
Na pesquisa, os colecionadores se nomearam a si mesmos como adictos. A
adição não é vista por eles como alguma coisa negativa. Ela obedece a um impulso
compulsivo que socialmente se legitima no ato mesmo da coleção. Uma coleção resgata
da anormalidade certos tipos de comportamento. Fato interessante é de que os
entrevistados relataram falta de controle na presença de um item que realmente interessa
para a coleção.
17
BELK, Russell W. Collectors and collecting. IN PEARCE, Susan. Interpreting objects and collections.
London: Routledge, 1994
Foram detectadas duas vias de iniciação de coleções. Uma via afetiva para
escolher os itens da coleção, e uma via pela qual se usam critérios cognitivos. Isto é,
quando o critério de escolha dos itens é pesando na série que está sendo criada. Para o
autor essas duas vias, estética e cientifica, emergem como outras maneiras de legitimar
a coleção.
No colecionismo existe uma transformação de objetos utilitários e comuns em
objetos relevantes e importantes. Curiosamente a forma mais comum dessa passagem
está dada pelo próprio ato do colecionismo. A coleção tira o objeto do seu circuito de
mercadoria, faz dele um objeto singular.
Considerando que uma coleção é uma extensão do eu (self) através dos objetos,
estes agem na vida do indivíduo como marcadores de prestigio, procura de poder,
reconhecimento, alem de ser uma maneira de conhecimento, lembrança e controle.
Ainda, da mesma forma em que uma coleção serve para formar a auto-definição do
colecionador, a coleção de um museu serve para definir a identidade de uma região ou
de um período.
Embora muitas coleções se iniciem de forma ampla e indefinida, rapidamente se
tornam especializadas. A especialização depende de tipo, época, e muitos outros fatores
que vão afunilando o escopo do colecionador. A especialização das coleções faz com
que apareçam redes de especialistas com seus próprios mercados de distribuição e venda
ou troca.
Por último, Belk detectou também que por trás de toda coleção sob jaz um
desejo de imortalidade. Faz parte das preocupações de todo colecionador o que será
feito de sua coleção depois de sua morte. Isto porque dentro da família é muito comum
seus desejos não serem compartilhados por outros membros. Por outro lado, uma
coleção nunca é acabada, sempre carrega uma imcompletude, sempre falta alguma peça,
num continuo devir sem fim.
AS ENTREVISTAS
O instrumento
Como mencionei anteriormente, as entrevistas foram realizadas nos meses de
agosto a outubro de 2009. A continuação, apresento a fala de quinze participantes
(houve três que não responderam). O universo das entrevistas é muito amplo e variado,
a idade foi dos 78 aos 13anos. O numero de homens e mulheres foi equitativo. E, as
profissões e ocupações também.
As transcrições foram transcritas literalmente (anexo 6) e seguiram uma ordem
de perguntas presentes num questionário elaborado anteriormente. Num primeiro
momento foi pensado que seria melhor fazer entrevistas abertas, mas devido à
especificidade da pesquisa e pressupondo que os entrevistados não possuíssem uma
reflexão consciente sobre colecionismo, optamos por um questionário.
No entanto, para fins de apresentação, decidi suprimir as perguntas e mostrar as
respostas simplesmente como narrativas, para assim dar uma maior naturalidade e
fluidez, sem perder de vista os envolvimentos e percursos da coleção e do colecionador.
Retirar as perguntas e deixar a fala fluir, dar unidade estruturando as idéias não é tão
simples como parece. Precisamos colocar entre colchetes os sujeitos, quando necessário,
e também alguns complementos das frases. Ainda, algumas respostas apareciam nos
lugares de outras perguntas, motivo pelo qual me tomei a liberdade de agrupar respostas
de acordo com um tema específico, com a finalidade de dar uma maior coerência às
narrativas.
Tratei de manter a maior fidelidade possível das falas, respeitando erros de
vocabulário e dicção. Optei por trocar a palavra para a norma oficial, somente quando se
fazia imprescindível para não perder o significado da fala. Enquanto à gramática ou a
estrutura das narrativas, os respeitei minuciosamente. Em alguns casos, quando o
enunciado vier a aparecer como desconexo deve-se à própria confusão de idéias do
entrevistado ou à sua pouca capacidade de expressão. Por esse motivo, também
aparecem em outros casos, idéias contraditórias dentro da mesma frase.
Uma outra eleição que me vi na necessidade de fazer foi a da apresentação das
entrevistas. Menciono que considero a apresentação já uma análise. Assim, num
primeiro momento pensei que seria proveitoso colocar a pergunta e em seguida todas as
respostas correspondentes, para depois comentar e explicar, isto é, analisar as respostas.
Porém, achei mais interessante simplesmente apresentar as respostas, sob a forma que
expliquei. Pensei que sempre se discute e fala sobre o fato de dar a voz, de escutar e de
permitir a possibilidade de expressão, mas, que sempre acabamos intervindo na voz dos
outros.
Portanto, a metodologia é a própria apresentação, a análise é a própria fala no
momento no qual os entrevistados foram enfrentados com suas práticas a respeito de um
tipo de objetos, no momento em que tiveram que pensar e se expressar sobre esses
objetos, essas práticas e ter que enuncia-los.
Antonio Carlos Bertolazzo,
Vou fazer 70 anos e aposentado. Coleciono cartões postais. Comecei com vários
e depois entrei nos preferidos, específicos que eram eventos e propagandas. Devo ter
mais ou menos uns 1000, daí pra cima. Tinha muito mais, uns 3000, mas foi
dissolvendo. É, tinha sobre índios, aviões, coleção boa sobre os índios do Brasil, postais
de vistas de cidades, que eu não me interessei. Geralmente o cartão postal é mais vista
de cidade. Eu me interessei por eventos de propagandas por causa do design dele.
[Eu adquiria os postais através] grupo de amigos, a gente ia selecionando,
trocando, mas a maior parte era correspondência mesmo. Gastava dinheiro no correio
pra enviar, mas vinha outros e tal. Eram colecionadores, formava um grupo aí de
pessoas que nunca se viram, mas tinha intimidade. Por compra também, às vezes a
pessoa não queria dispor da coleção e aí comprava, mas geralmente era troca, mesmo
porque era mais gostoso fazer amigo, o importante mesmo era isso aí.
[O objeto] nunca apaga da cabeça da gente. Às vezes a gente sabe até a data
mais ou menos de quando veio, quem mandou, coisa de 20, 30 anos atrás. Alguns
também que vieram de forma ilícita. Já [roubei] muitas coisas, porque roubam da gente
também, então faz parte do jogo de colecionador. Têm vários [cartões preferidos],
inclusive este daqui do dirigível, histórico, depois dessa viagem pegou fogo e morreu
muita gente dentro desse dirigível.
[Me interessei pelo cartão postal porque] A correspondência era importante, mas
você começa colecionar e as vezes nem sabe o por que, Você viu um objeto lá e tal e na
época era fácil manter esse contato, porque na época o cartão postal estava no auge e
como depois veio o telefone, o postal ficou em desuso. Aí hoje nem faz parte da mídia,
porque isso aí fazia parte da mídia, como propaganda, hoje já tem a Internet aí.
[Sobre a coleção] Nunca cataloguei nada. Tem um carimbo pra identificar meus
cartões, que mesmo que vá para outros eram meus. Tenho um catálogo sobre as
exposições que teve e vários eventos que teve em São Paulo, folhas de jornais que eu
recortei na época e guardei. {Os postais são ordenados por] uma ordem de chegada não,
só por assunto [Guardo a coleção] Dentro de casa, fica lá no guarda-roupa. [Mostro a
coleção] como se fosse um filho. Tem muitos jovens que vêem aqui e ficam curiosos
porque não sabem que existe esse tipo de comércio, esse tipo de colecionador. Um
amigo meu que estava fazendo faculdade em Goiânia levou uma coleção toda de índios,
e como são índios tem que ser nu e havia um certo preconceito e aí ele disse daí que eu
levo para a faculdade e gostaram muito. Telefonaram pra mim para agradecer.
Porque eu comecei a colecionar? foi uma fase difícil na vida e eu precisava
entreter com alguma coisa e vendo uma exposição de postais eu falei, eu posso fazer
isso aí. [Colecionar] ta dentro da gente e a gente não sabe porque. Nasce com essa
vontade. E fui me interessando, trocando correspondência. Foi até de arte postal, que na
época era moda também. Primeiro comecei com a arte postal, depois que me interessei
pelo cartão postal, porque como teve uma exposição de arte postal, é mais uma coisa
que eu posso interessar em fazer, entrei no círculo de amizade e comecei e depois me
interessei pelo cartão postal. [Fiz arte postal] Por uns 20 anos. Depois Ribeirão Preto
tinha várias pessoas, artistas plásticos que entraram no circuito e a gente ficou num
intercâmbio muito bom de pessoas aqui da cidade mesmo. Parei [ de produzir] porque
saiu for a de moda . Hoje em dia tem Internet que você manda e-mail. Primeiro veio o
fax, e ai o correio começou a decair.
[Não era artista plástico] era um amador. Trabalhava com eletricidade. [A
coleção não se vincula a uma atividade profissional]
Parei agora. Uns 5 anos. Ficou difícil o intercâmbio, as pessoas foram parando,
muitos amigos morreram, pessoas mais idosas e os jovens não aderiu vão para a
internet. Hoje em dia está difícil de adquirir postal, a não ser o de vista de cidade que
adquire nas bancas por aí para turista, mas este daqui praticamente já não existe mais, já
não. Saiu fora da mídia. Hoje quase ninguém se interessa. O postal você só compra se
for lá pro rio Grande do Sul e compra, to aqui no Rio Grande do Sul. Nem isso tem
mais, tira foto e já manda pelo computador.
[Eu] Mostro. [Para] Toda família, amigos, alguns viam alguma coisa interessante
e mandava pra mim aqui em Ribeirão. Eu acho que são todos [os itens especiais], a não
ser os que eu pus nos quadrinhos, porque são especiais, esse aqui é Getúlio Vargas.
Quando a gente tem que dispor de algum fica com dó, mas sabe que vai pra um lugar
onde será guardado.
Eu procuro um lugar que eu possa deixar, porque isso aqui é minha herança. Depende
do lugar, preferência Ribeirão Preto, mas se não tiver jeito, manda pra qualquer lugar.
Um pouco [da coleção] como eu te falei foi pra Brasília, pra UNB porque eles mantém
um acervo enorme lá, a própria universidade mantém. Você sabe que lá é seguro. O
próprio município não dispõe de uma certa confiança, depende da política do prefeito,
de gostar ou não gostar da coisa.
[Acho a coleção] Importantíssima, isso aí tem um valor histórico para as
próximas gerações. Sobre a Casa da Dinda, tem muita gente que não sabe o que foi, mas
tem coisa sobre a Casa da Dinda aí. [Não venderia parte ou a coleção completa] isso aí
não tem valor. [ A completude da coleção] já está num nível bom. Coleção nunca tem
fim.
Maria Aparecida Alves de Macedo
Sou aposentada e eu tenho 78 anos. [Coleciono] Coruja. 120 mais ou menos.
Foram todas ganhadas, presentes, nunca comprei nenhuma. Sempre gostei, porque eu
acho que é símbolo de sabedoria. Tem uns que dizem que ela é “agorenta”, mas eu não
acho. E como eu ganhei a primeira de uma amiga da minha filha, a Mônica, ela mora no
Rio de Janeiro agora, então quando foi o dia das mães ela me deu uma corujinha com 3
corujas, então ela dizia que eu era a mãe adotiva dela. Aí ela falou assim pra mim, D.
Maria eu vou dar pra senhora porque ainda falta eu a sua filha adotiva. E ai eu comecei,
eu já gostava e ai um sabia que eu gostava e me dava, outro também, e eu não comprei
nenhuma, são todas ganhadas. Já aconteceu [de ver uma bonita] , mas ai é meu marido
que compra, não sou eu.
[Compro] onde encontra, as vezes viaja, quando vai em algum lugar que tem.
Tem de fora também, tem da França,tem 1 da China, tem uma da Tailândia, que eu não
te mostrei, uma miniatura, uma de asa de borboleta, uma miniatura, que também não
mostrei e tem até uma de painço, sementinha. [Sobre quem me deu] Eu lembro quase
todas. Guardo na cabeça. [As corujas não tem marcas] não tem nada. É uma coleção
minha. Nunca entrei em contato com ninguém, não sei de ninguém que coleciona,
inclusive tem um senhor que vem aqui em casa e sempre diz, ah D. Maria, aqui em
Ribeirão que eu sei é só a senhora que coleciona não sei, ele fala D. Maria das corujas.
[Não ligo para material nem tamanho] Eu gosto do animal e não importa do que
seja fabricada, eu gosto do formato dela e do que ela passa, porque eu acho que ela traz
energia. Tem gente que acha que não, eu acho que sim. Eu adoro que elas fiquem
espalhadas [na casa], não gosto que fiquem escondidas. Só as que estão expostas [estão
ordenadas] são as miniaturas e as maiores e vou espalhando pela casa. Só as miniaturas
que são muito pequenininhas, mas já quebrou muito. Ontem mesmo uma moça quebrou
uma.
Meus amigos, as pessoas que me conhecem [sabem sobre a coleção]. Gosto [de
mostrar], não acho ruim não. Tem umas crianças aqui do condomínio que dizem, vamos
lá na casa da vó ver os passarinhos.
Não [coleciono por causa das lembranças] , é bom você lembrar de quem te deu,
mas não é o objeto que vai lembrar da pessoa, mas é porque eu gosto. Eu gosto de
qualquer coisa relacionada com coruja, não importa o tamanho dela. Inclusive, esse
quadro mediúnico que eu tenho, uma pessoa foi num centro espírita e a pessoa que tava
lá desenhou na hora esse quadro e mandou pra mim. Ai eu não tive explicação do por
que ganhei.
[A coleção não se vincula com nenhuma atividade profissional]. Acho ela
importante. Acho bom guardar as coisas. [A coleção nunca foi usada para outras
atividades] [Nunca a venderia, nem parte dela]
Não [tem uma peça favorita], eu gosto da que eu ganhei da Mônica, porque foi a
primeira e eu comecei com ela. Gosto do meu quadro mediúnico. E gosto de todas elas,
não tenho uma preferência, a da Mônica porque foi com ela que eu comecei, ela me deu
num dia muito expressivo. Me marcou muito essa mediúnica que eu ganhei.
Sempre falta alguma [coruja para a coleção ficar completa]. As repetidas que eu
tenho, são as de concha. Não [se sente culpada por colecionar], pelo contrário, me sinto
muito bem. Quando eu for embora dessa terra, ai eles vêem o que fazem, não vou deixar
nada escrito. Se quiser doar pra alguém, ou sei lá, o que quiserem fazer com elas, podem
fazer, porque eu já fui embora mesmo. Na minha casa, na minha família, meus netos,
ninguém coleciona nada, ninguém gosta de ter essas coisas. Então, não tem ninguém
em específico para deixar, pode talvez dar pra uma instituição, pra alguma coisa, mas
para alguém de casa não. Ninguém se interessa, gosta de me dar, gosta do que eu tenho.
Eu gosto dessas coisas, gosto de colecionar.
O trabalho que você faz muito importante, porque você está pesquisando uma
coisa que quase ninguém se interessa. Porque coleção hoje em dia é uma coisa difícil
que alguém ter assim. A minha [coleção] foi posta na minha mão, então quando você
gosta de uma coisa, você procura se interessar. Eu leio alguma sobre coruja, mas se
interessar de ter aquela peça, de alguma coisa. Eu acho que tudo que você guarda é uma
lembrança, porque às vezes a memória falha.
Mauricio
Tenho 25 anos e sou engenheiro agrônomo. Maços de cigarro, [começou] em
1994. Aproximadamente uns 300 e poucos. 310 mais ou menos. Foi achando na rua,
parando o carro onde eu achava. Indo aqui nos jogos do Botafogo, depois do jogo a
gente ia no meio do lixo fuçar. Depois eu recebi uma coleção de um senhor, uma
coleção antiga dele. E um visinho que viajava o mundo todo e trazia os maços de
cigarro pra mim e trocando com os vizinhos e amigos aqui.
[Tinha um grupo de amigos que também gostava de colecionar]. Isso, uma
molecada mesmo, uma troca, como se fosse moeda mesmo. Eu comprava muito pouco,
pouquíssimos. Da pra contar quantos maços. Comprei uns 5, porque eu era muito
criança e meus pais não deixavam. Tudo [era] achado ou ganhado. Eu me lembro de
pegar um saco plástico, encher de cigarro e da pro guardinha da rua. Ele adorava,
fumava o cigarro do mundo inteiro. Adorava ir naquela loja que vendia os cigarros
diferentes, e um dia desses eu liguei do shopping perguntando se eu podia comprar os
cigarros, que era bonito e tal e meus pais liberaram pra eu comprar e eu nunca me
esqueci. Eu comprei com meu dinheiro, paguei com meu dinheiro, eu era criança.
Alguns marcaram mesmo, fazia muito tempo que eu não olhava a coleção, mas uns
marcaram sim. Eu lembro certinho de quem eu ganhei, como eu ganhei, de tanto que me
gravou, assim, de tanto que é importante aquele cigarro.
[Não fuma e nunca fumou. E ninguém aqui da sua família fuma]. Não sei da
onde veio [o interesse], talvez de influência dos vizinhos, alguém que começou e ai a
gente começa e os maços são bonitos, talvez eu ficava encantado por isso. Não sei da
onde começou mesmo.
Na época era mais organizado. Eu estava listando os países da onde vieram,
tinha datas. Na época era tudo bem controladinho. Os maços eram todos separadinhos,
separados entre as diferenças entre eles, semelhanças, importado ou nacional. Eu nunca
fiz um cadastro oficial, nada disso. Mas sabia um por um. Tenho ate uns de troca aqui.
Agora a ordem é mais nacional e importados, mas já vi que tem mistura.
[Não coloca alguma marca] Nunca saiu da minha casa essa coleção. Por eu
perder o interesse, ate pelo problema que o cigarro trouxe pra minha família, eu acabei
perdendo o interesse mesmo em colecionar. Então assim, não fui atrás de ler, de buscar
informações assim. [Colacionou] uns 5 anos. Você vê que eu perdi o interesse mais
nunca joguei fora e nunca doei. e era todo dia. Era troca, pegar na rua, ir atrás para
conseguir um diferente.Guardadas nas caixas, dentro de pastas, dentro de um armário.
Sim, tirava a sujeira que fica dentro, o papel alumínio que vem dentro, colava em folha
sulfite e colocava em pastas plásticas.
[Sabe da sua coleção] familiares e meus amigos mesmo, namorada. Só os mais
íntimos mesmo. Quando acontece algum fato, alguém comenta na roda de amigos de
coleções, ou fala que colecionou alguma coisa, ai eu vou lá pego e mostro.
Não sei [por que colecionou]. O que me encantava era essa questão de ter coisas
diferentes, de cada hora ter mais coisas, uma coisa diferente do outro amigo e trocar e
era exatamente por isso que me encantou. A beleza dos maços de cigarros acho ela
muito legal. Mas era isso mesmo. . Acho que era muito legal ter um cigarro de um pais
diferente.
Nada a ver [com alguma atividade que exerce]. Depende [por que a coleção é
importante] Importante pra que? Pra mim ela foi importante, que ate não me desfiz
dela. Mas as vezes pode ser importante para outra pessoa que colecione também, ou pra
mostrar. Mostrar ate aonde vai o limite do cigarro. Mostrar essas belezas de cigarros
diferentes no mundo. Tenho um cigarro da Nova Zelândia que quando eu consegui eu
nem sabia aonde era a Nova Zelândia, ai eu pensei, nossa o que é isso. E tem uma
países do oriente médio que eu pensava –nossa que legal – tipo esses cigarros que eu
não entendo a língua, não sei nem da onde é e eles me chamam a atenção. Tem um
DunHill que eu acho impressionante, que ele tem as bordinhas dobradas, eu gosto muito
desse cigarro. Ele é bem cuidado. Eu gosto muito dos DunHill, são muitos bonitos. E as
cores são muito bonitas
Eu parei porque meu vô fumava e teve câncer de garganta. Os dois vôs. E a
família meio que criou uma aversão do cigarro mesmo, acho que ate pela educação
nossa, então eu fui questionando. A gente tem aversão a cigarro e eu coleciono maço de
cigarro. E ficava pegando maço de cigarro no chão e aí acabou caindo na consciência
que não tinha nada a ver assim. Ate mesmo não é por isso que porque eu estou
colecionando eu não to incentivando. Mas eu perdi o interesse. Eu pensei que eu não
poderia ter parado, se eu não tivesse parado hoje eu estaria com 3 mil cigarros. E eu já
acabei indo pra lugares, conhecendo pessoas que poderiam ter aumentado muito minha
coleção. Mas perdi o interesse. Me arrependo de parar, porque colecionar é uma
sensação muito gostosa e hoje eu não coleciono mais nada.
Atualmente é doar pra alguém ou vender pra alguém. Isso que eu penso Agora
eu não vou colecionar mais cigarros. Então eu realmente tenho o interesse de passar pra
alguém, vender. Não tenho a menor idéia de quanto custaria, ou doar pra alguém, que
gostaria de continuar. Venderia, hoje em dia eu venderia. Da uma dorzinha mas eu
venderia.
.
Jose Wilson Ricciardi
Sou administrador de empresas, tenho 58 anos e sou gerente aqui no poupatempo.É uma coleção de marcas de cigarro. São as caixinhas de cigarro das épocas de
1950 1960. E eu guardo com carinho e tenho uma coleção especifica daquela época, não
é uma coleção atualizada ou que veio colecionando todas as marcas de cigarro após esse
período. Especificamente dessa época de 50 e 60. São umas quarenta folhas com 3
maços. Umas 300, 350 marcas de cigarro. Lá por 1955, 1960 a gente trocava maços de
cigarro, uns com os outros. Era uma atividade de crianças, de meninos. Você trocava –
me dá essa, essa eu não tenho – era uma coisa da ocasião. E eu guardei isso desde
aquela época então. É, primeiro você pegava do chão, as pessoas jogavam fora, ou então
você ia pedir pras pessoas que você via que fumava os da marca que você não tinha e
pedia a caixinha ou o maço de cigarro. Ah sim, se você tem uma marca e seu colega não
tem, você se sentia mais privilegiado. Então isso era interessante
Na época entre 50 e 60, fumar era um estatus social, você tinha isso como uma
situação social diferenciada. Então era bonito fumar. Os filmes da época, todos os
artistas fumavam que é antagônico com os dias de hoje, que a gente sabe o malefício do
cigarro, o que isso causa as pessoas, ao bolso, enfim, são coisas bem diferentes mas
importantíssimas e que remete a época. Isso que é interessante, fora isso continuo sendo
contra o cigarro, acho que isso é um malefício e qualquer pontinha de cigarro antigo é
bem diferente dos cigarros de hoje, que hoje o cigarro atual tem muita química.
[Também comprava] em bares, mas assim, nessa época a gente fumava
escondido dos pais, a gente era criança e então um ou outro você podia comprar. Mas
nessa época que eu fiz a coleção, era feio menino sair fumando, não correspondia à
idade. Você fumava era escondido, era como uma arte bem reservada. Mas realmente a
gente trocava, assim como a gente trocava figurinha, jogava pião, bolinha de gude, eram
os brinquedos da época. Na verdade, era uma atividade de criança, um tipo você
colecionar e eu tenho essa e você não tem, e era uma disputa você ter maço diferente do
colega que eles não tinham. Era só isso. Mas comprar ou outra coisa não.
Mas assim, eu como bom fumante vejo aquelas marcas que eu fumei, como
Columbia, Luiz 15, Negrito que era um cigarrinho preto adocicado e a mim como dono
da coleção me remete a isso. A outros que fumavam outra marcas e vê eles lembra ou
relembra – olha eu fumei esse ou meu pai fumava aquilo – essas coisas. Ate
recentemente apareceu uma pessoa e olhou as marcas de cigarro e disse que era tudo o
que ela precisava pra demonstrar a evolução das cores de marketing e eu falei que
estava a disposição, que se quisesse levar não teria problema. E tem questões que a
gente nem imagina que podem ser interessantes em outro aspecto.
Não tive esse tipo de cuidado [controle da coleção] . Só está mesmo
arrumadinho, dentro de uma pasta. Agora que eu fiz a primeira exposição e vocês estão
com essa vontade, essa disposição nesse evento programado que eu acho muito
interessante, pois não é só a coleção em si, é o valor histórico que isso traz. Quando
tenho oportunidade como agora, e fazer parte de uma exposição la do SESC deu
vontade. Conta historia de alguma coisa, alguma época ou de algum produto e isso é
interessante que não pode se perder ao longo do tempo.
[Os itens não tem nenhuma marca pessoal] [ Também não existe nenhum
material de apoio]. Fica [guardada] com muito carinho em casa. Eu guardo e as vezes
meus filhos mostram pra alguém ou eu também ou alguma pessoa que entende do
assunto. É uma coisa que não pode ficar escondida. Essas coisas que a gente tem é para
as pessoas verem, para se ter a mesma expectativa, ou o que foi uma paixão lá atrás é
hoje apenas um papel. [os maços] estão em ordem alfabética.
[Considera a sua coleção importante] Coleção não se vende, é um acervo seu. É
para as pessoas que quiserem ver, é uma satisfação mostrar, de remeter aquele passado.
[Nunca houve culpa por colecionar] sempre gostei de fazer e eu em casa fumo, meus
filhos não. Então você vê que a gente não tem um vinculo, não se espelha em nenhum
vinculo com a coisa. É como uma coleção qualquer.
Quero parabenizar vocês pela iniciativa, que são tantas coisas interessantes, uma
historia, uma forma de buscar o passado. Por isso que essas atividades, esses eventos
com esse tipo de iniciativa é interessante. Por isso que parabenizo vocês por
proporcionar isso em Ribeirão Preto
Márcia
Tenho 48 anos e sou professora. Porquinhos. Mais de 500. Eu devia ter uns 14
anos.
Eu compro em qualquer lugar, eu ganho, ganho bastante. Quando eu não to muito bem,
eu saio e compro e isso me deixa bem. Então as pessoas sabem, por intermédio de
alguns elas ficam sabendo, por exemplo as amigas da minha irmã sabem e aí me dão.
Ate amigos de amigos me dão.. Em aniversario eu ganho bastante, mas chega sempre,
sempre. As pessoas saem, eu então comentam pra mim aonde tem, chega de todo jeito.
Qualquer época. Outro dia eu ganhei um que a pessoa foi pra são Paulo e pro Rio e
quando ela me encontra ela me dá. [Não troca nenhum deles]
A coleção é de tudo jeito. Eu gostaria que eles tivessem finalidades, que nem eu
te mostrei, uma lanterna, um sabonete, um chocolate, o porta paliteiros. Eu gostaria que
fosse assim, mas tem gente que me dá de todo o jeito. E no começo era só miniaturas.
Ai depois mudou. Tem ate uns feinhos, mas... Já tive [uma ordem] e se perdeu no
caminho e agora não. Agora eu estava selecionando algumas coisas e eu lembrei, por
exemplo, ali tem um monte de postais e eu lembrava que eu queria aquele lá da
Dinamarca, então onde está e tal. Eu tenho as coisas mas elas estão meio espalhadas,
mas eu lembro. E aí procurando aquele eu encontrei outros. E eu gosto de ter em todo
lugar porque aí eu abro uma gaveta e eu lembro, é sempre assim.
Eu acho uma graça. E ele é limpo, e é lógico que ele gosta de afundar na lama,
mas é limpo. As pessoas que dão lavagem, senão ele come ração. Como, mas não como
inteiro. Quando tem leitoa, ai não como.
História em quadrinhos eu tenho. Mas tudo que se refere a porquinho eu tenho.
No outro notebook eu tenho um monte de foto. Das cartas que eu recebia de papel de
cartas de porquinhos virou email. Nos emails vinham porquinhos, as pessoas colocavam
e me mandavam direto. Foto também. No Messenger, quase sempre minha foto é um
porco, eu nunca coloco minha foto. Eu to sempre mudando. Vídeos assim, tem um
agora no youtube que é O Dino X O Pig. São vários. E o Dino esta sempre maltratando
o PIG. Ai me mandam e eu mando pros outros, sempre assim. Mas eu não vou no
cinema, porque eu tenho pena. Porque sempre a historia eles judiam mas não final é
feliz, mas eu não aguento as partes de judiação.
Eu tenho em fantoche, mas ai eu tiro o lobo mal. Por exemplo, eu tenho um
saleiro que é a vaca e o porco, eu tiro a vaca. Eu não quero que a pessoa me dá assim.
Então no começo as pessoas me davam o que fosse. Eu tenho foto de pato, se não tinha
foto de porco, me mandavam a foto dela, depois numa fase, bem no começo, porque
depois é bem determinado que é só porco, não adianta mandar outra coisa.
Eu tenho [porquinhos] na casa inteira. A minha ideia era que eu tivesse mesmo
na casa inteira, e tudo fosse para estar usando. Que nem a cozinha, eu tenho xícara, uma
chaleira, o paliteiro, o tapetinho sobre a mesa. Então é tudo. No banheiro as
saboneteiras, as esponjas, a escova de dente. Então eu queria que na casa inteira fosse
assim. E aí nos quartos ficam outra coisa, por exemplo os de pelúcia. Porque eu tenho
pingente, brincos, pra prender o cabelo [tudo de porquinho]
Nunca mudei de casa por causa dos porquinhos. Bom, primeiro começa
pequenininha e depois vai aumentando. Eu fui casada e não tinha filhos, então eu podia
espalhar eles pela casa, e morando sozinha eu posso espalhar. [Não acha que sua
coleção tem alguma ordem]. É que eu sou meio desorganizada. Por exemplo, esses
daqui eu acabei de ganhar, então estão aqui em cima da mesa, mas tenho outro, e aí eu
pego e coloco outro no lugar.
Todos meus amigos e amigos dos amigos [sabem da coleção]. A gente mora
sozinho e ai pode ter, gastar com isso e as pessoas não entendem muito bem. Tanto é
que eu to fazendo uma campanha pra eu tentar expor minha coleção e tal. Então eu
tenho amigos que querem saber quem é. Então eu falo, é um professor da USP, então
querem saber quem é, e a USP todo mundo conhece. Acho que é pra fazer campanha.
Querem saber se eu vou falar e onde que vai ser, e lógico, quando for eu falo.
Não gosto quando a pessoa quer colecionar só porque eu to colecionando. Cada
um coleciona o que quer, então aí eu não gosto. Mas não. O pessoal acha legal que eu
coleciono. E se ver, é bom que eu sempre acabo ganhando. Eu comecei porque eu
achava que ninguém gostava de porquinhos. Todo mundo achava que era um animal
sujo e tal. Aí eu comecei tipo uma campanha. Começou assim. Por exemplo, começou
com um porquinho e aí pessoal foi me dando. Eu sou formada em veterinária. Trabalhei
por algum tempo em uma granja, mas não tem nada a ver.
Segunda feira eu fui no cinema e fui ver “Arraste-me para o inferno”. E aí, muito
interessante. A personagem pega um livro e tira uma foto que ela era a rainha da festa
do porco, e ela esta em cima do porco, e aí pessoal comenta – olha. E é muito
interessante ter um porquinho enfeitado. Todo mundo nota.
Eu acho que eu deveria ter muito mais, por exemplo, esse é um momento que eu
não saio confortavelmente, porque eu estou com alguns problemas. Eles estão um pouco
abandonados. Eu acho importante [a coleção]. Faz parte da minha vida. E eu gostaria de
fazer parte dela, que ela estivesse espalhada por toda a casa e assim eu faria parte dela.
Eu morro e ela ficou, a gente ate brinca. Mas eu gostaria de fazer parte e aí acabou,
acabou. Tem amigas que querem trazer crianças e aí não. Aqui criança não entra.
[Não venderia a coleção, só trocaria alguns repetidos]
.
Eu fiz aniversario um ano e aí me trouxeram um e eu achei lindo, e aí na
sequencia vem alguém e me dá, e ai eu só coloquei a mão no papel e minha cara não
consegue segurar. Teve três na sequencia, tudo igual. Ah fico com um ódio!! Eu notei
aqui que as pessoas querem fazer parte, ela acha que deu melhor que o de tal, de outra.
Ela quer falar que aquele foi eu que dei, aquele também.
[A coleção] Não vai acabar nunca, tem muita coisa pra eu comprar, sei onde
está, mas ainda não deu. Eu também não estou legal. Eu estou com alguns problemas e
eu preciso sair e ter o prazer em vir com aquilo. As vezes eu vejo com aquilo e coloco
aqui e aí fica dois anos. Não nunca troquei.. [As repetidas] eu guardo, porque eu sei que
ela pode quebrar. E isso de eu querer uma peça só é bem complicada, da forma que eu
tenho, porque eu quero usar.
Eu me arrependi de duas coisas. Que teve um desfile em São Paulo e o sapato
era de pele de porco. E outro, eu fui pra Amsterdam, e tem umas lojas de diamante que
você visita e ai você senta e ele coloca as caixas na sua frente, mas ai ele colocou um
porquinho de diamante, e aí eu não tinha dinheiro.
Porque meus amigos traziam. Por exemplo a placa de supermercado e ai a
pessoa pegou, porque ela fica presa, e a outra que eu lembro que foi dessa forma, foi a
da Doriana. Lá no passado a Doriana vinha com a fazendinha, e nas tampas vinham os
bichinhos e aí eu queria só o porquinho, eu podia comprar , mas ai a pessoa foi lá e
pegou. Ou se eu vou na casa de alguém e vejo, aí eu pego
Que nem ontem mesmo eu estava vendo na internet que uma pessoa estava
vendendo uma partezinha de uma coleção e é muito legal você ver que tem todos, mas
ai tem uns que não tem muito e tem uma peça que você não tem, que nunca viu, aí eu
fico com raiva. O que eu gostaria também, e ate acho caro, era aquelas bolsas que te
falei, que passei no shopping e comprei.
[Acha que sua coleção vai crescer] Tem uma hora que eu corto, porque as
pessoas ficam me dando e assim, eu tenho medo que a pessoa vai querer entrar na
minha coleção e eu não gosto. Eu não gosto quando a pessoa me liga e diz que achou
um porquinho, ela esta vivendo minha vida. Por exemplo, vocês que estão vindo ver a
coleção, vocês vão lembrar de varias pessoas e pode lembrar de mim e se ver um
porquinho pode me falar depois, e não que me ligue pra dizer. As vezes eu acho que
tenho muito pouco ainda. Tenho muita coisa em detalhes, e isso minha irmã que me dá.
É pingente pra colocar no celular, ela sempre me dá.
Eu não gosto muito [quando alguém aparece com um porquinho], mas tem
pessoas que é o tempo inteiro. Não só no meu aniversario, mas veio aqui, me trouxe e
tal, mas não sempre. Não quero que fiquem fazendo parte. Cada um que monte a
sua.Tem muita gente que me liga e fala que foi em algum lugar e ta com um porquinho
e diz vem aqui pra você pegar, ai leva anos e eu não vou.
Eu quero usar [os porquinhos], e acho que com o tempo eles vão se acabando.
Eu pensei nisso, e aí eu aproveito a coleção, de usar tudo. Vai sujando, gastando e
pronto, acabou.
Sim, [usa porquinhos] com bolsa, com brinco, com pingente, com camiseta. [O
povo] olha, mas eu não to nem aí. Mas meu sonho era ter uma fantasia inteira, porque
eu tenho as mascaras, mas queria a fantasia inteira. Aqui não tem muita festa a fantasia
também queria sair que nem aqueles do trio elétrico. Eu lembro, o Silvio Santos tinha a
porta da esperança, e eu falava que ia escrever pra ele pra eu ganhar uma fantasia de
porco. E tem um file que é programa de televisão também que é a família inteira
fantasiada assim, e esse era um sonho que eu tinha. O meu sonho de consumo é ter um
de verdade. Quero, mesmo miniatura, mas quero. Mas ai não sei se acaba minha coleção
ou se continuo com ele.
Por exemplo esse do George Clooney que morreu com 18 anos [...] e aí ele tava
gravando e o porco morreu. E ai pra mim tem isso, que se eu ficar vai ficar ate ele
morrer, então eu não quero, se você me der, e aí ele vai crescer e vai que entala. Ai não.
Quero ele viva comigo ate ele morrer. Esse é meu sonho. Eu já consegui um em
miniatura, e aí eu conseguiria dividir com outras pessoas, porque eu já tirei a ideia de
varias que o porco é sujo. Aí você mostra que o porco é limpinho, fofinho. Eu acho ele
fácil de manter, ele fica deitado.
Eu conheço um veterinário que tem a sala inteira [cheia de porcos] e ele é casado
e como que a mulher deixa a sala inteira. Sim, mas eu achei engraçado ele juntar tudo
assim, ele é casado. Mas é diferente deixar tudo espalhado, do que deixar tudo no
mesmo lugar. Eu imagino o Miguel Falabella, porque dizem que dão muito pra ele.
Não [tem CDS de porquinhos], é apenas a capa. Eu não vou atrás disso. Eu
gosto mais das peças. Que nem no outro computador, ficou cheio de fotos, tudo que eu
achava eu ia guardando e agora não.
Oswaldo Luis Orucci
53 anos e comerciante. Selo, moedas e notas de coleção.:São de cédulas
brasileiras que ficam entre o Rei e o Real, ou seja de 1942 a 1993. São 83 peças, que
foram emitidas nesse período. A coleção já tem 40 anos e consegui por troca, aquisição,
basicamente assim.Existe comerciantes desse tipo de material, colecionadores, em
Ribeirão Preto mesmo a gente já teve feira em praça publica, já tivemos clubes de
colecionadores, já tivemos comerciantes com estabelecimento, mas hoje não existe mais
nada disso. E é dessa forma que a gente faz os contatos, que vive nesse mundo. Só se
for alguma coisa meio inusitada, senão a gente não lembra [como adquiriu cada peça].
Em 1969, eu tinha 13 anos de idade e eu ganhei de um primo do meu pai uma
moeda brasileira e uma moeda estrangeira. por ter ganhado algumas coisas aos 13 anos
de idade eu gostei e continuei ate hoje.Achei aquilo muito interessante e curioso e fui
dando continuidade ate hoje. Quem coleciona tem essas duas preocupações, a
morfologia da peça, como ela foi emitida, como ela foi feita e o que ela representa,
como dinheiro, como algum tipo de comemoração, divulgação ou homenagem, ou seja,
a condição física e a condição, digamos, histórica dela. Como ela foi feita e porque ela
foi feita.
A minha coleção é controlada, entre aspas, através de catálogos e é através dos
catálogos que eu sei se tenho ou não tenho. Pois existem catálogos de moedas, de selos
e cédulas e a minha coleção eu controlo através de catálogos. Assim eu assinalo se eu
tenho, se não tenho. Antigamente usava-se [marcas] isso nas festas. Mas hoje não,
porque você alteraria a condição da cédula.
Alem das peças propriamente dita, a gente tem uma biblioteca especializada no
assunto. Em Ribeirão Preto é umas das melhores. Ela tem livros, revistas, boletins,
catálogos. [A coleção] guardada em álbuns, pastas, arquivos e tudo isso em armários de
aço. Ela tem basicamente a ordem dos catálogos. A gente segue a ordem dos catálogos,
basicamente cronológica. Não é só isso, mas a base é cronologia.
Por lidar com isso há muito tempo, por militar isso – hoje eu não milito mais,
apenas coleciono – então eu sou bastante conhecido. Eu já participei de exposições,
mostras. Eu já fiz muitas exposições, matérias na mídia em geral. Então seria de
aprendizado e mediação.
[A coleção] Tem um fator psicológico e um fato solido. O fator psicológico é
que você parte pra um mundo a parte. Eu costumo dizer que através desses itens, você
viaja através do tempo e do espaço. Eu fico fascinado por colecionar uma moeda de
1905 do „Faral up’ que era uma colônia inglesa que se juntou com mais outras 12 e
formou a Tailândia. Então eu acho que isso daí eu to viajando no tempo e no espaço.
Você conhecer a Tailândia é uma coisa curiosa, a Tailândia de 100 anos atrás é muito
mais o que fascina.
Existe na coleção um ramo que se chama temática ou seja, você coleciona peças
que mostram determinados temas. E esse tema pode ser de barco a vela a pássaros. E
você coleciona peças que mostrem esse tema, essa finalidade. E aí uma pessoa pra
pesquisar, pra colecionar esse tema, ela acaba tendo que ter conhecimento. E se essa
atividade profissional dela ajuda e é bem vindo. Por exemplo se um medico
oftalmologista colecionar peças a respeito de oftalmologia, ou um comandante da
aviação colecionar peça que contem a historia da aviação.
Eu dou muito valor ao pessoal e ao histórico. Quanto ao valor econômico, é uma
ilusão da grande maioria, da qualidade dos leigos, porque eles acham que os
colecionadores é um juntador de tesouros preciosos e valiosíssimos. O que eu quis dizer
é o seguinte, se isso fosse verdade, pouquíssimas pessoas do mundo podiam colecionar.
Você a imaginou se toda pessoa que quisesse ter um relógio de pulso fossem obrigadas
a ter um Rolex, pouquíssimas pessoas teriam seu relógio de pulso. E a (9:25) e a (9:26)
é a mesma coisa, existe aquela nota raríssima, mas 99% do que existe, não é raro. Eles
são comuns ou médios. Raros são 1% ou às vezes nem isso. Então é ilusão achar que a
gente coleciona por dinheiro. Na pratica, quase ninguém iria poder colecionar.
Hoje não [venderia a coleção] , mas antes de morrer sim. Porque minha filha não
se interessa por isso. Então antes de morrer, com certeza eu vou vender. Peças favoritas
são aquelas que se relacionam com alguma coisa mais pessoal, por exemplo, essas duas
moedas que eu ganhei pra começar a coleção. Eu tenho peças iguais, mas não aquelas.
Eu fiz questão de conseguir peças iguais, mas aquelas não. Basicamente peças favoritas
são aquelas relacionadas à condição a que elas foram conseguidas, ou ganhas, ou
compradas ou trocadas.
O verdadeiro colecionador sempre se esforça pra deixar sua coleção o mais
completa possível, o melhor armazenado e organizado possível. A melhor estudada
possível. Então minha coleção não esta completa no momento e eu vou me esforçar pra
deixá-la melhor do que ela está. E isso é uma coisa pra vida toda.
Já passei [por situações constrangedoras]. Se você quiser desligar eu te conto
Modéstia a parte eu sempre fui uma pessoa equilibrada e eu nunca levei nada ao
extremo, porque assim, eu trabalho, eu tenho minha família e eu nunca quis levar assim.
Eu conheci fanáticos, mas não que o colecionismo os tenha deixado problemáticos. Eles
eram pessoas problemática e que usaram o colecionismo como escape, fuga. O
colecionismo foi um sintoma, não uma causa. Eu faço questão de dizer isso, porque
muita pessoa acha que colecionar é coisa de doido. Hoje menos, mas no passado bem
mais. Tem essa coisa de gente fanática, gente doida, gente alienada. Eu te digo, ela pode
ser sintoma, a causa não conheço.
Roberto dos Santos Coelho Junior
47 anos, administrador de empresas e estudante do CID. Objetos com a marca
Coca-Cola.: Qualquer tipo de objeto que tenha a marca Coca-cola. Mais ou menos uns
200. [adquiriu] Normalmente de presente. [Compra] Onde eu estiver passando, se tiver
alguma coisa que me chama a atenção, se tem a possibilidade de comprar eu compro.
Por exemplo, as garrafas de coca-cola, dependendo da indústria local, ela é diferente,
tem embalagens diferente. A própria garrafa de plástico, de vidro. Então conforme eu
vou passando e vendo eu não hesito em comprar. [Começou a adquirir] Acho que em
2004.
Como normalmente são presentes, então assim, eu sei hoje, de cada uma quem
me deu, qual foi a situação, do local. E das peças que eu comprei, eu também tenho uma
lembranças delas, qual a situação. A maioria das peças que eu tenho são industrializada
então é um caso ou outro que é mais artesanal. Esses eu ainda lembro. Agora os mais
industrializados, eu não tenho esse tipo de interesse.
Não [tem controle], meu interesse é em colecionar mesmo, não é controlar,
seleção. É de lembrar-se de cada item, de saber qual o lugar, mas de controle eu não
tenho nada. [Não marca] Para não danificar o objeto, pra não descaracterizar. Muita
gente Poe pra constatar que é dele mesmo.
[Guarda a coleção] no expositor de Coca-Cola mesmo, no escritório da minha
casa. Uma grande amiga minha, Flavia. E eu não sei como ela tinha esse expositor no
escritório dela, e toda vez que eu a encontrava eu dizia que eu queria comprar, porque
eu tinha muito interesse naquele expositor e ela disse que jamais venderia. Ate que um
dia ela me ligou, falou pra eu passar no escritório dela, que ela tinha um presente pra me
dar. E logo que eu cheguei lá foi uma surpresa. Ela me disse que estava mudando de
escritório e que não teria espaço e então estava me dando de presente. É a maior peça
que eu tenho hoje da coleção. É o suporte da coleção.
Gosto [de mostrar a coleção , é uma coleção interessante. Não conheço ninguém
com essa loucura especifica por Coca-Cola em si. Não é pela Coca-Cola em si, mas sim
pela força que tem a marca. Talvez seja esse o fascínio que eu tenho pela Coca-Cola. [A
coleção surgiu] sem querer. Se tiver que contar como que começou eu não lembro de
onde apareceu isso. Eu comecei com umas latinhas que me chamaram a atenção, uma
coleção limitada da fotografia do Pelé e eu guardei aquelas latas, não sei pra que foi,
mas foi assim que comecei. Agora lembrando, foi assim.
Normalmente meus amigos [sabem da coleção], que frequentam minha casa, que
vêem aqui, e que sempre me ajudam a aumentar a coleção. Acho que é mais diversão,
porque lembranças, como são muitas peças que são ganhas, as lembranças que eu tenho
são dos amigos que me trazem, que recordam de mim. Alguma coisa nesse aspecto.
Mais por diversão mesmo, mais como um fascínio pela marca Coca-Cola. Uma marca
de penetração mundial, que praticamente não precisa fazer propaganda, só uma
propaganda institucional. Talvez seja esse a minha relação de afetividade com a coleção
é essa.
O fascínio da marca eu acho interessante. Uma marca há tantos anos no mercado
e praticamente só remodela as embalagens, moderniza as embalagens, mas o tipo da
letra, a escrita há tantos anos no mercado, praticamente sem mudança, sem alteração,
passando por gerações. Acho que isso é o que me atrai na marca. Eu apenas me lembro
que foi da latinha do Pelé, e eu guardei algumas e acho que partiu daí a coleção.
Para mim é [importante]. Como eu tenho a lembrança de cada peça, da situação,
do local, da pessoa que me deu, eu vou olhando e recordando os amigos. [uso] A não
ser por pura diversão e distração. [Não venderia] de forma alguma. É difícil você se
desfazer de uma coisa que você gosta. [peça favorita] Uma fruteira feita de garrafas
derretidas em forma. Deve ter perto de um ano essa peça. Nenhuma peça ali pra mim
tem utilidade, a não ser de ficar exposta. É pela razão da pessoa que me deu e pela
situação do momento que ela me deu. Falta muita coisa pra sua coleção ficar completa:
um caminhão e um freezer da Coca-Cola. Vontade eu já tive [de roubar], o que eu não
tive foi oportunidade
Se um dia a Coca-Cola for abrir um museu e eu pudesse ser colaborador do
museu da Coca-Cola, aí eu me desfaço. Senão eu não tenho outra ideia não.Não, na
verdade Coca-Cola é quase um bem publico, qualquer lugar que você vai tem.O que
acontece é que uma vez eu vi um caixote de madeira, um engradado de madeira da
Coca-Cola, pintado a mão, inclusive bem antigo e pessoa me pediu 280 reais. Aí eu fui
fazer o cheque, a pessoa disse que não aceitava, e então eu fui no caixa fazer o saque e a
hora que eu voltei ele tinha fechado o estabelecimento, aí eu vim embora.
Luciano Francisco de Jesus
Sou motorista e tenho 29 anos. Coleciono cartões telefônicos. Eu cheguei a
contar até os 1.100 [itens]. Agora eu não conto mais. Mas aproximadamente deve ter
uns 1200 ou 1180, alguma coisa em torno esse numero aí. Aí a historia [da aquisição] é
meio longa, porque cada cartão tem uma historia. Até separei aqui pra relembrar um
pouco. Esse aqui foi meu primeiro cartão. Inclusive foi meu tio que me deu, das forças
armadas. Aí teve o segundo cartão que eu achei na rua, lá no calçadão de Canoas, lá no
Rio Grande do Sul. Aí foi onde começou. Ate então eu não sabia que existia série sobre
assuntos diferenciados e aí eu comecei a fechar a serie e aí foi indo. Foi crescendo.
{começou] por volta de 1992,1993, 1991.
Como eu disse cada cartão é uma historia. Então alguns eu troquei através de
correio, e já faz uns seis anos que eu to parado. Parei de trocar correspondência. Então
eu mandava pra Goiás, pro Rio de Janeiro, vários estados, mandava dois ou três. Então
o que, por exemplo, saia aqui na cidade de Ribeirão Preto não saia na cidade de Porto
Alegre, então era onde o cartão era mais valorizado lá e os cartões que era de lá não
valiam nada porque tinha que nem água. Então a gente fazia essa troca. Aí foi
crescendo. Conhecia um através do outro. E aí a gente espalhamos. Aí quando tava no
auge mesmo, na febre, o pessoal se encontrava aqui no centro, na catedral de Ribeirão
Preto e era todo domingo. Chegava umas 9 horas da manha e ficava até umas 5 da tarde.
Vinha de outra região e ate de outros estados. E tinha a pessoa também que não
era colecionador, mas era comerciante. Na época eles aproveitavam. Tinha gente que
ganhava muito dinheiro na época. Inclusive tinha algumas pessoas que viviam só disso,
eles viajavam o Brasil inteiro e era interessante porque eles conheciam várias cidades,
várias pessoas e ganhavam uma grana com isso. Ribeirão tinha um número razoável [de
colecionadores], a maioria mesmo vinha da região.
Na época eles eram cinco ou seis [revendedores], a gente comprava alguns
cartões e outros trocava. Vamos supor, eu tenho a coleção de estado inteira, fechada,
então tem o mapa e a capital na frente. Tem 27, 27, faltava um, esse cartão era muito
valorizado e aí você dava até trinta cartões em troca dele pra você fechar a série, porque
se você não tem a série fechada não tem valor, está sempre faltando, é igual um quebracabeça.
De vez em quando eu pego eles do armário que está guardado e dou um a
folheada e fico lembrando-se da história de cada um. Acho que [a coleção] é que nem
filho, a gente gosta de todos. É claro que a gente acha mais interessante, tem aqueles
que é mais o lado cultural, por exemplo, tem a série de museus, conta a história de
telefones antigos, locomotivas, bondinhos, então você aprende também um pouco. Eu
acho interessante
Na época era aquela fissura, você ficava naquela loucura porque você queria
porque queria aquele. Você ficava doido. Na época, até então, eu particularmente não
tinha muito acesso a Internet, então era mais correspondência, as vezes eu pegava
ônibus e ia procurava o cartão, ia perguntava ou fulano tal? E quando viajante não
passava, as vezes ele ficava dois ou três semanas sem vir o pessoal ficava doido, porque
não supria aquela necessidade que tinha, embora a gente como colecionador, não como
comerciante. O colecionador não gosta de comprar, geralmente ele gosta de trocar um
pelo outro, ele gosta de trocar ou ganhar, enfim.
As vezes fechava uma ou duas [séries] juntas. Então na época ia saindo um a
um, não saia a série inteira. E a dificuldade que a gente tinha então é porque cada cartão
saía num Estado. Era a dificuldade de fechar a série por isso. O cartão basicamente eu
comprava, na época era CETERP. Eu ficava sabendo que o cartão tinha série porque
atrás eles são identificados. A maioria deles tem a tiragem. E no próprio cartão vem
com um de 12, 1 de 23, então você sabia que aquela série era de 23.
No começo eu achava bonito, achava ele pequeno e fácil de armazenar. E como
meu tio já colecionava cartão postal aí eu fui um pouco influenciado de certa maneira. E
comecei a ver que eu tinha possibilidade de ter a minha coleção. Ai foi aonde eu fui
adquirindo.Na época que eu estava mesmo no auge da atividade, porque hoje eu já parei
de colecionar. Eu não tenho mais. É a serie que eu fechei e alguma coisa que aparece.
Na época, assim, catálogos que viam de São Paulo e tinham todos os cartões e as series
de cada um, todos os nomes. Então a gente tirava Xerox e guardava. Só que eu nunca
fiz um catalogo, nunca cataloguei nada. Todo colecionar sabe tudo o que ele tem. Então
vamos supor se eu deixar minha pasta na Mao de alguém pra olhar eu posso não saber
exatamente se tem 1000 ou 1100, mas eu vou saber a hora que a pessoa for embora, eu
folheando eu vou saber se esta faltando um. Ou que aquele cartão que tava ali a pessoa
mudou ele de lugar. Porque fica na memória
Geralmente as series não eram muito grandes. Tinha uns 10, 12 cartões por serie.
Então tem a serie, por exemplo do Museu de Petrópolis. Tem a serie do Dom Pedro, e aí
tem as fotos dele. Porque não tem nem como colocar [marca] no próprio cartão. Poderia
colocar na pasta mas não tem necessidade. Eu guardava algum catálogo de apoio sobre
os cartões mas isso ai nunca foi interessante. Na época, o que aconteceu, o pessoal
começou a se organizar e a gente era chamado de telecartotunista que era o
colecionador de cartão telefônico. Na época eu consegui me cadastrar em São Paulo e
consegui fazer parte do grupo, porque ate então todo mundo que colecionava queria
fazer parte do grupo. Na época a gente era em 60 ou 61 mil membros cadastrados no
Brasil inteiro. Então era aonde a gente se senta mais colecionador mesmo por fazer
parte de um grupo.
[guardava a coleção] No guarda roupa. Todas as pessoas mais próximas,
familiares todos, eles sabem [da coleção] . Agora algumas pessoas de uns dois ou três
anos pra cá, não sabem por que não acham muito interessante. Você falar que coleciona
cartão telefônico a pessoa não tava interessada, porque era como antes, ela
simplesmente usava o cartão e jogava fora. E eu acho que muitas pessoas poderiam vir a
colecionar se elas soubessem que ia chegar no nível de chegou. Então eu acho que
faltou um pouco na época de divulgação.
Muitos se desfizeram se sua coleção, ou por necessidade, alguns também
venderam né. Porque na época tinha pessoas que tinham condições financeiras e não
queriam ficar correndo atrás do cartão. Ela não tinha aquele prazer. Apenas chegava e
perguntava o quanto você quer na sua coleção? Aí você falava uns 1500 reais e aí
vendia a coleção inteira fechada. No momento eu não penso não [vender], mas amanha
ou depois se eu vendesse, seria por necessidade. Só que eu não venderia minha coleção
em pedaços, eu venderia inteira e através de um leilão, ou pela internet para alguém que
realmente pagasse o que vale. Porque não é apenas o valor financeiro. No caso é um
valor afetivo
Se a pessoa mostra interesse, eu falo que eu deixo a pasta ate mais visível
quando vem uma visita de algum colega recente, mas a pessoa olha mas não tem muito
interesse.[coleciono] porque eu achei interessante, achei que eu pudesse ate aprender
alguma coisa. Por exemplo os de Museus, conta alguma historia sobre a época e tem
algumas fotos antigas e você conhece a historia por meio de retrato.
Acho que a serie mais especial que eu tenho é a do Airton Senna e ela já é
falecido e então é uma serie bem marcante. E uma serie que eu gosto muito é da nossa
cidade que foi da Ceterp que antes de virar telefônica eles lançaram com varias fotos da
cidade. Como eu ganhei o primeiro cartão e eu vi que eu poderia fazer serie, ter minha
própria coleção, foi onde eu acabei começando. Cada cartão tem a sua historia, então
querendo ou não você acaba se apegando.
Sim faltou [peças na coleção]. Por exemplo a coleção dos meses, infelizmente eu
não completei. Acho que de serie é basicamente isso. E tem os cartões que basicamente
a gente não consegue pegar todos, porque a tiragem era menor e não era todo mundo
que tinha acesso. Basicamente eu considero que tenho uma serie boa, uma coleção
muito boa com varias series fechadas.Basicamente pra fechar as series a mais difícil foi
pra fechar a serie, devido a quantidade, foi a de Estado e Capitais. Se eu não me engano,
foi o Estado do Maranhão o ultimo cartão que eu consegui pra fechar.
Eu acho que todo colecionador passa [por alguma situação constrangedora] pra
conseguir alguma coisa. No meu caso eu sempre ficava lá na catedral no domingo de
manha, e a pessoa ia fazer uma ligação e eu já marcava a pessoa porque eu via que eu
não tinha aquele cartão. Eu já chegava na pessoa assim que ela terminava a ligação e já
perguntava o quanto que ela queria, ou o valor das unidades. Eu sempre andava com
cartões cheios de unidades no bolso e eu dava em troca daquele. Ou quando a pessoa
esquecia, eu saia correndo pra pegar o cartão no orelhão.Eu passava perto do orelhão, já
passava a mão em cima do telefone. Na época mesmo logo que eu comecei, porque a
gente achava muito cartão no chão, porque as pessoas jogavam. E era difícil o dia que
eu não achava um ou dois cartões em cima do orelhão ou dentro. Hoje você não tem
mais essa chance porque tem o apito. Você esquece o cartão lá e apita.
As empresas de telefonia, elas pararam de incentivar a coleção. Porque pararam
de lançar series fechadas de cartões. De certa forma, elas são responsáveis por estar
diminuindo. Eu usava os que tinham unidade. Eu os usava ate o final, porque não
estragava o cartão e não prejudicava em nada. Ah sim, quando você conseguia um
cartão que era difícil. Tinha cartão que a gente demorava seis meses, ou oito meses pra
conseguir, então era uma coisa difícil. Uma sensação de realização, por estar com a
coleção fechada. Você fala – finalmente eu consegui fechar essa serie.
Eu fiquei praticamente uns 7, 8 anos [colecionando] . Inclusive na época ate
então, teve uma entrevista que saiu na EPTV, e eles entrevistaram. Tinha um engenheiro
que ele aderiu e ela viaja bastante. Entrevistaram ele e foi ai que teve um pouco de
divulgação e a região começou a vir mais pra cá com mais frequência. Foi a única
reportagem que teve a respeito.
Mariana Ferreira da Rosa Costa.
Tenho 23 anos. Formada em audiovisual e trabalho com produção de vídeo.Eu
coleciona cardápio e bolachas de bares. Uns 50 cardápios e acho que tenho umas 100,
150 bolachas por aí. Eunão vou mais em restaurantes como eu ia antes, como eu morava
em São Paulo, daí quando eu tenho oportunidade eu coleciono, eu peço pro gerente do
restaurante. Bolacha eu ainda pego se eu vou nos barzinhos, se é diferente das que eu
tenho.
Os cardápios eu gosto dos personalizados no local, porque muitos bares só colocam
uma pasta de cardápio com alguma folha, mas quando eles fazem um trabalho gráfico,
um cardápio bem personalizado do bar, ai eu acho interessante e ai peço. A questão é
gráfica mesmo. Eu ganho bastante, mas eu não troco. Muita gente vai nos bares por aí e
lembra que eu coleciono e pede e aí eu ganho bastante. Eu guardo [a coleção] na minha
casa, nessas pastas. Eu não mostro [ a coleção] Eu ia fazer uma mesa com as bolachas.
Eu ainda vou fazer a mesa. Uma mesa de jantar que eu tenho em casa e vou colocar um
vidro em cima.
[Começou colecionando] com o tempo, é uma coisa bem natural, eu não fico
buscando sempre. Como eu falei, tem muita gente que me dá. Tipo eu fui colecionando
e as pessoas, por exemplo, alguém que viaja e que me traz. Meus pais fazem bastante
isso. Então, eu comecei a colecionar isso há uns 7 anos. Sete não, 5 anos. Exagerei. Faz
cinco anos. E eu fazia turismo e antes eu queria fazer gastronomia, eu achava
interessante fazer gastronomia, eu ficava apaixonada por fazer comida, de bar, bar eu
tenho vontade ate hoje de ter um bar diferente e é isso que chama a atenção mesmo. Eu
sempre tive coleção. Desde criança eu fazia coleção, coleção de chaveiro, coleção de
pedra, eu tinha mania de fazer coleção.
Eu sempre pensei de uma forma artística. Pra que que eu vou ficar guardando
elas no guarda roupa pra sempre. Eu quero de cardápios,fazer um painel,tipo um quadro
e colocar na minha casa. Ainda não tem um jeito pra fazer isso, porque eu quero que
não fique aberto mas de um jeito que eu possa abrir. Eu ainda vou estudar isso. Mas aí
eu fico pensando mais de uma forma artística de estar mostrando isso. Não por guardar.
Na verdade eu não sei [ se a coleção faz parte dela], porque como eu te falei.eu
comecei a fazer, quando eu ia muito em restaurante, quando eu morava em São Paulo.
Eu estudava, eu fazia turismo, eu gostava da parte de alimentos e bebidas. E é isso, não
tem uma coisa assim pessoal ou importante. Eu acho bonito, uma coisa bonita, uma
coisa diferente.
Não tem como [vender]. Uma coisa minha, única. Não única, porque muitas
pessoas colecionam isso também, eu acho. Mas também não é muito popular colecionar
bolachas e cardápio. É legal, eu fico pensando nisso daqui a uns 50 anos, como que vai
ser. Eu olhar e, esse cardápio a 30 anos atrás, a uns 50 anos atrás.Vai ser legal isso. Eu
gosto de lembranças.
As minhas favoritas é a da coca-cola, a de natureza e (...).São essas três
mesmos.Eu acho elas interessantes. Essa de natureza, não tem nada a ver com bar. Não
relaciona a bebida. Interessante isso porque não relaciona bebida. Tem de propaganda
de remédio. Normalmente todas as bolachas são relacionadas a bebida, a álcool, e essas
daqui não. E as da Coca Cola, porque ela usa suas imagens dos anos 50 e 60 e eu acho
isso bem legal, diferente. E essas daqui são as mais antigas, do Paris Germani. Como
começou o Paris Germani e eu gosto também, acho interessante. Da historia do chopp
na Croácia.
Dos cardápios, o qual eu mais gosto é o mexicano, eu acho ele interessante
porque eles usaram uns vernise localizado. Um cardápio bem localizado. Eu nuca vi um
cardápio assim. E as fotos são bem bonitas. Tipo, tem cardápio que só é escrito.
Usando imagem, parece que fica mais atencioso. O consumidor acha mais interessante.
Aí eu gosto desse do Black DOG que é um cachorro quente lá em São Paulo, um lugar
famoso. E ele é totalmente diferente né, num formato pratico. Um formato de salsicha,
bem original.
A Janaína me perguntou qual foi meu primeiro cardápio, e eu não lembro. Não
consigo lembrar qual foi o primeiro. Eu só sei que foi numa brincadeira, de ir em bar.
As bolachas eu sempre guardei, nunca pensando em colecionar. Eu guardava e aí fiquei
pensando – nossa, tem varias diferentes. Toda vez eu vou no bar e penso, essa bolacha
eu não tenho, sempre faço isso. E os cardápios eu não lembro muito, nem como, foi
como a brincadeira do bar, e aí peguei os cardápio e achei bonito e vou colecionar,
porque eu sempre gostei dessa parte gastronômica.
Foi com as bolachas que vi que tinha varias, mas com o cardápio eu pensei, vou
colecionar. Eu comecei com a bolacha e depois fui pro cardápio. O mais interessante
que a bolacha é levar o cardápio do lugar.
Então, uma vez, numa lanchonete de burgues lá em São Paulo. E eu fui com meu
pai lá. Normalmente eu peço os cardápios. Normalmente as pessoas me dão os
cardápios. E aí eles disseram que não iam dar. Aí eu – como assim, um sanduíche aqui
custa 17 reais e você não vai me dar o cardápio – aí ele, não vou dar. Daí saímos e meu
pai voltou lá, tinha outra moça que ficava na porta do restaurante com o cardápio. Era
num shopping. Daí meu pai voltou e perguntou, posso pegar um cardápio. Acho que ela
entendeu que era pra ver, daí meu pai pegou o cardápio e saiu andando e aí roubou o
cardápio do restaurante.
Teve um outro legal que eu pedi autografo do garçom. Esse achei muito legal,
porque meu pai jogou o maior “171”, ele me ajudou. Meu pai que me ajuda mais nessas
coisas diferentes. Aí ele falou – ela costuma colecionar cardápio e pede uma dedicatória
e ninguém atende ela, e no fim todos os garçons autografaram.
Se eu achar uns de alguém que coleciona, eu acho que vou trocar. Igual
figurinha, quando você é criança.Estão lá guardados os repetidos também. Um estraga e
eu substituo. Mas não conheço ninguém. Quem sabe não aparece alguém.
Rita Fantini.
Tenho 46 anos e sou arquiteta. Eu coleciono pingüins. Acho que tem umas 100
peças. Eu ganhei um primeiro. Um pinguim de geladeira e aí eu comecei a
coleção.Depois eu ganhei outros, fui comprando. Trocar não, sempre fui adquirindo
mais pra coleção. [adquire] Ou ganhando ou comprando. Agora como faz tempo que ela
tava guardada, eu parei de ganhar. Mas durante muito tempo as pessoas viam e
compravam e mandavam, ou iam em algum lugar ai eu via o qual eu não tinha e
comprava. A Idéia na verdade eram os pingüins de geladeira, mas eu fui ganhando
pingüins de todo o tipo. Então, geralmente eu comprava em lojas de louça, antiquário,
feirinhas de antiguidade, lojas de eletrodomésticos que a vezes vendia e feirinhas de
artesanato, esses tipos de lugar.
Ela ta parada por falta de lugar adequado pra guardar, eu encaixotei e já faz uns
10 anos. Antes eu deixava a mostra. Todos juntos. [Não tem um local especifico].
Atualmente, onde que eles ficam guardados numa caixa. Antes ficavam numa
prateleira.: Num lugar que eu tinha um escritório, e tinha lá uma sala de estudos e eles
ficavam lá. Atualmente não mantêm nenhuma ordem. Dez anos que ela está escondida.
Na hora que eu estava embalando aqui, você vai lembrando – esse daqui foi o
primeiro que eu ganhei, esse eu comprei não sei aonde, esse eu ganhei de outra pessoa ,
e ai você vai lembrando. – Tem uma memória afetiva com as peças. [começou] Pelo
pingüim de geladeira, pela coisa kitch mesmo. Era essa a idéia no começo da coleção,
mas o foco da coleção é o pinguim de geladeira.
Muitos sabem [da coleção]. Antigamente eram mais. Quando eu estava
montando a coleção, muita gente sabia, e por isso que ia aumentando também.Esse é o
clássico. Em preto e branco, com bico e a patinha dourada. Esses são os clássicos. Aí
tem os pop, que já não são mais de louça, são de gesso. Tem uns que parece pato e não
parece pingüim. [...] e ai tem de madeira, de borracha. Tem cachecol. Essas são as
variações do objeto. Mas o clássico é esse aqui, com o pé e o bico dourado. Esse é o
tradicional requinte do pingüim de geladeira ganhei faz uns 25 anos. Deles, eu acho que
esse é o que tem o desenho mais bonito, mas esse é o primeiro, é o que começou a
coleção. Veio de Rondônia, inclusive, de um amigo, que hoje mora lá, e foi lá visitar a
família e encontrou e trouxe, e então ele é muito importante. Eu ganhei de um amigo, o
desenho é bonito, ele é um clássico do desenho de pingüim, então esse é importante.
Tem varias [peças favoritas]. Mas o qual eu sempre gosto mais é desses mais
clássicos. Mas tem varias. Esses, aqueles mais grandões. Tem uns que eu gosto muito,
mais pelo desenho dele do que a origem, pelo que eu comprei. É mais pela forma.
Sempre falta [algum a peça] . Vou lá na loja do pinguim e vejo um monte que
não tenho mais, então a coleção não acaba nunca. Eu ainda quero aquele do Pinguim.
De madeira. Aquele eu gostaria de ter.
Você vê que todo mundo aqui é cumulativo, é cheio de coisas. Nós gostamos
disso, de colecionar. É, talvez ficar pra alguém [a coleção] , vender não, acho que passar
pra alguém. Que alguém continue, meu filho que gosta de colecionar também.
Vicente Fantini
Tenho 12 anos e estudante. Miniaturas de brinquedos. São mais brindes que vem
nas coisas, ovos de páscoa, chocolate, essas coisas, kinderovo. Uns 300. Eu compro,
mas ai quando tem repetidos eu troco. Não sei se eles [amigos] fazem [coleções] , mas
eles tem alguns.[brinquedos]. Alguns eu lembro [como adquiriu]. Quando eu era
pequeno, eu gostava muito do KinderOvo [do chocolate e do brinquedo] E aí eu fui
pegando e tinha um monte e aí eu fui colecionando
[Interesse] É. O desenho, o que ela faz. Eu separo por pacotes. Uns são mais de
animal, outros mais de veículos, outros são mais de bonequinhos mesmo. [Guarda]
Naquela caixa, no meu quarto e em uma prateleira. Quando eu tinha menos [mostrava
mais].Raramente, mas às vezes eu conto [que possui a coleção]. Mostro. Mas deixo um
pouco mais guardado, porque são pequenininhos e acaba perdendo um pouco.
[A coleção] é um pouco importante. Tem uns [itens] que eu gosto mais e eu acho
que não [venderia]. Mas as outras, mais repetido eu acho que sim.
[Favorita] não uma, mas sim algumas por causa da função mesmo, o que ela faz.
Ele [brinquedo] tem uma articulação. [Atualmente] de vez em quando, às vezes eu
compro e aí vem. [Quer manter sua coleção].
A REFLEXÃO
Finalmente, gostaria de me apropriar de algumas frases e ideias de Stewart18.
Quando ele diferencia os souvenirs da coleção, sobre esta última menciona que mais do
que amostras ela é exemplos mais do que um metonímia ela é uma metáfora. Toda
coleção é a-histórica, o sentido de temporalidade de uma coleção tem suas próprias
regras: “The collection replaces history with classification, with order beyond the realm
of temporality. In the collection time is not something to be restored to an origin; rather,
all time is made simultaneous or synchronous within the collection‟s world” (p. 151).
A diferença do souvenir que cria o passado, que remete ao passado, que oferece
autenticidade ao passado, é o passado que oferece autenticidade à coleção. A razão de
ser do souvenir é a lembrança, criar uma memória, enquanto que a coleção é o
esquecimento: sempre começando, a cada nova peça a possibilidade infinita de suas
combinações. Nesse sentido é a espacialidade que cria a temporalidade da coleção.
“Because the collection replaces origins with classification, thereby making temporality
a spatial and material phenomenon, its existence is dependent upon principles of
organization and categorization” (p. 153)
A simples pergunta dos princípios de organização usados para articular uma
coleção, já é um bom começo para começar a discernir o que da coleção. Se ate agora
Stewart apontou a discussão para o tempo, o espaço e as qualidades internas dos objetos
em si mesmos, para cada uma dessas categorias deve ser agregado ainda as dicotomias:
dentro/fora, público/privado e significado/valor de troca.
O qual fica melhor explicado quando: “ To arrange the objects according to time
is to juxtapose personal time with social time, autobiography with history, and thus to
create a fiction of the individual life, a time of the individual subject both transcendent
to and parallel to historical time. Similarly, the spatial organization of the collection,
left to right, front to back, behind and before, depends upon the creation of an individual
perceiving and apprehending the collection with eye and hand. The collection‟s space
must moves between the public and the private, between display and hiding.” (p. 154155)
Mas o arranjo como forma de organização, que cria a espacialidade pela
supressão do tempo, e que articula essa espacialidade pelas dicotomias público/privado,
dentro/fora, determina também o todo e a unidade: “While we can “see” theentire
18
STEWART, Susan. ON longing. Narratives of the miniature, the gigantic, the souvenir, the collection.
Durham: Duke University Press, 2003.
collection, we cannont possibly “see” each of its elements. We therebay also find a t
work here the play between identity and difference which characterizes the collection
organized in accordance with qualities of the objects themselves. To group objects in a
series because they are “the same” is to simultaneously signify their difference. In the
collection, the more the objects are similar, the more imperative it is that we make
gestures to distinguish them. “ (p.153)
Entender a coleção como um universo articulado pelas suas próprias regras
espaço-temporais, regras que se articulam pela organização que por sua vez se desdobra
em categorias dicotômicas, explica as falas apresentadas. Nesse sentido a supressão
temporal é evidente nas falas, onde as biografias pouco se articulam com a história.
Por outro lado, a exposição significou mais do que uma oportunidade, um
confronto para os colecionadores se depararem com o dentro e o fora dos seus objetos,
entre o público e o privado, Em todas as falas se percebe uma falta total de percepção da
diferença entre a atividade de colecionador e do acontecimento da exposição.
E, por último, a exposição, não fez outra coisa que reiterar as significações
individuais de cada objeto por parte do colecionador. Os objetos que nas entrevistas
foram os mais significativos por diversos motivos, ocuparam também um lugar especial
no arranjo da exposição.
Assim, esse mundo hermético da coleção - uma das possíveis relações do
indivíduo com os objetos – explicado a partir da organização vem a corroborar que
arranjo e organização são mais do que complementares, são o núcleo articulador e a
razão-de-ser da coleção.
PERCEPÇÕES
E
APROXIMAÇÕES
DO
DOCUMENTO
NA
HISTORIOGRAFIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO 19
Dr. Eduardo Ismael Murguia
Programas de Pós-Graduação em Ciência
da Informação - UFF e UNESP/Marília
[email protected]
O ponto principal para o tratamento da relação entre informação, documento e
História será estabelecido com base no estágio da informação denominado por
Buckland (1991) como informação-como-coisa, ou seja, a informação materializada.
Isso porque nossa intenção é enfatizar a construção da informação materializada em
documentos institucionais e os estratos burocráticos20 que influenciam e determinam,
por meio de relações e jogos de poder, a construção de documentos, de emergências e
de definições sociais e culturais na esfera patrimonial. Nessa proposta, iniciaremos a
abordagem da relação entre informação, documento e História pelo viés da
Historiografia e da Documentação.
No campo da Historiografia, Le Goff (2003, p. 535-536) mostra que o
documento não é neutro nem inócuo, mas um conjunto de escolhas, resultado de uma
montagem (consciente ou inconsciente), a representação de determinações, o registro de
evidências; são formulações objetivas e subjetivas dentro do seu universo de produção,
pois servem como instrumentos eficazes para atender a necessidade de perpetuar
decisões, opiniões e acontecimentos. Assim, não deve ficar por conta do passado, pois é
a representação do universo intelectual dos seus produtores e retrata a intenção do
registro de um conhecimento específico, é um produto da sociedade que o fabricou,
segundo as relações de força que aí detinham o poder.
Vemos frequentemente, no percurso da Historiografia, o termo documento
utilizado para designar testemunho histórico e podemos supor que essa questão
19
Este trabalho foi realizado com os auspícios do CNPq e responde ao relatório do estagio de pós
doutorado realizado no IBICT, no ano de 2010, sob a supervisão da profa. Dra. Nélida González Gómez.
20
O termo estratos burocráticos é utilizado neste trabalho como referência às instâncias administrativas
institucionais que podem ser analisadas hierarquicamente ou por meio das diversas relações e interrelações que assumem no decorrer do exercício de suas práticas. Assim, a partir das colocações de
Foucault (1979, p. 75), esse termo será aplicado a um campo específico de funcionamento e exercício do
poder, como um recurso para analisar como, onde e quem pratica o poder; como estes estratos se
desenvolvem em focos particulares de poder.
acompanhou o fazer histórico desde os seus primórdios. No entanto, esta ideia partilha
dos preceitos da escola positivista, com raízes nos séculos XIX e XX. Neste sentido,
tanto os historiadores, como os arquivistas embasados em visões positivistas, utilizaram
o documento como provas de uma ação, afastando qualquer subjetividade e
intencionalidade que pudesse opor-se a objetividade da produção documental. No
século XX, principalmente, o documento tornou-se recurso necessário e indispensável
para os pesquisadores que tinham por obrigação apresentar as suas fontes de
informações como recurso para garantir confiabilidade aos trabalhos por eles
produzidos.
Segundo a visão positivista da História, não há história sem documentos,
principalmente os escritos. No entanto, Fustel de Coulanges propôs outro ponto de vista
sobre a questão dizendo que: se faltar à História monumentos escritos, esta deverá
atentar-se às fábulas, aos mitos, aos sonhos da imaginação; às marcar deixadas pelo
homem por onde passou, aos elementos que representem toda a inteligência humana;
nesses é que reside a história (apud Le Goff, 2003, p. 530).
Todavia, a utilização de fontes não escritas - visuais, sonoras, materiais e
imateriais - só foram aceitas através das propostas da Escola dos Annales. Segundo
Lefebvre, representante desta Escola Historiográfica, a história é feita com documentos
escritos, mas também pode fazer-se de outras maneiras: com palavras, signos,
paisagens. “Numa palavra, com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do
homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os
gostos e as maneiras de ser do homem” (apud Le Goff, 2003, p. 530).
Para Lefebvre, a parte mais apaixonante do trabalho dos historiadores é fazer
falar as coisas mudas, é descobrir o que elas não disseram sobre os homens e mais tentar
suprir a ausência do documento escrito. Nessa nova perspectiva historiográfica, a noção
de documento foi ampliada.
No entanto, as propostas desta nova escola não aconteceram por acaso,
estiveram atreladas aos novos meios de produção e reprodução documental. Ou seja,
através do desenvolvimento de novos recursos para uso da produção e reprodução de
documentos, houve também aumento da vontade de registrar momentos da vida
particular e acontecimentos do mundo ao nosso redor. Assim, os caminhos da
Historiografia e da Documentação cruzaram-se e tornaram-se paralelos, isso quer dizer,
coexistiram e não podemos afirmar que um veio antes do outro.
Os diferentes suportes que apareceram após o surgimento das novas tecnologias,
apresentaram outros caminhos para aquisição de informações. Nesse contexto, o desafio
era conseguir trabalhar com informações registradas não só em documentos
manuscritos, mas com imagens e inscrições em diferentes tipos de suportes.
Outra contribuição importante para a noção de documento foi apresentada por
Paul Zumthor. Segundo o autor, o que transforma o documento em monumento é a sua
utilização pelo poder. No entanto, Le Goff (2003, p. 535) diz que Zumthor hesitava em
apresentar o fosso que consistia em reconhecer em todo o documento um monumento.
Nessa perspectiva, apresentou um ponto fundamental que vai de encontro com a noção
positivista de documento, dizendo que não existe documento objetivo, inócuo. Essa
ilusão estava pautada no interesse de uma sociedade cujos dominantes pretendiam que
assim fosse, os quais compreendiam o documento como prova de boa fé, autênticos;
características difíceis de serem pensadas com a ampliação dos meios de produção
documental.
A revolução documental, a revolução nos meios de produção e reprodução de
documentos foram, aos poucos, incentivando o afastamento dos profissionais da
História e das Ciências da Informação da ilusão positivista de que o documento é
objetivo e inócuo. Mas adeptos da tradição positivista ainda contestam a
intencionalidade e a subjetividade envoltas na produção de documentos. Essa
pretensiosa noção de objetividade é o que impede que muitos trabalhos sejam
formulados com o intuito de tratar a natureza social dos documentos e a importância
destes como produtos construídos para atender necessidades de sociedades e momentos
históricos específicos.
Na área da Documentação e da Ciência da Informação, a concepção clássica da
noção de documento tem como principais representantes Paul Otlet e Suzanne Briet,
com as respectivas obras: Traité de Documentation (1934) e Qu’est-ce que La
documentation? (1951). Considerados autores pioneiros na história dessas duas áreas,
trabalharam a noção de documento a partir de novas possibilidades, o que abriu
precedentes para pensá-los como informação fixada em diferentes tipos de suporte e a
partir do seu papel social.
Paul Otlet enxergou os documentos em todos os lugares como uma força
profundamente social, como o centro de um complexo processo de comunicação,
acumulação e transmissão de conhecimentos. Para ele, os volumes, folhetos, revistas,
artigos, cartas, diagramas, fotografias, estampas, certificados, estatísticas, discos
fotográficos e filmes cinematográficos representam esse complexo processo. Segundo o
autor, as intensidades que dão poder a diversos fluxos de energias intelectuais
(informações e documentos) são recolhidos e coordenados pela produção documental,
instalando, assim, autoridade aos trabalhos das associações e instituições. Como
Frohmann (2007) demonstra, Otlet trabalhava com o intuito de garantir a objetividade
no curso da produção científica: para ele, se os autores seguissem uma ordem, um
método seria possível afastar a contaminação dos sinais, pois esta não está nas coisas,
mas em quem as opera.
Já Suzanne Briet tratou os documentos a partir de suas estruturas físicas e
abstratas. Inicialmente, a autora, apresentou o documento como: conhecimento fixado
materialmente – para finalidade de consulta, estudo ou prova. Essa visão, entretanto, foi
ampliada e Briet começou a conceber o documento a partir de ideias mais abstratas,
mostrando-o como “indício concreto ou simbólico, conservado ou registrado com o fim
de representar, reconstruir ou provar um fenômeno físico ou intelectual” (apud Bravo,
2002, p. 92).
Rayward (apud Frohmann, 2007, p. 75), apresenta a obra de Otlet, Traité de
Documentation (1934), como uma das primeiras introduções compreensivas do estado
de informação como fenômeno social importante. Apesar disso, Otlet ainda mantinha
sua preocupação com o conhecimento objetivo. Uma visão autoritária do conhecimento,
talvez reducionista, embasada na questão da necessidade de institucionalização de
certos processos visando analisar e organizar o conteúdo dos documentos (Hjorland,
2000, p. 32-33, tradução nossa).
Embora no processo de produção documental, especialmente quando tratamos
de documentos administrativos, exista uma escrita disciplinar, que é ordenada e segue
regras institucionais, não podemos deixar de levar em conta as intencionalidades,
individuais e coletivas, envoltas em toda a elaboração de documentos.
As funções e abrangências dos documentos podem ser diversas. Um documento
pode ser produzido e utilizado para definir, controlar, executar e/ou instituir um ato. A
sua produção pode ser a representação de entidades e pessoas que os elaboram ou os
utilizam. Mas o fato é que, em qualquer circunstância, devemos considerar o universo
de constituição dos documentos - os produtores e o contexto de produção (Couture,
1996). Verificamos, assim, que muitos documentos são preservados, principalmente em
arquivos institucionais, não por seu valor histórico, de prova ou de consulta, mas porque
têm um poder particular de decisão, que vincula a organização e os indivíduos em suas
ações (Senécal, 1997-1998).
Por meio dessas diferentes visões, podemos analisar o documento a partir de
suas estruturas físicas e abstratas e, também, através de alguns de seus componentes:
informação e suporte - embora muitos autores ainda carreguem a idéia da objetividade
na produção de documentos passaram e levar também em consideração a informação
registrada em diferentes tipos de suportes.
No âmbito da Diplomática21, algumas considerações de Tallafigo (2007) sobre
os elementos extrínsecos e intrínsecos22 do documento são de nosso interesse para
verificarmos de que maneira tais itens auxiliam na identificação e valorização do
mesmo. Para este autor, as propriedades extrínsecas de um documento fariam referência
aos elementos externos, sua forma, os materiais de sua composição. Já as intrínsecas, à
formulação do discurso e conteúdo do documento, em seu teor, articulação e
compostura das palavras. Portanto, para este autor, a idéia de documento refere-se ao
suporte e ao seu conteúdo.
Já Bellotto (1991) trata a concepção de documento a partir da sua
construção/proveniência. Para a autora, a forma/função pela qual um documento é
criado é o que vai determinar seu uso, é a razão de sua origem e emprego, e não o
suporte sobre o qual está constituído, o que vai determinar sua condição de documento.
Os documentos administrativos ou jurídicos servem, portanto, como prova de uma ação
e podem, em um segundo momento, serem utilizados para fins históricos. Eles surgem,
pois, para atender às funções administrativas e legais e servem para provar ou
testemunhar algo.
Senécal (1997-1998) diz que um documento considerado administrativo tem a
função de definir, controlar, executar ou aconselhar sobre processos de trabalho,
atividades ou itens para levar a cabo as atividades de uma organização. Para Senécal, o
mesmo objeto pode ser reconhecido como um documento de arquivo se for possível
perceber as características que confirmam as funções para representar a pessoa ou
entidade utilizadora desses documentos.
Couture (1996) apresenta várias maneiras de definir um documento, por
exemplo, como um recipiente de informações. Ao citar a Lei de Arquivos do Canadá
21
Como apresenta Bellotto (1991, p. 30), “dentro das ciências documentárias a diplomática é a atividade
que se ocupa da descrição e da explicação dos atos escritos; seu campo de aplicação são os documentos
gerados na área pública, neles estabelecendo as formas que lhe conferirão validade legal”.
22
Marc Block tratou sobre esta questão na obra Apologia da história ou o ofício de historiador (2002).
(1987), diz que os documentos são “todos os elementos de informação, independente de
sua forma e suporte, incluindo correspondência, nota, livro, mapa, desenho, diagrama,
ilustração gráfica, fotografia, cinema, microfilmes, gravação sonora, vídeo ou toda
reprodução destes elementos”. Segundo Couture (1996, p. 7), podemos definir o
documento de arquivo como um recipiente/suporte para o conteúdo, opção que também
foi escolhida pelo Conselho Internacional de Arquivos em 1984, o qual diz ser o
documento: “informação gravada (documentos), independente da forma ou meio criado,
recebido ou mantido por uma agência, instituição, organização ou indivíduo em
cumprimento das obrigações legais ou na transmissão de negócios”.
Por meio destas definições, Couture (1996) nos mostra a grande vantagem ao
colocarmos a informação no mesmo patamar de igualdade do documento, pois desta
forma é possível analisarmos o documento como meio de prova e consulta e, também,
por meio do universo de sua constituição (produtor e contexto de produção).
Fuster Ruiz (1999) trata os documentos a partir de três fases, a saber: o
documento como autoridade/testemunho, o documento como veracidade e o documento
como autenticidade. Para ele, o documento é um objeto material, produto da atividade
humana, que serve de fonte de conhecimento, que testemunha ou prova algo; é um
testemunho da atividade humana fixado em um suporte perdurável que contém
informação. Para melhor organização, o autor divide os documentos em duas classes: 1)
documentos de natureza exclusivamente jurídica, os quais engendram direitos e
obrigações; 2) documentos de natureza administrativa, que não tem natureza jurídica,
mas que sem embargo são documentos testemunhais, autênticos, objetivos e, portanto,
verídicos ou verdadeiros.
Outra colocação do autor que merece menção é a ideia de que o valor
testemunhal e o informativo dos documentos são elementos diferentes. Para Fuster Ruiz
(1999), os documentos são testemunhos e informação e podem ser utilizados como
prova e como fonte de dados. No entanto, pontua que o valor testemunhal científico é
algo distinto ao valor informativo. Nesse sentido, explica que todos os documentos dão
notícia de algo, informam sobre algo, mas somente o documento de arquivo é
verdadeiro, autêntico e imparcial. Em outras palavras, os documentos de arquivo não
informam somente, mas dão garantia de que um feito relatado é verdadeiro e, portanto,
constituem testemunho científico. Todavia, discordamos de Fuster Ruiz quanto à
imparcialidade do documento de arquivo.
Para justificar nossa última colocação, recorremos às palavras de Cook (1998)
que questionou conceitos tradicionais da Arquivística e abordou alguns pensamentos
dos “pós-modernos” a respeito dos métodos arquivísticos. Segundo Cook, para os pósmodernos, o contexto por trás dos textos, as relações de poder que conformam a herança
documental dizem tanto respeito quanto o próprio assunto, que é o conteúdo do texto.
Para o autor, nada é neutro e imparcial, portanto, tudo é conformado, apresentado,
representado, simbolizado e significado por aqueles que falam, fotografam e/ou
escrevem com um propósito definido. Assim, conclui que nenhum texto é um mero
subproduto e sim um produto consciente para criar ou servir a um propósito, embora
essa consciência – esse contexto por trás do texto – possa ser transformado, perdido, ou
deturpado em padrões inconscientes de comportamento social, em um discurso
institucional e em fórmulas padronizadas de apresentação.
Para Trace (2002), os cientistas da informação, desde a década de 1990,
começaram a levar em consideração a importância de conhecer e reconhecer a natureza
dos objetos por ele manipulados. Dessa forma, demonstra a importância de tratar os
documentos e sua preservação não só como prova de uma ação, mas como elementos
construídos socialmente e, por isso, representantes, desde a sua origem, dos interesses
das instituições que os produzem, utilizam, preservam ou disponibilizam para consulta.
Agora, para definirmos qual tipo de informação é objeto para a Ciência da
Informação e a historicidade deste termo, precisamos realizar um estudo mais
detalhado. Para tanto, recorreremos às considerações de Bravo (2002), que propõe
quatro linhas de tratamento para este termo: informação objetiva, informação subjetiva,
informação como matéria e informação como processo. Para finalizarmos,
trabalharemos as análises de Buckland (1991) sobre informação-como-coisa,
informação-como-processo e informação-como-conhecimento – ponto de partida de
nossas considerações.
Como colocado por Bravo (2002), em fins da década de 1970, alguns teóricos
como Sannon e Weaver, atrelados às teorias matemáticas e racionalistas, tentavam
desenvolver análises no sentido de encontrar um conceito de informação formalizado,
matemático, que pudesse ser medido e expressado por unidades físicas. Neste
pensamento, a informação seria algo por si só, autônoma, natural e independente do
universo do receptor. Assim, a objetividade proposta pela informação e seu status
superior a qualquer forma de intervenção a afastaria, por completo, de todo aspecto
semântico; possível mediante os significados atribuídos pelo receptor. Sob esta questão,
Pérez Gutiérrez diz que nesta concepção a informação é vista como elemento que
precede o receptor e, por isso, este não deve ser considerado.
No mesmo período, final da década de 1970 e início de 1980, outra linha de
pensamento estruturava-se e compreendia a informação a partir da sua subjetividade. Os
trabalhos de Belkin, Wilson, Dervin e Brookes, trataram questões mais voltadas ao
ponto de vista que privilegiava o enfoque cognitivo da informação. Neste ponto, a
informação é um acontecimento que tem lugar em uma etapa concreta do processo de
comunicação. Ou seja, a informação seria um termo adequado para um acontecimento
que acorre dentro da mente humana como absorção de uma mensagem, isto é,
informação é um acontecimento efetivo, que produz um efeito. Nesta linha, da
informação subjetiva, encontramos que para existência da informação é necessário que
haja um emissor e um receptor. Enquanto a idéia de informação objetiva tendia a
encarar o emissor como inocente, a linha da informação subjetiva pressupunha que ele
não é inocente e tem uma intenção ao produzir uma informação. Portanto, esta
aproximação subjetiva considerava tanto o emissor quanto o receptor e a informação
como algo situacional (circunstancial), inevitável e variável em função do receptor e seu
estado de conhecimento (Bravo, 2002).
Um terceiro pensamento estava vinculado a algumas das versões propostas por
Buckland e Machlup. A Internacional Standard Organization (ISO), na obra Recueil de
documentation et Information (ISO, 1998), apresentou duas definições para o conceito
de informação: a informação como algo que se comunica e a informação como uma
mensagem utilizada para representar um texto, com o fim de incrementar o
conhecimento. Nesta linha, considerava-se tanto a informação subjetiva quanto a
objetiva, uma vez que compreendia que a primeira é construída no pensamento dos
receptores, entendida e localizada em um contexto específico de tempo-espaço. Já a
informação objetiva, seria uma entidade externa, que chega a ser um objeto autônomo,
cujo fluido não é controlado nem pelo produtor, nem pelo receptor. A informação
objetiva estaria, portanto, além do contexto de tempo-espaço. Ainda nesta linha de
pensamento, considerava-se que a informação existe através de um processo em que
diferentes indivíduos criam diferentes imagens ou idéias (informação subjetiva), a partir
das mesmas informações externas (informação objetiva) (Bravo, 2002).
A quarta proposta do entendimento do conceito de informação é aquela que
considera a informação como um ente material, como informação registrada em um
suporte. Por meio desta corrente, nos embasaremos nas colocações de Buckland (1991),
sobre informação-como-coisa.
Este autor avaliou o termo informação a partir de seus usos e apresentou-o por
meio de três fases funcionais, denominadas: informação-como-processo, informaçãocomo-conhecimento e informação-como-coisa.
Segundo Buckland (1991), a informação-como-processo seria o ato de informar
e comunicar algo a alguém. Já a informação-como-conhecimento, seria aquilo
apreendido, pelo receptor, na etapa referente à informação-como-processo, ou seja, no
processo de aquisição da informação. No entanto, tais explicações para o conceito de
informação,
são
apresentadas
como
intangíveis,
pois
podem
gerar
apenas
conhecimentos tácitos, que dificilmente podem ser percebidos, manipulados ou
recuperados por sistemas de informação. Por esta questão, Buckland ao lançar o termo
informação-como-coisa, pretendeu trabalhar a informação física, tangível, e possível de
ser tratada por sistemas de informação. Este termo seria, portanto, aplicado a coisas
informativas (objeto, dado, evento), desde que tivessem a qualidade de conhecimento
comunicado, materializado. Para o autor, diversas coisas podem ser consideradas
informativas dependendo das circunstâncias, ou seja, a informação seria algo
situacional.
Para Capurro e Hjorland (2007, p. 192), esta “análise de Buckland parece ter
duas conseqüências importantes: por um lado, introduz o conceito de documento
(informação-como-coisa) e, por outro, indica a natureza subjetiva da informação”. Os
autores também analisam que Buckland, ao considerar que qualquer coisa pode ser
simbólica, sustenta a idéia de que qualquer coisa pode ser informativa/informação.
Para Hjorland (2000), Buckland analisou importantes aspectos na história da
documentação. Segundo o autor, no século XX os documentalistas derrubaram a ideia
de que existia uma necessidade para o termo genérico, uma expressão para os objetos
cobertos pela atividade da documentação, na medida em que incluíra não somente
textos, mas também objetos naturais, artefatos, trabalhos feitos para representar ideias e
objetos de arte. Assim, mostra que o conceito „documento‟ (ou unidade da
documentação) passou a ser visto por Buckland como uma ferramenta, um meio para
ensinar e informar algum assunto, desde que este fosse comunicado.
Como visto, percebemos que diversas áreas como o Direito, a Historiografia e
basicamente a Documentação estão olhando recentemente o documento como objeto
central e, sob a luz das preocupações da Cultura Material, vêm percebendo que ele não é
somente uma conseqüência natural de uma determinada função, e, portanto, uma prova
no tempo; mas, pelo contrário, que o documento também é um agente que pode
influenciar, senão, determinar as vidas das pessoas ou suas relações sociais.
Schwartz e Cook (2002, p. 5) mostram que historiadores, antropólogos, teóricos
culturais, sociólogos e outros estudiosos têm descoberto e focalizado o contexto da
produção documental e que isto tem sido essencial para reconsiderar a relação entre
arquivos e as sociedades que os criam e usam, pois no coração desta relação está o
poder: de registrar certas coisas em detrimento de outras; de privilegiar ou marginalizar;
sobre direitos individuais e liberdades; sobre memórias e identidades nacionais. Desta
forma, os registros se aproximam do poder na medida em que são os meios pelos quais
certas vozes são ouvidas para que outras sejam silenciadas; para que certas visões e
ideias sobre a sociedade sejam privilegiadas e outras marginalizadas. Segundo os
autores, é necessário olharmos novamente para o arquivo levando em conta as
mudanças na produção e preservação de documentos. Outro foco estabelecido é o da
relevância de se considerar a natureza do que é documentado, assim como o criador do
documento.
Frohmann (2008) considera que nos últimos anos tem sido dada maior atenção à
importância da documentação em várias disciplinas nas ciências sociais, com o intuito
de mostrar como a documentação trabalha para construir e trazer entidades à luz e
manter a sua permanência. Para ele, os estudos de documentação têm operado ao longo
de dois eixos: o documento - a coisa - e a documentação - o processo. Ao analisar os
trabalhos de Michel Callon, mostrou-os como grande contribuição para ontologia
documentária na medida em que revela mais sobre o que os documentos fazem e sobre
os processos de documentação do que sobre as características específicas das coisas que
nós podemos chamar de documentos. Frohmann, assim, convida-nos a olhar o rastro
que os documentos e a documentação deixam, como eles funcionam, como fazem as
coisas existirem e como têm o poder de manter esta existência.
Dessa forma, conforme foi discutido ao longo do texto percebemos que novos
olhares emergem sobre a maneira de entender o documento não unicamente como um
dispositivo social, mas também como um fenômeno conceitual. A emergência de uma
preocupação específica com o documento, aparece com a Historiografia. Notadamente
com a corrente positivista do século XIX, para a qual não existia veracidade do “dizer o
passado”, se não estivesse respaldada pela simples existência do documento.
Posteriormente, essa validação do documento, passa por uma revisão até chegar no
consenso de que o caráter verídico do documento está fora dele, naquilo que alguns
chamam de contexto e que nos propomos a chamar de institucionalização.
A Arquivologia aderiu a visão positivista mencionada, jogando no documento de
arquivo três tipos de valores: administrativo, histórico e de informação. Os três valores,
sempre embasados nessa veracidade escondida no simples ser do documento. Sem
perceber que, paradoxalmente é o respaldo institucional do arquivo e simplesmente ele,
e não o documento, que faz “dizer a verdade”.
Essa percepção última procede das novas interpretações do documento. Essas
percepções, em primeiro lugar, destacam a materialidade da informação, isto é a sua
fixação, permanência e inscrição num suporte e formato físico. O que faz o documento
manipulável, organizável e estável. E, num segundo lugar, essa materialidade permite
sua inserção, uso e circulação social. Isto é, permite que se tornem campo de ação e de
expressão dos diferentes interesses, tensões e enfrentamentos dos grupos que se
interpenetram dentro ou tangencialmente no documento.
Portanto, o pensamento sobre o documento, obedece a uma historicidade na
qual, pelos seus agenciamentos, ele se constitui num fenômeno social. Configurando
também, por outro lado, as preocupações específicas sobre ele. Nascido dentro de
determinado marco que o configura, suas características serão essas e não outras
justamente pelas suas atribuições históricas.
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Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras
Departamento de Educação, Informação e Comunicação
InCID – Revista de Ciência da Informação e Documentação
Declaração
Solange Puntel Mostafa, na condição de Editora da InCID: Revista de Ciência da
Informação e Documentação, do Curso de Ciências da Informação e Documentação
(CID) da USP, campus de Ribeirão Preto, declara

A aprovação do artigo intitulado Informação e documento: EXPRESSÃO MATERIAL DO
PATRIMÔNIO, de autoria de Eduardo Ismael Murguia.

Declara ainda, que o artigo será publicado no v.2 n. 2 de 2011 a ser disponibilizado em
novembro/dezembro próximos.
Ribeirão Preto, 21 de junho de 2011
Solange Puntel Mostafa
Editora
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HISTORIOGRAFIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA