Arquitetura e Design de superfície – uma abordagem
didática
Architecture and Surface Design - a didactic approach
Gouveia, Anna Paula Silva; Profa. Dra.; IA, UNICAMP
[email protected]
Bernardi, Núbia; Profa. Dra; FEC, UNICAMP
[email protected]
Pfutzenreuter, Edson do Prado; Prof. Dr.; IA, UNICAMP
[email protected]
Harris, Ana Lucia Nogueira de Camargo; Profa. Dra; FEC, UNICAMP
[email protected]
Resumo
Este artigo apresenta uma proposta didática que utiliza técnicas gráficas para estamparia contínua
na criação de elementos arquitetônicos modulares. A proposta foi efetivada em um dos exercícios
da disciplina AP112 - Teoria e Projeto II, do primeiro ano do curso de Arquitetura e Urbanismo
da UNICAMP em 2009. Objetiva-se demonstrar como conhecimentos de áreas diferentes, design
de superfície e arquitetura, podem ser conectados a fim de se estabelecer procedimentos didáticos
que auxiliem o aluno no aprendizado da linguagem visual, gráfica e estereométrica.
Palavras Chave: cobogó; rapport; procedimentos didáticos para arquitetura.
Abstract
This article presents a didactic proposal that uses graphical techniques for continuous printing
in creating modular architectural elements. The proposal was made in one of the exercises of
AP112 - Theory and Design II, of the first year class of the course in Architecture and Urbanism
of the UNICAMP in 2009. It aims to demonstrate how knowledge of different areas, surface
design and architecture, can be connected in order to establish didactic procedures to assist
teaching the student in learning visual language, graphics and stereometrics.
Keywords: cobogó; rapport; didactic procedures for architecture.
Arquitetura e Design de superfície – uma abordagem didática
1. Introdução
Este artigo descreve sobre os resultados de um processo didático-pedagógico ocorrido em
2009 na disciplina AP112 - Teoria e Projeto II do 1º ano do curso de Arquitetura e Urbanismo da
UNICAMP. Neste momento do curso foram abordadas questões que envolvem elementos de
lógica arquitetônica (formas, volumes e composição) e parâmetros para definição do partido do
projeto (modulação, analogias, linguagens formais, tipologias). Esses elementos apóiam-se na
teoria arquitetônica e estão articulados com métodos de estímulos à criação.
O primeiro dos três exercícios de projeto desenvolvidos no semestre visava a elaboração
de elementos arquitetônicos modulares e de uma estrutura tridimensional a partir do módulo
gerado por padrões gráficos utilizando técnicas de estamparia, conhecidas como rapport. Este
exercício foi dividido em duas etapas, desenvolvidas num período de um mês, que levaram aos
resultados aqui apresentados.
Num primeiro momento, a fundamentação teórica apresentou e relacionou o conceito de
tipologia arquitetônica aos de arquitetura modular e arquitetura industrializada. Pôde-se então
associar modulação arquitetônica à modulação gráfica pela abordagem industrial, ou seja, a que
requer técnicas projetuais para criação de peças idênticas em série. A proposta visava conectar
conhecimentos de áreas diferentes, mas afins – design (especificamente design de superfície) e
arquitetura - a fim de se estabelecer novos procedimentos didáticos que auxiliassem o aluno no
aprendizado da linguagem visual, gráfica e estereométrica. Objetivou-se também demonstrar
como o conceito de módulo pode ser melhor compreendido se utilizados procedimentos que
fomentem a criatividade.
2. Fundamentação teórica - Tipologia arquitetônica e construção
modular
Inicialmente, baseados em Ströher (2001), foram apresentados autores do século XVIII
que antecedem conceitualmente o modernismo arquitetônico do século XX: Quatremère de
Quincy, que diferencia ‘tipo’ de ‘modelo’, sendo o primeiro uma idéia ou conceito e o segundo
algo visível, palpável, e Jean-Nicolas-Louis Durand para quem projeto é uma atitude prática,
objetiva, que através da racionalidade visa a economia da construção, reduzindo o processo a um
mínimo de subjetividade. Neste momento histórico o modelo, anteriormente gerado por
mimetismo, idealização ou verossimilhança através da observação da natureza, é substituído pelo
tipo. O tipo na arquitetura vernacular vem sendo representado desde Vitrúvio (Polião, 1999) pelas
ordens, estrutura compositiva, organização dos espaços, e pelas técnicas construtivas clássicas e
tradicionais.
Na arquitetura moderna o tipo se caracteriza pela repetição e pela reprodução em série
sem vínculo com o locus. O tipo pós-moderno tem como princípio gerador formal a expressão de
variáveis simbólicas que incluem valores sociais e culturais. Teóricos contemporâneos foram
apresentados, como Giulio Carlo Argan, Severiano Muratori, Aldo Rossi, Giorgio Grassi,
Manfredo Tafuri, Amos Rapoport, Rob Krier e Rafael Moneo, através dos textos Favilla (2003),
Montaner (1993), Mafhfuz (1987) e Gouveia (1998). No artigo de 1963 ‘On Tipology of the
Architecture’, Argan (1984) reapresentou o conceito de tipo como esquema deduzido mediante
redução de variantes a um esquema comum, um princípio que permite variações e não um
conjunto de entidades fixas.
Na década de 1980, destacaram-se no cenário internacional, Rob Krier, para quem a
arquitetura é individualista e fútil se não ocorre fusão com a herança cultural, e Rafael Moneo,
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Arquitetura e Design de superfície – uma abordagem didática
que propôs a aparição de novos tipos através de inovações estruturais e técnicas ou mudanças de
uso e escala. A apropriação da cultura como mote para criação artística e arquitetônica foi
fundamental para que os alunos entendessem a importância da pesquisa de desenhos modulares
elaborados por arquitetos brasileiros, realizada numa segunda fase do exercício.
O módulo, no caso específico deste exercício, foi entendido como unidade pré-fabricada,
base da arquitetura industrializada. Foram mostrados exemplos de arquitetura industrializada e
modular, do Palácio de Cristal, projeto de Joseph Paxton de 1851, a projetos do início terceiro
milênio, passando por alguns projetos de habitação popular na Alemanha do período entre
guerras. Também foram apresentados sistemas construtivos soviéticos de 1957, o projeto Habitat
de Safdie & Barrot, 1967 em Montreal; Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo/SP, 1940 de Rino
Levi; Torre da Cápsulas Nagakin, Tókio, 1971-72 de Kisho Kurokawa; Centro Social SESC,
Araraquara, SP, 1990-94 de Abrahão Sanovicz; Abrigos e projetos de João Filgueiras Lima
(Hospital Sarah Kubitschek: 1985 – Rio de Janeiro e 1991 – Fortaleza, “Tribunal de contas da
União” 1997 – Cuiabá); Bloco residencial e comercial de Klaus Sill e Jochen Keim 1997 –
Alemanha, Edifício Silodam, Países Baixos, 2002; entre outros.
Nesta abordagem, da industrialização e da modulação, o projeto de arquitetura tem como
pressuposto de criação alguns procedimentos geométricos. Segundo La Fuente (1969) a
arquitetura é uma arte combinatória, com todos os detalhes resolvidos previamente pela indústria.
Para este autor, o arquiteto é artista e técnico ao mesmo tempo. Entende-se assim, a
industrialização da construção como a racionalização de todo o processo (política,
gerenciamento, projeto e construção), que reforça o uso de termos ligados com a execução em
larga escala, introduzidos na cultura ocidental na primeira fase do movimento moderno, nas
experiências do período entre guerras do século XX. Neste caso, a questão principal está no fato
da arquitetura ser vista como uma abstração, e poder ser produzida sem relação com o locus. O
espaço é concebido por abstrações racionalizadas reproduzidas em massa, configurando-se num
standard. O tipo enquanto abstração advém da procura da essência do homem moderno,
pressuposto como universal. Isto leva às propostas de estandardização das formas, à arquitetura
internacional, igual para todos em qualquer lugar, em qualquer cultura. O lado positivo do
standard é por Giulio Carlo Argan defendido como “uma garantia do respeito pela autenticidade
da ideação, e um remédio contra o perigo da monotonia. Enquanto a indústria repetia
aproximadamente formas pensadas para o trabalho artesanal, isto é, peça por peça, a monotonia
nascia da repetição das mesmas particularidades formais; se o objeto é pensado como
generalização formal e a máquina não mais faz que reproduzí-lo em milhares de exemplares,
obtêm-se identidade e não uniformidade, porque cada objeto conservará intacta a sua qualidade
de ‘original’”. Ainda segundo o autor o “standard elimina assim a mediação do objeto como coisa
que responde a uma utilidade prática, e determina o contato direto do público com o valor ou a
qualidade da forma.” (Argan, 1990: 38)
Neste contexto produtos modulares industrializados podem ser entendidos também como
objetos artísticos.
A modulação como técnica de composição em artes plásticas foi teorizada por Paul Klee
(1969) também no período entre guerras do século XX, principalmente durante os anos em que
lecionou na Bauhaus. Para ele a modulação enquanto procedimento de composição se dava pela
repetição ou combinação de um elemento de maneira ritmada, segundo uma determinada ordem
ou estrutura e algumas das obras deste período foram analisadas. Entre os artistas gráficos que
utilizam para composição técnicas de modulação podemos citar Maurits Cornelis Escher (1898 1972). Muitos esboços do artista (disponíveis em http://www.mcescher.com/) foram apresentados
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aos alunos. Nestes foi possível verificar com precisão a estrutura (malha ou grade) de composição
e em alguns casos o desenvolvimento do módulo (elemento de repetição) pela deformação da
malha ou pela inversão de figura x fundo.
Assim a abordagem teórica procurou, ainda que de forma genérica, apresentar e refletir
sobre os conceitos da modulação e da industrialização da arquitetura, relacionando-os a algumas
questões fundamentais da prática e da criação artística.
3. Os procedimentos da prática projetual
Estabelecida a relação entre arquitetura industrializada e arte, duas outras questões
puderam ser abordadas em outras aulas expositivas: as técnicas de modulação por malhas
regulares para elaboração de padronagens e pressupostos perceptivos gestálticos para desenhos
em duas dimensões. Estas abordagens teóricas foram acompanhadas de exercícios que
estruturaram a primeira etapa da atividade prática.
3.1. Etapa 1: padronagem bidimensional - As técnicas de rapport
O módulo para a elaboração de estampas bidimensionais contínuas deve ser entendido
como uma unidade de padronagem. É através dos módulos que se cria o rapport ou padrão. Esta
é maneira pela qual o módulo se repete (Waga, 2007).
Ao desenhar um rapport o designer tem em mente pontos de conexão em que os módulos
vão se encaixar. Os mais comuns são: Full Drop (repetição alinhado por translação), Half Drop (
repetição por translação não alinhado na vertical, ou seja, há deslocamento dos módulos nas
colunas), Brick (repetição por translação, não alinhado na horizontal, ou seja, há deslocamento
dos módulos nas linhas), Stripe ( alinhado, o módulo é espelhado e invertido, a repetição se dá
na diagonal), Mirror (alinhado, com espelhamento na horizontal) e Turn Over (alinhado com
espelhamento na horizontal e na vertical) entre outros (Schwartz, 2006).
Como se pode observar a unidade ‘módulo’ precisa ser organizada numa estrutura
geométrica, uma malha ou grade. O módulo é o principal elemento de constituição de uma malha
geométrica. A unidade modular nasce da sua elaboração nesta estrutura, o módulo serve à malha
e esta dá forma à unidade. Existem vários tipos de malhas (Rinaldi, 2009): regulares e semiregulares, malhas duais, malhas deformadas e malhas dinérgicas.
Para o exercício optou-se por malhas regulares básicas, com horizontais e verticais
formando quadrados. Para a criação do módulo foram utilizadas três técnicas de rapport1.
A 1ª técnica serve para a elaboração de um sistema Full Drop e as outras duas para um
sistema Half Drop.
Na passagem para segunda fase do exercício (elaboração de módulos tridimensionais) o
sistema Half Drop foi alterado para Brick.
Estas técnicas induzem a elaboração de módulos que tenham continuidade gráfica, pois o
desenho feito em um lado do quadrado continua do lado oposto. Com a utilização destas técnicas
dificilmente o aluno produz desenhos isolados no centro do módulo. Ele aprende o conceito de
módulo como unidade que tem sua gênese e existência em função do conjunto.
A seguir é apresentado um passo a passo destas técnicas 2.
Na técnica 1 (Figura 1), desenha-se um motivo sobre um quadrado de papel. Este é
dobrado juntando-se as pontas e continua-se o motivo, nas duas direções. Está técnica é efetiva
para desenho de texturas.
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Arquitetura e Design de superfície – uma abordagem didática
1o. passo: fazer desenhos no centro do quadrado
2o. passo: dobrar verticalmente o quadrado e desenhar nas
extremidades do papel
3o. passo: abrir o papel
4o . passo: dobrar na horizontal o quadrado e desenhar nas
extremidades
5o. Passo: abra o papel e o módulo está pronto
6o. passo: com o módulo pronto é só copiar lada a lado para
construir o rapport
Figura 1: Passos da técnica 1
Na técnica 2 (Figura 2), o desenho do motivo, o corte e numeração dos 4 outros
quadrados, e a realocação destes para continuação do motivo seguindo uma determinada ordem,
que não pode ser alterada, permite a elaboração de um rapport não alinhado e com motivos mais
marcantes, com elementos maiores e em destaque, sem necessariamente se obter texturas
homogêneas3.
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1o. passo: fazer desenho no centro do quadrado
2o. passo: cortar o quadrado, transformando-o em quatro
quadradinhos e numerá-los
3o. passo: juntar os quadrados na ordem acima e desenhar no
centro
4o. passo: mudar novamente a ordem dos quadrados e desenhar
no centro
5o. passo: mude novamente a ordem dos quadrados e desenhe
no centro. O módulo está pronto
6o. passo: com o módulo pronto é só ir copiando da maneira
mostrada acima
Figura 2: Passos da Técnica 2
Enquanto as técnicas anteriores foram aprendidas por Rubim (2005), a técnica 3 (Figura
3) foi criada pela própria designer. Esta permite que o projetista tenha uma visão mais abrangente
do campo do padrão, ou seja, sua atenção não fica retida no módulo, mas em 2 ou 3 deles ao
mesmo tempo ( 3 módulos foi a sugestão das professoras aos alunos, 2 módulos na vertical e
outro não alinhado na horizontal). Este procedimento, numa sequência de 7 passos, permite
soluções mais ousadas com desenhos em perspectiva, criando ilusão de 3 dimensões.
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1o. passo: faça dois quadrados do mesmo tamanho em papel
manteiga ou vegetal. Faça desenhos idênticos nos dois quadrados e
prenda-os com fita adesiva da maneira demonstrada acima
2o. passo: faça desenhos entre os dois quadrados
3o. passo: separe os quadrados
4o. passo: faça exatamente os mesmos desenhos em ambos
quadrados
5o. passo: cole os quadrados verticalmente e faça desenhos em suas extremidades
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6o. passo: separe os quadrados e faça novamente os mesmos
desenhos nos dois quadrados. É muito importante que os dois
quadrados sejam idênticos
7o. passo: o módulo está pronto. Agora é copiar da maneira
mostrada acima
Figura 3: Passos da Técnica 3
A utilização de padronagens na arquitetura foi exemplificada com estampas em paredes
(Savoir, 2007 ) e pelos mosaicos de Havana (Navarro, 2007). Foi também apresentado o trabalho
de Athos Bulcão (www.fandathos.org.br/obras.php)
3.2. Fundamentos gestálticos para elaboração de padrões
Para auxiliar no desenvolvimento dos rapports alguns princípios da Teoria da Gestalt
foram abordados. Com base em Penteado Neto (1981) o termo ‘gestalt’ foi apresentado como
sinônimo de estrutura, de organização. Através de exemplos gráficos pôde-se demonstrar como a
parte no todo é diferente desta mesma parte isolada ou noutro todo.
Em um dos resultados foi exigida uma composição com figuras geométricas regulares.
Para a Gestalt estas formas são privilegiadas, pois são simples e simétricas; fortes e pregnantes.
As formas fracas ao contrário são irregulares, indecisas, e apresentam partes com relativa
autonomia. Assim, gerar padrões de textura trabalhando-se com formas fortes é algo que exige
maior atenção, pois as formas regulares levam geralmente à percepção delas próprias,
independentes do todo, se destacando do conjunto.
Foram também apresentados princípios gestálticos marcantes e alguns exemplos gráficos,
tais como: a relação figura x fundo, leis da Integração, da Boa Forma, dos Espaços
Intermediários, da Simetria, da Proximidade, da Largura Constante, etc. Com base nestes
princípios foi possível a compreensão de que em alguns casos não seria necessário manter os
contornos das figuras para que fossem percebidas na sua totalidade; que figuras iguais em
determinadas relações, umas com as outras não permitem a visualização das unidades
constitutivas desse conjunto, o que ajuda na elaboração da textura. Os alunos compreenderam que
figuras similares são lidas como conjuntos; que figuras sobrepostas sem contornos lineares
podem manter a percepção de planos diferentes, gerando imagens mais interessantes, e que em
outras situações poderiam fundir-se; que figuras de formas e tamanhos diversos, dispostas em
distâncias não repetitivas, podem gerar padrões instáveis e, portanto mais instigantes, pois o
módulo gerador não é imediatamente compreendido.
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3.3 Etapa 2: pesquisa e projeto de cobogó
A Etapa 2 previa o projeto de uma estrutura tridimensional modular advinda do módulo
bidimensional. Os alunos realizaram uma busca por referências que incluiu desde trabalhos em
azulejaria a sistemas de controle solar (brise-soleil). Mas a ênfase desta pesquisa concentrou-se
nos elementos de vedação que possibilitam a passagem da luz e do vento, conhecidos no Brasil
como cobogós.
Segundo Bittencourt (2007) os cobogós têm sido empregados desde 1930, quando
Amadeu Coimbra, Ernest Boekman e Antônio de Góis os utilizaram em uma construção em
Olinda, Pernambuco, donde se originou o nome (Co-Bo-Gó, sílabas iniciais dos sobrenomes).
Fabricados inicialmente com argamassa, cimento e areia e moldados em formas de madeira ou de
argila, com cozimento em fornos, os cobogós são resistentes aos ataques de cupim, comuns nas
regiões de clima quente. Sua utilização em fachadas permite, além do controle da insolação e
ventilação, resultados estéticos diversos. Sua variação pode ser formal, material ou dimensional.
Porém, atualmente poucos são os modelos disponíveis no mercado.
Na última década o uso do cobogó tem sido revisto, principalmente devido às suas
potencialidades como elemento economicamente alternativo para os altos gastos energéticos das
edificações, pois tem como função primária o controle da insolação e ventilação sem o uso de
condicionadores de ar. No entanto, é também necessário que ocorra uma preocupação com as
suas qualidades estéticas e funcionais, para melhor utilizá-lo na arquitetura. O que se observa na
prática é uma subutilização deste elemento devido a pouca variação de opções compositivas de
suas geometrias.
A maioria das ‘paredes’ de cobogós restringe-se a composições geométricas provenientes
de simetria - a translação. Pode-se definir simetria como sendo a repetição ordenada das partes de
um todo. Esta repetição pode ocorrer em um, dois ou três eixos cartesianos. No caso das paredes
consideramos a simetria plana, devido à possibilidade de expansão por repetição em dois eixos
cartesianos.
Se considerarmos as composições de cobogós como as ‘estruturas de parede’ (WONG,
1998) e cada elemento desta parede como uma célula espacial, pode-se trabalhar inúmeras
operações de composição das unidades e das estruturas de parede por meio de um crescimento
ordenado em duas dimensões. Se estas composições forem trabalhadas tridimensionalmente, os
cobogós podem gerar soluções construtivas mais econômicas, racionais e criativas, que podem
contribuir não apenas esteticamente, mas também para a qualidade física da edificação.
3.4 Desenvolvimento da Etapa 2
No desenvolvimento do exercício foi utilizado um método de geração da forma
(Kowaltowski, 2006) através da técnica de rapport. A proposta desta segunda etapa foi
desenvolvida por uma dupla de alunos em ateliê de projeto, com o acompanhamento docente.
Segundo Schön (2000) esta metodologia demonstra uma interatividade na qual o
estudante não tem respostas prontas, ele precisa desenvolver o projeto através da reflexão. Esse
processo é denominado ‘reflexão-na-ação’, no qual a aprendizagem ocorre pelo diálogo entre
estudante e professor, mediado por desenhos e maquetes. O discente aceita o desafio do tema e a
experimentação gera novos problemas que são resolvidos na discussão4.
Na execução da Etapa 2, os alunos elaboraram uma estrutura tridimensional composta a
partir do módulo da Etapa 1. A leitura de uma das configurações planas deveria ser transformada
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em um volume tridimensional, inspirado nos elementos de vedação tipo cobogó. O
dimensionamento dos módulos poderia variar5 de 20 x 20 x 10 cm até 50 x 50 x15 cm.
Como auxílio ao estudos de desenvolvimento dos cobogós, apresentou-se aos alunos uma
técnica desenvolvida por Harris (2009) com uso do programa Sketch Up, como ferramenta de
controle, para que pudessem ter um domínio dos efeitos, não apenas tridimensionais das
‘estruturas de parede’ ainda em elaboração, mas também, pudessem realizar simulações da luz do
sol e efeitos de sombra.
4. Resultados
Os resultados foram avaliados conforme o grau de criatividade, originalidade,
expressividade e qualidade artística das propostas; o domínio da linguagem gráfica e visual, a
legibilidade na representação; o domínio da construtibilidade; a boa execução e finalização das
estruturas estereométricas em escala 1:1 (mockups) e os desenhos representativos da execução. A
seguir são exemplificados alguns resultados dos desenhos bidimensionais com o respectivo
correspondente em estrutura tridimensional.
No primeiro exemplo aqui apresentado, a dupla de estudantes escolheu para
desenvolvimento da etapa 2 um módulo de rapport que utilizava a técnica 1 (Figura 4). Na
construção da prancha, pode-se observar a sobreposição de camadas, valorizando a idéia de
profundidade e dinamismo já concebida no módulo (Figura 4b). O elemento tridimensional
elaborado na etapa 2 foi construído em madeira, com ligações feitas com pinos de aço. As peças
inclinadas conferem o mesmo dinamismo apresentado na figura bidimensional. O modelo foi
projetado para ser utilizado como divisória interna, em fechamentos de vãos de pequeno e médio
porte, já que não suporta cargas excedentes. Permite a passagem de luz e ventilação (Figuras 4g a
4h).
Figura 4a. Módulo rapport.
Figura 4c: Representação digital do módulo 3D com os pinos
para encaixes pelo Sketch Up.
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Figura 4b. Padronagem resultante.
Figura 4d: Representação gráfica do módulo 3D lateral.
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Figura 4e: Peças do mockup.
Figura 4f: Processo de montagem do mockup.
Figura 4g: Foto do elemento tridimensional na escala 1:1
construído em madeira
Figura 4h: Foto do elemento tridimensional executado em
madeira na escala 1:1 e maquete de estudo feita em papel
paraná.
Figuras 4a a 4h. Etapas do desenvolvimento do trabalho de Cesar T. Martini e Rodolpho H. Corrêa
O próximo trabalho apresenta uma característica diversa dos demais resultados
apresentados. A equipe trabalhou o conceito de portabilidade para a construção do modelo
tridimensional. A idéia foi construir um módulo base para a construção de uma cobertura de
abrigo temporário, podendo ser empregada na forma horizontal ou vertical – como toldos (com
estruturas de apoio fixas no chão) ou na forma de barracas de acampamento, utilizando cordas e
estacas para a fixação (Figura 5). A premissa estabelecida pela dupla de alunos foi desenvolver
um elemento de fácil transporte e montagem, utilizando materiais leves e resistentes, como o
tecido em nylon para os fechamentos, zíperes para as conexões entre os módulos e fibras de
carbono para as hélices (Figuras 5d e 5e). Pensaram também em um elemento que
proporcionasse conforto térmico através de um jogo de luz e sombra. Os alunos realizaram uma
analogia formal entre o desenho de ‘flores’ (Figuras 5a e 5b) para uma estrutura tridimensional
em forma de hélices, sendo que estas poderiam movimentar-se conforme a incidência de ventos e
então, fazendo o ar circular, seria possível tornar o ambiente sob a cobertura mais agradável.
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Figura 5a: Módulo rapport
Figura 5b: Padronagem resultante.
Figura 5c: Representação em perspectiva da cobertura horizontal composta por módulos 3D.
Figura 5d: Foto do mockup do módulo 3D em
tecido, com fechamentos laterais com zíper
Figura 5e: Foto - detalhe da ‘hélice’ do
mockup.
Figuras 5a a 5e. Desenvolvimento do trabalho de Carlos Albert Cenci Junior e Paula Martucci Siqueira.
Todos os grupos apresentaram os resultados de seus respectivos trabalhos em sala de aula.
Os mockups ficaram expostos para que cada aluno pudesse também analisar uma das questões
envolvidas na construtibilidade, as estruturas deveriam permanecer estáveis durante todo o
processo de avaliação. Nesta ocasião foi solicitado aos alunos que preenchessem um questionário
sobre a análise de pelo menos dois trabalhos dos colegas, identificando características das Leis da
Gestalt (Penteado Neto, 1981). Este procedimento teve por objetivo estimular a reflexão sobre o
processo de composição e as características resultantes desta investigação. O exercício mostrouse didaticamente produtivo, pois contemplou um amplo processo de aprendizagem, com
resultados positivos tanto nos produtos bidimensionais quanto nos tridimensionais. Constatou-se
que a analogia entre o desenho produzido com a técnica de rapport e a transposição para a
estrutura estereométrica – o cobogó possibilitou uma maior apreensão do conhecimento teórico
sobre modulação.
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6. Considerações finais
A proposta do exercício de rapport gerou produtos gráficos, estampas contínuas, que por
sua vez determinaram outros, que são o elemento tridimensional cobogó e os vedos por ele
gerados. À primeira vista estas duas áreas, design de superfície e arquitetura, parecem totalmente
desconectadas. Mas à medida que os conhecimentos necessários para uma e outra vão se
evidenciando, percebe-se que muitas outras relações podem ser feitas. Acredita-se que a
originalidade desta proposta está tanto na sequência com que as atividades foram dirigidas, como
na abordagem teórica dada aos vários conceitos e questões estudados. Tendo em vista os
resultados apresentados, a maior parte deles trabalhos de excelência6, também acredita-se que, a
proposta se mostrou adequada para se estabelecer novos procedimentos didáticos que auxiliem o
aluno no aprendizado da linguagem visual, gráfica e estereométrica, aumentado os limiares da
cultura gráfica e artística de futuros arquitetos. A iniciativa transdisciplinar também demonstra
como o conceito de módulo pode ser melhor compreendido se utilizados procedimentos que
fomentem a criatividade e os aspectos imaginativos, e porque não, lúdicos, das técnicas gráficas
consolidadas. Esta aplicação didática demonstra também, como a arquitetura brasileira pode ser
renovada em seu aspecto plástico pela valorização de elementos da cultura construtiva
vernacular.
7. Notas
1. Estas técnicas apresentadas no Workshop “Cor, Design de Superfície e Projeto”
ministrado pela designer de superfície Renata Rubim no Centro Universitário SENAC em
novembro de 2006, mas podem ser encontradas em RUBIM (2005).
2. As ilustrações das técnicas de Renata Rubim foram elaboradas por Waga (2007) para
apresentação de seu trabalho de conclusão de graduação. Na técnica 2 a autora modificou um
pouco os passos originais. Rubim inicia com a folha já cortada em 4 quadrados e a proposta de
cortar o quadrado maior em 4 outros quadrados menores somente no passo 2 é da aluna.
3. Ver como exemplo os resultados dos exercícios entregues pelos alunos.
4. Essa prática do ensino no ateliê responde às diretrizes da União Internacional de
Arquitetura no quesito da aprendizagem interativa entre aluno e professor.
5. Base x Altura x Espessura
6. Foram ao todo apresentadas 14 propostas de cobogós, que em virtude do formato
reduzido deste artigo não puderam ser apresentadas. Outros resultados podem ser encontrados em
Pfutzenreuter (2010).
8. Referências
ARGAN, Giulio Carlo. Tipologia. Summarios, 79, julho, 1984.
9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Arquitetura e Design de superfície – uma abordagem didática
BITTENCOURT, Leonardo Grupo de Estudos em Conforto Ambiental/GECA, do Centro de
Tecnologia da Universidade Federal de Alagoas/UFAL <acesso 22 abr 2007>
FAVILLA, Daniella. O regionalismo crítico e a arquitetura brasileira contemporânea: o caso
de Severiano Porto. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes, UNICSAMP, 2003.
GOUVEIA, Anna Paula Silva. O croqui do arquiteto e o ensino de desenho. Tese de
doutorado. São Paulo: FAU USP, 1998.
HARRIS, Ana Lúcia N. C. O potencial do Sketch Up aliado ao ensino de AutoCAD como
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Graphics Engineering for Arts and Design, 8.; Simposio Nacional de Geometria Descritiva e
Desenho Técnico, 19. Graphica'2009. Bauru, SP, pp.858-568, setembro, 6-9, 2009. (cd)
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PFUTZENREUTER, E. do P., GOUVEIA, A. P. S., BERNARDI, N., HARRIS, A. L. N. de C..
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