PUCRS FACULDADE DE MATEMÁTICA EQUAÇÕES DIFERENCIAIS PROF. LUIZ EDUARDO OURIQUE EQUAÇÔES EXATAS E FATOR INTEGRANTE Definição. A diferencial de uma função de duas variáveis f(x,y) é definida por df = fx(x,y)dx + fy(x,y)dy onde fx(x,y) e fy(x,y) denotas as derivadas parciais de f(x,y) em relação a x e y, respectivamente. Por exemplo, a diferencial de f(x,y) = x2 + y2 é df = 2xdx + 2ydy . A diferencial pode ser interpretada como uma aproximação linear de f . Geometricamente, a superfície descrita pelo gráfico de f(x,y) é aproximada localmente pelo plano tangente a superfície no ponto (x,y). Nas aplicações, permite cálculos aproximados de variações de uma função f(x,y) correspondentes à variação do ponto (x,y) até o ponto (x + dx, y+ dy ) . Definição. A expressão M(x,y) dx + N(x,y)dy é chamada de diferencial exata se existe uma função f(x,y) tal que fx(x,y)=M(x,y) e fy(x,y)=N(x,y) . Exemplo 1. A expressão 2x dx + 2y dy é uma diferencial exata, pois é a diferencial de f(x,y) = x2 + y2 . De fato, fx(x,y)=2x e fy(x,y) = 2y . A equação diferencial de primeira ordem M(x,y) + N(x,y) y’ = 0 pode ser escrita na dy forma equivalente M(x,y) dx + N(x,y) dy = 0 , usando a notação y’ = . A equação dx diferencial M(x,y) + N(x,y)y’ = 0 ( ou sua forma equivalente ) é chamada de uma equação diferencial exata se existe uma função f(x,y) cuja diferencial coincide com a forma M(x,y) dx + N(x,y) dy . Neste caso, a equação f(x,y) = c , onde c é uma constante arbitrária, é a solução geral da equação M(x,y)dx + N(x,y)dy = 0. Por exemplo, a equação 2xdx + 2ydy = 0 é uma equação diferencial exata em todo o conjunto R2, pois f(x,y) = x2+y2 satisfaz fx(x,y) = 2x e fy(x,y) = 2y . Teorema. Uma equação diferencial M(x,y) dx + N(x,y) dy = 0 é exata numa região R do plano (x,y) se e somente se nos pontos da região R, valer a igualdade My(x,y) = Nx(x,y) (1) em cada ponto (x,y) de R. Isto é, existe uma função f(x,y) tal que fx(x,y)= M(x,y) e fy(x,y) = N(x,y) em todo ponto da região R se somente se a igualdade (1) for satisfeita. Por isto, a igualdade (1) pode ser interpretada como um teste de exatidão. Resolução de uma equação exata. Supondo que a equação M(x,y) dx + N(x,y) dy = 0 seja exata, existe uma função f(x,y) tal que fx(x,y) = M(x,y) e fy(x,y) = N(x,y). Logo, integrando a primeira igualdade em relação a x, resulta: 1 f(x,y) = ∫ M(x,y)dx + k(y) (2) onde k(y) denota uma função que só depende de y. Derivando em relação a y, obtemos ∂ fy(x,y) = N(x,y) . Usando a notação para denotar a derivada parcial em relação a y, ∂y vem: ∂ ∫ ∂y M(x,y) + k’(y) = N(x,y) (3) Da equação (3), podemos obter k(y) por integração em relação a y. Uma vez obtida esta função, a solução da equação diferencial é f(x,y) = c. Exemplo 2 . Verificar que a equação 2x + y2 + 2xyy’ = 0 é exata e resolvê-la. Solução. M(x,y) = 2x + y2 e N(x,y) = 2xy ; temos My(x,y) = 2y e Nx(x,y) = 2y , logo a equação diferencial 2x + y2 + 2xyy’ = 0 é exata para todo ponto (x,y) do R2 . Existe uma função f(x,y) tal que fx(x,y) = 2x + y2 . De acordo com a equação (2), vem : f(x,y) = ∫ (2x+y2)dx + k(y) = x2 + xy2 + k(y) (4) Derivando em relação a y e igualando a N(x,y) , resulta : ∂ 2 (x + xy 2 + k(y)) ∂y = 2xy (5) Logo: 2xy + k’(y) = 2xy , isto é , k’(y) = 0. Portanto, k(y) é uma função constante , já que sua derivada é nula. Assim, substituindo na equação (4), vem f(x,y) = x2 + xy2 + k (6) Conclusão: a solução da equação diferencial 2x + y2 + 2xyy’ = 0 é x2 +xy2 = c , como pode ser verificado diretamente, pela aplicação das regras de derivação. Esta equação pode ser interpretada como uma curva de nível da função f(x,y) = x2 +xy2 . Exemplo 3. Mostrar que a equação diferencial x2y3 + x(1+y2)y’=0 não é exata. Solução. De fato, temos M(x,y) = x2y3 e N(x,y) = x(1+y2) . Então: My(x,y) = 3x2y2 ≠ Nx(x,y) = 1 + y2 , logo, a equação não é exata. 2 FATOR INTEGRANTE Vamos mostrar através de um exemplo o conceito de fator integrante. Exemplo 4. Mostrar que a função µ (x,y) = 1 xy3 é um fator integrante da equação diferencial do exemplo 3. x2y3 + x(1+y2)y’=0 que não é exata. 1 Multiplicando esta equação pela função µ (x,y) = dada acima, vem : xy3 Solução. A equação do exemplo 3 é 1 [ x2y3 + x(1+y2)y’ ] = 0 xy3 (7) Isto é, a equação diferencial resultante após a multiplicação é 1 1 x + 3 + y’ = 0 y y (8) e N(x,y) = y–3 + y–1, logo, a equação (8) é uma equação 1 diferencial é exata, pois My(x,y) = 0 e Nx(x,y) = 0. Por isto, a função µ (x,y) = é xy3 chamada de fator integrante da equação x2y3 + x(1+y2)y’=0, já que após a multiplicação da equação por µ a equação resultante é exata. Isto é, uma função µ é um fator integrante de uma equação diferencial se, após a multiplicação da equação por µ , resultar uma equação diferencial exata. Quando for possível determinar o fator integrante, podemos aplicar a técnica descrita anteriormente de resolução das equações exatas. Nos casos mais simples, o fator integrante µ pode ser uma função somente de x ou somente de y. Vamos mostrar como podemos verificar se tais fatores existem. Por simplicidade, vamos escrever M=M(x,y) e N=N(x,y) e usar a notação Mdx +Ndy = 0 para representar a equação. Temos, agora : M(x,y) = x Fator integrante que depende somente de x Isto é, µ = equação Mdx + Ndy = 0 não seja exata e que o fator multiplicando por esta função , resulta µ Mdx + µ Ndy equação exata, a igualdade ( µ M )y = ( µ N )x deve ser regras de derivação, vem : µ My = µ xN + µ N x , pois µ (x) . Suponhamos que uma integrante seja µ = µ (x) ; = 0 . Supondo ser esta uma satisfeita. De acordo com as µ é uma função que depende somente de x. Resolvendo esta equação em µ x , usando a notação µ x = dµ dx resulta : 3 dµ M y − N x = µ dx N (9) A equação (9) estabelece uma condição para que exista o fator integrante que dependa só My − Nx de x: o quociente deve depender somente de x. Além disto, caso esta condição N seja satisfeita, devemos resolver a equação diferencial (9), que é uma equação diferencial separável, para determinar o fator µ = µ (x) . Depois de calculado o fator integrante µ = µ (x), nós devemos multiplicar a equação Mdx + Ndy = 0 por µ . A equação obtida então é exata e pode ser resolvida pela técnica vista inicialmente. Exemplo 5. Encontrar um fator integrante para a equação diferencial (3xy + y2 ) + ( x2 + xy) y’ = 0 (10) e resolver a equação . Solução. M= M(x,y) = 3xy + y2 My = 3x + 2y N= N(x,y) = x2 + xy Nx = 2x + y A equação não é exata, pois My ≠ Nx . Teste para o fator integrante : µ = µ (x) O quociente é : My − Nx N = 3x + 2y − (2x + y) x+y 1 = = 2 x + xy x(x + y) x , que depende somente de x. Logo, existe um fator µ = µ (x) . Devemos resolver a equação dµ 1 = µ , dx x dµ dx = . Integrando ambos os lados , resulta Ln | µ | = Ln | x | , desprezando a µ x constante de integração. Um fator integrante é µ = x. Multiplicando ambos os lados da equação diferencial por µ = x , resulta x [ (3xy + y2 ) + ( x2 + xy) y’ ] = 0 , ou seja, ou seja, (3x2y + x y2 ) + ( x3 + x2y) y’ = 0 (11) Temos, agora : M(x,y) = 3x2y + xy2 N(x,y) = x3 + x2y . Logo, My = 3x2 + 2xy e Nx 2 = 3x + 2xy , a equação (11) é exata. Existe uma função f(x,y) tal que fx(x,y) = 3x2y +xy2 , 1 portanto, integrando em relação a x, resulta f(x,y) = x3y + x2y2 + k(y) ; derivando em 2 relação a y , e igualando a N, obtemos fy = x3 + x2y + k’(y) = x3 + x2y , donde k’(y) = 0 1 ,isto é, k(y) é uma função constante, digamos k. Assim, f(x,y)= x3y + x2y2 + k. 2 4 Conclusão: a solução da equação diferencial (3x2y + x y2 ) + ( x3 + x2y) y’ = 0 é dada pela 1 1 equação x3y + x2y2= c . Observemos que a função f(x,y) = x3y + x2y2 + k é uma 2 2 2 2 3 função tal que fx(x,y) = 3x y + xy = M(x,y) e fy(x,y) = x + x2y definidos na equação (11) . Se dividirmos por x , obtemos as funções definidas pela equação (10). Assim, a solução é a mesma se x for diferente de zero. Fator integrante que depende somente de y. Se o quociente Nx - M y = Q , onde Q é M uma função apenas de y , então a equação diferencial M(x,y)+ N(x,y)y’ = 0 tem um fator integrante da forma µ (y) = exp ∫ Q( y ) dy Exemplo. Consideremos a equação dx + (x/y – sen(y))dy = 0 . Temos M(x,y) =1 e N(x,y) = x/y – sen(y) . Logo, My(x,y) = 0 e Nx(x,y) = 1/ y . Logo, o quociente fica : Nx - M y M = 1/ y − 0 = 1 / y . Isto é , Q(y) = 1/ y . Assim, um fator integrante é 1 1 y µ (y ) = exp ∫ dy = exp(Ln(y)) = y . Multiplicamos a equação por y , obtendo : y dx + (x – y sen(y))dy = 0, ou seja, M(x,y) = y e N(x,y) = x – ysen(y) . A equação agora é exata, pois My(x,y) = 1 = Nx(x,y) . Logo, existe f(x,y) tal que : f(x,y) = ∂ ( ∂y ∫ ydx + k(y) = yx + k(y) . Derivando em relação a y : yx + k(y)) = x – ysen(y) , isto é, x + k’(y) = x – ysen(y) . Então : k(y) = – ∫ ysen(y)dy = – ( sen(y) – ycos(y) ) = ycos(y) – sen(y) A solução da equação diferencial é : yx + ycos(y) – sen(y) = c. Conclusão: as equações exatas podem ser resolvidas por técnicas bastante simples, bastando para isto, usar uma integral indefinida e uma derivada parcial. Deste modo, para equações não lineares ( e também para equações lineares de coeficientes não-constantes) , esta é mais uma técnica alternativa de resolução de equações diferenciais ordinárias. O 5 fator integrante que depende de x e y não será estudado aqui. Nas referências bibliográficas, o leitor poderá estudar este caso. Referências : Boyce & Di Prima. Equações diferenciais elementares e problemas de valores de contorno. Editora LTC, Rio de Janeiro, 2002. Zill, Dennis G. Equações diferenciais com aplicações em modelagem. Editora Thomson, São Paulo , 2003. Exercícios . Determine se as equações nos problemas 1 até 4 são ou não exatas. Para as exatas, encontre a solução. 1. ( 2x+ 3 ) + ( 2y – 2) y’ = 0 2. (2x + 4y ) + ( 2x – 2y ) y’ = 0 dy ax + by 3. =− dx bx + cy x 4. (e sen(y) – 2ysen(x))dx + (excos(y) +2cos(x))dy = 0 Resolva o problema de valor inicial dado e determine em que intervalo a solução está definida. 5. (2x – y ) dx + ( 2y – x ) dy = 0 , y(1) = 3 . Encontre o valor de b para o qual a equação dada é exata e, então, resolva-a usando este valor de b. 6. (xy2 + bx2y)dx + ( x + y )x2dy = 0 Verifique que a função dada é um fator integrante e resolva a equação dada nos problema de 7 a 10. 7. ( 3x2y+ 2xy + y3)dx +( x2 +y2 ) dy = 0 , µ (x) = e 3x , µ (x) = e –x 8. y’ = e2x + y – 1 9. [ 4(x3/y2) + (3/y) ] dx + [ 3(x/y2) + 4y ] dy = 0 , µ (y) = y2 10. ex dx + ( ex cot(y) + 2ycosec(y) )dy = 0 , µ (y) = sen(y) Respostas : 1. x2 + 3x + y2 – 2y = c 2. Não é exata 3. Não é exata 4. exsen(y) + 2ycos(x) = c ; também y = 0 . 5. y = [ x + 28 − 3x 2 ]/2 , | x | < 28 / 3 6. b = 3 ; x2y2 + 2x3y = c 7. ( 3x2 y + y3)e3x = c 8. y = cex + 1 + e2x 9. x4 + 3xy + y4 = c 10. exsen(y) + y2 = c 6