PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
PROGRAMA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM LETRAS
MESTRADO EM LETRAS/ TEORIA LITERÁRIA
TEORIAS DA LEITURA
O Senhor March: uma possível leitura de Mulherzinhas
Taís Helena Mallmann
1
Em 1868, a escritora americana Louise May Alcott publica o primeiro volume de sua
série Little Women (Mulherzinhas). O enredo segue a vida de quatro irmãs - Meg, Elisabeth,
Jo e Amy-
que crescem em pleno período da Guerra Civil Americana (ou Guerra de
Secessão), longe da figura paterna. O senhor March vai para a guerra como capelão, e tal fato
torna tempos tão difícies, muito piores, já que a família passa por privasões e pobreza
derivadas dos combates que aconteciam e de um sustento que sua mãe não pode dar sozinha.
Com sua linguagem simples e cotidiana, Alcott conta as aventuras e desaventuras das quatro
jovens que crescem e enfrentam dúvidas características da adolêscencia em meio a confusão
daquele período. A novela abre com Jo, Meg, Beth e Amy comentando o quão triste seria o
natal daquele ano, já que tinham tão pouco dinheiro para comprar seus presentes. No entanto,
ao preparar a casa para receber sua mãe no fim do dia, elas decidem fazer uso da pequena
quantia de dinheiro que tem guardado para comprar presentes para ela. Ao chegar em casa, a
Sra. March anuncia ter uma surpresa: uma carta do senhor March, seu marido e pai das
garotas. A carta tem um tom feliz, pacífico e cheio de esperança. A mesma carta acaba com
um aviso carinhoso do pai, que pede às filhas para que não esqueçam o que ele lhes havia dito
antes de partir: para que trabalhassem duro, e fossem boas meninas, assim tempos tão difícies
não seriam desperdiçados e então quando ele voltasse poderia sentir-se orgulhoso de suas
mulherzinhas. Em certo ponto da narrativa, chega um telegrama urgente pedindo que a
senhora March vá até Washington, pois seu marido encontra-se gravemente doente. A crise só
é resolvida quando ele retorna, um ano depois do início da narrativa, no Natal. A novela se
encerra com a família reunida.
A história de Alcott percorre um ano e mostra as mudanças que a Guerra Civil trazem
às quatro mulherzinhas, mas não aborda o que aconteceu com o homem da família, o Sr.
March. Partindo deste hiato, a autora australiana Gerardini Brooks remonta a história dessa
personagem em seu livro March ( “O senhor March, em tradução para o português). Propõe 1
CAPES
Mestranda em Letras/ Teoria da Literatura do Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, Bolsista parcial
se aqui estabelecer um paralelo entre Mulherzinhas e o O senhor March, partindo-se do
pressuposto de que tal obra pode ser interpretada como uma leitura da novela de Alcott. Para
tanto apoiaremos nossa análise nos preceitos da Teoria da Recepção, como postulada por Iser.
Ao lançarmos nosso olhar ao passado que circunda a história da literatura moderna,
torna-se possível traçar uma visão geral sobre a mesma, dividindo-a em três grandes fases:
uma de preocupação com o autor, uma de preocupação exclusiva com o texto e uma de
preocupação com o leitor. Coube à estética da recepção trazer o leitor para o holofote da
história da Literatura, pois para tal parte-se do princípio de que sem leitor não há
(verdadeiramente) textos literários.
O leitor seria, então, co-autor do texto literário. Segundo Wolfang Iser, o texto
literário possui rastros, lacunas deixadas pelo autor para que o leitor, em sua prática de leitura
as complete. Sendo assim, postula-se que a leitura é um processo ativo em que leitor irá
sempre completar, “concretizar”, a partir de hipóteses, os significados do texto. Através das
lacunas existentes na obra, o leitor constrói a compreensão do texto, completando os vazios
com que se depara e, com isso, pode-se afirmar que o vazio permite que a obra seja
concretizada pelo leitor.
Para Roman Ingarden, a obra literária é apenas uma série de “orientações gerais”, a
qual o leitor deve seguir e completar com recurso aos seus pré-conhecimentos . A leitura,
assim, torna-se um processo não linear, e sim, um cooperação ativa na qual as expectativas
iniciais de um leitor geram referências para a interpretação do que vem a seguir. No entanto, a
medida em que o o leitor prossegue a leitura, ele abandona determinadas hipóteses que
construiu, as revisa, cria novas hipóteses.
A modo de ilustrar como O senhor March pode ser entendido como uma leitura de
Mulherzinhas, ilustramos com exemplos de ambas obras momentos das narrativas em que
Gerardini Brooks como uma leitora de Alcott, preenche os vazios deixados por ela a sua
maneira a fim de tecer sua nova trama. É o que acontece, por exemplo, no capítulo de
abertura de Brooks, em que senhor March escreve sua primeira carta à familia desde que foi
para o campo de batalha:
“Pouquissimas cartas escritas naqueles tempos difíceis não seriam comoventes, especialmente
as que os pais enviavam para casa. Naquela, pouco se falava das dificuldades dos perigos
enfrentados, da saudade de casa. Era uma carta alegre, esperançosa, cheia de vívidas descrições
da vida no acampamento, das marchas, e de notícias militares. Somente no final é que o
coração do remetente transbordou de amor paterno e de saudade das meninas. Mando-lhes todo
o meu amor e um beijo. Diga-lhes que penso nelas de dia, que rezo por elas de noite e sempre
encontro meu maior conforto em seu afeto. Um ano parece muito tempo até eu poder revê-las,
mas lembre a elas que, enquanto esperamos, todos podemos trabalhar, para que estes dias
difíceis não sejam gastos em vão. Sei que elas se lembrarão de tudo quanto eu lhes disse, que
sejam crianças gentis com você, cumprirão fielmente suas obrigações, lutarão bravamente
contra seus inimigos íntimos e terão uma vitória tão bonita que quando eu voltar terei mais
orgulho do que nunca de minhas mulherzinhas.” (ALCOTT,1998, p.16)
Cabe ao leitor imaginar e concretizar o conteúdo desta carta enviado por March. E
mais, a afirmação de que pouco se falava dos perigos enfrentados na guerra leva ao leitor a
imaginá-los. É o que acontece na história de Brooks, onde a carta ainda sendo escrita abre o
primeiro capítulo. Brooks parte das características descritas pelo narrador de Alcott e
recupera a carta que não vemos escrita em Mulherzinhas. As “vividas descrições da vida no
acampamento” (ALCOTT, 1998, p. 16) tomam forma e são, na versão de Brooks, forma de se
esconder a verdade sanguinária que a personagem vive no campo de batalha:
“Escrevo a ela nestes termos: Hoje à noite as nuvens realçavam o céu. O sol poente tingia de
ouro e bronze todos os seus contornos, como se o firmamento fosse entremeado de preciosos
filamentos. Faço uma pausa para esfregar os olhos doloridos, que não param de lacrimejar...
Prometi a ela que escreveria algo todos os dias, mas cumpro tal obrigação quando minha mente
não está conturbada. É como se ela estivesse aqui por um momento; sua mão calma,
delicadamente me tocando o ombro. Dou graças, contudo, por ela não estar aqui, vendo o que
eu vejo, sabendo o que eu vim a saber. E, mediante tal pensamento, justifico minha censura:
jamais prometi que escreveria a verdade...
Penso sempre em cada uma de vocês, na sala, no escritório, em meus aposentos, no gramado;
com livro ou com pena, de mãos dadas com minha querida irmã ou conversando a respeito de
nosso pai, em algum lugar distante, tentando imaginar como vocês estão. Saiba que não
consigo realmente deixá-las, pois, embora meu corpo esteja longe, minha mente as
acompanha de perto e meu maior conforto está na afeição de vocês... Apelo, então, à
premência de meus deveres, e termino com a promessa de logo enviar mais notícias.
(BROOKS, 2005, p.11-12)
Para interpretar o texto, o leitor faz uso de estratégias permitidas pelo autor, ou seja, o
preenchimento de vazios possibilitados por não ditos e negações. Assim, o vazio é ocupado
por projeções, que podem ser modificadas de acordo com as informações que surgem no
decorrer da leitura. Portanto, as projeções podem fracassar, caso elas não sofram mudanças ou
se imponham às informações do texto. Iser (1979, pg. 113/114) ilustra tal situação ao explicar
como o leitor constrói e abonadona imagens ao longo do processo de leitura:
“ A colisão impede a degradação do conhecimento, pois este processo não
conclui, mas obriga o leitor a abandonar uma imagem e construir uma outra.
Ele próprio põe em movimento uma interação de suas imagens, interação que
é articulada pelo texto”
É o que acontece no exemplo citado previamente. Como leitora, Brooks reconta a
mesma passagem do ponto de vista da personagem que não vemos em Mulherzinhas. É como
se no decorrer de sua leitura, ela perguntasse a si mesma: quais os perigos que March passa na
guerra?. Ou ainda: por que ele não os descreve? As respostas são encontradas na narração que
segue a escritura da carta. Brooks aproveita-se da lacuna deixada nas poucas palavras que
Alcott dedica a esta carta, para preenchê-la com um capítulo todo que remete o senhor March
as lembranças dos companheiros de tropa que havia perdido, do sangue que jorrava por todos
os lados, das fugas que haviam praticado nos últimos dias, enquanto tenta mascarar a verdade
na carta que escreve para a família.
A senhora March também ganha voz na releitura de Brooks. Quando questionada pela
filha Jô, na história original, a razão pela qual era tão forte e não havia chorado na ocasião da
partida do pai, a mulher responde (ALCOTT, 1998, p. 105): “Dei o melhor de mim ao país
que amo e guardei minhas lágrimas até ele partir. Por que deveria me queixar, se ambos
fizemos apenas nosso dever e, quando tudo acabar, seremos ainda mais felizes?”
A frase “guardei minhas lágrimas até ele partir” permite ao leitor inferir que na
ausência do marido, a senhora March tenha lamentado a sua partida. O questionamento que
segue, “por que deveria me queixar” também nos faz pensar: por que não? Parece que estes
mesmos vazios também chamaram a atenção de Brooks. Ao imaginar como a senhora March
recebera a notícia de que o marido estava gravemente doente, Brooks recupera este momento
da narrativa de Alcott, preenchendo esta lacuna com as lamentações de uma mulher que temia
perder seu marido para aquela guerra:
“Disse a ele que fosse. Não chorei quando nos separamos. Disse que estava dando o melhor de
mim pelo país que eu amava e segurei as lágrimas até que ele partisse, derramando-as em
segredo. Expliquei às meninas que não tínhamos o direito de reclamar porque todas nós
havíamos cumprido o dever e com certeza ficaríamos felizes por isso no fim. Palavras vazias
na época e mais ainda agora. Que felicidade pode haver se ele morrer neste lugar miserável?
Que felicidade vai haver, mesmo que se recupere? ... Foi loucura tê-los deixado ir. Injusto da
parte dele pedir-me isso. Entretanto, não temos permissão de dizer tais coisas; apenas mais um
item na lista de coisas que as mulheres não devem dizer. Um sacrifício como o dele é
considerado nobre pelo mundo. Mas o mundo não me ajudará a consertar o que a guerra
construiu.” (BROOKS,2005, p.229-230)
Iser (1979,p. 90) lembra que o que não é dito em cenas aparentemente triviais e as
indeterminações dos textos estimulam o leitor a preenchê-lo projetivamente: “jogam o leitor
dentro dos acontecimentos e o provocam a tomar como pensado o que não foi dito”. O calado
adquire vida através da interpretação que o leitor faz. O dito ganha um novo sentido a partir
do não-dito. O que é concretizado pelo leitor é produto derivado da intereção entre ele e o
texto. É interessante observarmos o caso da passagem em que a família March recebe a
notícia de que o senhor March está gravemente doente. Não sabe-se qual sua doença, ou a real
situação de sua saúde. Sabe-se apenas que está em Washington, em um hospital sob os
cuidados de um dr. Hale:
“Ao ouvir a palavra ‘telegrama’, a senhora March precipitou-se para agarrá-lo, leu as
duas linhas impressas e caiu sentada na cadeira, pálida como se o pequeno papel
tivesse disparado um tiro em seu coração...
‘Senhora March: Seu marido está muito doente. Venha logo. S. Hale, Hospital Blank,
Washington’ .” (ALCOTT,1998, p. 197)
Brooks dedica-se a um capítulo inteiro que parece estar enraizado na chegada do
telegrama à família. Como se fosse parte da história, ao ler, Brooks recria a chegada da
senhora March em Washington, seu desespero e ansiedade para ver o marido hospitalizado, os
infortúnios da viagem e os dias que se seguiram na companhia do enfermo.
“ O que resta dele? O que lhe sobra, agora que a guerra e a doença realizaram sua
aterradora alquimia? Pude ver nele as mudanças mesmo antes de balbuciar algo em
delírio. Logo que me trouxeram ao seu leito, hoje à tarde. Achei que tinham me
levado ao leito errado. De fato, não o reconheci.” (BROOKS,2005, p. 232)
“Na verdade, espero nunca mais fazer uma viagem como esta que nos trouxe aqui...
Era uma manhã sombria e gelada quando o senhor Brooke foi encontrar-me para
partirmos - dois ou três dias atrás? - depois de uma noite em claro cheia de
preocupação.” (BROOKS, 2005, p. 233)
As descrições que seguem na narrativa da leitora/autora são da noite da chegada do
telegrama. De como nenhuma de suas filhas pode dormir bem, de como ela não teve
descanso. Temia pelo marido. Ele agora tinha bochechas murchas, como se fosse um rosto de
uma caveira. Quando saiu de casa seus cabelos eram dourados, e agora não os tinha mais,
poucos lhe restavam. Devia ter perdido metade do peso. Tinha febre, a respiração era
irregular e o peito chiava. Diante daquilo tudo, o desespero se fechou na mente da senhora
March e ela se pôs a chorar. Esse cenário do hospital não está presente em Mulherzinhas. Na
narrativa de Alcott apenas temos vislumbres do que está acontecendo através de comentários
tecidos pelas quatro filhas que haviam ficado em Concord e anseavam por notícias do pai. A
partir do momento em que Alcott escreve sobre a chegada do telegrama urgente, Brooks põese a imaginar qual era a doença grave do marido de Marmee. Sabendo que ele está no
Hospital Blank, Brooks recria este cenário em sua mente. Descreve o hospital, os pacientes,
enfermeiros e ex-escravos que por lá circulam. A partir da simples menção de que March está
lá, ela constrói um capítulo que gira em torno do que acontece naquele hospital no momento
em que a senhora March viaja para ver o marido como pede o telegrama. Ela imagina e
preenche algo não dito no texto original: como seria o encontro de Marmee com o médico
Hale? Esta resposta se encontra neste mesmo capítulo, onde o Dr. Hale passa a dar atenção a
Marmee a pedido da enfermeira Grace, velha amiga de March e ex-escrava. Os dois haviam
se conhecido nos tempos de juventude de March, quando ele era caixeiro-viajante e buscava
riqueza. Só então, conclui o narrador de Brooks, Hale vai examinar March e prescrever-lhe o
medicamento que possivelmente irá curá-lo.
Enquanto em Mulherzinhas podemos ver as meninas redigindo cartas endereçadas ao
pai que estava recuperando-se em Washington, em O senhor March vê-se a recepção destas
cartas e o desejo inesperado que elas incitam na personagem principal. Enquanto para Alcott
tudo parece bem, para Brooks um conflito surge. Com as notícias de que o pai melhorara
consideravelmente nos últimos dias, as meninas puseram-se a escrever poemas e cartas para
ele. Em O Senhor March, ao receber as cartas e dar-se conta de que sentia falta das filhas, o
marido de Marmee passa a enfrentar um dilema:
“Meu trabalho - falou num sussuro - não acabou. Os esforços do último ano só deram frutos
podres. Pessoas inocentes morreram por minha causa. Algumas foram arrastadas de volta à
escravidão. Não posso ir para casa, para o conforto e a paz, enquanto não tiver me redimido
das perdas que causei”. (BROOKS,2005, p. 280)
A partir do vazio deixado na fala do narrador de Mulherzinhas, que apenas diz que “a
princípio todas ficaram ávidas por escrever e envelopes recheados eram cuidadosamente
colocados na caixa de correio...” (ALCOTT,1998, p. 211) , a leitora Brooks imagina estas
cartas chegando às mãos de seu destinatário e o que elas podem desencadear em um homem
que havia sofrido tamanha perda durante a guerra.
Os segmentos dos textos a serem conectados dependem de como o leitor preenche os
vazios. “Em vez de uma necessidade de preenchimento, eles mostram uma necessidade de
combinação. Apenas quando os esquemas do texto estão inter-relacionados é que o objeto
imaginário começa a se formar” (ISER , 1972, p. 106). Ou seja, quando o leitor constrói
hipóteses a partir do não-dito implicito no dito, é que a interpretação se realiza. A negação é
também uma maneira de construir o vazio. Quando em um texto diz-se “não”, implicitamente
podemos acessar o “sim”, o lado oposto. É o caso que ocorre nos trechos que seguem sobre a
febre escarlatina que abate uma das meninas March, Beth. A ordem dada às irmãs é de que
elas não informem à mãe sobre a doença de Beth. O leitor coloca-se a pensar: “e se ela
recebesse a informação, o que aconteceria?”. De fato, a informação chega até ela em
Washington através de um telegrama do vizinho Laurence. A reação do pai que recebe a
mesma notícia é somente vista em O senhor March:
“Beth teve mesmo escarlatina e ficou ainda mais doente do que qualquer pessoas suspeitaria...
Meg permanecia em casa, para não contaminar os Kings, e fazia o serviço doméstico, sentindose muito culpada quando escrevia cartas nas quais não se fazia qualquer menção à doença de
Beth. Não conseguia achar correto enganar a mãe, mas esta lhe dissera para obedecer a
Hannah, e Hannah não queria saber de ‘apoquentarem a sr. March por causa de uma ninharia’.”
(ALCOTT,1998, p. 224)
“Senhor, eu... não quero incomodá-lo, mas infelizmente tenho notícias não muito boas... Parece
que a jovem Beth está com escarlatina há alguns dias, e a senhora Mullet pediu às meninas que
não dissessem à senhora March, sabendo que ela precisava ficar com o senhor... Enfim, ela
partiu ontem à noite, e deve chegar nas primeiras horas do dia, amanhã. Deixou um bilhete
para o senhor... Agora você vê como é necessário estarmos juntos. Lembre-se de que somos
uma família. Acalente a esperança comigo, e volte para nós assim que puder”. (BROOKS,
2005, p. 285)
A reação de March resume-se a preocupação. Começa a imaginar sua “ratinha”
culpando-o por tê-la abandonado. Beth sempre fora delicada. Seguindo a hipótese que
construiu ao concretizar a história previamente, a leitora Brooks recorre ao fato de que o
senhor March não desejava mais voltar para casa. O bilhete deixado pela mulher que volta ao
socorro da filha não existe em Mulherzinhas. Aliás, lá nada sabemos de como a notícia foi
recebida em Washington. A partir do conhecimento de que Laurence envia um telegrama em
segredo para Marmee, Brooks imagina e concretiza em seu texto a idéia de que o senhor
Brooke deu a notícia ao senhor March e que a senhora March não tendo tempo de se despedir
em razão da urgência da situação, teria deixado-lhe um bilhete. Tal bilhete funciona como
uma consciência que busca fazê-lo despertar para a importância de retornar para Concord e
largar a guerra.
Um último trecho da história parece nos permitir, por fim, a interpretação de que a
obra de Geraldini Brooks é uma leitura da novela de Louisa May Alcott. Já descrevendo a
felicidade que se espalhava com a volta do senhor March à casa da família, o narrador de
Alcott sente-se livre para se direcionar ao leitor na passagem que segue:
“O senhor M arch contou o quanto desejara surpreendê-las e como o médico permitira
aproveitar o bom tempo para viajar. Falou da dedicação de Brooke e do quanto ele era um
jovem prestimoso e honrado. Deixarei o leitor imaginar por que o senhor March fez uma pausa
nesse instante, depois de dar uma espiada em Meg, que estava atiçando o fogo com
impaciência, e por que se voltou para a mulher com um olhar interrogativo.” (ALCOTT, 1998,
p. 268)
As hipóteses que o leitor pode construir a fim de concretizar esse vazio são as mais
variadas. Algo havia acontecido com Meg, não há dúvidas. Conclui-se isso a partir do
testemunho de que o marido lança um olhar interrogativo à mulher. Mas porque ele fez uma
pausa? No que estava pensando? Indo um pouco além da concretização, Brooks deixa sua
imaginação fluir para encontrar as respostas destas perguntas. E ela o faz de maneira coerente
a narrativa que constrói em torno da personagem principal de seu livro. O senhor March havia
sofrido muito enquanto esteve com os batalhões da União. Havia visto atrocidades, ainda
lembrava daqueles que morreram inocentemente e daqueles que foram forçados a voltarem ao
trabaho escravo, mesmo que a abolição já os houvesse garantido o direito a liberdade. O
detalhe da pausa, faz Brooks imaginar March olhando para a mão da filha que atiça o fogo
impacientemente:
“Alguma coisa mencionada no decorrer da conversa me fez olhar a mão de Meg. Parecia
enrugada e queimada. De repente, não era a leve queimadura de fogão que eu via, mas a carne
destroçada de Jimse, com a cicatriz em forma de teia de aranha, que não lhe permitia abrir
totalmente a palma. Minha preocupação era que aquela mão poderia lhe causar problemas mais
tarde na vida; mas, agora, ele não tinha mais vida”. (BROOKS,2005, p. 296)
A mão da filha estava queimada e a queimadura lhe lembrava um companheiro
perdido em batalha. Enquanto a filha poderia ter problemas para conseguir um bom
casamento, por estar esteticamente “defeituosa”, o amigo não voltaria a viver. A dor que lhe
causava a lembrança, para Brooks, é o que o fez pausar sua fala.
A teoria da leitura, como postulada por Wolfang Iser, apresenta a relação construída
entre texto e leitor no ato da leitura. Ao entrar em contato com o leitor, a obra é concretizada.
Assim, o leitor constrói hipóteses a partir de projeções do que é implícito ou do que não está
dito. As projeções se confirmam ou não, de acordo com o que dá segmento a obra. Por isso, a
atividade do leitor durante a leitura se faz necessária, uma vez que sem ele a leitura não é
efetivada. A teoria em questão não acredita que o leitor seja apenas um receptor do texto, e
sim, que este é também seu co-autor, sendo sujeito ativamente participante na concretização
da obra literária. O que é verificado em Mulherzinhas, texto que permitiu a Geraldini Brooks
reconstruir a história de uma personagem nebulosa no texto de Alcott.
A concretização é feita através das lacunas deixadas no texto pelo autor para que o
leitor as preencha. Esse espaço do leitor, como vimos nos paralelos traçados no presente
ensaio, podem aparecer de diversas formas, desde a negação de um fato, ou até mesmo a falta
de informação. O leitor imagina-se no lugar das personagens para que simule suas ações e
crie projeções a respeito delas. É o caso que vemos em Brooks, quando esta recupera a
chegada da senhora March em Washington, onde o marido enfermo está hospitalizado após
sofrer ferimentos durante a fuga de um ataque inimigo. Na falta de mais informações sobre o
que acontece no hospital, Brooks remonta o que imagina ser correto. Dá vida àquilo que
Alcott apenas cita ligeiramente com a chegada do telegrama urgente do Dr Hale e recorre às
informações de que o pai melhora com o passar dos dias, para em sua história descrever como
se deu essa recuperação.
O autor ao escrever a obra literária desafia o leitor a interagir com o texto, criando
expectativas, levantando hipóteses em relação às projeções, corroborando-as ou não
confirmando as pretenções do leitor. Tal fato acontece de maneira clara, quando Alcott
solicita que o leitor ponha-se a imaginar a razão pela qual o senhor March pausa sua fala ao
ver a filha estressar-se com o fogo. Brooks aceita o convite e como que em um pacto, o
responde de maneira coerente com a trama que construiu a partir das pistas deixadas por
Alcott em Mulherzinhas.
Por fim, nos resta concluir que através das pistas deixadas no texto, o autor conduz a
leitura para que ela se efetive, deixando que o leitor identifique-se com as ações da obra. As
hipóteses que esse leitor vai levantar dependem de seu conhecimento de mundo e, por isso,
cada leitor concretiza a obra a sua maneira. Brooks aceitou o pacto e partiu das informações
fornecidas por Louisa May Alcott para construir a história da persoangem que menos tem
destaque na novela original. No entanto, no posfácio de seu livro, admite que apenas cobrir o
hiato que foi deixado como rastro para seguir em Mulherzinhas não lhe foi o suficiente para
caracterizar a personagem do senhor March. Para tanto, Geraldini recorreu a pesquisa de
campo, entrando em contato com literatura sobre como era a vida dos ministros religiosos que
lutavam junto às tropas da União, e principalmente com o estudo aprofundado da biografia de
Bronson Alcott, pai de Louisa. A idéia de basear a personagem no pai da autora é oriunda do
fato de que a própria Louisa baseou-se em si e em suas irmãs para criar o enredo de
Mulherzinhas. Assim, Brooks recorreu ao seu conhecimento de mundo e buscou aperfeiçoá-lo
com o propósito de melhor concretizar a história que lia. O hospital descrito em O senhor
March também é fruto de pesquisas, baseado em Hospital Sketches, escrito por Alcott sobre
seu breve período de serviços prestados como enfermeira durante a Guerra Civil. Podemos
afirmar, assim, que Mulherzinhas permite uma relação dialética ( e por que não dialógica?!)
entre texto e leitor, já que a partir dessa obra Geraldini Brooks lê, cria, formula e reformula a
visão daquele que seria o pai da família March.
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O Senhor March: uma possível leitura de Mulherzinhas