16.7. Entrevista com o senhor Alírio José Borges, sócio e ex-presidente
do Circulo de Trabalhadores Cristãos de Uberlândia em 21 de dezembro de 2009,
às 20 horas na sede do Circulo.
Marília: Eu queria que o senhor falasse um pouco do senhor, como é que o senhor se
tornou associado?
Alírio: Eu entrei como sócio aqui em 1971m né? Tem um senhor aqui que era o
presidente, o José Vicente Melo que é um dos fundador do Circulo de Uberlândia, ele
me convidou pra ser sócio, eu aceiteim né? E aí, a partir de 1974 eu aceitei um cargo
aí numa eleição de segundo tesoureiro.
Marília: Mas tem um bom tempo, né?
Alírio: Têm. São 39 anos, né?
Marília: Bastante, né?
Alírio: é, quase uma geração né?
Marília: E... o que o motivou? Foi a amizade? Como é que foi?
Alírio: Bom a gente sempre, a gente sempre vinha aqui né? Quando eles faziam uma
assembréia, uma reunião mensal. Aí eu fazia parte da paróquia Nossa Senhora
Aparecida, numa associação religiosa, né? Que se chama Congregação Mariana, e
nóis era convidado pá vim, e a gente vinha, um punhado de congregado e assistia as
assembréia, vinha um padre assistente religioso da federação do Circulo de Belo
Horizonte né? O padre Ari de Freitas e outro diretor. A gente vinha pá achava bom as
reuniões né? Sentia bem, tinha umas palestras boa.
Marília: Nessa época o Circulo era muito ativo? Tinha muitos sócios? Já tá em 73, já é
ditadura.
Alírio: Olha, em 1971, 74 já estava assim, pelo menos em Uberlândia já estava assim,
bem um declínio quanto ao número de sócios, bem em declínio né? Que eu tava
falando com ele aqui, o circulismo como que destroncou o pescoço com o AI5 também
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né? 1968 o governo militar né? Então, como um trem de ferro que vai vai e
desencarrilha né? Bomba né?
Gustavo: E como é que se deu esse processo? Como é que o Circulo sentiu o AI5?
Alírio: Olha, é o seguinte, o circulo é um montado pra ir de encontro aos trabalhadores
no sentido de lutar pela justiça social conforme nos ensina a igreja né? Ao começar
com as encíclica do Papa né? Como a Rerun Novarun, que abriu um caminho dos
trabalhadores mundiais né? De reuni, lutar por seus direitos, criar seu Circulo, a sua
associação, o seu sindicato né?
Gustavo: Uhunn
Alírio: Até Leão XIII pode-se dizer a Igreja fazia um trabalho assim de assistência,
caritativo né? Mas a partir de Leão XIII aí ela passou a fazer um trabalho sistemático
de fazer com que dê ao operário aquilo que ele tem direito por justiça né? Começou
um trabalho assim né? Então essa doutrina social da Igreja tornou uma coisa, uma
tema da Igreja, a partir da Rerun Novarun daí a quarenta ano o Papa Pio XI publicou a
Quadragésimo Anno. Os Papa que mais publicaram encíclica sobre a questão
operária e a questão social, foi realmente o Leão XIII, Pio XI, o Papa João XXIII, Paulo
VI, João Paulo II, bastante né?
Marília: Mas para ser sócio do Circulo o trabalhador tem que estar envolvido com o
movimento, com a restrição?
Alírio: Não, o Circulo Operário é uma sociedade civil, né? Na verdade é feito pelos
operários católicos, apoiados pelo clero mas aberto a pessoas de qualquer condição,
as vezes até sem condição nenhuma. As vezes tem uma pessoa capaz de construir,
capaz de boa vontade né, não há restrição né? Não é aberto né?
Gustavo: E a opção política?
Alírio: É apartidário, né? Não há restrição a opção política, é apartidário.
Gustavo: É por que o movimento operário principalmente no início, ele tinha uma
tendência meio divergente da igreja.
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Alírio: É! Exatamente!
Gustavo: O senhor acompanhou isso?
Marília: Você fala mais do comunismo, né?
Alírio: A sim! Na verdade, nós vamos respondendo, pode ir fazendo as pergunta que
nós vamos respondendo, né? Vamos conversando!
Marília: Isso.
Alírio: Na verdade...
Marília: Aqui em Uberlândia teve um foco do movimento comunista forte...
Alírio: Aqui na verdade, nos quarenta anos passados, cinqüenta, era chamada
Moscou.
Gustavo: A “Moscou Brasileira”.
Alírio: É. Por que naquele tempo também, devido a violência do comunismo na
Rússia, contra os cristão, contra as igreja, na cortina de ferro na China pra todo lado.
Então realmente a Igreja fazia uma oposição muito forte ao comunismo. Pela sua
ação, sua prática da escritura, da fé, da Igreja, do cristianismo e também pelos seus
princípio, sua doutrina materialista.
Gustavo: Que não é espiritual.
Alírio: Isso, que nega a transcendência do homem né? Que a vida é só aqui, que não
há céu, não há inferno, o povo não tem alma, morreu cabo. Uai isso aí pra religião é
uma bomba né? Quem acredita em Deus, como é que vai aceitar isso né? Então a
Igreja teve que combater os princípios. Como se combate o princípio? Combate com
outro Princípio, ensinando, doutrinando, evangelizando né! O combate é esse, não é
com violência, nada disso. Pra nós católico, um argumento combate outro argumento
né?
Gustavo: E a relação do Circulo com outras organizações, por exemplo, o sindicato?
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Alírio: Sempre foram boas, sempre foi amigável. Pode-se dizer que eles deram a mão
até. Sabemos que, quando criou-se o sindicalismo brasileiro, as organizações de
esquerda, comunista que estava aqui no país elas infiltraram nos sindicatos, por que
lutavam pelo social né? Pela justiça social, e os comunistas também se apresentaram
como os salvador dos pobres. Certamente tiveram muita coisa nesse sentido, não
vamos dizer que só... só fizeram... nada disso, vamo se claro, né? Mas eles queria
construir uma sociedade sem Deus né? Negando aquilo que é fundamental no ser
humano né? Sua alma, sua fé, sua fé em Deus né? E até combatendo, né? Não só o
ateísmo mais antiteista né? Contrario aos que crêem. Diziam que a religião era um
veneno, era o ópio do povo, um entorpecimento. É possível conforme a gente pratica a
religião ela torna uma alienação mesmo né, pode se tornar até um ópio, fanatismo né?
Pode até a religião dopar as pessoa e ela não vê a realidade né? Mas não é o caso do
cristianismo sadio e autentico. Né? Esclarecido. É diferente né, o que a Igreja nos
ensina em matéria de ação social é muito claro né? Muito claro e evidente, qualquer
um entende né? O princípio é esse ó, Deus criou o mundo pra todos né? Então a
doutrina social da Igreja prega a predestinação universal dos bens pra todos os seres
humanos, não só prega, mas procurou criar instrumentos né, formar pessoas, agentes
pastorais para agir nisso aí.
Marília: Quando começa o movimento sindical aqui em Uberlândia? Quando é que
surge o primeiro sindicato? Inclusive eu vejo aqui, que um dos presidentes era do
sindicato dos trabalhadores da construção civil né, o Custódio Sobrinho.
Alírio: Ele foi circulista é que não é do meu tempo.
Marília: Tiveram vários sindicalistas?
Alírio: Tiveram
Marília: Participaram?
Alírio: Participaram.
Marília: Como ele que foi presidente?
Alírio: É.
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Gustavo: O senhor mencionou anteriormente que o Circulo é... dava os cursos de
liderança né? Formava as lideranças do sindicato.
Alírio: Isso, é.
Gustavo: Mas essa relação se dava por meio de parceria, o circulo não era vinculado
a um sindicato, ou era?
Alírio: Não o Circulo é autônomo né. O Circulo não tem nada mais autônomo de que o
Circulo. Ele é independente. Até com relação a Igreja ele é independente. Com
relação ao sindicato é independente né? É uma sociedade civil registrada em cartório
de trabalhadores pra trabalhadores, é dirigida por trabalhadores e trabalhadoras né?
Sempre foi assim. Agora como... como cristão, católico ou não, esse trabalho do
circulismo tem uma característica que ele feito tendo como base o princípio a Doutrina
Social da Igreja, né, eu falei que começou de uma maneira sistemática, a partir do
papa Leão XIII. Ele era um homem preocupadíssimo com o problema dos operário, foi
bispo de perúgia na Itália, uma região industrial. Os operário era tratado igual os
animais, igual os cachorro... hoje os cachorro são até bem tratado né? Mas
antigamente o cachorro chegava assim a volta a gente dava nele um coice né?
Antigamente era assim né, então o operário tanto faz eles morrer como não, os
detentor do poder não tava nem aí né? Então o Leão XIII viu isso, sentiu isso na carne,
lutou ao lado dos trabalhadores. Então quando ele foi eleito pontífice, aí ele fez uma
ação muito grande na Europa e deu uma repercussão muito boa né? Não só pra criar
os chamados Círculos Operários dos trabalhadores cristão, esse movimento tem
diversos nomes na América, na Europa, no mundo né? Todos embasados nessa
doutrina social do Leão XIII, Doutrina Social da Igreja né? Que ensina o cristão a não
sei egoísta, a não ser acomodado, pra não pensar em salvar só a sua alma né? O
homem não é só alma, é corpo também né? Então o alimento pra vestuário, o
remédio, a educação a cultura né, tudo que o progresso criou as pessoas tem direito
de participar né? É isso, a luta é essa. Né?
Gustavo: É... voltando a ditadura, com a institucionalização do AI 5 as organizações
trabalhistas foram é...
Alírio: Muito prejudicadas.
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Gustavo: Perseguidas e tal...
Alírio: É.
Gustavo: Mas e a Igreja? Como se procedeu esse apoio da Igreja? Qual foi o
posicionamento dela?
Alírio: Vamos dizer assim né... O Circulo Operário no Brasil foi fundado por um padre,
padre Leopoldo Bretano, no Rio Grande do Sul na cidade Pelotas em 15 de março de
1932 né... ele visava atender esses apelos do papa Leão XIII e do papa Pio XI que
publicou a encíclica quadragésimo anno né... essas encíclicas com valor social e ia de
encontro com os trabalhadores, os injustiçados, do que sofriam bastante, só que até
hoje, é um problema que tem que cuidar dele diariamente né... nunca pode parar, por
isso nós achamos que nunca pode parar um circulo operário, nunca pode parar um
sindicato, nunca pode parar essas forças vindas dos trabalhador, associação de
bairro, tudo isso, tudo tem seu valor, agora, as vezes falta gente que crê e que ama as
causas, ama as causas, realmente da a vida pela causa social. Bom então vamo dizer
o seguinte... da Igreja: quanto o padre Leopoldo começou com o Circulo Operário em
32, na década de 30, já havia na verdade, muitos movimentos similares, já havia aqui
em Belo Horizonte, São Paulo, muito mais no nordeste, mas era coisa da Igreja, coisa
de Católico né... Trabalhadores de São José, todos esses movimentos assim né... mas
eram isolados... isolados né... e as veiz eram apegado as suas tradições, havia um
certo bairrismo né, as pessoas não queria se abrir, se... aderir um movimento de
âmbito nacional. Quer dizer, o padre Bretano teve que fazer um trabalho também de
conscientização... nesse sentido...
e motivar o clero, o apoio da hierarquia
eclesiástica, e ele foi conquistando, ele falava muito bem, escrevia muito bem, era um
líder nato, conhecia muito bem o problema social, o problema dos trabalhadores,
estudioso afundo né.... Então ele era um apaixonado pela causa. Ao mesmo tempo
era um sacerdote autentico também, pode dizer um homem santo até, fervoroso, ele
entregou todo o movimento a proteção de Nossa Senhora Medianeira santa dos
operários. Então é um movimento que procura as pessoas, cristãos militantes,
pessoas de fé, pessoas capaiz de doar, doar até a vida se for preciso, num
voluntariado, não espera nada em troca, né... uma doação. Só que ele conseguiu, com
tempo ó de 1932 a 1937, cinco anos, ele já tinha conseguido com a sua influência
formar CNOC – Confederação Nacional de Operários Católicos, que congregou
aqueles movimentos isolados que existiam, o Círculo ele fundou, e as federações nos
estado, com suas diversas organizações de benefício dos trabalhadores e
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trabalhadoras, conseguiu é... englobar tudo né... na Confederação Nacional de
Operários Católicos fazendo dela uma frente única dos operários católicos em todo o
Brasil, tornou o movimento forte, bem arrojado né... então o apoio do clero, dos
católico, tudo ajudou bastante, e não só isso, não só isso... o presidente Getúlio
Vargas, é importante falar isso, ele criou vamos dizer, ele criou um espaço favorável
para os trabalhadores, soube ver essa parte que até então não se via no Brasil. O
presidente antecedente dele dizia que a questão operária é questão de polícia, reunião
de operário né... repressão nele, então ele era da elite né, tinha a chamada elite do
café-com-leite né... o leite é os mineiro né, os coroneis de minas, e o café os coronéis
de São Paulo e aí vinha também os banqueiro, industrial, tudo isso. E tinha que fazer
as lei e passar na camara federal, no senado pra depois o presidente dar o veredicto
dele né? Talvez ele tenha fechado o congresso por que fosse muito difícil passar tudo
isso naquele tempo. Por que os Círculos encontram muita barreira, muito obstáculo.
Marília: Quais foram as conquistas do Circulo nesse momento?
Alírio: Os Círculos Operários, eles... eles não são assim executivo né...
Marília: Não chegam a fazer proposta?
Alírio: Eles agem assim, conciliadores mas ao mesmo tempo, eles passa a doutrina
dos papa para os operário, para os católico, o povo né... evangeliza vamo dizer assim.
Evangeliza o setor da economia, o setor social, o setor da política, que as vezes ele é
visto como coisa ambijeta né, como coisa mundana por muitos católico, muitos cristão,
achavam impróprio um católico fervoroso se ocupar com essas coisas, sindicato, coisa
de operário, coisa de política, coisa de partido, achavam isso uma extravagância né...
porque... muitos tinham uma mente assim muito acanhada, eu mesmo achava
estranho né... mas depois a gente vê que o mundo... tudo que Deus criou bom né...
tudo tem que ser bem cuidado, bem administrado... e tudo tem o seu motivo de ser,
tem o seu valor.
Marília: Então o Circulo não tinha uma proposta de fazer aprovação de lei?
Alírio: Tinha. Tinha proposta. A proposta que é apresentada pela doutrina social da
Igreja, por exemplo: reduzir as hora de trabalho pa oito horas diárias, essa proposta foi
passada na Alemanha pelo padre (21:13)??? Que fundou em 1846 em Colônia, o
primeiro Circulo Operário, já com essa proposta, descanso semanal, seguro, férias,
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salário justo, essa foi a proposta, lutou por isso, quer dizer... ensinou isso, militou em
cima disso, fazia passeatas, pregava cartazes, usava imagem, jornal, livro, tudo o
Circulo usou pra propagar as suas idéias. E reunir as pessoas, quer dizer já é a força
da Igreja né... com o apoio do clero, com o apoio do episcopado... e depois... não só
isso, naquele tempo já existia a Ação Católica Brasileira, foi criada a CEBs, por que os
movimentos sociais cristãos católicos... ele pressupõe assim, vamo dizer foi concebido
na Bélgica né? Os belgas foram os que deram os primeiros passos nesse sentido, e
apareceram os chamados católicos sociais que envolvem essas coisas assim que um
o individualista acha que tava errado, acha que o católico tem rezar, tem que ajudar o
outro a salvar a alma, tem que rezar, mas não é só rezar, cristo não só rezou, os
apóstolos não só rezaram, eles agiram, trabalharam, lutaram. Quer dizer, Cristo matou
a fome de multidões, defendeu os fracos diante dos grandes né... lutou contra o
sofrimento do ser humano de todo tipo, até a morte em cruz, por que que nós vamos
ficar parado de braço cruzado não faze nada?
Marília: É... no início a gente percebe, pelo menos aqui no pouco que eu li, por que
ele que pesquisou mais a questão da história, é que sempre havia um padre que dava
orientação, hoje isso não tem mais?
Alírio: Não, é o seguinte, disse que o circulo operário é dirigido pelos próprios
operários mas na diretoria sempre tinha um assistente eclesiástico para orientar o
circulo dentro da doutrina social da Igreja, por que ela é uma matéria da Igreja e é uma
teologia moral, é uma doutrina. E é preciso de alguém que têm o conhecimento né...
como um padre, ou um leigo preparado ou até uma freira, um professor, de que
houvesse alguém que que doutrinasse a diretoria e os sócios dentro desses princípios
sociais cristãos da doutrina social da Igreja, como agir no mundo do trabalho como
cristão, como agir no mundo da política, como agir na economia né... isso.
Marília: Mas aí pode, inicialmente era um padre...
Alírio: Era um padre.
Marília: ... era designado certamente pelo bispo...
Alírio: Isso.
Marília: Hoje já não tem mais isso?
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Alírio: Em tese tem. Em tese tem, por exemplo, nós temo aqui o Antônio, ele é um
estudante de diaconato, e ele foi designado pelo bispo Dom José Alberto...
Marília: A então ainda têm...
Alírio:... pra ser o nosso assistente religioso né. O Antônio estudante de diaconato né.
Então quer dizer, nós temos um assistente religioso, ele faz a abertura da reunião, faz
uma oração, mas durante dez minuto, ele passa uma mensagem pa nóis. Esse é o
papel do assistente. E faz parte da diretoria, e ele tem direito a veto, se uma proposta
vier a ferir os princípio do circulo ou mesmo até atentar contra o patrimônio, uma
proposta que for imoral ou má, ele tem o direito até de vetar... como assistente
religioso né, o homem, vamo dizer assim... responsável né, pela moralidade, pela
ética, ele tem a autoridade lá, e sempre foi assim, desde o início.
Marília: Tem no estatuto?
Alírio: Tem no estatuto.
Gustavo: Eu não vi essa cláusula, mas vou pegar a ultima versão e investigar...
Marília: Não, por que assim... eu to perguntando pra ele por que ele leu com mais
atenção...
Alírio: Sim.
Marília: O estatuto né... ele diz que não está lembrado mas vai verificar.
Alírio: Ta.
Marília: Então a Igreja continua fazendo a sua assistência?
Alírio: Olha desde que o Circulo procura o bispo e a Igreja ela não deixa de antender
né... não deixa de atender, mas não tem mais o fato da Igreja, devido muita mudança,
um concílio ecumênico Vaticano II, depois a revolução que houve no Brasil, os
Círculos Caíram muito, então já não causava muita atração né... e a Igreja começou a
fundar pastorais né... Pastoral Operaria, Pastoral da Terra né... e muitos tipos de
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pastorais, pastoral da criança, pra tudo né... então ela criou outros tipo de movimento,
pra engajar os católico os cristão nessas muita frente de trabalho. E no tempo dos
Circulo Operário não tinha essas coisa, o campo tava aberto, tava vago, ao mesmo
tempo no Brasil tava tudo como que tudo por fazer... até mesmo o Ministério do
Trabalho, da Industria e do Comercio criado pelo governo Getúlio Vargas tinha muita
dificuldade pra atingir o país, o país é um continente, não tinha nem estrada naquele
tempo né... meio de comunicação era muito carente, né mesmo? Então devido os
Circulo Operário ser, a Igreja arrumava as sede na paróquia pra eles reuni,
proclamava os católico pra auxilia, se torna sócio, então a Igreja tinha mais condição,
de atingir o país, e os Círculos Operário tano na sombra da Igreja ajudaram muito o
Ministério do Trabalho a chegar onde ele não chegaria nunca naqueles tempo. Né?
Daí que entre o Ministério do Trabalho vamo dizer assim, sindicato e os Circulo
Operários sempre houve... deram as mão vamo dizer. Independente, o sindicato
independente do Circulo e o Circulo do sindicato. Cada um tem uma característica
né... mais eles davam as mãos né... o Circulo fornecia elementos preparados até pra
formar sindicatos, aqui mesmo dentro do Circulo... aqui, foram formados uns três
sindicatos aqui dentro, o da construção civil, o dos metalúrgicos, a Associação dos
Marcineiros, ainda tem ela hoje, foi fundada aqui dentro... iniciou aqui, depois na hora
que for falar do patrimônio a gente explica o que foi isso aqui antes né... (risos)
Marília: Só uma curiosidade...
Alírio: hnnn
Marília: Quando o Circulo chega a Uberlândia já havia essas associações de
trabalhadores cristãos, como senhor mencionou os de São José, o que era, o que
havia aqui?
Alírio: Quando foi fundando o Circulo Operário de Uberlândia, foi em 17 de Dezembro
de 1942, dez anos depois de fundar o primeiro Circulo né... que foi em 1932, em 1937
já havia uma CNOC né... que englobou todos esses movimentos isolados né, São
José e outros mais que tinha em diversas partes do Brasil, mais no nordeste...
Marília: Aqui em Uberlândia tinha?
Alírio: Olha que eu saiba não.
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Marília: Não.
Alírio: Não. Que eu saiba não. Eu cheguei em Uberlândia em 1958 né... e eu naquele
tempo é... não participava de nada também, eu era da roça né, então eu não conhecia
também esse lado... parece que não tinha. O que houve aqui, quando construiu esse
colégio Nossa Senhora das Lágrimas na década de 40 por aí, um mundo dum colégio,
que Uberlândia não tinha 10%, não era 10% do que ela é hoje né, construir um colégio
desse tamanho é sinal que as irmã sonhava bem alto né, e realmente deu certo, por
que isso formou gerações de pessoas né... forma até hoje não é mesmo? É magnífico
isso aí. E então os que tava trabalhando na construção do colégio foram preparados
para ser sócio do Circulo que ia fundar em Uberlândia...
Marília: Quem fez a preparação deles...
Alírio: Foi a irmã Dulce, tinha uma irmã chamada irmã Dulce... muito interessada na
justiça social, nos problema dos trabalhadores, então ela instruiu os trabalhadores.
Gustavo: E onde foi a sede, em 1942?
Alírio: Olha o Circulo Operário ele teve diversas sedes, tem até aí uma relação, a rua,
a sede onde ele funcionou até instala aqui né... funcionou em diversos lugares, mas
deve ter começado lá, talvez no colégio lá mesmo, já tava em construção, já tinha sala
aquelas coisa né...
Marília: A partir daí...
Alírio: Se reuniram lá mesmo, nos começo, nos início, depois foi alugando sede aqui,
sede ali, muda daqui, muda dali, até instala aqui nesse local.
Gustavo: Nossa Senhora...?
Marília: Nossa Senhora das Lágrimas, hoje é o Nossa Senhora...
Alírio: Nossa Senhora da Ressurreição, hoje é o Nossa Senhora da Ressurreição
né... mas Chamava Nossa Senhora das Lágrima né... o colégio.
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Gustavo: O Circulo chegou a construir escola de circulista também não é? Escola pra
alfabetizar, escola pra...
Alírio: Aqui!
Gustavo: Ah a escola era aqui?
Alírio: Aqui foi a escola. Tinha.
Gustavo: Ah sim.
Alírio: Isso quando, 1945, tinha um padre lá na.. bairro Aparecida, chamava Vila
Operaria, tinha uma igrejinha, chamava padre João Batista acho que ele era belga, ou
descendente de alemão não sei, ele era muito interessado em escola também né, um
homem culto, interessado. Ele ajudou a fundar escola, o Circulo Operário fundou um
grupo lá, ele incentivava muito os grupos muito, apoio a construção dessa escola né...
aqui também na sede tinha escola de alfabetização.
Marília: Era uma escola de alfabetização dos sócios, mas ela era aberta, não era só
dos circulistas.
Alírio: Não, não, era aberto.
Marília: Qualquer trabalhador?
Alírio: Aberto. O Circulo sempre foi aberto né... não só pros sócio. Sempre procurou
agir dessa forma.
Gustavo: Alguma pergunta?
Marília: É aí, vamos falar aqui da construção da sede, por que... o que nós sabemos é
que adquiriu-se esse terreno né... aonde existia esse primeiro, era uma oficina, um
barracão... e que depois contrataram a construção deste aqui. Eu estou com esse
trabalho aqui, esse trabalho foi feito por alguns alunos meus a um tempo atrás,
inclusive...
Alírio: Já fizeram pesquisa aqui então?
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Marília: Fizeram, fizeram entrevista com o senhor...
Alírio: Devem ta sabendo mais que eu , por que a memória...
Marília: Não... (risos)
Alírio: Esse setor de construção, patrimônio, isso aí eu não...
Marília: Que foi quando nós assim tivemos contato com o Circulo...
Alírio:... nunca foi meu forte não mais... que sabe...
Marília: Mas olha aqui, essa imagem aqui, essa fotografia, diz que é uma fonte do
Circulo, nós não localizamos essa fotografia, que essa seria a fotografia duma fachada
que existia aqui que mudou né?
Alírio: A oficina era aqui mesmo. Foi aqui mesmo. Aqui era uma oficina né, isso aqui
passou por diversas reformas.
Marília: O que tinha era uma casa no terreno né?
Alírio: A casa me parece que era lá no fundo, pra lá... né, uma casa veia, depois
desmanchou e fez uma outra. Isso deve ter sido coisa dos anos 40, nem em
Uberlândia eu não estava né?
Marília: Não foi 45. É foi 45.
Alírio: É eu cheguei aqui em 1958 né.
Marília: É
Alírio: Em Uberlândia né.
Marília: Essa foto, o senhor não sabe onde ta essa foto não? Com quem estaria essa
foto?
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Alírio: Olha eu digo pra senhora que... salvo o engano eu to vendo essa foto a
primeira vez.
Marília: é?
Alírio: é!
Marília: Pois é, fala que a fonte é daqui do Circulo e a gente não encontrou a foto.
Deve ta perdida aí, vocês não acharam essa foto.
Gustavo: Não.
Marília: Que alguém que é... elas escanearam a foto.
Alírio: Isso aqui é o histórico né? “Imediatamente a construção as reuniões do Circulo
Operário passaram a ocorrer no barracão”, exatamente, é aqui, esse é o barracão.
Marília: Aí ele tinha, o que eu entendi aqui é que tinha essa parede né?
Alírio: Aqui se tinha algum imóvel antigo, deve ter sido desmanchado pra construir
esse galpão, chamava galpão né?
Marília: Esse de lá ou esse edifício aqui?
Alírio: Não é esse edifício aí.
Marília: Chamava galpão isso?
Alírio: Tinha nome de galpão isso né?
Marília: É por que ele é um espaço vazio embaixo.
Alírio: É.
Marília: Mas aí, na escritura fala que os operários trabalharam na construção disso, o
senhor ouviu contar isso?
Alírio: Daí?
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Marília: É.
Alírio: O que eu sei é que aqui tinha um mestre de obras... ele era da Sociedade
Vicente de Paula, isso deve ter sido construído, me parece, até 19... a construção
deve ter terminado por volta de 1955, 56 no máximo.
Marília: Isso.
Alírio: Essas construções né? O que eu sei, que o senhor José Vicente, ele morou
aqui, o fundador... ele sabia, qualquer peça que o Circulo tinha ela sabia onde tava,
sabia tudo... ele sabia conta toda essa história aqui né, mas já falecido.
Marília: É, quanto foi que ele faleceu?
Alírio: Ele faleceu em 2001.
Marília: Pois é, eu acho que os alunos entrevistaram...
Alírio: É deve ter entrevistado.
Marília: É será que essa imagem, fotografia era dele.
Alírio: Talvez seja, ele conhecia isso aqui bastante. Alias ele que cuidava do
patrimônio, anotava tudo...
Marília: Ele também foi (presidente) não é isso? O sogro dele também foi...
Alírio: Hein?
Marília: Foi presidente também?
Alírio: Não ele foi... ele era um homem idoso né? Zé Vicente nasceu em 1914, se
tivesse aí tava com o que? Quais cem ano né?
Gustavo: Houve apoio da prefeitura na construção do Circulo? Ou ao longo da...
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Alírio: Na construção desse galpão aí o que houve foram campanhas de pedi ajuda
em dinheiro, em material, um livro de ouro né... aqui tinha um dos fundador, chamava
Caio Lima Santa Cecília.
Marília: Isso.
Alírio: Esse homem era funcionário do Banco do Brasil, (...) na cadeira agrícola, filho
de um advogado. O Circulo realmente conseguiu... nós vamos ficar no vai lá vem cá...
Marília: Não tem importância.
Alírio: A senhora não se importa eu também não me importo. (risos) Então... Caio
quando iniciou o Circulo era um moço de uns vinte e dois anos, novo.
Marília: Tão jovem assim?
Alírio: Casado já. Filho de um advogado, uma família até de elite né, tinha curso
superior, um homem fino, educado, mais, um católico fervoroso, tinha um amor as
coisa da Igreja, as coisa que viesse ajudar os necessitado, os pobre, então ele se
entregou de corpo e alma pro movimento né. Então ele... ele então ele é um dos
baluarte dessa construção. Ele que trabalhava muito pra isso aí ser construído, não só
ele né, aí foi todo tipo de campanha pa podê construi isso aí. Agora se a prefeitura deu
uma mão ou auxiliou com verba eu não tenho notícia disso. Isso aí foi mesmo, parece
que foi...
Marília: No registro fala que teria sido construído com a participação dos próprios
trabalhadores. Seria um tipo de mutirão, uma coisa assim, não?
Alírio: Olha esse prédio aí pelo que eu sei, quem foi que fez ele foi um mestre de
obra.
Marília: Esse que era do sindicato... da sociedade Sociedade Vicente de Paula?
Alírio: É. Ele era muito... muito competente, muito exigente, muito sério com as
construções. Ele trabalhou aí por empreito pelo que eu sei né.
Marília: A ta.
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Alírio: Né. Então ele tinha a equipe dele né, os que trabalhava com ele, e ele recebia
direitim. Mas o Caio dava conta do dinheiro pa paga a mão-de-obra, paga o material, a
diretoria do Circulo mas liderada pelo Caio Lima né. Caio Lima foi o que liderou esse
movimento desde 1942 quando ele foi fundado. Por que os operário era muito tímido,
muito acanhado, eles seriam incapazes, tinha até vergonha de entrar numa reunião
né, muito retraído. Então foi preciso ter que quebrar muito preconceito.
Marília: O Circulo tinha recurso, ele comprou esse imóvel, comprou mais dois imóveis,
até hoje ainda têm...
Alírio: Sim, é verdade.
Marília: Esse recurso vinha do que? Contribuição de cada circulista?
Alírio: É o Circulo na verdade tem toda essa sede aqui, tem uma na Engenheiro Diniz,
é... lá lá tem uma... aluga o apartamento, e aluga o cômodo comercial embaixo né...
pela... uma casa de material elétrico, lá é alugado né, aluga aqui, e tem tamém um
imóvel na rua saivá, na rua Tapuios 8.159, tem lá um imóvel lá, também ta alugado
né... aquilo lá era pra que? Pra fazer núcleo, faze núcleo no bairro.
Marília: Era pra fazer uso?
Alírio: Era, uso do Circulo mesmo né.
Marília: Por que aqui me parece que foi construído pra ser alugado mesmo.
Alírio: Não. Foi construído pra ser usado. Aqui houve uma cooperativa de consumo,
assim que construiu o barracão montou uma cooperativa de consumo aqui, o Circulo
ocupava tudo isso aí com o seu movimento, né, depois com a decadência...
Marília: O que que era essa cooperativa de consumo?
Alírio: Fornecia né, coisa assim, comestível né, de armazém.
Marília: Para os trabalhadores?
98
Alírio: Para os sócios trabalhadores né.
Marília: Funcionava ali?
Alírio: Aqui. Tem até nos livros de contabilidade da cooperativa.
Marília: Esse foi o primeiro uso então do barracão?
Alírio: Foi, ele foi usado pra isso, para a cooperativa também, além de para reuniões
dos sócios, de reuniões, de cursos né, eu não sei no tempo se chegou a funcionar a
escola aí em cima, as vez até pra escola essa parte de cima serviu né, então depois
que o circulo instalou ele não saiu mais daqui né, ele procurou comprar alguma coisa
nos bairro pra ir montando núcleo de sócio. No bairro Tubalina, na rua Silvio Rugano lá
em cima, nós tínhamos lá uma sede, construiu sede, casa de moradia, eu mesmo
trabalhei muito ali de 1976 até 81 trabalhei muito no bairro tubalina...
Marília: Esse imóvel não existe mais?
Alírio: A gente reuniu de casa em casa e conseguiu reunir 120 sócio ali... naquele
tempo né, o núcleo ficou montado, diretoria, tudo, dia da reunião na semana, depois
teve até escola de alfabetização lá da prefeitura, tudo isso o Circulo teve lá naquela
sede. A associação de bairro reunia lá né, agora não é mais do Circulo, por que nós
tivemo um pobrema aqui com a filha do seu José Vicente né, ele morreu e tal e ela
ficou aí, e ela alegava que tinha direito e tal, que trabalhava aqui e fazia isso, fazia
aquilo... e se ela fosse na justiça ela ganhava. E nós achamos por bem, ao invés de
ficar brigando, a federação apoiou tudo né, deu o imóvel pra ela.
Marília: A sim.
Alírio: Ficou pra ela. A escritura é dela. Também, eu no meu modo de pensar, tinha
que ter uma consideração com o pai dela, ele foi o fundador do Circulo.
Marília: Ele morava naquela casa.
Alírio: Ele morava naquela casa lá... é. Aquela casa foi reformada.
Marília: É o José Vicente do Nascimento?
99
Alírio: Isso. Ele morou aí quase que a vida toda, depois ele comprou uma casa lá na
Presidente Roosevelt e foi pra lá né, mas ele morou aí muitos ano, criou a família aí, e
ele cuidou disso aqui, sofreu com o Círculo né, ele não deixou isso acabar, não deixou
cair, e outra coisa, se o Circulo tem os imóvel que têm é graças a ele, ele lutou pra
isso, inclusive esse terreno todo que tem aí. Então eu era um... o Circulo na verdade o
trabalho é voluntario, mas ele chegou a passar aqui até falta das coisa, que quando o
Circulo decaiu muito, o Circulo tava com uns vinte sócio, cada um tava pagando uma
mensalidadezinha de nada, recebia uns aluguelzim pequeno, não tava dando pras
despesas do movimento, então ele agüentou com isso aqui, velho já, doente né...
coitado. E então... como é que você vai faze? A gente tem coração, a gente é humano
né? Então quando eu fui presidente, nós criamos pra ele aí uma espécie de um
salário, uma ajuda de custo, né, pra ajudá-lo, depois os filho arrumaram um emprego,
trabalho, aí milhoraram, casaram, e hoje tão até colocado né, mas eles passaram
muita dificuldade aqui, muito aperto.
Marília: Quando foi que a casa foi desocupada? Quando é que saiu daí essa...
Alírio: A Magda? Eu não sei exatamente o ano, mas talvez já tenha uns dois anos que
ela saiu. Mais ou menos dois, três anos no máximo ela saiu né, e... aí ficou aquela
casa véia ali ó... ta muito sujo.
Gustavo: Seu Alírio, é... têm um documento, uma espécie de inventario ou termo de
doação dos arquivos do Circulo pra criar um museu do Circulo Operário, da década de
90 mais ou menos, se não me engano do ano de 95, é... o senhor sabe se esse
museu chegou a ser montado, o senhor sabe desse documento?
Alírio: Quando o Circulo fez, espera aí, xô vê, me parece que cinqüenta anos de
fundação, meio século, nós fizemos uma exposição de todas essas peças antigas do
Circulo, mas foi aqui ó, fizemos uma exposição pra todo mundo vê né, tudo que o
Circulo tinha, inclusive esse livrão da cooperativa, cada livro dessa altura, tudo escrito
a mão (risos), contabilidade, história, o nome dos cooperado né, tudo anotado, tudo
direitim, tudo contabilizado,o Caio era um contador também de mão cheia, ele era
muito cuidadoso. Então realmente, formava um museu mesmo, hoje ta tudo escondido
por aí né.
Marília: Ai doaram pra um museu e esse museu não foi criado?
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Gustavo: Não, os documentos são aqueles daquela sala.
Marília: Os documentos que vocês levaram?
Gustavo: Isso.
Marília: Ah ta.
Gustavo: Existe um termo de doação e de...
Marília: Mas não era este?
Alírio: Se doou para o museu de Uberlândia?
Marília: Aí doaram para um museu e esse museu não foi criado?
Gustavo: Não, o museu do Circulo Operário.
Alírio: Que se juntar tudo aí dá pra criar um pequeno museu, nós chegamos a fazer...
assim, por ocasião de comemorações né, aniversario do Circulo, cinqüenta anos, foi
montado, né, o pessoal vinha, olhava, fotos antigas (risos).
Marília: Quem é que pode ter essas fotografias mais antigas do Imóvel? Deve ta na
família de quem?
Alírio: Aqui tinha um painel com muitas fotografia né, depois elas deve ter sido
recolhida, deve ta guardada essas fotografia.
Marília: No material que vocês pesquisaram não tem fotografia?
Gustavo: Tem uma série de fotografia...
Alírio: Muita fotografia.
Marília: Mas fotografias de reuniões...
101
Alírio: De reuniões é...
Marília: é... do imóvel não.
Alírio: Do imóvel não.
Marília: Pois é, nós não localizamos, quer dizer, essas fotografias estavam disponíveis
quando eles fizeram esse trabalho, mas agora nós não localizamos as imagens, tem
esse e tem uma foto da casa lá do fundo, que eu conheço.
Alírio: Lá do fundo.
Marília: É. Mas que não...
Alírio: Essa casa aí passou por uma reforma muito boa.
Marília: Agora sim, é...
Alírio: Muito boa. A irmã Ilari né, ela reformou isso aí.
Marília: Hnnnn
Alírio: Não sei se a senhora conhece ela.
Marília: Sim, conheço. Agora, o que o senhor poderia dizer que foi a grande
contribuição do Circulo para Uberlândia?
Alírio: Para Uberlândia?
Marília: É.
Alírio: Até uma vez, eu dei uma palestra aqui, um seminário né, sonhando, como foi
montado o Circulo Operário de Uberlândia né, e depois a avaliação do Circulo, seria
outra palestra. Não foi dada, eu puis lá no esquema que Uberlândia era uma cidade
assim, pequena, muito conservadora, eu usava esse termo, era muito conservadora, e
eu puis assim que os Círculos Operário foram mais bem disenvolvido nos centros
industriais como São Paulo né, todos onde tinha muita indústria, muito operário, mas
102
aqui em Uberlândia, ele foi criado mais com esse pessoal das associações religiosas,
o pessoal não tanto operário né, vamo dizer assim, e aqui fazia muita festinha, muita
quermesse, isso aqui parecia uma paróquia isso aqui né, de tanta quermesse que
fazia. Agora, quanto o fez realmente os operários mesmo, será que isso influiu
bastante nos operário mesmo? Será que isso passou pra eles o que é justiça social
cristã? Será que conscientizou os operário de Uberlândia? Será que conseguiu muito
intento nesse setor, nessa parte aí? Eu penso que não. Não como nos centros mais
avançados, O Circulo de Uberlândia ele ficou mais assim, vamo dize, uma rotina vamo
dizer, nunca foi assim muito avançado nessas questões. Mas mesmo assim, ele tinha
influência, não deixava de ter, era bem quisto, bem visto né, só dos padres falar bem
dele nos sermões, incentiva, apóia, o Mosenhor Eduardo era o nosso assistente
eclesiástico né, apesar de que ele vinha muito pouco no Circulo, por que devido, ele
tava, era o vigário geral, e tinha tanta confissão, tanta coisa pra ele olha, tanta
paróquia, tanta Igreja, tanta comunidade que ele tinha que da conta, vicentinos, então,
ele ainda era professor do colégio estadual, doutor em latim né, ele então não tinha
como dar assim uma assistência, acompanhava de perto né, mas ficava mais para
idealistas como o Caio né, que gostava de falar, de preparar as pessoas né, era muito
entusiasmado com isso né. Agora o Circulo nos primeiro de maio, pregava cartaz nas
vitrina, nos prédio, nas praça, fazia passeata né, encerrava com uma missa solene na
praça pública, fazia a páscoa dos operários, ele uniu com os sindicato e trouxe para
Uberlândia a junta de conciliação né, do Ministério do Trabalho, trouxe pra Uberlândia,
e as carteiras profissionais, eram distribuídas aqui no Circulo, pelo menos para os
sócios do Circulo, a carteira profissional né, do trabalho né, era distribuído aqui, e teve
escola e tal, tinha teatro, um punhado de coisa teve aqui né. Mas é aquele movimento
assim de cidadezinha do interior, elitista demais e coronéis, e que não via com bons
olhos essa coisa, não mexia por que sabia que era coisa de padre, da Igreja,
geralmente o povo assim, o povo é católico ne´, mais católico e tal, respeitava mas
não via, os detentor do poder econômico não via com bons olhos isso aqui.
Gustavo: Não tinha gente da elite da cidade entre os sócios?
Alírio: Hein?
Gustavo: Não tinha gente da elite entre os sócios do Circulo?
Alírio: Não, eu digo, o povo que vinha pra cá nas festa né, barraquinha...
103
Gustavo: Uhunnn
Alírio: ... freqüentava aqui, as barraquinhas eram feitas pra ajudar o Circulo, ajudar os
necessitados, era feito pra isso, fazer confissão, pra construir né, por que o movimento
tem muita despesa, hoje nós temo os recurso por que nóis temo aluguéis, se não
fosse essa escola aqui ó, o aluguel lá da Saivá, lá da... do bairro Martins, nós já
teríamos ido a falência, não tem como tocar... nós chegamos a ter aqui muitos sócios,
e entra muito sócio no Circulo, sempre entrou,
Marília: Ta sempre entrando?
Alírio: É mas não ficam senhora, não ficam, ficam algum tempo depois some,
desaparece, não tem como assim, segurar os sócio né, se nós tivermos uns quarenta
em dia é o Maximo.
Marília: Mas isso tudo?
Alírio: Muito pouco, 40 sócios.
Marília: Nossa.
Gustavo: Chegou a ter quantos? Uberlândia?
Alírio: Teve uma época aqui que nós chegamos parece que 5 mil sócios.
Marília: Isso numa época que Uberlândia não era tão grande hein.
Alírio: Nos anos 70.
Marília: Nos anos 70, mas isso já era período de ditadura e o circulo ainda tinha esse
tanto de...
Alírio: Quando criou a Icasu, a Casu né, vamo dize Casu, Associação Sindical
Assistencial de Uberlândia, dava assistência médica, dentaria, gratuito, aí realmente o
Circulo, nunca vi, muita gente procurou o Circulo.
Marília: Mas por quê? Qual que era o vinculo do Circulo com essa...
104
Alírio: Nós tínhamos ligação com eles, convenio com eles, por que aquela entidade
era montada e sustentada pelo sindicato, sindicato de Uberlândia né, todo sindicato
né, uniu pra montar aquilo pro trabalhador, e o Circulo também...
Marília: Fazia parte.
Alírio: Fazia parte. Daí ele mandava os seus sócios que eram atendidos lá né, com
consulta, série de coisa, tratamento de dente, tudo isso, e o Circulo foi muito
procurado quando ele tinha esse convênio lá né? O povo... o povo geral senhora eles
que... eles querem assistência, querem resolver seu problema imediato né, mas no
geral os operários não são capazes de se reuni de estuda, construi, forma uma frente
de ação de luta pra, que poderá dar um resultado mais melhor no futuro, pessoal
apressado, quer coisa assim mais imediata. Então entra no Circulo por que precisa de
uma consulta, por que precisa tratar da muié ou do filho, então entra e tal é tratado.
Marília: Mas hoje ainda têm essa assistência? Ainda tem ou hoje não?
Alírio: Não. Olha houve tanta malquerença, esse povo do sindicato eles são muito
polêmico, brigam muito, discutia com os médico, houve uma desunião muito grande, e
aí a Casu acabou fechando, acabou acabando, e foi um mal, foi muito ruim isso né.
Pro Circulo ela foi uma beleza a Casu, ela trazia muito movimento, muito sócio pro
circulo né, chamava as reuniões mensais, enchia de gente, aqui nós fazíamos uma
reunião mensal, uma por mês com todos os sócios né, dão abertura e aí apresenta o
que o Circulo têm, presta conta, da uma reflexão, traz uma pessoa pra falar sobre um
tema... professor, e assim por diante, é pra instruir os trabalhadores, sobre saúde etc.,
e depois tinha teatro, tinha violeiro que vinha cantar aqui, então era animado aqui no
tempo da Casu.
Marília: Que futuro o senhor vê pro Circulo aqui em Uberlândia?
Alírio: Pois é, no geral o que eu vejo pro Circulo é que nós estamos como o que
caçando caminhos novos né, estamos nos refazendo pra prestar serviço a sociedade
civil de hoje, num trabalho voluntario, tanto assim que nós temo aí computadores, nós
temos aqui cursos para o primeiro emprego né, nós temo aqui até aula de ingrêis, tem
até pessoas que mexem com diversas, nem sei como fala o nome é... com flores, com
desenho né, tem muita especialidade aqui que vai sendo sendo criado né.
105
Marília: E esse tem sido também o caminho dos Círculos em outras cidades?
Alírio: Há Círculos que têm colégios grandes, milhares de aluno em São Paulo né,
tem lá não me lembro da cidade no momento mas tem lá o colégio Leão XIII, tem
muito aluno, e é dele, ele administra lá, esse colégio. Ele ta mais forte mesmo é em
São Paulo, é no Rio Grande do Sul.
Marília: Mas aí segue esse trabalho de doutrinamento dos trabalhadores, segue ou...
Alírio: Não tanto mais né, não tanto mais, por que também ta tudo feito não ta?
Sindicalismo ta aí, lei trabalhista... que dizer, tudo que os trabalhadores quiseram
conquistar em matéria de liberdade de associação e leis, eles conquistaram.
Marília: Ainda tem mais...
Alírio: Não tem, lógico que tem né, o século XX foi um século que os trabalhador
avançaram, progrediram né, conquistaram seu sindicato, sua associação, seu Circulo
Operário, desenvolveu muito, tanto que nos grande país do centro é... o poder dos
operário é equiparado ao dos industriais, eles negociam né, é ou não é? E antes como
era? (risos) Então os operário desenvolveram muito né, na Europa, na América, agora
no Brasil ainda ta muito aquém ne´, América Latina ainda ta muito aquém, ta muito
longe de chegar, isso depende dos próprio trabalhado das própria trabalhadora, eles
não deixa o seu Circulo morre, o seu sindicato morre, aquilo que foi criado com muita
até, as vezes com derramamento de sangue até aprovar tudo isso, é por que eles não
deixa matar a galinha de ovo de ouro, de ovos de ouro que nem como eles falam né,
mata com o que? Com a indiferença, com a omissão, com não querer participar, vai
morrer tudo.
Marília: O senhor é dos sócios mais antigos?
Alírio: Não, eu entrei aqui em 1971.
Marília: Quem que é hoje que ainda é mais antigo?
Alírio: A senhora vê ó, de 1942 até hoje quantos anos já passaram? 67 anos né,
então aquela primeira geração de sócios já faleceu, não tem mais, mesmo muitos que
106
vieram depois né, já não tem mais, morreram. Desses que tem aí, talvez eu seja o
mais velho dos sócios, ou um dos mais velhos seja eu, mais antigo né, eu mesmo.
Marília: O senhor ainda tem muito entusiasmo pelo Circulo?
Alírio: Tem,
Marília: Acredita na...
Alírio: Acredito, acredito, a fé não pó morre né, é esperança (risos), eu sempre gostei
desse tipo de trabalho né, desde moço, só que a gente nasce pra isso ou é uma
tendência que a gente tem não é mesmo?
Marília: É, vai atraindo né.
Alírio: E com isso eu desenvolvi muito em conhecimento, eu fiz curso demais, desde
1956 (risos) fiz 16 anos nunca mais freqüentei um banco de escola né, mas a
militância no Circulo, dentro da Igreja, sou um pequeno comerciante, leio muito né,
procuro ouvi, ouvi muito, aprender, com as pessoa também...
Marília: Essa é uma boa escola.
Alírio: É, a gente aprende né?
Marília: É verdade, não é só no banco da escola (risos).
Alírio: Mas refletir sobre o que você ouve também né, só ouvir e não refletir não dá.
Marília: É verdade, absorver tudo sem também entender o que ta... selecionar e
escolher né...
Alírio: Foi tudo feito com muita dificuldade também por que a gente era muito
acanhado, a gente sentia muita dificuldade em aprender certas coisa né, mas com o
tempo você vai desembaraçando né... não tem esse que não aprende né.
Marília: É tendo vontade de aprender.
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Alírio: Aprende mesmo né?
Marília: È.
Alírio: Então eu não quero deixar um pessimismo em vocês sabe.
Marília: Ah claro que não...
Alírio: Eu eu não gosto de contar vantagem não, falar a real, o que aconteceu, como
está...
Marília: não... acho que esse caminho que o Circulo ta procurando de prestação de
serviço é formação também...
Alírio: É.
Marília: Protetor dos trabalhadores.
Alírio: Nós estamos aí com uma equipe muito boa, com Ilandê que é muito inteligente,
entusiasmada, muito trabalhadeira né, esse seu Neirton, é um professor, foi professor
aposentado ele, ele entende bem de contabilidade, ele nos ajuda demais a olha as
coisa do Circulo né... a nossa contabilidade quando ele entrou aqui tinha muita coisa
atrapalhada...
Marília: É?
Alírio: Nós somos leigos nisso aí. Agora a senhora vê, a gente tinha aí a secretaria
pra trabalhar, tinha o contador que olhava aí, a gente achava que tava certo né, mas
não, não tava...
Marília: Tava não né... (risos).
Alírio: Esse homem ele tem feito muita coisa pra nóis, esse homem tem sido um
achado, a senhora conhece ele?
Marília: Conheço.
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Alírio: Pois é.
Marília: Conheço sim.
Alírio: Pois nós temos aí, o Antônio, Neirton, Ilandê, temo aí o pessoal da diretoria,
então é um pessoal novo que chegou de uns anos para cá né. Aqui tinha um outro
pessoal, seu Zé Vicente faleceu, Caio Lima faleceu, eu quando entrei aqui eu era
moço ainda, eles já eram homem maduro, mas também já cansados, talvez já
desanimados pelo rumo que os Circulo tinha tomado com o AI5 né, que não deixou de
ser uma decepção muito grande pros trabalhador né, muitos abandonaram.
Marília: Mas foram proibidas as reuniões? Como é que ficou essa situação?
Alírio: Não as reunião não, mas nós não podemos ficar só com reunião né, o que foi
proibido foi a ação social, por que dos projetos do congresso em 1957 e o de 1962.
Tudo que foi aprovado naquele congresso foi colocado em prática, e ia muito bem
olha, só Elos – Escola de Livres Operários – foram criados em dez grandes cidades do
Brasil, só as Elos, hoje só resta a de Belo Horizonte né, e assim mesmo não como
devia ser, a única sobrevivente. Tudo que vinha da ação social era vista pelos militares
como subversão, com coisa de comunista né, então por eles não ter muita noção
dessas coisa né, por que tem um ditado que diz assim “quem diz de todos a mesma
coisa, não conhece todos”, se eu falar assim ó, todo político é ladrão, não tem uns que
não são, eu não conheço todos eles né, não é isso? Todo comerciante é ladrão, não é
uai, não pode ser, você não conhece ele, você não sabe o que passa o comerciante
as vezes né. Então é isso aí, mas o militares dirrubou tudo, tudo que era coisa de
operário, justiça social, reforma de estrutura, essa coisa toda, ah para os militares isso
era coisa de comunista então, eles amedrontavam todo mundo, e a ordem do órgão
máximo nosso foi ó, finjam de morto, aparenta nem estar aí, não enfrente os militares,
por que é tortura, banimento, é morte, é desaparecimento de pessoas que você nunca
mais vai ver, né... e assim foi. Agora os que tiveram coragem pra enfrentar, sobre tudo
por parte do clero, por exemplo aqueles dominicano lá do Fleury, você conhece aquela
história né...
Gustavo: Frei Beto...
Alírio: Frei Beto, frei Tito Alencar de Lima e outros mais, o nosso bispo aqui, Dom
Estevão que morreu agora esses dias né, lá no Pará...
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Gustavo: No Araguaia...
Alírio: É... ele enfrentou um processo militar forte,
Marília: Não teve nada disso aqui em Uberlândia? Não chegou a ter polícia...
Alírio: Bom as vezes o monsenhor Afonso tinha que ir lá no quartel conversar com os
coronéis por que ele fazia uns sermões muito forte na catedral né, em favor da justiça
social, combatendo vamo dizer assim, o que tava fazendo o regime militar né,
recolhimento da liberdade, favorecendo os poderosos né, (...) os movimentos
trabalhadores né, até mesmo os movimentos sociais da Igreja né, homens como o
Dom Elder Câmara foram muito perseguidos.
Marília: Mas aí o Circulo foi deixando de fazer suas atividades, aqui em Uberlândia?
Alírio: Olha em Uberlândia nunca houve aqui nada que assim, vinha algum agente
aqui ou, nada, o Circulo aqui trabalho pode se dizer foi mais em silencio, apesar que
tinha, o Caio tinha um programa na rádio Belavista e na rádio Educadora, chamava
atualidade circulista né, ele lia alguma coisa da doutrina social da Igreja, explicava
direitinho, dava notícia do ministério do trabalho né, passava muitas informações, ele
fazia um programa nessas duas rádio, e também tinha boletim, tinha jornal, pra divulga
né. Mas eu queria que fosse uma coisa que envolvesse os trabalhadores todos,
preparasse eles para uma ação não violenta né, por que realmente os Círculos
Operários tiveram influencia nas câmaras municipais, estaduais... federal.
Marília: Mas aqui em Uberlândia também?
Alírio: Também, aqui não deixa de ter influência. Mas devia ter sido, eu acho que
devia ter sido muito mais né...
Marília: Devia ter sido mais...
Alírio: É, os trabalhador era assim pro dizer, muito pacato também, e os líder as vezes
tinha medo de começar a incentivar e influenciar muito, pode partir pra agressão,
violência, quebra-quebra, tudo isso, por isso eles sempre colocavam o deixa disso
né... prudência né, as veiz, muita prudência, prudência demais. Mas eu queria algo
110
mais, mais arrojado né. E outra coisa, a Elos de Belo Horizonte deu um curso aqui de
chefia de liderança, liderança, deu curso aqui dez anos, nós arrumava os aluno, a
diretoria e outros que quisesse, então eles ficava aqui um sábado e um domingo
dando esses curso pra nós, o que eles nos transmitiam? Olha só, sindicalismo, leis
trabalhista, doutrina social da Igreja, Circulismo, relações humanas, previdência social
né, e e, que mais... tudo enfim que envolve a vida do trabalhador né. Então eram
cursos, são cursos, com umas matéria maravilhosa e que as vezes não são dados
nem nas universidade.
Marília: É verdade.
Alírio: Né, e o Circulo dava e dá esses cursos né.
Marília: Ainda dá esses cursos? Aqui em Uberlândia ainda dá?
Alírio: Dá... dá em Belo Horizonte, sabe por que que parou aqui? Não por falta de
monitores nem de local... por falta de interesse dos próprios sócios dos próprios
cooperado.
Marília: Não tinha quem assistir...
Alírio: É então o que eu sempre achei difícil aqui foi remar contra os operário.
Marília: Quando é que foi o ultimo curso aqui?
Alírio: Faltou o apoio:
Marília: Até quando teve?
Alírio: Olha, nós chegamos a montar a nossa Elos aqui, iniciou com 140 pessoas.
Marília: Isso foi quando?
Alírio: Isso foi nos anos 90. Década de 90 né. Mas nós fomos até a oitava turma,
depois parou por não...
Marília: Mas não tinha atingido...
111
Alírio: Não se inscreveu mais, o pessoal não se interessou. Por que? Porque o
pessoal tava atrás, e tem razão, de empregos, coisas pra sua subsistência né, e a
crise estava grande e ainda está né, o problema continua não é mesmo, eu costumo
dizer que hoje nós temos mais problema igual outros tipo de problema que nós
tínhamos quando os Círculos Operários foram fundados. Hoje nós temos aí um crime
organizado, temos o narcotráfico né, temos aí uma devastação, uma liquidação da
própria família, não respeita mais criança, temo até prostituição infantil, temo tanta
coisa complicada né, hoje, por problema né, o trabalho hoje é muito maior, agora nós
não tamo sabendo como entrar nesse trabalho, o que fazer diante disso aí, a
preocupação nossa é grande né, tem muito o que fazer. Então nós tamo aí né,
procurando não parar mas oferecer alguma coisa, estudar, escrever, mas continuar o
nosso trabalho. Agora muitos não tiveram essa garra que nós procuramos manter
aqui, muitos fecharam... hoje deve ter uns 200 Circulo Operário no Brasil, se nos anos
40 chegou a ter 500 Circulos né, com 500 mil sócios, hoje ta muito aquém disso,
quando o Brasil ta muito mais... já pra dizer, naquele tempo tinha umas 40 milhões de
pessoas né, 30,40 milhões, hoje o que nós temos?
Gustavo: 180.
Alírio: 180 milhões. Quer dizer que regredimos muito, mas o governo militar, em 20
anos que ele ficou no poder, ele prejudicou a liderança do país, não só o circulismo,
mas no sindicalismo, na política né, hoje nossos políticos ta um deus nos acuda né,
Brasília que coisa, como chegou nesse ponto não é mesmo?
Marília: Parece que não tem mais idealismo nenhum né?
Alírio: O presidente hoje não tem mais força nenhuma, o presidente da república né...
Marília: É o congresso é que...
Alírio: Manda e desmanda, faz o que quer... nosso tempo não era assim não (risos).
Antigamente votava num presidente por que o presidente era forte né,
Marília: Mandava né...
Alírio: Mandava...
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Marília: Hoje são muitas forças ali, a composição é bem mais complexa.
Alírio: É.
Marília: Inclusive com os trabalhadores né?
Alírio: É, verdade... mas os trabalhador também era preparado para candidatar se
quisesse né.
Marília: A bom, temos o nosso presidente que era um metalúrgico né... então.
Alírio: Até que foi uma coisa admirável chegar até onde ele chegou né.
Marília: É... ahannn.
Alírio: Mas e o congresso, o senado né, começar da câmara municipal, estadual, tudo
né sô, um vereador pode ganhar, quantos que um vereador ganha por mês?
Gustavo: 6 mil.
Alírio: Quanto ganha uma professora pra enfrentar esses alunos aí?
Marília: Pois é.
Alírio: Quanto ganha uma professora?
Gustavo: Uns R$700.00 reais.
Marília: R$700.00 reais.
Alírio: Pois é, ta certo isso? Esse país nosso ta no lugar? Não ta! Tem muito que fazer
não tem?
Marília: É, tem muito que fazer.
Marília: Mais alguma pergunta Gustavo?
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Gustavo: Não.
Marília: É? Nós vamos fazer a transcrição e aí nós trazemos pro senhor dar uma
olhadinha pra gente ajustar, por que assim se o senhor tiver... vou tirar uma fotografia
pode?
Alírio: Pode.
Gustavo: Se o senhor tiver alguma dúvida ou alguma observação que queira fazer.
Marília: Tem alguma coisa que o senhor queira acrescentar na entrevista, que queira
contar... por que assim, nós vamos preparar esse material que é uma memória, tanto
da história do Circulo, como uma edificação, porque preservando a edificação a gente
preserva a memória do Circulo né, foi construído pra isso, então uma coisa não
desassocia da outra né.
114
Download

Marília: Eu queria que o senhor falasse um pouco do senhor, como