Ethos, ética: o habitat que nos habita Maria da Penha Simões1 Do que se trata, afinal, quando o assunto é ética, tantos os entendimentos que comporta, tantas as idéias que suscita? Nosso estudo em cartel, focado no livro Televisão, foi que nos aguçou o interesse pela ética de modo geral e em particular por algumas de suas questões. Em busca de conhecimento menos vago do que o que temos, pareceu-nos melhor. partir da definição da palavra ética segundo o dicionário consultado: "ramo do conhecimento que estuda a conduta humana, estabelecendo os conceitos do bem e do mal, numa determinada sociedade em determinada época"2 Até aí nenhuma novidade. Prosseguindo no rastro do vocábulo, descobrimos que, em grego, ethiká quer dizer "coisas concernentes ao ethos".3 E ethos, o que significa? No idioma original, ethos se desdobra "em duas palavras quase homônimas e com a mesma etimologia"4 só que grafadas de modo diverso: ethos com a letra eta (ηθοζ) e ethos com a letra épsilon (εθοζ). A primeira – com eta – remete a habitat, morada, domicílio, toca e também ao modo de ser, aos hábitos e caráter de alguém; a segunda, com épsilon, indica "usos e costumes de uma sociedade e, secundariamente, hábitos individuais".5 O que se observa? Que o termo ethos aponta para duas vertentes, "a subjetiva, centrada em torno do comportamento individual e a objetiva, fundada no modo coletivo de vida".6 Esta bifurcação de sentido nos envia ao jogo de palavras que faz Lacan em Televisão, ao dizer que "o homem habita e se não sabe onde, não deixa de ter hábitos".7 Logo adiante, ele alude à diferença – que é também um liame – entre ethos com eta e ethos com épsilon, este último nomeado – Lacan usa o verbo nomear – objeto a, pois, segundo explicita, tal objeto "é o pivô de tudo isso".8 De tudo isso, o quê? Se bem entendemos – e não é fácil – o objeto a, que tem dupla articulação, de um lado com a função de causa do desejo e do outro com a função do mais de gozar, seria – ou é – o pivô da ética no que ela diz respeito ao ethos, "com tudo – é Lacan quem afirma – o que se segue de dedicação à economia, à lei da casa."9 Em outros termos e se nosso entendimento procede, o objeto a é o pivô de tudo aquilo que a cultura e a civilização envolvem e implicam sob a forma do ethos. Remontando aos gregos, especificamente a Aristóteles, constata-se que este pensador coloca a ética no campo da filosofia prática – é dele a expressão – isto é, o ramo da investigação filosófica voltado para a práxis, o agir humano considerado em si mesmo. A ética, porém, não ocupa esse espaço sozinha, a seu lado Aristóteles situa a política, ambas as matérias pertencentes ao dito setor – filosofia prática – "que versa acerca das coisas humanas".10 Se curiosidade há, diremos que dois outros ramos compõem o âmbito dos estudos filosóficos segundo Aristóteles: a theoria (episteme, a ciência) que se dedica ao conhecimento do necessário e imutável e a poíesis (o fazer criativo), cujo "resultado concreto é separável da própria ação que o produziu".11 Ente singular e privilegiado, o homem, o zôo politikón na célebre definição aristotélica, "animal político por natureza e destinado a viver em sociedade".12 Argumenta o filósofo que "a natureza nada faz em vão. Só o homem, entre todos os animais, tem o dom 30 da palavra... A palavra tem por fim fazer compreender o que é útil ou prejudicial, e, em conseqüência, o que é justo ou injusto..."13 Aquinhoado pela natureza com esse dom, o ser humano não fala como ave palradora, mas sim como criatura que tem o lógos, o discurso racional. De acordo com comentaristas atuais, a práxis, na pólis antiga, "está estreitamente vinculada ao lógos, o qual é racionalidade, mas igualmente discurso, palavra, comunicação".14 E porque fala e pensa, o homem se afasta da natureza e cria "símbolos, valores, instituições que o distanciam dessa origem ao mesmo tempo que tal distanciamento vem a constituir o seu ethos, seu caráter e modifica a physis da qual procede".15 Aos olhos de hoje pode parecer estranho, paradoxal mesmo, que o homem seja "um animal diferenciado pelo ethos, ao mesmo tempo que tê-lo é de sua natureza".16 O que explicam os estudiosos é que "em última instância, as ações humanas estão relacionadas, em todas as suas possibilidades, à physis, de maneira imediata ou não".17 O ethos constitui a morada do homem no mundo, o lugar onde, em coletividade, num "ser com outros", ele pode desenvolver as suas potencialidades, lugar este configurado na pólis, ali, o espaço em que a condição humana se revela e se afirma. E como ter uma noção mais clara do que sejam ethos e pólis? Nós a encontramos num pensador contemporâneo que diz o seguinte: É ético o que concerne ao ethos, e este é, para Aristóteles (...) o lugar do "lar habitual" e por isso o "hábito" ligado especificamente a cada lugar particular. O âmbito ético compreende, portanto, os usos, os costumes, as práticas, as formas de comportamento justas e convenientes no sentido da virtude, mas também as instituições que sustentam estas formas de comportamento como a casa, o culto dos deuses, as sociedades de amigos, as comunidades de guerra, de festa, de sepultura. O "justo" que determina o agir como "ético" é, por isso, extraído concretamente do mundo institucional da vida "habitual" e das formas tradicionais que lhes são vinculadas de falar e de agir, sem dever recorrer a valores e normas a si estanques. O "justo" refere-se ao ethos e ao nómos da pólis, à "prática da casa".18 Tentando resumir, a pólis "é o lugar de ser homens"19, onde "a razão torna-se operante na forma de sua práxis"20 e a práxis é entendida como "condução da vida".21 E à pólis cabia, através de leis justas, assegurar a todos os cidadãos condições para que, livremente, escolhessem uma "boa vida humana". E o que seria uma "boa vida humana"? Uma vida que, na prática, tivesse como fim alcançar o bem supremo. E que bem supremo seria este? A eudaimonía, a felicidade, não como hoje a concebemos, porém como Aristóteles a considera, "uma atividade da alma conforme a virtude perfeita".22 Definição que até os nossos dias levanta discussões e polêmicas acirradas. A começar que o termo grego aretê – traduzido por virtude desde os latinos – significa originariamente excelência. As virtudes – e não só as de ordem moral – são excelências, são bens. E entre elas se inserem os bens do corpo (saúde, beleza, vigor, etc) e os bens exteriores (família, prestígio, recursos materiais, etc) sem os quais difícil seria chegar-se ao bem supremo. Não bastasse isto, o bem supremo – eudaimonía –, de acordo com alguns comentaristas, consistiria na "pressuposta unidade dos fins humanos".23 Um sumo bem absoluto, uno e estático em sua beatitude? Ainda que nos falte conhecimento especializado, não nos parece aceitável esse ponto de vista. Porque a felicidade, em termos aristotélicos, se radica "na atividade e não na potencialidade; é uso e não simples posse; não consiste em ser, mas em fazer".24 E mais: o filósofo considera que "o ato próprio de cada ser é aquele em maior conformidade com a 31 sua essência".25 Que essência? A excelência – a aretê, a virtude – da alma que é a parte essencial do homem. E assim como a alma tem um lado racional e outro irracional, a excelência, no caso, se subdivide em virtudes intelectuais e virtudes morais, as últimas atuando sobre a parte irracional na qualidade de porta-vozes da razão e sempre guiadas pela prudência – em grego phronésis – que é a capacidade de deliberar sobre as coisas contingentes. Voltando à felicidade, Aristóteles lhe concede duas acepções: equilíbrio de todas as funções humanas ou então o que há de mais nobre e precioso em nós, o intelecto, o noûs, através do qual podemos participar do divino. Participar de que maneira? Através da "contemplação intelectual de verdades metafísicas"? O que seria isto? Nossa transformação em seres intelectualizados entregues unicamente à meditação filosófica? Assim agindo, não correríamos o risco de cometer a hybris, a desmesura, com a conseqüente punição dos deuses, implacáveis para com aqueles que querem compartilhar de seus poderes e saberes? Mas Aristóteles, ao longo de uma argumentação de raro fulgor, pondera que o ideal do bem supremo mediante a atividade intelectiva-contemplativa é para ser vivido na medida do possível. Há pensadores modernos que vêem nesse ideal uma "idéia-limite", um "princípio regulador" e se, de fato, o homem deve empenhar-se para atingir as dimensões do divino que o faça pelo exemplo de seus atos e obras. Ou seja, que trate de "esgotar o campo do possível", frase poética de Píndaro, poeta que viveu antes de Aristóteles e já expressava a sabedoria dos limites, "a primeira mensagem ética da Grécia".26 Os séculos decorrem e eis que regressamos aos tempos atuais e, com o Seminário 7: A ética da psicanálise nas mãos, lemos que "se há algo divino no homem é o fato de pertencer à natureza"27, ou seja, à physis que o determina. E esse ser falante, irrequieto e sempre insatisfeito, acima de tudo aspira à felicidade. Sim, diz Lacan, "não escapa a Freud que a felicidade ´é, para nós, o que deve ser proposto como termo de toda busca, por mais ética que seja".28 No entanto, Freud também percebe que "a Criação não inclui o objetivo de que o homem seja feliz".29 Aspiração vã, portanto. Do ponto de vista psicanalítico, o bem supremo tão anelado é, na realidade, o gozo pleno do objeto para sempre perdido, gozo este mortífero que, se alcançado, aboliria o sujeito, do mesmo barrado pela incidência do significante e pela lei primordial. A linguagem e a lei fundamental constituem os alicerces do ethos, a morada humana. Que o seu construtor busque satisfação – parcial, ai! dele – no objeto a substitutivo, espécie de dobradiça entre desejo e pulsão. Televisão nos tem proporcionado matéria para refletirmos acerca de várias questões, instigantes, concernentes à ética. Por exemplo: a questão do bem e do mal em nossos tempos de modernidade globalizada e globalizante, quando "as leis justas da pólis" deram lugar às leis da economia. Outra questão: há possibilidade – ou não – de fazer-se uma escolha de objeto isenta das manipulações da mídia, livre dos ardis do marketing e da publicidade? A série é longa e enumerá-la não caberia nestas linhas. Há, contudo, uma questão relacionada à práxis psicanalítica que gostaríamos de apresentar visando a uma possível troca de idéias e opiniões. Em resposta à pergunta kantiana "o que fazer?", Lacan esclarece: "É o que faço: da minha prática extrair a ética do bem-dizer".30 Agora, somos nós a indagar: o que é o bem dizer? O que descobrimos a respeito nos leva a deduzir que se trata de uma invenção do saber. O inventor – no caso o analista – recolhe fragmentos, pedacinhos do real que afloraram no discurso de seus pacientes e com este material inventa um saber que, no momento oportuno e conforme a particularidade de cada um, a eles será remetido. A nosso juízo, em tal atividade está 32 implícita a aretê dos gregos – a excelência no fazer e no agir – guiada por uma prática responsável – a phronésis – e daí que seja uma ética. Como saber sistematizado, a filosofia nasceu de um não saber sobre a conduta humana individual e coletiva. E se no decurso dos séculos os filósofos têm se esforçado em completar o saber arduamente adquirido, chegando à verdade absoluta, não é assunto nosso. A psicanálise, por sua vez, propõe como a máxima de sua ética "o não ceder de seu desejo" que, segundo um pensador contemporâneo, significa "não ceder naquilo que não se sabe de si mesmo".31 Se alguma pretensão tem este trabalho – rudimentar e esquemático face à complexidade do tema – é evidenciar a singularidade deste estranho ser falante que somos todos nós, capacitado – e fadado – a construir o seu ethos, o habitat que ele habita e o habita. Neste mundo humano, o homem almeja alcançar a felicidade total... que falta, porém ele insiste em sua busca desejante, traçando, na rota que segue, as linhas únicas e irrepetíveis de seu destino pessoal. Quanto à psicanálise, seu propósito é conduzir o sujeito até o limiar da ética do desejo. O dele. E depois, que vá em frente. NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 1. Membro, Escola Letra Freudiana. 2. Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982, p. 336. 3. Gazolla, Rachel. Ética e Liberdade in: Hypnose-Ethos, Ética, São Paulo: Educ-Pala Athena, 1997, p. 50. 4. Comparato, Fábio Konder. Ética, direito, moral e religião no mundo moderno, São Paulo, Cia das Letras, 2006, p. 96. 5. Ibidem. 6. Ibidem. 7. Lacan, Jacques. Televisão, versão brasileira Antonio Quinet, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1993, p. 68. 8. Ibidem. 9. Ibidem. 10. Aristóteles. Ética a Nicômaco, trad. Cássio M. Fonseca, Rio de Janeiro, Ed. Tecnoprint S/A-Ediouro, p. 164. 11. Comparato, Fábio Konder. Ética, direito, moral e religião no mundo moderno, op.cit., p. 98. 12. Aristóteles. Política, trad. Nestor Silveira Chaves, Rio de Janeiro, Ed. Tecnoprint S/AEdiouro, p. 18. 13. Ibidem. 14. Arendt, Hannah. Apud Enrico Berti in: Aristóteles no século XX, trad. Dion Davi Macedo, São Paulo, Edições Loyola, 1997. 15. Gazolla, Rachel. Op.cit., p. 55. 16. Ibidem. 17. Ibidem. 18. Ritter, Joachim. Apud Enrico Berti in op.cit., ps. 263-264. 19. Ibidem. 33 20. Ibidem. 21. Ibidem. 22. Aristóteles, Ética a Nicômaco, op.cit., p. 53. 23. Aubenque, Pierre. Aristóteles y el Liceo in: Historia de la Filosofia, trad. Santos Juliá, México, d.f., 1986, p. 228. 24. Op.cit., p. 230. 25. Ibidem. 26. Op.cit., p. 236. 27. Lacan, J. O Seminário: a ética da psicanálise, versão brasileira Antonio Quinet, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1988, p. 23. 28. Ibidem. 29. Freud, Sigmund. El malestar en la cultura in: Obras Completas, Madrid, Editorial Biblioteca Nueva, 1967, vol. III, p. 10. 30. Lacan, Jacques. Televisão, op.cit., p. 72. 31. Badiou, Alain. Ética, um ensaio sobre a consciência do mal, trad. Antonio Transito e Ari Roitman, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1995, p. 59. 34