Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação 20º INTERCOM
Expositora: Regina Maria da Luz Vieira Jornalista/ Doutoranda no
Orientadora: Profª Drª Jerusa Pires Ferreira
Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica
GT Comunicação e Religiosidade
Santos, Abril de 1997
1
A Vinheta do Programa de TV Palavra Viva: Comunicação
Simbólica e Religiosidade
Os símbolos de abertura do Palavra Viva remetem o telespectador para fatos que
estão em sua memória e, ao mesmo tempo vinculam-se ao conteúdo que representam,
contrapondo o mundo racional e o mundo simbólico. Por isso, a abertura utiliza objetos
de cena comuns ao cotidiano do telespectador.
É preciso lembrar também que o símbolo contém em si significado e expressão,
pois é um signo analógico e ambivalente.1 No caso do sagrado, para que haja símbolo é
preciso haver uma verdade à que este o reenvie, como ocorre com o Palavra Viva. Isso
está claro na proposta de elaboração do programa, cujo conteúdo quer transmitir a utopia
de um mundo onde a justiça, a solidariedade, a fraternidade e a igualdade sejam comuns
a todos.
Toda a simbologia da vinheta de abertura do Palavra Viva envia-nos para um
universo mítico e místico, cujo conhecimento remete para o imaginário comum ao
telespectador. O fundo azul em seu início dá a noção de infinito e, ao mesmo tempo
transmite a idéia de noite. De acordo com a teologia mística, a noite simboliza o
desaparecimento de todo conhecimento distinto e a purificação do intelecto, mas também
da memória. É ainda, uma preparação para o dia, de onde brotará a luz da vida.
O globo que gira, e é iluminado por um raio, pode significar a Terra ou o
Universo. É possível interpretar isso como uma transformação que se dá a partir da
influência religiosa. Esta ocorre por meio da Bíblia que, ao ser atingida pelo raio, se abre,
permitindo que se conheça as palavras ali contidas, significando também um caminho a
seguir. O logotipo do programa, que surge de dentro da Bíblia, inclui um círculo branco e
um ramo verde; este pode ser identificado como um galho de árvore2 .
Já o círculo branco pode ser associado a hóstia em forma de pão - que é um dos
símbolos do cristianismo. Traz a idéia de perfeição, de homogeneidade, ausência de
divisão e de distinção; simboliza ainda o mundo, o ponto central ou a vítima imolada em
oferenda expiatória, quando remete para a hóstia consagrada na Eucaristia. Enfim, é o
signo absoluto O ramo, simbolicamente, é associado à diversas passagens bíblicas, como
por exemplo, a árvore que produz o azeite. Este se vincula aos óleos sagrados utilizados
pela Igreja3.
A Bíblia, sendo uma coleção de livros, remete-nos para a sabedoria que tanto pode
estar oculta como transparente. No caso (ela está fechada), simbolizando sabedoria oculta
e, na medida em que se abre, nos mostra a possibilidade desse conhecimento significar
um caminho a ser seguido. Uma interpretação possível desse conteúdo é que esse
1
Ao afirmar que o símbolo do Palavra Viva é um signo analógico e ambivalente, significa dizer que há
uma correlação entre o seu significado e a interpretação que dele fazemos.
2
É preciso destacar que a árvore é considerada como um eixo axial, isto é, um centro, segundo Mircea
Eliade nos explica em seu livro O Sagrado e O Profano e, também, o historiador René Guenon, no livro Os
da Ciência Sagrada. Este autor, diz ainda que enquanto eixo axial, a árvore faz a ligação entre dois mundos:
Celeste e Terrestre.
3
O círculo é o Centro do Mundo, como também nos explica os dois autores já citados. René Guenon nos
lembra ainda que o círculo é o emblema do Mundo nas tradições antigas; enquanto o Cristo é o Coração do
Mundo.
2
conjunto de livros está ao alcance de quem o procura, vinculando-se assim à revelação ou
manifestação
Dentro desta simbologia as cores utilizadas na abertura têm um
significado acentuado. O amarelo do logotipo nos lembra o sol e a luz artificial, cuja
função é iluminar; o amarelo-ouro é a cor da eternidade e recorda tanto a origem divina
como o mundo terrestre. O azul traz as contradições e as alternâncias: dia e noite; claro e
escuro; sugere também a idéia de eternidade, de harmonia, de tranqüilidade, ligação entre
o Céu e a Terra. É uma manifestação das hierogamias; o par amarelo - azul simboliza,
também, o princípio masculino - feminino; morte e vida.
O verde para a simbologia cristã é a esperança, vida, virtude teologal; mediador
entre o calor e o frio; o alto e o baixo. É uma cor humana, refrescante, está ligada ao raio
e associada ao branco qualificando a Epifania e as virtudes cristãs. É o símbolo da Boa
Nova - como é chamado o Evangelho. Já o vermelho presente no logotipo simboliza tanto
o sacrifício dos mártires como a vida, sendo portanto, uma cor ambígua e sua
ambivalência se liga à ação e à paixão cega, ao amor infernal. É a cor da imortalidade,
daquilo que está atado no Céu, através dos fios do destino.
Complementando o conjunto simbólico há a trilha sonora que compõe a vinheta e
cujo ritmo transporta o telespectador para um mundo tranqüilo, mas não irreal. Busca
criar o clima necessário à interiorização ou acolhida por parte de quem se dispõe a assistir
ao programa, isso se deve a seqüência dos símbolos e a melodia suave, num ritmo
harmônico. Ao utilizar cores quentes e símbolos que exprimem as relações terra - céu,
espaço - tempo, imanente - transcendente, isto é, a síntese de contrários, esta abertura
permite um leque de interpretações; criando um envolvimento emocional do telespectador
em relação àquilo que irá assistir.
Verificamos que os símbolos de abertura foram criados em função de uma
determinada coletividade e que esta constitui um único centro, no caso, a Igreja; sua
Epifania simbólica situa-nos dentro de um universo espiritual. Além disso, a abertura
trabalha com cores quentes e seus símbolos exprimem as seguintes relações: Céu -Terra;
Espaço -Tempo; Imanente -Transcendente; enfim a síntese dos contrários. A rede de
símbolos constituída pelos diversos elementos mostra que a composição e montagem do
programas foi pensada a partir do universo dos mentores da série, mas também em função
do possível público que viesse a assisti-lo e que por força do próprio veículo TV é
bastante abrangente. Assim, símbolos considerados sagrados podem ser utilizados num
meio visto como profano: a televisão.
É preciso salientar ainda que a televisão utiliza símbolos conhecidos de seu
telespectador e busca um certo grau de adaptação dos mitos, a fim de que as pessoas não
fiquem transtornadas quando assistem determinados programas. Ela tem uma linguagem
própria, utilizando personagens antagônicos como herói / vilão ou bandido / mocinho.
Enquanto veículo de comunicação comercial, ( que visa lucro), a TV usa planos fechados,
cenas de estúdio e poucas cenas externas, reduzindo seus custos, mas principalmente,
leva o telespectador a se identificar de modo imediato com aquilo que está assistindo.
Une ficção e realidade; há uma fusão entre o imaginário do telespectador e aquilo que a
televisão propõe, ou seja, informar e divertir de modo menos reflexivo.
A imagem hoje é a forma mais imediata da comunicação pessoal e tecnológica; eis
porque a TV busca uma interatividade tanto no campo financeiro-econômico como no
tecnológico. Para isso, oferece novos serviços unindo: educação, informação, venda,
3
análise. É possível perceber que desse modo, o veículo vai se transformar cada vez mais,
incorporando novos produtos, dando sempre mais ênfase à imagem, que será o centro de
tudo. Neste sentido, o programa Palavra Viva vem ao encontro de uma necessidade básica
do telespectador: a utopia possível dentro do nosso cotidiano.
A Religiosidade
Se considerarmos que na Bíblia o mito da criação e da restauração se faz presente de
modo visível, através das chamadas qualidades emocionais, que são: alegria / tristeza;
angústia / excitação e depressão podemos afirmar que o Palavra Viva, em suas diversas
histórias, utiliza esse mito através da busca da utopia da realização do Reino e de uma
sociedade justa e igualitária, incluindo a participação das pessoas nessa construção.
Lembramos ainda que a televisão recria determinados mitos, transformando-os em lendas
para o entretenimento cultural; enquanto o mito responde às questões básicas humanas
sobre o significado do sofrimento, vida e morte, com uma resolução lógica. Deste modo,
é possível afirmar que o conteúdo do Palavra Viva envolve essa temática.
A TV utiliza a parte técnica (ângulos de câmera, técnicas de entrevistas) e
símbolos familiares se justapõem às imagens icônicas exibidas ao telespectador, para
criar argumentos não verbais, a fim de envolver o telespectador. Através do mito constrói
seus conteúdos, buscando atingir determinado público, de acordo com os objetivos de
cada um de seus programas. Isto porque,
“O mito é simultaneamente diacrônico
(como
narração
histórica
do
passado)
e
sincrônico (como instrumento de explicação de
presente e até de futuro). (...) O mito usa os
acontecimentos
como
matéria
para
o
reagrupamento
das
estruturas,
constrói
o
universo de objetos e acontecimentos já a
partir da estrutura.”4 1
o mito sempre busca narrar uma história, conservar informações a partir de uma
realidade vivida por determinado povo ou grupo social. Portanto, o
“mito responde às questões básicas humanas
sobre o significado do sofrimento, da vida e da
morte, com uma resolução lógica. Mito, no mais
das vezes, tem um tipo de significância
sagrada,
ritual,
inspirando
uma
certa
reverência e crença numa ordem cósmica.”5
Nesse sentido é possível perceber que o mundo mítico vincula-se ao momento
cultural vivido pelo homem e que a televisão, por sua vez, explora essa visão mítica do
ser humano ao recriar histórias verossímeis em suas novelas, outros programas de lazer e
mesmo nos noticiários. O Palavra Viva não foge a essa regra, principalmente, porque seu
4
5
Eleazar Mielietinski, A Poética do Mito, pp. 48 e 91.
Robert White, in Televisão Como Mito e Ritual, in Revista Comunicação e Educação, p. 48.
4
universo simbólico se baseia na Bíblia e na religião, onde o mito da criação e da
restauração se faz presente de modo bastante visível. É preciso salientar que
“o significado básico do mito não está ligado à
seqüência de acontecimentos, mas antes, se
assim se pode dizer a grupos de acontecimentos,
ainda que tais acontecimentos ocorram em
momentos diferentes da História.6
Eis porque,
“Os mitos preservam e transmitem os paradigmas,
os modelos exemplares, para todas as atividades
responsáveis a que o homem se dedica em razão
desses modelos paradigmáticos, revelados ao
homem em termos míticos, o cosmo e a sociedade
são regeneradas de maneira periódica.” 7
Portanto, no mito está presente a restauração do Tempo, isto é um tempo ad
infinitum, e também a própria História transparece no mito. Podemos dizer que o mito é
uma narrativa cuja base está nas crenças populares dos chamados tempos pagãos ou
heróicos e que
“a função mestra do mito é a de fixar modelos
exemplares de todos os ritos e de todas as ações
humanas significativas.”8
O símbolo é algo convencional, seu significado tem por base uma norma
generalizada em determinado círculo social. Assim, todo símbolo é um signo, tendo
sempre um conteúdo que se manifesta. O símbolo pode ser indicativo, isto é, indica fatos
que podem não estar evidentes de forma direta em nossa memória.
“O símbolo não sendo já de natureza lingüística
deixa de se desenvolver numa só dimensão. As
motivações que ordenam os símbolos já não
formam somente longas cadeias de razões, mas
nem mesmo sequer cadeias.”9
Portanto, os símbolos têm estreitas vinculações com o conjunto de idéias do ser humano,
a partir de seu contexto histórico-social. Se considerarmos os historiadores das religiões
podemos dizer que há símbolos cujo parentesco é mais ou menos nítido com uma das
grandes epifanias cosmológicas.
“É assim que Krappe subdivide os mitos e os
símbolos em dois grupos: os símbolos celestes e
os símbolos terrestres.”10
Assim, o símbolo, bem como o mundo ou pensamento simbólico tem um caráter
pluridimensional, espacial, que é essencial para sua quase universalidade. O simbólico
6
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p. 68
Mircea Eliade, Mito do Eterno Retorno, p.12
8
____________, Tratado de História das Religiões, p. 334.
9
Charles S. Pierce, Semiótica, pp. 46 e 47.
10
Gilbert Durand, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, p. 24.
7
5
nos permite não só dar nome à nossa experiência, mas organizá-la, tornando-a pensável,
comunicável. Deste modo tudo que permite a interpretação e um sentido indireto é
simbólico; eis porque, a comunicação, no seu todo é simbólica. O pensamento simbólico
ou a simbologia como um todo, em função de suas características reúne as diversas
polaridades tais como: claro - escuro; noite - dia; céu - inferno; bem - mal; bom - mau,
etc. Deste modo,
“os objetos simbólicos, mais ainda que os
utensílios, não são nunca puros, mas constituem
tecidos onde várias dominantes podem imbricarse; a árvore, por exemplo, pode ser ao mesmo
tempo símbolo do ciclo sazonal e da ascensão
vertical (...). O objeto simbólico está muitas
vezes sujeito à inversões do sentido, ou pelo
menos, desdobramentos que conduzem a processos
de dupla negação.”11
Deste modo, o simbólico perpassa todas as atividades humanas e, no tocante à
religião, esse simbólico se acentua de forma bastante nítida. Mesmo porque,
“a religião é tanto um fato social quanto uma
experiência
individual.
Para
muitos
participantes do ritual religioso o significado
mítico ou simbólico de seus atos é escassamente
compreendido. Eles distinguem o sagrado do
profano e obedecem aos costumes tradicionais
como parte de seu apego à fé, mas com pouco ou
nenhum conhecimento das origens ou significação
do que praticam. (...) As crenças, rituais e
objetos adquirem qualidade sacra não de uma
reação individual, mas através da reação
coletiva do grupo. (...) Os homens adquirem
suas idéias religiosas dos grupos em que vivem;
os rituais religiosos comumente - conquanto nem
sempre - são mais assuntos coletivos do que
atividades privadas, e até os atos sagrados que
os indivíduos executam a sós obedecem a
prescrições culturais.”12
Portanto, a religião é algo inerente ao ser humano e sua prática é coletiva, porém, seu
universo simbólico, advém muitas vezes de objetos e rituais do chamado mundo profano
ou ocasiões significativas na vida do homem, tais como nascimento, casamento, morte,
semeadura e colheita da lavoura.
“As metas da religião são transcendentais - a salvação, a absolvição
dos pecados, a unidade com Deus - ou de caráter geral: a saúde, a
vida longa, a riqueza. (...) A religião minora as incertezas do homem,
emprestando significado a seus atos ou estabelecendo suas relações
com o divino. (...) Tanto a religião quanto a magia incorporam o
ritual, mas as atitudes em relação a essas práticas são diferentes. A
prece ou cerimônia religiosa é acompanhada de temor respeitoso e
reverência.”13
11
Gilbert Durand, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, p. 24
Ely Chinoy, Sociedade - Uma Introdução à Sociologia, pp. 491 e 492.
13
Ibid., pp. 496 e 497.
12
6
A religião, em toda parte, contribui para a ordem social, exercendo importantes funções
sociais, como por exemplo, a prática da solidariedade numa sociedade. Assim,
“o ritual que faz parte da religião não
somente reafirma as crenças partilhadas pelas
pessoas, senão também congrega os crentes numa
comunidade moral, incentivando a conformidade
às suas ordens. Participando da missa, o
católico expressa suas atitudes em relação ao
divino e confirma sua participação na Igreja e
na comunhão dos crentes.(...) A religião também
pode
contribuir
para
a
persistência
das
instituições e das relações sociais existentes,
pela atitude que impõe em face da vida e, pela
interpretação
ética
que
oferece
da
sociedade.”14
Deste modo a religião está, totalmente, inserida no contexto social de um povo e de uma
época histórica. Isto é, a religião faz parte da essência do homem, que busca explicações
para aquilo que não entende ou para fenômenos da natureza que possa desestruturar a
própria vida. Além disso,
“a Igreja exerce o poder no mundo de hoje em
parte devido à sua influência moral e aos seus
recursos econômicos, mas também porque continua
servindo de meio de comunicação em massa. Capaz
de atingir milhões de pessoas toda manhã de
domingo, ela faz com que a audiência de alguns
dos programas de televisão mais assistidos no
muno pareça realmente pequena(...) e no mundo
de hoje a igreja faz uso de jornais, revistas e
outros meios em apoio de suas comunicações de
viva voz. Enquanto a Igreja Católica - ou
qualquer outra religião organizada
- puder
reunir enormes rebanhos e, assim, alcançar uma
audiência em massa nenhum governo poderá
ignorá-la. (...) O reconhecimento de que a
religião organizada, seja lá o que ela possa
ser além disso, também é um meio de comunicação
em massa ajuda a explicar muitos deslocamentos
recentes do poder.(..) Mas quando a Igreja abre
o
seu
canal
e
expressa
do
púlpito
a
contrariedade
popular,
o
meio
altera
a
mensagem, e o protesto, que pode se originar na
fome ou em outros sofrimentos materiais, é
refeito em termos religiosos.”15
Isto significa que a Igreja tanto pode estar aliada ao poder, como tornar-se um meio de
oposição a este, conforme o contexto histórico-cultural em que esteja inserida. Por sua
vez, quando utiliza a televisão, a Igreja (enquanto instituição), entra no mundo mítico e
ritual deste veículo. Porém, nem sempre se dá conta disso.
“A linguagem específica da TV é a
narrativa.
(...) O discurso narrativo da
TV surgiu de uma tradição de conto popular
14
15
Ibid., pp. 496 e 497.
Ibid., p. 508.
7
tão antiga quanto a humanidade, mas mais
diretamente de uma transformação da mídia
diária, de um fórum de debates elitistas
para um entretenimento popular no século
XIX. A TV reescreve o mundo em termos de
uma trama (enredo) parecida com um conto
popular com heróis, vilões, competições e
resultados bem definidos”.16
Isto significa que como veículo popular e oral, a televisão busca atingir a massa através
de uma linguagem que lhes seja própria e, desse modo
“utiliza
uma
linguagem
de
símbolos
familiares,
contos
populares
e
mitos
nacionais
ou
cômicos
que
são
instantaneamente reconhecíveis por todos
que a assistem.”17
Podemos dizer que a TV utiliza um conteúdo temático, com uma determinada
cronologia e conforme a lógica cultural vigente; eis aí as novelas e mini-séries que
comprovam tais afirmações. Assim, a televisão vai trabalhar dentro de uma estrutura
morfológica mítica que envolve o mocinho, o bandido e um mediador, ou ainda na visão
bem e mal, como em quadros de determinados programas de fins-de-semana. Ao
intercalar um determinado programa (seja ele filme, novela ou noticiário) com mensagens
publicitárias, a TV cria um ritual, pois este intervalo permite ao telespectador respirar
aliviado, por exemplo, quando a emoção no tocante ao programa que assiste está muito
intensa.
“Newcomb observa que a TV é um mundo
fictício
ou
uma
apresentação
construída,
altamente seletiva, de documentários e notícias
que nos distanciam da vida real, mas também
oferecem
uma
discussão
e
um
comentário
correntes desta vida. (...) A TV faz o papel de
coro quando apresenta experiências e memórias
culturais amplamente compartilhadas, em que o
público pode entrar, questionar e criticar
porque é, em graus diversos, a sua vida. (...)
O texto da TV é tido como um produto cultural
coletivo da sociedade e uma reflexão sobre a
dinâmica
da
produção
cultural
nessa
sociedade.”18
Deste modo afirmamos que a televisão parte do universo simbólico que envolve
seu telespectador e, criando uma mítica própria - mas baseada na concepção e na crença
de uma ordem cósmica - elabora sua programação, que obedece a um determinado ritual,
tendo em vista esse mesmo público. A TV amplia as necessidades consciente e
subconsciente do telespectador, tornando-a concreta através da própria programação e,
principalmente, por meio das mensagens publicitárias. Ela é parte de um sistema de
comunicação muito maior, que envolve milhões de computadores, máquinas de fax,
16
Televisão Como Mito e Ritual, in Revista de Comunicação e Educação, p. 65.
Ibid., p. 66.
18
Ibid., pp. 71 e 72.
17
8
impressoras e copiadoras, vídeos, enfim a nova tecnologia que abrange a transmissão por
satélite e por cabo e,
“esse novo sistema de
meios de comunicação
abrangente é uma causa da ascensão ( e uma
reação à ascensão) da nova economia baseada no
conhecimento,
e
represente
uma
transição
abrupta na maneira pela qual a raça humana usa
símbolos e imagens. Nenhuma das partes dessa
imensa rede está inteiramente isolada das
demais.(...) O novo sistema de meios de
comunicação é uma acelerador da powershift“19 .
Isto é, a mudança profunda na estrutura do poder e não apenas uma mudança de poder
serve-se dos meios de comunicação para acelerar e completar as propostas de mudança
neste fim de século.
O universo simbólico no programa 163
Este programa tem como título Ser Cidadão e seus objetos de cena são muro, árvores,
pacote, maço de dinheiro, estação de trem, livro aberto. Enquanto o cenário está
constituído por parque, interior de uma fábrica, rua à noite, interior de residência (dia e
noite).
Os símbolos servem como componentes da história apresentada. A árvore traz a idéia de
Cosmo vivo, como fala o autor Mircea Eliade; símbolo da vida em perpétua ascensão
para o Céu. Este objeto evoca todo o simbolismo da verticalidade; pondo igualmente em
comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo (através de suas raízes sempre a
explorarem as profundezas onde se enterram), a superfície da terra (através de seu tronco
e seus galhos inferiores), as alturas (por meio de seus galhos superiores e de seu cimo,
atraídos pela luz do céu).
Estabelece uma relação entre o mundo ctoniano e o mundo uraniano e reúne todos os
elementos: a água circula com sua seiva, a terra integra-se a seu corpo através das raízes,
o ar lhe nutre as folhas e dela brota o fogo quando se esfregam seus galhos uns contra os
outros. A árvore é universalmente considerada como símbolo das relações que se
estabelece entre a terra e o céu; por isso, tem o sentido de centro. A associacão da Árvore
da Vida com a manifestacão divina encontra-se nas tradições cristãs, como nos explica
René Guenon, em seu livro "Os Símbolos da Ciência Sagrada".
O dinheiro (moeda) é um símbolo econômico no sentido mais amplo. Siímboliza o estar
preso ao mundo ou a avareza, do ponto de vista moral, de acordo com o que nos diz o
"Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier. O mesmo autor explica o simbolismo do
embrulho, (pacote): em função da embalagem pode-se fazer uma analogia com o centro
do mundo. O conteúdo simbolico (e, portanto, o verdadeiro conjunto de significados,
oculto por detrás da aparência exterior do pacote) pode ser descoberto ou lido na própria
embalagem, à medida em que ela for sendo desfeita. Já o relógio (de ponto, que é
quadrado) é uma imposição de medida, dominação do tempo que simboliza o espaço, a
matéria, a terra de acordo com a visão desses dois autores, indicando tão somente o
instante presente no espaço.
19
Alain Toffler, Powershift - As mudanças do Poder, p. 371.
9
O embarque na estação de trem simboliza o inconsciente, onde se encontra o ponto de
partida da evolução, das nossas atividades materiais, físicas, espirituais. Muitas direções
são possíveis, mas é preciso tomar aquela que convém. A estação, em si, é um centro de
circulação intensa em todas as direções, podendo evocar o self. Enquanto o desembarque
mostra que o trabalho oculto de evolução fez-nos chegar a uma etapa do nosso destino.
Por sua vez, o livro aberto simboliza a sabedoria, o conhecimento e também a totalidade
do universo e indica o cumprimento da promessa do Antigo Testamento de enviar um
salvador.
Neste programa podemos concluir que os símbolos remetem para um significado de
conduta moral, pessoal considerada correta. A devolução do “dinheiro” ilegal ocorre na
estação de trem, significando a tomada da direção correta; a menina com o livro aberto
indica a busca da sabedoria, enquanto o sono do homem significa a tranquilidade de
espírito.
10
Bibliografia
CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, Ed.
José Olympio, 1995.
CHINOY, Ely. Sociedade - Uma Introdução à Sociologia, São
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GUENON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada, trad. J.
Constantino Kairalla Riemma, São Paulo, Ed. Pensamento, 1993.
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1979.
TOFFLER, Alain. Powershift, As Mudanças do Poder, Rio de
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WHITE, Robert. Televisão Como Mito e Ritual, in Revista
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95.
11
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A televisão tem uma linguagem própria e utiliza