Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação 20º INTERCOM Expositora: Regina Maria da Luz Vieira Jornalista/ Doutoranda no Orientadora: Profª Drª Jerusa Pires Ferreira Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica GT Comunicação e Religiosidade Santos, Abril de 1997 1 A Vinheta do Programa de TV Palavra Viva: Comunicação Simbólica e Religiosidade Os símbolos de abertura do Palavra Viva remetem o telespectador para fatos que estão em sua memória e, ao mesmo tempo vinculam-se ao conteúdo que representam, contrapondo o mundo racional e o mundo simbólico. Por isso, a abertura utiliza objetos de cena comuns ao cotidiano do telespectador. É preciso lembrar também que o símbolo contém em si significado e expressão, pois é um signo analógico e ambivalente.1 No caso do sagrado, para que haja símbolo é preciso haver uma verdade à que este o reenvie, como ocorre com o Palavra Viva. Isso está claro na proposta de elaboração do programa, cujo conteúdo quer transmitir a utopia de um mundo onde a justiça, a solidariedade, a fraternidade e a igualdade sejam comuns a todos. Toda a simbologia da vinheta de abertura do Palavra Viva envia-nos para um universo mítico e místico, cujo conhecimento remete para o imaginário comum ao telespectador. O fundo azul em seu início dá a noção de infinito e, ao mesmo tempo transmite a idéia de noite. De acordo com a teologia mística, a noite simboliza o desaparecimento de todo conhecimento distinto e a purificação do intelecto, mas também da memória. É ainda, uma preparação para o dia, de onde brotará a luz da vida. O globo que gira, e é iluminado por um raio, pode significar a Terra ou o Universo. É possível interpretar isso como uma transformação que se dá a partir da influência religiosa. Esta ocorre por meio da Bíblia que, ao ser atingida pelo raio, se abre, permitindo que se conheça as palavras ali contidas, significando também um caminho a seguir. O logotipo do programa, que surge de dentro da Bíblia, inclui um círculo branco e um ramo verde; este pode ser identificado como um galho de árvore2 . Já o círculo branco pode ser associado a hóstia em forma de pão - que é um dos símbolos do cristianismo. Traz a idéia de perfeição, de homogeneidade, ausência de divisão e de distinção; simboliza ainda o mundo, o ponto central ou a vítima imolada em oferenda expiatória, quando remete para a hóstia consagrada na Eucaristia. Enfim, é o signo absoluto O ramo, simbolicamente, é associado à diversas passagens bíblicas, como por exemplo, a árvore que produz o azeite. Este se vincula aos óleos sagrados utilizados pela Igreja3. A Bíblia, sendo uma coleção de livros, remete-nos para a sabedoria que tanto pode estar oculta como transparente. No caso (ela está fechada), simbolizando sabedoria oculta e, na medida em que se abre, nos mostra a possibilidade desse conhecimento significar um caminho a ser seguido. Uma interpretação possível desse conteúdo é que esse 1 Ao afirmar que o símbolo do Palavra Viva é um signo analógico e ambivalente, significa dizer que há uma correlação entre o seu significado e a interpretação que dele fazemos. 2 É preciso destacar que a árvore é considerada como um eixo axial, isto é, um centro, segundo Mircea Eliade nos explica em seu livro O Sagrado e O Profano e, também, o historiador René Guenon, no livro Os da Ciência Sagrada. Este autor, diz ainda que enquanto eixo axial, a árvore faz a ligação entre dois mundos: Celeste e Terrestre. 3 O círculo é o Centro do Mundo, como também nos explica os dois autores já citados. René Guenon nos lembra ainda que o círculo é o emblema do Mundo nas tradições antigas; enquanto o Cristo é o Coração do Mundo. 2 conjunto de livros está ao alcance de quem o procura, vinculando-se assim à revelação ou manifestação Dentro desta simbologia as cores utilizadas na abertura têm um significado acentuado. O amarelo do logotipo nos lembra o sol e a luz artificial, cuja função é iluminar; o amarelo-ouro é a cor da eternidade e recorda tanto a origem divina como o mundo terrestre. O azul traz as contradições e as alternâncias: dia e noite; claro e escuro; sugere também a idéia de eternidade, de harmonia, de tranqüilidade, ligação entre o Céu e a Terra. É uma manifestação das hierogamias; o par amarelo - azul simboliza, também, o princípio masculino - feminino; morte e vida. O verde para a simbologia cristã é a esperança, vida, virtude teologal; mediador entre o calor e o frio; o alto e o baixo. É uma cor humana, refrescante, está ligada ao raio e associada ao branco qualificando a Epifania e as virtudes cristãs. É o símbolo da Boa Nova - como é chamado o Evangelho. Já o vermelho presente no logotipo simboliza tanto o sacrifício dos mártires como a vida, sendo portanto, uma cor ambígua e sua ambivalência se liga à ação e à paixão cega, ao amor infernal. É a cor da imortalidade, daquilo que está atado no Céu, através dos fios do destino. Complementando o conjunto simbólico há a trilha sonora que compõe a vinheta e cujo ritmo transporta o telespectador para um mundo tranqüilo, mas não irreal. Busca criar o clima necessário à interiorização ou acolhida por parte de quem se dispõe a assistir ao programa, isso se deve a seqüência dos símbolos e a melodia suave, num ritmo harmônico. Ao utilizar cores quentes e símbolos que exprimem as relações terra - céu, espaço - tempo, imanente - transcendente, isto é, a síntese de contrários, esta abertura permite um leque de interpretações; criando um envolvimento emocional do telespectador em relação àquilo que irá assistir. Verificamos que os símbolos de abertura foram criados em função de uma determinada coletividade e que esta constitui um único centro, no caso, a Igreja; sua Epifania simbólica situa-nos dentro de um universo espiritual. Além disso, a abertura trabalha com cores quentes e seus símbolos exprimem as seguintes relações: Céu -Terra; Espaço -Tempo; Imanente -Transcendente; enfim a síntese dos contrários. A rede de símbolos constituída pelos diversos elementos mostra que a composição e montagem do programas foi pensada a partir do universo dos mentores da série, mas também em função do possível público que viesse a assisti-lo e que por força do próprio veículo TV é bastante abrangente. Assim, símbolos considerados sagrados podem ser utilizados num meio visto como profano: a televisão. É preciso salientar ainda que a televisão utiliza símbolos conhecidos de seu telespectador e busca um certo grau de adaptação dos mitos, a fim de que as pessoas não fiquem transtornadas quando assistem determinados programas. Ela tem uma linguagem própria, utilizando personagens antagônicos como herói / vilão ou bandido / mocinho. Enquanto veículo de comunicação comercial, ( que visa lucro), a TV usa planos fechados, cenas de estúdio e poucas cenas externas, reduzindo seus custos, mas principalmente, leva o telespectador a se identificar de modo imediato com aquilo que está assistindo. Une ficção e realidade; há uma fusão entre o imaginário do telespectador e aquilo que a televisão propõe, ou seja, informar e divertir de modo menos reflexivo. A imagem hoje é a forma mais imediata da comunicação pessoal e tecnológica; eis porque a TV busca uma interatividade tanto no campo financeiro-econômico como no tecnológico. Para isso, oferece novos serviços unindo: educação, informação, venda, 3 análise. É possível perceber que desse modo, o veículo vai se transformar cada vez mais, incorporando novos produtos, dando sempre mais ênfase à imagem, que será o centro de tudo. Neste sentido, o programa Palavra Viva vem ao encontro de uma necessidade básica do telespectador: a utopia possível dentro do nosso cotidiano. A Religiosidade Se considerarmos que na Bíblia o mito da criação e da restauração se faz presente de modo visível, através das chamadas qualidades emocionais, que são: alegria / tristeza; angústia / excitação e depressão podemos afirmar que o Palavra Viva, em suas diversas histórias, utiliza esse mito através da busca da utopia da realização do Reino e de uma sociedade justa e igualitária, incluindo a participação das pessoas nessa construção. Lembramos ainda que a televisão recria determinados mitos, transformando-os em lendas para o entretenimento cultural; enquanto o mito responde às questões básicas humanas sobre o significado do sofrimento, vida e morte, com uma resolução lógica. Deste modo, é possível afirmar que o conteúdo do Palavra Viva envolve essa temática. A TV utiliza a parte técnica (ângulos de câmera, técnicas de entrevistas) e símbolos familiares se justapõem às imagens icônicas exibidas ao telespectador, para criar argumentos não verbais, a fim de envolver o telespectador. Através do mito constrói seus conteúdos, buscando atingir determinado público, de acordo com os objetivos de cada um de seus programas. Isto porque, “O mito é simultaneamente diacrônico (como narração histórica do passado) e sincrônico (como instrumento de explicação de presente e até de futuro). (...) O mito usa os acontecimentos como matéria para o reagrupamento das estruturas, constrói o universo de objetos e acontecimentos já a partir da estrutura.”4 1 o mito sempre busca narrar uma história, conservar informações a partir de uma realidade vivida por determinado povo ou grupo social. Portanto, o “mito responde às questões básicas humanas sobre o significado do sofrimento, da vida e da morte, com uma resolução lógica. Mito, no mais das vezes, tem um tipo de significância sagrada, ritual, inspirando uma certa reverência e crença numa ordem cósmica.”5 Nesse sentido é possível perceber que o mundo mítico vincula-se ao momento cultural vivido pelo homem e que a televisão, por sua vez, explora essa visão mítica do ser humano ao recriar histórias verossímeis em suas novelas, outros programas de lazer e mesmo nos noticiários. O Palavra Viva não foge a essa regra, principalmente, porque seu 4 5 Eleazar Mielietinski, A Poética do Mito, pp. 48 e 91. Robert White, in Televisão Como Mito e Ritual, in Revista Comunicação e Educação, p. 48. 4 universo simbólico se baseia na Bíblia e na religião, onde o mito da criação e da restauração se faz presente de modo bastante visível. É preciso salientar que “o significado básico do mito não está ligado à seqüência de acontecimentos, mas antes, se assim se pode dizer a grupos de acontecimentos, ainda que tais acontecimentos ocorram em momentos diferentes da História.6 Eis porque, “Os mitos preservam e transmitem os paradigmas, os modelos exemplares, para todas as atividades responsáveis a que o homem se dedica em razão desses modelos paradigmáticos, revelados ao homem em termos míticos, o cosmo e a sociedade são regeneradas de maneira periódica.” 7 Portanto, no mito está presente a restauração do Tempo, isto é um tempo ad infinitum, e também a própria História transparece no mito. Podemos dizer que o mito é uma narrativa cuja base está nas crenças populares dos chamados tempos pagãos ou heróicos e que “a função mestra do mito é a de fixar modelos exemplares de todos os ritos e de todas as ações humanas significativas.”8 O símbolo é algo convencional, seu significado tem por base uma norma generalizada em determinado círculo social. Assim, todo símbolo é um signo, tendo sempre um conteúdo que se manifesta. O símbolo pode ser indicativo, isto é, indica fatos que podem não estar evidentes de forma direta em nossa memória. “O símbolo não sendo já de natureza lingüística deixa de se desenvolver numa só dimensão. As motivações que ordenam os símbolos já não formam somente longas cadeias de razões, mas nem mesmo sequer cadeias.”9 Portanto, os símbolos têm estreitas vinculações com o conjunto de idéias do ser humano, a partir de seu contexto histórico-social. Se considerarmos os historiadores das religiões podemos dizer que há símbolos cujo parentesco é mais ou menos nítido com uma das grandes epifanias cosmológicas. “É assim que Krappe subdivide os mitos e os símbolos em dois grupos: os símbolos celestes e os símbolos terrestres.”10 Assim, o símbolo, bem como o mundo ou pensamento simbólico tem um caráter pluridimensional, espacial, que é essencial para sua quase universalidade. O simbólico 6 Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p. 68 Mircea Eliade, Mito do Eterno Retorno, p.12 8 ____________, Tratado de História das Religiões, p. 334. 9 Charles S. Pierce, Semiótica, pp. 46 e 47. 10 Gilbert Durand, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, p. 24. 7 5 nos permite não só dar nome à nossa experiência, mas organizá-la, tornando-a pensável, comunicável. Deste modo tudo que permite a interpretação e um sentido indireto é simbólico; eis porque, a comunicação, no seu todo é simbólica. O pensamento simbólico ou a simbologia como um todo, em função de suas características reúne as diversas polaridades tais como: claro - escuro; noite - dia; céu - inferno; bem - mal; bom - mau, etc. Deste modo, “os objetos simbólicos, mais ainda que os utensílios, não são nunca puros, mas constituem tecidos onde várias dominantes podem imbricarse; a árvore, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo símbolo do ciclo sazonal e da ascensão vertical (...). O objeto simbólico está muitas vezes sujeito à inversões do sentido, ou pelo menos, desdobramentos que conduzem a processos de dupla negação.”11 Deste modo, o simbólico perpassa todas as atividades humanas e, no tocante à religião, esse simbólico se acentua de forma bastante nítida. Mesmo porque, “a religião é tanto um fato social quanto uma experiência individual. Para muitos participantes do ritual religioso o significado mítico ou simbólico de seus atos é escassamente compreendido. Eles distinguem o sagrado do profano e obedecem aos costumes tradicionais como parte de seu apego à fé, mas com pouco ou nenhum conhecimento das origens ou significação do que praticam. (...) As crenças, rituais e objetos adquirem qualidade sacra não de uma reação individual, mas através da reação coletiva do grupo. (...) Os homens adquirem suas idéias religiosas dos grupos em que vivem; os rituais religiosos comumente - conquanto nem sempre - são mais assuntos coletivos do que atividades privadas, e até os atos sagrados que os indivíduos executam a sós obedecem a prescrições culturais.”12 Portanto, a religião é algo inerente ao ser humano e sua prática é coletiva, porém, seu universo simbólico, advém muitas vezes de objetos e rituais do chamado mundo profano ou ocasiões significativas na vida do homem, tais como nascimento, casamento, morte, semeadura e colheita da lavoura. “As metas da religião são transcendentais - a salvação, a absolvição dos pecados, a unidade com Deus - ou de caráter geral: a saúde, a vida longa, a riqueza. (...) A religião minora as incertezas do homem, emprestando significado a seus atos ou estabelecendo suas relações com o divino. (...) Tanto a religião quanto a magia incorporam o ritual, mas as atitudes em relação a essas práticas são diferentes. A prece ou cerimônia religiosa é acompanhada de temor respeitoso e reverência.”13 11 Gilbert Durand, As Estruturas Antropológicas do Imaginário, p. 24 Ely Chinoy, Sociedade - Uma Introdução à Sociologia, pp. 491 e 492. 13 Ibid., pp. 496 e 497. 12 6 A religião, em toda parte, contribui para a ordem social, exercendo importantes funções sociais, como por exemplo, a prática da solidariedade numa sociedade. Assim, “o ritual que faz parte da religião não somente reafirma as crenças partilhadas pelas pessoas, senão também congrega os crentes numa comunidade moral, incentivando a conformidade às suas ordens. Participando da missa, o católico expressa suas atitudes em relação ao divino e confirma sua participação na Igreja e na comunhão dos crentes.(...) A religião também pode contribuir para a persistência das instituições e das relações sociais existentes, pela atitude que impõe em face da vida e, pela interpretação ética que oferece da sociedade.”14 Deste modo a religião está, totalmente, inserida no contexto social de um povo e de uma época histórica. Isto é, a religião faz parte da essência do homem, que busca explicações para aquilo que não entende ou para fenômenos da natureza que possa desestruturar a própria vida. Além disso, “a Igreja exerce o poder no mundo de hoje em parte devido à sua influência moral e aos seus recursos econômicos, mas também porque continua servindo de meio de comunicação em massa. Capaz de atingir milhões de pessoas toda manhã de domingo, ela faz com que a audiência de alguns dos programas de televisão mais assistidos no muno pareça realmente pequena(...) e no mundo de hoje a igreja faz uso de jornais, revistas e outros meios em apoio de suas comunicações de viva voz. Enquanto a Igreja Católica - ou qualquer outra religião organizada - puder reunir enormes rebanhos e, assim, alcançar uma audiência em massa nenhum governo poderá ignorá-la. (...) O reconhecimento de que a religião organizada, seja lá o que ela possa ser além disso, também é um meio de comunicação em massa ajuda a explicar muitos deslocamentos recentes do poder.(..) Mas quando a Igreja abre o seu canal e expressa do púlpito a contrariedade popular, o meio altera a mensagem, e o protesto, que pode se originar na fome ou em outros sofrimentos materiais, é refeito em termos religiosos.”15 Isto significa que a Igreja tanto pode estar aliada ao poder, como tornar-se um meio de oposição a este, conforme o contexto histórico-cultural em que esteja inserida. Por sua vez, quando utiliza a televisão, a Igreja (enquanto instituição), entra no mundo mítico e ritual deste veículo. Porém, nem sempre se dá conta disso. “A linguagem específica da TV é a narrativa. (...) O discurso narrativo da TV surgiu de uma tradição de conto popular 14 15 Ibid., pp. 496 e 497. Ibid., p. 508. 7 tão antiga quanto a humanidade, mas mais diretamente de uma transformação da mídia diária, de um fórum de debates elitistas para um entretenimento popular no século XIX. A TV reescreve o mundo em termos de uma trama (enredo) parecida com um conto popular com heróis, vilões, competições e resultados bem definidos”.16 Isto significa que como veículo popular e oral, a televisão busca atingir a massa através de uma linguagem que lhes seja própria e, desse modo “utiliza uma linguagem de símbolos familiares, contos populares e mitos nacionais ou cômicos que são instantaneamente reconhecíveis por todos que a assistem.”17 Podemos dizer que a TV utiliza um conteúdo temático, com uma determinada cronologia e conforme a lógica cultural vigente; eis aí as novelas e mini-séries que comprovam tais afirmações. Assim, a televisão vai trabalhar dentro de uma estrutura morfológica mítica que envolve o mocinho, o bandido e um mediador, ou ainda na visão bem e mal, como em quadros de determinados programas de fins-de-semana. Ao intercalar um determinado programa (seja ele filme, novela ou noticiário) com mensagens publicitárias, a TV cria um ritual, pois este intervalo permite ao telespectador respirar aliviado, por exemplo, quando a emoção no tocante ao programa que assiste está muito intensa. “Newcomb observa que a TV é um mundo fictício ou uma apresentação construída, altamente seletiva, de documentários e notícias que nos distanciam da vida real, mas também oferecem uma discussão e um comentário correntes desta vida. (...) A TV faz o papel de coro quando apresenta experiências e memórias culturais amplamente compartilhadas, em que o público pode entrar, questionar e criticar porque é, em graus diversos, a sua vida. (...) O texto da TV é tido como um produto cultural coletivo da sociedade e uma reflexão sobre a dinâmica da produção cultural nessa sociedade.”18 Deste modo afirmamos que a televisão parte do universo simbólico que envolve seu telespectador e, criando uma mítica própria - mas baseada na concepção e na crença de uma ordem cósmica - elabora sua programação, que obedece a um determinado ritual, tendo em vista esse mesmo público. A TV amplia as necessidades consciente e subconsciente do telespectador, tornando-a concreta através da própria programação e, principalmente, por meio das mensagens publicitárias. Ela é parte de um sistema de comunicação muito maior, que envolve milhões de computadores, máquinas de fax, 16 Televisão Como Mito e Ritual, in Revista de Comunicação e Educação, p. 65. Ibid., p. 66. 18 Ibid., pp. 71 e 72. 17 8 impressoras e copiadoras, vídeos, enfim a nova tecnologia que abrange a transmissão por satélite e por cabo e, “esse novo sistema de meios de comunicação abrangente é uma causa da ascensão ( e uma reação à ascensão) da nova economia baseada no conhecimento, e represente uma transição abrupta na maneira pela qual a raça humana usa símbolos e imagens. Nenhuma das partes dessa imensa rede está inteiramente isolada das demais.(...) O novo sistema de meios de comunicação é uma acelerador da powershift“19 . Isto é, a mudança profunda na estrutura do poder e não apenas uma mudança de poder serve-se dos meios de comunicação para acelerar e completar as propostas de mudança neste fim de século. O universo simbólico no programa 163 Este programa tem como título Ser Cidadão e seus objetos de cena são muro, árvores, pacote, maço de dinheiro, estação de trem, livro aberto. Enquanto o cenário está constituído por parque, interior de uma fábrica, rua à noite, interior de residência (dia e noite). Os símbolos servem como componentes da história apresentada. A árvore traz a idéia de Cosmo vivo, como fala o autor Mircea Eliade; símbolo da vida em perpétua ascensão para o Céu. Este objeto evoca todo o simbolismo da verticalidade; pondo igualmente em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo (através de suas raízes sempre a explorarem as profundezas onde se enterram), a superfície da terra (através de seu tronco e seus galhos inferiores), as alturas (por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu). Estabelece uma relação entre o mundo ctoniano e o mundo uraniano e reúne todos os elementos: a água circula com sua seiva, a terra integra-se a seu corpo através das raízes, o ar lhe nutre as folhas e dela brota o fogo quando se esfregam seus galhos uns contra os outros. A árvore é universalmente considerada como símbolo das relações que se estabelece entre a terra e o céu; por isso, tem o sentido de centro. A associacão da Árvore da Vida com a manifestacão divina encontra-se nas tradições cristãs, como nos explica René Guenon, em seu livro "Os Símbolos da Ciência Sagrada". O dinheiro (moeda) é um símbolo econômico no sentido mais amplo. Siímboliza o estar preso ao mundo ou a avareza, do ponto de vista moral, de acordo com o que nos diz o "Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier. O mesmo autor explica o simbolismo do embrulho, (pacote): em função da embalagem pode-se fazer uma analogia com o centro do mundo. O conteúdo simbolico (e, portanto, o verdadeiro conjunto de significados, oculto por detrás da aparência exterior do pacote) pode ser descoberto ou lido na própria embalagem, à medida em que ela for sendo desfeita. Já o relógio (de ponto, que é quadrado) é uma imposição de medida, dominação do tempo que simboliza o espaço, a matéria, a terra de acordo com a visão desses dois autores, indicando tão somente o instante presente no espaço. 19 Alain Toffler, Powershift - As mudanças do Poder, p. 371. 9 O embarque na estação de trem simboliza o inconsciente, onde se encontra o ponto de partida da evolução, das nossas atividades materiais, físicas, espirituais. Muitas direções são possíveis, mas é preciso tomar aquela que convém. A estação, em si, é um centro de circulação intensa em todas as direções, podendo evocar o self. Enquanto o desembarque mostra que o trabalho oculto de evolução fez-nos chegar a uma etapa do nosso destino. Por sua vez, o livro aberto simboliza a sabedoria, o conhecimento e também a totalidade do universo e indica o cumprimento da promessa do Antigo Testamento de enviar um salvador. Neste programa podemos concluir que os símbolos remetem para um significado de conduta moral, pessoal considerada correta. A devolução do “dinheiro” ilegal ocorre na estação de trem, significando a tomada da direção correta; a menina com o livro aberto indica a busca da sabedoria, enquanto o sono do homem significa a tranquilidade de espírito. 10 Bibliografia CHEVALIER, Jean. Dicionário de Símbolos, Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1995. CHINOY, Ely. Sociedade - Uma Introdução à Sociologia, São Paulo, Ed. Cultrix, 1975. DURAND, Gilbert. As Estruturas Antropológicas do Imaginário, trad. Hélder Godinho, Lisboa, Ed. Presença, 1989. ELIADE, Mircea. Mito do Eterno Retorno, São Paulo, Ed. Mercuryo, 1992. GUENON, René. Os Símbolos da Ciência Sagrada, trad. J. Constantino Kairalla Riemma, São Paulo, Ed. Pensamento, 1993. LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado, São Paulo, Ed. 70, 1989. MIELIETINSKI, E. M. . A Poética do Mito, Rio de Janeiro, Ed. Forense-Universitária, 1987. 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