PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO ACÓRDÃO / DECISÃO MONOCRÁTICA Id? ' ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos de AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI n° 068.2 99-0/0-00, da Comarca de SÃO PAULO, em que é requerente PREFEITO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS, sendo requerido PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS: ACORDAM, em Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, por votação unânime, julgar procedente a ação, de conformidade com o relatório e voto do Relator, que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. Participaram do julgamento os Desembargadores NIGRO CONCEIÇÃO (Presidente), LUÍS DE MACEDO, VISEU JÚ NIOR, GENTIL LEITE, DANTE BUSANA, DENSER DE SÁ, MOHAMED AMARO, PAULO SHINTATE, BORELLI MACHADO, FLÁVIO PI NHEIRO, GILDO DOS SANTOS, FORTES BARBOSA, VALLIM BEL LOCCHI, SINÉSIO DE SOUZA, JARBAS MAZZONI, THEODORO GUI MARÃES, MENEZES GOMES, OLAVO SILVEIRA, PAULO FRANCO, BARBOSA PEREIRA, RUY CAMILO, MATTOS FARIA, CEZAR PELU SO e ROBERTO STUCCHI. São Paulo, 13 de março de 2002. NIGRO/CONCEIÇÃO Presidente LUIZ TÂMBARA Relator PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE n° 68.299.0/0 - SÃO PAULO - Voto n° 11.542 COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL Requerente: PREFEITO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS Requerida: CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS EMENTA: ADIn.- Lei n° 5.405. de 10/09/1999. Owarulftos.- Dispõe sobre autorização mediante ücttacáo. ao sistema concessão rotativo o controle automático máquinas eletrônicas emissoras relativa Usurpação outorgar, referente de veículos e informatizado, de tiauetes à direção superior de atribuições InconstitucionaUdade. acolhido para declarar de Chefe - Violação do disposto do Estado a inconstitucionaüdade do Município de por meio em de estacionamento.- da administração do inciso II, e 144 da Constituição 10/09/1999, controlado de público do Município de Ouaruthos fsona asuV*h mediante Matéria para o Executivo onerosa de serviço público de estacionamento vias e logradouros do Município municipal- do Executivo.- nos artigos de São Paulo.- 5°. 47, Pedido da Lei n" 5.405. de Ouaruthos. O PREFEITO MUNICIPAL DE GUARULHOS ajuizou a presente AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE em face da CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS, pedindo a declaração de inconstitucionaüdade da Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, que autoriza o Executivo a outorgar, mediante licitação, concessão COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 1 j \ \j PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO onerosa para projeto, implantação, operação e exploração, por particulares, dos estacionamentos rotativos em vias, logradouros e áreas públicas do Município de Guarulhos ("Zona Azul"), através de controle automático e informatizado, por meio de máquinas eletrônicas emissoras de tíquetes de estacionamento, compensada por receita que assegure sua manutenção, melhoramentos e expansão, calculada com base em estudos desenvolvidos pela Administração Municipal, além de estabelecer que o sistema deverá contemplar serviços de operação de veículos apreendidos, sistema de guinchos, cabines para atendimento ao público, Notificação por Tempo de Tolerância, sistema integrado de software para controle da operação, serviços de manutenção e troca de parquímetros multivagas, porque afronta o comando contido nos artigos 5 o , 47, incisos II e XIV, 111 e 144, da Constituição Paulista, visto que se cuida de ato discricionário de administração dos bens públicos, a cargo do Poder Executivo. Foi concedida a liminar para suspender a eficácia e a o ^ oi ^ vigência da Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, do Município de Guarulhos (69/71), mantida em grau de agravo regimental (fls. 213/216). ~5 a COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 2 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO A CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS prestou informações, defendendo a constitucionalidade da lei impugnada. A PROCURADORA GERAL DO ESTADO manifestou falta de interesse em matéria que envolve auto-organização do Município O PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA opinou pela procedência do pedido para declarar a inconstitucionalidade da Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, do Município Guarulhos. É o relatório. Procede, integralmente, o pedido de declaração de inconstitucionalidade da Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, do MUNICÍPIO DE GUARULHOS, que autoriza o Executivo a outorgar, mediante licitação, concessão onerosa para projeto, implantação, operação e exploração, por particulares, dos estacionamentos rotativos em vias, logradouros e áreas públicas do ç> Município de G u a r u l h o s ("Zona Azul"), através de controle vn a u t o m á t i c o e informatizado, por meio de m á q u i n a s eletrônicas emissoras de tíquetes de estacionamento, compensada por receita que assegure ^ sua manutenção, melhoramentos e expansão, calculada com base em estudos desenvolvidos pela Administração COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 3 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Municipal, além de estabelecer que o sistema deverá contemplar serviços de operação de veículos apreendidos, sistema de guinchos, cabines para atendimento ao público, Notificação por Tempo de Tolerância, sistema integrado de software operação, serviços de manutenção para e troca de controle da parquímetros multivagas, porque afronta o comando contido nos artigos 5 o , 47, incisos II e XIV, 111 e 144, da Constituição Paulista, visto que se cuida de ato discricionário de administração dos bens públicos, a cargo do Poder Executivo, como bem demonstrou o ilustre PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA, em seu lúcido e preciso parecer. Com efeito, o artigo 144 da Constituição do Estado de São Paulo, em perfeita harmonia com o disposto no artigo 29 da Constituição da República, estabelece que: "Os Municípios, com autonomia política, administrativa por Lei Orgânica, atendidos e financeira se os princípios auto-organizarão estabelecidos na Constituição Federal e nesta Constituição." o o ai V, organizarem, no que diz respeito aos seus poderes, está vinculada \3 aos limites e às regras gerais impostos na Constituição Federal e "^ a na Constituição Paulista. ^ Portanto, a capacidade de os Municípios se auto- COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 4 ^2 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Na lição do saudoso Professor HELY LOPES MEIRELLES, "A administração municipal é dirigida pelo Prefeito, que, unipessoalmente, como Chefe do Executivo local, comanda, supervisiona e coordena os serviços de peculiar interesse do Município, auxiliado por Secretários Municipais ou Diretores de Departamento, conforme a organização da Prefeitura e a maior ou menor desconcentração de suas atividades, sendo permitida, < ainda, a criação das autarquias e empresas estatais, visando à v (j descentralização administrativa. As leis locais são votadas pela f Câmara de Vereadores, órgão colegiado, com função legislativa precípua para todos os assuntos de peculiar interesse do Município e funções complementares de fiscalização e controle da político-administrativa conduta do Prefeito (julgamento de suas contas, cassação de mandato etc), de assessoramento (indicações ao executivo) e de administração governamental de seus serviços auxiliares (organização interna da Câmara)" (Direito Administrativo Brasileiro, Malheiros Editores, 26 a edição atualizada por Eurico de Andrade Azevedo, Délcio Balestero Aleixo e José Emmanuel Burle Filho, 2001, págs. 729 e 730). Em seu "Direito Brasileiro", o eminente mestre ressalta, com Municipal sua peculiar proficiência, que: "Em sua função normal e predominante sobre as demais, a Câmara elabora leis, isto é, normas abstratas, gerais e COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 5 H 6 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO obrigatórias de conduta. Esta é a sua função específica, bem diferenciada da do Executivo, que é a de praticar atos concretos de administração. J ã dissemos, e convém se repita, que o Legislativo prove in genere, o Executivo in specie; a Câmara edita normas gerais, o prefeito as aplica aos casos particulares ocorrentes. Daí não ser permitido à Câmara intervir direta e concretamente n a s atividades reservadas ao Executivo, que pedem provisões administrativas especiais manifestadas em ordens, concessões, permissões, entendimentos nomeações, pagamento, proibições, recebimentos, verbas ou escritos com os interessados, contratos, realizações materiais da Administração e tudo o mais que se traduzir em atos ou medidas de execução governamental Atuando através das leis que elaborar e atos legislativos que editar, a Câmara ditará ao prefeito normas gerais da Administração, sem chegar à prática administrativa. A propósito, têm decidido o STF e os Tribunais estaduais que é inconstitucional a deslocação do poder administrativo e regulamentar do Executivo para o Legislativo. De um modo geral, pode a Câmara, por deliberação do plenário, indicar medidas administrativas ao prefeito adjuvandi causa, isto é, a título de colaboração e sem força coativa ou obrigatória para o Executivo; o que não pode é prover situação concretas por seus próprios atos ou impor ao Executivo a tomada de medidas COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 6 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO específicas de sua exclusiva competência e atribuição. Usurpando funções do Executivo ou suprimindo atribuições do prefeito, a Câmara praticará ilegalidade reprimível por via judicial". Em outra passagem, da mesma obra, esclarece que: "A execução das obras e serviços públicos municipais está sujeita, portanto, em toda a sua plenitude, à direção do Prefeito, sem interferência da Câmara, tanto no que se refere às atividades internas das repartições da Prefeitura (serviços burocráticos ou técnicos), quanto às atividades externas (obras e serviços públicos) que o Município realiza e põe à disposição da coletividade'' (Malheiros Editores, 11 a edição, atualizada por Célia Marisa Prendes e Márcio Schneider Reis, págs. 507/508 e 645/646) Em outro passo dessa mesma obra, acrescenta que: "advirta-se, ainda, que, para as atividades próprias e privativas função executiva, como realizar obras e serviços municipais, prover cargos e movimentar o funcionalismo da para da Prefeitura e demais atribuições inerentes à chefia do governo local, não pode a Câmara condicioná-las à sua aprovação, aniquiladoras dessa faculdade *** Na em inconstitucionalidade, nem administrativa, estabelecer normas sob pena de incidir por ofensa à prerrogativas do prefeito" (pág.617). D COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 7 8 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO O artigo 47, incisos II e XIV, da Constituição do Estado de São Paulo, em coerência com o preceito abrigado no artigo 84, inciso II, Constituição privativamente, da República, prevê que: "Compete, ao Governador do Estado: H - exercer, com o auxílio dos Secretários de Estado, a direção superior da administração estadual; e XIV - praticar os demais atos de administração, nos limites da competência do Executivo". De acordo com a Lei Federal n° 9.053, de 24 de setembro de 1997, que institui o Código de Trânsito Brasileiro, em seu artigo 24, inciso X, "Compete aos órgãos e entidades de trânsito dos Municípios, no âmbito de sua executivos circunscrição: implantar, manter e operar sistema de estacionamento rotativo pago nas vias." Outrossim, o artigo 5 o da Constituição do Estado, estabelece a independência e harmonia entre os Poderes. "No regime constitucional de separação de funções, como o nosso, os Poderes do Estado não se confundem nem se subordinam, mas se Cl ? harmonizam, \2> desempenhando _. para uma cada qual realizando sua atribuição precípua restritamente outras que a Constituição lhes outorga recíproca cooperação institucional'' (HELY a ^ e MEIRELLES, obra citada, pág. 604) COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 8 LOPES \ ^ l ** á|ç||pk PODER JUDICIÁRIO Wt yUÍ TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO O Colendo Superior Tribunal de Justiça já deixou assentada seguinte ementa: "Impossibilidade de o juiz substituir a Administração Pública determinando sejam realizadas que obras de infra-estrutura em conjunto habitacional. Do mesmo modo que desfaça construções já realizadas para atender projetos de proteção ao parcelamento do solo urbano. Ao Poder Executivo cabe a conveniência e a oportunidade de realizar de realizar atos físicos de administração (construção de conjuntos habitacionais, etc). O Judiciário não pode, sob o argumento de que está protegendo direitos coletivos, ordenar que tais realizações sejam consumadas. As obrigações de fazer permitidas pela ação civil pública não têm força de quebrar a harmonia e independência dos Poderes. O controle dos atos administrativos pelo Poder Judiciário está vinculado a perseguir a atuação do agente público no campo de obediência aos princípios da legalidade, da moralidade, da eficiência, da impessoalidade, ^ cn vn c^ te \9 finalidade e, em algumas atividades de realização de atos concretos pela depende situações, de dotações orçamentárias prioridades estabelecidos da o controle do mérito. As prévias pelo governante. administração e do programa de Não cabe ao Poder 1_ Judiciário, portanto, determinar as obras que deve edificar, mesmo ^ que seja para proteger o meio ambiente" (Recurso Especial n° 169.876 - SP, Relator Ministro JOSÉ DELGADO, RSTJ, volume COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TAMBARA 9 10 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO 114/98). O mesmo raciocínio deve ser aplicado ao presente caso, uma vez que o Poder Legislativo não pode, sob o manto do exercício de sua função de legislar, editar leis meramente formais, que, na prática, constituem autênticos comandos concretos, no sentido de que seja outorgada, mediante licitação, a concessão onerosa para projeto, implantação, operação e exploração, por particulares, dos estacionamentos rotativos em vias, logradouros e áreas públicas do MUNICÍPIO DE GUARULHOS. É evidente que, assim dispondo, o mencionado diploma legal incidiu em incontornável violação do princípio da independência dos Poderes e total desrespeito às atribuições próprias do Executivo. É que todo o patrimônio municipal fica sob a administração do Prefeito. Por patrimônio do Município (imóveis, entender-se, não só seus bens corpóreos semoventes), como também os incorpóreos suscetíveis deve móveis e de valor econômico. Nesse sentido, cabe ao Prefeito zelar pela conservação e regular utilização dos bens materiais da comuna, como também por seus valores históricos, artísticos e culturais. Mas certamente, é o patrimônio material administrativa o que diz do Prefeito, para mais de perto que os bens com atendam destinação. COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 10 a ação à sua PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO Portanto, a Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, do MUNICÍPIO DE GUARULHOS, fere frontalmente o disposto nos artigos 5 o , 47, incisos II e XIV, e 144 da Constituição do Estado de São Paulo, visto que usurpam ou suprimem funções próprias do Prefeito Municipal, conforme demonstrado acima. Pelo exposto, julgam procedente o pedido para declarar a inconstitucionalidade da Lei n° 5.405, de 10 de setembro de 1999, do MUNICÍPIO DE GUARULHOS, comunicando-se a Câmara Municipal para suspensão de sua execução, nos termos do artigo 90, § 3 o , da Constituição Paulista, e do artigo 676 do Regimento Interno. = Luiz Elias Tãmbara = Relator o O cn •31 i ^> COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator LUIZ ELIAS TÂMBARA 11