PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO A 1 \J \ TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SAO PAULO ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRATICA REGISTRADOíA) SOB N° ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos estes autos de AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI n° 048.9580/2-00, da Comarca de SÃO PAULO, em que é requerente o PREFEITO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS, sendo requerido o PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS: ACORDAM, em Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, por votação unânime, julgar procedente a ação, de conformidade com o relatório e voto do Relator, que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. Participaram do julgamento os Desembargadores MÁRCIO BONILHA (Presidente), NIGRO CONCEIÇÃO, LUÍS DE MACEDO, JOSÉ OSÓRIO, HERMES PINOTTI, GENTIL LEITE, ÁLVARO LAZZARINI, DANTE BUSANA, JOSÉ CARDINALE, DENSER DE SÁ, MOHAMED AMARO, PAULO SHINTATE, BORELLI MACHADO, FLÁVIO PINHEIRO, FORTES BARBOSA, VALLIM BELLOCCHI, JARBAS MAZZONI, THEODORO GUIMARÃES, MENEZES GOMES, OLAVO SILVEIRA, ANDRADE CAVALCANTI e PAULO FRANCO. São Paulo, 09 de maio de 2001. MÁRCIO BONIBHA Presidente LUIZ TÃMBARA Relator PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE n° 48.958.0/2 SÃO PAULO - Voto n° 11.022 COLENDO Ó R G Ã O ESPECIAL Requerente: PREFEITO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS Requerida: CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS EMENTA: ADIn.- Emenda à Lei Oreànica do Município de Guarulhos,- Redução, do tempo de serviço público para a aquisição da vantagem da sexta-parte dos vencimentos, bem como çômputo também do tempo de serviço prestado a outras entidades públicas.- Matéria relativa a servidores públicos.- Projeto de lei de jnüciativa privativa do Prefeito.- Inadmissível usurpacâo de atribuições do Chefe do Executivo.- Incpnstituçipnalidade. - Violação do disposto nos artigos 5*. 24 $ 2o, n"s. 1 e 4. e 144, da Constituição do Estado de São Paulo.Pedido iuleado procedente. O PREFEITO DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS propôs presente AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE em face da CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS, pedindo a declaração de inconstitucionalidade da Emenda à Lei Orgânica do Município de Guarulhos n° 11, de 13 de março de 1998, que alterou a redação do artigo 97 para a seguinte forma: "Ao servidor municipal é assegurado o percebimento do adicional por tempo de serviço, sempre concedido por qüinqüênio, bem como a sexta-parte dos vencimentos integrais, concedido após 15 (quinze) COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA 1 i PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÂO PAULO anos de serviço público, que serão incorporados aos vencimentos, para os efeitos legais." Com isso, não só reduziu o tempo de serviço, para a aquisição da vantagem da sexta-parte, de vinte para quinze anos, como também mandou computar todo tempo de serviço público e não mais apenas aquele prestado ao Município, acarretando aumento de despesas, sem previsão orçamentária, porque afronta o comando contido nos artigos 5a, 24, § 2o, n°s. 1 e 4, 25,47, XI, e 144 da Constituição Paulista. Foi concedida liminar para suspender a eficácia e vigência da í Emenda n° 11, à Lei Orgânica do Município de Guarulhos. A CÂMARA MUNICIPAL DE GUARULHOS prestou informações, defendendo a constitucionalidade da Emenda n° 11 à Lei Orgânica do Município de Guarulhos. O PROCURADOR GERAL DO ESTADO manifestou falta de interesse em matéria exclusivamente local O PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA opinou pela procedência do pedido, para declarar a inconstitucionalidade da Emenda n° 11, que alterou a redação do artigo 97 da Lei Orgânica do Município de Guarulhos. É o relatório. Procede integralmente o pedido de declaração de inconstitucionalidade da Emenda à Lei Orgânica do Município de Guarulhos COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA Si .V- 2 \J PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO n° 11, de 13 de março de 1998, que deu nova redação ao artigo 97 do referido diploma legal, como bem demonstrou o ilustre PROCURADORGERAL DE JUSTIÇA, em seu lúcido e preciso parecer. Com efeito, o artigo 144 da Constituição do Estado de São Paulo, em perfeita harmonia com o disposto no artigo 29 da Constituição da República, estabelece que: "Os Municípios, com autonomia política, administrativa e financeira se auto-organizarão por Lei Orgânica, atendidos os princípios estabelecidos na Constituição Federal e nesta Constituição." Portanto, a capacidade de os Municípios se auto-organizarem, no que diz respeito aos seus poderes, está vinculada aos limites e às regras gerais impostos na Constituição Federal e na Constituição Paulista. Na lição do emérito Professor HELY LOPES MEIRELLES, "o processo legislativo, ou seja, a sucessão ordenada de atos para a formação das normas enumeradas na Constituição da República (artigo 59) possui contornos uniformes para todas as entidades estatais - União, Estados-membros e Municípios e Distrito Federal (artigos 60 e 69) cabendo às Constituições dos Estados e às dos Municípios estabelecer, dentre as espécies normativas previstas, quais as adotadas pela entidade estatal. (...) Leis de iniciativa exclusiva do Prefeito são aquelas que só a ele cabe o envio de projeto à Câmara. Nessa categoria estão as que disponham sobre matéria financeira; criem cargos, funções ou empregos; fixem ou COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA 3 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO aumentem vencimentos ou vantagens de servidores ou disponham sobre o seu regime funcional; criem ou aumentem despesa, ou reduzam a receita municipal" (Direito Municipal Brasileiro, Malheiros Editores, 6a edição atualizada por Izabel Camargo Lopes Monteiro e Yara Darcy Police, 1993, pág. 561). O Excelso Supremo Tribunal Federal firmou o entendimento no sentido de que: "O desrespeito à prerrogativa de iniciar o processo de positivação do Direito, gerado pela usurpação do poder sujeito à cláusula de reserva, traduz vicio jurídico de gravidade inquestionável, cuja ocorrência reflete típica hipótese de inconstitucionalidade formal, apta a infirmar, de modo irremissivel, a própria integridade do ato legislativo eventualmente editado" (ADIn n° 1.391-2, Plenário, Relator Ministro CELSO DE MELLO). Acresça-se, ainda, que o Egrégio Plenário do Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade formal da expressão "vencimentos, vantagens", constante do artigo 101 da Constituição do Estado de São Paulo, sob o argumento de que: "As regras básicas do processo legislativo federal são de absorção compulsória pelos Estadosmembros em tudo aquilo que diga respeito - como ocorre às que enumeram casos de iniciativa legislativa reservada - ao principio de independência e harmonia dospoderes, como delineado na Constituição da República. Essa orientação, malgrado circunscrita em principio ao regime dos poderes COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA 4 5 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO constituídos dos Estados-membros - é de aplicar-se em termos ao poder constituinte local, quando seu trato na Constituição estadual traduza fraude ou obstrução antecipada ao jogo, na legislação ordinária, das regras básicas do processo legislativo, a exemplo da área de iniciativa reservada do executivo ou do judiciário: é o que se dá quando se eleva ao nível constitucional do Estado-membro assuntos miúdos do regime jurídico dos servidores públicos, sem correspondência no modelo constitucional federal, como sucede, na espécie, com a equiparação em vencimentos e vantagens dos membros de uma carreira - a dos Procuradores Autárquicos - aos de outra - a dos Procuradores do Estado: é matéria atinente ao regime jurídico de servidores públicos, a ser tratada por lei de iniciativa reservada ao Chefe do Poder Executivo (CF, artigo 61, § Io, II, c) " (Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 1.434, SP, Relator Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE). Idêntico raciocínio aplica-se às emendas às leis orgânicas dos Municípios, tal como aquela que está sendo examinada nesta oportunidade. Ora, o artigo 24, § 2o, n°s. 1 e 4, da Constituição do Estado de São Paulo, em coerência com o preceito abrigado no artigo 61, § I o , inciso II, letras "a", "b" e "c", da Constituição da República, prevê que: "Compete, exclusivamente, ao Governador do Estado a iniciativa das leis que disponham sobre: 1 - criação e extinção de cargos, funções ou empregos públicos na administração direta e autárquica, bem como a fixação da respectiva remuneração; e 4 - servidores públicos do Estado, seu COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA 5 PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO regime jurídico, provimento de cargos, estabilidade e aposentadoria de civis, reforma e transferência de militares para a inatividade. " Outrossim, o artigo 5o da Constituição do Estado, estabelece a independência e harmonia entre os Poderes, e o artigo 25, da mesma Carta Estadual, impede a sanção de projeto de lei que implique a criação ou aumento de despesa pública, sem que dele conste a indicação dos recursos disponíveis, próprios para atender aos novos encargos. Resulta claro das considerações feitas, que a Emenda à Lei Orgânica do Município de Guarulhos n° 11, de 13 de março de 1998, que deu nova redação ao artigo 97 do mencionado diploma legal, afrontou o disposto nos artigos 5o, 24, § 2°, n°s. 1 e 4, 25, 47, inciso XI, e 144 da Carta Paulista. Pelo exposto, julgam procedente o pedido para declarar a inconstitucionalidade da EMENDA À LEI ORGÂNICA DO MUNICÍPIO DE GUARULHOS n° 11, de 13 de março de 1998, comunicando-se a Câmara Municipal para suspensão de sua execução, nos termos do artigo 90, § 3o, da Constituição Paulista, e do artigo 676 do Regimento Interno. - Luiz Elias Tâmbara = Relator COLENDO ÓRGÃO ESPECIAL - Relator: LUIZ ELIAS TÂMBARA 6