INTRODUÇÃO
Existem duas formas de fazer uma viagem de veleiro ao redor do mundo. A primeira, é sendo um profissional do esporte, participando de regatas,
querendo vencer desafios e mostrar que pode ser o primeiro; e a outra, é pela realização pessoal, sem querer provar nada a ninguém. Decidi pela segunda opção.
O mar deixou o Bravo passar e ele levou minha família ao redor do mundo. Com
o tempo fui aprendendo que respeitando a natureza ela o deixará passar. E foi
assim que esse feito foi realizado, pedindo licença e esperando o momento certo
para seguir em frente. Claro que houve momentos em que isso não foi possível, e
foi aí que vi como somos frágeis e pequenos em relação a essa força maior.
Muitas vezes rezei e em nenhuma deixei de ser atendida, por isso acredito que Deus teve uma grande participação nessa aventura.
Determinação, força, disciplina e desprendimento são requisitos básicos. Não digo que seja fácil o tempo todo, ou que seja uma aventura para qualquer pessoa, mas sim que é algo possível e, como tudo na vida, basta querer.
Digo que quando realmente queremos algo, nada é impossível, conseguimos
rebater os senões e, quando não queremos ou temos medo de enfrentar, qualquer coisinha é desculpa para não seguirmos em frente.
Tempo é uma questão de prioridade, como diz meu irmão; dinheiro é
relativo, depende do que se quer comprar. Quanto se gasta numa viagem dessas? É a primeira coisa que costumam perguntar. A resposta é simples: o mesmo que você sempre gasta em casa. O seu estilo de vida e sua forma de trabalhar com as finanças é a mesma. Se você é um gastador, fará uma viagem cara,
se sabe poupar, fará uma viagem econômica. Na verdade, só se muda de casa.
Eu, particularmente acho que gastamos menos porque na cidade temos uma
série de exigências e obrigações sociais que não existem no mar. Manutenção
BRAVO
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do barco? E a manutenção da sua casa? Compra do barco? E a compra da casa?
É só uma troca.
Conheci pessoas viajando sem nada de dinheiro, tendo que trabalhar
para poder seguir para o próximo porto e pessoas com muitos marinheiros
que iam de marina em marina, de restaurante em restaurante, de mergulho em
mergulho sem nem sequer perguntar o preço desses serviços. Como já disse,
segue-se o mesmo estilo de vida que sempre se levou. É perigoso? Claro, viver é
perigoso! Quem não tem medo de chegar em casa à noite? Drogas, assaltos, acidentes de trânsito, estresse, falta de tempo... Esse, para mim, é o pior, a falta de
tempo para ver os filhos crescerem, para conversar, brincar, aproveitar a vida.
Ser um cego correndo atrás da máquina, quanto mais dinheiro você ganha mais
precisa gastar, mais precisa trabalhar, mais se exige. Isso sim é perigoso.
O mar me deu uma trégua, fez-me ver a beleza de coisas que não costumava dar valor ou nem sabia que existiam. Ali fiz amizades verdadeiras, para
toda vida. Vi a simplicidade da vida, abri o coração, livrei-me de preconceitos,
enfim, fui feliz.
Demorei muito para começar a escrever esse livro por vários motivos:
o primeiro, acredito que foi o choque da chegada. Sempre tinha ouvido falar
que a parte mais difícil desse tipo de viagem é a volta, a readaptação. De minha
parte está confirmado, senti na pele essa dificuldade! Só agora, passados seis
meses, é que começo a me sentir melhor com essa “loucura coletiva” que é o
dia a dia numa grande cidade.
O segundo motivo foi, sem dúvida nenhuma, a morte do Dudu, meu
companheiro, meu amigo, minha força. Muitos não entendem, não me importo com isso, porque sei que só quem já teve o privilégio de conviver com um
ser tão especial é que sabe o valor de uma verdadeira amizade.
O fato de nunca ter escrito um livro também pesou. O medo é um sentimento inerente ao ser humano, é ele que nos mantém vivos e alerta, mas, como
tudo na vida, dá duas opções: enfrentar ou recuar. Resolvi enfrentar.
Desde que voltei, as pessoas me cercam perguntando quando o livro
sairá, quando vou começar a escrever etc. Cada um quer dar sua opinião de
como se deve escrever um livro. É muito engraçado isso. Uns dizem que é
preciso exagerar nas narrativas, outros dizem que temos que falar de monstros
marinhos, perigos e tragédias, pois só assim a leitura despertará o interesse das
pessoas. Uns chegam até a sugerir que eu invente coisas, e por aí vai. Mas eu só
quero mostrar que esse é um sonho possível, menos complicado do que parece. As coisas são mesmo muito mais simples do que as fazemos parecer. Como
disse Freud: “Na maioria das vezes, um pepino é só um pepino”.
14
CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
Primeira Parte
SUBIDA DO ATLÂNTICO
EUA
Jul. 2006
BAHAMAS
Maio 2006
CUBA
Fev. 2007
GALÁPAGOS
Maio 2007
FRANÇA
PORTUGAL Ago. 2008
Set. 2008
ILHAS CANÁRIAS
Out. 2008
MARROCOS
Set. 2008
TURQUIA
Jun. 2008
ISRAEL
Maio 2008
EGITO
Maio 2008
CABO VERDE
Out. 2008
PANAMÁ
Maio 2007
IÊMEN
Abr. 2008
CARIBE
Mar. 2006
POLINÉSIA FRANCESA
Jun. 2007
Partida
PARANAGUÁ
12 dez. 2005
Chegada
ILHA DO MEL
12 dez. 2008
I
O COMEÇO
Quando comecei a namorar o Ricardo, em novembro de 1983, já sabia
que um dia faríamos essa viagem.
Eu tinha uma bicicleta. Ele tinha um Magnun 595, chamado Lygia
II. Com os amigos nos divertimos demais naquele verão e fizemos algumas
loucuras. Chegamos a capotá-lo no canal do Ferry Boat de Guaratuba numa
daquelas tempestades típicas do verão paranaense. Nessa época, o Ricardo
já tinha alguma experiência na vela. Começou aos 16 anos com esse mesmo
Magnun no Clube Náutico de Antonina.
No verão seguinte, trocou o Magnun por um Laser e minha bicicleta
virou carreta. Eu ia em pé dando direção e o Laser emborcado, com a proa
apoiada no selim e o Ricardo segurando a popa e empurrando-o até a praia.
Bom, por aí já deu para ver que de normais não tínhamos nada. Foi
assim que passei de “patricinha” da praia de Caiobá a aprendiz de velejadora.
Algum tempo depois nos casamos, vieram os filhos, a falta de tempo
e a correria. E o sonho de um barco maior e de sair pelo mundo ia ficando ao
mesmo tempo maior e mais distante.
O tilintar dos stays nos mastros dos veleiros num cais nos fazia suspirar e era nossa música favorita.
Nessa época, já tínhamos trocado o Laser por um Hobie Cat 14, e a experiência que o Ricardo adquiriu seria, muitos anos mais tarde, o que salvaria
nossas vidas.
Quantos verões fomos para Zimbros, em Santa Catarina, com as
crianças pequenas, rebocando esse Hobie Cat. Bons tempos aqueles!
BRAVO
17
Veio o terceiro filho e era hora de um barco maior. Sem muita pesquisa, o Ricardo comprou um Day Sailer, o Holly Brullis. Eu nunca fui com a cara
dele. Costumava chamá-lo de “Holly Bruxa”. E tudo acontecia com ele.
Como meus pais tinham casa no Balneário Atami, um condomínio
fechado ao lado de Pontal do Sul no litoral paranaense, nossos passeios eram
sempre em frente de casa, ou seja, em mar aberto. E aí fazíamos loucuras. Na
época do Hobie Cat, o Ricardo normalmente saía sozinho, mas com o Day
Sailer começamos a nos aventurar mais.
Com três crianças pequenas, Ricardinho com um, Giovanna com três
e Lygia com quatro anos, saíamos na rebentação, em frente de casa, em mar
aberto e íamos pelo Canal da Galheta até a praia do Farol na Ilha do Mel, dando a volta por fora, para passarmos o dia e, lá pelas quatro ou cinco horas da
tarde, voltávamos. E assim eram todos os nossos finais de semana no verão.
Quem conhecia bem aquele mar colocava as mãos na cabeça e não acreditava
em tamanha aventura.
Era um sábado de janeiro do ano de 1996. Não acordei bem, estava febril e muito cansada, parecia que uma “gripona” ia me pegar. Era muito cedo, as
crianças ainda estavam dormindo, eu acordei e fui arrastando os chinelos até a
cozinha tomar um copo d’água. Confesso que foi com horror que vi a animação
do Ricardo pronto, o isopor com bebidas e salgadinhos já na porta. Nãao! Ele já
estava fazendo as mamadeiras das crianças! Comecei minhas argumentações:
– Quem sabe hoje não vamos. Olha, o tempo nem está tão bom assim
(maior sol lá fora), a gente podia ficar só na varanda, lendo, olhando o mar...
Só me olhou de canto de olho. Ainda insisti mais um pouco.
As crianças acordaram brigando. Meu mau humor estava chegando ao
auge. O Ricardo fechou a cara.
O dia começou mal e prometia...
Conseguimos passar a rebentação somente depois da terceira tentativa. Todos ficaram encharcados. Meu ódio ia além dos limites toleráveis. A discussão tornou-se inevitável. Fomos batendo boca até a Praia do Farol. A essa
altura já estava na hora do almoço. Comemos um peixinho frito no restaurante
e, para me acalmar, fui andar na praia. Mas o Ricardo me chamou dizendo que
o tempo ia virar e que era melhor irmos embora.
Ah, não! Todo esse trabalho para chegar até aqui e só fazer bate-e-volta? Está brincando! Olhei para ele furiosa, nem precisei dizer nada. Ele
ainda tentou argumentar, mas eu já estava longe. Não demorou muito, fiquei
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CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
preocupada e voltei. Embarcamos com as crianças protestando, pois nem tinham conseguido brincar ainda.
Mal tínhamos saído em mar aberto e o Ricardo sentiu-se mal, vomitou
e pulou na água para ver se melhorava um pouco. O peixe não lhe “caiu” bem.
Como não consegui segurar minha língua, começamos a discutir novamente
até que, ao passar a ilha da Galheta, parei no meio de uma frase e disse:
– Nossa, o que é aquilo preto no céu? Uma nuvem?
Era uma tempestade de verão que se aproximava, mas estava longe, e
teoricamente dava tempo de cruzar o canal até Pontal. Teoricamente... A velocidade dela era espantosa e nos pegou quase chegando lá. Um pouco antes,
Ricardo baixou a vela grande e a buja que ficou enrolada no cabo da âncora.
A força do vento que entrou era totalmente nova para nós. Nunca tínhamos visto nada parecido. Fomos literalmente varridos. Lutamos durante
uns três minutos, as velas estavam amarradas, mas teimavam em subir. Para se
ter uma ideia da força do vento: nossa âncora levantou voo com a buja. Tínhamos um motorzinho de 4HP. Claro que nessa hora não pegou!
– O vento está aumentando, segure as crianças. Vai virar!
– Onde estão as meninas? Cadê as meninas? As meninas?
Os segundos em que eu boiei com o Ricardinho no colo, sem enxergar
absolutamente nada a não ser espuma branca e sem saber onde estavam minhas filhas, foi o maior tempo de toda a minha vida.
Com o colete salva-vidas, as meninas não conseguiram mergulhar para
saírem debaixo do barco que estava emborcado. Ficaram presas numa bolsa de
ar no cockpit. O Ricardo arrancou o colete e mergulhou, tirou uma, depois a outra. Até hoje não lembro qual delas saiu primeiro. Ficamos boiando abraçados
não sei por quanto tempo, enquanto o Ricardo tentava desvirar o barco.
Do jeito que veio, a tempestade se foi. Não tínhamos anemômetro a
bordo, nem rádio, nem nada, portanto não podemos dizer, exatamente, qual foi
a velocidade desse vento. Soubemos mais tarde, por amigos, que muitos barcos
sofreram avarias ou até mesmo capotaram e que a coisa foi mesmo grande.
Fomos resgatados por uma lancha a pedido do Iate Clube de Pontal do
Sul que havia visto o que nos tinha acontecido.
O Ricardo, como todo bom capitão, recusou-se a abandonar a embarcação. Como não houve meios de desvirar o “Holly Bruxa”, digo Holly Brullis,
o Ricardo desmontou o mastro debaixo d’água e o barco foi rebocado emborcado mesmo.
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
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E, como eu costumo dizer: o mar cura tudo. À noite, já seguros em
casa nem lembrávamos que tínhamos discutido e brigado o dia todo.
Depois desse “pequeno” incidente, passei a odiar veementemente o
“Holly Bruxa”. Mas mal os consertos terminaram, o Ricardo já quis por em
prática sua teoria: “Se a pessoa passa por um trauma, deve enfrentar a mesma
situação o quanto antes, voltando a fazer o que fazia para não ficar com medo
para sempre”. Não sei de onde ele tirou isso.
Então, “por livre e espontânea vontade” embarcamos novamente no
“Holly Bruxa” para um passeio até Paranaguá. O medo é mesmo uma sensação horrível. Minha garganta secou, minhas mãos, grudadas onde eu podia
segurar, suavam frio e tremiam. Da garganta ao estômago descia um friozinho
terrível, cada marola era como uma montanha russa.
Minha cara devia estar horrível, estampando todo o pavor que eu estava sentindo naquele passeio, porque, lá pelas tantas, o Ricardo se irritou e disse:
– Melhore a cara, melhore a cara que você está assustando as crianças!
Nunca vou esquecer isso! Coloquei um sorriso plástico no rosto, mais
falso impossível, para disfarçar minha ira e para não assustar mesmo as crianças que se divertiam como se nunca tivesse acontecido nada.
Mas na volta, claro que o “Holly Bruxa” tinha que mostrar suas garras.
O que aconteceu foi que resolvemos voltar bem no horário da virada da maré.
Com vento contra e o mar como um redemoinho, o motorzinho que tínhamos
não conseguia vencer a força das águas e cavitava a cada onda. Assim, estávamos sendo jogados nos paredões da Tenenge (uma empresa de engenharia
eletromecânica chamada Técnica Nacional de Engenharia, situada em Pontal
do Sul). O pessoal que estava pescando foi levantando em câmera lenta para
assistir o nosso fim. Foi uma luta. E eu só pedia a Deus que me permitisse chegar em casa e tomar um chá. Mais uma xícara de chá e eu faria a promessa de
nunca mais entrar naquele barco.
Chega! Basta de “Holly Bruxa”!
Como o Ricardo foi terminantemente proibido de pronunciar o nome
desse barco novamente na minha frente, a única saída foi mesmo vendê-lo.
Começamos então a procurar um barco maior. Voltar ao mar com
as crianças só se fosse num barco maior, com uma cabine e segurança. Foi a
condição que impus.
21 pés. Esse seria o tamanho do barco para o nosso bolso. Ah, mas o
24 pés é tão maior e é só um pouco mais caro! A procura então se fixou num
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CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
barco de 24 pés até o dia em que, numa marina do Guarujá, um marinheiro
ofereceu-se para nos mostrar um barco de 30 pés, sem compromisso. O preço
era bom demais e o barco novinho, sem uso. Seria perfeito não fosse um único
detalhe: não cabia no orçamento. Melhor era nem ver por dentro... mas só
olhar não paga! Vamos dar uma espiadinha, só por curiosidade. A partir desse
dia, um barco de 24 pés passou a não servir mais para nós. Voltamos para casa
com um só pensamento:
– Zeus!
Passamos a semana toda fazendo contas. Se apertássemos dali, segurássemos daqui... Dava!
O Ricardo então fechou negócio por telefone, pedindo apenas que subissem o barco, para que ele pudesse avaliar o fundo, antes que desse o sinal
do negócio.
Quis o destino que esse barco não fosse nosso. Quando o Ricardo estava na balsa do Guarujá recebeu um telefonema do dono do barco dizendo que
tinha acabado de vendê-lo. Paciência, a busca continua!
Por um anúncio em uma revista, achamos nosso amado Velívolu. Um
Cal 9.2. Desde o início foi nosso. Tudo foi tão certinho, era para ser mesmo
nosso. E nele passamos os melhores anos das nossas vidas.
Foi no dia primeiro de abril de 2000, numa Páscoa, que o Ricardo, o
Paul e o Marcelo passaram em frente à casa do Atami, vindos de Santos rumo
ao Clube Náutico de Antonina, trazendo o Velívolu.
Essa foi a primeira grande travessia de Ricardo, fora as loucuras que fazia de ir de Caiobá a São Francisco de Laser. Os três passaram maus pedaços na
travessia. Enjoo, inexperiência, motor quebrado e mau tempo. De madrugada
quando chegaram, cansadíssimos, ancoraram na Praia da Encantadas, na Ilha
do Mel, e o barco escapou quando todos dormiam. Por muita sorte, um acordou
e salvou mais uma. Aquela travessia tinha sido uma verdadeira loucura. E, para
finalizar, ao parar em Paranaguá para deixar o Marcelo, o motor não refrigerou
e o resultado não poderia ser outro... o escapamento, que é de borracha, pegou
fogo e a fumaça que fez parecia que havia um incêndio numa refinaria. Entre
mortos e feridos, foi só trocar o escapamento e o Ricardo descobriu que havia
arrumado uma amante argentina, um motor Mold – como ele dizia: “o motor é
ótimo, não para nunca, são os acessórios que não gostam dele”. Acessórios são
apenas o motor de arranque, bomba d’água, alternador etc.
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
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A partir desse dia, nossas vidas mudaram radicalmente. O Velívolu,
todo renovado e decorado, passou a ser nossa casa de praia. Íamos todos os finais de semana viver uma nova aventura. Logo fizemos amizades e começaram
as regatas e os passeios.
O Velívolu me dava muita segurança e as crianças adoravam. Com o
Pádua, nosso vizinho de ancoragem, e sua família nos aventurávamos cada vez
mais longe. Capri, Angra, Ganchos etc. Foram verões inesquecíveis. O Velívolu
passou a ser ponto de encontro por causa dos famosos “churrascos do Portela”.
Uma vez chegamos a colocar 11 barcos a contrabordo. Cada final de semana
era uma festa.
As crianças cresceram assim, nessa vida de mar. Velejando, mergulhando, descalços na areia da praia, brincando e pescando.
Dentre tantas histórias desse barco, a da segunda lua de mel do Paul e
da Verônica não posso deixar de contar.
Numa dessas idas para Angra dos Reis convidamos nossos amigos,
Paul e Verônica para fazerem a travessia conosco e lá passar uma semana.
O Paul, muito entusiasmado falou à Verônica que seria a segunda lua
de mel do casal. Pobre Verônica, não tinha noção de onde estava se metendo.
Ainda em Antonina o Paul comeu os dois bolos, inteirinhos, que eu tinha preparado para a travessia. Saímos pelo Canal Norte, que nesse dia estava
especialmente virado. O Chris, barco do Pádua, ia na frente. A cada subida de
onda víamos a quilha dele inteirinha fora d’água. Com o barco todo adernado,
o casal em segunda lua de mel ia fazendo escora e gritando:
– Uhuuuuuu!!!
Eu só olhava de canto de olho para o Ricardo e não pude evitar um
pensamento: “meu Deus não saber de nada é mesmo a fonte da felicidade”.
Que perigo corríamos, o Ricardo nem ousava me olhar porque sabia que eu
estava ciente da loucura que fazíamos.
Logo após essa passagem os dois bolos que o Paul comeu começaram
a fazer efeito e ele ficou mareado, deitou com a barriga para cima e assim foi
até... Angra. Só quando paramos na ilha do Bom Abrigo é que o Paul desceu,
com sua nécessaire, para ir ao “banheiro”, pois sentia-se constrangido de usar o
do barco. Íamos assim na maior cerimônia.
A Verônica, ao avistar a ilha do Bom Abrigo ficou eufórica. E seguiu-se o seguinte diálogo entre ela e o Ricardo:
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CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
– Banho! Oba, vamos tomar banho. Já posso ver a caixa d’água!
O Ricardo fechou os olhos por alguns instantes e disse:
– Verônica, nessa ilha não tem nada, é só um abrigo para passarmos a
noite e seguirmos viagem. Pense: numa ilha no meio do oceano, onde não tem
nem uma casinha, existe uma torre muito alta, listrada, com uma luz que gira
lá em cima. Se aquilo não for uma caixa d’água, o que pode ser?
Pude sentir a decepção nos olhos dela. Nos proibiu de repetir essa história (conto aqui, só para vocês). Mas a Verônica que, supostamente, era para
ser a mais fraca revelou-se boa marinheira.
Banheiro de barco é coisa complicada, mas depois de três dias no mar
não tem como evitar o uso. Muito encabulada Verônica avisou que ia ao banheiro. Demorou tanto lá que já estávamos ficando preocupados. Quando ela
apareceu na porta, vermelha, toda escabelada disse muito sem jeito:
– Portela. Portela... Ele não desce.
O Ricardo não teve alternativa senão descer lá e ir consertar o estrago.
Voltou uma hora depois, literalmente verde. Pobre Verônica, não aguentava
mais de vergonha e não cansava de repetir:
– Ai, que vergonha! Não há nada pior. Nada.
– Há sim – disse o Ricardo – eu vomitei em cima dele!
Não preciso dizer que a cerimônia toda acabou. Rimos muito do corrido, mas só tempos mais tarde.
Não tínhamos muita experiência e essa travessia estava sendo por
demais desgastante para todos nós. Com o mar grosso e vento muito forte
tínhamos de ir fazendo escora o tempo todo. A entrada em Ilha Bela foi complicadíssima. A Verônica não parava de perguntar quanto tempo faltava para
chegarmos, como criança em viagem de carro. A resposta do Ricardo era sempre a mesma:
– Duas horas.
Depois de feita a mesma pergunta pela sétima vez, tendo se passado
onze horas a Verônica se irritou, entrou, largou a escora e foi arrumar a mala.
Só olhei para o Ricardo e disse:
– Perdemos nossos amigos. Por que você não avisou a eles que era
difícil?
Depois de muito esforço, pois vínhamos derivando, devido a corrente
e o vento há bastante tempo, conseguimos finalmente entrar em Ilha Bela. O
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
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Pádua não conseguiu entrar e ficou a noite toda chacoalhando lá fora. Disse
que foi uma noite terrível.
Depois de Ilha Bela o tempo melhorou e nossos ânimos também. O
Paul e a Verônica continuam sendo dois dos nossos melhores amigos.
O tempo passou depressa e, quando vimos, as crianças não cabiam
mais na cama central onde os colocávamos em sentido lateral para que coubessem os três.
A essa altura já tínhamos trocado de casa e estávamos estabilizados na
vida. Sentimos que era hora de pôr em prática nosso sonho de dar uma volta
ao mundo antes que as crianças estivessem grandes demais. Era um sonho
de todos, as crianças sempre contaram como certo. Mas nós, como adultos
responsáveis, tínhamos que ponderar muitas coisas antes, apesar de sempre
termos nos preparado para isso, indo a todas as palestras de velejadores que já
tinham dado volta ao mundo ou grandes saídas, lido e pesquisado muito sobre
o assunto, feito cursos e juntado dinheiro. Enfim, fazíamos tudo o que estivesse
ao nosso alcance relacionado ao assunto, mas sabíamos que ainda havia muito
o que ser planejado.
Bom, a primeira coisa que se precisa para dar uma volta ao mundo
num veleiro é, sem dúvida, o veleiro. Mas qual o barco ideal? O Ricardo sempre quis um catamarã, eu preferia um monocasco. Depois de muito ler e pesquisar, dei o braço a torcer e vi que um catamarã seria mesmo melhor, pois
a tendência hoje em dia é dar preferência aos veleiros que não afundam aos
autoadriçáveis. Para virar um catamarã é preciso muita coisa. Vimos vídeos
que chegavam a mostrar catamarãs adernados que voltavam à posição normal
em pouco tempo e, no caso de um capotamento, normalmente, mantém-se a
tona pois não carrega lastro. Já um monocasco, apesar de ser autoadriçável, se
houver um vazamento ou for deixado abertas portas e gaiutas, afundará.
Decidido então, era só achar o barco.
24
CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
II
O BARCO
Quando se compra um barco, todo cuidado é pouco. Como em todo
negócio que se faz na vida, encontram-se pessoas honestas e desonestas. No
caso de barcos, é muito fácil ser enganado e conosco não foi diferente.
Infelizmente tivemos problemas na compra do barco. O barco é maravilhoso. O problema aconteceu por causa dos vendedores, foi um festival
de sacanagem. Na primeira negociação, que foi longa, a vendedora vendeu
o barco a um terceiro, mesmo após ter recebido nosso sinal de negócio. Mas
não foi só o prejuízo financeiro que sofremos. Isso atrasou nossa viagem em
pelo menos um ano. Não seria nada se não tivéssemos filhos adolescentes,
em idade escolar. Nessa época da vida, um atraso pode ser fatal e acabar com
um sonho. Ficamos moralmente arrasados, não sei quantas noites de sono o
Ricardo perdeu.
Assim, ficamos novamente sem barco e a procura continuava. Soubemos de outro catamarã igual, um ano mais novo e em melhor estado que estava à venda. Entramos em contato com o proprietário e por muita coincidência
– há quem não acredite em coincidências e diga que é destino – esse barco
estava em Paranaguá. Foi só descer, olhar e fechar o negócio.
Mas não posso dizer que foi fácil assim, pois o dono, depois de tudo
acertado, fez o que o Ricardo mais odeia numa negociação, veio com conversas
e pedidos de mais dinheiro depois dos primeiros pagamentos. Cada hora era
uma coisa diferente, e nada de entregar o barco. Por fim, depois de muito nos
incomodar, acabou entregando e passou dos limites nas sacanagens que fez, já
que o Ricardo não cedeu. Deus sabe o quão bravamente lutamos para ter esse
barco. Por isso o nome não poderia ser outro: BRAVO.
Assim escrevi no diário de bordo:
BRAVO
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“Curitiba, 5 de janeiro de 2004 – sábado
Hoje fomos para Paranaguá, para conhecer o barco, o Ricardo já conhecia porque fez a volta da REFENO (Regata Recife-Fernando de Noronha)
ano passado nele.
A minha primeira impressão foi ótima, tive uma sensação muito forte
de que, depois de muita procura e desilusão, finalmente achamos o que estávamos procurando.”
“Curitiba, 8 de janeiro de 2004 – segunda-feira
Hoje, meio-dia, nossa proposta foi aceita, não estamos nem acreditando, enfim o nosso barco!
Agora é uma corrida contra o tempo para os preparativos que são
muitos. Minha primeira preocupação é com os estudos das crianças. Não temos ainda um roteiro ou um projeto definido, além de que se desfazer de toda
a estrutura criada aqui não vai ser fácil.”
O barco nos foi entregue em Recife, em setembro de 2004, e, em dezembro, quando as crianças entraram em férias, eu, a Giovanna, a Lygia e o
Dudu pegamos um voo e fomos abrir o BRAVO!
Minha mãe e meu pai foram de motor home levando minha mudança
e o novo enxoval do barco. Como o antigo proprietário fez questão de retirar
até os mínimos ganchinhos das paredes, tivemos que nos virar para tapar todos os furinhos das paredes e comprar muitas coisas.
Ficamos no Cabanga Iate Clube, onde fomos muitíssimo bem recebidos. Todos vieram nos dar boas-vindas, nos ajudar e desejar uma ótima estadia. Nossos amigos, Belo, Anete e Arthur, estavam lá também, sempre nos mimando. Sentimos como se estivéssemos em casa. Mas sabíamos que teríamos
muito trabalho pela frente. Só que não tínhamos a mínima ideia do quanto!
Entregaram a chave do barco e, quando abri a porta, a vontade que
tive foi de fechá-la novamente e fugir dali. Nunca na vida vi um barco tão sujo.
O Ricardo havia deixado o barco sob os cuidados de um skiper de outro catamarã, que a princípio parecia bom. Mas, resumindo a história, aprendemos a
segunda grande lição: infelizmente não dá para confiar em ninguém a chave
do barco, a não ser que seja de “extrema” confiança. Chorei, não sabia por
onde começar, parecia impossível de ser limpo. Não fosse minha mãe e meu
pai terem chegado e me encherem de coragem dizendo que iam me ajudar,
26
CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
que trabalharíamos em equipe e que tudo ficaria limpo no final, acho que teria
desistido ali mesmo. O Ricardo contratou dois marinheiros para me ajudar, o
Fábio e o Wilsinho. Fugiam de mim como o diabo da cruz, pois eu não dava a
eles um minuto de descanso. Mas todos nós trabalhamos incessantemente por
uma semana para que eu pudesse entrar no barco e começasse a pensar em
colocar alguma coisa minha ali. Acho que desde que esse barco foi construído
nunca tinha sido limpo. E, para não dizerem que estou mentindo, fui tirando
fotos da sujeira de anos e anos incrustada em todos os cantos. Os forros dos
colchões e as espumas foram jogadas no lixo, pois ninguém quis. Inacreditável.
Assim escrevemos no diário de bordo:
“Desde que chegamos não paramos um só minuto de limpar, estamos exaustas e ainda não estamos nem na metade do serviço, a coisa aqui
não está fácil.
Está me dando um desânimo, estou começando a achar INLIMPÁVEL
esse pobre e maltratado barco. Nunca vi tanta sujeira na vida! ARGH!
Depois de tanto trabalho, achamos que merecíamos um pouco de descanso. Então nossos amigos, Belo, Anete, Arthur, Isabel e Maria nos levaram
a Guadalupe, na casa de praia deles, onde fomos recebidos com um almoço
maravilhoso e passamos um dia dos mais agradáveis.
Todos os dias às cinco horas da manhã, já arrumei a casa, já tomei
café, e já li bastante. Tenho acordado todos os dias às quatro horas da manhã
por causa do fuso horário ou por causa do nascer do sol, sei lá... Faço hora para
ligar para o Ricardo porque agora já estou mais animada com a limpeza aqui
pois ontem o dia rendeu apesar de o Wilsinho ter sumido assim que viu que
o dia não ia ser fácil . Lavamos todos os “drydecks”, principalmente por baixo
onde corria um “caldo” grosso e preto, onde se encontrava de tudo. Passamos
Lisoform por tudo e esterilizamos as coisas. Os estrados das camas ficaram uns
cinco ou seis dias no sol, sendo virados, e mesmo assim não conseguimos tirar
o cheiro que está impregnado na madeira. Quem sabe agora com Lisoform e a
raspagem de sujeira que fizemos, conseguiremos.”
Depois de dez dias de limpeza essa foi a primeira noite que dormimos
no barco. Os quartos estão limpinhos e cheirosos. Que alegria tudo limpinho!
Agora sim, dá gosto de entrar, ainda não acabamos, mas falta muito pouco.
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
27
Estou impressionada em ver como esse barco é espaçoso, tem lugar
para tudo e mais um pouco e é extremamente gostoso ficar nele. Só falta nossos Ricardos chegarem para podermos aproveitar juntos.
Ainda temos muitos detalhes para cuidar, coisas práticas, que eu já
poderia ter feito se não tivesse ficado tanto tempo limpando. Mandei trocar os
espelhos, os adesivos e as bombas. Não consegui nenhum telefone para contratar um buggy em Noronha.
O Ricar passou em todas as matérias e nem pegou recuperação anual,
então vão poder chegar mais cedo. Nós estamos morrendo de saudades.
Ontem fomos a Caruaru, não na feira, porque ela só acontece em dias
específicos, segundo domingo de cada mês e aos sábados. Dizem que é uma
loucura, muita gente, calor e perigo. Caruaru tem um centro comercial onde
se vende de tudo. É a maior feira livre do nordeste, fica numa área de vinte mil
metros quadrados. Segunda-feira é o dia da feira de Sulanca, que vende roupas
de confecções populares na madrugada.
As figuras de cerâmica, muito comercializadas por lá, imortalizadas
por mestre Vitalino, representam cenas da vida nordestina e seus personagens,
como retirantes, cangaceiros e bandas de pífanos.
A técnica de reproduzir imagens talhadas em madeira (xilogravura)
tem origem na China, mas difundiu-se no nordeste a partir do século XIX, associada à literatura de cordel. Com uma madeira de imbuia ou cajazeira e uma
faca bem amolada, os artistas fazem uma espécie de carimbo espalhando tinta
na tela e depois o reproduzindo nas capas dos folhetos populares. José Borges,
mais conhecido por J. Borges, é um dos mais representativos xilógrafos do
Brasil. Começou seu trabalho na década de 1960. Os desenhos, que já foram
expostos em Portugal, Suíça, França, Alemanha e Estados Unidos, foram feitos
em azulejos, tecido, papel e camisetas.
Esse Barco está tão limpo e cheiroso que não dá nem para acreditar.
BRAVO!!!
Os adesivos com o novo nome e as novas faixas foram colocados. Com
os novos adesivos, o barco criou mais vida, ficou mais alegre e mais bonito.
Agora só faltam as capas das gaiutas e o toldo. O serviço dos espelhos ficou
péssimo, não gostei, tive que chamar o homem diversas vezes para resolver o
problema. O Ricardo já virá essa semana e as coisas aqui caminham a passos
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CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
de tartaruga. Que agonia que dá, ninguém tem a mínima preocupação com o
tempo.
Já fomos ao Recife antigo e a Olinda comprar as cartas náuticas. Na
Capitania o sargento nos convidou para subir no Farol de Olinda que foi
aberto só para nós, no sábado, pelo sargento que estava de plantão naquele
dia. E nós subimos os 187 degraus. Valeu a pena, pois a vista lá de cima é
impressionante.
Fim de tarde e nada do Fábio, acho que vai abandonar o serviço. Preciso voltar ao Mercado São José para abastecer o barco e comprar farinha, aratu,
caranguejo, camarão, queijo de coalho e massa de tapioca. Mas é uma loucura
lá, tem que se tomar muito cuidado.
Recife é porto de entrada no Brasil de barcos do mundo todo, hoje
chegaram aqui muitos barcos. Um deles, de um casal francês, Silvie e Donie,
chegou cedo e parou bem ao nosso lado e os ajudamos a atracar. Silvie me contou que passaram duas semanas de travessia bem tranquila da Europa para cá,
tiveram apenas um dia de estresse perto de Cabo Verde.
Fico imaginando quando será nossa vez de fazermos essa travessia e
como ela será. Converso com todos que chegam e procuro colher o maior
número de informações que consigo. Vou anotando tudo no meu diário para
não esquecer.
Já estamos no dia 15 de dezembro e os serviços aqui continuam se
arrastando, dá nos nervos. Mas como ninguém é de ferro fomos ao shopping,
ao salão e fizemos algumas comprinhas. Agora sim, barco limpo [e lindo] e a
gente renovada! Tudo 10!”
Só conseguimos sair rumo a Noronha no dia 21 de dezembro. Meus
pais foram conosco conhecer Fernando de Noronha. Tivemos problemas com
o motor de bombordo e o Ricardo teve que correr muito com os últimos preparativos para nossa saída. A ideia é abastecer, parar em frente ao Marco Zero
para dormir e sair para Noronha às 3 horas da manhã. Mas assim que ancoramos, descobrimos que um detalhe ficou para trás: o gás de cozinha estava
acabando e não tem reserva. Meu pai e o Ricardo saíram de botinho para tentar comprar outro botijão. E foi assim que conheceram a Brasília Teimosa. A
favela de Recife que já foi desmanchada tantas vezes e teima em se reerguer,
por isso tem esse nome.
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
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Saímos de Recife com vento nordeste entre 15 e 20 nós e mar grosso.
Cinquenta por cento da tripulação passando mal. Invictos só meu pai, a Lygia
eu e o Dudu. A Giovanna foi a que ficou pior e a minha mãe acabou de desistir
de comprar um barco para nos seguir.
Em apenas um dia de travessia aprendi muitas coisas:
1. Comidas para travessia devem ser leves, preparadas com antecedência e ficar à mão.
2. Remédios para enjoo devem ser tomados ANTES de sair.
3. Longas travessias ou travessias de que não se pode voltar são difíceis para quem não está acostumado ao mar.
4. Verificar onde está e como está o material de pesca.
5. Fechar todas as gaiutas ANTES que a água entre.
6. Preparar com antecedência cobertores e roupas de tempo. O tempo pode mudar de repente.
7. Preparar um lugar para dormir no salão principal para quem fica
de turno.
8. Gorros são indispensáveis, mesmo no calor do nordeste, porque
de madrugada faz frio.
9. Usar apenas um banheiro durante as travessias.
10. Combinar com antecedência a divisão dos turnos.
O catamarã tem um balanço completamente diferente do monocasco,
é preciso se acostumar... Mas apesar de todas as nossas falhas essa está sendo
uma travessia tranquila. Vimos muitos peixes voadores e atobás e cruzamos
com vários navios durante a noite. O único contratempo foi a manilha do travler da grande que arrebentou (peça que fixa a parte de baixo da vela principal ao
convés) e o Ricardo precisou colocar o jibe prevent (equipamento que serve para
impedir que a vela principal faça movimentos bruscos). O vento seguiu nordeste
constante soprando a 17,6 nós e nossa velocidade mantida entre 7,5 nós.
As crianças se divertem fazendo listas e regras com o que estão aprendendo.
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CLAUDIA SCHIRMER PORTELA
“Os 10 mandamentos para segurança e bem-estar
de todos a bordo”
Senhores(as) visitantes:
1. A palavra do capitão é lei e jamais deve ser contestada.
2. Se você nunca navegou em mar aberto pense duas vezes
antes de embarcar.
3. Use roupas confortáveis e apropriadas para uma embarcação.
4. Cuide de seus pertences, pois os objetos esquecidos na
embarcação serão automaticamente incorporados ao patrimônio do capitão.
5. Água e energia são preciosas. Para sua própria segurança
economize-as.
6. Em caso de pânico e medo, retire-se discretamente para
seus aposentos para não contaminar o resto da tripulação. Caso contrário será lançado ao mar.
7. Só jogue no vaso aquilo que seu organismo é capaz de
produzir sozinho.
8. Quando em navegação, lembre-se: uma mão para você e
outra para o barco.
9. Se você é um palpiteiro de ocasião, não perca a oportunidade de ficar calado.
10. Estamos TODOS em férias. Lembre-se: a Lei Áurea foi
promulgada em 13 de maio de 1889.
BRAVO – TRÊS ANOS, TRÊS OCEANOS
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