INSTITUTO DE CIÊNCIAS E SAÚDE FUNORTE/SOEBRAS CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM IMPLANTODONTIA INFLUÊNCIA DO DESENHO DO CORPO DO IMPLANTE NA OSSEOINTEGRAÇÃO GISELA MUASSAB CASTANHO São Paulo - SP 2012 GISELA MUASSAB CASTANHO INFLUÊNCIA DO DESENHO DO CORPO DO IMPLANTE NA OSSEOINTEGRAÇÃO Monografia apresentada à Banca Examinadora do Curso de Especialização em Ortodontia do Instituto de Ciências e Saúde – FUNORTE/SOEBRAS como requisito final para obtenção do título de Especialista. Orientador: Prof. Dr. Geraldo Prestes de Camargo Filho São Paulo - SP 2012 GISELA MUASSAB CASTANHO Monografia do curso de especialização em Ortodontia com o título: INFLUÊNCIA DO DESENHO DO CORPO DO IMPLANTE NA OSSEOINTEGRAÇÃO aprovada no dia ____ de _________________ de ________ pela Banca Examinadora: _______________________________________ Orientador: Prof. Geraldo Prestes de Camargo Filho ____________________________________________________________ Prof(a). Luiz Augusto de Freitas Alvares _____________________________________________________________ Prof(a). João Felipe Moraes dos Santos São Paulo, 20 de julho de 2012. À todos os anjos e santos que me deram força e sabedoria para que eu chegasse até aqui. Agradecimentos À Associação dos Estudos Odontológicos (ANEO) por ter me dado esta oportunidade. Ao meu orientador, Prof. Dr. Geraldo Camargo, por seus ensinamentos. À todos os professores do Curso de Especialização em Implantodontia, pelo conhecimento transmitido. À amiga Maitê e ao amigo Toninho por terem me incentivado a fazer este curso. À amiga Renata pela amizade, boa convivência e cumplicidade no auxílio das cirurgias. Às amigas Inez, Roberta e Cynthia pela convivência, paciência, carinho e amizade dispendidas durante o curso. Aos colegas do Curso de Especialização em Implantodontia, pela ajuda e companheirismo durante o Curso. Aos pacientes que tiveram a imensa paciência ao serem tratados por nós. Aos funcionários pelos serviços prestados. À todos que de alguma forma tiveram cada qual sua contribuição. Se um homem tem um talento e não tem capacidade de usá-lo, ele fracassou. Se ele tem um talento e usa somente a metade deste, ele fracassou parcialmente. Se ele tem um talento e de certa forma aprende a usá-lo em sua totalidade, ele triunfou gloriosamente e obteve uma satisfação e um triunfo que poucos homens conhecerão. (Thomas Wolfe) RESUMO Contemporaneamente, o sucesso do tratamento envolvendo implantes depende do grau de integração do osso formado ao redor do implante. Sendo assim, alguns fatores como as técnicas cirúrgicas, a escolha do desenho do implante, a biocompatibilidade dos materiais e as condições de carga escolhidas poderiam afetar esta interface implante-osso de modo a prejudicar a osseointegração e influenciar o sucesso do tratamento. As características do desenho do implante são elementos fundamentais que podem influenciar a estabilidade primária e a habilidade do implante de sustentar cargas durante ou após a osseointegração. Além disso, a escolha do tipo de implante pode auxiliar o profissional a resolver diferentes situações clínicas. O macro desenho inclui implantes rosqueados ou não rosqueados, o formato do corpo do implante (cilíndrico ou cônico) e o desenho/formato das roscas (geometria da rosca, passo de rosca, profundidade da rosca, largura da rosca ou ângulo da rosca). É consenso geral que o aumento da estabilidade primária favorece a osseointegração, no entanto, há dúvidas se alterações no desenho e/ou formato do implante seriam garantias de sucesso. Portanto, esse trabalho teve o propósito, por meio da revisão da literatura, de estudar os diversos tipos de macro desenho dos implantes e a influência disto no processo de osseointegração. De acordo com a literatura revisada, pôde-se concluir que, as roscas incorporadas no macro desenho dos implantes aumentam a estabilidade primária e a área de contato osso-implante, melhorando a distribuição de estresse junto ao osso de modo a beneficiar o processo de osseointegração. Dependendo da situação clínica, implantes rosqueados cônicos, implantes com paço de rosca reduzido, roscas mais profundas e largas, roscas do tipo quadrada poderiam ser uma alternativa em situações onde seja necessário uma estabilização inicial maior do implante no tecido ósseo durante o procedimento cirúrgico. Palavras-chave: Implantes dentais, Osseointegração, Estabilidade primária SUMMARY Contemporaneously, the success of implant treatment depends on the osteointegration. Factors such as surgical techniques, the choice of implant design, the biocompatibility of materials and loading conditions could affect the bone-implant contact in order to jeopardize the osseointegration and to fail the implant therapy. The characteristics of the implant design may influence the primary stability of the implant and the ability to sustain loading during or after osseointegration. Furthermore, the choice of the implant could aid the practitioner to solve different clinical situations. The implant macrodesign includes threaded implants or no threaded, the shape of the implant (cylindrical or tapered) and threads shape (geometry of the screw, thread pitch, depth, width and face angle). It is generally agreed that the increased primary stability encourages osteointegration, however, been questioned whether changes in the implant design would guarantee of success. Based on the literature review, the aim of this study was to prospect the relationship between the types of implants macrodesign and the osseointegration process. According to the literature search, it was concluded that the implants threads increase primary stability and the bone-implant contact, improving stress distribution along the bone in order to benefit the process of osseointegration. Depending on the clinical situation, tapered screw implants, screw pitch decreased, deeper and wider threads, square threads could be an alternative in clinical situations where it is necessary a larger initial implant stabilization in bone tissue during surgery. Key-words: Dental implants, Osseointegration, Primary stability SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................. 9 2 PROPOSIÇÃO ............................................................................................... 12 3 REVISÃO DA LITERATURA ......................................................................... 13 4 DISCUSSÃO .................................................................................................. 25 5 CONCLUSÕES .............................................................................................. 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................. 31 9 1 INTRODUÇÃO Contemporaneamente, o sucesso do tratamento envolvendo implantes está relacionado ao resultado de suas características estéticas e mecânicas que, por sua vez, dependem do grau de integração do osso formado ao redor do implante. Sendo assim, alguns fatores como as técnicas cirúrgicas empregadas, a escolha do desenho do implante, a biocompatibilidade dos materiais e as condições de carga escolhidas poderiam afetar esta interface implante-osso de modo a prejudicar a osseointegração e influenciar o sucesso do tratamento (ABUHUSSEIN et al., 2010). Possíveis explicações nas falhas de tratamentos com implantes estariam relacionadas à micromovimentações, trauma cirúrgico, infecção bacteriana, carga excessiva e/ou comprometimento da cicatrização por doenças sistêmicas (ABUHUSSEIN et al., 2010) que quando associados à perda de volume ósseo e baixa qualidade óssea estas falhas podem ser ainda maiores (VIDYASAGAR; APSE, 2004). As características do desenho do implante são elementos fundamentais que podem influenciar a estabilidade primária e a habilidade do implante de sustentar cargas durante ou após a osseointegração. Além disso, a escolha do tipo de implante pode auxiliar o profissional a resolver diferentes situações clínicas (ABUHUSSEIN et al., 2010; SAKOH et al., 2006). Basicamente, o desenho dos implantes podem ser divididos em duas categorias: o desenho macroscópico e o microscópico. O macro desenho inclui implantes rosqueados ou não rosqueados, o formato do corpo do implante (cilíndrico ou cônico) e o desenho/formato das roscas (geometria da rosca, passo de rosca, profundidade da rosca, largura da rosca ou ângulo da rosca) (GENG; MA; et al., 2004; GENG; XU, D. W. et al., 2004). Enquanto que, o micro desenho inclui o tipo de material que é feito o implante, sua morfologia de superfície e o tratamento superficial aplicado. É consenso geral que o aumento da estabilidade primária favorece a osseointegração, no entanto, há dúvidas se alterações no desenho e/ou formato do implante seriam garantias de sucesso (FREITAS et al., 2012; SAKOH et al., 2006). Por isso, grande parte das pesquisas e do desenvolvimento na área da implantodontia têm focado em mudanças no formato e na topografia de superfície dos implantes dentais, a fim de melhorar a resposta biológica e acelerar o processo 10 de osseointegração. Atualmente, há mais de 1.300 tipos de implantes no mercado odontológico com diferentes propriedades: tamanho, forma e tratamento de superfície (LESMES; LASTER, 2011). A literatura, de uma forma geral, sugere que a combinação entre o macro e o micro desenho dos implantes poderiam criar uma interface osso-implante estável mesmo em osso de baixa densidade. Modificações nas roscas dos implantes e no formato do seu corpo são realizadas com a finalidade de melhorar o contato inicial, a estabilidade e a área de superfície, além de favorecer a dissipação do estresse da interface osso-implante (TRIPLETT et al., 2003). A profundidade da rosca, sua espessura, a presença de ângulos faciais e helicoidais são variações de parâmetros geométricos, os quais determinam a função da superfície rosqueada e afeta a distribuição biomecânica de cargas no implante. A espessura e o ângulo das roscas determinam o formato da rosca que podem ser em forma de V, quadrada (plana), trapezoidal ou trapézio reverso. As figuras 1 e 2, respectivamente, ilustram a localização dos vários parâmetros geométricos e os tipos de roscas existentes. Um número adicional de características tem sido empregadas na engenharia do desenho de implantes para alterar o efeito das roscas. Isto inclui perfurações de várias formas e dimensões, aberturas, bordas, estrias e endentações. Os implantes podem ser sólidos ou ocos, paralelos ou cônicos, com degraus ou planos, com terminação pontuda ou arredondada (ABUHUSSEIN et al., 2010; MISCH, C. E., 2009; TRIPLETT et al., 2003). Figura 1 – Características do macrodesenho do implante: ângulos faciais, helicoidais, passo de rosca, profundidade, largura da rosca, diâmetro externo e interno (ABUHUSSEIN et al., 2010) 11 Figura 2 – Tipos de roscas encontradas nos implantes: Em forma de V, rosca quadrada, rosca em forma de trapézio, rosca em forma de trapézio invertido e rosca em forma de espiral (ABUHUSSEIN et al., 2010) No presente estudo, procuraremos focar de que modo as diferentes características dos diversos tipos de macro desenho dos implantes podem influenciar o processo de osseointegração. 12 2 PROPOSIÇÃO Este trabalho teve o propósito, por meio da revisão da literatura, em estudar de que modo as diversas características entre os tipos de macro desenho dos implantes poderiam influenciar o processo de osseointegração. 13 3 REVISÃO DA LITERATURA A revisão da literatura será apresentada segundo a sequência cronológica e discorrerá sobre os vários aspectos pertinentes ao macrodesenho dos implantes e sua influência no processo de osseointegração. Hammerle et al., em 1996, avaliaram clinica e radiograficamente a resposta tecidual da colocação de implantes transmucosos em estágio único com pescoço (e.g. porção cervical do implante) liso (polido) e rugoso (spray de plasma de titânio) submersos 1mm da crista óssea. Os autores afirmaram que, biologicamente, o aprofundamento abaixo da crista óssea marginal entre bordos lisos e rugosos não deveria ser recomendada. No entanto, nenhuma diferença foi encontrada entre os grupos em relação à posição da margem gengival após os 12 meses de acompanhamento clínico. Parâmetros de osseointegração em implantes dentais foram avaliados com a utilização da metodologia de elemento finito. Este estudo examinou o efeito na variação do diâmetro (3,8mm – 6,5mm) entre implantes cilíndricos rosqueados e implantes cilíndricos lisos (não rosqueados) sob pressão; comparou as características da dissipação do estresse entre os implantes rosqueados e lisos; e analisou a direção da carga mastigatória (vertical, horizontal e oblíqua 45 graus). Os resultados mostraram que o maior diâmetro nem sempre é a melhor escolha em relação à distribuição de estresse ao redor do osso. O estresse é mais uniformemente dissipado nos implantes rosqueados comparado aos lisos. O maior estresse diante das cargas aplicadas foi localizado na região de osso cortical. Clinicamente, baseado nas limitações morfológicas específicas da mandíbula, nem sempre o implante mais largo seria o mais ideal e que a colocação de implantes cilíndricos rosqueáveis foi mais desejável sob o ponto de vista da distribuição de estresse ao redor do osso (HOLMGREN et al., 1998). Um estudo clínico com acompanhamento de 3 a 5 anos foi realizado com a finalidade de avaliar a taxa de sobrevivência do implante e a remodelação óssea marginal relacionada a diferentes diâmetros de implantes. Foram utilizados diâmetros de 3,75; 4,0; e 5,0mm. Os implantes de maior diâmetro foram os que mais falharam. A perda óssea marginal foi baixa no período de 5 anos. Foi encontrada relação entre o alto índice de falha nos implantes de maior diâmetro. Contudo, não 14 houve relação entre a falha do implante com o tipo de osso, seja por quantidade ou qualidade óssea. Os autores sugeriram que a curva de aprendizado, o osso de baixa qualidade e a mudança no formato do implante poderiam ser a causa de falhas vistas nos implantes de maior diâmetro (IVANOFF et al., 1999). Foram comparados 5 tipos diferentes de implantes (Figura 3) com variações na geometria e no tratamento de superfície com relação à estabilidade primária alcançada. Todos os implantes demonstraram boa estabilidade primária em ossos do tipo 2 e 3. Somente o tipo Mark IV (Nobel Biocare AB, Gotemburgo, Suécia) pareceu manter boa estabilidade em osso do tipo 4. Este último demonstrou alto torque de inserção, maiores valores de frequência de ressonância e uma maior resistência e estabilidade na interface osso-implante comparado aos outros (O’SULLIVAN et al., 2000). Figura 3 - Ilustração de 5 tipos de implantes: STA-Standard Branemark, MK II-Mark implant, MK IV-Mark implant, OTI-Osseotite implant, TIOB-Tioblast implant (O’SULLIVAN et al., 2000) Rasmusson et al., em 2001, estudaram a osseointegração e a estabilidade de implantes com retenções adicionais no pescoço do implante (Astra Tech) comparado com implantes maquinados com pescoço liso (Branemark) colocados em crista óssea marginal com e sem defeito ósseo (Figura 4). Análise por meio de frequência de ressonância e avaliação histológica e histomorfométrica foram realizadas após 4 meses de cicatrização em osso de cães. Todos os implantes osseointegraram com aumento da estabilidade primária para os implantes com retenções adicionais, maior contato osso-implante e alto nível de regeneração 15 óssea em sítios com defeitos comparado ao outro grupo. Nenhuma diferença foi encontrada entre a quantidade de roscas recobertas por osso. Figura 4 - Tipos de implantes com modificações no pescoço do implante: pescoço cilíndrico com paço de rosca reduzido, pescoço cônico com paço de rosca reduzido, ambos com tratamento superficial e pescoço liso (RASMUSSON et al., 2001) Com a utilização da análise de elemento finito, foi investigada a performance de vários formatos de implantes a fim de estudar a distribuição de estresse gerada ao redor do osso e determinar qual formato de implante proporcionaria uma maior redução nessa distribuição. Foram utilizados implantes com diferenças no passo da rosca e no comprimento. Os autores concluíram que a quantidade de estresse transmitida ao osso é reduzida não só quando o passo de rosca diminui, mas também quando o comprimento do implante aumenta (CHUN et al., 2002). Em revisão de literatura Triplett et al. (2003) descreveram a utilização dos implantes dentais com relação à composição do material, desenho/formato e topografia de superfície. Os autores revisaram o princípio biológico da osseointegração e como o processo da interação osso-implante é influenciada por estas diferentes características. A análise tridimensional por elemento finito avalia a influencia do tipo e do comprimento do implante, bem como a qualidade óssea ao redor do implante sob condições de estresse. Para tanto, Tada et al. (2003) investigaram dois tipos de implantes (rosqueados e cilíndricos) e quatro comprimentos diferentes (9,2; 10,8; 16 12,4 e 14mm). Foram utilizados quatro tipos de osso medulares, com variações no módulo de elasticidade, onde foram aplicadas cargas axiais e buco-linguais no centro do abutment. O comprimento e o tipo de implante podem influenciar a tensão no osso, especialmente em osso de baixa densidade. A qualidade óssea é importante na avaliação pré cirúrgica para se obter um bom prognóstico clínico. Os autores concluíram que, em osso medular de alta densidade, os implantes tiveram melhor comportamento biomecânico comparado ao osso medular de baixa densidade. Além disso, implantes rosqueados mais longos podem ser a melhor escolha em mandíbulas de osso medular de baixa densidade. A estabilidade primária é um dos pré-requisitos para o sucesso da osseointegração em implantes dentais. Esta pode ser influenciada pela qualidade e quantidade de osso, pela geometria do implante e pela técnica cirúrgica. Por esta razão que Vidyasagar e Apse (2004) estudaram o quanto a rugosidade superficial e o aspecto do desenho do implante poderiam afetar a estabilidade primária e a resposta tecidual óssea frente a estes fatores. Não houve evidências clínicas da relação entre o formato das roscas dos implantes e a estabilidade primária. Houve indícios de que o desenho das roscas pode ter influência em ossos de má qualidade, o que não ocorre em ossos de boa qualidade. Foi conclusivo que, em tratamentos com carga imediata em osso de baixa densidade, a escolha do desenho do implante e a técnica cirúrgica deveriam ser aprimoradas a fim de otimizar a estabilidade primária e preservar a crista óssea de modo a melhorar o desempenho clínico diante das diferentes situações e aumentar a longevidade do tratamento. Em 2004, Steigenga et al. avaliaram o efeito do tipo de rosca do implante na qualidade e porcentagem de osseointegração e a resistência ao torque reverso em tíbia de coelhos. Foram realizadas: análise de cortes histológicos e histomorfométricos do contato osso-implante, densidade radiográfica ao redor do osso e teste de torque reverso. Foram utilizados três tipos de roscas: forma em V”, rosca plana (quadrada) e rosca em trapézio reverso. Os implantes de rosca quadrada apresentaram maior contato osso-implante e maior resistência ao torque reverso comparado aos outros dois tipos. Quanto às densidades radiográficas não foi encontrada nenhuma diferença. Os autores concluíram que o formato de rosca quadrada pode ser mais efetivo para o uso em implantodontia. Geng et al. (2004) com análise por elemento finito bidimensional avaliaram a osseintegração de um implante rosqueado cônico comparado a um 17 implante Branemark cilíndrico de plataforma regular com equivalente comprimento e diâmetro de pescoço. Foram aplicadas cargas no topo do abutment transmucoso em três orientações (vertical, horizontal e oblíqua: 45°) e utilizados dois tipos de osso: cortical e trabecular com módulo de elasticidade de 13,4 GPa e 1,37 GPa respectivamente. O estudo indicou que a carga oblíqua e o módulo de elasticidade do osso cortical são importantes parâmetros na otimização do desenho do implante. Os implantes rosqueados são apropriados para osso cortical de módulos entre 10 e 13,4 GPa (GENG; XU, D. W. et al., 2004). Em outro estudo, os mesmos autores analisaram quatro diferentes formatos de rosca (em forma de V, rosca estreita (0,1mm), rosca quadrada de 0,24mm e rosca quadrada de 0,36mm), a fim de determinar qual seria a melhor configuração, sob condições de carga oblíqua em osso cortical, para um implante experimental rosqueado. Os resultados mostraram que os implantes com rosca em V e rosca quadrada maior seriam as melhores opções para o modelo experimental. As roscas quadrada menor e a estreita não foram satisfatórias. A distribuição de estresse em osso cortical não foi afetada fortemente pelas configurações das roscas. Contudo, a restrição mínima de suporte permitiu claramente diferenciar o estresse entre os diferentes tipos de roscas e a interface trabecular osso-implante (GENG; MA; et al., 2004). Karroussis et al. (2004) compararam a taxa de sobrevivência, sucesso e complicações biológicas em um estudo longitudinal de 10 anos comparando 3 diferentes desenhos de implantes do sistema de implantes ITI (rosqueados, cilíndricos não-rosqueados sem angulação do componente protético e cilíndricos não-rosqueados com angulação do componente protético). Os autores concluíram que uma alta taxa de sobrevivência e uma baixa incidência de peri-implantite foram identificadas para os implantes rosqueados após 10 anos de acompanhamento quando comparados aos não-rosqueados (95,4% vs. 85,7% e 10% vs. 29%, respectivamente). A seleção e a definição de um bom critério para o acompanhamento dos casos clínicos são cruciais nas comparações entre diferentes estudos. Por meio de microscopia de luz, Bolind et al., em 2005, compararam a quantidade de saucerização óssea entre dois diferentes tipos de desenho de implantes: cilíndricos sem roscas e rosqueados do tipo Branemark. Como conclusão, 18 os autores demonstraram que os implantes cilíndricos sem roscas tiveram maior saucerização que os implantes rosqueados. Em 2005, Hänggi et al. avaliaram, radiograficamente, após 3 anos da colocação, as mudanças no nível da crista óssea ao redor de dois tipos de implantes com diferentes comprimentos de colar com superfícies lisas maquinadas de 2,8mm e 1,8mm. A perda óssea de crista óssea marginal dos implantes colocados em pacientes com deficiência de higienização oral foi significantemente maior comparado aos pacientes com adequado controle de biofilme dental. Houve uma tendência para uma perda adicional de crista óssea no grupo de pacientes com periodontite agressiva previamente à colocação dos implantes. Como conclusão, os autores afirmaram que o desenho do implante com colar mais curtos e lisos não tiveram nenhuma perda óssea adicional e pode ajudar a reduzir o risco de exposição do metal na margem de implantes especialmente em áreas estéticas. Outros autores estudaram as diferenças com relação à estabilidade primária de dois tipos de implantes rosqueados (cônicos e cilíndricos); com a utilização de três tipos de metodologias: torque de inserção, frequência de ressonância e Periotest. Os implantes cônicos mostraram maior estabilidade primária. O procedimento de sub-dimensionamento da perfuração pareceu aumentar a estabilidade primária para os dois tipos de implantes estudados. As diferenças detectadas foram observadas apenas com a utilização do torque de inserção comparados aos outros dois testes (SAKOH et al., 2006). Diferentes desenhos de implantes foram analisados por meio de elemento finito tridimensional. Foram utilizados seis tipos de implantes: 3 implantes cilíndricos (sem rosca, com rosca em V e com rosca quadrada), 2 implantes com configurações em forma de degrau (sem rosca e com rosca em V) e 1 implante cônico com rosca quadrada (Figura 5). Foram aplicadas forças oblíquas (45°) nas cúspides vestibulares. Os autores afirmaram que a inclusão de roscas no desenho do implante aumentaram a área de contato, porém não impediram o estresse na interface implante-osso. Apesar dos implantes rosqueados não diminuírem o pico de estresse na crista óssea, ambos os desenhos rosqueados e com degrau mostraram habilidade em dissipar o estresse na interface implante-osso. Os implantes com degrau reduziram o pico de estresse em osso cortical. O uso de implantes cônicos reduziram o pico de estresse em osso cortical e medular pela extensão da área de contato (HUANG et al., 2007). 19 Figura 5 – Seis diferentes formatos de implantes (da esquerda para a direita): cilíndrico sem rosca, cilíndrico com rosca em V, cilíndrico com rosca quadrada, em forma de degrau sem rosca, em forma de degrau com rosca em V e cônico com rosca quadrada (HUANG et al., 2007) Variações em altura e largura nos padrões de rosca em forma de V foram avaliadas por meio da análise por elemento finito. A altura das roscas variaram de 0,20 a 0,60mm e a largura de 0,10 a 0,40mm. Os implantes receberam cargas axiais e com inclinação de 45° na direção buco-lingual. Os autores afirmaram que o estresse em osso medular é mais comumente influenciado pelos diferentes parâmetros de rosca do que em osso cortical. A carga oblíqua (45°) é mais influenciada pelos parâmetros de rosca comparada à carga axial. Alturas de rosca entre 0,34 e 0,50mm e larguras entre 0,18 e 0,30mm foram as que tiveram melhor desempenho biomecânico. Entre os tipo de roscas de implante, a altura da rosca é mais importante que a largura na redução de estresse ao redor do osso (KONG et al., 2008). Por meio de análises radiográficas, periodontal e histomorfométrica, Chung et al. (2008) avaliaram a geometria e as características superficiais de três grupos de implantes na osseointegração após carga funcional em cães. O grupo controle recebeu implantes do tipo Branemark e os outros dois grupos tinham altura de passo de rosca de 0,5mm, um deles com superfície maquinada e o outro com tratamento superficial. As análises foram feitas após 6 e 12 meses pós carga. A análise radiográfica mostrou que a reabsorção da crista foi maior no grupo controle comparado aos outros dois. A porcentagem de contato osso-implante do grupo com 20 tratamento superficial foi maior que os outros dois. Os autores concluíram que a geometria e o tratamento superficial dos implantes afetam a taxa de reabsorção da crista óssea e a cicatrização óssea ao redor dos implantes. Em 2009, Deporter relatou que seria incorreto afirmar que um único desenho de implante e uma única técnica cirúrgica são suficientes para todas as situações clínicas. Alguns tipos de implantes e técnicas são melhores em ossos mais densos enquanto outros em ossos medulares. Como exemplo disto, o autor descreveu que implantes rosqueados são mais apropriados para sítios com alturas de 8mm ou mais, densidade óssea maior e quando há a necessidade de carga imediata, já os implantes sob pressão são melhores em sítios com alturas de 5mm ou menos e quantidade maior de osso medular, especialmente em maxila. Portanto, o entendimento dos benefícios e limitações destes dois conceitos de implantes seria a chave para o sucesso de um tratamento minimamente invasivo. Um estudo piloto investigou o resultado biomecânico com carga imediata entre vários tipos de desenho e tratamentos superficiais nos implantes dentais. Para a análise de frequência de ressonância foram utilizados: implantes com perfil de rosca curto e tratamento superficial com óxidos anodizados (anodic oxidized) (LPAOS), implantes com perfil de rosca larga e cobertura com plasma de titânio (WPTPS), implantes com perfil de rosca curto e desenho híbrido com duplo ataque e superfície maquinada (LPHES), implantes com os dois perfis de rosca e superfície atacada por ácido e jateamento de areia (DTSAE). O maior valor de remoção de torque foi obtido pelos implantes com perfil de rosca larga (WPTPS), seguido pelo de perfil de rosca curta com tratamento DTSAE e LPAOS. O menor valor foi obtido pelo LPHES. Os valores do coeficiente de estabilidade do implante (Implant Stability Quotient - ISQ) aumentam após a cirurgia para todos os sistemas, mas houve uma positiva correlação somente no DTSAE. Maiores quantidades de titânio foram encontradas ao redor do osso com o WPTPS, seguidas pelo LPAOS e menores quantidades no DTSAE seguidas pelo LPHES. Os autores afirmaram que se alta estabilidade primária for alcançada durante a colocação do implante, é possível realizar carga imediata com os vários tipos de rosca e tratamentos de superfície. As interações entre a superfície do implante e do osso podem ser influenciadas pela configuração superficial. E que a ancoragem mecânica é alta nos implantes com superfícies mais profundas micromorfologicamente (NEUGEBAUER et al., 2009). 21 O desenho do implante é um dos parâmetros para o sucesso da estabilidade primária em implantodontia. Portanto, alguns autores estudaram o efeito do desenho do implante na estabilidade primária de dois implantes rosqueados cônicos: Biohorizons (com lâminas auto-rosqueantes) e Nobel Biocare (sem lâminas auto-rosqueantes). Foram utilizados diferentes densidades ósseas e os implantes foram colocados em 3 diferentes profundidades (terço apical, terço médio e totalmente imerso). Os implantes Nobel Biocare totalmente imersos tiveram maior estabilidade primária. Contudo, a associação entre o desenho do implante e a estabilidade primária foi menos relevante que os outros fatores (a profundidade de inserção e a densidade óssea). Portanto, uma boa qualidade e quantidade óssea pode compensar o desenho do implante caso este não seja satisfatório (CHONG et al., 2009). Uma abordagem bastante extensa foi realizada por estes autores com o propósito de relacionar as bases científicas na implantodontia com o desenho do implante dental. A distribuição das forças oclusais, a área de contato osso-implante, a geometria do corpo do implante, a geometria das roscas dos impantes (passo de rosca, forma, profundidade), a plataforma cervical dos implantes, entre outros foram abordados de forma a concluírem que todos estes fatores são importantes na escolha do melhor tipo de acordo com a situação clínica presente. E que seria prudente fazer esta seleção baseada na evidência científica, mais do que na opinião de mercado publicitário (MISCH, C. E., 2009). Abuhussein et al. (2010) analisaram o quanto mudanças nas características do macro desenho do implante poderiam influenciar o processo de osseointegração. As características estudadas foram: a geometria das roscas, o passo da rosca, ângulos helicoidais das roscas, profundidade e largura das roscas, bem como o desenho da porção cervical dos implantes. Seus resultados mostraram que a geometria das roscas influenciam a distribuição de forças ao redor do implante. O decréscimo do passo da rosca influencia positivamente a estabilidade do implante, ou seja, quanto menor o passo de rosca, maior a estabilidade. Ângulos helicoidais excessivos, apesar de facilitar a inserção do implante podem prejudicar a capacidade do implante de suportar cargas axiais. Roscas mais profundas parecem oferecer um boa estabilidade em ossos mais esponjosos. A adição de roscas e/ou micro roscas no pescoço do implante (porção cervical do implante) podem promover uma relação positiva no contato osso-implante de modo a preservar o osso marginal. 22 Eraslan e Inan (2010) avaliaram os efeitos de diferentes tipos de roscas na distribuição do estresse frente às estruturas de suporte por meio da análise de elemento finito. Foram selecionados quatro configurações de roscas: forma em V, rosca trapezoidal, rosca em trapézio reverso e rosca quadrada. As maiores concentrações de forças foram localizadas nas áreas de abutments e regiões cervicais de osso cortical para todos os modelos. A concentração de estresse foi maior em osso cortical comparado ao esponjoso e a concentração ao redor da primeira rosca maior que ao redor das outras roscas. Enquanto o padrão da distribuição de estresse von Mises foram similares para todos os tipos de implantes estudados, a concentração de forças compressivas foram diferentes ao redor do osso de suporte. O estudo demonstrou que o uso de diferentes roscas foi diferente apenas quando as forças compressivas foram analisadas, não diferindo com relação as forças de von Mises. Os procedimentos adotados no tratamento com implantes têm sido constantemente modificados graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. O que antes era feito em duas fases cirúrgicas com intervalos de 3 a 6 meses para finalizar o tratamento, atualmente é possível realizar no mesmo procedimento cirúrgico. Esta mudança se deve a vários fatores, entre eles, melhorias na técnica cirúrgica, modificações no desenho do implante, aumento da qualidade de fabricação dos implantes, desenvolvimento na qualidade dos instrumentos cirúrgicos, controle periódico por parte do paciente e um adequado tratamento de superfície. Os resultados clínicos mostram que um adequado tratamento superficial é crucial para a redução do período de cicatrização. As características topográficas, a rugosidade, a composição química e a energia de superfície modificam o crescimento e a função celular nos estágios iniciais da osseointegração (ELIAS; MEIRELLES, 2010). A estabilidade primária é uma das regras essenciais para o sucesso do tratamento com carga imediata. Para tanto, Javed e Romanos (2010) realizaram uma revisão de literatura para estudar o assunto. Os autores constataram que há uma significante resposta biológica tanto em tecido duro quanto mole frente à carga imediata. É evidente que o grau de estabilidade primária conseguido durante protocolos de carga imediata depende de vários fatores, como, densidade e qualidade óssea; formato, desenho e características superficiais do implante; e técnica cirúrgica. Por isso, situações como quantidade e qualidade baixa de osso; 23 múltiplos implantes ou procedimentos que requerem enxerto ósseo podem modificar a obtenção da estabilidade primária durante a carga imediata e precisaria ser revisto com maior critério. Alguns autores avaliaram histologicamente mudanças no nível ósseo marginal ao redor de dois diferentes tipos de implantes: com e sem superfície maquinada no pescoço do implante. Todos os implantes osseointegraram. A média de ganho ósseo observada ao redor dos implantes com pescoço não maquinado foi significantemente diferente da média de osso perdido para o pescoço maquinado. Nenhum componente infra ósseo estava presente na margem do primeiro contato osso-implante ao redor do pescoço não maquinado. Não houve nenhuma diferença estatisticamente significante entre as médias da total quantidade de contato ósseo para os tipos de implantes. Os implantes com pescoço não maquinado apresentaram ganho ósseo de crista após 3 e 12 meses sob condições de carga em mandíbula de cães. O desenho do implante foram determinantes para a preservação do nível ósseo marginal (VALDERRAMA et al., 2011). Em 2011, dos Santos et al. analisaram a influência do desenho e da morfologia superficial na estabilidade primária dos implantes dentais por meio do torque de inserção e da análise de frequência de ressonância. Foram utilizados dois desenhos de implantes (cilíndrico e cônico) e três acabamentos de superfície (maquinado, ataque ácido e anodizado). Os implantes maquinados mostraram menor torque de inserção comparados aos de tratamento superficial. Não houve nenhuma correlação entre o torque e a estabilidade primária dos implantes estudados. As diferenças nos valores do torque de inserção entre os implantes cilíndricos e cônicos pode ser explicada pela diferença do contato da área de superfície entre a geometria das roscas dos implantes. Portanto, o torque máximo de inserção depende da geometria do implante, do formato da rosca e da morfologia de superfície. A colocação de implantes cônicos com superfícies tratadas requerem um torque de inserção maior. Lesmes e Laster (2011) em uma revisão de literatura relataram a importância do desenho dos implantes dentais em tratamentos reabilitadores. Achados clínicos sugeriram que mudanças particularmente no desenho da superfície dos implantes tem contribuído imensamente para o sucesso clínico de modo a reduzir o tempo de tratamento. 24 Freitas et al. (2012) avaliaram o efeito do torque de inserção no micro movimento mediante à cargas laterais em três diferentes tipos de desenho de implantes: implantes sem fenda com formato de rosca sólida, implantes convencionais com fenda na porção apical do implante em 90° e um novo tipo de implante denominado Blossom com rosca diferenciada. Os autores concluíram que o torque de inserção foi reduzido nos implantes que possuíam bordos cortantes e que esta redução do torque de inserção esteve associada com a diminuição do micromovimento. Contudo, tanto o torque de inserção quanto o micromovimento não tiveram relação com o desenho dos implantes. 25 4 DISCUSSÃO De acordo com a literatura revisada, podemos afirmar que a maioria dos autores associam a estabilidade primária conseguida na colocação dos implantes com o tipo de desenho do implante, seja ele macroscópico ou microscópico (CHONG et al., 2009; CHUN et al., 2002; FREITAS et al., 2012; GENG; XU, D. W. et al., 2004; HOLMGREN et al., 1998; HUANG et al., 2007; IVANOFF et al., 1999; SANTOS, DOS et al., 2011; STEIGENGA et al., 2004). Cabe ressaltar que o presente trabalho revisou as características macroscópicas do desenho do implante deixando para uma outra oportunidade as características microscópicas provenientes de tratamentos superficiais. Todavia, outras características somadas ao macro desenho do implante também podem interferir na estabilidade primária como, por exemplo, a quantidade e qualidade óssea, além da habilidade do profissional (O’SULLIVAN et al., 2000). Outros autores enfatizaram a técnica cirúrgica como um diferencial, pois o tipo de perfuração cirúrgica e a escolha do diâmetro do implante são fundamentais na inserção do implante, os quais podem ser otimizados pelo uso de formatos de roscas específicas de acordo com o tipo de osso. Isto faz com que o cirurgião-dentista tenha a oportunidade de selecionarr o melhor tipo de implante baseado na densidade óssea (DEPORTER, 2009). A qualidade óssea é de extrema importância principalmente em casos de carga imediata e estaria diretamente ligada à estabilidade primária (O’SULLIVAN et al., 2000; JAVED; ROMANOS, 2010). Isto corrobora com as observações mencionadas anteriormente e com os achados de Neugebauer et al. (2009) onde em mandíbula houve um aumento nos valores do coeficiente de estabilidade dos implantes o que não foi observado em maxilla. Outro fator relacionado ao aumento da estabilidade primária é o torque de inserção. Todavia, esta característica também depende de uma série de fatores, como, coeficiente de fricção, desenho do implante, geometria da rosca do implante, tratamento superficial e técnica cirúrgica (HOLMGREN et al., 1998; HUANG et al., 2007; O’SULLIVAN et al., 2000; SAKOH et al., 2006; SANTOS, DOS et al., 2011). Neugebauer et al. (2009) observaram estabilidade primária acima de 35Ncm independente do desenho do implante. No entanto, de acordo com Dos Santos et al. 26 (2011), implantes cônicos apresentaram maiores valores de torque de inserção que os cilíndricos, pois a geometria cônica faz com que a área de superfície do implante em contato com o tecido duro (osso) seja maior (HUANG et al., 2007; SANTOS, DOS et al., 2011) e, por consequência, promova maior pressão na interface ossoimplante durante a inserção (O’SULLIVAN et al., 2000). Apesar dos implantes cilíndricos apresentarem uma geometria mais favorável à inserção que os cônicos, Huang et al. (2007) e Sakoh et al. (2006), reportaram que os implantes cônicos foram os que melhor se adaptaram frente à situações de estresse, tanto em osso cortical quanto medular, e os que tiveram a maior estabilidade primária. Para Abuhussein et al. (2010), mudanças no macro desenho dos implantes têm sido necessárias para melhorar o desempenho dos tratamentos reabilitadores. Neste sentido, as roscas têm sido incorporadas no desenho dos implantes a fim de promover maior estabilidade primária, aumentar a superfície de contato osso-implante e melhorar a distribuição de estresse junto ao osso (JAVED; ROMANOS, 2010; VIDYASAGAR; APSE, 2004). Segundo Chung et al. (2008), os diferentes tipos de roscas podem responder diferentemente à aplicação de forças. A presença de roscas tem uma favorável influência na transmissão e dissipação das forças, pois a força se decompõe em 2 componentes: paralela e perpendicular ao plano da rosca. Visto isso, implantes rosqueados podem reduzir a sobrecarga em osso medular (TADA et al., 2003). Isto reforça as observações encontradas por Karoussis et al. (2004) que, em estudo longitudinal, encontraram maior índice de sucesso com baixas complicações biológicas em implantes rosqueados. A área de contato na interface osso-implante proporcionada pelas roscas promovem maior ancoragem auxiliando a estabilidade (BOLIND et al., 2005; KAROUSSIS et al., 2004) A redução do passo de rosca aumenta ainda mais a área de contato e melhora a distribuição de estresse (CHUN et al., 2002; SANTOS, DOS et al., 2011; STEIGENGA et al., 2004); além disso, roscas mais próximas geram uma melhor estabilidade primária de modo a facilitar a osseointegração (ABUHUSSEIN et al., 2010). Como a área de contato é maior, a fricção durante a inserção do implante no sítio ósseo é maior, gerando um torque de inserção maior (SANTOS, DOS et al., 2011). Do ponto de vista biomecânico, Kong et al. (2008) recomendam maior atenção na escolha da altura da rosca do que a largura para escolher o implante. A altura da rosca deve girar em torno de 0,34 a 0,50mm e a largura de 0,18 a 0,30 para obtenção de resultados melhores. O excesso de ângulos helicoidais podem 27 prejudicar a habilidade dos implantes em sustentar cargas axiais segundo Abuhussein et al. (2010). Roscas mais profundas têm um importante efeito na estabilização em situações com qualidade óssea desfavorável (ABUHUSSEIN et al., 2010; MISCH, C. E., 2009). Enquanto que roscas duplas causam um aumento na velocidade de inserção sem gerar aumento de energia na interface osso-implante o que seria uma vantagem segundo O’Sullivan et al., 2000. Diferenças no módulo de elasticidade entre implante e osso afetam a distribuição de estresse durante a colocação dos implantes nos sítios ósseos. As alterações dos desenhos dos implantes tentam fazer com que este estresse seja o mais uniforme possível (GENG; XU, D. W. et al., 2004; HUANG et al., 2007; KONG et al., 2008). Para minimizar os efeitos deletérios do estresse, Geng; Xu et al. (2004) relataram que implantes com roscas em forma de degrau apresentaram uma distribuição de estresse mais uniforme comparado aos implantes cilíndricos. Fato similar foi apresentado por Huang et al. (2007) em que implantes do tipo rosqueados com roscas em forma de degrau mostraram melhor habilidade na dissipação do estresse interfacial. Holmgren et al. (1998) também encontraram comportamento favorável na distribuição de estresse em implantes em forma de degrau colocados sob pressão. Geng; Xu et al. (2004) ainda acrescentaram que, biomecanicamente, implantes em forma de degrau funcionam melhor em osso de baixa qualidade com módulos de elasticidade mais baixos (entre 10 e 13.4 GPa). Modificações no macro desenho das roscas podem também interferir no deslocamento horizontal do implante. Portanto, roscas que proporcionem menor quantidade de estresse gerada no tecido ósseo, sem perder a estabilidade seria desejável. Isto potencialmente evitaria a reabsorção óssea e, consequentemente, diminuiria o risco de insucesso (FREITAS et al., 2012). O alto estresse pode causar uma sobrecarga mecânica no osso e resultar em perda óssea alveolar (CHUN et al., 2002; ERASLAN; INAN, 2010). Como o osso precisa de estímulo para se manter, Eraslan e Inan (2010) verificaram que os implantes com formato de rosca em trapézio reverso teriam vantagens em relação aos outros formatos por promoverem maior quantidade de forças compressivas, pois seriam estas forças capazes de estimular a manutenção do nível ósseo. De acordo com Chun et al. (2002), as forças oblíquas promoveram cargas duas vezes maiores que as forças verticais independente do tipo de implante. Por esta razão que as roscas quadradas tiveram um desempenho superior na distribuição de estresse, 28 comparados às roscas em V e trapézio reverso, além de promoverem maior área de contato osso-implante (CHUN et al., 2002; STEIGENGA et al., 2004; ABUHUSSEIN et al., 2010). Por outro lado, Geng MA et al. (2004) observaram que os implantes com roscas em V também tiveram configurações apropriadas quanto à distribuição de estresse. Roscas em V e roscas em forma de trapézio reverso transmitem uma combinação de forças compressivas, de tensão e de cisalhamento. Diferentemente do que acontece com as roscas quadradas em que a maior parte das forças é de compressão (MISCH, C. E., 2009) e quanto maior for o componente horizontal das forças aplicadas, maior a efetividade na distribuição de estresse (CHUN et al., 2002). Implantes curtos e osso de baixa qualidade parecem ter uma forte influência no insucesso dos tratamentos envolvendo implantes. A colocação de implantes em osso tipo I e II tem tido um bom prognóstico, porém implantes colocados em osso desfavorável, especialmente tipo IV, têm aumentado significativamente as chances de fracasso. Em osso cortical as variações no tipo e comprimento do implante não sofreram grandes alterações na distribuição de estresse (GENG; MA; et al., 2004; TADA et al., 2003). A maior concentração de estresse encontra-se na região cervical de osso cortical que está adjacente à primeira rosca do implante (CHUN et al., 2002; ERASLAN; INAN, 2010). Em vista disso, alguns autores têm estudado modificações no desenho do implante em sua porção cervical. De acordo com Hammerle et al. (1996), tanto implantes de pescoço liso quanto rugoso quando inseridos abaixo da crista óssea marginal foram capazes de gerar perda óssea de 1mm durante o primeiro ano não sendo recomendado o aprofundamento além da crista óssea marginal nestes tipos de implantes. A utilização de implantes com pescoço de superficies lisas de 1 a 2mm promoveriam uma melhora na manutenção da crista óssea marginal em detrimento de pescoços com 3mm, especialmente em casos onde a distância transmucosa é menor. Isto corroborou com os achados de Hanggi et al. (2005) no qual um pescoço liso mais curto não provocou nenhuma perda óssea adicional de modo a reduzir o risco de exposição da margem de metal em áreas estéticas. Para Valderrama et al. (2011), pescoços com superficies não maquinadas (despolidas por meio de tratamentos superficiais) preservaram o osso peri-implantar após um ano em condições de carga, de modo a demonstrar o quanto o desenho e a superfície de tratamento são importantes. Outro fator visto por Abuhussein et al. 29 (2010) foi a adição de roscas e micro roscas no pescoço do implante as quais também contribuíram para a preservação de osso marginal. Estas observações reforçam os resultados encontrados por Rasmusson et al. (2001), onde a estabilidade primária dos implantes foi maior em implantes com pescoço rosqueados comparados aos de pescoço maquinado, sendo o contato osso-implante significantemente maior nos primeiros. Implantes rosqueados maquinados, por serem mais lisos comparados aos com tratamentos superficiais, possuem menor torque de inserção e menor estabilidade. Daí a importância dos tratamentos superficiais no auxílio da estabilidade primária segundo alguns autores (CHUNG, S. H. et al., 2008; NEUGEBAUER et al., 2009; SANTOS, DOS et al., 2011). Já os implantes sem a presença de roscas não são indicados em cirurgias de carga imediata pela baixa estabilidade primária alcançada no ato cirúrgico (JAVED; ROMANOS, 2010). A avaliação de parâmetros clínicos e radiográficos para um bom planejamento fazem com que as taxas de sucesso aumentem a longo prazo (KAROUSSIS et al., 2004). O conhecimento das características do macro desenho dos implantes podem contribuir positivamente para a escolha do melhor tipo de implante de acordo com a situação clínica do paciente. Fica claro, que para situações onde se tem osso de boa qualidade com facilidade de se conseguir uma boa estabilidade primária não seria preocupante. Contudo, casos em que se tenha osso de baixa qualidade e/ou quantidade ou problemas oclusais, a escolha de um implante com características específicas, seja, ele com paço de rosca menor, roscas mais profundas, implantes mais longos seja benéfica. 30 5 CONCLUSÃO De acordo com a literatura revisada, pôde-se concluir que as roscas incorporadas no macro desenho dos implantes aumentam a estabilidade primária, a área de contato osso-implante e melhora a distribuição de estresse junto ao osso beneficiando o processo de osseointegração. Dependendo da situação clínica, implantes rosqueados cônicos, implantes com paço de rosca reduzido, roscas mais profundas e largas, roscas do tipo quadrada poderiam ser uma alternativa em situações onde seja necessário uma estabilização inicial maior do implante no tecido ósseo durante o procedimento cirúrgico. 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1 1. ABUHUSSEIN, H.; PAGNI, G.; REBAUDI, A.; WANG, H.-L. The effect of thread pattern upon implant osseointegration. Clinical Oral Implants Research, v. 21, n. 2, p. 129-136, fev 2010. 2. BOLIND, P. K.; JOHANSSON, C. B.; BECKER, W. et al. A descriptive study on retrieved non-threaded and threaded implant designs. Clinical Oral Implants Research, v. 16, n. 4, p. 447-455, ago 2005. 3. CHONG, L.; KHOCHT, A.; SUZUKI, J. B.; GAUGHAN, J. Effect of implant design on initial stability of tapered implants. The Journal of Oral Implantology, v. 35, n. 3, p. 130-135, 2009. 4. CHUN, H.-J.; CHEONG, S.-Y.; HAN, J.-H. et al. 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