DISCURSO do PRESIDENTE do CONSELHO DISTRITAL de COIMBRA da ORDEM dos ADVOGADOS, Dr. MÁRIO DIOGO, na SESSÃO SOLENE de ENTREGA DE MEDALHAS AOS COLEGAS QUE COMPLETARAM, EM 2013, 35 ANOS de INSCRIÇÃO na ORDEM dos ADVOGADOS e CERIMÓNIA de ENTREGA de CÉDULAS PROFISSIONAIS AOS JOVENS ADVOGADOS Exmo Senhor BASTONÁRIO da ORDEM dos ADVOGADOS, Dr. ANTÓNIO MARINHO e PINTO, Exmo Senhor PRESIDENTE DO CONSELHO DE DEONTOLOGIA DE COIMBRA, Dr. JACOB SIMÕES, Exmo. Senhor PRESIDENTE do TRIBUNAL da RELAÇÃO de COIMBRA, Senhor Juiz Desembargador Dr. ANTÓNIO ISAÍAS PÁDUA, Exmo. Senhor PROCURADOR GERAL DISTRITAL de COIMBRA, Senhor Procurador Geral Adjunto Dr. EUCLIDES DÂMASO, Exma. SENHORA PROCURADORA GERAL DISTRITAL do PORTO, Senhora Procuradora Geral Adjunta Drª RAQUEL DESTERRO, Exmo. Senhor PRESIDENTE do CONSELHO SUPERIOR da ORDEM dos ADVOGADOS, Dr. ALFREDO CASTANHEIRA NEVES (triénio 2002-2004), 1 Exmos. Senhores PRESIDENTES do CONSELHO DISTRITAL de COIMBRA, Dr. RODRIGO SANTIAGO (1990-1992), Dr. ANTÓNIO ARNAUT (1993-1995) e Dr. CARLOS FERRER (2009-2010), Exmos. Colegas VICE-PRESIDENTES e VOGAIS do CONSELHO DISTRITAL de COIMBRA e do CONSELHO de DEONTOLOGIA de COIMBRA, Exmos. Colegas PRESIDENTES e VOGAIS das DELEGAÇÕES da ORDEM dos ADVOGADOS, ILUSTRES COLEGAS HOJE HOMENAGEADOS, ILUSTRES COLEGAS QUE HOJE RECEBERÃO A SUA CÉDULA PROFISSONAL e SEUS ILUSTRES PATRONOS, PREZADAS e PREZADOS COLEGAS, MINHAS SENHORAS e MEUS SENHORES, A todos saúdo e agradeço por nos distinguirem e honrarem com a vossa presença, nesta cerimónia de elevadíssimo significado para nós. Saúdo e felicito, muito especial e fraternalmente, as/os 85 Colegas hoje homenageados. Saúdo e congratulo também, de forma muito especial e em igual confraternidade, as/os 13 novos Colegas que hoje receberão as suas cédulas profissionais. À guisa de introito, permitam-me que vos dê nota que o Senhor Presidente do Conselho Superior Dr. Óscar Ferreira Gomes, que contávamos ter entre nós, não pôde, por razões profissionais, 2 acompanhar-nos nesta cerimónia. Pediu-me, no entanto, que vos apresentasse as suas desculpas pela ausência, expressando efusivas felicitações a todos os homenageados e aos Colegas que hoje recebem a sua cédula profissional de Advogado. Talvez encorajado pela evocação da conversa mantida com o Senhor Presidente do Conselho Superior, que em todas as suas intervenções faz questão de nos brindar com um poema, olhando esta plateia vem-me à lembrança a voz do poeta (e que me desculpe o poeta pela truncagem): E em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, passaram ainda além da Taprobana. (…) E aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando, cantando espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar o engenho e arte. É que foi exatamente com este sentir que o Conselho Distrital de Coimbra quis promover esta cerimónia, que encerra em si uma enorme significado. Num momento de exaltação desta nobilíssima profissão, reunimos hoje aqui Colegas que se distinguiram ao longo de 35 anos de exercício da Advocacia, ao mesmo tempo que recolhemos no nosso seio jovens Colegas prontos a trilhar o percurso de excelência de quem os precedeu. 3 Na sequência do que fizemos há cerca de um ano atrás, persistimos em enaltecer os feitos desta gesta de Colegas que, numa epopeia de 35 anos, pautados por esforço, dedicação, temperança, tenacidade e sentido de justiça, honraram a sua toga, essa segunda pele que nos reveste, curtida em honestidade, probidade, rectidão, lealdade, cortesia e sinceridade. Confiaram-me os Colegas o encargo de presidir ao Conselho Distrital de Coimbra, propiciando-me o enorme gosto e a profunda emoção de, neste final de mandato, usar da palavra perante vós, perante um número invulgarmente vasto de Colegas onde reconheço muitos amigos, amigos do peito, onde inclusivamente diviso o meu Patrono, Dr. Bento Alves, eternamente credor da minha gratidão, amizade e admiração … Colegas que foram os meus referenciais quando iniciei este percurso profissional, que eram e são autênticos “faróis de guia”, que nos inspiram e orientam, tamanha a qualidade técnica e deontológica da sua prática. Cabeme assim a subida honra e a cardeal responsabilidade de “espalhar por toda a parte” um reconhecimento e um sentido agradecimento. Um reconhecimento, não apenas pela vossa carreira, mas também pelo vosso papel na construção do Estado de Direito, na afirmação dos direitos e no combate às arbitrariedades e prepotências, assim contribuindo para a humanização da vida e para a paz social. 4 Um agradecimento, o agradecimento dos Advogados do Distrito Judicial de Coimbra, pelo vosso contributo para a afirmação social da Advocacia e para o prestígio da profissão; pelo concurso para a função ético-social da Advocacia, guindando-a ao patamar que merece e lhe pertence; pela concretização da magistratura cívica que a profissão comporta. Agradecimento também pelo muito que muitos de vós deram à Ordem dos Advogados e através dela aos Colegas, desempenhando cargos dirigentes (prefiro sempre falar em encargos, mas aqui falarei em cargos !) no Conselho Superior, no Conselho Geral, no Conselho Distrital, mais recentemente no Conselho de Deontologia, e nas nossas Delegações. Generosamente, dando de si sem olhar a si ! Fazendoo sempre graciosamente e as mais das vezes anonimamente, renovando valores matriciais desta profissão. Agradecimento ainda pela formação de jovens Advogados, porfiando, enquanto patronos dos seus estagiários, na tarefa de os qualificar profissionalmente, em atmosfera de sã confraternidade, exatamente em defesa da função social do Advogado e do prestígio da Advocacia. Este agradecimento e louvor ficariam porém incompletos se o não estendermos às famílias das/dos Colegas homenageados. Ser Advogado é transportar permanentemente consigo uma mochila de preocupações. A defesa dos interesses que nos estão confiados alimentam essas preocupações, exigem aturado estudo, intenso trabalho, horas e dias a fio, sem feriados ou fins de semana, sem horários, muitas vezes sem férias, numa girândola inquieta, sinónimo de ausência e privação para os familiares mais próximos. 5 Ser Advogado é exultar com glórias efémeras, imaterializadas (um Advogado não corporiza a sua obra !), desvanescidas no seio de um qualquer e remoto processo ou dossiê, tantas vezes rapidamente suplantadas pela desdita, que exige e convoca redobrada energia. É pois alternância de alegria e desconsolo; paixão, muita paixão, e alguma frustração; tempestade e bonança, exultação e erosão. Ser Advogado é conviver com incertezas, é combater injustiças, é enveredar por uma denodada busca de justiça … uma justiça de homens, falível e algumas vezes inatingível. Ser Advogado é uma forma de ser ! A família convive com tudo isto e, por norma, tolera. A importância da retaguarda familiar, do apoio, da partilha, da compreensão dos entes queridos é nuclear. Sabendo, por experiência própria, como os nossos entes queridos são afetados pelas idiossincrasias desta profissão, quero, pois, deixar uma palavra de homenagem e aplauso aos familiares das e dos Colegas que hoje aqui agraciamos. Ao mesmo tempo que distinguimos estes ilustres Colegas, quisemos restaurar um momento ímpar, absolutamente marcante na carreira de um Advogado: o momento em que recebe a sua cédula profissional. Havia-se perdido em Coimbra esta tradição, argumentando-se que os jovens Advogados não comparecem à cerimónia ou, que, ávidos que estão de receber a sua cédula, se impacientam ante a delonga imanente à organização de uma cerimónia pública de entrega de cédulas profissionais e à logística necessária à sua 6 emissão. Não comungamos, antes contrariamos, este entendimento! A entrega de cédulas profissionais deve decorrer em cerimónia solene, que encerre o juramento público regulamentarmente previsto. Para o jovem Advogado trata-se de um marco iniciático e, portanto, de selar um compromisso com a sua Ordem e através dela com os seus concidadãos. Este ato assinala o momento em que se transmite à sociedade que os novos Advogados estão preparados para defender o património, a honra, os direitos (reparese, noutros países até a vida) dos seus concidadãos. É pois de uma importância capital. Trata-se de transmitir à sociedade que a Ordem dos Advogados, a quem o Estado outorgou competência para regular o acesso à profissão, garante que estes Colegas estão aptos, não apenas técnico-juridicamente, mas também deontologicamente, para desempenhar o múnus atribuído ao Advogado. Trata-se, pois, de proclamar a confiança que merecem estes Colegas, para exercerem a mais bela, nobre e exigente das profissões. Naturalmente que este ato encerra uma enorme responsabilidade: para a Ordem dos Advogados e para os Colegas que abraçam esta profissão. O fluir do tempo legou-nos um momento em que nos confrontamos com um cenário de crise: crise económica, crise de cidadania, crise de valores, crise da justiça. 7 A vós, minhas caras e caros Colegas que hoje receberão a vossa cédula, lanço-vos um repto: repudiemos uma crise na profissão. Para tanto, necessitamos de dádiva, militância cívica, abnegação, imaculada idoneidade, competência, espírito de missão, tudo atributos que constam da matriz identitária do ADVOGADO, valores que a Ordem dos Advogados reconheceu em vós. Não vos deixeis abater pela adversidade dos primeiros tempos, pelo discurso e psicologia de crise que nos assola. Importa estar consciente das adversidades, importa denunciar as tropelias provocadas por quem, de forma irresponsável ou egoísta, procura comprometer a liberdade e independência dos advogados, o segredo profissional, o patrocínio judiciário obrigatório, os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos. Mas importa, com igual ênfase, emprestar a nossa voz quando se trate de defender a independência dos Tribunais e dos Juízes - veja-se a inqualificável e despudorada cruzada interna, e agora externa, contra o Tribunal Constitucional, a que não podemos assistir impávida e serenamente, por conter um gérmen muito perigoso capaz de corroer o princípio da separação de poderes e com ele dos alicerces da democracia- e a autonomia do Ministério Público, evitando que se sacudam perigosamente pilares estruturais do Estado de Direito. Importa estar atento, e verberar as soluções que afastam os cidadãos dos Tribunais. À guisa de exemplo, porque poderíamos perorar durante muito tempo sobre este tema, o regime de organização e funcionamento dos tribunais judiciais (o novo mapa 8 judiciário, como sói dizer-se), a atentar contra a justiça de proximidade (e aqui seja-me permitido aludir ainda que brevemente ao non sense que é esvaziar o Distrito Judicial de Coimbra, amputando-o do distrito civil de Aveiro que passa a integrar-se no Distrito Judicial do Porto); o descomunal incremento das custas judiciais, a inviabilizar o recurso aos Tribunais; a desjudicialização – a que prefiro chamar desjurisdicização- de que são exemplo as unidades de mediação e os Julgados de Paz, onde se generaliza uma subcultura que vê no Advogado alguém descartável, um estorvo para a resolução de litígios; o Balcão Nacional do Arrendamento; o regime do Inventário; os produtos na hora- a que o saudoso Daniel Andrade chamou “genéricos jurídicos”-, anunciando-se já um certo PEPEX. Verberar, não porque se trate de defender privilégios corporativos, mas porque está em causa o acesso dos cidadãos e das empresas ao direito e à justiça, porque está em causa, afinal, a defesa do Estado de Direito democrático. Caras/os Colegas, tendes em vós, não apenas o combustível, o elixir da juventude, como também a independência e, certamente, a coragem necessária ao exercício desta profissão de homens e mulheres livres. Há pois que porfiar, que desenvolver competências, que abraçar novas áreas do direito, que acreditar ! A terminar, permitam-me, minhas/meus jovens Colegas, deixar-vos um pedido e uma exortação: - o pedido vai no sentido de jamais vos deixardes agrilhoar ou funcionalizar, seja porque amo for, amo em pessoa ou em forma de pecunia. Independentemente da forma que escolham para o 9 exercício da advocacia, exerçam-na sem amos, sem grilhetas, em total independência. - a exortação, no sentido do estrénuo cumprimento das normas deontológicas e de uma incessante busca de qualificação profissional. Sem referenciais éticos, sem deontologia, vulgarizamo-nos, abastardarmo-nos, indignificamo-nos, indignificando, do mesmo passo, toda uma classe. Sem velarmos por essa tarefa permanentemente inacabada que é a formação, perdemos o traço que verdadeiramente nos distingue na prestação de serviços jurídicos. Num momento em que outros profissionais com formação jurídica concorrem com o Advogado, num momento em que se repetem os ataques, de facto e de direito, à lei dos atos próprios de advogado e solicitador, estou em crer que será pela aposta na qualificação profissional que se introduz um factor de diferenciação positivo na prestação de serviços jurídicos. O Advogado é imprescindível à administração da justiça, o Advogado incomoda ao defender direitos, as tensões surgem, muito naturalmente, na dinâmica de contrários em que se desenvolve a nossa atividade. Não confundamos, porém, nunca o decisor e a decisão. Expressando as maiores venturas aos Colegas ora homenageados e aos jovens Colegas que ora acolhemos, 10 cantando espalharei por toda a parte: onde quer que exista um Advogado estará sempre um sentinela das liberdades ! Contamos convosco, com todos, jovens ou não, pois «cabe-nos a todos zelar para que a nossa sociedade se mantenha uma sociedade da qual nos orgulhemos» Muito obrigado. Coimbra, 8 de Novembro de 2013 11