UNESP UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Campus de Rosana – SP RAFAELA ROGATO RONDON SILVA ROSANA – SÃO PAULO 2013 RAFAELA ROGATO RONDON SILVA ESTUDO A PARTIR DA VILA E ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE MAIRINQUE (SÃO PAULO/SP) Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp/Rosana ao Curso de Turismo, como requisito parcial para obtenção de título de Bacharel em turismo. Orientador: EDUARDO ROMERO DE OLIVEIRA ROSANA – SÃO PAULO 2013 RAFAELA ROGATO RONDON SILVA ESTUDO A PARTIR DA VILA E ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE MAIRINQUE (SÃO PAULO/SP) Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Unesp/Rosana ao Curso de Turismo, como requisito parcial para obtenção de título de Bacharel em turismo. Orientador: EDUARDO ROMERO DE OLIVEIRA Data de aprovação: ___/___/______ MEMBROS COMPONETES DA BANCA EXAMINADORA Presidente e Orientador: Dr. Eduardo Romero de Oliveira Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP Membro Titular: Dr. Juan Manuel Cano Sanchiz Universidad de Córdoba (Espanha) Membro Titular: Dr. Renata Maria Ribeiro Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP Local: Universidade Estadual Paulista UNESP – Campus Experimental de Rosana Dedico esse trabalho a alguns familiares e amigos AGRADECIMENTOS Primeiro e logicamente, gostaria de agradecer aos meus pais. Como não?! Eles me ajudaram financeiramente em todos os meus sonhos e ousadias, além de aguentar cada surto psicótico meu em cada prazo final de entrega de relatórios, artigos, etc. Ao meu irmão Rafael que sempre se preocupou muito comigo e me ajudou sempre que ele pode. Além do resto da minha família, que é muito grande e roubaria muitas linhas desse agradecimento rsrs, mas que estiveram presentes nesses quatro anos, se preocupando com os meus estudos e com quando eu voltaria para a casa. Hoje, nos damos melhor e creio que é graça à distância e o amadurecimento proporcionado pela faculdade. Aliás, distância do mundo inteiro eu diria, e isso é uma bela falha hahahahaha. Nesse mundo paralelo e intrigante conheci pessoa de vários cantos e aprendi a respeitar diferenças. Rosana sempre será lembrada e amada pelo mais belo pôr-do-sol que eu já vi, pelas maravilhas e natureza mais cercanas que já conheci e tive acesso com tanta facilidade. Ficará o cheiro de mato sendo cortado, as caminhadas de bicicleta pelas ruas desertas e o hálito quente das tardes Primaverenses. Como diria Cecília Meireles “aprendi com as Primaveras a me deixar cortar para poder voltar sempre inteira”. Primavera sempre foi meu ponto de fuga e, digo agora, que me sinto um pouco perdida sem ela. Sem minha casa, meu quarto quente e cheio de lembranças, meu porto seguro, minha família, minha alcooíris. Como diria nossa saudosa Taciane Lilian “família é quem você escolhe pra viver, família é quem você escolhe pra você” e eu, meio que sem jeito, sem querer, escolhi vocês. Não tem como não associar essa família com vários acontecimentos importantes desses longos quatro anos. E lá vamos nós! Tabatinha, a matriarca, a melhor veterana que tive o prazer de conhecer. Em um lugar que morremos de medo dos veteranos, conheci você como uma amiga, como uma pac pac companheira do quarto ao lado. Sinto sua falta, de acordar, passar pela frente do seu quarto e dar bom dia e de você ser a única com coragem para matar as baratas de casa, ainda mais agora nessa nova casa hahahaha. Rebeca, sua pestinha, a pessoa que menos parava em casa, mas que sempre esteve lá para nos ajudar, que nunca negou nada e pra quem morrerei devendo litros de Vodka, energético e cerveja hahahaha. Raiane Priscila, Nane, Nanuxa, Hermana, são tantas denominações, porque são muitos anos de convivência eu diria! A mesma sala, a mesma casa, o mesmo circulo de amigos, o mesmo curso de inglês, as mesmas festas, foram tantas coisas e lugares juntas que eu não sei como nunca tivemos uma briga feia hahahaha senti sua falta nas férias, no intercâmbio, quando você foi embora de Prima e eu fiquei, mas é uma saudade gostosa, de alguém que se tornou muito especial depois daquele primeiro dia de “Oi, eu sou a Nane e vou morar com você” lá em 2010. Saiba que mesmo que a distância aumente, sempre poderá contar comigo para o que você precisar hermana. Taciiii que tem a honra de ser citada duas vezes nesses agradecimentos hahahahaha. Você ficou pouco tempo, mas todas as lembranças que tenho de você são as melhores, como dos seus cafés da tarde, com pão e café fresquinhos, da sua família que me recebeu tão bem em Caçapava, das festas e até de te ver caindo em uma delas, além da sua calma e músicas inspiradoras, minha primeira companheira de cubículo. Hashi, Bixi, você chegou quietinha, com um estilo alternativo, que logo de cara soube que você ficaria na casa. Não sei como aconteceu, mas com o tempo você foi se soltado e se tornando uma menina maravilhosa e gosto de pensar que quando eu e a Nane sairmos você dará continuidade a nossa República, a nossa família e é até estranho pensar que a nossa bixete efetiva e querida cresceu e agora é a veterana mor da casa. Sinto-me uma mãe coruja deixando a casa para as crias hahahaha. E, por fim, mas não menos importante... Milena Gary hahahaha você foi a chave de ouro que chegou para fechar esse meu ciclo na Alcooíris. Tão nova, com a mesma idade de quando eu cheguei, mas com uma experiência e perspectiva de vida que demorei para adquirir. Você é muito carinhosa e afetiva e mesmo com tudo que Rosana possa te ensinar e te demonstrar ao contrário, nunca perca isso que é próprio de você e é tão bonito. Da nossa amada e odiosa IX turma, não guardo nenhum ressentimento sobre nada e, talvez, isso se deve as poucas viagem que fiz com a turma hahahahaha. São pessoas com alto potencial, das quais guardarei as melhorei e respeitarei as outras. Sentir-me-ia maravilhada se a vida me proporcionasse um reencontro com qualquer um de vocês que também cresceram e aprenderam muito nesses anos. Das pessoas que mais sentirei saudades, tanto da turma, quanto do Campus, certamente, estarão: Palmeirão (morcega que me diverte sempre e que gostaria de ter conhecido melhor antes), o meu grupo de piuí, as Marias Fumaças mais lindas que já conheci e com as quais dividi muitas tarefas e aprendizados, Maíra, Sheyla e Priscila (não esquecendo do irmão mais velho dos trenzinhos Caxumba e das mais novas Ana, Nath, Savaninha e Dora); Lorena (companheira de volta do intercâmbio), Marina (companheira maravilhosa que tive nos primeiros anos confusos dessa faculdade), Sombra (que me ensinou a ter paciência e uma visão mais ampla do mundo que conhecemos) e outras que só tive o prazer de conhecer melhor mais tarde, como a Roberta (com quem dividi experiências maravilhosas e até um pouco sofridas na Europa, pois só nós sabemos o que foi passar fome, frio e dificuldades linguísticas para conseguir realizar nosso sonho de turismo de fast food). Não esquecendo dos amigos Paulistanos que ficaram em SP, mas fizeram questão de permanecer na minha vida nesses quatro anos de distância e os quais me fazem acreditar que amizades duradouras realmente existem. Anna, Cibele, Victor, Bianca e alguns outros, acreditem que cada mensagem de “Saudades” foi verdadeira e que, realmente, foi bom crescer com vocês por perto. Por fim, gostaria de agradecer ao meu orientador, Professor Eduardo Romero de Oliveira, que com paciência e grande experiência me fez reconhecer erros para poder consertá-los, além de apresentar esse tema, que faria eu me apaixonar pela cultura, história e arquitetura. Uma paixão que até então eu não sabia denominar. Além de me apresentar pessoas realmente grandiosas e que, até mesmo, me ajudaram durante os seis meses na Espanha, como o professor Julián, que assessorou as aulas de arquitectura, onde tive o prazer de me “intrometer”, e as quais fizeram eu me apaixonar ainda mais pela imaterialidade e a importância que damos a certas estruturas materiais. Ainda sim, me sobram nomes da cabeça que acredito serem importantes o suficiente para citar nessas páginas sentimentais, mas que não são classificados em grupos. São pessoas avulsas, cujas quais acredito que não citarão ou citaram meu nome nos seus agradecimentos, pois muitas vezes damos mais importâncias as pessoas que se estabeleceram nas nossas vidas e não aquelas que tiveram uma passagem rápida marcante. Dessas, me recordarei por muito tempo do Bader, Big Mac, Vitiligo, Bozo, Remédio, Galega, Tony, Laura e Lucas (que chegou por último, mas se tornou importante de uma forma que eu não imaginaria que pudesse acontecer). Além dos que echo de menos de nuestra maravilhosa Sevilla: Mayti, Tâmara, Odelmo, Lucas, Léo, Thomas e Eleonora. Para finalizar, só posso dizer que valeu a pena, valeu muito a pena. Que errei muito, mas aprendi o suficiente para seguir em frente com o que de melhor essa faculdade e alguns professores me proporcionaram e com o sentimento de que esse curso precisa crescer e melhorar de forma efetiva. Não poríamos a mão no fogo pelas nossas opiniões: não temos assim tanta certeza delas. Mas talvez nos deixemos queimar para podermos ter e mudar as nossas opiniões. Friedrich Wilhelm Nietzsche Resumo: O presente trabalho tem o intuito de estudar a estação da antiga vila ferroviária de Mairinque construída em 1906 junto às oficinas de manutenção da Companhia União Sorocabana e Ituana. A partir do reconhecimento da importância histórica e arquitetônica da estação e sua proteção legal concretizada por dois órgãos de proteção (CONDEPHAAT e IPHAN), buscamos expor novas possibilidades de uso para um objeto que, durante muito tempo, ficou negligenciado aos objetivos turísticos e culturais. O que propomos é analisar a história do bem, sua inserção/integração no complexo ferroviário e o seu estado de conservação e proteção (tanto para a estação, bem como, para as edificações do entorno). Para isso, a metodologia de trabalho escolhida inclui o inventário do patrimônio edificado, a pesquisa documental e bibliográfica e entrevistas com o setor social vinculado ou interessado pelo legado histórico e arquitetônico do antigo povoado ferroviário. Assim, defendemos que a aproximação ao nosso objeto de estudo, desde a perspectiva do uso turístico pode contribuir para: afirmar seu valor como referência à memória ferroviária e identidade regional; otimizar a reutilização do conjunto patrimonial e auxiliar na sua difusão como um novo tipo de bem cultural, denominado patrimônio industrial ferroviário. Palavras-chave: Patrimônio Industrial. Ferrovia. Mairinque. Memória. Arquitetura Industrial. Resumen: El presente trabajo tiene el objetivo de estudiar la estación del antiguo poblado ferroviario de Mairinque, construida en 1906 junto de las oficinas de mantenimiento de la Companhia União Sorocabana e Ituana. A partir del reconocimiento de la importancia histórica y arquitectónica de la estación, y teniendo en cuenta la protección legal de la que hoy disfruta (CONDEPHAAT y IPHAN), buscamos exponer nuevas posibilidades de uso para un edificio que, durante mucho tiempo, ha sido ajeno a cualquier iniciativa de rentabilización turística o cultural. Lo que proponemos es analizar la historia del bien, su inserción/integración en el complejo ferroviario y su estado de conservación y protección (tanto de la estación como también de las edificaciones de su entorno). Para ello, la metodología de trabajo escogida incluye el inventario del patrimonio construido, el rastreo documental y bibliográfico y entrevistas con el sector social vinculado o interesado por el legado histórico y arquitectónico del antiguo poblado ferroviario. En suma, defendemos que la aproximación a nuestro objeto de estudio desde la perspectiva del uso turístico puede contribuir a: afirmar su valor como documento para la memoria del ferrocarril y en la construcción de la identidad regional; apoyar y mejorar las propuestas de reutilización del conjunto patrimonial; y potenciar su difusión como nueva forma de bien cultural: el patrimonio industrial ferroviario. Palabras-clave: Patrimonio Industrial. Ferrocarril. Mairinque. Memoria, Arquitectura Industrial. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Foto 01 - Oficina de manutenção da América Latina Logística ..................................78 Foto 02 - Antiga foto do conjunto residencial de Mairinque [19--] ............................79 Foto 03.-.Casas de alvenaria, sendo a primeira (de cor branca) pertencente à Dona Dirce .............................................................................................................................80 Foto 04 - Casas sendo restauradas ...............................................................................80 Foto 05 - Elementos construtivos de uma das casas de Mairinque .............................81 Foto 06 - Casa de madeira ...........................................................................................82 Foto 07 - Centro Municipal Educacional e Cultural SRM (CEMEC).........................83 Foto 08 - Casarão antigo no Horto Florestal ...............................................................84 Foto 09 - Locomotiva a vapor no centro da cidade .....................................................85 Foto 10 - Infiltrações na parte externa da estação .......................................................86 Foto 11 - Escada que permite o acesso a estação e ao museu .....................................86 Foto 12 - Antigo maquinário na parte externa do museu ............................................87 Foto 13 - Fissura em uma das paredes externas da estação .........................................87 Foto 14 - Estação de Mairinque...................................................................................88 Foto 15 - Parte do acervo do museu ferroviário de Mairinque....................................89 Foto 16 - Casas do primeiro quarteirão sendo restauradas ..........................................90 Foto 17 - Locomotivas estacionadas no interior da estação de Mairinque..................91 Foto 18 - Parede descascada no interior de uma das casas de alvenaria ...................126 Foto 19 - Quintal coletivo ocupado por outras residências .......................................126 Foto 20 - Infiltrações na parte interna da estação ferroviária de Mairinque..............127 Foto 21 - Oficinas utilizadas pela ALL .....................................................................127 Foto.22.-.Mural de fotos que fazem parte do acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque ...........................................................................................128 Foto 23 - Escritório da ALL (antigo símbolo da EFS coberto por tinta branca) .......128 Foto.24 -.Fotos da comemoração do Dia do Ferroviário realizado na Estação (parte do acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque) ....................................129 Foto 25 - Vista exterior do pavimento superior da estação .......................................129 Foto 26 - Vista lateral da estação ..............................................................................130 Foto 27 - Placa informativa na estação ......................................................................130 Foto 28 - Câmara Municipal de Mairinque (antigo hotel) ........................................131 Foto 29 - Interior do antigo Casarão no Horto Florestal ...........................................132 Foto 30 - Jardim em frente ao antigo Casarão ...........................................................132 Foto 31 - Placa com o nome da rua que fica em frente à estação, fazendo referência ao fundador da EFS ....................................................................................................133 Foto 32 - Casas na Rua Luiz Matheus Maylaski .......................................................133 Foto 33 - Parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque ...........134 Foto.34.-.Parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque (mural contando a história de Victor Dubugras) ...................................................................134 Foto 35 - Parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque ...........135 Foto 36 - Parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque ...........135 Foto 37 - Placa informativa .......................................................................................136 LISTA DE DOCUMENTOS CONSULTADOS Documento 01 - Lei 2365/2001 que autoriza a Prefeitura Municipal de Mairinque a adquirir a Estação Ferroviária ......................................................................................136 Documento 02 - Ofício de tombamento provisório da Estação de Mairinque pelo IPHAN em 2002 ............................................................................................................137 Documento 03 - Solicitação da Prefeitura Municipal de Mairinque, encaminhado ao CONDEPHAAT, referente às obras de restauro na Estação .........................................139 Documento 04 - Resposta satisfatória do CONDEPHAAT sobre as obras, direcionada a Prefeitura Municipal de Mairinque ...............................................................................140 LISTA DE DOCUMENTOS CARTOGRÁFICOS CONSULTADOS Figura 01 – Antigas linhas ferroviárias do Estado de São Paulo ...................................14 Figura 02 – Mapa de localização e limites geográficos de Mairinque, 2013 .................58 Figura 03 – Área do entorno da estação em 2001 ..........................................................76 Figura 04 – Território inicial de Mairinque ..................................................................141 Figura 05 – Planta da década de 20 do território de Mairinque ...................................141 Figura 06 – Disposição de bens imóveis da Sorocabana em 1935 ...............................142 Figura.07 – Planta descrevendo a venda do hotel para a Prefeitura Municipal de Mairinque em 1970 ........................................................................................................142 Figura.08 – Planta mostrando a disposição das moradias para os funcionários da ferrovia...........................................................................................................................143 Figura 09 – Planta organizada do território de Mairinque na década de 1920 .............143 Figura 10 – Planta da estação enquanto estava sob a administração da FEPASA .......144 Figura 11 – Usos dados pela FEPASA a outros bens da antiga Sorocabana ...............144 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ALL - América Latina Logística S/A AMPF - Associação Mairinquense de Preservação Ferroviária CEMEC - Centro Municipal, Educacional e Cultural CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental COBRATUR - Comissão Brasileira de Turismo CONDEPHAAT - Conselho de Defesa do Patrimônio Arqueológico, Artístico e Turístico. EFS - Estrada de Ferro Sorocabana EMBRATUR - Instituto Brasileiro de Turismo FEPASA - Ferrovia Paulista S/A ICCROM - International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property ICOMOS - International Council on Monuments and Sites IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional RFFSA - Rede Ferroviária Federal S/A SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SPR - São Paulo Railway SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional STCR - Serviço Técnico de Conservação e Restauro TICCIH - The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UPPH - Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico SUMÁRIO Introdução ....................................................................................................................... 14 Objetivos..................................................................................................................... 18 Metodologia ................................................................................................................ 19 I – Patrimônio, Preservação e Turismo. ......................................................................... 22 1.1 – Patrimônio e Preservação .................................................................................. 22 1.1.1 Patrimônio, memoria e identidade ................................................................. 22 1.1.2 Preservação do patrimônio edificado e seu entorno ...................................... 26 1.1.3 Preservação do patrimônio móvel ................................................................. 29 1.1.4 Patrimônio Industrial e Ferroviário ............................................................... 34 1.2 – Turismo cultural e o patrimônio industrial ........................................................ 41 1.2.1 Programas de visitação em patrimônios industriais ...................................... 41 1.2.2 Turismo cultural em sítios históricos ............................................................ 43 1.2.3 Turismo em Patrimônios Industriais e Turismo em Patrimônios Ferroviários ................................................................................................................................ 51 II – História e Preservação das Estruturas Ferroviárias em Mairinque .......................... 58 2.1 Descritivo sobre a história e situação atual da antiga vila ferroviária de Mairinque .................................................................................................................................... 58 2.1.1 Tombamento da estação e medidas de preservação em Mairinque ............... 65 2.2. Descritivo do processo de tombamento da Estação Ferroviária da cidade de Mairinque – Processo N° 24383/86 ............................................................................ 68 2.2.1 Guichês abertos após o tombamento da estação de Mairinque ..................... 77 2.3 Descritivo do inventário dos bens industriais da Companhia Ferroviária Estrada de Ferro Sorocabana na cidade de Mairinque ............................................................ 78 2.4 Documentos Cartográficos da formação e localização da Vila e Estação Ferroviária de Mairinque. ........................................................................................... 92 2.5 Entrevistas ............................................................................................................ 93 2.5.1Ciro Gomes – Presidente da Associação Mairinquense de Preservação Ferroviária .............................................................................................................. 93 2.5.2 João Roberto Pinto Figueiredo – Membro da Comissão de Tombamento do prédio da Estação Ferroviária da FEPASA em Mairinque. .................................... 95 III Preservação, Projetos e Usos do Conjunto Ferroviário ............................................. 98 Proteções legais existentes para as edificações e conjunto ferroviário .................. 99 Estado atual de conservação da estação e do conjunto ferroviário....................... 101 Projetos e atividades nos patrimônios ferroviários existentes e agentes promotores .............................................................................................................................. 105 Usos turísticos da estação e do conjunto ferroviário de Mairinque. ..................... 108 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 112 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................... 116 APÊNDICE .................................................................................................................. 124 Apêndice A - Roteiro de Entrevista - Ciro Gomes ................................................... 124 Apêndice B - Roteiro de entrevista - João Roberto Pinto Figueiredo ...................... 125 Apêndice C - Fotos gerais dos elementos ferroviários existentes em Mairinque ..... 126 ANEXOS ...................................................................................................................... 136 Anexo A - Documentos consultados ........................................................................ 136 Anexo B - Documentos Cartográficos Consultados ................................................. 141 Anexo C – Termo de Cessão de Depoimento Oral .................................................. 145 Anexo D – Fichas de Inventario do Patrimônio e Conjunto Industrial .................... 147 14 Introdução As ferrovias surgiram na Era Industrial como o principal meio de transporte, além de representarem uma grande experiência arquitetônica (KÜLH, 1998). No Brasil e, em São Paulo particularmente, sua importância esteve diretamente ligada ao transporte de carga agrícola (exportação de café) e de passageiros. Empresas ferroviárias paulistas, como a São Paulo Railway, que fez a conexão da capital São Paulo até o porto da cidade de Santos, foram responsáveis pelo único escoamento da produção regional durante quase um século (1867 a 1938). Outras, como a Estrada de Ferro Sorocabana, tinham linhas que adentravam no interior do estado (vide figura 01) por mais de 905 km, em 1899. A Estrada de Ferro Sorocabana chegou a ter 2.755 km em 1940 (SAO PAULO, 1899; ESTRADA..., 1942) e em 1938 quebrou o monopólio da inglesa SPR quando construiu um trecho ligando Mairinque até Santos (SANTOS, 2005). Com a decadência da ferrovia, grande parte do material ferroviário e suas estações ficaram abandonadas. Figura 01 – Antigas linhas ferroviárias do Estado de São Paulo Fonte: ABPF. Mapa das ferrovias históricas no Estado de São Paulo. 1 1 Disponível em < http://www.abpfsp.com.br/ferrovias/ferrovias19.htm> Acesso em: 31out 2013. 15 Com os atuais tombamentos de estruturas ferroviárias, podemos observar a importância que este tipo de bem passa a ter como suporte material para a afirmação de memórias. Memórias que, de acordo com Ulpiano Meneses (1993), une as pessoas em grupos que possuem semelhanças em suas lembranças, sendo fundamental na construção da identidade. Sendo que Halbwachs (1990) crê que a memória coletiva envolve as memórias individuais, que evoluem segundo suas leis e não se confundem entre si, mas são recolocadas em um conjunto chamado pelo autor de “consciência pessoal”. Em grupos sociais ferroviários, podemos considerar essa multiplicidade das memórias, pois cada indivíduo possui suas próprias lembranças das estruturas ferroviárias, sendo que essas estruturas são fundamentais para o mantenimento dessas memórias. Sobre isso, Rodrigues afirma que: Em São Paulo, cidade em que os trilhos de suas ferrovias determinaram vetores de crescimento urbano, enquanto as fábricas e habitações operárias foram fatores determinantes do desenho de bairros inteiros, as antigas estruturas relacionadas à expansão do sistema de fábricas são indispensáveis para a manutenção das características espaciais e de memórias. E isso também acontece em inúmeras cidades do interior do estado. (RODRIGUES, 2010, p. 35). Considerando essa relevância simbólica e outras características históricas ou arquitetônicas, há poucas décadas, muitos elementos materiais (estações, vilas, rotundas e materiais rodantes) transformaram-se no denominado patrimônio ferroviário, que está inserido em um contexto mais amplo denominado patrimônio industrial. Esse novo tipo de patrimônio tem sido utilizado como uma forma de preservar as memórias coletivas de cidades e povoados que surgiram para atender ao desenvolvimento da indústria e recuperar imóveis e móveis abandonados. Para Riëgel (1903), nosso interesse pelos monumentos não se limita aos “valores históricos” ou mesmo “artístico”, mas se estende ao valor de rememoração, entretanto são justamente os dois primeiros valores que determinam à proteção de um objeto ou edifício. A intenção dessa proteção é, justamente, permitir que os monumentos que marcaram cada época se perpetuem para as próximas gerações. Pardo Abad (2008) mostra-nos a evolução tardia da proteção dos bens industriais, inutilizados, após a intensa desindustrialização que ocorreu na segunda metade do século XX. Porém, atualmente, pensamos na proteção aliada a novas formas de uso do patrimônio industrial, pois esse já não serve mais para a sua função original. 16 Viñuales (2001) complementa essa perspectiva dizendo que vários elementos industriais devem ser considerados para a aplicação do turismo, como os edifícios, os jardins, a presença urbana, as fotos, mapas, cartões, plantas, entre outros. Nosso pressuposto, a partir destas afirmativas, é de que o turismo industrial pode ser uma forma de uso que atrela essas duas possibilidades (preservação das estruturas materiais e com elas, as memórias coletivas). Assim, há um conjunto de questões que se apresenta então: é possível preservar os conjuntos ferroviários, até então considerados teoricamente (estações, vilas, rotundas, etc.)? Se considerarmos a possível proteção desses bens como então reabilitá-los? Estes podem ter que tipo de valores ou de usos? Valores histórico, estético, econômicos (imobiliário) ou usos diversos (equipamento cultural, urbano ou moradia)? Como gerar a revalorização do patrimônio industrial? O turismo pode ser uma alternativa viável de preservação do patrimônio industrial? Esta série de questões poderão ser sanadas se considerarmos a importante representação histórica, social e econômica que as ferrovias tiveram no Estado de São Paulo. Segundo o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), São Paulo possui vários exemplos desse tipo de patrimônio ferroviário. A conquista da região oeste do estado era de grande importância, pois eram consideradas áreas estratégicas e promissoras na produção de café e quem chegasse primeiro teria o controle do mercado. A Estrada de Ferro Sorocabana, empresa de importância para esse estudo, sofria há alguns anos com a disputa travada com a Ituana por essas áreas, até que em 1892 esta, a beira da falência, foi fundida com a Sorocabana. Surgindo então, a Companhia União Sorocaba Ituana (SOUKEF, 2001). A linha que iria de Itu e a que iria para Santos se cruzavam na área onde foi construída a estação ferroviária de Mairinque - nosso objeto de estudo - e era denominada Entroncamento (a 70 Km da capital de São Paulo). A estação ficou pronta em 1897, junto com a linha para Itu, mas não com a que iria a Santos que só ficaria pronta anos mais tarde (GIESBRECHT, 2010). Várias oficinas da linha Sorocabana que estavam em Sorocaba foram transferidas para Mairinque e começou a construção de um horto florestal, uma oficina de manutenção de locomotivas, um depósito de materiais rodantes, um pátio para manobra e começou a se formar um povoamento em volta da estação. Primeiramente, com a construção das casas para os funcionários da ferrovia e em seguida para a futura população (foi feita uma planta da área com a divisão certa de hectares para cada estabelecimento) e o município ganhou o nome da estação (SOUKEF, 2001). A Estação de Mairinque é de grande importância para o patrimônio histórico, 17 pois é considerada a primeira construção do modernismo arquitetônico do Estado de São Paulo. Projetada por Victor Dubugras, em 1906, a arquitetura da estação é considerada ousada e inovadora para época, sendo a primeira construída em concreto armado no Estado de São Paulo, pois devido a sua localização ser em um aterro de forte declive deveria ter uma estrutura forte. E sendo a primeira a usar materiais reaproveitáveis, assunto definitivamente de pouca discussão na época, sendo que os ferros para suportar o concreto eram os próprios trilhos dos trens que já não serviriam mais para o projeto original (CONDEPHAAT, 2010). Além disso, a estação é denominada “estação ilha”, pois fica isolada entre dois trilhos e seu acesso só é possível por meio de túneis feitos por baixo desses trilhos, o que possibilitava a ligação dos dois lados do município separados pelas linhas ferroviárias, configuração pouco encontrada nas estações do Estado (CORRÊA; PISANI, 2009). Perante a evidente ameaça de alterações da estrutura original do prédio pela FEPASA, em 1984, a Câmara Municipal de Mairinque encaminhou um processo para o CONDEPHAAT pedindo que o prédio da estação ferroviária fosse tombado. Os pontos principais alegados foram o pioneirismo da estação e o fato de ser um belo exemplar de art-nouveau do renomado arquiteto Victor Dubugras. O CONDEPHAAT aprovou o pedido em 1986 (CONDEPHAAT, 2010). Desde 1999, pelas linhas de Mairinque não trafegam mais trens de passageiros. Os trilhos ainda funcionam para o transporte de carga e estão sob os cuidados da América Latina Logística do Brasil (ALL)2. A estação esteve fechada por anos, até que em 2004 finalmente foi adquirida pela prefeitura municipal, que a reformou e transformou no Centro da Memória Ferroviária de Mairinque (GIESBRECHT, 2010). Sendo assim, esta pesquisa traz à tona a discussão sobre o potencial turístico da estação - e outros elementos ferroviários referentes ao mesmo período histórico -, colocando em questão a sua importância como patrimônio cultural da cidade, patrimônio ferroviário, fonte de referencia e precursor arquitetônico. Dessa maneira, de que forma o turismo poderia proporcionar mudanças no uso dos elementos industriais ferroviários da cidade de Mairinque? 2 A ALL é uma empresa independente de serviços de logística da América do Sul e que opera, de forma integrada, nos modais ferroviária e rodoviária para diversos clientes em países como Brasil e Argentina, apenas para o transporte de carga, conforme descrito no site oficial da empresa (ALL, 2012). 18 Objetivos Analisar o conjunto ferroviário de Mairinque do ponto de vista da proteção do patrimônio industrial e sua possível reutilização turística. Considerando não apenas a importância arquitetônica da Estação, como também a história ferroviária relacionada com o desenvolvimento da Vila. Como objetivos específicos de nosso trabalho, consideramos que se trate de: Avaliar as proteções legais existentes para as edificações e/ou o conjunto ferroviário (CONDEPHAAT e IPHAN); Averiguar o estado atual de conservação da estação e do conjunto ferroviário; Diagnosticar, de maneira geral, os projetos (ou simplesmente atividades) do patrimônio ferroviário existente (como o Centro da Memória Ferroviária) e agentes promotores. Caracterizar os usos turísticos da estação e/ou do conjunto ferroviário de Mairinque. Esta pesquisa se justifica por alguns motivos. Dentre eles, consideramos que no Brasil a ideia de patrimônio se tornou importante no século XX, ou seja, ainda é um assunto relativamente novo no nosso país. E no caso do patrimônio ferroviário, a discussão é ainda mais recente, porém isso não diminui a sua importância na formação e progresso de cidades por onde passava a linha férrea. Esse é o caso de Mairinque e de sua Estação (considerada a primeira do modernismo arquitetônico em São Paulo) que teve sua origem, exclusivamente, atrelada aos interesses da EFS e que durante muitos anos ditou a rotina da sua população. Estes foram fatores que auxiliaram na justificativa do seu tombamento, mas não do seu estado de abandono e degradação. Esse trabalho tem a intenção de mostrar a importância de preservação da estação e do seu entorno, não apenas guardando os seus bens e arquitetura, mas auxiliando na difusão, a partir do turismo, da importância desse bem material para a história regional. Além de considerar a sua manutenção financeira (seja para conservação do prédio ou para as atividades nele realizadas). Assim, o presente estudo pretende expor à importância histórica (a evolução ferroviária brasileira) e arquitetônica da estação de Mairinque, bem como, considerar a possibilidade da reutilização que garanta sua conservação, conforme as diretrizes indicadas, por exemplo, na Carta de Nizhny Tagil (2003) que expõe que, uma nova 19 utilização do patrimônio industrial é aceita, mas com certas restrições. E conforme o afirmado por Pardo Abad (2008) de que o aproveitamento do patrimônio como recurso para o ócio criativo unido à reutilização de vestígios materiais e técnicos da industrialização tem a possibilidade de cobrir uma demanda cultural de visitantes muito concreta, específica e cada vez maior. Logo, trata-se, principalmente, de aprofundar esses estudos sobre reutilização, considerando uma nova forma de uso, a partir do turismo no patrimônio cultural e em particular do industrial ferroviário – entendido como um tipo novo de bem cultural, que pode conter inestimáveis informações históricas, que devem ser preservadas e difundidas. Metodologia Cabem alguns comentários sobre os procedimentos metodológicos que serão adotados para a realização desta pesquisa. Esta é uma pesquisa: bibliográfica, elaborada a partir de material já publicado; documental, pois utiliza materiais que não receberam tratamento analítico e de abordagem qualitativa e exploratória, pois produz resultado que não podem ser traduzidos em números e busca criar mais familiaridade com o problema proposto. Além de utilizar o método dedutivo, pois parte de leis gerais para chegar a fenômenos particulares (BIANCHI, 2003). Do ponto de vista do referencial teórico base para a elaboração dessa pesquisa, utilizamos autores que permitiram a avaliação da estação a partir da ideia do patrimônio industrial (KÜHL, 1998), como vestígio de uma atividade industrial que é a empresa ferroviária. Atentando-se para a proteção legal como um instrumento de preservação de uma memória social (HALBWACHS, 1990), associada também aos reclames presentes (ULPIANO MENESES, 1993); isto é, problemas e usos atuais. Assim, nossa atenção toma o patrimônio industrial para avaliar também seu potencial ou usos turísticos (PARDO ABAD, 2008; CARTA DE NIZHNY TAGIL, 2003), entendido enquanto meio de preservação e difusão do bem cultural (GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI 2003; MURTA, 2001; PINHEIRO, 2004). Quanto às fontes históricas e documentais, mostramos as análises criadas a partir das consultas realizadas no Centro de Documentação do CONDEPHAAT, ao processo de tombamento da estação de Mairinque que foi fichado, com atenção para alguns tópicos: valoração do bem e justificativa para o tombamento; o estado de conservação no momento em que estava sendo efetuada a análise da estação (para comparativo com 20 o estado atual) e se foram elencadas propostas de uso. Também foram consultados os relatórios das empresas Companhia União Sorocabana e Ituana (1892-1903), Sorocabana Railway Company (1908-1919) e Estrada de Ferro Sorocabana (19191940), disponíveis no Museu da Companhia Paulista, em Jundiaí (SP), a respeito da estação e Vila de Mairinque. Para avaliar o estado atual da estação, foi produzido o instrumento de pesquisa de campo, a partir da adequação do modelo de ficha de inventário do patrimônio industrial edificado e do conjunto industrial (vide fichas de inventário em anexos). Estes modelos foram produzidos em pesquisa anterior pelo Laboratório de Patrimônio Cultural (UNESP), com ênfase na entidade do patrimônio industrial, utilizando apenas os tópicos de análise necessários à nossa pesquisa (estado, uso e proteção), mas não para realizar novo inventário, na qual, retiramos, por exemplo, os tópicos de cordenada geográfica e análise detalhada de estado de conservação (estético, físico e estrutural). Utilizamos este instrumento para analisar tanto a estação quanto o conjunto industrial ferroviário do entorno como, por exemplo, as casas que permanecem com uso residencial. Esse inventário se fez necessário, pois consideramos que o patrimônio industrial configura: [...] os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitectónico ou científico. Estes vestígios englobam edifícios e maquinaria, oficinas, fábricas, minas e locais de processamento e de refinação, entrepostos e armazéns, centros de produção, transmissão e utilização de energia, meios de transporte e todas as suas estruturas e infraestruturas, assim como os locais onde se desenvolveram actividades sociais relacionadas com a indústria, tais como habitações, locais de culto ou de educação. (CARTA DE NIZHNY TAGIL, 2003). Logo, foi preciso verificar a existência desses elementos industriais na antiga Vila de Mairinque focando, exclusivamente, nos aspectos ferroviários. Também consideramos a importância da inventariação, antes de se colocar a diante projetos de reutilização turística, princípio proposto por Pardo Abad (2008). Para a verificr a existência de projeto ou ações de uso turístico da estação de Mairinque ou do conjunto ferroviário, outros procedimentos foram utilizados, como: a constatação das visitas e eventos que ocorrem na estação (ou no Centro da Memória Ferroviária), através de contato com o responsável pelo local, no qual realizamos uma entrevista semi-estruturada, baseada nas hipóteses levantadas e vistoria do livro de assinatura dos visitantes. Essa entrevista foi elaborada como semi-estruturada, pois, de acordo com Triviños (2008, p. 146), “ao mesmo tempo que valoriza a presença do 21 investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”. Além de averiguarmos, com a visitação in locu e a entrevista, as condições de visitação à estação (exposição do acervo histórico, visita aos ambientes internos e externos da estação, utilização para atividades educativas, acessibilidade e interação com o seu entorno histórico). Esses procedimentos metodológicos fazem-se necessários, pois consideramos que os estudos sobre patrimônio industrial devem ponderar as fontes: tradicionais (como arquivos históricos, livros e revistas), as complementares (como documentos de empresas e catálogos), as iconográficas (como fotografias e plantas de projetos) e orais (como a memória coletiva e as lembranças dos trabalhadores e empresários vivos) (PARDO ABAD, 2008). Como forma de analisar os dados coletados, a partir dos instrumentos criados, consideraremos o determinado no referencial teórico sobre a definição de patrimônio e memória, focando nas boas práticas atuais de uso do patrimônio industrial ferroviário (VIÑUALES, 2001; ALLIS, 2010; AGUILAR, 2001). Além de nos basearmos na história ferroviária da Companhia Sorocabana em Mairinque e o entendimento da sua operação, considerando o trabalho e a importância da empresa para seus moradores (CONDEPHAAT, 1986; DIAS, 1994; SOUKEF, 2001). 22 I – Patrimônio, Preservação e Turismo. Partindo da ideia de Urry (1996) de que não existe uma versão de turismo verdadeiro e universal para todos, buscamos com essa discussão teórica unir os dois pontos principais desse trabalho que são: o Turismo Cultural e o Patrimônio Industrial, com foco no Ferroviário. Por isso, muito será discutido sobre as formas de usos atuais inseridos no patrimônio industrial até chegar ao turismo, como forma de uso propriamente dito. Nesse caso, serão citadas as cartas referentes à preservação do patrimônio industrial, justamente por estas definirem as formas de usos e recomendações, que se caso não forem seguidas poderão gerar perdas notáveis de conjuntos industriais. Bem como, a importância da restauração de sítios industriais para suas novas formas de uso, como o turismo, considerado um novo recurso econômico para essas áreas até então degradadas e abandonas, além de ser uma forma de manter uma memória social. 1.1 – Patrimônio e Preservação 1.1.1 Patrimônio, memória e identidade O conceito de patrimônio tem sofrido inúmeras alterações no decorrer dos anos. Segundo a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, aprovado pela UNESCO, em 1972, por patrimônio cultural entende-se “[...] os monumentos, grupos de edifícios e sítios que tenham valor histórico, estético, arqueológico, cientifico, etnológico ou antropológico”. Aliás, a UNESCO desde sua criação, em 1946 em Paris, tem trabalhado na defesa do patrimônio cultural juntamente com organizações como a ONU na promoção da educação, ciência e cultura. Para Hernández (2001), a divisão de Patrimônio Cultural da UNESCO é o organismo encarregado de velar pelos bens culturais e os museus, além de administrar as campanhas internacionais e ajudar em projetos operacionais em cooperação com o Centro de Patrimônio Mundial, o International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property (ICCROM) e o International Council on Monuments and Sites (ICOMOS). Ainda sobre patrimônio, de acordo com Bonfim (2005, p. 29), o que era considerado “[...] patrimônio ontem poderá não o ser hoje ou deixar de vir a ser amanhã, 23 tal como o que ontem não era tido nesse conceito pode hoje nele estar incluído ou vir a sê-lo no futuro”. Ou seja, devemos levar em conta a mutualidade do conceito de patrimônio, que também muda de acordo com cada autor. Por exemplo, Rodrigues (2002, p. 151) afirma que o patrimônio é “representado pelo conjunto de “[...] instituições e bens que o homem, herdado e, ou, construído, preserva ou não; mantém ou modifica, enriquece com sua contribuição; ou deprecia, quase sempre por não perceber o seu valor”. Enquanto José Meneses (2004, p.43) afirma que o patrimônio, mesmo com novos e ampliados conceitos, faz referência à tradição, pois “[...] a palavra patrimônio ainda embute o sentido de herança e legado histórico. E isso é, inegavelmente, uma marca da nossa cultura. Respeitemo-la assim”. Nesses dois casos, vemos que o primeiro autor considera que o patrimônio pode ter seu valor reconhecido ou não, dependendo da sociedade em que está inserido, enquanto o segundo afirma que temos a obrigação de respeitar, de dar valor àquilo que herdamos e que forma a nossa cultura. Sendo que Costa, baseando nas palavras de Fenelon (1992), faz referência ao que, atualmente, podemos considerar cultura: A cultura é, pois, mais que belas-artes, é memória, história, política, cozinha, vestuário, religião, folclore, etc. Onde os seres humanos criam símbolos, valores, práticas, arquitetura, em suma, onde se organizam para a vida comum, há cultura. Onde há o sentimento do tempo, do visível e do invisível, do belo e do feio, do doce e do amargo, do simples e do complexo, do popular e do erudito, da bondade e da maldade, aí há cultura. (COSTA, 2010, p. 86). E, é justamente por causa dessa amplitude da ideia de cultura, que o conceito de patrimônio se tornou tão vasto. Para Martins (2006, p. 30), podemos considerar patrimônio “o chafariz, a paisagem [...], o móvel antigo, as danças e cantos do povo, as bandas e filarmônicas, as particularidades lingüísticas, a arquitetura popular, os utensílios de trabalho [...]”. E não apenas o seu conceito mudou como também o publico ao que se dirige, pois de acordo com Hernández (2001) o patrimônio, hoje, é importante para a comunidade local, pois se torna um lugar de encontro e identidade a população; para as famílias, onde se combina lazer, ócio, cultura e educação; para alunos e professores, como formas adicionais de aprendizado; para a terceira idade, onde se recorda e revive os lugares ondem haviam vivido; para as pessoas que queiram se voluntariar a ajudar em lugares de preservação como museus; para os investigadores, onde encontram um ponto de apoio às investigações; para turistas, como um produto cultural da comunidade receptora; para os meios de comunicação, como um espaço 24 cultural informativo; para as agências de viagens, como oferta cultural; para os empresários e patrocinadores, como um meio de comunicação; e para as instituições, como cumprimento de seus deveres com a sociedade. Portanto, o patrimônio é o resultado de uma dialética entre o homem e seu meio, entre a comunidade e seu território e por tudo que nos liga ao nosso passado. Sendo utilizado pelo homem para se aprofundar em contextos sociais, históricos, econômicos etc., de determinados fenômenos que formaram o modelo estrutural de vida em cada sociedade e que, hoje em dia, faz uma referência as memórias individuais e coletivas de determinados grupos e ajuda a recompô-las. A recorrente busca que fazemos em nossa memória para lembrarmo-nos do nosso passado e de onde viemos, na realidade, configura um exercício de busca da nossa identidade. A identidade seria o sentimento de pertencimento que temos enquanto seres simbólicos. Para Martins (2006, p. 42), “esse ser de algum lugar pertence a algum grupo, sente afinidade com algo que lhe resgata algo seu, isto tudo é chamado de identidade”. Porém, deve-se levar em conta que o individuo, enquanto ser de subjetividade desenvolve outras identidades, além das configuradas pelo grupo ou comunidade, que são próprias do individuo e é denominada de história individual, que interfere e ajuda a construir a identidade grupal. Atualmente, as culturas nacionais em que vivemos são as principais fontes de identidade cultural e, para Hall, o sujeito pós-moderno não possui uma identidade fixa, pois: Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções [...]. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos [...]. (HALL, 2006, p. 13). Ou seja, a identidade tem a possibilidade de transformação, não sendo única, imutável e, exclusivamente, referente a um passado e a uma nacionalidade. Hoje, existem várias identidades dentro de uma mesma nação, unindo grupos por suas semelhanças e os diferenciado de outros. De acordo com Martins (2003), a identidade significa algo vital para que as pessoas se sintam seguras e unidas pelos laços tardios com seus antepassados. Já que, é a partir do território, costumes e hábitos trasmissores de segurança e indicadores de origens, que a pessoa tem a possibilidade de ter um referencial. Considerando que vivemos em um modelo social tão diverso devido à globalização, que nos permite ter acesso a todas as culturas do mundo em um tempo muito curto. 25 Para Hall (2006), entre as principais tendências da globalização estão: a desintegração das identidades nacionais; o reforço das identidades “locais” pela resistência a homogeneização dos hábitos; e a tomada de lugar das identidades nacionais pelas novas identidades (híbridas). O autor ainda afirma que “há juntamente com o impacto do global, um novo interesse pelo local. A globalização [...], na verdade, explora a diferenciação local” (HALL, 2006, p. 77). O contato com outras culturas e a influência de outros povos, sem dúvida, causa impacto nas identidades locais, mas, por outro lado, também reforça a noção e a importância do diferente e do único, referente a determinados lugares e a determinados modos de vida, que geram também a curiosidades de outros povos em conhecer esses elementos culturais diversos. Por isso, a importância da preservação garante a continuidade da singularidade de um determinado povo, além de configurar uma importante medida de salvaguardar a história de uma comunidade. O patrimônio material é um meio de suporte à história e à memória de grupos sociais locais funcionando, por isso, como um importante instrumento de identidade desses grupos. De acordo com Barreto (2000), muitos fatores podem prejudicar construções consideradas históricas como a especulação imobiliária e a deterioração normal, decorrente de fatores naturais. Devido a isso, em muitos países, políticas de preservação são implementadas para manter a identidade. Para a autora, essas políticas não são neutras, pois determinar o que é digno de preservação e é uma decisão políticoideológica, já que reflete valores e opiniões, onde são os símbolos que devem permanecer para retratar determinada sociedade ou determinado momento. Para Barreto: A medida legal mais concreta para proteger o patrimônio é o tombamento. O tombamento consiste num registro do bem num “livro de tombo”, em cujas páginas ficam registrados os bens considerados valiosos e sujeitos às leis de preservação do patrimônio, o que implica não poderem ser demolidos nem modificados em seu aspecto externo ou em suas características essenciais, implicando também que, num raio de 300 metros, nada pode ser modificado. (BARRETO, 2000, p. 14). Para José Meneses (2004, p. 81), o tombamento tem a função justificadora da “[...] responsabilidade do poder público em salvaguardar a memória coletiva [...] a ação de inventariar, registrar e tomar sob guarda, para conservar e proteger bens de valor público”. O autor completa dizendo que há poucos anos atrás, o ato de tombar destinava-se a bens móveis e imóveis, mas, atualmente, segue a ideia de guardar a memória coletiva e a interpretação da construção cultural. Ainda sobre isso, Benhamou (2007, p. 103), diz que “essa característica de bem coletivo justifica a intervenção do 26 Estado, que é quem garante a transmissão do patrimônio às gerações futuras por meio da ajuda que concede e do controle científico que exerce em contrapartida”. Assim, é demonstrada a intensa ligação entre o bem patrimonial e as decisões do governo. Martins (2003) aponta que no Brasil o interesse pelo patrimônio surgiu na década de 30, como decorrência da preocupação “modernista” em conhecer e mapear as manifestações culturais brasileiras, na qual surgiu o primeiro órgão federal de preservação: o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), que depois seria denominado Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Apesar da proposta de Mário de Andrade, autor do anteprojeto que fundamentou essas ações apontar para uma maior amplitude daquilo que seria considerado o legado cultural brasileiro, o decreto n° 25 de 1937 instituiu como patrimônio histórico e artístico nacional “o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”. O autor ainda afirma que, hoje em dia, a concepção de patrimônio ampliou-se e abrange também o "patrimônio imaterial”. O decreto 3.551/2000 registra os Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro em quatro livros de registro (dos saberes, das celebrações, das formas de expressão e dos lugares), devido a sua relevância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira. Este tipo de patrimônio esta, imediatamente, subordinado as instruções do IPHAN e do Ministério da Cultura (MARTINS, 2003). Portanto, o patrimônio não se limita mais a monumentos de grande beleza artística ou até mesmo, a sua guarda e “cristalização” no tempo. O patrimônio envolve laços econômicos, sociais e algumas vezes ambientais. Como veremos adiante, muitas vezes é necessário preservar além de um único imóvel de importância para obter um maior esclarecimento sobre a sua história e legado. 1.1.2 Preservação do patrimônio edificado e seu entorno O território é aquele no qual se vive e se experimenta a existência concreta do cotidiano. Para Martins (2003), na sociedade urbana são inúmeros os territórios ou espaços nos quais se integram os indivíduos, como a casa, a escola, a empresa, as ruas e os transportes. Desta forma, desenha-se uma cidade territorial. Em cada um desses ambientes se desenvolverão interações diferentes entre os indivíduos. Carvalho afirma (2002), no entanto, que com a intensa modernização capitalista as cidades se modificam de forma muito rápida, fazendo com que os cidadãos se sintam 27 prejudicados. Sobre isso Santos (1987, p. 61 apud Carvalho, 2002, p. 102) afirma que “[...] quando o homem se defronta com um espaço que não ajudou a criar, cuja a história desconhece, cuja memória lhe é estranha, esse lugar é a sede de uma vigorosa alienação”. Ou seja, os artefatos não duram mais o tempo da geração que os construíram, impossibilitando que a pessoa faça uma viagem pessoal no seu próprio lugar. Como forma de preservar não apenas um bem patrimonial, como também o seu entorno, mediadas tem sido discutidas desde a Carta de Atenas, de 1931, que “[...] recomenda respeitar, na construção dos edifícios, o caráter e a fisionomia das cidades, sobretudo na vizinhança dos monumentos antigos, cuja proximidade deve ser objeto de cuidados especiais”. Ainda sobre essa definição, no artigo 1° da Carta de Atenas é possível encontrar a noção de que monumento histórico compreende “a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico”. Nas Normas de Quito, documento aprovado em 1967, encontrava-se a ideia de que o “espaço é inseparável do conceito de monumento, motivo pelo qual a tutela do Estado pode e deve estender-se ao contexto urbano ou ambiente natural imediato”. Isto traz uma discussão mais abrangente sobre o conceito de tombamento e uma possível definição do que, posteriormente, seria denominado de patrimônio ambiental urbano. Em 1975, durante o Congresso do Patrimônio Arquitetônico Europeu, foi publicado a Declaração de Amsterdã que fazia referência ao patrimônio europeu e compreendia “não somente as construções isoladas de um valor excepcional e seu entorno, mas também os conjuntos, bairros de cidades e aldeias que apresentam um interesse histórico ou cultural”. Essa declaração ainda embute deveres de proteção do patrimônio aos poderes locais e considera que a composição social dos ambientes locais não devem ser modificadas, gerando um beneficio mútuo entre todas as camadas da sociedade pelo financiamento de fundos públicos para a preservação dessas áreas. A Declaração ainda impõe que a proteção dos conjuntos arquitetônicos deve levar em conta “todos os edifícios com valor cultural, dos mais importantes aos mais modestos, sem esquecer os da época moderna, assim como o ambiente em que se integram”. Baseado na carta de Amsterdã, Geraldes (2004, p. 07) ainda afirma que a conservação e a reabilitação dessas áreas passaram a ser consideradas “objetivos fundamentais dentro do processo de planejamento urbano”. Para Ulpiano Meneses, ainda nas décadas de 1970 e 1980, mesmo com a circulação de documentos programáticos mais progressistas, como a Declaração de 28 Amsterdã, vários círculos técnicos não aceitavam a atenção dada para a natureza social do patrimônio ambiental urbano. O autor (2006, p.41) diz, entretanto, que nos dias de hoje, “até instituições internacionais um tanto conservadoras como o ICOMOS, reconhecem formalmente que o patrimônio ambiental urbano faz parte do processo normal do planejamento nacional, regional e local". A proteção do patrimônio ambiental urbano (conceito mais amplo de proteção, segundo o autor) está vinculada também à melhoria da qualidade de vida da população, pois preserva a memória de uma sociedade e gera uso para os bens tombados. Sobre isso, de acordo com a constituição federal, tombar não significa cristalizar ou perpetuar edifícios ou áreas, inviabilizando toda e qualquer obra que venha contribuir para a melhoria da cidade, pois junto com o processo de tombamento vem a preservação e revitalização, que tem por objetivo valorizar bens que se encontram deteriorados (IPHAN, 2013). Ulpiano Meneses (2006, p. 75) sugere, posteriormente, a criação do chamado “território museu” como forma de inclusão do entorno social e natural ao objeto patrimonial da tradição que estiver em questão3. Onde se considera que “ao lado e como parte de um bem patrimonial há muito mais que o bem em si, há o meio e a sociedade que constrói o bem”. Esse “território museu” toma como base três valores que não devem ser separados do seu propósito: o valor identitário, o valor econômico (o patrimônio como gerador de oportunidades econômicas) e o valor social (que visa melhorar a qualidade de vida da comunidade, que dever ser responsável pela “administração” desse patrimônio). Ainda sobre a mobilização social da população em relação à preservação local, Simão afirma que: Nos núcleos urbanos preservados o resgate do orgulho pelo lugar torna-se fator primordial para agregar a população no projeto de transformação da cidade, com a valorização das coisas locais e com a visão contemporânea da importância dos referenciais do passado e da cultura. (SIMÃO, 2001, p. 92). Para Murta (2001), os municípios possuem mecanismos que são eficazes no controle urbanístico e na ordem fiscal e penal no que se refere aos bens tombados. Além das diretrizes gerais de política local, esses podem investir em incentivo a preservação ou na compensação a danos no patrimônio, que devem fortalecer a preservação da memória e estar presente na elaboração do Plano Direto ou na lei de Uso e Ocupação do 3 A idéia de museu de território ou ecomuseos surge nos anos 1970, a partir das considerações teóricas de George Henri Revieri sobre a nova museologia. O primeiro exemplo concreto e aplicação desta nova teoria museologia foi o Ecomuseu de Creusot-Montceau-Les Mines (BARBUY, 1995). 29 Solo. De acordo com Murta (2001, p. 24), um bom plano de incentivo é “a isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano – IPTU- para facilitar aos proprietários de imóveis tombados o cuidado de sua manutenção”. Garantindo a permanência de sua população local, pois não prejudicará o proprietário ou aumentará os gastos com manutenção e ajudará a preservar a estrutura material do imóvel. Essas são medidas eficazes na preservação de imóveis que possuem importância histórica ou/e arquitetônica e mantiveram aspectos gerais ou específicos que garantiram a sua existência no mesmo lugar durante anos. A próxima forma de preservação sobre a qual reflexionaremos, torna-se mais complexa devido, justamente, a mobilidade dos seus bens. 1.1.3 Preservação do patrimônio móvel Com relação aos patrimônios móveis, uma das principais formas de protegê-los seria integra-los a museus, pois estes constituem meios importantes de proteção e interpretação do patrimônio histórico. Para Santos (2006), em um mundo que se transforma a cada segundo e que apaga rapidamente os traços do passado e despreza a tradição e a memória, os museus tendem a se tornar estranhos e silenciosos, pois os seus objetos foram retirados do tempo e do espaço que os originaram. Levando-se em conta que encontramos todos os tipos de museus nos dias atuais, desde o mais moderno, que recebe milhares de visitantes e têm adaptações para facilitar a visitação, até outros bem pequenos voltados para sua comunidade mais próxima e seu acervo original. Para Pinheiro (2004), o surgimento do museu remota aos fins do século III a. C., com coleções antigas de obras de arte. Porém, apenas no século XVI d.C. é que se começou a dar origem a democratização da educação nos museus, com a popularização das coleções e o amadurecimento destes como instituições comprometidas, que abrem suas portas ao público e populariza o saber. Na década de 1960, começou a difusão dos edifícios com valor histórico ou arquitetônico agregado ao conceito de sítio histórico, pois até então o objeto estava desconexo do seu entorno. A partir disso, começou-se a conceitualizar um novo discurso a favor das minorias sociais e do passado no Ocidente, com a restauração de sítios históricos; a revitalização de antigos centros urbanos e a preservação dos monumentos. Houve o surgimento de museus de todos os tipos, que eram encarados como símbolo das atividades culturais da sociedade contemporânea (PINHEIRO, 2004). Para Arnaut (1997), durante esse último século houve a compreensão do museu enquanto espaço de preservação, pesquisa e comunicação simultânea, utilizando-se de 30 inúmeras tecnologias para a disseminação da informação. De acordo com a autora, além da preocupação com os conteúdos e as formas de expor os acervos, que deveriam estar mais presente no cotidiano da população, principalmente, nos grandes centros urbanos, houve a quebra do tabu de que os museus só eram visitados por especialistas ou estudantes. Logo, a comunicação passou a ser uma de suas funções mais valorizadas. Foi nesse contexto que se desenvolveu a disciplina de museografia que era voltada para o aprimoramento, conforme afirma Arnaut (1997, p.05 e 06), do “[...] processo de comunicação nos museus, viabilizando a fruição dos bens culturais numa perspectiva de educação permanente, respirando e valorizando as realidades socioculturais especificas do meio onde está inserido”. Para Perichi (1997, p. 34), “a museografia deve atuar para estimular o público de forma a permitir a valorização de objetos que são muitas vezes de uso cotidiano e que estão inclusive em muitas casas de família”. O autor ainda afirma que “a museografia permite a comunicação do conteúdo museológico, racional e emotivamente, adequando-se ao edifício que o aloja, e assegurando a preservação dos objetos patrimoniais expostos” (PERICHI, 1997, p. 20). No Brasil, de acordo com Machado (2005), os museus históricos implicaram no envolvimento do Estado na década de vinte deste século e estavam associados à noção de monumentos históricos. Na década de 1970, surgiram os conceitos de museu integral, patrimônio global e ecomuseu que culminou com uma nova museologia, que apresentava aspectos associados às democracias liberais consolidadas em países da Europa e nos Estados Unidos, como à defesa do patrimônio cultural de minorias étnicas e de povos carentes e à integração dos museus às diversas realidades locais, em que a educação era utilizada como diálogo com o público. Esse pensar museal se estabelece na redemocratização brasileira dos anos 80. Para Jeudy (1990 apud Pinheiro, 2004), as sociedades modernas não possuem o desejo de apenas salvaguardar os patrimônios, mas também de valorizar as memórias coletivas, a partir da museologia. Essa prática implica na reorganização dos espaços internos e, permite transformar o museu em um local de hipóteses, de pesquisa, de prospectiva. “Ela procura estabelecer uma comunicação entre o objeto de museu e o visitante através da interpretação de problemas contemporâneos” (Nascimento, 2005, p. 223). Sobre a musealização, Martins afirma que: “Musealizar” a cultura material e imaterial significa recontextualizá-la, exigindo dos estudiosos responsáveis conhecimentos exaustivos dos objetos em seu poder e do espaço que estes ocuparão nos museus, para representar 31 com fidelidade o sentido que tal objeto representou no seu passado histórico. (MARTINS, 2003, p. 45). Isso porque, cada vez mais há procura pela identidade cultural em várias regiões do mundo, hoje em dia, representada pelos objetos e signos. De acordo com Pinheiro (2004, p. 111), por causa disso, “possibilita-se a estocagem e a exibição de todos os signos culturais nos museus, como meios de animação sociocultural”, além da coletividade que passa a fazer cada vez mais reivindicações sobre a conservação dos objetos da sua própria vida social e afetiva. Pinheiro (2004) constata que nos museus modernos, com o despertar das massas, iniciou-se o processo de estimulo ao desejo pelo consumo, de entretê-las e afastá-las da cultura dita culta, ou superior “[...], pois na elitização da cultura, na separação da arte e do artesanato, da cultura superior e da cultura popular, preservava-se também o poder para as classes hegemônicas” (PINHEIRO, 2004, p. 104). Hoje, conforme afirma o autor, o museu tem a função de preservar a memória, integrar as culturas cultas, populares e de massas, além de constituir um lugar de discussão entre modernidade e tradição e casa de espetáculo e entretenimento. Para Nascimento (2005), a concepção de exposições avança paralelamente aos museus, permitindo que hoje ela saia dos espaços fechados e tradicionais e avance até as ruas, estações de metrô e ônibus, indo à procura do público, visitando os visitantes (considerados criadores de outros saberes) e conectando-se ao mundo dos cidadãos para aperfeiçoar o processo de comunicação do museu. Perichi (1997, p. 28) afirma que o processo de comunicação do museu é interativo, já que tem “a capacidade de retroceder, saltar componentes, inferir leituras, apresentando-se assim múltiplas seqüências alternativas de leitura, além daquela proposta inicialmente pela instituição”. Além do que, cada instituição deve descobrir sua própria linguagem museográfica, levando em conta seu acervo, local e público. Arnaut (1997) diz ainda que, todos os elementos museográficos devem harmonizar-se com o edifício, configurando exposições de longa duração que inclui objetos que identificam a comunidade. Permitindo que essas exposições se renovem a cada dez anos, constituindo uma atração nova para o visitante e promovendo a proteção de todos os objetos. Para Lima e Carvalho (2005), outra forma de inserir a comunidade local no desenvolvimento do museu é receber doações de artefatos com “valor histórico” que o doador acredita ser pertinente para encaminhar ao museu, possibilitando a transferência 32 do vestígio material individual e privado para a dimensão pública da vida social. De acordo com os autores (2005, p. 91), “assim, o museu permite às memórias individuais e familiares encerrar um ciclo oferecendo-se como o lugar de memórias coletivas”. A memória coletiva faz referência à memória social e, segundo Pinheiro (2004, p. 119) preservar a memória de uma sociedade é “[...] recuperar e manter viva as várias manifestações culturais nos seus diferenciados segmentos sociais, econômicos, étnicos, religiosos e de trabalho”. São essas memórias, em geral, de pequenas cidades que são relembradas anos após anos e merecem seu reconhecimento. Para Ulpiano Meneses (2005), desde a criação de modelos, como os “museus comunitários” ou até mesmo os eco-museus, houve notáveis renovações no campo da Museologia, principalmente, com relação as suas responsabilidades sociais. Mas para isso, Ulpiano Meneses diz que, o museu deve expor: [...] objetos de nosso cotidiano (mas fora desse contexto e, portanto, capazes de atrair a observação) ou estranhos à vida corrente (capazes, por isso, de incorporar à minha as experiências alheias) que assumem valores cognitivos, estéticos, afetivos, sígnicos. Doutra parte, é a função documental do museu (por via de um acervo, completado por bancos de dados) que garante não só democratização da experiência e do conhecimento humanos e da fruição diferencial de bens, como, ainda, a possibilidade de fazer com que a mudança - atributo capital de toda realidade humana - deixe de ser um salto do escuro para o vazio e passe a ser inteligível. (ULPIANO MENESES, 2005, p. 19). Essas formas de apresentação de um acervo cultural em museu, capaz de explicar porque se vivia de certa maneira e não apenas mostrar como se vivia, permite um grande acréscimo de conhecimento para os seus visitantes interessados nas relações sociais e na história local. Para isso, devemos considerar um fator primordial: a educação patrimonial. Para Merilhas (2004), um aluno aprendera a compreender e respeitar a memória (inserida no patrimônio) dos seus companheiros, porque supõe que os demais deveriam fazer o mesmo. A autora ainda diz que ações educativas buscam fazer com que os elementos patrimoniais formem parte da nossa memória individual, coletiva ou social, não bastando utilizar apenas a comunicação oral, mas toda uma metodologia especifica baseado na criação de uma consciência. Para Merillas a educação patrimonial requer: (...) un conocimiento previo de las respuestas a los interrogantes para qué enseñar (objetivos), qué enseñar (contenidos patrimoniales), como enseñar (técnicas, procedimientos y estrategias: metodología) y a quién enseñar (características del sujeto que aprende: la identidad). (MERILLAS, 2004, p. 294). 33 De acordo com Merillas, isso conduzirá a ação, que por fim leva ao conhecimento e controle de mecanismos de avaliação e autoavaliação, que permitirão que se ensine a história, as manifestações artísticas e os costumes ou tradições associada a valores e atitudes. Sobre essa mesma ideia, Perichi (2005, p. 36) diz que, o museu embute uma importante ferramenta no processo de educação não-formal, pois o museu “deve contribuir para a formação crítica do indivíduo, fortalecendo seus valores, seus conhecimentos e identidade, fomentando sua auto-estima e enriquecendo a qualidade de vida individual e coletiva”. Libaneo (2005, p. 31) diz ainda, que a educação não-formal seria aquela “(...) realizada em instituições educativas fora dos marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação”. Como os museus, aonde podem ser realizadas atividades pedagógicas não formalizadas, porém coma ajuda permanente das escolas. Outra forma de ampliar a percepção do patrimônio como construção histórica, assim como remanejar o conceito de museu, é aplicar um conceito novo denominado de “território museu” que, de acordo com Ulpiano Meneses (2005, p. 75), “inclui a tradição da exposição museológica e a novidade da territorialização”, ou seja, inclui o entorno social e natural ao bem histórico-artístico-cultural em questão. Para o autor (p. 75) o “„território museu‟ é um espaço vivo de memória. Essa memória deve ser conhecida (como „terra incógnita‟); esse conhecimento deve ser acessível e, por fim, entendido por todos”. Para isso, precisará de um planejamento rigoroso, pois, de acordo com o autor o espaço físico, material que se encontra em torno do patrimônio cultural é habitado no presente, logo, em constante movimento de transformação. E é justamente essa memória viva que deve ser considerada como possibilidade interpretativa da construção cultural e na pluralidade das interpretações históricas (ULPIANO MENESESS, 2005). Campello (1997) afirma que a função do museu, atualmente, é justamente estar a serviço da sociedade e do seu patrimônio cultural e para isso precisa integrar-se à comunidade cultural onde o museu está inserido, para atingir uma autenticidade, uma veracidade. Em relação à apresentação do museu para os visitantes e visitados, Campello diz que: O museu não precisa falar somente de si e aos seus - ele terá naturalmente, de falar aos de casa e aos forasteiros, ele deve falar para fora. É essa forma de integração com a comunidade e com o acervo, com a memória coletiva onde está inserido, que permitirá que sua fala seja ouvida, tenha força, tenha vigor. (CAMPELLO, 1997, p. 07). 34 É essa linguagem do museu que permitirá o seu vinculo com a vida da cidade. Para Campello (1997, p. 08), “o museu reflete a cidade, sua cultura, sua memória, mas também interfere na cidade; e a cidade, muitas vezes, se apresenta através de seus museus, ela se espalha em seus museus”. Segundo José Meneses (2004), podemos utilizar essa cultura para elaborar um produto turístico, desde que se entenda a cultura como uma construção coletiva, que envolve o homem e o seu meio natural. Nessa elaboração é necessário entender que o processo construtivo dessa cultura é histórico, dinâmico, cheio de sentidos e com componentes dos vários tempos da sua construção. Para o autor, como ambiente dinâmico, o turismo não exercerá, necessariamente, uma intervenção destrutiva ao meio cultural em que se inseriu, já que qualquer ambiente cultural está sujeito a entrar em contato com o novo e o diferente e é a partir dessas interações que a cultura se transforma. A busca de preservação da cultura “se manifesta por processos educativos e de valorização patrimonial que permitem pensar o turismo como um instrumento de sua execução e não o contrário”. (JOSÉ MENESES, 2004, p. 100). Em pequenas cidades, os museus podem estar de tal modo integrado aos seus moradores, que passam a fazer parte de suas vidas, permitindo a vibração e renovação das culturas das cidades. E isso nos leva a pesquisar, sobretudo o patrimônio industrial, que muitas vezes permitiu o desenvolvimento de pequenas cidades e se constitui em um patrimônio de grande valor que pode ser inseridos nos museus locais. Logo, somente entendendo sua origem e especificações, poderemos compreender a melhor forma de protegê-lo e, possivelmente, dar-lhe novos usos. 1.1.4 Patrimônio Industrial e Ferroviário Para Gutiérrez (2001), a rápida transformação dos últimos anos do século XX resultaram na obsolescência dos elementos emblemáticos do progresso industrial do século XIX, como os portos e ferrovias, por isso era necessário uma forma de “reciclar” os elementos industriais. De acordo com Pardo Abad (2008), o patrimônio industrial é o mais jovem de todos os patrimônios, pois abriga um conjunto numeroso de peças que foram muito utilizadas até pouco tempo atrás e seus “restos” estão disponíveis nos países mais avançados, onde sua utilização foi intensa. Aguilar (2001) afirma que os primeiros artigos referentes à salvaguarda do patrimônio industrial surgiram nos anos posteriores à segunda guerra mundial, motivados pela grande destruição ocorrida dos edifícios industriais, o que mostrou o 35 perigo cada vez maior da perda e degradação que este patrimônio estava sofrendo, antes até mesmo do grande desenvolvimento urbano das cidades e da pressão imobiliária. Já para Kühl (1998), o interesse por esse tipo de patrimônio começou a crescer quando houve um alargamento do interesse por edifícios históricos. Esse interesse não é apenas histórico, mas também estético e surgiu na Inglaterra a partir dos anos 60 com o nome de arqueologia industrial, que tinha como função estudar e preservar os bens especialmente do período da Revolução Industrial. Limite cronológico que autores de outros países desconsideram. No Brasil, o interesse pelo patrimônio industrial surgiu ainda na década de 1960, quando em 1964, o Iphan tombou os remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema em Iperó, São Paulo (RODRIGUES, 2010). Para Pardo Abad (2008), a crise industrial derivada da interrupção tecnológica no inicio dos anos setenta e afetou de forma significativa as áreas que foram atingidas por esse desenvolvimento tecnológico, que gerou cidades e movimentou a economia de muitos lugares do mundo. Para o autor, é na década de 80 que se descobrem e ganha impulso a possibilidade de reutilizar essa arquitetura sólida e antiga, para funcionar como lugares de encontro e cultura renovada, logo, é a partir desse momento que surgem museus com coleções importantes de caráter industrial, que coincidem com congressos, reuniões e conferencias acerca do patrimônio industrial, além de publicações de trabalhos sobre arqueologia industrial, catálogos e inventários de edifícios e lugares industriais. Em 2003, surge a Carta de Nizhny Tagil, documento do The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage (TICCIH), que traz uma série de definições referentes ao patrimônio industrial, seus componentes e formas de utilização. Na qual, encontra-se a definição de arqueologia industrial: A arqueologia industrial é um método interdisciplinar que estuda todos os vestígios, materiais e imateriais, os documentos, os artefatos, a estratigrafia e as estruturas, as implantações humanas e as paisagens naturais e urbanas, criadas para ou pelos processos industriais. A arqueologia industrial utiliza os métodos de investigação mais adequados para aumentar a compreensão do passado e do presente industrial. (NIZHNY TAGIL, 2003). Para Pardo Abad (2008, p. 29), a arqueologia industrial é uma disciplina interessada na evolução da tecnologia e que se utiliza de documentos originais e de fontes secundárias para ajudar na investigação dos “[...] edificios, minas, maquinaria, instrumentos, monumentos de todo tipo y cualquier equipamiento conectado con los procesos de trabajo, como viviendas y otras construcciones”. O autor considera ainda que o trabalho de campo nesse tipo de pesquisa é essencial, pois o método arqueológico 36 permite deduzir diversas informações sobre o sistema industrial: a organização espacial do lugar de trabalho, a estrutura hierárquica, os níveis de produção, o processo tecnológico, as condições de trabalho e o ambiente que o circunda. Ou seja, não apenas considerar a arquitetura física cravada no solo representada pela indústria, pelo ferro e concreto, mas também levar em conta o lugar de trabalho, as relações sociais e de produção que ali se estabeleceram. Pardo Abad (2008) afirma ainda que a arqueologia industrial deve se basear na multidisciplinaridade, na qual se conta com o conhecimento de arquitetos, historiadores, economistas, geógrafos, engenheiros, etc. Profissionais que podem agregar conhecimento ao bem industrial, a partir da especialidade e metodologia que cada uma das profissões proporciona. Atualmente, o patrimônio industrial é reconhecido como uma parte muito importante da história dos últimos séculos e como uma cultura de territórios. Para que esse conceito fosse concretizado, a UNESCO se constituiu em um das melhores formas de apoio à conservação dos testemunhos da industrialização, considerando que este organismo internacional aplica uma definição bem ampliada de patrimônios, que pode ser observada no grande número de lugares catalogados, que vão desde minas, meios de transportes até restos materiais (PARDO ABAD, 2008). As evidências materiais e imateriais desse passado industrializado merecem sua conservação e aceitação universal. Para Pardo Abad: El patrimonio industrial se divide en dos tipos diferentes: en primer lugar destaca en “tangible”, referido tanto a los bienes inmuebles (fábricas, talleres, minas, poblados obreros) como muebles (archivos documentales y fotográficos, maquinaria, herramientas); en segundo lugar figura el “intangible”, es decir, aquél relacionado con la cultura obrera (formas de vida, costumbres y tradiciones, know how, etc.). (PARDO ABAD, 2008, p. 15). Viñuales (2001) complementa dizendo que deve ser considerado o conjunto como uma unidade (p. 109), “[...] edificios, terrenos libres, vías de acesso, jardines, presencia urbana. Es fundamental conservar esa unidad que, casi con seguridad, fue la que ayudó a mantener en funciones a la misma industria”. Na carta de Nizhny Tagil (2003), ainda são consideradas outras particularidade do patrimônio industrial como, por exemplo, as memórias das pessoas que trabalharam nos sítios industriais constituírem uma fonte única e insubstituível que devem ser registradas e conservadas sempre que possível. Sobre a proteção legal do patrimônio industrial, é dito que “devem ser postas em prática medidas legais, administrativas e financeiras, necessárias para conservar a sua identidade”, além de afirmar que esse tipo 37 de patrimônio faz parte integrante do patrimônio cultural, porém sua proteção legal deve levar em consideração sua natureza especifica. E sobre reutilização é posto que, em geral, a adaptação de um sítio industrial, para uma nova utilização pretendendo sua conservação, é aceito, porém “as intervenções realizadas nos sítios industriais devem ser reversíveis e provocar um impacto mínimo”. De acordo com Viñuales (2001), pode-se aliar a reciclagem do patrimônio industrial com a restauração, o que não significa aceitar qualquer alteração do patrimônio, pois, deve-se preservar a unidade do conjunto e de cada edifício em particular, como seus aspectos estruturais e construtivos. Deve ainda atender a harmonização necessária entre a inclusão de novas obras ao que já existe. Sendo que, essa restauração se refere em converter o edifício ao que ele foi no passado, enquanto a conservação seria mantê-lo como chegou a atualidade. Assim, no patrimônio industrial muitas vezes o apego físico fica em segundo plano se comparado a outros tipos de patrimônio. Considerando que o interesse seira em manter os representantes da criatividade humana “[...] con unas técnicas y unas máquinas que incorporaron la producción mecanizada a gran escala y transformaron la sociedad y la economía como hasta entonces no se había conocido” (PARDO ABAD, 2008, p. 41). De acordo com Pardo Abad (2008), os edifícios industriais que antes eram um problema podem ser convertidos em oportunidades, sendo responsável por algumas melhorar no meio ambiente e na ordenação do território, desde que leve em conta que as intervenções devem preservar a arquitetura e a essência do lugar que “[...] en su día fue de producción, manteniendo la memoria de las personas que invirtieron capitales, que manejaron máquinas y técnicas y establecieron relaciones sociales y productivas” (PARDO ABAD, 2008, p. 107). Além disso, é possível aliar a conservação do patrimônio com as novas ideias de economia sustentável, tão presente no nosso conceito atual de reutilização, já que a reciclagem das construções industriais abandonadas ainda tem uma importância ambiental, pois contribui para reduzir a pressão sobre o espaço natural, permitindo que se utilizem áreas já construídas, sem precisar construir algo novo (PARDO ABAD, 2008). Ainda para o autor as possibilidades de incorporar novas funções aos bens industriais são amplas, devido às próprias características estruturais dos edifícios, com grandes janelas, salas amplas e materiais resistentes. Dito isso, retomamos a valoração dos bens industriais, pois Pardo Abad (2008) diz que a conservação das construções, maquinário e outros elementos da autenticidade dos lugares permitem surpreender os visitantes e o patrimônio se converte em um 38 referencial indiscutível da identidade social e territorial de muitas comunidades locais. Ainda, para o autor, os valores e intervenções que se realizam nos patrimônios industriais variam de acordo com as três categorias em que se inserem: os elementos isolados (uma ponte, uma máquina, um edifício significativo, etc), os conjuntos industriais (como o edifício principal acompanhado de outras construções secundárias integrantes) e as paisagens industriais (conjunto mais amplo em que se conservam todos os elementos fundamentais do processo de produção). De acordo com Pardo Abad (2008), muitas vezes, é dado o valor de conjunto para os patrimônios industriais em que se valorizam as fábricas, juntamente com o que surgiu graças à indústria, como o povoado em seu entorno, combinando o produtivo com o residencial e o assistencial. Sobre essa ideia Correia (1999, p. 01) afirma que no Brasil a construção de vilas operárias e de núcleos fabris por empresas industriais como usinas de açúcar, empresas de mineração e ferrovias, etc “(…) iniciou-se na segunda metade do século XIX, com o surgimento de aglomerações com organização espacial seguindo diretrizes estabelecidas pelo proprietário ou por engenheiros envolvidos no empreendimento”. Ou seja, devemos considerar a importância desse marco histórico no surgimento de vilas padronizadas e disciplinadas pelas próprias indústrias. Sendo que a autora ainda afirma que a criação desses núcleos tinha o interesse de criar um grupo de trabalhadores fixo, produtivo e controlável (CORREIA, 1994). Assim, vemos como a relação entre a indústria e seus trabalhadores era estreita e muitas vezes extrapolava os limites do trabalho, influenciando na vida social dos seus moradores. Analisando também os bens móveis das indústrias, Pedraza (2010) faz referência a importância de se preservar os documentos dentro de uma empresa, pois considera que a indústria (PEDRAZA, 2010, p. 104) “nace como una actividad ordenada, metódica y disciplinada, y esté es el mejor caldo de cultivo para la formación de los archivos”. Ou seja, estes documentos são grandes fontes históricas desde a origem da empresa, até, muitas vezes, o seu fim operacional. E, além disso, pode evocar uma memória, na qual o autor afirma que: A través de los rostros petrificados, de los nombres y de las situaciones, de la capacidad que tienen los documentos de recuperar la relación que existió entre los hombres y la industria, sirven como elemento forjador de una identidad que es un punto de referencia en medio de la zozobra de la desindustrialización, de la alienación que supone la pérdida de la memoria”. (PEDRAZA, 2010, p. 107). Assim, ampliamos a relação do patrimônio documental a outros membros de grande importância da empresa: os funcionários. Estes possuem seus nomes, fotos e 39 condições trabalhistas registrados nesses documentos, que, se um dia tiverem acesso, pode levá-los a recordar os tempos de trabalho na industrial, suas vidas naquele momento histórico e os motivos que os fizeram serem registrados em uma determinada indústria, para uma determinada função. Ou seja, fazendo um trabalho de rememoração com esse antigo trabalhador. O patrimônio industrial no caso do Brasil possui uma forte relação com as antigas ferrovias instaladas no país. E, nesse caso, consideramos pertinente citar uma carta de Riga do ano de 2005, que possui uma importância para as intervenções que podem se utilizadas em Equipamentos Históricos Ferroviários e orientam a conservação, o restauro, a manutenção, a reparação e a utilização (MACHADO, 2005). Podendo ser necessárias para salvaguardar o patrimônio ferroviário brasileiro por exemplo. A história das ferrovias no nosso país começou em 1854, com a inauguração do trecho que ligava Mauá a Fragoso, no Rio de Janeiro, porém foi em São Paulo, grande potencia cafeeira, que houve o seu maior desenvolvimento para facilitar esta atividade, permitindo o surgimento de muitas cidades no interior do Oeste Paulista. De acordo com Cammarota (2003), as ferrovias representaram mais do que a introdução de um novo meio de transporte do século XIX ligado ao escoamento de café, já que (p. 10) “[...] constituiu um marco divisor na vida das cidades, pois as estações de trem durante um bom tempo foram locais de reunião das elites proporcionando a circulação de informações”. Para Losnak apud Righetti (2010), “no contexto do inicio do século passado, a implantação de ferrovias trazia a expectativa de desenvolvimento. As cidades eram moldadas e cresciam ao longo dos trilhos e das estações de trem”. Righetti (2010) ainda afirma que as ferrovias, além de trazerem novidades e tecnologia, tinham a possibilidade de criar um limite territorial que dava identidade aos seus moradores, pois ela determinava modos de vida e de trabalho para seus funcionários que, em geral, formavam a população local das cidades. De acordo com Soukef (2010), dos elementos ferroviários, a estação era a mais representativa por ligar a via férrea com as respectivas aglomerações, aglutinando ao seu redor importantes serviços. Na década de 30, a população assistiu ao declinou das ferrovias para a construção de estradas e rodovias, como a Anchieta e Anhaguera, que foram de grande importância para o estado de São Paulo. Porém, sobre esse abandono Cammarota afirma que: 40 Mesmo assim, as marcas deixadas pelas ferrovias são inegáveis. Provavelmente, muitas notícias e inovações devem ter chegado às mais distantes cidades por meio dos trens. Isso reafirma que o estudo da história desse meio de transporte em nosso país é imprescindível. (CAMMAROTA, 2003, p. 12). Além disso, Giesbrecht (2010) afirma que o fascínio pela modernidade, beleza e design dos elementos ferroviário causa um deslumbramento até os dias de hoje, o que podemos considerar um facilitador à preservação da memória ferroviária. Para o autor, essa memória ferroviária é composta pelo “imaginário de pessoas que gostavam de viajar e de ver os trens e lembram com saudades dessa época” (GIEBRECHT, 2010, p. 189). Essa memória esta intimamente ligada ao patrimônio material ferroviário, sendo que, para Soukef, a conservação de ambos compõe: Um problema complexo, que exige reflexão e um estudo detalhado que leve em conta as particularidades de cada conjunto. Se, por um lado, a reinserção ou a continuidade de uso de um sítio industrial pode assumir um papel importante na regeneração ou na consolidação de novas realidades urbanas, a preservação da memória histórica e cultural das comunidades que se formaram ou deram um significativo salto econômico durante o período ferroviário, também deve ser garantida. (SOUKEF, 2010, p. 226). Assim, para o autor, somente ampliando o entendimento e a importância da manutenção do patrimônio industrial, poderemos ajudar na “sobrevivência dos conjuntos ferroviários em toda a sua integridade e não apenas como vestígios isolados e soltos no tecido urbano” (SOUKEF, 2010, p. 226). Logo, não basta reconhecer o seu valor, mas perpetuar a sua sobrevivência. E, nesse caso, podemos considerar as entidades de interesse público que atuam na preservação do patrimônio ferroviário, baseadas, muitas vezes no potencial educacional e experiência turística desse tipo de patrimônio, associada ao acúmulo de conhecimento e fontes de pesquisa entre seus membros (ALLIS, 2010). Por fim, na opinião de Allis (2010), sistemas ferroviários deixaram marcas culturais no plano territorial, desde o mobiliário e material rodante até as relações sócioculturais, que podemos considerar como patrimônio cultural, devido ao seu simbolismo e significância histórica em escala local, regional e nacional. E, por isso, tem possibilidade no desenvolvimento turístico, sendo que, nesse sentido, as ferrovias turísticas como “produto turístico ou proposta de estudo do turismo, são paulatinamente significantes para a organização da atividade turística nas regiões onde a ferrovia foi (ou é) parte da produção espacial” (ALLIS, 2010, p. 31). Dito isso, passamos ao próximo tópico de discussão que tratará justamente do patrimônio industrial e, em específico, do ferroviário, relacionado ao uso turístico. 41 1.2 Turismo cultural e o patrimônio industrial 1.2.1 Programas de visitação em patrimônios industriais O interesse por esse tipo de patrimônio como consumo cultural ocorreu após a Revolução Científica onde, de acordo com Nascimento (2005), outros elementos passaram a compor o universo expositivo como máquinas, artefatos e ciência. Para a autora, a expansão industrial, nos séculos XVIII e XIX, criou um novo objeto de exposição baseado na tecnologia e que abrangia um novo público: o cidadão urbano em seu tempo de lazer. Com o aumento do consumo cultural, maior tem sido a visibilidade para o patrimônio industrial, considerado mais original, pois permite que o seu visitante tenha acesso aos esforços, as decepções ou as tensões dos trabalhadores e empresários que “[...] están aún presentes y despiertan en el espectador una aspiración poco disimulada por conocer la verdadera autenticidad del lugar” (PARDO ABAD, 2008, p. 48). Sobre as antigas edificações industriais, que são algumas vezes utilizadas como museus, Pinheiro (2004) afirma que o desenvolvimento de estudos para a preservação desses sítios industriais é de extrema importância. Isso porque muitas comunidades desenvolveram-se ao largo das indústrias, e consequentemente, são representativas para estas. Quando houve a decadência das indústrias, houve também o risco de desaparecimento das culturas e praticas adquirida ao longo de gerações por funcionários que trabalharam nessas indústrias. Pinheiro (2004) diz ainda, que com a revolução industrial, muitas culturas e habilidades se perderam, mas também tantas outras se formaram, a partir do surgimento de cidades que atraiam pessoas do campo para as cidades com a esperança de conseguir um bom emprego e melhores condições de vida. Por isso, a preservação dessa cultura técnica criada “[...] faz-se necessária para que não incorramos nos mesmos erros de tempos passados, quando soterramos várias técnicas e com elas, sociedades e civilizações” (PINHEIRO, 2004, p. 115). Os museus são as propostas mais utilizadas para a preservação dessas técnicas, porém essa não é a única forma de uso do espaço. Por exemplo, alguns edifícios são reutilizados para usos distintos do original, como espaços comerciais, centros artísticos ou educativos, conjuntos residenciais, etc (PARDO ABAD, 2008). Entretanto, os que foram transformados em museu, de acordo com Aguilar (2001), unem a história social e a conservação de monumentos históricos industriais. Para a autora, esse novo tipo de museu tem como objetivo resgatar temas da história social que ocorreram praticamente 42 no próprio lugar, daí uma atuação marcada pela restauração do edifício, em que se pretende: Devolver al edificio su estado original y, si es posible, con la maquinaria original. Incluso se pretende dar en ocasiones una muestra de la producción como testigo del proceso de elaboración de la propia industria. Se trata de un estudio global desde el propio edificio, desde los utensilios de trabajo, desde los datos obtenidos por las excavaciones y desde la historia oral explicada por sus propios protagonistas. Se confirma que contenido y continente no se puede separar y que si estos objetos son trasladados a otro museo para exponerse junto a otros de la misma especie, estos pierden parte de su dimensión conceptual. (AGUILAR, 2001, p. 168). A autora ainda afirma que alguns dos conteúdos formulados pela indústria configuram objetos de interesse na criação do museu, como os arquivos da empresa que constituem uma fonte inquestionável para o historiador. Tanto que, muitas corporações industriais tem posto em inicio projetos documentais, para facilitar as informações que foram geradas de sua atividade. Além disso, conforme Aguillar (2001) afirma, o estudo dos “restos” industriais, como suas formas de produção e organização podem proporcionar informações precisas para a interpretação da vida cotidiana da sociedade contemporânea. Esses princípios podem ajudar a resgatar os diversos elementos locais que dão singularidade ao museu em nível mundial, durante o processo de implantação do museu, no qual se deve dar ênfase aos aspectos singulares e histórias que foram geradas pela industrial em um determinado lugar. Uma nova forma de desenvolvimento do museu industrial tem surgido também com base no chamado território-museu. Essa nova estratégia, segundo Hernández J. (2001), de desenvolvimento local e regional se sustenta em projetos integrais de crescimento sustentável do patrimônio cultural e natural que garante o dobro de efetividade, por preservar as culturas, monumentos e entorno e por desencadear efeitos no território, como desenvolvimento do setor terciário, criação de empregos, etc. Por isso, é necessário prestar atenção ao patrimônio e dar prioridade a esse tipo de projeto na hora de desenhar as estratégias de promoção e desenvolvimento territorial. No Brasil, o patrimônio industrial é intensamente marcado pela ferrovia que, de acordo com Pinheiro (2004, p. 117), foi “um símbolo de comunicação, transporte e meio de integração entre várias cidades, desde as maiores até os mínimos lugarejos que despendiam essencialmente do trem para o seu sustento”. Portanto, a sua perda resultaria em sérios prejuízos, não apenas ao sistema de transporte, como, explicita o autor, mas, principalmente, na cultura técnica que o Brasil veio a desenvolver e esta perdendo. Para isso, Pinheiro (2004) afirma, que a importância histórica, técnica e arquitetônica podem ser revitalizadas mediante a musealização, já que os vestígios 43 ferroviários compreendem um importante patrimônio arquitetônico e social local de algumas cidades. Villar expõem sua opinião referente aos museus ferroviários dizendo que: Los museos centran su actividad en la preservación y el estudio del material rodante, donde queda focalizado buena parte del interés, y de los edificios históricos que los acogen, sin tener tampoco una clave territorial que amplíe miras y reformule nuestro interés por el patrimonio histórico ferroviario. (VILLAR, 2010, p. 70). Mostrando a limitação que essa forma de proteção ainda possui, provavelmente, por ser uma alternativa considerada eficaz para o patrimônio ferroviário há poucas décadas, como no Brasil. Logo, consideramos a necessidade de se pensar na relação entre alguns museus e o resto do seu território. Nesse caso, certas cidades que possuem elementos industriais exteriores ao museu, devem cogitar a incorporação desses ao processo de musealização. Areces (2001, p. 44) afirma que “esta nueva generación de museos industriales acompañará, también, con otro fenómeno surgido un poco más tarde, ya en la década de 1980, el denominado turismo cultural”. Para o autor, esses museus podem ser transformados em instrumentos de desenvolvimento econômico, a partir do turismo cultural. No qual este contribuirá para a diminuição do impacto negativo da desindustrialização de certas áreas, principalmente em países da Europa. Porém, neste trabalho, consideramos importante ampliar essa ideia ao Brasil, que possui elementos importantes do patrimônio industrial, como a ferrovia. Para Montaner (2003), o museu é entendido pela presença de diversos estratos arqueológicos e históricos a espera de serem interpretados e inclui uma nova tipologia que tem haver com a memória. Ainda para o autor, os museus e as coleções tem se convertido no polo de atração turística mais decisiva e, também, tem se consolidado como elemento básico para conseguir que os cidadãos se sintam membros de uma cidade que tem cultura e capacidade criativa. Sendo assim, seguimos para a reflexão de um turismo que se amplia para além do museu e ajuda a completar as interpretações sugeridas no processo museológico. 1.2.2 Turismo cultural em sítios históricos Essa discussão torna-se pertinente, já que esse trabalho não busca tratar de um bem isolado, como foi explanado anteriormente, mas de um conjunto relativamente 44 amplo de edifícios que não possuem características arquitetônicas excepcionais, mas caracterizam a história local. Onde, caso se desenvolvesse o turismo cultural, necessitaria de infraestrutura e participação popular adequada. Nesse ponto, a cultura já se perpetuou como um forte atrativo cultural em várias cidades do mundo e em algumas, o seu patrimônio cultural configura o principal chamariz para atrair visitantes. Entretanto, o primeiro interesse em relação às áreas urbanas históricas surgiu sob o prisma histórico e preservacionista do século XIX. De acordo com Adams (2002), foram as destruições provocadas pelas guerras que motivaram a instalação de políticas específicas para a proteção dos centros históricos. Aos poucos, a preservação foi inserida no planejamento urbano, dando uso ao bem preservado. As cartas internacionais, por exemplo, são um balizador importante no “[...] acompanhamento do pensamento acerca da preservação. As primeiras trouxeram a preocupação pela definição do bem e seu entorno. Posteriormente, a proteção é estendida aos conjuntos” (ADAMS, 2002, p. 23). Ruiz (1997 apud ADAMS 2002) define o “entorno” como o conjunto de elementos relacionados ou vinculados a um bem cultural. A necessidade de sua proteção física deriva da sua significação e visualização; sua utilização ou, ainda, das relações históricas ou culturais com o seu meio. Já os conjuntos são representados, em geral, pelos sítios históricos. De acordo com Oliveira (2003, p. 35), “toda a atividade humana produz história. No entanto, apenas alguns locais contêm uma densidade de documentos que desperta o interesse de visitantes. É o que normalmente se designa por sítios históricos”. Nesses casos, para Robinson (1976 apud OLIVEIRA 2003) toda a área deve ser considerada e não apenas alguns edifícios, nos quais, o turismo pode atrair investimentos e oferecer lazer e recreação para os visitantes dessas cidades que, de um modo geral, são pequenas e a sua paisagem funciona como atratividade singular. Aliás, ainda sobre a atratividade da paisagem, Lynch afirma que se o objeto “(...) também for rico em detalhe ou textura, certamente, será um convite ao nosso olhar”. Mostrando a importância visual dos edifícios para os turistas. O autor ainda afirma que os edifícios com importância para a cidade, chamados por ele de marcos “(...) também podem ser ordenados em uma sequência contínua, de modo que todo um trajeto possa ser identificado e tornado cômodo por uma sucessão de detalhes conhecidos”. Aumentando a referência paisagística daquele lugar. Por fim, sobre a relação da população local com os marcos da cidade Lynch afirma que: 45 A força da imagem aumenta quando o marco coincide com uma concentração de associações. Se o edifício que sobressai for o cenário de um fato histórico ou se a porta em cores vivas for a da sua casa, essas coisas irão realmente tornar-se marcos. Mesmo a atribuição de um nome confere poder, pois, em geral, esse nome é conhecido e aceito por todos. De fato, se quisermos que o nosso ambiente se torne significativo, tal coincidência de associação e imaginabilidade será imprescindível. (LYNCH, 1997, p. 113). Relacionando a intangibilidade dos sentimentos da população local com a história referenciada nos objetos materiais, que devem ser evidenciadas, levando-se em consideração que, elementos não isolados e com valor são, justamente, mais atrativos para uma atividade turística, por exemplo. Oliveira (2003) ainda afirma que, em cidades históricas e, nesse caso, consideramos cidades históricas as que recebem proteção legal efetiva, a atratividade e o diferencial das demais cidades são constituídos por seus edifícios e monumentos com significados artísticos e históricos. Logo, retomando a ideia de conjunto, para Oliveira (2003, p. 40), as cidades que possuem sítios históricos “(...) precisam contar com atrações turísticas reconhecidas e infraestrutura apropriada para que o turismo se estabeleça como atividade econômica efetiva”. Sendo essa infraestrutura atrelada às facilidades de visitação como museus e instalações para exibições, que devem ser melhoradas com o tempo a partir das expectativas de seus visitantes. E, justamente por isso, são necessários alguns cuidados com relação à visitação, pois quando esses edifícios são usados como único recurso para atrair o turismo, pode causar desgaste pelo seu excesso de visitantes. Segundo Aguiar (2008), no Brasil, inicialmente, a primeira referência ao termo patrimônio relacionada ao turismo, baseada em moldes internacionais ocorreu em 1960, com a criação da Comissão Brasileira de turismo (COMBRATUR). Esta comissão era responsável pela coordenação, planejamento e supervisão da política nacional de turismo e que deu origem aos primeiros conceitos de preservação em relação ao, de acordo com Aguiar (2008, p. 74), “[...] patrimônio cultural e turismo nos sítios urbanos, em um quadro maior das transformações nas políticas culturais de preservação no Brasil”. Dentre os novos preservacionistas brasileiros estavam muitos intelectuais presentes no interior das agências de salvaguarda dos patrimônios culturais e as recémcriadas agências de promoção do turismo, que viam nessa atividade dos conjuntos urbanos a principal alternativa capaz, como afirma Aguiar (2008, p. 74), “[...] de gerar os recursos necessários para a manutenção e conservação dos bens móveis, imóveis e conjuntos urbanos que integravam os patrimônios culturais nacionais”. 46 Nesse caso, o turismo surgiu como uma ótima alternativa para contornar o descaso com o patrimônio, pois os financiamentos estatais mostravam-se insuficientes para a manutenção da integridade do patrimônio cultural nacional. Um relatório da UNESCO elaborado no ano de 1968 determinava que os bens culturais brasileiros que tinham a sua conservação subsidiada pelo governo deveriam integrar os projetos de desenvolvimento nacional e dentre eles, o turismo, com altos índices de crescimento anuais e que se destacava como um setor altamente promissor (AGUIAR, 2008). O IPHAN então definiu, a partir da orientação dada pela UNESCO, o significado de patrimônio cultural atrelado ao seu valor econômico e turístico: O patrimônio cultural não se restringe apenas a imóveis isolados, igrejas ou palácios, mas na sua concepção contemporânea, se estende a imóveis particulares, trechos urbanos e até ambientes naturais de importância paisagística, passando por imagens, mobiliário, utensílios e outros bens móveis. Por esse motivo, é possível realizar uma das mais importantes distinções que se pode fazer com relação ao patrimônio cultural, pois, sendo ele diferente das outras modalidades da cultura restritas apenas ao mercado cultural, apresenta interfaces significativas com outros importantes segmentos da economia, como a construção civil e o turismo, ampliando exponencialmente o potencial de investimentos. (IPHAN apud LOHMANN; NETTO, 2008, p. 432). Definindo as diversas formas de patrimônio cultural que poderiam se integrar as atividades econômicas das cidades onde estavam inseridos. Mais adiante no tempo, de acordo com Aguiar (2008), na década de 70, durante o “milagre econômico” brasileiro, ampliaram-se os investimentos e financiamentos no setor de turismo, que foi beneficiado pelas grandes rodovias nacionais que facilitaram o acesso a cidades, até então, praticamente isoladas. Ainda em 1975, ocorreu a primeira ação conjunta entre o Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR), criado em 1968, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), quando foi criado o Programa Integral de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste, que visava, prioritariamente, à conservação e a restauração do acervo cultural para uma utilização economicamente viável. Para Aguiar (2008), a Lei 6.513 de 1977 garantia a preservação dos bens culturais brasileiros, pois estes estariam legalmente atrelados à sua potencialidade enquanto atrativo turístico. Na legislação de 1977, foram consideradas áreas especiais de interesse turístico, priorizando as que apresentavam maior facilidade de acesso ou mesmo potencial turístico e colocava a EMBRATUR como principal responsável por essas áreas. 47 Aguiar (2008) ainda afirma que outros fatores ampliaram o poder da atividade turística com relação às políticas de preservação cultural no Brasil, como: a apropriação dos conjuntos urbanos como mais um produto rentável ao desenvolvimento do turismo; o aumento da importância dos organismos internacionais e locais ligados ao patrimônio cultural e o “enfraquecimento estrutural” da agência federal de preservação. Uma vez que esta não foi constantemente aparelhada e nem mesmo dispunha dos recursos necessários para a salvaguarda do acervo tombado em permanente expansão (AGUIAR, 2008). Gastal, Beni e Castrogionvani (2003, p. 08) complementam essa ideia de cultura relacionada ao turismo, dizendo que o cultural tem funcionado mais como “[...] um diferencial de produto, em geral mercadológico, e menos como insumo básico, no que se refere à sua incorporação no planejamento e montagem de produtos turísticos”. Os autores veem isso como algo negativo, quando relacionado ao descaso com a população local, que pode acontecer para a valorização dos turistas. Então, estes propõem que a cultura seja repensada nas suas relações com o turismo e que a pesquisa/inventário das localidades, do ponto de vista cultural, envolva não apenas os cobiçados valores históricos e arquitetônicos dos ditos bens culturais consagrados, mas também, os valores afetivos das comunidades em relação a si mesmas, para garantir a sustentabilidade do atrativo. Carvalho (2002) também expõe sua preocupação com o patrimônio histórico sendo visto apenas como um recurso econômico turístico. Para o autor, é necessário ver o turismo como uma atividade em que se processa e se intensifica para a realização de uma essência humana, de uma relação do homem com a humanidade através de “[...] espaços e tempos mais amplos, mais diversos, em contraponto ao reducionismo, à especialização do homo economicus, incluindo aí a mercadorização/taylorização do seu tempo de lazer e turismo” (CARVALHO, 2002, p. 109). Assim, para Gastal, Beni e Castrogiovani (2003) uma forma de apresentar o patrimônio, de uma forma mais ampla, para seus visitantes é na forma de agrupamento dos ditos centros históricos ou na forma de exemplares isolados, que são respeitados pelas comunidades por sua monumentalidade, qualidade arquitetônica, artística ou mesma histórica. Para os autores, esses patrimônios incluem-se nos denominados bens culturais, que possuem até mesmo resguardo legal. De acordo com Souza Filho (1997, p. 30 apud GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI 2003, p. 70), a lei da Constituição de 1988 determina que “[...] bem cultural é aquele bem jurídico que, além de ser objeto de direito, está protegido por ser 48 representativo, evocativo ou identificador de uma expressão cultural relevante”. E todos esses bens, de propriedades particulares ou não, geram um especial interesse do poder público. Logo, em muitos momentos, transformam-se em fonte de polêmica no que se refere à sua preservação e ao ônus econômico da sua manutenção, envolvendo os seus proprietários, o poder público e a comunidade que vive próximo a esse bem, principalmente, quando a propriedade esta em mãos privada. Gastal, Beni e Castrogiovani afirmam que: Quando o turismo é convidado a participar da discussão, espera-se dele a função de verdadeiro “milagreiro”, a restaurar a paz entre as partes, ou seja, que dele venha a solução para conservação, uso e auto-sustentação econômica do bem, em geral parte significativa da memória local. (GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI 2003, p. 70). Porém, quando não há um consenso entre seus participantes, dificilmente, a inclusão do turismo ocorrerá de forma benéfica para todas as partes. Para Gastal, Beni e Castrogiovani (2003, p. 71) a situação piora quando os bens culturais são “[...] mais singelo, artístico ou historicamente não representativo das classes sociais mais privilegiadas: um velho celeiro, um armazém de beira de estrada, a banca de jornal na praça central”. Nesses casos o patrimônio não é considerado “bonito” e de acordo com os autoores “os que lutam pela sua manutenção, buscando preservar a memória local, não raro são acusados de retrógados e passadistas, empecilhos ao „desenvolvimento‟” (GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI, 2003, p. 71). Nesses casos, estes autores propõem à colocação de bens culturais mais singelos como “lugares de memória”. Uma alternativa para garantir a proposta turística em pequenas localidades e que incorpora na reflexão uma concepção que remete diretamente à afetividade, integridade e identidades locais. Para Gastal, Beni e Castrogiovani (2003, p. 72) “se a memória nos individualiza como sujeitos, também nos torna únicos como comunidade”. E é esse passado coletivo conservado em museus e em sitos arqueológicos que nos tornam menos solitários neste mundo, pois nos sabemos que existiram outros que frequentaram aquele lugar, que viveram daquela maneira, que pisaram onde hoje nós pisamos, que viram o que agora nós vemos e que utilizaram os cinco sentidos neste lugar, como nos fazemos hoje. “Ou seja, o passado é presentificado ou, pelo menos, nós assim acreditamos daí torna-se, para um determinado grupo, um bem cultural” (GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI, 2003, p. 73). A própria Constituição Federal determina que os bens culturais devem estar vinculados a fatos históricos do Brasil que apresentam especial valor arqueológico, 49 bibliográficos, artístico ou, ainda, por serem portadores de referência à identidade, à ação e a memória dos diferentes grupos da sociedade brasileira. Entretanto, Gastal, Beni e Castrogiovani (2003) acreditam que é difícil, na aplicação das leis, o respeito a sítios por sua possível referência à identidade e à memória local, em especial quando entra em confronto com questões econômicas. Em geral, é dado preferência aos objetos de valor excepcional ou que os registros da história oficial guardou ou que o mercado financeiro valorizou. Entretanto, para os autores, cada vez mais o turismo pós-moderno recorre aos objetos representativos dos elos afetivos, tanto ou mais que aos exemplares magníficos da cultura e da história ocidental, isto porque, segundo eles, os viajantes contemporâneos demandam por relações mais próximas ao cotidiano dos locais que visitam. Nesse ponto, não devemos nos esquecer da importância do material como forma de reportar a memória dos indivíduos e que marcaram a cidade em pontos fixos, algumas vezes, datados de outros séculos sobre o modo de vida e a rotina de cada lugar. Para Gastal, Beni e Castrogiovani (2003, p. 75), “a memória registrada em materiais como pedra, tijolo, ferro e cimento [...] é uma das lembranças fundamentais. Nesses materiais fica gravada aquela energia utilizada para transformar a matéria”. Esta fonte material de memória é a arquitetura que, de acordo com Ribeiro (2003, p. 48), “[...] revela significados gerais em relação aos quais cada pessoa ou grupo de pessoas interpreta sua experiência vivenciada no espaço [...] dentro de certo contexto cultural”. Para Adams (2002), as edificações históricas são testemunhos da passagem do tempo em uma localidade e é evidência visível e tangível que necessita ser valorizada, sobretudo nesses tempos de rápidas mudanças. Essas fontes materiais de memória com o passar do tempo se tornam um meio de interpretação riquíssimo sobre quais eram os estilos e modos de vida seguidos em um determinado período e local da história. De acordo com Gastal, Beni e Castrogiovani (2003), os fluxos também ficam registrados no desenho urbano e, muitas vezes, têm sua organização a partir do porto ou da linha férrea, funcionando assim como um registro de memória. E mesmo que a cidade cresça, podem manter-se gerações após gerações com as características originais de organização do espaço da cidade, como por exemplo, nas ruas serpenteadas das vilas medievais ou nas vilas onde vive a população pobre das grandes cidades brasileiras. As diferenças nas memórias, que ficam incrustadas no tecido urbano são, justamente, o que tornam esses lugares únicos e com forte apelo afetivo para quem neles vive ou para quem os visitam. “Lugares que não apenas têm memória, mas que para grupos 50 significativos da sociedade, transforma-se em verdadeiros lugares de memória” (GASTAL; BENI; CASTROGIOVANI, 2003, p. 77). Com relação à visitação em sítios históricos, Hernández (2003) afirma que, as taxas de crescimento do turismo cultural estão cada vez maiores e o fluxo de visitantes em conjuntos monumentais é cada dia mais numeroso, o que gera uma maior necessidade de criar limites a sua visitação e melhorar a gestão do turismo para garantir a sua sustentabilidade. Pensando no visitante, Hernández M. (2003) afirma que, não apenas a disposição dos objetos pode influenciar na sua mobilidade e comportamento em relação ao patrimônio cultura, mas também a forma como eles são condicionados no patrimônio para a visita. O serviço de informação in situ e recepção dos visitantes, além do condicionamento ambiental da cidade como: correta sinalização, facilidades para estacionar, tratamento dos espaços públicos, imagens prévias do atrativo e as oportunidades que os recursos oferecem ao visitante, de acordo com a autora, também pode influenciar a visitação. Outras variáveis secundárias podem ser observadas como gostos e preferências pessoais, a idade, as condições climáticas, as limitações econômicas, etc. Para que essa visitação ocorra realmente, de forma eficiente, agregando valores para todos os envolvidos é necessário: o conhecimento por parte da população local de seus bens culturais; o Poder Público Municipal capitanear os processos que ocorrem internamente às suas cidades e o empresariado trabalhar sob parâmetros impessoais e em conjunto, para que se rompa com o ciclo que vem normalmente ocorrendo através de intervenções de instituições e/ou pessoas externas à comunidade (SIMÃO, 2001). Outra forma de descobrir se a decisão resulta de uma determinação conjunta entre cidadão e poder público é avaliar de que maneira a população se apropria de um determinado espaço, que pode demonstrar os termos em que tal negociação foi conduzida (MURTA, 2001). Logo, é possível perceber que a ideia principal de preservar a malha histórica é criar condições para que residentes e visitantes se beneficiem disso. Para Arup et al. (1994 apud Oliveira 2003) a cidade histórica precisa funcionar como: uma área para comércio local; um centro para lazer e cultura; um local provido de instalações educacionais e um lugar para viver e trabalhar. Isto geraria condições favoráveis de vivência no mesmo espaço e tempo. Segundo Lohmann e Netto (2008), entre os impactos culturais positivos para visitantes e visitados está: a possibilidade de intercâmbio cultural com ganhos para 51 ambos e resgate da cultura local e de grupos minoritários, que se tornam modelos de valorização da cultura local por meio de programas de conscientização da população. Para isso, baseado nas palavras de Adams (2008) podemos supor que a política cultural no município deve adota novas posturas, priorizando a incorporação dos novos princípios de integração na urbe da cidade, ao invés da seleção rigorosa de bens de valor excepcional, ampliando-se para: grupos de edifícios e paisagens naturais. Além de contemplar: a “conscientização”, através de campanhas; a “profissionalização”, com a qualificação da mão-de-obra para executar a recuperação desse patrimônio; a retirada da fiação aérea e a instalação de postes ornamentais em algumas áreas; a adequação de acessibilidade aos espaços públicos, sobretudo para os portadores de necessidades especiais, propondo-se a padronização do calçamento; instalação de placas identificadoras; cartazes informativos e folhetos. Esse cuidado no tratamento do espaço e edificações se reverte no reconhecimento popular, atestado pela volta de um maior número de usuários. Para Adams (2002, p. 99), “o patrimônio valorizado, incorpora-se à vida do cidadão”. Por fim, Murta (2001) afirma que as restrições à visitação e mudanças estruturais no patrimônio histórico-cultural são necessárias, mas que isso não impede que as pessoas valorizem e respeitem aquilo que compreendam como parte da sua própria história, além disso, quando os turistas aprendem a valorizar e a respeitar a história do outro, terminam por descobrir novas formas de ampliar a sua própria experiência turística. Essa discussão nos cria base para o próximo tópico, onde o patrimônio, muitas vezes, não é constituído por apenas um edifico e que por ser mais atual, ocasionalmente, carece de um programa de preservação eficiente e de visitação que abranja outros elementos relevantes do entorno. E, no qual, o turismo pode se tornar uma forma de valorização dos seus bens, pois traz a tona sua história e conscientiza sobre a importância da permanente manutenção dos seus edifícios e monumentos, que possibilitaria a criação de uma visitação adequada. 1.2.3 Turismo em Patrimônios Industriais e Turismo em Patrimônios Ferroviários O turismo em patrimônio industrial pode ser considerado uma nova forma de turismo, que busca articular uma experiência diferenciada ao seu visitante, onde se pode 52 ter contato com formas de trabalho e inovações tecnológicas que já se tornaram históricas, ou que ainda estão funcionamento. Um dos conceitos mais atuais sobre o patrimônio industrial encontra-se na Carta de Nizhny Tagil, documento do TICCIH de 2003, que inclui referências a outras cartas patrimoniais anteriores, como: a Carta de Veneza (1964) e a Carta de Burra (1994), assim como a Recomendação R(90) 20 do Conselho da Europa. Ainda nessas cartas, são consideradas outras particularidade dos sítios industriais (termo utilizado para referir as paisagens, instalações, edifícios, estruturas e maquinaria) como, por exemplo, as memórias das pessoas que trabalharam nos sítios industriais constituírem uma fonte única e insubstituível que devem ser registradas e conservadas sempre que possível. Sobre a proteção legal do patrimônio industrial é colocado que “devem ser postas em prática medidas legais, administrativas e financeiras, necessárias para conservar a sua identidade”, já que, esse patrimônio possui um elevado valor social como parte do registro de vida dos homens e mulheres comuns e, como tal, confere-lhes um importante sentimento identitário. Além de afirmar que esse tipo de patrimônio faz parte integrante do patrimônio cultural, mas que sua proteção legal deve levar em consideração sua natureza especifica. E sobre reutilização é posto que, em geral, a adaptação de um sítio industrial, para uma nova utilização pretendendo sua conservação, é aceito, levando-se em conta que “as intervenções realizadas nos sítios industriais devem ser reversíveis e provocar um impacto mínimo”. Outros apontamentos da Carta que podemos relacionar com o turismo, mesmo não estando explicito nas suas primeiras normas, estão que: a adaptação coerente, assim como a reutilização, podem “constituir formas apropriadas e econômicas de assegurar a sobrevivência de edifícios industriais, e devem ser encorajadas mediante controles legais apropriados, conselhos técnicos, subvenções e incentivos fiscais”. Daí uma possível reutilização turística planejada, que deve receber apoio das autoridades locais e governamentais, inserindo as comunidades industriais que estão ameaçadas por rápidas mudanças estruturais. Essas medidas são de extrema relevância, pois a rápida transformação nos últimos anos do século XX dos sistemas de comunicação e transporte tem gerado uma perda de função dos elementos emblemáticos do progresso industrial do século XIX, como os portos e as ferrovias. De acordo com Gutiérrez (2001, p. 129), “es evidente que se han perdido notables conjuntos que facilitaban el desarrollo de regiones y ciudades en diversos puntos de nuestro continente” (no caso Europeu). Para evitar isso, em alguns lugares, medidas estão sendo tomadas como uma forma de reciclar os conjuntos 53 industriais, a partir, muitas vezes, da restauração. Sendo que, este é entendido como ação de caráter eminentemente cultural que tem por objetivo, de acordo com a Carta de Veneza (artigo 9 apud Kühl, 2010), "conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e fundamenta-se no respeito pelo material original e pelos documentos autênticos". Ainda, para Kühl (2010) não se trata de conservar tudo, nem, tampouco, de demolir ou transformar radicalmente tudo, pois isso é inviável ou mesmo indesejável. Ao invés disso, é necessário fazer escolhas conscientes, baseadas em conhecimentos teóricos e práticos aprofundados, para que os bens mais significativos possam ser preservados e valorizados. E, para isso, devemos lembrar que os sítios industriais são sempre testemunhos únicos e, mesmo que parecidos entre sim, não são repetíveis, Por isso, as propostas devem estar baseadas em rigorosos critérios. Para a autora, restaurar não é refazer imitando estilos do passado, pois projeto e criatividade fazem parte do restauro. A restauração implica, sempre, em transformações, por mais restritas que sejam, além disso, deve-se ter consciência que mudanças não controladas levam a perdas irreparáveis. Sobre outras intervenções realizadas no patrimônio industrial para facilitar a sua visitação ou dar-lhe novos usos Viñuales (2001) diz que, a reciclagem do conjunto é uma alternativa que tende a dar novo ciclo de vida às construções, o que não significa que se deixará aberta as portas do patrimônio para qualquer alteração drástica, mas que, de algum modo adequará esse ambiente as novas necessidades industriais. A autora afirma que é como voltar a consolidar vínculos com a história local. Para Viñuales (2001), esses novos usos devem considerar o conjunto em sua unidade, como: os edifícios, os jardins e a presença urbana, pois foram eles que ajudaram a manter as funções da indústria. Ainda, para a autora, o estudo da história permitirá reconstruir as etapas de uso e crescimento físico da obra, utilizando-se de fotos, plantas, cartões postais, relatos orais, folhetos publicitários, etc., que funcionam como apoio para compreender o que nos é mostrado pelo conjunto industrial atualmente. Apenas reconstruindo essa história poderemos dar prosseguimento à ideia de intervenção no patrimônio. Considerando, que de todo o modo, deve-se preservar a unidade do conjunto e a de cada edifício em particular nos seus aspectos estruturais e construtivos. A presença urbana do conjunto e sua relação com o entorno também deve ser posta em valor e a inclusão de novas obras, especialmente nas instalações, devem estar contempladas e harmonizadas com os elementos já existentes (VIÑUALLES, 2001). 54 Quando o conjunto industrial esta organizado, podemos dar-lhe uso, muitas vezes, a partir do consumo cultural que, para Pardo Abad (2008), tem se convertido em uma prática muito estendida dentro dos hábitos de ócio e tempo livre, pois o patrimônio industrial tem se mostrado um interessante recurso turístico-recreativo. Com isso, muitos projetos variados têm sido criados com o objetivo prioritário de preservar e valorizar o legado cultural. O autor ainda cita casos de sucesso na reutilização desses espaços industriais como o caso de Blackstone River Valley, transformado em um parque industrial de atração turística e o Emscher Park, transformado para receber novos usos turísticos, culturais, comerciais, de serviço e tecnológico. Para Pardo Abad (2008) o patrimônio industrial constitui uma oferta competitiva e original “[...] frente a otras de carácter más tradicional, que contribuye a aumentar los atractivos turísticos regionales y a generar un desarrollo económico de base local” (PARDO ABAD, 2008, p. 62). Promovendo o aparecimento de um novo tipo de turista, mais preocupado com a cultura do lugar e com a sua experiência, a partir da inserção da sua visita no cotidiano e história local. Esses turistas, geralmente, procuram um lugar não massificado para passar o seu tempo livre. Logo, o turismo em patrimônios industriais constituem uma ótima oferta para lugares sem uma grande tradição turística e que, por isso, não possuem um público elevado. No final da Carta de Nizhny Tagil, explicitamente, são citados medidas de divulgação e preservação do patrimônio industrial, relacionados com o turismo: O interesse e a dedicação do público pelo patrimônio industrial e a apreciação do seu valor constituem os meios mais seguros para assegurar a sua preservação. As autoridades públicas devem explicar activamente o significado e o valor dos sítios industriais através de publicações, exposições, programas de televisão, Internet e outros meios de comunicação, proporcionando o acesso permanente aos sítios importantes e promovendo o turismo nas regiões industriais. (CARTA DE NIZHNY TAGIL, 2003). Nesse caso, verificamos que o turismo também é encarado como uma medida que beneficia o patrimônio industrial, pois gera acesso a esses bens. Pardo Abad (2008) afirma que nos países sem tradição turística o patrimônio industrial tem crescido com grande expressividade, como um recurso cultural para atrair visitantes no norte da Europa, por exemplo. Enquanto que os países com uma vasta tradição turística, com a visita a lugares histórico-culturais e o turismo de sol e praia, o turismo em patrimônios industriais tem sido mais tardio. Entretanto, para o autor, esses países tem se adaptado as transformações experimentadas dentro do setor turístico e consideram o patrimônio industrial uma oferta cultural interessante. 55 Muito desse sucesso esta relacionado com a forma de aplicação do turismo nessas áreas industriais. Areces lista alguns métodos indicados para essa implantação, dizendo que: El éxito en las experiencias ha venido marcado por la propia voluntad política de las administraciones públicas, financiadoras de las primeras fase de las intervención; luego, por la elaboración de un plan director para establecer la hoja de ruta en los complejos y distintos elementos del patrimonio en su relación con las necesidades de los ciudadanos, cada forma y dimensión de las tipologías constructivas de los nuevos recursos en las viejas estructuras dependerá del potencial de reutilización; es fundamental la asunción por parte de ciudadanos y colectividades próximas, también es importante valorar criterios de accesibilidad por medios de transporte, el valor histórico, la calidad arquitectónica de los edificios y la polivalencia de los espacios, la creatividad y diseño para dar valor añadido a la imagen industrial original, la provisión de servicios, la evaluación de estrategias de promoción, políticas con medios humanos y técnicos para la conservación y innovación. (ARECES, 2010, p. 28). Essa aplicabilidade conduzirá aos benefícios de se utilizar o patrimônio industrial para o turismo. Pardo Abad (2008) ainda considera que o turismo em patrimônios industriais é uma modalidade turística de recente e grande desenvolvimento quando comparada as outras formas de uso das antigas zonas industriais, onde contribui para a construção de um futuro promissor, pelas novas perspectivas de emprego para a população local. Pardo Abad (2008) também coloca em evidencia a importância da classificação dos elementos que, uma vez em funcionamento, permitem fazer a aplicação de novos instrumentos de proteção e conservação que garantam sua atração turística e cultural. Outra forma de uso turístico do patrimônio industrial são as rotas turísticas, que são compostas de um conjunto de fábricas ou construções relacionadas com a produção, que se organizam em forma de uma rede dentro de uma área, província ou região do país e que se inicia a partir de um tipo de atividade industrial que a caracteriza. Para Pardo Abad (2008, p. 77) “estas rutas han de estar debidamente señalizadas para que logren suscitar el merecido reconocimiento turístico, así como presentar una imagen integral a partir de la complementariedad entre lugares, servicios y atractivos”. Essas medidas permitem fornecer uma visitação mais agradável e estimulante para os interessados nesse tipo de patrimônio. Conforme Pardo Abad (2008) afirma: as visitas aos vestígios recuperados da industrialização gozam de uma grande popularidade e, em alguns casos, as cifras de visitantes dão ideia do impacto econômico gerado. Para o autor, este turismo não pretende, em nenhum caos, substituir a outros de caráter mais tradicional, mas completar a dita oferta e aumenta os atrativos turísticos regionais. De acordo com 56 Llurdés i Coit (1995, apud PARDO ABAD, 2008), o turismo em patrimônios industriais é uma aposta que abrange algumas áreas do interior e as correntes sustentáveis, ao superar o declive irreversível que experimentou as atividades produtivas tradicionais. Pardo Abad (2008) finaliza dizendo que o turismo em patrimônio industrial exige a adequação das instalações a sua nova funcionalidade didática e cultural, que é o turismo, assim como, o desenho das rotas dentro de um mesmo território dos distintos complexos que serão visitados. O autor afirma que a interpretação deste patrimônio deve considerar o entorno espacial e o contexto temporal em que se tem expressado a industrialização, ajustando a sua atuação ao objetivo de os fazerem plenamente compreensíveis. Neste trabalho, temporal e espacialmente, têm-se dando importância aos elementos ferroviários brasileiros, logo, também é necessário fazer uma explanação específica sobre este caso. Assim, Allis afirma que: Além dos aspectos técnicos – muito caros no tocante à logística turística – os sistemas ferroviários legaram marcas culturais, inclusive no plano do território, expressas no mobiliário, no material rodante e nas relações sócioculturais. A ferrovia, em que pese um percurso histórico pontuado de vicissitudes, oferece atualmente estruturas remanescentes que podemos julgar como patrimônio cultural, por seu simbolismo cultural e sua significância histórica em escalas local, regional e nacional. Daí constata-se a importância da ferrovia e todas suas formas de representação no desenvolvimento turístico. (ALLIS, 2010, p. 31). Mostrando o quão importante, no aspecto cultural, às estruturas materiais das antigas ferrovias tornaram-se para os territórios que gostariam de desenvolver o turismo, maior até mesmo do que o seu real funcionamento, pois como comenta o autor, revitaliza-los para se movimentarem (como algumas locomotivas) se torna um procedimento muito caro para considerarmos essencial no desenvolvimento turístico regional de algumas cidades. Porém, nas regiões que possuem estruturas para criar os chamados trens turísticos, Reis (2010) afirma que, andar neles ainda não é uma atividade consolidada no Brasil, mas isso não significa que as pessoas não possuam interesse nesse tipo de passeio. Para tanto, algumas cidades, principalmente, nas regiões Sul e Sudestes dispõem de boa quantidade desse tipo de lazer, que tem por objetivo preservar a memória ferroviária mais antiga. Onde “[...] seus vagões são tracionados por locomotivas a vapor que dão maior emoção à viagem, trazendo de volta o saudosismo para uns e um lado inteiramente novo, no caso dos que são mais jovens [...]” (REIS, 2010, p. 01). Considerando ainda que, geralmente, esses trens passam por paisagens 57 importantíssimas da história nacional, contando um pouco de como era a vida antigamente e ressaltando as características culturais do lugar. Nesse caso, podemos inserir as rotas dos trens turísticos nos princípios de Boullón (1997, p. 81) sobre os corredores turísticos de traslado que “constituyen la red de carreteras y caminos de un país a través de los cuales se desplazan los flujos turísticos para cumplir con sus itinerarios”. Ainda, para esse autor, esses corredores são significativos para o desenvolvimento do turismo, porque seleciona algumas rotas para submetê-las a um regulamento especial com base no turismo, transformando o caminho também em um atrativo. Allis (2010), afirma ainda, que o turismo cultural ferroviário pode ser uma alternativa para completar as atividades clássicas como visitas em museus, teatros e galerias. E pode ser entendido como “elemento contemporâneo integrador das relações sociais proporcionadas pela memória da ferrovia e seu remanescente material, especialmente, estações e material rodante” (ALLIS, 2010, p. 41). Ainda, para o autor, o turismo deve respeitar os “contextos sociais locais e regionais, da natureza da gestão entidade e do desenvolvimento turístico específico das regiões em pauta” (ALLIS, 2010, p. 31). Ou seja, se adaptar as relações político-sociais de cada região. Por fim, o autor acentua a pertinência de demandar informações sobre os usuários, tanto visitante como comunidades receptoras, que ajudarão a consolidar o produto e refinar a oferta. Além de inserir as contribuições de trabalhos acadêmicos de graduação e pós-graduação, criando o estimulo de investidores, empresário e poder público para desenvolver a atividade turística já estudada por profissionais, bem como, preservar e valorizar o patrimônio cultural ferroviário. Todas essas características peculiares do patrimônio industrial e, principalmente, ferroviário, no caso brasileiro, mostram a importância de preservá-los e difundi-los como atrativo turístico. Trazendo benefícios para a população local, como forma de manter a memória local, além de gerar fluxo na economia e benefícios para os visitantes interessados em conhecer uma nova perspectiva do patrimônio industrial - tido muitas vezes apenas como áreas de trabalho abandonadas -, entendendo melhor a história dessas cidades e tendo uma experiência verdadeira de inserção na cultura local e nos modos de produção e organização espacial do lugar visitado. 58 II – História e Preservação das Estruturas Ferroviárias em Mairinque 2.1 Descritivo sobre a história e situação atual da antiga Vila Ferroviária de Mairinque No estado de São Paulo, a menos de 100 quilômetros da capital, existe uma pequena cidade chamada Mairinque, com 43.223 habitantes (IBGE, 2012) que hoje possui um acervo patrimonial industrial ferroviário inestimável, mas que está sofrendo com a ação do tempo e a falta de um plano de preservação mais eficiente. Figura – Mapa de localização e limites geográficos de Mairinque, 2013 Fonte: Google Maps A criação da Vila Ferroviária de Mairinque está intimamente ligada aos interesses da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, constituída no período de 1870. A Companhia Sorocabana foi fundada por Luis Mateus Maylasky – ligado a Roberto Dias Baptista, um grande produtor de algodão da região de Sorocaba – que viu a oportunidade de expansão do comércio do algodão por meio do transporte férreo. Apesar da conexão com a linha da São Paulo Railway, que tinha saída para o porto, a linha projetada pela Sorocabana cobriria um trecho de 170 km e iria se distanciar da capital paulista. O projeto foi alterado para o trecho de São Paulo a São João de Ipanema, passando por Sorocaba, com as mesmas garantias e privilégios 59 vigentes para as demais ferrovias. Aproveitou-se assim também da concessão de transporte de ferro fundido da antiga fundição Real Fábrica de Ipanema através de São Paulo e conexão férrea à então capital do Império brasileiro, no Rio de Janeiro. Em 1876, a Companhia passou por uma grave crise financeira, ocasionada pela crise do algodão, seguida da ameaça de retirada da concessão da linha para Ipanema (COMPANHIA, 1879). Em 1880, Luis Mateus Maylasky, responsável pela organização da Sorocabana, foi afastado da sua presidência e assumiu seu lugar Francisco de Paula Mayrink. Ramos (2008) afirma que esse Presidente trouxe desenvolvimento para a Companhia, levando os trilhos até Tietê, obtendo a concessão imperial para construir um ramal férreo até Santos (1883) e realizando a fusão com a Companhia Ituana pela compra total de suas ações. Para Ramos (2008), após a fusão entre as duas companhias, finalmente pôde-se concretizar a ligação férrea entre elas. Mas, para isso, a então CIA União Sorocabana Ituana, teria que construir uma variante na altura do quilômetro 70, para unir as duas linhas e construir uma estação no quilômetro 75. Para isso, segundo Ramos (2008), a Companhia adquiriu a Fazenda Canguera (1893), com propriedade de 264 alqueires que pertencia a Manuel Joaquim da Costa Nunes e não passava de um sítio solitário, cuja sua denominação se originava de uma palavra indígena que significa ossada, talvez porque ali existisse um antigo cemitério da tribo Guarany. Nos relatórios da época sobre a compra e desenvolvimento dessa área para interesses da Companhia, lê-se que: Projectando a Companhia vender os terrenos, que possue nas immediações desta estação para formar ahi uma povoação, foi levantado o terreno n'uma área de 125 hectares ou cerca de 52 alqueires paulistas, dos quaes ficam destinados 72 hectares approximadamente para as futuras officinas centraes da Companhia, para as moradias do pessoal das mesmas e para mais necessidades futuras, sendo os restantes destinados para a futura povoação. A planta elaborada previne por ora 355 lotes, com uma área média de 800 metros quadrados (20 m de frente por 40 m de fundo), variando as áreas entre 460 m. q. e 1.400 m. q. e mais duas chacaras, com uma área total de 331.464 metros quadrados. Os 6 largos projectados, as avenidas e ruas representam uma área de 199.109 m. quadrados ou cerca de 38% da área total da povoação. O projecto teve assim em vista garantir boas condições hygienicas para a futura povoação que pela sua posição no cruzamento de linhas importantes e altitude de 870 metros sobre o mar, pelo seu clima sadio e pela faculdade de obter-se agua das cabeceiras proximas do Rio Piragibú, além da facilidade de prevenir-se exgotos em tres direcções, poderá tornar-se no futuro um ponto importante. (GIESBRECHT, 2012). Mostrando o planejamento e cuidado na divisão territorial, buscando facilitar a instalação das futuras oficinas e residência para funcionários, que não deveria se desenvolver de forma desordenada, mas respeitando as especificações da empresa, que 60 buscou uma área com facilidades estruturais como: clima sadio e acesso à água. Além da proximidade da futura Vila com Itu, Sorocaba, São Paulo e até mesmo com o litoral. Inicialmente, parte do terreno adquirido seria destinado a construção da estrada de ferro, enquanto as outras seria loteadas e vendidas, porém pela importância cartográfica da região, onde correria todo o tráfego vindo de Itu e de Sorocaba, além da futura ligação com o litoral, a Diretoria da Empresa resolveu transferir as oficinas da ferrovia que se encontravam em Sorocaba para essa região com a intenção de conter os reparos necessários com o aumento de fluxo da estação (CONDEPHAAT, 2010). Soukef (2001) afirma que, antes mesmo de haver a ocupação efetiva da área, a Companhia se preocupou ainda em instalar o horto florestal, uma oficina de manutenção de locomotivas, um depósito de material rodante e um pátio para manobra. Proporcionando o desenvolvimento da Vila. Ramos (2008) diz que a Vila foi um empreendimento de responsabilidade de Manoel Teixeira da Silva Cotta e Alberto Kuhlmann, que eram incorporadores da Companhia e tinham por intuito construir um conjunto de 100 pequenas casas que seriam alugadas aos empregados enviados pela Companhia para construir o pátio de manobras, as oficinas e a estação. Com relação à constituição da Vila de Mairinque pela Sorocabana, de acordo com o Jornal Estado de São Paulo (1890 apud Soukef, 2001, p. 72),“com um capital de cinco mil contos de réis e, tendo já adquirido grande quantidade de terrenos, a nova empresa propõe construir uma vila para operários em lugar salubre e com todas as comodidades, adaptadas à economia das classes menos favorecidas”. Destacando a importância dada aos seus funcionários. Para Dias (1994), já no nascimento da Vila é possível perceber que esta é perpassada pela modernidade, pois já era uma vila operária em 1890, se instalou como uma prótese no meio de uma floresta e foi um empreendimento capitalista (novidade ideológica no Brasil). O engenheiro Kuhlmann se preocupou ainda com o projeto urbanístico da Vila, “[...] dotando o futuro núcleo com equipamentos e serviços pouco usuais na maioria das cidades tradicionais da época, tais como, abastecimento de água, esgoto e iluminação” (SOUKEF, 2001, p. 72). Dias (1994) complementa dizendo que as ruas também eram bem afastadas, mesmo sem ter um carro sequer até a década anterior. A Vila foi fundada em 27 de outubro de 1890 com o nome de Cangueira e apenas dois anos mais tarde mudou o nome para Mayrink, em homenagem ao seu idealizador (SOUKEF, 2001). Inicialmente possuía 100 casas iguais para os seus funcionários, duas biroscas, botica e uma pequena escola – a primeira da região – para 61 os filhos dos funcionários. Era uma vila bem arrumada, situada na clareira da mata (CONDEPHAAT, 2010). Para atender ao tráfego devido à fusão com a Ituana, foi aberta a estação de Mayrink em 1897, feita de modo provisório de trilhos e madeira com duas plataformas de 400 m, com caixa d‟ água, além de triângulo de reversão “também provisório”. Nesta condição “provisória” ficou até a construção da outra em 1906 (COMPANHIA SOROCABANA... 1897, p. 70). Em 1902 a Companhia passou por uma grave crise financeira gerada pelos sucessivos empréstimos feitos pela ferrovia para prolongar suas linhas. Por consequência disso, foi levada a leilão em 1904 e adquirida, no ano seguinte, pelo governo do Estado. Isso explica porque um prédio tão importante com a estação de Mayrink permaneceu com características tão simples por tanto tempo (RAMOS, 2008; CONDEPHAAT, 2010). Segundo Ramos (2008), durante esses anos (1902 – 1907) de responsabilidade do poder público, a Sorocabana foi administrada por Casemiro Costa no primeiro ano e depois por Alfredo Eugênio de Almeida Maia que desempenhou um importante papel para o surgimento da nova estação e o desenvolvimento da “Vila Mayrink”. De acordo com Soukef (2001), foi a partir de 1904 que a Vila melhorou e deram-se suas feições definitivas. Entre seus novos atributos urbanísticos, Soukef (2001) cita, as ruas de traçado ortogonal que foram abertas e as residências de alvenaria construídas. Além dos duzentos prédios de moradia, seções de fundição de ferro e bronze, oficinas centrais da estrada, teatro, cadeia, escola, cartório e a estação, que também foi construída nesse período. A Estação de Mayrink projetada pelo arquiteto Victor Dubugras, no ano de 1906, em concreto armado com linhas simples era considerada original e funcional. Segundo Ramos (2008, p. 02), a estação surgiu porque Mairinque já vinha abrigando as oficinas da Sorocabana e “[...] requeria uma estação compatível com essas funções: edificação de certo porte e com duas plataformas de passageiros facilitando a passagem simultânea das composições”. De acordo com Soukef (2001), a estação fugia do padrão estabelecido para os edifícios ferroviários da época, que geralmente seguiam os moldes europeus (como a estação da Luz) e tornou-se um marco arquitetônico de características únicas. Kühl (1998, p. 174) afirma que a estação ferroviária de Mairinque, inaugurada em 1908, possui uma linguagem estrutural bastante inovadora para a época no Brasil, aplicando “uma forma prototípica de concreto armado, na verdade uma ossatura metálica revestida de cimento”. Pujol Jr. (1908) atribuem diversas qualidades a estação 62 ferroviária como o bom senso, a simplicidade, a originalidade e a sobriedade da composição arquitetônica. Sobre seus atributos estruturais diz que: A bella composição do Sr. Dubugras tem sobre todos, este grande mérito de convencer da possibilidade de fazer bella uma obra de cimento armado os descrentes da esthetica do novo systema de construcção, os que acreditam que o único meio de tornar attraente uma obra executada com esse material é esconder a natural rigidez geométrica das formas que decorrem da construcção mesma, fazendo-a desapparecer sob succivas camadas de esboço e reboco, que docilmente se deixam modelar na mais abominável pastellaria [...]. (PUJOL Jr., 1908, p. 189). Mostrando que justamente a beleza do edifício se encontrava em sua forma fria, simples e funcional. Pujol Jr. (1908) ainda afirma que a utilização do concreto armado era extremamente compreensiva, pois o edifício estava situado em um solo natural de forte declive, o que exigia camadas mais profundas, além da sua estrutura ser composta por trilhos inutilizados, reutilizando materiais que não serviam mais para o seu propósito inicial. Outra inovação, afirma Toledo (1985 apud DIAS 1994), era que Dubugras utilizou mão de obra local e a sucata para fazer o edifício, optando pela renovação estética arquitetônica, com leveza, beleza e funcionalidade, tão presente nos grandes centros urbanos nos dias de hoje. Para Pujol Jr. (1908) a disposição da estação também era extremamente pratica, deixando ao imediato alcance de seus passageiros todas as facilidades necessárias e todos os serviços essenciais de compra como: bilhete, telegrafo e despacho. Além do interior da estação, ser confortável, arejado e claro, mantendo a simplicidade na ordenação (PUJOL JR. 1908). A estação ainda possui a particularidade de ser uma estação em “ilha”, sendo a estação central cruzada lateralmente pelas duas linhas (KÜHL, s.d.). O acesso à estação fazia-se por meio de um túnel aberto no subterrâneo, abaixo dos trilhos e que servia para ligar as duas partes da cidade, o que não apresentava risco de morte para seus passageiros, pessoas que queriam cruzar a cidade e nem para a manutenção de serviços de sinalização (CONDEPHAAT, 2010). Além do arrojado projeto de Victor Dubugras para a estação, Alfredo Maia também incentivou os serviços de saneamento da Vila, que foi planejado pelo engenheiro Bernabé Quiroga. Esse engenheiro organizou uma completa rede de esgoto, também em estrutura de concreto armado com epuração biológica da água, que depois de tratada ia parar cristalina dentro de um pequeno ribeirão (PUJOL JR., 1908). A “Vila Mayrink”, ainda no começo do século 20, possuía uma iluminação a acetileno que abrangia os três quarteirões ocupados pelas casas dos funcionários e suas 63 famílias, os alojamentos para os funcionários solteiros e estabelecimentos comerciais como armazém, bar, farmácia e uma escola. Nos anos seguintes, começou a funcionar também o Horto Florestal na vila, com produção de lenha combustível para as locomotivas e dormentes para os trilhos (CONDEPHAAT, 2010). Desde 1920, a área da Fazenda Mayrink (264 alqueires) passou a ser utilizada como horto florestal, com plantio de 5.700 pés de eucaliptos; e rapidamente ampliados para 95 mil, em 1922, e 179 mil, em 1923 (ESTRADA..., 1920, p. 14, 1922, p. 20, 1923, p. 34). Este tipo de reflorestamento já era promovido pela Companhia Paulista, que tinha vários hortos desde 1907 com a produção de lenha combustível para as locomotivas e dormentes para os trilhos, devido aos altos custos do carvão combustível ou para a compra e locomoção de lenha em matas virgens (OLIVEIRA, 2013). O rápido desenvolvimento da ferrovia na cidade de Mairinque permitiu a contratação de novos funcionários em grande quantidade, que vinham de várias partes do país como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, fazendo-se necessários criar novos alojamentos mais confortáveis para as famílias dos empregados da Companhia, que formavam grande parte da população. Além da construção de novos estabelecimentos como um hotel, novas lojas e três quarteirões que constituíram a zona central da cidade (PREFEITURA DE MAIRINQUE, 2012). Outros estabelecimentos foram construídos para melhorar a qualidade de vida na Vila, como farmácias, escolas, posto policial, açougue, entre outros. Ainda nos anos 20 foi introduzida a energia elétrica na Vila, abandonando-se o sistema de iluminação a acetileno (FIGUEIREDO, 1997). Mairinque abrigava as oficinas da Sorocabana desde o início do século e, por isso, funcionaram ali diferentes sessões de manutenção: fundição de peças, serraria, construção de carros e vagões. Nelas realizavam-se ainda os serviços de reparos e de manutenção dos materiais rodantes - que tiveram um galpão construído em 1910 e que foi reformado e ampliado em 1947 (COMPANHIA... 1905; SOROCABANA, 1910). Até a década de 1930 a cidade conheceu grande fase de prosperidade, enquanto abrigou as oficinas da Companhia EFS, que realizavam os serviços de reparo e de manutenção dos materiais rodantes. As oficinas tinham importante função dentro de uma ferrovia e estiveram intimamente ligados ao crescimento da “Vila Mayrink” (CONDEPHAAT, 2010). Ainda na década de 1930 as oficinas de reparação e funcionários foram transferidos para Sorocaba, o que provocou a decadência de Mayrink, observando-se o esvaziamento populacional e a diminuição das atividades 64 sócio-econômicas e culturais, pois grande parte da sua população era funcionário da ferrovia (CONDEPHAAT, 2010). Ainda nessa década, sobre os trilhos, Matos (1990) afirma que, a construção do trecho ligando Mairinque a Santos não foi fácil, mas o resultado do esforço empregado garantiu a importância e as particularidades que a destacam: [...] é um dos mais admiráveis exemplos do esforço e capacidade da engenharia brasileira, pois o meio geográfico quer pelo relevo e natureza do solo, quer pelo clima, ou quer ainda pela floresta, opôs sérias dificuldades à construção, mas que foram finalmente vencidas. Foi preciso perfurar 31 túneis e construir inúmeros viadutos. Essa região é uma das mais úmidas de todo o litoral brasileiro e, além disso, na parte baixa, a malária ameaçava dizimar os trabalhadores, até que, em 1933, a luta foi rigorosamente dominada pelo quinino, assistência médica etc. O índice malárico, que era de 16, 5% em 1929 foi reduzido pra 1, 54% ao inaugurar-se a linha em 1937. As vantagens dessa ligação ferroviária são evidentes: além de quebrar o monopólio da companhia inglesa, facilitava as comunicações pela igualdade de bitola com as demais estradas do interior, com exceção única da Paulista que, por ter toda a sua linha tronco e alguns ramais na bitola de 1,60 m, não podia se interessar por outra via, que não fosse a Inglesa. (MATOS, 1990, p. 138 e 139). Os trilhos de Mairinque, junto com outros da antiga Companhia Sorocabana foram administrados pelo governo paulista a partir de 1919, devido à situação precária do seu grupo detentor até então, Percival Farquhal, que arrendou a linha em 1907 (GIESBRECHT, 2012). Ainda para o autor, assim foi até 1971, quando a Estrada de Ferro Sorocabana foi uma das ferrovias que formaram a estatal FEPASA - Ferrovia Paulista S.A, que era composta por cinco empresas privadas: Companhia Paulista Estradas de Ferro, Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, Estradas de Ferro Sorocabana, São Paulo – Minas e Estrada de Ferro Araraquara. Isso devido ao declínio da atividade ferroviária face à expansão do modal rodoviário desde os anos 50 (FATEC/JUNDIAI, 2011). No final da década de 1940, Mairinque retomou seu crescimento econômico baseado em outro tipo de atividade, com a implantação da cultura de hortaliças e frutas, tornando-se conhecida pela produção de pêssegos. A partir do ano de 1958, elevou-se a categoria de município e emancipou-se de São Roque (município ao qual fazia parte) e adotou a política de incentivo a outros estabelecimentos industriais, “[...] resultando na implantação de seu parque industrial composto por cerca de 26 fábricas que constituem sua principal fonte de arrecadação de receitas” (CONDEPHAAT, 2010, p. 74). Porém, a memória ferroviária se encontra em depoimentos cedidos à Dias em 1994, onde os lugares de lazer são evidenciados, como o Horto Florestal para os piqueniques de domingo, considerado cartão postal da cidade e a estação como lugar de 65 passeio das “mocinhas”. Além das peças de teatro realizadas por atores da própria Vila e atividades estimuladoras como o futebol e cinema (DIAS, 1994). De acordo com a revista Cruzeiro do Sul (1988), a Vila de Mayrink, que recebeu o nome de seu fundador, “(...) deveria ser um duplo marco: primeiro porque representava a expansão da estrada de ferro; segundo porque dessa vila nasceria um dos municípios mais desenvolvidos da região”. Mostrando a evidente importância do núcleo fábril criado em ambos os casos. Soukef afirma ainda, com relação à Vila Ferroviária atualmente, que: As antigas moradias constituem hoje o núcleo central da cidade, mantendo, a maior parte delas, uso residencial. De modo geral, encontram-se conservadas e íntegras, mesmo levando-se em conta o fato de alguns exemplares apresentarem alterações decorrentes de reformas descaracterizadoras. São um importante testemunho dos primeiros conjuntos de habitação coletiva para operários realizada no país. (SOUKEF, 2001, p. 75). Isso nos mostra a importância não apenas da estação, mas da vila por seus aspectos históricos culturais e integridade até os dias de hoje, contemplando o seu possível valor para os moradores locais. 2.1.1 Tombamento da Estação e medidas de preservação em Mairinque Em 1986, a Estação Ferroviária de Mairinque já de propriedade da FEPASA foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) que promove a proteção dos bens em nível estadual. Os atributos que permitiram o tombamento histórico-arquitetônico da estação eram por esta ser considerada: pioneira no uso de estrutura de concreto armado, primeiro exemplar da arquitetura moderna no Estado, produção das mais significativas do arquiteto Victor Dubugras e o fato de a FEPASA ter anunciado que faria amplas reformas na estrutura do prédio para o seu desenvolvimento durante o ano de 1984. Durante o processo de tombamento outros bens da antiga Sorocabana foram cogitados ao tombamento, como as oficinas de reparação e de manutenção, por representarem uma importante função dentro de uma ferrovia e estarem intimamente ligadas ao crescimento da Vila, representando uma importante fase histórica. Além de ser proposto, por um dos membros pareceristas do processo, o tombamento municipal de Mairinque. Porém, apenas a estação foi tombada, principalmente, por seu prestigioso estilo arquitetônico inovador. 66 Giesbrecht (2012) afirma que os trens de passageiros de longo percurso trafegaram pela linha-tronco (como era denominada a área da estação, pois nela se cruzava a linha que vinha de Sorocaba, com a que vinha de Itu, que descia em um único ramal para Santos) até o ano de 1999, quando foram suprimidos pela concessionária chamada FERROBAN, sucessora da FEPASA, que assumiu os trilhos da região de Mairinque. Durante nossa pesquisa, observamos que estes atualmente estão sob concessão da ALL junto com outros bens da extinta Sorocabana, que ainda estão sob utilização dessa empresa, como as oficinas e alguns vagões. Em 1998 a FEPASA foi incorporada a RFFSA4 e, logo, os bens imóveis, como a Estação Ferroviária de Mairinque, passaram a ser geridas por essa entidade. Ainda nesse ano, o IPHAN abriu um processo de tombamento para a estação (processo n°1434-T98), perante a eminente falta de manutenção da estação desde a privatização da FEPASA, o que piorou o seu estado de conservação constatado a paritr de uma visita realizada pelo próprio Instituto (CONDEPHAAT, 2011). Em 2002 foi definido o tombamento provisório da estação por este órgão, sendo usado como justificativa o fato da obra, segundo Nestor Goulart Reis (conselheiro do IPHAN na época), ajudar a entender o pensamento dos modernistas da época, sendo por isso uma ferramenta da cultura nacional (ESTADÃO, 2002). Além da estação, o documento de tombamento provisório (vide documento 02 em anexo) também define o entorno do bem, que recebe tutela especial ao: Polígono formado pela rua Luiz Matheus Maylask, prosseguindo pelo prolongamento do eixo da rua Elias Sodré até encontrar a rua Dr. Jonas Zabrocks, prosseguindo por esta até encontrar o prolongamento do eixo da rua T. Zechchi, prosseguido por esta até encontrar a rua Luiz Maylask, fechando o perímetro. (OFÍCIO Nº 323/02, IPHAN ). Sendo que, esta área a partir de então estaria sujeita a avaliação posterior do IPHAN e era considerada de importância secundária em relação ao bem principal: a Estação Ferroviária de Mairinque. O processo finalizou-se em 2004 com a inscrição da estação no livro de Belas Artes do Patrimônio Material Nacional (IPHAN, 2009). Sobre o uso da estação, desde o final da década de 1990 com a finalização do tráfego de trens de passageiros, a estação encontrava-se fechada, por falta de interesse operacional (SOUKEF, 2001). No começo do século XXI a RFFSA começou a liquidar 4 Em 1957 o Governo Federal fez a fusão das 18 ferrovias regionais de sua propriedade, constituindo a denominada Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA) que tinha o objetivo de promover e gerir os interesses da União Federal no setor de transportes ferroviários. A RFFSA foi extinta em janeiro de 2007 (RESCHKE, 2007). 67 seus bens, inclusive a Estação de Mairinque que, em 2004, foi adquirida pela prefeitura da cidade, que a transformou no “Centro da Memória ferroviária de Mairinque” (GIESBRECHT, 2012). Em 11 de julho de 2006, foi fundada a Associação Mairinquense de Preservação Ferroviária (A.M.P.F.), para que fosse possível resgatar e preservar a história e a origem da cidade. De acordo com A.M.P.F. (2008), esta é uma entidade “civil, apolítica, de caráter cultural, sócio-pedagógica, instrutiva e recreativa, sem fins lucrativos, que tem como objetivo o resgate, preservação, valorização e divulgação da história [...]”, principalmente as que se referem à ferrovia. Até 2008, a Associação contava com quase 200 sócios que ajudavam na realização desse trabalho (A.M.P.F., 2008). Entre as iniciativas realizadas pela A.M.P.F. esta: a inauguração da sede em uma das salas da antiga estação para fazer o atendimento aos associados, pessoas admiradoras da ferrovia, escolas e etc. Além de iniciativas mais ousadas como a realização de um desfile (em parceria com a loja COSI) na própria estação, em 2006, onde foram apresentadas as vestimentas dos operários da Sorocabana e dos frequentadores das estações de antigamente. Em 2007, a Sra Maria Cândida Bertolini (responsável pela estação na época) junto com A.M.P.F. trouxe para a estação um show musical com a cantora Ivette Matos, que canta músicas do consagrado compositor Lamartine Babo. De acordo com a Associação, esse show teve apoio da Prefeitura Municipal de Mairinque através da Divisão Cultural e atraiu grande público à antiga estação. Anualmente, também tem ocorrido a comemoração do dia do Ferroviário, que ocorre em Abril e busca transformar essas pessoas em símbolo de referência para a cidade. Por fim, no dia 7 de setembro de 2008 a A.M.P.F. promoveu a realização de um desfile civil, onde foram apresentados os componentes com seus trajes ferroviários originais e as autoridades presentes foram presenteadas com o saudoso apito do chefe de trem. Essas iniciativas mostram o interesse real da Associação na preservação da memória ferroviária da cidade. Na qual, uma de suas principais metas, desde a sua constituição, é a implantação de um trem turístico cultural na região, a principio utilizando a antiga Maria Fumaça chamada Cecília, que se encontra no centro da cidade (A.M.P.F., 2008). Há alguns anos a possibilidade do trem turístico entre Mairinque e São Roque (cidade vizinha), vem sendo discutida. De acordo com o Jornal de São Roque (2011), os membros da prefeitura de São Roque e de Mairinque se reuniram com a ALL, responsável pela linha férrea da região, que se comprometeu a autorizar o uso da linha para o trafego da Maria Fumaça adquirida por São Roque. De acordo com o 68 Prefeito de São Roque, Efaneu Nolasco Godinho (PREFEITURA DE SÃO ROQUE, 2011) a cidade possui três carros de passageiros, duas locomotivas, um carro madrinha e um chassis, além da estação estar sendo reformulada para receber turistas. Sobre Mairinque, a partir de 2013, a cidade recebeu um programa que inclui, inicialmente, a restauração, execultada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) das fachadas de algumas das casas que pertenciam a antiga Companhia Ferroviária (G1, 2013). 2.2. Descritivo do processo de tombamento da Estação Ferroviária da cidade de Mairinque – Processo N° 24383/86 Por iniciativa da câmara Municipal de Mairinque, através de um ofício a Secretária de Estado da Cultura e ao Senhor Governador do Estado, em 1983, pediu-se o tombamento da Estação Ferroviária da FEPASA naquele município, devido principalmente ao seu pioneirismo, pois era considerada a primeira obra com estrutura em concreto armado do Estado, além de ser uma obra representativa do arquiteto Victor Dubugras. Considerando ainda a possível ameaça de descaracterização que a estação sofria na época da abertura do processo, por reformas que seriam realizadas pela FEPASA. O processo de tombamento foi finalizado apenas em 1987, quando a estação foi inscrita no livro do Tombo Histórico. Em 1983 o vereador Paulo Assini Junior enviou o requerimento n° 116/83 de interesse da Câmara Municipal de Mairinque para o Presidente e Vereadores referente ao tombamento do prédio da FEPASA em Mairinque, por causa de reformas procedidas pela ferrovia para a implantação de novas linhas no subúrbio, que estavam mudando totalmente as estações. Para o Vereador (folha 04) “considerando o valor histórico e cultural da Estação da FEPASA em Mairinque, pois foi a 1ª obra de concreto armado do País”, esta deveria ser tombada. Nesse requerimento ainda é enfatizado que a sua conservação: [...] não permite alterações no prédio, que se oficie também a todos os clubes de serviço, Loja Maçônica, Clubes Esportivos e outras entidades que representem uma parcela da Sociedade solicitando das mesmas Ofício de apoio a essa iniciativa. (CONDEPHAAT, 1983, folha 02). Uma cópia do requerimento 116/83 foi encaminhada à Secretária da Cultura que, em 24 de janeiro de 1984 foi finalmente encaminhado ao CONDEPHAAT para exame e manifestação. Entre as pesquisas realizadas pelo CONDEPHAAT sobre a estação 69 constam partes da Revista Polytecnica de 1908, que atribui varias qualidades funcionais a estação, principalmente por sua originalidade arquitetônica e sua praticidade. Em 20 de Março de 1984 Silvia Ferreira Santos Woff (arquiteta) mandou uma resposta sobre o Requerimento 116/84 de Tombamento para a Secretaria de Estado da Cultura no qual afirmava: (...) solidarizarmos à intenção de preservação da Estação Ferroviária de Mairinque, de reconhecida importância e solicitamos o cumprimento da Ordem de Serviço 1-81, que estabelece a documentação necessária à abertura do Guichê de tombamento. Juntamos ainda, copia de oficio enviado à FEPASA solicitando informações sobre os planos de reforma para aquele edifício. A reposta [sic] a esta consulta, recém-recebida nos revela que se pretendem obras de grandes proporções, estas obras devem ser realizadas criteriosamente a fim de não comprometer a unidade arquitetônica do edifício. Anexamos minuta de resposta à FEPASA através da qual solicito que o CONDEPHAAT acompanhe os procedimentos futuros relativos à reforma da estação e que se estabeleça com presteza um funcionário com o qual possamos contactar. (CONDEPHAAT, 1983, folha 14). A FEPASA respondeu ao Ilustríssimo senhor Diretor Técnico Substituto da Secretaria de Estado da Cultura, Marco José Carrilho, de quais restaurações estavam previstas, as quais incluíam: reparação geral dos banheiros, troca de todo o revestimento do prédio e pintura geral. Em 10 de Setembro de 1984, Bernardo José Castello Branco da Secretária de Estado da Cultura, chefe de projetos, pede ao arquiteto Hugo Segawa para proceder os estudos, tendo em vista o tombamento, no qual afirmava que a Estação Ferroviária de Mairinque era considerada um dos monumentos mais respeitados de São Paulo, pois era obra pioneira no uso de estrutura em concreto armado e uma das obras mais representativas do arquiteto Victor Dubugras. E justamente por isso tornava-se urgente adotar medidas para o seu tombamento, que estavam contidas no (folha 20) “[...] Ofício/ STCR nº 455/83, dirigido ao Dr. Geraldo Xavier de Lima, residente da Câmara Municipal de Mairinque, já que nos parece iminente o perigo de sua descaracterização através de reformas”. Como resposta, Hugo Segawa confirmou a necessidade da imediata abertura do processo de tombamento do prédio no CONDEPHAAT. Considerando as diversas manifestações, a importância do imóvel e o fato do presente expediente (SC 314/84), que tinha origem na secretária da Cultura, não assegurar proteção legal ao imóvel. Em 1985, o Conselheiro Pe. Jamil Nassil Abib, da Secretária de Estado da Cultura propõe, devido às particularidades da estação e eminente possibilidade de 70 descaracterização, que (folha 23) “[...] se inicie o competente processo de tombamento, como forma de assegurar proteção legal ao imóvel, bem como a instrução devida”. Em 1986, Modesto Souza Barros Carvalhosa, Presidente do CONDEPHAAT de 1984 a 1987, pediu então a inclusão da abertura do processo de tombamento da estação de Mairinque, obtendo aprovação unânime do Conselho. Nesse mesmo ano, Modesto Carvalhosa informou ao Presidente da FEPASA, Sebastião Hermano Leite Cintra, a abertura do processo nº 24383/86 destinado ao tombamento do prédio da Estação Ferroviária da FEPASA no Município de Mairinque, de propriedade dessa empresa e informou que (folha 25) “[...] a deliberação do Conselho de abertura do processo assegura, desde logo, a preservação do bem até final da autoridade competente”. E, nesse caso, apenas o CONDEPHAAT poderia autorizar qualquer modificação no prédio, para evitar descaracterizações. Modesto Souza Barros Carvalhosa mandou o mesmo documento, que foi enviado ao Presidente da FEPASA, para o Prefeito Municipal de Mairinque José Luiz Bellini e para o Delegado Titular da Policia Civil Dr. Antônio Orlando Rago. Em janeiro de 1986, Judith Monari, diretora Substituta do CONDEPHAAT, encaminhou os autos ao Serviço Técnico de Conservação e Restauro (STCR) à historiadora Celine Kuniyoshi para a devida instrução com vista ao tombamento do bem em questão. Em maio de 1986, o Presidente do CONDEPHAAT Modesto Carvalhosa pediu ao Prefeito Municipal José Luiz Bellini a documentação existente em Mairinque, como fotos, plantas, histórico, reportagens, etc., acerca da Estação Ferroviária e da antiga Estrada de Ferro Sorocabana para a instrução do processo. Entre a documentação enviada existem reportagens sobre o possível tombamento da estação e a criação de uma comissão para tratar deste assunto, formada por Dr. Mauro Lopes (Presidente) e os Srs. Paulo Assinir Junior, vereador, e João Roberto Pinto Figueiredo, Presidente da Comissão Artístico Cultural. O Presidente da Comissão de Tombamento Mauro Lopes enviou ao Presidente Modesto fotocópia dos materiais que tratavam da Estação Ferroviária da FEPASA e que integravam o acervo do Museu “Conselheiro Francisco de Paula Mayrink”, como as revistas: Nossa Estrada (mensário oficial da E.F. Sorocabana, n° 9, Março 1939); a Revista Cruzeira do Sul – Suplemento Especial – outubro 78, cujo título é “Mairinque 88 anos” e a Edição Comemorativa “Mairinque 94 anos” de outubro de 1984 (distribuição gratuita) e realização: Momento Publicidade & Promoção. Em julho de 1986, Mauro Lopes, representando a Prefeitura Municipal de Mairinque, solicitou informações sobre o andamento do processo de tombamento no 71 CONDEPHAAT. A historiadora Celina Kuniyoshi então enviou notas para a presidência da Comissão Municipal de Tombamento da Estação FEPASA de Mairinque, sobre o andamento do processo. Entre a documentação enviada exaltavam-se as qualidades da estação, que deveriam servir de referencia significativa para pesquisadores da história e arquitetura brasileira, devido a sua arquitetura ferroviária característica, seus atributos arquitetônicos e por ser obra de Victor Dubugras. Na qual, diferente de outras estações que, geralmente, seguiam a arquitetura nos moldes europeus, a estação de Mairinque tinha equilíbrio e qualidade no plano estético da arquitetura modernista, melhor até que outras obras desse período, que pareciam cópias mal feitas de obras do exterior. Nesse documento ainda consta a história da Companhia Estrada de Ferro Sorocabana e o surgimento do município de Mairinque, bem como seus tempos prestigiosos , por causa da ferrovia; seus anos de decadência com o fim desta e a sua volta com a produção de hortaliças e incentivo fabril. Além de particularidades arquitetônicas da estação escritas pelo arquiteto Hugo Segawa, fotos antigas da região e fotos da década de 80 da estação, quando esta ainda funcionava sob administração da FEPASA. Ainda nesse documento a historiadora ressalta que: Como Mayrink sediou até inícios da década de 1930 as Oficinas de Reparação e de manutenção da Sorocabana, importante função dentro de uma ferrovia ao qual se vinculou o crescimento da „Vila Mayrink‟, e como remanescem no pátio de manobras da Estação Ferroviária de Mayrink o conjunto edificado com esse propósito, consideramos pertinente a preservação dessas edificações como documento de uma fase da história da Estrada de Ferro Sorocabana na que se inseriu a própria história de Mayrink. (CONDEPHAAT, 1983, folha 74). Em 22 de Setembro de 1986, ata n° 729, (folha 126) o “Egrério Colegiado por deliberação unânime aprovou o parecer do Conselho – Relator Carlos Lemos, favorável ao tombamento do prédio da Estação Ferroviária da FEPASA [...]”. Esse documento foi assinado pelo Presidente do CONDEPHAAT, Modesto Carvalhosa, e repassado a FEPASA, tendo a empresa 15 dias para recorrer da decisão. De acordo com este documento, como consequência do tombamento (folha 127) “[...] qualquer intervenção no imóvel em termos de modificação ou reforma deverá ser precedida de autorização do CONDEPHAAT”. Este documento foi repassado ao Presidente da Comissão de Tombamento da Prefeitura Municipal de Mairinque e ao Delegado titular da polícia Civil. Como a FEPASA não recorreu à decisão, em 28 de outubro de 1986, a partir do Decreto – Lei n° 149, de 15 de agosto de 1969 e do Decreto 13. 426, de 16 de março de 1979, o Secretário da Cultura Jorge da Cunha Lima determinou três artigos referentes ao 72 tombamento da estação, que foram publicados, no dia seguinte, no Diário Oficial do Estado de São Paulo: Artigo 1° - Fica tombado como bem cultural de interesse históricoarquitetônico, o prédio da estação ferroviária de FEPASA, no Município de Mairinque, obra pioneira da arquitetura moderna em nosso Estado, projetada em 1906 pelo arquiteto Victor Dubugras, na qual o concreto armado, por sua utilização como forma estrutural visível e racionalmente dimensionada, serviu como modelo precursor, no desenvolvimento posterior da arquitetura contemporânea em nosso país. Artigo 2° fica o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do estado de São Paulo, autorizado a inscrever no Livro do Tombo competente o bem em referência, para os devidos e legais efeitos. Artigo 3° - Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. (CONDEPHAAT, 1983, folha 140). Por fim, em 23 de janeiro de 1987 a estação Ferroviária de Mairinque foi inscrita no Livro do Tombo Histórico, sob o n° 257, na página 68. Finalizando o processo que se iniciou em 1983 e confirmando a importância histórica e arquitetônica da estação, no que diz respeito a grande parte das informações fornecidas pelo processo. Descartando, nesse caso, a possibilidade de tombamento de outros edifícios ferroviários da Sorocabana em Mairinque, que foram caracterizados, por alguns dos envolvidos no processo de tombamento, como responsáveis pelo bom funcionamento da ferrovia durante grande parte dos anos em que funcionou nesse município. Entretanto, nas páginas finais do tombamento há uma ressalva sobre o estado de conservação do edifício mais de 10 anos após o tombamento. A iniciativa parte da 9ª Superintendência Regional do IPHAN em 1998, que com a iminente privatização da FEPASA, encaminhou um oficio ao seu Presidente interino, Sr. Silvio Mincioti, com vista ao conhecimento de quem seria o responsável, após a incorporação do patrimônio da empresa pela RFFSA pelos imóveis protegidos por tombamento (folha 150) “(...) particularmente a estação de Mayrink, objeto de estudo para tombamento pelo IPHAN, e se existe um inventário dos bens móveis e imóveis de interesse histórico da empresa assim como de planos para sua preservação”. Dessa forma, a Coordenadora Regional do IPHAN, Cecília Rodrigues dos Santos, afirmou que seria possível valorizar o patrimônio de interesse da empresa, evitando problemas de conservação no futuro e revertendo à imagem de abandono dos monumentos tombados vinculados a FEPASA. Em 1999, a 9ª Superintendência do IPHAN encaminhou um documento para a FERROBAN, concessionária da ferrovia de Mairinque naquela época e para o CONDEPHAAT, órgão de proteção da estação. Neste documento, o IPHAN demonstrou sua preocupação com o estado de abandono da estação, comprovada após uma visita a mesma em que estavam presentes o Prof. Dr. Nestor Goulart Reis Filho, o arquiteto 73 Antônio Soukef, a historiadora Celina Kuniyoshi, a responsável pelo Patrimônio Histórico da RFFSA, Maria Inês Mazzoco e a Presidente do World Monuments Fund, Sra. Bonni Burnham. Durante esta visita foi constatada a falta de manutenção da Estação desde a privatização da FEPASA, o que piorou o seu estado de conservação. O IPHAN então propôs uma reunião com a FERROBAN e outras instituições interessadas no valor histórico da estação, suas formas legais de proteção, assim como sua manutenção e restauro. Em 18 de abril de 2000, o então promotor de justiça de Mairinque, Marcelo Biazzim, solicitou ao diretor do CONDEPHAAT informações referentes à conservação da Estação de Mairinque. Como esta solicitação não foi atendida até 05 de junho do mesmo ano, a promotoria de Mairinque insistiu ao CONDEPHAAT que respondesse aos ofícios no prazo de quinze dias, sob pena de desobediência. No dia 21 de Junho de 2000 a diretora técnica do CONDEPHAAT, Valquíria Abdo Ganeu, respondeu a Promotoria de Justiça Distrital de Mairinque, alegando que o atraso ocorreu devido à mudança de sede do CONDEPHAAT, no final do ano de 1999, onde ocorreu o extravio do Processo n° 24.383/86, referente ao tombamento da estação, o que dificultou o atendimento as solicitações. Ainda, de acordo com a diretora técnica, após a localização do processo, no dia 26 de maio, foi realizada uma vistoria imediata no dia 1º de junho pelos técnicos do STCR: historiadora Celina Kuniyoshi e arquitetos Roberto Leme Ferreira e Marcus Vinícius de Genaro. Os técnicos então analisaram o estado físico da estação, na época de propriedade da RFFSA, onde visualizaram a sua desocupação e a necessidade de um programa urgente de reutilização, onde foi descartada a possibilidade de retomar o seu funcionamento como estação ferroviária, mas não a impossibilidade de se criar um projeto de restauro que viabilizasse outros usos e que garantisse a sua preservação integral. Dentre os serviços emergenciais visualizados pelos técnicos, que temiam pelo estado de conservação da estação, devido à indefinição do futuro proprietário/concessionário desta (já que na época, a sua proprietária estava encerrado as atividades e repassando ou vendendo seus imóveis), estavam: 1. Refazer a impermeabilização das lajes de concreto, a saber: na cobertura curva do saguão principal, nas coberturas planas e semi-circulo das laterais do edifício (antigos bar e depósito de bagagens) e na cobertura e nos pisos dos quatro torrões; 2. Revisão da marquise metálica e da calha, que circundam o edifício de concreto com a substituição das peças comprometidas, observa-se que a calha que coleta a água pluvial de todo o prédio, constitui-se num elemento único, 74 de transição entre as duas linguagens arquitetônicas: o edifício de concreto e a marquise metálica e atirantada; 3. Refazer os condutores de água da calha, nos moldes do projeto original, isto é, recolocá-los rente e à frente dos pilares de concreto; 4. Reparar os elementos de concreto dos torreões que encontram-se quebrados; 5. Refazer os fechamentos de vidro das janelas do piso superior; 6. Refazer os fechamentos das janelas do piso térreo, localizadas sobre a marquise, de acordo com o projeto original e após pesquisas em documentos ou por meio de prospecções. (CONDEPHAAT, 2000, folhas 157 e158). A partir dessas medidas, o grupo de técnicos acreditava que o processo de deterioração da estação seria estancado, afirmando que caso a estação continuasse desocupada estaria sujeita a danos provenientes da falta de manutenção e uso do prédio. Alertando ainda que se no futuro houvesse um projeto de restauro e reutilização da estação, algumas diretrizes básicas deveriam ser observadas, como: laudo para identificação de comprometimento estrutural no edifício; retorno ao desenho original, com a eliminação de paredes e a recomposição dos fechamentos (portas e bilheterias); remoção da rede aérea de eletrificação da linha férrea; revisão da rede elétrica e de telefonia; e a possível remoção do muro feito de placas de concreto ao longo da Av. Mateus Mailasky e dos dois galpões situados na zona fronteira entre a ferrovia e a cidade. Para o corpo técnica: Com essas providências, uma extensa área ficaria disponível ao usufruto dos moradores permitindo a visibilidade do bem tombado a partir da Vila e viceversa, a reintegração da área de transição entre a ferrovia e a Vila Mayrink loteada pela Estrada de Ferro Sorocabana e que deu origem à cidade e, finalmente, a recuperação da intimidade arquitetônica estação-cidade. (CONDEPHAAT, 2000, folha 159). Caracterizando alguns benefícios provenientes dessas possíveis modificações. No fim deste oficio, os técnicos solicitaram o máximo de cuidado com a estação para não danificar peças originais. E se caso fosse necessária à retirada de algumas dessas peças, os responsáveis deveriam ter o cuidado de guardá-las para que pudessem ser reutilizadas no restauro do edifício. Em seguida, no processo de tombamento, são apresentadas algumas fotos tiradas durante a visita dos técnicos a cidade de Mairinque que foram fotografadas pelo arquiteto Roberto Leme Ferreira, com ênfase na estação, suas oficinas e o conjunto de casas da antiga Vila, construída pela Estrada de Ferro Sorocabana no início do século XX, onde foi possível visualizar, claramente, a ocupação por outras construções nos 75 antigos quintais coletivos. O arquiteto Marcus V.O. de Genaro também fotografou detalhes da infiltração junto ao condutor da estação, a poluição visual, a precariedade das instalações elétricas aéreas na laje de cobertura do pavimento inferior do antigo bar, a substituição dos vidros originais nos torrões e a improvisação da fiação elétrica aparente, que gerava poluição visual em um dos torrões. No dia 19 de março de 2001, a RFFSA perante a iminente liquidação e após a deliberação aprovada pela Assembleia Geral Extraordinária dos acionistas da Empresa, colocou a venda seus imóveis para quitar seus passivos, dentre eles a Estação de Mairinque. A RFFSA então encaminhou um documento ao CONDEPHAAT, para que o mesmo manifestasse interesse na aquisição deste imóvel, com dados referentes à estação: Imóvel: Estação de Mairinque da ex – FEPASA Área de terreno com 1.155,00m², com 914,00m² de área construída Endereço: Av. Dr. Gaspar Ricardo Junior, pátio ferroviário, na zona urbana central da sede do município de Mairinque, comarca de São Roque – SP. Valor Mínimo: R$ 79.300,00 (setenta e nove mil e trezentos reais). (CONDEPHAAT, 2001, folha 208). Esse documento então foi encaminhado por José Roberto F. Melhem, Presidente do CONDEPHAAT, a Dra. Eliana de Oliveira para manifestação. Porém, o processo consultado finaliza-se sem a resposta do CONDEPHAAT sobre o possível interesse na compra da estação. Nas últimas páginas do processo ainda constam autos emitidos no dia 02 de junho de 2001 pelos técnicos do CONDEPHAAT que vistoriaram o bem e indagaram sobre o destino do conjunto residencial, que pertenciam a FEPASA e que com a sua liquidação terminariam por serem vendidos, reforçando a importância da preservação do conjunto. Neste documento, a arquiteta Sueli de Bem e a historiadora Celina Kuniyoshi afirmaram que o entorno residencial, que ficava bem próxima a estação tombada, não recebia proteção legal, pois o tombamento da estação apenas configurava como área envoltória um circulo com raio de 300m traçado a partir do edifício tombado, logo, só parte da Vila que está contida no interior do perímetro definido estava protegida pelo 76 decreto estadual 13.426, de 16-3-79, artigo 1375 (vide figura 02). Esse artigo sofre alterações em sua redação em 20036. Figura 02 – Área do entorno da estação em 2001 Fonte: Planta que compõe o processo de tombamento n° 2438 3/86 disponível no CONDEPHAAT Porém, as próprias autoras desse documento afirmam que, no caso de Mairinque, este instrumento legal é ineficiente, pois não favorece a compreensão do conjunto construído e não permite oposições relativas à venda e licitação dos “imóveis residenciais”. Levando em consideração o valor representado por todo o conjunto ferroviário da cidade, que lhe garantia singularidade na forma de ocupação, na ligação dos trechos urbanos e no seu desenvolvimento perante os negócios ferroviários no Estado de São Paulo. Por fim, a arquiteta Sueli de Bem e a historiadora Celina Kuniyoshi, que assinaram este documento, afirmam que: Considerando, portanto, os valores próprios do conjunto urbano assim constituído, sugerimos prosseguimento do assunto consultando a cidade de Mairinque sobre a possibilidade de realização de um tombamento municipal da vila ferroviária ou sobre eventual recurso local que, num modo de extensão da proteção existente advinda do tombamento da estação e da 5 Artigo 137 - Nenhuma obra poderá ser executada na área compreendida num raio de 300 (trezentos) metros em torno de qualquer edificação ou sítio tombado, sem que o respectivo projeto seja previamente aprovado pelo Conselho, para evitar prejuízo à visibilidade ou destaque do referido sítio ou edificação. 6 O artigo 137 do Decreto nº 13.426, de 16 de março de 1979, passa a vigorar com a seguinte redação: Artigo 137 - A Resolução de Tombamento preverá, no entorno do bem imóvel tombado, edificação ou sítio, uma área sujeita a restrições de ocupação e de uso, quando estes se revelarem aptos a prejudicar a qualidade ambiental do bem sob preservação, definindo, caso a caso, as dimensões dessa área envoltória. Parágrafo único - Nenhuma obra poderá ser executada dentro da área envoltória definida nos termos deste artigo sem que o respectivo projeto seja previamente aprovado pelo CONDEPHAAT. 77 delimitação de sua área envoltória, seja capaz de contribuir ou promover a preservação de qualidades que lhes são fundamentais. (CONDEPHAAT, 2001, folha 216). O processo de tombamento, mesmo finalizado sem a conclusão de quem seria o próximo dono da estação, deixa evidente a preocupação dos envolvidos com o destino dos demais edifícios de propriedade da antiga Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, dentre eles, as oficinas e o conjunto residêncial. Além da estação, que sofria, consideravelmente, com problemas de conservação mesmo depois de a sua proteção legal ser efetivada. Isso ocorre e fica claro durante a segunda parte do processo devido à falta de uso dado a mesma e o descaso com a sua estrutura física. 2.2.1 Guichês abertos após o tombamento da Estação de Mairinque A partir da afirmação de que a estação havia sido adquirida pela Prefeitura Municipal de Mairinque, que a transformou em um museu em 2004, realizamos uma pesquisa online, que comprovou que este bem foi, realmente, adquirido em 2001, pelo preço de 79.300,00 (setenta e nove mil e trezentos reais) pela Prefeitura de Mairinque (vide documento 01 em anexo). Foi-nos disponibilizado, ainda, pelo entrevistado João Roberto Pinto Figueiredo uma cópia (vide documento 02 em anexo) do tombamento provisório pelo IPHAN da estação, assim como, do entorno do bem, objeto de tutela especial, assinado por Carlos Henrique Heck. Além de uma cópia (vide documento 03 em anexo) do ofício encaminhado pela Prefeitura Municipal de Mairinque, de 2012, em nome do Prefeito Dennys Veneri, no qual eram solicitadas informações a respeito da estação, sob justificativa de que foram disponibilizados recursos pelo Ministério do Turismo para realização de obras de reforma e manutenção desse bem tombado. Em maio de 2012, o técnico e a Coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico (UPPH)7, Paulo Sérgio Del Negro e Marília Barbour Herman Caggiano, responderam (vide documento 04 em anexo) ao ofício afirmando que foram orientados a arquiteta Alessandra Lucca e o engenheiro Erick Chagas, quanto aos procedimentos técnicos e administrativos para o projeto de restauração da Estação de Mairinque. Além de disponibilizarem o material de arquivo do CONDEPHAAT e esclarecimentos técnicos eventualmente necessários. 7 A UPPH foi criada pelo Decreto Estadual nº 50.941, de 5 de julho de 2006, e tem por atribuições dar apoio técnico e administrativo ao CONDEPHAAT (SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA, 2011). 78 2.3 Descritivo do inventário dos bens industriais da Companhia Ferroviária Estrada de Ferro Sorocabana na cidade de Mairinque O conjunto ferroviário de Mairinque, criado pela companhia Estrada de Ferro Sorocabana, surgiu originalmente para funcionar como vila ferroviária, onde se encontravam a estação, o armazém, as oficinas de manutenção, o núcleo residencial, entre outros (SOUKEF, 2001). Atualmente, conforme o visualizando em visita a campo, o uso predominante do conjunto consiste em casas residenciais e outros prédios que em sua maioria possuem funções distintas das originais. O inventário também contém relatos de atores sociais que não fizeram parte da amostra de dados, mas que ajudam a compreender ainda mais as estruturas ferroviárias existentes em Mairinque. Em duas visitas realizadas para pesquisas anteriores, uma em 2011 e outra em 2012, foi possível identificar que o armazém, atualmente, funciona como sede do escritório da ALL e para tanto, o mesmo foi reformado e até o antigo símbolo da Companhia ferroviária EFS foi coberto com tinta branca, impossibilitando a sua visualização a distância. As oficinas de manutenção (vide foto 01), cujas quais só é possível ter acesso mediante uma autorização da ALL vinda de Curitiba, possuem a mesma função de reparar vagões e outros elementos ferroviários. Esteticamente, as oficinas continuam quase sem nenhuma interferência, porém também não há medidas de conservação, logo, estas possuem janelas e outras estruturas quebradas, bem como suas paredes e telhas estão sujas. Tanto a oficina, quanto o armazém se encontram próximos à estação, porém não foram tombados e não receberam o mesmo tratamento. Foto 01 – Oficina de manutenção da América Latina Logística Fonte: Autoria própria, 2011 79 As casas de alvenaria (vide foto 05) que ficam nos quarteirões do lado direito da estação, na Rua Luiz Matheus Maylaski (em homenagem ao fundador da Sorocabana) ainda conservam a arquitetura antiga de quando foram construídas. Assim como, as casas acima desse quarteirão (vide foto 03 e 04), onde todas possuem uma placa com um número de patrimônio da FEPASA. As casas foram reformadas ou pintadas, porém ainda estão conservadas, quando comparadas às fotos da Vila (provavelmente posteriores à década de 1950, pois já vemos um veículo na rua), que se encontram disponíveis no museu da estação (vide figura 02). Os quintais coletivos, de acordo com Dona Dirce, moradora de uma das casas de alvenaria (esposa do antigo técnico de locomotiva a diesel da companhia ferroviária) “foram ocupados por outras construções, logo, restou pouco espaço livre ao que se tinha antigamente” e isso foi comprovado a partir da visita ao seu antigo quintal e a comparação com os antigos mapas da cidade (vide mapas consultados em anexo). O interior da casa de dona Dirce ainda possui um aspecto antigo e ela disse que gosta de mantê-la assim, tanto que a parede da sala de jantar começou a descascar e eles descobriram que existia um papel de parede, mais antigo por baixo (vide foto 18 em anexo) e, imediatamente, quando isso começou a acontecer, chamaram técnicos especializados para fazer a remoção da primeira camada de tinta. Foto 02 – Antiga foto do conjunto residencial de Mairinque [19--]. Fonte: Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque 80 Foto 03 – Casas de alvenaria, sendo a primeira (de cor branca) pertencente a Dona Dirce Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 04 – Casas sendo restauradas Fonte: Autoria própria, 2013 81 Foto 5 – Elementos construtivos de uma das casas de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 Nas ruas um pouco mais afastadas da estação encontram-se as casas de madeira, também construídas pela companhia, na qual algumas foram pintadas ou minimamente reformadas e algumas contêm novos muros a sua volta, porém em sua maioria conservam a arquitetura origina. Entretanto, de acordo com Maximiano Batista, antigo eletricista da Sorocabana que mora em uma das casas de madeira (vide foto 06) desde os anos 70 “algumas foram derrubadas pelos próprios moradores com medo de que as casas fossem tombadas pelo governo e eles tivessem que sair”. As casas de madeira também possuem placas indicativas nas suas fachadas com o número de patrimônio da FEPASA e, com relação a casa do Senhor Maximiano, seu interior também está conservado. 82 Foto 06 – Casa de madeira Fonte: Autoria própria, 2011 Algumas das construções que foram criadas pelos funcionários da Sorocabana em terrenos doados pela companhia ferroviária ainda existem como: os dois clubes, que ainda possuem a mesma função e o hotel, que foi vendido à prefeitura em 1970 (vide figura 06 em anexo), e atualmente funciona como Câmara Municipal. Segundo Ciro Gomes, o prédio do antigo cinema, inaugurado em 1937, foi construído em terreno cedido pela EFS para a Sociedade Recreativa de Mairinque, nos padrões de grandes salas de cinema, que posteriormente, também foi adquirido pela Prefeitura. O novo cinema (vide foto 07) foi reformado e funciona como Centro Municipal Educacional e Cultural, um espaço multifuncional para apresentações artísticas (CÂMARA MUNICIPAL DE MAIRINQUE, 2012). Talvez, seja um dos poucos edifícios que apresentam boas condições estruturais, onde ainda possui as cadeiras e portas originais e alguns objetos antigos de importância para a cidade, como a pá de Jacarandá: marco de inauguração da Vila Mayrink em 1890. Todas essas informações foram obtidas a partir da visita a campo, dos mapas cartográficos consultados anteriormente e dos relatos de atores sociais e membros entrevistados. No qual visualizamos que grande parte das informações se completam e confirmam. 83 Foto 07 – Centro Municipal Educacional e Cultural SRM (CEMEC) Fonte: Autoria própria, 2011 O Horto Florestal, que seria uma ótima opção para o desenvolvimento de atividades recreativas, tanto para a população (como o em tempos remotos) quanto para visitantes, está inacessível. Transferido para a prefeitura em 1974, uma parte da área de sua entrada passou a ser utilizada para oficinas mecânicas e almoxarifado de máquinas de obras. A entrada do Horto, contudo, está alagada e não há medidas para a implantação de uma visitação adequada, como segurança e funcionários para a manutenção da área. No interior do antigo Horto Floresta, que não possui placa informativa, mas que a partir de uma reportagem no jornal Guia São Roque foi possível conseguir essas informações, hoje é denominado de Horto Florestal “Parque Antônio Anselmo” e possui uma comissão própria de conservação. A partir do informado por alguns moradores próximos ao local, foi possível encontrar no seu interior o antigo “Casarão do Conselheiro Francisco de Paula Mayrink” (vide foto 08), além de uma panificadora, um salão para festas e uma capela abandonada bem próximas ao antigo casarão, que está abandonado e algumas partes de sua estrutura como a escada já desabaram ou não existem mais, enquanto o seu interior foi totalmente pichado, esta sujo e sem iluminação. A escada de acesso ao jardim na frente da casa também já não existe mais e o jardim está sendo totalmente reformado em estilo japonês e foi batizado de Jardim Sadame Hirakawa (GUIA SÃO ROQUE, 2010). Em outras duas visita a cidade, não foi possível entrar novamente no Horto Florestal, pois devido à chuva, a sua entrada se tornou inacessível e de acordo com o entrevistado João Figueiredo, justamente, devido à chuva, o projeto do Jardim Japonês também foi prejudicado. 84 Foto 8 – Casarão antigo no Horto Florestal Fonte: Autoria própria, 2011 No centro da cidade, ao lado de um ponto de ônibus e rodeada por grandes de proteção, existe uma locomotiva a vapor denominada “Cecília” (vide foto 09). Esta locomotiva encontra-se encima de um pequeno trecho de trilho e embaixo de uma pequena cobertura onde está escrita “EFS oficinas de Mayrink 1906”, porém a locomotiva esta isolada e sem mais placas informativas. De acordo com o antigo Presidente da AMPF, Ciro Gomes, antes esta locomotiva andava nesse pequeno trecho de trilho, mas com a falta de manutenção, sua parte funcional foi comprometida e não é mais possível realizar essa atividade. 85 Foto 09 – Locomotiva a vapor no centro da cidade Fonte: Autoria própria, 2011 A Estação de Mairinque, atualmente, está protegida legalmente pelo CONDEPHAAT e pelo IPHAN e abriga um museu denominado “Centro da Memória Ferroviária de Mairinque”, cujo qual só é possível ter acesso por uma escada no interior do túnel que divide e cria o acesso ao outro lado da cidade. O museu abriga apenas um cômodo da estação e os objetos estão dispostos desordenadamente como: fotos, telhas, uma miniatura de locomotiva a vapor, um quadro que conta a história de Victor Dubugras (arquiteto da estação), além de outros objetos que auxiliavam no funcionamento da ferrovia. Em outros lugares da estação existem objetos dispersos, sem cuidado ou proteção, alguns relativamente antigos estão do lado de fora, sem proteção contra o vento, poeira ou chuva. A antiga área do bar está vazia e suja, assim como a antiga cozinha. A antiga adega esta obstruída por um assento, porém quando entramos não é possível visualizar quase nada, porque não existe mais iluminação e no seu interior só existem alguns móveis e outros elementos abandonados. A parte superior da estação, onde os visitantes não têm acesso, esta cheia de sucatas e objetos antigos de diferentes décadas. As paredes estão com infiltrações e descascando, além de algumas 86 janelas estarem quebradas e sujas e as portas estarem entortando com o tempo, o que dificulta a sua abertura. Nas fotos a seguir é possível visualizar a falta de acessibilidade para chegar ao Museu; as infiltrações nas paredes externas da estação; uma fissura criada na parede, na qual é possível visualizar os elementos estruturais internos do edifício e alguns maquinários antigos localizados na parte externa da estação, sem maiores medidas de preservação ou identificação. Foto 10 – Infiltrações na parte externa da estação Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2012 Foto 11 – Escada que permite o acesso a estação e ao museu Fonte: Autoria própria, 2012 87 Foto 12 – Antigo maquinário na parte externa do museu Fonte: Autoria própria, 2012 Foto 13 – Fissura em uma das paredes externas da estação Fonte: Autoria própria, 2012 Como os trilhos ainda estão sob concessão da ALL os vagões de carga passam do lado da estação (vide foto 14) fazendo muito barulho e gerando um cheiro forte de combustível, além de terem destruído uma pequena parte do telhado. Mesmo assim, na primeira visita existia decoração de festa junina, mostrado que houve utilização, por parte da população, daquele espaço próximo ao dia da visita (21 de Julho de 2011). Na última visita realizada dia 10 de Julho de 2013, também havia outras duas pessoas visitando a estação, acompanhadas pelo atual e antigo Presidente da A.M.P.F, que estavam orientando a visita. De acordo com o Senhor Luciano (marido de Dona Dirce e aposentado pela Sorocabana), os antigos funcionários têm a possibilidade de se reunir na estação. Informação que foi confirmada pelo Presidente da A.M.P.F no ano de 2012, Ciro Gomes, sendo que este ainda nos afirmou que os encontrou ocorriam, geralmente, nas terças-feiras de toda a semana. 88 Foto 14 – Estação de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 Verificamos ainda, que o espaço também não possui um funcionário especializado em educação patrimonial para realizar atividades que integrem o visitante aos objetos expostos, sendo que as visitas são orientadas pelos próprios membros da A.M.P.F, quando há um aviso ou agendamento prévio. Também não existem muitas sinalizações ou legendas que identifiquem as peças expostas no acervo (vide foto 15) e o que existe, em geral, se limita a indicar as qualidades arquitetônicas da estação. Talvez por isso o público visitante seja escasso e, em geral, formado pelos próprios moradores (como constatado no livro de assinaturas), estudantes de arquitetura e membros da Associação Ferroviária. Além disso, não existem programas de divulgação intensa desse patrimônio, o que dificulta o aumento no número de visitantes, como no próprio site da Prefeitura, que apenas cita a estação e suas qualidades arquitetônicas, mas não faz relação com os outros prédios construídos na mesma época e pela mesma companhia. 89 Foto 15 – Parte do acervo do museu ferroviário de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2013 Sobre as casas do entorno, no primeiro semestre de 2013 foi divulgado que estas seriam restaurada (vide foto 16) a partir de um projeto de capacitação de jovens do SENAI sobre restaurações. De acordo com o professor Júlio Barros (restaurador e membro do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico do SENAI - SP) sua equipe já esta “fazendo a prospecção das edificações, conversando com moradores, recolhendo material para análise e identificando as características arquitetônicas que foram empregadas no período da construção” para restaurar inicialmente as fachadas das casas, até mesmo mais antigas do que a própria estação (G1, 2013; DIÁRIO DE SOROCABA, 2013). Essas medidas ajudarão a transmitir com mais propriedade e clareza a história da cidade, além de resgatar um patrimônio brasileiro. Na última visita realizada em 2013 foi possível estabelecer contato com o responsável pelo Departamento de Cultural de Mairinque, o Mestre em Cultura Social Maurício Sérgio Dias, que confirmou o interesse um restaurar as casas e futuramente a estação. Plano previsto para os próximos anos, devido à importância histórica e arquitetônica da mesma, o que demandará cuidado e tempo para realizar esse trabalho. Ainda nessa visita, conversamos com a Sra. Mariana Cordeiro, responsável pelo recémcriado, e ainda sem um endereço fixo, Departamento de Turismo de Mairinque, que confirmou o real interesse pela restauração, alegando os mesmos motivos citados pelo Sr. Maurício. 90 Foto 16 – Casas do primeiro quarteirão sendo restauradas Fonte: autoria própria, 2013 Visualizamos ainda três casas que já estão sendo restauradas nessa primeira fase do projeto, na qual foi possível conversar com a Sr.ª Sonia, Presidente do Conselho Dissente do SENAI, que estava auxiliado o professor na coordenação do grupo que realizava o restauro no dia da visita. De acordo com ela, essa restauração começou dia 6 de Março, mas como são quatro cursos, o projeto vai até Dezembro, sendo que são realizadas 210 horas de aula teórica antes da pratica, que inclui também aulas sobre a história de Mairinque. São, em média, 10 alunos trabalhando na parte da manhã e 12 na parte da tarde. Ela nos afirmou, por fim, que essa primeira fase inclui somente 22 casa, o que foi confirmado pelo atual Presidente da A.M.P.F, Francisco Camargo, justamente, por comporem somente os primeiros quarteirões próximos a estação e porque alguns moradores não possuem interesse em restaurar suas casas. Pelo visualizado em campo, apenas as fachadas estão sendo realmente afetadas pelo projeto, no qual são estabelecidas as cores em concordância com a cor original da casa e com o interesse do morador. Além das janelas e portas também estarem sendo pintadas e consertadas. Por fim, visitamos novamente a estação que, estruturalmente, ainda não recebeu nenhuma intervenção. Porém, de acordo com o atual Presidente da A.M.P.F (que guiou a nossa visita a pedido do Sr. Maurício Sergio Dias) algum especialista, possivelmente um arquiteto ou engenheiro, sob pedido da Prefeitura, posteriormente, fará uma visita a estação com intuito de analisar seus principais problemas estruturais, como o da infiltração, que de acordo com o Presidente, é um grande problema e prejudicaria 91 qualquer restauração posterior se não for sanada. Desde 2012, a Prefeitura já demonstrava interesse em realizar obras de restauro na estação. Esse interesse foi aprovado pelo CONDEPHAAT, desde que estivesse sob supervisão de especialistas, como citado anteriormente. Também foram visualizados duas locomotivas (vide foto 17) em dois trilhos que não estão sendo utilizados pela ALL. De acordo com o Sr. Francisco, essas locomotivas vieram de São Roque para o possível trem turístico, que conforme dito anteriormente, tinha pretensões de rodar desde 2011. Entretanto, ambas precisam passar por alguns ajustes para andarem sobre os trilhos e efetivarem o trecho entre São Roque a Mairinque, que conforme afirmado pelo Presidente, provavelmente ocorrerá com efetividade futuramente. Camargo ainda nos disse que há pretensões de criar um ponto de Informações Turísticas na própria Estação de Mairinque e trazer a Maria Fumaça “Cecília”, localizada no centro da cidade, para a estação. Foto 17 – Locomotivas estacionadas no interior da Estação de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2013 Essas iniciativas mostram que estão havendo mudanças significativas nas antigas estruturas ferroviárias, sendo que algumas, como a criação de um ponto de Informações e a aquisição dos trens turísticos, demonstram ter relações diretas com o Turismo, que 92 pode se desenvolver futuramente, desde que, essas mudanças continuem a correr de acordo com os interesses locais e a sustentabilidade de seus atrativos. 2.4 Documentos Cartográficos da formação e localização da Vila e Estação Ferroviária de Mairinque. A partir dos mapas consultados (vide documentos cartográficos consultados em anexo), disponíveis no Processo de tombamento da Estação de Mairinque no CONDEPHAAT e outros disponibilizados pelo Projeto Memoria Ferroviária (obtidos no acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA, em São Paulo), foi possível obter informações sobre: o território inicial onde seria formada a Vila Mayrink, de propriedade do Senhor Abdalla Antônio Naufal; verificar a disposição dos imóveis pela Sorocabana em 1935; as divisões do terreno; e constatar a sua proximidade com outras vilas, como a de Sorocaba. E, para isso, utilizamos os mapas originais, nos tomado das representações cartográficas disponíveis. Em alguns dos mapas está descrito o terreno que se tornou propriedade da Companhia Ferroviária, onde estão caracterizados os bens de sua propriedade como a estação, o antigo restaurante, o jardim, o teatro, os blocos de casas de moradia, as áreas de lazer, a escola, o cemitério, etc. Foi possível obter informações que não foram disponibilizadas durante o inventário e a análise do processo de tombamento da estação, como a venda do “Mairinque hotel” à Prefeitura Municipal de Mairinque na década de 70. Conforme a planta consultada, esta edificação fazia parte do patrimônio da extinta ferrovia. Com analise da planta da estação no ano de 1986, ficou perceptível a realização de uma série de mudanças estruturais e de uso da estação, enquanto estava sob domínio da FEPASA. Além de informações sobre os usos que a FEPASA dava a outros bens da antiga Sorocabana ainda na década de 80, permitido a comparação com os usos atuais dados pela ALL aos mesmos bens. Por fim, durante a visita de campo, os mapas foram utilizados para estabelecer a localização exata dos antigos prédios da Sorocabana e auxiliaram no inventário dos bens imóveis da Companhia Ferroviária, onde foi possível também checar a disposição física desses imóveis antigamente e comparar com a atual acomodação, como os antigos quintais coletivos, que nos mapas aparecem sem construções, enquanto atualmente está ocupada por outras residências e construções diversas. 93 2.5 Entrevistas 2.5.1Ciro Gomes – Presidente da Associação Ferroviária de Mairinque Entrevista realizada no dia 24 de fevereiro de 2012, às 16:00 horas, na estação de Mairinque, com Ciro Gomes, até então Presidente da Associação Ferroviária de Mairinque, fundada em 11 de Julho de 2006, onde foram feitos apontamentos sobre a história da Vila Ferroviária de Mairinque, a vida na época da Sorocabana e a situação atual da estação, trens, casas e outros edifícios construídos pela Companhia. Ciro Gomes inicia a entrevista falando sobre as reuniões da Associação, que são realizadas na estação, todas as terças-feiras, às 14 horas, onde são discutidos assuntos gerais e as próximas programações. De acordo com o Presidente, com a Associação eles pretendem resgatar o passado da cidade. Entre algumas empreitadas realizadas pela Associação com intuito de preservar a memória da Vila e destacar antigos ferroviários, hoje aposentados, mas que garantiram o funcionamento da ferrovia estão: um evento em tributo aos antigos ferroviários e uma coluna no jornal de Mairinque em homenagem às pessoas que trabalharam na ferrovia, geralmente já falecidas, que conta um pouco das suas histórias de vida. Além de eventos inusitados que permitiram o usufruto da antiga estação como desfiles de moda e shows. Sobre os planos futuros em parceria com a Associação, Ciro Gomes diz que eles estão tentando: trazer a Maria Fumaça “Cecília” que se encontra no centro da cidade para a estação; elaborar o plano do trem turístico entre São Roque e Mairinque; preparar uma replica de um livro, que contem informações sobre os funcionários de Mairinque e está em Sorocaba; além de publicar um livro, a partir dos relatos de um morador local sobre o passado da Vila. Ciro Gomes aponta que existe muito material referente à Mairinque em outros locais como no museu de Jundiaí e na Associação de Sorocaba sobre os anos de 1908 até 1929, quando a associação da ferrovia mudou-se para essa cidade. A A.M.P.F ainda tem interesse em adquirir outros edifícios que estão decadentes ou abandonadas, como as oficinas, que estão em utilização pela ALL e que, aparentemente, não passam por manutenções estruturais. Por fim, a Associação está viabilizando um projeto com as escolas, não para introduzir uma matéria, mas para explicar a história da cidade para as crianças. Ciro Gomes afirma que quem iniciou essa proposta foi a cidade de São Roque, que trazia as crianças para Mairinque, com a finalidade de conhecer a história local. Agora a Associação pretende fazer isso com os próprios alunos de Mairinque. 94 Em relação às casas, ainda hoje habitadas, Ciro Gomes afirma que em alguns outros lugares que possuem vilas ferroviárias as casas já foram vendidas para os seus donos. Porém, em Mairinque, isso ainda não ocorreu e as casas ainda pertencem a União, o que, de acordo com ele é ruim, “[...] pois o ferroviário trabalhou a vida inteira na ferrovia e não tem a chance de comprar a casa. E merece, pois ele trabalhava muito e de graça, pois naquela época não „tinha‟ hora extra [...]”, então seria um prêmio adquirir a casa, como um valor emblemático. O Presidente afirma que cada um que mora nas casas paga um aluguel “simbólico” para a União, onde está proibida a demolição do edifício, sob pena de pagar uma multa, entretanto pode haver alterações no imóvel. Para o Presidente, “o ideal seria uma medida de tombamento das fachadas, porque o bonito eram as fachadas iguais”. Sobre a visitação a estação, o Presidente afirma que a Associação não possui uma pessoa especializada para trabalhar diariamente no Museu que se encontra no mesmo edifício, para explicar a história da cidade. Porém, quando são visitas com finalidades acadêmicas a responsável pela estação, Maria Cândida, liga para ele e/ou outros antigos funcionários, que vão ao encontro dessas pessoas para ajudá-las a entender a história local. De acordo com o Presidente, a maior parte dos visitantes são estudantes de arquitetura, pois Mairinque não é uma cidade turística, já que não tem apoio político. Entretanto, já houve um projeto em Mairinque relacionado com criação de um trecho turístico utilizando as linhas do trem, entretanto esse projeto não foi adiante. Ciro Gomes afirma também que agora eles possuem um acordo com a ALL e vão utilizar a linha dois do trem, cedida pela concessionária, para fazer o trecho de São Roque a Mairinque, utilizando as locomotivas compradas por São Roque. Sobre os outros imóveis da antiga Companhia Ferroviária Sorocabana, Ciro Gomes desabafa, dizendo que trabalhou 20 anos nas oficinas e quando entra em alguma tem vontade de chorar, pois “as locomotivas estão se acabando, com uma manutenção decadente e antigamente as oficinas tinham um padrão de qualidade que era modelo. Tem ex-funcionário que não tem nem coragem de entrar”. Sobre o Centro Cultural, Gomes afirma que ficou parado durante muitos anos a mercê das ações naturais do tempo, mas que, recentemente, foi reformado pela SRM (Sociedade Recreativa Mairinque) em parceria com a prefeitura, que paga um aluguel para eles como acordo. Sobre o antigo Clube Atlético Sorocabana de Mairinque, Gomes afirma que, hoje em dia, é um clube particular. Por último, sobre o Horto Florestal, o Presidente afirma que este está interditado, pois a entrada está alagada, já que a prefeitura (atual proprietária) mexeu na estrutura 95 física do entorno. De acordo com o entrevistado, o Horto foi construído para fornecer madeira para a ferrovia, com a finalidade de queima nas locomotivas e, até mesmo, para fazer os dormentes. Muitas pessoas que trabalharam no Horto moraram no seu interior, além do próprio Engenheiro da Sorocabana. Ciro Gomes diz que a Associação tem vários projetos direcionados ao Horto, entretanto não possui apoio da prefeitura. 2.5.2 João Roberto Pinto Figueiredo – Membro da Comissão de Tombamento do prédio da Estação Ferroviária da FEPASA em Mairinque. Entrevista realizada em 2012, por e-mail, com João Roberto Pinto Figueiredo, um dos membros participantes da Comissão formulada pelo então Prefeito de Mairinque, José Luiz Bellini, durante o processo de tombamento do prédio da Estação Ferroviária da FEPASA na década de 1980, que identificamos ainda ser atuante nos aspectos culturais da cidade de Mairinque, sendo pesquisador/historiador e administrador do Centro Municipal, Educacional e Cultural (CEMEC) na época da entrevista. E que autorizou que suas respostas fossem utilizadas para fins acadêmicos. Perguntado sobre como se tornou membro do processo de tombamento e como foi durante e depois do resultado, Figueiredo respondeu que foi a convite do então Prefeito da cidade, com a portaria fazendo a nomeação de número 67/86, que é datada de 06/05/86 e formada por Mauro Lopes (Presidente) e Paulo Assini Junior e João Roberto Pinto Figueiredo (membros). Figueiredo afirmou que durante todo o processo houve a fase de juntar documentos e pesquisar junto a FAU e ao próprio CONDEPHAAT. E, que após a decisão final, o que restou foi à satisfação de ver o reconhecimento do trabalho, mas também a preocupação com o fato de que qualquer reforma do local não dependeria mais da vontade da população mairinquense ou de seus representantes (classe política). O entrevistado lembra-se ainda que, posteriormente, patrocinou a confecção das letras MAYRINK que ficam, hoje, sobre a estação e que haviam sido retiradas para a passagem da rede elétrica. A colocação destas letras refez o projeto inicial. Sobre a resolução do processo de tombamento, que termina sem uma conclusão de quem ficaria com a estação, após a liquidação dos bens móveis da RFFSA e se esta foi efetivamente tombada pelo IPHAN Figueiredo disse que existe um documento do IPHAN datado de 09/10/2002, que confirma o tombamento da estação e notifica sobre o tombamento provisório por aquele órgão. Além da Lei 2365/2001 que autoriza a Prefeitura Municipal a comprar a estação. 96 Com relação à estação e seus referentes projetos e visitação, Figueiredo diz que, enquanto a Prefeitura não tiver liberdade para fazer as reformas que o prédio exige, este vai continuar se deteriorando, porque não pode ser utilizado em sua plenitude, sendo usado basicamente como Sede da Associação de Preservação Ferroviária, na sala cedida pela Prefeitura, mantida voluntariamente por ex-ferroviários, com pouca visitação e sem plano algum para o futuro. Quanto à visita de turistas, afirma que é uma dificuldade, pois não existe nenhum funcionário municipal treinado para dar informações sobre o imóvel e quem trabalha atualmente no museu, por estar desmotivado, nem sempre comparece ao trabalho, o que faz com que o acesso ao local fique inviabilizado. Referente ao conjunto residencial, perguntamos se Figueiredo acharia interessante que durante o processo de tombamento da estação, talvez, houvesse o tombamento do conjunto, pois também possuíam uma representatividade histórica, configurando um dos primeiros conjuntos habitacionais ferroviários do país. Sobre isso, o entrevistado é enfático: É evidente que sim! A estação não poderia estar separada de todo o conjunto, mas no meu modo de ver o que predominou foi o „peso político‟ da decisão, uma vez que o fato dela, estação, ter sido a primeira obra em concreto armado era mais forte que o seu entorno, porque na mesma situação existiam – como existem ainda – dezenas de cidades que eram também cortadas pela ferrovia. Sobre os edifícios da Sorocabana, que hoje não recebem proteção legal, Figueiredo afirma que eles vão continuar se deteriorando e que a maioria já teve suas características iniciais alteradas e transformadas em pequenos estabelecimentos comerciais. Para ele, na maioria dos casos já não são mais ferroviários os habitantes e a população já perdeu seus vínculos com a tradição ferroviária. E com o passar do tempo é bastante provável que os edifícios sejam vendidos para quem neles estiver morando. O entrevistado diz que acha difícil, hoje, qualquer movimentação popular para pleitear o retorno das casas à Ferrovia, para servir de fato e de direito aos seus trabalhadores. Além do que, a única solução seria o Governo propor a venda para o Município e este adquirir todo este patrimônio. Isto, de acordo com ele, “é quase utópico”, pois nenhum Prefeito estaria disposto a assumir o risco de entrar com processos de despejo aos moradores. Com relação ao estado de conservação do Horto Florestal, Figueiredo diz que a venda, pela Prefeitura, de uma área de terra para uma indústria, provocou sérios problemas ambientais para o Horto, o que se nota em períodos de fortes chuvas, quando os alagamentos são constantes, chegando a impedir o acesso ao local. De acordo com o 97 entrevistado, existe um processo da Prefeitura na Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) pedindo autorização para executar as obras de recuperação do local (as despesas seriam pagas pela indústria), mas já se passaram seis meses e a CETESB ainda não se pronunciou. Figueiredo ainda afirma que todo o projeto feito pelo município para transformar o local em um jardim japonês se perdeu e está novamente em sua fase embrionária. Para o entrevistado, o Horto carece de um projeto específico, inclusive para conscientizar a população local de que pode usá-lo como área de lazer, quando aplicada medidas para melhorar a segurança, o acesso e a infraestrutura do local. Perguntado sobre a condição de uso dos trilhos pela ALL, Figueiredo afirma que a concessão dada a ALL é uma necessidade econômica e que não tem documentos que comprovem prazos de concessão. Além disso, o uso dos trilhos, pela empresa, inviabiliza qualquer iniciativa de dar algum uso prático ao imóvel adquirido. Ambos os entrevistados ressaltam a importância histórica da estação inserida no seu conjunto residencial e outros prédios da Sorocabana, que são prejudicados pela indecisão judicial sobre os responsáveis pelos imóveis, a ação do tempo, a falta de manutenção e, em alguns casos, descaso da empresa concessionária (ALL). Para eles, o Horto Florestal, por exemplo, seria uma ótima forma de lazer para a população, mas se encontra interditado para visitação, pois não houve um planejamento de uso. Enquanto as casas vão continuar sendo descaracterizadas, se não houver medidas que garantam a sua preservação. Com relação à visitação turística da estação, ambos mostram que há dificuldades relacionadas às reformas para melhorar a sua estrutura, o seu acesso e de se encontrar um funcionário interessado em ensinar a importância da estação para a cidade e o País. Como consequência, esta continua abandonada recebendo, constantemente, apenas a vista dos membros da Associação para reuniões. 98 III – Preservação, Projetos e Usos do Conjunto Ferroviário Muito se tem discutido sobre a utilização do patrimônio cultural na atividade turística e a sua importância para a comunidade local, não sendo mais tratado apenas como algo velho e já sem importância por não possuir mais uso, mas um objeto, prédio, modo de fazer que está inserido no mundo atual, permitindo-lhe passar por mudanças para ter usos atuais. Desde que mantenha suas características arquitetônicas e história própria, que marcaram a sua existência. No caso do patrimônio cultural aqui estudado, a Estação Ferroviária de Mairinque, assim como o seu entorno de importância, criou-se aprofundamentos teóricos com bases na história e no turismo, com ênfase no valor histórico, identidade, memória, patrimônio e medidas de preservação legais, referindo-se ainda, aos possíveis usos, a partir do turismo, para a criação de uma forma de apropriação alternativa. Tendo como principal referência o significado para a sua população do bem histórico em questão, que ajuda a caracterizar a possível identidade ferroviária dos moradores locais e salvaguardar a memória social e coletiva da localidade. Sendo que a preservação sugerida nesse trabalho considera que não se deve tornar estático o bem tombado, mas inseri-lo no contexto atual. Assim, o turismo é entendido, nesse caso, como uma possibilidade de relacionar o nosso objeto de estudo com as perspectivas de usos atuais. No caso de Mairinque, viu-se a necessidade de estudar não apenas o bem isolado, mas o seu entorno, pois ele ajuda a completar a história da cidade e a dar significado a estação. Expandindo então, essa abordagem para os sítios históricos que buscam a preservação do conjunto, garantindo o sentido do lugar. Em Mairinque, podemos considerar, inicialmente, além da estação, a necessidade de garantir uma preservação eficaz para as antigas oficinas de manutenção, o armazém, as casas que ainda mantém aspectos arquitetônicos originais, o antigo cinema e o Horto Florestal. Este conjunto diverso de edificações antigas poderia dar suporte à noção de preservação para a população residente, a partir, por exemplo, como afirma Murta (2001), da redução do IPTU para edifícios tombados, como forma de incentivo para que seu morador continue vivendo no edifício e consiga, até mesmo, investir no reparo de problemas estruturais comuns em edificações antigas. A cidade, por ter sido uma vila ferroviária, pode ser especificada como um patrimônio industrial, logo, caso ocorra a sua preservação ou mesmo o desenvolvimento de outras formas de uso, estas devem levar em consideração as particularidades desse tipo de patrimônio, determinadas, por exemplo, na Carta de Nizhny Tagil, (2003), por 99 Pardo Abad (2008) e Viñuales (2001). Esses mesmo autores começaram a determinar possíveis usos a esse tipo de patrimônio, além de evidenciarem a importância de considerar o patrimônio do entorno do bem, muitas vezes relacionando-o até mesmo com as paisagens naturais. A concepção de patrimônio industrial inclui também o patrimônio ferroviário, conforme o especificado, por exemplo, na Carta de Nizhny Tagil (2003). No Brasil, a ferrovia é a expressão mais evidente do industrial, principalmente no Estado de São Paulo, onde várias cidades foram criadas a partir dos trilhos e moldadas pelas companhias ferroviárias, como afirma Righetti (2010). Com a decadência desse sistema de transporte, devido o investimento no setor rodoviário, tornou-se necessário a sua preservação para que não se perdesse registros de uma importante fase de desenvolvimento no Brasil, sendo Mairinque um grande exemplo de investimento ferroviário. Ideia defendida por Soukef (2001) no caso específico do nosso objeto de estudo e, principalmente, com relação aos núcleos fabris, no qual podemos fazer comparações também com a opinião de Correia (1999) em uma perspectiva geral. Proteções legais existentes para as edificações e conjunto ferroviário; A partir da análise do processo estadual de tombamento da Estação Ferroviária de Mairinque (Processo nº 24383/86), presente no CONDEPHAAT, tornou-se evidente que o tombamento da estação partiu de uma iniciativa local da Câmara Municipal de Mairinque. Isto motivada, principalmente, por possíveis descaracterizações que a estação sofria na época por reformas programadas pela FEPASA. Além disso, foi determinante para o tombamento: a sua importância arquitetônica, como inovação construtiva (uso do concreto armado); o fato de ser obra, das mais representativas do arquiteto Victor Dubugras; e a primeira obra do modernismo arquitetônico no Estado de São Paulo. Ressalvamos que esse tombamento fundamentado apenas no valor arquitetônico baseia-se nos princípios de tombamento da década de 1970, e que caracteriza grande parte das estações tombadas nessa época (OLIVEIRA, 2010). Porém, esta foi inscrita no livro do tombo histórico do CONDEPHAAT, sob inscrição nº 257, p. 68, 23/01/1987. O que nos mostra a contradição de alguns dos tópicos levantados durante o tombamento, com base na arquitetura propriamente dita e a conclusão da sua inserção por uma importância histórica. O que, talvez, possa ser justificada pela importância arquitetônica secular da estação e para o pensamento modernista da época. 100 Além disso, em alguns pontos do processo de tombamento já são evidenciados a importância histórica, por exemplo, das oficinas e das residências para o desenvolvimento dessa vila ferroviária. Sendo, por fim, indagado sobre a possibilidade de tombamento de todo o conjunto ferroviário da cidade ou o investimento de recursos locais com o interesse de estender a proteção legal existente para a estação e o entrono de 300 metros, que seria capaz de contribuir ou promover a preservação das qualidades que lhes são fundamentais. Entretanto, estes não foram considerados na decisão final de tombamento e nem na segunda avaliação do CONDEPHAAT em 2001. Como visualizado no final do processo de tombamento pelo CONDEPHAAT, em 1998, o IPHAN retorna a estação, já com outra visão de preservação, e percebe várias falhas estruturais de preservação e de uso que deveriam ser corrigidas, levando o próprio CONDEPHAAT a determiná-las como: o estado de abandono da estação, já sem utilização para o transporte de passageiros e sem qualquer outra iniciativa de uso (o museu ainda não havia sido desenvolvido); e a necessidade de inserir a estação, aparentemente isolada por trilhos e vagões, ao seu entorno. O corpo técnico que visitou a estação afirmou que seria necessária a remoção da rede aérea de eletrificação da linha férrea; revisão da rede elétrica e de telefonia e a possível remoção do muro feito de placas de concreto ao longo da Av. Luiz Matheus Maylaski. Isso melhoria os aspectos estruturais e paisagísticos da estação que permitiria a visualização das casas, que faziam a composição do conjunto residencial ferroviário, pelos visitantes da estação e vice-versa para os moradores das casas que teria a possibilidade de visualizar esse bem ferroviário, realizando uma reintegração desse patrimônio ao seu conjunto. Princípios de mudanças estruturais relacionado ao patrimônio e já defendido por alguns dos autores utilizados durante essa pesquisa, com relação ao patrimônio em geral, como Adams (2002), Ruiz (1997) e Aguiar (2008); ao industrial, como Viñuales (2001) e Pardo Abad (2008) e, em especifico, ao ferroviário, como Soukef (2010). A arquiteta Sueli do Bem e a historiadora Celina Kuniyoshi ainda consideraram possibilidade de ampliar o entorno do bem, que quando tombado pelo CONDEPHAAT estendia-se a 300 metros, considerados ineficientes pela arquiteta e historiadora, quando comparado à importância dos outros imóveis localizados próximos a estação e que não se encontravam dentro desse perímetro. Levando em consideração o valor representado por todo o conjunto ferroviário da cidade, que lhe garantia singularidade na forma de ocupação, na ligação dos trechos urbanos e no seu desenvolvimento perante os negócios ferroviários no Estado de São Paulo. Sendo que podemos comparar essa iniciativa com 101 o afirmado nas Normas de Quito, documento aprovado em 1967, onde se encontrava a ideia de que o “espaço é inseparável do conceito de monumento, motivo pelo qual a tutela do Estado pode e deve estender-se ao contexto urbano ou ambiente natural imediato”. Além da Declaração de Amsterdã (1975, p. 03) que impõe que a proteção dos conjuntos arquitetônicos deve levar em conta “todos os edifícios com valor cultural, dos mais importantes aos mais modestos, sem esquecer os da época moderna, assim como o ambiente em que se integram”. Em 2002, a estação também é tombada pelo IPHAN, sendo usado como justificativa o fato da obra, segundo Nestor Goulart Reis (conselheiro do IPHAN), ajudar a entender o pensamento dos modernistas da época, sendo por isso uma ferramenta da cultura nacional. Porém, ao contrário do tombamento do CONDEPHAAT, que possui justificativas finais arquitetônicas e o inscreve no livro do tombo histórico, o IPHAN, sob justificativa histórica e arquitetônica, inscreve o bem no livro de Belas Artes (Nº inscr.: 625; Vol. 2; F. 055-056; Data: 08/07/2004). Contradições que não vemos em outros casos de tombamento no Estado de São Paulo como a Estação Ferroviária de Bananal e de Rio Claro, que possuem justificativas puramente arquitetônicas e são inscritas no Livro de Belas artes do CONDEPHAAT e Guaratinguetá, por exemplo, que possui sua inscrição de acordo com a justificativa do tombamento histórico (OLIVEIRA, 2010). O tombamento pelo IPHAN também determina o entorno de importância do bem a uma área que se estende as casas do primeiro quarteirão, as oficinas e o armazém, porém sendo esses imóveis considerados apenas legalmente sujeitos a avaliação posterior do IPHAN e de valor secundário a estação (imóvel principal). Além disso, este entorno não amplia a área determinada pelo CONDEPHAAT de 300 metros e não gera qualquer tipo de alteração na preservação de outros imóveis relevantes, contradizendo algumas das cartas patrimoniais utilizadas nesse trabalho, referentes justamente a questão do entorno de bens tombados. Estado atual de conservação da estação e do conjunto ferroviário; Como forma de avaliar o estado atual dos bens tombados ou não da cidade de Mairinque foi realizado uma visita técnica com o objetivo de inventariar os edifícios da antiga Companhia Estrada de Ferro Sorocabana, utilizando um modelo de pesquisa de campo a partir de adequação do modelo de ficha de inventário do patrimônio industrial edificado e de conjunto industrial. 102 Durante essa visita ficou evidente a descaracterização sofrida por alguns dos edifícios sem proteção legal, como as casas, que, em sua maioria, ainda conservam as características arquitetônicas, mas já apresentam sinais de deterioração por fatores naturais e a construção de novos elementos arquitetônicos, causando pequenas descaracterizações. Relembrando que, de acordo com Soukef (2001), deve-se também considerar a relevância das antigas moradias de Mairinque, que constituem, hoje, o núcleo central da cidade e que (p. 75), segundo o autor, “são um importante testemunho dos primeiros conjuntos de habitação coletiva para operários realizadas no país”. Porém, durante a última visita identificamos medidas de restaurações das fachadas das casas, incentivadas pela Prefeitura em parceria com o SENAI. Podemos considerar que estas medidas estão, em princípio, de acordo com alguns dos autores que dão base a essa pesquisa, como Kühl (s.d.), Viñuales (2001) e Pardo Abad (2008), sobre a restauração associada à história e aos interesses da comunidade local, pois, são identificadas as estruturas que ainda possuem características originais e com possibilidade de restauração. Além de se considerar a opinião favorável do proprietário do imóvel sobre a restauração, dando-se a liberdade para que este rejeite a mudança ou, em caso positivo, ajude a escolher as cores da fachada em concordância com a proximidade da cor original da casa e evidência dos detalhes estruturais. As oficinas, sob concessão da ALL, quando contrastada com a estação, que fica ao lado, mostram o evidente descaso relacionado à manutenção estrutural dos edifícios, com janelas quebradas e paredes sujas. Tanto a oficina quanto o armazém que se encontram próximos à estação, não foram tombados e não receberam o mesmo tratamento e manutenção. E, nesse caso observamos novamente que a realidade visualizada contradiz as ideias visualizadas nas cartas patrimoniais indicadas nessa pesquisa, às quais, conforme o seu desenvolvimento, ampliam a relevância de bens isolados para, até mesmo, conjuntos históricos inteiros. Sendo que, no caso específico de Mairinque, podemos nos referir até mesmo, a um entorno imediato, pois as oficinas estão localizadas muito próximas do bem protegido legalmente. O antigo cinema foi reformado e é o único edifício da antiga Sorocabana que apresenta boas condições estruturais para grandes eventos. Este funciona como Centro Municipal Educacional e Cultural, um espaço multifuncional para apresentações artísticas. Onde ainda possui as cadeiras e portas originais e alguns objetos antigos de importância para a cidade, como a pá de Jacarandá: marco de inauguração da Vila Mayrink em 1890. Esse edifício está de acordo com as ideias de Soukef (2010), analisadas anteriormente, na qual o autor afirma que a continuidade de um sítio 103 industrial é favorável para a consolidação de novas realidades, desde que esteja de acordo com os princípios de preservação histórica da localidade. Já que foram atribuídas novas funções ao cinema, mas estas não descaracterizaram ou retiraram a função cultural do edifício. O Horto Florestal, que seria uma ótima opção para o desenvolvimento de atividades recreativas, tanto para a população (como em tempos remotos) quanto para visitantes, continua inacessível, pois a sua entrada esta alagada e sem medidas para a implantação de uma visitação adequada, como segurança e funcionários para a manutenção da área. Essas perdas materiais geram também perdas históricas e arquitetônicas, assim como dos símbolos da cidade sobre os modos de vida no passado. Sobre essas perspectivas relembramos o que foi dito por Adams (2002), Ribeiro (2003) e Gastal, Beni e Castrogiovani (2003), justamente, sobre a importância da materialidade para algumas cidades históricas. Nessa perspectiva, vemos vários pontos que contradizem a ideia de Viñuales (2001), que como citado anteriormente, considera que se deve preservar a unidade do conjunto e de cada edifício em particular, como seus aspectos estruturais e construtivos. Outra ideais de Viñuales (2001, p. 109) também aponta que deve ser considerado o conjunto do patrimônio industrial como uma unidade: “[...] edificios, terrenos libres, vías de acesso, jardines, presencia urbana. Es fundamental conservar esa unidad que, casi con seguridad, fue la que ayudó a mantener en funciones a la misma industria”. Porém cada edifício em Mairinque recebe um tratamento diferente, sem pensar no princípio de conjunto ou unidade, sendo que alguns móveis e imóveis sequer recebem tratamento ou uso pertinente, além do que, vemos que mesmo ocorrendo a proteção do entorno do patrimônio tombado pelo IPHAN e CONDEPHAAT, pouco modificou-se na prática para os imóveis que se localizam nesse perímetro de importância. A estrutura da estação tombada, ponto chave dessa pesquisa, apresentou-se bem degradas, sendo que, as paredes estão descascando, com lodo e mofo, além das portas e janelas estarem emperradas ou empenadas, além da sujeira, insetos e mato grande. Somado a isso, a estação não possui elementos básicos de acessibilidade, como rampas de acesso (considerando que para chegar à estação é preciso subir dois lances de escada) ou banheiros adequados para uso dos visitantes. Contradizendo o afirmado por José Meneses (2004, p. 81), de que o tombamento tem a função justificadora da “[...] responsabilidade do poder público em salvaguardar a memória coletiva [...] a ação de inventariar, registrar e tomar sob guarda, para conservar e proteger bens de valor 104 público”. Acrescentamos aqui, a responsabilidade de tornar esses bens acessíveis aos interessados em visualizá-los. A estação ferroviária ainda mostrou-se pouco eficiente na sua proposta de musealização, quando relembramos as ideias de Martins (2003), Nascimento (2005), Perichi (1997), Pinheiro (2004) e outros que se aproximam muito das preocupações de Villar (2010) com relação aos museus industriais. Considerando que o Museu não possui, ao menos, um funcionário especializado na área para realizar atividades que integre o visitante aos objetos expostos ou mesmo sinalização do que se trata grande parte do acervo, limitando-se as qualidades arquitetônicas da estação. Talvez, por isso, seu público seja escasso e, em geral, formado pelos próprios moradores (como o visualizado no livro de assinaturas) e membros da Associação Ferroviária. Sendo que Pardo Abad (2008) afirma que a arqueologia industrial, linha de pesquisa em que a estação se insere, deve-se basear na multidisciplinaridade, no qual se conta com o conhecimento de arquitetos, historiadores, economistas, geógrafos, engenheiros, etc, que nesse caso poderiam ajudar na reformulação do museu e na interpretação do seu acervo. Assim, a estação também se contrapõe ao destacado por Pardo Abad (2008) no que diz respeito à conservação das construções, maquinário e outros elementos de autenticidade dos lugares, que permitem surpreender os visitantes, no qual o patrimônio se converte em um referencial indiscutível da identidade social e territorial de muitas comunidades locais. Também podemos inserir, nesse caso, os documentos históricos localizados dentro da estação e referentes aos seus funcionários como livros de registros e fotos, que também deve ser preservados, pois de acordo com Pedraza (2010), são fontes históricas referentes ao inicio, trajetória e, muitas vezes, o fim das empresas que tem a possibilidade de evocar uma memória. Além dos elementos móveis, que algumas vezes não são considerados de relevância tão grande como o imóvel tombado, mas ajudam a contar a história da cidade, juntamente com o funcionamento da estação e da ferrovia. Por isso, merecem estar localizados em um ambiente adaptado e que atenda as suas necessidades de conservação, no caso, um museu propriamente dito. Assim, retomamos o afirmado por Arnaut (1997), sobre os museus serem espaços de preservação, pesquisa e comunicação simultânea. Ou seja, lugar de preservação, mas também de discussão, diálogo e dinamismo. Ainda sobre o patrimônio móvel local, seria interessante destacar a Maria Fumaça “Cecília” que se encontra no centro da cidade e fora do perímetro de 105 importância determinado pelos órgãos de proteção. Nesse caso, retomamos a ideia de Reis (2010) sobre o saudosismo e a experiência proporcionada pelas locomotivas quando estas estão em funcionamento e a ideia de Allis (2010) de que, muitas vezes, não é possível financeiramente colocar todas as locomotivas do Brasil para funcionar, porém que a importância deve ser dada ao seu simbolismo cultural e significância histórica. O que nos faz pensar que talvez a locomotiva posar ser realojada ou melhor identificada, para que não aparente ser o único elemento de destaque na representação da história ferroviária e, por isso, esta isolada de todo o resto do conjunto ferroviário de Mairinque. Por fim, não existem programas de divulgação intensa desse patrimônio, o que dificulta o aumento no número de visitantes, sendo que as informações fornecidas pelos sites oficiais do munícipio apenas fazem uma breve explanação sobre as qualidades arquitetônicas da estação, sem relacioná-la com os outros prédios construídos na mesma época e pela mesma companhia. Desconsiderando-a como possível atrativo. Porém, muitas vezes, de acordo com Martins (2006, p. 47) “por onde se dá atividade turística, de uma forma ou de outra dá-se o despertar de uma consciência de lugar, de ser local e de um sentimento de orgulho [...]”, pois o turismo desperta fenômenos sociais que permite a integração da população residente. Complementamos essa ideia com Simão (2001, p. 45) quando este diz que “[...] os valores impregnados nas coisas do passado precisam estar amplamente divulgados para que a população local consiga reaver o seu orgulho por algo que é deles e que é valorizado”. Sendo assim, percebemos a necessidade de uma melhor divulgação, não apenas da estação e dos seus atributos arquitetônicos, que mesmo importantes, limitam a possibilidade de usufruto turístico desse bem, que possui também uma história interessantíssima. E que pode ser contada pelos seus elementos preservados, tanto móveis, como imóveis que ainda existem, bem como, a partir de locutores humanos dessa história local. Projetos e atividades nos patrimônios ferroviários existentes e agentes promotores; Durante as entrevistas, com João Roberto Pinto Figueiredo, Presidente do setor Artístico Cultural da Comissão de tombamento criada em Mairinque durante o processo de tombamento e o Presidente da Associação Mairinquense de Preservação Ferroviária na época da entrevista, Ciro Gomes, ficou evidente a necessidade de haver melhorias estruturais na estação e a contratação de um funcionário capacitado para informar os visitantes. Essas transformações garantiriam o tratamento adequado do espaço que, de 106 acordo com Adams (2002), se reverte no reconhecimento popular, atestado pela volta de um maior número de usuários. Com relação aos outros edifícios, os entrevistados manifestaram preocupação com o destino destes e a importância de se garantir a sua preservação e manutenção, pois são marcos que ajudaram a constituir a história da cidade. Como afirma Martins (2003), na sociedade urbana são inúmeros os territórios ou espaços nos quais se integram os indivíduos, como a casa, a escola, a empresa, as ruas e os transportes. Em cada um desses ambientes se desenvolverão interações diferentes entre os indivíduos. Logo, é necessário avaliar a importância de outros bens da cidade, que possuem importância social. Durante as entrevistas ainda foram citados alguns projetos, dentre eles alguns mais inusitados realizados na própria estação pela A.M.P.F. Entre as iniciativas realizadas esta a inauguração da sede em uma das salas da antiga estação para fazer o atendimento aos associados, pessoas admiradoras da ferrovia, escolas e etc. Além da realização de um desfile na própria estação e um show musical com a cantora Ivette Matos. De acordo com a Associação, esse show teve apoio da Prefeitura Municipal de Mairinque através da Divisão Cultural e atraiu grande público à antiga estação. Mostrando que há interesse das pessoas por eventos culturais, bastando apenas haver a sua divulgação e realização como uma forma de estimulo, entrando em concordância com as ideias de Pinheiro (2004), sobre animação sociocultural. Outra atividade, em que a Associação está engajada, é a comemoração do dia do ferroviário, que tem ocorrido, anualmente, no mês de Abril e busca transformar essas pessoas em símbolo de referência para a cidade. Além da realização de um desfile civil, onde foram apresentados os componentes com seus trajes ferroviários originais e as autoridades foram presenteadas com o apito do chefe de trem. Além de uma coluna no jornal de Mairinque que homenageia alguns ferroviários, geralmente já falecidos, contando um pouco das suas histórias de vida, não deixando que a memória individual se perca com o falecimento dessas pessoas, que contribuíram para o desenvolvimento da cidade e da ferrovia. Priorizando o que foi afirmado na carta de Nizhny Tagil (2003), de que as memórias das pessoas que trabalharam nos sítios industriais constituem uma fonte única e insubstituível que devem ser registradas e conservadas sempre que possível e de Pedraza (2010), sobre a importância dos registros para a evocação de uma memória. Isto reafirma a importância de se recuperar a relação entre os homens e a indústria. Logo, essas iniciativas mostram o interesse real da Associação na preservação da memória ferroviária da cidade e a continuidade do relacionamento entre os antigos 107 funcionários com a ferrovia, na qual, mesmo já aposentados, recebem homenagens pelos serviços prestados. Sobre os projetos futuros, Ciro Gomes, nos deu base sobre algumas ideias grandiosas da Associação, como a divulgação da estação e da história da cidade nas escolas, trazendo os alunos para conhecer a estação. Ou seja, já desenvolver o sentimento de pertencimento dos moradores ainda no período de aprendizagem, a partir de uma educação formal feita em sala de aula e depois uma não-formal, a partir da visitação in situ dos elementos estudados. Para comprovar a importância disso, lembramos os princípios de educação não-formal determinada por Libâneo (2005) no âmbito geral e por Perichi (1997) no caso específico do museu. Na qual o museu (e aqui consideramos o Centro da Memória Ferroviária de Mairinque) ainda embute uma importante ferramenta no processo de educação não-formal, pois “deve contribuir para a formação crítica do indivíduo, fortalecendo seus valores, seus conhecimentos e identidade, fomentando sua auto-estima e enriquecendo a qualidade de vida individual e coletiva” (PERICHI,1997, p. 36). Ciro Gomes ainda cita que já existe um projeto de implantação de um trem turístico ligando São Roque a Mairinque e, realmente, os jornais locais mostram que São Roque já adquiriu um trem turístico, que durante a última visita a Mairinque, foi visualizado em um dos trilhos ao lado da estação junto com outra locomotiva. A partir do documento de 2012 disponibilizado pelo entrevistado João Roberto Pinto Figueiredo, foi possível ter acesso à informação de que a Prefeitura de Mairinque teria interesse em realizar futuras obras de restauro na estação, com o auxilio de membros especializados, encaminhados pelo próprio órgão de proteção do CONDEPHAAT. Assim, visualizamos a possibilidade de melhorias estruturais no patrimônio da cidade, de acordo com os princípios de restauro. E para isso, devemos levar em consideração a opinião de Kühl (2010) de que restaurar não é refazer imitando estilos do passado, pois projeto e criatividade fazem parte do restauro. A restauração implica sempre, transformações, por mais restritas que sejam, e devemos ter consciência que mudanças não controladas levam a perdas irreparáveis. Gomes observou que há projetos também com relação à elaboração de um livro com histórias orais locais, que demonstram a preocupação com a memória individual na formação da memória coletiva. Tal proposta está em consonância com o afirmado por Merillas (2004) de que ações educativas buscam fazer com que os elementos patrimoniais formem parte da nossa memória individual, coletiva ou social, não bastando utilizar apenas a comunicação oral, mas toda uma metodologia especifica 108 baseado na criação de uma consciência. O último projeto de interesse da associação, atualmente, é a réplica de documentos que estão em Sorocaba sobre Mairinque para ficar exposto na estação, mostrando a preocupação de trazer os objetos e histórias para cidade que acabaram se espalhando e, muitas vezes, se perdendo pelo país. Durante as entrevistas, ficou evidente a importância histórica da estação inserida no seu conjunto residencial e outros prédios da Sorocabana, que são prejudicados pela indecisão judicial sobre o responsável pelos imóveis, a ação do tempo, a falta de manutenção e, em alguns casos, descaso da empresa concessionária (ALL). Para eles, o Horto Florestal, por exemplo, seria uma ótima forma de lazer para a população e a Associação Ferroviária possuía interesse em adquiri-lo para gerar algum tipo de uso naquele espaço, porém este se encontra interditado para visitação, mesmo tendo sido criado um jardim japonês, pois não houve um planejamento de uso e nem preocupações com o acesso ao jardim, que devido a chuva e a falta de uma revisão do solo prejudicado têm a sua entrada impossibilitada. Com relação à visitação turística da estação ambos os entrevistados mostram que há dificuldades relacionadas às reformas para melhorar o seu acesso e a dificuldade de começar a restauração, informação confirmada pelo atual Presidente da Associação, Francisco Camargo, com relação também às infiltrações no edifício. Além do problema em se encontrar um funcionário interessado em ensinar a importância da estação para a cidade e o País. Assim, esta continua abandonada, recebendo visitas limitadas de estudantes interessados na arquitetura da estação e dos membros da Associação que também realizam a função de guiar os visitantes que consigam avisa-los com antecedência. O que consideramos um quadro preocupante, pois, para Rodrigues (2010) as ferrovias foram vetores de crescimento, que determinaram características espaciais e de memórias, principalmente no interior do Estado de São Paulo e, justamente por isso, deveria ser melhor utilizadas. Pensando nisso, acreditamos que, na realidade, este nicho de visitantes poderia ser ampliado a pessoas realmente interessadas nos vestígios do patrimônio industrial brasileiro, de forma geral, na história local e na importância que esta cidade teve para a região, assim como, para o desenvolvimento do Estado. Usos turísticos da estação e do conjunto ferroviário de Mairinque; Uma forma de uso que pode ser aplicada ao patrimônio é o turismo, onde a pessoa busca lugares diferentes daqueles de origem, com singularidade e infraestrutura adequada para recebê-la e, neste caso, relembramos Pardo Abad (2008) com relação à 109 adequação das instalações a sua nova funcionalidade didática e cultural, que é o turismo. Ainda, como afirmado por Costa (2010), o turismo tem a capacidade de transformar a estrutura da sociedade receptora, gerando empregos, desenvolvendo a economia e mexendo com o imaginário dos turistas. Isso se torna propício pela singularidade das regiões, tão difícil de manter no mundo globalizado em que vivemos, onde temos acesso a várias culturas e acabamos por inseri-las no nosso cotidiano. O turismo que achamos interessante para o nosso objeto de estudo, caso desenvolvido, deve levar sempre em consideração a opinião da população residente, pois é um turismo baseado na história local. Em Mairinque, poder-se-ia desenvolver o turismo cultural, que tem por objetivo proporcionar aos visitantes o conhecimento da história da cidade e, no caso de sua população, entender o seu passado e ajudar a valorizar este conjunto edificado de referência, e com isso estimular o sentimento de orgulho pelo que é propriamente seu. Entretanto, para isso seria necessário criar uma infraestrutura adequada, atrelada as facilidades de acesso local (considerado que não existe, por exemplo, um ônibus direto de São Paulo para Mairinque) e com relação à visitação ao museu, que na cidade já existe, mas precisa de melhorias. Como afirmado por Hernández (2003) as condições de visitação ao patrimônio podem influenciar na interpretação do visitante sobre o lugar visitado como correta sinalização, facilidades para estacionar, tratamento dos espaços públicos, imagens prévias do atrativo e as oportunidades que os recursos oferecem ao visitante, além de mão-de-obra especializada para trabalhar e tratar do bem preservado. Porém, nada disso é visualizado no museu ferroviário da cidade que fica dentro da estação. Muito menos a aplicação da museografia ou algum recurso de educação patrimonial que criasse condições para o desenvolvimento de um diálogo com o público visitante. Dando a aparência de que os objetos estão apenas “jogados” dentro de uma sala. Entretanto, alguns elementos do acervo são doações da população local, o que, minimamente, insere a comunidade local no desenvolvimento do museu. Isto, de acordo com Lima e Carvalho (2005), possibilita a transferência do vestígio material individual e privado para a dimensão pública da vida social. Sobre o uso turístico, consideramos que o museu não deve se restringir apenas aos interesses de desenvolvimento da área da estação, pois este deve estar em plena utilização e convivência com a comunidade. Em Mairinque, isso pode ser expandindo ao chamado por Ulpiano Meneses (2006) de “território-museu”, como forma da cidade se apresentar aos visitantes e expandir o seu entorno de importância. O museu ferroviário de Mairinque ainda pode ser considerado 110 um museu industrial, já que seu acervo engloba o próprio edifício, os utensílios de trabalho e arquivos da Companhia Sorocabana, bem como da FEPASA e da RFSSA, sendo necessário, se possível, a inserção dos relatos orais para completar o acervo. O turismo em patrimônios industriais, como o determinado na Carta de Nizhny Tagil de 2003, tem a possibilidade de assegurar a sua sobrevivência econômica e deve receber o apoio das autoridades públicas, algo pouco visualizado na cidade de Mairinque. Para Viñuales (2001), vários elementos industriais devem ser considerados para a aplicação do turismo, como os edifícios, os jardins, a presença urbana, as fotos, mapas, cartões, plantas, entre outros. E Mairinque possui todos esses elementos capazes de formar um acervo interessantíssimo para o turismo. Além de outros pontos culturais, como o antigo cinema e o Horto Florestal, que abrange até mesmo os aspectos naturais, mas que não foram relacionados com a história ferroviária local. Ou seja, entendemos que Mairinque possui os atrativos para desenvolver o chamado turismo industrial, por seus remanescentes arquitetônicos, estrutura urbana e social, além das histórias locais coletivas e pessoais, marcadas pela ferrovia, bastando apenas integra-las para criar um conjunto de interesse turístico. Algumas das iniciativas citadas anteriormente, como à restauração das fachadas das casas, podem ser consideradas uma empreitada paisagística importante para o desenvolvimento do turismo, pois esta atrelada ao aspecto visual do conjunto que, como afirmado por Lynch (1997) anteriormente, se trata de um fator primordial na relação do turista com lugar visitado. Além disso, estão havendo mudanças significativas nas antigas estruturas ferroviárias, sendo que algumas, como a criação de um ponto de Informações e a aquisição dos trens turísticos, demostram ter claras relações com o turismo, que pode se desenvolver futuramente, desde que essas mudanças continuem a correr de acordo com os interesses da comunidade local e a sustentabilidade de seus atrativos, baseados na história da cidade. A implantação de um trem turístico cultural na região é a iniciativa que mais nos chamou a nossa atenção, por ser um método que tem funcionado e é utilizado em outras cidades com atrativos ferroviários, principalmente no Sul e Sudestes (REIS, 2010). Esta é também uma das principais metas da A.M.P.F, desde a sua constituição, a principio utilizando a antiga Maria Fumaça chamada Cecília, que se encontra no centro da cidade (A.M.P.F., 2008). Há alguns anos a possibilidade do trem turístico entre Mairinque e São Roque (cidade vizinha), vem sendo discutida. De acordo com o Jornal de São Roque (2011), os membros da prefeitura de São Roque e de Mairinque se reuniram com a ALL, 111 responsável pela linha férrea da região, que se comprometeu a autorizar o uso da linha para o trafego da Maria Fumaça adquirida por São Roque. De acordo com o Prefeito de São Roque, Efaneu Nolasco Godinho (PREFEITURA DE SÃO ROQUE, 2011) a cidade possui locomotivas para esse fim e a estação esta sendo reformulada para receber turistas. O trem turístico de São Roque foi visualizado em uma das visitas a estação de Mairinque em 2013, estacionado em um dos trilhos desativados na lateral da estação. Sobre Mairinque, a partir de 2013, a cidade recebeu um programa que inclui, inicialmente, a restauração das fachadas de algumas das casas que pertenciam à antiga Companhia Ferroviária (GLOBO, 2013), sendo que há a possibilidade de restaurar também a própria estação, como visualizado nos documentos consultados. Assim, vemos os primeiros passos para a inserção de um corredor turístico partindo dos princípios de Boullón (1997) que, como citado anteriormente, utiliza-se do caminho dos trilhos também como um atrativo e pode ser entendido como uma forma de ampliar o turismo a outras cidades com importantes remanescentes ferroviários, inseridos nesse planejamento, não se limitando apenas a cidade de Mairinque. O que pode atrair um público maior, considerando que São Roque constitui hoje uma estância turística (PREFEITURA DA ESTÂNCIA TURÍSTICA DE SÃO ROQUE, 2009) e por isso sua ligação, a partir desse trem turístico, com Mairinque se torna atrativo, além de se tornar uma alternativa de transporte até mesmo mais atrativa do que o próprio transporte rodoviário. Visualizamos, por isso, que há o interesse pelo patrimônio ferroviário da região como atrativo turístico, que na opinião de Allis (2010), é viável em cidade que possuem sistemas ferroviários, que deixaram marcas culturais no plano territorial e expressas no mobiliário, no material rodante e nas relações sócio culturais. Como é o caso Mairinque, onde a ferrovia é parte da produção espacial e, hoje, constitui o patrimônio cultural da cidade. A cidade, com um todo, possui características culturais singulares. Assim podemos defini-la com um exemplo de sítio histórico, já que possui edifícios e monumentos com significados artísticos e históricos e, baseando-nos nas palavras de Oliveira (2003, p. 40), para que se desenvolva um turismo cultural “essas cidades precisam contar com atrações turísticas reconhecidas e infraestrutura apropriada para que o turismo se estabeleça como atividade econômica efetiva”. Sendo essa infraestrutura atrelada às facilidades de visitação, como ao Centro da Memória Ferroviária de Mairinque, que devem ser melhoradas com o tempo, a partir do planejamento (público/privado) e de acordo com as expectativas de seus visitantes e as necessidades da comunidade local. 112 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo dessa pesquisa tornou-se evidente que a proteção legal da Estação de Mairinque pelo tombamento de dois órgãos de proteção – IPHAN e CONDEPHAAT não foi suficiente para garantir o seu desenvolvimento de forma satisfatória ou mesmo protegê-la da ação do tempo. Desde o seu tombamento, seu prédio ficou à mercê do descaso e da própria ação natural. Mesmo a transferência de propriedade para a administração municipal não garantiu sua conservação física ou um projeto adequado até o momento, apesar dos esforços da associação civil e da boa vontade individual de antigos funcionários. Ou seja, o tombamento da estação pode ser considerado uma ação isolada, fazendo com que esta chegasse a esse estado de abandono nos dias de hoje. Atualmente, a estação deve ser considerada também por suas qualidades históricas, como preservação da memória de seus moradores, e não apenas por suas características arquitetônicas, adequando-a a evolução e aos novos princípios alegados nas cartas patrimoniais em geral e, principalmente, as referentes ao patrimônio industrial. Ainda, esta necessita de um plano adequado de recuperação estrutural, com mão de obra especializada nesse tipo de patrimônio para que não se percam partes da estrutura que já estão desgastadas. Outros elementos básicos de acessibilidade devem ser providenciados, pois de acordo com a legislação brasileira: as edificações de uso público já existentes devem estar adaptadas para a acessibilidade das pessoas com deficiência (§1º, art. 19, Decreto n.º5.296/2004), no qual, a partir de junho de 2007, podemos inserir os equipamentos, atrativos e serviços turísticos. O que não visualizamos logo na entrada da estação, cuja qual, temos que subir dois lances de escada para ter acesso ao seu museu. Aliás, este necessita de uma reformulação para passar fielmente e de forma compreensível seus elementos, provocando a curiosidade e o questionamento nos seus visitantes, como o visualizado nas ideias de alguns atores abordados. Para, por fim, alcançar a ideia de Território Museu apontada por Ulpiano Meneses (2006), já que o território de Mairinque possui outros atrativos históricos, sociais e arquitetônicos também de interesse para visitação e reconhecimento. Durante as primeiras visitas e pesquisas, indentificamos a existência de outros prédios construídos pela Companhia Sorocabana na cidade de Mairinque que, muitas vezes, passam despercebidos por muitos relatos sobre a cidade e que consideramos de grande relevância e que possuem valores históricos, estéticos, econômicos ou de usos diversos. A partir da ideia de Ferrari (2011) - que trabalha com as transformações territoriais trazidas pela ferrovia no Noroeste Argentino - o ferroviário está associado a 113 um sistema que produziu um impacto urbano-territorial, político, econômico e social e que deixou vestígios não apenas em edifícios isolados, mas é composto de um conjunto de documentos e bens móveis e imóveis. Ou seja, não é constituído de um elemento único e, por isso consideramos necessário valorizar as áreas que ainda possuem, com relativa integridade, resquícios desse sistema, como é o caso de Mairinque (que ainda é formado pela estação, locomotiva, documentos, fotografias, peças que permitiam o funcionamento da ferrovia, estruturas de apoio, casas dos antigos funcionários, oficinas, etc). Ao mesmo tempo, observamos algumas ações isoladas por parte de associação civil local que denota ainda haver identificação com o conjunto (e não apenas com o prédio da estação). Seria importante que o poder público (municipal, provavelmente) reconhecesse tais manifestações por meio de uma política de preservação que reforçasse a relação entre a estação e o seu entorno de importância, principalmente com as casas, consideradas como um dos primeiros conjuntos de habitação coletiva para operários do país (SOUKEF, 2001). A restauração já é uma iniciativa e por inserir e começar pelas residências que ainda conservam partes da sua estrutura original, excepcionalmente as fachadas, demonstra que existe essa relação histórica do entorno com a estação. Isso já havia sido evidenciado durante o processo de tombamento, principalmente, referente às residências e oficinas, sugeridas até mesmo para tombamento. No qual levamos em consideração as palavras de Silva (2004) de que, nesse caso, podemos manter apenas a “casca” externa das construções, assim como as palavras de Ciro Gomes justamente sobre as fachadas iguais, que eram o aspecto visual mais interessante do conjunto residencial. Para isso, relembramos que é necessário estabelecer medidas de precaução com relação à restauração de edifícios industriais (AGUILAR, 2001) como os que estão sendo restaurados em Mairinque. Se essa iniciativa se mostrar benéfica para moradores, pessoas envolvidas do SENAI e possíveis visitantes, atraídos por este patrimônio que está sendo recuperado e valorizado visualmente (levando-se em conta que as fachadas estão sendo reformuladas para destacar os detalhes estruturais antigos) resta à expectativa de que este projeto se amplie, adeque e, finalmente, chegue à estação e, se possível, a outros imóveis e móveis históricos da cidade (como a Maria Fumaça Cecília). Uma vez que se mostrou possível preservar e revalorizar os conjuntos ferroviários considerados até então teoricamente. Dentro de outro projeto de valoração do conjunto ferroviário de Mairinque, a estação, junto com outros edifícios da antiga Sorocabana, se fossem melhor divulgados 114 na cidade, poderiam funcionar de modo mais eficaz, como referências de memória para a comunidade. Sendo possível associá-los a projetos de história oral com os antigos ferroviários, buscando recuperar os laços entre os espaços ferroviários e as pessoas que neles trabalharam, moraram ou se divertiram e, para isso, seria necessário garantir meios de interpretação patrimonial para a população local, permitindo que a história da vila ferroviária não perdesse o sentido com o passar do tempo; e que, aliás, multiplicasse os sentidos com outras dimensões (sociais, de lazer, pessoais, etc.) ou mesmo problematizasse esta história. Neste sentido, reafirmamos que essa história não seria constituída apenas pelo prédio da estação, que hoje parece mais um elemento isolado de todo o conjunto ferroviário construído, mas também por outros elementos como: casas, horto florestal, cinema, oficinas e locomotiva. Enfim, o processo de preservação e difusão do patrimônio industrial de Mairinque deveria estar associado a um plano de conversação e reutilização consistente e duradouro. Além de respaldado em conhecimento histórico do bem, rigorosa fundamentação de restauro e planejamento de difusão cultural da estação e da área da antiga vila ferroviária (mesmo que sejam mantidas as funções de moradias, operacionais, de lazer ou de áreas naturais). Esses são os primeiros passos para repensar a cultura relacionada com o turismo, no qual a pesquisa/inventário das localidades, do ponto de vista cultural, devem envolver não apenas os cobiçados valores históricos e arquitetônicos dos ditos bens culturais consagrados, mas também, os valores afetivos das comunidades em relação a si mesmas, como afirma Gastal, Beni e Castrogiovani (2003) por exemplo, para garantir a sustentabilidade do atrativo. Por fim, concluímos que a implementação de um turismo doméstico - que seria o segmento mais adequado para o caso de Mairinque, por possuir um fluxo de turistas menor, adaptado as condições de pequenos municípios (SILVA, 2004) -, nas atuais condições físicas dos edifícios e da infraestrutura da cidade, torna-se inviável. Para que o turismo possa se tornar um instrumento de preservação patrimônio, tal como afirmam Pardo Abad (2008) ou Hernández M. (2003), seriam necessárias alterações significativas de grande parte do que pode funcionar como atrativo turístico. Assim como, seria necessária também, à criação de infraestrutura turísticas e de apoio como hospedagem, lugares para alimentação, estacionamento, sinalização, acessibilidade, transporte local e intermunicipal, guias de turismo, entre outros. Porém, tais alterações não seriam isoladas (como foi o tombamento da estação), mas inseridas num planejamento municipal com o objetivo de preservar as instalações ferroviárias. Trata-se de um processo que reforça a identidade tanto para a população local quanto para os 115 visitantes. E, para isso, inicialmente, podemos pensar em ações locais para atrair o interesse da população residente pela história da cidade, que em alguns casos, pode ser conhecida percorrendo as ruas a pé. Enfim, dentre os tipos de turismo que ali poderiam ocorrer seriam o turismo educativo e técnico cietifico. Estimula-se, inclusive, a valorização e manutenção de ações, como os dias comemorativos e evento, que são realizados dentro da estação e permitem ampliar o sentimento de pertencimento e a sensação de “volta ao passado” daquele lugar e daquela história, funcionando como um estimulador, que garantiria a preservação dos imóveis, afinal, assim as pessoas estariam cientes de que suas ações poderiam gerar perdas irreversíveis. E, então, futuramente, pensar em ações maiores que envolvam mais de uma cidade, como o trem turístico, que há alguns anos é discutido e adiado, estando agora previsto para ficar pronto no final de 2013. A Associação Ferroviária, junto com alguns cidadãos de Mairinque, tem claro interesse em ajudar no desenvolvimento da cidade com base no legado históricocultural, usando desde os imóveis sem proteção legal até fontes orais. Agora, acreditamos faltar apenas à intensificação da criação de vínculos entre membros interessados, o poder público e a comunidade local, a partir de planejamentos que envolvam as perspectivas de todos pelo patrimônio ferroviário da cidade. Para conduzir ao investimento nessa área, que pode acrescentar a todas as partes envolvidas, gerando a preservação da história local, reconhecimento social e benefícios econômicos. Desta forma, entendemos o turismo cultural como um instrumento promotor da preservação do patrimônio industrial ferroviário, que permitiria tornar o centro histórico de Mairinque um ponto aglutinador de estudantes, turistas e comunidade local. 116 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, Betina. Preservação urbana: gestão e resgate de uma história. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2002. AGUIAR, LEILA B. O IPHAN e o desenvolvimento turístico em conjuntos urbanos. In: INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Anais da I Oficina de Pesquisa: a pesquisa histórica no IPHAN. Rio de Janeiro: IPHAN, Copedoc, 2008, p. 71 a 88. AGUILAR, Immaculada. Restauración del patrimonio arquitectónico industrial. In: INSTITUTO ANDALUZ DEL PATRIMONIO HISTÓRICO. Preservación de la Arquitectura Industrial en Iberoamérica y España. Sevilla: Editorial Comares, 2001 ALL. A Empresa, 2012. Disponível em <http://pt.alllogistica.com/all/web/conteudo_pti.asp?idioma=0&tipo=27307&conta=45> Acesso em: 25 out. 2013. 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No processo de tombamento tem um alguns membros envolvido que enfatizam a importância das oficinas e das residências, considerando a possibilidade de tomba-las. Qual a opinião do senhor sobre isso? A FEPASA alterou o sistema? O que você acha desse barulho que a ALL faz ao lado da estação? Como é a visitação na estação? O senhor sabe algo sobre a história e situação atual das casas? E das oficinas? E do centro cultural? E do Horto Florestal? Como quantos anos, mais ou menos, o senhor começou a trabalhar na ferrovia? No livro de assinaturas, a maioria dos visitantes são daqui da cidade mesmo. Qual o motivo das visitas? 125 Apêndice B - Roteiro de entrevista - João Roberto Pinto Figueiredo Nome inteiro? Profissão? Há quanto tempo mora em Mairinque? Você fez parte do processo de tombamento, conte como isso ocorreu e como foi durante o processo e o resultado após a decisão final de tombar a estação como patrimônio arquitetônico. Depois de 10 anos do tombamento, o IPHAN entra em contato com o CONDEPHAAT para argumentar sobre as más condições da estação e sobre a dissolução da RFFSA e o que aconteceria com a estação após esse acontecimento, no processo de tombamento n° 24383/86 a discussão termina assim, sem resolução. Eu gostaria de saber o que aconteceu depois e como a estação acabou se tornando propriedade da prefeitura de Mairinque? No processo ainda é citado à importância do conjunto residencial, você acredita que algumas das casas ou mesmo as oficinas poderiam ter sido tombadas como patrimônio histórico, pois representam um dos primeiros conjuntos ferroviários do país? O que você acha que acontecerão com os edifícios da Sorocabana que hoje não recebem proteção legal? O que você acha da concessão dada a ALL sob os antigos trilhos e, consequentemente, das oficinas? E quando acabará essa concessão? Qual a sua opinião sobre o museu da estação? O fluxo de visitação? O seu estado atual? E os planos futuros para o museu? A estação tem condições de receber turistas? Qual o estado de conservação do Horto Florestal? Como era a vida na Vila na época da Sorocaba se comparando com os dias de hoje? Algumas pessoas já demoliram alguma das casas temendo que elas fossem tombadas ou devido a outras situações? 126 Apêndice C - Fotos gerais dos elementos ferroviários existentes em Mairinque Foto 18 – Parede descascada no interior de uma das casas de alvenaria Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 19 – Quintal coletivo ocupado por outras residências Fonte: Autoria própria, 2011 127 Foto 20 - Infiltrações na parte interna da estação ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 21 – Oficinas utilizadas pela ALL Fonte: Autoria própria, 2011 128 Foto 22 – Mural de fotos que fazem parte do acervo do Centro dA Memória Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 23 - Escritório da ALL (antigo símbolo da EFS coberta por tinta branca) Fonte: Autoria própria, 2011 129 Foto 24 - Fotos da comemoração do Dia do Ferroviário realizado na estação (parte do acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque). Fonte: Autoria própria, 2013 Foto 25 - Vista exterior do pavimento superior da estação Fonte: Autoria própria, 2011 130 Foto 26 – Vista lateral da estação Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 27 – Placa informativa na estação Fonte: Autoria própria, 2011 131 Foto 28 – Câmara Municipal de Mairinque (antigo hotel) Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 29 – Interior do antigo Casarão no Horto Florestal Fonte: Autoria própria, 2011 132 Foto 30 – Jardim em frente ao antigo Casarão Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 31- Placa com o nome da rua que fica em frente a estação, fazendo referência ao fundador da EFS Fonte: Autoria própria, 2011 133 Foto 32 - Casas na Rua Luiz Matheus Maylaski Fonte: Autoria própria, 2013 Foto 33 – Uniforme doado pela população local. Parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 134 Foto 34 - Mural com foto e história de Victor Dubugras, parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2013 Foto 35 – Parte de uma ata de reunião e bilhetes para os passageiros da ferrovia, parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 135 Foto 36 – Objetos da exposição, parte do Acervo do Centro da Memória Ferroviária de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2011 Foto 37 - Placa informativa da fundação do Centro da Memória Ferroviára de Mairinque Fonte: Autoria própria, 2012 136 ANEXOS Anexo A - Documentos consultados Documento 1 - Lei 2365/2001 que autoriza a Prefeitura Municipal de Mairinque a adquirir a Estação Ferroviária. Fonte: CÂMARA MUNICIPAL DE MAIRINQUE. Legislação Municipal de Mairinque. 8 8 Disponível.em:<http://www.docvirt.com/WI/hotpages/hotpage.aspx?bib=CD_Mairin&pagfis=3125&pes q=lei+2365/2001+mairinque&url=http://docvirt.com/docreader.net>. Acesso em 20 jun. 2012 137 138 Documento 2 - Ofício de tombamento provisório da Estação de Mairinque pelo IPHAN em 2002. Acervo: João Roberto Pinto Figueiredo 139 Documento 3 - Solicitação da Prefeitura Municipal de Mairinque, encaminhado ao CONDEPHAAT, referente as obras de restauro na Estação. Acervo: João Roberto Figueiredo Pinto 140 Documento 4 - Resposta satisfatória do CONDEPHAAT sobre as obras, direcionada a Prefeitura Municipal de Mairinque. Acervo: João Roberto Pinto Figueiredo 141 Anexo B - Documentos Cartográficos Consultados Figura 03 – Território inicial de Mairinque Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA Figura 04 – Planta da década de 20 do território de Mairinque Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA 142 Figura 05 – Disposição de bens imóveis da Sorocabana em 1935 Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA Figura 06 – Planta descrevendo a venda do hotel para a Prefeitura Municipal de Mairinque em 1970 Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA 143 Figura 07 – Planta mostrando a disposição das moradias para os funcionários da ferrovia Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA Figura 08 – Planta organizada do terreno de Mairinque na década de 1920 Fonte: Acervo do Departamento de Patrimônio da Inventariança da RFFSA 144 Figura 09 – Planta da estação enquanto estava sob a administração da FEPASA Fonte: Planta que compõe o processo de tombamento n° 2438 3/86 disponível no CONDEPHAAT Figura 10 – Usos dados pela FEPASA a outros bens da antiga Sorocabana Fonte: Planta que compõe o processo de tombamento n° 2438 3/86 disponível no CONDEPHAAT 145 Anexo C – Termo de Cessão de Depoimento Oral 146 147 Anexo D – Fichas de Inventario do Patrimônio e Conjunto Industrial FICHA DE INVENTÁRIO DO PATRIMÔNIO INDUSTRIAL IDENTIFICAÇÃO DO EDIFÍCIO Rua__________________________________________________________ n°________ Bairro_________________________________________________________________ Cidade___________________________________________ Estado_________________ Coordenadas cartográficas do edifício: PROPRIEDADE a) Privada Pública b) Responsável:__________________________________________________________ c) Situação de ocupação: Própria Alugado Cedida Comodado Outros USO DO EDIFÍCIO ATUALMENTE Residencial Comercial Institucional Industrial Outros Serviço Religioso Especificar:_____________________________________________________________ PROTEÇÃO LEGAL EXISTENTE Tombamento: sim não Nível de tombamento: Federal Estadual Data:___________________________ Nº da lei:________________________ Municipal PROTEÇÃO LEGAL PROPOSTA Tombamento Municipal Estadual Federal Entorno do bem tombado Restrições de uso e ocupação Inventário HISTÓRICO ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. .................. DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA (10 fotos: 1 foto de plano mais aproximado, 4 (de fachada, laterais e fundos), 1 de interior (se possível), demais de detalhes arquitetônicos e vestígios industriais (postes, máquinas, trilhos) – conforme TICCIHBrasil.) DESCRIÇÃO DO EDIFÍCIO Tipologia dominante: ___________________________ Uso projetado _________________________________ 148 Data de construção _________________ Engenheiro/Arquiteto responsável _______________ Fundado/Mandado construir em _______________ Referente ao Conjunto arquitetônico: Vila ferroviária Complexo Ferroviário: Estação Armazém Manutenção Dados do edifício (a partir de informações colhidas durante a visita com moradores, visinhos ou pedestres): ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. .................. ESTADO DE CONSERVAÇÃO / OCUPAÇÃO Ocupado Vago Parcial / ocup. Péssimo Regular Bom Excelente ANÁLISE DETALHADA DO ESTADO DE CONSERVAÇÃO: a) Integridade estético/formal: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............ b) Integridade física: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............ c) Integridade estrutural: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............ ANÁLISE DO ENTORNO – SITUAÇÃO E AMBIÊNCIA: a) Construções adjacentes: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ............................ b) Equipamentos urbanos disponíveis (fornecimento de água, saneamento, iluminação, coleta de lixo, transporte público): ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ............................ 149 FATORES DE DEGRADAÇÃO: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ................................................................................................................................................................ ...... ............................ MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ............................ INTERVENÇÕES: a) Restauro e conservação: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ............................ b) Adequação: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ............................ c) Descaracterizantes: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... ...................... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ................. . INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... FICHA TÉCNICA: Levantamento Data: 150 Histórico Descrição Revisão Data: Data: Data: FICHA DE INVENTÁRIO DO CONJUNTO INDUSTRIAL IDENTIFICAÇÃO DO CONJUNTO Cidade_______________________Estado________________ Bairro Centro___________________________________________________ a) Coordenadas cartográficas do conjunto (pontos): b) Uso original do conjunto: Vila ferroviária Complexo Ferroviário: Estação Armazém Manutenção d) Uso atual (predominante) do conjunto: Residencial Comercial Institucional Religioso Industrial Outros c) Quantas unidades (tipos): Serviço Abandonado HISTÓRICO DO CONJUNTO (período, evolução da construção do conjunto e usos) DOCUMENTAÇÃO FOTOGRÁFICA (20 fotos da visão geral do conjunto e distribuição das edificações) ANÁLISE GERAL DA SITUAÇÃO E AMBIÊNCIA: A) Equipamentos urbanos disponíveis (fornecimento de água, saneamento, iluminação, coleta de lixo, transporte público, segurança): ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... PRINCIPAIS FATORES DE DEGRADAÇÃO: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... MEDIDAS DE CONSERVAÇÃO: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: 151 IDENTIFICAÇÃO INDIVIDUAL DAS UNIDADES Tipologia da unidade: Localização cartográfica da unidade: Foto da fachada: (repetir para quantos bens imóveis existir) INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES: ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ............................................................................................................................................. ...................................................................................................................................................................... FICHA TÉCNICA: Levantamento Histórico Descrição Revisão IDENTIFICAÇÃO INDIVIDUAL DAS UNIDADES Tipologia da unidade: Localização cartográfica da unidade: Foto da fachada: Tipologia da unidade: Localização cartográfica da unidade: Foto da fachada: Tipologia da unidade: Localização cartográfica da unidade: Foto da fachada: Data: Data: Data: Data: