Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 A GRAÇA E SEUS SINAIS – 2ª PARTE* Juan Luis Segundo B. OS SINAIS DA GRAÇA A primeira carta de João que foi objeto de nossa reflexão no item anterior certamente está dirigida a cristãos. Não obstante, as fórmulas mais profundas e diretas sobre o presente que Deus nos faz de seu ser incriado ou seja, de seu amor não marcam qualquer limite de pertença a um determinado grupo religioso. Assim, lê-se, por exemplo, que “todo aquele que pratica a justiça (constitutiva do amor) nasceu de Deus” (1Jo 2,29); “todo aquele que ama nasceu de Deus” (1Jo 4,7); “todo aquele que permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele” (1Jo 4,16). Não se trata de que cada homem tenha a possibilidade de suscitar em si próprio um amor que imita o amor divino. É algo mais. A teologia joanina vai mais longe que isso: “O amor é de Deus (= procede de Deus), e é por isso que “todo aquele que ama nasceu de Deus” (1Jo 4,7), ou seja, porque possui algo que é próprio de Deus, dom de sua graça incriada. “Este é tira, como conclusão, o Vaticano II o grande mistério do homem (= o homem genérico, o gênero humano), que a revelação cristã esclarece aos fiéis” (GS. 22). E “esclarece-o no mistério (revelado aos fiéis) do Verbo encarnado... que trabalhou com mãos de homem, pensou com inteligência de homem, agiu com vontade de homem, amou com coração de homem” (ib). Pois bem, surgindo da revelação deste mistério da graça incriada de Deus, formula-se corretamente a pergunta sobre que relações têm os “sacramentos” tradução costumeira ao latim e às línguas modernas da palavra grega “mistério” com este presente. Com um presente que, neste ponto ao qual cheguei, não se sabe muito bem se está feito ao homem, ou apenas do fiel. À humanidade inteira ou ao membro da Igreja de Cristo. Sacramentos e causalidade Como vimos antes, ao começo deste capítulo, o monismo do ser cedeu à facilidade de reificar fenômenos claramente pertencentes à esfera da significação. Vimos, igualmente, que esse monismo do ser, ao qual me refiro, e que constitui uma remanescência hoje, já ultrapassada da filosofia grega, tratou de explicar a natureza dos seres, sobretudo através de sua causalidade respectiva. Até chegar à causa primeira, ou seja, Deus. O Vaticano II que, como todo mundo sabe, não produziu uma obra estritamente homogênea em suas primeiras sessões, estudando os problemas da liturgia na Igreja católica, propõe desta maneira a finalidade dos sacramentos: “...estão ordenados à santificação dos homens, à construção do Corpo de Cristo e, em definitivo, a dar culto a Deus” (SC. 59). Não há nada de novo até aqui. E, no entanto, o Concílio, que quer renovar a prática sacramental da Igreja, acrescenta, sem solução de continuidade, a esta espécie de definição clássica em seu conteúdo (apesar de não usar os termos escolásticos mais * Texto extraído de: Juan Luis Segundo Que Mundo? Que Homem? Que Deus?; aproximações entre ciência, filosofia e teologia. Paulinas, 1995, cap. 13, pp. 531-573. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 comuns oriundos da Idade Média), um inesperado “mas...”: “mas, enquanto sinais, têm também um fim pedagógico”. Prossegue com uma frase, onde se explica que esse caráter pedagógico consiste em alimentar, robustecer e expressar a fé, por meio de palavras e coisas. Pareceria, assim, que aquela espécie de definição dos sacramentos por sua eficácia, mais esse fim pedagógico que “também” possuem e que jamais alguém, em teoria, negou aos sacramentos, deveria satisfazer a todos os padres conciliares. Mas, não foi assim, e a prova é que, em seguida, vem uma frase tipicamente destinada, até por sua própria construção gramatical, a silenciar um temor ainda subsistente: “certamente, conferem a graça...” (ib). É óbvio que o temor, timidamente exorcizado por este “certamente...” deve ter surgido, quando os padres conciliares advertiram que, na definição assim expressa, se havia omitido falar, de modo explícito, segundo o clássico costume, dos sacramentos como causa da graça de Deus. Daí esta afirmação: “conferem a graça”. Esta constitui, de fato, a forma consagrada para falar da graça criada, enquanto causada pelo sacramento (ex opere operato). Deus se valeria desse instrumento (causal) para comunicar determinadas graças àqueles que o recebem. Com isto, o Vaticano II pareceria, diante de certos elementos de dúvida, querer manifestar sua continuidade, mesmo verbal, com o Concílio de Trento, que fixou esta fórmula nos cânones sexto e oitavo sobre os sacramentos em geral. (D. 849 e 851). No entanto, gostaria de chamar a atenção sobre os elementos que o próprio Vaticano II dá para mudar a ordem dos fatores nesta definição da graça que passa, através dos sinais sacramentos. A principal razão está intimamente ligada a duas diferenças que existem entre a problemática que se teve de tratar em Trento e a que se tratou no Vaticano II. Naquele concílio, entendeu-se que a Reforma esvaziava os sacramentos de seu conteúdo de graça, ao negar que existisse um nexo causal1 entre eles e a graça. No Vaticano II, o problema havia mudado. Prescindindo de que a “causalidade”, que se atribuía aos sacramentos em Trento ainda dependia de uma filosofia fisicista, incapaz de transmitir sua plena significação e a universalidade da graça de Deus, o Vaticano II, mesmo a partir de suas primeiras sessões, se sentia diante do problema oposto. Tratava-se não já de que se negara sua “causalidade”, mas de que se praticavam sem cuidar sua “significação”. Com isto, tornava-se necessário insistir em que o fim pedagógico dos sacramentos não dependia de um acréscimo utilitarista, de um “também” acrescentado à sua finalidade principal. Efetivamente, talvez a prudência com que está formulada a crítica ao uso prático dos sacramentos na Igreja tenha escondido a extraordinária radicalidade com que se menciona “certas coisas que atualmente obscurecem, de algum modo, sua natureza e seu fim” (SC 62; grifos meus). Acrescentando, como se isto fosse pouco, que para subsanar esta deficiência verdadeiramente central se “determina o seguinte para sua revisão” (ib.). Pois bem, o leitor não entranhará ao constatar que as reformas exigidas, em relação a cada um dos ritos sacramentos se referem todas à “compreensão” da graça específica com a qual cada sacramento está relacionado.2 1 Sem entrar no problema da alternativa entre monismo ou dualismo, Paul Ricoeur destaca como já tive ocasião de mostrar, nesta obra, com relação a seu livro Ideologia y Utopia que no mundo das idéias (ideologias, no sentido mais amplo e positivo da palavra), confunde-se, por desgraça e com freqüência, a causalidade e a motivação. Esta última, vigente no mundo da significação é apenas “parecida” à causalidade vigente no mundo físico, mas não se reduz a esta. As motivações, no plano da significação ou do sentido, não são causas de nenhum ato livre, estritamente falando. 2 Cf. SC. 66-69 (sobre o batismo); 71 (sobre a confirmação); 72 (sobre a penitência); 75 (sobre a unção dos enfermos); e 77 (sobre o matrimônio). Somente não se especifica a necessidade de tais reformas, no que diz respeito à eucaristia e à ordem Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 A segunda diferença entre a problemática do Vaticano II e a de Trento é, do ponto de vista teológico, ainda mais central. Trento, pelas próprias circunstâncias dos problemas de sua época, ocupouse da graça “criada”, conferida com cada sacramento válido. Ao contrário, daquilo que já tratamos neste capítulo surge que o Vaticano II conhece uma graça de Deus que chega, como já vimos, a todos os homens e que consiste na capacidade para “cumprir a lei nova do amor” (GS. 22). Trata-se, pois, da graça “incriada”, da qual participam todos aqueles que, como vimos, “nascem de Deus porque podem amar”, isto é, a humanidade inteira. De fato, essa lei pode dizer-se “nova”, somente na medida em que é nova a boa notícia que temos dela, pela revelação do Verbo Encarnado, sacramento (= mistério) central da revelação cristã (cf. SC. 5 e GS. 22). Sacramentos e significação Efetivamente, a teologia sacramental, ao não começar sua reflexão pela graça “incriada” o DeusAmor que só cria o mundo para unir-se com seres feitos à sua imagem, capazes de continuar sua criação de amor perdeu de vista um dado central que distingue o cristianismo da maioria, se não de todas as chamadas religiões universais. E isso, segundo o próprio Novo Testamento. Refiro-me, especialmente, a um dos mais revolucionários de seus escritos: a chamada Carta aos Hebreus, erroneamente atribuída a Paulo, apesar de que sua autoria foi discutida desde muito antigamente. Já mostrei, nesta obra, a dificuldade que sta carta representa para os atuais cristãos: igual a outros escritos neotestamentários, usa a metáfora dos antigos sacrifícios culturais para expressar, de forma figurada, o significado da redenção de Cristo. Só que, diferentemente de outros escritos, nesse tipo de figura que usa, aqui e ali, no meio de desenvolvimentos mais amplos (caso de Paulo), neste, temos que dizer que os treze capítulos que o compõem giram ao redor dessa metáfora sacrificial. No entanto, não reside aí o interesse da carta aos Hebreus. O leitor cristão de hoje pode fazer essa ressalva quando a lê. Reside, sim, na crítica fundamental que realiza a toda liturgia cristã, à qual se pudera atribuir um tipo de “causalidade” em obter de Deus a graça (em geral), ou graças (particulares), necessárias aos homens, mas ausentes de suas existências. Perto do fim da carta, seu autor resume o argumento geral com esta imagem: no culto religioso anterior a Cristo (tanto pagão como, sobretudo, hebraico) “todo sacerdote se apresenta, cada dia, para realizar as suas funções e oferecer freqüência os mesmos sacrifícios, que são incapazes de eliminar os pecados (Hb 10,11). Pois bem, o “evangelho” (= boa notícia) cristão da carta aos Hebreus (cf. Hb 1,1) consiste em compreender que a vontade do Filho de Deus encarnado, “ao entrar neste mundo” foi revogar “o primeiro para estabelecer o segundo. E graças a esta vontade é que somos santificados pela oferenda (= sacrifício, oblação) do corpo de Jesus Cristo, realizada uma vez por todas... de Jesus Cristo” (Hb 10,9-10). Com isso e aqui, sim, percebe-se o revolucionário, comparando a mesma prática da Igreja de hoje com a linguagem sacrificial que a acompanha, dia a dia “já não se faz a oferenda pelos pecados” (Hb 10,18). Deixa de haver a causalidade cultural por falta do objeto a obter de Deus. Porque, “de fato, com esta única oferenda, levou à perfeição, e para sempre, os que ele santifica )= aqueles cujos pecados foram apagados)” (Hb 10,14). sagrada. Por que estas duas exceções? É difícil determiná-lo. Talvez, pensa-se que a significação da graça nestes dois sacramentos está suficientemente evidente para os fiéis (o que não creio seja assim em nenhum dos dois casos). De todo mudo, ali não se propõe qualquer outro tipo de “reformas”, o que permite afirmar que obscurece e o fim dos sacramentos, segundo a mente do Concílio, está sempre em relação com o problema de seu significado e não com o de sua eficácia. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 E como estes, aos quais o sacrifício de Cristo apagou os pecados, assim santificando-os, são os todos os homens, uma vez que “cristo foi oferecido uma vez por todas para tirar os pecados da multidão” (Hb 9,28), deve-se dizer que a graça incriada já foi dada, de uma vez para sempre, à humanidade inteira. Além disso, sabe o leitor que, na linguagem bíblica, “multidão” e sinônimo de “totalidade”.3 A graça já está dada Razões histórias que não estudarei aqui, porque já o fiz em outras ocasiões levaram, insensivelmente, a Igreja, em sua competição com o paganismo do Império Romano e com as religiões autóctones dos povos bárbaros, a oferecer outra vez aos homens “dia a dia”, como diz a carta aos Hebreus a respeito do culto judaico antigo as ajudas ou “graças” que os homens procuram obter da divindade, em situações difíceis. Ou seja, em situações nas quais se supõe que essas graças, segundo nossa linguagem cotidiana, “fazem falta”. E grande parte da atração que leva os fiéis a ser, como se diz, cristãos “práticos”, reside precisamente na capacidade de pessoas e ritos sagrados que, de modo infalível ex opere operato obtêm de Deus que essas graças cheguem finalmente ao homem. Tanto melhor se, além disso, os fiéis compreendem (em sua própria língua e na linguagem icônica utilizada) o significado das palavras e gestos que interligam a participação na graça recebida. Por oposição, compreende-se o grande desafio que significa hoje para a Igreja seguir as orientações, já citada, no Vaticano II. Isto é, as que privilegiam o verbo “significar” sobre o verbo “conferir”, enquanto se referem à graça criada. Não se esvaziará, assim, a prática sacramental? Não se tornará o sacramento um exercício piedoso a mais, que o cristão utiliza a seu critério, conforme sua necessidade espiritual? Poderia parecer um enorme paradoxo o recorrer, precisamente, a Trento para exorcizar esse temor. No entanto, a “reforma” que pretende introduzir o Vaticano II, na prática “atual” dos ritos dos sacramentos, para que não degenere “sua natureza e seu fim”, começa com algo que já está presente, embora de forma seminal, em Trento. De fato, para que se compreenda esta fórmula, tão difícil de traduzir, sobre a eficácia ex opere operato dos sacramentos, Trento introduz um esclarecimento valioso. Condena aqueles que dizem que “nem sempre, nem a todos se dá a graça” neles, “enquanto dependem da parte de Deus” (D. 859). Isto quer dizer que o sujeito que dá a graça, e de modo infalível, no opus operatum (= o sacramento, a obra que se faz aí), no rito, é o próprio Deus. Aí se baseia, de fato, sua infalibilidade. O que, traduzido da imagem à realidade, significa não que Deus está esperando que o sacramento culmine para dar sua graça, mas que já a deu, de tal maneira que não pode faltar a ninguém que “na forma devida” se aproxime ao referido sacramento. Por outro lado, não era necessário recorrer a Trento, quando sabemos pelo Novo Testamento como acabamos de ver na parte acima, que o fato de que toda a graça que “faria falta” a cada um dos homens, para levar à maior plenitude possível a graça incriada do amor, foi obtida, para toda a humanidade, de uma vez para sempre, por Deus feito homem e nosso irmão. 3 O Dicionário Teológico Del Nuevo Testamento... (op. cit., t. IV, p. 298), no artigo de F. Graber intitulado “Todos”, examina alguns poucos casos em que hoi polloi significa apenas “muitos” e não “todos”. E acrescenta: “Nas restantes passagens do Novo Testamento tem (a palavra) o caráter totalizador do Antigo Testamento”. Quando, precisamente, examina o presente caso de Hb 9,28, Graber escreve: “J. Jeremias certamente tem razão, quando afirma que o vocábulo tem um sentido totalizador em Mc 10,45 par; 14,24 par; Hb 9,28, pois estas passagens fazem referências a Is 53 e pressupõem, portanto, uma clara compreensão semítica do conceito. E, Is 53 o termo ‘muitos’ refere-se à totalidade dos povos. Assim, pois, Jesus, o servo de Deus, dá sua vida em resgate de todos os homens e derrama seu sangue pela reconciliação (com Deus) do mundo inteiro” (tanto o último grifo como o último parêntese são meus). Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 Caberia, então, perguntarmo-nos se a definição da finalidade dos sacramentos “conferir e também significar a graça”, ou também “conferir a graça, significando-a” não se expressaria melhor, de acordo com a revelação, desta maneira: “significam a graça que Deus confere”. Ou, para dizê-lo com uma referência mais explícita à graça incriada, “significam a graça que Deus nos conferiu” ao dar-nos sua própria vida. O presente de sete graças... Caberia também perguntarmo-nos se ao colocar o verbo “conferir” no passado embora seja num passado, cujo efeito continua não se perde algo do sacramento. Se não o convertemos, assim, numa mera recordação ou celebração, se se prefere de algo que sucedeu antes. Embora esse antes seja, como o diz claramente a carta aos Hebreus, um “de uma vez para sempre”. Creio que esta pergunta merece uma resposta cuidadosa para não perder, na medida do possível, nada do que aprofunda e humaniza a prática sacramental, sem cair por isso mesmo em algo similar a uma magia sagrada. Entendo que é necessário, antes de tudo, tirar a idéia da eficácia sacramental de um campo, no qual reina uma espécie de física quantitativa. E isso, para colocar a ênfase nos condicionamentos de algo em que a intenção gratuita de Deus é presentear um aprofundamento e uma riqueza maior para nossas existências humanas e capacitar o cristão a levar algo valioso e original ao diálogo humanizador com o resto da humanidade, frente aos problemas que a história coloca de maneira incessante. Como tendência geral, isto já foi dito sobre os sacramentos, com toda clareza, no Vaticano II: “...não apenas supõem a fé, mas ao mesmo tempo alimentam-na, robustecem-na e expressam-na por meio de palavras e coisas” (SC. 59). E isso ficou ainda mais claro, quando a Constituição Gaudium et Spes definiu, de maneira inesperada para a concepção clássica da função da fé, a autêntica missão desta: “A fé ilumina tudo com nova luz e manifesta o plano divino sobre a plena vocação do homem. Por isso, orienta a mente para soluções plenamente humanas” (GS. 11) Certamente, nem todos os teólogos mostram-se de acordo com isto, que entendem ser um “reducionismo” temporal. Mas, o Concílio quis ser claro neste aspecto, dando ao cristão, como dever moral próprio de quem tem a fé, o unir-se “com os demais homens para buscar a verdade e resolver acertadamente os numerosos problemas morais que se apresentam ao indivíduo e à sociedade” (GS 16). Como se vê, ao localizar deste modo os sacramentos no domínio da fé ou seja, do sentido da existência e da história, o aprofundar, enriquecer e dar-lhes aplicação criadora , afasta todo cálculo físico sobre a eficácia da graça “criada”. E nisso, ainda há muito que fazer. No plano da espiritualidade, por exemplo, a recepção multiplicada dos sacramentos, que se repetem, parece assegurar um aumento de graça, independentemente dos condicionamentos próprios de um crescimento do sentido. Permitam-me dar um exemplo, um dos mais gráficos que conheço sobre este ponto. Muitas comunidades religiosas ou, para ser mais exato, praticamente todas fizeram da missa e da eucaristia diárias uma obrigação. E mesmo fora da vida religiosa, entende-se que a “comunhão freqüente” ou a “comunhão diária” implicam numa maior união com Deus. Pareceria que não ocorre a ninguém pensar que o sentido e sua profundidade têm um ritmo, variável para toda pessoa, mas sempre necessário para que uma verdade penetre na mente e promova inspirações criadoras na existência. E que, ao contrário, a mera acumulação ou repetição de uma prática (não só nos sacramentos, mas nas orações Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 vocais, exercícios espirituais repetidos sobre temas similares, etc.) leva a um cansaço do sentido que paralisa seu poder criador e seu aprofundamento. Supõe-se, por exemplo pelo menos, a partir das orientações de Pio X, em matéria de eucaristia, e contra toda a lógica do mundo “espiritual” (muito diferente da do material) que uma comunhão diária produz mais graça que uma semanal (ou mesmo anual “pela Páscoa florida”), ou que cada missa possui um valor infinito, que deixaria de produzir-se se a ela não se assistisse durante a semana de trabalho. No entanto, basta uma simples leitura de vidas de santos para ver como uma única comunhão dominical convertia em muitos deles a metade da semana numa série preparação à eucaristia e a outra metade numa alegre celebração do sacramento recebido. Pois bem, se aceitamos que a graça foi conferida, sem limites, por Deus em seu Filho Jesus Cristo, e que a intenção das palavras e gestos de eucaristia estão destinados, não a conferir uma graça já dada, mas a compreendê-la, a vivê-la e expressá-la, não seria necessário pelo menos colocar a questão de que ritmo na recepção do sacramento está mais de acordo com esta finalidade? Outro exemplo tirado de anos e anos de experiência é que quando, num domingo ou num fim de semana, se reúne um grupo de cristãos para refletir sobre sua fé e os compromissos que ela comporta, ao chegar o fim da jornada de reflexão, os assistentes pedem uma eucaristia, não precisamente para celebrar o que foi o tema da reflexão, mas para cumprir com o preceito dominical e não perder a graça da eucaristia. No entanto, não pense o leitor que o que acabo de dizer seja contrário a qualquer fixação institucional de um ritmo para a recepção de sacramentos ou para outras práticas piedosas, que obviamente se relacionam com a graça de Deus. O ritmo, com que os sacramentos são mais bem compreendidos e a graça de Deus a eles relacionada mais bem captada, varia com cada situação e com cada pessoa. E, assim, é lógico que a instituição Igreja e instituições que têm nela finalidades diversas fixe os ritmos atendo-se a um termo médio, considerado o melhor. O que dissemos anteriormente vale para que esta fixação não traga consigo uma reificação ou visão meramente acumulativa da graça sacramental. E, dizendo isto, deixo ao leitor “situação” o cuidado de assumir a responsabilidade de lutar contra esse monismo do ser que, aplicado à graça de Deus e a seus sacramentos, “Obscurece sua natureza e seu fim”. Isso, sim: creio que há um grande trabalho a ser feito neste plano e que o leitor encontrará, por sua própria experiência, muitas ocasiões de exercitar tal responsabilidade crítica e, ao mesmo tempo, criadora. Há uma última reflexão mais diretamente teológica a fazer sobre essa ingerência do quantitativo no mundo do sentido. Não parece que se possa negar que os sacramentos têm um número limitando. São sete na Igreja católica e dois (o batismo e a ceia do Senhor) nas igrejas evangélicas. . Na medida em que se aceite que a graça de Deus já foi dada, como o mantém a revelação cristã e já o explicamos a propósito da teologia da carta aos Hebreus, que sentido pode ter falar de duas ou de sete graças? Tratar-se-á de contar os instrumentos, quase mágicos, pelos quais passa a graça de Deus a nós? O Concílio de Trento acentuou de tal maneira a importância de que os sacramentos sejam sete, que anatematizou aqueles que aumentaram ou diminuíram este número determinado. Isto, assim expressado, e sem levar em conta o contexto das polêmicas ocasionadas durante a Reforma, pareceria fazer da graça “criada” uma coisa dotada de um poder mais próprio da magia que de uma motivação significativa (D. 844). Quem ler também este primeiro cânon sobre os sacramentos em geral, verá que se condena “quem disser que esses sete sacramentos não foram instituídos todos por Jesus Cristo” (ib.). Com o que se Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 reforça a idéia de que Deus deu a esses ritos uma eficácia milagrosa que nenhum outro signo da graça possui. Creio que a grande maioria se não a unanimidade dos teólogos entendem, hoje, que Jesus Cristo, tal como o Novo Testamento o recorda e o apresenta à fé cristã, criou, de maneira direta, apenas dois destes sinais que ajudam o cristão a reconhecer a graça de Deus, sem limitar, por isso, sua existência aos que deles participem. Os outros foram instituídos por Cristo, de maneira indireta, ao criar sua comunidade a Igreja e ao encomendar-lhe o marcar e celebrar as ocasiões mais significativas, pelas quais cada geração humana atravessa, na existência de seus membros.4 Isto quer dizer que os sete sacramentos não conferem sete graças diferentes. Quando se começa, como o fizemos aqui, pela graça “incriada”, que Deus dá ao homem comunicando-lhe sua própria vida e, portanto, o amor que a constitui, entende-se que em todo homem de boa vontade a graça acompanha e tornam possíveis todos os passos que dão para criar mais amor no universo. Não obstante, é próprio do cristão não apenas o ser acompanhado pelo dom de Deus nesse caminho, mas o reconhecer aqueles que caminham com ele e, em grandes rasgos, o sentir o valor de cada posso dado e a certeza da vitória do amor que cria história. Sem dúvida, para cada homem, o caminho é único e irrepetível, como o são também as circunstâncias que o acaso oferece à criatividade, as qualidades ou possibilidades de cada ser humano e, logicamente, o que está em sua mão realizar. É, pois, importante que o cristão aprenda a reconhecer, celebrar e aproveitar a graça de Deus que está à espreita, nos acontecimentos históricos que lhe cabe viver. Pois bem, para esta aprendizagem é útil e até necessário que comece por aqueles ocasiões que se apresentam, embora de maneira diferentes, a cada geração. O nascimento, a aparição da liberdade, a sensação da culpa, a participação na comunidade, a responsabilidade de viver dia a dia o amor a dois, da família, da comunidade, e até dos momentos de passividade, doença e morte, prestam-se de modo especial para esta aprendizagem. Não só por serem comuns (dentro do específico de cada existência pessoal), mas também porque pareceria que estas situações, relativamente comuns, acumulam a atenção da humanidade de todos os tempos e lugares, assim como suscitam a problemática da fé, sobre que sentido dar a estes momentos críticos. Pois bem, o amor de Deus, a graça incriada que não é uma coisa, mas a própria existência daquele que nos amou antes mesmo de que começara nossa vida e nossa história própria adapta-se a essa pedagogia que consiste em revelar o sentido que, em geral, pode e deve dar-se a estes momentos altos de reflexão, de dúvida e também de ensinamentos, pelos quais passa a humanidade. Não são iguais, por exemplo, as exigências, as interrogações e as formas que há de tomar o amor antes e depois do matrimônio. Por isso, de uma maneira que pode ser mal entendida, mas que é necessário empregar, podese falar da “graça do matrimônio”. Em outras palavras, há infinitos sinais da graça que Deus nos confere. Mas, Cristo e sua Igreja escolheram sete, os mais comuns a todos, para que nossa fé cristã aprenda, por meio deles, a reconhecer, celebrar e aprofundar a graça de Deus. Neste sentido, são os sinais “oficiais” dessa comunidade chamada Igreja. São os que correspondem a todos, como íntima e necessariamente relacionados com a função eclesial que provém da fé e que estão destinados a acompanhar os infinitos modos com que cada ser humano “faz caminho ao andar”. 4 Sobre quais sejam estas ocasiões e por que foram escolhidas entre outros “sinais” (que devemos supor igualmente eficazes da graça “já dada” de Deus), cf. minha obra Los Sacramentos hoy. Teologia Abierta... op. cit., t. II, cap. II. Veja-se também esta obra, se o leitor tem curiosidade de saber qual é meu pensamento sobre outros aspectos da teologia sacramental não tratados aqui. Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture Edição nº 03 – Janeiro/ fevereiro 2006 E aqui detenho meu próprio caminho de diálogo com o leitor. Caminho que, talvez, seja demasiado longo. Poderia prolongá-lo ainda, pois matéria não falta para isso. Mas, de nada valeria esta prolongação, se o anterior for considerado como um mostruário e não como o que é: um método para que, hoje, nosso balbuciar sobre Deus tire partido, como o tomou muitas vezes antes, das categorias com as quais a ciência trabalha e das experiências de sentido que os próprios os cristãos fazem ao trazer para a história o que aprenderam sobre sua fé. E aqui, como em outros planos da existência, vale aquilo de que “não o muito saber sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente” (Inácio de Loyola). Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura / Journal of Theology & Culture