ISSN 2236-3335 DA ANÁLISE DA MÚSICA COMO GÊNERO TEXTUAL E TEXTO MULTIMODAL AO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Jéss ica Carneiro da Silva 1 Licenciatura em Letras com Inglês j e s s i c a - x x _ @ h o tm a i l . c o m Orientador (a ) : Carla Luzia Carneiro Borges 2 D ep a r t a m en to d e L e t r a s e A r t e s ( U E F S ) c c a r l a l u z i a @ h o tm a i l . c o m Res umo: Es t e a rt i go t em como obj et i v o fa zer uma a pres ent a çã o a na l í t i ca da mús i ca como um t ext o mul t imoda l , cons i dera n do- a como um gênero t ext ua l e bus ca ndo como ba s e t eóri ca di v ersa s concepções que i rã o cont ri bui r pa ra a compreensã o do que é t ext o, do que é gênero t ext ua l e mul t i moda l i da de; concepções d e l í ngua e de s uj e i t o, que i rã o t ra ba l ha r na cons t ruçã o do s ent i do e da funci ona l i da de do t ext o. Em s egui da , t ra ba l ha -s e a concepçã o de t ext o v ol t a da pa ra uma ca ra ct erís t i ca i nt era ci ona l ent re a ut or/t ext o/l ei t or. A pa rt i r da í s e di s cut e a di v ers i da de t ext ua l e es pecí fi cos fa t ores de t ext ua l i da de que i rã o cont ri bui r pa ra a cr i a ção do s ent i do do t ext o e, fi na l ment e, a na l is a- s e a mús i ca ba s ea ndo -s e nes s es fa tores e na s i deol o gi a s por t rás da mús i ca pa ra , ent ã o, l he a t r i bui r um ca rá t er a ut ônomo como gênero t ext ua l . Pa ra fi na l i za r, é p ropos t a uma ref l exã o a res pei t o da i mportâ nci a da mús i ca c omo gênero t ext ua l e s ua cont ri bui çã o pa ra uma mel hora do e ns i no de L í ngua Port uguesa . Palavras-chave: Música. Gênero textual. Multimodalidade. Ensino. 1 INTRODUÇÃO Es t e t raba l ho a pres ent a uma a ná l i s e fei t a a res pei t o da mús i ca como gênero t ext ua l , env olv endo toda s as ques t ões e Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 50 concepções de s ent i do t ext ua l , com o obj et i v o de quebra r o t ra di ci ona l is mo de cons i dera r t ext o s oment e a qui l o que é es cri t o, a fi m de defender a a ut onomia da mús i ca ( l et ra e mel odi a ) como gênero t ext ua l . Pa ra fa l a r de mús i ca como um t ext o mul t i moda l é preci s o pri mei rament e fa zer uma ref l exã o a cerca do que é t ext o, do que fa z um t ext o s er um t ext o e de qua is fat ores podem s er cons i dera dos ca ra ct erí st i cas de um t ext o. O concei t o de t ext o est á es s encia l ment e a t rel ado às concepções de l í ngua , s uj ei t o e s ent i do. A pa rt i r da í o t ext o poderá s er v i s to como: 1 ) um produt o do pensament o; 2) um mero i ns t rument o de comuni ca çã o; ou 3) um process o de i nt era çã o ent re o a utor e o l ei t or. Por i ss o é necess á ri o procura r ent ender um pouco s obre a cri a çã o de s ent i do, o que poderá s er a fet a do pel a concepçã o de suj ei t o e de l í ngua, onde o l ei t or poderá s er v i s to como um i ndiv í duo ps i col ógi co, um s er a ss uj ei t a do ou um s uj ei t o soci a l . Quant o à concepçã o de l í ngua , es t a pode s er cons i dera da como uma repres ent a çã o do pens ament o, como uma es t rutura l i nguís t i ca ou como um l uga r de i nt era çã o comuni ca t i va ent re os suj ei t os . É com ba s e nes s as concepções de l í ngua e de s uj e i t o que a produçã o t ext ua l i rá s e concret i za r. Is t o é, a concepçã o de s ent i do e, pri nci pa l ment e, a concepçã o de t ext o v a i depender da s concepções a nt eri ores . Al ém di s so, é i nt eres sa nt e t a mbém fa l a r a res pei t o da mul t i moda l i da de de t ext os , j á que o t ext o nã o é a pena s es cri t o, pode s er um t ext o fa l a do, um t ext o v i s ua l , i s t o é, exi s t e uma di v ers i da de t ext ua l . Enfi m, é preci s o fa zer uma i nt ert ext ua l i da de a res pei t o do t ema pa ra da í t ra t a r da mús i ca como um gênero t ext ua l , di s cut i r os fa t ores t ext ua i s que nel a exi s t em e fa zer uma a bordagem crí t i ca a cerca do s eu funci ona mento, do pont o de v i s ta i nt era ci ona l ent re os s uj ei t os ( a ut or e o l ei t or) e s ua funci ona l i da de s oci a l como gênero t ext ua l . Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 51 2 DESENVOLVIMENTO Exi s t em v á ria s defi ni ções pa ra a qui l o que cons i deramos t ext o; mui t os cons i deram t ext o t udo a qui l o que é es cri t o, uma pers pect i va merament e enga nosa . Text o é t udo a qui l o que é prov i do de s ent i do e d e uma cont i nui da de de i dei a s , pos sui ndo el ement os que s e conect am ent re s i pa ra ga ra nt i r a cons t ruçã o e a cont i nui da de do s ent i do. Port ant o, t ext o nã o é s oment e um conj unt o d e pa l av ra s s ol t a s es cri t a s em um pa pel . Como foi di t o a nt eri orment e, a defi ni çã o de t ext o i rá v a ria r de a cordo com a s concepções de l í ngua e d e s uj e i t o. Um t ext o poderá s er cons i dera do como: 1 ) um produt o do pens ament o; 2) um mero i ns t rument o de comuni ca çã o; ou 3) um proces s o i nt era ci ona l ent re a utor e l ei t or. N o pri mei ro ca s o, a l í ngua é cons i dera da como uma repres ent a çã o do pens ament o l ógi co do a ut or, i s t o é, o a ut or i rá pos sui r uma ca ra ct erís t i ca de s uj ei t o ps i col ógi co e i rá t ra ns crev er s ua s i nt enções no pa pel , onde o l ei t or t em a funçã o pa ss iv a de a pena s ca pta r a qui l o que es t á s endo r epres enta do. Se o t ext o for perc ebi do como um mero i ns trument o de comuni ca çã o, a l í ngua s erá v i s ta como um códi go, como es t rutura onde o s uj ei t o é “a ss uj ei t ado” pel o s i s t ema ; quem es crev e emi t e um códi go e es s e s erá decodi fi ca do pel o l e i t or, s endo s ufi ci ent e a penas um conheci mento do códi go ut i l i za do. J á no t ercei ro ca s o, o t ext o s erá v i s t o como um proces s o de i nt era çã o ent re a ut or e l e i t or s e houv er uma concepção s oci a l da l í ngua , na qua l os s uj ei t os poss uem um ca rá t er a t i v o e s ã o p ercebi dos como a t ores ou cons t rutores s oci a is ; onde o l ei t or d i a l oga com o t ext o e o t ext o di a l oga com el e, uma mút ua re l a ção i nt era ci oni s ta , na qua l , ambos cons t roem conheci ment o. Com bas e nas concepções a ci ma , K och ( 2006 , p. 10 ) a fi rma que “[ . . . ] o s ent i do de um t exto é cons truí do na i nt era çã o t ext o-s uj ei t o e não a l go que preexi st a a es sa i nt era çã o. ” Ou Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 52 s ej a , o s ent i do de um t ext o i rá s er cons t ruído ness a t roca i nt era ci ona l de conheci mentos , de i dei as e pers pect i va s, na i nt era çã o ent re o t exto e o s uj ei t o a t iv o e nã o a l go s oment e l i nguí s t i co. Em out ra s pa la v ras , o t ext o é a qui l o prov i do de s ent i dos e a cri a çã o dos s ent i dos es ta rá l i ga da ta nt o às funções e obj et i v os do t ext o qua nt o a os conheci mentos e às experi ênci a s do l ei t or. Al ém des sa s ques tões i deol ógi ca s por t rá s da defi ni çã o de t ext o, exi s t em t a mbém a l gumas ques t ões pra gmá t i cas que a t uam na ca ra ct eri za çã o da qui l o que cons i dera mos t ext o. Es s as ques t ões s ecundá ria s , nã o menos i mport a nt es, s ã o os fat ores pra gmá t i cos de t ext ua l i da de e a mat eri a l i da de t ext ua l . Qua nto a os fa t ores pra gmá t i cos , t em -s e: a i nt enci ona l i da de, a cei t a bi l i da de, i n forma t iv i da de, s i t ua ci ona l i da de e i nt ert ext ua l i da de. D o que d i z r es pei t o à ma t eri a l i da de do t ext o, t em - s e: a coes ã o e coer ênci a . É a pa rt i r des s as concepções d e l í ngua e de s uj ei t o, da cri a çã o do s ent i do, dos fa t ores p ra gmá t i cos e da ma t eria l i da de t extua l que i rá cons t i t ui r -s e o text o. D os t ext os forma ram- s e os gêneros t ext ua is , es s es por s ua v ez s ã o el ementos s óci o - his t óri cos e es t ã o i ndi s cut iv el ment e pr es ent es na nos sa s oci eda de. Como b em defi ni u Ma rcus chi ( 200 2, p. 1 9 ) , qua ndo di z que “[ . . . ] os gêneros t ext ua i s s ã o fenômenos hi s t óri cos profundament e v i ncul ados à v i da cul t ura l e s oci a l [ . . . ] cont ri buem pa ra ordena r e es t a bi l i za r a s a t i v i da des comuni ca t iv as do di a a d i a ”. Soci a lment e fa l a ndo, v i v emos em uma era di gi t a l , em uma cul t ura e l et rôni ca e com i s s o s urgi u uma gra nde di v ers i da de t ext ua l , nov os gêneros fora m s endo forma dos e s urgi u t ambém a mul t i moda l i da de de t ext o. O mes mo a ut or l eva em cons i dera çã o es s a nov a ca ra ct erí s t i ca soci a l qua ndo refl et e que H o j e , e m p l e n a f a s e d a d e n o m in a d a c u l t u r a e l e t r ô n i c a , c o m o t e l e f o n e , a g r a v a ç ão , o r á d i o , a T V e p a r t i c u l a r me n t e o c o mp u t a d o r p e s so a l e a i n t e r n e t , p r e s en c i a m o s u m a e x p l o s ã o d e n o v o s g ên e r o s e n o v a s f o r Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 53 m a s d e c o mu n i c a ç ã o , t a n t o n a o r a l i d ad e c o mo n a e s c r i t a . ( M A R C U SH I , 2 0 0 2 , p . 1 9 ) . É com ba s e nes sa di v ers i da de t ext ua l e na mul t i moda l i da de de t ext o que s e dev e cons i dera r a mús i ca como um gênero t ext ua l . A mús i ca é cons i dera da t ext o nes se t ra ba l ho porque, a ss i m como t odo e qua l quer t ext o, poss ui fa t ores úni cos de t ext ua l i da de que s ó um gênero t ext ua l possui , ou s ej a , ca ra ct erí s t i ca s funda menta i s que i rã o a gi r na produçã o do s eu s ent i do, v a ri ando de a cordo com o mei o em que é produzi do, em que é s ent i do e i nt erpret a do. Al ém des s es el ement os , é preci s o t a mbém l ev a r em cons i dera çã o os a s pect os i deol ógi cos da mús i ca e o s eu t ema . Tudo i s s o em conj unt o i rá cons t rui r o s ent i do da mús i ca , i rá l he ca ra ct eri za r como gênero t ext ua l . Segundo Cos ta ( 200 2, p. 256 ) , “[ . . . ] a ca nçã o é um g ênero hí bri do d e doi s t i pos de l i ngua gens , a v erba l e a mus i ca l ( ri t mo e m el odi a ) ”. Is t o é, um g ênero que a cont ece em doi s mei os l i nguí s t i cos e por i s s o pos sui uma ca ra ct eríst i ca i nt ers emi ót i ca , por exi s t i r em uma i nt er - rel a çã o ent re uma di v ers i da de de produçã o de s ent i do e d e s i gni fi ca do. A mús i ca, ent ã o, a pres enta um ca rá t er s emi ót i co por pos s ui r uma v a ri eda de do mei o em que s ã o r eproduzi dos o s eu s i gni fi ca do e o s eu s ent i do, a pa rt i r do moment o em que é c ri a da, pri mei ra ment e, no mei o v erba l , a pres enta ndo t a l ga ma de s ent i dos e s i gni f i ca dos. D epois a t i nge um ca rá t er mus i ca l , env olv endo l et ra , r i t mo e mel odi a cri a ndo ent ã o nov os s ent i dos e s i gni fi ca dos. A cons t ruçã o de s ent i do da mús i ca va i v a ri a r de a cordo com a mel odi a e a l et ra expos t a ; e l a é, poi s , um conj unt o de el ement os s onoros e el ement os v erba is , onde s eu s ent i do dependerá t a nt o de como el a é express a verba l ment e qua nt o mus i ca l ment e ( mel odi a e ri t mo) . A cri a çã o d e s ent i do da mús i ca v a i s er i nfl uenci a da t ambém pel a produçã o de ci rcul a çã o, onde el a é produzi da e reproduzi da , a l ém dos fa t ores de t ext ua l i da de ( os pra gmá t i cos e os fa t ores de ma t eri a l i da de) j á ci t a dos a nt eri orment e. Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 54 Ana l i sa ndo a l et ra da mús i ca , em a nexo, percebe - s e que el a é prov i da de i nt enci ona l i da de porque há i nt enções des de a s ua compos i çã o a t é s ua reproduçã o; quando el a foi compos ta t ev e a i nt ençã o de expres sa r a l go: opi ni ões , p ensa ment os , s ent i mentos s upost ament e r el a ci onados a um r oma nce que nã o deu cert o ou a a l gum moment o na v i da de a l guém que nã o t ev e s uces s o. Tem a i nt ençã o de col oca r em p a l av ras os ma i s di v ers os pensa ment os , s ent i mentos , des ej os , pr i ncí pi os e ut opi a s rel a ci ona dos à v i da , a v i v er e a prender, e nfi m, à i nt ençã o de expres sa r c ert os pri ncí pi os e pens ament os , cri a ndo ent ã o s eus pri mei ros s ent i dos . Há t a mbém a i nt ençã o de a t i ngi r um públ i co - a lv o, de compa rt i l ha r a s express ões q ue fora m fei t a s dura nt e s ua compos i çã o, a s expres s ões que e s t ã o ma t eri a l i zada s na mús i ca em ques tã o. N ess e mes mo cont ext o, s urge a a c ei t a bi l i dade do públ i co, hav endo uma i nt era çã o de p ensa ment os e opi ni ões , e i nev i t av el ment e, uma i nt era çã o e gera çã o de nov os s ent i dos . A l et ra da ca nçã o é um t ext o; ent ã o, por poss ui r uma a cei t a bi l i da de s oci a l , as pes s oa s s e i dent i f i ca m e v eem a mús i ca como um mei o de a ut oexpress ã o, na qua l podem s ent i r o que es tá s endo col oca do, o que es t á s endo “gri t a do”; podem compa rt i l ha r de pens ament os e s ent i ment os mút uos , comuns , uma ga ma d e pos s ibi l i da des de expres sões . Al ém di s s o, a mús i ca , pode a i nda s erv i r como mei o d e express ã o pa ra a s pectos s oci a i s , pol í t i cos e a t é e conômi cos . As pess oas a cei t am a mús i ca em ques t ã o por cri a r um v í ncul o próxi mo e pes soa l com a reprodução l í t ero- mus i ca l da qui l o que a cr edi t am e pensa m. Ma is a i nda , a mús i ca “Vi v endo e Aprendendo” pos sui uma l i ngua gem ma i s col oqui a l , ma i s popul a r, fa ci l i t a ndo ent ã o s ua acei t a bi l i da de ent re a quel es que a a preci am, que a es cutam. É prov i da t a mbém de s i t ua ci ona l i da de por ocorrer em s i t ua ções s oci a is e a t é mes mo i ndi v i dua is ( s hows , ca s ament os , a ni v ers á ri os , et c. ) ; enfi m, poss ui uma funci ona l i da de s oci a l , es tá i ncl us a na s oci eda de, fa z ef ei t o ent re a quel es que curt em o mesmo es t i l o, que s e i dent i fi ca m com a l et ra , com a compos i Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 55 çã o v erba l e a compos i çã o mus i ca l . É s i t uaci ona l , poi s ocorre em uma s i t ua çã o pres ent e ou r emet e a a l guma s i t ua ção pas sa da , um roma nce, uma a mi za de, uma hi s t óri a pes s oa l na v i da de ca da um. É compost a de i nt ert ext ua l i dade porque em s eu t ext o, s ej a el e es cri t o ou fa l a do, es t ã o i ns eri dos muit os out ros t ext os . Como, por exempl o, a es t rofe “ l á v em um out ro di a fri o e encobert o” i rá r eferenci a r o cl i ma met eorol ógi co que, por s ua v ez, poderá remet er a s ent i ment os , a uma pos s ív el s ol i dã o, l embra nça s pas sa da s . Ou como na es t rofe “os di a s s ã o s empre i gua i s, o mes mo fi l me em t odos os ca na is ”, que i rá remet er a uma i ma gem rot i nei ra em que s e pode fa zer uma re fl exã o s obre a ques t ão da t el ev i s ão, com a mesma p rograma çã o t odo di a . Em out ra s pa la v ra s, a mús i ca em a ná l is e pos s ui es t rofes que podem remet er a out ras hi s t óri as , outros cont ext os , ou s ej a , um t ext o dent ro de um t ext o. E, por fi m, pos s ui i nforma t i v i da de porque, cul t ura ment e, a mús i ca foi cri a da t ambém com a funçã o de i nforma r a l go, de rei v i ndi ca r a l guma coi s a , de cri t i ca r ou e l ogia r, de s e a ut oexpres sa r ou expres s a r a l go a res pei t o da s oci eda de, do homem e de s ua s ut opi as ; es peci fi ca ment e, a mús i ca es col hi da nos dá uma i dei a de v i v er e a prender a perder, de v iv er e a prender a es quecer, uma i dei a de s upera çã o e mos t ra t a mbém que nem t odo erro é t ã o ma l qua nt o pa rece, enfi m, i nforma uma l i çã o de v i da que pode s erv i r de pers pect i va emociona l pa ra quem a ouv e. Em t ermos da s ua ma t eri a l i da de, a mús i ca c ont ém uma i nt er -rel a çã o ent re os el ement os l i nguí s t i cos pres ent es em s ua s uperfí ci e t ext ua l gera ndo, ent ã o, uma s equênci a de i nformações que i rã o res ul t a r na forma ção de s ent i dos , i s t o é, poss ui coes ã o t ext ua l . É um s equenci ament o de el ement os t ext ua is que i rá ga ra nt i r a cont i nui da de dos s ent i dos , q ue v a i s er i n fl uenci a do t a mbém pel os conheci ment os do i nt erl ocut or, t a nt o a cerca da l í ngua qua nt o a o mundo a o s eu redor. Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 56 Com ba s e nes sa concepçã o, va i s urgi r a coerênci a . A coerênci a “[ . . . ] é res ul t a do de uma cons t rução conj unta de uma s éri e de fa t ores de ordem cogni t i va , s i t ua ci ona l , s oci ocul t ura l e i nt era ci ona l ( K OCH, 200 5, p. 28) ”. Ou s ej a , a c oerênci a é, poi s , uma confi gura çã o i nt era ci ona l ent re o i nt erl ocut or e o t ext o, el a é cons t ruí da a pa rt i r do t ext o j unt o com o pa pel a t i v o do i nt erl ocut or. A l et ra da mús i ca a nexa da t em coes ã o por c ont er uma ma t eria l i da de l i nguí s t i ca , ou s e j a , pos sui el ement os referenci a i s e s equenci a i s . Em out ras pa l av ra s , a mús i ca pos s ui uma repet i çã o l exi ca l , ri mas , um l éxi co com s ons pa reci dos pa ra i ndi ca r uma referênci a , como, por exempl o, no t recho “out ra hi s t óri a com um out ro ros t o, um out ro bei j o com o m esmo gos t o”. Exempl i fi ca ndo a repet i çã o s e t em a dupl i ca çã o da pa l av ra “gri t a r”, “erro”, “erra r” e a repet i çã o d e det ermi na da s s ent ença s como no ca s o do t re cho “v i v endo e a prendendo a perder, v iv endo e a prendendo a es quecer”. Es s a repet i çã o e s ent ença s ri ma da s i rã o a pres ent a r uma ref erênci a qu e es t á i nt ei ra ment e l i ga da com a i dei a cent ra l do t ext o em ques t ã o. Ta i s ri mas nã o s ã o cri a das a l ea t ori ament e, el a s s e conect a m ent re s i , s e compl et am, es tã o i nt erl i ga das pe l o ca mpo s emâ nt i co e i rã o, ent ã o, cons t rui r um s ent i do, um cont ext o. O s equenci a ment o t ra t a de c ert os e l ement os l i nguí s t i cos ut i l i za dos pa ra ga ra nt i r uma cont i nui da de do pont o de v i s t a ma t eri a l , o nde s ã o us a das prepos i ções , a rt i gos , v erbos com s i gni f i ca ção compl et a , como, por exempl o, os el ement os “e”, “mas ”, “que”, “a ”, “gri t a r”. Com es s e enca dea ment o l ógi co e es sa cont i nui da de de i dei a s , i rá s urgi r a coerênci a , que es t á es s enci a l ment e conect a da com o conheci ment o do própri o fa l a nt e, t a nt o s eu conheci ment o l i nguí s t i co qua nt o o s eu conheci mento gera l , s eus pens ament os , opi ni ões e pr i ncí pi os . Surge ent ã o a i nt e ra ção ent re o t ext o e o i nt erl ocut or; um pl a no i nt era ci ona l e cogni t i v o que i rá s erv i r d e ba s e pa ra a cons t ruçã o da coerênci a , um env olv i ment o do enca deamento l ógi co com a ba ga gem s oci ocul t ura l do i nt erl ocut or. Por i s s o, é v á l i do di zer que a mús i ca ref eri da é Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 57 coes a , porque pos s ui uma s equênci a l i nguí s t ica na s ua l et ra ; e coerent e, por es ta bel ecer i nt era çã o com quem a ouv e. Al ém de t odos es s es a s pect os , é i mporta nt e t a mbém ci t a r a l guns a s pect os i deol ógi cos da ca nçã o. A mús i ca referi da remet e a di t a dos popul a res ( uma i nt ert ext ua l i dade e uma i nformat i v i dade) que es t ão pres ent es no nos so di a a d i a . A mús i ca fa z ref erênci a a , no mí ni mo, doi s di t a dos , s ão el es “Vi v endo e a prendendo” e “É erra ndo que s e a prende”. E l a i rá refl et i r a cerca des s e a s pect o i deol ógi co a pa rt i r do moment o em que pa ra fra s ei a os d i t a dos . Enfoca ndo ques t ões cul t ura i s , s oci a i s , ref l et e det ermi nados pri ncí pi os de v i v er e a prender, a prender a perder, a prender a es quecer, a prender com o s erros . É uma pers pect i va de erra r e nã o s e puni r por i s so, poi s é um er ro prov i do de a prendi za do, de uma l i çã o d e mora l . Is t o é, é a cei t áv el erra r qua ndo es s e erro res ul t a em um c res ci ment o pess oa l , pri nci pa l ment e qua ndo es t á di t o na mús i ca “s e foi um erro, eu quero erra r s empre a ss i m”. Ou s ej a , um er ro beni gno, que i rá ens i na r a cres cer, a perder, a es quecer, s eri a ent ã o um ens i nament o de v i da . 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em res umo, a mús i ca é um gênero t ext ua l p or pos sui r t odas a s ca ra ct erí s t i cas e fa t ores de t ext ua l ida de d e um t ext o; el a é prov i da de s ent i do e dev e s er i ns eri da n o ens i no de L í ngua Port uguesa no que di z res pei t o à produçã o e i nt erpret a çã o t ext ua l , mos t ra ndo s ua funci ona l i da de l i nguí s t i ca e a di v ers i da de t ext ua l que exi s t e na s oci eda de em que v i v emos . Port a nt o, a mús i ca dev e s er cons i dera da como um gênero t ext ua l e s e dev e l ev a r em cont a s eu a s pect o hí bri do, a l et ra e a mel odi a ; nã o s oment e fa zer uma l ei t ura do s eu ca rá t er v erba l , mas procura r a na l i s á - l a a pa rt i r da i nt er - rel açã o dos s eus mei os d e produção, a pa rt i r da s ua ca ra ct erí st i ca l í t ero - mus i ca l . Sendo a ss i m, é i mport a nt e t ra ba l há - la como um gênero t ext ua l dent ro da s a l a de a ul a , i s t o é, é p reci s o reconhecer a mús i ca Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 58 como um gênero t ext ua l a ut ônomo, poi s a l ém da mús i ca poss ui r t odos os el ement os nec ess á ri os pa ra um es t udo de a ná l i s e t ext ua l , el a t a mbém é um a cerv o de i dent i da de na ci ona l e s e refere mui t o à hi s t ória soci ocul t ura l do nos s o pa í s. Abs t ra ct : Thi s pa per a i ms t o ma ke a n a na l yt ica l p res enta t i on of mus i c a s a mul t i moda l t ext , cons i deri ng i t a s a t ext ua l genre a nd s ea rchi ng t hrough s ev era l t heoret i ca l not i ons t ha t wi l l he l p t o unders t a nd t he concept s of t ext , t ext ua l genre a nd mul t i moda l i t y, comprehend t he concept i ons o f l a ngua ge a nd s ubj ect t ha t wi l l cont ri but e t o t he cons t ruct i on o f t he s ens e a nd funct i ona l i t y o f t he t ext . I t i s cons i dered t he concept i on of t ext fa ci ng t he a ut hor/t ext /rea der i nt era ct i on. B a s ed on t hes e t heori es , i t i s di s cus s ed bot h t he t ext ua l d i vers i t y a nd s peci f i c t ext ua l i t y fa ct ors t ha t wi l l cont ri but e t o t he crea t i on o f t he t ext s ens e. Thi s pa per a l s o a na l yzes t he mus ic ba s ed on t hos e fa ct ors a nd i deol ogi es b ehi nd t he mus i c, a s s i gni ng i t a n a ut o nomous cha ra ct er a s a t ext ua l genre. F i na l l y, i t i s propos ed a ref l ect i on a bout t he i mporta nce of mus i c a s a t ext ua l genre a nd i t s cont ri but i on t o i mprov e t he t ea chi ng proces s of Port ugues e. K eywords: Mus i c. Text ua l genre. Mul t i moda l i t y. Educa t i on. REFERÊNCIAS K OCH, I. V. O texto e a construção dos sentidos . 8. ed. , Sã o Pa ul o: Cont ext o, 200 5. K OCH, I. V. ; EL IAS, V. M. L er e compreender : os s ent i dos do t ext o. Sã o Pa ul o: Cont ext o, 200 6 . MARCUSHI, L. A. Gêneros Textua is : defi ni çã o e funci ona l i da de. In: D i oní s i o, A. ; Ma cha do A. R. ; B ezerra , M. A. ( Org. ) . Gêneros textuais e ensino . Ri o de Ja nei ro: L ucerna , 200 2. p. 1 9 - 36. Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 59 COSTA N . B . da . As l et ras e a l et ra : o gênero ca nçã o na mí di a l i t erá ri a . In: D i oní s i o, A. ; Ma cha do, A. R.; B ezerra , M. A. ( Org. ) . Gêneros textuais e ensino . Ri o de Ja nei ro: L ucerna , 200 2. p. 1 07 - 121 . N OTAS 1 B ols i s ta PIB ID . D ocent e de L í ngua de Port ugues a VI pel a Uni v ers i da de Es ta dua l de F ei ra de Sa nta na . 2 ANEXO Vi v endo e Aprendendo Ca pi ta l Ini ci a l Out ra his t ória com um out ro ros t o Um out ro bei j o com o mesmo gos t o Era cedo e nã o podi a da r cert o L á v em um out ro di a fri o e encobert o Agora v ej a o meu es ta do Ol ha ndo o fut uro e prev endo o pa ss a do Como a l guém que nã o s abe o que quer Ment i ndo pra t odos enquant o puder Gri t a r! Se foi um erro, eu quero erra r s empre as s im Gri t a r! Se t ev e um começo, que t enha fim O t empo v i rou e me deu as cos tas Out ra pergunta com a mesma res pos t a Os dia s s ão s empre i gua i s O mes mo fi l me em t odos ca na i s Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013 60 Eu quero v oa r ma s t enho medo de a l t ura O céu a zul me dá t ontura Eu ca i o mas nã o chego a o chã o Es t ou cert o, ma s perdi a ra zão Gri t a r! Se foi um erro, eu quero erra r s empre as s im Gri t a r! Se t ev e um começo, que t enha fim Vi v endo e a prendendo a perder Vi v endo e a prendendo a es quecer (B IS) Gri t a r! Se foi um erro, eu quero erra r s empre as s im Gri t a r! Se t ev e um começo, que t enha fim. Env ia do em: 1 3/06 /20 1 3. Aprov a do em: 10 /0 1/20 14 . Graduando, Feira de Santana, v. 4, n. 6/7, p. 49-60, jan./dez. 2013