1 Re-pensando uma experiência analítica: Transferência --Contra-transferência Lenise Lisboa Azoubel 2 Antes de apresentar o material clínico propriamente dito, desejo fazer algumas considerações sobre o que eu penso quanto ao encontro analítico. Na relação entre o analisando e o analista ou seja a maneira como o analisando se relaciona com o analista é através de suas experiências com os seus objetos internos, mantendo no seu mundo interno seus conflitos infantís, antigas relações imaturas de objeto, tendendo a se repetir nas suas relações e nas suas atitudes (Malcolm,R.R-1994). O relacionamento do analista e do analisando é representante de relacionamentos objetais internos, ou seja, de estruturas internas que aparecem na análise, seguindo as suas dinâmicas específicas, que podem ser atingidas pelas interpretações do analista a cada momento da análise. O analista quando pode, percebe e compreende o que se passa nessa relação, elaborando uma interpretação baseada na sua função psicanalítica, isto é, ao todo formado por sua intuição, com base na sua teoria e técnica correspondentes. Chamamos de intuição um momento de rutura em que de repente se impõe algo inesperado a nossa mente. Na verdade, penso que o analista ao fazer a escolha de sua teoria, consciente ou inconscientemente, agrega outros conhecimentos científicos se enriquecendo e ampliando seu acervo de conhecimentos. Concordo com Malcolm( 1994 ) quando diz que: “ o fato de que o analista tenha uma teoria central não significa que outras linhas de pensamento não venham a colorir seu modo de pensar. Idéias extraídas de outros sistemas teóricos, de fato influenciam nossas próprias teorias, embora obviamente o façam em maior extensão à medida em que mais se aproximem do corpo de concepções que mantemos como verdadeiras. Somos também influenciados por idéias que pertencem a outros corpos de pensamento, mas possivelmente num grau menor, com mais resistência de nossa parte e mais freqüentemente de modo inconsciente do que consciente”. Podemos, questionamento: portanto, formular o seguinte 3 a) Está o analista definido em sua teoria psicanalítica? b) Quão amplo e flexível ele é e deve ser? Ou ainda: Figueira (1994) questiona a pessoa do analista da seguinte forma: a) Quem é o analista ? b) Qual é a sua personalidade? c) Quais são os seus limites? Como tudo isso instaura, antes mesmo do paciente existir, os limites das várias análises que vai empreender? ou ainda, como ressalta o problema da individuação da técnica ou seja como ser analista? e qual a relação “do ser analista” com “o ser do analista”? Penso que quando conhecemos mais claramente as nossas teorias podemos tolerar a falta de compreensão do analista ou seja a dificuldade de compreender o que está ocorrendo sem que seja necessário se impor ao paciente, porque não conseguimos entendê-lo. O analista está sempre convidado a “atuar” no lugar de pensar a experiência emocional, havendo portanto numa análise, no dizer de Ferro (1995), momentos em “desfavor” do paciente, porquanto sabemos que a mente do analista se torna às vezes “perturbada” na relação com o mesmo. Meltzer (1978), citado por Ferro, diz que o analista recorre a vários meios para ignorar a dor que existe dentro dele, e que ao usar sistemas defensivos para livrar-se dela, tenta colocá-la em vários objetos do mundo externo. Penso que estas questões são muito importantes e necessitam sempre serem pensadas. Os analistas têm sempre consciência da relação existente “do ser analista” com “o ser do analista”? ou existe, por vezes, uma cisão entre “o ser analista” com “o ser do analista”? Penso que aqui entra em jogo os limites da personalidade do analista e que de certa forma Freud (1910) se refere a que “nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas...” O 4 psicanalista, neste caso, poderia dizer para ele próprio: “o meu inimigo sou eu”... parodio neste momento o título do livro de Yoram Binur: “Meu inimigo sou eu” ou seja, a odisséia de um reporter judeu, disfarçado de árabe na Palestina ocupada pelos árabes, sendo objeto de desprezo, degradação e violência por parte das forças de segurança de Israel. Yoram Binur dedica o seu livro “a um melhor entendimento entre israelenses e palestinos”. A observação de que o analista não é afetado por estas experiências, ao meu ver é falsa como também indicaria ao paciente que a sua situação, a sua dor, e a sua conduta não contam do ponto de vista afetivo para o analista. Penso que a forma como o analista se abre a estas experiências, as trabalha, as transforma em interpretação útil é muito importante. Eis a questão: como ser objetivo dentro de sua própria subjetividade? Neste trabalho tento expor a complexa interação que existe na relação da dupla no trabalho quotidiano do psicanalista e do que aconteceu na minha mente durante uma sessão de análise. Atualmente já existe um estudo mais abrangente sobre o impacto do paciente em nós, do que trazemos de nossa maneira pessoal de ser para o paciente, de como o ser do paciente interage com o nosso ser dentro e fora da sessão e como o analista perde a sua capacidade de continência e pode recuperar a sua função analítica. Elisabeth Rocha Barros, colega de São Paulo, nos seus comentários a respeito deste meu trabalho disse que Jean Bertrand Pontalis num discurso de encerramento do Encontro dos Analistas de Lingua Francesa mencionou que um amigo dissera que para ser analista a gente precisava de um paciente, e de um colega. Ao que Pontalis acrescentou , sim, e de uma teoria em processo de contínuo refazer. Este comentário despretêncioso disse Elizabeth encerra uma problemática que tem dominado a psicanálise atual. Se somos afetados por nossos pacientes como hoje cremos , é da natureza da nossa prática a necessidade de termos colegas que possam nos dar uma segunda visão sobre o impacto das identificações projetivas de nossos pacientes sobre nós de modo que vivênciamos pelo paciente, aquilo que ele não pode vivenciar. A identificação projetiva apareceu pela primeira vez no artigo de 1946 de Klein : “notas sobre alguns mecanismos 5 esquizóides” onde a I.Projetiva era um dos vários mecanismos de defesa ligados a esta posição; desde então este conceito foi acolhido e até hoje estudado e ampliado. Klein considerava a Identificação projetiva como uma fantasia onde as partes do self consideradas difíceis de serem sentidas e percebidas pelo paciente ou seja os aspectos intoleráveis da experiência intra-psíquica seriam projetados para dentro da mente do analista com a finalidade de aprisioná-lo ou domina-lo de modo que o self do analista é confundido com partes do self projetadas. O analista para conter as identificações projetivas, se possível traz compreensão ao que ele sente e ao que ocorre entre si e o paciente porém também mantém um distanciamento psicológico a fim de poder gerar uma interpretação que devolva as partes projetadas ao seu analisando de modo que o paciente receba interpretações efetivas que o ajudam a responder com outras associações que por sua vez podem ser compreendidas. Penso agora que eu não tive o distanciamento necessário para poder pensar a experiência emocional, transforma-la e comunicar a minha paciente, como poderá ser visto mais adiante. A identificação projetiva passou também a ser um processo de comunicação ; ao projetar diz Rocha Barros, E.L o paciente está fazendo algo ativo com a mente do analista ,e, ao fazê-lo, está comunicando algo a respeito da sua própria mente. (1990). “Bion ligou a identificação projetiva ao seu modelo de continente-contido. Em outras palavras o bebê livra-se projetivamente dos afetos e estados mentais intoleráveis, facilitando, assim a sua continência pela mãe. Esses sentimentos são desintoxicados e metabolizados pela mãe e re-internalisados pelo bebê por meio da identificação com ela.. Bion foi explicito, ao assinalar que ocorre uma interação pessoal onde o analista se sente forçado, na situação analítica, a desempenhar um papel na fantasia do paciente”. Gabbard, G. (1995). Não podemos falar de Identificação projetiva sem que falemos de Transferência, fenômeno este psíquico já conhecido desde os primórdios da psicanálise, quando no caso de Anna, O. paciente de Breuer, ( 1895) paciente que produziu um forte impacto no analista pelo inusitado da situação ocorrida e por não saber lidar com a mesma, solicitando a Freud para continuar com o a paciente e saiu de férias com a esposa...Freud era um homem de ciência e sério investigador e resolveu observar não somente Anna.O mas também as suas pacientes; porém somente em 1905, no caso Dora, quando Dora interrompeu abruptamente a sua análise é que Freud frustrado, surpreso se deu conta da 6 transferencia da paciente ou seja que o paciente poderia abrigar sentimentos hostís para com o analista; no inicio foi considerada um obstáculo mas hoje e depois, de uma importância fundamental na captação de informações sobre o paciente e como um elemento de interação entre o paciente é o analista., tendo um caráter central dentro da teoria psicanalítica de modo que compreendela e interpreta-la é uma função fundamental na praxis psicanalítica. Pensando como Rocha Barros, Klein não concebe a existência da pulsão desligada de um objeto.O representante mental da pulsão associada ao objeto é a fantasia inconsciente. O impacto da pulsão sobre o objeto gera a experiência emocional”. Segundo Elias. Klein faz da existência da emoção no inconsciente o centro da vida mental, aquilo que a organiza e lhe confere sentido. E é atravez da Identificação Projetiva que a Transferência se revela. Bem após estas pinceladas, irei apresentar o material clínico., A apresentação pública do material analítico é uma questão muito complexa e não somente complexa como também difícil. No dizer de Andrade Azevedo, A.M “supõe um analista capaz de observar e relatar uma experiência emocional, capaz de dar-se conta do contexto em que observa, capaz de manter contato consigo mesmo e com a experiência vivida anteriormente, capaz de encontrar uma linguagem que seja efetiva e de bom êxito para a comunicação entre colegas. Talvez seja necessário também pensar o grau de exposição possivel ao relatar uma sessão e considerar que tanto a privacidade do analisando quanto a dele , analista, necessitam ser mantidas e cuidadas”. Chamamos de material clínico o relato de uma situação analítica com o objetivo de apresentá-lo em um trabalho cientifico, seminário, supervisão ou um simples registro para o estudo e a investigação do analista. O relato do que ocorre numa relação analítica nunca será objetivo, no sentido clássico do termo, desde que a subjetividade do analista e a do analisando, fazem parte do processo e têm uma importancia primordial. E é uma construção efetuada a partir da percepção e intuição do observador e relator de modo que quando se apresenta material clínico, não se está apresentando o paciente, mas o que o analista percebeu e ou intuiu que ocorreu com a dupla analítica a partir de um instrumento de captação: o seu inconsciente.( Roosevelt Cassorla). Por questões éticas, não posso apresentar uma sessão inteira, mas irei pontuar as emoções que ocorreram no encontro comigo. 7 Antes porém desejo mostrar como estava a mente da analista, a minha mente quando do encontro com a minha analisanda. Voltava de um Congresso de Psicanálise no Rio de Janeiro, tendo perdido a ponte aérea Rio-São Paulo dentro de um horário que nos permitia tomar o último vôo de conexão São Paulo Ribeirão Preto, por conseguinte, perdido o último vôo - São Paulo-Ribeirão Preto, decidimos (meu marido e eu ), tomar o ônibus das 20:00 horas com destino a essa cidade. Ao entregar a passagem ouvi o motorista muito contente, risonho falar para um colega que aquela ia ser a última viagem do semestre porquanto no dia seguinte iria entrar em férias. Em torno das 21:00 horas, ouvimos um estouro, um ruído muito forte, com quebra de vidros e estilhaços dentro do ônibus; em frações de segundo o ônibus ziguezagueava na estrada encaminhando-se para o canteiro central. Pânico, gritos e, de repente, surgiu um motorista que estava no fundo do ônibus e que conseguiu, com maestria, segurar o volante e dirigi-lo, após um certo tempo, para o acostamento, parando-o. Não tínhamos a mínima idéia do que poderia ter acontecido, quando então descobrimos uma grande pedra, de uns dez quilos, que havia sido jogada de uma passarela no momento em que o ônibus passava. O motorista teve o crânio fraturado, esmagado e morte instantânea, com perda de massa cerebral. Estivemos todos em companhia de um motorista tragicamente morto, tempo este que me pareceu infindável, demasiado longo, até que chegasse um outro onibus e até que a polícia rodoviária aparecesse e até que pudéssem nos transportar para outro onibus da companhia até Ribeirão Preto Bem, foi com esta experiência emocional traumática, questionando a respeito da vida e da morte; percebendo e sentindo com profundidade que o ser humano é efêmero, mortal e frágil; questionando perdas e separações às vezes abruptas que, no dia seguinte, atendi a minha analisanda às 7 horas da manhã de uma segunda feira. Na verdade, sentia-me triste e abalada pela vivência experimentada ... Seguem então alguns comentários desta sessão de análise, afim de mostrar a relação e interação da dupla analítica: minha analisanda e eu pontuando as emoções existentes no nosso encontro. Minha paciente fala de uma conquista pessoal 8 ha muito tempo esperada, uma realização sua, porém está muito triste e se surpreende com o fato de estar triste e não estar alegre. Mas, eu estou inquieta, triste e incomodada...Não era para estar contente,? não era para sentir alegria?...Não entendo... Na medida em que a minha analisanda falava, eu me sentia envolta numa enxurrada de comunicações. As emoções que estavam presentes eram de tristeza e de surpresa, sobre o quanto ela poderia se surpreender com a tristeza que estava sentindo ao perceber-se mais inteira, mais integrada mentalmente do que dividida como anteriormente...e que para ter uma casa psíquica inteira precisava ter partes indesejáveis dentro dela... Neste exato momento, pensei que estava com vida e também triste... e pensei no processo de separação. Minha analisanda insiste na tristeza que estava sentindo e se refere aos aspectos difíceis de separação no seu viver. Falei para a minha analisanda que agora poderia perceber as perdas e os ganhos numa separação e que uma separação não representava somente uma rutura mas uma abertura para novas possibilidades... Agora que transcrevo estes momentos durante a sessão, penso que ambos podem acontecer: tanto uma rutura de um equilibrio precário quanto a abertura de novas possibilidades na qualidade das relações de objetos internos e externos. Ao fazer as interpretações para a minha analisanda sentia-me sofrida... O silêncio permeou as nossas relações...Minha analisanda fala em desligar-se da análise no fim do ano como haviamos combinado anteriormente e menciona suas dificuldades com separações. Fala-me de que as suas separações foram verdadeiros arrancamentos de pessoas queridas com morte súbita...ou com violência. “As minhas separações foram verdadeiros arrancamentos” ... (após um curto espaço de tempo continua): Embora ainda assustada quando desejo e penso em me separar, não vejo me arrancando nesta separação. Quando a minha analisanda falou em arrancamentos, veio-me à mente o motorista morto com perda visível de massa cerebral ... numa noite escura e fria. Fiquei em silêncio pois sentia-me perturbada com a minha experiência traumática ... 9 Penso que estávamos ambas emocionadas ... A emoção da perda permeava as nossas relações. Tristeza, rutura, perdas, separações, separações por arrancamento, e morte foram as emoções que permeavam as nossas relações. Quando a minha analisanda se levantou do divã, de imediato sentou-se e disse que tivera uma forte vertigem. Estava muito pálida, surpresa com o que estava sentindo e me assustei com a sua intensa palidez. Todavia fiquei observando o que poderia acontecer. Tenta uma segunda vez. Levanta-se e tem uma vertigem mais forte que a fez sentar novamente. Indaga-me: O que está acontecendo comigo? Estou com ânsia de vômito. Neste momento percebo leves gotículas de suor em seu rosto. Eu a vi mais pálida ainda. Numa fração de segundos pensei que minha analisanda poderia ter um infarto, e que os seus sintomas de palidez acentuada e indisposição física, pudessem estar mascarando tal quadro. Tenta mais uma vez e com muito esforço consegue se levantar. Dá dois passos, sente-se mal, e se apóia numa grade antiga que tenho na sala e diz que agora está muito tonta. Faz um esforço muito grande para andar e fico dividida entre socorrer e abrir a porta. Ela titubeia como se fosse cair, daí tento fisicamente pegá-la pelo braço porém recusa. Percebo a minha inquietação. Minha analisanda diz que vai conseguir andar. O tempo está correndo, penso que o meu próximo analisando deverá estar na sala de espera, hipótese bastante viável uma vez que é sempre muito pontual. Acompanho-a até a saída quando o meu costume é permanecer em minha sala. Com muito esforço caminha e, na ante-sala que precede a sala de espera, perde o sentido de direção fazendo uma diagonal, como se estivesse embriagada, completamente tonta e tombando o corpo para a esquerda. Estou atrás da mesma, seguro de leve no seu braço e a encaminho para a porta de acesso à sala de espera. Ao abrir a porta, deparo-me com o meu analisando há tempos esperando. Surpresa e espanto no seu olhar. Ambos se conheciam e trabalhavam no mesmo local. Meu analisando se propõe levá-la dizendo que logo voltará. O tempo passa e ele me comunica que decidiu ficar pelo fato da minha analisanda não Ter no momento ninguém em casa, decidiu ficar, fazendo companhia até que alguém da família chegasse. Somente quando desliguei o telefone é que me dei conta de que não estava podendo ser continente para com a minha experiência emocional da noite anterior por não ter dado o devido 10 tempo para metabolisá-la ; ignorei a intensidade de minha dor , da minha condição humana, frágil e limitada. Concordo com Ferro (1995) que diz: Nem sempre, o analista pode entrar em contato com a intensidade e amplidão de sua dor, tendo a condição de fazer uma clivagem da própria quota de sofrimento mental e a quota do sofrimento do outro (o paciente ) de modo que não estamos disponíveis para acolher as identificações projetivas do analisando que voltarão ampliadas sobre ele. A preocupação muito atual do que acontece na mente do analista na sessão de análise se instaurou na psicanálise à partir de quando Klein introduziu o termo de identificação projetiva em 1946. Começou ela perceber que a cisão era uma das primeiras operaçoes defensivas utilizadas pelo ego imaturo na tentativa de lidar com ansiedades por vezes intensas;Klein pensava que o bebê muito cedo era capaz de alguma forma de fantasia e que uma das características dessas fantasias era a relação com objetos de modo que as primeiras as primeiras experi6encias agradáveis para o bebê estavam ligadas à noção de um objeto que era a fonte de um prazer e contrariamente a experiência de dor estava ligada a noção de um objeto que produzia sofrimento. A função primaria da cisão é pois separar os objetos bons e ruins que estão relacionados com o próprio ego e este antes de projetar, primeiro se cinde interiormente para que depois possa cindir o objeto. O trabalho de Paula Heimann (1950) sobre a contra-transferência representou um marco histórico na técnica e na teoria psicanalítica. Anteriormente o fenômeno contra-transferencial deveria ser evitado, uma vez que o enfoque único estava centralizado na parte patológica da personalidade do analista funcionando intrusivamente na relação da dupla. Com as idéias de Paula Heimann( Londres) começou a haver um esboço de aceitação dessa experiência emocional como uma ferramenta útil ao trabalho psicanalítico. Em 1960, Paula Heimann (citada por Marceletti de Oliveira) apresentou seu segundo trabalho sobre a contra-transferência. Dirige mais a sua atenção aos sentimentos do analista, retirando-o da postura de um simples espectador para colocá-lo como um elemento participante dessa relação; o que não significa estar dominado pelos sentimentos que o paciente pode despertar, mas percebê-los para ter uma compreensão mais profunda da dinâmica da relação da dupla analítica. 11 Danielle Quinodoz (1995) fez um estudo acurado sobre a vertigem, de origem psíquica considerada como uma manifestação de angústia, enfocando sob o ângulo das experiências clínicas e teóricas atuais. Prof R Häusler, médico especialista em otoneurologia (citado por Quinodoz), define “a vertigem como uma sensação errônea de movimento do corpo no espaço ou do espaço em relação ao corpo. Pode ser uma sensação de rotação, de balouço ou de queda iminente”. Vertigem vem de “vertigo” que significa redemoinho. Aplica-se portanto, a um distúrbio da percepção do espaço, com ilusão de movimento”. Danielle Quinodoz (1995), segundo as suas próprias observações, informa que: “do ponto de vista psíquico a vertigem sobrevém quando há no Ego a presença simultânea de duas atitudes: uma atitude infantil, buscando satisfações no registro da onipotência e uma atitude mais evoluída, buscando suas satisfações no registro da po-tência e para a qual o triunfo da primeira é julgado derrisório”. Mais adiante acres-centa que: “o sentimento de vertigem aparece então na passagem do modo de relação fusional para o modo de relação objetal, de objeto total, vivido com ansiedade”. A angústia da minha analisanda é expressa através de sua vertigem muito forte e intensa com perda da sua estabilidade e desorientação espacial. Segal (citada por Quinodoz) assim se refere: “A cada etapa do desenvolvimento é preciso escolher mais uma vez, entre regredir, para fugir da dor depressiva, para um modo de funcionamento paranoide-esquizoide ou elaborar a dor depressiva, para permitir que se faça desen-volvimento. Porém é o grau de elaboração da depressão e o grau de integração dos objetos internos pelo ego que determinam a maturidade e o equilíbrio do indivíduo.” Danielle Quinodoz (1995) pondera que, o reconhecimento das diferenças e dos limites do Ego e do Objeto implicam em renunciar o controle do objeto, isto é, renunciar a 12 obrigá-lo a uma semelhança, para se interessar, todavia, pelo surgimento de sua originalidade e para a troca que pode disso decorrer. Isso pressupõe um modo de relação baseado na liberdade e na confiança. A vertigem é um meio privilegiado para abordar o estudo da relação de objeto permitindo avaliar as vicissitudes desta relação. O aparecimento da vertigem psíquica está ligada a dificuldade de integrar os movimentos psíquicos igualmente divergentes (necessidades, desejos e afetos). Podemos pensar que a vertigem sentida pela paciente expressa seu sentimento de não ser capaz de se sustentar fora da análise ( ao se separar da analista). Separação é arrancamento, é não conseguir se movimentar sozinha sem amparo. A vertigem acompanhada de sentimento de desfalecimento expressa o perigo de morte. Penso agora em minha analisanda que desejava estar alegre e estava triste; desejava se desligar da analista sem medo e havia medo. O conflito intenso dessa analisanda entre vida psíquica e morte psíquica (entre expansão e fusão) não teria gerado uma angústia tão forte representada pela vertigem? E o que dizer da analista que, por sua vez, ao vivenciar uma experiência traumática de morte do motorista e possibilidade iminente da sua própria, ficando com vida, não a conduziu a uma posição depressiva que lhe levou a questionar sua qualidade de vida? ou a perceber sua própria fragilidade, a morte, o medo de perder entes queridos em frações de segundos? ou em alguns momentos a uma angústia persecutória? E ali na sessão a atuar contra-transferencialmente? Qual a interferência destas emoções intensas na minha analisanda? Que tipo de trânsito livre inconsciente se operou da analista para a analisanda e da analisanda para a analista? Passamos de um mundo narcísico ilimitado para um mundo com limites? E o que este fato significa? Saímos de um extremo e entramos em outro? Penso que não. “A parte infantil, diz Danielle Quinodoz (1995), busca uma onipotência má-gica, porque o sentimento de ser fraco é tão intenso que se torna inaceitável. Ora, diz ela, renunciar a essa onipotência infantil não implica em renunciar ao aspecto imenso, potente, de si próprio para conservar apenas o aspecto da pequenez. Ao contrário, isso implica em conservar, simultaneamente os dois aspectos: a pequenez e a imensidão, mas despojados de seu caráter mágico; enquanto que o desejo de onipotência implicaria em que, para conservar o sentimento 13 mágico de sua imensidão ou da do objeto, o anali-sando não pudesse ver a sua pequenez. O equilíbrio não necessita de um contínuo rea-justamento? Um ego em evolução busca incessantemente de relações harmoniosas com um ambiente em contínua mudança que se comunicam por meio de um espaço externo e de um espaço interno, contribuindo para criar. Ferro (1994) ressalta que: Se é verdade que a troca entre analista e paciente é mais ampla do que a verbal e que ao lado das palavras existem outras possibilidades de comunicação (especialmente através das identificações projetivas de um e de outro, sobre um e sobre outro) isto leva a uma consciência sempre maior de que não é sempre tão imediata a possibilidade de atribuir a um dos dois membros do par analítico as partes e os funcionamentos cindidos, e como estes determinam os acontecimentos da sessão. Ogden, T ( S. Francisco) em seu trabalho intitulado Analisando formas de vitalidade e mortificação da transferênciacontra-transferência assim se refere: “Acredito que qualquer forma de psicopatologia representa um tipo específico de limitaçào da capacidade de estar pleenamente vivo como ser humano. O objetivo da análise , desse ponto de vista, é maior do que a resolução do conflito intrapsíquico inconsciente , do que a diminuiçào da sintomatologia , da intensificação da subjetividade reflexiva, e do auto-entendimento e do incremento dos sentimento de competência pessoal. Apesar da experiência pessoal de estar vivo, de estar intimamente interligado com cada uma das capacidades acima mencionadas, acredito que a experiência de estar vivo consiste numa qualidade que vai além dessas capacidades e deve ser consideradas como um aspecto da experiência analítica em seu próprio sentido” Na realidade penso que a utilização de experiências inter-subjetivas no encontro analítico possam servir de informações complementares à aquelas que vêm da minha paciente e da minha pessoa. A teoria da contra-transferência dirá que o trabalho do analista consiste em escutar sua transferência e que isso é a sua intuição. 14 Ouvimos exclusivamente o nosso paciente ou temos a condição de ouvirmos também a nós mesmos? LENISE LISBOA AZOUBEL Ribeirão Preto, 2 de abril 2000 15 SUMÁRIO A autora faz algumas considerações a respeito do encontro analítico, mos-trando a importância da escolha de uma teoria e de uma técnica que fundamentem o seu trabalho se indagando quão ampla e flexível ela possa ser. Ressalta e questiona a relação do ser analista com o ser do analista. Antes de apresentar o material clínico propriamente dito, expõe como a sua mente se encontrava antes da sessão relatada, tentando correlacionar o seu estado mental com o estado mental da paciente em vários momentos emergentes da sessão. Em seguida, apresenta alguns trechos de uma sessão de análise em que mostra o inter-relacionamento analista-analisanda, deixando em aberto um campo amplo para o questionamento e uma troca de idéias sugeridos pelo material clínico apresentado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Binur, Y Meu Inimigo Sou Eu Scritta Oficina Editorial Ltda., São Paulo, Brasil, 1991. Ferro, A A Técnica na Psicanálise Infantil. Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro, Brasil, 1995. Figueira, S A transferência Introdução: Bases Freudianas da Contra- In: Contra-transferência de Freud aos Contemporâneos Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, Brasil, 1994. Freud, S Psicanalítica As Perspectivas Futuras da Terapêutica Ed. Stand. Bras. das Obras. Compls. de Sigmund Freud Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro, Brasil, 1969. 16 Heimann, P On Countertransference Int. Journal PsychoAnalysis, Vol 31, págs 81/84, 1950. Malcolm, R R Analítico A Conceituação de Fatos Clínicos no Processo Revista Bras de Psicanálise, Vol XXVIII, n.4, págs 657/672, São Paulo, Brasil, 1994. Marceletti de Oliveira, B S - Paula Heimann in: Contra-transferência: de Freud aos Contemporâneos Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, Brasil, 1994. Pick, I B Working Through in the Countertransference Int. Journal of PsychoAnalysis Vol 66, págs 157/166, 1985. Quinodoz, D A Vertigem Editora Artes Médicas, Porto Alegre - RS, Brasil, 1995. Dra Lenise Lisboa Azoubel Rua Rui Barbosa, 1782 Tf016-6254193-fax 16-636 7916 CEP14.015-120- Ribeirão Preto São Paulo - Brasil.