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CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho
Gandini, Erik
Surplus
Atmo Produtora, Suécia, 2003
Revista Glob(AL) Brasil
Rede Universidade Nômade
Consumismo e Globalização –
faces e fases de uma mesma
moeda?
João Batista de Almeida Sobrinho
O documentário Surplus142 (Suécia,
2003) do cineasta e produtor italiano Erik
Gandini143, desmistifica, materializa e cria
um paradoxo na sociedade contemporânea,
denunciando as incoerências na política mundial, destacando o posicionamento das corporações multinacionais e seus respectivos líderes diante da caótica aceleração da produção
em massa, do desgovernado avanço tecnológico e dos estragos que todo esse processo em
excesso vem causando ao meio ambiente. O
tema geral do documentário é o processo de
consumismo das sociedades pós-industriais,
no contexto da globalização. Inspirado nas
idéias do anarco-primitivista John Zerzan144
142 A melhor aproximação para esta palavra foi
encontrada no livro de Iztván Mészáros, Para
além do Capital, onde utiliza o termo Surpluslabour como trabalho excedente e não maisvalia. (pág. 631 do original em inglês, pág. 737
em português). Então, esclareço que a referência
que estarei utilizando nesta resenha para o termo
surplus será como sinônimo de excedente. Ou
seja, o consumismo como algo que é excedente.
143 Erik Gandini é um cineasta italiano, residente na Suécia. É co-fundador da produtora
Atmo.
144 John Zerzan (1943) é um anarquista norteamericano que se destacou na segunda metade
da década de 1980. Enquanto filósofo e escritor
é considerado um dos expoentes do Primitivis-
juntamente com o músico/redator Johan Södenberg.
O documentário foi produzido com
imagens de arquivo de telejornais, jornadas
de protesto, discursos de líderes mundiais,
performances de animadores de corporações
transnacionais e imagens de trabalhadores. O
autor cria uma compilação de imagens reais
utilizando a linguagem do vídeo clipe com
inserção de loops e repetições de frases e
palavras que, ironicamente e sem excessos,
remetem aos ganchos compulsivos do mundo da propaganda e do marketing capitalista.
O autor utiliza-se da polifonia como recurso
para dar continuidade e armar a teia que compõe o seu projeto audiovisual.
O filme inicia mostrando o G8 de
2001 realizado em Gênova, onde pessoas ligadas a grupos e ao movimento pela não globalização neoliberal e a movimentos sociais,
em manifestação pacífica são surpreendidas
e agredidas brutalmente pela policia armada,
causando morte, feridos e destruição aleatória.
Todo esse episódio de imagens chocantes é
acompanhado por uma narrativa que descreve
com clareza as mazelas que o planeta na sua
totalidade vem absorvendo com a ignorância
e a ganância do homem manipulado pelas
grandes empresas corporativas, que, por sua
vez, dificultam qualquer possibilidade de se
resolver essa tragédia econômica, social e am-
mo. Seus trabalhos focam o processo de origem
e as conseqüências do surgimento da civilização industrial de massa, bem como sua inerente
opressão, defendendo, assim, formas inspiradas
no modo de vida das sociedades humanas Prémodernas como modelos de sociedades plenas
de liberdade. Algumas de suas críticas mais desafiadoras se estendem ao processo da domesticação à linguagem, ao pensamento simbólico
(como matemática e arte) e à conceituação de
tempo. Critica o Capital, o Estado, a hierarquia;
toda forma de poder e de opressão.
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biental que assola o planeta. O documentário
também alerta para as estatísticas assustadoras quando se divulga que o primeiro mundo
representa 20% da população mundial e consome 80% dos recursos naturais, o que nos faz
acreditar que certamente estamos caminhando
para o que Zerzan chama de colapso econômico mundial. Gandini apresenta uma dualidade
onipresente, colocando-nos diante das incertezas que nos cercam, posicionando-nos em
um macro-sistema, de poucas escolhas, ou
quase nenhuma ao mostrar que, no socialismo de Cuba, os acessos por sua vez restritos
alimentam a imaginação, causando ânsia de
consumo principalmente entre os mais jovens,
que sonham em descobrir o mundo das possibilidades de consumo. E, por outro lado, nos
mostra como se alimenta o discurso único do
neoliberalismo e o seu processo constante de
auto-reprodução nos meios de comunicação,
configurando àquilo que alguns autores já definiram como a lógica do “discurso único”.
Mesclando o recurso de cenas cortadas, editadas e sobrepostas com áudios normais, editados e sobrepostos, o autor enfoca
e centra a linearidade do documentário nas
teorias de John Zerzan. Isto ajuda muito na
identificação da problemática, mas ainda, está
longe de ser a solução ou um caminho a ser
seguido. No entanto, serve como uma panorâmica por seu aspecto cíclico (estrutura do documentário) com o fato de que o capitalismo
(sistema econômico, político e social que a
grande maioria da humanidade vive) é cíclico
e suas crises engendram saídas contraditórias
para que este sistema siga se auto-reproduzindo a partir de suas próprias externalidades
(o que sobra de capital é reciclado na bolha
capitalista para que possa ser revendido com
mais lucro e com um novo desenho – design).
Como já escreveu Franco Berardi (2002),
A ideologia ocidental liberal é baseada em uma fantástica dupla ligação
ou injunção contraditória dirigida ao
mundo dos excluídos. Esta injunção
pode ser enunciada assim: “1. Todos
devem ser como nós, ricos, consumistas e felizes; 2. A condição pela qual
somos ricos, consumistas e fazemos
de conta que somos felizes está justamente no fato de que todos os outros
não o sejam” (p. 98).
Numa primeira tentantiva de síntese, deve-se acentuar que, através de uma
temática pouco difundida nos meios de comunicação de massa, Surplus descarrega uma
gama de informações imagéticas que questionam o incansável mundo capitalista, marcado
pela extravagante sociedade de consumo. O
documentário apresenta, mas, não aprofunda
a discussão a respeito das rigorosas normas
vigentes em Cuba, mostrando que em nenhum
dos sistemas políticos, sociais e econômicos,
reside uma plena liberdade. Neste sentido, o
documentário Surplus abre o caminho também para um melhor entendimento dos processos civilizatórios, responsáveis por toda
essa herança política que determina, interfere
e influencia as relações sociais e econômicas
do mundo, o que, no seu desenvolvimento
histórico, acabou gerando uma má distribuição de renda que consequentemente vem impossibilitando o desenvolvimento sustentável,
causando dependência e atraso para os países
menos desenvolvidos.
Dentro deste tema, é importante
destacar nesta resenha a existência da Revista
Global (América Latina), que foi lançada no
Fórum Social de Porto Alegre no ano de 2003,
e que, na realidade, foi o segundo número experimental de um projeto de revista (Global
Magazine), lançado pela primeira vez, em
versão italiana, no Fórum Social Europeu de
Florença, em novembro de 2002.
A revista, a partir do seu lançamento,
se propôs a cumprir o papel de interlocutor ao
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“movimento dos movimentos” (movimentos
de resistência à globalização liberal e conservadora), e fazer a crítica à lei dos mais fortes
(11 de setembro de 2001). Ou, melhor dizendo, resistir à guerra global permanente através
de uma processo de constituição democrática
mundial, contra uma soberania imperial esvaziada de todo conteúdo democrático, contra o
fundamentalismo religioso e/ou nacionalista.
Isto é, driblando os modelos instituídos, a
única política (da multidão) possível é a que
consegue (sem atalhos subjetivistas, nem concessões pragmáticas) juntar resistência e produção, ou seja, constituir a não limitação da
democracia como princípio de uma ilimitada
inovação. A revista apontou, no editorial do
número 0, o fato de que organizar a luta é hoje
em dia organizar a produção e que a Global é
uma “revista de movimento para o movimento, articulada nas dinâmicas de resistência em
rede e produção de redes”.
Na perspectiva deste tema: globalização, resistências e consumismo, ainda cabe destacar a entrevista concedida por Naomi Klein145
145 Naomi Klein – jornalista, escritora e ativista canadense. A carreira de escritora de Klein
começou cedo com contribuições ao jornal
The Varsity na Universidade de Toronto, neste
periódico escrevia sobre feminismo. Em 2000
publicou No Logo (em português Sem Logo – A
Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido),
que para muitos se transformou em um manifesto do movimento antiglobalização. O livro
traz efeitos negativos da cultura consumista e as
pressões impostas pelas grandes empresas sobre
seus trabalhadores. Uma das grandes criticadas
é a Nike, que em suas filiais no sudeste da Ásia,
segundo Klein, tortura os trabalhadores para que
estes cumpram as metas da empresa. Klein recebeu resposta da Nike por isso. Em 2002 publica Fences and Windows (em português Cercas e Janelas), uma coleção de matérias escrita
por ela sobre o movimento antiglobalização no
mundo como movimento zapatista e os protestos
para Luca Casarini146 e publicada no número
0 da Revista Glob(al) com o título “Um efeito
sobre a vida (Da crítica às contra-cúpulas à
necessidade de enraizamento social. Reflexões sobre o segundo ciclo de lutas globais)”.
Nessa entrevista a jornalista Naomi Klein
aponta para algumas questões que ainda são
contra OMC e FMI. Klein também escreve regularmente para os jornais The Nation, In These
Times, Canada’s The Globe and Mail, This
Magazine e The Guardian.
146 Luca Casarini – Tutte Bianche – grupo que
se tornou lendário por suas táticas e ações comunicativas promovidas nas suas manifestações.
Este grupo depois extinto, transformado no grupo Disobedienti. Os Tutte Bianche usaram métodos de ativismo defensvo, antes inéditos, como
enormes proteções corporais e escudos, e faziam
suas carreatas ao som de tecno. Com um visual
que misturava ficção científica e armadura medieval, eles foram, juntamente com Luther Blissett, a mais completa tradução do ativismo pop
mitopoético, que ainda hoje influencia vários
grupos, como os britânicos Wombles. Além das
suas proposições políticas encarnadas de forma
criativa através das suas participações nas manifestações anti-cúpulas mundiais. Oficialmente,
Luca Casarini, é o porta-voz desse grupo, que
tem a Autonomia Operária como antepassado,
que descende diretamente dos centros sociais
ocupados, mas que nos últimos anos, coincidindo
com a revolta de Seattle, adquiriu uma imagem
pós-moderna ao adotar uma nova linguagem e
inacreditáveis macacões lunares de gaze branca
com escudos de plexiglas e armaduras de espuma. Por certo, os Tute Bianche são apenas uma
minoria do multicolorido Povo de Seattle. Mas,
com sua habilidade para administrar a comunicação, converteram-se, ao mesmo tempo, em sua
vanguarda de combate e seu símbolo midiático.
E Luca Casirini, paduano, 34 anos, diploma de
técnico em energia térmica e com a fala colorida
da região do Vêneto, é o emissário desse incrível
movimento que fascina ao mesmo tempo em que
inquieta.
CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho
a chave para entender os limites do grau de
desenvolvimento global a que chegamos,
Luca Casarini: Depois do período
dos grandes conflitos iniciado em Seattle,
passando por Gênova, pode-se dizer que um
primeiro ciclo de lutas globais tenha chegado
ao fim?
Naomi Klein: Penso que estamos
diante da conclusão de um primeiro ciclo, mas
isto não significa que o movimento tenha acabado. É parte de seu desenvolvimento exaurir-se e abrir uma nova fase. Acabou o tempo
em que se podia estar, simplesmente, do lado
de fora das cúpulas, sob o sol, a gritar slogans.
Hoje é necessário coligar-se com as questões
verdadeiras, com as lutas quotidianas, dia
após dia, contra as injustiças. Por exemplo,
em Sevilha, na ocasião da contra-cúpula (movimento de resistência à cúpula oficial, n.t.)
européia sobre os imigrantes, um grupo de
cinqüenta trabalhadores imigrados ocupou
a universidade depois de terem perdido seus
contratos temporários de trabalho. Sevilha e a
Espanha estavam em greve e houve um nível
considerável de auto-organização. Isto muda
bastante a percepção e mesmo, creio, a cobertura da mídia: porque era fácil demais fazer
a paródia das contra-cúpulas. Há uma tendência, em geral, onde se vê muita gente do
movimento transferindo-se de um summit a
outro, pensando participar de uma espécie de
“revolução em miniatura”, cujo único objetivo é trazer mais pessoas para as ruas. E assim,
todas as nossas ações tornam-se simbólicas,
enquanto a realidade da qual falamos torna-se
cada vez pior.
É interessante, trazer para este debate um outro autor que pode esclarecer a
natureza da opressão consumista neoliberal e
a característica do movimento surgido desde
Seattle, passando por Gênova, Florença e por
que não também, por Porto Alegre, através
das três edições do Fórum Social Mundial.
Giuseppe Cocco (2002), em artigo publicado
na revista Lugar Comum, afirma que, (...) “o
movimento novo que se afirmou em Gênova
é irreversivelmente globalista (e não mais
antiglobalização)” (p. 68)147. E aí, o próprio
autor destaca algo que é muito interessante
no processo de constituição de espaços democráticos: enquanto, por exemplo, na cidade de
Porto Alegre houve um importante apoio institucional local e regional, por outro lado, na
cidade de Gênova, os territórios constituintes
do movimento sofreram o curto-circuito de um
enfrentamento direto (violento) com a gestão
constituída do espaço e do tempo no Império
(Cocco, op. cit., p. 67). No documentário Surplus, durante todo o tempo aparecem cortes
de imagens que demonstram as condições de
consumo nas cidades e para as pessoas (empresários, mas principalmente trabalhadores,
inclusive a indústria do entretenimento). E,
esta é uma das questões-chave para entender
este momento que seguimos vivendo, e que,
alguns já denominaram muito bem, como a
era da Baixa Globalização ou da Guerra Global Permanente, à grosso modo, ainda é possível falar em desenvolvimento sustentável sem
ao menos mencionar a necessidade de discutir
um consumo sustentável global?
Dito de outro modo e, retomando
a entrevista concedida por Naomi Klein para
Luca Casarini, este lhe pergunta pontualmente sobre a perspectiva do movimento dos movimentos, assim:
Luca Casarini: Dissemos que o primeiro ciclo de lutas globais centrava-se nas
cúpulas e na economia capitalista. Parece que
este segundo ciclo é centrado na guerra glo147 Giuseppe Cocco, cientista político, doutor
em história social pela Universidade de Paris, é
professor titular da Universidade Federal do Rio
de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com
Antonio Negri, o livro “Glob(AL): Biopoder e
Luta em uma América Latina Globalizada”.
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bal permanente. Qual é a discussão sobre este
tema nos Estados Unidos e no Canadá, depois
do 11 de setembro?
Naomi Klein: É análoga a que está
em curso na Europa: estamos falando das conexões entre militarismo e economia. Temos
as novas cercas e esta é a violência: não podem pensar, deste modo, excluir tanta gente
do bem-estar, sem prever uma estratégia simultânea de contenção. E esta estratégia assume muitas faces: o arame farpado que circunda as fábricas no México e nas Filipinas, para
manter as organizações sindicais à distância,
com guardas armados, significa a militarização do modelo econômico. Pensamos nos
arames farpados nas fronteiras, que servem
para manter os imigrantes fora da fortalezaEuropa. Depois do 11 de setembro, contaram
que uma conspiração havia acabado com
o período de paz e de bem-estar: creio que
este argumento desabou junto com as Torres
Gêmeas. Não há mais separação entre uma
discussão sobre guerra; devemos ligar estes
temas, porque mostram a violência intrínseca
deste modelo econômico.
Portanto, no documentário Surplus
e na Edição da Revista Glob(A.L.), existe um
tema transversal que abrange não somente
a questão do consumismo, mas também o
processo de globalização conservadora que
é fase e, ao mesmo tempo, uma das faces do
desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. Dito de outro modo, para pensar a lógica
deste sistema que muitas vezes beira às raias
da esquizofrenia, deve-se fazer um exercício
de polifonia e para tanto, não como escapar
da sobreposição de textos e imagens, por ser
esta também a sua lógica interna. Em ensaio
publicado e apresentado, sobre o autor russo
Mikhail Bakhtin (1895-1975) e o livro deste
sobre Dostoiévski (literato russo), publicado
pela primeira vez em 1929, Cristóvão Te-
zza148 nos apresenta este conceito como uma
das categorias mais atraentes da teoria literária das últimas décadas do século 20. Ou seja,
Bakhtin ao tomar a palavra de empréstimo da
arte musical, isto é, o efeito obtido pela sobreposição de várias linhas melódicas independentes mas, harmonicamente relacionadas
nos abre a possibilidade de uma nova leitura
do réquiem global que temos vivido. Segundo
Cristovão Tezza (op. cit.),
Para uma filosofia do ato, escrita no
início da década de 1920 e publicada
apenas mais de sessenta anos depois,
encontramos um Bakhtin fundamentalmente filósofo, esboçando o projeto
de uma filosofia moral que suplantasse o que ele chamava de cisão “irreparável” entre o mundo da cultura
e do pensamento e o mundo da vida
concreta. Para o jovem Bakhtin, superar esse abismo significa que o meu
ato de cognição deve ser também a
minha ação, com toda a responsabilidade concreta dos meus gestos e da
minha vida.
Para um maior aprofundamento sobre este tema, que na verdade contém
duas situações contemporâneas (globalização
e consumismo) e que estão, grosso modo,
atravessadas por um intenso processo de comunicação e semiotização da vida, deve-se
148 Cristovão Tezza é escritor, autor dos romances O fotógrafo e Breve espaço entre cor e sombra (Rocco), entre outros, é professor de língua
portuguesa na Universidade Federal do Paraná e
doutor em literatura brasileira na USP com a tese
Entre a prosa e a poesia – Bakhtin e o formalismo russo (Rocco). O ensaio citado resume parte
do texto A polifonia como uma categoria ética,
apresentado no X Congresso Internacional sobre
Mikhail Bakhtin, em Gdánsk, Polônia, julho de
2001. http://revistacult.uol.com.br/especial_polifonia.htm.
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não somente assistir ao documentário com a
perspectiva aberta, mas também ler a revista
Glob(A.L.) como uma ferramenta a mais para
compreender como o processo de aumento
da desigualdade econômica e social fez com
que a violência explodisse em escalas assustadoras no mundo todo. Se por um lado
a informação se tornou um mercado rentável
e útil durante o declínio capitalista; por outro lado, com a potencialização do fenômeno
de domesticação das mentes, o surgimento
da síndrome do pânico com as suas variantes
específicas como por exemplo: terror – a pessoa se isola para se proteger com medo de que
algo ruim possa acontecer repentinamente; e,
isolamento – doméstico e psicológico, gerado
pelo medo de se expor aos perigos da rua, ao
contato com o mundo externo pelo risco de
contágio de doenças, violência, acidentes e
catástrofes; levou a humanidade a um intenso
processo de interiorização do sistema de controle (panóptico) de uma forma perversa, pois
ele está centrado no caos de uma sociedade
esvaziada de sentido. Não querendo ser apologético, mas deixando uma outra possibilidade de leitura e de ação, reitero que vivemos
numa “era adolescente” cujo ideal de justiça
é a vingança quente, ou numa “Era do Vazio”
cujo ideal de verdade é aquilo que se pode
testemunhar com uma câmera de TV – de
preferência sensacionalista. No entanto, exatamente aí existe um campo de possibilidades
que devemos experimentar como já foi dito
por Franco Berardi:
Os contestadores anticapitalistas
que nós somos estão dispensados da faina
de combater este sistema. O grosso de nosso trabalho está sendo feito por Bush e seus
comilitantes. Deixemos que trabalhem para
a destruição de sua própria civilização. Nós
devemos pensar, ao contrário, em salvar o que
pode ser salvo. E o salvável é a inteligência
coletiva, o enorme patrimônio de saber, de
competências, de amizade e de generosidade
que atualmente é desperdiçado em todas as
partes do mundo, desviado, pervertido (Berardi, op. cit., p. 99).
Detalhe - desde o apocalipse do 11
de setembro, já se passaram sete anos, e, desde o lançamento do documentário Surplus e
da Revista Glob(A.L.), pelo cinco anos de experimento. Ou o mundo mudou muito, ou não
mudamos tanto assim.
Referências
GANDINI, Erik. Surplus. Suécia, 2003. Produtora Atmo.
GLOBAL América Latina/Revista Glob(A.L.)
Brasil. Número (0), janeiro de 2003. Editorial,
p. 2 e Entrevista com Naomi Klein, p. 28-29.
COCCO, Giuseppe. De Porto Alegre a Gênova, a cidade na globalização. In: Revista
Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura
e Democracia n 15-16, set 2001-abr 2002, p.
68.
BERARDI, Franco. Transformar a guerra
globalista em seção ativa da inteligência. In:
Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura
e Democracia nº 15-16, setembro 2001-abril
2002. p. 98.
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