324 CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho Gandini, Erik Surplus Atmo Produtora, Suécia, 2003 Revista Glob(AL) Brasil Rede Universidade Nômade Consumismo e Globalização – faces e fases de uma mesma moeda? João Batista de Almeida Sobrinho O documentário Surplus142 (Suécia, 2003) do cineasta e produtor italiano Erik Gandini143, desmistifica, materializa e cria um paradoxo na sociedade contemporânea, denunciando as incoerências na política mundial, destacando o posicionamento das corporações multinacionais e seus respectivos líderes diante da caótica aceleração da produção em massa, do desgovernado avanço tecnológico e dos estragos que todo esse processo em excesso vem causando ao meio ambiente. O tema geral do documentário é o processo de consumismo das sociedades pós-industriais, no contexto da globalização. Inspirado nas idéias do anarco-primitivista John Zerzan144 142 A melhor aproximação para esta palavra foi encontrada no livro de Iztván Mészáros, Para além do Capital, onde utiliza o termo Surpluslabour como trabalho excedente e não maisvalia. (pág. 631 do original em inglês, pág. 737 em português). Então, esclareço que a referência que estarei utilizando nesta resenha para o termo surplus será como sinônimo de excedente. Ou seja, o consumismo como algo que é excedente. 143 Erik Gandini é um cineasta italiano, residente na Suécia. É co-fundador da produtora Atmo. 144 John Zerzan (1943) é um anarquista norteamericano que se destacou na segunda metade da década de 1980. Enquanto filósofo e escritor é considerado um dos expoentes do Primitivis- juntamente com o músico/redator Johan Södenberg. O documentário foi produzido com imagens de arquivo de telejornais, jornadas de protesto, discursos de líderes mundiais, performances de animadores de corporações transnacionais e imagens de trabalhadores. O autor cria uma compilação de imagens reais utilizando a linguagem do vídeo clipe com inserção de loops e repetições de frases e palavras que, ironicamente e sem excessos, remetem aos ganchos compulsivos do mundo da propaganda e do marketing capitalista. O autor utiliza-se da polifonia como recurso para dar continuidade e armar a teia que compõe o seu projeto audiovisual. O filme inicia mostrando o G8 de 2001 realizado em Gênova, onde pessoas ligadas a grupos e ao movimento pela não globalização neoliberal e a movimentos sociais, em manifestação pacífica são surpreendidas e agredidas brutalmente pela policia armada, causando morte, feridos e destruição aleatória. Todo esse episódio de imagens chocantes é acompanhado por uma narrativa que descreve com clareza as mazelas que o planeta na sua totalidade vem absorvendo com a ignorância e a ganância do homem manipulado pelas grandes empresas corporativas, que, por sua vez, dificultam qualquer possibilidade de se resolver essa tragédia econômica, social e am- mo. Seus trabalhos focam o processo de origem e as conseqüências do surgimento da civilização industrial de massa, bem como sua inerente opressão, defendendo, assim, formas inspiradas no modo de vida das sociedades humanas Prémodernas como modelos de sociedades plenas de liberdade. Algumas de suas críticas mais desafiadoras se estendem ao processo da domesticação à linguagem, ao pensamento simbólico (como matemática e arte) e à conceituação de tempo. Critica o Capital, o Estado, a hierarquia; toda forma de poder e de opressão. CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho biental que assola o planeta. O documentário também alerta para as estatísticas assustadoras quando se divulga que o primeiro mundo representa 20% da população mundial e consome 80% dos recursos naturais, o que nos faz acreditar que certamente estamos caminhando para o que Zerzan chama de colapso econômico mundial. Gandini apresenta uma dualidade onipresente, colocando-nos diante das incertezas que nos cercam, posicionando-nos em um macro-sistema, de poucas escolhas, ou quase nenhuma ao mostrar que, no socialismo de Cuba, os acessos por sua vez restritos alimentam a imaginação, causando ânsia de consumo principalmente entre os mais jovens, que sonham em descobrir o mundo das possibilidades de consumo. E, por outro lado, nos mostra como se alimenta o discurso único do neoliberalismo e o seu processo constante de auto-reprodução nos meios de comunicação, configurando àquilo que alguns autores já definiram como a lógica do “discurso único”. Mesclando o recurso de cenas cortadas, editadas e sobrepostas com áudios normais, editados e sobrepostos, o autor enfoca e centra a linearidade do documentário nas teorias de John Zerzan. Isto ajuda muito na identificação da problemática, mas ainda, está longe de ser a solução ou um caminho a ser seguido. No entanto, serve como uma panorâmica por seu aspecto cíclico (estrutura do documentário) com o fato de que o capitalismo (sistema econômico, político e social que a grande maioria da humanidade vive) é cíclico e suas crises engendram saídas contraditórias para que este sistema siga se auto-reproduzindo a partir de suas próprias externalidades (o que sobra de capital é reciclado na bolha capitalista para que possa ser revendido com mais lucro e com um novo desenho – design). Como já escreveu Franco Berardi (2002), A ideologia ocidental liberal é baseada em uma fantástica dupla ligação ou injunção contraditória dirigida ao mundo dos excluídos. Esta injunção pode ser enunciada assim: “1. Todos devem ser como nós, ricos, consumistas e felizes; 2. A condição pela qual somos ricos, consumistas e fazemos de conta que somos felizes está justamente no fato de que todos os outros não o sejam” (p. 98). Numa primeira tentantiva de síntese, deve-se acentuar que, através de uma temática pouco difundida nos meios de comunicação de massa, Surplus descarrega uma gama de informações imagéticas que questionam o incansável mundo capitalista, marcado pela extravagante sociedade de consumo. O documentário apresenta, mas, não aprofunda a discussão a respeito das rigorosas normas vigentes em Cuba, mostrando que em nenhum dos sistemas políticos, sociais e econômicos, reside uma plena liberdade. Neste sentido, o documentário Surplus abre o caminho também para um melhor entendimento dos processos civilizatórios, responsáveis por toda essa herança política que determina, interfere e influencia as relações sociais e econômicas do mundo, o que, no seu desenvolvimento histórico, acabou gerando uma má distribuição de renda que consequentemente vem impossibilitando o desenvolvimento sustentável, causando dependência e atraso para os países menos desenvolvidos. Dentro deste tema, é importante destacar nesta resenha a existência da Revista Global (América Latina), que foi lançada no Fórum Social de Porto Alegre no ano de 2003, e que, na realidade, foi o segundo número experimental de um projeto de revista (Global Magazine), lançado pela primeira vez, em versão italiana, no Fórum Social Europeu de Florença, em novembro de 2002. A revista, a partir do seu lançamento, se propôs a cumprir o papel de interlocutor ao 325 326 CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho “movimento dos movimentos” (movimentos de resistência à globalização liberal e conservadora), e fazer a crítica à lei dos mais fortes (11 de setembro de 2001). Ou, melhor dizendo, resistir à guerra global permanente através de uma processo de constituição democrática mundial, contra uma soberania imperial esvaziada de todo conteúdo democrático, contra o fundamentalismo religioso e/ou nacionalista. Isto é, driblando os modelos instituídos, a única política (da multidão) possível é a que consegue (sem atalhos subjetivistas, nem concessões pragmáticas) juntar resistência e produção, ou seja, constituir a não limitação da democracia como princípio de uma ilimitada inovação. A revista apontou, no editorial do número 0, o fato de que organizar a luta é hoje em dia organizar a produção e que a Global é uma “revista de movimento para o movimento, articulada nas dinâmicas de resistência em rede e produção de redes”. Na perspectiva deste tema: globalização, resistências e consumismo, ainda cabe destacar a entrevista concedida por Naomi Klein145 145 Naomi Klein – jornalista, escritora e ativista canadense. A carreira de escritora de Klein começou cedo com contribuições ao jornal The Varsity na Universidade de Toronto, neste periódico escrevia sobre feminismo. Em 2000 publicou No Logo (em português Sem Logo – A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido), que para muitos se transformou em um manifesto do movimento antiglobalização. O livro traz efeitos negativos da cultura consumista e as pressões impostas pelas grandes empresas sobre seus trabalhadores. Uma das grandes criticadas é a Nike, que em suas filiais no sudeste da Ásia, segundo Klein, tortura os trabalhadores para que estes cumpram as metas da empresa. Klein recebeu resposta da Nike por isso. Em 2002 publica Fences and Windows (em português Cercas e Janelas), uma coleção de matérias escrita por ela sobre o movimento antiglobalização no mundo como movimento zapatista e os protestos para Luca Casarini146 e publicada no número 0 da Revista Glob(al) com o título “Um efeito sobre a vida (Da crítica às contra-cúpulas à necessidade de enraizamento social. Reflexões sobre o segundo ciclo de lutas globais)”. Nessa entrevista a jornalista Naomi Klein aponta para algumas questões que ainda são contra OMC e FMI. Klein também escreve regularmente para os jornais The Nation, In These Times, Canada’s The Globe and Mail, This Magazine e The Guardian. 146 Luca Casarini – Tutte Bianche – grupo que se tornou lendário por suas táticas e ações comunicativas promovidas nas suas manifestações. Este grupo depois extinto, transformado no grupo Disobedienti. Os Tutte Bianche usaram métodos de ativismo defensvo, antes inéditos, como enormes proteções corporais e escudos, e faziam suas carreatas ao som de tecno. Com um visual que misturava ficção científica e armadura medieval, eles foram, juntamente com Luther Blissett, a mais completa tradução do ativismo pop mitopoético, que ainda hoje influencia vários grupos, como os britânicos Wombles. Além das suas proposições políticas encarnadas de forma criativa através das suas participações nas manifestações anti-cúpulas mundiais. Oficialmente, Luca Casarini, é o porta-voz desse grupo, que tem a Autonomia Operária como antepassado, que descende diretamente dos centros sociais ocupados, mas que nos últimos anos, coincidindo com a revolta de Seattle, adquiriu uma imagem pós-moderna ao adotar uma nova linguagem e inacreditáveis macacões lunares de gaze branca com escudos de plexiglas e armaduras de espuma. Por certo, os Tute Bianche são apenas uma minoria do multicolorido Povo de Seattle. Mas, com sua habilidade para administrar a comunicação, converteram-se, ao mesmo tempo, em sua vanguarda de combate e seu símbolo midiático. E Luca Casirini, paduano, 34 anos, diploma de técnico em energia térmica e com a fala colorida da região do Vêneto, é o emissário desse incrível movimento que fascina ao mesmo tempo em que inquieta. CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho a chave para entender os limites do grau de desenvolvimento global a que chegamos, Luca Casarini: Depois do período dos grandes conflitos iniciado em Seattle, passando por Gênova, pode-se dizer que um primeiro ciclo de lutas globais tenha chegado ao fim? Naomi Klein: Penso que estamos diante da conclusão de um primeiro ciclo, mas isto não significa que o movimento tenha acabado. É parte de seu desenvolvimento exaurir-se e abrir uma nova fase. Acabou o tempo em que se podia estar, simplesmente, do lado de fora das cúpulas, sob o sol, a gritar slogans. Hoje é necessário coligar-se com as questões verdadeiras, com as lutas quotidianas, dia após dia, contra as injustiças. Por exemplo, em Sevilha, na ocasião da contra-cúpula (movimento de resistência à cúpula oficial, n.t.) européia sobre os imigrantes, um grupo de cinqüenta trabalhadores imigrados ocupou a universidade depois de terem perdido seus contratos temporários de trabalho. Sevilha e a Espanha estavam em greve e houve um nível considerável de auto-organização. Isto muda bastante a percepção e mesmo, creio, a cobertura da mídia: porque era fácil demais fazer a paródia das contra-cúpulas. Há uma tendência, em geral, onde se vê muita gente do movimento transferindo-se de um summit a outro, pensando participar de uma espécie de “revolução em miniatura”, cujo único objetivo é trazer mais pessoas para as ruas. E assim, todas as nossas ações tornam-se simbólicas, enquanto a realidade da qual falamos torna-se cada vez pior. É interessante, trazer para este debate um outro autor que pode esclarecer a natureza da opressão consumista neoliberal e a característica do movimento surgido desde Seattle, passando por Gênova, Florença e por que não também, por Porto Alegre, através das três edições do Fórum Social Mundial. Giuseppe Cocco (2002), em artigo publicado na revista Lugar Comum, afirma que, (...) “o movimento novo que se afirmou em Gênova é irreversivelmente globalista (e não mais antiglobalização)” (p. 68)147. E aí, o próprio autor destaca algo que é muito interessante no processo de constituição de espaços democráticos: enquanto, por exemplo, na cidade de Porto Alegre houve um importante apoio institucional local e regional, por outro lado, na cidade de Gênova, os territórios constituintes do movimento sofreram o curto-circuito de um enfrentamento direto (violento) com a gestão constituída do espaço e do tempo no Império (Cocco, op. cit., p. 67). No documentário Surplus, durante todo o tempo aparecem cortes de imagens que demonstram as condições de consumo nas cidades e para as pessoas (empresários, mas principalmente trabalhadores, inclusive a indústria do entretenimento). E, esta é uma das questões-chave para entender este momento que seguimos vivendo, e que, alguns já denominaram muito bem, como a era da Baixa Globalização ou da Guerra Global Permanente, à grosso modo, ainda é possível falar em desenvolvimento sustentável sem ao menos mencionar a necessidade de discutir um consumo sustentável global? Dito de outro modo e, retomando a entrevista concedida por Naomi Klein para Luca Casarini, este lhe pergunta pontualmente sobre a perspectiva do movimento dos movimentos, assim: Luca Casarini: Dissemos que o primeiro ciclo de lutas globais centrava-se nas cúpulas e na economia capitalista. Parece que este segundo ciclo é centrado na guerra glo147 Giuseppe Cocco, cientista político, doutor em história social pela Universidade de Paris, é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre outras obras, escreveu, com Antonio Negri, o livro “Glob(AL): Biopoder e Luta em uma América Latina Globalizada”. 327 328 CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho bal permanente. Qual é a discussão sobre este tema nos Estados Unidos e no Canadá, depois do 11 de setembro? Naomi Klein: É análoga a que está em curso na Europa: estamos falando das conexões entre militarismo e economia. Temos as novas cercas e esta é a violência: não podem pensar, deste modo, excluir tanta gente do bem-estar, sem prever uma estratégia simultânea de contenção. E esta estratégia assume muitas faces: o arame farpado que circunda as fábricas no México e nas Filipinas, para manter as organizações sindicais à distância, com guardas armados, significa a militarização do modelo econômico. Pensamos nos arames farpados nas fronteiras, que servem para manter os imigrantes fora da fortalezaEuropa. Depois do 11 de setembro, contaram que uma conspiração havia acabado com o período de paz e de bem-estar: creio que este argumento desabou junto com as Torres Gêmeas. Não há mais separação entre uma discussão sobre guerra; devemos ligar estes temas, porque mostram a violência intrínseca deste modelo econômico. Portanto, no documentário Surplus e na Edição da Revista Glob(A.L.), existe um tema transversal que abrange não somente a questão do consumismo, mas também o processo de globalização conservadora que é fase e, ao mesmo tempo, uma das faces do desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. Dito de outro modo, para pensar a lógica deste sistema que muitas vezes beira às raias da esquizofrenia, deve-se fazer um exercício de polifonia e para tanto, não como escapar da sobreposição de textos e imagens, por ser esta também a sua lógica interna. Em ensaio publicado e apresentado, sobre o autor russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) e o livro deste sobre Dostoiévski (literato russo), publicado pela primeira vez em 1929, Cristóvão Te- zza148 nos apresenta este conceito como uma das categorias mais atraentes da teoria literária das últimas décadas do século 20. Ou seja, Bakhtin ao tomar a palavra de empréstimo da arte musical, isto é, o efeito obtido pela sobreposição de várias linhas melódicas independentes mas, harmonicamente relacionadas nos abre a possibilidade de uma nova leitura do réquiem global que temos vivido. Segundo Cristovão Tezza (op. cit.), Para uma filosofia do ato, escrita no início da década de 1920 e publicada apenas mais de sessenta anos depois, encontramos um Bakhtin fundamentalmente filósofo, esboçando o projeto de uma filosofia moral que suplantasse o que ele chamava de cisão “irreparável” entre o mundo da cultura e do pensamento e o mundo da vida concreta. Para o jovem Bakhtin, superar esse abismo significa que o meu ato de cognição deve ser também a minha ação, com toda a responsabilidade concreta dos meus gestos e da minha vida. Para um maior aprofundamento sobre este tema, que na verdade contém duas situações contemporâneas (globalização e consumismo) e que estão, grosso modo, atravessadas por um intenso processo de comunicação e semiotização da vida, deve-se 148 Cristovão Tezza é escritor, autor dos romances O fotógrafo e Breve espaço entre cor e sombra (Rocco), entre outros, é professor de língua portuguesa na Universidade Federal do Paraná e doutor em literatura brasileira na USP com a tese Entre a prosa e a poesia – Bakhtin e o formalismo russo (Rocco). O ensaio citado resume parte do texto A polifonia como uma categoria ética, apresentado no X Congresso Internacional sobre Mikhail Bakhtin, em Gdánsk, Polônia, julho de 2001. http://revistacult.uol.com.br/especial_polifonia.htm. CONSUMISMO E GLOBALIZAÇÃO / João Batista de Almeida Sobrinho não somente assistir ao documentário com a perspectiva aberta, mas também ler a revista Glob(A.L.) como uma ferramenta a mais para compreender como o processo de aumento da desigualdade econômica e social fez com que a violência explodisse em escalas assustadoras no mundo todo. Se por um lado a informação se tornou um mercado rentável e útil durante o declínio capitalista; por outro lado, com a potencialização do fenômeno de domesticação das mentes, o surgimento da síndrome do pânico com as suas variantes específicas como por exemplo: terror – a pessoa se isola para se proteger com medo de que algo ruim possa acontecer repentinamente; e, isolamento – doméstico e psicológico, gerado pelo medo de se expor aos perigos da rua, ao contato com o mundo externo pelo risco de contágio de doenças, violência, acidentes e catástrofes; levou a humanidade a um intenso processo de interiorização do sistema de controle (panóptico) de uma forma perversa, pois ele está centrado no caos de uma sociedade esvaziada de sentido. Não querendo ser apologético, mas deixando uma outra possibilidade de leitura e de ação, reitero que vivemos numa “era adolescente” cujo ideal de justiça é a vingança quente, ou numa “Era do Vazio” cujo ideal de verdade é aquilo que se pode testemunhar com uma câmera de TV – de preferência sensacionalista. No entanto, exatamente aí existe um campo de possibilidades que devemos experimentar como já foi dito por Franco Berardi: Os contestadores anticapitalistas que nós somos estão dispensados da faina de combater este sistema. O grosso de nosso trabalho está sendo feito por Bush e seus comilitantes. Deixemos que trabalhem para a destruição de sua própria civilização. Nós devemos pensar, ao contrário, em salvar o que pode ser salvo. E o salvável é a inteligência coletiva, o enorme patrimônio de saber, de competências, de amizade e de generosidade que atualmente é desperdiçado em todas as partes do mundo, desviado, pervertido (Berardi, op. cit., p. 99). Detalhe - desde o apocalipse do 11 de setembro, já se passaram sete anos, e, desde o lançamento do documentário Surplus e da Revista Glob(A.L.), pelo cinco anos de experimento. Ou o mundo mudou muito, ou não mudamos tanto assim. Referências GANDINI, Erik. Surplus. Suécia, 2003. Produtora Atmo. GLOBAL América Latina/Revista Glob(A.L.) Brasil. Número (0), janeiro de 2003. Editorial, p. 2 e Entrevista com Naomi Klein, p. 28-29. COCCO, Giuseppe. De Porto Alegre a Gênova, a cidade na globalização. In: Revista Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura e Democracia n 15-16, set 2001-abr 2002, p. 68. BERARDI, Franco. Transformar a guerra globalista em seção ativa da inteligência. In: Lugar Comum – Estudos de Mídia, Cultura e Democracia nº 15-16, setembro 2001-abril 2002. p. 98. 329