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ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE
ALFENAS (*)
ÉRICLIS PIMENTA FREIRE (**)
GUSTAVO EUGÊNIO RODRIGUES (***)
YASSER VASCONCELOS SOARES (***)
RESUMO
A presente pesquisa discute inicialmente os tipos básicos de solo, e posteriormente os conceitos de argila e a
relação dos processos de formação deste material com as condições ambientais (tropicais). São apresentados ainda conceitos
sobre sua estrutura, comportamento, grau de colapso e critérios para quantificação da colapsividade. E finalmente são
analisadas as características físicas e comportamentais da argila laterítica de Alfenas a partir de ensaios experimentais
realizados em laboratório e a análise de recalques excessivos em edificações locais.
DESCRITORES: Solo, argila laterítica, colapso, recalque
SUMMARY
STUDY OF THE GRADE OF COLLAPSE OF THE LATERITIC CLAY OF ALFENAS
The present research discusses at first the basic soil kinds, and afterwards the conception of clay and the relation
of the formation process of this material with the environmental conditions (tropical). Concepts are also given about its
structure, behavior, collapse grade and criteria for the quantification of collapse. Finally the physic attributes and behavior of
lateritic clay of Alfenas are analyzed from experiments carried out in the laboratory, and the analysis of excessive pressing
down in the local buildings.
KEYWORDS: Soil, clay lateritic, clay collapse, pressing down
1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta uma breve
resenha sobre as argilas, com ênfase ao estudo
experimental da argila laterítica, freqüente na camada
superficial do subsolo da cidade de Alfenas. O objetivo
principal da investigação consiste na determinação do
grau de colapsividade do material estudado e suas
conseqüências na prática da engenharia,
principalmente no que se refere a projetos e
comportamentos de fundações.
O tópico 1.1 apresenta um comentário dos
tipos e processos de formação dos solos e a influência
destes fatores no seu comportamento, e de obras de
engenharia a partir de um enfoque geotécnico. No
tópico II.1 são apresentados os conceitos gerais sobre
argilas e suas características a partir das propriedades
físicas. No tópico II.2 são apresentados conceitos sobre
as argilas lateríticas, e a forma de ocorrência deste
material no território brasileiro.
No tópico 1.2 são apresentados e discutidos
os conceitos de “estrutura”, “grau de colapsividade” e
critérios de quantificação do colapso nas argilas
lateríticas, típicas de regiões tropicais. Especificamente
no tópico sobre estruturas são apresentados os
conceitos de “tixotropia” e “sensibilidade” das argilas,
segundo Vargas (1977). No item sobre “grau de
colapsividade” são apresentadas observações e
conclusões sobre o tema de vários pesquisadores como
Sousa Pinto (1995), Ferreira e Lacerda (1993). Neste
tópico ainda são mencionadas regiões do Brasil onde
foram identificados solos colapsíveis incluindo-se o
local do presente estudo. Agnelli e Albiero (1997), estes
autores apresentaram importantes conclusões
relacionadas ao pH do solo e sua influência no colapso.
Casos práticos são apresentados e discutidos por
Santos et al (1998), sobre o efeito do colapso em
fundações.
No tópico 1.3 são apresentados vários critérios
para quantificação da colapsividade dos solos. Alguns
destes métodos são fundamentados nas propriedades
físicas do solo, evidenciadas a partir dos Limites de
Atterberg. Pode-se citar como exemplo os critérios de
Denison, Priklonskij e Resnik, relatados por Spósito
(1993). O método proposto por Handy e Saber,
também relatados por este autor basea-se
exclusivamente no teor de finos do material.
No tópico 1.4 são apresentados conceitos e
resultados de ensaios de laboratório relativos à
caracterização física da argila laterítica de Alfenas.
Os resultados obtidos estão resumidos na
Carta de Casagrande, apresentada no final do tópico
* Trabalho apresentado a SME (Sociedade Mineira de Engenheiros).
** Professor UNIFENAS. C.P. 23 , CEP 37130-000, Alfenas-MG
*** Acadêmicos do curso de Engenharia Civil UNIFENAS
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
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É. P. FREIRE et al.
1.4.1 E finalmente no item 1.4.2 conceitos sobre
“deformabilidade”, apresentados por Vargas, são
discutidos.
No tópico 1.5 são apresentados, os resultados
dos ensaios de laboratório realizados e na conclusão
do presente trabalho são discutidos os resultados dos
ensaios de colapso da argila de Alfenas, e o resultado
da atuação deste fenômeno em edificações locais.
1.1. SOLO: TIPOS E PROCESSOS DE
FORMAÇÃO
O solo é definido pela Engenharia Civil como
todo material da crosta terrestre que não oferece
resistência intransponível à escavação mecânica e que
perde totalmente sua resistência, quando em contato
prolongado com a água. Tem sua origem imediata ou
remota na decomposição das rochas pela ação das
intempéries (Vargas, 1977), fato que já lhe confere
uma primeira possibilidade de classificação: “Solo
Residual” como sendo aquele que permanece no local
da rocha matriz e “Solo Transportado” para aquele
que após a desagregação das rochas é levado por algum
agente (água, vento ou gravidade) para outros locais.
Esta classificação geral implica em uma série de
propriedades físicas e de comportamento que podem
ser previstas para o material a partir deste processo
de formação.
A análise geotécnica de obras de engenharia
portanto, sob o prisma da Mecânica dos Solos, deve
sempre se apoiar neste processo dinâmico do relevo e
procurar resgatar a história geológica do solo antes
de qualquer projeto. Especificamente sobre este
processo dinâmico, Freire (1995) sintetiza informações
de vários pesquisadores do tema e ressalta: “ o relevo
e seu processo de transformação tem sido abordado
com destaque pelas várias disciplinas das Ciências
Naturais. A Geografia Física através da
Geomorfologia, a Ecologia e principalmente a
Geologia, têm demonstrado a importância de tal
consideração. A Geomorfologia faz uma abordagem
ampla desta dinâmica ao considerar a atuação do relevo
como suporte das interações naturais e sociais. Destaca
o antagonismo entre as forças endógenas e exógenas
sendo os trabalhos gerados entre tais forças, produtos
em permanente transformação, dada a constante ação
e reação entre matéria e energia, interagindo através
dos diferentes componentes da natureza. A tese
ecológica do Desenvolvimento Sustentável, em um de
seus grupos de ações previstas, refere-se aos esforços
do desenvolvimento científico e tecnológico voltados
a compatibilizar as atividades humanas com a
dinâmica do meio físico. Também num contexto
ambientalista, Santos et al. (1998) comentam as
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
intensas e dinâmicas transformações internas e externas
do planeta, forjadas pelo movimento de seu calor
interno e pela transformação da energia solar em
trabalho mecânico, através principalmente da
movimentação das águas superficiais e subsuperficiais.
Acrescenta ainda que a Geotecnia, sendo uma interface
entre a geologia e a engenharia civil, como ciência
natural e tecnológica, tem em seu material de trabalho
e suas características gerais a manifestação destas
constantes transformações do relevo”.
Freire (1995) comenta também em seu
trabalho que várias abordagens têm sido feitas pela
comunidade geotécnica sobre a consideração deste
aspecto. O Instituto Tecnológico do Estado de São
Paulo (IPT) ressalta ser a superfície do planeta o
resultado entre as chamadas forças internas – que
atuam no sentido de elevar a superfície da terra – e as
externas, que tendem a arrasar estas elevações. Para
o entendimento desta dinâmica natural Freire ressalta
ser fundamental a consideração dos processos de
formação, que estão geralmente associados a
movimentos orogenéticos ou decorrentes da
epirogênese, e dos processos de erosão. O autor
acrescenta os comentários de Wolle sobre a atuação
antagônica da natureza: “ de um lado o diastrofismo,
através de dobramentos e flexuras ou através de
tectônica rígida, falhamentos e basculamentos, cria os
relevos acidentados, a elevação dos terrenos de que
resultam serras e montanhas e os afundamentos que
dão origem a vales, planícies, lagos e mares. Por outro
lado ocorre a ação dos processos erosivos, através de
seus agentes principais, que são a água e o vento, sob
a condicionante básica da gravidade, procurando
transportar para cotas mais baixas o material presente
em maiores altitudes, numa permanente tendência a
peneplanização”.
A partir destas considerações iniciais sobre o
processo de formação dos solos de uma forma geral e
sua relação com a dinâmica do relevo, o presente
trabalho pretende-se ater especificamente sobre os
solos denominados de “formação pedogenética”
(lateríticos), ou seja, aqueles que adquiriram
características próprias, em função da atuação das
condições climáticas, após e independentemente de sua
condição de “residual” ou “transportado”.
O tópico 1.2 abordará especificamente sobre
as características das argilas lateríticas, também
conhecidas como “solos tropicais”, objeto principal
do presente trabalho.
1.2. ARGILAS
Aglomerado de argilo minerais e de outros
elementos tais como quartzo, feldspato e mica, e ainda
certo teor de impurezas, tais como óxidos de ferro e
ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE ALFENAS
matéria orgânica. Quanto a influência dos processos
geológicos e da composição dos solos no seu
comportamento, a composição mineralógica pode ser
um dado valioso para prever ou resolver alguns
problemas poucos usuais na engenharia de solos.
Entretanto, sozinha é insuficiente para explicar o
comportamento dos solos, havendo a necessidade da
consideração de outros fatores: arranjo das partículas,
origem geológica, tamanho e forma das partículas,
características do fluido dos poros e dos íons
adsorvidos, e finalmente da natureza complexa das
características mineralógicas dos solos naturais
(Massad, 1996).
Com relação ao processo de formação, como
foi comentado no item anterior, todo solo tem sua
origem imediata ou remota na decomposição das
rochas pela ação das intempéries. Concomitantemente
com a fragmentação pela expansão e contração térmica
a rocha sofre oxidação e ataque de águas aciduladas
por ácidos orgânicos. A argila é formada através da
decomposição dos feldspatos e mica , pela água
acidulada.
O termo argila não pode ter em mecânica dos
solos o significado de rocha que tem em geologia, pois
se referirá sempre a um solo. (Vargas, 1977).
A primeira característica que diferencia o solo
é o tamanho das partículas que os compõe. Existem
grãos de areia com dimensões de 1 a 2 mm e existem
partículas de argila com espessuras da ordem de 10
angstrons (0,000001 mm). Há porém situações de
grãos de areia envoltos por grande quantidade de
partículas argilosas finíssimas ficando com o mesmo
aspecto de uma aglomeração formada exclusivamente
de partículas argilosas. Quando secas as duas
formações (areia/argila) são dificilmente diferenciadas,
quando úmidas, entretanto a aglomeração de partículas
argilosas, se transforma em uma pasta fina enquanto
a partícula arenosa revestida é facilmente reconhecida
pelo tato. (Sousa Pinto, 1998).
Granulometricamente os solos são
classificados em quatro tipos básicos (pedregulho,
areia, silte e argila), a partir do diâmetro médio dos
grãos, conforme especificado em Vargas (1977),
apresentado a seguir:
Pedregulho – diâmetro médio > 2 mm
Areia – 0,02 mm < diâmetro médio ≤ 2 mm
Silte – 0,002 mm < diâmetro médio < 0,02 mm
Argila (micro cristais) – diâmetro médio < 0,002 mm
( 2µ )
1.3. ARGILAS LATERÍTICAS
Grandes áreas do território brasileiro, assim
como de muitos outros países tropicais, estão cobertas
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de um manto de solo com características pedogenéticas,
ou seja, estruturados a partir da laterização: fenômeno
característico de regiões de clima tropical e
intertropical (quente e úmido), condicionado pela
lixiviação de bases e sílica produzidos por hidrólise,
acumulação de sesquióxidos de ferro e alumínio e
produção de argilo minerais do grupo caulinítico. A
denominação de lateríticos se incorporou na
terminologia dos engenheiros, embora não seja mais
usada nas classificações pedológicas que atualmente
utilizam o termo Latossolo (EMBRAPA, 1999). Os
solos lateríticos têm sua fração argila constituída
predominantemente de minerais cauliníticos e
apresentam elevada concentração de ferro e alumínio
na forma de óxidos, hidróxidos e oxihidróxidos donde
sua peculiar coloração avermelhada. Estes sais se
encontram, geralmente, recobrindo agregações de
partículas argilosas.
Os solos lateríticos apresentam-se, na
natureza, geralmente não saturados, com índice de
vazios elevado, e consequentemente pequena
capacidade de suporte, porém podendo ser
reestruturado a partir de compactação. Por isto são
muito empregados em pavimentação. Após
compactado, apresenta contração se o teor de umidade
diminuir, mas não apresenta expansão na presença de
água (Sousa Pinto, 1998).
1.4. ESTRUTURA E COMPORTAMENTO DOS
SOLOS
“ Chama-se estrutura de um solo o arranjo ou
configuração das partículas entre si” (Vargas, 1977).
Dentre os fatores que proporciona o arranjo estrutural
de um solo destacam-se:
tamanho das partículas; a mineralogia; e o arranjo
físico (Feitosa, 1993).
Especificamente sobre a macroestrutura dos
solos de evolução pedogenética Vargas (1977) salienta
que esta poderia ser descrita como se faz na pedologia
a descrição das estruturas do solo para agricultura.
Destaca ser a estrutura dos solos porosos (lateríticos)
colapsível, ou seja, destroi-se pela saturação com
conseqüente diminuição de vazios, mesmo que sobre
ele não esteja atuando pressão externa alguma.
O estudo da estrutura do solo considera
inicialmente o processo de formação: “solos
sedimentados em água”, “residuais e evoluídos”, e por
último os “Loess” (transportados pelo vento).
Seqüencialmente parte-se para a investigação da
“Sensibilidade” definida como propriedade das argilas
de perder resistência com o amolgamento, e da
“Tixotropia” que descreve o reestabelecimento da
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
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É. P. FREIRE et al.
resistência num solo amolgado. Skempton e Nortey
apresentaram dados sobre esta recuperação de
resistência em um trabalho sobre sensitividade das
argilas. Segundo estes autores “ a recuperação de
resistência raramente atinge 100 % do valor primitivo,
pois o remolgamento diminui as distâncias entre as
partículas, desequilibrando o campo atrativo entre elas
levando a um estado que não é estável. Quando o solo
é deixado em repouso ou sobre ele atuam pressões de
adensamento ou ainda quando trocam-se as condições
coloidais do meio, a distância entre as partículas
tendem a um nível de energia de repouso que será maior
que o anterior “(Vargas, 1977).
1.4.1. GRAU DE COLAPSIVIDADE
Existem solos que apresentam comportamento
característico sob determinadas condições e, dentre
eles, destaca-se o solo colapsível. Esse tipo de solo,
ao ser inundado e estando sob a ação de uma
sobrecarga, sofre uma brusca e significativa redução
de volume. Portanto, são caracterizados por
apresentarem estruturas instáveis, não saturadas,
porosas e com partículas ligadas por pontes de argilas,
colóides, óxidos de ferro, etc; que quando submetidos
ou não a um aumento de tensão seguido de acréscimo
de umidade sofrem um rearranjo estrutural com a
conseqüente redução de volume (Guimarães Neto e
Ferreira, 1998). Estes autores apresentam em seu
trabalho relação entre Tensão Vertical de Consolidação
e Índice de Vazios, na qual o colapso está nitidamente
evidenciado (Figura 1).
Figura 1. Relação entre Tensão Vertical de
Consolidação e Índice de Vazios (Guimarães
Neto e Ferreira, 1998).
Um solo colapsível apresenta, em sua condição
natural, elevada porosidade e baixo teor de umidade.
Essa estrutura porosa geralmente se associa à presença
de agentes cimentantes, que podem ser óxidos ou
hidróxidos de ferro e de alumínio e carbonatos. Essa
cimentação, aliada a uma sucção suficientemente
elevada, confere ao solo uma resistência aparente ou
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
temporária, que pode ser destruída com a inundação ,
levando o solo a um colapso estrutural. Sousa Pinto
(1998) também apresenta uma definição para Solos
Colapsíveis destacando que são solos não saturados
que apresentam uma rápida e considerável redução de
volume quando submetidos a um aumento brusco de
umidade, sem que varie a tensão total a que estão
submetidos. São vários os fatores que influenciam no
comportamento de colapso dos solos devido à
inundação: estado de tensão, teor de umidade, peso
específico aparente seco, teor de finos, plasticidade,
etc. Obviamente os maiores valores dos potenciais de
colapso estão associados a menores graus de
compactação e maiores desvios do teor de umidade
em relação à umidade ótima.
Diversos problemas têm sido observados em
edificações construídas em solos colapsíveis, quando
não são identificadas na fase de projeto. Edificações
de obras de engenharia nestes solos podem sofrer
diversos danos: trincas, fissuras, rupturas de casas,
edifícios, reservatórios e canais de irrigação,
depressões em pavimentos rodoviários e formação de
superfície de escorregamento de taludes.
Valores altos ou baixos do SPT (Standard Penetration
Test) não indicam se o solo é ou não potencialmente
colapsível. Valores altos do SPT em solos colapsíveis
estão associados à baixa umidade (w<5%) ou altas
sucções. Valores do potencial de colapso medidos
através de ensaios de campo são inferiores aos de
laboratório em cerca de 20%, conforme Ferreira e
Amorim (1998).
Os solos colapsíveis são localizados geralmente nos
horizontes mais superficiais e sofrem profundo
intemperismo químico (processo de alitização e
fenalitização). O processo de alitização que sofrem os
solos é responsável pela forte agregação das partículas
de solo com a conseqüente geração de grandes vazios
e o elevado potencial de colapso.
Tem-se então que: os solos colapsíveis são
parcialmente saturados e que a tensão de sucção
representa uma tensão efetiva a que o solo está
submetido. Quando saturado, os meniscos capilares
se desfazem, e a tensão efetiva diminui. Tal fato, se
interpretado sob a luz do princípio das tensões efetivas,
deveria provocar um aumento de volume e não uma
redução. Ocorre, entretanto, que a redução da tensão
de sucção provoca um enfraquecimento das ligações
entre as partículas e pequenos escorregamentos entre
elas, gerando uma macrocompressão (Sousa
Pinto,1996).
Ferreira e Lacerda (1993) também descrevem
sobre solos colapsíveis salientando que solos não
saturados podem ser encontrados em diversas
condições na natureza: em argilas expansivas de alta
plasticidade, em solos residuais saprolíticos e
ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE ALFENAS
lateríticos, em depósitos naturais de solos aluviais,
coluviais e eólicos. Alguns destes solos têm seus
comportamentos típicos relacionados a instabilidade
volumétrica: expansão e contração nas argilas
expansivas; e colapso em solos de estruturas porosas,
metaestáveis, com grãos de areias interligados por
argilas ou agentes cimentantes. Em todos os casos, o
histórico de tensões e a variação de umidade impõe
uma avaliação para análise de seu comportamento.
A ocorrência dos solos naturais colapsíveis
no Brasil é geralmente verificada em solos aluviais,
coluviais e residuais que têm sofrido lixiviação dos
horizontes mais superficiais, em regiões onde se
alteram estações secas e de precipitações intensas e
em solos de regiões semi-áridas com baixo teor de
umidade.
A identificação de solos colapsíveis no Brasil
está normalmente associada a obras de engenharia que
envolvem grandes áreas. No Brasil já foram
identificadas algumas ocorrências de solos colapsíveis
em: Manaus (AM), Parnaíba (PI), Gravatá (PE),
Carnaíba (PE), Petrolândia (PE), Santa Maria da Boa
Vista (PE), Petrolina (PE), Rodelas (BA), Bom Jesus
da Lapa (BA), Manga (MG), Brasília (DF), Três
Marias (MG), Itumbiara (MG), Uberlândia (MG), Ilha
Solteira e Pereira Barreto (SP), Rio Sarapuí (SP), São
Carlos (SP), Rio Mogi-Guaçu (SP), São José dos
Campos (SP), São Paulo (SP), Sumaré (SP), Paulínea
(SP), Itapetininga (SP), Bauru (SP), Canoa (SP),
Carazinha (RS) e especificamente Alfenas (MG);
conforme resultados apresentados na conclusão do
presente trabalho. Tem sido verificado que o
comportamento colapsível dos solos está intimamente
relacionado com sua estrutura, conseqüência do
processo de sua formação. Colapso também ocorre
em solos compactados, sendo reduzido na medida em
que a umidade de compactação é maior ou o grau de
compactação é elevado.
O fenômeno da colapsividade é geralmente
estudado em ensaios de compressão edométrica, por
representarem adequadamente a situação do terreno
abaixo de elementos de fundação superficial. O
Colapso depende do nível de tensão aplicado no solo:
é praticamente nulo para tensão baixa, atinge um valor
máximo e não ocorre para valores de pressão acima
de certo valor. Nos ensaios edométricos o colapso se
dá em microescala, pois o confinamento impede a
ruptura generalizada; e são estas as responsáveis pela
colapsividade dos solos. (Sousa Pinto, 1998). A
Figura 2 apresenta resultados de ensaios edométricos
realizados por Ferreira e Amorim (1998),
nos quais estão demonstrados uma avaliação
comparativa do grau de colapsividade para os solos
das cidades de Petrolina, Santa Maria da Boa Vista
e Petrolândia - PE.
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Figura 2. Resultados de ensaios edométricos
realizados por Ferreira e Amorim (1998).
Alguns autores têm estudado a influência da
composição química (e do pH) do líquido inundante
no comportamento dos solos colapsíveis. Tem sido
constatado, regra geral, que com o aumento do pH do
líquido inundante, acentua-se o valor do colapso do
solo, o que parece explicar a magnitude e a velocidade
de recalque que sofrem as construções executadas
sobre solos colapsíveis, quando estes são encharcados
com água de esgoto doméstico, que, normalmente,
possui grande quantidade de sabões e detergentes,
substâncias essas de elevada alcalinidade.
Contudo, nem sempre um líquido de pH
elevado provoca colapso no solo, tendo-se como
exemplo, a constatação feita por Cruz et al. (1994)
citado por Agnelli e Albiero (1997), que ao se usar
uma solução de hidróxido de cálcio, com pH 13, o
solo, ao invés de sofrer colapso, apresenta expansão,
o que aponta para a importância da composição
química do líquido inundante, e, nem sempre, para o
valor do pH. O ácido sulfúrico, formado a partir das
águas servidas, agride o óxido de ferro, que é um dos
principais cimentos dos solos porosos tropicais
(lateríticos).
A literatura técnica especializada tem
apresentado trabalhos de pesquisa relacionados a Solos
Colapsíveis. A seguir são apresentadas algumas
conclusões obtidas nestas investigações (Agnelli e
Albiero, 1997):
- Determinou-se os coeficientes de colapso
mediante os critérios baseados em índices físicos e
limites de Atterberg e, também, de acordo com o
critério proposto por Vargas (1977). Com os resultados
obtidos nas provas de carga, pôde-se avaliar a
intensidade do recalque sofrido pela placa, quando o
solo é inundado com líquidos de diferentes composições
químicas.
- Constatou-se, através da M.E.V.
(Microscopia Eletrônica de Varredura), que o arranjo
é de partículas grandes, subangulares, em alguns casos,
cimentadas por partículas da fração argila. Existem,
também, os grumos de areia-argila-silte, formando os
“torrões”.
- Observou-se que os agregados, na sua
maioria, são formados por encaixe (empacotamento)
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
86
É. P. FREIRE et al.
de grãos de diversos tamanhos e, em alguns casos,
constituídos por cimentações, através dos
sesquióxidos.
- Os resultados dos ensaios de adensamento
são úteis, para avaliar a velocidade e a magnitude do
colapso, considerando-se os diferentes líquidos
inundantes empregados.
- Observa-se que a solução de sabão em pó
(presença de hidróxido de sódio), é mais agressiva que
a água potável. Esse resultado está coerente com o
que foi constatado em ensaios de adensamento.
- Em solos que apresenta uma estrutura
bastante porosa, formada por grãos de quartzo,
interligados por contrafortes de silte e micronódulos
de argila, em estado floculado, cujos contatos são
reforçados por uma cimentação de óxidos de ferro e
alumínio, o estado floculado pode ser explicado pela
baixa presença de sódio e elevada acidez do solo.
Quando um fluído rico em sódio penetra nesse solo,
provoca uma defloculação e um rearranjo das
partículas coloidais, gerando o colapso.
- O caráter colapsível é evidenciado, mediante
um dos critérios adotados. Contudo, o colapso depende
da composição química (e do pH) do líquido inundante.
O líquido, a base de ácido muriático, de pH 3, não
causa colapso em alguns solos, segundo o critério de
Vargas(1977).
- Com base em provas de carga, constata-se
que o colapso diminui com a profundidade e a
velocidade média de colapso, empregando-se a solução
de água e sabão em pó, de pH 11, é da ordem de 2
mm/h, enquanto que, com o emprego de água potável,
de pH 7, essa velocidade diminui para 1 mm/h. A
diferença explica o efeito devastador que vazamentos
de esgotos doméstico têm causado em solo.
Santos et al. (1998 ) apresenta um caso prático
de colapso em obra e faz alguns comentários sobre o
assunto: “para projeto de fundação é indispensável
que se tenha informações quanto do solo do local.
Existe sempre a possibilidade de se encontrar um
terreno com comportamento especial como, por
exemplo, um solo colapsível, que nem sempre são
detectados pelas investigações geotécnicas usuais para
fins de fundação (SPT). O comportamento destes solos
podem ser determinados através de ensaios específicos
de mecânica dos solos, como o ensaio de adensamento”
(edométrico).
Acrescenta então que “nos solos colapsíveis,
o fenômeno ocorre pela destruição de uma estrutura
muito instável do arranjo das partículas, o que provoca
uma movimentação total das mesmas. Essas
modificações que são físico-químicas são resultantes
da adição de água ou não; podendo alterar sua estrutura
somente devido ao carregamento. Analisando-se a
diminuição do volume de um solo colapsível, ver-se-á
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
que ele se dá num intervalo muito curto de tempo e
essa movimentação é da ordem de 10%. Em função
de condições hidrológicas ou hidrogeológicas
específicas, como concentração de fluxo de água,
inundações, flutuações do nível do lençol freático, ou
mesmo vazamentos de esgotos e adutoras, o fenômeno
da colapsividade pode se manifestar, tendo como
conseqüência o rompimento de tubulões, recalques e
várias em estruturas de concreto”.
A Figura 3 seguinte mostra um caso típico de
colapso de solo sob adutora, observado em tubulões
instalados em sedimentos colapsíveis. No caso de
linhas de transmissão, a situação é mais crítica, pois
ocorre inclinação de torres, com ruptura de cabos
elétricos e das estruturas de concreto das fundações.
S OLO
COLAPS ÍVEL
ATERRO
N.A.
1 - FAS E PÓS -CONS TRUÇÃO - S ITUAÇÃO PRÉ-COLAPS O
N.A.
Figura 3. Caso típico de colapso de solo sob adutora
(ABMS/ABGE, São Paulo)
1.4.2. CRITÉRIOS DE QUANTIFICAÇÃO DA
COLAPSIVIDADE
Antes de iniciar a discussão dos critérios de
colapsividade e considerando todas as informações
sobre o fenômeno apresentado anteriormente, pode-se
concluir que:
- um solo potencialmente colapsível é aquele
que apresenta um alto índice de vazios e umidade
natural menor que a necessária para a saturação;
- a forma com que se dá o colapso depende
das características inerentes do solo e do modo de
variação da umidade natural e da carga aplicada;
um solo colapsível se caracteriza pela estrutura macroporosa, meta-estável, com partículas de grandes
dimensões, mantidas em sua posição pela presença de
algum vínculo;
- quanto a sua formação pode-se citar os
processos eólicos, residual e transportado pela água.
Comum em regiões tropicais, áridas e semi-áridas;
- especialmente sobre o processo de colapso
ainda pose-se mencionar que sua ocorrência está
relacionada à diminuição da resistência ao
cisalhamento nos vínculos, podendo ser desencadeado
ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE ALFENAS
por umedecimento do local e também em função de
um nível de tensões suficientes para provocar a quebra
dos vínculos entre os grãos com um rearranjo estrutural
sem aumento da umidade natural do solo.
Quanto aos critérios, vários pesquisadores têm
estudado o fenômeno e consequentemente proposto
modelos para identificar e quantificar esta
característica de alguns solos tropicais, desde os
meados dos anos cinqüenta. Denison (1951) propõe
ser o grau de colapsividade (K) a relação entre o índice
de vazios do solo amolgado correspondente ao limite
de liquidez e o índice de vazios natural. A partir desta
relação tem-se que para K maior que 0,5 e menor que
0,75 o solo seria altamente colapsível. Para K maior
que 1 seria não colapsível . Priklonskij (1952) defini
como grau de colapsividade (K D) a relação da
diferença do limite de liquidez e a umidade natural, e
o índice de plasticidade (diferença entre o limite de
liquidez e o limite de plasticidade): KD = (LL – W0 /
IP) sendo que para as situações de KD < 0 o solo seria
altamente colapsível; para KD > 0,5 não colapsível e
quando KD for maior que 1 o solo seria expansivo
(Spósito, 1993).
Um outro critério também citado por Spósito
(1993) refere-se ao “Código de Obras da U.R.S.S.”
mencionado por Resnik (1989), no qual o solo
é identificado como colapsível quando o grau
de saturação for menor que 80 % e o coeficiente
CI = (e0 – e1 / 1 + e0 ) for menor que :
0,10 para 1 % < IP < 10 %;
0,17 para 10 % < IP < 14 %; e
0,24 para 14 % < IP < 24 %.
E um último critério ainda citado pelo autor
identifica a probalidade de colapso baseado no teor de
finos (% < 0,002 mm) do solo. Segundo estes autores
os solos com (% < 0,002 mm ) < 16 % apresentam
alta probalidade de colapso; com (% < 0,002 mm)
variando de 16 a 24% seria provavelmente colapsível;
com (% < 0,002 mm) de 24 a 32 % teria a
probabilidade menor que 50% para apresentar
colapso; e finalmente aqueles com (% < 0,002 mm) >
32% seriam geralmente não colapsíveis. Este critério
não se aplica para os solos de Alfenas (MG).
A utilização de qualquer um dos métodos
apresentados e os referidos resultados obtidos não
devem ser aceitos como conclusivos na identificação
e quantificação da colapsividade, devido as
circunstâncias regionais específicas em que foram
estudados. Um estudo preciso do assunto deve utilizar
vários critérios simultaneamente e, quando possível,
executar um ensaio edométrico com inundação em
amostra indeformada, pois assim a verificação estará
simulando as condições reais de utilização do solo.
Esta última consideração norteou o presente trabalho.
1.5.CARACTERIZAÇÃO DA
LATERÍTICA DE ALFENAS
87
ARGILA
1.5.1. PROPRIEDADES FÍSICAS DO SOLO
Na mecânica dos solos as propriedades
profundamente estudadas, cujos resultados são
importantes e aproveitados pelos engenheiros são
obtidos através de propriedades físicas mais imediatas
tais como: sua granulometria – ou textura, sua
plasticidade e a atividade da fração fina do solo.
1.5.1.1. TEXTURA, GRANULOMETRIA,
TAMANHO E FORMA DOS GRÃOS
Conforme Vargas (1977), os grãos dos solos
acham-se reunidos de modo a se tocarem, deixando
espaços vazios: os poros do solo. Esses poros são
preenchidos por água ou ar. Há portanto três fases
constituintes dos solos: sólida, líquida e gasosa. A
granulometria é a medida da “textura”, parte sólida
relativa ao tamanho dos grãos do solo. A disposição
dos grãos em relação a água intersticial e ao ar,
constituem a estrutura do solo.
No estudo da textura dos solos, o método usado para
a determinação da granulometria das areias e dos
pedregulhos é o simples peneiramento. Nas malhas
das peneiras ficam retidos porções de solo, porções
essas cujos grãos tem diâmetro maior que as malhas
da peneira onde foram retidas, e menor que das peneiras
que passaram.
Para argilas e siltes, que são solos mais finos,
fica impraticável o peneiramento, pois a abertura das
malhas deveriam ser excessivamente pequena, difícil
de ser obtida industrialmente e preservada com o uso.
Assim, para grãos menores com cerca de 0,075 mm
(peneira 200), emprega-se o método de sedimentação.
Este método consiste em colocar uma certa quantidade
de solo em um frasco de água com um antifloculante,
para se obter uma suspensão fina. Sob a ação da
gravidade, as partículas irão sedimentar. Segundo a
Lei de Stokes, e admitindo-se que as partículas são
esféricas, a velocidade num dado espaço Z num tempo
T será dada pela fórmula:
V = Z / T = [ ( δ - γ0 ) / 1800 η ] D2
D2 = (V 1800 η) / ( δ - γ0 ) onde:
δ é a massa específica do grão do solo, γ0 a da água,
η é a viscosidade do líquido e D o diâmetro da esfera,
cuja a massa é equivalente à da partícula em queda.
Quanto aos grãos que estão em suspensão no líquido
(suspensão fina), a sua densidade é determinada através
de um densímetro calibrado, a sua leitura num
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
88
É. P. FREIRE et al.
determinado tempo, permitirá o cálculo da
porcentagem dos grãos em suspensão (onde os grãos
tem diâmetro inferior aos grãos sedimentados ).
Arthur Casagrande pesquisou exaustivamente esse
ensaios e os resultados dos seus estudos continuam
sendo a base do ensaio de granulometria. Através de
um gráfico semilogarítmico, onde as abcissas
representam o diâmetro dos grãos e as ordenadas as
porcentagens em peso dos grãos de diâmetro inferiores
aos da abcissas, tem-se a melhor maneira de
representar os resultados da análise granulométrica
(Vargas, 1977).
1.5.1.2 - PLASTICIDADE E LIMITES DE
ATTERBERG
Os solos arenosos são facilmente
identificáveis, por meio das curvas granulométricas,
mas já nos solos finos (diâmetro inferior a 0,1 mm)
isso não acontece. Conclui-se que o conhecimento da
curva granulométrica de tais solos não é suficiente para
prever seu comportamento na prática, ou seja, podemse encontrar siltes, argilas e solos argilosos com a
mesma curva granulométrica, mas com
comportamentos diferentes. Isto se dá porque nos solos
finos, além do tamanho a própria forma dos grãos irá
intervir. Nos pedregulhos e areias os grãos são
arredondados e angulosos; sempre de forma
aproximadamente esférica. Já nas argilas os grãos
sendo, de minerais cuja estrutura cristalina é complexa,
tem forma lamelar, escamosa, filiforme, ou outras
ainda mais complexas. Esses grãos, tendo a espessura
média muito pequena, envolvidos pela água intersticial,
isto é, com a relação entre a área superficial das
partículas e o seu volume, muito grande, os grãos estão
ligados entre si e a água por forças capilares que lhes
emprestarão uma resistência intríseca, a qual é
chamada coesão. Por isto os solos finos são chamados
coesivos. Sendo a forma dos grãos lamelares, eles
poderão deslizar uns sobre os outros quando o solo é
deformado por uma força externa; sendo que esta
resistência dependerá do teor de umidade do solo
(Vargas. 1977).
Defini-se portanto como plasticidade, a
propriedade de certos sólidos tomar outras formas sem
variar o seu volume. A plasticidade de uma argila existe
devido a forma lamelar de seus grãos, e depende do
seu teor de umidade. As formas dos grãos possibilitam
que as partículas deslizem umas sobre as outras desde
que a água intersticial poça funcionar como um
material lubrificante. Ésta é uma propriedade das
argilas. Uma argila extremamente seca não é moldável
plasticamente; se entretanto, adicionarmos
progressivamente pequenas quantidades de água esta
vai se tornando cada vez mais maleável .
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
A partir de um certo teor de umidade h1, o
material torna-se plástico (sujeito a moldagem). Se
continua-se a adicionar água, este vai se tornando cada
vez mais mole, até que ao atingir um teor de umidade
h2, passará a atuar como um líquido viscoso. Portanto
na representação unifilar dos valores de umidade, temse um material plástico entre os valores limites h1 e
h2. Esses limites foram denominados por Atterberg,
h1= limite de plasticidade (LL ou WL) e h2= limite de
liquidez (LP ou WP). Com umidade superior a h2 o
solo fino está no estado líquido. Abaixo de h1 o solo
está no estado semi-sólido. Entre h1 e h2 o solo está
no estado plástico. A Figura 4 apresenta em um
diagrama unifilar a variação da umidade e a indicação
dos parâmetros LL e LP, conforme discutido
anteriormente (Vargas, 1977).
FIGURA 4. Diagrama unifilar a variação da
umidade. (Vargas, 1977).
Observa-se que as propriedades mecânicas dos
solos vão depender da granulometria, da forma dos
grãos, do teor de umidade e do arranjo desses próprios
grãos.
Para a determinação do Limite de Liquidez,
Atterberg baseou-se no fato de que o material é fluido
e toma forma do recipiente que o contém. Se for aberto
uma ranhura no centro da massa de solo, esta se
fechara com a aplicação de choques na base do
recipiente. Se estiver mais próximo do estado sólido
necessitará de um número maior de golpes. E se,
próximo de um líquido viscoso fechar-se-á a ranhura
imediatamente. Arthur Casagrande padronizou esse
ensaio, mecanizando o primitivo processo de Atterberg.
O mecanismo é provido de um recipiente de cobre, em
concha, ligado a um suporte com manivela a qual faz
cair a cápsula sobre uma base padronizada. Com um
gabarito executa-se uma ranhura na massa do solo
colocada na concha. Girando-se a manivela o
excêntrico fará com que o recipiente se eleve a uma
altura constante igual a um centímetro e, em seguida,
caia chocando-se contra a base ( Figura 4 ). O esforço
do choque da concha na base corresponde a um esforço
de cisalhamento que leva o solo lateral a move-se,
fechando a ranhura . Anota-se o número de golpes
necessário para fechar a ranhura e coloca-se em um
gráfico relacionando-os com as umidade das amostras.
Colocam-se esses valores em gráfico semilogarítmico
verificando-se que os pontos correspondentes dispõese em linha reta. Convencionou-se que no ensaio de
89
ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE ALFENAS
Casagrande, a umidade correspondente a 25 golpes,
necessários para fechar a ranhura, é o Limite de
Liquidez. Para se obter esse valor determinam-se pelo
menos três pares de valores, número de golpes versus
umidade. Traçando-se o gráfico semilogarítmico,
determinar-se por interpolação, a umidade
correspondente a 25 golpes.
O Limite de Plasticidade foi determinado
originalmente por Atterberg. Modernamente o ensaio
foi padronizado especificando que a moldagem deva
ser feito por movimentos regulares de vai e vem dos
dedos da mão sobre uma placa de vidro fosco, colocada
em superfície horizontal. A quantidade de solo com
que se faz o ensaio deve ser tal que dê para moldar um
cilindro de 3 mm de diâmetro e, aproximadamente a
largura da mão. Ao rolar-se a amostra esta vai
progresssivamente perdendo umidade até chegar ao
ponto em que o cilindro, atingindo as dimensões acima
indicadas, começa a partir-se. Determina-se então, a
umidade da amostra e esta refere-se ao Limite de
Plasticidade.
Segundo Atterberg, a plasticidade de um solo
seria definida por um índice: Índice de Plasticidade,
igual a diferença entre os limites de liquidez e
plasticidade.
Arthur Casagrande fez um gráfico onde um
solo é definido por um ponto cujas coordenadas são
seus IP e LL. A região onde o ponto cai defini a
plasticidade do solo correspondente. O gráfico é
dividido então em 4 regiões pelas linhas A e B e
limitado pela linha U a qual é o limite superior, acima
do qual não ocorre valores de IP e LL. Se o ponto
definidor do solo cai acima da linha A, o solo é dito
muito plástico; abaixo, pouco plástico. A direita da
linha B é um solo muito compressivo e a esquerda,
pouco compressivo.
Com o conhecimento da granulometria e da
posição no gráfico de plasticidade do ponto.
Com o conhecimento da granulometria e da posição
no gráfico de plasticidade do ponto correspondente
aos IP e LL do solo, pode-se prever com certa
aproximação, todas as outras propriedades do solo e
portanto, classificá-lo convenientemente (Vargas,
1977).
Nesta pesquisa foram executados ensaios de
Limites de Atterberg utilizando-se amostra deformada
da argila laterítica de Alfenas. Os resultados podem
ser verificados na figura seguinte.
Observa-se a partir dos valores plotados na
Carta de Casagrande que o solo estudado apresenta
baixa plasticidade e alta compressibilidade, indicando
o potencial colapsível.
A Figura 6 anterior mostra a imagem de um
talude de corte no bairro de Campos Elísios na cidade
de Alfenas, onde estão evidenciadas as características
lateríticas do solo local.
CARTA DE CASAGRANDE
Vários pontos de Alfenas.
IP
50
Linha B
40
pouco compressível muito compressível
Linha A
30
20
muito plástico
10
pouco plástico
0
0
10
20
30
40
50
60
70
80
90
100
LL
Figura 5. Ensaios de Limites de Atterberg.
Figura 6. Talude de corte no bairro de Campos
Elísios
1.5.2. DEFORMABILIDADE
Conforme Vargas (1977) as deformações de
um solo são obtidas com a expulsão da água de seu
interior, o que demanda certo tempo em virtude da
baixa permeabilidade das argilas. O processo de
dissipação das pressões neutras e das deformações
correspondentes é caracterizado como o adensamento
dos solos.
Ainda conforme o autor, o entendimento do
processo de adensamento fica bastante facilitado pela
analogia à mecânica de Terzaghi. O solo pode ser
assemelhado a uma mola, cuja deformação é
proporcional às cargas nela atuante. O solo saturado
corresponde a uma mola dentro de um pistão cheio de
água, no êmbolo do qual existe um orifício de reduzida
dimensão.
Ao se aplicar uma carga sobre o pistão, no
instante seguinte a mola não terá se deformado, pois
ainda não teria ocorrido qualquer saída de água. Toda
a carga é suportada pela água. Estando em carga, a
água começa a sair pelo orifício. Num instante
qualquer, a quantidade de água expulsa terá provocado
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
90
É. P. FREIRE et al.
uma deformação na mola que corresponde a uma certa
carga. Neste instante, a carga total estará parcialmente
suportada pela água e parcialmente pelo solo. A água,
ainda em carga, continuará a sair do êmbolo, a mola
continuará a se comprimir, suportando cargas cada
vez maiores, até que toda a carga aplicada esteja
atuando sobre ela.
No anel de adensamento ou no campo, quando
não há deformação lateral, sucede algo semelhante.
Ao ser aplicado um acréscimo de pressão, a água nos
vazios suporta todo o carregamento. A pressão neutra
aumenta de um valor igual ao acréscimo de pressão
aplicada, enquanto a tensão efetiva não se altera.
Estando a água em carga superior à externa, passa a
ocorrer percolação, para as pedras porosas, no ensaio,
ou nas camadas drenantes, no subsolo. A saída de água
é acompanhada da deformação do solo, que se dá com
o aumento da tensão efetiva. Como na analogia
mecânica, o processo continua até que toda a pressão
aplicada tenha se tornado acréscimo de tensão efetiva.
Adensamento secundário é uma compressão
lenta que continua a ocorrer após o desenvolvimento
dos recalques previstos na teoria do adensamento.
Teoricamente as tensões neutras teriam se
dissipado. Na realidade, alguma pressão neutra
contínua presente, justificando a saída de água do
interior do solo.
Este fenômeno indica que pode ocorrer
deformação no solo mesmo sendo constante a tensão
efetiva, o que, implicitamente, contradiz o princípio
que considera a tensão efetiva a única responsável pelas
deformações estabelecidas por Terzaghi. Deformação
lenta ocorre em todos os materiais, mas nos solos ela
é mais notável em virtude das transmissões de forças
pelos contatos entre as partículas.
Parte das forças são transmitidas pelos
contactos entre minerais argila, que se dão pela água
adsorvida. Com o tempo alguns destes numerosíssimos
contactos se desfazem, descarregando as forças para
os contactos vizinhos, com pequenos deslocamentos.
O fenômeno de deformação das argilas
costuma ser dividido em duas fases, como se elas
fossem bem distintas: o adensamento primário, durante
o qual as pressões neutras se dissipam, e o adensamento
secundário, que ocorre sem pressão neutra, ou com
pressão neutra muito pequena, para justificar a saída
da água.
utilizou-se amostras indeformadas e prensa
convencional para ensaio de adensamento.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os ensaios realizados em laboratório
utilizando amostras indeformadas da argila laterítica
de Alfenas, demonstram ser este material colapsível
quando inundado e/ou submetido a um carregamento.
Tal constatação pode ser verificada nos gráficos dos
ensaios edométricos seguintes.
A Figura 7 demonstra que o colapso ocorreu
apenas com o carregamento, pois a inundação foi
aplicada após a deformação volumétrica específica de
aproximadamente 25%. No segundo ensaio (Figura
8) a amostra foi inundada quando a tensão aplicada
era de 25 kPa, e a partir de então, a amostra apresentou
redução brusca de volume, (colapso), atingindo um
valor final de deformação volumétrica semelhante ao
primeiro ensaio
ENSAIO EDOMÉTRICO
ARGILA LAT. VERMELHA DE ALFENAS.
0
Def. Vol.
Espec. 5
(%)
10
15
20
inundação
25
30
35
40
1
10
100
1000
carga (kPa)
Figura 7. Colapso pela carga.
ENSAIO EDOMÉTRICO
Argila Laterítica de Alfenas
0
Específ.
(%)
inundação
5
10
15
20
25
30
0.1
1
10
Carga (kPa)
100
Figura 8. Colapso com carregamento e inundação.
2. MATERIAL E MÉTODOS
Os trabalhos de investigação da argila
laterítica colapsível da cidade de Alfenas constaram
de ensaios edométricos, com inundação após
carregamento. Para a realização destes ensaios
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
Uma comparação dos dois ensaios (Figuras 7
e 8) podem ser observados na Figura 9, de onde podese concluir que argila laterítica de Alfenas apresenta
colapso para qualquer uma das situações:
carregamento e/ou inundação.
ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA LATERÍTICA DE ALFENAS
91
ENSAIO EDOMÉTRICO
Def. Vol.
Específ.
(%)
Argila Laterítica de Alfenas
0
5
inundação
10
15
inundação
20
25
30
0.1
1
10
100
Carga (kPa)
Figura 9. Comparação entre resultados de ensaios.
Nas Figuras 10, 11 e 12 estão demonstrados
o equipamento (prensa de adensamento) utilizado, e
seqüencialmente as imagens das amostras ao lado do
anel de confinamento, após ensaio.
Figura 10. Prensa de adensamento.
Figura 11. Amostra e anel de ensaio de
adensamento.
Figura 12. Amostra e anel de ensaio de
adensamento.
Os resultados obtidos justificam a ocorrência
de recalques excessivos em edificações na cidade de
Alfenas, conforme ilustram as Figuras 13, 14, 15 e
16.
Figura 13. Efeito de recalque excessivo em
fundação.
Figura 14. Efeito de recalque excessivo em
fundação.
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
92
É. P. FREIRE et al.
os dados apresentados confirmam que a observação
feita no início da pesquisa de que o ensaio edométrico
é o método mais adequado e que os critérios que têm
como base as características físicas do material
(Limites de Atterberg e Índice de Vazios) devem ser
aplicados conjuntamente e somente nas condições
específicas em que foram propostos, ou seja, em
materiais de regiões não tropicais.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
Figura 15. Efeito de recalque excessivo em
fundação.
AGNELLI, N. e ALBIERO, J.H. Aspectos Físicos,
Químicos e Mecânicos de um Solo Colapsível,
Inundado com Diferentes Líquidos. Solos e
Rochas. Revista Brasileira de Geotecnia. São
Paulo, v. 20, n 2, p. 16 , 1997
EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de
Solos. Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 1999.
412p.
FEITOSA, S.. Seminário de Geotecnia, UNB, 1993.
22p.
Figura 16. Efeito de recalque excessivo em
fundação.
FERREIRA, S. R. M. e LACERDA, W. A. Variação
de Volume em Solo Colapsível medidas através
de ensaios de laboratório e campo. Solos e
Rochas. Revista Brasileira de Geotecnia. v.16,
n 4, p. 8.
4. CONCLUSÃO
FERREIRA, S. R. M. e AMORIM, S. F. XI
Congresso Brasileiro de Mecânica dos Solos e
Engenharia Geotécnica. Volume 1, Brasília, DF,
1998. 680p.
O presente estudo possibilitou a confirmação
do fenômeno de colapso na argila laterítica de Alfenas,
através dos resultados experimentais de ensaios de
caracterização física e edométricos. A análise destes
resultados indica que o colapso pode ocorrer devido a
um carregamento do solo ou por processo de
inundação, ou ainda com a ocorrência das duas
situações simultaneamente.
A confirmação da colapsividade desta argila
permite ainda o entendimento dos recalques excessivos
verificados em edificações da cidade de Alfenas, e
sinaliza o rumo que as investigações devem tomar para
as soluções de engenharia mais adequadas.
Os resultados obtidos mostram ainda que os
objetivos da presente pesquisa foram atingidos, ou seja,
identificou-se experimentalmente o colapso do material
estudado, o que abre um novo campo de investigação
visando o sucesso da Engenharia Civil na região do
Sul de Minas.
Especificamente sobre os métodos para
identificação e quantificação do grau de colapsividade,
R. Un. Alfenas, Alfenas, 5:81-92, 1999
FREIRE, E. P. . Estabilidade de Taludes Naturais em
Solos nos Morros da Cidade de Santos.Brasília,
DF, 1995.108p. (Dissertação de Mestrado de
Geotecnia, UNB).
GUIMARÃES NETO, J. S. F. e FERREIRA, S. R.
M. XI Congresso Brasileiro de Mecânica dos
Solos e Engenharia Geotécnica. v. 1, Brasília, DF,
1998. 680p.
MASSAD, F. Notas de Apoio as Aulas. , São Paulo,
EPUSP. 1996. 400 p.
SANTOS, A. M. et al. Geologia de Engenharia. São
Paulo ABGE, 1998. 586p.
SOUSA PINTO, C. Fundações. Teoria e Prática. São
Paulo, PINI. 1996. 751p.
SPOSITO, T. J. Seminário de Geotecnia, UNB, 1993.
9p.
VARGAS, M. Introdução à Mecânica dos Solos. .
São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1977. 509p.
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ESTUDO DO GRAU DE COLAPSIVIDADE DA ARGILA