UNIMED-BH – COOPERATIVA DE TRABALHO MÉDICO LTDA
GRUPO DE AVALIAÇÃO DE TECNOLOGIAS EM SAÚDE - GATS
PARAFUSO DE INTERFERÊNCIA BIOABSORVÍVEL
08/2008
Belo Horizonte
Fevereiro 2008
Autoras:
Dra. Sandra de Oliveira Sapori Avelar
Dra. Christiane Guilherme Bretas
Dra. Izabel Cristina Alves Mendonça
Dra. Lélia Maria de Almeida Carvalho
Dra. Silvana Márcia Bruschi Kelles
Bibliotecária: Mariza Cristina Torres Talim
Instituições: Associação Brasileira de Medicina de Grupo – ABRAMGE
Associação dos Hospitais de Minas Gerais – AHMG
Associação Médica de Minas Gerais – AMMG
Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil – CASSI
Federação Minas
Federação Nacional das Cooperativas Médicas – FENCOM
Contato: [email protected]
RESUMO
A reconstrução do ligamento cruzado anterior, por via artroscópica, é um procedimento
ortopédico comum, em que se utiliza enxerto de tendão patelar ou de tendão semitendinoso
ou grácil. A fixação destes enxertos é feita com o uso de parafusos de interferência
metálicos ou bioabsorvíveis.
Os parafusos de interferência bioabsorvíveis foram introduzidos na década de 1990, tendo
como vantagem descrita em relação aos parafusos metálicos, a possibilidade de facilitar
uma eventual revisão cirúrgica, já que, uma vez absorvidos, dispensariam a etapa de
remoção do parafuso. Seriam mais adequados, também, nos procedimentos de
acompanhamento radiológico no pós-operatório, por não provocarem artefatos à
ressonância magnética. Além disto, poderiam representar menores riscos de laceração do
enxerto com a mesma capacidade de fixação.
O objetivo deste estudo é estabelecer, através de revisão da literatura, se os benefícios
esperados se confirmaram ao longo dos anos.
Foi realizada busca no Medline, via PubMed, de ensaios clínicos randomizados publicados
nos últimos cinco anos. Buscou-se, também, levantar séries de casos e relatos de casos,
com o objetivo de se conhecer possíveis efeitos adversos relacionados a esta técnica.
Foram encontrados três ensaios clínicos randomizados publicados nos últimos três anos,
com amostras pequenas, mas com resultados consistentes. Um ensaio clínico não
randomizado mostrou resultados semelhantes aos randomizados. Neste os autores
priorizaram a execução da técnica por cirurgiões com maior domínio da mesma em
detrimento à randomização, o que é metodologicamente consistente, por tratar-se de
avaliação de desfechos relacionados a procedimento cirúrgico, com diferenças óbvias em
relação a intervenções clínicas. Os relatos de casos servem como alerta para a
possibilidade de efeitos adversos, que geralmente não são demonstrados nos ensaios
clínicos.
A literatura disponível não suporta a superioridade de uma das técnicas de fixação sobre a
outra. Não há evidências que justifiquem o uso preferencial do parafuso de interferência
bioabsorvível em relação ao metálico, ou que justifiquem os custos maiores relacionados ao
primeiro.
SUMÁRIO
1
INTRODUÇÃO............................................................................................... 6
1.1 Questão Clínica.............................................................................................. 6
1.2 Aspectos epidemiológicos.............................................................................. 6
1.3 Descrição do medicamento avaliado e alternativas terapêuticas..................... 7
2
MÉTODO........................................................................................................ 8
2.1 Bases de dados e estratégia de busca.......................................................... 8
3
RESULTADOS............................................................................................... 9
4
RECOMENDAÇÕES..................................................................................... 12
REFERÊNCIAS............................................................................................ 13
ANEXOS....................................................................................................... 15
6
1 INTRODUÇÃO
1.1 Questão clínica
O parafuso de interferência bioabsorvível é melhor que o parafuso não-absorvível
(titânio) quanto aos desfechos clínicos na reconstrução cirúrgica do ligamento
cruzado anterior?
1.2 Aspectos epidemiológicos e clínicos
A reconstrução artroscópica do ligamento cruzado anterior (LCA) consiste no
procedimento ortopédico cirúrgico mais comum atualmente.
Dois tipos de enxertos autólogos podem ser utilizados na reconstrução do LCA: o
tendão patelar ou o tendão semitendinoso ou grácil (“hamstring technique”). As duas
técnicas proporcionam resultados clínicos e funcionais semelhantes, como foi
demonstrado em vários ensaios clínicos randomizados. Estes resultados são
satisfatórios em 85 a 90% dos pacientes.1
Entretanto, no que se refere às técnicas de fixação do enxerto ainda existe alguma
discussão.
Um dos dispositivos de fixação mais comumente usados é o que utiliza parafusos de
interferência metálicos, que podem ser usados tanto nos enxertos patelares quanto
nos semitendinosos. As vantagens dos parafusos de interferência metálicos incluem
fixação efetiva e confiável dos enxertos próxima à linha articular, com redução dos
riscos de movimentação do enxerto dentro dos túneis ósseos e do alargamento
destes túneis. Desvantagens potenciais destes parafusos, como laceração das
suturas e do enxerto e perda do plug ósseo durante a inserção, têm sido descritas.
Mas, a principal razão pela qual o uso dos parafusos metálicos, nas intervenções de
reconstrução do ligamento cruzado anterior, foi questionada foi a dificuldade de
remoção dos mesmos nos eventos de revisão cirúrgica e os possíveis artefatos
provocados nas imagens de ressonância magnética, quando há necessidade deste
tipo de avaliação no pós-operatório.
Estes fatores levaram ao interesse crescente pelos parafusos de interferência
bioabsorvíveis, teoricamente capazes de superar as dificuldades acima descritas
relacionadas aos parafusos metálicos, com a mesma capacidade de fixação do
7
enxerto. Estes parafusos foram introduzidos nos anos 1990 e, segundo os
fabricantes, seriam completamente degradados e absorvidos até dois anos após o
implante, permitindo a reposição do tecido ósseo nos sítios tibial e femoral de
implante dos mesmos.
Entretanto, a velocidade de absorção destes parafusos depende de uma série de
fatores, que incluem a composição dos mesmos, massa, quantidade de
cristalização, cobertura da superfície e o ambiente em que são inseridos.2
1.3 Descrição do produto e alternativas terapêuticas
Os parafusos de interferência bioabsorvíveis são constituídos por polímeros de
ácido poliglicólico (PGA) ou de ácido poliláctico (PLA). Alguns representam
associação destes dois ácidos, enquanto outros têm um destes ácidos associados a
outros polímeros. Geralmente, o ácido poliglicólico tem um processo de absorção
mais rápido que o ácido polilático. A absorção destes polímeros pelo organismo é
feita através de hidrólise lenta, com liberação, ao final, de CO2 e água.
O processo de degradação no organismo de qualquer um destes materiais não é
dependente de atividade enzimática3, mas pode provocar reações inflamatórias
inespecíficas
com
ativação
de
fibroblastos,
macrófagos
e
leucócitos
3,4
polimorfonucleares. Este processo pode durar até cinco anos.
Anexo 1: Registro na Anvisa do Arthrex
Como alternativa, há os parafusos de interferência metálicos, inclusive alguns
modelos em titânio sem bordas, o que previne a laceração do enxerto e não
interfere com a resolução das imagens radiológicas à ressonância magnética.
8
2 MÉTODO
2.1 Base de dados e estratégias de busca
BASE
Medline via PubMed
TERMOS
1ª estratégia
"Anterior
Cruciate
Ligament"[MeSH MajorTopic]
AND"Bone
Screws"[MeSH
Major Topic] Limits: published
in the last 3 years, Humans
RESULTADOS
ESTUDOS SELECIONADOS
35 estudos
07
2ª estratégia
((Titanium
screws)
OR
(absorbable
interference 23 estudos
screw) OR (bio screws)) AND
Knee. Limits: published in the
last 3 years, Humans
3ª estratégia
1ª estratégia OR 2ª estratégia 51 estudos
Referências relacionadas
Agências de Tecnologias
Revisões sistemáticas
02
Cochrane : nenhuma
9
3
RESULTADOS
Estudos
MA et al.7, 2004
Tipo de Estudo
População
Ensaio clínico nãorandomizado, prospectivo.
Reconstrução do LCA com
enxertos semitendinoso e
grácil.
- 15 pacientes: fixação com
parafusos bioabsorvíveis(PPLA)*
- 15 pacientes: fixação por
“EndoButton”(distante da
articulação)
*ácido poli L lático.
Desfechos
Alargamento dos túneis
ósseos.
Quadro clínico
Degradação dos
parafusos absorvíveis em
dois anos
Follow up: mínimo de
dois anos (média de 3
anos)
Resultados
Alargamento dos túneis
ósseos significante e
semelhante nos dois
grupos.
Scores de avaliação
funcional, semelhante nos
dois grupos
83% dos parafusos
bioabsorvíveis intactos ou
apenas parcialmente
degradados.
Comentários do autor: Ensaio com amostra pequena e não randomizado. Os autores justificam a nãorandomização como forma de permitir que as cirurgias fossem realizadas por cirurgiões com maior domínio
de cada uma das técnicas. Não houve diferenças nos vários desfechos analisados, embora o pequeno
tamanho da amostra não permita que pequenas diferenças sejam demonstradas.
Estudos
Drogset et al5, 2005
Tipo de Estudo
População
Desfechos
Resultados
Ensaio clínico randomizado
prospectivo
Reconstrução do LCA
utilizando enxerto patelar
(BPTB)*:
Melhora clínica de acordo Aval. Subjetiva: todos os
com avaliação subjetiva do pacientes, dos dois
paciente e exames clínicos grupos, consideravam-se
com Score funcional de
como estando “bons” ou
Lysholm, Score de
“excelentes” um e dois
atividade de Tegner, teste anos após a cirurgia;
20 pacientes – fixação com de Lashman, testes de
parafusos metálicos
estabilidade (“pivot-shift”), Estabilidade, nível de
21 pacientes – fixação com Score de Cincinanati
atividade, nível funcional,
parafusos bioabsorvíveis
modificado
movimentação articular:
resultados mais favoráveis
19 pacientes completaram o Follow up: até dois anos com os parafusos
follow up de 2 anos
metálicos.
* BPTB = bone-patellar tendon-bone.
Comentários do autor: As principais limitações deste estudo são o pequeno número de pacientes em ambos
os grupos e a grande perda para acompanhamento em 2 anos (mais de 50% dos casos). Há descrição de
maior ocorrência de dores entre os pacientes submetidos à fixação do enxerto com parafusos
bioabsorvíveis, mesmo após dois anos, o que os autores explicam como resultante de um provável processo
inflamatório desencadeado pela absorção dos parafusos. Este parâmetro e um Score de Tegner menor
entre os pacientes portadores de parafusos biológicos, levaram a melhores resultados clínicos com os
parafusos metálicos.
10
Estudos
Tipo de Estudo
População
Laxdal et al2, 2006
Ensaio clínico randomizado
prospectivo:
Reconstrução do LCA com
uso de enxerto semitendinoso
ou gracilis
39: fixação com parafusos de
metal
38: fixação com parafusos
bioabsorvíveis
Desfechos
Desfechos clínicos
funcionais
(KT 100, Lyshom Score,
Tegner Score, IKDC )
Desfechos radiológicos
Follow up: 6 e 24 meses
Média de idade: 27 anos
Resultados
Desfechos clínicos
semelhantes em ambos
grupos.
Apenas quanto a um
parâmetro (single-legged
hop test ) houve
resultados
estatisticamente diferentes
entre as duas técnicas de
fixação: 100% com
parafusos absorvíveis e
94% c/ parafusos de metal
(p=0,007)
Perda: Nove pacientes
Diâmetro dos orifícios
ósseos: único parâmetro
radiológico com diferença
significativa entre os 2
grupos (maior com
parafusos absorvíveis);
sem implicações sobre os
desfechos clínicos
Comentários do autor: Ensaio clínico randomizado e prospectivo mostrando equivalência de resultados
clínicos e radiológicos na reconstrução do ligamento cruzado anterior em pacientes jovens, utilizando
enxerto semitendinoso ou gracilis, nos dois tipos de fixação óssea: com parafusos de interferência
bioabsorvíveis e com parafusos de metal, em seis meses e em dois anos. Há descrição de dois casos de
ruptura do enxerto no grupo de parafusos bioabsorvíveis e um caso com o parafuso de metal, com
necessidade de nova intervenção. Houve dois casos de infecção profunda associada aos parafusos de
interferência bioabsorvíveis.
Estudos
6
Järvelä et al , 2008
Tipo de Estudo
População
Ensaio clínico randomizado
prospectivo:
Reconstrução ligamento
cruzado anterior:
25 pacientes: duplo-enxerto/
parafusos bioabsorvíveis
27 pacientes: enxerto único/
parafusos bioabsorvíveis
25 pacientes: enxerto único/
parafusos metálicos
Desfechos
Resultados
Estabilidade anterior e
Estabilidade anterior: igual
estabilidade rotacional do com as três técnicas.
joelho
Estabilidade rotacional em
um ano: significativamente
Follow up: mínimo de dois melhor com o duplo
anos
enxerto em relação às
duas outras técnicas;
em dois anos:
duplo enxerto significativa//
melhor em relação ao
enxerto único com
parafusos não-absorvíveis;
diferença não-significante
em relação ao enxerto
único com parafusos
absorvíveis.
11
Comentários do Autor: Ensaio randomizado, metodologicamente bem desenhado. Limitações: amostra
pequena e o método de aferição da estabilidade rotacional, preponderantemente clínico, através do “pivotshift test”, cuja validade não está bem estabelecida. O objetivo principal é a comparação de duas técnicas de
reconstrução do ligamento cruzado anterior, com enxerto duplo ou simples, sem se ocupar especificamente
da eficácia e da segurança comparativa entre os parafusos absorvíveis e os metálicos. Em relação,
entretanto, à estabilidade anterior do joelho, parâmetro mais comumente usado para aferir os procedimentos
de reconstrução do ligamento cruzado, o tipo de parafuso usado, se absorvível ou não, não influenciou os
resultados. Nos casos em que foi necessária revisão, o uso prévio de parafusos absorvíveis facilitou o
procedimento por não ser necessária sua remoção.
Estudos
Tipo de Estudo
Desfechos
Resultados
População
Barber e Dockery3,
Série de Casos
Desfecho primário:
Desaparecimento
2006
desaparecimento do
completo do parafuso.
20 pacientes submetidos a
parafuso
reconstrução do LCA com
enxerto de tendão patelar,
Desfecho secundário:
Não houve substituição
fixação com parafusos de
substituição por osso dos por tecido ósseo.
ácido poli L lático - PLLA
locais antes ocupados
Aparência radiológica de
(retirados de uma amostra de pelos parafusos
tecido pouco mais denso
271 pacientes operados)
que o músculo; tecido
Desfecho terciário: quadro fibroso calcificado.
Média de idade: 37 anos
clínico
(13 a 50 anos)
Follow up: mínimo de sete Avaliação clínica: “score
Avaliação clínica, Rx simples e anos
bom ou excelente de
tomográfica.
acordo com critérios de
Lysholm”.
Comentários do autor: Série de casos que avaliou “in vivo” a degradação do material de parafusos de
interferência bioabsorvíveis, usados na reconstrução cirúrgica do ligamento cruzado anterior, sete anos após
a cirurgia. Ao estudo radiológico e à tomografia, o estudo demonstra que, no longo prazo, todo o material
dos parafusos foi degradado, sem evidências de reação inflamatória, no momento do estudo, embora esta
possa ter ocorrido em algum momento durante o processo de reabsorção.
Demonstra, ainda, ao contrário do que se esperava, que não houve reconstrução do tecido ósseo,
preenchendo os locais antes ocupados pelos parafusos. Embora sem confirmação histológica, a aparência
radiológica do material de substituição assemelha-se a de tecido fibroso com calcificações. A avaliação
clínica ficou enviesada pelo fato dos pacientes constituírem uma pequena amostra, retirada de um grupo de
271 pacientes operados. A aceitação voluntária de participar pode levar à seleção dos casos com melhores
resultados.
Estudos
Radford et al2, 2005
Tipo de Estudo
População
Série de casos
Desfechos
Resultados
Absorção e degradação do Ausência de evidência de
material dos parafusos de absorção radiológica, à
8 pacientes submetidos a interferência
ressonância nuclear
reconstrução do LCA
bioabsorvíveis.
magnética nos oito casos
(“Harmstring technique”)
avaliados, até 4 anos de
avaliados através de RNM
pós-operatório.
um, dois e quatro anos
Follow up : quatro anos
após a cirurgia.
Parafusos de ácido polilático (PLA)
Comentários do autor: Série de casos que demonstra a lentidão do processo de absorção do material destes
parafusos bioabsorvíveis. O período maior que quatro anos demonstrado não condiz com as afirmações dos
fabricantes, que garantem desaparecimento do material em dois anos. O processo de absorção muito lento
reduz a possível vantagem que estes parafusos teriam sobre os de metal, no que diz respeito à simplificação
de futuras intervenções (revisões). Por outro lado, o valor da RNM na determinação da absorção do
12
4
parafuso é questionável, como o demonstrou o relato de caso publicado por Park e Tibone no qual a
abordagem cirúrgica para eventual retirada de um parafuso detectado à RNM, num joelho com processo
inflamatório significativo, quatro anos após a reconstrução do LCA, não encontrou qualquer remanescente
do parafuso.
4
RECOMENDAÇÕES
Os resultados, quanto a desfechos clínicos, após a reconstrução cirúrgica do
ligamento cruzado anterior são semelhantes, com os dois tipos de fixação utilizados,
ou seja, com parafusos de metal ou com parafusos bioabsorvíveis, como já havia
sido demonstrado na revisão feita por este grupo de avaliação de tecnologias em
2005 e confirmado pelos ensaios clínicos randomizados mais recentes.1,5,6,7 Estes
ensaios, embora individualmente com amostras pequenas, demonstram resultados
bastante semelhantes e, portanto, são consistentes. São ensaios com critérios de
exclusão rígidos, incluindo geralmente pacientes com acometimento restrito ao
ligamento cruzado anterior, unilateralmente.
As possíveis vantagens do parafuso bioabsorvível quanto à facilitação de revisões
cirúrgicas, pela não necessidade de remoção do parafuso são questionáveis, uma
vez que a degradação e absorção do parafuso são lentas, durando cerca de quatro
anos.
Assim, qualquer revisão durante este longo período, necessitará da retirada do
parafuso.
Por outro lado, a absorção, mesmo completa do parafuso, não foi acompanhada de
reconstituição óssea nos locais onde os mesmos foram colocados.3
A possibilidade de avaliação através de ressonância magnética no pós-operatório,
outro fator apontado como vantagem relacionada ao uso de parafusos de
interferência bioabsorvíveis, também pode ser questionada porque resultados
semelhantes podem ser obtidos com os parafusos de titânio, que também não
prejudicam a avaliação por este método radiológico.
A ressonância magnética, ainda que precisa para verificar o estado do enxerto, pode
não ter a mesma precisão em determinar a absorção do parafuso e sua eventual
substituição por tecido ósseo, como demonstrado no relato de caso feito por Park e
13
Tibone4. Estes autores descrevem um caso de nova abordagem cirúrgica motivada
por dor e edema sobre a região anterior da tíbia, mais de quatro anos após a
reconstrução do LCA. A avaliação através da ressonância no pré-operatório indicava
que o parafuso bioabsorvível usado na primeira cirurgia estava intacto. No per
operatório constatou-se que não havia resquício do parafuso, sendo curetado
material amorfo, compatível com abscesso estéril.
O uso de parafusos biodegradáveis na fixação do enxerto tendíneo, seja ele patelar
ou semitendinoso, não está isenta de riscos. Como o caso acima mencionado, há
descrição de formação de abscessos estéreis pré-tibiais, a partir de cistos,
tardiamente após a reconstrução do ligamento cruzado anterior.8 A migração do
parafuso, uma complicação inicialmente creditada apenas aos parafusos de
9,10
interferência metálicos, também foi descrita com parafusos bioabsorvíveis
,
sobretudo com aqueles usados para a fixação tibial. A migração do parafuso
geralmente é uma intercorrência precoce que ocorre dentro dos primeiros meses
após a cirurgia e é causa de dor e de limitação dos movimentos do joelho.
As evidências de que não há benefício clínico ou funcional adicional dos parafusos
de interferência bioabsorvíveis em relação aos parafusos metálicos são consistentes
e robustas.
As vantagens quanto à simplificação técnica nos casos de revisão cirúrgica são
questionáveis diante do curso muito lento do processo de degradação e absorção
dos parafusos bioabsorvíveis, implicando que, em muitas revisões cirúrgicas, ocorra
a mesma necessidade de remoção destes parafusos que ocorre com os parafusos
metálicos. Além disto, o processo lento de absorção implica em reação inflamatória
com riscos de formação de cistos, pseudo-abscessos e migração dos parafusos.
Os possíveis benefícios advindos da ausência de artefatos aos exames de
ressonância magnética também podem ser usufruídos com o uso de parafusos de
titânio.
REFERÊNCIAS
1. Laxdal G, Kartus J, Eriksson BI, Faxen E, Sernert N, Karlsson J. Biodegradable
and metallic interference screws in anterior cruciate ligament reconstruction
surgery using hamstring tendon grafts: prospective randomized study of
radiographic results and clinical outcome. Am J Sports Med 2006;34(10): 1574-80.
14
2. Radfort MJ, Noakes J, Read J, Wood DG. The natural history of a bioabsorbable
interference screw used for anterior cruciate ligament reconstruction with a 4strand hamstring technique. Arthroscopy 2005;21(6): 707-710.
3. Barber FA, Dockery WD. Long-term absorption of poly-L-lactic Acid interference
screws. Arthroscopy 2006;22(8): 820-6.
4. Park MC, Tibone JE. False magnetic resonance imaging persistence of a
biodegradable anterior cruciate ligament interference screw with chronic
inflammation after 4 years in vivo. Arthroscopy 2006;22(8): 911.e1-4.
5. Drogset JO, Grontvedt T, Tegnander A Endoscopic reconstruction of the anterior
cruciate ligament using bone-patellar tendon-bone grafts fixed with bioabsorbable
or metal interference screws: a prospective randomized study of the clinical
outcome. Am J Sports Med 2005;33(8): 1160-5.
6. Järvelä T, Moisala AS, Sihvonen R, Järvelä S, Kannus P, Järvinen M. Doublebundle anterior cruciate ligament reconstruction using hamstring autografts and
bioabsorbable interference screw fixation: prospective, randomized, clinical study
with 2-year results. Am J Sports Med 2008;36(2): 290-7.
7. Ma CB, Francis K, Towers J, Irrgang J, Fu FH, Harner CH. Hamstring anterior
cruciate ligament reconstruction: a comparison of bioabsorbable interference
screw and endobutton-post fixation. Arthroscopy 2004;20(2): 122-8
8. Busfield BT, Anderson LJ. Sterile pretibial abscess after anterior cruciate
reconstruction from bioabsorbable interference screws: a report of 2 cases.
Arthroscopy 2007;23(8): 911.e1-4.
9. Krappel FA, Bauer E, Harland U. The migration of a BioScrew as a differential
diagnosis of Knee pain, locking after ACL reconstruction: a report of two cases.
Arch Orthop Trauma Surg 2006;126(9): 615-20.
10. Appelt A, Baier M. Recurrent locking of Knee joint caused by intraarticular
migration of bioabsorbable tibial interference screw after arthroscopic ACL
reconstruction. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc 2007;15(4): 378-80.
15
ANEXO 1
Pelo menos dois fabricantes destes parafusos dispõem de registro na ANVISA:
INION – Registrado sob o número:10231160063
ACL CROSS PIN LACTOSORB :10370370040
O ARTHREX , registrado com o número 10324690036, está com o registro vencido
desde março de 2004.
Detalhe do Produto: PARAFUSO
HEXALON INION
DE
INTERFERENCIA
BIODEGRADAVEL
Nome da Empresa:
BIOTECHNOLOGY ORTOPEDIA IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÀO LTDA
CNPJ:
58.647.355/0001-57
Produto:
PARAFUSO DE INTERFERENCIA BIODEGRADAVEL HEXALON INION
Registro:
10231160063
Processo:
25351.150816/2004-66
Origem do Produto
FABRICANTE : Inion LTD - FINLÂNDIA
Vencimento do Registro:
31/01/2010
Autorização:
1023116
Detalhe do Produto: ACL CROSS PIN LACTOSORB PINOS PARA FIXACAO ORTOPEDICA REABSORVIVEL
Nome da Empresa:
COM. IMP. DE PROD. MED. HOSP. PROSINTESE LTDA
CNPJ:
66.918.392/0001-80
Produto:
ACL CROSS PIN LACTOSORB PINOS PARA
FIXACAO ORTOPEDICA REABSORVIVEL
Apresentação:
905854; 905855; 905856
Registro:
10370370040
Processo:
25351.060035/2003-08
Origem do Produto
FABRICANTE : Arthrotek, INC - Biomet - ESTADOS UNIDOS
Vencimento do Registro:
01/09/2009
Autorização:
Detalhe do Produto: PARAFUSO DE INTERFERENCIA IMPLANTAVEL ARTHREX
1037037
16
Nome da Empresa:
MEDICAL TECHNOLOGY BRASIL LTDA
CNPJ:
01.404.768/0001-93
Produto:
PARAFUSO DE INTERFERENCIA IMPLANTAVEL ARTHREX
Registro:
10324690036
Processo:
25000.017097/98-99
Origem do Produto
ARTHREX INC - EUA
Vencimento do Registro:
30/3/2004
Autorização:
1032469
Download

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