Orientação virtual : uma nova realidade
Attico Chassot
Programa de Pós-Graduação em Educação Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS
Palavras chaves: Formação de professores / Orientação de teses e dissertações /
Orientação internética / Orientação virtual /
“Escrever é fácil:
você começa com maiúscula e termina com ponto.
No meio você coloca as idéias...” 1
Como abertura
Dentro do que é central nesta mesa-redonda “Escrever/orientar dissertações e teses :
questões chave na formação de pesquisadores”, para qual minha sugestão inicial de nome era “Tese
ou Dissertação... também, um problema de redação” − e adiante vou retomar meu título inicial − há a
preocupação em se propor discussões, entre outros assuntos, sobre o quanto, como orientadores
precisamos, quase por primeiro, vencer em nossos orientandos situações antípodas daquelas que
Paulo Freire nos fala em Cartas a Cristina (1992) “Escrever, para mim, vem sendo tanto um prazer
profundamente experimentado quanto um dever irrecusável, uma tarefa política a ser cumprida. A
alegria de escrever me toma o tempo todo.” Esse é um mister, por vezes, árduo, até porque, muitos de
nossos estudantes estão bastante distantes do vivenciar esta fruição intelectual que a escrita pode
ensejar. Pretende-se, aqui e agora, buscar superações, pois escrever é preciso.
Muito provavelmente, o mote de nossas ações como orientadoras e orientadores seja
o título de um dos livros 2 do meu querido parceiro nesta mesa que, parodiando o poeta, que
nos lembrava a obrigação de navegar, Mario Osório Marques nos diz enfaticamente:
“escrever é preciso” e acrescenta como sub-título, no texto que é quase uma manual de
alunos e alunas de pós-graduação: “O princípio da pesquisa”. É na adesão às propostas do
Mario Osório, que nos ensina que no escrever está o alfa e o ômega das ações do pesquisador
1
Citação atribuída a Pablo Neruda.
2
MARQUES, Mario Osório. Escrever é preciso: o princípio da pesquisa. Ijuí : Editora
Unijuí, 1997, 162p. ISBN 85-85866-35-5
1
que justifico o quanto vejo nas propostas que fazemos aqui, catalisados pelos desafios do
Lucídio Bianchetti, que a produção de uma tese ou de uma dissertação é também, um
problema de redação. Aqui, não é por acaso que escolho o substantivo redação, para
pensá-lo não apenas na acepção de ato ou ação de escrever, que é o aquilo que muito
desejamos de nossos orientando, mas numa definição que traz o Aurélio 3 “Trabalho ou
exercício escolar que versa sobre um assunto dado, ou de livre escolha, e se destina a
ensinar o aluno a redigir corretamente, com seguimento lógico de idéias; composição”.
Acredito, que ninguém de nós desconheça as marcas que se encerra na palavra redação, como
ensina Ana Maria Netto Machado, a representante feminina desta mesa quando psicanalisa o
escrever em seus laboratórios da escrita. As resistências ao escrever talvez encontrem raízes
em tra(u)mas, que vão desde as lembranças das composições escolares no início da
alfabetização até os contemporâneos ícones de fracasso escolar traduzido nas avaliações das
redações nos vestibulares de ingresso às universidades. Estas dificuldades se perenizam,
muitas vezes, no trabalho de conclusão de curso de graduação, na monografia de curso de
especialização, na dissertação de mestrado ou, para ficar marcada plenamente as possíveis
dificuldades que se plenificam em todo ensino formal, também, na tese de doutorado. Na
redação, usualmente destinada ao adestramento da escrita à tese de doutoramento, há uma
trajetória permeada de muitas dificuldades.
Isso não é meu assunto neste segmento, apenas, ratifico o quanto no trabalho de
orientação, muitas vezes, o ensinar a escrever é necessário. Adiante quero fazer uma mirada
no outro lado dessa situação. Aqui e agora, pretendo olhar novas realidades neste fazer.
Mesmo que tenha dificuldades com a exata dimensão da adjetivação nova que fiz, é preciso
socializa-las.
Quando se valoriza a excelência indiscutível da orientação real ou aquela dita “olho
no olho” há situações de orientação − e muito especialmente, em casos de co-orientação,
algumas vezes buscada em outras instituições − que razões físicas impedem uma orientação
de contigüidade. Dentro desse segmento-título “Orientação virtual : um novo real” quero
3
A referência é ao Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1986, (2ª edição - 25ª impressão) ou ainda ao Dicionário Aurélio
Eletrônico, edição de 1994.
2
considerar a orientação, através da internet, como uma alternativa válida quando das usuais
dificuldades para encontros reais.
Um pouco sobre (meu) escrever
Preambularmente à discussão de situações envolvendo orientação internética na
elaboração de dissertações e teses, onde pretendo mostrar as possibilidades de uma
orientação virtual, inclusive através de descrição de situações experienciais, é preciso
privilegiar a modificação exponencial nos processos de escrita vivida em tempos recentes,
onde há aqueles que se alfabetizaram em uma lousa que hoje escrevem com computadores.
Escrevi, há quatro anos (Chassot, 1996), um texto onde celebrava meus 50 anos de escrita.
Permito-me trazer alguns excertos daquele texto, mesmo que mais reflita minha situação de
memorialista do que produtor de um texto acadêmico. Mostrar um pouco a rapidação com
que ocorrem transformações em nossos fazeres é parte da contextualização necessária para o
que central neste segmento.
Então, evocava ter começado minha alfabetização numa lousa, 4 depois escrevi com
pena de aço, 5 − que também era usada como arma em alguns duelos escolares e eu ainda
tenho evocações menos boas de uma machucadura que provoquei na coxa de um colega no
quarto ano primário − . Aqui, vale recordar a ritualística que havia no levar a caneta ao
tinteiro e na volta para o papel (quanto tempo de reflexão havia no escrever de então, se
comparado com o suave teclar de agora), e neste tempo de reflexão sobre o que se escrevia
tinha o secar a página com um mata-borrão 6 ou com farinha de mandioca, (esta foi, também
um dos meus materiais escolares). O grande sucesso posterior foram as canetas-tinteiros,
com seus depósitos de borracha que enchíamos com uma pequena alavanca metálica e que
causavam muitos borrões, que acarretavam fazer novamente os temas ou lembrados castigos,
4
Lâmina de ardósia enquadrada em madeira para nela se escrever ou desenhar com
ponteiros da mesma pedra (ardósia).
5
Pequena lâmina de metal, terminada em ponta, que, adaptada a uma caneta, serve para
escrever ou desenhar. [Pena XII]
6
O mata-borrão é usualmente um papel não encolado, que serve para absorver tinta ou
qualquer outro líquido; papel mata-borrão, papel-chupão, chupão, papel de chupar.
Chama-se também mata-borrão ao conjunto constituído por esse papel adaptado a um
berço (buvar) de madeira ou de metal para a facilitação do uso do papel.
3
especialmente se estes maculavam os guarda-pós brancos, uniformes dos grupos escolares,
como se chamavam as escolas públicas de então.
A revolução na tecnologia de escrever para mim aconteceu em 1954, quando ganhei a
minha primeira caneta esferográfica, invento ainda tão presente em nossas escritas, quase
meio século depois. Por exemplo, foi a não existência de canetas de escrever a seco (como as
atuais canetas esferográficas) que determinou que muitos adultos, que hoje tem mais de 50
anos, fossem compulsoriamente transformados, quando crianças, em destros, mesmo que
tivessem tendência a serem canhotos, pois quem escrevesse com a mão esquerda estava mais
sujeito a borrar a tinta molhada recém lançada no papel. Esta era, pelo menos, uma razão
muito prática para desestimular os não sinistros (sim! Este é o termo antípoda a destros), que
nos tempos medievos era acusados de pactários com o diabo, particularmente se fossem
mulheres, então candidatas potenciais à fogueira. Não é sem razão que um dos muitos nomes
do demônio nas falas populares é: canhoto, que também significa, segundo o Aurélio, inábil,
desajeitado, desastrado, sinistro; enquanto destro significa dotado de destreza, hábil, ágil,
desembaraçado, rápido, por exemplo: nadador destro − . Há muitos que tiveram, ainda nos
anos 50 (do século 20) em sala de aula, sua mão esquerda amarrada às costas ou até
engessada para que escrevessem com a direita. Talvez valesse pesquisar quanto os destros
foram dominadores exigindo dos canhotos que tivessem habilidades motoras iguais as suas
(com a mão direita) desconhecendo os comandos dos hemisférios cerebrais que determinam
as funções de lateralidade. Há pesquisa que mostram que os canhotos, no mundo em que
vivemos, têm mais riscos de acidentes, pois a parafernália tecnológica é produzida quase
exclusivamente para os destros. Talvez se pudesse comparar estas exigências que, então, os
destros impunham aos sinistros ao que presentemente os heterossexuais querem impor aos
homossexuais.
Parece não ser por acaso, que uma edição politicamente correta da Bíblia Sagrada
preparada pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, deixe de fazer referências à mão
direita de Deus Pai, para não discriminar os canhotos. Talvez num futuro, algumas de nossas
atuais discriminações não sejam mais criminais.
Mas volto ao memorialismo para lembrar a máquina de escrever Remington,
comprada com um dos meus primeiros salários de professor, em 1961, que me fazia um
4
distinguido na constelação familiar. Talvez causasse espanto, a um adolescente de hoje se
visse o que significava produzirmos cópia de um texto, há não muito tempo, quando
usávamos papel carbono e folhas mais finas para conseguirmos obter duas ou três cópias.
Não vamos recordar o que significava fazer uma correção em máquina de datilografia
mecânica. Permito-me, uma vez mais insistir no quanto houve modificações fantásticas no
nosso processo de escrita em tempos próximos.
Uso o computador desde 1989, e nestes onze anos devo creditar muito de minha
produção escrita a este meio de registro, que, para mim, só não desbancou ainda a caneta
esferográfica, na elaboração de meu diário, talvez porque para isto o suporte papel, seja mais
passível de receber as emoções de um dia de vida.
Ainda nas histórias de escrita poderia contar algo prosaico: porque uso o mouse com
esquerda, mesmo sendo destro. Quando comecei usar computador ainda não se usava mouse,
como também não se tinha, então, disco-rígido. O computador, em 1989, operava com um
disquete de 13 x 13 cm, colocávamos primeiro o sistema operacional, depois com outro
disquete colocávamos um editor de texto, para depois em outro salvarmos nossos trabalhos.
Como a mesa tinha um rebaixamento para teclado, e, como no lado direito não houvesse
espaço para colocar o mouse, quando ele passou a ser usado uns anos depois, assim tive que
usa-lo na esquerda. Depois disso passamos para 286, 386, 486, Pentium I, Pentium II,
Pentium III,... e amanhã nosso micro estará desatualizado, mesmo que aquele que tenhamos
hoje, seja mais potente que o supercomputador do início dos anos 80. Já se anuncia o fim dos
disquetes 9x9 cm que usamos hoje. Dou-me conta, o quanto fazer reminiscência de um
período tão próximo, já parece falar de priscas eras.
Algumas transições na nova escrita/leitura
Para concluir esta mirada vestibular, onde faço uma retrospectiva panorâmica das
muitas transições que tão intensamente vivemos em nosso escrever, em tempos tão
próximos, restam dois breves comentários presentes nessas modificações: um é sobre os
riscos do copismo com computador e o outro sobre nossas usuais dificuldades com a leitura
vertical.
5
Sobre o primeiro − os riscos do copismo com computador − afirmo que uma das
realidades que me encanta no escrever é que estamos, com muita freqüência, gestando textos.
Já escrevi (Chassot, 2000, p. 12) que não possuo um laptop, mas tenho um lapkopf. Aqui a
alusão é a kopf, "cabeça" em alemão. No meu lapkopf estou, muito usualmente, produzindo
textos, preparando aulas ou estabelecendo seqüências para uma palestra. Os textos são
lançados no receptivo disco não tão rígido do cérebro nas vigílias de um chamar o sono ou
em insones madrugadas ou, ainda, em embalos nem tão ritmados do ônibus no ir e vir para/da
Universidade. Há períodos de fertilidade, mas há tempos em que a imagem do solo crestado é
uma metáfora adequada para a esterilidade intelectual. Há momentos, ou porque a idéia
parece imperdível ou porque não se confia na memória, em que o primeiro papel que se
encontra recebe algumas palavras que serão chave para composições futuras. Quanta nota de
compra ou verso de passagem de ônibus se transformou em portadora de senha preciosa para
comandar, depois, teclares produtivos.
Quando se chega ao computador é preciso transferir arquivos. E, na maioria das
vezes, lamentavelmente, os textos amarradinhos que se compusera na memória cerebral não
migram para a memória do computador. A nossa operação de salvar no cérebro não é,
geralmente, muito segura.
Nunca é de mais referir, o quanto o computador não apenas acelera nosso processo
de escrever, mas institui uma outra linguagem, não necessariamente melhor. O computador
determina uma outra forma de produzir um texto. Às vezes, nos prega peças por sua
continuada sedução no fácil aproveitamento de textos. Numa dimensão, guardando um
necessário e continuado questionamento à compreensão da ciência e da tecnologia,
usualmente dissociadas das relações sociais, vale ponderar que necessariamente o
computador não nos faz escrever melhor, ainda que nos faça escrever mais e mais rápido.
Sabemos, hoje, o quanto nossos alunos e alunas, e mesmos quando muito de nós, tendem a
corrigir menos seus textos por se verem diante de uma tela de computador em que o texto
sempre aparece com o jeito de pronto e acabado, ao contrário de nossos antigos rascunhos à
mão ou à máquina. Aliás, desaparecem com esta nova forma de escrever, os rascunhos de
obras célebres, como estes que agora são arrematados em leilões. Sempre se escreve uma
nova versão, da qual a anterior não guarda as marcas. Mas, aqui e agora, minhas observações
não são sobre o ato de escrever.
6
Sobre nossas usuais dificuldades com a leitura vertical é preciso que nos darmos
conta que somos produto de gerações que aprendeu a ler na horizontal e, não é por acaso, que
vemos, com freqüência, dezenas de vezes um texto no vídeo sem nos alertar para erros
ortográficos, mas tão logo vemos folha saindo da impressora, imediatamente nos
apercebemos de erros. Claro, que talvez hoje já tenhamos uma pouco melhor acuidade visual
para leituras verticais que há dez anos. Muito provavelmente, crianças, que crescem mais
familiarizadas com leitura na tela, tenham habilidades melhor desenvolvidas que nós, que
começamos muito depois.
Quando me apercebo de minhas limitações com a leitura do texto eletrônico, não só
adiro aos que crêem, que o livro tendo como suporte papel será vitorioso, ainda por muito
tempo, sobre os chamados e-livros, até pela ligação sensual que temos com aqueles. Justifico
também minhas usuais dificuldades que tenho em congressos para aproveitar os relatos que
se fazem nos pôsteres. Meu perambular nessas sessões presentes mundialmente em todos os
eventos sempre me evoca os jornais dos postes, em tempos medievos.
Mesmo usufruindo os bônus do correio eletrônico também para mandar mensagens
amorosas, onde se pode fazê-las em papeis floridos e musicados, o receber uma carta, com
caprichoso endereço, onde já identificamos o remetente pela letra, nos faz prelibar o
conteúdo que faz o envelope estufado. Isso tem outras emoções.
Mas, para que não pareça preconceituoso com as novas tecnologias, duas
declarações: Uma, tenho um livro, já editorado, onde descrevo a minha superação de um
câncer, onde há um capítulo chamado de interneterapia, pois foi no meu ser aficionado por
correio eletrônico que encontrei centenas de amigas e amigos, que foram solidários e
facilitaram meus dias menos bons. A outra, o reconhecimento que na área médica, em
conseqüência do advento da realidade computadorizada, ocorrem modificações quase
fantásticas; há, por exemplo, a necessidade de recordar que as cirurgias cada vez menos
invasivas, são conseqüência da geração dos screenagers. 7 As cirurgias por vídeo 8 trouxeram
7
Screenagers: denominação dada aos que já crescem familiarizados com vídeo como
suporte de um texto ou acostumados ao uso de videogames.
8
Timothy Lenoir, estudioso do impacto das tecnologias na sociedade, em suas recentes
estadas em Porto Alegre (1997 e 1999) apresentou trabalhos especialmente relacionados
7
novas realidades, não apenas por evitar grandes e mais doloridos cortes, mas por diminuir os
períodos de hospitalização e conseqüentemente diminuir os riscos de infecções hospitalares. 9
Podemos facilmente imaginar as resistências dos notáveis cirurgiões, quando jovens,
acostumado a jogos em realidades virtuais, propõem e realizam com sucessos cirurgias
através vídeo, ou seja cirurgias virtuais.
Talvez aqui devesse fazer uma referência sobre o quanto a internet é também
geradora de exclusões. Comento isso mais extensamente em outro texto (Chassot : 1997).
A internet e as orientações virtuais
Depois de toda essa minha já extensa contextualização, volto a tese, de que nas
situações de orientações virtuais: a verdadeira distância entre orientador e orientando se
mede pelas facilidades de um e outro acessar a Internet. Esta é uma marca de novos tempos.
Hoje, indiscutivelmente, em muitas profissões, estar fora da rede é uma limitação
profissional. Dou um exemplo, sugerindo que seja imaginado o que significa para fazer de
cada um, os momentos em que, por problemas técnicos, estamos fora da rede, mesmo que por
apenas um dia ou algumas horas.
A finalização de minha primeira orientação internética ocorreu, quando em
dezembro de 1996, em Cuiabá, Irene Cristina de Mello, 10 teve aprovada com louvor sua
dissertação de Mestrado. E, nesta dissertação, houve uma maneira muito original e intensa de
se fazer orientação de teses e dissertações. Acredito que esta seja uma das primeiras
dissertações, pelo menos em termos de Brasil, com uma orientação muito pós-moderna em
termos dos recursos que foram usados, especialmente, no período final da dissertação. Houve
uma intensa orientação virtual, e, para usar uma expressão muito ao gosto das cada vez mais
fantásticas conquistas que determinam que vivamos a era digital, nesta orientação não mais
com as cirurgias virtuais. Na revista Episteme, v. 2, n. 4, há uma série de textos de Lenoir
sobre as cirurgias virtuais.
9
As companhias de seguros-saúde são, em alguns países, as grandes financiadoras do
acelerado desenvolvimento desta tecnomedicina, pois terminam tendo significativos
retornos com menores dias de internação.
10
Irene Cristina de Mello, com a dissertação de Mestrado Contribuições ao ensino da
Tabela Periódica, Programa de Pós-Graduação em Educação Pública da UFMT, 1996.
8
trocamos átomos e sim bits (Negroponte : 1995, p. 17). Esta foi uma dissertação quase
exclusivamente orientada pela internet e nisto ela é autenticamente pós-moderna.
Inicialmente trocávamos disquetes pelo correio. Depois, quando Irene passou a ter
uma caixa postal em um provedor de internet, as coisas ficaram muito facilitadas. Não
contabilizei o número de mensagens eletrônicas que trocamos nos últimos meses de
orientação. Cada uma destas mensagens vinha com atachado 11 , uma palavra que já
incorporamos a nosso léxico internético. Cada atachado, em Word, era um capítulo da
dissertação com 20 ou 30 páginas, às vezes muito pesadas pois incluíam figuras
escaneadas 12. Houve um capítulo que, devido às muitas figuras, superou os 2 Mb, exigindo,
também por problemas com linhas telefônicas, mais de 15 minutos para recebê-lo. Hoje, isso
já diferente de 1995 e 1996, quando temos já outras facilitações com linhas digitais e modems
mais velozes, de modo que estes valores de tempos estão muito desatualizados, mesmo que
sejam da segunda metade dos anos noventa.
Lia o capítulo, fazia anotações, correções e comentários com marcas destacadas,
com cores e signos diferenciados, para indicar o que eu sugeria ampliar, cortar ou aquilo que
era objeto de meus questionamentos. A Irene recebia e, após apropriar-se das observações e
discutir as minhas sugestões, re-enviava o texto para que eu o relesse. Houve dias em que
chegávamos trocar de mais de três mensagens. Vale recordar, a existência de editores de
textos − instrumentais que revolucionam nosso processo de escrita − cada vez mais
sofisticados e facilitadores de nosso fazeres, permitindo o usos de marcadores, de inserção de
comentários etc.
Preciso também dizer que valeu apenas ter sido um orientador assim, porque a Irene
soube, com sua capacidade de trabalho aceitar as limitações que as distâncias impunham e
também porque 20 ou 30 páginas transpunham os 2.200 quilômetros que separam Porto
Alegre de Cuiabá, em frações de minutos. Assim, também se associa às modificações dos
11
Atachado é um arquivo (ou documento) que se adiciona a uma mensagem eletrônica.
Do inglês attachment, significando na linguagem internética: anexo, acessório. O
substantivo inglês deve ser de origem francesa onde há o verbo attacher significando
atar, fixar, ligar. Em francês o substantivo masculino attachement significa apego,
afeição, simpatia.
12
Escaneado, outro neologismo, quer significar figuras, textos ou imagens transferidos
digitalizados para um texto por meio de scanner.
9
processos de escrita com a rapidação nos meios de comunicação que passaram, quase nos
mesmos tempos, como os antes referidos, se evoluiu do uso de pombos-correio, portadores
de mensagens escritas, ao correio eletrônico.
Aqui vale recordar as diferentes possibilidades oferecidas por diferenciadas
alternativas de orientação usando correio eletrônico, podendo-se, também, organizar grupos
de discussões para orientação, com diferentes orientandos, envolvidos em temas de pesquisas
semelhantes. É fácil inferir o quanto os diferentes orientandos podem se envolver em ações
de entre-ajudas. Também é possível imaginar o quanto uma orientação virtual enseja a
possibilidade de se estabelecer um diário de orientação, formado com os textos das
mensagens que acompanham cada um dos capítulos trocados. Essas mensagens passam a ser
um facilitador das comunicações orientador-orientando e fazem a história da orientação.
Apenas para fazer uma referência as novas possibilidades, vale a pena referir que,
apesar das limitações, a educação a distância começa a prosperar no País. Somente em três
meses deste ano (junho, julho e agosto) 13, os investimentos no setor ultrapassaram US$ 72
milhões, e Universidades virtuais começam a surgir e ganhar o mercado.
A mesma fonte, cita a situação de uma jornalista brasileira que vive há três anos no
Japão. Isso, porém, não impediu que ela continuasse seus estudos em uma universidade São
Paulo, onde é aluna do curso virtual de especialização em moda e comunicação. Há também
a situação de uma educadora quer melhorar a qualificação profissional e aplicar, na escola
que dirige, o que está aprendendo em um curso de psicopedagogia. Ela é aluna de uma
Universidade Virtual.
Se estas situações tendem a tornar-se cada vez mais comuns, se for levado em conta
o ritmo de expansão dos cursos a distância via Internet no Brasil é fácil inferir quanto se pode
pensar na expansão das possibilidades de orientação virtual. A perspectiva é de melhora,
mesmo que o número de acessos ainda seja pequeno e a velocidade de acesso a rede ainda
seja baixa
13
O Estado de São Paulo, 3 de setembro de 2000
10
Só para referir mais algumas benesses da internet em meu fazer profissional,
destaco que, em 1997, com um colega do Rio de Janeiro, organizei um livro 14 envolvendo 24
autores, de mais de uma dezena de cidades do Brasil, sem receber qualquer texto em papel ou
conversar, mesmo por telefone, com a maioria dos autores, alguns dos quais não conheço
pessoalmente. Em 1998, com um grupo de geólogos e ambientalistas organizei com um
colega da UNISINOS um outro livro 15 envolvendo mais de duas dezenas de autores da
mesma maneira. Hoje a produção de revistas, muitas vezes com muitos editores, se faz quase
exclusivamente por correio eletrônico.
Ainda sobre escrever... num outro enfoque
Para encerrar minha participação neste segmento da mesa redonda, trago uma
questão, que como anunciara, deseja fazer um interrogar o sobre outro lado da moeda. Temos
trazido discussões sobre estratégias para superar a síndrome da folha/tela em branco na
escrita de dissertações/teses. Eu me aliei a elas quando referi que em muitos de nossos
estudantes encontramos situações antípodas às antes citadas de Freire. Pode ter parecido que
todos, tacitamente aceitemos liminarmente que é difícil escrever e já anunciamos aos
orientandos que gerar uma dissertação ou uma tese é algo traumático. Transferimos para a
pós-graduação os pânicos da redação. Será sempre assim? Há um outro lado a apresentar?
Há não muito tempo fiz parte de uma banca de dissertação 16 onde o mestrando
examinou obstáculos às manifestações em linguagem escrita de licenciados de um curso de
Letras, a partir de histórias de vida de estudantes. A maioria, para não dizer todas, eram
histórias dolorosas. Não apareceram − e, certamente, é porque estas não existiam − histórias
do prazer no escrever. Quando reli nossa proposta de mesa parece que, aqui, nos proporíamos
a ratificar estas realidades.
14
CHASSOT, Attico & OLIVEIRA, Renato José. (Orgs.) Ciência, ética e cultura na
educação. São Leopoldo : Editora Unisinos, 1998
15
CHASSOT, Attico & CAMPOS, Heraldo (Orgs.) Ciência da Terra e meio ambiente :
diálogo para (inter)ações no Planeta, São Leopoldo : Editora Unisinos, 1999
16
CAMPAGNOLO, Antônio. Obstáculos às manifestações em linguagem escrita: um
estudo de caso a partir das contribuições de Gaston Bachelard. Prof. Dr. Lucídio
Bianchetti (Orientador) Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC Programa de
Pós-Graduação em Educação / CED, 29 de agosto de 2000.
11
Busco ver outras situações e lembro-me, então de Feyerabend (1996, p. 178) 17
quando diz “escrever tornou-se uma atividade muito agradável − quase como compor uma
obra de arte.” Talvez devêssemos buscar explicar também porque temos estudantes que
gostam de escrever e o fazem bem. Por que há aqueles que escrevem bem? Aventuro-me, e
permitam-me ser reducionista, a trazer uma hipótese para explicar o meu escrever pessoal tão
prazeroso: o quanto o escrever diários é um facilitador do exercício da escrita. Tenho em
gestação um texto “Sobre a arte de escrever diários”, onde pretendo expandir essa tese.
Na minha busca das origens de meu prazer pela escrita, quando examinava a
dissertação antes referida, não encontrei momentos que pudessem ser tidos como decisivos.
Há uma lição que não esqueço de quando era aluno do 4º ano primário − era como se
chamava então as cinco séries, que antecediam aos quatro anos do curso ginasial, que a
reforma determinada pela lei 5692/71 reduziu aos atuais 8 anos do ensino fundamental − e foi
a que me iniciou no gostoso hábito de fazer diários. Nenhum dia, sem uma linha ou como
repetia o Padre Grings "Nula dia, sine linea", já na tentativa de preparar-nos para o ensino de
latim que se estudava nas quatro séries do ginásio. Hoje transformei o mote para nenhum um
dia, sem uma página de uma agenda para os registros das emoções que passam.
Tenho feito algumas experiências, tanta na graduação como na pós-graduação
induzindo aos estudantes a fazer registros escritos de cada aula. Houve situações difíceis, por
exemplo quando trabalhava com a disciplina Filosofia da Ciência, na área de Ciências
Econômicas. Alunos e alunas resistiam inicialmente a fazer diários, até porque esta prática
usualmente tem marcas de algo da adolescência feminina. Após algumas aulas, havia
conversão à idéia e eram significativas as produções escritas críticas.
Para justificar meu apego aos fazer diários gosto de citar 18 Oscar Wilde (1854 1900) "Nunca viajo sem o meu diário. É preciso sempre ter alguma coisa sensacional para
ler no trem" Se a minha tese não for válida, teremos − sem me parecer narcíseo − sempre algo
agradável para ler. Credito que o escrever diários é um produtor da escrita.
17
Sobre a obra Matando o tempo escrevi uma resenha: O d e s v e l a r - s e d e u m m i t o
i n c ó g n i t o . Episteme. ISSN 1413-5736 04008 v.4.n.8 p.177-179, 1998
18 Esta citação está no texto “O umbigo vitoriano” resenha livro O coração desvelado
de Peter Gay elaborada por Nicolau Sevcenko para o Jornal de Resenha - Folha de S.
Paulo, p.8, 12 de junho de 1999.
12
Se buscasse outro facilitador de nossa produção escrita acrescentaria ainda correio
eletrônico − que parece ter reabilitado do olvidado hábito de escrever cartas − é uma
ferramenta fantástica em termos de possibilidades e também, muito provavelmente, o meio
de comunicação mais econômico 19 posto a disposição da humanidade em todos os tempos.
Para mim, entre todas as novas tecnologias desta aurora trimilenar, é talvez aquela que mais
me encanta e surpreende. Justifico isso quando releio o que escrevi, quando falava da última
virada de século.
No mundo de 1895 não havia automóveis nem aviões, praticamente não havia telefones e a
eletricidade era muito precária. [...] A principal forma de comunicação era o correio, não
apenas entre os lugares distantes, mas dentro das próprias cidades. Paris tinha um sistema
rápido de correio pneumático: uma rede de tubos onde as cartas eram impulsionadas por ar
comprimido. As ruas eram iluminadas a gás. O esgoto era um problema e a coleta de fezes
era um serviço difícil e desagradável (Chassot : 1994).
Agora, com um clicar podemos mandar centenas de cartas, até com mais de uma
dezena de páginas, para os mais distintos continentes e quase no mesmo instante elas poderão
ser lidas e respondidas pelos destinatários. Aos que, às vezes, não se dão conta da rapidação
da história, recordo que, ainda na segunda metade do século 19, um dos eficientes meios de
correspondência eram os pombos correio, usados inclusive como recurso de comunicação
bélica, que levavam cartas com a velocidade de 70 a 100 km.h-1. Ao escrever esta
observação, recordo uma charge 20, a propósito da pane geral na internet provocada em
fevereiro deste ano por hackers, 21, 22 onde um pombo-correio leva uma mensagem de socorro
ao FBI (Polícia Federal dos Estados Unidos) quando os grandes sites ficaram fora do ar.
19
Quando me refiro ao custo estou imaginando a situação de um usuário que já tenha
computador com modem e, portanto, pode se afiliar a um provedor por um custo de cerca
de R$ 8,00 (oito reais) mensais e então, para mandar as mensagens que comento não
gasta mais que dois ou três impulsos de uma chamada telefônica local. Os preços dos
provedores estão ficando cada vez mais acessíveis e hoje já há até aqueles que estão
oferecendo seus serviços gratuitamente.
20
Folha de S. Paulo p. 1.8, 14 de fevereiro de 2000, reproduzindo charge publicada no
The Washington Post.
21
Hackers: fanático por computação especializado em desvendar códigos de acesso a
computadores. Equivale a pirata de computador. Termo criado para a linguagem da
computação.
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Estes hackers, e mesmo os competentes produtores de vírus que tanto nos atordoam,
talvez sejam os sucessores dos ludistas; grupos organizados de trabalhadores têxteis
desempregados, que, no início do século 19, na Inglaterra, destruíam as máquinas que
lhes roubavam os empregos? Entre os neoludistas há os que prevêem catástrofes
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A propósito do uso do correio eletrônico, me permito citar o início de uma crônica
de Luís Fernando Veríssimo, 23 um dos mais prestigiados escritores brasileiros da atualidade
e merecedor de admiração pelo quanto usa suas crônicas numa militância política
importantíssima.
Há dias vi um cartun que era assim: um homem cujo computador pifara, impedindo-o de
mandar seu e-mail, parado com um envelope na mão diante de uma caixa de correio e
pensando: “como mesmo que funciona esse negócio?” Quem se acostumou a despachar sua
correspondência clicando o send pode ter mesmo problemas com o complicado processo de
comprar envelope, dobrar a carta e botar dentro do envelope, fechar e selar o envelope,
cuidando para não ficar com cola nos dedos e depois ter que descobrir como se enfia o
maldito envelope pela abertura de uma caixa de correio. Com todo esse trabalho para
mandar cartas, como os antigos tinham tempo para escrevê-las?
Veríssimo prossegue sua crônica dizendo que, com toda a tecnologia, atualmente, se
escreve menos. Discordo. Nossa produtividade intelectual mudou também por causa do
suave teclar de agora, se comparado com a escrita manual; isso facilitou nossas vidas. E aqui
quero acrescentar algo que venho defendendo. Nossas mensagens eletrônicas, mesmo
aquelas que escrevemos em serviço, não precisam ter a assepsia de um telegrama, onde
economizávamos palavras porque cada uma delas era taxada. Podemos e devemos, mesmo
na Academia, colocar afetos em nossas mensagens. Também sou avesso a usar os múltiplos
símbolos para dizer abraços, alegria ou tristeza. Prefiro escrever por extenso.
Assim permito-me ver a restauração do prazer da escrita. Isso deve encantar o nosso
ser educador.
Como posfácio ou quase uma despedida
O limite do texto escrito se esgota. Releio texto que preparei. Os interrogantes
assomam mais fortes. Fizera uma proposta em resumo e dou-me conta das dificuldades em
fazer concretas as abstrações do resumo. Deixei propostas inconclusas. Estou em situação
idêntica ao do artista diante da massa de mármore informe da qual ele deve fazer surgir a
estátua que está velada. Tarefa imensa. Quando destas situações, sempre me impactam as
mundiais em 2020 se a revolução tecnológica continuar neste ritmo. Entre as
associações antitecnológicas está o Clube do Lápis, cujos membros defendem a escrita a
mão.
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VERÍSSIMO, Luís Fernando. Dos teclados. Porto Alegre : Zero Hora, p. 3, 10ABR99
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estátuas ditas inacabadas de Michelangelo, onde parece que vemos aflorar a estátua que o
mármore escondia. Dou-me conta que nem cheguei a fazer surgir uma tosca figura.
Mas não vou contradizer a tese do prazer da escrita. Fiz partições. Trouxe emoções.
Tentei levantar interrogações. Talvez tenha conseguido mostrar algumas de minhas crenças.
Vale trocar idéias. Mais uma vez faço aflorar o baú das evocações. Quando crianças
reuníamos para trocar gibis ou figurinha. Nós quatro aqui estamos para trazer para vocês
nossas figurinhas. Queremos trocá-las. Acredito que essa seja uma proposta.
Referências citadas
CHASSOT, Attico. A ciência através dos tempos. São Paulo : Moderna.
(9.ed.2000), 1994.
_______. Sobre o ferramental necessário para o trabalho de escrever. Estudos
Leopoldenses, v.32, n.148, p.37-55,1996.
_______. Plugados & desplugados : uns e outros excluídos. Palavra como/vida,
ano 6, n.51. p 3-5, novembro de 1997
_______. Alfabetização científica : Questões e desafios para a Educação. Ijuí :
Editora Unijuí. 2000.
FEYRABEBD, Paul K. Matando o tempo – Uma autobiografia São Paulo :
Editora UNESP, 1996, 198p. [Título do original italiano : Ammazzando il
tempo – un autobiografia. Gius. Laterza & Figli Spa, 1994]
NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo : Companhia das Letras,
1995.
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