ACERVO
R E V I S T A
VOLUME
8
DO
•
A R Q U I V O
NÚMERO
•
01/02
•
N A C I O N A L
JAN/DEZ
•
1995
LEITURAS E LEITOREl
MINISTÉRIO DA IUSTIÇA
ARQUIVO NACIONAL
Ministério da Justiça
Arquivo Nacional
ACERVO
R E V I S T A
D O
A R Q U I V O
R A C I O N A L
RIO DF. JANEIRO, V.8, NUMERO 01/02. JANEIRO/DEZEMBRO 19%
© 1 9 9 5 by A r q u i v o n a c i o n a l
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Acervo: revista d o Arquivo Nacional. —
v. 8 , n . 1-2 ( j a n . / d e z . 1 9 9 5 ) . — R i o d e J a n e i r o : A r q u i v o n a c i o n a l , 1 9 9 5 .
V.; 2 6 c m
Semestral
Suspensa de 1990 a 1992
Cada número possui um tema distinto
issn 0102-700-X
1. A r q u i v o l o g i a - P e r i ó d i c o s 2 . H i s t ó r i a - P e r i ó d i c o s 3 . A r q u i v o s - T e c n o l o g i a A p l i c a d a P e r i ó d i c o s I. A r q u i v o n a c i o n a l
S
U
M
Á
R
I
O
01
APRESENTAÇÃO
03
ENTREVISTA COM ROGER CHARTIER
13
ENTREVISTA COM ROBERT DARNTON
19
Os CLÉRIGOS E OS LIVROS NAS MINAS GERAIS DA SEGUNDA
METADE DO SÉCULO X V I I I
Luiz Carlos Villalta
53
OS 'LETRADOS* DA SOCIEDADE COLONIAL: AS ACADEMIAS E A
CULTURA DO ILUMINISMO NO FINAL DO SÉCULO X V I I I
Berenice
Cavalcante
67
SERVIDÃO E DÚVIDA: O LEITOR DA HISTÓRIA DO FUTURO DE
ANTÔNIO VIEIRA
Marcus Alexandre
Motta
83
LEITORES DO RIO DE JANEIRO: BIBLIOTECAS COMO JARDINS DAS
DELICIAS
Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira
105
CULTURA CIENTÍFICA E SOCIABILIDADE INTELECTUAL NO BRASIL
SETECENTISTA: UM ESTUDO ACERCA DA SOCIEDADE LLTERÃRIA DO
Rio
DE JANEIRO
Lorelai Brilhante Kury e O s w a l d o Munteal Filho
123
LEITURA E LEITORES NO BRASIL, 1820-1822: o ESBOÇO
FRUSTRADO DE UMA ESFERA PÚBLICA DE PODER
L ú c i a M a r i a B a s t o s P. N e v e s
139
A DISTINÇÃO E SUAS NORMAS: LEITURAS E LEITORES DOS MANUAIS
DE ETIQUETA E CIVILIDADE - R l O DE JANEIRO, SÉCULO X I X
Maria do C a r m o Teixeira Rairího
153
R E V O L U Ç Ã O E HERESIA NA BIBLIOTECA DE UM ADVOGADO DE
M ARI A N A
Paulo G o m e s Leite
167
EDIÇÕES PERIGOSAS:
DARNTON
A
Exerci,OPÊDIE
PARA
ROBERT
Cláudia Heynemann
183
A LIVRARIA DO TEIXEIRA E A CIRCULAÇÃO DE LIVROS NA CIDADE
DO R i o DE JANEIRO, EM 1 7 9 4
Nireu Oliveira Cavalcanti
195
P E R F I L INSTITUCIONAL
R E A L G A B I N E T E PORTUGUÊS DE L E I T U R A
Antônio Gomes da Costa
199
BIBLIOGRAFIA
A
P
R
E
S
Tentar saber que livros
E
N
possuíam os
T
A
Ç
Ã
O
D e d i c a d o a estes t e m a s , este n ú m e r o d a
homens de u m a determinada época e
revista
sociedade e c o m o e por que o s liam têm
discutem o c o n t e ú d o de bibliotecas, as
sido u m a preocupação constante dos
recepções e práticas de leituras, e as
sociólogos e historiadores da leitura.
sociabilidades intelectuais no Brasil d o s
Um d o s trabalhos
precursores
desta
temática foi escrito no século XIX, pelo
historiador francês Daniel Mornet. E m
seu
artigo
"Os ensinamentos
das
b i b l i o t e c a s p a r t i c u l a r e s n o s é c u l o XVIII",
reúne
Acervo,
artigos que
s é c u l o s XVIII e X I X . A l é m d i s s o ,
uma
inovação:
entrevista
traz
dois dos
maiores especialistas no assunto, os
historiadores
Roger Chartier e Robert
Darnton.
o autor procurava avaliar a difusão das
Os artigos de Luiz Carlos Villalta, Paulo
obras
G o m e s Leite e T â n i a B e s s o n e partem d o
i l u m i n i s t a s a partir d o acervo
daquelas
bibliotecas.
historiador
buscava
C o m isso,
o
conteúdo de
responder
à
perceber
bibliotecas para
o
que
e
tentar
como
liam
pergunta: o que liam os franceses no
determinados grupos. Villalta analisa as
s é c u l o XV1I1?
bibliotecas de clérigos nas Minas Gerais
O artigo d e M o r n e t g e r o u u m a s é r i e d e
trabalhos que buscavam reconstituir não
apenas o conteúdo das bibliotecas de
diferentes grupos sociais mas também,
e
principalmente,
o
consumo,
a
d a s e g u n d a m e t a d e d o s é c u l o XVIII p a r a
avaliar e m que m e d i d a os livros que elas
possuíam influenciaram as condutas
políticas e sexuais destes clérigos.
A partir
dos Autos
da Devassa da
e a recepção dos livros.
Inconfidência Mineira e do conteúdo da
Assim, os trabalhos mais recentes sobre
biblioteca de J o s é Pereira Ribeiro, Paulo
as p r á t i c a s e a r e c e p ç ã o d a s l e i t u r a s j á
Gomes
não partem mais d o pressuposto de que
circulação
a simples posse d o s livros é s i n ô n i m o
perigosos,
da leitura d o s m e s m o s . Interessados e m
revolucionário dos letrados mineiros d o
analisar
s é c u l o XV111. T â n i a B e s s o n e e s t u d a o
circulação
as formas
determinada
obra,
de se ler u m a
sua recepção
e
Leite
analisa a leitura
dos
chamados
que excitavam
e a
livros
o
ardor
c o n t e ú d o das bibliotecas particulares de
circulação, os historiadores e sociólogos
médicos
têm se d e b r u ç a d o cada vez mais sobre
século XIX para o X X tentando
perceber
este
nào apenas que livros estes
homens
objeto,
tentando
articular as
e advogados
na virada do
diferentes formas de venda, acesso e
possuíam mas também o que liam.
maneiras de ler o livro.
As s o c i a b i l i d a d e s i n t e l e c t u a i s
viven-
c i a d a s no B r a s i l d o s s é c u l o s XV11I e XIX
Claudia Heynemann. A primeira discute
aparecem
o c o n t e ú d o dos m a n u a i s de etiqueta e
nos
Cavalcante,
Oswaldo
artigos
de
Berenice
Lorelai Brilhante Kury
Munteal
e
Lúcia
&
Bastos.
civilidade que circulavam
no Rio
J a n e i r o d o s é c u l o XIX e a i m p o r t â n c i a
Berenice Cavalcante investiga o elenco
de s u a leitura para a q u e l e s que
de q u e s t õ e s q u e a t r a í a a e l i t e i n t e l e c t u a l
denominavam
da C o l ô n i a
sociedade". Claudia Heynemann
e a nova
sociabilidade
membros
da
enfoca
o
despeito das diferenças advindas
panfletos e literatura pornográfica
universo
de
livros
se
"boa
vivenciada por estes a c a d ê m i c o s que, a
da
de
clandestinos,
que
riqueza ou do conhecimento, igualavam-
era c o n s u m i d a na França no
se n a c o n d i ç ã o d e l i v r e s
p r é - r e v o l u c i o n á r i o a partir d a a n á l i s e d e
pensadores.
A S o c i e d a d e Literária d o Rio de J a n e i r o
Robert Darnton sobre a
período
Encyclopédie.
e a especificidade do grupo de letrados
A r e v i s t a p u b l i c a a i n d a u m c u r i o s o artigo
que a c o m p u n h a m é o tema do
de Marcus Motta que reflete s o b r e
de O s w a l d o
Brilhante
artigo
M u n t e a l F i l h o Se L o r e l a i
Kury.
Mele,
possibilidades de leitura de um
texto,
autores
d i s c u t i n d o a p o s i ç ã o do leitor a partir
a n a l i s a m o lugar o c u p a d o p e l a n a t u r e z a
de níveis de s u b m i s s ã o ao texto e das
no p e n s a m e n t o
d ú v i d a s que este a p o n t a para o leitor
destes
c o m o os m e m b r o s
lançam
mão
oriundo
das
do
os
as
ilustrados
desta
arsenal
Luzes
e
Sociedade
intelectual
européias,
para
refletirem sobre a condição do h o m e m
que vive em contato quase direto c o m
a natureza.
Lúcia
Bastos
parte
dos
folhetos,
1821 e 1 8 2 3 p a r a a n a l i s a r as l e i t u r a s d a
intelectual
que
participou
movimento da Independência.
também
o nascimento
do
Enfoca
da idéia
de
o p i n i ã o p ú b l i c a q u e , para e l a , surgiu no
Brasil nesse
do Futuro
do
padre Antônio Vieira.
Este
número
também
de
apresenta
Acervo
um d o c u m e n t o
inédito
Arquivo Nacional localizado por
do
Nireu
Cavalcanti que, em seu artigo, revela a
panfletos e p e r i ó d i c o s p u b l i c a d o s entre
elite
t e n d o p o r b a s e a História
p e r í o d o e se
produziu
e x i s t ê n c i a d e u m a i m p o r t a n t e l i v r a r i a na
C o r t e n o f i n a l d o s é c u l o XVIII.
O perfil institucional é d e d i c a d o ao Real
Qabinete
Português
de
Leitura,
instituição que guarda e dá acesso à um
valioso
patrimônio
350.000
volumes.
estimado
F i n a l m e n t e e, s e m t r o c a d i l h o ,
graças aos h o m e n s de letras.
u m a b o a leitura
a todos os
em
desejo
leitores.
A questão da r e c e p ç ã o das leituras e
c i r c u l a ç ã o de livros é e n f o c a d a
artigos de M a r i a d o C a r m o
nos
Maria do Carmo Rainho
Rainho e
Editora
E n t i r e v i s t a
O
c
o
m
Ri ox o
g ge er r
C / L a r t i e r
historiador
ordem
f r a n c ê s
entre outras.
R
Chartier,
maiores
o
q
e
um
dos
Mesta
r
livros,
entrevista,
Roger Chartier ana-
dos
lisa as
especialistas
possibilidades
na h i s t ó r i a d a leitura,
e dificuldades encon-
vem
tradas p e l o s historia-
em
desenvolvendo
seus
dores
trabalhos
temas c o m o p r á t i c a s e r e c e p ç ã o
reconstruir
de
recepção
leituras,
sociabilidades
das
as
ao
tentarem
práticas
leituras de
e
a
uma
intelectuais e e d i ç ã o de livros na
determinada sociedade. E chama
França
em
a t e n ç ã o para o fato de q u e mais
do Antigo Regime,
obras c o m o íiistoire
de
/'edition
importante do que tentar s a b e r o
française.
Pratiques
de
lecture,
q u e liam os franceses no s é c u l o
Lectures
et
France
lecteurs
de l'Ancien
dans
Regime
Ia
e A
XV11I é tentar p e r c e b e r c o m o eles
liam.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2. p. 3-12. jan/dez 1995 - pag.3
A
C
Arquivo Nacional. O Senhor
possível
responder
liam os franceses
considera
ã pergunta:
no século
"O que
XVIII?"
E
Tipográfica de Bouillon.
É a partir d e s s e c o n h e c i m e n t o q u e h o j e
podem ser formuladas novas perguntas:
Hoje j á me parece
não mais "o que liam os franceses?",
possível responder a essa pergunta. Os
mas "como liam os franceses?" E "qual
trabalhos clássicos dos historiadores
foi o p a p e l d o i m p r e s s o n o a f a s t a m e n t o
franceses
dos
Roger Chartier.
permitiram
reconstruir
a
franceses
da
Igreja
e
produção, a circulação e a posse d o s
monarquia?"
títulos autorizados graças à utilização
Arquivo Nacional. lia introdução
maciça e quantitativa d o s registros de
E d i ç ã o e s e d i ç á o Robert
pedidos de permissão, dos catálogos
que
dos
resposta
livreiros
e das listas de
livros
este livro pode
ã questão
que liam os franceses
O que o senhor
conhecimento
Darnton
afirma
uma
de Daniel Mornet:
O q u e faltou durante m u i t o t e m p o às
bom
de
ser lido como
presentes nos inventários post-mortem.
conclusões dessas pesquisas
da
no século
pensa
"o
XVIII?"
disso?
foi um
da difusão dos
títulos proibidos, q u e n ã o p o d i a m ser
i m p r e s s o s no reino, n e m figurar n o s
catálogos de livraria o u aparecer n o s
inventários de livros pertencentes por
Roger
Chartier.
Inspirado
pelo
programa de sociologia d a literatura de
L a n s o n , Daniel Mornet foi s e m d ú v i d a o
primeiro historiador que tentou
avaliar
a importância da difusão das grandes
obras d o l l u m i n i s m o a partir de s u a
particulares.
p r e s e n ç a (ou a u s ê n c i a ) n o s i n v e n t á r i o s
Graças à exploração sistemática dos
de b i b l i o t e c a s . É este o t e m a d e s e u
arquivos
tipográficas
célebre artigo " O s e n s i n a m e n t o s d a s
instaladas ao redor do reino, e que
b i b l i o t e c a s p a r t i c u l a r e s n o s é c u l o XVIII",
publicavam os 'livros filosóficos'
p u b l i c a d o n a Revue
das sociedades
para
d'histoire
littéraire
o m e r c a d o f r a n c ê s , a g o r a é p o s s í v e l ter-
de Ia France,
se u m a j u s t a m e d i d a d a i m p o r t â n c i a e
trabalho pioneiro, multiplicaram-se os
da natureza dessa p r o d u ç ã o proibida. O
estudos
grande
reconstituir as bibliotecas
trabalho
desenvolvido
de Robert
a partir
Darnton,
dos arquivos
excepcionais da Sociedade
Tipográfica
e m 1 9 1 0 . A partir d e s s e
monográficos
aos diferentes
diferentes
a
fim de
pertencentes
grupos sociais, nos
locais
e em
diferentes
de Meuchátel, constitui a c o n t r i b u i ç ã o
épocas. O ponto fraco dessas
mais fundamental. Mas não devemos
g r a f i a s r e s i d i a n o fato d e q u e a s f o n t e s
esquecer
também
por elas utilizadas (inventários notariais
americanos,
ou catálogos de vendas) s u b e s t i m a v a m ,
outras
pesquisas,
feitas por historiadores
c o m o , por exemplo, as de Raymond Birn
ou
sobre
própria natureza, os títulos
os
arquivos
pag.4. jan/dez 1995
da
Sociedade
até m e s m o
ignoravam,
mono-
por sua
proibidos,
o
V
que eram escondidos dos notários ou
seria resistir à t e n t a ç ã o , s e m p r e
postos
de c o n s i d e r a r a n o s s a r e l a ç ã o c o m o
secretamente
a venda
pelos
forte,
livreiros.
livro, e de maneira mais geral, c o m o
Daí a i m p o r t â n c i a c a p i t a l d a s p e s q u i s a s
texto escrito, c o m o universal e variável.
de Darnton, q u e permitiram ter u m a
C o n t r a o q u e J o ã o H a n s e n d e s i g n a (e
n o ç ã o p r e c i s a d a c i r c u l a ç ã o (que n ã o era
denuncia) como u m 'etnocentrismo da
pequena)
leitura', é necessário lembrar que a
da literatura clandestina. O
compreender
posse não é o único meio de acesso ao
melhor é a articulação d o s diferentes
livro, q u e n e m todo material impresso
mercados do livro
(o d a s n o v i d a d e s
é c o m p o s t o de livros lidos no e s p a ç o
licitas, d o s 'livros
filosóficos', dos
que
agora
devemos
privado,
que
a
leitura
não
é
m a s c a t e s , d o livro d e s e g u n d a m ã o e t c ) ,
forçosamente solitária e silenciosa, e
das diferentes
que n ã o é necessário ser alfabetizado
impresso
formas de acesso ao
(por c o m p r a ,
empréstimo,
assinatura em gabinetes
de leitura,
participação e m sociedades de leitura,
l o c a ç ã o p o r h o r a o u p o r d i a etc.) e d o s
d i v e r s o s t i p o s d e l e i t u r a (em f u n ç ã o d o s
levantamentos d e textos, das razões da
leitura e d a s maneiras de ler).
para 'ler', se ' l e r ' significa, c o m o na
C a s t e l a d o S é c u l o d e O u r o , o u v i r ler.
não podemos esquecer essas
que,
ao contrário
deixaram
práticas
da posse, não
vestígios
nos
arquivos.
Reconstruí-las supõe a mobilização de
fontes que, por definição, não são nem
Arquivo Nacional, rio livro L e c t u r e s et
exaustivas,
lecteurs dans la France d'Ancien Regime
tratamento serial. Assim, por exemplo,
o senhor
para a leitura e m v o z alta, o estudo de
pode
diz que o acesso
ser reduzido
livro,
pois
proprietário
somente
nem sempre
do livro
lado,
o senhor
fato
de que a escrita
mesmo
locais
chama
na cultura
festivos,
do
o leitor
é
a
está
presente
leitura, a localização,
em rituais
interessados
em
etnólogos e sociólogos, a observação
àqueles
das fórmulas e c o n v e n ç õ e s próprias a
reconstituir
de
qualifica
dessa
e as formas
textos
textos, d o q u e Paul Zumthor
c o m o 'índices de oralidade' e, para os
Partindo
daria
nos próprios
nos
públicos,
que
dos
iconográficas,
que visam ou supõem uma determinada
que conselhos
apropriação
ou
para o
premissa,
de leitura
pictóricas
a atenção
analfabeta,
as práticas
s u a s r e p r e s e n t a ç õ e s nas o b r a s l i t e r á r i a s
outro
que lê. Por
de trabalho.
determinada
a posse
de um
identificação d o s gêneros e das formas
nos espaços
estão
ao livro não
nem suscetíveis
de
uma
sociedade?
Roger Chartier. O ú n i c o c o n s e l h o útil
um determinado m o d o de leitura.
Arquivo Nacional. A partir
momento
voltaram
os historiadores
para a história
a sociologia
da leitura?
de
que
franceses
se
do livro e para
Quais
foram
os
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 3-12. jan/dez 1995 - pag.S
C
A
precursores
destes
trabalhos?
E
Pesquisas da Biblioteca Pública de
Roger Chartier. O i n t e r e s s e a t u a l p e l a
Informação
história das práticas de leitura resulta
Pompidou.
claramente, pelo menos na f r a n ç a , d o
Mas, para q u e u m a história d a leitura
cruzamento
tivesse u m verdadeiro
de várias'tradições.
A
do
Centro
Qeorges
desenvolvimento,
primeira delas é a d a história d o livro
foram necessárias outras referências e
em sua acepção clássica. Sua fundação
outros
como disciplina e campo de pesquisas
antropologia das práticas c o m u n s , tal
autônomas
c o m o proposto p o r Richard Hoggart e m
foi marcada
L'apparition
du livre,
pela
obra
publicada por
The
fundamentos,
uses
of literacy,
que vieram da
e por Michel de
Lucien Febvre e Henri-Jean Martin, e m
C e r t e a u e m L'invention
1958. Henri-Jean Martin foi o primeiro
das
historiador
sensíveis à pluralidade e à historicidade
francês
a ensinar uma
disciplina especificamente
correntes
du
quotidien;
da história
literária
consagrada
da r e c e p ç ã o d a s obras, logo, à diver-
à 'civilização d o livro', na Ecole Pratique
sidade de suas leituras; e, finalmente,
de Hautes Etudes. A partir desse
das disciplinas q u e , ao descrever
a
forma
e
fundador,
livro
foram muitos os trabalhos
consagrados
conjunturas
à reconstituiçáo das
e m que foram
produzidos
os materiais impressos, à sociologia das
pessoas ligadas ao livro'
(editores,
dos objetos
impressos
manuscritos
(codicologie,
bibliography),
analytical
estabelecem as eventuais
modalidades de sua apropriação.
Apoiando-se
sobre
essas
referências
l i v r e i r o s , e n c a d e r n a d o r e s , a r t e s ã o s etc.)
matriciais, a história d a leitura pôde ser
e
construída e, recentemente, propor seus
à
importância
bibliotecas
volumes
française
da
do
acervo
particulares.
tlistoire
das
Os quatro
de
1'édition
( p u b l i c a d a entre 1 9 8 2 e 1 9 8 6
e reeditada entre
1 9 8 9 e 1991) f a z e m
primeiros
lecture)
delia
balanços
(tlistoires
e suas primeiras
leitura
de Ia
sínteses
nel mondo
(Storia
occidentale).
Arquivo nacional. Para
o senhor
um balanço de todas essas pesquisas.
história
da leitura
Uma segunda corrente de estudos, que
objeto
da história
floresceu nesses mesmos anos, foi a da
história
cultural?
sociologia d a leitura, entendida
Roger Chartier. Para m i m , h o j e j á n ã o
avaliação d a s práticas d o livro
como
(compra
se p o d e
se inscreve
a
intelectual
estabelecer
como um
ou da
uma diferença
em livraria, visita a bibliotecas, volume
nítida entre a história intelectual (ou
e circunstâncias das leituras), repartidas
literária)
segundo os diferentes meios sociais e
verdade,
grupos
apresenta-se
profissionais.
desses trabalhos
O ponto
alto
e a história
um
c u l t u r a l . Ma
problema
comum
aos historiadores dos
é a série de obras
textos, d o livro e d a s práticas culturais,
publicadas pelo S e r v i ç o de Estudos e
qual seja, o de reconstruir os usos e as
pag.6. jan dez 1995
V
K
O
significações atribuídos aos textos por
bibliotecas,
seus diferentes
correspondência
leitores (ouvintes
espectadores).
Responder
pergunta
desenvolver
supõe
a
ou
essa
várias
documentação
de
censura,
almanaques
litteraire
entre
e s t r a t é g i a s de p e s q u i s a , l i g a d a s u m a s às
principais
outras
ao se trabalhar
mas que,
pertencem
tradicionalmente,
a diferentes
acadêmicas.
Devemos
disciplinas
agrupar
m e s m a história o estudo dos
logo,
de
seus
temáticas,
suportes
gêneros,
motivos;
o
numa
textos,
formas,
estudo
dos
livreiros
e
como
outras.
France
Quais
dificuldades
da
são
as
metodológicas
com estas
fontes?
Roger Chartier. C a d a fonte m e n c i o n a d a
apresenta
problemas
específicos,
quanto a sua representatividade,
quanto
a sua exaustividade.
história
da
leitura,
a
ou
Para a
dificuldade
de
f u n d a m e n t a l r e l a c i o n a - s e c o m o fato d e
inscrição, transmissão e conservação;
que o historiador pode trabalhar apenas
e n f i m , o e s t u d o de suas
com
por
e de s u a s m o d a l i d a d e s
editorial,
diferentes
diferentes
apropriações
comunidades,
em
momentos.
necessário)
da
prática:
r e p r e s e n t a ç õ e s n o r m a t i v a s n a s artes d e
ler
É p o s s í v e l (e s e m d ú v i d a
representações
e
nas
sentenças
representações
de
judiciais;
uma
leitura
a b o r d a r e s s a p r o b l e m á t i c a a partir d e
pretendida,
u m a das q u e s t õ e s : o e s t u d o de
uma
prefácios, prólogos e palavras ao leitor;
o b r a de u m g ê n e r o i m p r e s s o , o u de u m a
r e p r e s e n t a ç õ e s c o d i f i c a d a s s e g u n d o as
prática da escrita. Os trabalhos
c o n v e n ç õ e s e s t é t i c a s c o m as i m a g e n s
p u b l i q u e i s o b r e u m a peça de
(nos
Annales,
Bibliothèque
em
bleue,
1994),
que
Molière
sobre
a
ou sobre a leitura
desejada, implícita,
de leitores e leitoras p r o p o s t a s
nos
pela
pintura ou pela gravura; representações
d i r i g i d a s p e l a s t á t i c a s d o self
fashioning
em voz alta p o d e m ilustrar cada uma
n o s t e s t e m u n h o s de n a t u r e z a
autobio-
d e s s a s p e r s p e c t i v a s d e p e s q u i s a . Mas o
g r á f i c a (livre de raison,
importante é que cada uma,
de vida).
qualquer
que seja seu ponto de partida, articule
à
análise
textual,
a
descrição
morfológica e sociológica dos hábitos.
É a partir de tal a r t i c u l a ç ã o que
se
podem definir novas
de
perspectivas
t r a b a l h o q u e d e s e s t r u t u r e m as d i v i s õ e s
canônicas
e
coloquem
a
questão
fundamental: a da p r o d u ç ã o do sentido.
Arquivo Nacional. Os historiadores
leitura
têm recorrido
inventários
à diversas
post-mortem,
da
fontes:
catálogos
de
diário, narrativa
Tal c o n s t a t a ç ã o n ã o s i g n i f i c a q u e e s s a s
fontes sejam inutilizáveis. Ao contrário.
Mas l e v a , c o n t r a q u a l q u e r l e i t u r a d o c u mentária ingênua e imediata, a compree n d e r as p r á t i c a s d a r e p r e s e n t a ç ã o (suas
razões, gêneros, intenções) para poder
decifrar
corretamente
as
repre-
sentações das práticas. Parece-me que
o m e s m o procedimento é válido para os
documentos
objetivos
aparentemente
(inventários
mais
post-mortem.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2, p. 3-12, jan/dez 1995 - pag.7
e
C
A
E
registros administrativos, catálogos de
Constance'.
bibliotecas e t c ) . Todos supõem
adotasse
esco-
Era pois normal que ele
a linha
de reflexão dos
lhas e triagens - logo, e x c l u s õ e s . Todos
historiadores da leitura.
s à o o r g a n i z a d o s a partir d e c a t e g o r i a s ,
As d i f e r e n ç a s q u e e s s e s
classificações e fórmulas que não são
podem
neutras,
m a s que submetem à suas
abordagens
lógicas as 'realidades' de q u e se apode-
prendem-se
estabelecer
literárias
a
historiadores
e m relação às
dois
e
filosóficas
elementos:
ram. Tomar consciência dessas conven-
p r i m e i r o r e m e t e à materialidade
ções, variáveis segundo os documentos,
as é p o c a s e l u g a r e s , é c o n d i ç ã o n e c e s -
abstração d o s textos estudados,
sária para q u e se p o s s a a p r e c i a r as
comentados
pertinências e o s limites de cada fonte.
modalidades de s u a inscrição e de s u a
história
cultural
a crítica
cepção
como
pode se relacionar
literária,
com a 'estética
' e com as abordagens
a de Paul Hicoeur
partem
da própria
com
da re-
filosóficas
cujos
estrutura
a
estudos
tem valor e interesse se é capaz de
estabelecer um diálogo, o u um debate
c o m as o u t r a s d i s c i p l i n a s . N o c a m p o d a
da leitura, o encontro
foi
imediato e evidente tanto c o m a crítica
l i t e r á r i a (pelo m e n o s a q u e l a q u e e n f o c a
a recepção
das obras) como c o m a
filosofia (pelo m e n o s aquela q u e se
inscreve
numa perspectiva
fenome-
nológica e hermenêutica). O grande livro
d e Paul R i c o e u r
Temps
et récit
une as
duas abordagens, pois a teoria da leitura
que
constrói
para
compreender
as formas de
o
lidos,
independentemente das
comunicação,
é necessário
lembrar,
parece-me, que a significação das obras
depende
também
das formas q u e as
transmitem a seus leitores e a seus
ouvintes. A ' m e s m a ' comédia de Molière
não é a ' m e s m a ' , se assistida
narrativa?
Roger Chartier. C r e i o q u e a h i s t ó r i a s ó
história
todas
dos
textos.
Arquivo Nacional. De que forma
Contra
o
quando
de u m a festa na corte o u n o p a l c o d o
teatro d o Palais Royal, o u q u a n d o é
apenas lida. O ' m e s m o ' romance de
Balzac não é o 'mesmo', quando
publicado em folhetim, numa
para u m gabinete
de leitura,
é
edição
numa
edição para o m e r c a d o d a livraria, o u
ainda s o b a forma de obras completas.
"A
forma
afeta o sentido",
é uma
f ó r m u l a c a r a a D. F. M c K e n z i e . É p o i s
necessário
identificar os efeitos de
sentido das diferentes formas
(impres-
sas o u m a n u s c r i t a s , escritas o u orais)
que se apoderam de uma ' m e s m a ' obra.
encontro entre o m u n d o d o texto e o
Por o u t r o l a d o , c o n t r a t o d a s a s f o r m a s
mundo
de a b s t r a ç ã o
do leitor baseia-se na dupla
do leitor o u , dizendo
referência à fenomenologia d a leitura,
melhor, de 'etnocentrismo' d a leitura,
desenvolvida
que supõe comuns a todos os leitores
p o r W o l f g a n g Iser, e n a
estética da recepção, elaborada por
Hans
Robert
pag.8. jan/dez 1995
Jauss
e a
Ecole
de
práticas
que
são,
na
verdade,
absolutamente específicas - por exem-
pio, aquelas do crítico literário ou
filósofo hermeneuta...-, devemos
dirigidos
do
lem-
brar que a leitura tem uma história e
uma sociologia.
É pois
os hábitos,
também
a
Deles
significação
textos
as
determinado
moleiro
Menocchio,
Qinzburg
a livros
destinados,
ou
da série
B l e u e , de textos
clássicos
toria/mente
não
da cultura'
da dicotomia
lhe
menos
ins-
popular/letrado?
entende
do
esse
A tarefa
e
nos
de
Ouro);
em
seguida,
privilegiados
não
é fácil,
está
sempre
sociologismo demasiadamente abrupto,
que qualifica c o m o 'populares' práticas
verdade,
um
podem
em outros
ser
horizontes
sociais. Será certo, por e x e m p l o , que a
m a n e i r a de
não
ler de
representativa
de
Menocchio
uma
seja
leitura
c a m p e s i n a , a p o i a d a nas t r a d i ç õ e s
destinados.
eles
q u e s ã o d e s t i n a d o s às e l i t e s s o c i a i s ;
clientes
na
encontradas
do
populares,
mascates, eles c o m p r a m os
letrados
o
Menocchio,
como
meios
romanzas
de
adquirem ou t o m a m emprestados livros
porque,
populares,
Como
com textos que
como
em
e dos menos cultos dos leitores.
d e v i d o a s u a s c o n d i ç õ e s de v i d a , v ê e m -
Seja porque,
O
ameaçada pelo risco de reintroduzir
Roger Chartier. N a s s o c i e d a d e s
seja
Século
que,
lhes são especificamente
nos
nas
características dos menos
apropriação?
se c o n f r o n t a d o s
ambulante'.
existência
tipo
Antigo Regime, os leitores
que
d e v e m o s i d e n t i f i c a r as m a n e i r a s d e ler
'circu/aridade
para a
o
r o m a n c e s de c a p a e e s p a d a da C a s t e l a
eram
edi-
como
(pensemos
que
dirigidos
uma
ou apontam
assim
Bibliothèque
a um público
configuram
senhor
que
popular
que c i r c u l a m nos m e i o s
Cario
em O q u e i j o e o s v e r m e s ,
teve acesso
truído,
por
constituem
dos
localizar quais são os textos e os livros
um
como o do
analisado
corpus
essencial consiste, inicialmente,
' p ú b l i c o ' pode atribuir a um texto.
Arquivo Nacional. Exemplos
que
'literatura
em
m o m e n t o ou lugar,
mais
t r a d i c i o n a l m e n t e se d e s i g n o u c o m o a
depende
que,
leitores,
radicalmente específico o
práticas próprias a cada c o m u n i d a d e de
l e i t o r e s (ou l e i t o r a s ) .
outros
A s s i m , não é possível caracterizar c o m o
necessário
r e c o n s t r u i r as c o m p e t ê n c i a s , a s t é c n i c a s , as c o n v e n ç õ e s ,
a
afortunados e mais letrados.
dos
impressos
da
cultura da oralidade? É necessário ser
p r u d e n t e na q u a l i f i c a ç ã o d o s d i f e r e n t e s
m o d e l o s de leitura q u e , t a m b é m eles,
c o m o o corpus
dos textos, podem
ser
comuns a diferentes meios.
que c o n s t i t u e m o repertório das livrarias
Mas é c e r t o q u e é s o m e n t e d e s l o c a n d o -
ambulantes,
se s o b r e
público
que
mais
editam, para
amplo,
textos
um
que
-
os usos e práticas,
história das leituras populares
a n t e r i o r m e n t e , o u n a q u e l e m o m e n t o -,
evitar
são difundidos
freqüentemente
sob
outras
formas,
as
armadilhas
que
a
poderá
nas
caiu ao tratar
quais
sem
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 3-12. jan dez 1995 - pag.9
p r e c a u ç ã o a o p o s i ç ã o entre p o p u l a r e
E m m e u l i v r o s o b r e as o r i g e n s c u l t u r a i s
letrado aplicada à circulação,
da
tamente f e c h a d a , d e corpus
supos-
de textos
revolução,
apresentei
alguns
argumentos que me parecem
impedir
c o n s i d e r a d o s c o m o p r ó p r i o s a tal o u tal
que se vincule, s e m u m a análise mais
público.
profunda, os leitores às correntes de
São esses
problemas que
procurei e n f o c a r n u m artigo
no p r i m e i r o n ú m e r o d a n o v a
brasileira
pensamento: por exemplo, a pluralidade
publicado
das
revista
significações
possivelmente
atribuídas a textos c o m vários registros;
Mana'.
Arquivo Nacional. O professor Robert Darnton
os limites da área social de circulação
vê a Revolução Francesa também como uma
dos libelos e o caráter efêmero de s u a
revolução
atualidade; a possibilidade de o leitor
literária, não apenas através dos
grandes textos iluministas, mas também pela
encontrar
literatura clandestina. A circulação de livros e a
todavia, dar crédito a seus e n u n c i a d o s ,
leitura de obras proibidas modificou as relações
ou a necessidade de n ã o considerar o
de poder? A burguesia leu os iluministas?
afastamento
resultado
Roger Chartier. O s trabalhos de Robert
linear e
superior à importância da divulgação e m
grande escala d o s textos
dessa noção, utilizada pelos livreiros, que
as o b r a s
de u m processo
o
talvez tivessem importância igual o u
Também
enfatizaram a composição bastante confusa
compreende
como
no s é c u l o XVIII, d e s e n v o l t a s e c r í t i c a s ,
dos 'livros f i l o s ó f i c o s ' n a s três últimas
Regime.
da monarquia
q u a l as n o v a s m a n e i r a s d e l e r s u r g i d a s
obras, mostraram a importância da circulação
do Antigo
na leitura s e m ,
c u m u l a t i v o . Daí a h i p ó t e s e s e g u n d o a
Darnton, e particularmente suas últimas
décadas
um prazer
Pareceu-me
dos filósofos,
subversivos.
necessário
chamar
a
e n c a b e ç a d o s p o r Voltaire, o s l i b e l o s e
atenção sobre todos esses pontos, a fim
panfletos políticos e as obras pornográficas,
de evitar q u e a t e s e c l á s s i c a d e M o r n e t ,
clássicas ou recentes.
que considera a ruptura
A partir dessas c o n s t a t a ç õ e s ,
como sendo
indis-
gação sempre
c u t í v e i s , p o d e - s e abrir u m d e b a t e s o b r e
mais ampla do Ilumi-
z i d a e m o u t r o corpus,
de textos q u e , s o b diferentes
o d o s 'livros filo-
sóficos', dotado da mesma eficácia sub-
f o r m a s , d e n u n c i a m o u d e s s a c r a l i z a m as
versiva que aquela atribuída,
autoridades tradicionais, e a transformação das representações
da divul-
nismo, não seja simplesmente reprodu-
os l a ç o s e x i s t e n t e s entre a l e i t u r a d e s s e
corpus
revolucionária
conseqüência
durante
muito tempo, aos textos d o s filósofos...
coletivas
que, e m 1 7 8 9 , torna admissível e aceita
Na e d i ç ã o
a ruptura r e v o l u c i o n á r i a .
sedição,
americana
de
Edição
e
muito mais desenvolvida do
Nota do Editor. O artigo a que se refere o autor intitula-se "Leituras, leitores e 'literaturas populares' na
Soc°r| dl urRJ
a
a
pag. 10. jan dez 1995
SCenCa
' ^
6
P a r t C
^
r e V
'
"'
S t a Ma
a
e d U a d a
P e
'° °9
F r
r a m a d
e
Pós-graduaçâo em Antropologia
K
V
que o texto original francês,
Robert
O
exigências
do pudor?
Quais
são os
Darnton que, diga-se de passagem, é u m
dispositivos que traduzem e m termos de
grande amigo - o que dá mais liberdade
modelos de conduta os cerceamentos
às p o l ê m i c a s i n t e l e c t u a i s -,
impostos
ponto por ponto a esses
responde
argumentos.
pelo
incremento
das
i n t e r d e p e n d ê n c i a s entre o s i n d i v í d u o s ?
C a b e , pois, ao leitor, j u l g a r a força e a
O
fraqueza da posição de cada u m .
ponto de partida d o trabalho de Elias,
Arquivo
sociólogo
senhor
lia
Nacional,
alemão
liorbert
vem estudando
ocorridas
na noção
como os livros
tidos
dificuldades
trabalhar
do
Elias,
as
o
alterações
de moralidade
bem
que entre os séculos
e XVIII descreviam
tamentos
esteira
os códigos
como
e
XVI
compor-
'civilizados'.
o senhomr
com esta
Que
encontrou
ao
corpus
dos tratados
de civilidade,
poderia ser retomado de outra maneira:
não
mais
buscando-se
neles
os
deslocamentos da fronteira entre o licito
e o proibido,
mas entendendo
sua
p l u r a l i d a d e e s e u s u s o s . Daí a ê n f a s e
sobre
as definições
antropológica,
concorrentes
cristã,
-
social,
r e v o l u c i o n á r i a e t c . - d a c i v i l i d a d e . Daí
t a m b é m a a t e n ç ã o d i r i g i d a às u t i l i z a ç õ e s
documentação?
pedagógicas
Roger Chartier. C o m o se s a b e , a o b r a
de Morbert Elias c o n s t i t u i , para m i m ,
dos tratados
divulgação 'popular'
Bibliothèque
e à sua
no repertório da
bleue.
uma referência teórica maior. Sinto-me
feliz e o r g u l h o s o
por ter c o n t r i b u í d o
Para m i n h a c o n t r i b u i ç ã o
ao
quarto
para t o r n á - l a m a i s c o n h e c i d a n a F r a n ç a ,
v o l u m e d a flistoire
ao prefaciar as t r a d u ç õ e s de quatro de
por A n d r é Burguière e J a c q u e s
seus livros
A
para Editions d u S e u i l , retomei u m d o s
et
textos,
la
primeiro manual da racionalidade da
sociedade
(A sociedade
de corte,
dos indivíduos,
distanciation
e Sport
Engagement
et civilization:
violence maitrisée - d e Elias e Eric Dunning).
M e u i n t e r e s s e p e l o corpus
d o s tratados
de c i v i l i d a d e , d e E r a s m o às c i v i l i d a d e s
revolucionárias, nasceu de uma questão
central c o l o c a d a pela grande tese de
Elias quanto ao d e s e n v o l v i m e n t o d o s
dispositivos
de
autocontrole
dos
indivíduos - que ele chama de 'processo
de c i v i l i z a ç ã o ' . C o m o
incorporação
pôde se dar a
de novas
comportamento,
que
normas
refreiam
do
a
e x p r e s s ã o d o s afetos e a u m e n t a m as
de la France,
designado
dirigida
Revel,
por Elias c o m o
corte, ou seja, a tradução
o
francesa,
atribuída a Amelot de la Houssaie, do
Oráculo
manualy
arte de prudência,
Qracián (1647). Tratava-se,
de
antes de
tudo, de c o m p r e e n d e r c o m o a t r a d u ç ã o
havia 'curializado' o texto (publicado e m
1 6 8 2 s o b o t í t u l o L'flomme
de cour) e
c o m o seus preceitos encontravam apoio
na teoria cartesiana d a s p a i x õ e s e suas
traduções em sentimentos e condutas
dos personagens da tragédia clássica.
Tradução de I ca Novaes.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. TI 1-2. p. 5-12. jan/dez 1995 - pag, 11
E n t r e v i s t a
O
c
o
m
D a r n t o n , q u e t e m tido
historiador
Roger Chartier
americano
um
R o b e r t
Desde
sacre
cado
dos gatos
no
1986,
seus
referência
aqueles
interlo-
mais
Revolução
publi-
ser
em
livros
como
consnesta
e n t r e v i s t a o fato
mas-
Brasil
seus
tantes, analisa
brasileiros.
O grande
de
cutores
Darnton é velho conhecido dos
a r n t o n
R o t e r t
revolução
da
Francesa
também
uma
literária.
têm
sido
fundamental
para
E, c o m b o m - h u m o r , aproveita
em
para b r i n c a r c o m C h a r t i e r q u e ,
interessados
e n t e n d e r o p a p e l d a literatura,
segundo
em
e s p e r a n d o o r e s u l t a d o de
especial
da
literatura
ele,
está
sempre
clandestina, no d e s m o r o n a m e n t o
pesquisas
do Antigo R e g i m e , na F r a n ç a .
suposições e conclusões.
suas
para q u e s t i o n a r s u a s
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p 13-18, jan/dez I995 pagl3
E
Arquivo Nacional,
rio prólogo
edição
L'Aventure de
francesa
de
l ' E n c y c l o p é d i e , Le Roy Ladurie
o sn,
Daniel
François
Roche,
Furet
diz que
do revisionismo
nário.
O sr. concorda
arquitetando uma Revolução
Os
dados
estatísticos
Industrial.
acerca dos
compradores individuais demonstraram
e
que o livro atraia especialmente os
mosque-
detentores de cargos na administração
prè-revolucio-
real, os oficiais do exército, o s nobres
Qerard
Qayot
são os quatro
teiros
da
com este
epiteto?
em geral e o s profissionais e m particular
Robert Darnton. U m d o s m u i t o s d o n s
- porém, não os comerciantes
de Le R o y L a d u r i e c o m o h i s t o r i a d o r é o
uns poucos
senso de humor. C h a m a n d o - n o s de o s
industriais. O s comentários nas corres-
quatro mosqueteiros d o revisionismo
pondências
ele estava fazendo u m a p i a d a ; p o r é m ,
50.000 delas, nos arquivos que estudei
brincando dessa maneira, ele pretendeu
- confirmaram esta impressão. A s provas
d i z e r algo d e s é r i o - o u s e j a , q u e , c o m o
qualitativas
historiadores sócio-culturais, nós todos
naram-se para proporcionar u m quadro
tínhamos apresentado
vivido de c o m o o Iluminismo
resultados que
e m Marseille)
(exceto
e nemos
dos livreiros
- e
e quantitativas,
havia
combi-
penetrou
eram incompatíveis c o m as interpre-
no tecido social d o Antigo Regime.
tações marxistas ortodoxas das origens
Creio q u e u m a história do livro desta
da Revolução Francesa. No m e u c a s o ,
espécie - u m a variante m o d e s t a , que
encontrei
envolveu longas horas de pesquisa e m
algumas
extraordinariamente
informações
ricas
sobre
produção e a difusão da
a
Encyclopédie
documentos originais - pode
informações
suficientes
fornecer
para
se
de D i d e r o t , a m a i s i m p o r t a n t e o b r a d o
construir uma sociologia rudimentar da
Iluminismo.
cultura e questionar pressuposições q u e
Descobri
quantos
exem-
plares do livro existiam na Europa antes
moldaram a história
de 1 7 8 9 , o n d e e r a m v e n d i d o s e q u e m
Porém, percebo que isso levanta u m
os comprava.
número de questões maior d o que as
Em decorrência, foi
sócio-cultural.
possível questionar um tema clássico na
que responde. Precisamos saber muito
historiografia marxista: a identificação
mais acerca d o m o d o pelo qual o s livros
do
eram lidos, de c o m o se formavam as
Iluminismo
industrializante.
Encyclopédie
com a
burguesia
Verifiquei
que a
vendia melhor e m cidades
atitudes
e como
ganhou
força
a opinião
na
Europa
pública
pré-
mais tradicionais, c o m o B e s a n ç o n , onde
revolucionária. Não defendo o empiri-
a Igreja e o parlement
c i s m o anglo-saxão simplista, n e m nego
(Suprema Corte)
davam o t o m e q u e o pior índice de
a
vendas
marxistas mais sofisticadas da ideo-
ocorria
em centros
manufa-
pertinência
de algumas
visões
tureiros, c o m o Lille, onde o s burgueses
logia, notadamente
dominantes
Qramsci ou de Lukacs o u do próprio
pag 14. jau/dez 1995
estavam
supostamente
as derivadas de
Marx.
O
V
K
Mão m e p r o p u s
a refutar
o
acordo c o m a fórmula prescrita por
marxismo. A o invés, procurei mapear a
R o u s s e a u e m Letter
d i f u s ã o d o l l u m i n i s m o . Mo e n t a n t o , e u
Camille Desmoulins, o incendiário do
não poderia ignorar a visão
clube
clássica
Cordelier,
to dAlembert
interrompe
costumeira
nunca tenha sido marxista, não levantei
escrever uma longa resenha d a primeira
objeções
apresentação da peça. Temos a versão
quando
'revisionista',
Le Roy o associou a m i m .
Quanto a ser u m mosqueteiro,
quem
política
sua
m a r x i s t a d o t e m a . E, e m b o r a e u m e s m o
ao termo
arruaça
e
para
de D e s m o u l i n s d a v e r s ã o d e F a b r e d a
versão
de Rousseau
da versão de
Infelizmente,
Molière d o conflito entre a c o n v e n ç ã o
sou apenas um professor universitário.
social e a austeridade m o r a l . Para a
dera que fosse verdade!
inocente visão americana, o assunto
Arquivo Nacional. O sr. afirma
Revolução
francesa
revolução
literária.
componente
literária
foi também
Qual seria o
de ruptura
do Antigo
que a
uma
principal
com a
produção
Regime?
todo
parece
surpreendentemente
literário e intensamente francês. O q u e
estava se passando?
A resposta a essa pergunta refere-se ao
caráter da literatura c o m o
ingrediente
lugar,
no sistema peculiar a o Antigo Regime e
devo explicar que não penso que a
ao papel d a literatura na d e s t r u i ç ã o
Revolução Francesa tenha sido 'apenas'
desse sistema durante a Revolução -
uma r e v o l u ç ã o literária. Tive a intenção
questões que pertencem à antropologia
de tornar a frase p r o v o c a d o r a .
tanto quanto à história o u à história d o s
Robert Darnton. E m p r i m e i r o
Porém,
agora q u e houve tamanho afastamento
livros, rigorosamente falando.
da história social e e c o n ô m i c a , eu
explorar essas questões mais profun-
ressaltaria aspectos d a Revolução que
damente e m uma pesquisa posterior, de
estão atualmente sendo negligenciados:
modo que não posso lhe apresentar
a destruição
u m a resposta rápida a q u i . Devo dizer,
dos liames sociais e
e c o n ô m i c o s q u e m a n t i n h a m a integri-
contudo,
dade do Antigo Regime como
proporciona
ordem
que a Revolução
Espero
Francesa
aos historiadores um
social. Dito isso, preciso admitir q u e
campo de pesquisas maravilhosamente
fiquei assombrado, quando
rico
procurei
e bem documentado,
no qual
de
p o d e m e s t u d a r u m p r o b l e m a g e r a l , algo
maneira nova, ao verificar os homens
que pode ser descrito c o m o a dimensão
de 1 7 8 9 e 1 7 9 4 t ã o p r e o c u p a d o s c o m
social d o significado - isto é, o m o d o
questões que pareciam ser tão literárias.
pelo qual as pessoas se a p e r c e b i a m d o
Mo á p i c e d o d e b a t e a c e r c a d a n o v a
sentido
constituição,
encarar
a Revolução
Francesa
do mundo,
confrontando,
Fabre
DEglantine re-
absorvendo e reelaborando os valores
e s c r e v e o Misanthrope
de Molière de
e as atitudes que haviam herdado de
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n* 1-2, p. 13-18. jan/dez 1995 - pag. 15
A
E
C
seus pais. No c a s o d o Antigo Regime n a
em segundo,
França,
do
no m a i s a m p l o s e n t i d o , o u s e j a , a q u e l a
ou (como
que envolveu a reconstrução social d a
privado,
realidade o u a dimensão d a significãncia,
o princípio organizador
s i s t e m a c u l t u r a l e r a o privilège
i n d i c a s u a raiz latina) o d i r e i t o
um direito particular para fazer
algo
negado a outros, e m contraste c o m o
direito geral, sistema no qual os direitos
legais i n c i d e m igualmente sobre todos.
Todas as indústrias culturais d a França
estavam
organizadas
em torno de
privilégios c o n c e d i d o s pelo rei antes d e
1 7 8 9 . Não s e p o d i a fazer grande carreira
n a m ú s i c a , n a arte d r a m á t i c a , n a s a r t e s
plásticas o u m e s m o nas ciências e n o
jornalismo sem gozar de alguma parcela
de u m p r i v i l é g i o
real.
O
privilégio
uma'revolução
cultural'
na m e d i d a e m q u e esta Ficou i n s e r i d a n o
dia-a-dia das pessoas comuns.
Arquivo Nacional. Em sua introdução
Edição e s e d i ç ã o , o sr. afirma que este livro
pode ser lido como resposta
pergunta
à
seguinte
feita por Daniel Mornet:
'O que
liam os franceses no século dezoito?"
as principais
dificuldades
Quais
encontradas
sr. ao estudar os hábitos
de leitura
pelo
daquele
século?
Robert
Darnton. A c h o
que alguns
dominava especialmente a indústria
'quais' relativos
editora, u m a vez que os livreiros
respondidos. Do mesmo modo,
e
a
a leitura podem ser
muitos
impressores tinham que pertencer a
dos 'ondes' e 'quandos'. O s 'porquês' e
uma corporação privilegiada, à qual se
'cornos', entretanto, s ã o diferentes. A
concedia um monopólio do comércio de
penetração
livros e os próprios
possuíam
pelos quais o s leitores entendiam os
antiga d o
sinais tipográficos é u m a tarefa q u e
privilégios,
copyright
livros
uma versão
nos processos
internos
(direito autoral). A r e v o l u ç ã o
parece freqüentemente situar-se fora d o
reescreveu as regras d o j o g o e m todas
alcance d a investigação histórica. Não
as indústrias d a c u l t u r a ,
tornando-as
obstante, um grande n ú m e r o de leitores
todas acessíveis
disputa do
deixou relatos sobre sua e x p e r i ê n c i a no
talento.
à livre
Ela transformou
intelectual; e como
a
vida
os intelectuais
s é c u l o XVI11: a n o t a ç õ e s n a s m a r g e n s ,
sublinhados,
cartas
particulares,
contribuíram consideravelmente para a
resenhas públicas e até m e s m o descri-
transformação da política e da ordem
ções
social, ela disseminou
ilustrações
para
os mais
sociedade.
repercussões
remotos
setores
da
Portanto, eu consideraria
normativas
porânea
transmitidas
e na literatura
sobre
a
'arte
em
contemde ler'.
Pesquisando-se sistematicamente atra-
dois aspectos d a ruptura produzida pela
vés deste material, podem-se
Revolução:
algumas noções aproximadas de c o m o
em primeiro
revolução dentro
lugar, u m a
da Revolução ou a
transformação d a s indústrias culturais;
pag.16. jan/dez 1995
os
leitores
duzentos
efetivamente
ou trezentos
anos.
formar
liam
há
Preciso,
O
V
R
todavia, admitir que muitos de nós se
conclusões.
preocuparam
ordem em meu argumento,
c o m este
problema
Então, eu devo
colocar
recuando
durante anos, s e m chegar a resultados
em alguns lugares, a v a n ç a n d o e m outros
claros, n o livro que acabo de concluir,
e planejando u m a nova estratégia para
The
um
forbidden
prerevolutionary
best-sellers
France,
of
procurei
ataque
a novas
fontes.
Agora
levar
atingimos esse estágio no q u e se refere
o problema para além do ponto onde o
ao problema d a leitura. Acredito ter
deixei
no livro m e n c i o n a d o
acima.
respondido à maioria das objeções de
Edição
e sediçáo,
que escrevi há vários
Roger e m u m a n o v a s e ç ã o , a parte 111
anos e m francês. Os dois livros são, n a
d e The forbidden
realidade, b e m diferentes, embora os
posso
assuntos sejam os mesmos, n o segun-
atribuo, certamente, qualquer
do, tentei responder
a algumas das
dade 'unilinear' à leitura. Ao invés,
objeções levantadas sobre o primeiro,
procuro compreender a literatura c o m o
notadamente
parte
por Roger Chartier, que
best-sellers,
prever novas
de
um
porém j á
objeções. não
sistema
causali-
geral
de
aceitou minhas descobertas acerca da
c o m u n i c a ç ã o , no qual os livros
difusão da literatura sediciosa, porém
apenas u m dos numerosos m e i o s e as
contestou
mensagens transmitidas pelos
minha conclusão de que a
eram
livros
l i t e r a t u r a f o s s e d e fato s e d i c i o s a . A f i n a l ,
eram somente u m dos ingredientes na
disse ele, c o m o podemos saber de que
mistura de elementos que constituía a
modo eram lidos esses livros? Talvez
opinião pública. Certamente,
fossem
de
pública é, hoje e m d i a , u m conceito
diversão, e talvez as atitudes sediciosas
incerto, sendo especialmente difícil de
tivessem outra origem
entender c o m o u m a força e m ação há
meramente
u m a fonte
completamente
diferente?
opinião
duzentos o u trezentos anos atrás, n ã o
também
obstante, penso ser a documentação
Acervo,
suficientemente rica para se identifica-
de ouvir suas
rem os veículos e as mensagens que
opiniões e m maior extensão. Ele e eu
fluíam através deles na França, na déca-
realizamos u m debate amistoso
da de 1780. Deve, portanto, ser possível
Uma
vez que Roger
está
participando desta edição de
teremos a oportunidade
sobre
estas q u e s t õ e s durante muitos anos e
reconstruir
eu espero q u e ele c o n t i n u e , porque tão
franceses entendiam os eventos, b e m
logo e u saio d o s arquivos, c o m os olhos
c o m o a seqüência dos próprios eventos.
brilhantes e entusiasmado por aquilo
Para a s s i m s e proceder, será n e c e s s á r i o
que considero c o m o sendo descobertas
integrar a história d a leitura e m u m a his-
importantes,
tória mais a m p l a d a c o m u n i c a ç ã o : é esta a
difíceis
sobre
raciocínio
Roger
faz
perguntas
as s u p o s i ç õ e s
implícitos
em
ou o
minhas
a maneira pela qual os
principal dificuldade e a principal tarefa que
me propus para os p r ó x i m o s anos.
Acervo. Rk> de Janeiro, v. 8, n* 1-2. p. 13-18, jan/dez 1995 pai] 17
Arquivo
clandestina
inclui
panfletos
pensa
retrospecto, a Bastilha s ó detivesse sete
políticos,
p r i s i o n e i r o s e m 14 d e j u l h o d e 1 7 8 9 e
O sr.
Luís XVI nada mais desejasse d o q u e o
destes
livros
bem-estar de seus súditos. Precisamente
da sedição
para
1
textos
e crônicas
indecorosas.
que a circulação
possibilitou
a
literatura
Nacional.
a transição
Robert Darnton. A r e s p o s t a b r e v e à s u a
pergunta seria s i m . U m a resposta mais
longa nos levaria a aprofundar-nos na
área q u e acabo d e descrever
como a
história d a comunicação. Teríamos q u e
estudar canções, impressos,
e
este
quadro interpretativo e c o m o o usaram
revolução?
boatos
como os franceses construíram
todas
as
graffiti,
espécies
de
para entender os eventos e m 1 787-1 7 8 8
é u m a história q u e nunca foi contada.
Penso que essa história irá fornecer a
explicação básica de como a França
mudou
de um estado
de
sedição
incipiente para u m d e r e v o l u ç ã o aberta.
Quer
possa
ou
não impor
esse
mensagens difundidas através de todos
argumento, espero ter dito o bastante
os
final,
para demonstrar q u e a história d o livro
produzir um gigantesco
t e m u m rigor p r ó p r i o , q u e e x i g e t r a b a l h o
tipos
de
poderíamos
quadro
veículos.
de tudo
No
que era lido,
dito,
árduo
sobre
questões
tratáveis em
cantado e visto acerca d o s assuntos
fontes
públicos
período pré-
t a m b é m se abre sobre as q u e s t õ e s mais
revolucionário. Porém, apesar de toda
amplas da história e m geral. A o invés
a sua complexidade,
de p r o p o r c i o n a r
durante
painel ilustraria
decadência
e
o
acho q u e este
um único
o
tema: a
os
Contudo,
u m canto seguro
especialistas,
ela
para
ela oferece uma
Os
p o s i ç ã o e s t r a t é g i c a a partir d a q u a l p o d e
franceses acreditavam q u e seu estado
ser investigada toda a c o m é d i a humana.
estava degenerando
embora,
como
pag.18. jan/dez 1995
despotismo.
especificas.
em despotismo,
agora
sabemos em
Tradução de Mariana Erika tleynemann.
Luiz Carlos Villalta
Professor assistente d a Fundação Universidade Federal de Ouro Preto. Doutorando e
Mestre e m Ciências (História Social) pela Universidade de São Paulo.
O s c l é r i g o s e os l i v r o s nas
C l i m a s G e r a i s d a segunda
m e t a d e cio s é c u l o X V I I I
A
'sociologia histórica ?
Numa
das
examinaremos
práticas
leitura',
de
segundo
primeira
autores
a
etapa,
que títulos e
Igreja
católica
Roger Chartier, move-se e m m e i o
procurava d i s s e m i n a r entre os
à tensão operatória
clesiásticos e q u e lugar
estabelecid
entre, de u m lado, o poder que o texto
ocupavam como
estes
proprietários de
p u b l i c a d o (e/ou d a q u e l e s q u e e s t ã o p o r
bibliotecas na França, e m Portugal e, e m
trás dele) p r o c u r a e x e r c e r s o b r e o l e i t o r
s e g u i d a , n a s G e r a i s d o s é c u l o XVIII.
e, d e o u t r o , a l i b e r d a d e e a inventividade
Depois,
do leitor na p r o d u ç ã o de sentidos no
pertencentes
contato c o m os textos .
período,
1
Neste
artigo
analisaremos
bibliotecas
a clérigos mineiros do
submetendo
dados
p r o c u r a m o s averiguar c o m o esta t e n s ã o
referentes
se m a n i f e s t o u e m relação a u m grupo e s -
autores, títulos, língua e m que foram
p e c i a l d e leitores: o s c l é r i g o s d a s G e r a i s
escritas as obras, assuntos e preços) a
do
um
século
XV11I,
em sua
maioria
aos livros
os
tratamento
(nomes
dos
quantitativo,
p e r s o n a g e n s n o t á v e i s ; alguns p e l o s car-
identificando regularidades entre as
gos
diversas
que o c u p a r a m , outros
por seu
envolvimento na C o n j u r a ç ã o Mineira.
livrarias e descobrindo
os
traços singulares de cada u m a delas.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« l -2, p. 19-52, jan/dez 1995 • pag. 19
E
C
A
Explicaremos
as
recorrências
e
Mas e s t a p o r c e n t a g e m e s t a v a a b a i x o d a
apresentada
pelos
escrivães
correlacionando-as ao estado sacerdotal
bibliotecários
(100%)
e
e, q u a n d o
(75%), e se igualava a d o s advogados
especificidades
das
bibliotecas
possível, à biografia dos
clérigos que eram seus
proprietários:
suas idéias, seus comportamentos
seus escritos. C o m isso,
e
verificaremos
(também
62%) .
Os
3
portugueses
eclesiásticos
perfaziam
proprietários privados
e
professores
5 4 % dos
de bibliotecas
como a composição das livrarias, e m
que discriminaram s u a o c u p a ç ã o ao
suas divisões por assunto e e m suas
e n c a m i n h a r e m listagens de livros à Real
peculiaridades, associava-se à trajetória
Mesa Censória, criada e m 1768. Depois,
pessoal de seus
v i n h a m a q u e l e s q u e se o c u p a v a m c o m
estado clerical.
proprietários
De u m l a d o ,
e ao
relacio-
naremos a prática e o discurso político
dos m i n e i r o s ao u n i v e r s o literário e, de
outro,
observaremos
se os
livros
anularam ou reforçaram as normas
coletivas,
sociais
hegemônicas,
de
(e
não
legais),
comportamento
sexual. Desse modo, avaliaremos e m
que m e d i d a o s livros influenciaram as
condutas políticas e sexuais - o u , ao
menos, se n ã o o fizeram - e se os
clérigos inconfidentes se diferenciavam
dos demais.
q u e s t õ e s d e direito*.
Mas c i d a d e s d o O e s t e d a F r a n ç a , a s
bibliotecas eclesiásticas, entre o final do
século
XVII
e
os
anos
de 1 7 8 0 ,
p a s s a r a m de e n t r e 2 0 e 5 0 v o l u m e s c a d a
u m a para entre 100 e mais d e 3 0 0 . n a s
5
listas de livros d o s padres
portugueses,
a divisão entre as línguas, e m ordem
decrescente,
era: português,
latim e
espanhol, aparecendo mais raramente,
nos casos de obras
de literatura,
o
francês e o italiano , nas bibliotecas
6
clericais da capital francesa, entre 1765
Os c l é r i g o s e os livros na França e
e 1790, houve um recuo do latim, que
passou de 4 7 % para 2 7 % .
7
em Portugal no s é c u l o XVIII
O s c l é r i g o s o c u p a v a m lugar d e d e s t a q u e
nas listagens enviadas pelos
entre os p o s s u i d o r e s de bibliotecas na
portugueses
F r a n ç a e e m P o r t u g a l d o s é c u l o XV11I.
predominavam, em ordem decrescente,
Mas c i d a d e s d o O e s t e f r a n c ê s , n o s é c u l o
os seguintes tipos de livros:
XVIII, e m 3 3 , 7 % d o s i n v e n t á r i o s
havia
obras religiosas, místicas e hagiológicas
pelo
livro,
e sermões; depois, títulos de teologia;
enquanto e m Paris, no d e c ê n i o de 1 7 5 0 ,
em s e g u i d a , de história; e, p o r f i m , d e
esta cifra baixava
l i t e r a t u r a , n a Paris d o s é c u l o XVIII, a
menos
referência
a um
para 2 2 , 6 % .
2
ria
à Real Mesa
clérigos
Censória,
primeiro,
8
capital francesa, na segunda metade do
história rivalizava
s é c u l o XVIII, 6 2 % d o s i n v e n t á r i o s d e
tanto e m Paris c o m o nas p r o v í n c i a s d a
eclesiásticos faziam menção a livros.
França,
pag.20.jan/dez 1995
c o m a teologia. E
as b i b l i o t e c a s
dos
padres
R
v
possuíam
certa
homogeneidade,
resultante da uniformização
provocada
o
Real Extração: três, de u m total de sete,
possuíam livros. Todos os inventariados
pelos regulamentos dos Seminários e
que tinham bibliotecas eram brancos e
pelas recomendações das autoridades
doze deles, portugueses . Em Mariana,
eclesiásticas c o m o objetivo de tornar
os índices de posse de livros entre o s
os
clérigos
clérigos
mais
instruídos
e
10
eram
mais
baixos
que no
disciplinados. A s s i m , a livraria de um
Tejuco. Consultamos 128 inventários de
'bom cura' continha a Bíblia; os comen-
p a d r e s , d e u m total d e 1 7 4 e x i s t e n t e s
tários das homílias feitos pelos padres,
no arquivo
principalmente
são Tomás
da Casa Setecentista de
e sào
Mariana, referentes ao p e r í o d o que se
Bernardo; obras de teologia moral; o
e s t e n d e d o s é c u l o XVI11 a m e a d o s d o
Catecismo
XIX. D o s 1 2 8 , 4 0 m e n c i o n a m l i v r o s , i s t o
do Concilio
de Trento, d e s ã o
Carlos Borromeu; catecismos franceses
é, 3 1 , 2 % dos inventários
e livros de e s p i r i t u a l i d a d e , tais c o m o
(ou
Imitação
peca-
universo unicamente aos inventários do
Introdução
s é c u l o XVIII c o n s u l t a d o s n o a r q u i v o d a
de Jesus
Cristo,
Guia dos
dores, d e L o u i s d e Q r a n a d e e
à vida devota,
de Francisco de Sales .
quase
investigados
1/3). R e s t r i n g i n d o - s e
o
Casa Setecentista e também no arquivo
9
eclesiástico da Arquidiocese de Mariana,
A p o s s e de l i v r o s nas Ninas da
Colônia:
o lugar
do
clero
e
a
ortodoxia
a cifra permanece quase inalterável: de
u m total d e 1 7 , e n c o n t r a m o s b i b l i o t e c a s
e m s e i s , i s t o é , e m m a i s d e 1/3. N o s
São p o u c o s os dados sobre a situação
seqüestros dos bens dos eclesiásticos
dos clérigos de Minas Gerais, face a
mineiros
outros grupos sociais, quanto à posse
Inconfidência,
de livros. Há m a i s i n f o r m a ç õ e s
superior,
como
essa se distribuía
sobre
dentro
do
que
participaram
temos
uma
mas eles talvez
representativos
do
da
marca
não sejam
conjunto
próprio corpo eclesiástico. Livros foram
eclesiásticos:
a r r o l a d o s e m 14 i n v e n t á r i o s , d e u m total
seqüestros, mencionam bibliotecas. Os
de 6 6 , n o distrito d o s D i a m a n t e s , d o
índices de posse de livros entre clérigos
f i n a l d o s é c u l o XVIII e i n í c i o d o X I X - o
d o T e j u c o e d e M a r i a n a d o s é c u l o XV1U
que corresponde, portanto, a cerca de
e i n í c i o d o X I X (1/2 e 1/3), p o r t a n t o ,
1/5 d o s i n v e n t á r i o s . S e i s p a d r e s t i v e r a m
colocam os clérigos das Gerais bem
seus bens inventariados
a b a i x o d a s c i f r a s v e r i f i c a d a s entre s e u s
e três
deles
três, dentre
dos
os cinco
p o s s u í a m b i b l i o t e c a s , d o q u e se c o n c l u i
colegas de ofício parisienses (quase 2/3).
que metade deles tinha livrarias e q u e
Observamos
o s m e s m o s s o m a v a m c e r c a d e 1/5 d o s
n ú m e r o d e v o l u m e s , entre as b i b l i o t e c a s
proprietários de livros. Rivalizavam c o m
de clérigos de Minas Gerais e da França.
os padres os funcionários graduados da
As
três
diferenças,
bibliotecas
quanto
clericais
ao
de
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995 - pag.21
?
A
C
E
0
Diamantina compunham-se por 15, 3 5
comentador das escrituras e historiador
e 9 0 v o l u m e s " , n ú m e r o s estes menores
d a Igreja; L u c i F e r r a r i s , t e ó l o g o ; C l a u d i
do que o s mais baixos encontrados na
F l e u r y , h i s t o r i a d o r d a Igreja, c l á s s i c o n a
França na m e s m a época (100 volumes).
segunda
Em Mariana, o s c i l a v a - s e entre
A n a c l e t o , d i c i o n a r i s t a e c a n o n i s t a (?);
42 e
metade do século
XV111 ;
16
1.056 volumes - caso extremo d a livraria
Giuseppe
do
eclesiástico; são Pedro Crisogno;
bispo
d o m frei
Domingos
da
Agostino
Orsy,
historiador
o
Encarnação Pontevel, muito distinto d o
jesuíta
'mais de 3 0 0 ' válido para as cidades d o
T o u r n e l y , t e ó l o g o ; Tetri L u d o v i c i D a n i s ,
Oeste
francês. J á entre os clérigos
teólogo; Jacobi Pignatelli, canonista; e
inconfidentes, a variaçào ia de 105 a
autores clássicos c o m o Quintiliano e
6 1 2 v o l u m e s , algo mais p r ó x i m o do
Sèneca.
Vincent
Houdry
Encontramos
1 7
;
Honorati
títulos
sem
encontrado na França.
m e n ç ã o a s e u s a u t o r e s : Teologia
Em Minas Gerais, o acervo da biblioteca
e Conferências
do Seminário de Mariana, fundado por
primeiro, s u p o m o s tratar-se de Petrus
d o m frei M a n u e l d a C r u z , p r i m e i r o b i s p o
Collet,
diocesano,
em 1748, em explícita
obediência
às
determinações
morais.
cujo
livro
moral
No caso do
Teologia
moral,
utilizado c o m o manual nos Seminários,
antes e depois da Revolução F r a n c e s a ,
1 8
tridentinas e c o m o beneplácito régio,
era um dos clássicos estudados
guarda
bispado de Mariana . Outros
semelhanças
prescritos
pelas
eclesiásticas
envolvia
s
na
livros
autoridades
autores
1 9
p r o v á v e i s e r a m : o papa Benedito XIV; o
França.
Indica,
teólogo capuchinho Jayme Corella; os
que a ortodoxia
católica
t e ó l o g o s T h o m a Francisco Rotario, Petro
livros de rituais, breviários,
P o l o , P a o l o S i g n e r i , J o s e p h i Ignati C l a u s
sobretudo,
1 2
c o m os
no
Constituições
arcebispado
primeiras
da Bahia,
do
de d o m Sebastião
e Josephi Mansi; os comentadores dos
evangelhos
Francisco
de
Jesus
Monteiro da Vide e autores c o m o : o
Sarmento e Cornélio Corneli; o ilustrado
dicionarista e padre Rafael de Bluteau;
Bento J e r ô n i m o Feijó; os dicionaristas
Paul-Gabriel Antoine, escolhido
como
R. P. R i c h a r d e J o a n n i s P o n t a s ; P y r r c h i
propagandista
papa
Corradi; os padres Manuel Bernardes e
Concina,
Manuel Madeira de Sousa. Na biblioteca
teólogo recomendado pelas autoridades
do Seminário, a i n d a , se e n c o n t r a v a m o s
eclesiásticas
t í t u l o s Alcobaça
Benedito
XIV
oficial
1 3
;
de
pelo
Daniello
então
Besombes e Laurenti
;
Jacobi
Berti,
também
teólogos; santo Afonso
1 4
de Ligório,
ilustrada,
e c l e s i á s t i c a ; Introdução
de história
ao
sacerdócio
ou instruções
eclesiásticas;
t e ó l o g o d o s é c u l o XVIII, c a r a c t e r i z a d o
theologicus
et moralis,
por s u a b e n e v o l ê n c i a e m relação a o s
Salmanticensis
(Universidade
p e n i t e n t e s ; Natalis Alexandre, t e ó l o g o ,
Salamanca),
onde
15
pag.22. jan/dez 1995
de
e o
do
o
Cursus
Collegy
de
Supremo
V
o
Tribunal d a Inquisição d o s Reinos de
que fossem virgens e pudicas, às quais
E s p a n h a m a n d a r a r i s c a r , n o t o m o V,
o acesso seria facultado algumas vezes.
tratado XI, n ú m e r o 1 8 5 , u m a passagem
nada ortodoxa
da qual se poderia
deduzir que deus permitiria as relações
sexuais, até m e s m o violentas, c o m as
mulheres, s e m restrição n e m m e s m o às
Livrarias c l e r i c a i s nas Gerais do
século
XVIII:
similitudes
e
diversidades
As
bibliotecas
a serem
analisadas
Raynal, GulllaumeThomas F r a n ç o i s . Historie phllosophlque et polltique des etablissemens
et d u commerce des e u r o p é e n s dans les deux Indes. Paris: Amable caster et c i e , Ubraries
É d l t e u r s , 1800. Tomo 10.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n' 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995-pag.23
possuíam tamanho
(tabela
I).
Do
bastante
lado
distinto
dos
clérigos
Concilio
Tridentino,
que
podem
tanto as atas do C o n c i l i o de
ser
mesmo
inconfidentes, a maior biblioteca era a
nome,
do
a u t o r e s q u e se d e d i c a r a m a o e s t u d o d o
cõnego
Luiz
compreendendo
volumes.
da
Silva,
279 títulos
Vieira
e 612
Em s e g u i d a , v i n h a m as
do
como
dos
diferentes
assunto; em quatro delas.
geográfico,
Dicionário
provavelmente
padre Manuel Rodrigues da C o s t a , c o m
d i s t i n t o s , as
73 obras e 2 1 2 volumes; e do
Portugal,
padre
livros
Ordenações
Examen
de
autores
do Reino de
ecclesiasticum
e as
Carlos C o r r e i a de T o l e d o , c o m 5 8 obras
Constituições
e 1 0 5 v o l u m e s . D e n t r e as b i b l i o t e c a s
de d o m Sebastião Monteiro da Vide; e m
d o s o u t r o s e c l e s i á s t i c o s , a d e d o m frei
três livrarias,
Domingos
Caderno
2 0
bispo
da E n c a r n a ç ã o
de
Mariana
Inconfidência,
à
era
compreendendo
Fontevel ,
2 1
época
a
do arcebispado
de
Brasília
santos
da
Bahia,
pontifícia
novos,
e
além
de
da
missais e de livros de c e r i m o n i a i s .
Os
maior,
autores mais freqüentes, também
em
412 títulos e
1.056
ordem
decrescente,
são:
em
sete
v o l u m e s , estando bastante à frente da
livrarias, Francisco Larraga, c o m
livraria do c õ n e g o Vieira da Silva
Prontuário
2 2
. Em
de teologia
moraP ;
seu
em cinco
0
o r d e m d e c r e s c e n t e de n ú m e r o d e o b r a s ,
delas,
v i n h a m as s e g u i n t e s b i b l i o t e c a s : a d o
comentários
cõnego J o ã o Rodrigues Cordeiro,
sermões; em quatro bibliotecas, o padre
com
67 obras e 76 v o l u m e s ; a do cõnego
2 3
o padre
do
126 volumes *; a do padre
teólogos
Francisco
com
futuro
e Sermões,
Laurenti
seus
os evangelhos
A n t ô n i o V i e i r a , c o m s u a s Cartas,
J o ã o Botelho Borges, c o m 64 títulos e
2
Silveira,
sobre
História
Bossuet
Berti
e
e
e
os
Jacob
Alves, com 37 obras e 48 v o l u m e s ; a
B e s o m b e s ; em três livrarias, são T o m á s
d o b i s p o d o m frei M a n u e l d a C r u z , c o m
de A q u i n o , o padre M a n u e l B e r n a r d e s ,
36 títulos e 79 volumes ,- a do
c o m Piova floresta,
2 5
26
padre
o comentador
das
J o ã o Ferreira de S o u z a , c o m 27 obras e
escrituras e teólogo Francisco de J e s u s
62 v o l u m e s
Sarmento,
de
Souza
e a do padre J o s é Teixeira
2 7
2 8
,
com
24
obras
e
42
volumes .
Alguns títulos repetem-se, c o m maior ou
menor intensidade, nessas dez livrarias.
títulos
o
canonista
teólogo
e
Ludovici
canonista
Bartholomaei Qavant, o poeta italiano
2 9
Os
nogueira,
o
e
encontrados,
tipos
de
em ordem
livros
decrescente,
s ã o : e m s e t e l i v r a r i a s , a Bíblia
Concordância,
em edições e
d i v e r s a s ; e d i f e r e n t e s breviários;
bibliotecas,
pag.24. jan/dez 1995
obras
mais
e
sua
línguas
em seis
denominadas
Aurélio Bertola Qiorgi, com suas
noites
clementinas
papa
(homenagem
ao
C l e m e n t e XIV, q u e s u p r i m i u a S o c i e d a d e
de J e s u s ) , o t e ó l o g o Danielo C o n c i n a ,
3 1
Carlos
Catecismo
Joaquim
Colbert,
de fiontpelier,
Cambacere,
com
seus
com
seu
Petrus Collet,
Sermões,
e
Francisco J o s é Freire, tratadista poético
R
O
V
p o r t u g u ê s . A f r e q ü ê n c i a d e tais t í t u l o s ,
Vieira
tipos
predominavam
de livros e autores
mostra a
da Silva, as ciências
sobre
as
ressonância d a o r t o d o x i a católica, pois
profanas,
eles, e m grande parte, c o i n c i d e m c o m
( t a b e l a I e g r á f i c o I): o p a d r e F r a n c i s c o
os r e c o m e n d a d o s
Alves não possuía n e n h u m a obra de
pelas
autoridades
em diferentes
sacras
ciências
eclesiásticas e c o m aqueles encontrados
ciências
na b i b l i o t e c a d o S e m i n á r i o d e M a r i a n a .
possível classificar 3 3 d o s 3 7 títulos que
As s i m i l i t u d e s entre as b i b l i o t e c a s
lhe p e r t e n c i a m e n t r e a s c i ê n c i a s s a c r a s ,
verificam-se também na distribuição dos
que somavam, portanto,
livros
obras ( n ã o c o n s e g u i m o s classificar as
pelos
assuntos
lnspirando-nos
e
línguas,
no trabalho de Evelyne
quatro
profanas,
proporções
tendo-nos
restantes).
sido
8 9 , 2 % das
Entre os outros
Picard , classificamos os livros e m dois
clérigos
grandes
c i ê n c i a s s a c r a s e*
participação das ciências sacras oscilava
ciências profanas. O primeiro conjunto
entre 8 5 , 2 % (23 obras e 4 9 volumes),
foi s u b d i v i d i d o
santa,
situação
e
Ferreira de S o u z a , e 3 2 , 8 % (22 obras e
3 2
conjuntos:
e m : escritura
compreendendo
a
Bíblia
os
não-inconfidentes,
da livraria
volumes),
do padre
a
João
c o m e n t á r i o s q u e s o b r e e l a se f i z e r a m ;
31
caso da biblioteca do
p a d r e s d a Igreja, r e f e r e n t e a o s e s c r i t o s
cônego Cordeiro - não nos foi possível
dos
teologia,
classificar 4 2 livros desta biblioteca, de
i n c l u i n d o aí o s l i v r o s d e t e o l o g i a m o r a l ;
u m total d e 6 7 , d e v i d o à a u s ê n c i a d o s
história sagrada; cânones;
nomes
primeiros
padres;
liturgia,
subdivisão e m q u e se s o m a m os livros
especificamente
litúrgicos,
os
dos seus autores
e de seus
t í t u l o s n o i n v e n t á r i o , fato q u e e x p l i c a a
baixa
cifra das ciências
sacras. As
catecismos, os textos de oratória sacra,
ciências profanas, inversamente, nâo
manuais de confissão, breviários, obras
ultrapassavam a marca de 1 9 , 2 % (79
d e v o c i o n a i s e s e r m õ e s ; e, f i n a l m e n t e ,
obras
dicionários.
sacerdotes,
O grupo
das ciências
profanas foi assim dividido:
geografia;
retórica; história; dicionário;
literatura
e
208 volumes)
cifra
entre
essa atingida
não
sucedia
entre
os
inconfidentes:
e ciências físicas e naturais.
tinha mais obras de ciências
obras receberam dupla
classificação,
na
biblioteca do bispo Pontevel. O m e s m o
e gramática; filosofia; política; direito;
Algumas
tais
clérigos
o c ô n . Vieira da Silva
profanas
que de ciências sacras ( 5 2 , 7 %
versus
pois c a b i a m e m mais de u m a seção
3 5 , 5 % o u , em termos absolutos, 147
simultaneamente.
o b r a s e 3 2 9 v o l u m e s versus 9 9 o b r a s e
Os
resultados
e n c o n t r a m - s e r e u n i d o s n a s t a b e l a s 1, II
236 volumes),
e os demais,
embora
e III, e n o s g r á f i c o s I, II e III.
p r i v i l e g i a s s e m as ú l t i m a s , n ã o o f a z i a m
Mas b i b l i o t e c a s c l e r i c a i s , c o m e x c e ç ã o
na m e s m a p r o p o r ç ã o q u e o s p a d r e s n ã o -
da pertencente a o c ô n e g o
inconfidentes:
inconfidente
nas bibliotecas dos
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 19-52. Jan/del 1995 pag 25
A
C
E
padres Carlos Toledo e Manuel Costa,
(17 o b r a s e 2 9 v o l u m e s ) . I s s o d e v i a s e r
as
um reflexo, no caso do bispo Pontevel,
ciências
profanas
atingiam,
r e s p e c t i v a m e n t e , 2 9 , 3 % (17 o b r a s e 19
de s u a a t u a ç ã o c o m o p r o f e s s o r
volumes)
teologia, e m P o r t u g a l , e, no c a s o d o
e 2 7 , 4 % (20 obras
e 54
de
3 3
volumes) - cifras m a i s ' e l e v a d a s que os
cônego,
1 9 , 2 % da biblioteca do bispo Fontevel -
a t i v i d a d e s a d m i n i s t r a t i v a s n a Igreja - e l e ,
e as c i ê n c i a s s a c r a s 6 3 , 8 % (37 o b r a s e
d e s d e 1 7 7 1 , foi c o m i s s á r i o d a
81 v o l u m e s )
T e r c e i r a ' d e S ã o F r a n c i s c o , e, a p a r t i r d e
e 4 1 % (30 obras e 128
volumes),
respectivamente.
de
seu
envolvimento
em
Ordem
nos
1 7 8 3 , n a c o n d i ç ã o d e c ô n e g o d a Sé d e
s e q ü e s t r o s d o s b e n s d o p a d r e C o s t a , 15
Mariana, tornou-se m e m b r o do cabido
livros não tiveram seus títulos e seus
d i o c e s a n o . Para a igualdade n u m é r i c a
autores
maior
das seções de liturgia e história sagrada,
participação das ciências profanas nas
na livraria do b i s p o Manuel da Cruz,
livrarias dos padres inconfidentes
pesaram dois livros sobre a história da
mencionados.
A
é,
3 4
certamente, indicio da maior amplitude
ordem cisterciense, à qual o
alcançada
estava estreitamente
pelos
interesses
clérigos, mais atentos aos
desses
problemas
profanos.
Mas b i b l i o t e c a s , d e n t r e
chegado
prelado
ligado,
tendo
à c o n d i ç ã o de mestre
dos
n o v i ç o s no m o s t e i r o de A l c o b a ç a , e m
as
ciências
Portugal .
33
s a c r a s ( t a b e l a II e g r á f i c o II), o p r i m e i r o
Mas d e m a i s b i b l i o t e c a s , a
lugar c a b i a à s e ç ã o d e l i t u r g i a , v a r i a n d o
p o s i ç ã o , d e n t r e as c i ê n c i a s s a c r a s , e r a
entre 1 2 , 3 % (9 o b r a s e 2 6 v o l u m e s ) , n a
ocupada
livraria do padre Manuel C o s t a , e 6 7 , 6 %
teologia encontrava-se
(25 o b r a s e 3 2 v o l u m e s ) , n a d o p a d r e
lugar nas livrarias do padre
Francisco Alves, composta basicamente
Costa (10,9%, 8 obras e 36 volumes),
por
diferentes
segunda
seções.
em
A
segundo
Manuel
p o r s e r m õ e s (21 o b r a s ) . A s e x c e ç õ e s
do cônego Cordeiro ( 7 , 5 % , 5 obras e 5
eram as livrarias do b i s p o M a n u e l da
v o l u m e s ) , d o p a d r e T o l e d o ( 1 7 , 2 % , 10
Cruz, em que a liturgia compartilhava
obras e 22 volumes) e do padre Alves
d o p r i m e i r o lugar c o m a h i s t ó r i a s a g r a d a
(10,8%, 4 obras e 4 volumes).
( 1 3 , 9 % e 11 o b r a s ) , a d o b i s p o P o n t e v e l ,
bibliotecas dos padres J o ã o Souza e
em que esta posição era o c u p a d a pela
J o s é Souza, teologia e cânones dividiam
t e o l o g i a ( 1 4 % , 5 8 o b r a s e 191 v o l u m e s )
a
segunda
posição,
Mas
com,
e a do cônego Vieira da Silva, e m que a
respectivamente, 7 , 4 % e 8 , 3 % (duas
primazia pertencia aos cânones (7,9%,
o b r a s ) . Mas l i v r a r i a s d o b i s p o M a n u e l d a
2 2 o b r a s e 51 v o l u m e s ) . Mestas d u a s
Cruz e do cônego Borges, o
últimas bibliotecas, a liturgia estava em
lugar
s e g u n d o lugar, r e s p e c t i v a m e n t e ,
com
c â n o n e s , r e s p e c t i v a m e n t e c o m 1 1 , 1 % (4
1 1 , 4 % (47 o b r a s e 1 0 7 v o l u m e s ) e 6 , 1 %
o b r a s e 4 v o l u m e s ) e 7 , 8 % (5 o b r a s e 6
pag 26. jan/dez 1995
era
ocupado
pela
segundo
seção
de
R
V
O
volumes).
O destaque
relativo dos
Mas c i ê n c i a s
cânones,
nessas
bibliotecas,
g r á f i c o III), a p r i m a z i a e r a c o n c e d i d a à
profanas
(tabela
III e
relacionava-se aos cargos exercidos por
literatura,
seus proprietários: de bispo, por d o m
demais
frei M a n u e l , e d e c õ n e g o , p r o v i s o r d o
c o m p a r t i l h a n d o o primeiro lugar c o m
bispado e vigário geral da Vara, por
algumas delas. O cõnego Borges e o
B o r g e s . Mas l i v r a r i a s d o b i s p o P o n t e v e l
padre
e do cõnego Vieira da Silva, a história
e x c e ç õ e s . Entre e s s e s o d e s t a q u e c a b i a ,
sagrada não era de todo
esquecida,
r e s p e c t i v a m e n t e , às s e ç õ e s d e d i r e i t o ,
respectivamente, 3 , 8 %
c o m 7 , 8 % (5 o b r a s e 8 v o l u m e s ) , e
(16 o b r a s e 7 3 v o l u m e s ) e 3 , 9 % (11
f i l o s o f i a e h i s t ó r i a , c o m 3 , 7 % ( u m a obra)
obras
cada uma - a excepcionalidade
36
constituindo,
e 28 volumes)
do total dos
acervos.
Mas
que estava à frente das
seções
João
nas bibliotecas
Souza
eram
ou
as únicas
da
situação do direito na biblioteca do
bibliotecas
dos
clérigos
cõnego
Borges
vinculava-se,
inconfidentes havia u m traço singular:
provavelmente, ao exercício de cargos
a s e ç à o d e t e o l o g i a v i n h a l o g o atrás d a
judiciais pelo m e s m o . A s s i m , a literatura
de l i t u r g i a , e s t i v e s s e e s t a n a p r i m e i r a o u
o s c i l a v a entre 2 , 8 % ( u m a o b r a e d o i s
na s e g u n d a c o l o c a ç ã o ( c a s o d o c õ n e g o
volumes), na biblioteca do bispo d o m
Vieira).
termos
frei M a n u e l - n a q u a l , aliás, d i v i d i a a
p e r c e n t u a i s , n ã o i a a l é m d e 1 , 4 % . Isso
posição c o m a história e o direito -, e
não s u c e d i a c o m os clérigos náo-
1 7 , 6 % (49 obras e 91 v o l u m e s ) , n a
inconfidentes,
já
livraria do c õ n e g o Vieira d a Silva, s e n d o ,
de
neste último c a s o , a maior s e ç ã o dentre
A
dissemos,
teologia
diferença,
em
exceto,
como
do bispo e professor
Pontevel.
Entre
os não-
todas.
Os inconfidentes,
ademais,
i n c o n f i d e n t e s , a d i f e r e n ç a o s c i l a v a entre
demonstravam um maior apreço pela
4 , 6 % , caso do cõnego Borges e 5 6 , 8 % ,
literatura do q u e os outros clérigos: a
caso do padre Francisco Alves.
menor cifra da literatura entre
Essa
eles,
diferença talvez seja u m a e x p r e s s ã o d o
8 , 2 % (6 o b r a s e 1 1 v o l u m e s ) , n a l i v r a r i a
maior refinamento
intelectual dos
do padre C o s t a , c o r r e s p o n d e a mais que
clérigos inconfidentes, na medida e m
o dobro, e m números relativos, que o
que demonstra u m maior desapego e m
maior indice atingido entre os não-
r e l a ç ã o às q u e s t õ e s m a i s i m e d i a t a s d a
i n c o n f i d e n t e s , isto é , 4 , 6 % ( 1 9 o b r a s e
vida sacerdotal ou concernentes
27 volumes),
à
na biblioteca do bispo
administração eclesiástica, respondidas,
Pontevel. Seriam esses números mais
respectivamente, pelas obras de liturgia
uma
e
despreendimento
cânones,
problemas
e
um
interesse
mais complexos
por
no que
concerne à salvação do rebanho cristão.
indicação
a t i v i d a d e s estritamente
de
em
um
certo
relação
às
s a c e r d o t a i s ? Mo
caso do c ô n . Vieira da Silva,
como
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 19-52, jan/dez 1995 - pag.27
A
C
demonstraremos
adiante,
isso
inquestionável, parecendo suceder
E
é
obras e 8 5 volumes); ao direito,
o
l i v r a r i a d e P o n t e v e l , c o m 2 , 2 % (9 o b r a s
m e s m o ao padre C o s t a ,
e
38
volumes);
e
à
na
filosofia,
na
Entre as ciências profanas, a segunda
biblioteca do padre Toledo, c o m 3 , 4 %
posição cabia a seções diferentes em
(2 o b r a s e 2 v o l u m e s ) . l i a b i b l i o t e c a d e
cada
Pontevel,
uma
das
bibliotecas.
Mas
do
terceiro
lugar
pertencentes ao bispo Pontevel e ao
aproximavam-se a história (1,7%, 7
p a d r e T o l e d o , e s t e lugar p e r t e n c i a a o s
obras e 26 volumes), a geografia (1,7%,
dicionários, respectivamente, com 3 , 9 %
7 o b r a s e 18 v o l u m e s )
(1 6 o b r a s e 4 4 v o l u m e s ) e 6 , 9 % (4 o b r a s
(1,7%, 7 obras e 7 volumes).
e as c i ê n c i a s
e 4 v o l u m e s ) , ria l i v r a r i a d o c ô n . V i e i r a
Comparando-se
da Silva, c a b i a à filosofia, c o m 1 1 , 1 %
clérigos
(31 o b r a s e 9 2 v o l u m e s ) , r e f l e t i n d o s u a
observamos
d e d i c a ç ã o ao e n s i n o de f i l o s o f i a , no
separando os inconfidentes dos demais.
Seminário de Mariana, atividade em que
Os primeiros possuíam interesses que
e s t e v e e n g a j a d o d e 1 7 5 9 até s u a p r i s ã o .
ultrapassavam os limites imediatos do
Mas b i b l i o t e c a s d o c ô n e g o B o r g e s e d o
trabalho
p a d r e C o s t a , as c i ê n c i a s o c u p a v a m a
f o r t e m e n t e p a r a q u e s t õ e s t e o l ó g i c a s e,
segunda posição, respectivamente com
até m e s m o , p r o f a n a s . O c ô n . V i e i r a d a
1 , 6 % ( u m a o b r a ) e 6 , 8 % (5 o b r a s e 13
Silva, radical neste aspecto, era o mais
volumes). A p r e s e n ç a das ciências na
singular, revelando maior interesse, e m
biblioteca do c ô n e g o Borges, frise-se, é
ordem
as b i b l i o t e c a s
mineiros
entre
uma
si,
nítida
dos
enfim,
divisão
pastoral, voltando-se
decrescente,
pela
mais
literatura,
inexpressiva em números absolutos e
filosofia e história profana. Os clérigos
relativos, o m e s m o nào ocorrendo c o m
não-conjurados,
o padre inconfidente Costa: sua livraria,
exceção
embora 5 , 5 vezes menor que a livraria
prisioneiros de suas a t r i b u i ç õ e s m a i s
do bispo Pontevel, tinha quase o m e s m o
i m e d i a t a s , fosse no t r a b a l h o p a s t o r a l ,
n ú m e r o de obras de ciências, e m termos
litúrgico,
a b s o l u t o s (5 versus
administrativas,
7), e c o m p a r a v a - s e
do
inversamente,
bispo
fosse
Pontevel,
nas
que
à
eram
atividades
exigiam
a do c ô n e g o Vieira da Silva, a qual,
conhecimentos
sendo 3,8 vezes maior, possuía menos
Assim,
que o triplo do n ú m e r o p o s s u í d o pelo
i n c o n f i d e n t e s , s o b r e s s a í a a l i t u r g i a e, n o
padre
caso específico dos cônegos e
(5
versus
14).
A
trajetória
dentre
canônicos-jurídicos.
os
clérigos
não-
dos
do padre Costa, ademais,
b i s p o s , conferia-se um lugar e s p e c i a l
c o m o m o s t r a r e m o s a seguir, e x p l i c a e s t a
aos cânones e ao direito. As bibliotecas
preeminência das ciências.
do c ô n . Vieira da Silva e do
O t e r c e i r o lugar p e r t e n c i a à h i s t ó r i a n a
Pontevel refletiam ainda o exercício de
posterior
b i b l i o t e c a d o c ô n . V i e i r a , c o m 9 , 3 % (26
pag. 28. Jan/dez 1995
suas atividades enquanto
bispo
docentes.
o
V
respectivamente,
de
filosofia,
no
inexistente
nas bibliotecas d o s padres
Seminário de Mariana, e de teologia, e m
Alves e J o ã o Souza e do cõnego Borges,
Portugal. A livraria d o bispo Manuel d a
e, a i n d a , o d e s t a q u e d a s c i ê n c i a s , na
Cruz,
biblioteca do padre Costa.
por seu turno,
mostrava
suas
ligações c o m a o r d e m de são Bernardo
As livrarias
e
distanciavam-se e aproximavam-se, em
sua história.
Por fim,
devemos
dos clérigos
ressaltar a p r e e m i n ê n c i a da literatura,
alguma m e d i d a , de suas
mais nítida entre os inconfidentes,
européias.
e
Havia,
das Minas
congêneres
primeiramente,
a
H I S T 0 1 R E
f PHILOSOPHÍQUE
*
E T
P O L I T J Q U E
P S » Í T 4 J L M M H M " ÍW «•* « W * Í * C » M » W » W t a P »
t i m LI»
PAR
<
»»*«,
G. T.
RAYNAJL
HOLVit.tR ÉBITIO».,
m t w M M i i >Vn*> i u • » « * • • » » mmttnm
r » . PMÜStf»
f
i
T O M
\
l.IXlífl^
PARIÍ
MLABI£ COSTIW-WXÍS LI
ISM.
Raynal, Guillaume-Thomas F r a n ç o i s . Historie philosophique et politique des ê t a b l i s s e m e n s
et du com mercê des e u r o p é e n s dans les deux Indes. Paris: Amable caster et c i e , U b r a r í e s
É d i t e u r s , 1 800. Tomo 10.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n» 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995 - pag 29
C
A
Portugal
sob
licenciosidade:
a
alegação
estava
de
contaminado
E
amigo inaciano Qabriel Malagrida...
por
fim, a vivência
cotidiana
pelas idéias de M o l i n o s , heresiarca para
território que sobrepujava,
quem
palavras
o
demônio
podia
atuar
do
próprio
E,
4 0
num
segundo
antístite,
"às
violentamente sobre os corpos, levando
m a i o r e s c i d a d e s do o r b e na
almas perfeitas
diversificada dos vícios", s o m a n d o , à
inclusive
a cometer
carnais,
sem
pecados,
que
esses
ganância do ouro, a ambição, a vaidade,
p u d e s s e m ser c o n s i d e r a d o s c o m o tais,
a
pois
carnais"* .
seriam
contra
a vontade
das
torpeza
soberba
e os
Era
1
"falazes
dom
frei
prazeres
Manuel
a
pessoas que os p r a t i c a v a m .
amargar a nostalgia de u m m u n d o
Na p o s s e d e s s e s l i v r o s , c o n t u d o ,
n u n c a e x i s t i u ( a f i n a l , as M i n a s n a s c e r a m
5 8
longe
de v e r m o s a e r u p ç ã o de u m a s u p o s t a
c o m o ouro); a utilizar topos
voluptuosidade
que vinham da Roma da
oculta
do
prelado,
t e m o s a p e n a s a m a n i f e s t a ç ã o de
anacronismo, sendo sua ação
seu
pastoral
Clássica
4 2
que
literários
Antigüidade
para expressar o que sentia
em Mariana, sua
Altera
Roma;
e a
deste
denunciar sua mácula e a de sua livraria:
d e s c o m p a s s o c o m o t e m p o e, a i n d a , d e
nostalgia, nada além da nostalgia em
sua fidelidade aos ensinamentos
da
relação a um mundo que nunca existiu;
o
n a d a a l é m de r e s q u í c i o s d e u m m u n d o
a
mais
perfeita
prova
Igreja. E m s e u g o v e r n o d i o c e s a n o ,
b i s p o C r u z foi u m i n t r é p i d o
tridentino,
que
ruía,
mas
que,
para
o
tomando iniciativas disciplinadoras e
R e v e r e n d í s s i m o b i s p o , eram a razão de
aculturadoras:
sua vida, nada t e n d o de p e r d i ç ã o . Seu
visitas
pastorais,
dos
mal talvez fosse - c o m o a f i r m a Luiz Mott,
e c l e s i á s t i c o s , h a b i l i t a ç ã o de s a c e r d o t e s
ao referir-se ao s u p l í c i o que i m p ô s a
s e g u n d o as n o r m a s
medidas
contra
as
ilicitudes
"pureza
de
n e g r a R o s a E g í p c i a c a - a g i r às v e z e s
c o s t u m e s e de sangue", f u n d a ç ã o
do
"mais com
de
S e m i n á r i o de M a r i a n a , i n s t r u ç ã o
dos
fiéis e dos c l é r i g o s , e i n t r o d u ç ã o
de
humor
viperino
do
que
p o m b a l i n o " . Ele era a p e n a s p r i s i o n e i r o
4 5
do
pré-pombalismo!
n o v o s c u l t o s (ao C o r a ç ã o de J e s u s , p o r
Dom
exemplo) e da o r a ç ã o m e n t a l , n a d a de
Mariana e m 1 7 7 7 , ao c o n t r á r i o de d o m
'licencioso' m a c u l o u sua gestão, repleta
frei M a n u e l , e r a a t i n g i d o p e l o
de m u i t o s
do
5 9
dissabores:
conflitos
de
Pontevel,
nomeado
bispo
de
4 4
século.
Em
sua
espírito
biblioteca
jurisdição c o m a justiça laica e c o m o
encontravam-se dois autores ilustrados:
b i s p o d o Rio d e J a n e i r o , a t r i t o s c o m o s
Qenuensis, iluminista oficial , proibido
cónegos,
por R o m a , e Robertson,
verdadeiras
pestes
que
o
4 5
4 6
historiador
seus
e s c o c ê s q u e d e n u n c i a v a as m a z e l a s d a
dos
colonização . A composição da seção
j e s u í t a s p o r d o m J o s é 1, a p u n i ç ã o d o
de h i s t ó r i a p a r e c e i n d i c a r q u e o b i s p o
infernizaram
assim
como
a
sucessores imediatos, a expulsão
pag.52, jan/dez 1995
4 7
R
se
O
V
interessava
pelo
tema
da
repressão. Por isso, foi considerado u m
colonização: d o s seus sete livros de
"exagerado absolutista" .
história, três o abordavam de algum
Cm s u a b i b l i o t e c a , s o b o i m p é r i o d a
modo.
ortodoxia,
livros,
Supomos,
longe
todavia,
que tais
de indicar a adesão a
5 0
havia
a t r i c i o n i s t a s , o Cursus
51
os
malvistos
de theologia
et
qualquer questionamento da dominação
moralis,
colonial, serviram, no m á x i m o , c o m o
e Anecdotes,
um instrumento para a c o m p r e e n s ã o
referência
dos desvios e das subversões d a norma,
Anecdotes
sur mme.
exigência do próprio papel de guardião
Barry,\\\ro
proibido, misto de libelo e
da o r d e m e x e r c i d o
pelo bispo . Sua
crônica escandalosa sobre a amante do
biografia corrobora
essa hipótese: o
rei L u í s XV, a c o n d e s s a D u B a r r y , q u e
4 8
da Universidade de Salamanca,
em dois volumes, sem
a autor,
possivelmente
Ia comtesse
Du
governador da capitania, visconde de
e n l a m e a v a o rei e a m o n a r q u i a " .
Barbacena, avisara-o sobre a Conjura,
A historiografia ressalta o espírito pio,
antes m e s m o de i n i c i a d a a prisão d o s
caridoso e a 'santidade' de Pontevel".
sediciosos , e s u a única palavra sobre
Suspeitamos, porém, que ele o u um de
o levante foi u m s e r m ã o e m louvor à
seus apaniguados desviou-se da moral
4 9
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n" I -2. p. 19-52. Jan/dez 1995 • pag 33
A
C
p r e s e n ç a de alguns títulos
comuns,
c o m o foi a p o n t a d o a n t e r i o r m e n t e .
Mo
r e s t o , as s e m e l h a n ç a s e v i d e n c i a m - s e d e
E
bibliotecas, a história não apenas rivalizava c o m a teologia, mas a superava.
A distribuição dos livros pelas diferentes
modo mais acentuado em relação aos
l í n g u a s ( t a b e l a IV) é u m a s p e c t o e m q u e
padres
a singularidade dos inconfidentes
não-inconfidentes.
portugueses,
possuíam
Como
os
os clérigos das
Gerais
fundamentalmente
obras
se
dissipa, tanto diante dos clérigos das
Gerais c o m o dos
p o r t u g u e s e s e, e m
litúrgicas, seguidas, na m a i o r i a dos
alguma
dos
c a s o s , pelas de t e o l o g i a .
exceção
Excetuavam-
medida,
é
de
franceses.
novo
o
A
cônego
se o b i s p o P o n t e v e l , p a r a o q u a l a o r d e m
inconfidente Vieira da Silva. Se entre os
era a inversa; o c ô n e g o Vieira da Silva,
franceses, os livros escritos e m latim,
para o qual a literatura estava
em
em
primeiro lugar, seguida d e p o i s
filosofia e história
(que
1790,
chegavam
a
27%
das
pela
bibliotecas, nas Gerais, as livrarias, e m
em
sua maioria arroladas p r ó x i m o aos anos
ficaria
s e g u n d o se j u n t á s s e m o s o s l i v r o s
de
1790,
a
média
é
de
26,7%.
À
h i s t ó r i a p r o f a n a a o s de h i s t ó r i a s a g r a d a ) ;
semelhança
o b i s p o M a n u e l d a C r u z , q u e se d i v i d i a
p o r t u g u e s e s , o q u e se v i a , n a i m e n s a
entre a l i t u r g i a e a h i s t ó r i a s a g r a d a ; e o
maioria das bibliotecas, era o português
cônego Borges, para quem a segunda
ultrapassar o latim,
posição era reservada aos cânones. Ao
86,5%,
contrário
28,3%,
do
portugueses,
que
sucedia entre
os
entretanto, a literatura,
para a m a i o r i a d o s s a c e r d o t e s ,
do
ocorrido
com
variando
os
entre
na livraria do padre A l v e s ,
na p e r t e n c e n t e
ao
e
cônego
Cordeiro, em cujo inventário omite-se
vinha
grande parte d o s títulos e d o s autores
antes da história, m e s m o somando-se a
dos livros. Todavia, nas bibliotecas do
história sagrada à história profana. As
bispo Pontevel e dos cônegos Borges e
exceções, realizando-se essa adição,
Vieira da Silva, o latim era o primeiro
além do bispo Manuel da Cruz, eram o
c o l o c a d o , indo de 4 6 , 6 % , na livraria do
bispo Pontevel e o padre J o ã o Souza,
côn.
que
(o
biblioteca do bispo Pontevel. E m duas
de
dessas três livrarias o segundo lugar era
priorizavam
último
sequer
mais a história
possuía
obras
Vieira da Silva, até 7 3 , 5 % ,
na
literatura), e o c ô n e g o Borges, que se
ocupado
voltava,
profanas,
correspondia a 1 4 % , na biblioteca do
apenas para o direito e, e m m e n o r grau,
bispo, e a 3 9 % , na p o s s u í d a pelo c ô n .
p a r a as c i ê n c i a s . O s ú n i c o s s a c e r d o t e s
Cordeiro. J á na livraria do c ô n . Vieira
a a p r o x i m a r e m - s e d o s s e u s c o l e g a s de
da S i l v a , o f r a n c ê s se e n c o n t r a v a
o f í c i o p a r i s i e n s e s e r a m o b i s p o d o m frei
segunda colocação, com 2 8 , 3 % .
Manuel e o c ô n . Vieira da Silva, os quais
mesma
inglês
talvez
até
ameaçasse o p o r t u g u ê s : se o
último
iam
entre as c i ê n c i a s
além
pag. 30 jan/dez 1995
daqueles:
em
suas
pelo
português,
biblioteca, o
que
na
nesta
R
V
correspondia
a 1 1 , 8 % dos títulos, o
inglês talvez c o m p r e e n d e s s e
incerteza deve-se
ingleses
8 , 6 % (a
a o fato d o s livros
não terem
seus títulos ou
autores arrolados n o s s e q ü e s t r o s , não
nos
sendo
possível
afirmar
constituíam obras distintas).
que
Portanto,
O
informações
muito
limitadas,
mais
ainda em relação aos clérigos nãoinconfidentes,
salvo
para os bispos
Manuel da Cruz e Pontevel, e o cõnego
Borges.
Desse
modo,
primeiro
focalizaremos tais clérigos e, d e p o i s , o s
conjurados
mineiros.
se as b i b l i o t e c a s e c l e s i á s t i c a s d a s M i n a s
A b i b l i o t e c a d o b i s p o d o m frei M a n u e l
possuem algumas diferenças e m relação
da Cruz era o retrato de u m m u n d o que
às
e
se e n c o n t r a v a e m s e u s e s t e r t o r e s . S e ,
francesas, quanto à sua c o m p o s i ç ã o por
suas
similares
portuguesas
por um lado, estava afinada c o m a
a s s u n t o , o m e s m o n ã o se n o t a , d e m o d o
ortodoxia
g e r a l , c o m r e l a ç ã o às l í n g u a s , e m q u e
um tanto a n a c r ô n i c a . N ã o havia nela o
as i d e n t i d a d e s , p r i n c i p a l m e n t e c o m a s
menor vestígio da Ilustração, muito pelo
livrarias portuguesas,
c o n t r á r i o , as o b r a s d e c a r á t e r d e v o c i o n a l
são maiores. A
livraria do c õ n . Vieira
entanto,
é a nota
seguida,
neste
da Silva, no
mais
destoante,
aspecto,
bibliotecas do bispo
católica, por outro,
parecia
e de cunho jesuítico, então em baixa
sob o reformismo de Pombal e de dona
pelas
M a r i a I, p u l u l a v a m : l á e s t a v a m , p o r
e do
exemplo,
Pontevel
santa
Tereza
e o
padre
cõnego Borges.
Antônio Vieira, de q u e m o bispo, além
Bibliotecas clericais nas Minas do
dos Sermões
século
s e b a s t i a n i s t a história
XVIII,
heterodoxias
e
'inventividade'
A censura
Malgrado as regularidades
observadas
voltava
"pervertidos
autores, e n c o n t r a m o s
e
singularidades,
possuía a
Futuro.
na
segunda
m e t a d e d o s é c u l o XVIII, c o m e f e i t o , s e
de g r a n d e
dos seus títulos
do
portuguesa
nas b i b l i o t e c a s c l e r i c a i s e a o r t o d o x i a
parte
e d a s Cartas,
suas
baterias
contra
os
filósofos", era implacável
com os jesuítas,
responsabilizando-os
em e s p e c i a l e n t r e o s i n c o n f i d e n t e s , q u e
pelo " f a n a t i s m o " , a " i g n o r â n c i a " e,
revelam
em
ainda, a " l i c e n c i o s i d a d e " que se viam
relação às p r e o c u p a ç õ e s m a i s i m e d i a t a s
grassar e m Portugal . O bispo possuía
da v i d a s a c e r d o t a l . E m a l g u n s
casos,
o j á m e n c i o n a d o Cursus
elas r e m e t e m a h e t e r o d o x i a s ,
q u e se
um despreendimento
evidenciam
quando
confrontamos
a
37
moralis,
theologicus
et
d a Universidade de S a l a m a n c a
- de onde
a Inquisição
de
Espanha
coloração política e moral de alguns
riscou o trecho que permitiria
títulos e a u t o r e s de c a d a livraria a o s
como lícitas, aos olhos de deus, as
comportamentos
relações sexuais
morais ou políticos
tomar
c o m mulheres, até
dos c l é r i g o s l e i t o r e s . Q u a n t o a e s s e s
m e s m o as v i o l e n t a s - e , a i n d a , o l i v r o
aspectos,
Máximas
frise-se,
dispomos
de
espirituais,
censurado em
Acervo. Rio de Janeiro, v 8, n' 1-2. p 19-52, jan/dez 1995 - pag 31
C
A
E
0
o r t o d o x a , s e n d o pai d e u m d e n t r e d o i s
Esse
bebês que foram
é,
imposição da necessidade de preservar
enjeitados - à porta de seu p a l á c i o , e m
o p r e s b í t e r o q u e e r a s e u g e n i t o r ? Mão
abril de 1 7 8 0 , u m ano após sua sagração
seria este clérigo importante
em L i s b o a . Tal h i p ó t e s e funda-se
para que sua c o n d i ç ã o de pai
expostos
- isto
nos
silêncio
não
teria
sido
cuidados que o enjeitado mereceu do
e x p l i c i t a d a ? Isso t u d o , e n f i m ,
bispo e e m alguns silêncios e regalias
aventar
de que o m e s m o foi o b j e t o :
primeiro,
demais
fosse
faz-nos
a h i p ó t e s e de que o pai
de
Domingos seria o bispo h o m ô n i m o , ou
teve c o m o padrinhos o b i s p o e Mossa
então,
Senhora do Rosário, recebendo
a d e m a i s , de que tal p a t e r n i d a d e
nome
uma
algum
apaniguado
seu,
e,
não
similar ao do antistite. Domingos J o s é
p o d e r i a s e r r e v e l a d a p a r a p r e s e r v a r as
da E n c a r n a ç à o Pontevel; e m
segundo
a p a r ê n c i a s d o p r e l a d o ! S e tal h i p ó t e s e
lugar, f o i , " a m a n d o d o dito
senhor"
for v e r d a d e i r a , d e s t a q u e - s e , o b i s p o e
b i s p o , " c r i a d o e m c a s a de J o ã o
José
os
que
o
protegeram
estavam
Correia" ; terceiro, seu ingresso e sua
a c o b e r t a d o s p e l a s regras d a c i v i l i d a d e
ascensão no s a c e r d ó c i o , anos
b a r r o c a , c o m u m às d e m a i s s o c i e d a d e s
54
tarde, foram marcados por
C o m o exposto.
mais
silêncios.
Domingos era, aos olhos
do
Antigo
Regime,
que
da l e i , ilegítimo; todavia, saiu-lhe a
distanciavam, fazendo
acusação
falsa a p a r ê n c i a .
de
'ilegitimidade
de
nascimento', e m função da qual teve
que
obter
dispensa
do
Múncio
Apostólico em Lisboa. Minguém em seu
processo de habilitação m e n c i o n o u o
n o m e de s e u ' i l e g í t i m o ' p a i , mas
no
breve de dispensa consta que Domingos
tinha o "defeito" de ser "oriundo
presbítero".
Domingos,
porém,
de
quis
mais do que ordenar-se: pediu, depois,
dispensa
para
ser
promovido
às
dignidades e altos postos da hierarquia
e c l e s i á s t i c a , n o q u e foi a t e n d i d o
pelo
provisor do bispado, que o dispensou
na
"irregularidade
nascimento
de
defeito
proveniente
s a c r í l e g o " . O r a , p o r q u e se
5 5
de
do
coito
denunciou
a ilegitimidade de Domingos sem que
fosse identificado o n o m e de seu pai?
pag. 54. jan/dez 1995
nào
se
i m p o r t a v a m se o p a r e c e r e o ser se
da
civilidade
5 6
O bispo Pontevel ajudou a dissimular
um arranjo que visava resguardar
as
aparências da mais alta autoridade da
capitania:
segundo
Tomás
Antônio
Gonzaga, o governador Luís da C u n h a
Menezes solicitou e conseguiu que o
bispo dispensasse sua amásia, Maria
J o a q u i n a , e J e r ó n i m o Xavier de S o u z a ,
dos banhos
(proclamas)
necessários
para a realização do c a s a m e n t o
ambos .
5 7
Pontevel, a s s i m , se por
lado, talvez
usasse da posse
c o n h e c i m e n t o de obras
heterodoxas
ordem,
e
do
politicamente
para melhor guardar
por outro,
de
um
talvez
fizesse
a
do
recurso à dissimulação das ilicitudes
sexuais um m o d o de t a m b é m p r e s e r v á la. A benignidade das autoridades c o m
R
V
O
Pontevel 'filho' e o s silêncios sobre a
b i s p o p o d e ter e x t r a í d o a i d é i a d e q u e
identidade de seu p a i , ademais, são o
era admissível relacionar-se, até m e s m o
mais perfeito
de
retrato
tradição vicejava
de c o m o
esta
na ordem d o Antigo
forma
violenta,
solteiras
com
mulheres
e, a l g u m a s v e z e s ,
c o m as
Regime.
mulheres puras e santas; das
O bispo, a d e m a i s , neste aspecto, além
• hipótese pouco segura - o bispo talvez
de s e g u i r u m a t r a d i ç ã o d e e x e r c í c i o d e
tenha estabelecido
poder, n ã o s e r i a s e n ã o u m h o m e m d e
entre s u a e x p e r i ê n c i a e as peripécias d a
seu t e m p o ,
c o n d e s s a D u Barry. A f i n a l , s e e l e p o d e
um 'homem do mundo',
Anecdotes
uma identidade
obedecendo à moral coletiva imperante
ter s i d o
nas G e r a i s . S e p a r a n d o o p a r e c e r d o s e r ,
m o n g e , se Luís XV casava s u a amâsia
como nas demais sociedades do Antigo
c o m o c o n d e D u Barry, e l e f o i c ú m p l i c e
Regime, esta moralidade, urdida no
de
interior de u m a s o c i e d a d e c o l o n i a l e
patrocinada por Luís d a C u n h a Menezes.
escravocrata,
P o n t e v e l , e m s u m a , p o d e ter s i d o , p o r
era patriarcal,
racista,
m i s ó g i n a e c e n t r a v a - s e n o princípio
igualdade,
isto
é,
na
de
defesa
do
p a i , Barry era filha de um
uma
artimanha
semelhante,
um lado, prisioneiro e protagonista de
estratégias
de
um
poder
cuja
casamento entre iguais na cor, no status
preservação exigia o c o n h e c i m e n t o das
s o c i a l , n a s i t u a ç ã o física e m o r a l . M a s ,
subversões e a cisão do parecer e do
diante d a s d i f i c u l d a d e s p a r a se a c h a r e m
ser, e, p o r outro,
iguais
para o m a t r i m ô n i o , dos seus
m o r a l h e t e r o d o x a (em r e l a ç ã o às l e i s ) ,
custos e de s u a b u r o c r a c i a , acabava por
que juntava o cotidiano a alguns livros
admitir algumas ilicitudes (como
o
e separava - t a m b é m - o parecer e o ser,
concubinato,
a
conjugando
o
adultério
e
e x p r e s s ã o de u m a
a defesa do casamento
prostituição), e s p e c i a l m e n t e entre os
entre iguais à realidade d a s ilicitudes
desiguais
que vicejavam
(os h o m e n s
senhores,
livres
mulheres
havidas
brancos e/ou
ou forros,
como
c o m as
mulheres
solteiras', isto é, n ã o - v i r g e n s ,
índias, mulatas; forras e
desde
que
se
aparências .
5 8
porém,
são
Tais
meras
hipóteses.
negras,
lia livraria d o c ô n e g o Borges, território
escravas),
em que campeavam obras de cânones
preservassem
lia conduta
considerações,
sob o celibato.
as
sexual de
e direito, não vemos nada que pudesse
ser considerado heterodoxo,
Pontevel, a s s i m , às v o z e s d a moral
sucedendo
coletiva vigente nas Gerais talvez se
política. Todavia,
somassem os murmúrios
daquelas obras, percebe-se
heterodoxos
o mesmo
em relação à sua postura
no uso que fazia
que nem
engolfados e m meio à ortodoxia católica
tudo estava e m c o n f o r m i d a d e c o m as
de s u a l i v r a r i a : d a m o r a l i d a d e c o l e t i v a
regras j u r í d i c a s e , a l é m d i s s o , q u e e s s a s
e d o Curso
serviam para acobertar ilicitudes morais.
theologicus
et moralis,
o
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n» 1 -2. p I9-52. jan/dez 1995 - pag 35
n ã o d e l e , m a s d e o u t r e m . A p e s a r d e ter
de
uma
Deus,
em sujeição
e
exemplar
foi
recolhimento" , todos eles, no caso dos
contemplado duas vezes c o m 'carta de
homens, ocupando cargos importantes.
seguro negativa ', e s p é c i e de
Se n e m os c o m p o r t a m e n t o s
corpus,
passagem
pelo
ilícito-
habeas
passada pelo J u í z o Eclesiástico
do bispado
d e M a r i a n a -, d e v i d o
às
6 1
aparências do habilitando
para
dar-lhe
o
n e m as
prestavam
passaporte
para
o
omissões da d o c u m e n t a ç ã o , não nos foi
s a c e r d ó c i o , o provisor a p e l o u para as
possível saber qual era o delito de que
filigranas da lei e usou as aparências da
era a c u s a d o . C o m o p r o v i s o r e v i g á r i o
família para habilitá-lo - e, c o m isso,
geral d o b i s p a d o , anos d e p o i s ,
Borges
também
preservou-as.
endossou a habilitação ao sacerdócio,
aferrado
ao direito
recusada pelo bispo Pontevel, de J o s é
mostrou-se assim enredado no ideal de
de S o u z a Barradas, apesar d o c a n d i d a t o
civilidade que grassava nas sociedades
encontrar-se
do Antigo Regime: u m a civilidade das
5 9
impedido para tanto, por
Borges,
tão
e aos cânones,
viver publicamente c o n c u b i n a t o c o m
aparências.
u m a parda c h a m a d a E s c o l á s t i c a e ter
Os
uma
outros clérigos - o que é ó b v i o - revelam-
filha.
Embora
reconhecido
Borges
tenha
a existência "da culpa",
julgou que a m e s m a não estava provada
conforme d e t e r m i n a v a m as
Ordenações,
s e g u n d o as q u a i s s e d e v e r i a p r o v a r " q u e
no e s p a ç o de seis m e s e s entrara u m
(concubino) na c a s a d o outro, sete o u
oito
vezes,
circunstância
que não
descobrira nos autos" . Ao que parece,
6 0
p o r é m , a legislação fora p i n ç a d a para
favorecer
um rebento de u m a família
ilustre, constituída, no entender
de
Borges, por "bons pais tanto e m honra
como
em
cristandade",
os
quais
"sempre criaram seus filhos c o m temor
pag.56. jan/dez 1995
se
inconfidentes,
heterodoxos
ao contrário
do ponto
de
p o l í t i c o . Ma b i b l i o t e c a d o p a d r e
dos
vista
Carlos
Correia de Toledo, h o m e m muito r i c o ,
6 2
vigário na vila de São J o s é d ' E l Rei
d e s d e 1 7 7 7 , v e m o s a Lógica,
6 5
Antônio Verney, iluminista
de Luis
português
adversário dos jesuítas, pensador oficial
da época p o m b a l i n a , certamente um
6 4
'libertino'
aos olhos das autoridades
eclesiásticas mais conservadoras.
Havia
também duas obras de O v í d i o ,
autor
proibido
Compêndio
velho.
pela censura
de metamorfose
portuguesa:
e
Triste
Tais títulos não representavam
grande a f r o n t a à o r d e m e s t a b e l e c i d a e ,
como virtude pública, indicam certa
no m a i s , p r e v a l e c i a o ' b o m c u r a ' n a
heterodoxia: espelham u m a opção de
biblioteca do padre Toledo.
Mesmo
vida futura e u m a d e t e r m i n a d a maneira
assim, ele a t e n d e u à c o n v o c a ç ã o feita
de olhar
aos s a c e r d o t e s d a A m é r i c a p o r s e u
compreendido mais à luz da razão e da
colega
o b s e r v a ç ã o do que da revelação. Duas
de ofício,
entronizou
o abade
Raynal:
a pátria em seu altar ,
6 5
engajando-se
Considerava
na
Inconfidência.
Raynal, por sinal, um
"escritor de grandes
vistas", por ter
sobre
medicina.
Aritmética,
e
concluindo,
se
versavam
As outras
d e M a i a ; Biologia,
Instruções
amoreiras.
a
na qual este é
das suas obras de ciências
previsto a s e d i ç ã o d o s c o l o n o s ingleses,
de seu relato sobre
o mundo,
para
a
eram:
de Berti;
cultura
das
O padre Manuel preocupava-
possivelmente
com
aspectos
sobretudo
relativos
se n a A m é r i c a d o n o r t e o s i m p o s t o s
interessava-se pelo mundo da natureza,
levaram à rebelião, aqui, a derrama
prestigiando a botânica, tal como era
poderia produzir os m e s m o s efeitos .
característico dos libertinos do século
Portanto, a p r i m a z i a n u m é r i c a de livros
XVIII
ortodoxos
e a
especial à razão e aos objetos das
irrelevância quantitativa da história não
ciências naturais e, de resto, a elas
contiveram as repercussões do livrinho
mesmas. Tanto assim q u e , anos mais
de R a y n a l , o b r a q u e s e q u e r
tarde, e m 1 8 0 1 , e m Lisboa, traduziu e
6 6
de
sua biblioteca
possuía,
6 8
,
à saúde,
mas
experiência dos colonos ingleses, que,
concedendo
uma atenção
mas q u e l e u o u , a o m e n o s , e s c u t o u e
p u b l i c o u u m Tratado
discutiu, c o m o s outros c o n j u r a d o s . Do
pessegueiros ,
ponto
P o r t u g a l , livre d o c á r c e r e , t o r n o u - s e u m
de
ortodoxia
vista
moral,
porém,
a
69
da cultura
e, ao regressar
dos
de
notável e inovador fazendeiro. Passou
triunfou.
na livraria d o padre C o s t a ,
sacerdote
desde o final d a d é c a d a de 1 7 7 0 , a
a cultivar
o linho e m sua fazenda,
obtendo sempre bons resultados, tendo
6 7
quase igualdade
obras
n u m é r i c a entre as
de ciências
e literatura
e a
presença de u m livro de Pope, poeta
satírico inglês q u e c o m p r e n d i a a razão
trazido máquinas d o Reino para tecê-lo,
assim c o m o a outros tecidos.
Chegou
mesmo a apresentar ao governo um
projeto para desenvolver a t e c e l a g e m
7 0
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995 - pag 37
Mas a a u d á c i a d e C o s t a , é b o m l e m b r a r ,
Anacreonte, Voltaire, Mably,
o fez e n t e n d e r q u e " e s t a A m é r i c a e s t a v a
Condilac, Robertson e Montesquieu
nos t e r m o s de ficar u m a
Europa* ,
Mela h a v i a lugar, a i n d a , p a r a l i v r o s d e
levando-o a envolver-se na C o n s p i r a ç ã o
ilustrados moderados, c o m o Genuensis,
M i n e i r a . Ele d r i b l o u , a s s i m , a o r t o d o x i a
Verney e Bento Feijó. O olhar do c ô n e g o
dominante em sua biblioteca e deixou-
reservava espaço t a m b é m para autores
se c o n d u z i r p e l a r a z ã o e p e l o e s p í r i t o
de ciências, alguns i m p o r t a n t e s para a
de o b s e r v a ç ã o q u e e m a n a v a m d e a l g u n s
ciência m o d e r n a : Descartes, Pinei (cuja
de seus títulos. A t e n d e u , portanto,
obra era proibida), Fabri,
7 1
ao
Diderot,
7 5
.
Gravesande,
abade Raynal, c o l o c a n d o a pátria e m seu
Winslow, Tissot e M u s s c h e m b r o e c k . A
altar - e n e m a p r i s ã o l o g r o u c o n t è - l o ,
seção de história privilegiava os países
pois, depois,
veio a engajar-se
no
europeus,
sobre os quais havia
seis
p r o c e s s o de e m a n c i p a ç ã o do país: o
obras, seguidos depois por
padre,
c o m cinco obras, e a A m é r i c a , c o m três.
elegeu-se
deputado
na
Constituinte de 1 8 2 3 , reelegeu-se para
A Europa, todavia, era
a legislatura seguinte e meteu-se
também c o m os títulos de
na
Portugal,
contemplada
história
revolta liberal de 1 8 4 2 . C o n t u d o , este
u n i v e r s a l (três o b r a s ) e h i s t ó r i a m o d e r n a
engajamento em questões profanas e
(duas obras), além da história antiga
políticas,
os
(duas
na
e s p e c í f i c o s s o b r e o B r a s i l . O c ô n e g o se
7 2
n ã o a b a l o u s u a fé ou
preceitos
morais
desta,
pois,
obras).
Mão
havia
livros
Assembléia Constituinte, votou contra
interessava pelas particularidades das
a liberdade
gentes de s u a ' p á t r i a ' e, ao
r e l i g i o s a e,
no
campo
mesmo
s e x u a l , foi fiel à o r t o d o x i a c a t ó l i c a .
tempo, pelos mais distintos povos, sem
O cônego Luís Vieira da Silva
que
7 3
possuía
uma livraria, segundo Carlos Guilherme
houvesse
qualquer
contradição
entre eles. Desta generalidade de povos
Mota, "recheada c o m a literatura mais
particulares,
crítica do
muitos
A m é r i c a do Norte, m o t i v o de estudo e
autores
discussão, e na qual o c ô n e g o enxergava
autores
ocidente"
7 4
iluministas.
encontrados,
,
com
Dos
destacam-se
alguns
clássicos e ilustrados proibidos
identidades
ademais, destacava
com
sua
capitania.
a
A
pela
A m é r i c a era motivo de e m p r é s t i m o de
censura: Ovídio, Marmontel, Catulo,
l i v r o s : o c ô n e g o n ã o se c o n t e n t a v a c o m
pag 38. Jan/dez 1995
a obra de Robertson, que possuía, tendo
formulando
emprestado de alguém, c o m certeza, o
pensamento
livrinho
combinava os métodos
intendente
do
abade
Raynal
B a n d e i r a , as
sur le gouvernement
e
do
Observations
de les Etats
Unis.
princípios
ou leis
ilustrado,
compositivo;
nele,
7 7
.
O
portanto,
resolutivo e
a funçào
mais
importante da razão consistia, pois, e m
O p e n s a m e n t o d o c ô n e g o V i e i r a , d e fato,
separar e j u n t a r .
encontrava-se marcado pela presença de
O caráter ilustrado do pensamento do
Raynal e, de resto,
côn.
pela
Ilustração.
7 8
Vieira
explicita-se
nas
suas
Segundo Ernst Cassirer, o pensamento
respostas ao interrogatório da Devassa
ilustrado caracterizava-se pela renúncia
da Inconfidência. Interrogado sobre s u a
à d e d u ç ã o sistemática, isto é, àquela
posição favorável à
que, partindo de u m ser s u p r e m o o u de
americanos,
uma certeza
máxima,
tergiversações, afirmou que a rebelião
expandia a luz desta a todos os seres e
tinha u m a causa, a opressão e que -
saberes derivados através d o m é t o d o da
procurando enganar os inquiridores - ela
demonstração
inexistia nas Gerais. Questionado
fundamental,
e da
conseqüência
revolta d o s norte-
depois
de
algumas
sobre
rigorosa, e n l a ç a n d o os últimos à certeza
a ausência de diferenças entre o s povos
primordial de m o d o imediato . O ponto
r e b e l a d o s d o norte e o s m i n e i r o s , d i s s e
de p a r t i d a , n o p e n s a m e n t o
que os povos podiam rebelar-se por
7 6
deslocou-se
da certeza
ilustrado,
fundamental
diferentes
causas e que, e m Minas
para a e x p e r i ê n c i a e a o b s e r v a ç ã o ,
Gerais,
invertendo-se,
i m p o s t o s , motivo da sediçáo d o s norte-
pois,
a
hierarquia
metodológica. Procurava descobrir
lógica dos fatos,
primeiro,
depois,
através
apreendia
buscava
os
a
da qual,
fenômenos;
cada
uma das
não havia
americanos,
Barbacena
pois
o problema dos
o
visconde
de
noticiara que só faria a
derrama depois de ouvir Sua Majestade.
E
o
cônego,
nào acreditando
no
condições que os originaram, revelando
"maravilhoso" - guiando-se pela razào,
a
poderíamos dizer - sabia que para os
dependência
finalmente,
que os
com
base
ligava;
e,
nestas
povos rebelarem-se eram
de
presente";
necessários
d e s c o b e r t a s , c h e g a v a às r e g u l a r i d a d e s
"fatos
comuns a cada tipo de fenômenos,
entrelinhas, a importância estratégica da
vê-se,
nas
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n« 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995 - pag.39
C
A
derrama
para
Contraditado
os
conspiradores
nas suas respostas
7 9
.
as c o n d i ç õ e s
que
tornam exeqüível uma rebelião, chegando até ela a partir
de um
exemplo
concreto. C o m isso, pretendia mostrar enganando o inquiridor - que em Minas
G e r a i s era i m p o s s í v e l p e n s a r e m s e d i ç ã o
e que ele não poderia cogitar e m realizá-la:
as r e s p o s t a s
dele
se este é o b e d e c e r aos s u p e r i o r e s , e
pelo
inquiridor, o c õ n e g o , então, e x p ô s uma
teoria geral sobre
E
respondente
só
evitar tributos .
8 0
Do e x e m p l o c o n c r e t o da
Portuguesa,
Restauração
protagonizada
por
dom
J o ã o IV, o c õ n e g o e x t r a i u a c o n c l u s ã o
de
que
só era possível
pensar
em
r e b e l a r - s e se h o u v e s s e c o n d i ç õ e s p a r a
t a n t o - i s t o é, g e n e r a i s , a r m a s , a l i a n ç a s ,
s o l d a d o s - ou se fosse mais
perigoso
m a n t e r - s e na s u j e i ç ã o . E e m M i n a s , t u d o
isso faltava, além do que, obedecer aos
t e n d e m a mostrar os f u n d a m e n t o s , por
superiores
que não seguiria semelhante partido,
p o d e r i a m ser m o t i v o s de u m a r e b e l i ã o
quando
- d e n o v o , v ê - s e o lugar e s t r a t é g i c o d o s
fosse para isso
prescindindo
houvesse,
convocado,
inteiramente
ou
nào,
de
quem
que
tivesse
e
pagar
tributos
não
i m p o s t o s . Mesta p a s s a g e m , a d e m a i s ,
estabelece-se
uma analogia entre
a
s e m e l h a n t e s idéias: sabe que na feliz
Inconfidência e a Restauração,
a c l a m a ç ã o d e F.l-Rei D. J o ã o o q u a r t o ,
tão j u s t a ,
s e n d o u m a c a u s a tão j u s t a , e tanto da
povos". Um indício seguro de q u e , para
vontade
ele, era legítimo um povo
dos
povos,
perguntou,
e tanto
"causa
da vontade
dos
rebelar-se
s u a l e m b r a n ç a , D. J o ã o
da
contra a tirania; u m a analogia que, por
Costa, quais eram os generais,
as
si s ó , i n d i c a que a I n c o n f i d ê n c i a ,
segundo
a r m a s , as a l i a n ç a s , o s s o l d a d o s ,
tinham prontos
para se
que
levantarem
no
pensamento do c õ n e g o , era tão legitima
quanto a Restauração.
c o n t r a as a r m a s d e C a s t e l a , e q u e i s t o
Mo p e n s a m e n t o
f o i b a s t a n t e p a r a se s u s p e n d e r a a ç ã o
encontramos a afirmação da razão, a
por
negação do maravilhoso, das
oito
dias,
e
talvez
se
não
do
cõnego,
assim,
certezas
e x e c u t a s s e , se n i s s o não estivesse o
absolutas, e uma análise do real que,
maior perigo; e como poderia
tendo
que tivesse
pensar
efeito a sublevação
como
referência
a
própria
de
e x p e r i ê n c i a (o q u e h a b i l i d o s a m e n t e se
Minas falta de tudo o n e c e s s á r i o , e
procura negar), c o m p a r a três situações
cercada
d i s t i n t a s (a C o n j u r a ç ã o d a s G e r a i s , a
de outras
capitanias:
em
s e g u n d o lugar, e l e r e s p o n d e n t e n à o v ê
interesse
nenhum
próprio
na
s u b l e v a ç ã o ; p o r q u e não foi para isso
convidado,
nem aceitaria o
partido,
q u a n d o o fosse, e m e n o s evitar o dano
pag.40. jan/dez 1995
Independência
das Treze
Inglesas e a Restauração
Colônias
Portuguesa),
decompondo-as; depois, chegando-se a
u m a c o n c l u s ã o geral sobre a o c o r r ê n c i a
das r e b e l i õ e s ; e, por f i m , a t i n g i n d o
a
o
V
conclusão de que seria impensável uma
conjugado
ao ideal de civilidade de
r e b e l i ã o e m M i n a s . Mo s u b - t e x t o , a i n d a ,
Corneile,
autor
temos
biblioteca,
a consagração
ilustrado
do direito
do
principio
à rebelião
e a
presente
levando
desobedecer
o
em sua
cônego
as regras j u r í d i c a s e a
e x p r e s s ã o d o lugar estratégico o c u p a d o
sujeitar-se
pela derrama na C o n j u r a ç ã o . O c ô n e g o
admitiam algumas ilicitudes
Vieira d a Silva, e m s u m a , por u m lado,
desde
combinava os métodos resolutivo
aparências: o cônego, enfim,
e
a
às n o r m a s
sociais que
sexuais,
que não prejudicassem
as
convivia
c o m p o s i t i v o , p r o c u r a n d o e s t a b e l e c e r as
c o m a c i s ã o entre o s e r e o p a r e c e r .
condições que provocam os fenômenos
Examinando a apropriação d o s livros
e, d e p o i s , d e s c o b r i n d o a s r e g u l a r i d a d e s
pelos clérigos mineiros das Qerais do
que se fazem presentes e m fenômenos
s é c u l o XVI11, d e n t r o d o s e s t r e i t o s l i m i t e s
similares, formulando
que
leis. Por outro,
a documentação
nos
impõe,
n u m princípio caro aos
constatamos o fosso que separava os
ilustrados: aquele segundo o qual era
inconfidentes dos demais, no que se
legítimo rebelar-se
refere às i d é i a s e a o s c o m p o r t a m e n t o s
baseava-se
contra
um poder
despótico, presente e m Rousseau , e
políticos.
também e m Raynal (que estendia a
percebemos
legitimidade àqueles que não viviam s o b
embaralham, quando o foco desloca-se
o
p a r a as q u e s t õ e s m o r a i s . D o p o n t o d e
8 1
despotismo) .
8 2
Autêntico ilustrado, por seus princípios
e pela maneira de estruturar
o seu
pensamento,
Vieira
o
cônego
influenciou-se, portanto, pelos
autores
ilustrados que se encontravam e m sua
biblioteca e atendeu ao abade Raynal,
a quem tanto apreciava, entronizando a
pátria e m s e u altar! S u a ' l i b e r t i n a g e m ' ,
por f i m , n à o se limitou à Inconfidência:
e m b o r a c ô n e g o , professor de teologia
e comissário
Penitência,
da Ordem
Vieira
Terceira
da
da Silva era um
' h o m e m d o m u n d o ' , tendo legado u m a
filha, Joaquina
Angélica da Silva, à
posteridade, nascida e m 1765, quando
Vieira j á havia
sacras
8 3
.
imperante
A
recebido
as
moralidade
nas Qerais
ordens
coletiva
deve
ter-se
Ao
mesmo
tempo,
que as diferenças
se
vista político, assim, v e m o s q u e , entre
o s i n c o n f i d e n t e s , o s l i v r o s i l u s t r a d o s e/
ou que focalizavam aspectos
relativos
ao m u n d o natural - i n s i g n i f i c a n t e s n a
biblioteca
do
padre
Toledo,
consideráveis na livraria d o padre Costa,
e
razoavelmente
numerosos
na
biblioteca do cônego Vieira da Silva exerceram grande influência sobre tais
leitores. As possibilidades de leitura dos
inconfidentes,
no entanto,
não se
limitaram aos livros que possuíam n e m
àquilo
que os mesmos
diziam:
a
inventividade, de alguma forma, valeu.
O
livrinho
do abade
Raynal,
possuído por nenhum deles,
não
tornou-se
centro da atenção e, e m s u a leitura, as
idéias foram apropriadas de tal sorte a
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n» 1 -2. p. 19-52. jan/dez 1995 - pag AI
C
A
E
iluminar a própria experiência dos
autoridades
leitores, norteando sua ação política. A
i m p o r e a inventividade de alguns d o s
inventividade dos leitores-inconfidentes
leitores, seja no sentido de privilegiar
teve no c õ n e g o Vieira d a Silva o s e u
determinadas obras, seja no sentido de
maior expoente,
lê-las segundo
uma ótica
própria estruturação de seu pensamento
Alguns
repetiam-se
seguia
de tal sorte que a
parâmetros
ilustrados
e os livros
títulos
procuravam
particular.
de u m a
e
b i b l i o t e c a para o u t r a ; entre as livrarias
a s s o c i a v a as e x p e r i ê n c i a s a l h e i a s à d e
das Gerais e suas c o n g ê n e r e s francesas
sua pátria. Os clérigos que não se
e portuguesas, havia similitudes no q u e
meteram na C o n j u r a ç ã o , sobre os quais
toca aos títulos e à distribuição d o s
conseguimos obter informações mais
l i v r o s p e l o s a s s u n t o s e, e m a l g u m g r a u ,
substanciais, ao contrário, mostram-se
pelas línguas - m a s e m meio a estas
ou presos a u m a o r d e m politica-cultural
uniformidades,
que ruía, caso d o bispo Manuel d a Cruz,
destacaram-se por destoarem, e m maior
ou possivelmente
livros
ou menor grau. O cõnego Vieira da Silva,
para melhor preservar a
dentre eles, foi o que mais se mostrou
heterodoxos
usando
de
os
inconfidentes
ordem, caso do bispo Pontevel.
singular.
A moralidade coletiva, que consagrava
Os eclesiásticos inconfidentes possuíam
a c i s ã o entre o s e r e o p a r e c e r , f o i m a i s
bibliotecas que expressavam interesses
forte q u e a o r t o d o x i a , j u s t a m e n t e entre
que iam além d o s limites imediatos de
os p r o p r i e t á r i o s d a s b i b l i o t e c a s m a i s
seu trabalho pastoral, voltando-se mais
exuberantes: o cõnego Vieira da Silva
fortemente que as d o s demais clérigos
e, q u e m s a b e , o b i s p o P o n t e v e l . E s t a
para questões teológicas e profanas. O
moralidade,
inverso se dava entre os clérigos n ã o -
ademais,
comportamento
triunfou
do cõnego
no
Borges
conjurados.
À maior profanidade, os
enquanto j u i z . Venceu entre eles u m a
inconfidentes aliaram u m a inventividade
moralidade q u e aceitava as relações
bastante aguda e m relação aos livros,
sexuais
se
apropriando-se das idéias apresentadas
m a n t i v e s s e m as a p a r ê n c i a s , i n c l u s i v e a
nos m e s m o s t e n d o e m vista s u a p r ó p r i a
de respeito às n o r m a s j u r í d i c a s . Entre
e x p e r i ê n c i a n a s G e r a i s . S u a inventividade
a maioria dos clérigos proprietários de
c h e g o u ao limite de levá-los a o r g a n i z a r e m
l i v r o s , c o n t u d o , a o r t o d o x i a p a r e c e ter
uma sedição fundada numa estratégia
saído vitoriosa.
baseada no conhecimento livresco da
ilícitas
desde
que
experiência
Conclusão
das Treze
Colônias
da
América inglesa. Assim, mais do que a
eclesiásticos
pátria, os inconfidentes parecem ter
m i n e i r o s d o s é c u l o XVIII, v i s u a l i z a m - s e
entronizado o s livros - ao m e n o s alguns
as
d e l e s - e m s e u altar.
Nas
bibliotecas
tensões
pag. 42, jan/dez 1995
dos
entre
aquilo
que as
o
V
Tabelas e Gráficos
Fontes: Arquivo
d a C a s a Setecentista de Mariana (AEAM),
Arquivo
Episcopal da
A r q u i d i o c e s e d e M a r i a n a (ACSM) e A u t o s d e D e v a s s a d a I n c o n f i d ê n c i a M i n e i r a (ADIM).
* nas tabelas, os números absolutos referem-se a obras e volumes, estando registrados
na o r d e m :
obras/volumes.
Tabela 1 - V dc Obras e Volumes das Bibliotecas Eclesiásticas por Área
Totais
Ciências Sacras
Nomes
Obras
Obra
Ciências Profanas
Volumes
Obras
Volumes
VoL
ABS
%
ABS
%
ABS
%
ABS
%
\9.2
208
19.7
147
52,7
329
53,7
60,4
20
27,4
54
25.5
31
40,8
1
1.5
1
1,3
50
77
61,1
9
14
12
9,5
37
63,8
81
77,1
17
293
19
18
48
33
89,2
42
87,5
0
0
0
0
36
79
29
80,5
67
84,8
3
8.3
6
7,6
Pe. J. F. Souza
27
62
23
85,2
49
79
2
7,4
6
9,7
Pe. J. T. Souza
24
42
16
66,7
33
78,5
2
8,3
2
4,8
B. Pontevel
412
1056
263
63,8
703
66,6
79
C6n. V. Silva
279
612
99
35,5
236
38,6
Pe. M. Costa
73
212
30
41
128
Côn. Cordeiro
67
76
22
32,2
Côn. Borges
64
126
32
Pe. C Toledo
58
105
Pe. F. Alves
37
B M. da Cruz
Tabela II - Números Absolutos e Relativos de Obras e Absolutos de Volumes* de Ciências Sacras nas Bibliotecas Eclesiásticas
Padres da
Igreja
Ljcritura Santa
Nomes
ABS
ABS
%
o/v
Teoloeia
ABS
%
o/v
o/v
História Sagrada
ABS
%
ABS
O/V
%
o/v
Canônej
Liturgia
Dicioairioa
ABS
O/V
%
ABS
%
o/v
B. Pontevel
7/32
1.7
2/15
0.5
58191
14
16/73
3.1
36/15
1.7
47/107
11,4
9/21
12
Con V. Sirva
S/19
1.»
2/14
0,7
13/27
4.7
11/21
3.9
22/51
7.9
17/2»
6,1
2/7
0,7
Pe M Costa
3/33
4,1
0
0
t/36
10.9
2/16
2,7
1/1
1,4
9/26
12J
0
0
0
0
5/5
7,5
1/2
1.5
1/2
1.5
12/13
17.9
Côn Cordeiro
C6n. Borges
VII
4,1
0
0
0
0
0
0
4/10
6.3
0
0
5/6
7,1
7/27
10,9
0
0
Pe. C. Toledo
2/4
3.4
0
0
10/22
172
2/4
3,4
3/5
5.2
11/31
19
1/4
1,7
Pe R Ah/es
1/3
2,7
0
4/4
10,1
l/l
2.7
0
0
25/32
67,6
0
0
B. M da Cruz
0
0
0
•
•
1/4
2.1
5/7
13.9
4/4
11,1
13.1
0
0
Pe. J. F. Souza
3/4
0
0
2/2
7.4
0
0
2/2
7.4
U/31
40,7
0
0
Pe. J. T. Souza
0
0
0
2/6
•.3
4/1
16,7
0
0
U.l
0
1.3
l/l
4.2
2/2
5714
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n« 1-2, p. 19-52. jan/dez 1995 - pag.45
A
C
E
Tabela [II • Nesearos Abseluto. e Murro* de Obrai < Absolutos da ases'
Vol• d* SM»! Prof.na. iu Bibliotecas Ecl-siaiticai
rnerana
Naseea
ABS
%
O/V
7/11
B PooKvel
Ritònc»
ABS
O/V
2/2
1.7
llmon.
%
ABS
O/V
0.5
7/26
u
DiòMárfe
%
ABS
O/V
1.7 16744
%
Lite raro rs
ABS
O/V
3,9 19/27
93
13/27
4.7
49/91
u
3/10
4.1
•711
•3
0
0
0
l/l
u
0
0
0
0
0
0
4M
M
1/1
•
•
•
23
•
•
0
1/2
3,7
0
0
0
0
0
0
V Sitva
2/6
17
5.7
26/15
Pe M Cofta
2/3
2.7
0
0
1/2
C6o Cordcuo
0
0
0
0
0
Cõo. Borg.es
0
0
0
0
0
Pt. C. Toledo
1.7
0
0
B. M. deCraa
0
•
•
•
l/l
Pe. F. Abres
•
•
t
»
l/l
Pe J. F. Sovoa
0
0
0
•
Pe J. T. Som
0
0
0
0
Direito
FUesafia
ABS
o/v
1/40
%
ABS
O/V
«3!
13
%
3IV92
111
,
2/13
V
Otárias
23
ABS
O/V
7/7
10/11
13
143
-3
s
0
0
5/13
6.1
%
%
1,7
0
0
0
0
0
0
0
0
5/1
7.«
l/l
1.6
133
2/2
3.4
0
0
0
0
0
0
0
•
0
•
0
0
1/2
23
0
t
1/3
W
0
0
0
1/4
3.7
0
t
0
0
43
0
0
0
0
0
0
•
•
1/1
Tabela IV - Número! Absolutos e Relativos de Obras e Absolutos de Volumes* por Línguas e Valor daa Bibliotecas Eclesiásticas
laVjsBM
•arara
Nossas
O/V
Port.tsès
O/V
%
tr.eeès
O/V
%
Espanhol
O/V
%
lorlés
O/V
%
Valor era
Mil-reis
Italiano
o/v
%
%
303-764
73.5
58,137
14
31/100
73
3/21
0.7
0
Còn V Sirva
1307212
46,6
33/63
11.«
79/72
213
3/6
1
24/24
«6
0
Fe. M. Costa
9.40
123
36/121
49.3
1/1
13
0
2/11
2.7
0
Con. Cordeiro
2/3
3
19/27
213
0
-
0
0
-
0
-
Cón Rorges
30/59
46.9
25/57
39
0
-
0
0
•
0
-
4IS250
Pe.C. Toledo
12/24
20.7
42/77
72,4
0
0
•
-
0
-
1011350
1/3
2/2
-
2.J
32/36
*J
0
B M. da Cruz
1GV20
273
24/57
66.7
0
l/l
Pe. J. F. Souza
7/1
25.9
11/49
66.7
0
0
0
-
0
Pe. J. T. Souza
M
U
7JV37
•33
0
0
0
•
0
Pe-F Alves
M
0
2Jt
1/4
9/13
23
pag. 44, jan/dez 1995
Ct*\ V. tia
M.»
Fdj.HR.
Co-rta
Cie j
CoroUxrr.
C4n_ dl
Bo'tj*n>
Pt. C Talo P » F. Mvm
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6615130
-
0
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B Pont»
**J
23
2755700
27J295
0
-
-
66S070
301055
R
O
V
i.i.riw. u H l M i M é
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IM-fárftaiilll
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Í.7
M
1.
O
C H A R T I E R , Roger. A história
T
cultural:entre
4J
A
S
p r á t i c a s e i n t e r p r e t a ç õ e s . L i s b o a : DifeI;
Rio d e J a n e i r o : B e r t r a n d B r a s i l , 1 9 9 0 , p. 1 2 1 . C o l o c a ç õ e s m u i t o s i m i l a r e s t a m b é m
s ã o f e i t a s p o r D A R N T O N , R o b e r t . Boêmia
literária
e revolução:
o submundo das
l e t r a s n o A n t i g o R e g i m e . S ã o P a u l o : C i a . d a s L e t r a s , 1 9 8 9 , p. 1 2 8 ; e DAV1S,
Natalie Z e m o n . "O povo e a palavra impressa". In: Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1 9 9 0 , pp. 1 5 9 , 176 e 184-185.
2.
C H A R T I E R , Roger. Lectures
et lecteurs
dans Ia France
D'Ancien
Regime.
Paris :
É d i t i o n s d u S e u i l , 1 9 8 7 , p. 1 6 7 .
3.
I d e m , i b i d e m , p. 1 6 8 .
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995 pag 45
C
A
4.
E
M A R Q U E S , M a r i a A d e l a i d e S a l v a d o r . A Real Mesa
Censória
e a cultura
nacional.
C o i m b r a : E d i t o r a d a U n i v e r s i d a d e d e C o i m b r a , s / d , p. 8 5 .
5.
C H A R T I E R , Roger. Lectures
et lecteurs
dans Ia France
D'Ancien
Regime,
op. cit.,
D'Ancien
Regime,
op. cit.,
D'Ancien
Regime,
op. cit.,
p. 1 7 1 .
6.
M A R Q U E S , M a r i a A d e l a i d e S a l v a d o r , o p . c i t . , p. 8 9 .
7.
C H A R T I E R , Roger. Lectures
et lecteurs
dans la France
p. 1 7 3 .
8.
M A R Q U E S , M a r i a A d e l a i d e S a l v a d o r , o p . c i t . , p. 8 9 .
9.
C H A R T I E R , Roger. Lectures
et lecteurs
dans la France
p. 1 7 2 .
10. F U R T A D O , J ú n i a F e r r e i r a . O livro da capa verde; a v i d a n o d i s t r i t o d i a m a n t i n o n o
p e r í o d o da Real E x t r a ç ã o . São Paulo : 1 9 9 1 , pp. 24 e 3 3 - 3 4 . Dissertação
de
mestrado.
1 1. F U R T A D O , J ú n i a F e r r e i r a , o p . c i t . , p. 3 3 - 3 4 .
1 2 . A r e l a ç ã o d e l i v r o s foi e x t r a í d a d o " I n v e n t á r i o d o s b e n s d o S e m i n á r i o d e M a r i a n a " ,
feito e m 1831 e t r a n s c r i t o p e l a Revista
do Arquivo
"O S e m i n á r i o d e M a r i a n a e m 1 8 3 1 " . In: Revista
Horizonte:
Fúblico
do Arquivo
Mineiro
Fúblico
(1/2) : 3 6 7 - 3 7 7 , j a n . / j u l . de 1 9 0 4 . E s s e s l i v r o s f o r a m
apenas e m 1 8 3 1 , portanto, j á no século XIX,
qual estamos trabalhando. Todavia,
sob o título:
Mineiro.
Belo
inventariados
mais adiante do período c o m o
c o m o este intervalo t e m p o r a l
p a r c i a l m e n t e c o m a c r i s e d o S e m i n á r i o (de 1 7 9 3 a 1 8 2 0 ) ,
coincidiu
fechado por vários
a n o s , p o d e m o s s u p o r que i n e x i s t i r a m s e n s í v e i s m u d a n ç a s no a c e r v o de s u a
biblioteca, à e x c e ç ã o da deterioração dos livros provocada pelo a b a n d o n o e pela
ação do t e m p o . Há pequenas diferenças entre a transcrição que aparece na revista
e a c ó p i a m a n u s c r i t a do d o c u m e n t o que c o n s u l t a m o s na B i b l i o t e c a N a c i o n a l .
Dos 5 6 6 v o l u m e s da biblioteca do Seminário, 2 3 0 não tiveram seus títulos e
autores mencionados. Sobre a crise do Seminário de Mariana, veja: TRINDADE,
cônego
Raimundo.
Breve
noticia
dos
Seminários
de
Mariana.
Mariana :
A r q u i d i o c e s e de Mariana, 1 9 5 1 , pp. 2 8 - 4 0 .
1 3 . D E L U M E A U , J e a n . A confissão
e o perdão.
São Paulo : C i a . das Letras, 1 9 9 1 , pp.
1 14-1 1 5 .
14. I d e m , i b i d e m , p. 1 1 4 .
15. I d e m , i b i d e m , p. 6 6 .
16. FRIEIRO, E d u a r d o . O diabo
na livraria
do cônego.
2* e d . rev. e a u m . S ã o P a u l o :
E D U S P ; B e l o H o r i z o n t e : I t a t i a i a , 1 9 8 1 , p. 4 5 .
/
pag. 46. jan/dez 1995
\
K
O
V
17. Mo i n v e n t á r i o d o s b e n s d o S e m i n á r i o c o n s t a
"Hondres", porém julgamos
que
h o u v e e r r o d o e s c r i v ã o na g r a f i a d o n o m e , q u e n a r e a l i d a d e d e v i a s e r V i n c e n t
H o u d r y . C o r r o b o r a e s t a h i p ó t e s e o fato d e h a v e r t o m o s d e u m e x e m p l a r d a o b r a
Biblioteca
concionatoria,
d o c i t a d o autor, e m e d i ç ã o d e 1 7 6 4 , n a b i b l i o t e c a d o
palácio dos bispos de Mariana, neles estando anotado: "Pertence ao Seminário"
e "Seminário de Mariana".
18. D E L U M E A U , J e a n , o p . c i t . , p. 1 1 5 .
19. TRIMDADE, c ô n e g o Raimundo. Breve notícia
dos Seminários
de Mariana, o p . cit., p. 3 4 .
2 0 . A U T O S d e D e v a s s a d a I n c o n f i d ê n c i a M i n e i r a ( d o r a v a n t e , ADIM).
Brasília : Câmara
dos D e p u t a d o s ; B e l o Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Qerais, 1 9 8 0 , vol. 6,
pp.85-92, 307-322, 347-350 e 438-440.
21. ARQUIVO EPISCOPAL
Inventário
DA A R Q U I D I O C E S E DE M A R I A N A
de dom frei Domingos
A r m á r i o 1, 4
S
da Encarnaçáo
Pontevel
(doravante,
AEAM).
- 1793 ( d o r a v a n t e , IDEP).
gaveta, livro.
22. Os autores que se voltaram para o estudo das b i b l i o t e c a s dos
Inconfidentes
empregaram critérios distintos na contagem dos livros e e s c o l h e r a m u m o u outro
s e g m e n t o d o s Autos
de Devassa
da Inconfidência
- o s a u t o s d o s e q ü e s t r o o u as
avaliações dos bens - para a coleta dos dados, o que os levou a chegarem a
d i f e r e n t e s r e s u l t a d o s . V e j a : FRIE1RO, E d u a r d o , o p . c i t . , p. 2 4 ; A R A Ú J O , E m a n u e l .
O teatro
dos
vícios:
transgressão e transigência na s o c i e d a d e urbana c o l o n i a l .
R i o d e J a n e i r o : J o s é O l y m p i o , 1 9 9 3 , p. 3 2 7 ; RICARDINI, B e a t r i z . " I n v e n t á r i o s e
s e q ü e s t r o s : f o n t e s p a r a a h i s t ó r i a s o c i a l " . In: Revista
do Departamento
de
B e l o H o r i z o n t e : (9) : 3 1 - 4 5 , 1 9 8 9 ; e V I L L A L T A , L u i z C a r l o s . A 'torpeza
dos
vícios':
História.
diversificada
c e l i b a t o , c o n c u b i n a t o e c a s a m e n t o no m u n d o d o s l e t r a d o s d e M i n a s
Qerais (1748-1801). São Paulo : FFLCH-USP,
1 9 9 3 , p.
147. Dissertação
de
mestrado.
2 3 . A R Q U I V O DA C A S A S E T E C E N T I S T A DE M A R I A N A ( d o r a v a n t e , A C S M ) . Inventário
padre
João
Rodrigues
2 4 . A C S M . Inventário
Cordeiro,
do cônego
1792.
Chantre
\- o f i c i o , c ó d i c e 8 2 , a u t o
José
Botelho
Borges,
1795.
do
1.756.
\ - ofício, códice
14, auto 4 5 3 .
2 5 . A C S M . Inventário
do padre Francisco
2 6 . A E A M . Testamento
e inventário
Vieira Alves, 1781. 1 ofício, c ó d i c e 7 5 , auto 1.587.
9
do bispo
dom
frei Manuel
da Cruz,
1763-1764.
A r q u i v o 1, p r a t e l e i r a 1 3 , g a v e t a 1.
2 7 . ACSM. Inventário
do padre João
Ferreira
de Souza,
1777.
2- ofício, c ó d i c e 4 6 , auto
1.045.
28. A C S M . Inventário
do padre José Teixeira de Souza, 1768. 1 oficio, códice 149, auto 3 . 1 3 4 .
9
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2, p. 19-52, jan/dez 1995 - pag.47
9
A
C
E
2 9 . C o n t a m o s c o m o l i v r o s d i s t i n t o s até m e s m o v o l u m e s p a r a os q u a i s o s i n v e n t á r i o s
não m e n c i o n a m nem títulos nem autores, ou ainda, para os quais a s e m e l h a n ç a
de t í t u l o s n ã o i m p l i c a n e c e s s a r i a m e n t e i g u a l d a d e d e autor. E m n o s s a d i s s e r t a ç ã o
d e m e s t r a d o (op. c i t j e e m o u t r o a r t i g o ( V I L L A L T A , L u i z C a r l o s . "O d i a b o n a
l i v r a r i a d o s i n c o n f i d e n t e s " . In: N O V A E S , A d a u t o (org.).
Tempo
e história.
São
Paulo : C o m p a n h i a das Letras ; Secretaria M u n i c i p a l de C u l t u r a , 1 9 9 2 , p p . 3 6 7 395) não u s a m o s este critério, h a v e n d o , por i s s o , d i f e r e n ç a s entre as cifras
apontadas nesses trabalhos e no presente artigo.
3 0 . A o q u e t u d o i n d i c a , e s s a o b r a c i r c u l o u m u i t o nas M i n a s d o s é c u l o XVIII. Era d a s
mais solicitadas aos fornecedores pelo livreiro e capitão Manuel Ribeiro, caixa e
a d m i n i s t r a d o r d o s c o n t r a t o s d o s d í z i m o s , n a s Q e r a i s d e m e a d o s d o s é c u l o XVIII
- a p u d DIN1Z, S í l v i o G a b r i e l . " U m l i v r e i r o e m V i l a R i c a n o m e a d o d o s é c u l o XVIII".
In:
fíriterion.
Belo Horizonte: (47/48): 1 8 0 - 1 9 8 , j a n . / j u n . de 1 9 5 9 . Lucas da C o s t a
Pereira, cirurgião residente em Paracatu, preso e m 1747 pelo crime de s o d o m i a ,
tinha entre s e u s bens s e q ü e s t r a d o s três livros, dentre eles, a o b r a de Larraga
(Arquivo N a c i o n a l da Torre do T o m b o - I n q u i s i ç ã o de L i s b o a - Processo n
205).
e
E s s a i n f o r m a ç ã o f o i - n o s g e n t i l m e n t e p a s s a d a p o r L u í s R o b e r t o d e B a r r o s Mott.
3 1 . FRIEIRO, E d u a r d o , o p . c i t . , p. 3 2 .
3 2 . P I C A R D , E v e l y n e . " U n e b i b l i o t h è q u e c o n v e n t u e l l e a u x XV1II-- s i è c l e : les t h é a t i n s
de S a i n t e - A n n e - L a - R o y a l e " . In: Revue dflistoire
Moderne
et Contemporaine.
Paris:
(27) : 2 3 5 - 2 5 5 , a b r . / j u n . 1 9 7 9 .
3 3 . T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . Arquidiocese
história. 2
a
ed. Belo Horizonte
R O D R I G U E S , J o s é C a r l o s . Idéias
metade
do século
3 4 . A E A M . Processo
XIX.
de Mariana:
subsídios para a sua
: Imprensa Oficial, 1 9 5 3 , vol.
filosóficas
e políticas
em Minas
Gerais na
primeira
B e l o H o r i z o n t e : I t a t i a i a ; S ã o P a u l o : E D U S P , 1 9 8 6 , p. 3 1 .
de habilitação
para ordens
de Luiz
Vieira.
Encadernado, armário
1, 3* p r a t e l e i r a ; e T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . São Francisco
Preto.
1, p p . 1 5 3 - 1 5 4 e
de Assis
de
Ouro
Rio de J a n e i r o : Ministério da E d u c a ç ã o , 1 9 5 1 , pp. 1 9 6 - 2 3 1 .
3 5 . T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . Arquidiocese
de Mariana:
subsídios para a sua
história, op. cit., p p . 7 6 - 8 1 .
3 6 . V I L L A L T A , L u i z C a r l o s . A 'torpeza
diversificada
dos
vícios',
op. cit., pp. 9 6 - 1 0 0 .
3 7 . Idem, i b i d e m , pp. 133-134 e 1 3 7 - 1 3 9 .
3 8 . EDITAL d a R e a l M e s a C e n s ó r i a d e 0 6 d e a b r i l d e 1 7 6 9 . In:
alvarás
que compreende
o Feliz Reinado
D'EI Rey Fidelíssimo
2 3 6 - 2 3 7 . S o b r e o m o l i n i s m o , v e j a : VAINFAS, R o n a l d o . Trópico
de Janeiro
pag 48. jan/dez 1995
: Campus,
Coleção
D. José
das leis
I, s/ref, p p .
dos pecados.
1 9 8 9 , p. 2 0 2 e M O R A , A d e l i n a S a r r i ó n .
e
Sexualidad
Rio
y
R
O
V
confesión:la
s o l i c i t a c i ó n a n t e el T r i b u n a l d e i S a n t o O f i c i o (sigios XV1-X1X). M a d r i d :
Alianza Editorial, 1 9 9 4 , pp. 2 0 6 - 2 0 9 .
3 9 . T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . Arquidiocese
de Mariana:
subsídios para a sua
história, op.cit., pp. 7 6 - 8 1 .
4 0 . I d e m , i b i d e m , p p . 7 6 - 8 1 e C A R R A T O , J o s é F e r r e i r a . Igreja,
mineiras
coloniais.
4 1 . A E A M . Relatório
de Trento.
42. HOLANDA,
Iluminismo
e
escolas
S ã o P a u l o : C i a . E d i t o r a N a c i o n a l / E D U S P , 1 9 6 8 , p. 5 8 .
do episcopado
de Mariana
para a Sagrada
T r a d u ç ã o do m o n s e n h o r Flávio Carneiro
Sérgio Buarque de.
Capítulos
Congregação
do
Concilio
Rodrigues.
de literatura
colonial.
São Paulo:
Brasiliense, 1 9 9 1 , pp. 2 7 2 - 2 7 3 .
4 3 . MOTT, L u i z . R o s a Egipcíaca:
u m a santa africana no Brasil. Rio de Janeiro: Bertrand
B r a s i l , 1 9 9 3 , p. 1 1 7 .
44. RODRIGUES,
Arquidiocese
J o s é C a r l o s , o p . c i t . , p. 3 1 e T R I N D A D E , c ô n e g o
de Mariana:
Raimundo.
subsídios para a sua história, op.cit., pp. 1 5 3 - 1 5 4 .
4 5 . R O D R I G U E S , J o s é C a r l o s , o p . c i t . , p p . 5 1 - 5 5 e WERNET, A u g u s t i n . A Igreja
no século
XIX:
paulista
a r e f o r m a d e d. A n t ô n i o J o a q u i m d e M e l o ( 1 8 5 1 - 1 8 6 1). S ã o P a u l o :
Ed. Ática, 1 9 7 8 , pp. 2 9 - 3 0 .
4 6 . F R I E I R O , E d u a r d o , o p . c i t . , p. 2 6 .
47. Idem, ibidem, pp. 44-45.
4 8 . H i p ó t e s e s i m i l a r é d e f e n d i d a e m r e l a ç ã o a o c o n d e de A s s u m a r e m : S O U Z A , L a u r a
d e M e l l o e. " E s t u d o c r í t i c o " . In: Discurso
que nas Minas
houve
no ano de 1720.
histórico
e político
sobre
a
sublevação
Belo Horizonte : Fundação J o ã o Pinheiro,
C e n t r o d e E s t u d o s H i s t ó r i c o s e C u l t u r a i s , 1 9 9 4 , p p . 1 3 - 5 6 . Veja t a m b é m : B E R G E R ,
Q. " L i t t e r a t u r e et l e c t e u r s a G r e n o b l e a u x XVIIe s i è c l e : le p u b l i c l i t t e r a i r e d a n s
u n e c a p i t a l e p r o v i n c i a l e " . In: Revue d'Mistorie
Moderne
et Contemporaine.
Paris:
(33): 1 3 2 , j a n . / m a r . 1 9 8 6 .
4 9 . M A X W E L L , K e n n e t h . A devassa
da Devassa:
a Inconfidência Mineira, Brasil -
P o r t u g a l , 1 7 5 0 - 1 8 0 8 . 3 a . e d . Rio d e J a n e i r o : Paz e T e r r a , 1 9 8 5 , p. 1 7 4 .
5 0 . T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . Arquidiocese
de Mariana:
s u b s í d i o s para a sua
h i s t ó r i a , o p . c i t . , p. 1 5 4 .
5 1 . Os atricionistas e n t e n d i a m que os penitentes p o d e r i a m ser a b s o l v i d o s pelo padre
m e s m o que se m o s t r a s s e m a r r e p e n d i d o s
u n i c a m e n t e por temor do
inferno
(DELUMEAU, J e a n , op. cit., pp. 4 5 - 5 7 ) .
5 2 . D A R N T O N , R o b e r t . Boêmia
literária
e revolução,
op. cit., pp. 143-148 e 160-167,
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2. p. 19-52. jan/dez 1995-pag49
!
A
C
e Edição
e sedição:
E
o u n i v e r s o d a l i t e r a t u r a c l a n d e s t i n a n o s é c u l o XVIII. S ã o
Paulo: C o m p a n h i a d a s Letras, 1 9 9 2 , pp. 1 7 9 - 1 9 3 .
5 3 . A f i d e l i d a d e d e P o n t e v e l a o s e n s i n a m e n t o s d a Igreja é a p o n t a d a e m B O S C H I ,
C a i o C é s a r . ' A s v i s i t a s d i o c e s a n a s e a i n q u i s i ç ã o n a C o l ô n i a " . In: Revista
de História.
Brasileira
S ã o P a u l o : 7(1 4): 161, m a r . / a g o . 1 9 8 7 ; T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o .
Arquidiocese
de Mariana,
op.cit., v o l . l , pp. 140-158 e CARRATO, J o s é Ferreira,
op.cit., p.64.
5 4 . A E A M . Processo
55. Ibidem.
de habilitação
de genere,
vitae et moribus,
Um 'defeito de c o s t u m e ' de D o m i n g o s
n- 3 4 5 .
sequer foi tangenciado nas
investigações: e m s e u testamento, ele r e c o n h e c e u ser pai de Libánia Rosa d a s
Virgens,
n a s c i d a antes q u e e l e se tornasse
testamento
de Domingos
da Encarnação
presbítero (ACMS.
Pontevel,
1827-1829.
Inventário
e
1. o f í c i o , c ó d i c e
5 0 , auto 1.139).
5 6 . Sobre a t e n s ã o entre o parecer e o ser no ideal de civilidade no Antigo Regime,
v e j a : C H A R T I E R , Roger. Lectures
et lecteurs
c i t . , p. 6 0 , e R E V E L , J a c q u e s .
" O s u s o s d a c i v i l i d a d e " . In: A R I E S , P h i l i p p e &
C H A R T I E R , R o g e r (org.). História
dans la Erance
da vida cotidiana.
D'Ancien
Regime,
op.
São Paulo: Companhia das
Letras, 1 9 9 1 , p p . 187-194.
57. GONZAGA,
T o m á s A n t ô n i o . " C a r t a s c h i l e n a s " . In: Obras
Completas
I - poesias/
cartas c h i l e n a s . Rio de J a n e i r o : Ministério da Educação/ Instituto Nacional d o
Livro, 1 9 5 7 , pp. 2 9 9 - 3 0 0 .
5 8 . V I L L A L T A , L u i z C a r l o s . A 'torpeza
diversificada
dos vícios',
op. cit.
5 9 . PIRES, M a r i a d o C a r m o . " D e j u i z a i n f r a t o r : o d i l e m a d o s a c e r d ó c i o m i n e i r o n o
s é c u l o XVIII". C o m u n i c a ç ã o a p r e s e n t a d a n a XII Encontro
AríPUH
- SãoPaulo,
de História
da
r e a l i z a d o e m C a m p i n a s , e m 1 9 9 4 , p. 7 .
6 0 . V I L L A L T A , L u i z C a r l o s . A torpeza
6 1 . A E A M . Processo
Regional
de habilitação
62. MAXWELL, Kenneth.
diversificada
de genere,
A devassa
dos vícios',
vitae et moribus,
da Devassa:
op. cit., pp. 96-97.
n-
1.318/08.
a Inconfidência Mineira, Brasil -
P o r t u g a l , 1 7 5 0 - 1 8 0 8 , o p . c i t . , p. 1 1 8 .
6 3 . A E A M . Processo
vigário
de colação
da freguesia
do reverendo
de Santo Antônio
Carlos
Correia
da vila de São José.
de Toledo
Melo
como
Encadernado, armário
1, 3 " p r a t e l e i r a .
6 4 . R O D R I G U E S , J o s é C a r l o s , o p . c i t . , p p . 4 7 - 4 8 e WERNET, A u g u s t i n . A igreja
no século
XIX: a r e f o r m a d e d . A n t ô n i o J o a q u i m d e M e l o (1 8 5 1 - 1 8 6 1). S ã o P a u l o :
Ed. Ática, 1978, pp. 29-30.
pag.SO. jan/dez 1995
paulista
R
V
65. QUILLAUME,
O
T h o m a s F r a n ç o i s R a y n a l . A revolução
da América.
Rio de Janeiro:
A r q u i v o N a c i o n a l , 1 9 9 3 , p. 8 4 .
6 6 . A D I M , v o l . 1, p. 1 5 8 e v o l . 2 , p. 2 4 6 .
6 7 . A E A M . Processo
de habilitação
de genere,
vitae et moribus.
Encadernado, armário
1, 3* g a v e t a .
68. CÂNDIDO, Antônio.
Formação
da literatura
brasileira:
momentos decisivos. 6
!
ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1 9 8 1 , pp. 5 8 - 5 9 .
6 9 . A D I M . o p . c i t . . v o l . 2 , p. 4 3 2 .
7 0 . SA1NT-HILAIRE,
Qerais.
A u g u s t e d e . Viagem
Belo Horizonte:
pelas
províncias
do Rio de Janeiro
E d . Itatiaia; São Paulo: EDUSP,
e
Minas
1975, pp. 60-61; e
C A R R A T O , J o s é F e r r e i r a , o p . c i t . , p. 6 7 .
7 1 . a p u d C A R V A L H O , c ô n . J o s é G e r a l d o V i d i g a l . Ideologia
da Conjuração
- século
XVIII, Minas
Qerais.
e raízes
sociais
do
clero
Viçosa: Imprensa Universitária da
UFV, 1 9 7 8 , p . 3 3 .
72. CARVALHO, c ô n . J o s é Geraldo Vidigal d e , o p . cit., pp. 3 3 - 3 4 .
7 3 . A E A M . Processo
1, 3
8
Preto,
de habilitação
para ordens
de Luís
Vieira.
Encadernado, armário
p r a t e l e i r a e T R I N D A D E , c ô n e g o R a i m u n d o . São Francisco
de Assis
de
Ouro
op. cit., pp. 196-231.
7 4 . MOTA, C a r l o s G u i l h e r m e . Idéias
de revolução
no Brasil
(1789-1801):
estudo das
f o r m a s d e p e n s a m e n t o . P e t r ó p o l i s : V o z e s , 1 9 7 9 , p. 8 0 .
7 5 . CHARTIER, Roger. Lectures
76. CASSIRER,
Ernst.
et lecteurs
Filosofia
dans la France D'Ancien
de la llustración.
Regime,
o p . cit., p. 5 9 .
2» e d . M a d r i d : F o n d o d e C u l t u r a
E c o n ô m i c a , 1 9 9 3 , p. 2 1 .
77. Idem, ibidem, pp. 22-26.
7 8 . I d e m , i b i d e m , p. 3 7 .
79. A associação, pelos inconfidentes, do problema tributário à sublevação da América
inglesa, e, daí, à o r g a n i z a ç ã o d a s e d i ç á o m i n e i r a , foi s u b l i n h a d a e m : C A R V A L H O ,
c ô n . J o s é G e r a l d o V i d i g a l d e , o p . c i t . , p. 15 e F I G U E I R E D O , L u c i a n o R a p o s o d e
A l m e i d a & M U N T E A L F I L H O , O s w a l d o . " P r e f á c i o " . In: G U I L L A U M E , T h o m a s F r a n ç o i s
R a y n a l , o p . c i t . , p. 3 1 .
8 0 . ADIM, v o l . 5 , pp. 2 4 6 - 2 4 8 .
8 1 . "A rebelião q u e finalmente degola o u destrona u m sultão é u m ato tão j u r í d i c o
quanto aqueles pelos quais ele, na véspera, dispunha das vidas e dos bens dos
seus s ú d i t o s . Só a força o m a n t i n h a , s ó a força o derruba". R o u s s e a u , a p u d LEITE,
P a u l o G o m e s . " A M a ç o n a r i a , o I l u m i n i s m o e a I n c o n f i d ê n c i a M i n e i r a " . In:
Revista
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n- 1-2, p. 19-52, jan/dez 1995 - pag 51
Minas
Gerais.
B e l o H o r i z o n t e : (33): 2 0 , j a n . 1 9 9 1 .
8 2 . G U I L L A U M E , T h o m a s F r a n ç o i s R a y n a l , o p . c i t . , p. 7 5 .
8 3 . A D I M , o p . c i t . , v o l . 3 , p. 3 4 8 .
0-
A
B
S
T
R
A
C
T
T h i s a r t i c l e f o c u s e s a t t e n t i o n o n the c l e r i c a l l i b r a r i e s in M i n a s Q e r a i s in t h e s e c o n d
half of the e i g h t e e n t h c e n t u r y , a n a l y z i n g t h e i r c o m p o s i t i o n a n d the p r o b a b l y i n f l u e n c e s
that they h a d u p o n t h e i r o w n e r s . F i r s t l y , it i d e n t i f i e s t h e h e a d l i n e s a n d a u t h o r s that
the C a t o l i c C h u r c h u s e d to d i f u s e a m o n g the c l e r i c m e n a n d the p o s i t i o n they o c c u p i e d
a s o w n e r s o f t h e b o o k s . A f t e r t h a t , it p r e s e n t s a q u a n t i t a t i v e a n a l y z i s o f s o m e
i n f o r m a t i o n f r o m t h e b o o k s ( a u t h o r s ' n a m e s , t i t l e s , l a n g u a g e s in w h i c h the
books
were w r i t t e n , m a t t e r s a n d p r i c e s ) , i d e n t i f y i n g r e g u l a r i t i e s a n d s i n g u l a r i t i e s a n d r e l a t i n g
t h e m to the p e r s o n a l b i o g r a p h y of t h e i r o w n e r s a n d to t h e c l e r i c a l s t a t e . F i n a l l y , it is
shown how these libraries unfluenced their owner's sexual and political behaviors.
R
É
S
U
M
É
C e t a r t i c l e traite d e s b i b l i o t h è q u e s c l é r i c a l e s d u M i n a s Q e r a i s à la s e c o n d e m o i t i é d u
XVlIIe s i è c l e . 11 a n a l y s e la c o m p o s i t i o n d e c e s b i b l i o t h è q u e s et e x p l i q u e l e s i n f l u e n c e s
p o s s i b l e s q u ' e l l e s o n t e x e r c e s u r l e u r s p r o p r i é t a i r e s . 11 d é c r i t , d ' a b o r d , les t i t r e s et
les a u t e u r s q u e l ' E g l i s e C a t h o l i q u e e s s a y a i t d e r é p a n d r e e n t r e les c l e r c s et q u e l l e s
é t a i e n t les p o s i t i o n s q u e c e u x - l à o c c u p a i e n t tant q u e p r o p r i é t a i r e s d e l i v r e s . E n s u i t e ,
il fait une a n a l y s e q u a n t i t a t i v e d e s q u e l q u e s d o n n é e s c o n c e r n a n t l e s l i v r e s t r o u v é s
d a n s le b i b l i o t h è q u e s (norns d ' a u t e u r s , t í t r e s , l a n g u e d a n s l a q u e l l e les l i v r e s o n t é t é
é c r i t s , s u j e t s , et p r i x ) , t o u t e n i d e n t i f i a n t d e s r é g u l a r i t é s et d e s s i n g u l a r i t é s , e n
é t a b l i s s a n t l e s r a p p o r t s e n t r e e l l e s et l ' h i s t o i r e p e r s o n e l l e d e l e u r s p r o p r i é t a i r e s et
1'état c l e r i c a l . F i n a l e m e n t , il e x a m i n e d a n s q u e l l e m e s u r e les l i v r e s ont i n f l u e n c é le
c o m p o r t e m e n t s e x u e l et p o l i t i q u e d e l e u r s p r o p r i é t a i r e s .
pag 52. jan/dez 1995
Berenice Cavalcante
Professora associada do Departamento de História da PUC-RJ. Coordenadora do
Programa de Pós-graduação e m História Social da Cultura da PUC-RJ.
4
O s letrados'
los A
(tua sociedade
c o l o n i a l s as a c a d e m i a s e a
c u l t u r a do I l u m i n i s m o no f i n a l
do s é c u l o X V T I I
v o l v i m e n t o de u m
"Concórdia, união e
pensamento
lustrado entre os 'letrados' da
constância, amados
companheiros, para que
sociedade
desprezando as batalhas da
mente
ignorância e da inveja, vos
cimento
colonial, é
inegável
das
o
igual-
reconhe-
diferenças
coroeis triunfantes na honra
singularidades
dos templos da fama e da
p e n s a m e n t o tal c o m o se a p r e s e n t a
sabedoria".
p r o d u ç ã o o r i g i n a d a nas a c a d e m i a s q u e
Academia dos Renascidos -
p o r a q u i se f o r m a r a m .
sermão do acadêmico José
q u e , face às d i f e r e n ç a s e n t r e as i d é i a s
Antônio Sarre
dos
filósofos
que caracterizam
e
do
este
Acrescente-se
século
XVIII,
para
alguns autores seria improcedente
y '
^
fato c o n s a g r a d o
na
literatura
sobre
o
reconhe-
o
mento
tema,
da 'influência'
dos
na
se
falar e m I l u m i n i s m o . C o n t u d o , e m m e i o
a esta diversidade
e pluralidade
p o n t o s de v i s t a , é p o s s í v e l
de
reconhecer
filósofos iluministas franceses sobre a
as q u e s t õ e s c o m u n s , a
e l i t e i n t e l e c t u a l d a C o l ô n i a no final d o
c o m u m m e s m o c o n j u n t o de p r o b l e m a s ,
século XVIII.
as m e s m a s i n q u i e t a ç õ e s e a a d o ç ã o d a s
Se, por um lado, é inegável o d e s e n -
mesmas práticas.
1
preocupação
É esta generalização
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n° 1-2, p. 53-66. jan/dez 1995 - pag.53
E
C
A
de a t i t u d e s p r e s e n t e s t a n t o n o s s a l õ e s
liberdade de c o n s c i ê n c i a , a l i m e n t a a
3
universidades
vida nos salões, academias científicas,
alemãs e e s c o c e s a s , e nas s o c i e d a d e s
s o c i e d a d e s literárias e c l u b e s , a n i m a d o s
literárias e a c a d e m i a s coloniais, por
pela
exemplo, que tornam mais
curiosidade
franceses,
como
nas
apropriado
arte
da
conversação,
científica
e
pela
apreciação
para o tratamento destas questões, o
estética, posto que o gosto i a , pouco a
r e c u r s o à n o ç ã o d e clima
pouco, se i m p o n d o c o m o critério de
de
opinião ,
2
que designaria u m a f o r m a peculiar de
se usar a i n t e l i g ê n c i a , e m o u t r o s t e r m o s ,
um tipo especial de lógica. É s o b este
prisma que a aludida 'influência' será
(re)reexaminada.
discernimento.*
De f o r m a a b r e v i a d a , i m p o r t a
que
nestas
instâncias
súditos vivenciavam
sublinhar
privadas
os
a experiência da
liberdade da opinião e de igualdade no
De f o r m a r e s u m i d a o q u e d e f i n i r i a o
plano das idéias, bases sobre as quais
clima
se
de opinião
n o s é c u l o XVIII, e a
sua identificação
como
século das
Luzes, seria o privilégio concedido
filosofia como
porta
erigiria
de entrada ao
lei natural,
humanidade
e
) U B U OS
razão,
AMERICA,
per-
NA GLORIOSA O ALT AÇAU.E PROMOÇÃO
fectibilidade, e uma peculiar
relação
entre
a todo
fé e r a z ã o
conhecimento
harmonia
à
de u m v o c a b u l á r i o c u j a s p a l a v r a s - c h a v e s
sentimento,
de u m a nova
sociedade que reinstaurasse a
mundo do conhecimento; a utilização
seriam natureza,
a utopia
na recusa
revelado.
GOMES FRElREl
DE A N D R A D A ,
fct»»i
Ao lado destas referências básicas para
o tratamento de q u e s t õ e s relacionadas
~»r
m »» mm *, • . f* in»i>»<M»»'Wri <-o
*J*~~#j-v****»to
•
COLLECÇA0
líéjtjtnt4» *• ÊÍrmã *Mttltau. ( v a O U itít,
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i, Í , ,
tjtttSktmtifnm líntt.
•tsiciUA.t o r r t » i c i 0 i i » H « a s n
U
ao problema d o conhecimento tal c o m o
f o r m u l a d o n o s é c u l o XVIII, é a i n d a d e
se n o t a r o p r e d o m í n i o
estilo,
particularmente
de u m certo
no que d i z
r e s p e i t o às f o r m a s d e s o c i a b i l i d a d e . A
constituição
lutistas
das monarquias
nos
séculos
XVI
e
absoXVII,
OZRj A N T Ô N I O FJR.EIRE
D»* A K D H A D A ,
n t i m ^ i W T o t a O r d M Ò e t t í i l t e . T f l m * Grani
4
oaGiMtluLi , c Gj»«r<uJi: d a I1»MI Çmm.
n t oosrrm
L TAVARES D £ SEQUEIRA E 8A-,
L I S B O A :
K. Oficia. doCf • MANOEL At.VAK.Kl SOU.AMO.
Au* * ÜPCCU».
redefinindo as n o ç õ e s de esfera p ú b l i c a
e privada,
respectivamente,
como
espaço de exercício do poder - atributo
J ú b i l o s da A m é r i c a . Lisboa: na oficina do
exclusivo do monarca - e espaço da
doutor Manuel Alvares Solano.l 754.
pag 54, jan/dez 1995
o
V
entre
os
cidadãos.
Se a
política
academias do final do século
constituía-se e m atributo exclusivo ao
monarca, e os assuntos religiosos e m
tavam-se segundo estes parâmetros de
fonte de s e d i ç ã o e conflito entre os
civilidade?
súditos,
instâncias desenvolve-se
a
restauração
da
paz e
estes
ideais e
XVIII,
partilhavam
compor-
Em que medida
nestas
também
o
harmonia no meio social adviria dos
estilo que caracterizava as novas formas
progressos
de s o c i a b i l i d a d e ?
conquistados
no plano da
moral, c o n c e b i d a então c o m o a grande
f o r ç a r e f o r m a d o r a d a h u m a n i d a d e . Vale
lembrar ser a reforma moral a forma
indireta
de se fazer política ou de se
proceder à crítica ao estado absolutista.
Combinam-se
pressupostos
desta
maneira
os
da nova sociedade tal
civilidade
cultivado
Uma rápida consideração a respeito do
elenco
de questões
que atraía
interesse d a elite intelectual
o
reunida
nestas academias - os 'letrados' da
5
como concebida pelos filósofos, aos
ideais de
7
nos
sociedade
colonial
- pode
indicar
algumas pistas interessantes
para o
desnudamento destas indagações.
Para os m e m b r o s
da Academia dos
salões. Tal c o m o praticada nos salões,
Esquecidos, seus propósitos
esta n o ç ã o d e c i v i l i d a d e , cultivando a
se para a i m p l a n t a ç ã o
polidez c o m o forma de sociabilidade,
históricos, divididos e m quatro partes:
pretendia
a criação
natural, militar, eclesiástica e política,
protegido
onde
de um espaço
voltavam-
dos estudos
fosse
recontados através de 'máximas', e a
i n t e r d i t a d a n o t r a t o c o t i d i a n o . Este s e r i a
produção de biografias - chamadas à
t a m b é m u m e s p a ç o d e prazer, de j o g o ,
é p o c a de 'retratos' - entre os quais o s
que estimulasse a vida d o espírito, o n d e
de A n d r é Vidal de Negreiros, G a s p a r de
fossem
Ataíde e Francisco de Morais.
a violência
igualmente
interditados
aborrecimento e o tédio.
o
8
Para o s
sócios da Academia dos Seletos, seus
6
trabalhos resumiam-se a celebrar G o m e s
O cultivo
caminho
da vida do espírito
abriu
p a r a q u e a s belles
adquirissem
nova
lettres
dignidade
em
substituição à destreza nas armas c o m o
critério
para o reconhecimento
mérito e distinção social.
politesse,
razão
e
de
Virtude e
perfectibilidade
constituem-se como os novos
dogmas
pregados pelo credo das Luzes.
os letrados
reunidos
nas
quando
de s u a
n o m e a ç ã o c o m o c o m i s s á r i o real para a
resolução das questões de fronteira na
região S u l . Este m a t e r i a l f o i r e u n i d o
num
volume
América
intitulado
Júbilos
publicado em 1754.
9
da
Escrever
u m a história e m h o m e n a g e m ao rei d.
J o s é animava as reuniões da A c a d e m i a
dos
Em q u e m e d i d a a elite intelectual d a
Colônia,
Freire de Andrade,
Renascidos'
estudos
0
e o interesse e m
de química
e agronomia
a
Academia Científica do Rio de Janeiro.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n" 1-2. p. 53-66. jan/dez 1995 - pag 55
C
A
E
Além da definição destes objetivos e m
da
torno d o s quais se c o n g r e g a v a m , o s
t e r c e i r o c e n s o r J o s é Pires d e C a r v a l h o
acadêmicos
organizavam
um
e Albuquerque: O grande afeto Del Rei
planejamento
das
e .um
n o s s o S e n h o r às c i ê n c i a s e às a r t e s . E m
sessões
programa de atividades
qual
havia
sido
encarregado
o
em que « e
razão da quantidade de peças literárias
elencavam os temas, os assuntos e os
lidas neste encontro inaugural, a sessão
'problemas'
iniciou-se às três horas
a serem
tratados
nas
reuniões ordinárias. A transcrição de
partes d e s t a d o c u m e n t a ç ã o t o r n a r á m a i s
c l a r o o p o n t o d e s e n v o l v i d o n e s t e artigo.
da tarde e
e n c e r r o u - s e às q u a t r o d a m a d r u g a d a . "
Outro exemplo expressivo do interesse
despertado pelas atividades do ' m u n d o
Tomando-se como exemplo a Academia
d o e s p í r i t o ' , c o m o n o s é c u l o XV11I s e
dos
em sua primeira
designavam as atividades relacionadas
reunião foram apresentados os temas
Renascidos,
às b e l a s l e t r a s e às artes e m g e r a l , p o d e
para o assunto lírico - O m ú t u o afeto do
também ser avaliado pelo conjunto de
n o s s o A u g u s t i s s i m o M o n a r c a -, e para
contribuições
os versos h e r ó i c o s - Qual é de maior
M a n u e l T a v a r e s d e S i q u e i r a e Sá p a r a a
glória ao nosso Augusto Monarca, contar
p u b l i c a ç ã o d e Júbilos
reunidas
pelo
da América:
doutor
cento
os seus felicíssimos anos depois do
terremoto
e geral
perigo
de
1 de
novembro de 1 7 5 5 , o u contá-los depois
d o . s u c e s s o de 3 de setembro do ano
passado? Em qual destes
horrorosos
a c o n t e c i m e n t o s se m o s t r a a p r o v i d ê n c i a
divina mais empenhada em conservarnos a p r e c i o s a v i d a de n o s s o F i d e l í s s i m o
R e i e P a i d a Pátria?
Ainda
nesta
primeira
sessão,
o
secretário da academia Antônio Ferrão
Castelo
Branco
discursou
sobre
o
assunto que lhe fora atribuído, a saber:
P a r a l e l o e n t r e S . M. F i d e l í s s i m a e o Pai
C r i s t i a n í s s i m o L u i z XIV,
examinando
qual destes m o n a r c a s fez mais b e m
c o m u m às m a n u f a t u r a s e a o c o m é r c i o
e qual deles escolheu melhores meios
para fazer felizes o s seus vassalos?
J ú b i l o s da A m é r i c a . Lisboa: na oficina do
E, f i n a l m e n t e , a l e i t u r a d a d i s s e r t a ç ã o ,
pag 56. jan/dez 1995
doutor Manuel Alvares Solano, 17S4.
K
e vinte
O
V
e oito
sonetos,
dezesseis
Academia
Brasílica
dos
Esquecidos
r o m a n c e s , d o i s e l o g i o s (um e m l a t i m ) ,
reforça estas interpretações acerca das
duas elegias (uma em latim),
relações entre o a p r e ç o da imaginação,
epigramas em latim, cinco
quinze
décimas,
a busca do
prazer e das
c i n c o m á x i m a s cristãs (uma em latim),
lúdicas:
oito m á x i m a s políticas (uma em latim),
naufrágio; Menino gentil que
seis máximas militares, sendo t a m b é m
f l o r e s p i s o u um' á s p i d e e A d a m a q u e
uma em latim.
r e v o l v e n d o na b o c a p é r o l a s ,
A u t i l i z a ç ã o d o l a t i m era r e c o m e n d a d a
a o s a c a d ê m i c o s p o r q u e e s t e i d i o m a era
o primeiro da lista das "cinco
mais polidas da Europa",
línguas
segundo a
r e c o m e n d a ç ã o feita pelo secretário da
A c a d e m i a dos Renascidos aos sócios,
p a r a e l a b o r a ç ã o de s u a s o b r a s . '
um d e n t e .
Um
delfim
situações
salvando
colhendo
quebrou
Mo e n t a n t o , o b s e r v a - s e q u e
1 3
não eram apenas os assuntos líricos e
ditos
jocosos
imaginação
que
destes
estimulavam
acadêmicos.
outras o c a s i õ e s , os t e m a s
revelaram
inclinações eruditas,
particular predileção pela
antigüidade
2
clássica,
como
por
exemplo:
Uma
com
se
Em
com
estátua de A p o i o ferida e d e s f e i t a
quais
a
escolhidos
Tendo e m vista este e l e n c o de temas
os
um
ocupavam
por
os
um raio; Diana assistindo o nascimento
acadêmicos - história, 'retratos', versos
de A l e x a n d r e M a g n o na m e s m a n o i t e e m
heróicos e assuntos líricos, comparação
que Herostráto lhe estava
d o m o n a r c a p o r t u g u ê s a o rei
em seu templo ou Q u e m mostrou amar
francês
queimando
pela via da p r o m o ç ã o das manufaturas,
mais
ciência e artes, e a forma c o m o seriam
Endimião à Lua. Tais práticas
tratados
a leitura
que, nesta margem do Atlântico, criara-
reuniões
'ordinárias'
provisoriamente,
e o debate
- mesmo
que,
não se c o n s i d e r e
c o n t e ú d o e a qualidade literária
respostas
nas
apresentadas,
é
o
das
possível
se
fielmente
Clície
uma ambiéncia
ao
que,
a s p e c t o s , e m m u i t o se
àquela experimentada
Sol
ou
sugerem
em
certos
assemelhava
em
sociedades
e u r o p é i a s no m e s m o p e r í o d o ,
quando
r e c o n h e c e r o q u e a c i m a foi i d e n t i f i c a d o
se e n s i n a v a q u e : " L ' á m e a s e s b e s o i n s
c o m o o estilo da cultura do Iluminismo.
c o m m e les c o r p s ; et l'un d e s p l u s g r a n d s
São r e f e r ê n c i a s p r o c e d e n t e s p a r a q u e se
b e s o i n s de 1'homme est c e l u i
p e r c e b a a p r e s e n ç a de valores da vida
1'esprit o c c u p é . L ' e n n u i q u i s u i t b i e n t ô t
civilizada e p o l i d a dos salões, entre os
1'inaction
q u a i s o a p r e ç o à arte d a
doulourex..."
conversação
e r u d i t a , d o e s t í m u l o às belles
lettres
e
à imaginação.
Uma breve m e n ç ã o a alguns
de
l'àme
est
um
d'avoir
mal
si
1 4
Em outro plano, a explícita comparação
d e d . J o s é c o m o r e i - s o l é s u g e s t i v a . Vale
exemplos
de t e m a s t r a t a d o s nas c o n f e r ê n c i a s d a
l e m b r a r q u e Voltaire e s c r e v e u o
Século
de Luiz XIV p a r a r e v e l a r s e u s p o n t o s d e
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n- 1-2, p. 53-66, jan/dez 1995 - pag.57
E
vista
acerca
inseparável
da
história
das Luzes,
isto
como
estilo,
é, d a
clima
numa certa m e d i d a de u m m e s m o
de opinião,
pelo partilhar de
p r o m o ç ã o das artes, ciências e belas
preocupações comuns que conviviam
letras. Dito d e outra f o r m a , o filósofo
c o m interpretações e posturas vindas da
francês desvenda a racionalidade q u e ,
tradição.
em
Contudo,
sua perspectiva,
atribuiria um
ainda que se mantivesse a
sentido ao que ele m e s m o inicialmente
crença na intervenção da providência
considerava u m confuso amontoado de
divina nos acontecimentos
f a t o s . A i d e n t i f i c a ç ã o d o s é c u l o XVII a o
ela não foi de porte a impedir que estes
soberano destaca o papel que caberia
estudos históricos realizados por alguns
ao monarca esclarecido na p r o m o ç ã o d o
destes acadêmicos se voltassem
históricos,
para
progresso e felicidade de seus súditos.
novos objetos e novos campos do saber
A proposição apresentada aos membros
típicos
da A c a d e m i a d o s Renascidos transcrita
exemplo, a 'história natural'.
acima sugere a presença de u m a postura
Consoante os princípios do Iluminismo,
semelhante
da
tratava-se de c o n h e c e r a natureza e a
algumas
história c o m o formas de conquista e de
Colônia.
entre
os 'letrados'
Contudo,
há
do século
XV1I1,
como
por
ser
apropriação do mundo, sendo esta a
pode-se
face utilitária e pragmática c o m q u e se
especular acerca de u m a hipotética
passou a conceber a razão e o sentido
singularidades
que
devem
destacadas. Se, por um lado,
leitura' de Voltaire
no q u e tange a
do c o n h e c i m e n t o ,
adesão à concepção acerca do papel do
príncipe iluminado e de sua intervenção
contemplação de verdades eternas,
no processo h i s t ó r i c o , deve-se ressaltar,
caso
no entanto, q u e entre os letrados d a
buscava-se
sociedade colonial a compreensão da
verdade e m relação a fatos sobre os
história
ainda
quais pairavam dúvidas, suspeitas de
independência e m relação à crença da
falsidade ou que se constituíssem e m
interferência d a providência divina nos
fonte de e q u í v o c o s o u l e n d a s .
assuntos humanos, c o m o se depreende
estudos biográficos entremeados c o m
do
citações de 'máximas', buscava-se a
tema
heróicos,
não
conquistara
proposto
neste
para
pag. 58. jan/dez 1995
versos
do
noção
tradicional
conhecimento
o
'agudeza
sentenciosa'
de um m e s m o
deveriam
ser construídos
é
da
no
histórico,
estabelecimento
possível
caso
identificar os traços
os
da
diferenciando-se
assim
1 5
da
Com os
com
que
os textos
R
V
O
históricos. Os estudos de história apre-
feitos
sentavam-se então c o m o c a m p o privile-
exemplar também para q u e se observe
giado para a valorização de comporta-
a aludida convivência
mentos
cristãs c o m as políticas militares, para
e virtudes
morais, pois nas
dignos
palavras de u m destes acadêmicos era
que
"vulgar ignorância querer ajustar u m
personagem.
historiador
Conforme
à
seca
narração
sucessos, sem que comente,
nem
censure".
dos
pondere
1 6
se
de
louvor.
conferisse
É
das
texto
virtudes
mérito
a
um
1 8
os versos
G o m e s Freire
dos acadêmicos.
de Andrade
"sobre
os
fundamentos d a religião faz subir u m
O tema da moral é u m a das claves e m
edifício de virtudes
que a m e n c i o n a d a obra da A c a d e m i a
"temperando
d o s S e l e t o s Júbilos
a
doçura
com a
pode ser
bondade, a severidade c o m a alegria, a
lida. J á foi dito a c i m a que esta obra era
gravidade c o m a humanidade, a justiça
voltada para a "gloriosa exaltação e
com a benevolência, o respeito c o m o
promoção do Ilustríssimo e Excelen-
amor" alcançando assim a "concórdia
tíssimo
das
Senhor
da América
civis e militares",
Gomes
Andrade",..."para
exprimir
agigantadas e superiores
para destacar
Freire
de
virtudes".
(suas)
T e n d o e m vista q u e este artigo pretende
prendas" e,
discutir questões relativas aos 'letrados'
que "a todos
(vários
da sociedade colonial, é
procedente
personagens de 'fama célebre') vence na
indagar-se sobre o sentido q u e se pode
erudição, nervosidade e elegância".
atribuir a u m texto desta natureza. Nota-
1 7
A carta-circular aos acadêmicos apelava
se q u e o i n t e r e s s e n ã o e r a a p e n a s o d e
ao s e u " a p o l í n e o e n g e n h o "
para u m a
destacar qualidades morais mas, sobre-
"pública demonstração do quanto vivem
tudo, proceder ao elogio de quem as
completamente satisfeitos c o m o feliz
personificava. Como obra de u m a das
governo do Ilustríssimo...*.
academias fundadas no século
Os acadêmicos dedicaram-se a tarefa de
ilustra valores,
produzir
destes 'letrados',
permitindo
'pública d e m o n s t r a ç ã o ' , dando asas à
conheça o
que se
imaginação
cultivar.
romances
uma obra
para
voltada
que
e sonetos
os
para a
versos,
destacassem,
estilo
atitudes
A 'concórdia das virtudes'
q u e se
pretendia
enaltecidas
invariavelmente, as suas virtudes, e para
e m Q o m e s Freire de A n d r a d e
que suas ações se constituíssem e m
desvendar,
em níveis
XVIII,
e a prática
permite
distintos,
a
Acervo. Rk> de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p 53-66. Jan/dez 1995 - pag 59
C
A
E
v a l o r i z a ç ã o de u m a n o ç ã o d e c i v i l i d a d e
feliz e mais h a r m o n i o s a , e m f u n ç ã o da
como
associação
amabilidade, como
polidez
a f a b i l i d a d e n o trato c o t i d i a n o
ca da perfectibilidade
19
, e a bus-
h u m a n a e xia
harmonia nas relações sociais,
sentido
e
bem próximo daquele
num
defen-
dido pelo m e m b r o da A c a d e m i a
dos
Renascidos citado na epígrafe deste texto.
poder
e
Todavia,
virtudes
'são
que
estabelecem
saber.
em
Júbilo
da
América
de G o m e s Freire de
trazidas
a
público'
em
laudatório, em que o elogio avizinha-se
c o n s t â n c i a ' e n t r e o s m e m b r o s de u m a
governador
sociedade apresenta-se c o m o condição
c a p i t a n i a s do Rio de J a n e i r o ,
para
Gerais e São Paulo.
como
pré-
requisito para a conquista da 'fama e
d a s a b e d o r i a ' na m e d i d a e m q u e f o s s e m
eliminadas a ignorância e a
Portanto,
neste discurso
inveja.
em que
se
p r o m o v e m as ' v i r t u d e s ' e m d e t r i m e n t o
d o s ' v í c i o s ' há u m p r o p ó s i t o r e f o r m a d o r
de
natureza
moral,
do
qual
é
indissociável a perspectiva de um tempo
futuro c o n s t r u í d o s o b r e as b a s e s
h a r m o n i a e do
homens.
congraçamento
da
dos
elogios
não
e
se
restringem
capitão
S i q u e i r a de Sá, no
ao
geral
Prólogo
das
Minas
ao
leitor,
justifica a aceitação do "honroso cargo"
de s e c r e t á r i o e m r a z ã o d a p e r s u a s ã o d o
presidente da A c a d e m i a , padre
mestre
Francisco de Faria, da C o m p a n h i a
de
J e s u s . D i s c o r r e n d o s o b r e as c o n d i ç õ e s
de sua i n d i c a ç ã o e o " i n e s p e r a d o "
da
situação, o secretário busca justificar a
aceitação descrevendo
alguém
2 0
tom
da fronteira da bajulação. Além disso,
os
'coroamento',
as
Andrade
A valorização da 'concórdia, união e
um
entre
cujo
o padre
"magistério
como
temem
os
Platões, os Aristóteles, os Descartes e
Esta é uma das
faces com
que
se
a p r e s e n t a a n o ç ã o de p r o g r e s s o q u e o s
f i l ó s o f o s d o s é c u l o XV111 f o r j a r a m
ao
difundir a crença no papel das Luzes e
do 'esclarecimento' e sua conseqüente
vitória sobre as Trevas. Vale
registrar
que, para K o s e l l e c k , é esta c r e n ç a e m
2 1
uma sociedade originada da
reforma
m o r a l d e s e u s m e m b r o s q u e se
consti-
tuiria na grande utopia do s é c u l o XVUI.
Ou
seja,
nossos
acadêmicos
e s t a r i a m m u i t o d i s t a n t e s de u m
de opinião
sistemas antigos e modernos".
Se o
elogio da filosofia é i n q u e s t i o n á v e l , não
deixa de c h a m a r atenção o exagero e m
que
as
qualidades
do jesuíta
r e s s a l t a d a s . Este p o n t o s e r á
são
retomado
e m parte s u b s e q u e n t e d e s t e t e x t o .
U m p o u c o m a i s a d i a n t e e n a l t e c e a figura
de o u t r o a c a d ê m i c o , M a t e u s
"por sua vasta e r u d i ç ã o " ,
Saraiva,
reconhecida
não
até m e s m o " n o s r e i n o s e s t r a n h o s , o n d e
clima
melhor se c o n h e c e m , a m a m , e s t i m a m
que alimentaria a crença
numa sociedade mais próspera, mais
pag 60. jan/dez 1995
todos os demais corifeus das escolas e
e premeiam os amantes e
das
belas
letras
e
por
professores
isso
nelas
V
o
f l o r e s c e m " . R e f e r i n d o - s e às s u a s o b r a s
próprios as virtudes
sobre
para o h o m e m
medicina,
"descobertas
experiência
adquiridas
e observação
particular
nossos).
destaca
estudo
suas
a força
judiciosa
e reflexão"
da
e de
(grifos
Nestas passagens procede a
uma dupla valorização: das atividades
do m u n d o d o espírito e d o m é t o d o de
conhecimento
enciclopedistas.
que
preconizado
S ã o pontos de vista
2 2
não deixam
possibilidades
pelos
dúvidas
quanto as
em se reconhecer
a
aurora de u m movimento ilustrado na
Colônia. Contudo,
esta
interpretação
não contempla a questão dos elogios.
Mais do q u e isto, o q u e c h a m a atenção
é o elogio d e s m e s u r a d o - tanto no caso
de Q o m e s
Freire,
quanto
do
padre
mestre e de Mateus Saraiva,
neste proceder
observa-se
a
esclarecido.
n u m a outra perspectiva d e análise, tais
práticas
promoviam
sociabilidade
formas
de
que alimentavam
o
componente narcisico dos indivíduos e
do grupo a q u e p e r t e n c i a m , e m primeiro
lugar por diferenciá-los e distingui-los
daqueles
que nào participavam das
academias; em segundo
reforçava
lugar
a expectativa
porque
de
serem
julgados favoravelmente pelo grupo que
integravam
e, f i n a l m e n t e ,
reciprocamente,
porque,
se autorizavam o poder
de julgar as virtudes
e de atribuir o
mérito. Desta forma,
compreende-se
melhor duas referências anteriores: a
importância adquirida na época
pelos
retratos e a expectativa d e " c o r o a m e n t o
um duplo
movimento: aquele através do qual são
valorizados
que idealizavam
dedicação
nos templos d a fama e d a s a b e d o r i a " ,
em tempo
futuro.
2 3
ao
conhecimento e o cultivo da 'vida do
Esta é a dimensão e m que a e x p e r i ê n c i a
espírito', e aquele e m que se afirmava
da igualdade pode ser vivenciada, pois
a capacidade que os acadêmicos se
o q u e tais práticas v i a b i l i z a v a m e r a a
viam
confirmação da imagem que faziam de
portadores
atribuírem
de julgarem
mérito.
e de
Esta é u m a das
si
mesmos.
A almejada
harmonia
formas c o m que se buscou estabelecer
apresentava-se c o m o cumplicidade pois
a m e n c i o n a d a relação entre saber e
a bajulação promovia u m tipo especial
p o d e r . Este d e v e r i a s e r e x e r c i d o
de troca no c o n v í v i o
homens
esclarecidos,
cultivaram
pelos
por aqueles que
as virtudes
úteis,
para
promover a felicidade, a harmonia e a
c o n c ó r d i a , na v e r d a d e ,
procede-se ao
auto-elogio, ou ao auto-reconhecimento,
através d a identificação e enumeração
d a s q u a l i d a d e s d o s p a r e s . Este tipo de
discurso propunha-se a i d e n t i f i c a r n e l e s
social em que
palavras elogiosas eram trocadas por
favores, razão pela qual os príncipes
eram os alvos preferidos deste tipo de
procedimento, n o caso e m tela,
se b e m substituir a relação
pode-
príncipe/
súdito pela do colonizador/colono. Se,
por
um lado, o elogio
exacerbado
alimentava o prazer no nível da imagem
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 55-66. jan/dez 1995 - pag.61
não
impedia,
no
entanto,
que a
será útil c o n s e r v a r e r e n o v a r a s i d é i a s
violência expulsa do convívio social, e m
adquiridas
nome do estabelecimento de relações
t i v e r e m f a l t a d o s e u c o n h e c i m e n t o ; V.
civilizadas, retornasse s o b a máscara da
Aquele que escrever alguma memória e
palavra polida e promovesse a quebra
apresentá-la à sociedade, s e m que antes
da h a r m o n i a , p o r q u e
nem
figura d o bajulador,
mascarava, na
a humilhação e
e comunicá-las
depois
alguma,
comunique
exceto
quando
aos que
a
pessoa
a
mesma
alimentava, no polo oposto, o desejo de
sociedade julgue que se deve
por
vingança , *
prática,
VI. P a r a
2
Para n ã o i n c o r r e r
nos riscos de uma
explicação extremamente
dos conflitos
latentes
simplificada
na sociedade
por utilidade
pública;
em
ser admitido qualquer novo s ó c i o deve
receber
boa
informação
de
sua
p r o b i d a d e , s e g r e d o e a p l i c a ç ã o , d e sorte
c o l o n i a l , n o s limites deste artigo pode-
q u e se p o s s a e s p e r a r
utilidade
se a p e n a s sugerir, c o m o h i p ó t e s e , s e r e m
companhia;
recebido
as c o n d u t a s
pluralidade d e votos; V i l . Deve haver u m
'veladas'
manifestação.
sua forma de
De resto,
o
'masca-
será
de s u a
por
s e c r e t á r i o a n u a l . Este g u a r d a r á a c h a v e
r a m e n t o ' , o recurso a o ' e n c o b e r t o ' e ao
do cofre, onde ficarão as memórias e
'segredo' foram marcas d a cultura iluminista
tudo o mais que pertencer à sociedade,
no século XVIII, c o m o se pode confirmar,
(grifos n o s s o s ) .
tomando-se c o m o e x e m p l o os estatutos da
Sociedade Literária, redigidos por Silva
Alvarenga e m 1 7 9 4 :
A referência explícita ao segredo, mais
do
que
confirmar
algumas
das
2 5
1. A b o a fé e o segredo
afirmações acima abre novas trilhas à
de m o d o a que
investigação. O partilhar um segredo
ninguém saiba do q u e se tratou na
identifica
s o c i e d a d e ; II. N ã o d e v e h a v e r
d e t e r m i n a d a s o c i e d a d e e , ipso
superio-
os
membros
de
uma
facto,
ridade alguma nesta sociedade q u e será
aqueles que dela estavam
dirigida
Estabelecem-se assim as fronteiras entre
igualmente
por
modo
d e m o c r á t i c o ; 111. O o b j e t o p r i n c i p a l s e r á
'dois
a filosofia
existência
em toda a sua extensão,
no
mundos'
excluídos.
imaginários,
era fundamental
cuja
para a
q u e c o m p r e e n d e tudo q u a n t o p o s s a s e r
compreensão
interessante;
IV. M ã o s e t r a b a l h a r á
T r e v a s , S a b e r / l g n o r ã n c i a . Mão s e p o d e
matérias novas, mas
deixar de fazer u m a m e n ç ã o , a i n d a q u e
também sobre as mais sabidas, porque
breve, a este paradoxo d o p e n s a m e n t o
somente sobre
pag 62. jan/dez 1995
da dualidade
Luzes/
iluminista que náo deixa de reconhecer
pautavam-se por concepções típicas da
uma positividade
identificação do par conhecimento/
existência
de
no ' m a l ' , isto é, n a
um
mundo
e s c l a r e c i d o e/ou c i v i l i z a d o ,
a
ser
poder, n á o se diferenciando muito d a s
legitimidor
s o c i e d a d e s eruditas e a c a d e m i a s reais
do papel d o s filósofos iluministas na
fundadas nas sociedades européias " e m
promoção
busca de meios que lhes
do progresso
humanidade .
2 6
O
destes
primeiro
moral
da
permitissem
capturar a natureza e forçá-la a revelar
mundos,
o das
seus segredos".
Seja c o m o
2 8
elemento
sociedades secretas, vale dizer, das
de ' p r o t e ç ã o ' e m relação ao m u n d o
academias, das sociedades literárias, o u
exterior
das lojas m a ç ô n i c a s , identifica-se ao
sionadora do conhecimento do mundo
mundo 'solar', ao mundo do conheci-
natural, a noção de secreto parece cons-
mento,
tituir-se e m cerne destes
2 7
que
'compreende
tudo',
2 9
,
seja
como
razão
impul-
movimentos.
representando a 'filosofia e m toda sua
Foi esta i r m a n d a d e criada e m torno d o
e x t e n s ã o ' . Este é o m u n d o q u e r e ú n e
secreto que, ao lado da liberdade de
aqueles q u e postulam u m a outra atitude
pensar vivenciada nestas agremiações,
diante do c o n h e c i m e n t o . O d o c u m e n t o
propiciou uma nova experiência para os
é explícito na consideração do conheci-
membros
mento
idéias".
como
'útil'
e de
'utilidade
3 0
destas
"sociedades 'de
A denominação
deriva da
p ú b l i c a ' e, neste ponto e m particular,
ê n f a s e a o l i v r e p e n s a r , a o l i v r e c u r s o às
deixando transparecer, c o m clareza, s u a
especulações
c o n c e p ç ã o pragmática, traço caracterís-
s a t i s f a z i a m às n e c e s s i d a d e s d o e s p í r i t o
t i c o d o clima
e promoveriam o 'coroamento triunfante
de opinião
do Iluminismo.
Postular que a verdade e o m u n d o n á o
que,
acreditava-se,
nos templos da fama e da sabedoria'.
são dados e s i m 'adquiridos' e que o
Esta nova s o c i a b i l i d a d e , vivenciada nas
c o n h e c i m e n t o deveria ter u m a aplicação
sessões e encontros dos acadêmicos -
prática indicam u m afastamento do
que colocavam lado a lado, o " b e m
pensamento
nascido Qarçáo, o modesto Diniz e o
escolástica
oriundo
e,
por
valorização do ideais
da
tradição
extensão,
a
enciclopedistas.
cabelereiro
formas
Quita"
típicas
igualdade
especificados por Silva Alvarenga, os
que
'letrados'
ciações oriundas
da
sociedade
colonial
-
propiciaram
da experiência
Tendo-se como referência os propósitos
pouco
3 1
de
na sociedade colonial, e m
importavam
as diferen-
de riqueza ou dos
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2. p. 53-66. jan/dez 1995 - pag 63
!
A
C
E
'cabedais'. Os m e m b r o s de uma acade-
v a l o r i z a d o r d a s belles
mia igualavam-se pela identidade de
çaram os templos da glória, ou se
propósitos e na c o n d i ç ã o de livres
promoveram a harmonia e felicidade é
0
pensadores.
lettres.
Se alcan-
outra história, m a s que (re)criaram
noção
Esta teria sido a a m b i ê n c i a e m que os
de
prestígio,
a
parece
inquestionável.
'letrados' d a sociedade colonial acalentaram os sonhos de ' c o n c ó r d i a , uniáo e
constância', e e m que se expandiu um
Pesquisa desenvolvida com apoio
estilo
CNPq.
tipicamente civilizado, polido e
O
1.
A
T
RE1LL, Peter H a n n s . The german
enlightenment
do
S
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14. D U
BOS, Abbé.
Refletions
critiques
S T A R O B I N S K Y , J e a n , o p . c i t . , p. 1 0 .
pag 64. jan/dez 1995
sur la poésie
et la peinture,
1718, a p u d
R
" V
O
15. V e j a - s e c o m o e x e m p l o a p o l ê m i c a t r a v a d a n a A c a d e m i a d o s R e n a s c i d o s e m t o r n o
da dissertação do acadêmico J o s é de Oliveira Bessa, intitulada 'Dos primeiros
descobridores e povoadores da cidade da Bahia', que foi impugnada por outra,
intitulada 'Apologia C r o n o l ó g i c a e m que se declara qual foi o primeiro capitão
português q u e entrou pela barra da Bahia e qual foi o primeiro povoador que nela
assentou c a s a e exerceu algum d o m í n i o ' , e q u e , segundo s e u autor, teria gerado
" u m a c o n t r o v é r s i a assás d e b a t i d a " , o q u e o levou a rever as a f i r m a ç õ e s de m e i a
dúzia de crônicas sobre o assunto. LAMEGO, Alberto, op. cit., pp. 68-73.
16. C A V A L C A M T E , B e r e n i c e . "A i l u s t r a ç ã o b r a s i l e i r a : a l e i t u r a
i l u m i n i s t a s " . In: Letterature
A n n o XIII, n
s
D'America.
colonial' dos filósofos
Revista trimestrale. R o m a : Bulzoni Editore.
5 1 , 1 9 9 3 , pp. 53-71.
17. J Ú B I L O S D A A M É R I C A . C o l e ç ã o d a s o b r a s d a A c a d e m i a d o s S e l e t o s . L i s b o a : o f i c i n a
d o dr. M a n u e l A l v a r e s S o l a n o , 1 7 5 4 .
18. A t i t u l o d e e x e m p l o p o d e s e r c i t a d o o s o n e t o : " Q u e i m p o r t a , i l u s t r e F r e i r e , q u e
brioso/ Reluzes, que teu nome esclarecido/ A força do buril seja esculpido/ No
t e m p o , que edificas suntuoso! / Q u e importa, que pretendas cuidadoso/ Evitar o
l o u v o r , q u e te h á d e v i d o , / P o r q u e r e r q u e s ó D e u s s e j a a p l a u d i d o / E s s e o b s é q u i o .
Senhor, essa piedade/ C o m que negas ao n o m e tanta glória,/ A s raias te elevou
d a e t e r n i d a d e / P o i s a ç ã o t ã o i l u s t r e e m e r i t ó r i a / Fará q u e e m t o d a a i d a d e / T e
eternizes nos bronzes da memória".
19. S T A R O B I N S K l , J e a n . "Le m o t c i v i l i z a t i o n " . In: Le remède
dans
le mal. Critique et
légitimation d e 1'artiflce à l á g e d e s Lumières. Paris: G a l l i m a r d , 1 9 8 9 .
2 0 . S T A R O B I N S K Y , J e a n . " L u z e s e p o d e r e m A flauta
da razão.
mágica".
In: 1789. Os
emblemas
S ã o Paulo: C o m p a n h i a das Letras, 1 9 8 8 , pp. 1 3 2 - 1 5 3 . Neste capitulo, o
autor a n a l i s a a ó p e r a d e Mozart focalizando o e m b a t e entre Luzes e Trevas c o m o
a disputa pelo poder, encerrada, c o m o se sabe, pela vitória do par Pamino/Tamina,
q u e d e p o i s d e v e n c e r e m t o d a s a s p r o v a s a q u e s ã o s u b m e t i d o s , são r e c e b i d o s n o
T e m p l o d o S o l , significando a conquista simultânea d a felicidade e d o saber. A ó p e r a
' l i d a ' c o m o m a ç ô n i c a , ainda sugere outra interpretação possível para as a c a d e m i a s , c o m o
se v e r á e m parte subsequente deste texto.
2 1 . K O S E L L E C K , R e i n h a r t , o p . c i t . , p. 1 4 7 .
2 2 . DIDEROT e D A L E M B E R T . Enciclopédia
dos ofícios,
por uma sociedade
ou dicionário
de letrados.
racionado
das ciências,
das artes e
São Paulo: Editora UNESP, 1 9 8 9 .
2 3 . Ver n o t a 1 9 .
2 4 . Esta hipótese t o m a e m p r e s t a d a a interpretação d a fábula de L a Fontaine, "A raposa
e a s u v a s " , f e i t a p o r J e a n S t a r o b i n s k y n o c a p í t u l o " S u r l a f l a t t e r i a " , n o l i v r o Le
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 53-66. jan/dez 1993 • pag.65
remède
dans le mal,
pp. 6 1 - 9 1 .
2 5 . A Z E V E D O , M a n u e l D u a r t e P e r e i r a . " S o c i e d a d e s f u n d a d a s n o B r a s i l " . In: Revista
IHGB. T o m o XLV11I, p. 2 6 8 .
do
*
2 6 . M A N U E L , E. F r a n k & M A N U E L , P. Eritzie.
Utopian
thought
in the
western
world.
C a m b r i d g e : B e l k n a p P r e s s of H a r v a r d U n i v e r s i t y , 1 9 7 9 .
2 7 . Ver n o t a 19.
2 8 . ARENDT, l i a n n a h . A condição
humana.
Rio d e J a n e i r o : f o r e n s e U n i v e r s i t á r i a , 1 9 8 1 ,
p. 2 9 1 .
29. COCH1N, Augustin.
Sociétés
et Démocratie.
Paris: Librairie Plon, s/d.
30. Idem, ibidem.
3 1 . C Â N D I D O , A n t ô n i o . Formação
da literatura
brasileira.
R
A
Momentos decisivos. Belo
Horizonte: Itatiaia, 1 9 8 1 .
A
B
S
T
The a r t i c l e d i s c u s s e s in what m e a s u r e the
which were f o u n d e d during
C
T
' l i t e r a t i ' of c o l o n i a l s o c i e t y i n t h e a c a d e m i e s
18th century
s h a r e d the
climate
of opinion
which
c h a r a c t e r i z e d the e u r o p e a n i n t e l l e c t u a l m o v e m e n t of the p e r i o d a n d d e v e l o p e d
s a m e style.
the
that i s , s p e c i f i c f o r m s of s o c i a b i l i t y w h i c h s o u g h t c i v i l i t y a n d p o l i t e n e s s .
In the s e a r c h f o r a h a p p i e r a n d m o r e h a r m o n i o u s s o c i e t y , t h e p r i n c i p i e s w i t h w h i c h
t h e s e men of letters
i n t e n d e d to p r o m o t e the p r o g r e s s o f the E n l i g h t e n m e n t w i l l b e
a n a l y z e d t h r o u g h part of t h e d o c u m e n t a t i o n they p r o d u c e d .
R
É
S
U
M
É
V article discute dans q u e l l e mesure 'les lettrés' de la société c o l o n i a l e , reunis dans
les a c a d e m i e s f o n d é e s a u X V l l I è s i è c l e , p a r t a g e a i e n t la mêmepensée
qui caractérisait
le m o u v e m e n t i n t e l l e c t u e l e u r o p é e n d e c e t t e p é r i o d e et o n t d é v e l o p p é le m é m e
style,
c ' e s t - à - d i r e , d e s f o r m e s s p é c i f i q u e s d e s o c i a b i l i t é q u i c h e r c h a i e n t la c i v i l i t é et la
p o l i t e s s e . A v e c u n e partie d e la d o c u m e n t a t i o n p r o d u i t e par c e s hommes
de
lettres,
s o n t a n a l i s e s l e s p r í n c i p e s a v e c l e s q u e l s ils ont p r e t e n d u p r o m o u v o i r le p r o g r è s d e s
L u m i è r e s , à l a r e c h e r c h e d u n e s o c i é t é p l u s h e u r e u s e et p l u s h a r m o n i o u s e .
pag.66. jan/dez 1995
Marcus Alexandre Moita
Professor d a UERJ. Chefe d a Divisão de Pesquisa d o Arquivo d a
Cidade d o Rio de Janeiro. Doutorando e m História - UFRJ.
Servidão e dúvidas
o l e i t o r d a História,
do
Futuro
de A n t ô n i o V i e i r a
Que historiador h á o u p o d e haver, por
Objeção, mostra-se que o melhor
mais diligente investigador que seja
comentador
dos sucessos presentes ou passados,
tempo', n o início do texto,
que não e s c r e v a p o r i n f o r m a ç õ e s ? E
se d e p a r a d o c o m a g r a v i d a d e d a
que i n f o r m a ç õ e s há de haver que n ã o
leitura de A n t ô n i o Vieira sobre a
das profecias
é o
havia
vão envoltas e m muitos erros, o u d a
alma
ignorância, o u d a malícia? Q u e historiador
curiosidade humana sua matéria'.
houve de tão limpo coração e tão inteiro
diante do julgamento mordaz d o jesufta,
amador da verdade, que náo inclinasse o
e de seu corolário inevitável - a remissão
humana,
'quão
própria
é da
2
E
respeito, a lisonja, a vingança, o ódio, o
aos n e o - a r c a i s m o s d e n o s s a é p o c a -, n ã o
amor, o u d a s u a , o u d o s e u estranho
fora capaz de resistir ao e s b o ç o de u m
p r í n c i p e ? T o d a s as p e n a s n a s c e r a m e m
sorriso:
carne e sangue, e todos na tinta d e escrever
misturam as cores do seu afeto.'
... n ã o havia c o i s a tão baixa e tão
miúda
^ V a r a chegar a esta p\a s s a g e m , o
• — ^ l e i t o r havia pperco
ercorrido
por onde
os homens
imaginassem que podiam
não
alcançar
quase
aquele segredo que Deus não quis que
páginas.
eles s o u b e s s e m : o ranger da porta, o
Estava agora entre dois títulos: 'Verdade
estalar d o vidro, o cintilar da candeia,
desta História' e 'Resposta a uma
o topar do pé, o sacudir d o s sapatos.
-ü.
c e n t o e c i ní qquueenntt a
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n" 1-2. p. 67*2. jan/dez 1995 - pag 67
C
A
tudo
notavam
como
avisos
da
E
casos o paradigma é ainda a certeza
providência e temiam como presságios
positiva de que a linguagem está
do futuro. Talo da c e g u e i r a e d e s a t i n o
passu
dos
tempos
passados,
por
não
e n v e r g o n h a r a n o b r e z a d a n o s s a fé
com a supertiçào dos presentes.
3
pari
c o m o real.
Descobrir
e encobrir,
estes são
os
verbos da graça em Antônio Vieira. Sob
o d o m í n i o d e s t e s , as l i n h a s
escritas
0 a n a c r o n i s m o de que p o d e r í a m o s ser
passam à vista do leitor, a n s i o s o e m
acusados é p e r d o á v e l , u m a vez que se
i n t e r p r e t a r , e m d i z e r o q u e o e s c r i t o é.
relaciona com a própria
A
substância
textual. O tempo é como o
dividido
em dois
visível-superior,
mundo,
hemisférios,
o
passado,
e
interpretação
fundada
no
'é',
entretanto, avaliza a resposta antes que
um
e l a c o m p a r e ç a , p e r m i t i n d o a q u e m lê
um
um domínio empírico sobre o
invisível-inferior, o futuro. Vive-se indo,
Poderíamos
onde o pretérito termina e o porvir se
estranho e atual: esse ' é ' , essa terceira
inicia. O que resta são os horizontes do
pessoa do
tempo, instantes presentes como
assemelha-se
diz Vieira.
4
nos
É esta sensação espacial do
tempo c o m o 'superfície temporal' que
arriscar
presente
à
um
texto.
do
paralelo
indicativo,
terceirização
da
a d m i n i s t r a ç ã o m o d e r n a . Dê a o u t r o s
uma parte da sua
responsabilidade
que
pretérita. Se isso é elogiável no plano
nunca dos malabarismos literários do
da gerência, não parece ser o c a s o no
jesuíta.
que
s u b o r d i n a o leitor. Mais servo do
Ma â n s i a
realizado como
de
ver
matéria,
o
tempo
afastando
se
refere
responsabilidade
à
do
leitura.
leitor
A
não
se
assim a angústia m o d e r n a , o leitor não
e n c o n t r a na filiação t e ó r i c a . C a b e
duvida, e toma a ilusão por realidade.
atividade da leitura impor a necessidade
E o p r ó p r i o V i e i r a é q u e m se e n c a r r e g a
de se q u e r e r algo d i f e r e n t e , q u e n ã o se
de impedir o leitor de d e s c o b r i r e m suas
encontra
l i n h a s a l g o p a r a a l é m d o q u e foi d i t o .
mudando
P a r e c e n ã o h a v e r e s c o l h a : se a d ú v i d a
persiste e m d e m a s i a , cabe qualificar o
autor
como
paranóico,
ou
outros
equivalentes psicanalíticos; no caso de
se m a n t e r e x c l u s i v a m e n t e s e r v i l , a c a b a
por
endossar
a sua
caracterização
naquilo
os
que j á
propósitos
se
e
à
sabia,
a
vida
anteriormente aceitos. Fora d e s s a tarefa
o 'é' revela-se c o m o privatização
da
existência, e o outro, o texto, só serve
p a r a a l i m e n t a r e s s e p r o j e t o . O l e i t o r se
transforma em j u i z a proferir sentenças,
a perder de vista a i m a g e m do s á b i o e m
permanente d ú v i d a sobre o seu saber.
enquanto místico. Os mais refinados,
d o t a d o s de u m t a n t o m a i s d e s u t i l e z a ,
É certo
preferem
do
sobrevive uma certa defesa psíquica.
é uma utopia. Em qualquer dos
Embora também nos pareça quase ó b v i o
Futuro
a f i r m a r q u e a História
pag 68. jan/dez 1995
que
em toda
interpretação
V
o
o fato d e e s t a r m o s t a n t o m a i s p r e s e n t e s
se processar através d o v e r b o ser, agora
na leitura q u a n t o m a i s n o s p e r d e m o s
tomado no pretérito imperfeito d o subjuntivo:
em analogias e anacronismos.
Manter-
'fosse' forma idêntica ao m e s m o tempo
se n e s s e c o n f o r t á v e l p e r d e r - s e , p o r é m ,
verbal d o verbo ir. D e s s a i m p r e s s i o n a n t e
em nada acrescenta à obra lida. Se o ' é '
vinculação
entre
pode identificar-se
movimento
neste tempo q u i m é r i c o e
c o m u m a leitura
medíocre e passiva, a s u a ruptura deve
a
existência
e
o
c o n d i c i o n a l , surge a p o s i ç ã o d e s i m u l t a -
H I S T O R i Â
D O
FUTURO.
L
I
V
R
O
ANTEPRIMEYRO
P R O L O G O M E N O A T O D A A HISTOria do Faturo, cm que fe declara ofim,& fc
provaó os fundamentos delia.
Matéria, Verdade, & Utilidades da Hifioria
dê Faturo.
ESCRITO PELO PADRE
A N T Ô N I O VIEYR
da Companhia dc JESUS, Pregador dc S. Magcftadc.
LISBOA OCCIDENTAL»
MtOficina<te A N T O N I O P E P R O Z O GALUAM.
mtíttf* turfuru*. Aarw áe 1718;.
Vieira, A n t ô n i o (Padre). H i s t ó r i a do Futuro, livro ante-primeiro.
Lisboa: na Oficina de A n t ô n i o Pedrozo Galram, 1718.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 67-82. Jan/dez 1995 - pag. 69
C
A
E
neidade de s u b o r d i n a ç ã o e d ú v i d a .
imperadores, heróis míticos ou
Diante do ' é ' o texto não
teólogos
oferecer
resistência,
interpretação
consegue
apaga-se.
subjuntiva,
por
A
e historiadores
modernos,
povos,
reais,
antigos
nações,
e
estados,
mais
c i d a d e s e m a r e s - faz c o m q u e o e n r e d o
paradoxal que pareça, alcança um grau
n ã o se r e a l i z e p o r f a l t a d e u m p a l c o t ã o
mais elevado de r e a l i d a d e , no instante
a m p l o . M e s m o s a b e n d o que este é 'o
em que
forte
teatro do m u n d o ' , tal c o m o o
define
de r e s i s t ê n c i a , a vontade
Vieira, o ú n i c o p a l c o capaz de
abrigar
admite
componente
de
não
se
no
texto
tentar
tantas histórias, t e m p o s e m u n d o s seria
c o m p r e e n d ê - l o , o l e i t o r vai d e s c o b r i n d o
a eternidade. Disso resulta que apenas
o
texto
e
comunicar.
um
encobrindo
Ao
que
um adjetivo serve tanto para o m u n d o ,
gostaríamos que ele fosse. A leitura,
c o m o para o h o m e m , para a profecia,
a g o r a , se e n c a r r e g a
para a História, para o t e m p o , para o
encoberto,
que
o
ser
de d e s c o b r i r
ao ser
o
descoberto
'destino':
incompleto.
Como
então
n e c e s s i t a n o v a m e n t e se e n c o b r i r p a r a
e x i g i r d e V i e i r a u m f i m , se é a l g o q u e só
garantir o seu segredo: a p o s s i b i l i d a d e
existirá no dia do j u í z o e, então, j á não será
ou impossibilidade da leitura, que são,
mais término e sim julgamento pretérito.
enfim, a mesma coisa.
Alguns
U m s e r e ir
leitores
poderão afirmar
que
i n f i n d á v e l , q u e o b t é m f i m n a medida e m
esse escrito se m a n t e v e
que imaginamos o 'fosse' do futuro.
porque Vieira fora derrotado em
Os escritos de Vieira, ceifados por u m a
desejo
notável preocupação estética, fogem da
I n q u i s i ç ã o . E a i n d a d i r i a m q u e , a p ó s tal
interpretação, essa marca da
moder-
f a t o , o d e l í r i o , s i n ô n i m o d a d e r r o t a , se
ideal,
a p o d e r o u c a d a vez m a i s d e s u a a l m a ,
nidade. A n s e i a m por um leitor
de
Quinto
incompleto,
Império
que j a m a i s existirá por c o m p l e t o , pois,
i m p e d i n d o - o de dar c a b o de s u a
tal q u a l o ' d e s t i n o ' , n u n c a se c o n c l u i r á .
do Futuro.
Essa incompletude humana, que
mas incapazes
plano
mais
imediato
num
poderíamos
relacionar c o m o próprio
São explicações
pela
história
possíveis,
de dar c o n t a
angustiante incompletude
seu
dessa
substantiva
pensamento
de s u a p o é t i c a . Há e m V i e i r a , e m a i s
religioso do p e c a d o , manifesta-se c o m o
particularmente nesta obra analisada,
essência
de
toda
ação
mundana.
uma certa retração, que aproxima
e
I n c l u i n d o aí a c r i a ç ã o l i t e r á r i a . T a l v e z a
afasta o leitor, que o t o r n a í n t i m o e
história
estranho,
do Futuro
decididamente
seja a sua obra mais
à tentação
do
sensação
diálogo mudo. Só pode existir diálogo
que o leitor tem apenas ao folhear esta
c o m resistência, c o m a c o n f i s s ã o de sua
p e ç a de u m q u a s e - t e a t r o . O e x c e s s o d e
impossibilidade. O tom
confessional
personagens
dos
dispensa
mundanos,
pag. 70. jan/dez 1995
incompleta,
resistindo
- profetas
filósofos,
bíblicos
santos,
e
reis.
escritos
de
Vieira
posição intimista que caracteriza
a
as
R
V
O
confissões modernas. A o contrário, nos
no c o m p a s s o o n d e a d o de ' s e m / n e m ' , na
fala d o e s c r ú p u l o d o e r r o d e q u e s a b e
r e s s o n â n c i a d e raiz ' e x e m p l a r / e x e m p l o ' ,
ter c o m e t i d o , p o i s a d m i t e o i n c o n f e s s o .
na s o n o r i d a d e
O autor v e m nos apresentar aquilo que
'ondas confusas', 'nuvens', 'noite', no
ele s a b e e x i s t i r t ã o s o m e n t e p o r d i r e i t o ,
uso de p r e p o s i ç õ e s e artigos
e não de fato, o destino: 'esta nova e
como e m 'a cuja a glória' o u ' a salva-
nunca ouvida História'.
m e n t o a frágil b a r q u i n h a ' , o u a i n d a n a
Seria esta mais u m a das belas ironias
de A n t ô n i o V i e i r a ? T a l v e z
pudéssemos
enxergar nesta 'nova e nunca
ouvida
recorrente de 'imenso',
idênticos
repetição maior/maior', da última sentença.
Após
esses
sensação
recursos
literários,
predominante
é
a
a
do
História' uma exaltação alegórica da
movimento
vida, o que eqüivale à sua mortificaçáo:
preposicional, pois manifesta-se por
do
mar.
Sensação
S ó s e s o l i t a r i a m e n t e e n t r a m o s n e l a (na
relação, estabelecendo
Profecia) (mais ainda que N o é no m e i o
entre os m o v i m e n t o s d o mar, d a vida e
do dilúvio), s e m companheiro, s e m
da
guia.
tivamente, essa sensação de movimento
s e m estrela
nem farol, sem
profecia.
Curiosa
proximidade
e
significa-
mar é
não foi estabelecida a partir d o s verbos.
i m e n s o , as o n d a s c o n f u s a s , as n u v e n s
Ao contrário, nesta passagem os verbos
espessas,
são frágeis: 'entramos',
exemplar
nem exemplo.O
a
noite
escuríssima;
e s p e r a m o s n o P a i d o s L u m e s (a c u j a a
glória e de s e u filho servimos), tirará a
ondulante, apenas cortado pela certeza
s a l v a m e n t o a frágil b a r q u i n h a : e l a c o m
aguda d o 'mar é' e a força futura da ação
maior ventura que Argos, e nós c o m
divina,
maior que Tífis.
maior
5
A citação da mitologia exerce uma
atração quase irresistível. Q u e m não
gostaria
de
correr
ao
mitológico greco-romano
Dicionário
e m busca de
alusões simbólicas? O texto,
porém,
impõe u m a tarefa u m p o u c o mais árdua,
ecos
'esperamos',
'servimos',
graves
do
ritmo
tirará'. O sentido do texto é
do
que
os
verbos
podem
comportar. Só podemos alcançá-lo por
aproximação, nos relacionando c o m os
seus derivativos.
própria
O m o v i m e n t o aí é a
criação
da
vida,
cuja
pressuposiçào é a fluidez e mobilidade
d o m a r : "e o E s p í r i t o d e D e u s m o v i a - s e
s o b r e as á g u a s " ( G ê n e s i s , 1-2).
e certamente mais lenta: a fruição das
frases. A metáfora náutica da citação
Em cada frase, "(mais ainda que N o é no
mitológica deixa de ser apenas uma
m e i o d o d i l ú v i o ) " e "(a c u j a g l ó r i a e d e
referência para ganhar o estatuto de
seu Filho servimos)",
os
parênteses
cerne da construção textual. O ritmo
a s s u m e m o papel de e s p e l h o s c ô n c a v o s
sequenciado é u m a tônica: na insistente
da memória histórica da cristandade.
imagem 'sós e solitariamente' do início.
Somos
nós leitores
que nos vemos
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n- 1-2. p. 67-82. jan/dez I995 pag.71
A
E
C
refletidos
nesses parênteses.
Somos
da exata
necessidade
de
História.
n ó s q u e a p a r e c e m o s c o m p a r a d o s a Moé
Conflito
ou servindo
convivência do ' d o m ' e do 'roubo'
a Cristo.
Mas a
nossa
que
é corporificado
pela
em
imagem é deformada pelos movimentos
sua
de
afastamento
usurpar da eternidade a p e r m a n ê n c i a ,
p r o d u z i d o s p e l o r e c u r s o às e x p r e s s õ e s
dando ao tempo o c o m p l e m e n t o do qual
'mais ainda que'
carece:
aproximação
e
e 'a glória de'.
A
escrita.
Como
parar.
cristão
Mas
precisa
Vieira
duvida
p r i m e i r a d á a o t e x t o o t o m de s o l i d ã o
s u f i c i e n t e m e n t e d o m u n d o e,
profética, aproximando-nos do espelho
precisa roubar da verdade aceita aquilo
e nos suprindo da necessária arrogância
que ela e s c o n d e . E diante da fácil rotina
da ação cristã. A s e g u n d a afasta-nos de
e m se dizer c r i s t à o , faz-se
nossa própria imagem e nos submete à
Porém, aquilo que descobre é o que nào
s e r v i d ã o d i v i n a . T u d o f u n c i o n a c o m o se
esperava e para compreendê-lo,
Vieira, por meio deste artifício,
reconhecer-se e n q u a n t o detentor de u m
fosse
portanto,
mundano.
deve
c a p a z de o f e r e c e r a o l e i t o r u m a t e x t u r a
dom,
vitrea
e n c o b r e o furto à v e r d a d e : a fé q u e o
sobre
profundidade
a
qual
interagem
mnemônica da
a
história
guia
ao q u a l
no
cristã e a superfície da atualidade.
próprio
As f r a s e s de A n t ô n i o
Antônio
lembram
ao
anteriormente
leitor
Vieira
sempre
outras
frases
lidas; qualquer de suas
serve.
mundo
Desta
forma,
é insustentável
no
mundo.
Vieira sempre
aguardou
leitura de seus textos, que os
da
homens
se c o l o c a s s e m e m ' v e n t u r a ' e ' o u s a d i a ' ,
i m a g e n s p o s s u i algo de f a m i l i a r c o m
forma
célebres
antecipa o futuro para tê-lo face a face.
passagens
bíblicas
máximas mundanas.
Nesse
e
com
estranho
de e x p e c t a ç ã o
Seu sentido
de
da alma
profecia
que
eqüivale
à
contágio. Vieira c o m u n i c a à atualidade
imanència da p r o v i d ê n c i a , m a n e i r a c o m
do
a qual a vontade
leitor
problemas
própria existência.
insolúveis
Os
da
especialistas
por
diante".
6
p o d e c o n t a r p a r a "ir
Seguir
impedindo
a
a d m i t e m que s e u s recursos a d v é m de
facilidade dos símbolos das
um patrimônio c o m u m a outros autores
necessitando mortificá-los, para colocar
de
sublinham
uma pedra a mais nos muros protetores
singularidade
da antecámera da metafísica. Lugar de
época.
Apenas
náo
suficientemente a grande
da o b r a de V i e r a , c u j a p e r c e p ç ã o
próprio jesuíta manifesta através
o
do
histórias,
onde os h o m e n s p o d e m refletir sobre a
evidência:
solitariamente,
sós,
a
título e s c o l h i d o , c a p a z de p r o v o c a r u m
caminharem sobre um chão fluido, a
sentido inesperado na História: perdurar no
acreditarem num lume que o m u n d o dá
tempo é náo pertencer ao p r ó p r i o tempo.
i n s u f i c i e n t e prova de existir, m a s que
Do d i á l o g o d a e t e r n i d a d e c o m o t e m p o
s e m ele nào há verdadeiramente m u n d o .
provém a sustentação da cristandade e
A
pag 72. jan/dez 1995
leitura
da
História
do
Futuro
o
V
de
aquilo que nos diz de tão p r ó x i m o , e d e
Portugal, da Colônia, ou mesmo de
tão inacessível. A c o n c e s s ã o ao futuro
qualquer h o m e m que habita os mundos
surge de maneira e m o c i o n a l no v e r b o
periféricos:
muito
ser n o presente d o s u b j u n t i v o ('seja').
segura, muito firme e muito fundada a
Sensação que se estende pela repetição
esperança, é um tormento
do
manifesta-se
o esperar".
como
esperança,
"ainda que seja
desesperado
7
O leitor demora-se nessa frase. Por tudo
advérbio
'muito'.
Os
adjetivos
'segura', 'firme' e 'fundada',
q u e r e r fugir d o s u b s t a n t i v o
parecem
'esperança'
Vieira, A n t ô n i o (padre). Cartas seletas do padre A n t ô n i o Vieira. Paris: em casa de V a . J.P.
Aillaud, Monlon e Ca., 1856.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 67-82. jan/dez 1995 • pag 73
C
A
e
são
amarrados
por
meio
deste
E
tradição velho-testamentária, o sentido
a d v é r b i o . A p r i m e i r a frase aguarda o
relaciona
certeza
e
incerteza.
A
retorno da oração seguinte sobre si. As
segurança do esperar
experiências atormentam, m e s m o que
qualquer força humana. A esperança é
esteja escrito o que vai
a b u s c a d e r e f ú g i o , d e u m lugar p a r a s e
Desesperados
os
acontecer.
homens
aceitam
independe
por a salvo dos h o m e n s e do
de
próprio
apenas dois c a m i n h o s : ou descrêem da
mundo. Dessa forma, a coragem é o seu
salvação e o mundo é a pura expressão
contraponto, que do refúgio lança-se ao
trágica, ou e s p e r a m o d e s e n l a c e
da
m u n d o para aguardar o m o m e n t o
de
' c o m é d i a ' . Ma s e g u n d a o r a ç ã o i n v e r t i d a ,
agir. A a t i t u d e j u s t a ,
da
"é u m t o r m e n t o d e s e s p e r a d o o e s p e r a r " ,
c o r a g e m , b u s c a atingir o estado supra-
os t e r m o s se a r r u i n a m
humano do permanecer.
mutuamente,
criando um v í n c u l o estreito entre
a
na m e d i d a
Mas o
que
permanece não é uma causa, mas o
destruição e a geração. Onde o todo da
efeito
frase t e r m i n a é ali que existe
espera, cujos pilares são a confiança e
início.
invisível
dessa
fortaleza
da
Q u e r e r e s s e a c o n t e c i m e n t o é se f a z e r
a f i d e l i d a d e e m crer. E s s e s
digno daquilo que a c o n t e c e , ser filho do
entretanto,
a c o n t e c i d o , e p o r aí r e n a s c e r .
terreno essencialmente débil,
Essa e x p e r i ê n c i a , contudo, não basta
formado pela incerteza.
para Vieira. E q u i l i b r a n d o o
V i e i r a , se p o d e a c e i t a r e s s a a s s o c i a ç ã o
verbal
e o adjetivo
participio
'desesperado',
i m p u l s i o n a o a f e t o e o faz d e t e r - s e n a
suportes,
estão apoiados
em
de e s p e r a n ç a e c o r a g e m , não
admitir a existência desta
um
pois
pode
incerteza.
s u b s t â n c i a v e r b a l d o ' e s p e r a r ' . Esta a ç ã o
Pois,
apresenta-se c o m o limite do
confessando que aquilo que o sustenta,
tormento
se
assim
o
fizesse,
estaria
e do desespero na m e d i d a e m que lhes
a fé, é insustentável no m u n d o .
concede novo sentido: a coragem
de
buscar o sentido do Novo Testamento.
experimentar
fé.
Neste a e s p e r a n ç a articula-se,
ser
primeiro m o m e n t o , c o m prever, temer
a
tormenta
da
Enquanto a esperança ainda pode
vivenciada c o m o algo
razoavelmente
sólido, embora um tanto fugidio,
esperar é uma ação
o
aterradoramente
e
presumir.
Assume
Daí
num
máxima
significãncia em São Paulo, a partir da
expressão
"fé, esperança
abstrata. Sem referências passadas ou
(Coríntios
1 3 , 13). Na r e a l i d a d e ,
futuras, esperamos. Simplesmente. E
e s p e r a n ç a , c o l o c a d a e n t r e a fé e o a m o r ,
para tal p r e c i s a m o s d e s e n v o l v e r
apresenta-se c o m o passagem entre céu
uma
e
amor"
a
dupla qualidade: a paciência corajosa.
e terra. Diante do p e c a d o ,
Essa matriz é talhada por Vieira usando
h u m a n a , a fé a b s o l u t a c e d e l u g a r a s e u
os sentidos da esperança
provenientes
do Velho e do n o v o T e s t a m e n t o .
pag. 74, jan/dez 1995
Ma
correlato
mundano:
a
essência
esperança.
A n t í d o t o à v e r g o n h a q u e se s e n t e a p ó s
V
o
pecar, a e s p e r a n ç a r e c o l o c a o h o m e m
cristã de estar no m u n d o . Paciência e
na d i r e ç ã o d a f é , a l é m d e c a p a c i t á - l o à
coragem
ação no m u n d o : o amor.
esperança, para dar-lhe
Vieira não assiste àquelas
passivamente.
Amor,
definições
temor,
glorifi-
servem
para
limitar
a
uma forma
simultaneamente divina e m u n d a n a . No
entanto,
esse
mundanismo
precisa
cação, como atitudes da alma cristã,
reconhecer a superioridade do domínio
tradicionalmente
transcendental,
aparecem
relacio-
o
que impõe
n a d o s à e s c a t o l o g i a . O s é c u l o XVII n ã o
cristãos
pode
próprio mundo. O amor ao mundo só
mais alimentar o gosto
esca-
tológico. Seu simbolismo passeia como
forma-limite do trágico nesse
período
histórico. A questão da vida não se
uma vivência
aos
periférica do
pode parcialmente se confessar.
Assim
sendo,
urge
aos
mundos
periféricos e laterais d a esperança u m a
apoia mais no transitório contraposto ao
paciência
eterno, pois a transitoriedade é o assim
Histórias
deve ser. S e m escatologia, resta ao
passado para escrever a 'nova e nunca
h o m e m a naturalidade histórica, esse
o u v i d a História'. Q u e n ã o pode se nutrir
trágico que recita s u a face o c u l t a , a
servilmente da dúvida como Descartes,
comédia. Nos instantes mais trágicos da
e nem manter a ingênua posição de
vida, é possível adivinhar
um sorriso
excluí-la ao servir à fé. Dar conta dessa
mórbido. Esse sorriso é motivado, e m
tarefa de H é r c u l e s o u Davi é o s e u
última análise, pela certeza d o sorriso
projeto,
final d a morte. No barroco, a alegoria
desafiar o que se sabe,
concede
um saber do que ainda náo se conhece.
cidadania à comédia,
mortificação
aproxima
pela
tragédia
lado, c o m a morte sorridente
outro, c o m a vida e m lágrimas.
e, de
Para
Vieira a esperança não podia ser mais
uma confiança transcendental, pois o
acesso ao c é u está interrompido
pela
Também
inadmissível é a passividade no esperar,
função
do
tormento
e a coragem
ancorada
necessitando,
para
no
isso,
arremessando
E, v e r d a d e i r a m e n t e , q u e s e o s b e n s d a
A paciência corajosa faz fronteira, de u m
em
para ler todas as
e
comédia, lágrimas e risos.
culpa histórica dos homens.
futura
que lhe
ciência se colhem e c o n h e c e m melhor
pelos
males da ignorância,
facilmente
sucessos
que
do
achará
discorrer
mundo,
pelos
desde
princípio até hoje, q u e foram
seu
muito
menos os danos e m que caíram os
h o m e n s por lhes faltar a noticia do
passado, que aqueles que cegamente se
precipitam pela ignorância d o futuro.*
encobre, e que era fundamentalmente
Segundo
o erro q u e Vieira acusava nos j u d e u s .
p a s s a g e m , há u m a c o m b i n a ç ã o e n t r e o
Então, a matriz expressa o
eterno e o agora. O acontecimento da
paroxismo
da esperança, o u seja, a única
forma
a ordem
do tempo
dessa
ignorância valora, por medidas distintas.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n* 1-2, p. 67-82, Jan/dez 1995-pag.75
o p a s s a d o e o f u t u r o . P o d e - s e até ignorar
ria frase s e g u i n t e , a p r i m e i r a i n v e n ç ã o
algo d e s s e ' v i s i v e l - s u p e r i o r ' , o p a s s a d o ,
de c i r c u n s t â n c i a
mas improvável fica o m u n d o sem valor
articulação do 'que' e 'em q u e ' c o m os
de futuro, esse ' i n v i s í v e l - i n f e r i o r ' .
verbos no pretérito perfeito, ' f o r a m ' e
Ma
é construída
pela
l e i t u r a de V i e i r a n o s s o s o l h o s f i x a m - s e
'caíram', materializados no
no h o r i z o n t e ,
'faltar'. A última frase, p o r é m , perde o
p o i s aí s e
encontram
aquilo que ainda não existe e o que j á
caráter de c i r c u n s t â n c i a para
deixou
causai.
de ser.
conjugam-se
Morte
e
nascimento
nessa f o r m a de
olhar,
p a s s a n d o a ser de difícil d i s t i n ç ã o .
efeito causai torna-se
O
i n e x o r á v e l ; se
houver desvio do horizonte,
forma
tornar-se
reforça
a
circunstância do 'que' por u m a causa
'que' adverbialmente
se p r e c i p i t a
fundo escuro da ignorância do
no
futuro.
a
O p a s s a d o é u m ' q u e ' o u algo ' e m q u e '
c e g u e i r a e a b r e - s e o a b i s m o d o porvir.
se a c r e d i t a , p o r é m , o p o r v i r é a q u e l e
Vieira propõe-se a espiar a morte
que não permite o 'se' no acreditar.
frente, c o m o o h o m e m
alicerçando-a,
ocorre
Sua
infinitivo
de
renascentista,
contudo,
na
ponte
nascida da c u l p a necessária de matriz
barroca, a História.
Tomemos
conjunto,
agora a p a s s a g e m no
destacando
importância
dada
seu
sobretudo
por
Vieira
a
aos
a d v é r b i o s de m o d o - ' v e r d a d e i r a m e n t e ' ,
O leitor, a o t e r m i n a r a q u e l a p a s s a g e m ,
'facilmente' e 'cegamente'. A insistência
fica enebriado
das
na terminação ' m e n t e ' , ressaltada pela
modo,
constante remissão à sonoridade ' e m ' ,
'facilmente', 'cega-
parece restaurar o sentido i n c o n f e s s o da
mente'. C o m este artifício Vieira libera
idéia cristã do p e c a d o c o m o m a r c a do
os v e r b o s da f u n ç ã o sintática de arcar
comportamento
pela ressonância
t e r m i n a ç õ e s dos a d v é r b i o s de
'verdadeiramente',
com
a ação.
Prevalece a
c o n s i d e r a ç ã o de eterna atualidade sobre
'colhem' e 'conhecem', compassam a
o modo dos homens. O que foi escrito
rima
n o s s e r v e tão b e m q u e n á o t í n h a m o s a
seu
mensagem
do
primeiros
humano.
verbos,
no
Os
limite.
futuro
A
estridente
do
presente
achará' é rebaixada através do advérbio
'facilmente', apresentando
um
agora
p o s s i b i l i d a d e de d u v i d a r
do
assunto
tratado. A única coisa d i s p o n í v e l
os h o m e n s não manterem o
para
passado
permanente no m u n d o , "discorrer pelos
sobre si, nos ensina Vieira, é o ideal
sucessos
onírico de projetar a crença, pois sendo
do
mundo,
p r i n c í p i o até h o j e " .
pag. 76, jan/dez 1995
desde
seu
de matriz fantástica a s s e m e l h a - s e ao
mentir, mas s e m e s s a fantasia de futuro
assim nos diz Vieira, d e f i n e m - s e
não há r e a l m e n t e crer. As
i m p e d i m e n t o das causas históricas: a
histórias,
como
m e s m o q u a n d o " e m grande parte foram
arte p o é t i c a s e r v e p a r a c o l o r i r o
tiradas da fonte d a m e n t i r a . . . " , têm uma
'havia de ser' e afirmar ' c o m o era b e m
substância
lhes
que f o s s e m ' , e nào para pintar o
permite deixar de ser pretérito para ser
o u c o m o h a v i a s i d o . L o g o , a História
a n t e c i p a ç ã o de futuro.
Futuro
A ignorância é indeterminável, pois a
reverter os q u a d r o s
sua manifestação só pode ser
f a z e r v a l e r o i d e a l n ã o há a r m a m a i s
9
de
idealidade
que
notada
absorve
o estilo poético.
poderosa do que o arranjo
que
feito d e arte e s a b e r d i v i n o .
na
História
exige
dos
anteprimeiro,
e c o n h e c i d a s o b e m que a ciência faz,
referência o dizer de Aristóteles
basta
as o b r a s d e H e r ó d o t o : " p o i s q u e
do
desconhe-
nesse
livro
usar
como
sobre
bem
mundo'
p o d e r i a m s e r p o s t o s e m v e r s o ... , e n e m
tornando-
por isso deixariam de ser história, se fossem
c i m e n t o . Mas o s ' s u c e s s o s d o
precisam superar esse b e m ,
poderia
e
artesanal
m e n t i r o s a . Para d a r às h i s t ó r i a s c o l h i d a s
grau
do
Para
O leitor j á
havia
o
que,
1 0
homens uma certa dose de ignorância
medir
percebido
que
desfavoráveis
quando acontece. Vieira precisa admitir
o estar
que
o natural ao próprio t e m p o , cujo fim é
e m verso o que eram e m p r o s a " . "
e m si o s e u i n í c i o , a m o r t e de q u a l q u e r
Vieira escolhe, p o r é m , Virgílio.
b e m adquirido. Valendo-se das palavras
'colhem
e
conhecem',
inscreve
o
sentido da e s c o l h a . C o m o se dissesse
que o porvir é u m a e s c o l h a responsável
por manter o sonhar, i m p e d i n d o o peso
d o p a s s a d o , q u e faz d o p r e s e n t e
algo
m u i t o f r á g i l . N á o há f u t u r o s e m p r o j e ç ã o
da enteléquia pretérita, cujo
correlato
individual é c o l o c a r t e m p o entre a vida
e a morte. Tempo diferente
temporalidade
que
daquela
vai d a q u i l o
que
ainda não existe para aquilo que j á não
mais existe, que deseja a diferença da
morte antes de morrer, matéria do qual
é feito qualquer
sonho
em todos
os
sonos. Pois é do fantástico dos sonhos
Dobrado de sete lâminas d i z e m que era
a q u e l e e s c u d o (o e s c u d o d e E n é i a s d e
Virgílio); e também o da nossa
História,
para que em tudo lhe seja s e m e l h a n t e ,
é p u b l i c a d o e m s e t e l i v r o s . Mele v e r ã o
os capitães de Portugal s e m c o n s e l h o ,
o que h ã o de resolver; s e m b a t a l h a , o
que h ã o de v e n c e r e s e m r e s i s t ê n c i a ,
o q u e h ã o de c o n q u i s t a r . S o b r e t u d o se
verão
nele
a
sl
mesmos
valorosas ações, como em
e
suas
espelho,
para q u e , c o m estas c ó p i a s de mortecor diante dos olhos, retratem por elas
vivamente os originais, antevendo
o
q u e h â o de o b r a r , p a r a q u e o o b r e m , e
o que hão de ser, p a r a que o s e j a m .
1 2
q u e se c o l h e m as f u t u r a s v e r d a d e s e q u e
d e i x a m de ser verdades q u a n d o p a s s a m .
A Eneida
corre da verdade ao sentido,
O ' o f í c i o ' e a ' o b r i g a ç ã o ' da p o e s i a .
nào havendo c o m o se deter e m n e n h u m
Acervo, Rio de Janeiro, v 8, n' 1-2. p. 67*2,jan/dez 1995-pag.77
destes pólos. A crença desaparece no
e assim se mantinha n o s é c u l o d e Viera,
imediato de sua manifestação, em função da
c o m o u m a o b s e s s ã o d e vigília na fronteira
repressão ao fantasma que habita nas páginas
do temor de s u a ruína.
que escreve, a llíada de Homero. Contudo, o
Virgílio escolhido por Vieira, e m detrimento
de Heródoto c o m o m o d e l o de História, é
aquele relido por Dante. Esse guia privilegiado
do patrimônio c o m u m europeu, que desce e
passeia n o inferno, que passa mais rápido
no purgatório e se detém nas margens do
paraíso terreal, dizendo: "não mais a minha
voz irás ouvir: d i s p õ e d e livre e íntegra
vontade, e s ó c o m e l a deves
prosseguir,
lmponho-te o laurel d a liberdade!"
A máxima de Dante, "não mais a m i n h a v o z
irás ouvir: dispõe d e livre e íntegra vontade,
e s ó c o m ela deves prosseguir. Imponho-te
o laurel d a liberdade!", repercute
como
sentido anterior à promessa d e Vieira 'aos
capitães portugueses', pois nunca a ruína d a
Igreja esteve tão presente, chegando a nós
c o m o m a n e i r a c o m u m e m s e referir a o
mundo. Eles e o leitor terão d e se resolver
sem conselhos porque no livro não há voz.
15
Reina o silêncio, onde qualquer s o m expressa
O leitor se pergunta haver algum lastro de
a gagueira da compreensão. Não há batalhas.
certeza para a presença de Dante Alighierie
Na leitura se vence o livro quando a ele não
como uma das leituras de Vieira, pois este se
se resiste. Esse acontecimento é um combate
refere a Virgílio e n ã o àquele. Tornar
conquistador dos sentidos textuais no
pertinente um contato que não houve de fato
mundo, que reavivam o q u e antes não se
é uma das tarefas impostas pela leitura, que
sabia querer. Onde a motivação se faz de
num sentido que beira o esotérico, admite a
integras vontades, despossuindo-se d o que
auto-interferència dos textos, independente
antes se amava, para desejar, livremente,
dos sujeitos que escrevem. Caso isso não seja
descobrir o quanto de dúvidas existia naquilo
admitido, a configuração de u m patrimônio
que se dizia conhecer. Encobrindo a vergonha
c o m u m seria totalmente dispensável.
de por tanto t e m p o servir à q u i l o q u e
Após o Virgílio de Dante, toda a leitura de
Eneida
realmente não acreditava.
tornou-se u m a forma poética de
O leitor ideal de Vieira, de ontem e de
sentido teológico. Dante havia inaugurado
hoje, se depara c o m a qualidade trágico-
a ficção c o m o m o m e n t o c r i t i c o , o n d e o
cômica
perigo reina s o b r e o ideal d e I m p é r i o e
Uudindo-se c o m as valorosas ações de
r e s t a u r a ç ã o d a Igreja,' q u e é a p r ó p r i a
s u a l e i t u r a . N a frente d o l i v r o , t o m a a s
expressão contrária à época em que a
qualidades
Esposa de Cristo se fez triunfante. Isso havia
leitura duvidando
acontecido no século gótico por excelência,
desenrolar se apresenta cada vez mais
o XIII, para n à o m a i s sair d a s vistas d a
servil a e l a , e qualquer outro, sentido
religiosidade
que pudesse haver j á n ã o importa. Opta
européia.
O triunfo da
universalidade da Igreja tinha sido pensado.
pag. 78. jan/dez 1995
da leitura.
No livro se v é .
por inversão.
Começa a
do tema, e no seu
em servir ao texto, e c o m os deveres de
servo.
Insustentável
sempre,
torna
visível a superfície vítrea da dúvida, e o
texto,
agora,
importa
em
demasia,
admirando a ridícula dúvida criada.
Nesse j o g o de inversões imagéticas, as
c ó p i a s d a c o m p r e e n s ã o se a n u l a m p o r
um colorido s e m cor, a morte-cor. Cabe
entào
perguntar:
qual
é o grau de
i n d e p e n d ê n c i a q u a n d o se lê, j á que o
livro exige d o leitor a s e r v i d ã o e a leitura
deseja duvidar?
Se o livro é a forma
tradicionalmente
humana
de p ô r o
passado na frente d o s o l h o s ,
tornando
a l e i t u r a u m f u t u r o d o p r e t é r i t o , se d o
Vieira, A n t ô n i o . H i s t ó r i a d o Futuro. Livro
anteprimeiro. Lisboa: 1755.
lado d o leitor todo o olhar sobre as linhas
são a m a n e i r a e t i m o l ó g i c a d o futuro d o
sobressalto? Depende da vastidão de
presente,
sua
compreender
significa ter
inteligência,
presente o incompreensível c o m o i d e a l .
sinônimo
Sentimento
tangíveis,
estranho
tanto ao leitor
de informações
generosidade.
O
generoso.
Nesse
residem
as
vive,
honestidade,
arbítrio
e
assim
espera
a intimidade
a
autonomia
necessidades.
improváveis
e
circunstâncias,
uniformidade
suas
as mais
insignificantes
onde
nenhuma
relação
um leitor
de
homem
preocupações
e
responsabilidades mundanas, ou seja,
fazer
permanecer
todas
as
obras
humanas e gratuitamente pensar c o m o
fazê-las acontecer fora de s e u t e m p o e
de s u a é p o c a . Dar a tudo o q u e é b e l o ,
e a
a beleza do que ainda não aconteceu e
i m p o r t â n c i a d a c a u s a p o r q u e se lê s e
s a b e r q u e a q u i l o q u e a fez e x i s t i r n à o
declaram
mais acontece, a História do
do efeito
em
entre
Vieira pede
tipo
e
de sua
a
grandeza
de
de seu
de
Demandando
a
não é
exatas
e da amplitude
quanto à idéia de u m a leitura metódica.
leitor
que aqui
da leitura
absoluto.
O
dado
Futuro.
imcompreensível da compreensão é a
Para tal projeto n e c e s s i t a - s e de u m a
questão do essencialmente
incompleto
espacialidade elástica, que pela atenção
e essa incompletude d a leitura torna-se
de a l m a , preocupa-se c o m o correr d o
o laurel da liberdade
tempo e por isso dá respostas,
ao impedir a
sejam
manifestação fácil d o s d e t e r m i n i s m o s
elas antigas ou m o d e r n a s , pois o m u n d o
de diferentes matizes.
nào
Isso
problematizaçào.
levaria
o
leitor
a se p ô r de
permanece
sendo
uma eterna
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 67*2. Jan/dez 1995 - pag.79
Vieira solicita aos h o m e n s viverem
os
acontece por resfriamento, a luz que o
originais, 'antevendo
de
fazia
o que hão
ver,
alimentada
através
da
obrar'. Talvez seja este o motivo que o
c o n j u g a ç ã o de arte p o é t i c a e
i m p e d e de t e r m i n a r o que
pretendeu
b í b l i c o , torna-se a i l u m i n a ç ã o fria do
em sete capítulos c o m o as
a m a n h e c e r q u a n d o o s o l a i n d a n à o se
escrever
saber
s e t e s l â m i n a s d o e s c u d o de E n é i a s . A o
p ó s d e p é . Mas o s o l t e i m a e m n ã o f a z e r
terminar a leitura do Livro anteprimeiro,
o seu c o s t u m e i r o c a m i n h o e dos sete
prolegõmeno
livros que projetava apenas resultaram
Futuro,
a toda
a História
do
' e m q u e se d e c l a r a o f i m e s e
sete capítulos i n c o m p l e t o s .
Quando
p r o v a m os f u n d a m e n t o s d e l a ' , o l e i t o r
voltar a escrever s o b r e o fato p r o f é t i c o ,
admite
a Clavis
a
clara
existência
de
um
Frophetarum,
V i e i r a se r e t i r a r á
d e s c o m p a s s o , j á q u e se e n c o n t r a s o b r e
para o segredo do latim,
as l i n h a s da
A
aquilo que entardece, a língua sacra,
l i b e r d a d e e s t i l í s t i c a q u e até o m o m e n t o
cujo sentido universalista j á não mais
se
t e m s e n t i d o e novamente a incompletude
História
manifestava,
do
onde
Futuro.
numerosas
descobrindo
m á x i m a s de V i e i r a c r i a v a m u m a r e l a ç ã o
se faz sua parceira.
de i n t i m i d a d e e de a f a s t a m e n t o
por
Enquanto esteve d e c l a r a n d o os fins que
diziam
imaginava para a sua obra e provava os
perplexidade
pelo
que
a n a c r o n i c a m e n t e de tão p r ó x i m o , c e d e
fundamentos dessa empresa, cuidando
a uma escrita menos poética.
Vieira
de
passa a escrever
muito
h u m a n a - a c u r i o s i d a d e -, V i e i r a t i n h a o
escolhe
domínio sobre o leitor e a leitura vinha
de m a n e i r a
agarrada aos argumentos que
para fazer valer o seu projeto, c o m o se
perto
da e s s ê n c i a
da
natureza
a c o m p a n h a d a do a c i r r a m e n t o de
tudo
se d e f e n d e s s e d e a l g o . A q u a n t i d a d e d e
ver e s a b e r . M a s e l e a c a b a s e n d o s e r v o
personagens
de seu projeto, pois e n q u a n t o antevia,
é t a n t a q u e as
páginas
assumem aspecto deformado. Aparenta-
tudo aparentava um desenlace
se a u m d e s a f i o , c u j a t e m á t i c a é: c o m o
roso.
podes ser cristão e não acreditar
na
Chegando
a m b o s ao
primo-
momento
p r ó p r i o daquilo que antes fora preparado,
p r o v i d ê n c i a divina? Mas para que isso
o leitor frustra-se e Vieira se a c a n h a .
a c o n t e ç a , ou deixe de acontecer, basta
As fronteiras da e s p e r a n ç a no m u n d o ,
apenas a própria providência.
m e s m o forjadas na paciência c o r a j o s a ,
V i e i r a vai p e r d e n d o f ô l e g o , r e s p i r a e m
e s t ã o r o m p i d a s . O m u n d o se a c e l e r o u
demasia seus argumentos históricos e
em demasia,
o futuro, que por direito pertence
a
desenlace. Resta agora apenas antever
Deus, sopra a m e a ç a n d o apagar a c h a m a
e r e z a r p a r a q u e a q u i l o q u e foi s o n h a d o
p r o f é t i c a . De s e r v i l a o p r o j e t o p a s s a a
obtenha tempo. E sem desejar,
duvidar timidamente, por excesso
nos deixa uma única lição: enquanto o
histórias,
da ação
pag 80, jan/dez 1995
profética.
de
Tudo
homem
não há t e m p o
projeta,
antevendo
para
o
Vieira
o
que
acontecerá, adquire a força de dar início
ação e a duração ao m e s m o
ao t e m p o - c r i a r ; p o r é m , q u a n d o
quer
transforma o tempo n u m m o d o de ser,
consubstanciar o seu projeto, acontece
o que d o a ao futuro u m a vida e u m a
a fatalidade - a inexistência de suficiente
vontade secreta.
temporalidade.
tempo,
Aqui termina também o que poderíamos
C o m o c o m p r e e n d e r algo é tê-lo e m s u a
c o m e n t a r s o b r e a História
do Futuro
do
i n c o m p l e t u d e e i n c o m p r e e n s ã o , se é d o
padre Antônio Vieira, d a C o m p a n h i a de
homem a trágica propriedade
Jesus.
do
pecado,
sendo
o
histórica
complemento
intimo de seu estar no m u n d o ,
E se há algum relevo
nessa
antevisão da obra de Vieira é fazer
Vieira
ressoar, no m o m e n t o desse ensaio, o
acaba d e i x a n d o c o m o rastro o m o d e l o
que fora anteriormente s e n t e n c i a d o por
impossível e possível da leitura, que são
Raymond Cantei, e m 1959:
a
mesma
enquanto
coisa:
antever.
prefixo,
O
ante,
significa antes ou
diante. C o m o sufixo,
é formador da
terminação do particípio presente dos
verbos
latinos.
conhecedor
Vieira,
do latim,
exímio
sabe
que o
particípio presente nào tem qualquer
valor
preciso
de tempo,
e,
... a a u s ê n c i a de u m a e d i ç ã o critica
m o d e r n a s e f a z sentir. N e n h u m s e r m ã o
foi p u b l i c a d o a t é a q u i n u m a e d i ç ã o q u e
merecesse
verdadeiramente
esse
nome. Ora, é a totalidade dos discursos
de Vieira q u e deve s e r a s s i m e d i t a d a .
dessa
A t a r e f a s e r á l o n g a e d i f i c i l , m a s essa
maneira, figura o t e m p o p o r aquilo que
edição é o m o n u m e n t o q u e Portugal e
lhe v ê a n t e s . A ú n i c a
o Brasil devem à glória daquele que foi
potencialidade
humana é o g e r ú n d i o , que tratando a
o maior de seus p r e d i c a d o r e s .
M
A
1.
O
T
V I E I R A , A n t ô n i o . História
do Futuro.
1 4
S
(Introdução, atualização e notas por Maria
L e o n o r C a r v a l h à o B u e s c o ) . L i s b o a : I m p r e n s a M a c i o n a l - C a s a d a M o e d a , 1 9 8 2 , p.
1 4 6 . A História
do Futuro
do padre Antônio Vieira t e m c o m o p e r í o d o p r o v á v e l de
s u a c o m p o s i ç ã o o s a n o s c o m p r e e n d i d o s entre 1 6 4 9 - 1 6 6 1 . A d m i t e - s e este c o n t o r n o
temporal c o m reservas. O professor A d m a Eadul Muhana n a organização e fixação
do texto "Apologia d a s coisas profetizadas" (Lisboa: C o t o v i a , 1994) d e m o n s t r a a
c o n t i n u i d a d e d a s p r e o c u p a ç õ e s de Vieira c o m esta obra no p e r í o d o de s e u
p r o c e s s o i n q u i s i t o r i a l ; a l g u m a s p a r t e s d o t e x t o p o r e l e o r g a n i z a d o se a d e q u a m
a o p r o j e t o d a História
do Futuro
do jesuíta. Embora a incompletude da obra seja
concreta, a investigação de Muhana acrescenta outras
partes àquelas j á
consagradas, cujas edições anteriores estiveram s o b o controle de J o ã o Lúcio de
A z e v e d o ( C o i m b r a : I m p r e n s a d a U n i v e r s i d a d e , 1 9 1 8 ) e A n t ô n i o S é r g i o &í H e r n a n i
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 67-82, jan/dez 1995 - pag 81
C i d a d e ( L i s b o a : S á d a C o s t a , 1 9 5 3 , v o l . V1I1-IX). n o A r q u i v o n a c i o n a l s e e n c o n t r a m
o referido a J . L d e Azevedo, o Livro anteprimeiro, p r o l e g ô m e n o a toda
do Futuro
o f i c i n a d e A n t ô n i o P e d r o z o G a h a n , 1 7 1 8 ) e a História
1755 pela Oficina de Domingos
2.
História
(nas e d i ç õ e s L i s b o a : E d i t o r e s J . M. C S e a b r a Sc F. Q . A n t u n e s , 1 8 5 5 e
do Futuro
publicada em
Rodrigues.
VIEIRA, A n t ô n i o , o p . c i t . , 1 9 8 2 , p. 4 1 .
3.
I d e m , i b i d e m , p. 4 4 .
4.
I d e m , i b i d e m , p. 4 5 .
5.
I d e m , i b i d e m , p. 4 7 .
6.
Essa expressão encontra- se no "Sermão da Sexagésima", pregado por Vieira na capela Real,
em 1655.
7.
VIEIRA, A n t ô n i o , o p . c i t . , 1 9 8 2 , p. 5 1 .
8.
I d e m , i b i d e m , p. 6 4 .
9.
I d e m , i b i d e m , p. 1 4 7 .
10. I d e m , i b i d e m , p. 9 5 .
1 1 . A R I S T Ó T E L E S . " P o é t i c a " . In: Tópicos;
a liicômaco;
Poética.
Dos argumentos
sofísticos;
Metafísica;
S ã o P a u l o : A b r i l C u l t u r a l , 1 9 7 3 . (Os P e n s a d o r e s IV)
Ética
p. 4 5 1 .
1 2 . VIEIRA, A n t ô n i o , o p . c i t . , p. 9 5 .
13. A L E Q H I E R I , D a n t e .
A divina
comédia.
Belo Horizonte-Brasília: Editora
Itatiaia/
F u n d a ç ã o P r ó - M e m ó r i a , 1 9 8 4 , p. 2 4 5 .
14. CANTEL, Ravmond. Les sermons de Vieira - étude d u style. Paris: Ediciones tlispano-Americanas,
1959, p. 36.
A
B
S
T
R
A
C
T
The paper is about father A n t ô n i o Vieira's prophetic History of the Future, written between
1 6 4 0 - 1 6 6 0 a n d with several editions since the 18th Century. The J e s u i t s prophesying allow
us to think about the question of reading, as well as to discuss the r e a d e r s
standpoint
starting from the leveis of s u b m i s s i o n to the text and of doubt in the act of reading.
R
É
C e s t u n a r t i c l e s u r VHistória
S
U
M
É
do Futuro ( H i s t o i r e d e 1'Avenir), o u v r a g e p r o p h é t i q u e d u
Père A n t ô n i o V i e i r a , é c r i t e n 1 6 4 0 - 1 6 6 0 , q u i a m e r l t é p l u s i e u r s p u b l i c a t i o n s a p r è s le
X V l l l è s i è c l e . Le p r o p h é t i s m e d u J é s u i t e n o u s p e r m e t d e r é f l é c h i r s u r le p r o b l è m e d e
la l e c t u r e , d e d i s c u t e r l a p o s i t i o n d u l e c t e u r à p a r t i r d e s n i v e a u x d e s o u m i s s i o n a u
texte et d u d o u t e d a n s 1'acte d e l e c t u r e .
paB.82.jan/oez 1995
3
Prof . Tânia Maria Tavares Bessone da Cruz Ferreira
Professora de História Medieval da UERJ. Doutora e m História Social pela USP.
L e i t o r e s do R i © de J a n e i r o s
bibliotecas como jardins
das d e l í c i a s
literárias,
"Viva. assim c o m o animais
sobretudo
d o m é s t i c o s dos quais se
inventários.
Médicos
precisa cuidar, a biblioteca
ciosos das e s c o l h a s
particular exige que se
cuidaram
esteja atento a ela. Da
ficassem preservados
m e s m a f o r m a que se m u d a
entre amigos.
para
que
e
em
advogados,
feitas em
seus
vida,
acervos
em família
ou
Uma das maiores dificuldades que
se
apresentam para o aprofundamento
do
uma planta de vaso, pode
se m o d i f i c a r o c o n t e ú d o d e
suas pratileiras."
O
estudo das bibliotecas examinadas é a
Alain Nadaud
s
compreensão
diálogo
entre
a
mais
cultivo
u m d o s m o d e l o s d e c o l e ç ã o . Para D a n i e l
u« m a e s p é c i e d e j a r d i m
R o c h e falar d a s b i b l i o t e c a s é s o b r e t u d o
l e: i tt oo r e s
cariocas
p r e o c uifp a d o s c o m o
de
do
novidade e a herança que envolve cada
das d e l í c i a s , à m a n e i r a d e
Montaigne,
"tentar d e s c r e v e r a h i s t ó r i a d a f a c i l i d a d e
livros
e
de a c e s s o a o s i m p r e s s o s e m a n u s c r i t o s
com
a
nos quais intervém s i m u l t a n e a m e n t e a
biblioteca,
extensão, quantificável, dos meios e das
deixaram vestígios das suas preferências
práticas, e a mudança, qualificável, da
grande
apreciador
freqüentemente
sobrevivência
de
ocupado
de
sua
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p 83-104. jan/dez 1995
pag83
A
C
E
c u l t u r a de u m t e m p o e m c o m p a r a ç ã o às
segundo as práticas e m voga na é p o c a . As
suas práticas".
Esta conduta permitiria
funções da utilização dos livros nos espaços
uma melhor troca de conhecimentos em
privados e n v o l v i a m leituras e m voz alta,
v i r t u d e d e s t a p l u r a l i d a d e de s i t u a ç õ e s
livre e fácil acesso aos livros para leituras,
q u e se a p r e s e n t a p a r a o
aqui e a l i , s e m c o m p r o m i s s o s rígidos c o m
Perceber
1
estudioso.
as
mudanças
permanências
através
e
as
a continuidade, o tempo aberto
para
das
presença dos amigos e leitores eventuais,
das
interessados no cultivo das sociabilidades
b i b l i o t e c a s p r e s s u p õ e u m d i á l o g o entre
culturais, n o m o m e n t o d o registro cartorial
o h i s t o r i a d o r e as f o n t e s .
durante o processo dos inventários estas
g i j, r h . M ' J J V 1 Í 0 ' J f j £ £ É j } ' ' X
g/R,'
A estas possibilidades acrescentam-se
diferenças também mantinham-se nítidas.
d i f i c u l d a d e s , na m e d i d a que o
Cada
transformações
do
acervo
livro
um
deles
pensou
em
uma
guardado no espaço privado contrapõe-
o r g a n i z a ç ã o e s p e c i a l para as b i b l i o t e c a s ,
se, em situação, ao livro instalado para
de m o d o q u e t o d a s s e f o r m a r a m c o m
uso no e s p a ç o p ú b l i c o . O primeiro pode
características b e m próprias, tendo,
ser
entanto, alguma organicidade
instalado
podemos
na
desordem,
perceber
como
estudando
os
no
comum,
que era o p r i v i l é g i o para o b r a s de c u n h o
i n v e n t á r i o s , e o s o u t r o s se i n s t a l a v a m
profissional.
na o r d e m e na c l a s s i f i c a ç ã o que
se
Madaud\ os cuidados c o m a disposição
buscava aperfeiçoar, como tivemos uma
que os d o n o s d e r a m a s u a s b i b l i o t e c a s
a m o s t r a no c a s o das b i b l i o t e c a s para
a j u d a m a organizar e c o m p r e e n d e r m e l h o r
uso p ú b l i c o .
o c o n t e ú d o de s u a s p r a t e l e i r a s e s u a s
O gabinete ideal d o c o l é g i o j e s u í t a que
testemunha,
Vocationes
Voltaire
por
exemplo,
Autumnalis,
a
obra
a b i b l i o t e c a de
em Ferney, a biblioteca
de
Montaigne c o m o a d e Diderot e x p õ e m
algumas maneiras d e criar u m e s p a ç o que
organize a vontade de proteger, d e exibir,
d e criar u m lugar adaptado ao trabalho d o
intelectual c o m o a s o c i a b i l i d a d e .
2
Como
registrou
Alain
e s c o l h a s b i b l i o g r á f i c a s ao longo da v i d a .
Repetindo
Mornet:
as a n t i g a s i n d a g a ç õ e s
que
livros
possuíam
de
estas
pessoas? Ou, ainda, perguntando
de
forma mais ambiciosa, o que liam estes
homens?
Teremos
boas
respostas
a t r a v é s d o s i n v e n t á r i o s . De u m t o t a l de
97 advogados
e
192 m é d i c o s
documentação específica no
com
Arquivo
Mas t o m a r esta a p a r e n t e d e s o r d e m das
Nacional , foram localizados inventários
bibliotecas particulares c o m o falta de
que pertenciam a familiares próximos e
organização é projetar nossas ansiedades
antepassados. As datas definidas
c o n t e m p o r â n e a s nas formas das diversas
documentos
práticas de ter, utilizar e exibir livros nos
m e t a d e do s é c u l o XIX
Finais do século XIX e início do século XX,
década do século XX.
pag 84 jan/dez 1995
4
abarcavam
da
nos
segunda
até a s e g u n d a
o
V
O estudo de b i b l i o t e c a s , p r i n c i p a l m e n t e
doações
das
mascaram
remanescentes
apresenta
certas
de
inventários,
armadilhas
para
pesquisador, c o m o o e x p u r g o de
do acervo
por controle
simplesmente
por
o
parte
da família,
empréstimos
tocante
não
o
às
procurei,
diversificar
ou
sobre
o
perfil
do
medida
as f o n t e s
conjunto
de
que
conjunto,
bibliotecas
na
ou
especificados,
no
examinadas,
do
de
possível,
informações
livros
que
as
Ari.
686
Livraria».
A . J . Castilho d C., r. S José, 107.
Adolpho de Castro Silva & C . , r. Rosário, 8 1 , Telfph. Íi02 ; sócios :
'Adolpho de Castro e Silva, r. Rosário, SI e r. Barão de Mesquita, 1 } .
* Albino José de Castro e Silva;
2, r Rosário, 81 e r. liarão de Mesquita, 12, Teleph. 5031.
Alexandre Ribeiro « t C , r. Quitanda, 79 B e Rosário, 64 e depósitos r. Quitanda. 58 e r. S . lose. íi8 ; sócio* :
* Alexandre Augusto Ribeiro, r. Quitanda, 79 B.
'Augusto Gonçalves Moreira, r. Quitanda, 79 R.
Alves & C , especialidades : Urros eoilegiaea e acadêmicos, r. Gonçalves
Dia*, 66 e 68, C. do Correio B. (Vide Álmanak
das Províncias,
pag. 10!i5 : sócios :
"Francisco Alves de Oliveira, r. Gonçalves Dias, 46 e 48.
* Nicolau Antônio Alves, r. Gonçalves Dias, 46 e 48, e ladeira do Senado,
25 A , coiiimanditario.
'Manoel Maria dos Santos, r. Gonçalves Dias, 46 e 48, interessado.
I Antônio Augusto da Silva Lobo, r. Sete de Setembro, 8 1 .
Antônio Roberto Costa, r. S . José, 118.
Antônio Teixeira de Castro Dias, r. Andradas, 2 8 .
Augusto Fancho, r. S. José, 9 4 .
Augusto Richanl, r. Bern. de Yasccncellot, 101.
B. L. Garnier, a} 6 ; •}> 3 de P., r. Ouvidor, 71.
-Brandão & Moreira Maximino. r. João Alfredo, 90, antiga da Quitanda,
(Vide Notab. pag. 1918). sócio :
' A n t ô n i o José Gomes Brandão, 4 •
' • »
Quitanda, 90, e r.
Santa Amaro, 35.
aVitish * P. Hblie Society, r. 7 de Setembro, 71. (Vide Notab. pag. 198»),
agente:
' J o i o M . C. ilos Santos, r. 7 de Setembro, 71 e r. S . Joaquim, 175.
Carlos Gaspar da Silva, r. Quitanda, 111 e 113, Teleph. 30
Carvalhaes A C , r. Ourivrs, 5 5 ; sócios:
'Carlos de Carvalhaes Pinheiro, r. Ourives, 55.
'Leandro B. Pereira, r. Ourivea, 53.
Crus Coutinho, r. S. J jsé 76 ; dono :
* Francisco Rodrigues ds Crus Coutinho Carvalho, r. S. José, 76.
Fernandes, Ribeiro & C , r. Quitanda, 71, e r. Rosário, 47 ; sócios:
•Joaé Fernandes Couto, r. Quitanda, 7 2 .
'Maximiano Xavier Vas Osório, r. Quitanda, 72.
' H e i t o r Ribeiro da Cunha, r. Quitanda, 7 2 .
t i . de Araújo A C . , r. Gen. Câmara, 9 ; sócio :
'Gabriel Pinto de Araújo, r G e n . Câmara, 9.
ves Mendes A C , r. Ouvidor, 25 B e 38 ; sócios :
' J ú l i o Gonçalves Mendes, r. Ouvidor, 25 B e 38, e r . Bispo, 36 C
* Antônio Manoel Fernandes da Silva, r. Ouvidor, 25 B e 38, c o m o .
* Antônio Plácido Marques, r. Ouvidor, 25 B e 8 8 , inter.
'Joaquim Cardoso Pereira, r. Ouvidor, 25 B e 38, inter.
5
3
h
Almamaque administrativo, mercantil e industrial da Corte e da p r o v í n c i a d o Rio de Janeiro. Rio
de Janeiro: Livraria Universal de E. & H. Laemmert, 1876.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2, p. 83-104, jan/dez 1995 - pag 85
s
C
A
compunham. Apesar da maioria
E
náo
padronização nào ocorreu. Às vezes, o
estar c a t a l o g a d a c o m rigor, foi
sobre
escrivão generalizava suas declarações
esses
estas
s o b r e o s b e n s m ó v e i s , até p e l a a u s ê n c i a
registros
que
elaborei
reflexões.
de
Status, e d u c a ç ã o , riqueza e influência
política enfeixavam-se e m poucas mãos,
n u m a c i d a d e c o m o o R i o d e J a n e i r o na
virada do s é c u l o . Os inventários, verbas
5
testamentárias,
documentos
escrituras
de c u n h o
e
outros
particular
são
ótimos indicadores desta relação.
um critério
descrição
de
mortem apresentava-se dividido em três
partes: a primeira, o n d e o inventariante
- que podia ser m e m b r o da
amigo
ou
um
alguns
para
bens,
a
como
gabinetes e b i b l i o t e c a s , por parte
dos
f u n c i o n á r i o s encarregados desse tipo de
tarefa.
Com
isso, prejudicava-se
caracterização
dos
objetos
que
a
se
deseja estudar.
Ao contrário,
alguns
eram bastante
minuciosos e
faziam
anotações
Ma s u a f o r m a b á s i c a , u m i n v e n t á r i o p o s t -
padronizado
precisas.
Uns
ficaram
i n c o n c l u s o s ; outros, por p r o b l e m a s de
má
conservação,
tornaram-se
inacessíveis.
família,
representante
legal
Advogados
e médicos eram categorias
n o m e a d o - identificava a si e ao morto,
sócio-profissionais
com
grande
indicando deste a profissão, o endereço
participação no conjunto das atividades
residencial, os possíveis herdeiros e a
político-administrativas
causa da morte, e fazendo m e n ç ã o , de
produção historiográfica j á tratou dessa
forma resumida, aos bens pessoais do
relaçào
falecido.
importantes.
Nessa
fase
poderiam
ser
em
brasileiras.
diversos
A
estudos
Roderick Jean Barman e
incluídos, se e x i s t i s s e m , o testamento
José
e a escritura a n t e n u p c i a l ; a segunda, na
acuradas análises sobre a atuação dos
q u a l se a p r e s e n t a v a a r e l a ç à o c o m p l e t a
advogados na vida política do
dos bens, c o m a respectiva
e os desdobramentos do
elaborada
por
avaliação,
profissional
Murilo de Carvalho
realizaram
Império
bacharelismo
na vida pública brasileira, através
de
especialmente n o m e a d o para esse f i m ,
a n á l i s e s p r o s o p o g r á f i c a s . Na s ó l i d a o b r a
que
de Licurgo Santos f i l h o , o
visitava
os
locais
onde
se
tratamento
encontravam os pertences e relatava por
dado ao papel dos m é d i c o s criou u m a
escrito todos
e s p é c i e de biografia c o l e t i v a a l e n t a d a ,
os seus
passos
neste
processo; e a terceira, que concentrava
representando
petições e quaisquer outros
sobre a evolução dos
pedidos
formais dos interessados na herança e
a conclusão
sobre
meaçào, quando
Em diversos
pag.86, jan/dez 1995
a partilha
cabíveis.
e/ou
uma abordagem
m é d i c o s no B r a s i l .
única
conhecimentos
7
Médicos e a d v o g a d o s f a z i a m parte d o s
6
casos, no entanto,
1 7 % d a p o p u l a ç ã o l i v r e q u e p o d i a m ler
essa
e escrever. Estavam entre os eleitores.
R
que
O
V
por
volta
ultrapassavam
de
1889
o total
de
não
125.000
pessoas. E m meados do século XIX, os
8
currículos adotados por escolas do Rio
j á e v i d e n c i a v a m u m a forte i n f l u ê n c i a d e
autores clássicos o u franceses, o u ainda
clássicos comentados por estudiosos
franceses, tendência que era reforçada
nos cursos u n i v e r s i t á r i o s .
9
Ma p a s s a g e m
do s é c u l o , e s t a i n f l u ê n c i a s e a t e n u o u ,
acrescentando-se às humanidades e à
gramática cursos de ciências
naturais,
geografia, matemática e história, que
enriqueciam e ampliavam a formação.
1 0
A verdadeira ruptura e m direção a novas
leituras
e novas
práticas
ocorreu
sobretudo no início do século XX, a
partir d o s c u r s o s d e M e d i c i n a q u e , d e s t a
forma, lutavam pela sua modernização.
Sobretudo
a partir de 1 9 0 0 , c o m a
quase exclusivismo de alguns
autores,
como Bentham, por e x e m p l o . "
Frente às novas necessidades d a clientela,
as o b r a s c o n s u m i d a s p e l o s profissionais
mudaram
gradativamente
de
perfil,
obrigando a u m a m o d i f i c a ç ã o d o tipo de
oferta que se fazia n a propaganda das
livrarias e a n ú n c i o s especiais sobre livros.
Estas m u d a n ç a s t a m b é m
observadas
podem ser
nas obras localizadas nas
bibliotecas d o s profissionais e m atividade,
nas duas primeiras d é c a d a s d e n o s s o
s é c u l o , e m relação aos p e r í o d o s anteriores.
As
novas
perspectivas
nacionais
e
internacionais exigiam u m a r e f o r m u l a ç ã o
dos critérios d e formação e atualização de
juristas
e
substituindo
advogados,
que
foram
pouco a pouco obras de
Benthan por outras d e Spencer e, e m alguns
casos, Proudhon, Tucker, C a r l y l e .
12
introdução de métodos científicos e
experimentais,
intelectual
o
em
anacronismo
vigor
foi-se
Estas obras
ficavam, muitas
incorporadas
vezes,
ao acervo de livros de
técnicas
diversos médicos e advogados, algumas
cirúrgicas, a criação de assistência
delas em razão de referências explícitas,
sistemática aos alienados, a fundação
q u e as t o r n a v a m d e u s o o b r i g a t ó r i o e m
do I n s t i t u t o O s w a l d o C r u z , q u e p e r m i t i u
face de e x i g ê n c i a d o s c u r r í c u l o s de
avanços
colégios e outros cursos preparatórios,
transformando.
novas
nos estudos
de
medicina
tropical, tudo isso colaborou na criação
como Racine, Chateaubriand,
de u m a n o v a t e n d ê n c i a d a s p e s q u i s a s
Beuve, Corneille e Molière, que podiam
científicas, que se soltaram de suas
ser encontradas e m muitas bibliotecas
amarras acadêmicas e oratórias
para
particulares. Outras eram adquiridas por
proposta, que
i n t e r e s s e s p e s s o a i s d o leitor. M a s q u a l
inaugurar u m a nova
Sainte-
respeito
seria o tipo de livro que realmente
internacional. Quanto aos advogados e
ocupava os espaços das prateleiras de
juristas,
advogados
alcançou, inclusive, grande
as mudanças
tornaram-se
possíveis a partir de novas leituras de
obras que lentamente se libertavam d o
e
médicos
e como
escolhas foram-se m o d i f i c a n d o ?
as
1 3
Em bibliotecas j á c o m p u l s a d a s por
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2, p. 83-104, jan/dez 1995 - pag.87
s
A
C
E
vários estudos que trataram do tema, na
mais modernas
ou mais inseridas nas
t r a n s i ç ã o d o s é c u l o XVIII p a r a o X I X , o
problemáticas
'livro s e d i c i o s o ' o u a 'perigosa literatura
transformações
francesa'
ideológicas permitiram que estas obras
1 4
guardava
especialíssimo.
outra,
um
lugar
De u m a f o r m a o u de
pareciam marco
deixassem
de bibliotecas
do
seu
o terreno
sociais
do proibido
fossem assimiladas pelo
I.lvrarlüH
tempo.
políticas,
Guimarães A Fenlinando, r. O u f i d r , S 5 ; sócios:
•Joaquim ria Coda Leite Guimarães, r. Ouvidor, 35.
'Alberto Feroioando Cogorno de Oliveira, r. Ouvidor, S5.
H . Lonibaert» & C , r. Ourives, l.Teleph. 20íi.e r. A»»emblc i, 7 6 .
H e n r j Berger, r. Brolitlo. 26 P*. i " . Milão. (Vide Notab., da Itália).
J . G. de Azevedo, r. Iruguayana, 33.
J . Guimarães St C . , r . Gen. (amara, 22.
loão M . G d o i Santos, agencia da» Kscriptura* Sagradas em diversa* línguas,
r. Sete de Selem ro, 71, •• r. S . Joaquim, 173 (Vide
Solai,,
pag. 1989).
José Aniiin o Pe rira de Araújo, r. Gonçalves Dias, 64.
José Gomrs de Asevedo, r. Uruguayaoa, 33.
José Joaquim de Sousa Peixoto, r. S . José, 93
José de M e l l o : + :! :e P . , r. Quitanda, 38, C. do Correio 571
Filial da antiga casa editora D.i vid C n r a i t i , de Lisboa. Recebe asaignaturaa
para toda* a* publicações da mesma casa. Jornves de moda* para
homens e senhora*, peiiodicos illustrados, romances r m fasciculo»,
obras de instrucção e recreio, e t c Remessa gratuita <!• catalogo* e prospeclos.
L. Vigué, r. S . Francisco de Assis, 8 .
L a o i n i i i e r l *%.
editores do presente Àlmanak r. Ouvidor, 6 6 ,
Teltph. 379. Livraria Urhtrul, estabelecida em 1828; sócios:
*Egnn Widmaun Laemmrrt, r. Ouvidor, 66, Teteph. 379, e r. Jardim
Botânico, 2 .
* A n h n r Sauer, r. Inválidos, 7 1 , e r. Jardim Botânico, 2.
'Gustavo Massow, r. Ouvidor, 66, Teleplt. 379.
Além das suas afamada*Folhinha* (publicadas desde 1839) edição 110 000
exemplares e de mais de 500 obras já editadas por sua casa, a maior parle
sobre assumptos scientiBco* e sérios, têm o mais completo s>.riimcnlo de
livro* daa língua* culta* eurnpéa*. j rnaes franceses, allemãe* e i n glese*. Catálogos mensaes, sobre Iodos os ramos de conhecimento* h u manos, grátis sobre pedido. Expedição para todo» os Estados da
Republica. Asiignatura* de Jornaes.
Livraria do Ceniro Bibliographico, r. Gonçalves Dias, A l .
Livraria Evangélica. — Deposito de Bíblias e tratados religioso», livro* para
a inlancia, e t c , r. Club-Gyinnaslko, 15
Livraria Universal, r. Ouvidor, 6 6 . Teleph. 379. Veja neste artigo
Laemmert & C ) .
Livraria do P o v o . Casa de A portas, r. S . Jo*c, 65 e 67.
Lopes do Cnulo 4 C , r. João Alfredo. 24. sócios:
•José Alexandre Lopes do Couto, tf> 3 , r. João Alfred", 24, e pr. de B o tafogo, 10'i
' J o a q u i m Teixeira Pinm dc Mesquita, r. J ão Alfredo, 21.
' J o i o Lopes da Cunha, r. João Alfiedo, 1U, interessado.
Lopes da Silva Lima 4 Amaral, Livraria dos Dou* Mundos, r. S . Salvador,
(Vide arl. 716 e Notab. pag. 1893).
L o i i Macedo & J ú l i o , r. João Alfredo, 61.
Halbeus, Costa * C , r. Quitanda, 120.
v
Almamaque administrativo, mercantil e Industrial da Corte e da p r o v í n c i a d o Rio de Janeiro. Rio
pag, 88. jan/dez 1995
e
e
público que
(w«.«W)
de Janeiro: Livraria Universal de E. & H. Laemmert, 1876.
As
o
V
tinha acesso aos livros
de maneira
obra que lhe havia sido destinada. As
q u o t i d i a n a . A leitura, p o r parte d o s
verbas testamentárias eram, por s u a
grupos escolarizados, tornou-se
mais
natureza, sintéticas, e nelas não se
freqüente; sua presença e m bibliotecas
especificavam os volumes doados. Esse
públicas ou particulares, u m a rotina.
fato d e i x a d ú v i d a s sobre
Os i n v e n t á r i o s , v e r b a s
1 5
testamentárias,
testamentos e alguns acervos particulares
p o d e m dar algumas respostas sobre o gosto
pelos livros entre m é d i c o s e a d v o g a d o s .
Muitos
dos documentos
do
acervo
vinculado ao poder j u d i c i á r i o , n o Arquivo
n a c i o n a l , s ã o fontes d e raro valor, m a s não
p o s s u e m características t ã o h o m o g ê n e a s
entre s i , nas referências a livros.
explicitada:
despertavam
espaços
quais
as
dentre
é, d e n t r o
do que o diálogo
documentação
analisar
o
permitiu,
perfil
vinculação c o m livros, bibliotecas ou
quaisquer indícios que registrassem a
escrivãos
diligentes, que registraram cada u m d o s
menos
a t e n c i o s o s , a o p e r c e b e r e m q u e as o b r a s
tinham
valor
significativo
em
relação ao monte d o s bens, registraramnas g e n e r i c a m e n t e .
Houve,
com a
procurei
destes
de leitores.
não
nas
acervos
particulares e as relações de interesse
objeto de estudo isolado quando havia
outros,
nesses
bibliotecas? n a m e d i d a d o p o s s í v e l , isto
integrantes de u m círculo
volumes encontrados;
que
as e x i s t e n t e s
analisar seu c o n t e ú d o , cada caso foi
Havia
obras
íntimos, ou ainda, as mais
valiosas
e
existência.
não ficou
maior interesse
Para q u e f o s s e p o s s í v e l q u a n t i f i c á - l a s e
sua
u m a outra
questão, que muitas vezes
ainda,
famílias q u e n ã o tiveram o c u i d a d o d e
incluir os volumes existentes nas casas
o u n o s e s c r i t ó r i o s c o m o parte i n t e g r a n t e
do q u e deveria ser avaliado.
gosto
específico
que uniam
os
privilegiado
Estudos anteriores e a movimentação do
comércio livreiro, no p e r í o d o , levam a
respostas
específicas
quanto
ao
aparecimento habitual de determinadas
obras nos acervos particulares:
obras
em francês, tanto clássicas quanto de
literatura
leve,
narrativas
de
do
tipo
folhetim,
viagens,
poesias,
romances, textos de teatro e leituras
técnicas ou específicas de cada ramo
profissional. A censura formal,
período,
nào pesava
tanto
nesse
sobre
a
seleção de textos quanto, por e x e m p l o ,
verbas
no c o m e ç o d o s é c u l o XIX. P o r é m , as
testamentárias o u inventários registram
tradições morais e culturais e r a m fatores
casos esporádicos de livros
preponderantes na escolha dos livros a
Alguns
testamentos,
deixados
como herança, onde se declarava o
conhecimento que o doador tinha do
apreço manifestado pelo herdeiro e pela
serem
introduzidos
doméstico.
contudo,
A transição
foi
marcada
no
do
por
espaço
século,
novas
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 83-104. jan/dez 1995 - pag 89
A
C
tendências e influências: textos
alemão
e inglês
em
B
q u a n d o do f a l e c i m e n t o de s u a mulher.
se t o r n a r a m
mais
Os títulos arrolados a p o n t a v a m
habituais, além da p r o d u ç ã o de
livros
obras
de
interesse
profissional
baratos e c o m textos referentes a temas
meeiro.
de fácil v u l g a r i z a ç ã o .
avaliação foi de Rs. 6 1 3 $ 0 0 0
Qilberto freire tratou por muitas vezes
da
questão
das
determinadas
preferências
leituras.
por
Examinou
questionários que enviou a
pessoas
conhecidas, nos quais indagava
sobre
as o p ç õ e s d e l e i t u r a a o l o n g o d e s u a s
vidas.
Com
Lawrence
outras
abordagens,
Mallewell, Brito
Broca
e
Antônio C â n d i d o trataram do t e m a , mas
a especificidade
das
fontes
exigirá
Em
móveis
para
de
do
escritório
e
a
em
livros, u m a ' e n o r m e q u a n t i d a d e ' , de Rs.
2 : 7 5 7 $ 5 0 0 , valor importante em
um
m o n t e l i q u i d o d e R s . 5 4 : 9 7 1 $ 4 4 6 . O dr.
Rebouças era advogado aprovado
pelo
governo brasileiro perante a C o m i s s ã o
mista
entre
Brasil
e
Inglaterra.
Primeiramente registrou-se
de
1 7
forma
genérica algumas obras:
(...)
C o l e ç õ e s de O r d e n a ç õ e s e seus
repertórios,
um deles de
grande
outros tipos de a b o r d a g e m , a d a p t a d a s
formato. Sistemas de Regimentos,
às n o s s a s
dos
C o l e ç õ e s de leis de e d i ç ã o portuguesa
estudos de Roger Chartier, Henry J e a n
e das do Brasil, obras j u r í d i c a s em
Martin, Parent-Landeur, Michel Marion e
língua portuguesa, latina e francesa,
Robert
d i c i o n á r i o s de t o d a s as línguas cultas,
condições,
Darnton.
Produzidos
a partir
1 8
dentro de suas
próprias
casas e c o m o registro de seus
bens
mais pessoais, os documentos relativos
à vida e à morte desses homens
deixaram
importantes
nos
informações,
obras de p o l i t i c a , de c i ê n c i a s e de
literatura e m g e r a l . "
O r e g i s t r o foi u m d o s m a i s m i n u c i o s o s ,
definindo-se
inclusive os locais
estantes onde se encontravam os livros:
m e s m o que truncadas, de suas relações
(...) 2 ' e s t a n t e a d i r e i t a
com o objeto livro.
134 - R e p e r t ó r i o g e r a l d a s l e i s
documentos
Muitas vezes
localizados
respeito diretamente ao
não
os
dizem
profissional
n o m e a d o nas listagens do A l m a n a q u e
Laemmert, mas a pessoas da família.
São inventários
de e s p o s a s ,
irmãos, cunhados
que
filhos,
expõem
bastante detalhes a vida privada
todos os
com
de
envolvidos.
extravagantes - 2 vols.
135 - R e p e r t ó r i o g e r a l - 3 v o l s .
Rs.8$000
Rs.9*000
136 - L e g i s l a ç ã o b r a s i l e i r a - 4 v o l s .
Rs.4$000 »
l
C o m rica e sólida mostra de exemplares
vinculados
a
jurisprudência,
numerosos
livros
a
questões
de
biblioteca
tinha
de h i s t ó r i a ,
obras
O conselheiro Antônio Pereira Rebouças
c o m p l e t a s de autores franceses,
teve u m a d e s c r i ç ã o de s u a b i b l i o t e c a
Molière,
pag.90. jan/dez 1995
das
Corneille,
como
Pascal,
R
O
V
Chateaubriand, Montesquieu, Mirabeau.
dos Santos, responsável pelos
Até o n ú m e r o 4 0 5 d a relação as obras
herdeiros deste m é d i c o q u e tivera u m a
eram todas
o
prática intensa durante o e x e r c í c i o d a
restante brochuras. Pelo perfil j u r í d i c o
profissão. Ha avaliação de s e u s bens foi
apresentado e pelo conjunto d o s livros
preponderante
pode-se
instrumentos
encadernadas,
avaliar
que a
sendo
biblioteca
a presença
de trabalho:
pertencia a o c o n s e l h e i r o . Apesar de ter
desarticulado,
deixado testamento e definido
microscópio, fórceps,
pequenos
cada
vários
quinhões suplementares a
um de seus
oito
herdeiros,
muito
daquilo
em
esqueleto
anatômicas,
2 0
de livros de
medicina, desde dicionários até tratados
inclusive a liberdade de u m a escrava,
n ã o se p r e o c u p o u
de seus
sanguessugas.
Uma maciça quantidade
d.
Carolina
peças
cinco
específicos,
que
destinar a biblioteca, possivelmente por
genericamente
considerá-la c o m o b e m de seu esposo.
algibeira'.
o
e dez
escrivão
de
volumes
chamou
'biblioteca
Os livros
estavam
de
assim
distribuídos:
Acervo da biblioteca da família R e b o u ç a s
Teologia
10 l o t e s
Jurisprudência
2 2 3 lotes
Ciências e Artes
26 lotes
Belas letras
8 9 lotes
História
8 2 lotes
Acervo da biblioteca de Luiz
Pientzenauer
Teologia
Jurisprudência
Fonte: I n v e n t á r i o de Carolina Pinto R e b o u ç a s - A n
O doutor Luiz Pientzenauer
Ciências e Artes
2 2 2 lotes
Belas letras
3 6 lotes
História
25 lotes
formou-se
pela Faculdade de Medicina d o Rio de
Janeiro,
1 lote
em 1 8 4 5 . Era membro
da
Fonte: I n v e n t á r i o de Luiz Pientzenauer - AM
O dr. P i e n t z e n a u e r
morreu
deixando
Academia Imperial de Medicina, sendo
seus filhos e m má situação financeira.
citado e m elogio biográfico
A
p e l o dr. E d u a r d o
Augusto
proferido
Pereira de
penúria
herdeiros
em
que
apareceu
ficaram
ao
seus
longo
do
Abreu, e m 3 0 de j u n h o de 1 8 8 0 , na
inventário: estudaram pouquíssimo e
sessão de aniversário da Academia,
não
falecido nesse m e s m o ano, e m 2 3 de
m e d i c i n a . Arthur, o filho mais v e l h o , foi
setembro, a o s 5 0 a n o s de idade, teve o
tutor do irmão
inventário aberto pela sua mãe, dona
m o m e n t o e m q u e o último fez 15 anos.
o
seguiram
nos
Oscar,
estudos
a partir
de
do
Emilia Carolina Viana Pientzenauer, na
Hão houve registro de suas atividades e
ausência de s u a mulher, n o entanto, o
sobre
i n v e n t a r i a n t e f o i o dr. M a n u e l d e A r a ú j o
trabalhado c o m o desenhista na Estrada
Arthur
mencionou-se
ter
Acervo, Rk> de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 85-104, jan/dez 1995-pag 91
A
C
E
d e F e r r o P e d r o II. J ú l i a , a m a i s n o v a , a o
olhos, obstetrícia, dissecação,
fazer s e u p e d i d o d e e m a n c i p a ç ã o , p a r a
nas m u l h e r e s nervosas,
ter o d i r e i t o d e r e c e b e r a d o a ç ã o d e
morbo.
apólice d a dívida pública, obtida por
história e filosofia, pois entre o s livros
u m a s u b v e n ç ã o levantada entre
alguns
havia romances de J ú l i o Verne e Victor
dirigiu u m a
Hugo, Alexandre Herculano, Ponson de
petição muito enfática ao Juizo dos
Terrail (24 volumes do Rocambole), e
Órfãos: "É a suplicante pobre e sendo
obras de Cantu e Pascal, além de atlas,
de
dicionários, teses e jornais.
comerciantes
pública
da Corte,
notoriedade
a
sua
capacidade, pede dispensa de prová-la
por t e s t e m u n h a s ,
o que acarretaria
despesas, incompatíveis
estado atual de fortuna".
com o seu
Mas gostava
higiene
sífilis,
de
cólera
literatura,
A biblioteca foi leiloada, junto c o m
objetos
da casa, pelo leiloeiro
Bancalari, que apurou
João
a importância
21
l í q u i d a d e Rs. 2 : 2 7 5 $ 6 4 0 , r e c o l h i d a a o
O a c e r v o d o dr. P i e n t z e n a u e r
confirma
cofre d o s órfãos juntamente
c o m Rs.
a hipótese de que a formação do médico
6 3 $ 5 8 , comissão do leiloeiro, que abriu
na época era abrangente.
mão e m favor d o s m e n o r e s .
arroladas
passavam
As obras
pelos
mais
10:347$235,
g u i a de m e m ó r i a , m a n u a l d e f a r m á c i a ,
algumas
biologia, anatomia, cirurgia, doenças de
9:020$065.
pag. 92, jan/dez 1995
O monte
declarado pelos avaliadores foi de Rs.
diversificados temas de medicina: um
Biblioteca Nacional.
2 2
do qual
despesas,
deduziram-se
restando
A administração
Rs.
deste
o
V
quinhão n á o foi suficiente para dar aos
196$000. Os temas das obras estavam
herdeiros
assim
conforto
suficientes
no
e
seu
recursos
processo
organizados:
de
Acervo da biblioteca de
e d u c a ç ã o , n e m para manter entre eles
A n t ô n i o Correia de Souza C o s t a
uma biblioteca muito diversificada e rica
para o s p a d r õ e s e s t u d a d o s .
Teologia
O c o n s e l h e i r o dr. A n t ô n i o C o r r e i a d e
Jurisprudência
Souza C o s t a resolveu fazer testamento
quando se d e u conta de 'quão precária
é a vida'. Era lente da Faculdade de
Medicina da Corte.
Devido
2 4
ao seu
cuidado teve t e m p o para definir
que julgou importante:
instituiu sua
Costa, sua primeira testamenteira, e seu
nomeou
tutores
para o s s e t e f i l h o s , o q u e f o i p o s i t i v o ,
pois
acabou
fevereiro
morrendo
em
16 de
de 1884, deixando-os
123 lotes
Belas letras
6 lotes
História
4 lotes
não especificados
2 lotes
tudo
mulher, d o n a C a m i l a Barreto de Souza
cunhado o segundo,
Ciências e Artes
todos
fonte: Inventário de Antônio Correia de Souza Costa - ATI
A
avaliação
dos bens
na rua das Marrecas
eram
guardados
vinhático.
cuidadosamente
conta-corrente
inventário.
Rural
n.
17, estava
instalado s e u gabinete, onde os livros
em bens: a p ó l i c e s e a ç õ e s , dinheiro e m
Banco
Rs.
9 4 : 5 0 3 $ 4 0 5 . Na s u a c a s a , u m s o b r a d o
menores. T i n h a u m lastro c o n s i d e r á v e l
no
atingiu
Todos
A
em
estantes
os itens
estavam
registrados
biblioteca
de
no
guardava
Hipotecário, imóveis, j ó i a s , ouro, prata,
semelhanças c o m um espaço reservado
objetos
e
mais ao seu saber médico do que a u m
escrivaninhas de prata, móveis,
preciosos
como tinteiros
livros
local de lazer através d a leitura. Os
avulsos e u m a livraria contendo
obras
jardins
de m e d i c i n a e o u t r o s
Excetuando
volumes
assuntos.
alguns dicionários - dois
do
Moraes,
dois
de
dicionário de português-francês,
das delícias,
um
outro
conhecimento
científico
diversas
entrever u m a fortuna
maiores
informações sobre títulos o u autores -
do que a
Apesar das dívidas, o inventário de
Cândido
sem
casos
leituras diletantes.
de p o r t u g u ê s - f r a n c ê s - l a t i m e u m lote d e
brochuras
nestes
estudados, parecem se associar mais ao
2 5
Mendes
de A l m e i d a
deixa
considerável,
talvez desperdiçada por maus negócios.
os d e m a i s l i v r o s e r a m s o b r e m e d i c i n a ,
Sua biblioteca não foi descrita
inclusive história d a medicina, filosofia
aos livros de outros autores, m a s c o m
da m e d i c i n a e d i c i o n á r i o s s o b r e h i g i e n e ,
as o b r a s d e a u t o r i a d o p r o p r i e t á r i o , e
e m u m t o t a l d e v o l u m e s a v a l i a d o e m Rs.
parecia concentrar eventuais 'encalhes'
quanto
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2. p. 83-104. jan/dez 1995 - pag.93
!
E
C
A
de e d i ç õ e s d e s e u s l i v r o s . O n ú m e r o d e
exceção dosjuros.
volumes
indicados era de cinco mil
refletiram-se na família, inclusive na
exemplares de obras diversas, avaliadas
e d u c a ç ã o d o s herdeiros, q u e p a s s a r a m a
em dezessete contos de réis, sobretudo
ter p r o b l e m a s f i n a n c e i r o s , r e c o r r e n d o a
de e x e m p l a r e s extras d e tiragens d e
negócios c o m antigas o u novas e d i ç õ e s dos
t e x t o s , c o m o o d o Atlas
livros d o p a i c o m a f i n a l i d a d e d e o b t e r
Brasil,
d e Lições
Direito
mercantil
do Império
de um pai a um
do
filho,
dificuldades
recursos suficientes para suas despesas. E m
do
1885, por exemplo, s e u filho C â n d i d o ,
O direito de contrato c o m
m e n o r e p ú b e r e , a c a d ê m i c o d o quinto a n o
B.L. Q a r n i e r p a r a p u b l i c a ç ã o d e t o d o s
d a Faculdade de Direito de Recife, solicitou
os Arestos d o S u p r e m o
autorização ao j u i z para vender a o livreiro
Maranhão.
e de Memórias
Estas
Tribunal foi
avaliado e m quatrocentos mil réis.
editor B. L. Qarnier "a c o m p r a d a 2 a . e d i ç ã o
2 6
Cândido Mendes de Almeida nasceu e m
do Código
v i l a d o B r e j o , n o M a r a n h ã o , n o d i a 16
anotado por aquele Finado pela quantia de
de o u t u b r o d e 1 8 1 8 , filho d o c a p i t ã o
dois contos d e réis (Rs. 2 : 0 0 0 $ 0 0 0 ) paga
Fernando
logo que for publicar a obra e i n c u m b i n d o -
Mendes de Almeida e dona
Esmeria Alves de Almeida.
Filipino
e auxiliar
jurídico,
Tornou-se
se o m e s m o livreiro editor d e pagar a
bacharel e m direito pela Faculdade de
i m p r e s s ã o d o papel e a e n c a d e r n a ç ã o e
Olinda e m 1 8 3 9 . Entre 1841 e 1842 foi
brochura a s u a custa". O j u i z a u t o r i z o u .
promotor p ú b l i c o e m São Luís e obteve,
por concurso, a n o m e a ç ã o para o cargo
de professor de geografia e história n o
Liceu
São Luís.
Posteriormente,
estabeleceu-se na Corte, onde
exerceu
numerosos cargos, chegando a senador
no
a n o de
1 8 7 1.
Jurisconsulto,
20
Seus credores tornaram-se presentes no
inventário. Cândido Qil Castelo, por
exemplo,
pretendia
receber
determinada quantia emprestada ao
senador.
Para tanto a p r e s e n t o u u m a
'escritura de dívida e penhor',
cuja
quarta cláusula dizia:
historiador, sócio d o IHQB, oficial d a
Ordem da Rosa, produziu
obras
durante
numerosas
que o outorgante para garantia desta
sua vida, algumas j á
divida (doze contos de réis originais, à
citadas e m s e u i n v e n t á r i o .
é p o c a do p r o c e s s o nove c o n t o s e
2 7
Por ocasião de s u a morte, e m 1 8 8 1 , parecia
estar
significativamente
existindo
no processo
numerosas
cobranças
cinqüenta e sete mil réis) dà em penhor
endividado,
(...), a biblioteca tanto jurídica como
de inventário
literária excedente os mil volumes e
à
viúva
e
uma apólice de seguro de sua vida (...)
inventariante, sobretudo de livreiros e
no valor de m i l e quinhentas libras
editores. A l g u n s c á l c u l o s registrados n o
esterlinas da companhia inglesa The
inventário chegaram a u m total de Rs.
Royal Insurance Company (...)."
5 7 : 0 0 0 $ 0 0 0 de dívidas d o casal, c o m
pag. 94, jan/dez 1995
Portanto sua biblioteca pessoal j á estava
o
V
empenhada
em
vida.
As
dívidas
Memórias
do Maranhão
e Direito
acumulavam-se e compromissos como
eclesiástico
este e x p u s e r a m a integridade de s u a
numerosos opúsculos que publicou em
biblioteca.
s e u n o m e . D e v i a a H. L a e m m e r t , p o r
Ma ocasião d a avaliação d o s bens. e m 3 d e
junho
de
1 8 8 1 . os
funcionários
brasileiro,
civil
além
de
outras compras ali relacionadas, u m
total de 1 7 4 $ 0 0 0 réis.
31
encarregados d o s registros dirigiram-se à
A correspondência de C â n d i d o Mendes
rua d o Catete para descrever seus bens n o
caracterizou-se pela grande ênfase dada
domicílio e d e p o i s deslocaram-se para a rua
por ele a questões relacionadas c o m a
Sete d e S e t e m b r o n. 6 2 para anotar o s bens
doação de suas obras, consultas sobre
existentes n o escritório, náo sendo precisos
catálogos das mais diversas instituições
quanto à especificação d o s livros que n ã o
e s o b r e o fato d e t e r p r e d i l e ç ã o e s p e c i a l
fossem o s d e s u a autoria.
por
E m 18 d e a g o s t o a L i v r a r i a L a e m m e r t
a p r e s e n t o u a o j u i z d o s Ó r f ã o s d a 2 Vara
a
uma fatura, devida por Cândido Mendes
de A l m e i d a , o n d e s e i n c l u í a m d e s p e s a s
realizadas desde
14 d e s e t e m b r o d e
1880 até j a n e i r o de 1881 c o m c r o m o s ,
livros d e h i s t ó r i a , p o e s i a s , folhinhas,
revistas, livros didáticos, textos diversos
sobre
legislação,
186S000.
que somou
Rs.
determinadas
leituras.
biblioteca, considerando-se
Sua
a ênfase
dada e m toda s u a vida aos livros, devia
ser
de uma riqueza
significativa.
Mantinha correspondência c o m José
Carlos Rodrigues q u a n d o este
nos
Estados
Unidos
da
morava
América:
discutiam custos de publicações de
l i v r o s , c o m e n t a v a m a r t i g o s d o Jornal
do
Commercio
os
e
comparavam
problemas da escravidão no Brasil e na
3 0
América. E m u m a carta ao visconde de
Os n e g ó c i o s c o m l i v r o s e r a m b a s t a n t e
comuns e o inventário estava juncado
de q u e s t õ e s q u e e n v o l v i a m e s t e t i p o d e
O u r e m s o b r e a v e n d a g e m d o Atlas
Brasil
e publicações
do
da Sociedade
Geográfica de Londres,
confessou-se
situação. Os direitos de publicação do
maníaco por geografia.
inventariado c o m a livraria Qarnier, seus
parecia
direitos autorais e cerca de m i l obras
p e r s o n a l i d a d e s d a é p o c a e as v e n d a s d e
diversas
l i v r o s d e v i a g e m c o m o o s Baedeker
que
se
encontravam
ser
comum
espalhadas, segundo o próprio original,
os
nas b i b l i o t e c a s n a c i o n a l e F l u m i n e n s e .
nível de interesse.
Quide
3 2
Joanne
Esta c o n d i ç ã o
a
diversas
e
atestavam um alto
Preservavam direitos de propriedade das
Império
Consultava seus amigos em viagens ao
(com
exterior para obter indicações de livros
comentários pessoais e aumentado),
e publicações, como parecia ser um
Direito
hábito freqüente no grupo. Alguns se
s e g u i n t e s p u b l i c a ç õ e s : Atlas do
do Brasil ( o r i g i n a l ) . Código
mercantil
e leis
Filipino
da
marinha.
Acervo. Rk> de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 83-104. jan/dez 1995 - pag 95
A
C
E
Foi extremamente m i n u c i o s o quanto à
distribuição de seus bens e m dinheiro,
jóias,
mitra,
peitoral,
distintivos
p o n t i f i c a d o s , o cálice de seu uso e u m
grande
missal.
branca,
crucifixo
paramentos
precisa,
Seus sapatos,
de
marfim
receberam
definindo
roupa
e
destinaçáo
uma
série
de
situações que parecia não querer deixar
pendentes,
inclusive
a
forma
de
sustento de u m a 'velhinha', sua tia, que
morava em Pernambuco.
E c o m o não p o d e r i a listar todas as s u a s
justificavam
na
correspondência
obras
no e s p a ç o
do
livro
da
verba
alegando que eram m a l servidos pelos
testamentária, deixou-os repartidos
livreiros locais. Foi u m a personalidade
temática para c a d a u m q u e j u l g a v a m a i s
de
com
c o m p a t í v e l c o m s u a utilização: "... o s livros
políticos, editores, juristas, destacando-
de assentamentos militares para o tenente
se nos m e i o s p o l í t i c o - c u l t u r a i s
Jorge Gustavo T i n o c o da S i l v a ; os de
convívio
muito
freqüente
que
por
c o m p u n h a m o c í r c u l o de l e i t o r e s . "
matérias eclesiásticas para o padre J o ã o
Manuel da Costa Honorato, cuidadoso c o m
Martins Alves de Loreto; a C o l e ç ã o da
o destino d e s e u s livros, n ã o aguardou a
O r d e m d o Dia d o E x é r c i t o para o c o r o n e l
d e c i s ã o d a posteridade para definir s e u s
J o a q u i m Fernandes de Andrade e S i l v a ; os
caminhos. Preparou u m a verba testamentária
de matéria de direito para o i r m ã o J o ã o . . . " ;
onde deixou clara a destinaçáo de todos os
os d e literatura e ' o u t r o s ' d e v e r i a m s e r
seus bens. Era bacharel e m ciências jurídicas
distribuídos entre o m e s m o i r m ã o J o ã o , o
formado por Recife, sacerdote e vigário da
dr. Pilar T i n o c o e o i r m ã o J o s é . ria avaliação
igreja da Glória. Durante sua vida trabalhou
os livros chegaram a Rs. 9 0 $ 0 0 0 , e n q u a n t o
c o m o professor, tornou-se sócio do Instituto
que as outras heranças líquidas chegaram
Histórico e Geográfico Brasileiro, foi muito
a Rs. 2 : 5 0 0 $ 0 0 0 , Rs. 1 0 : 0 0 0 $ 0 0 0 e Rs.
importante para o c o n f o r t o de feridos e
5 : 9 0 2 $ 7 3 3 c o m d i s t r i b u i ç õ e s específicas
desvalidos da Guerra do Paraguai, prestando
e m i m p o r t â n c i a s que variavam de Rs.
serviços através de hospital que criou no
5 $ 0 0 0 a Rs. 5 0 0 $ 0 0 0 , salvo as heranças
Convento de Santo Antônio. Morreu e m 1891
mais significativas restritas aos i r m ã o s .
e s e u i r m ã o dr. J o ã o B a t i s t a d a C o s t a
H o n o r a t o foi s e u t e s t a m e n t e i r o .
Deixou
n o m e a d o s 17 h e r d e i r o s e n t r e
irmãos,
sobrinhos, amigos e afilhados de batismo.
pag 96, jan/dez 1995
34
39
O borráo do inventário e da partilha do
advogado dr. Luiz J o s é d e Carvalho Melo
Matos, a m b o s de
1882, foram
muito
importantes para detalhar u m a b i b l i o t e c a
R
V
O
particular dos fins d o s é c u l o XIX. A v i ú v a e
títulos e m português, 187 e m francês, 4 3
inventariante d. Mariana de Melo Souza
e m inglês, 19 e m italiano, d o i s e m a l e m ã o ,
Menezes Matos foi a declarante d o s bens
c i n c o e m e s p a n h o l , u m e m grego e sete
do c a s a l . O s i m ó v e i s , u m t e r r e n o e u m
e m latim. Ho final da listagem os avaliadores
p r é d i o , e s t a v a m l o c a l i z a d o s na praia de
registraram que o valor correspondente aos
Botafogo n. 156 e eram foreiros d o marquês
livros era de Rs. 2 : 4 7 5 $ 2 0 0 , aí i n c l u í d o o
de O l i n d a a q u e m o s proprietários pagavam
preço de u m cofre.
foro d e três m i l réis, p o r c a d a b r a ç a d e
frente sobre a praia. Era u m prédio de ótima
qualidade, c o m quatro salas, três alcovas,
três quartos, c o m a parte superior e m telha
vã, mas precisando de alguns
sendo
por
40:000$000.
isto
avaliado
reparos,
em
Rs.
Outro jurista c o m livros registrados e m
inventário foi Carlos Frederico Taylor.
38
Falecido em j u l h o de 1890 e tendo por
i n v e n t a r i a n t e o c o n s e l h e i r o dr.
de A n d r a d e
Eduardo
Pinto, deixou
testamento
legando sua fortuna para
numerosos
3 6
parentes e amigos, além de ex-escravos
O casal p o s s u í a t a m b é m sete escravos,
e dependentes. Seu herdeiro
móveis
era o filho ú n i c o , Carlos Taylor.
e
compunham
demais
o
alfaias
conjunto
de
que
bens.
bens estavam concentrados
universal
Seus
sobretudo
Específicos das instalações do gabinete
em propriedades
urbanas,
eram:
fazendas,
(uma Victoria,
u m a s e c r e t á r i a de j a c a r a n d á ,
carros
algumas
um
outra de mogno, uma estante de pinho
Phieton e um Tilbury), m ó v e i s , pratas,
e o c o n j u n t o de livros listados
j ó i a s e livros, esses últimos orçados no
pelos
avaliadores. O total era de 431 obras,
inventário
c o m l o t e s o r g a n i z a d o s p o r t e m a s , e às
p a t r i m ô n i o inventariado c h e g o u a ser
vezes
a v a l i a d o e m Rs. 1 . 4 5 6 : 5 0 6 $ 5 0 0 .
autores:
Acervo da biblioteca de
Luiz J o s é de Carvalho Melo Natos
Teologia
9 lotes
Jurisprudência
2 2 3 lotes
Ciências e Artes
26 lotes
Belas letras
96 lotes
História
77 lotes
Rs.
246$700.
O
3 9
Foram listados no inventário quarenta itens
em
livros,
sendo
mencionadas
em
conjunto, s e m maiores referências, obras
e m brochura localizadas e m c a s a situada
na rua São J o s é n. 5 . P o r é m , a c a s a o n d e
foram localizados os livros n á o era utilizada
para
Fonte: Inventário de L J. de Carvalho Melo Matos - Ali
em
moradia,
pois
a
indicação
de
residência era na rua Marquês de São
Vicente n. 2 0 , e m u m a chácara que ficou
entre os legados d a v i ú v a .
A maioria das obras c o m p u n h a - s e d e títulos
Ha d e s c r i ç ã o d a s o b r a s
relativos a direito e j u r i s p r u d ê n c i a ( 5 1 , 7 %
s o b r e t u d o livros pertinentes ao e x e r c í c i o
do total).
p r o f i s s i o n a l : 3 2 lotes d e o b r a s d e direito
37
Q u a n t o aos i d i o m a s , havia 146
registravam-se
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n* 1-2. p. 85-104, jan/dez 1995-pag97
A
C
E
c o m e r c i a l , civil e c ó d i g o s c r i m i n a i s ; d o i s
Sacramento Blake um grande
de revistas j u d i c i á r i a s ; c i n c o de o b r a s d e
dedicou-se também à literatura.
literatura e história e, n o s itens 3 8 e 3 9 ,
i n v e n t á r i o f o i a b e r t o p e l o g e n r o e m 11
a informação 'oitenta e dois
de março de 1 8 9 2 . Na o c a s i ã o s e u s dois
volumes
diversos", a v a l i a d o s e m o i t e n t a e d o i s m i l
filhos e herdeiros
réis, e 'cinqüenta e duas
Leonardos e José Tomaz
brochuras
- Heloise
talento,
Seu
4 1
Nabuco
Nabuco
de
diversas" e m q u i n h e n t o s réis c a d a u m a ,
Araújo - tinham respectivamente 25 e
totalizando vinte m i l réis. Esta n ã o d e v i a
26
ser a b i b l i o t e c a particular c o m p l e t a d o dr.
inventariante
Taylor. T e n h o c o m o p r o v á v e l q u e f o s s e
Júnior, marido de H e l o i s e .
um
acervo
utilizado para
consultas
profissionais, pela sua pequena dimensão
e por n ã o estar l o c a l i z a d a e m s e u i m ó v e l
residencial. No entanto, este
pequeno
a c e r v o foi d e s t i n a d o à v i ú v a , c o n f o r m e
ficou caracterizado na partilha.
e
passaram
a
tarefa
para Othon
de
Leonardos
4 2
O dr. Sizenando faleceu s e m testamento e
residia à é p o c a e m u m quarto na ladeira da
Glória n. 2 6 . A relação d o s m ó v e i s , livros e
o u t r o s o b j e t o s neste e n d e r e ç o e no s e u
escritório
na rua Sete de
caracterizou
Setembro
b e m as d i f e r e n ç a s
que
devidamente
c o m e ç a v a m a definir-se no final d o s é c u l o ,
autorizado pagou a d. Paulina Luiza
e m relação aos p a d r õ e s de v i d a urbanos
Croix Taylor, viúva do inventariado, o
no Rio d e Janeiro.
seu
(...)
O inventariante,
dote
na
importância
Rs.
No quarto da ladeira da G l ó r i a os objetos e
pagamento
móveis n ã o diferiam d o s de seus colegas
pela m a n e i r a seguinte: Rs. 6 : 3 1 7 $ 7 0 0
de profissão: u m armário para livros, u m
e m bens a saber, carros na rua Marquês
outro c o m gavetas para papéis,
d e S . V i c e n t e n. 2 0 , a n i m a i s e a r r e i o s
escrivaninha, u m lote de folhetos diversos
na m e s m a rua e n ú m e r o , m ó v e i s e
e 3 7 volumes de obras não discriminadas.
l i v r o s (grifo m e u ) n a r u a S. J o s é n. 5 ,
Na r e l a ç ã o d o s m ó v e i s , l i v r o s e o u t r o s
móveis, animais, liteira...
objetos que existiam e m s e u escritório na
5 0 : 0 0 0 $ 0 0 0 , fazendo-se
de
4 0
S i z e n a n d o Barreto N a b u c o de A r a ú j o era
filho do conselheiro J o s é Tomaz Nabuco
de A r a ú j o . N a s c e u e m
Pernambuco,
graduou-se e m direito por São Paulo,
vindo depois para o Rio de J a n e i r o o n d e
exerceu suas tarefas profissionais c o m o
advogado
e promotor
público.
Poi
deputado à Assembléia da província do
Rio
anos
e
à
Assembléia
Pernambuco.
pag 98. Jan/dez 1995
Qeral
Considerado
por
por
uma
rua Sete de Setembro n. 8 3 o ambiente era
mais requintado e m o d e r n o , além de
abrigar a m a i o r parte d e s u a b i b l i o t e c a
c o m p o s t a de 4 5 1 v o l u m e s de
obras
diversas, c o m m a p a s , folhetos, litografias,
gravura, a l é m d o m o b i l i á r i o , q u e i n c l u í a
b i o m b o , armários para a guarda de livros,
geladeira, m e s a de escritório, cadeiras,
relógio de p a r e d e .
Os
43
bens descritos
foram levados
a
R
V
O
leilão, pois os credores deveriam ser
t e n d ê n c i a . Desde a criação d a E s c o l a de
ressarcidos
Medicina d o Rio d e J a n e i r o , e m 1 8 0 8 , q u e
e para tal os
herdeiros
abriram mão da herança. O leiloeiro
se c h a m o u inicialmente Escola A n a t ô m i c a ,
Afonso A. Munes arrecadou o produto
Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro,
líquido de Rs. 2 : 6 1 0 $ 0 5 0 ,
denominando-se d e p o i s , e m 1 d e abril d e
foram
deduzidas
de onde
as despesas
do
s
1 8 1 3 , A c a d e m i a Médico-Cirúrgica d o Rio d e
inventariante, ficando u m saldo de Rs.
Janeiro,
702$610 à disposição dos credores.
4 4
m é d i c o s fez c r e s c e r a n e c e s s i d a d e d e
Somente nos itens que foram vendidos
publicações pertinentes n a cidade, n o s e u
em leilão e registrados
estudo da medicina brasileira, Licurgo
pudemos
no inventário,
obter uma indicação
precisa dos livros que possuía,
a presença de estudantes
e
mais
S a n t o s Filho e n f a t i z o u a i m p o r t â n c i a d a
tais
e s c o l a francesa n a formação d o s m é d i c o s ,
c o m o mapas da província de São Paulo,
seja por estudos n a França, pelo c o n s u m o
do Brasil, c i n c o lotes de folhetos, sete
de material m é d i c o c o m e s s a o r i g e m o u
volumes de códigos criminais italianos,
pela tendência predominante d a língua
n o v e v o l u m e s d e d i r e i t o c r i m i n a l , 14
francesa n a bibliografia utilizada, tanto n a
volumes do Código Felício dos Santos,
biblioteca d o s cursos d e m e d i c i n a quanto
dez volumes de Ação Pública e Servil,
na incidência d e ofertas d e p u b l i c a ç õ e s .
108 v o l u m e s de l e g i s l a ç ã o b r a s i l e i r a ,
A
entre outros.
enumeração
ora
feita
dos
pesquisadores médicos franceses, b e m
O dr. S i z e n a n d o era s ó c i o d o dr. C â n d i d o
mais numerosos d o que o s ingleses e
Mendes de Almeida e m u m negócio de
alemães, patenteia o nível
abastecimento d e carnes verdes q u e havia
atingido pela França no século XIX.
cultural
falido. Pelo p r o c e s s o d e i n v e n t á r i o ficou
Paris e r a e n t ã o a c a p i t a l m u n d i a l d a
clara a urgência na arrecadação
cultura. Pois lá se f o r m a r a m o u se
para
ressarcir o s credores. A quantia arrecadada
aperfeiçoaram
no leilão ficava muito a q u é m d a s dívidas
brasileiros. E foi decisiva a influência
d o inventariado (Rs. 3 : 4 1 0 $ 162), m e s m o
gaulesa no ensino médico-cirúrgico. no
tendo seus herdeiros
Brasil, que se exerceu através do
aberto mào da
herança. Seus bens, reunidos c o m os
material
recursos
métodos,
obtidos
na venda
de sua
biblioteca, não foram suficientes para cobrir
muitos
escolar,
médicos
dos livros,
dos
dos regulamentos,
dos
programas, das leituras.
4 5
as dívidas q u e tinha feito durante a vida.
Em
1884, Carlos
Antônio
de Paula
Alguns profissionais passaram eles m e s m o s
Costa, bibliotecário da Faculdade de
a organizar f o r m a s d e facilitar a divulgação
Medicina do Rio de Janeiro, preparou a
de o b r a s entre s e u s c o n f r a d e s . Entre o s
Exposição Médica Brasileira e organizou
m é d i c o s era c a d a vez mais acentuada esta
seu catálogo, onde descriminou
8.079
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 83-104. jan/dez 1995 - pag,99
A
C
títulos
nacionais
lançando
em
publicação.
médico
e
seguida
1892.
uma
Movimento
brasileiro:
brasileiro,
estrangeiros,
nova
científico
anuário
médico
q u e foi d i v u l g a d a d e 1 8 8 6 até
As indicações
bibliográficas
E
os acervos de m é d i c o s e a d v o g a d o s n ã o
são muito numerosos,
outras
fontes,
pesquisado,
é
fias unidos
dentro
do
provável
a
universo
que
esta
tendência representasse uma corrente
predominante,
ou pelo menos
fosse
chegaram a atingir nove m i l títulos,
representativa das transformações
sendo
o c o r r e r a m nas relações entre h o m e n s e
a
maioria
das
referências
extraídas de o b r a s f r a n c e s a s .
O mais destacado
biblioteca
exemplo
médica
Pientzenauer.
é
Esta
a
que
livros na passagem do s é c u l o . Os livros
4 6
de
uma
de
Luís
hipótese
foi
que
se
perpetuaram
através
registros dos inventários
a
necessidade
de
dos
privilegiavam
ampliação
dos
reforçada consultando a obra de Qiffoni.
c o n h e c i m e n t o s profissionais, tanto
Mo a r r o l a m e n t o
caso
que
fez
sobre
os
dos
advogados,
no
que
tinham
livros de
direito,
m é d i c o s e a p r o d u ç ã o de teses e outros
preferencialmente
textos, percebe-se o interesse entre os
quanto no dos médicos, que ostentavam
estudiosos de m e d i c i n a por obras
obras
de
quase
que
exclusivamente
cunho literário ou histórico. A p a r e c e m
pertencentes
muito mais epígrafes
inspiradas
completadas por literatura.
poemas
do
e romances
que
em
outra
citação cientifica da área.
Gilberto
F r e i r e , e m s u a o b r a Ordem
progresso,
e
enfatiza a formação humanista desses
indivíduos, que usavam
pseudônimos
de f r a n c e s e s o u i n g l e s e s i l u s t r e s à g u i s a
de h o m e n a g e n s o u por r e c o n h e c e r neles
"perfeita e idêntica c o m u n h ã o c o m as
n o s s a s o p i n i õ e s , c a s a d o s c o m as n o s s a s
idéias".
4 7
T a m b é m na o b r a de Licurgo
Santos está enfatizada essa tendência,
que
abrange
"letras
romanescas e históricas".
poéticas,
Advogados e médicos tornaram-se, cada
vez
mais,
livreiros
inventários
que
a
existência destes livros e revistas dentre
pag, 100, Jan/dez 1995
potenciais
bibliófilos,
para
tendência
q u e p r i v i l e g i a v a m os t e m a s d e i n t e r e s s e
profissional. A história do livro,
das
bibliotecas e das relações culturais no
Brasil, na transição d o s é c u l o XIX
para
o XX, ainda necessita de estudos
que
aprofundem
melhor o
conhecimento
s o b r e os l e i t o r e s e s u a s l e i t u r a s , p o r q u e
as bibliotecas particulares p r e c i s a m d a
4 8
registraram
clientes
e
compulsada em catálogos e anúncios
diligência
Os
ao c a m p o da m e d i c i n a ,
dos
historiadores,
que
deveriam cuidar delas c o m o verdadeiros
jardins das delícias.
R
N
1.
V
O
O
T
A
S
R O C H E , D a n i e l . " L u m i è r e s " . In: FIQU1ER, R i c h a r d (dir.). La Bibliothèque.
Paris:
Autrement, (1992) pp. 9 2 - 9 4 .
2.
I d e m , i b i d e m , p. 9 4 .
3.
Ver N A D A U D , A l a i n . " L e J a r d i n P r i v e " . In: FIGUIER, R i c h a r d , o p . c i t . , p p . 2 0 7 - 2 1 2 .
4.
A R Q U I V O NACIONAL. Rio de J a n e i r o . Seção de D o c u m e n t o s Privados e I n v e n t á r i o s ,
Testamentos, Verbas Testamentárias.
5.
B A R M A N , R o d e r i c k J e a n . "A f o r m a ç ã o d o s g r u p o s d i r i g e n t e s p o l í t i c o s d o S e g u n d o
Reinado: a aplicação da prosopografia e dos m é t o d o s quantitativos à história do
B r a s i l I m p e r i a l * . In:
RltlQB.
Anais do Congresso do Segundo Reinado. Rio de
Janeiro, 2:61-86,1984.
6.
Ver, p o r e x e m p l o , o s s e g u i n t e s i n v e n t á r i o s n o A r q u i v o
N a b u c o de A r a ú j o , cx. 4 . 1 7 4 , n
Macional: José
Tomás
2 . 1 0 8 , 1 8 5 0 ; Carlos Ferreira França, cx. 106, n
9
8 4 5 , 1 8 6 8 e F r a n c i s c o de Carvalho Figueira de Melo, cx. 7 . 0 5 7 , m a ç o 3 7 3 , n
fi
s
3.364, 1875.
7.
S A N T O S F I L H O , L i c u r g o d e C a s t r o . História
geral da medicina
brasileira.
São Paulo:
Hucitec/Ed. d a Universidade de Sào Paulo, 1 9 9 1 , 2 v o l s . ; B A R M A N , R o d e r i c k J e a n .
"The r o l e o f t h e law g r a d u a t e in t h e p o l i t i c a l e l i t e o f I m p e r i a l B r a z i l " . In:
of interamerican
studies
and world affairs.
J o s é Murilo de.
A construção
da ordem:
Journal
1 8 ( 4 ) : 4 2 3 - 4 5 0 , nov. 1 9 7 6 ; C A R V A L H O ,
a elite política i m p e r i a l . Brasília: Ed
Universidade de Brasília, 1 9 8 1 .
8.
INSTITUTO BRASILEIRO
retrospectivas.
DE G E O G R A F I A E E S T A T Í S T I C A .
Séries
estatísticas
S e p a r a t a d o A n u á r i o e s t a t í s t i c o d o B r a s i l , a n o V, 1 9 3 9 / 4 0 . E d . fac-
similar, 1 9 4 1 . Rio de J a n e i r o : IBGE, 1986 (Repertório estatístico do Brasil. Q u a d r o s
retrospectivos,
9.
1).
Cf. N E E D E L L , J e f f r e y D.
Belle
époque
tropical:
s o c i e d a d e e cultura de elite no
Rio de J a n e i r o da virada do s é c u l o . São Paulo: C o m p a n h i a das Letras, 1 9 9 3 .
10. F R E I R E , G i l b e r t o . Ordem e progresso.
Rio de Janeiro/Brasília: J . Olímpio/INL. 1 9 7 4 ,
2 v o l s . D o m e s m o a u t o r , ver Um engenheiro
francês
no Brasil.
Rio de J a n e i r o : J .
Olímpio, 1960, 2vols.
11. Idem, i b i d e m .
12. A R Q U I V O N A C I O N A L . I n v e n t á r i o s d e L u i z P i e n t z e n a u e r , c x . 4 . 2 8 6 , n
s
5 5 1 , 1880.
Luiz J o s é de Carvalho Melo Matos, maço 4 9 0 , n 9 . 5 5 0 , 1882 e também do m e s m o
8
b o r r ã o de partilha, m a ç o 1 9 7 , cx. 6 . 8 8 0 , n
9
3 . 8 6 0 , 1 8 8 5 . S e ç ã o de D o c u m e n t o s
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* l -2. p. 85-104. jan/dei 1995 - pag 101
A
C
E
Privados. A n t ô n i o Ferreira Viana, c ó d . 0 2 , cx. 1 5 , C P 10, does. 0 7 e 0 8 , 1 8 9 1 .
13. N E E D E L L , J e f f r e y D, o p . c i t . , p p . 1 2 7 - 1 4 2 ; B E L L O , J o s é M a r i a . Memórias.
Rio de
Janeiro: J . Olímpio, 1958, pp. 35-39.
14. Ver N E V E S , L ú c i a M a r i a B a s t o s P e r e i r a d a s e FERREIRA, T â n i a M a r i a T a v a r e s B e s s o n e
da Cruz. 'O m e d o dos ' a b o m i n á v e i s princípios franceses': a censura d o s livros no
i n í c i o d o s é c u l o X I X n o B r a s i l " . In: Acervo.
J a n e i r o : v . 4 , n. 1, j a n . / j u n .
Revista do Arquivo Nacional. Rio de
1 9 8 9 , pp. 1 1 3 - 1 2 0 . Das m e s m a s autoras,
f r a n c e s e s n o R i o d e J a n e i r o : 1 8 0 8 - 1 8 2 3 " . In: História
hoje: balanço
e
"Livreiros
perspectivas.
IV E n c o n t r o R e g i o n a l d a A N P U I i - R J , 1 6 / 1 9 o u t . 1 9 9 0 . R i o d e J a n e i r o : T a u r u s T i m b r e ,
pp.
190-202.
1 5 . C H A R T I E R , R o g e r e R O C H E , D a n i e l . "Le l i v r e : u n c h a n g e m e n t d e p e r s p e c t i v e " . In:
L E Q O F F , J a c q u e s e N O R A , P i e r r e (dir.). Faire
de 1'histoire:
nouveaux
objects.
Paris: Q a l l i m a r d , 1 9 7 4 , p p . 1 1 5 - 1 3 6 .
16. C H A R T I E R , R o g e r (dir.). Pratique
Le peuple
de Paris.
de la lecture.
Paris: Rivages, 1 9 8 5 ; R O C H E , D a n i e l .
E s s a i s u r l a c u l t u r e p o p u l a i r e a u XVIIIe s i è c l e . P a r i s : A u b i n
Montaigne, 1 9 8 1 ; DARNTON, Robert.
O lado
oculto
da Revolução.
Mesmer e o
final do Iluminismo na França. S ã o Paulo: C o m p a n h i a das Letras, 1 9 8 6 ; MARION,
M i c h e l . Recherches
sur les bibliothèques
privées
à Paris au millieu
du XVIIIe
(1750-1759).
Paris: B i b l i o t h è q u e Nationale, 1 9 7 8 ; PARENT-LANDEUR,
Les
de lecture:
cabinets
siècle
Françoise.
l a l e c t u r e p u b l i q u e à Paris s o u s l a R e s t a u r a t i o n . P a r i s :
Pillot, 1 9 8 2 .
17. A R Q U I V O N A C I O N A L .
Inventário.
D. C a r o l i n a P i n t o R e b o u ç a s , e s p o s a d o
c o n s e l h e i r o A n d r é P e r e i r a R e b o u ç a s . C a i x a 4 . 0 2 9 , n. 6 9 3 , 1 8 6 5 .
18. I d e m , i b i d e m , f l . 14.
19. Idem, i b i d e m , fls. 14-15.
2 0 . A R Q U I V O N A C I O N A L . I n v e n t á r i o . L u i z P i e n t z e n a u e r . C a i x a 4 . 2 8 6 , n. 5 5 1 , 1 8 8 0 ,
ns.
24-29.
2 1 . A R Q U I V O N A C I O N A L . I n v e n t á r i o . L u i z P i e n t z e n a u e r . C a i x a 4 . 2 8 6 , n. 5 5 1 , 1 8 8 0 ,
anexo fl. 2.
2 2 . 0 l i v r o d e P o n s o n d e T e r r a i l , O Rocambole,
do Jornal
do Commercio
aparecia c o m freqüência nos anúncios
e parece ter sido muito a p r e c i a d o . O c o n j u n t o de
aventuras chegou a formar vários volumes, alguns deles incluídos na biblioteca
d o dr. L u i z P i e n t z e n a u e r . A r q u i v o N a c i o n a l . I n v e n t á r i o . L u i z P i e n t z e n a u e r . C a i x a
4 . 2 8 6 , n. 5 5 1 , 1 8 8 0 , a n e x o f l . 2 .
pag. 102. jan/dez 1995
O
V
R
2 3 . A R Q U I V O N A C I O N A L . I n v e n t á r i o . L u i z P i e n t z e n a u e r . C a i x a 4 . 2 8 6 , n. 5 5 1 , 1 8 8 0 ,
fls. 5 5 - 5 7 .
24. ARQUIVO NACIONAL. Inventário/Testamento. Antônio Correia de Souza
Costa.
C a i x a 4 . 0 0 7 , n. 2 9 4 , 1 8 9 7 , f l . 3 .
25. Idem, i b i d e m , fls. 3 7 - 4 4 .
26. ARQUIVO NACIONAL. Inventário. C â n d i d o Mendes de A l m e i d a . Caixa 2 1 9 , 1 8 8 1 .
27. ARQUIVO NACIONAL. Inventário. C â n d i d o Mendes de A l m e i d a . Caixa 2 1 9 , 1 8 8 1 ,
fls.
125-129.
28. Idem, ibidem.
29. ARQUIVO NACIONAL. Inventário. C â n d i d o Mendes de A l m e i d a . Caixa 2 1 9 , 1 8 8 1 ,
anexo 2.
30. Idem, ibidem.
31. Idem, ibidem.
3 2 . INSTITUTO H I S T Ó R I C O E G E O G R Á F I C O B R A S I L E I R O . C o l . O u r e m . L. 1 4 7 , d o e . 1 7 .
C o l . A . H. L e a l . L. 4 6 6 , f. 4 8 ; B N - S M s s I - 3 , 1 , 8 ; I - 3 , 1 , 9 ; I - 3 , 1 , 1 0 ; I - 3 , 1 , 1 1; I 3,1,12.
33. BN-SMss 1 - 3 , 1 , 1 3 , 1 - 3 , 1 , 1 4 .
3 4 . ARQUIVO NACIONAL. Verba testamentária. Manuel d a Costa Honorato. Livro 5 8 ,
n
8
1 2 9 , g a l e r i a B, 1 8 9 1 , n. 3 8 . D i v i s ã o d o s b e n s .
35. Idem, ibidem.
36. ARQUIVO NACIONAL. Inventário. Luiz J o s é de Carvalho Melo Matos. Maço 4 9 0 , n
9
9 . 5 5 0 , 1 8 8 2 , tts. 1 - 3 ; B o r r à o d e P a r t i l h a . M a ç o 1 9 7 , c a i x a 6 . 8 8 0 , n. 3 . 8 6 0 , 1 8 8 5 ;
B o r r à o d e P a r t i l h a . L u i z J o s é d e C a r v a l h o M e l o M a t o s . M a ç o 1 9 7 , c a i x a 6 . 8 8 0 , n.
3.860, 1885.
37. ARQUIVO NACIONAL. Borrào de Partilha. Luiz J o s é de Carvalho Melo Matos. Maço
1 9 7 , c a i x a 6 . 8 8 0 , n. 3 . 8 6 0 , 1 8 8 5 , f l s . 1 5 - 1 6 . A r q u i v o N a c i o n a l .
3 8 . A R Q U I V O N A C I O N A L . I n v e n t á r i o . C a r l o s F r e d e r i c o Taylor. C a i x a 1 0 5 , n. 8 4 0 , g a l e r i a
A , 1 8 9 0 , 2 v.
39. Idem, ibidem.
4 0 . I d e m , i b i d e m , ns. 3 6 7 e 3 6 8 .
41.ARQUIVO NACIONAL.
Inventário. Sizenando Barreto Nabuco de Araújo.
Caixa
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n« I -2, p. 83-104, jan/dez 1995 - pag. 105
4 . 1 1 9 , n. 1 . 0 5 1 , g a l e r i a A , 1 8 9 2 .
4 2 . I d e m , i b i d e m , f l s . 10 e 1 1 .
4 3 . Idem, ibidem.
44. Idem, ibidem.
4 5 . S A N T O S F I L H O , L i c u r g o d e C a s t r o , o p . c i t . , v . 2 , p. 1 2 .
4 6 . F R E I R E , G i l b e r t o , o p . c i t . , v. 1, p. LXIV.
47. Idem, ibidem.
4 8 . S A N T O S F I L H O , L i c u r g o d e C a s t r o , o p . c i t . , v. 2 , p. 1 2 .
A
B
S
T
R
A
C
T
A s e l s e w h e r e , i n v e n t o r i e s are a n i m p o r t a n t s o u r c e for the s t u d y o f p r i v a t e l i b r a r i e s of
p h y s i c i a n s a n d l a w y e r s f r o m R i o d e J a n e i r o , at t h e t u r n o f t h e 1 9 t o t h e 2 0
t h
t h
Century.
T h e i r w i d e - r a n g i n g c o n t e n t s w i t n e s s t h e i r i m p o r t a n c e for t h e city c u l t u r a l l i f e . O n t h e
o t h e r h a n d , t h e c a r e t h e i r o w n e r s b e s t o w e d t h e m s h o w s that t h i s l i b r a r i e s h a d b e e n
c o n v e r t e d for t h e m i n t o a k i n d of Garden
R
É
of
S
Eden.
U
M
É
A Rio de J a n e i r o , c o m m e d'ailleurs, les inventaires constituent une d e plus importantes
sources pour 1'étude des bibliotèques privées de quelques catégories socio-professionnelles,
c o m m e les médicins et les avocats, au tournant de X X
e
siècle. Q u e l q u e s - u n e s étaient três
riches et diversifiées, ce q u é t a l a i t leur importance pour leurs propriétaires et pour Ia vie
culturelle de 1'époque. Le traitement soigné et sophistiqué dont elles étaient
faisait de quelque sorte des Jardins
pag. 104. jan/dez 1995
des
Délices.
1'objet e n
Lorelai Brilhante Kury
Doutora e m História pela Ecole des Hautes Etudes
en Sciences Sociales (Paris).
Oswaldo Munteal Filho
Historiador do Setor de Pesquisa do Arquivo Nacional. Doutorando e m
História Social - IFCS/UERJ.
Cultura
científica e
sociaLilidade
i n t e l e c t u a l no B r a s i l
setecentistao
u m es
o acerca cia oociecLacLe
Literária
«do R i o (fie Janeiro
CLAVRA:
POEMAS ERÓTICOS.
V e m , ó rlinfa, ao Cajueiro.
dependência
Que no oiteiro d e s p r e z a m o s ;
intelectual
Que e m seus ramos tortuosos
potências
axcnrao
A m o r o s o s frutos d á .
relação
a
internacionais.
Nossa proposta é
t l l l Q A
Manuel Inácio da Silva
Alvarenga)
com
e
uiMiiifo
v
(O cajueiro do amor. d e
econômica
desenvolver
alguns temas que poderão
ser
úteis para a c o m p r e e n s ã o
do
lugar ocupado pela ciência na cultura
O'
s estudos que têm por objeto
a
cultura
espaços
de
científica,
os
sociabilidade
intelectual no Brasil e a recepção
leituras de caráter especulativo
de
ainda
letrada brasileira no final do
século
XVIII. Parte d a h i s t o r i o g r a f i a referente a
esse
tema
tende
a
acentuar
'defasagem' existente entre os
idealizados pelos reformistas
a
projetos
ilustrados
são relativamente escassos. Em geral,
l u s o - b r a s i l e i r o s e a efetiva c o n c r e t i z a ç ã o
se
destes
dá
ênfase
ao
'atraso'
do
projetos.
Este
hipotético
desenvolvimento científico e da cultura
d e s c o m p a s s o entre p e n s a m e n t o e a ç ã o
letrada brasileira, buscando-se
explicaria, de certo m o d o , o atraso' do
suas
c a u s a s n a a t u a ç ã o ' r e t r ó g r a d a ' d a Igreja
Brasil e de Portugal relativamente
- dos jesuítas e m particular -, ou
Europa
na
e
à
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n° 1-2, p.
América
do
à
Norte.
103-122. jan/dez 199S - pag. 105
A
C
E
c o n s i d e r a r e n t r e t a n t o q u e as d i s c u s s õ e s
marcarão fortemente o conjunto da
e as idéias científicas não são apenas
cultura brasileira desde esta época e
um campo de preparação d a aplicação
durante
prática de teorias. O s espaços de socia-
historiadora da Ilustração
todo
o
século
XIX.
A
brasileira
bilidade intelectual, constituídos pelas
Maria Odila Leite d a Silva Dias c o n s i d e r a
academias, museus de história natural,
que
sociedades científicas e literárias e as
intelectual e prático de c o n h e c i m e n t o
demais
da natureza
agremiações
congêneres,
o
estudo
deste
movimento
brasileira "oferece um
formam por si mesmos u m campo de
interesse mais específico para o estudo
dinamismo e transformação científica e
das origens de u m a cultura brasileira,
cultural, independentemente da eficácia
do
técnica proporcionada pela utilização d a
manifestações
ciência.
republicanas da Colônia..."
Mo B r a s i l , p o d e - s e r e g i s t r a r a p r e s e n ç a
destes
pólos de atração e
difusão
cultural desde os anos vinte d o século
XVIII. A S o c i e d a d e L i t e r á r i a d o R i o d e
Janeiro
constitui
instituição
um exemplo
letrada
de
particularmente
significativo por causa da maneira pela
qual
seus
membros
natureza
brasileira.
Literária
é
uma
concebem
A
a
Sociedade
das
primeiras
instituições d a C o l ô n i a q u e integra e m
seu
programa
descrever
a
os
necessidade
produtos
de
naturais
que
a
análise
das
primeiras
revolucionárias
e
1
A partir deste tipo de c o n s i d e r a ç ã o ,
importa-nos aqui fazer n ã o u m estudo
d e ' h i s t ó r i a d a c i ê n c i a ' strícto
sensu,
mas investigar a cultura luso-brasileira,
entendendo que a concepção de ciência
veiculada pela Sociedade Literária do
Rio de J a n e i r o faz parte d a política
pombalina de reformas efetivadas a
partir d a d é c a d a de 1 7 5 0 e d e f e n d i d a s
por
um
determinado
intelectuais 'ilustrados'.
grupo
de
2
O Absolutismo Ilustrado
3
vai tentar o
brasileiros c o m base nos métodos
difícil equilíbrio entre u m a monarquia
f o r n e c i d o s p e l a h i s t ó r i a n a t u r a l e a partir
que sustentava setores
de objetivos p r a g m á t i c o s q u e v i s a v a m
ligados à antiga estrutura agrária e de
a utilização imediata destes
Corte, e o pensamento iluminista de
produtos.
improdutivos,
4
D e s d e o f i n a l d o s é c u l o XVIII e s t e t i p o
base anticlerical e
de a p r e e n s ã o
c r i t i c o c o m r e l a ç ã o às e s t r u t u r a s d e
natural
científica
começa
do
a fazer
mundo
parte das
atividades desenvolvidas
normalmente
pela
do
administração
Estado
português. A pesquisa e a exploração
das riquezas naturais brasileiras s o b
este novo m o d e l o de c o n h e c i m e n t o
pag. 106. jan/dez 1995
poder
do
potencialmente
Antigo
Regime.
A
especificidade da Ilustração portuguesa
reside, entre outros fatores, n a a d o ç ã o
de
uma concepção
pragmática
utilização das 'artes',
de
aliada a um
sentimento de decadência do Reino. A
5
V
o
' d e c a d ê n c i a ' p o r t u g u e s a j á s e f a z i a notar
quase divina, produtora de valores,
na E u r o p a , e m e s m o m u i t o s ' f i l ó s o f o s '
onde cabia ao h o m e m tirar
reconheciam a total d e p e n d ê n c i a de
dela, por meio da agricultura e c o m o
Portugal c o m relação à Inglaterra. A
auxilio
pequenez do território português e d a
principais representantes deste tipo de
sua p o p u l a ç ã o pareciam incapacitar o
concepção foi Domenico Vandelli, que
Reino para o b o m aproveitamento das
adota o "ecletismo reformista"
riquezas de suas conquistas. O abade
qual se posiciona e m favor de algumas
Raynal, por e x e m p l o , e m s u a famosa
idéias antimercantilistas,
obra
História
filosófica
estabelecimentos
europeus
proveito
da história natural.
Um dos
pelo
7
adotando
e política
dos
tanto o s princípios fisiocráticos italianos
e do comércio
dos
e franceses quanto algumas noções de
nas duas índias,
escreve que
Adam Smith.
Somente
a
"desde que a Grã-Bretanha o condenou
apresentaria
caráter
produtivo
(a P o r t u g a l )
segundo
à inação, tombou
numa
barbárie quase inacreditável..."*
imediatas
de
transformações
da economia,
desenvolvimento
da
(compreendida
empreendedora
vendo
no
'indústria'
como
atividade
e m geral, e nào no
sentido atual d a palavra) a tábua de
s a l v a ç ã o d o R e i n o . Daí a i m p o r t â n c i a
dada à agricultura. Era fundamental a
pesquisa
de
novas
técnicas
lusos,
e,
era
fundamental a p r o t e ç ã o às atividades
Os p r ó p r i o s i l u s t r a d o s l u s o s s e n t i a m a
necessidade
os fisiocratas
agricultura
para
promover u m a maior produtividade das
econômicas. E m primeiro lugar devia-se
proteger
a atividade
agrícola,
em
segundo a comercial, e em último a
industrial. Nas palavras de Vandelli:
"Mão s e d a n d o p r e f e r ê n c i a à a g r i c u l t u r a
sobre as fábricas, terminarão por se
arruinar a m b a s as a t i v i d a d e s " .
8
Meste
sentido, a ilustração portuguesa vai
incorporar
diversos
aspectos
da
fisiocracia, na busca de u m governo
regulado pelas leis d a natureza.
culturas, b e m c o m o todo u m trabalho
As concepções de riqueza e natureza
de a c l i m a t a ç ã o d e n o v a s p l a n t a s q u e
dos
tivessem
contribuem
alguma
utilidade
'para
o
'ilustrados'
para
luso-brasileiros
a valorização
da
comércio e para as artes', c o m o se dizia
história natural, ciência q u e permitiria
na é p o c a . É n e c e s s á r i o frisar a q u i a
descrever as " p r o d u ç õ e s "
importância que v ã o assumir as ciências
reinos da natureza", nomeá-las e, mais
da n a t u r e z a
ainda,
destes
como
possibilitadoras
conhecer
propriedades,
'progressos'.
dos "três
seus
assim
como
extingui-las o u multiplicá-las.
A concepção
de 'riqueza'
usos
e
saber
9
para os
ilustrados portugueses vai se basear na
A p r o d u ç ã o i n t e l e c t u a l d o s é c u l o XVIII
noção da natureza encarada de forma
em Portugal é rica em autores q u e
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n'-' 1-2. p. 105-122. jan/dez 1995 - pag 107
E
C
A
defendem u m a vertente pragmática d o
Iluminismo.
1 0
Escolhemos
afirmações
de D o m e n i c o
aqui
as
Vandelli"
felicidade h u m a n a .
Assim
é
possível
movimento
14
afirmar
ilustrado
que
português
o
se
como exemplares para a compreensão
caracterizou pelo uso pragmático das
das
ciências.
relações
que estes
ilustrados
Este
uso representou um
estabeleciam entre o progresso do Reino
esforço decisivo das autoridades e dos
e o desenvolvimento da história natural.
grupos ilustrados
Este n a t u r a l i s t a i t a l i a n o , D o m e n i c o p o r
sentido da adequação do conhecimento
nascimento,
a c u m u l a d o às n e c e s s i d a d e s
Pombal
1 2
fora
convidado
por
para lecionar inicialmente no
Colégio Real dos nobres de Lisboa e
luso-brasileiros
no
de uma
retomada da exploração colonial, de
uma redefinição, podemos
dizer,
do
depois na Universidade de C o i m b r a ,
'exclusivo'
onde foi lente de química e história
agora, investir num outro ramo que
natural. Vandelli era ainda diretor do
redundasse
Real J a r d i m B o t â n i c o , o n d e
riquezas,
realizava
numerosas tentativas de aclimatação de
metropolitano.
na
Importava
acumulação
das
fundamentalmente
a
agricultura.
plantas 'úteis'.
Em
uma memória
econômica
da
A c a d e m i a Real das Ciências de L i s b o a ,
Vandelli
escreve:
não sendo outra coisa as manufaturas,
ou
fábricas,
que
um
preparo,
p u r i f i c a ç ã o , ou modificação das
produções naturais para algum uso,
G
L A V R A :
POEMAS ERÓTICOS
DE HUM AMERICANO.
assim os primeiros conhecimentos, que
devemos
ter
são
das
mesmas
produções da natureza, como base, ou
primeiras materiais...
13
Ou ainda, numa obra de história natural:
O homem só com a força da sua
Carmmibus quíra mijerarmm oB.
üvia rerum :
Prtmia fi Jludio confequar ifta
fst eft.
Ovid.
imaginação não p o d i a comer, nem
vestir-se,
nem executar os seus
desejos; enfim nada podia fazer sem o
auxilio das produções naturais, que são
a base de t o d a s as a r t e s , de q u e
dependem, principalmente os cômodos
e prazeres
da v i d a . P o i s , q u e o
conhecimento
pag. 108. Jan/dez 1995
delas
contribui
à
Alvarenga, Manuel I n á c i o da Silva. Glaura,
poemas e r ó t i c o s . Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1943.
R
O
V
C o m a criação d a A c a d e m i a Real das
natureza tropical u m a fonte de riqueza
Ciências de Lisboa, e m 31 de dezembro
que
de 1 7 7 9 , o s quadros
conhecida e explorada.
mais
variadas
intelectuais das
vertentes
ilustradas
passaram a integrá-la. Esta instituição
contava c o m o apoio e beneplácito da
r a i n h a d . M a r i a 1, q u e m a n t e v e
muitos
dos ministros d a época pombalina na
sua própria administração e à frente d o s
planos e projetos da Academia. C o m o
j á frisamos aqui, muitos ilustrados que
participaram da 'governação' pombalina
se u n i r a m e m t o r n o d a f o r m a ç ã o d e u m a
academia que fosse capaz de elaborar
projetos e redimensionar o papel das
colônias. Essas duas funções tinham um
objetivo
essencialmente
prático:
recuperar a e c o n o m i a d o Reino, agora
funcionalizada e m torno da exploração
metódica das riquezas produzidas
pela
natureza.
deveria
ser
Estas duas frentes
cientificamente
que destacamos,
assinalavam a preocupação
de u m a
fração do grupo reformista ilustrado da
Academia, que aqui denominaremos de
iiustrados-naturalistas ou naturalistas
utilitários. Era u m a espécie de subgrupo,
dentro
da Academia,
que
continha membros egressos da época
pombalina e outros q u e , formados no
espírito da Universidade de C o i m b r a
reformada, tiveram u m a aproximação
mais íntima c o m os temas d a Ilustração,
no plano estritamente pragmático, as
Luzes e m Portugal tinham
após
a
'Viradeira',
francamente
assumido,
um
contorno
aberto às e s p e c u l a ç õ e s
c i e n t í f i c a s . O i d e á r i o d a A c a d e m i a Real
das Ciências de Lisboa e a base das
A p r o d u ç ã o ilustrada de base naturalista
propostas reformistas partiam de u m a
- que acabou por congregar nos espaços
maior
de
português
sociabilidade
intelectual
luso-
abertura
e
do grupo
de
dirigente
seus
quadros
brasileiros u m núcleo de pragmáticos e
intelectuais
homens de Estado - propôs alternativas
ilustrados.
para a s u p e r a ç ã o d a crise e c o n ô m i c a d o
que vai do fim da época pombalina aos
Império ultramarino, as quais passavam
primeiros anos d o reinado de d. Maria
prioritariamente
por
I, F e r n a n d o A . Movais n o s o f e r e c e u m a
aproveitamento
das
um
melhor
'produções
naturais' das colônias. Estas
aos esquemas
mentais
Relativamente ao período
contribuição decisiva:
propostas
v i s a v a m f l a n q u e a r as fragilidades d o
...o período q u e se segue ao 'consulado
Império e m duas frentes:
pombalino' aparece-nos
a política
muito
mais
fomentista, que desde a administração
como seu desdobramento
pombalina era implementada,
negação. Da fase autoritária de criação
deveria
que sua
ser i n t e n s i f i c a d a ; a v a l o r i z a ç ã o d a
dos
agricultura,
condições das reformas, passa-se, a
práticas
fundamentada
discursivas
pelas
que viam
na
pré-requisitos
ou melhor das
partir de 1 7 7 7 , para u m a etapa de
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 105-122. jan/dez !995-pag.l09
A
C
maiores aberturas para o pensamento
Se
ilustrado.
um
dificultosos, e quase insuperáveis, os
de
obstáculos que impedem o aumento da
mas
desdobramento
isso
do
era
processo
em
Portugal
nào
fossem
tão
reformas.!...) Neste sentido, a chamada
agricultura, e se a indústria
' v i r a d e i r a ' tem muito reduzida sua
c h e g a d o ao e s t a d o de se a p r o v e i t a r e m
importância efetiva; houve sim uma
todas as úteis p r o d u ç õ e s da n a t u r e z a ;
viragem significativa, mas no sentido
infelizes seriam os estrangeiros,
que
de uma maior integração nas linhas do
nào possuem conquistas, c o m o
em
reformismo ilustrado.'
uma carta e x c l a m a o célebre
5
Ainda sobre o espirito da
Francisco
Falcon
'Viradeira',
observa
que
tivesse
Lineu:
Bone Deusl Si Lusitani n o s c e n t
este
bona naturae, quam infelices
sua
essent
m o v i m e n t o estava distante de sinalizar
plerique alii, qui non possident terras
para uma ruptura decisiva c o m o ideário
e x ó t i c a s ! (sic)
"
e c o m o c o n j u n t o de p r á t i c a s de c u n h o
ilustrado
em curso
pombalina.
desde
Ao contrário, o
m a r i a n o se c a r a c t e r i z a
cimento
a
pelo
época
período
fortale-
da corrente cientificista e
pragmática do Iluminismo, centralizada
em grande parte, pela A c a d e m i a Real
Das
'terras
portuguesas,
certamente a mais v a l o r i z a d a de todas
era o Brasil, c o n h e c i d o desde o s é c u l o
XVI
como
particularmente
belo
e
f a v o r e c i d o p e l a n a t u r e z a . No s é c u l o d a s
Luzes,
Diderot
das C i ê n c i a s . E n f i m ,
exóticas'
a própria
e
Encyclopédie
D'Alembert
de
veicula,
no
verbete Brésil, uma imagem positiva das
suas principais linhas de pensamento
e de ação configuram uma política
c o l o n i a l q u e , e m b o r a fosse a i n d a
mercantilista, assimilava os elementos
n o v o s do p e n s a m e n t o da é p o c a ,
sobretudo o incentivo à p r o d u ç ã o ,
inclusive na Colônia, sem abrir mão
evidentemente do patrimônio e do
'exclusivo'."
produções
naturais
da
colônia
portuguesa. Se o c l i m a e a natureza da
América eram considerados
especial-
mente perversos por alguns
'filósofos-
n a t u r a l i s t a s ' c o m o B u f f o n e C o r n e i l l e De
Pauw , é certo que a valorização
natureza brasileira aparece claramente
nas c o n c e p ç õ e s dos i l u s t r a d o s
brasileiros.
Citando
luso-
novamente
E s t a a b o r d a g e m p o d e s e r v e r i f i c a d a na
V a n d e l l i , desta vez q u a n d o
atuação
s o b r e as p o s s i b i l i d a d e s a g r í c o l a s
do
naturalista
Domenico
Vandelli, que demonstra a importância
que
a revitalização
colonial
memória
físicas
estava
onde
da
e morais
as
Numa
causas
da decadência
agricultura no Reino, ele afirma:
pag. 110, jan/dez 1995
dissertava
das
terras d a q u i :
exploração
assumindo.
descreve
da
1 8
da
Posto que seja c o n h e c i d o o
mesmo
pais do Brasil, quase d e s p o v o a d o
inculto...,
nào deixarei
de
e
indicar
brevemente o estado da agricultura nos
o
V
arredores
das poucas
européias.
povoações
É escusado
indicar
a
tação
de
plantas,
expedições de naturalistas
bondade do clima, a fertilidade d o s
e brasileiros
terrenos;
melhor os 'três reinos
porque
tudo
isto é b e m
promovendo
20
portugueses
c o m o intuito de conhecer
da natureza'
(vegetal, a n i m a l e m i n e r a l ) - s e g u n d o a
conhecido."
lucrativamente as
expressão lineana utilizada na época -
riquezas de suas colônias, a política
e favorecendo a criação de sociedades
metropolitana adotada c o m relação ao
'letradas', que tivessem por objetivo o
Brasil vai ser, p o r u m lado, de inserção
desenvolvimento
da C o l ô n i a n a a t m o s f e r a d a i l u s t r a ç ã o ,
comércio e da agricultura'; por outro
fortalecendo
lado este m e s m o m o v i m e n t o
Visando
aproveitar
pesquisas
para
Diderot, Denis et alil. Encyclopédie.
aclima-
'das
artes,
do
visava
Dictlonnalre r a l s o n n é des sciences, des arts et des m é t l e r s .
Parts: Briasson, 1751 - 1780, 35 vols.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 105-122, jan/dez 1995 - pag. 111
C
A
exatamente
um
acirramento
exploração colonial.
É
no
interior
da
E
da Fonseca, futuro marquês de M a r i c á .
2 5
Eles são interrogados e ficam presos por
2 1
que
três anos, após o que são soltos graças
f l o r e s c e r á a S o c i e d a d e L i t e r á r i a d o Rio
desta
à i n t e r v e n ç ã o d a p r ó p r i a d . M a r i a I, p o r
de J a n e i r o .
intermédio do ministro d. Rodrigo
Em
política
1771
foi
fundada
de
inicialmente uma 'Academia Científica',
Sousa Coutinho, ilustrado que compar-
composta principalmente por m é d i c o s
tilhava da política de v a l o r i z a ç ã o
e incentivada pelo próprio vice-rei,
2 2
o
ciências.
2 6
A amizade de Silva Alvarenga
marquês d o Lavradio. C o m a morte de
c o m Basílio da G a m a (que
alguns
pelos círculos
fomentadores
do
espírito
das
intelectuais
transitava
metropo-
especulativo e o fim da administração
litanos), sua estada em Portugal
de Lavradio, a A c a d e m i a não prossegue
é p o c a da reforma da Universidade de
seus trabalhos, extinguindo-se em 1 7 7 9 .
Coimbra
Em 1 7 8 6 , j á sob a proteção do
novo
mantida c o m outros ilustres do Reino,
v i c e - r e i d . L u í s de V a s c o n c e l o s e S o u s a ,
inclusive a troca de cartas entre Mariano
renasce
da
com o nome
de
Sociedade
(1772), a
Fonseca
e
na
correspondência
Domenico
Vandelli,
L i t e r á r i a d o Rio de J a n e i r o , l i d e r a d a p e l o
permite-nos avaliar que os m e m b r o s da
poeta Manoel Inácio da Silva Alvarenga.
S o c i e d a d e Literária d o Rio de J a n e i r o
Ela
faziam parte p e s s o a l m e n t e do
grupo
esmorece devido à chegada de um novo
ilustrado
Sousa
vice-rei, o c o n d e de R e s e n d e ,
pouco
Coutinho, Vandelli, e tantos outros que
simpático
ilumi-
compartilhavam
prossegue
às
até
1790,
quando
elocubrações
nistas." Somente
em
1794 é que
a
ao qual p e r t e n c i a m
dos
desenvolvimento
ideais
de
'do comércio,
das
S o c i e d a d e Literária do Rio de J a n e i r o
artes e d a a g r i c u l t u r a no R e i n o e e m s u a s
retomará
conquistas'.
por
atividades,
quatro
quando
meses
suas
é proibida
pelo
c o n d e de Resende. A p ó s esta p r o i b i ç ã o ,
Silva
Alvarenga
e
alguns
outros
m e m b r o s são objeto de d e n ú n c i a s , que
os a c u s a m de p r o f e s s a r e m
contra
religião, a m o n a r q u i a , e a favor
a
da
República francesa. Ao que tudo indica,
estas acusações ocorreram por motivos
p e s s o a i s , d e v i d o à g a n â n c i a de
rábula l o c a l .
Os
um
Consta nos autos da devassa, relativamente à defesa de Mariano, o seguinte:
...argumentou que se ele respondente
tivesse idéias contrárias ao governo
m o n á r q u i c o isto havia de constar
da
sua c o r r e s p o n d ê n c i a c o m as p e s s o a s
do seu conhecimento, assistentes em
Lisboa como eram o
desembargador
2 4
acusados
Francisco
principais
eram
Silva
Alvarenga, o médico Jacinto José
da
Silva, e o bacharel Mariano J o s é Pereira
pag 112. jan/dez 1995
Franco
Pereira,
o
dr.
Domingos Vandelli, e o negociante J o s é
Ramos da F o n s e c a . . .
não havia
constar coisa, porque pudesse
de
ser
O
V
R
argüido de serem seus
menos fiéis.
sentimentos
membros, verificamos u m a adequação
aos ideais utilitários
2 7
Certamente os inquisidores
poderiam
da Ilustração
portuguesa.
encontrar trechos de correspondências
Os m e m b r o s d a Sociedade Literária d o
mais suspeitos, c o m o é o caso d a carta
Rio de Janeiro frisavam para s u a defesa
recebida pelo médico Jacinto, de um
durante os inquéritos promovidos
outro m é d i c o de L i s b o a , onde consta o
conde de Resende, o caráter utilitário
seguinte:
dos seus trabalhos, e se vinculavam à
...há de ser naqueles tempos, e m que
todo o novo hemisfério se há de dividir
todo,
em duas
repúblicas,
uma
c o m p r e e n d e r á todo o norte, outra todo
o m e i o - d i a ; q u e i r a D e u s q u e isto s u c e d a
Academia
Científica.
pelo
Em um dos
depoimentos do médico Jacinto José da
Silva, ele traça u m pequeno
das
atividades
agremiações
histórico
científicas
que tinham
destas
sido bem
s e m efusão de sangue; eu então j á
d o r m i r e i n o Senhor. . . . e n q u a n t o o s reis
não forem filósofos e os filósofos não
forem reis n à o há de haver j u s t i ç a .
Mas, apesar
destas
demonstrações
claras de idéias renovadoras,
improvável
sinceros
é muito
que houvesse
plano de sedição
2 9
2 8
qualquer
p o r parte
'filósofos',
cuja
determinada e m grande
destes
sorte
parte
foi
pelos
germens contidos na própria Ilustração
vinda do Reino, e nas idéias aprendidas
nos cursos feitos e m C o i m b r a , e vez
3 0
por outra n a F r a n ç a . A o p o s i ç ã o q u e
havia entre o s m e m b r o s d a S o c i e d a d e
Literária d o Rio de Janeiro e o conde
de
Resende,
também
no
por exemplo,
interior
da
existia
própria
Metrópole, o q u e fica patente
quando
da morte de d. J o s é I e d o exílio d o
marquês de Pombal.
Analisando
os
documentos
da
Sociedade Literária do Rio de Janeiro e
os
particulares
deixados
por seus
Diderot, Denis et alii. Encyclopédie.
Dictlonnalre
r a l s o n n é des sclences, des arts et des m é t i e r s .
Paris: Briasson, 1751 - 1780, 35 vols.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n* I -2. p. 105-122, jan/dez 1995 - pag. 113
C
A
sucedidas:
E
marcados pelos estudos
. . . t i v e r a o s e u n a s c i m e n t o no t e m p o e m
das
que
regulamentação
fora
vice-rei
deste
Estado
o
ciências,
se
unem
à
democrática
e
m a r q u ê s de Lavradio e que então se
i g u a l i t á r i a e s t a b e l e c i d a p a r a as r e l a ç õ e s
deveria à m e s m a a cultura do anil, e
entre seus filiados, e à n e c e s s i d a d e de
se
difusão das L u z e s .
introduzira
e
propagara
cochoniiha. e que,
a
da
esmorecendo
mesma sociedade pela ausência
a
do
das matérias; será a escolhida destas
dividida
Luís de Vasconcelos e S o u s a , e que
que
dos
Sociedade
Jacinto
Literária,
comenta,
de
maior
resultar:
pela
menos
da
Sociedade
destituída
poderiam
servir de abater os â n i m o s e
fazer
5 1
desvanecer
extinta
o
sua
atualmente de m e i o s , só
Mangue e outros descobrimentos úteis
depois
pode
infância
aguardente da raiz do s a p é . o álcali do
anos
pela
complicação c o m obstáculos, que na
engastes das bananas, a extração da
Alguns
sempre
utilidade: pelo mais próximo proveito,
então se descobrira pelos trabalhos da
à s o c i e d a d e e ao c o m é r c i o . . .
O artigo 2 5 ilustra
Ma p r o p o s t a , q u e se f i z e r à a s s e m b l é i a ,
e florescer no t e m p o d o seu s u c e s s o r
m e s m a sociedade o álcali tirado
5 5
b e m estas características:
referido vice-rei. se tornara a renovar,
mesmo
relembrando
a
as
esperanças,
c o n c e b e para o f u t u r o .
que
5 4
dr.
o
O
sentimento
da
necessidade
ilustrar-se j á se fazia presente
passado:
...Ali náo só se tratava de filosofia,
matemática, astronomia, modos
facilitar os trabalhos
do
de
agricultor,
fazendo-lhe conhecer a qualidade
do
terreno para não ser infrutuosa a sua
lavoura, c o m o se tratava da
saúde
de
nas
p r o p o s t a s de S i l v a A l v a r e n g a p a r a os
e s t a t u t o s : " S e r á útil c o n s e r v a r , e r e n o v a r
as i d é i a s a d q u i r i d a s , e c o m u n i c á - l a s a o s
que
tiverem
conhecimentos".
falta
desses
5 5
Quanto ao espírito ' d e m o c r á t i c o ' que os
pública entre os m é d i c o s e cirurgiões
orientou,
peritos e dignos de serem
legados pela Antigüidade Clássica e na
membros
daquela sociedade; respondendo
Os
que
pragmáticos
a
baseado
nos
exemplos
organização de sociedades de letrados
c o n s u l t a s , d e c i d i a m q u e s t õ e s s o b r e as
européias, lembramos outra
moléstias que grassavam, analisando
do punho de Alvarenga: "Não deve haver
águas e mais substâncias necessárias
superioridade alguma nesta sociedade,
à vida do h o m e m . . .
e será dirigida igualmente por
próprios
Estatutos
5 2
da
Sociedade
democrático".
passagem
modo
5 6
L i t e r á r i a d o R i o d e J a n e i r o se n o r t e i a m
No e n t a n t o , n o s a r t i g o s 3 0 e 3 1 , s ã o
por alguns
formulados
princípios
pag. 114. jan/dez 1995
fundamentais
nitidamente princípios
de
K
V
obediência
à religião
cristã
e de
f i d e l i d a d e às p o l í t i c a s g o v e r n a m e n t a i s .
3 7
O
Já fugiram
os dias
horrorosos/De
escuros nevoeiros, dias tristes,/Em que
A confiança na possibilidade de u m a
as artes g e m e r a m
monarquia esclarecida adquire u m tom
nobre
desprezadas/Da
Lísia no fecundo
seio/Hoje
bastante sincero quando se vê a c o m e -
cheias de glória ressuscitam/Até nestes
moração dos aniversários de d. J o s é I e
c o n f i n s d o Movo M u n d o / G r a ç a s à m à o
de d o n a M a r i a 1, a l é m d a s p r o d u ç õ e s e m
a u g u s t a q u e a s a n i m a l (...) E t u , q u e m
louvor destes c o m o a seguinte
é s , o h n i n f a . tu q u e a j u n t a s , / I n d a g a s e
pas-
sagem de u m p o e m a de Silva Alvarenga,
descobres os tesouros/Que
fecunda
dedicado a Basílio da G a m a : "Consulta,
produz a natureza? Recebe as tuas leis
a m i g o , o g ê n i o , q u e m a i s e m ti d o m i n e /
todo o vivente,/0 nobre racional, o vil
Tu
inseto,/O
podes
s e r M o l i è r e , tu p o d e s s e r
Racine/Marqueses
tem Lisboa,
mudo
peixe,
as
aves
se
emplumadas,/as indômitas feras e
cardeais Paris/José pode fazer mais d o
escamosas/mortiferas serpentes, e os
que fez L u í s " .
anfibios/que
3 8
respiram
diversos
Foi p o r o c a s i ã o d o a n i v e r s á r i o d e d o n a
elementos./Dos vegetais na imensa
Maria 1 q u e o professor
de retórica
variedade/Tu conheces os sexos, e
Manuel Inácio da Silva Alvarenga recitou
distingues/Quais servem ao comércio,
o
onde
e quais restauram/A perdida s a ú d e ; tu
desfilam alegoricamente as musas das
nos mostras/A prata, o ouro, as pedras
diversas 'artes', a saber, a matemática,
preciosas/Com que a opulenta e ínclita
a física, as ciências naturais, a química,
Lisboa/Vaidosa
a medicina, a geografia, a história e, por
levanta.
didático
poema
As
Artes,
fim, a poesia:
Diderot, Denls et alil. Encyclopedie.
sobre
o Tejo
se
3 9
A especificidade deste grupo de letrados
Dictlonnaire r a l s o n n é des sclences, des arts et des métiers.
Paris: Briasson, 1751 - 1780, 35 vols.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 105-122. jan/dez 1995 - pag 1 15
C
A
coloniais
se d á na m e d i d a e m
4 0
que
i m b u í d o s da n o ç ã o de valorização
da
natureza c o m o produtora de riquezas e
como
'mestra'
começam
da
própria
a valorizar
vida,
também
sua
e l a , j á q u e as p r o d u ç õ e s n a t u r a i s e r a m
'confins
do
pródigas
Movo
nestes
Mundo'.
mangueiras.
4 4
Provavelmente Silva Alvarenga
sem realizar
morreu
completamente
o
seu
4 1
posição de maior proximidade para c o m
particularmente
E
Silva
s o n h o de h o m e m ' r ú s t i c o ' inspirado de
uma leitura pastoril da
Antigüidade
Clássica. Consta numa passagem
dos
autos da devassa, quando discutem dois
dos e n v o l v i d o s no p r o c e s s o :
Sociedade
Silva Alvarenga, J o ã o Marques, Mariano
L i t e r á r i a d o R i o d e J a n e i r o , a l é m d e ter
e Jacinto queriam fazer u m a r e p ú b l i c a
sido
seus
de a n i m a i s nas c a b e c e i r a s o u
pela
d o rio d e T a g e a h i , d i z e n d o o d i t o S i l v a
ensinava
Alvarenga que havia de levar os quatro
Alvarenga
foi a a l m a da
mestre
membros.
de
muitos
Formado
de
em direito
Universidade de C o i m b r a ,
r e t ó r i c a e l a t i m , r e c e b e n d o a l u n o s até
evangelistas,
de outras
Sua
Homero, Virgílio e mais outro, e que
atuação c o m o professor e c o m o poeta
se haviam de queimar todos os mais
influenciou u m a g e r a ç ã o de intelectuais
livros
que
d i s p u t a v a m sobre se devia
cidades
mais
da C o l ô n i a .
tarde
promoveria
a
que
quais eram
sertão
Horácio,
houvesse,
e
daqui
fazer-se
guerra aos m e s m o s animais, ou deixá-
e m a n c i p a ç ã o política destas terras.
l o s c o m e r t o d o o g ê n e r o de p l a n t a s q u e
Embora
Manuel
Alvarenga
não
Inácio
tivesse
independência, forneceria
intelectuais
construção
brasileira',
tarde.
4 2
que
da
Silva
planos
elementos
embasariam
da idéia de u m a
algumas
de
a
eles q u i s e s s e m , o que tudo vinha em
conseqüência dos louvores que davam
as m e s m a s r e p ú b l i c a s e f e l i c i d a d e que
nelas gozavam os p o v o s .
4 5
'nação
décadas
mais
O poeta na sua obra demonstra
que seu caráter 'brasileiro', ou
antes
'americano', estava mais presente
em
A s s i m , os t e m a s d e s e n v o l v i d o s
pelos
m e m b r o s da S o c i e d a d e Literária do Rio
de J a n e i r o i n c l u e m - n o s
no
intelectual mais amplo dos
ilustrados
s u a p r ó p r i a a t i v i d a d e artística d o q u e e m
luso-brasileiros.
qualquer
utilitárias fazem parte do m o v i m e n t o de
plano nativista de
sediçáo.
Portador de u m a c o n c e p ç ã o i d e a l i z a d a
acirramento
da
portuguesa,
natureza,
que
exaltava
amenidade, utilidade e beleza,
chega, em vários momentos
sua
4 3
de
preocupações
política
b a s e a d a na
colonial
exploração
ele
metódica da natureza, da brasileira em
sua
particular.
o b r a , entre um pastor grego e outro, a
cientificas
d e s c r e v e r as s i n g u l a r i d a d e s d e s u a terra
Sociedade
natal, como beija-flores,
relevantes
pag. 116, jan/dez 1995
da
Suas
universo
cajueiros
e
A eficácia das
atividades
empreendidas
Literária
no
âmbito
não
pela
foram
estrito
do
desenvolvimento
e de
seus
e c o n ô m i c o do
domínios
Entretanto,
Reino
Alvarenga
ultramarinos.
Sociedade
o e s p a ç o de debate e de
reflexão criado
por esta
pelas autoridades
européias
desejado
portuguesas,
condição
no
Estado.
Meste
consideramos fundamental
pelo
Literária
mentos
da
natureza
a
próprios
brasileira.
M
1.
especificidade
O
O
poeta
estes
'ilustrados'
pensamento
ilustrado
uma
das
primeiras
de
suas
dos
Histórico
A
produtos
naturais
brasileiros promovida pelos
ilustrados
n a s c i d o s na C o l ô n i a v i s l u m b r a r e m
contornos
da
de
uma
os
identidade
'americana' e 'tropical'.
Silva
T
e Geográfico
funda-
atividades.
A
S
D I A S , M a r i a O d i l a L e i t e d a S i l v a . " A s p e c t o s d a I l u s t r a ç ã o n o B r a s i l " . In:
do Instituto
em
luso-brasileiros permite aos intelectuais
às c i ê n c i a s n a t u r a i s e d e u m s e n t i m e n t o
valoriza
é
valorizaçào
maneira singular de c o n c e b e r a natureza
que
que
história natural c o m o um dos
S o c i e d a d e a n u n c i a m a a d o ç ã o de u m a
tropical, a partir de m é t o d o s
vive
associações de letrados que inclui a
potencialmente
atividades
que
a
p o r t u g u ê s . Meste s e n t i d o , a S o c i e d a d e
críticos da ordem política da época. Em
as
fato
brasileira no
mesmo tempo local e cosmopolita, que
lugar,
homem
sobre
p e r c e b e r a m o lugar central da natureza
Literária
constituição de u m a cultura científica ao
segundo
do
refletirem
do
Luzes
J a n e i r o poderia, então, ser caracterizada
sublinhar
constitui um e s p a ç o privilegiado para a
traz c o n s i g o e l e m e n t o s
mão
A e s p e c i f i c i d a d e das L u z e s no Rio de
sentido,
dois aspectos da vida desta Sociedade.
E m p r i m e i r o lugar, a S o c i e d a d e
para
da
contato quase direto c o m a natureza.
esforço que fizeram para a recuperação
material do
Literária lançam
arsenal intelectual oriundo das
instituição
ultrapassa o pragmatismo
e os demais m e m b r o s
Brasileiro.
Revista
Rio d e J a n e i r o : j a n . / m a r . 1 9 6 8 , p.
105.
2.
D I A S , M. O.
pombalina
3.
L. d a S . , o p . c i t . e F A L C O M , F r a n c i s c o J o s é C a l a z a n s .
A
época
- política e c o n ô m i c a e monarquia ilustrada. São Paulo: Ática, 1982.
C o n f e r i r F A L C O M , F. J . C. Despotismo
esclarecido.
São Paulo: Ática, 1988.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n« 1 -2. p. 105-122, jan/dez 1995 - pag. 117
C
A
4.
5.
E
A e s s e r e s p e i t o c o n f e r i r H A Z A R D , P a u l . O pensamento
europeu
no século
XVIII.
L i s b o a : P r e s e n ç a , 1 9 8 0 e F A L C O N , F. J . C . Iluminismo.
São Paulo: Ática, 1 9 8 8 .
S o b r e a e s p e c i f i c i d a d e d a I l u s t r a ç ã o p o r t u g u e s a , cf. M U N T E A L F I L H O , O s w a l d o .
Domenico
Vandelli
no anfiteatro
da natureza
- a cultura científica d o reformismo
ilustrado português na crise do Antigo Sistema Colonial. Rio de Janeiro:
dissertação de mestrado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
- m i m e o , c a p í t u l o 1, 1 9 9 3 .
6.
Apud QONNARD,
dtlistoire
7.
Économique
et Sociale.
Sistema
Colonial
Revue
P a r i s : X X V I I (1), 1 9 4 8 , p. 2 4 .
Cf. F A L C O N , F J . O , o p . c i t . e N O V A I S , F e r n a n d o A. Portugal
Antigo
8.
R e n é . " L ' e p o p é e p o r t u g a i s e et 1' a b b é R a y n a l " . I n :
(1777-1808).
e Brasil
na crise
do
São Paulo: HUCITEC, 1 9 8 3 .
V A N D E L L I , D. " M e m ó r i a s o b r e a p r e f e r ê n c i a q u e e m P o r t u g a l s e d á a a g r i c u l t u r a
s o b r e as f á b r i c a s " , a p u d S E R R À O , J o e l . Dicionário
da história
de Portugal.
Porto:
Figueirinhas, s . d . , pp. 4 2 - 4 4 .
9.
V A N D E L L I , D. Dicionário
de história
natural.
Lisboa: Tipografia da A c a d e m i a Real
d a s C i ê n c i a s d e L i s b o a , 1 7 8 6 , p. 1.
10. C o n f e r i r a e s s e r e s p e i t o Q O D I N H O , V i t o r i n o d e M a g a l h ã e s . A estrutura
sociedade
portuguesa.
da
antiga
Lisboa: Arcádia, 1968.
1 1 . Para m a i o r e s d e t a l h e s a c e r c a d a v i d a e d a o b r a d o n a t u r a l i s t a l u s o - i t a l i a n o , c o n f e r i r
MUNTEAL FILHO, Oswaldo, op.cit.
12. C o n f e r i r a e s s e r e s p e i t o as c o r r e s p o n d ê n c i a s e n t r e o m a r q u ê s d e P o m b a l e o
naturalista italiano contidas na Coleçáo Negócios de Portugal, s o b a guarda do
Arquivo Nacional.
1 3 . V A N D E L L I , D. ' S o b r e a l g u m a s p r o d u ç õ e s n a t u r a i s d e s t e R e i n o , d a s q u a i s s e p o d e r i a
tirar u t i l i d a d e " . In: Memórias
econômicas
da Academia
Real das Ciências
de
Lisboa.
L i s b o a : F u n d a ç ã o C a l o u s t e Q u l b e n k i a n - B a n c o d e P o r t u g a l , 1 9 9 1 , p. 1 7 6 .
14. V A N D E L L I , D. Dicionário
de história
natural,
o p . c i t . , p. 5 .
15. N O V A I S , F e r n a n d o A . , o p . c i t . , p. 2 2 4 .
16. F A L C O N , F r a n c i s c o J . C. Da Ilustração
à revolução-
percursos ao longo do espaço-
tempo setecentista. In: Revista Acervo. Rio de Janeiro: v.4, n . l , jan./jun. 1989, p. 8 0 .
17. V A N D E L L I , D. "Sobre a l g u m a s p r o d u ç õ e s n a t u r a i s d e s t e R e i n o , d a s q u a i s s e p o d e r i a
tirar u t i l i d a d e " , o p . c i t . , p. 1 7 7 .
1 8 . Cf. Q E R B I , A n t o n e l l o .
La disputa
dei Píuevo
Mundo
- historia de una polêmica
(1750-1900). México: Fondo de Cultura Econômica, 1 9 6 0 .
19. VANDELLI, D. "Sobre a a g r i c u l t u r a d e s t e R e i n o , e d a s s u a s c o n q u i s t a s " . In:
pag. II8, jan/dez 1995
Memórias
R
O
V
econômicas
. . . . p. 1 7 0 .
20. Apesar de favorecer e x p e d i ç õ e s científicas no território brasileiro, a administração
m e t r o p o l i t a n a s e p r e o c u p a v a e x t r e m a m e n t e c o m a d e f e s a d e s e u s d o m í n i o s . Daí
a má acolhida a expedições estrangeiras, c o m o as de Bougainville e Humboldt.
C o n s u l t a r : T A I L L E M I T E , É t i e n n e . Bougainville
(1766-1769)
et ses compagnons
autour
du
monde
• j o u r n a u x d e n a v i g a t i o n . P a r i s : I m p r i m e r i e M a t i o n a l e , 1 9 7 7 ; e PIMTO,
O l i v é r i o M . O . " V i a j a n t e s e n a t u r a l i s t a s " . In: História
geral da civilização
brasileira.
S â o P a u l o : D1FEL, 1 9 8 3 , t.III, v . 3 .
2 1 . C f . D I A S , M . O . L. d a S . , o p . c i t .
2 2 . S o b r e a a t i v i d a d e d o s m é d i c o s n a S o c i e d a d e L i t e r á r i a d o R i o d e J a n e i r o , cf.
FOHSECA,
início
M a r i a R a c h e l F r ó e s d a . Ciência
do século
e identidade
nacional
no Brasil
no
XIX. C o m u n i c a ç ã o a p r e s e n t a d a n o IV C o n g r e s s o L a t i n o a m e r i c a n o
d e H i s t o r i a d e l a C i ê n c i a y d e Ia T e c n o l o g i a . C a l i : j a n e i r o d e 1 9 9 5 .
23. Sobre a administração do conde de Resende consultar: SAMTOS, Afonso Carlos
M a r q u e s d o s . Ho rascunho
da fiação:
Inconfidência no Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes/Departamento Qeral
de D o c u m e n t a ç ã o e I n f o r m a ç ã o C u l t u r a l , 1 9 9 2 .
24. Cf.QARCIA, Rodolfo. "Introdução aos autos da devassa ordenada pelo
c o n d e d e R e s e n d e " . In: Anais
da Biblioteca
fiacional.
Rio de Janeiro:
vice-rei
1 9 3 9 , v.
L X 1 , p. 2 4 1 .
25. Cf. e s p e c i a l m e n t e sobre esse p e r s o n a g e m d a s o c i e d a d e letrada, seus
papéis
particulares, c o r r e s p o n d ê n c i a s c o m m e m b r o s da A c a d e m i a Real d a s Ciências de
L i s b o a , livros seqüestrados e outros registros, o códice 7 4 9 - marquês de Maricá,
sob a guarda do Arquivo nacional.
2 6 . S o b r e d . R o d r i g o d e S o u s a C o u t i n h o c o n s u l t a r : DIAS, M. O . L. d a S . , o p . c i t . e
nOVAIS, F. A . , o p . c i t .
2 7 . AHA1S d a B i b l i o t e c a n a c i o n a l . Autos
Resende.
da devassa
ordenada
pelo
vice-rei
conde
de
1 9 3 9 , LX1, p. 4 3 9 .
28. Idem, i b i d e m , pp. 3 6 8 e 3 7 0 .
2 9 . C f . a e s s e r e s p e i t o D A R n T O n , R o b e r t . Edição
clandestina
no século
XVIII.
e sedição
- o universo d a literatura
Sào Paulo: Companhia
das Letras, 1 9 9 2 .
E s p e c i a l m e n t e q u a n d o R. D a r n t o n c h a m a a a t e n ç ã o p a r a o fato d e q u e " D e v e - s e
entender sedição nào c o m o u m a tomada de armas n e m como u m a violência
esporádica contra as autoridades, e s i m c o m o u m desvio q u e , mediante o texto
e n o t e x t o , s e i n s t a u r a c o m r e l a ç ã o às o r t o d o x i a s d o Ancien
Regime
- isto é, c o m
relação ao conjunto das crenças aceitas, das razões c o m u n s , dos discursos de
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1 -2, p. 105-122. jan/dez 1995 - pag. 119
C
A
E
legitimação q u e , no correr dos s é c u l o s , haviam sido c o n s i d e r a d o s os f u n d a m e n t o s
da o r d e m m o n á r q u i c a . Essa distinção que opero no sentido do t e r m o s e d i ç ã o é
i m p o r t a n t e . Na v e r d a d e , n á o p r e t e n d o a f i r m a r q u e a s i m p l e s l e i t u r a - i n d i v i d u a l
o u c o l e t i v a - d e u m a o b r a ilegal d e s e m b o c a r i a n u m a t o m a d a d e c o n s c i ê n c i a , n a
c r i s t a l i z a ç ã o d e u m a o p i n i ã o e, e n f i m , n u m l e v a n t e . E m c o n t r a p a r t i d a ,
sustento
que o livro ilegal - tratado de f i l o s o f i a , libelo político e c r ô n i c a e s c a n d a l o s a c o r r ó i a i d e o l o g i a m o n á r q u i c a e s e u s p i l a r e s - o r e i , a Igreja e o s b o n s c o s t u m e s
- pelo uso sistemático, desenfreado
e desmesurado
das seguintes
armas:
zombaria, escárnio, razão crítica e histórica, pornografia, irreligiáo e materialismo
h e d o n i s t a . " p. 1 1 . Cf. a i n d a p a r a m a i o r e s d e t a l h e s a c e r c a d a e s t r u t u r a e c o n t e ú d o
d a s b i b l i o t e c a s : C H A R T I E R , R o g e r . A ordem
dos
livros
- leitores, autores
e
b i b l i o t e c a s n a E u r o p a e n t r e o s s é c u l o s XIV e XV111. B r a s í l i a : E d i t o r a U n B , 1 9 9 4 .
3 0 . Cf. a e s s e r e s p e i t o , o b j e t i v a n d o e s t u d o s m a i s a p r o f u n d a d o s a c e r c a d a e s t r u t u r a
dos cursos e dos diplomas obtidos pelos letrados luso-brasileiros:
ARQUIVO
N A C I O N A L . C o l e ç ã o N e g ó c i o s de P o r t u g a l , c a i x a 6 5 2 , U n i v e r s i d a d e d e C o i m b r a 1790-1820.
3 1 . A N A I S d a B i b l i o t e c a N a c i o n a l , o p . c i t . , p. 4 4 9 .
3 2 . O Patriota, Rio de Janeiro, out. 1813, n.4, apud DIAS, M. O. L. da S., op. cit., p. 115.
3 3 . S o b r e o f u n c i o n a m e n t o d a s s o c i e d a d e s ' s a v a n t e s ' f r a n c e s a s cf. R O C H E ,
Les
républicains
province:
des
lettres.
Paris: F a y a r d ,
1 9 8 8 e Le siècle
a c a d é m i e s et a c a d é m i c i e n s p r o v i n c i a u x ,
Daniel.
des Lumiêres
1 6 8 0 - 1 7 8 9 . Paris:
en
Mouton,
1978, 2 vol.
3 4 . A N A I S d a B i b l i o t e c a N a c i o n a l , o p . c i t . , p. 5 2 0 .
3 5 . I d e m , i b i d e m , p. 3 9 5 .
3 6 . I d e m , i b i d e m , p. 3 9 5 .
3 7 . No q u e se refere a o i n t e r e s s e d a s a u t o r i d a d e s m e t r o p o l i t a n a s p e l a u t i l i d a d e d o s
d o m í n i o s u l t r a m a r i n o s , p a r t i c u l a r m e n t e de m e m b r o s d o s u b g r u p o naturalistailustrado d a A c a d e m i a Real das C i ê n c i a s de L i s b o a , d e v e m o s nos reportar
às
n a r r a t i v a s t e s t e m u n h a i s c o n t i d a s nas m e m ó r i a s e c o n ô m i c a s d a A c a d e m i a o u e m
registros d o c u m e n t a i s c o m o n u m a c o r r e s p o n d ê n c i a de d. Rodrigo de
Souza
C o u t i n h o ao entào vice-rei c o n d e de R e s e n d e , a c e r c a de um antigo m e m b r o d a
S o c i e d a d e Literária do Rio de Janeiro e das atividades especulativas e m geral:
"Desejando Sua Majestade aumentar os c o n h e c i m e n t o s sobre as riquezas,
encerram algumas das suas capitanias do Brasil, pela imediata utilidade,
deles deve necessariamente resultar para a Sua Real C o r o a , e para os
que
que
Seus
vassalos em geral: Tem determinado, que J o ã o Manso Pereira passe a visitar a
c a p i t a n i a d e S ã o P a u l o , e d e p o i s a d e M i n a s Q e r a i s , e q u e V. E x a , a l é m
pag. 120. jan/dez 1995
dos
R
V
O
q u a t r o c e n t o s m i l r é i s d e p e n s ã o o r d e n a d o s p e l o a v i s o d e 1 1 d e s t e m ê s , e q u e V.
Exa. lhe fará pagar pelo s u b s í d i o literário d e s s a c a p i t a n i a , lhe dê a l g u m a ajuda
d e c u s t o p r o p o r c i o n a d a às d e s p e s a s q u e e x i g i r a v i a g e m , q u e p o r o r d e m d a m e s m a
p e n h o r a vai e m p r e e n d e r o r e f e r i d o J o ã o M a n s o P e r e i r a , a q u e m V. E x a . p e r m i t i r á
t a m b é m , q u e tire d a s f u n d i ç õ e s q u a i s q u e r o b j e t o s , d e q u e e l e p o s s a
carecer
p a r a o s s e u s e x a m e s m i n e r a l ó g i c o s , e p a r a e m t u d o V. E x a . l h e f a c i l i t a r o s m e i o s
d e fazer a s u a v i a g e m . P a l á c i o d e Q u e l u z - 18 d e m a r ç o de 1 7 9 7 " . A r q u i v o n a c i o n a l ,
códice 6 7 , volume 2 2 , fl. 68.
38. EPÍSTOLA
a J o s é B a s í l i o d a G a m a . In: S A L L E S , Fritz T e i x e i r a .
Silva Alvarenga
•
antologia e crítica. Brasília: Ed. de Brasília, 1973.
3 9 . A S A R T E S . In: S A L L E S , Pritz T e i x e i r a , o p . c i t .
4 0 . S o b r e e s t e a s p e c t o c o n s u l t a r : F A L C O n , F r a n c i s c o J . C. "As r e f o r m a s p o m b a l i n a s
e a c u l t u r a c o l o n i a l * . In: A M É R I C A 9 2 . R i o d e J a n e i r o : 1 9 9 2 , m i m e o ; J O B 1 M ,
L e o p o l d o J . C.
O reformismo
pombalino
e a continuidade
mariana
no
Brasil:
Luís dos Santos Vilhena, m a r c o do pensamento político brasileiro. L i s b o a : Editorial
E s t a m p a , 1 9 8 4 ; M A X W E L L , K e n n e t h . "The g e n e r a t i o n of t h e 1 7 9 0 ' s a n d t h e i d e a
o f l u s o - b r a z i l i a n e m p i r e " . In: A L D E n , D. (org). Colonial
roots
of modem
L o n d o n : U n i v e r s i t y P r e s s , 1 9 7 3 ; n o V A I S , F e r n a n d o A. "O r e f o r m i s m o
l u s o - b r a s i l e i r o : a l g u n s a s p e c t o s " . In: Revista
Brasileira
de História.
Brazil.
ilustrado
S ã o P a u l o : v.
2 , n. 7 , p p . 1 0 5 - 1 1 8 , mar. 1 9 8 4 ; S A n T O S , A f o n s o C a r l o s M a r q u e s d o s , o p . c i t . e
W E H L i n G , A r n o . "O f o m e n t i s m o p o r t u g u ê s n o f i n a l d o s é c u l o XV1I1:
m e c a n i s m o s , e x e m p l i f i c a ç õ e s " . In: R.I.H.G.B.,
4 1 . Cf. a e s s e r e s p e i t o : E H R A R D , J e a n .
lumières.
natureza.
L' idée
v. 3 1 6 , 1 9 7 8 , p p .
de nature
Paris: F l a m m a r i o n , 1970 e L E n O B L E ,
en France
Robert.
doutrinas,
170-278.
a I' aube
des
da idéia
de
História
Lisboa: Edições 70, 1990.
42. Sobre a valorização da natureza e a formação do sentimento de nacionalidade
b r a s i l e i r a n a p r i m e i r a m e t a d e d o s é c u l o X I X , cf. KURY, L o r e l a i . " E n t r e n a t u r e et
c i v i l i s a t i o n : l e s m é d e c i n s b r é s i l i e n s et 1'identité n a t i o n a l e ( 1 8 3 0 - 1 8 5 0 ) " . In:
Cahiers
du Centre
de Recherches
Historiques.
n. 1 2 , a v r i l 1 9 9 4 , p p .
159-172.
4 3 . S o b r e as c o n c e p ç õ e s e s t é t i c a s d e S i l v a A l v a r e n g a c o n s u l t a r : C Â n D I D O , A n t ô n i o .
Formação
da literatura
brasileira
- momentos decisivos. São Paulo: Martins, 2
vols., 1959.
4 4 . C f . , p o r e x e m p l o , ALVAREnGA, M a n u e l I n á c i o d a S i l v a . Glaura.
Poemas eróticos.
Lisboa: Oficina Munesiana, 1 7 9 9 . n a página que segue a folha de rosto
e d i ç ã o . S i l v a A l v a r e n g a p r e c i s a o t í t u l o d e s u a o b r a : Glaura:
desta
poemas eróticos de
um americano.
4 5 . A n A I S d a B i b l i o t e c a n a c i o n a l , o p . c i t . , p. 4 4 0 .
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 105-122, Jan/dez 1995 - pag. 121
A
B
S
T
R
A
C
T
T h i s a r t i c l e s t u d i e s t h e i n s e r t i o n of the L i t e r a r y S o c i e t y o f R i o d e J a n e i r o ' s a c t i v i t i e s
in the u n i v e r s e of L u s o - B r a z i l i a n e d u c a t i o n . It h i g h l i g h t s the r o l e p l a y e d by the s c i e n c e s
of n at u re i n d e v e l o p i n g a f e e l i n g of B r a z i l i a n s p e c i f i c i t y , w h i c h w i l l b e o n e of t h e
e l e m e n t s o f t h e n a t i o n a l i d e n t i t y f a s h i o n e d by t h e f u t u r e g e n e r a t i o n .
R
É
S
U
M
É
L a r t i c l e a n a l y s e les a c t i v i t é s d e la S o c i e d a d e L i t e r á r i a d o R i o d e J a n e i r o et l e s i n t e g r e
dans l'ensemble des Lumières luso-brésiliennes. On a mis en é v i d e n c e le role j o u é
par l e s s c i e n c e s d e l a n a t u r e d a n s la c o n s t r u c t i o n d u s e n t i m e n t d ' u n e s p é c i f i c i t é
b r é s i l i e n n e , é l é m e n t q u i f e r a p a r t i e d e 1'idée d ' i d e n t i t é n a t i o n a l e , t e l l e q u ' e l l e a é t é
mise en place par les g é n é r a t i o n s ultérieures.
pag 122. jan/dez 1995
Lúcia Maria Bastos P. Neves
Professora de História Moderna e C o n t e m p o r â n e a da UERJ. Doutora e m História pela USP.
L e i é u r a e lei£(
Brasil,
l e i t o r e s no .ioras'^
o e s t o c o f r a s t r a í l o (de u m a
esfera p ú M i c a cie p o d e r
N
a visão
XVIII,
do s é c u l o
os
que, paulatinamente, se tornava
escritos
o r n a m e n t a ivv a m
uma
opinião
objetividade
a
e
norteavam
progresso das Luzes.
esclare-
cuja
provinha da razão
verdade, pois "os bons livros" j â
a Europa,
cuja
pública,
força
resultava
do
1
Mo B r a s i l , foi a o l o n g o d o s a n o s
c e n d o "o g o v e r n o s o b r e o s s e u s
deveres, sobre sua falta, sobre o seu
de 1 8 2 1 - 1 8 2 2 que a idéia de
opinião
verdadeiro interesse, sobre a opinião
pública iniciou seu balbuciar,
cabendo
pública que devem escutar e
aos
Instrumentos
de
seguir".
transmissão
c o n h e c i m e n t o s e de e x p e r i ê n c i a s
homens
de
letras
o
papel
de
produzi-la.
O clima de intensa
para
vescência
política,
nesta
efer-
época,
círculos restritos, os textos, no final do
propiciou
Antigo Regime, transformavam-se
em
folhetos, que possibilitaram uma tênue
de
a m p l i a ç ã o da esfera de p o d e r para além
meios
de
mobilização,
capazes
o surgimento
de
de j o r n a i s
atingir u m p ú b l i c o m a i s a m p l o . A f i n a l ,
dos círculos restritos da Corte.
os ' m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o
novo
universal',
s o b r e t u d o o s j o r n a i s e as f o l h a s a v u l s a s ,
segundo
Keith
Baker,
foram
r e s p o n s á v e i s p e l o e s b o ç o d a voz
os
geral.
momento,
tornava-se
em que
a
e
Esse
política
p ú b l i c a , foi d e t o n a d o
pelo
movimento constitucional, iniciado em
Portugal e m 1 8 2 0 , e que repercutiu
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n« 1-2. p. 123-138. Jan/dez 1995
no
pagl23
A
C
Brasil no a n o seguinte.
A
Regeneração
E
produção
é
o
levantamento
das
propunha p ô r fim ao Antigo Regime, ao
publicações na Tipografia nacional, no
convocar, à revelia d o soberano. Cortes
Rio d e Janeiro, ao longo d o s anos d e
Extraordinárias para elaborarem u m a
1821
constituição,
no
espírito
liberalismo mitigado,
de
e 1822. E n c o n t r a r a m - s e ,
para o
um
p e r í o d o , 516 t í t u l o s , n à o l e v a n d o e m
resultado das
consideração as leis, cartas e alvarás,
p r á t i c a s c u l t u r a i s i l u s t r a d a s . Ma r e a l i -
n ú m e r o bastante expressivo,
d a d e , o p r o j e t o revolucionário,
que entre
ao invés
de hostilizar a religião, apoiava-se na
Imprensa
u m a vez
1808, a n o d a c r i a ç ã o d a
Regia,
e
1820,
a Tipografia
Igreja c a t ó l i c a , a fim d e garantir o c a r á t e r
nacional
apenas
569
moderado que o movimento
pretendia,
trabalhos. Devem acrescentar-se
ainda
evitando-se
tumultos,
115 t í t u l o s , , p u b l i c a d o s p o r t i p o g r a f i a s
filhos da anarquia", típicos de u m a
particulares, também no Rio de Janeiro,
"os perigosos
publicou
revolução, como convinha a uma con-
a p a r t i r d e 1821, t o t a l i z a n d o 651 o b r a s .
juntura dominada pela ação restaura-
A classificação
dora e conservadora d a Santa Aliança.
2
trabalhos, c o m base no critério adotado
T r a ç a n d o u m c a m i n h o entre a história
pelo catálogo da biblioteca do conde d a
e a política, as publicações, vindas de
Barca
Lisboa o u impressas no Rio de Janeiro
resultado:
(1818),
do conjunto
apresenta o
desses
seguinte
e Salvador, permitiram a circulação de
Obru Impressas D O n o de Janeiro. 1821 1822
idéias e i n f o r m a ç õ e s e m quase todos os
setores
sociais. Os
acontecimentos
diários
transferiram-se
do domínio
privado ao p ú b l i c o e adquiriram o status
d e novidades.
O s artigos d o s p e r i ó d i c o s
I
Catajorta.
9uantid.de. Percntagem
Jurisprudência
Ciências e Artes
na esfera
195
30.9
História
161
25.51
6
0.95
Teologia
Documentos Oficiais
Total
pública d o s cafés, das academias e das
livrarias, no sentido que se depreende
dó
trabalho
de
J.
tlabermas.
que
neles
criavam as condições
se
para
manifestassem
principais posturas da época
as
compro-
metidas c o m o ideário liberal.
Quais eram, contudo,
as obras publi-
cadas nessa época que despertavam o
debate político e ideológico? U m a das
vias p o s s í v e i s
pag, 124, jan/dez 1995
para a análise
j
36
5.8
210
33.29
«si]
-
" "lOOJ
F o n t e : A . d o Vale C a b r a l . Anais da Imprensa
3
Ingressavam nesses espaços de sociabilidade e
1.37
2.37
Belas Letras
Periódicos
passavam a ser discutidos
8
15
dessa
Nacional do Rio de Janeiro de 1808 a 1822. R i o
de Janeiro: Tip N a c i o n a l , 1 8 8 1 ; A . do Vale C a b r a l .
Suplemento aos Anais d a Imprensa Nacional:
1 8 0 8 - 1 8 2 3 . Anais da Biblioteca Nacional. R i o de
Janeiro, 73:109-115, 1954; Biblioteca NacionalDivisão de Obras R a r a s . C a t á l o g o das tipografias
nacionais; A n a Maria de A. Camargo & Rubens
B o r b a de Morais. Bibliografia da Impressão
Regia
do Rio de Janeiro. S ã o P a u l o : E D U S P / K o s m o s ,
1993.
V
o
À primeira vista, o pequeno número de
a forma de d e s p o t i s m o ,
obras
pela situação de c o l ô n i a a q u e Portugal
de
cunho
religioso
pode
responsável
surpreender, m a s essa fragilidade pode
se
ser e x p l i c a d a
contrapartida, buscava no liberalismo
porque
a
parenética
vira
reduzido
após
1808. Em
incluía-se na categoria de Belas Letras.
incipiente
Além disso, esse número exíguo era
instituições capazes de assegurar u m a
compensado por u m a boa quantidade
maior
de l i v r o s d e r e l i g i ã o v i n d o s d e P o r t u g a l ,
públicos, embora s e m abalar a ordem.
por m e i o d e l i v r e i r o s , q u e d e s d e 1 7 9 9
Dai, regeneração, a o invés de revolução.
pediam licença à Mesa Censória
Tanto pelas publicações, quanto
expedirem-nos
para o Brasil.
títulos p u b l i c a d o s forem
para
Se os
4
considerados
os
argumentos
participação
nos
anúncios em jornais,
eram pouquíssimas
e
as
negócios
pelos
observa-se que
as menções
às
cronologicamente, no entanto, verifica-
obras de cunho teórico, que fizeram a
se
fama da ilustração
que mais
da metade
do
total
francesa.
Seria
daí que a
elite
(52.58%) saiu à luz no biênio 1821-
possível
1822. Dentre esses, a categoria História
intelectual
perfaz
autores famosos, há muito proibidos e m
25.5%,
número
e m função do grande
de folhetos
políticos
que
concluir
do Brasil não lia esses
Portugal e seus d o m í n i o s ?
Certamente
surgiram no período. Da m e s m a forma,
que n ã o , pois o rigor d a c e n s u r a n à o
o crescente número de periódicos indica
impediu,
que hábitos de leitura de j o r n a l estavam
A t l â n t i c o , o a c e s s o sous le
sendo
adquiridos.
e m a m b a s as margens
Mo B r a s i l ,
Foram, portanto, os folhetos,
panfletos
estudos
do
manteau.
5
são bem conhecidos
os
que indicam a presença de
e p e r i ó d i c o s , p u b l i c a d o s entre 1821 e
algumas dessas obras nas bibliotecas
1823,
mais
mineiras, baianas e cariocas d o final do
c o n t r i b u í r a m p a r a as l e i t u r a s d a e l i t e ,
s é c u l o XVIII. T a m b é m , u m f o l h e t o d e
que,
sem
dúvida,
mais intelectual do que social, que
1822
participou
filosóficos dos Mablys, dos Rainaes, dos
do
Independência.
característica
movimento
Por outro
da
lado,
fundamental
a
dessa
afirmava
Rousseaus,
que
"os
escritos
dos Voltaires,
Pradts", introduzidos
"pelas
d o s De
brechas
literatura era a homogeneidade dos
feitas
princípios e dos mecanismos mentais
circulavam pelas mãos d o s brasileiros.
que
Muitas vezes, a simples interdição pela
a informavam,
pois,
em sua
nas
barreiras
essência, difundiam uma mesma cultura
censura despertava
política, plasmada na tradição de u m a
público
leitor,
coloniais",
6
a curiosidade do
que as obtinha
por
Cultura
intermédio de c o n h e c i d o s
Antigo
exterior ou através d o contrabando. Era
Regime à esfera privada d o poder, s o b
a i n d a c o m u m o p e d i d o , p o r parte d o s
ilustração mitigada portuguesa.
política
que identificava
o
vindos do
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 123-138. jan/dez 1995-pag. 125
C
A
E
l i v r e i r o s f r a n c e s e s n o Rio d e J a n e i r o , d e
l i c e n ç a ao D e s e m b a r g o d o P a ç o , d e s d e
1808,
para
importar
obras
de
Montesquieu, Rousseau, Beauchamps e
outros, embora sempre negada
pelos
censores régios, c o m o J o s é da Silva
Lisboa
e Mariano
José
Pereira
da
Ponseca, que mostravam, por sua vez,
em
seus
pareceres,
estarem
p e r f e i t a m e n t e a par d o c o n t e ú d o d e t a i s
trabalhos.
7
Após a proclamação da liberdade
i m p r e n s a (28 de agosto de
referência aos autores
da
de
1821), a
ilustração
européia tornou-se uma constante
p e r i ó d i c o s . De u m l a d o , n o s
redigidos
por
nos
escritos
indivíduos
mais
moderados, citavam-se aqueles
cujas
idéias
mundo
haviam
civilizado,
iluminado
como
Montesquieu,
o
Edmund
Jeremias
Benjamim Constant.
8
Burke,
Bentham
De o u t r o ,
e
nas
c o m e ç a v a a conviver e m seu cotidiano c o m
novos valores políticos, relacionados à
c o n s t r u ç ã o de um Estado l i b e r a l .
9
Em geral, a característica básica
dos
folhetos políticos era o caráter p o l ê m i c o
e d i d á t i c o , sob a f o r m a de c o m e n t á r i o s
f o l h a s m a i s r a d i c a i s , c u j o s r e d a t o r e s se
de fatos recentes
deixavam
s o b r e as g r a n d e s q u e s t õ e s d a é p o c a .
levar
por seu
revolucionário,
sobretudo
imaginário
assimilavam-se
as i d é i a s d o s
philosophes
franceses, como Voltaire,
Mably, Condorcet,
R a y n a l e De P r a d t .
Neste último grupo,
periódico
trazia
Rousseau,
pelo menos
uma
um
epígrafe
de
ou de
discussões
Muitas vezes, e n c a d e a v a m - s e uns
outros,
ou
a algum
outro
publicação, c o m o os jornais,
tuindo
uma
polêmicas'.
1 0
verdadeira
aos
tipo
de
consti-
'rede
de
Em sua maioria, apresen-
t a v a m as i d é i a s de f o r m a
Rousseau; e outro defendia uma postura
organizada,
democrática, baseada principalmente na
posicionamento
idéia da s o b e r a n i a popular. Se esses
procurando
nomes
ensinamentos que p u d e s s e m influenciar
proibidos
anteriormente
circularam
entre os segmentos
elite intelectual, a grande n o v i d a d e ,
partir d e s s e m o m e n t o , era levar
da
a
esse
ideário a um público mais amplo, que
pag 126. jan/dez 1995
explicando
bastante
sobre
fornecer
o autor
seu
o assunto
e
opiniões
e
o p ú b l i c o leitor.
J á que, em 1 8 2 1 , a censura ainda estava
atuante,
as
obras
apareciam
i n i c i a l m e n t e a n ô n i m a s . S o m e n t e a partir
de
O
V
R
1 8 2 2 , muitos
desses
apresentar
folhetos
ao Congresso
nacional,
recitando e m voz alta e clara
várias
iniciais de seus autores, o q u e se pode
orações,
nosso
atribuir à lei que proibia a publicação
Constitucional:
começaram a ser identificados
de
obras
anônimas
pela
pelas
imprensa
n ú m e r o de folhetos p u b l i c a d o s
tipografias
nome,
pelas
venha
da
divulgação da cultura política,
essas
a n ó s o teu regime
constitucional, seja feita sempre a tua
vontade,
fundamentais
Padre
nossos corações, santificado seja o teu
o
particulares."
Instrumentos
o
Constituição portuguesa, q u e estás e m
o f i c i a l . De i g u a l m o d o , n e s s a m e s m a
época, aumentou consideravelmente
como
um
melhoramento
de
agricultura, navegação e comércio nos
dá h o j e e c a d a dia,- p e r d o a - n o s
publicações assumiram várias formas.
defeitos
Algumas procuravam
certos
como
sendo
d e v e d o r e s , q u e n à o n o s p o d e m pagar,
folhetos
nào nos deixes cair e m tentação d o s
explicar
pontos do vocabulário político,
então
chamados
de
constitucionais.
Era
Constituição
explicada
político
o
caso
e do
entre
ministerial,
Outras
o corcunda
constitucional
exaltado
constitucional,
abatido
ou o
conversa
e o
Alfaiate
entre um
alfaiate e seus fregueses, seguindo
modelo
clássico
Addison e Steele.
do
Spectator,
o
de
1 2
aos nossos
males, assim como do
Amém.
assumiam a forma de diálogos, como o
Diálogo
nós perdoamos
assim
velhos abusos, mas livra-nos
da
Catecismo
constitucional.
e crimes passados,
os
destes
despotismo
ou anarquia
popular.
1 3
Cronologicamente, enquanto canal para
a divulgação das idéias políticas do
liberalismo, o biênio
1 8 2 1 - 1 8 2 2 foi a
época áurea do periodismo,
podendo
avaliar-se e m cerca de trinta e seis o
número de jornais que saíram então à
Freqüentes foram as cartas escritas aos
luz.
amigos
função meramente informativa, como o
e compadres,
ao lado
de
algumas farsas e m verso. A p r e o c u p a ç ã o
de
levar os ensinamentos
sobre
a
C o n s t i t u i ç ã o e as c r í t i c a s a o d e s p o t i s m o
a um público
conduziu
mais amplo
ao antigo
também
costume
de se
parodiar f o r m a s religiosas, rio folheto
A regeneração
e
disputa
constitucionais,
absolutistas)
constitucional
entre
os
ou
corcundas
os corcundas
arrependidos
guerra
e
(os
deviam se
Diário
Embora
houvesse
do Rio de Janeiro
alguns c o m
e o
Volantim,
muitos transcreviam artigos de j o r n a i s
publicados
adquirindo,
em
outras
regiões,
assim, um certo
caráter
político. C o m e ç a n d o c o m o semanários,
mas transformando-se
algumas
vezes
em diários, visavam a u m a informação
de a ç ã o m a i s d i r e t a s o b r e o s a c o n t e cimentos e refletiam u m discurso muito
mais
ideológico
e político
do que
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n" 1 -2. p. 123-138. jan/dez 1995 - pag 127
C
A
ücí' o£às
E
^t^dtt s^L+t.
Arquivo Nacional, c ó d i c e 327, f.90, 20 out. 1820.
cultural, como por exemplo,
do Rio de Janeiro,
O
Correio
t certo que muitos
real. C o m propostas de u m periodismo
de cunho
mais político,
O
Espelho,
deles tiveram duração efêmera, como O
p u b l i c a d o a partir d e 1 " d e o u t u b r o d e
Be/n c/a Ordem,
1 8 2 1, t i n h a c o m o o b j e t i v o
O Amigo
Rei e o Despertador
Constituindo
da fiação
e do
Brasiliense.
Rio
de Janeiro,
minuciosas informações a respeito das
u m a espécie de jornal
o f i c i a l , h a v i a , n a t u r a l m e n t e , a Qazeta
o primeiro
fornecer
do
periódico
sessões das Cortes e relatar notícias das
gazetas
portuguesas
e baianas. Em
verdade, dava a versão oficial dos acon-
e s t a m p a d o n o B r a s i l , a partir d e 1 8 0 8 .
tecimentos, sem emitir j u í z o próprio.
Limitava-se a repetir
Ainda na linha política, destacaram-se
atos oficiais, a
copiar trechos das folhas
quando fosse conveniente
européias
ao governo
e a fazer i n u m e r á v e i s e l o g i o s à f a m í l i a
pag 128. jan/dez 1995
o Revérbero
Constitucional
A Malagueta
Janeiro.
e o
O
Correio
primeiro,
Fluminense,
do Rio
de
de
grande
V
o
repercussão na Corte, era escrito pelos
conheceram algumas folhas de cunho
brasileiros Joaquim Gonçalves Ledo e
informativo e político. *
Januário
Esses
da Cunha
Barbosa
e, n o
1
periódicos,
por sua vez, não
interior d o liberalismo, apresentava u m a
deixaram de constituir o reflexo de u m a
t e n d ê n c i a m a i s r a d i c a l , l i g a d a às l o j a s
inédita preocupação coletiva e m relação
maçônicas. O segundo,
ao p o l í t i c o , c o m s e u s artigos
português
Luís
composto
de autoria do
Augusto
por um único
sendo
May, era
discutidos,
artigo
do
inumeráveis cartas de particulares que
como
indicam
as
redator, u m liberal m o d e r a d o e u m d o s
os redatores divulgavam s e m a n a l m e n t e ,
grandes polemistas d a Independência.
na esfera p ú b l i c a d o s cafés, livrarias e
O terceiro era redigido pelo
português
sociedades secretas, c o m o a Maçonaria.
adotara
Curiosamente, porém, n e m u m a dessas
posturas mais radicais e democráticas.
publicações defendia o absolutismo.
F i e l às p r e o c u p a ç õ e s p o l í t i c a s , e m b o r a
Todas moviam-se no interior
com inovações nos temas, como o seu
m e s m o sistema de referências, que era
próprio
título
o do liberalismo mitigado.
inícios
de
João
Soares
Lisboa,
que
indicava, surgiu, em
1822,
Constitucional,
O
Político
Brasiliense.
Outros
Compilador
e
Brasílico-Luso,
publicados
ainda
revelavam u m ideário político traduzido
Regulador
de algumas idéias ilustradas d o século
que defendeu a união
com Portugal, sendo
Se o s folhetos, panfletos e p e r i ó d i c o s
Literário
jornais
poderiam ser citados, como O
de u m
considerado
a
entre
1821 e
XVIII, toda e s s a p r o d u ç ã o
1822
cultural,
elaborada pela elite intelectual
luso-
primeira folha oficiosa, no sentido de
brasileira, não podia deixar de destinar-
servir ao governo às custas d o s cofres
se a u m p ú b l i c o leitor q u e d e v i a s e r
p ú b l i c o s . De m e n o r d u r a ç ã o ,
capaz não só de ler essas publicações,
c o m grande
políticas,
Papagaio,
interesse pelas
foram
os
embora
questões
periódicos
m o d e r a d o , a l é m d o Constitucional,
Brasil
O
portador de u m liberalismo
e d o Macaco
do
Brasileiro.
era relevante
nas
também
significado.
de extrair
Como
delas
um
argumenta
R.
Darnton, "a leitura não é simplesmente
uma habilidade, e s i m u m a maneira de
fazer sentido q u e deve variar d e cultura
Além do Rio de Janeiro, o periodismo
também
mas
outras
províncias. Os jornais de maior
peso
para c u l t u r a " .
1 5
Quem
eram,
então,
esses leitores?
E m p r i m e i r o lugar, o p o t e n c i a l d e l e i t u r a
foram os d a Bahia q u e , e m s u a maioria,
está, evidentemente,
defenderam a união c o m as Cortes de
número
Lisboa,
sempre uma
precariedade dos dados, pode-se, no
postura constitucionalista. T a m b é m o
entanto, avaliar a p o p u l a ç ã o livre d o
Maranhão,
Brasil, e m 1 8 2 3 , e m torno de 2 milhões
mas adotando
o
Pará
e
Pernambuco
relacionado ao
de habitantes.
Apesar
da
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n" 1 -2. p. 123-138, jan/dez 1995 - pag. 129
A
C
E
e 8 1 0 m i l homens livres, d o s quais, e m
de
1821, cerca
masculina adulta e livre do Rio de
de 4 3 m i l residiam na
cidade do Rio de Janeiro.
A simples
dimensão
demográfica,
público c o m que as discussões de 1 8 2 1 1823 contaram. É necessário
verificar
também o grau de alfabetização da
população e a distribuição social desta
aptidão, u m a vez que a leitura de u m a
obra exige s u a disponibilidade
física,
por c o m p r a o u e m p r é s t i m o , e i m p l i c a a
decifraçáo de signos, que só o convívio
de u m a tradição
cultural possibilita.
educação
estava
população
habitantes livres, ele deduziu u m pouco
mais de u m terço referente aos menores
de
idade
e, e m s e g u i d a ,
resultado
pela
longe
de
dividiu
metade,
a
o
fim de
distinguir os sexos. Chegou, assim, a
14.380 homens adultos e livres, e m
relação aos quais os oito m i l assinantes
do Manifesto
constituem quase 5 6 % .
Esta taxa de alfabetização, apesar d a s
deficiências
notórias do método de
contagem de assinaturas, eqüivale à
verificada em cidades
s é c u l o XVIII, c o m o
Mo B r a s i l , e m p r i n c í p i o d o s o i t o c e n t o s ,
a
da
Janeiro. Partindo de u m total de 4 3 . 1 3 9
1 6
p o r é m , não é suficiente para avaliar o
com os conceitos
alfabetização
francesas do
Aix-en-Provence,
Lyon e Caen, onde variou entre 4 6 e
86%.
1 7
Evidentemente, a situação não
desempenhar o papel que iria adquirir
era a m e s m a no restante d o território,
mais tarde, ao menos na Europa, c o m o
nem mesmo nas demais cidades, c o m
um elemento
a possível exceção de Salvador e, talvez,
de controle
social e m
r e l a ç ã o à s c a m a d a s m a i s b a i x a s . Ma
do Recife e de São Luís.
r e a l i d a d e , s e r v i a d e a t r i b u t o às e l i t e s ,
Por o u t r o l a d o , n ã o s e p o d e a f a s t a r a
c o m o u m o r n a m e n t o precioso que as
hipótese de que a c o m u n i c a ç ã o
distinguia
substituísse a leitura propriamente dita.
da massa,
enquanto
os
mecanismos tradicionais de controle,
U m Rapport
como demonstra a própria escravidão,
publique
mostravam-se suficientes para conservar
da Corte,
o status
francês Cailhé de Qeine,
quo.
Para o início d o s é c u l o XIX, n ã o há
dados
oficiais sobre
pessoas
o número
alfabetizadas
no
Entretanto, por meios indiretos,
resultados
podem
de
Brasil.
alguns
ser alcançados.
R o d e r i c k J . B a r m a n s a l i e n t o u q u e as
oito m i l assinaturas q u e s u b s c r e v e r a m
o Manifesto
do Fico.
e m fins de 1 8 2 1 ,
revelam u m percentual bastante elevado
pag. 130. jan/dez 1995
sur la situation
de
oral
1'opinion
ao intendente-geral de Polícia
elaborado
pelo
emigrado
em 1820,
alertava para a gravidade d a situação,
uma vez que muitas obras eram lidas
"diante de um auditório j á predisposto"
a "passagens mais infestadas do espírito
revolucionário das obras francesas mais
perniciosas",
traduzidas
"para
português,
para
ignorantes".
Esta propaganda
a edificação
o
dos
n ã o se
limitava a "reuniões secretas", m a s se
O
V
R
negociantes,
v e n d i a m , entre
artigos
variados, as p u b l i c a ç õ e s d o d i a . Para
fins de c o m p a r a ç ã o , d e a c o r d o c o m o s
dados de Laurence flallewell, e m 1 8 2 6
existiam e m Buenos Aires apenas cinco
livrarias.
19
Para o p ú b l i c o , e l a s t a m b é m
funcionavam como um novo espaço da
esfera pública, servindo c o m o ponto de
encontro
e de conversas
da elite
intelectual. Segundo visão de época, e m
fins de 1 8 2 2 , a livraria
de Manuel
J o a q u i m d a Silva Porto e r a "o ponto de
união dos mais exaltados
demagogos",
pois ali ajustavam e combinavam o que
iam escrever,
discutindo seus planos,
a "sós ou c o m a maior
publicidade",
manifestava "no salão d o u r a d o , n a humilde
tramando-se
loja e m e s m o na praça pública." nesse caso,
república e contra o futuro d o Império
o público real atingido por essas idéias seria
brasileiro.
b e m mais a m p l o d o q u e se poderia supor
Sob o ângulo da disponibilidade, esses
à primeira v i s t a .
escritos de circunstância n ã o eram, de
18
Outro meio indireto bastante
sugestivo
os golpes
a favor da
2 0
certo, inacessíveis, quanto ao preço, a
para t e n t a r c a p t a r e s s e p ú b l i c o l e i t o r é
um público mais vasto. Os periódicos
o de proceder
custavam, por n ú m e r o , e m 1 8 2 1 , entre
a uma avaliação das
atividades relacionadas ao comércio de
80 e 120 réis.
Os folhetos, segundo os
livros, sobre o qual as i n f o r m a ç õ e s s ã o
catálogos
menos escassas. Um exame acurado da
vendiam-se por u m valor entre 8 0 e 3 2 0
documentação revela q u e , no Rio de
réis. Chegava-se a afirmar q u e o povo,
do livreiro
Paulo
Martim,
Janeiro, e m especial após a instalação
p o r n à o ter c o n d i ç ã o p a r a ir a o t e a t r o ,
da Corte na c i d a d e , esse c o m é r c i o e r a
d i v e r t i a - s e c o m o s " b u f õ e s (os p e r i o d i -
bem mais intenso do q u e se c o s t u m a
queiros) por p o u c o d i n h e i r o " .
i m a g i n a r . Para o s a n o s d e 1 8 2 1 - 1 8 2 2 ,
época, u m a empada de recheio de ave
a t r a v é s d o s a n ú n c i o s n a Gazeta
e no
custava 100 réis; u m arrátel d e lingüiça,
foi possível
2 8 0 ; a aguardente de cana, 8 0 réis a garrafa;
Diário
do Rio de Janeiro,
21
na mesma
identificar nove livreiros especializados,
u m sabão inglês, 120 réis a l i b r a .
além d e o u t r a s três lojas ligadas às
A preocupação de informar as c a m a d a s
tipografias. Mais onze nomes devem ser
mais baixas d a p o p u l a ç ã o ficava restrita
igualmente acrescentados, pois,
pela própria organização
como
22
social do
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 12. p. 123-138. jan/dez 1995 - pag, 131
A
C
E
Brasil-Reino, e m que c e r c a de u m terço
a "opinião pública encontrava os seus
da
verdadeiros intérpretes", formulando-se
população
escravos,
eleições
era
constituída
rio e n t a n t o ,
as
de
primeiras
para as Cortes de
Lisboa
questões por "vozes estrondosas",
retumbavam "nas vidraças da l o j a " .
que
Ao
2 3
(1821), embora utilizassem um método
lado desses i n d i v í d u o s na fronteira da
indireto, não tinham estabelecido censo
desclassificação social, os
algum,
mais
podendo
ser
votante
todo
graduados,
militares
os
pequenos
c i d a d ã o c o m m a i s de 2 5 a n o s . Talvez
comerciantes e os funcionários públicos
por i s s o , u m a parte nada
faziam o papel de um público
desprezível
ideal. *
1
dessa literatura de circunstância tenha
fio e n t a n t o , n à o p o d e h a v e r d ú v i d a d e
a s s u m i d o a f o r m a de c a r t i l h a s e
que, para os autores dos folhetos, era
de
catecismos sobre os princípios constitu-
o
cionais, visando
conhecia a 'verdadeira
de c e r t a f o r m a
às
letrado,. sábio
e
prudente,
política'.
camadas mais baixas, em especial aos
demais
soldados, c o m o intuito de didatica-
'melquetrefes',
que
mente transformá-los e m cidadãos.
"discorrer
em
política",
Os
"despropósitos
e tolices,
indivíduos
pertencentes
a essas
nào
se
como
os
da roça
em
curandeiros
medicina", ou demonstrando
u m a vez q u e , n u m a s o c i e d a d e
ainda
tanto
pela
oralidade,
tomavam
conhecimento das novidades
ouvindo
arte
escrever
"para
e discussões sobre os
cidadãos
que
políticos
que
ocorriam
nos
lugares
p ú b l i c o s . Era a agitação, o falar
'de
conhecer
o
Se,
2 5
vigário
algumas
vezes, havia a p r e o c u p a ç ã o em t a m b é m
as l e i t u r a s e p a r t i c i p a n d o d a s c o n v e r s a s
acontecimentos
quanto
c o n h e c i a de t e o l o g i a .
a
dizendo
virtual.
e barbeiros
de
metiam
da elite, constituíam um p ú b l i c o
regida
Os
passavam
c a m a d a s , que se situavam nas fímbrias
dessa
que
aquela
não
classe
de
freqüentaram
estudos", c o m o afirmava o redator do
Bem
da
Ordem,
era necessário,
no
boca' do cotidiano, um certo imaginário
entanto, pedir desculpas 'aos literatos'
que se fazia circular,
por
traduzindo
a
utilizar
exemplos
simples
e
a p r e e n s ã o de idéias e de c o n c e p ç õ e s de
vulgares, mas que, para o povo, eram
mundo
n o v a s e n t r e o povo,
pois
as
fundamentais, pois "um exemplo
m e n s a g e n s j á não se restringiam
ao
a p l i c a d o , vale m a i s q u e o d i s c u r s o m a i s
círculo estreito da obra escrita. Segundo
concludente
o 'Mestre Periodiqueiro', personagem de
realidade,
um folheto, o
somente
botequim
era lugar de
e
enérgico".
para a visão
a elite
reunia
de
2 6
bem
Ma
época,
condições
grande 'falácia', e m que se discutiam
i n t e l e c t u a i s p a r a ter a c e s s o a o s f o l h e t o s
autores
Qrotius,
e, por c o n s e g u i n t e , à cultura p o l í t i c a ,
também
convertendo-se ela própria no principal
como
Montesquieu
Locke,
e outros,
mas
"casa de reuniões patrióticas", em que
pag, 132. Jan/dez 1995
p ú b l i c o d e si m e s m a .
R
V
O
Essa identificação do p ú b l i c o c o m a
interesses d o Brasil e de toda a família
elite p o d e s e r v e r i f i c a d a p o r u m m e i o
portuguesa". Enfim, e m quase todos os
indireto,
a
análise
subscrições.
Como
das listas
de
periódicos
exemplo
de
preocupação de dirigir ou de ser um
pode
ser encontrada
a
subscrição, isto é, o pagamento de u m a
porta-voz da opinião p ú b l i c a .
quantia
ao
Sem dúvida, seria um anacronismo
assinante a aquisição da obra, que
atribuir, nesse m o m e n t o histórico, à
assim se autofinanciava, pode-se
i d é i a d e opinião
inicial
para
garantir
citar
a obra editada por Paulo Marfim,
a c o n c e p ç ã o de
notícia
uma "pluralidade de i n d i v í d u o s q u e se
José
exprimem e m termos de aprovação ou
Foram 4 4 subscritores, d o s quais
sustentação a u m a ação, servindo de
histórica
tlaydn.
pública
2 7
da vida e das obras
28 p o d e m
de
ser identificados:
professores
de
música;
cinco
quatro
desembargadores; quatro proprietários;
quatro
funcionários
públicos;
três
sacerdotes; três militares; três c ô n s u l e s ;
um m é d i c o e u m negociante.
estudara na Universidade
Um deles
Imperial d a
França e quatro, e m C o i m b r a . A única
subscritora
era proprietária de um
terreno n o lugar d e n o m i n a d o
Caminho
Movo. F i c a p a t e n t e a p r e d o m i n â n c i a d e
membros da elite.
referencial
a um projeto
político
clefinido", c o m o poder de alterar os
rumos
dos acontecimentos.
disso,
em 1821-1822,
Apesar
ela não era
ignorada. C o m o informava o redator de
O Macaco
Brasileiro,
o príncipe d. Pedro
conhecia e buscava 'este termômetro'-,
percebendo que o idolatravam pelo calor e
energia c o m q u e s o u b e m e r e c e r o título de
Perpétuo Defensor d o B r a s i l .
Sobretudo,
conceder
28
a
essa
p r e o c u p a ç ã o de formar u m a opinião
Entretanto, p e r m e a n d o toda a discussão
pública um papel de destaque
sobre o novo ideário político, não se
ignorar a persistência de p r o c e d i m e n t o s
deixava de encontrar a preocupação de
tradicionais para conter as idéias q u e
f o r m a r u m a opinião
Assim
poderiam revolucionar a população. Em
acreditavam muitos dos autores de
1 8 2 0 , u m registro d a p o l í c i a c o m p r o v a
folhetos
que soldados espanhóis tinham
pública.
e jornais,
um dos
quais
seria
sido
afirmava "ser u m dever do cidadão, que
presos porque, n u m domingo,
(escrevia), dirigir a o p i n i ã o p ú b l i c a , e
das três horas d a tarde, p a s s a v a m pelas
levá-la, c o m o pela m ã o , ao verdadeiro
ruas d o R i o d e J a n e i r o " c a n t a n d o c o i s a
fim d a f e l i c i d a d e s o c i a l " .
que
Papagaio
porque
suspendeu
julgava
O jornal
O
parecia
ser
o
seus
trabalhos
constitucional".
2 9
que os
objetivos
o redator
Conciliador
do
seu
depois
hino
De m o d o s e m e l h a n t e ,
do
Reino
propostos tinham sido alcançados, u m a
Unido,
vez
L i s b o a , julgava s e u "dever dirigir b e m a
q u e se achava
"consolidada a
opinião pública sobre os verdadeiros
o censor régio José da Silva
opinião pública, a f i m de atalhar os
Acervo, Rio de Janeiro, v a, n 12. p, 123-138, jan/dez 1995 - pag. 133
desacertos
populares,
e as
eferves-
a dissolução do Império luso-brasileiro.
cências frenéticas", pois "os periódicos
rio p r o c e s s o , t r a n s f o r m a r a m s e u s e s c r i -
e papéis avulsos" eram também "lidos
tos,
sôfrega e inconsideradamente
política da é p o c a da I n d e p e n d ê n c i a , e m
pelas
principais
veículos
da
cultura
de
instrumentos educacionais da própria elite
1822, o imperador d. Pedro autorizou a
e asseguraram para si u m lugar na estrutura
abertura
de
uma devassa
as
de poder d o futuro I m p é r i o Brasil.
pessoas
que
conspiravam
o
De o u t r o l a d o , p o r é m , c o n t i d o
classes
ínfimas".
Em novembro
sobre
contra
talvez
governo e inflamavam a opinião pública.
pela estrutura social escravista, o poder
Por c o n s e g u i n t e , l o n g e d e v i a b i l i z a r
oficial
os
não
quis,
ou
não
pôde,
escritos c o m o m e i o s de i n f l u ê n c i a para
vislumbrar a mesma possibilidade
dirigir a opinião p ú b l i c a , pela predicação
também transformar a palavra
de s e u s p r ó p r i o s v a l o r e s , a p r i n c i p a l
e m a r m a de c o m b a t e , c a p a z de f o r m a r
preocupação do governo continuava sendo
u m a o p i n i ã o p ú b l i c a a seu favor.
a de cercear as idéias que circulavam e que
Estado em elaboração relegou,
podiam
o
ser
perigosas
aos
arquitetados por seus agentes.
Desta f o r m a , de u m l a d o , os
dessa literatura
fossem
folhetos,
planos
processo
camadas
30
autores
de
menos
de
escrita
O
assim,
subordinação
das
favorecidas
em
c a s o s l i m i t e s , até m e s m o d o s
(e,
setores
de c i r c u n s t â n c i a
-
m a i s r a d i c a i s d a elite) à s
fossem jornais
-
práticas repressivas características
persistentes
de
enquanto m e m b r o s da elite intelectual
uma esfera privada de poder. Ao fazê-
e política, náo deixaram
lo, limitou a ação
de ver
palavra e s c r i t a u m a fonte de
capaz
de
transtornos
produzir
constitucionalismo,
cultura
elites;
Ao
condenou
função
do
decorativa que a tradição bacharelística
pedagogia
s o u b e d e s e n v o l v e r ; e, p o r ú l t i m o , m a s
o ideário
criaram
sem
as
bases, após 1 8 2 2 , para o separatismo e
pag. 134. jan/dez 1995
daquela
política da Independência, ainda que de
um l i b e r a l i s m o m i t i g a d o , às
para a ordem social.
l i b e r a l i s m o , por m e i o de u m a
do
poder,
reformas,
revelarem e divulgarem
na
nem
por
os i n t e l e c t u a i s
isso
menos
à
importante,
inviabilizou a construção da nação.
i
V
n
1.
O
T
Para a primeira citação,
gouvernements.
da esfera
A
s
v e r M E R C I E R , L o u i s S e b a s t i e n . Hotions
claires
sur les
A m s t e r d a n , 1 7 8 7 , p. VII. A p u d H A B E R M A S , J . Mudança
pública.
estrutural
R i o d e J a n e i r o : T e m p o B r a s i l e i r o , 1 9 8 4 , p. 1 1 8 . C f . B A K E R ,
K e i t h M . " P o l i t i q u e et o p i n i o n
2.
o
Êconomies.
Sociétés.
O Pregoeiro
Lusitano:
p u b l i q u e s o u s 1'Ancien Regime". In:
Civilisations.
Annales.
P a r i s , 4 2 (1): 4 1 - 7 1, j a n . / f é v . 1 9 8 7 .
h i s t ó r i a c i r c u n s t a n c i a d a d a R e g e n e r a ç ã o P o r t u g u e s a , (v.
1). L i s b o a : T i p . J o ã o B a p t i s t a M o r a n d o , 1 8 2 0 , p. 3 5 3 .
3.
P a r a o c o n c e i t o d e e s f e r a p ú b l i c a d e p o d e r , v e r H A B E R M A S , J . , o p . c i t . , p. 4 2 .
4.
A R Q U I V O M A C I O N A L DA T O R R E D O T O M B O . R e a l M e s a C e n s ó r i a . E x a m e d o s l i v r o s
para saírem d o Reino para o Rio de J a n e i r o , 1 7 9 9 - 1 8 0 8 . Caixas
5.
A e x p r e s s ã o é d e R O C H E , D a n i e l . Les républicains
des Lettres:
153-154.
g e n s d e c u l t u r e et
L u m i è r e s a u X V I I I ' s i è c l e . P a r i s : F a y a r d , 1 9 8 8 , p. 2 8 .
6 . B U R M S , B r a d f o r d . "The E n l i g h t m e n t i n t w o c o l o n i a l b r a z i l i a n l i b r a r i e s " . In:
of the History
of Ideas.
na livraria
do cõnego.
Presença
francesa
Journal
New York, 2 4 : 4 3 0 - 3 8 , 1 9 6 4 ; FRIEIRO, Eduardo. O
diabo
B e l o H o r i z o n t e : Itatiaia, 1 9 5 7 ; M A T T O S O , R a t i a d e Q u e i r ó s . .
no movimento
democrático
de 1798. B a h i a : l t a p u ã , 1 9 6 9 ;
C A M P E L L O , I g n á c i o M. P i n t o . " R e l a ç ã o d o s l i v r o s a p r e e n d i d o s a o b a c h a r e l M a r i a n o
J o s é P e r e i r a d a F o n s e c a - s e q ü e s t r o f e i t o e m 1 7 9 4 " . In: Revista
Histórico
e Geográfico
ver O Brasil
Brasileiro.
indignado
suas atribuições
contra
do
Instituto
Rio de J a n e i r o . 6 3 : 1 5 - 1 8 , 1 9 0 1 . Para o folheto,
o projeto
por um filopatrico.
anticonstitucional
sobre
a privação
das
Rio de Janeiro: Tipografia nacional, 1 8 2 2 ,
p. 5 .
7.
P a r a a d i v u l g a ç ã o d e o b r a s e s t r a n g e i r a s n o B r a s i l , v e r n E V E S , L ú c i a M . B a s t o s P.
& F E R R E I R A , T â n i a M a r i a T. B e s s o n e d a C. "O m e d o d o s abomináveis
franceses:
princípios
a c e n s u r a d o s l i v r o s n o s i n í c i o s d o s é c u l o X I X n o B r a s i l " . In:
Rio de Janeiro, 4: 1 1 3 - 1 9 , jan./jun.
Acervo.
1 9 8 9 e H E V E S , L ú c i a M . B a s t o s P. " C o m é r c i o
d e l i v r o s e c e n s u r a d e i d é i a s n o B r a s i l ( 1 7 9 5 - 1 8 2 2 ) " . In: Ler História.
Lisboa, 2 3 :
61-78, 1992.
8.
n e s s e g r u p o d e s t a c a m - s e , e n t r e o u t r o s j o r n a i s , O Conciliador
Bem
9.
da Ordem
e o
Os jornais eram
do Reino
Unido,
O
Espelho.
A Malagueta
e o Correio
do Rio de
Janeiro.
10. J O U H A U D , C h r i s t i a n . " P r o p a g a n d e et a c t i o n a u t e m p s d e l a F r o n d e " . In: V I Q U E U R ,
J e a n C l a u d e M . 6c PIETRI, C h a r l e s (org.). In: Culture
de 1'État Moderne.
Roma:
et idéologie
dans la
genèse
É c o l e F r a n ç a i s e d e R o m e , 1 9 8 5 , p. 3 5 2 .
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n I -2. p. 123-138, Jan/dez 1995 - pag. 135
1
E
C
A
1 1 . B R A S I L . P o r t a r i a d e 19 d e j a n e i r o d e 1 8 2 2 . Rio d e J a n e i r o : T i p . n a c i o n a l , 1 8 2 2 .
1 2 . QAY,
Peter. The Enlightement:
the s c i e n c e of f r e e d o m . n e w York: n o r t o n , 1 9 7 7 ,
pp. 5 3 - 5 5 .
1 3 . A REQEnERAÇÀO c o n s t i t u c i o n a l o u a g u e r r a e d i s p u t a e n t r e o s c o r c u n d a s e o s
c o n s t i t u c i o n a i s . Rio d e J a n e i r o : I m p r e n s a R e g i a , 1 8 2 1 , p. 2 0 . Para as p a r ó d i a s
d a s f o r m a s r e l i g i o s a s c o m o u m d o s g ê n e r o s de c u l t u r a p o p u l a r , v e r
Cultura
popular
na Idade Moderna.
BURKE,
Peter.
São Paulo: C o m p a n h i a das Letras, 1 9 8 9 , pp.
146-147.
14. Para o e s t u d o d o p e r i o d i s m o , ver RIZZini, C. O livro,
Brasil:
o jornal
1 5 0 0 - 1 8 2 2 . R i o d e J a n e i r o : K o s m o s , 1 9 4 5 . Cf. a i n d a
B a s t o s P. " P e r i ó d i c o s . In:
-
colonização
portuguesa
SILVA,
nEVES,
M a r i a B e a t r i z n i z z a d a . Dicionário
no Brasil.
15. DARnTOn, R o b e r t . O beijo
e a tipografia
no
L ú c i a M.
da história
da
Lisboa: Verbo, 1 9 9 4 , pp. 6 2 4 - 6 2 8 .
de Lamourette:
mídia, cultura e revolução. São Paulo:
C o m p a n h i a d a s L e t r a s , 1 9 9 0 , p. 1 5 0 .
16. M E M Ó R I A e s t a t í s t i c a d o I m p é r i o d o B r a s i l . In:
Geográfico
Brasileiro.
Revista
do Instituto
d a C o r t e e p r o v í n c i a d o Rio d e J a n e i r o e m 1 8 2 1 . In: Revista
e Geográfico
17.
BARMAn,
Brasileiro.
Roderick J.
histórico
e
Rio d e J a n e i r o , 91 (58): 9 1 - 9 9 , 1 8 9 5 ; M a p a d a p o p u l a ç ã o
do Instituto
Histórico
R i o de J a n e i r o , 4 0 3 3 1 3 5 - 4 2 , 1 8 7 0 .
Brazil:
the forging of a nation ( 1 7 9 8 - 1 8 2 2 ) . S t a n f o r d :
U n i v e r s i t y P r e s s , 1 9 8 8 , p. 2 6 8 . P a r a o s d a d o s d a F r a n ç a , v e r C H A R T I E R ,
C O M P È R E , H. M. & J U L I A , D. féducation
en France
du XVF
au XVllF
siècle.
R.,
Paris:
S E D E S , 1 9 7 6 , p. 9 3 .
18. R A P P O R T s u r la s i t u a t i o n d e l o p i n i o n p u b l i q u e . In: P E R E I R A , Â n g e l o . D. João
príncipe
e rei.
VI,
(v.3). L i s b o a : E m p r e s a n a c i o n a l d e P u b l i c i d a d e , 1 9 5 6 , p. 3 0 6 .
19. H A L L E W E L L , L a u r e n c e . O livro no Brasil:
s u a h i s t ó r i a . S ã o P a u l o : T. A.
Queiroz/
EDUSP, 1 9 8 5 , p. 4 7 .
2 0 . Cf. P R O C E S S O d o s c i d a d ã o s D o m i n g o s A l v e s , J o ã o d a R o c h a P i n t o , L u í s A l v e s d e
A z e v e d o , ... p r o n u n c i a d o s n a d e v a s s a q u e m a n d o u p r o c e d e r J o s é B o n i f á c i o d e
Andrada e Silva para justificar os acontecimentos do famoso dia 3 0 de outubro
de 1 8 2 2 . R i o d e J a n e i r o : T i p . d e S i l v a P o r t o , 1 8 2 3 , p. 2 1 .
2 1 . J Á f u i c a r c u n d a , o u a z a n g a d o s p e r i o d i q u e i r o s . L i s b o a : of. d a v i ú v a d e L i n o d a
Silva Q o d i n h o ,
1 8 2 1 , p. 4 .
22. Para o p r e ç o dos f o l h e t o s ,
pag. 136. Jan/dez 1995
ver
Catálogo
de
algumas
obras
modernas
e
R
constitucionais
chegadas
modernamente
à loja de Paulo
I m p . n a c i o n a l , ( 1 8 2 1 ) , 2 f l . ; Catálogo
de Paulo
O
V
Martim,
rua da Quitanda
de algumas
obras
Martim.
Rio de Janeiro:
que se vendem
na loja
n° 33. R i o d e J a n e i r o : I m p . n a c i o n a l , ( 1 8 2 2 ) , 1
f l . Para o p r e ç o d o s p r o d u t o s d e é p o c a , cf. SILVA, M . B e a t r i z Mizza d a . "Livro e
s o c i e d a d e no Rio de J a n e i r o : 1 8 0 8 - 1 8 2 1 " .
4 5 1 , 1 9 7 3 ; Diário
do Rio de Janeiro,
In: Revista
de História.
São Paulo, 9 4 :
out. 1822 e j a n . 1 8 2 3 .
23. A FORJA dos periódicos ou o exame do aprendiz periodiqueiro. Lisboa:
nova
T i p . d a v i ú v a n e v e s & F i l h o s , 1 8 2 1 , p. 8 .
2 4 . Para a n o ç ã o d e p ú b l i c o i d e a l , v e r ESCARP1T, R.
Sociologie
de la littérature.
7
1
e d . . P a r i s : P.U.F., 1 9 8 6 , p p . 9 7 - 1 0 7 .
2 5 . D I Á L O G O político e instrutivo, entre dois h o m e n s d a r o ç a , A n d r é R a p o z o e s e u
compadre Bolonio Simplício, acerca da Bernarda do Rio de Janeiro e novidades
d a m e s m a . R i o d e J a n e i r o : I m p r e n s a R e g i a , 1 8 2 1 , p. 1 6 .
2 6 . O Bem da Ordem,
n° 3 , 1 8 2 1 . R i o d e J a n e i r o .
2 7 . A s c i t a ç õ e s f o r a m r e t i r a d a s , r e s p e c t i v a m e n t e , d e : Conciliador
P e r n a m b u c o , t r a n s c r i t o d e O Volantim,
Papagaio.
nacional,
n° 1,
n° 1 3 , 16 s e t . 1 8 2 2 , R i o d e J a n e i r o ; O
n° 1 2 , 8 a g o . 1 8 2 2 , R i o d e J a n e i r o .
2 8 . O Z O U F , M o n a . " L ' o p i n i o n p u b l i q u e " . In: B A K E R , K. (ed.).
and the creation
p . 4 2 7 ; O Macaco
of modern
Brasileiro.
29. ARQUIVO nACIOnAL.
political
culture.
The French
Revolution
(v. 1). O x f o r d : P e r g a m o n P r e s s , 1 9 8 7 ,
n° 5 , ( 1 8 2 2 ) . R i o d e J a n e i r o .
C ó d i c e 3 2 7 . R e g i s t r o d e o f í c i o s d a P o l í c i a (v. 1), f. 9 0 , 2 0
out. 1 8 2 0 .
3 0 . Ver, r e s p e c t i v a m e n t e , O Conciliador
do Reino
Unido,
14 abr. 1 8 2 1 , Rio d e J a n e i r o ; Gazeta do Rio de Janeiro,
n° 4 , 3 1 m a r . 1 8 2 1 e n° 6 ,
n° 134, 7 nov. 1 8 2 2 , Rio d e
Janeiro.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 125-138. jan/dei 1995 - pag, 137
A
B
S
T
R
A
C
T
l n the L u z o - B r a z i l i a n w o r l d , t h e C o n s t i t u t i o n a l m o v e m e n t of 1 8 2 1 u n l e a s h e d
an
i n t e n s e d e b a t e u p o n t h e i d e a s p r o p o s e d by l i b e r a l i s m . P r i n t i n g - o f p o l i t i c a l t r a c t s
a n d p a p e r s - h e l d a f u n d a m e n t a l r o l e in t his s l i g h t w i d e n i n g of the s p h e r e of p o w e r
b e y o n d t h e n a r r o w c i r c l e s of t h e C o u r t . G o v e r n m e n t , h o w e v e r , r e m a i n e d a d d i c t e d to
the p r a c t i c e s i n h e r i t e d f r o m the Ancien
Regime.
In fact, it w a s u n a b l e to t r a n s f o r m
the p r i n t e d w o r d i n t o a t o o l , w i t h w h i c h to d r a w p u b l i c o p i n i o n o n its s i d e .
R
É
S
U
M
É
D a n s le m o n d e l u s o - b r é s i l i e n , un vif d é b a t s u r l e s i d é e s d u l i b e r a l i s m e fut d e c l e n c h é
par le m o u v e m e n t c o n s t i t u t i o n n e l d e 1 8 2 1 . L e s p u b l i c a t i o n s - d e s p a m p h l e t s et d e s
journaux
- t i n r e n t un r o l e d é c i s i f d a n s c e t t e t i m i d e a m p l i f i c a t i o n d e l a s p h è r e d e
p o u v o i r , a u - d e l à d e s c e r c l e s l i m i t e s d e l a C o u r . C e p e n d a n t , 1'État, ne s u t r e n o n c e r à
s o n p e n c h a n t p o u r l e s p r a t i q u e s d e 1'Ancien R e g i m e et ne fut c a p a b l e d e r e n d r e le
m o t é c r i t e n i n s t r u m e n t p o u r f o r m e r 1'opinion p u b l i q u e e n s a f a v e u r .
pag. 138. jan/dez 1995
Maria do Carmo Teixeira Rainho
Chefe d a Divisão de Pesquisa e Promoções Culturais do Arquivo Nacional. Mestre e m
História Social d a Cultura - PUC/RJ.
A
d i s t i n ç ã o e suias normass
l e i t u r a s e l e i t o r e s dos m a n u a i s
de e i i q u i e t a e c i v i l i d a d e *=* R i o
de J a n e i r o , s é c u l o X I X
A
s
alterações
na
dos escravos".
paisagem urbana, a
necessário náo apenas
europeização
o refinamento das maneiras e
da
vida s o c i a l a partir da vinda da
Corte
em
bilidade
1808, uma
marcada
a sofisticação
sócia
por
particulares e pelos salões
sobretudo,
festas
transformações
nos
modos
e
nos
comportamentos da 'boa sociedade' do
Rio d e J a n e i r o a o l o n g o d o s é c u l o X I X .
Para a ' b o a s o c i e d a d e ' e r a
imperativo
a r i s t o c r a t i z a r - s e , isto é , a d o t a r c o s t u m e s
que
a possibilitassem
ao
m e s m o t e m p o nivelar-se (pelo m e n o s na
aparência) aos seus pares europeus
buscar
do gosto
abandonar os
mas,
rústicos
c o s t u m e s q u e a c a r a c t e r i z a v a m até o
imperiais
c o n s t i t u e m o p a n o de f u n d o para as
e valores
Para tal, era
1
e
distinguir-se do resto da p o p u l a ç ã o , ou
seja, "do povo mais ou menos miúdo e
momento da chegada da Corte.
Neste
modos'
processo
2
de
'civilização
dos
os cuidados c o m a higiene, a
c o r r e ç ã o d o s m o d o s , as b o a s m a n e i r a s
à mesa e a adequação e a distinção no
vestir passam a contar
quanto
o dinheiro
nobreza.
quase
e os
É neste contexto
tanto
títulos
que
de
proli-
feram na cidade do Rio de J a n e i r o
as
edições
de
da
chamada
literatura
civilidade.
Tratados de c o r t e s i a , m a n u a i s de
savoir-
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n» 1-2. p. 139-152. jan/dez 1995 - pag, 139
A
E
C
vivre, regras d e e t i q u e t a , e l e m e n t o s d e
circunscrito, pois esta está presa n u m
moral, guias do b o m - t o m , tudo
campo semântico móvel e variável. Uma
compõe
a
chamada
isso
literatura
de
civilidade.
segunda
dificuldade
se refere
às
condições da determinação do sentido.
Q r o s s o m o d o , e s t e corpus
é constituído
pelos livros voltados para o ensino das
maneiras tidas c o m o corretas.
Estas
o b r a s q u e c i r c u l a r a m n a E u r o p a a partir
do século XVI e n s i n a v a m entre outras,
as m a n e i r a s d e c o m e r e o s h á b i t o s à
m e s a , a h i g i e n e c o r p o r a l ( i n c l u i n d o aí
os modos de assoar o nariz, cuspir e t c ) ,
os c o m p o r t a m e n t o s e m casa, na igreja,
na r u a e o s c u i d a d o s c o m a v e s t i m e n t a .
P o r n e c e s s i d a d e , o corpus
sobre
de textos
os quais é possível
trabalhar
privilegia os enunciados normativos q u e
dizem o que é ou o que deve ser
civilizado, uns visando o emprego da
palavra, outros enumerando as práticas
q u e o s d e i x a m ver. C a d a e m p r e g o d a
palavra, cada definição da n o ç ã o reflete
uma
estratégia
enunciativa
que é
também representação das relações
sociais. A dificuldade é de poder, a cada
Para
Roger
Chartier ,
tentar
caso, reconstruir a relação entre aquele
c o m p r e e n d e r o q u e o s h o m e n s entre o s
que escreve, os leitores q u e ele supõe
s é c u l o s XVI e XVIII e n t e n d i a m p o r
e para q u e m ele fala e a q u e l e s
civilidade é entrar no cerne de u m a
ato d a leitura, p r o d u z e m u m s i g n i f i c a d o
sociedade antiga, que muitas vezes nos
do texto. U m a última dificuldade reside
é opaca, onde as formas sociais sáo
na
3
caracterização
da
que,no
noção
de
geralmente representações codificadas
de
níveis
e
onde
numerosos
N O V O ,MANUAU
comportamentos durante muito tempo
considerados
proibidos,
lícitos
mesmo
passam a ser
no domínio
do
BOM TOM
rWTOtt»
H au ii MM imutm *
É*
*•*>*• <>i • m \-Àm m mmmmmim 4» **% wàii mima *
privado.
« —. -i*ltn *•><* i*f*i
MMMMM
M»JM» pM ****** m m*»H
Mas, segundo o autor, a p e s q u i s a sobre
a noção de civilidade e sobre os livros
que
a
contém
não
se
à i m p o s s i b i l i d a d e de se delimitar o
c a m p o de estudo. M e s m o privilegiandose o s t e x t o s q u e a p r e s e n t a m o s u s o s
(dicionários,
jornais,
memórias, manuais, tratados e t c ) , o
corpus
de
constituído pelos usos da noção
civilidade
pag 140, jan/dez 1995
jamais
**»
TfltckfiteO aa FwiMiQtc
M
Uuiz Vwardi
dá sem
dificuldade. A primeira delas refere-se
mais comuns
• ********
poderá
ser
UM AMIGO D* HOCIOADC
n e m £i*,<AOL iwLjfcikAiM t ümatawtA
V
R
O
f
civilidade, u m a vez que ela designa um
conjunto de regras
que não têm a
realidade dos gestos que as efetuam.
Sempre enunciada c o m o modo de dever
ser, a c i v i l i d a d e visa transformar e m
esquemas incorporados,
reguladores,
automáticos e n ã o ditos de condutas,
as d i s c i p l i n a s
enumera
e
e censuras
unifica
numa
que ela
mesma
categoria.
Jacques
efetivas da ' b o a s o c i e d a d e ' .
N e s t e s e n t i d o , e a partir d a s s u g e s t õ e s
de Chartier e Revel, deve-se fazer u m a
leitura destes tratados e manuais que
permita, de maneira geral, enfocar os
modelos de civilidade impostos por
estas obras, seus destinatários e a f o r m a
como reforçavam distâncias sociais,
pela instrução dos c o m p o r t a m e n t o s
ditos civilizados.
Revel
em sua análise
da
literatura de civilidade, que considera
u m "corpusevidente
e ambíguo", afirma
q u e às v e z e s é p o s s í v e l c o n f r o n t a r c o m
os modelos prescritos nestes tratados,
práticas efetivas de u m a determinada
sociedade.
Além disso, para ele "a
representação social da norma náo é
menos 'real' que a conservada
pelos
comportamentos observáveis".*
No B r a s i l , a o l o n g o
do século XIX,
inúmeros
e
tratados
manuais
de
etiqueta e civilidade foram editados e
r e e d i t a d o s . U m e x e m p l o d i s s o é O novo
manual
do bom-tom
que e m 1 9 0 0 chega
a sexta edição.
Um fato q u e a p o n t a para a d i f u s ã o
destas obras
no decorrer
do século
passado, e que elas eram facilmente
encontradas
nas ruas da Corte, é o
Para o h i s t o r i a d o r f r a n c ê s , o t r a b a l h o
relato de Thomas Ewbank a propósito
c o m esta d o c u m e n t a ç ã o é factível se
dos pregões dos ambulantes da cidade.
"identificarmos nas entrelinhas de cada
E m A vida
um destes textos seus destinatários e
Manual de polidezpara
sobretudo
exemplo de u m a das milhares de obras
um
civilidade".
5
Portanto
é
literatura
uso
particular
da
no Brasil,
necessário
encarar
de civilidade
a
não como
que
a
leitura
destes
do Rio de Janeiro, o u "reflexo realista
desejavam
de u m a realidade h i s t ó r i c a " , mas c o m o
s o c i e d a d e . O Correio
u m corpus
português
6
q u e reflete a representação
modelos
de
civilidade
comportamentos esperados
compunham
e
os
daqueles
este grupo e que
7
Anúncios nos jornais também sugerem
indispensável
que
os rústicos como
vendidas nas ruas d a capital b r a s i l e i r a .
espelho dos modos da 'boa sociedade'
dos
o autor cita o
para
livros
era
aqueles
que
ser bem sucedidos
das Damas,
que circulou
na
jornal
no Rio de
Janeiro entre 1836 e 1 8 5 0 , era u m d o s
que
estampava alguns
Manual
de etiqueta
anúncios do
e civilidade,
"para
prescreve e regulamenta condutas que
aqueles pouco familiarizados c o m a vida
não s ã o n e c e s s a r i a m e n t e
na C o r t e " .
condutas
8
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 139-152. jan/del 1995 pag 141
C
A
Outra
referência
à circulação
manuais encontra-se
dos
no p r ó l o g o
do
E
exceções
- adultos
e crianças.
Em
s e g u n d o lugar, d i r i g e - s e d e f o r m a g e r a l
primeiro tratado de civilidade brasileiro
à t o d a s as c r i a n ç a s ,
d e d i c a d o às c r i a n ç a s . Ma a p r e s e n t a ç ã o
dos
à obra
Entretenimentos
os
d e s t i n a v a m - s e e x c l u s i v a m e n t e às j o v e n s
deveres
da
Manuel
e l i t e s . Por f i m , é p r e c i s o r e c o n h e c e r n a
Garcia enumera o que considera alguns
obra de E r a s m o um desejo de ensinar
dos mais importantes tratados em língua
um c ó d i g o v á l i d o para todos, j á que o
portuguesa:
" a Escola
de política,
o
autor pretendia "fundamentar
Manual
de
civilidade
e etiqueta,
o
aprendizagem
Código
do
bom-tom,
o
sobre
civilidade,
José
civilidade
brasileira,
bom-tom,
o s Elementos
Manual
o novo
código
de
antigos
diferenciando-se
livros
de c o r t e s i a
gestual
comum
que
numa
uma
de
t r a n s p a r ê n c i a s o c i a l (...), p r é - c o n d i ç ã o
do
necessária à concretização de
civilidade"'.
9
sociabilidade generalizada".
uma
1 2
É importante ressaltar que os manuais
A partir d a o b r a d e E r a s m o e até o f i n a l
d e c i v i l i d a d e q u e c i r c u l a v a m n a c o r t e no
do s é c u l o XIX,
século
XIX
chegaram
aqui
num
inúmeras edições
e
r e e d i ç õ e s d o s m a n u a i s d e c i v i l i d a d e se
momento e m que estas obras estavam
sucederam.
amplamente
Europa,
Morbert E l i a s m o s t r a c o m o a o l o n g o d e
o n d e e r a m e d i t a d a s d e s d e o s é c u l o XVI
quatro séculos elas foram fundamentais ao
s o b a f o r m a de tratados de c o r t e s i a ,
' p r o c e s s o c i v i l i z a d o r ' e c o m o os antigos
regras de m o r a l e n a s " a r t e s d e a g r a d a r
costumes
ou artes de a m a r " .
a b a n d o n a d o s e m n o m e d o s preceitos d a
difundidas
simplificação
1 0
na
Da c o d i f i c a ç ã o e
obras
é
vão
sendo
que
c i v i l i d a d e . G r o s s o m o d o , p a r a E l i a s , as
surgem os m a n u a i s de c i v i l i d a d e , dos
s e n s i b i l i d a d e s e os c o m p o r t a m e n t o s são
quais o primeiro,
nesse p e r í o d o profundamente m o d i f i c a d o s
pueriiium,
dessas
'bárbaros'
Civi/itate
morum
de E r a s m o , data de 1 5 3 0 .
por dois fatos fundamentais: o m o n o p ó l i o
Dedicado à e d u c a ç ã o das crianças, esta
obra
tratava
das
posturas,
dos
c o m p o r t a m e n t o s s o c i á v e i s (na e s c o l a ,
à m e s a , nas b r i n c a d e i r a s ) e p o r f i m d o
deitar-se. E m b o r a considerado uma obra
menor, o manual escrito por
Erasmo
da força, originado c o m a instauração das
monarquias absolutistas e o estreitamento
das r e l a ç õ e s p e s s o a i s , o q u e i m p l i c a v a
forçosamente n u m controle mais rígido das
e m o ç õ e s e afetos.
Através
da
leitura
dos
manuais
é
inova e m três pontos essenciais, c o m o
possível perceber como são 'civilizadas'
demonstra
as
primeiro
Jacques
lugar,
Revel."
maneiras
de
comer,
todas
as
às
maneiras
relacionadas
crianças, enquanto os textos anteriores
corporais
(assoar
tratavam indiferentemente - c o m poucas
cuspir), os comportamentos no quarto,
pag. 142. jan/dez 1995
o livro dirige-se
Em
às
o nariz,
funções
escarrar,
R
O
V
r x
oi. t
s é c u l o XVI.
,
C h a m a d o s de manuais de
savoir-vivre,
eram
comuns
em
"sociedades nas quais as hierarquias se
recompõem".
M
respeitar
M
Empenhadas
1 5
os
status
sociais
distâncias que os s e p a r a v a m ,
obras enfatizavam o
D. .St.iri tf %
fir«|o(.l
as
estas
reconhecimento
das diferenças sociais e dos gestos que
t » D*rtg * . « i' Ira
>--» M0*gmMUi ii11IKÊÊM
em
e
deviam expressá-los.
» i
A
culminância
deste
modelo
de
civilidade, baseado na hierarquia e na
regulamentação da sociabilidade, está
presente na ' s o c i e d a d e de c o r t e ' ,
e s p e c i a l n a c o r t e d e L u í s XIV.
Ml',
'i.' J I M " J S
Cj<IPÍS|i|l,
1543.
em
Nela, a
civilidade significava para a
nobreza,
s u b m i s s ã o irrestrita ao rei,
rigorosa
hierarquia e u m a total valorização
aparência.
A civilidade
c o m a s u a p r i v a t i z a ç ã o e a a d o ç ã o de
distintiva
e
roupas
disciplinar o indivíduo para que
apropriadas
para dormir
e a
tem
é
da
portanto
como
objetivo
ele
m u d a n ç a d e a t i t u d e nas r e l a ç õ e s e n t r e
manifeste nos gestos, nas posturas
os
nas atitudes, o p r i m a d o a b s o l u t o
sexos,
com
um
sentimento
de
vergonha c e r c a n d o estas relações.
formas da vida social.
C o n t u d o , o fato destes m a n u a i s terem
Dentro
se d i s s e m i n a d o
d i s t i n t i v a , c o m u m às c o r t e s
ao longo
de
séculos e de terem atingido
quatro
diversas
camadas da sociedade, - através
das
a
partir
desta
do
idéia
século
cultivado,
da e s c r i t a ) e d o b a r a t e a m e n t o d e s u a s
segundo Elias era
graças
Bibliothèque
b/eue
por
13
exemplo,
- não deve
enganar quanto à uma outra
dos
manuais
de
civilidade:
a
nos
vertente
aquela
direcionada aos cortesãos.
das
civilidade
XVI,
européias
emerge
o
c o n c e i t o de ' c i v i l i z a d o ' , no s e n t i d o de
escolas (onde eram utilizadas no e n s i n o
edições,
de
e
polido
ou
contido
c o m o os m e m b r o s da corte
de designar,
em sentido
e
que
gostavam
amplo
ou
restrito, a q u a l i d a d e e s p e c í f i c a de s e u
próprio
comportamento,
quais comparavam
e com
os
o refinamento
de
O p o s t o s aos m o d e l o s de civilidade de
suas maneiras sociais, seu
Erasmo
c o m as m a n e i r a s d e i n d i v í d u o s
mais
simples e socialmente
1 6
1 4
, e s t e s m a n u a i s se d i f u n d i r a m
primeiramente
na Itália em fins
do
'padrão',
inferiores.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2. p. 139-152, jan/dez 1995 - pag 145
-
No f i n a l d o s é c u l o X V I , a c i v i l i d a d e se
i m p õ e na F r a n ç a a u m p ú b l i c o
mais
a m p l o e m a i s d i v e r s i f i c a d o . A partir daí,
e x i s t e u m a c i v i l i d a d e " p a r a as p e q u e n a s
escolas e para os colégios
burgueses,
para a corte e para a c i d a d e , para a alta
aristocracia, a pequena
província
e
homens".
no
os
nobreza
'burgueses
da
gentis-
do
século
primeira metade do XIX,
XV111 e
na
a civilidade
obtém a sua mais ampla
divulgação
social.
difundida,
edições
É
grandemente
nos
de
meios
grande
rurais,
pelas
circulação
dos
m a n u a i s q u e c h e g a m até l á . C o n t u d o , e
graças ao seu próprio s u c e s s o , é nesse
período
Segundo Jacques Revel, essa passagem
do culto da civilidade a uma civiiidaae
depreciada
quando
ocorre
ela
definições:
pouco
oscilava
um m o d e l o
a
pouco,
entre
duas
válido
para
todos e um " s i s t e m a de c o n i v ê n c i a s que
distingue o pequeno
número".
1 8
1 7
decorrer
inclusive
civilidade vão ser abalados.
que
os
fundamentos
da
Quando
os
códigos
se
revelavam
demasiado acessíveis e difundidos
por
toda a parte, a civilidade c o m e ç a v a a
apagar os privilégios das elites. Face ao
perigo que representava
um
eventual
nivelamento das condutas, a civilidade
é depreciada
s i n ô n i m o de
e torna-se
um
mero
polidez.
Mo m o m e n t o e m q u e s e d i f u n d e
por
t o d a a p a r t e , e l a j á n ã o p a s s a de, u m
vestígio.
\
SOENCIA
DA CIVILISAÇÀO
Enrijecido,
desacreditado,
REJCJICSA
desgastado
por
suas
próprias contradições, o projeto de um
s i s t e m a de r e c o n h e c i m e n t o que deveria
permitir
JBJSJOAÇAO 8 Ü P K R Í 0 R
empobrecido,
a
construção
de
uma
sociabilidade regulamentada já
não
evoca senão normas autoritárias e uma
i «ii ua tosu tom
11
comédia
das aparências
à qual
as
pessoas humildes ainda têm a fraqueza
de c o n c e d e r a l g u m c r é d i t o . Antes
novos códigos
de
que
comportamentos
c o l e t i v o s se i m p o n h a m , a c i v i l i d a d e faz
um
triste
provisório
papel
do
face
indivíduo
ao
triunfo
e
de
sua
irredutível espontaneidade. A bem dizer
da
verdade,
reduzida
exterioridade, ela provoca
a
risos.
pura
1 9
Norbert Elias, que estudou a e v o l u ç ã o
da palavra civilidade, afirma que j á e m
pag 144. jan/dez 1995
O
V
R
m e a d o s d o s é c u l o XVIII, o c o n t e ú d o
e X I X . Ma v e r d a d e , e s t e m a t e r i a l f o r n e c e
desta palavra e de termos correlatos foi
a
"absorvido e ampliado em um novo
comportamentos
conceito, na expressão de u m a nova
aceitos e absorvidos e m outras nações,
forma de autoconsciência, o conceito de
especialmente a França - nosso modelo
civilisation.
e
d e c i v i l i z a ç ã o -, c o m p o r t a m e n t o s q u e
civilização a s s i n a l a m três estágios de
eram difundidos na prática, na chamada
desenvolvimento
social, indicam qual
'europeização' dos costumes.
sociedade
e é
Os manuais de civilidade que c i r c u l a v a m
Cortesia,
fala
Segundo
o
autor,
civilidade
interpelada".
a expansão
2 0
de
reprodução
de
modelos
de
consolidados,
na c o r t e no s é c u l o
já
XIX podem ser
modelos de comportamentos chamados
divididos,
grosso
c i v i l i z a d o s o c o r r e u n a fase i n t e r m e d i á r i a
categorias:
pedagógicos e cortesãos.
desse processo, sendo que o conceito
Embora,
de c i v i l i z a ç ã o i n d i c a r i a e m s e u u s o no
literatura de civilidade tenha u m c u n h o
século
pedagógico,
XIX,
civilização
rigorosos,
que o
"processo
- ou, em termos
de
mais
u m a fase desse processo -
fora c o m p l e t a d o e e s q u e c i d o " .
2 1
Ainda
de
modo,
maneira
em
duas
geral,
estamos
toda
considerando
c o m o tal as obras d e d i c a d a s à e d u c a ç ã o
dos jovens,
enquanto
os
cortesãos seriam aqueles
tratados
direcionados
segundo o filósofo, a partir daí, "as
p a r a a " p r á t i c a d o m u n d o " , para a v i d a
pessoas
na corte o u nos salões.
querem
apenas
que
nações,
Os tratados pedagógicos possuíam u m
u m período, nas
duplo objetivo: reforçar as práticas de
de s u a própria
leitura e, ao m e s m o t e m p o , e n s i n a r as
processo se realize e m outras
e também, durante
classes mais baixas
sociedade*.
esse
regras de civilidade.
2 2
As regras de civilidade contidas nos
tratados
que chegaram
Janeiro,
no
ao Rio de
século
passado,
expressavam o momento e m que estava
consolidado o 'processo civilizador' e m
nações c o m o a França e quando a leitura
dos
manuais
declínio
burguesia
-
de c i v i l i d a d e
era feita
em
referindo
- já em
apenas
ascensão.
c o n s e g u i n t e , o corpus
nos
náo
pela
Por
ao qual estamos
apresenta
as
variações nos m o d o s e princípios de
civilidade
2 3
que são encontradas
nos
t r a t a d o s e u r o p e u s e n t r e o s s é c u l o s XVI
A
metodologia
empregada neste ensino é q u e variava:
alguns, como
A escola
de
política,
apelavam para um misto de perguntas
e respostas quanto à civilidade e m geral
e textos
separados
específicos
como
para
era o
assuntos
caso
do
vestuário. Outros tratados, como os
Entretenimentos
civilidade,
Quilhermina
sobre
os deveres
da professora
de
da
primária
Azambuja
neves,
buscavam nos "exemplos tirados das
cenas da vida de família no Brasil", a
"instrução moral" dos jovens, incutindo
neles "lições e a d v e r t ê n c i a s " .
2 4
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 139-152. Jan/dez 1995 - pag. 145
A
C
E
esta se d e f i n i r i a c o m o
qualquer
pessoa
se
"o m o d o
de
comportar
na
sociedade para c o m os d e m a i s , segundo
os princípios da moral e da religião, que
são a base da e d u c a ç ã o do h o m e m " .
J á o novo
manual
conceitos
Labruyère
de
do bom-tom
Voltaire,
para definir
5 0
utiliza
Duelos
e
a civilidade.
Enuncia também o seguinte conceito: "a
A importância da difusão da civilidade
c i v i l i d a d e , a n o s s o ver, c o m p r e e n d e : a
através dos manuais pedagógicos
moral, a decência, a honestidade,
era
a
enfatizada por seus autores que davam
c o r t e s i a , e e m u m a palavra, todas as
c o m o e x e m p l o as " n a ç õ e s
civilizadas,
agradáveis virtudes que formam os laços
que não confiaram somente aos pais e
mais fortes da s o c i e d a d e c i v i l i z a d a , isto
mestres esta instrução, mas lha tem
é, f a l a n d o c o m p r o p r i e d a d e , a m o r a l e m
dado em admiráveis tratados".
ação".
Já
os
tratados
cortesãos,
25
embora
t a m b é m se v o l t a s s e m p a r a a d i f u s ã o d a
civilidade,
ressaltavam
o papel
da
etiqueta, que consistia jus t a m e n t e
na
" o b s e r v â n c i a r e s t r i t a d e t o d a s as r e g r a s
da civilidade, do decoro e do
tom".
2 8
bom-
Ainda segundo estes manuais,
haveriam duas q u a l i d a d e s de etiqueta:
"a da corte e a da s o c i e d a d e ou
dos
salões", sendo a da corte "indispensável
para manter as hierarquias s o c i a i s " .
Embora
estes
tratados
2 7
fossem
destinados a públicos diferentes,
os
5 1
Mão é a p e n a s o c o n c e i t o d e c i v i l i d a d e
que conhece poucas variações entre os
manuais do s é c u l o XIX. O c o n t e ú d o das
regras t a m b é m variava p o u c o ,
assim
c o m o as s i t u a ç õ e s e l o c a i s q u e , s e g u n d o
eles, exigiam a prática da civilidade. A
não ser pela linguagem utilizada, mais
a p r o p r i a d a às c r i a n ç a s
no c a s o
dos
manuais pedagógicos, têm-se de forma
geral u m a c o n v e r g ê n c i a nas regras de
civilidade propostas
Segundo os
Elementos
por estas
obras.
de
civilidade
aquelas deveriam ser observadas
"na
pedagógicos "para meninos e meninas
i g r e j a , nas c o m p a n h i a s , n a c o n v e r s a ç ã o ,
que freqüentam nossas escolas públicas
nos encontros e passeios, no andar, na
primárias"
postura
e os cortesãos
2 8
voltados
para a e l a b o r a ç ã o de "preceitos
mais
convém
a adultos
do
que
mundo
do corpo,
no v e s t i d o e
a s s e i o , na m e s a , c o m os
no
superiores,
c o m os inferiores, c o m os iguais,
no
elegante" , não há divergências entre
deitar e levantar d a c a m a , nas cartas e
os c o n c e i t o s d e c i v i l i d a d e d e s t a s o b r a s .
no luto".
Segundo os
O exemplo acima, que aponta locais e
2 9
Elementos
pag 146. jan/dez 1995
de
civilidade,
5 2
R
V
situações
aonde
se
exigia
a
m a n i f e s t a ç ã o d a s regras d e c i v i l i d a d e ,
m o s t r a c o m o e s t a s regras s e r v i a m p a r a
reproduzir as diferenças e hierarquias
da s o c i e d a d e , ao definir o tratamento a
ser dado ' a o s superiores, a o s iguais e
O
educacional vigente no Rio de Janeiro,
no s é c u l o XIX.
Tratando da instrução pública no Rio de
Janeiro, durante o governo Saquarema,
limar Rohloff de Mattos mostra c o m o na
visão destes
dirigentes
aos inferiores'.
a instrução
Os tratados pedagógicos, e dentre eles,
os voltados
para a instrução
Elementos
sociais.
O
de civilidade,
autor
Império se colocasse ao lado das
dos
'nações civilizadas'. Instruir todas as
classes era pois, o ato de difusão das
afirma que "a civilidade nos ordena que
humildes c o m os nossos
Luzes que permitiam romper as trevas
mesmos;
que
superiores;
O novo manual
inferiores".
do bom-tom
Mas, segundo
3 3
por sua vez,
enuncia "que é preciso que cada um
c o n h e ç a b e m o s e u lugar, a s s i m c o m o
o das outras pessoas, segundo
a sua
hierarquia" e ensina que "nunca se deve
passar
para
diante
caracterizavam
colonial....
afáveis c o m os nossos iguais; humanos
com os nossos
do superior,
e
havendo-se entrado na sala, fica-se de
pé a t é s e r m a n d a d o a s s e n t a r " .
o
passado
3 5
ele, instruir
todas as
classes ou elevar o povo a u m estado
de c i v i l i z a ç ã o , significava na prática
possibilitar à 'boa sociedade' "não só
conservar
o lugar
que ocupava
na
sociedade, mas também reconhecer e
reproduzir
as
diferenças
- e
hierarquizações no s e u p r ó p r i o interior".
Ma
3 4
deveria
permitia - ou deveria permitir - que o
por exemplo,
sejamos modestos conosco
- ou
cumprir - u m papel fundamental, que
pública,
também insistiam na manutenção das
distâncias
cumpria
proposta
educacional
dos
Saquaremas
O papel d o s manuais de etiqueta, que a
princípio pode parecer o simples ensino
das boas maneiras o u a inculcação das
regras
de etiqueta,
ia além
destes
propósitos, ao buscar preparar os seus
jovens
leitores
para
a
vida
em
Ao analisar as n o r m a s prescritas
pela
primordialmente
buscava-se
possibilitar a inclusão na sociedade
daqueles que eram apresentados como
futuros cidadãos d o Império. Por m e i o
sociedade.
literatura de civilidade e levando-se e m
consideração que muitas destas
obras
eram d e s t i n a d a s às e s c o l a s ,
torna-se
importante
política
associá-las
à
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1 -2. p. 139-152, Jan/dez 1995 - pag. 147
C
A
E
pares
europeus.
W a n d e r l e y P i n h o a o falar d o m o v i m e n t o
da rua
do
Ouvidor,
afirma que,
despeito de um aparente
a
nivelamento
entre os diversos estratos sociais que
visitavam ou passeavam simplesmente
pela
da
difusão
de
uma
civilidade,
procurava-se a uniformização mínima
entre os e l e m e n t o s constitutivos
de
rua,
ficava
sempre
e x i s t ê n c i a de s í m b o l o s
marcas
que
clara
a
exteriores
e
distinguiam
a
'boa
sociedade'.
u m a s o c i e d a d e civil.... (grifo meu).
3 6
A s e l e ç ã o se fazia ali n u m a
O conhecimento
da civilidade
como
concorrência da aristocracia com a
insígnia de c l a s s e t a m b é m aparecia nos
plebe, que tinha a ilusão salutar da
conteúdos dos manuais dedicados aos
adultos. A f i n a l , d o m i n a r as regras
civilidade
representava
de
igualdade. Ombreando c o m a nobreza,
da
o p o v o n à o se dava c o n t a do trabalho
alguma
sutil
maneira uma superioridade em relação
aos outros
Segundo
estratos
Gilberto
da
muitos rapazes e moças eram
que
operavam
maneiras,
sociedade.
Freire desde
singular
hierarquias.
gostos,
vestuários
e
relações
e
3 6
cedo
levados
Para finalizar,
pode-se
dizer
que
a
p e l o s p a i s a ler as o b r a s d e d i c a d a s às
c i v i l i d a d e mostrava-se c o m o u m m e i o d e
regras d e e t i q u e t a e b o m - t o m .
clivagem social, cujos instrumentos eram
a m a n e i r a d e falar, d e c o m e r , de andar,
'A
sociedade
tem
também
sua
gramática', escreveu em 1845 o autor
de certo
Código
de
bom-tom
que
alcançou grande voga entre os barões
e viscondes do Império, os quais, para
t o m a r e m ar d e e u r o p e u s ,
(adotaram)
regras d e b o m - t o m f r a n c e s a s e i n g l e s a s
nas criações dos f i l h o s .
Apreender
todo
sem exagerar
esse
3 7
gestos, a o d i s c u r s o , a o s c o m p o r t a m e n t o s
em geral, uma propriedade
transformando-se
distintiva,
em insígnia da 'boa
s o c i e d a d e ' no s é c u l o XIX. C l a r o está q u e
numa
sociedade
hierarquizada
como
escravista
e
a brasileira,
a
distinção j á estava inscrita na própria
conhecimento,
na exibição das
entre outras. Era ela que c o n f e r i a aos
boas
estrutura s o c i a l . P o d e m o s a f i r m a r a partir
da o b r a de
Pierre B o u r d i e u
3 9
maneiras, fazer c o m que a civilidade
d i s t i n ç ã o se m a n i f e s t a v a c o m o
aparecesse c o m o algo natural,
diferença reconhecida,
quase
que a
uma
legitimada e
inato, era o que daria a 'boa sociedade'
aprovada c o m o tal.
a possibilidade de se distinguir do resto
Entretanto, e m e s m o para aqueles que
da p o p u l a ç ã o , igualando-se aos
apareciam no e s p a ç o s o c i a l de
pag. 148. Jan/dez 1995
seus
forma
K
O
V
naturalmente distinta, o conhecimento
outras palavras, fazia c o m q u e a ' b o a
da civilidade era fundamental,
pois
sociedade' exteriorizasse
viabilizava
e a
ocupava na sociedade.
o reconhecimento
o lugar q u e
classificação dos indivíduos o u , em
N
1.
O
Cf. R E Z E N D E , F r a n c i s c o d e P a u l a F e r r e i r a d e . Minhas
recordações.
São Paulo:
I t a t i a i a , 1 9 8 8 , p. 1 7 1 . P a r a o autor, b a c h a r e l m i n e i r o d o i n í c i o d o s é c u l o X I X , a
sociedade aparece dividida nas seguintes classes: "a d o s brancos e sobretudo
daqueles que por sua posição constituíam o que se costuma chamar a boa
sociedade; a do povo mais ou menos miúdo; e finalmente a dos escravos".
2.
E x p r e s s ã o c u n h a d a p o r N o r b e r t E l i a s . Cf. d o a u t o r O processo
civilizador.
Rio de
J a n e i r o : Zahar, 1 9 9 0 .
Acervo. Rio de Janeiro, i 8 ir 12. p 139-152, jan/dez 1995 - pag. 149
3.
E
C
A
C H A R T I E R , Roger. " D i s t i n c t i o n et d i v u l g a t i o n : l a c i v i l i t é et s e s l i v r e s . " In:
et lecteurs
dans la France
dAncien
Regime.
Lectures
Paris: Éditions du S e u i l , 1 9 8 7 , pp.
45-48.
4.
R E V E L , J a c q u e s . " O s u s o s d a c i v i l i d a d e . " In: História
da vida privada.
São Paulo:
C i a . d a s L e t r a s , 1 9 9 1 , v o l . 3 , p. 1 7 0 .
5.
I d e m , i b i d e m , p. 1 7 1 .
6.
S o b r e a u t i l i z a ç ã o de t e x t o s l i t e r á r i o s p e l o h i s t o r i a d o r , a f i r m a R o g e r C h a r t i e r q u e ,
a " r e l a ç ã o d o h i s t o r i a d o r c o m o r e a l (...) c o n s t r ó i - s e s e g u n d o m o d e l o s d i s c u r s i v o s
e d e l i m i t a ç õ e s intelectuais p r ó p r i o s de c a d a situação de e s c r i t a . O que l e v a ,
a n t e s d e m a i s n a d a , a n ã o tratar as f i c ç õ e s c o m o s i m p l e s d o c u m e n t o s , r e f l e x o s
realistas de u m a realidade histórica, mas a atender a sua e s p e c i f i c i d a d e e n q u a n t o
t e x t o s i t u a d o r e l a t i v a m e n t e a o u t r o s t e x t o s (...)". Cf. C H A R T I E R , Roger. " H i s t ó r i a
i n t e l e c t u a l e h i s t ó r i a d a s m e n t a l i d a d e s : u m a d u p l a r e a v a l i a ç ã o . " In:
cultural:
7.
História
e n t r e p r á t i c a s e r e p r e s e n t a ç õ e s . L i s b o a : D i f e l , 1 9 9 0 , p. 6 3 .
E W B A N K , T h o m a s . A vida no Brasil
palmeiras.
ou diário
do cacau e das
S ã o P a u l o : Itatiaia, 1 9 7 6 , p. 7 9 .
8.
O Correio
9.
Cf. N E V E S , Q u i l h e r m i n a d e A z a m b u j a .
civilidade
de uma visita ao país
das Damas.
colecionados
Lisboa, 1850.
para
Entretenimentos
uso da puerícia
brasileira
sobre
de ambos
os deveres
da
os sexos.
Rio
d e J a n e i r o : T i p . C i n c o de M a r ç o , l a . e d . , 1 8 7 5 .
10. Para as o r i g e n s d o s m a n u a i s d e e t i q u e t a e c i v i l i d a d e , cf. A R I E S , P h i l i p p e .
social
da criança
e da família.
1 1. R E V E L , J a c q u e s , o p . c i t . , p.
História
Rio de J a n e i r o : Q u a n a b a r a , 1 9 8 6 , p. 6 8 .
172-73.
12. I d e m , i b i d e m , p. 1 7 4 .
13. F ó r m u l a d e e d i ç ã o s u r g i d a na F r a n ç a no s é c u l o XVIII q u e p e r m i t i a a c i r c u l a ç ã o
de l i v r o s d e b a i x o p r e ç o , i m p r e s s o s e m g r a n d e n ú m e r o e d i v u l g a d o s a t r a v é s d a
v e n d a a m b u l a n t e . Cf. C H A R T I E R , Roger. " T e x t o s e e d i ç õ e s : a l i t e r a t u r a d e c o r d e l . "
In: A história
cultural:
entre p r á t i c a s e r e p r e s e n t a ç õ e s . L i s b o a : D i f e l , 1 9 9 0 , p p .
165-187.
14. S e g u n d o J a c q u e s R e v e l , " a s c i v i l i d a d e s q u e se i n s c r e v e m n a t r a d i ç ã o e r a s m i a n a
repousam,
pelo
menos
implicitamente, num duplo
postulado:
os
bons
c o m p o r t a m e n t o s p o d e m ser ensinados e a p r e n d i d o s de m a n e i r a útil e s ã o o s
m e s m o s p a r a t o d o s " . Cf. R E V E L , J a c q u e s , o p . c i t . , p. 1 9 2 .
pag. 150. jan/dez 1995
o
V
15. L o c . c i t .
16. E L I A S , N o r b e r t , o p . c i t . , p. 5 4 .
17. R E V E L , J a c q u e s , o p . c i t . , p. 2 0 3 .
18. L o c . c i t .
19. I d e m , i b i d e m , p. 2 0 6 .
2 0 . E L I A S , M o r b e r t , o p . c i t . , p p . 1 12-1 1 3 .
2 1 . I d e m , i b i d e m , p. 1 1 3 .
22. Loc. cit.
2 3 . Cf. VERARDI, Luís. Novo manual do bom-tom.
Rio de Janeiro: Laemmert, 6 a . e d . , 1 9 0 0 .
2 4 . M E V E S , Q u i l h e r m i n a d e A z a m b u j a , o p . c i t . , p. 9 .
2 5 . S I Q U E I R A , d . J o ã o d e n o s s a S e n h o r a d a P o r t a . Escola
da civilidade
portuguesa.
de política
ou tratado
prático
Pernambuco: Tip. de Santos e C i a . , 2 a . e d . , 1 8 4 5 .
2 6 . V E R A R D I , L u í s , o p . c i t . , p. 7 4 .
27. Loc. cit.
28.
nEVES,
Q u i l h e r m i n a d e A z a m b u j a , o p . c i t . , p. 5 .
29. Loc. cit.
3 0 . Cf. Elementos
de civilidade,
s . d . , p. 1.
3 1 . VERARDI, Luís, o p . cit.
3 2 . Cf. Elementos
de civilidade,
op. cit.
33. Idem, ibidem.
34. VERARDI, Luís, o p . cit.
35.
MATTOS,
l i m a r R o h l o f f d e . O tempo Saquarema.
S ã o P a u l o : H u c i t e c , 1 9 8 7 , p. 2 5 9 .
36. Idem, ibidem, pp. 259-260.
3 7 . C f . P R E I R E , Q i l b e r t o . Casa grande
e senzala.
Rio de Janeiro: J o s é Olímpio, 2 5 a .
e d . , 1 9 8 7 , p. 4 2 0 .
38. P i n H O , Wanderley.
Salões
e damas
no Segundo
Reinado.
São Paulo: Martins
P o n t e s , 1 9 7 0 , p. 2 8 4 .
3 9 . Cf. d o a u t o r Coisas
ditas.
S ã o P a u l o : B r a s i l i e n s e , 1 9 9 0 e La distinction
- critique
s o c i a l e d u j u g e m e n t . P a r i s : E d i t i o n d u M i n u i t , 1979."
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n* I -2. p. 139-152. jan/dez 1995 pag. 151
A
B
S
T
R
A
C
T
T h i s a r t i c l e s p o t l i g h t s the c i r c u l a t i o n a n d r e a d i n g of m a n u a i s o n e t i q u e t t e a n d c i v i l i t y
in Rio d e J a n e i r o d u r i n g the 19th c e n t u r y . It a l s o l o o k s i n t o h o w t h e " g o o d s o c i e t y "
endeavored
to d i s t i n g u i s h
i t s e l f by a s s i m i l a t i n g t h e
behavior
and
decorum
r e c o m m e n d e d by t h e s e b o o k s .
R
É
S
U
M
É
C e t a r t i c l e p a r l e s u r l a c i r c u l a t i o n et la l e c t u r e d e s m a n u e l s d ' é t i q u e t t e et d e c i v i l i t é
à R i o d e J a n e i r o p e n d a n t le X I X è s i è c l e . O n y t r o u v e u n e a n a l y s e d e c o m m e n t l e s
"gens b i e n " essaient d i n c o r p o r e r
livres c o m m e les plus distingues.
pag. 152. jan/dez 1995
l e s m a n i è r e s et c o m p o r t e m e n t s d é c r i t s d a n s l e s
Paulo Gomes Leite
Professor de História. Membro d o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
R e v o l u ç ã o e lieresia na
L i U i o t e c a cie mm a<tlvogaclo cie
IVIanana
"TNk
~ ^ o s Autos
Devassa
A
^
dos
Mineira, há
norte-
Domingos
V i d a l c o n f i r m o u o fato e a c r e s c e n t o u
que
que viu o livro de Raynal q u a n d o veio
os
inconfidentes,
de L i s b o a para o Brasil e m c o m p a n h i a
o ardor
revolucionário.
d o dr. J o s é P. R i b e i r o .
referência
a livros
circulavam
entre
No s e g u n d o
leis
americanos.
da
Inconfidência
excitando-lhes
as
^0ÊSSÜs,
de
r
perigosos
interrogatório a que foi
submetido, em 2 I d e julho de 1789, o
2
O padre T o l e d o disse q u e :
cel. Francisco Antônio de Oliveira Lopes
ouviu dizer a Francisco Antônio de
disse que um primo s e u , o também
Oliveira Lopes que havia u m livro de
inconfidente Domingos Vidal de Barbosa
um autor francês, que estava na m ã o
Laje, "lhe contou muitas coisas de que
de u m doutor na cidade de Mariana, o
tratava u m livro d o abade Raynal, tanto
qual
assim
fazerem os levantes, que era cortando
que sabia
de
cor
algumas
passagens
do mesmo livro".
acareação
com seu primo.
L o p e s a f i r m o u q u e o dr. J o s é
Ribeiro, de Mariana, tinha a
filosófica
e política,
1
no fim trazia
o modo
de se
numa
a cabeça ao governador e fazendo u m a
Oliveira
fala ao p o v o e repetida por u m sujeito
Pereira
História
do abade Raynal, e
erudito, e q u e este livro tinha
sido
mandado
Sua
Majestade...
queimar
por
5
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« I -2. p. 153-166. jan/ôel 1995 - pag. 153
A
C
E
Contou o tenente-coronel Francisco de
é o p r ó p r i o e m o i t a v o , c o m c a p a de
Paula Freire de A n d r a d a n u m dos seus
papel pintado, apenso desta Devassa.
depoimentos
que,
em
sua
casa,
Tiradentes, Alvarenga Peixoto, o padre
Toledo e o padre Rolim comentaram que
rio t e r m o d e e n t r e g a d a s d u a s d e v a s s a s
ao
desembargador
Sebastião
conselheiro
de
Vasconcelos
C o u t i n h o , de 2 6 de j a n e i r o de 1 7 9 1 , há
de g r a n d e s v i s t a s , p o r q u e p r o g n o s t i c o u
uma citação do apenso 26 da Devassa
o
de Minas, "que é um livro e m f r a n c ê s
levantamento
da
América
s e t e n t r i o n a l , e q u e a c a p i t a n i a de M i n a s
das leis constitutivas
Qerais. c o m o lançamento do
Unidos
tributo
da América
dos
Estados
Inglesa,
da d e r r a m a , estaria agora nas m e s m a s
trezentas e setenta páginas".
circunstâncias.
do Recueil
4
colonies
pelos
livros
que
tratavam
independência dos Estados
da
Unidos.
Segundo o padre J o s é Lopes de Oliveira,
Tiradentes
andava
procurando
bibliotecas obras relativas ao
Mos
Xavier
o abade Raynal tinha sido u m escritor
Era g r a n d e o i n t e r e s s e d o s i n c o n f i d e n t e s
dos
6
norte-americanos.
Autos
de
nas
levante
5
Devassa,
há
várias
atividade
livresca
pediu
Francisco
Alferes,
Xavier
loix
angloises,
dénomination
L'Amérique
que
Machado,
a
porta-
tem
Trata-se
constitutives
confédérées
d'Etats
des
sous
Unis
Septentrionale.
la
de
editado na
Suíça e m 1 7 7 8 , traduzido d o inglês por
C l a u d e A m b r o s e R é g n i e r . O v o l u m e foi
destacado dos autos pelo
historiador
Melo Morais," em 1 8 6 0 , e oferecido à
B i b l i o t e c a P ú b l i c a de
referências a essa intensa
do
des
7
e
Florianópolis,
tendo sido, posteriormente, transferido
para o Museu da I n c o n f i d ê n c i a , de Ouro
Preto, o n d e atualmente se e n c o n t r a .
J o a q u i m J o s é da Silva Xavier
procurou
estandarte do Regimento de Cavalaria
t a m b é m S i m ã o Pires S a r d i n h a , " l e v a n d o -
Regular, p a r a l h e t r a d u z i r u m c a p í t u l o
Ihe u n s l i v r o s i n g l e s e s p a r a l h e t r a d u z i r
da
certos
Coleção
Estados
das
Unidos
leis
da
constitutivas
dos
América
que
também
diziam
respeito a coisas da América" » ainda
8
e o capítulo que apontava vinha a ser
a seção oitava, sobre
lugares
a forma
da
segundo
o d e p o i m e n t o de
Francisco
Xavier Machado.
eleição do c o n s e l h o privado, por cujo
J o s é Álvares Maciel também trouxe da
c o n t e ú d o ser invulgar ao dito Alferes,
Europa um exemplar da coleção das leis
ele,
dos
testemunha
(F.X. M a c h a d o ) ,
Estados
Unidos,
conforme
traduziu; o qual (Tiradentes), depois ,
d e p o i m e n t o de Francisco A n t ô n i o
folheou m u i t o o m e s m o livro e c o m o
Oliveira
quem
lugar,
mental da entrada na c a p i t a n i a de Minas
deixando-lhe ficar o m e s m o livro, que
Q e r a i s de apenas dois e x e m p l a r e s das
queria
pag, 154. Jan/dez 1995
achar
outro
Lopes.
9
Há i n d i c a ç ã o
de
docu-
K
V
O
mencionadas leis: o de Álvares Maciel e
que
o d o dr. J o s é P e r e i r a R i b e i r o , a d v o g a d o
referências
em Mariana.
impressionou os estudiosos, q u e não se
Embora nunca tivesse saído do Brasil,
o c õ n e g o Luís Vieira d a Silva conseguiu
adquirir obras proibidas e incendiadas,
c o m o as de Bielfeld, Voltaire, Robertson,
Mably,
Qiannone,
/'Encyc/opédie,
e
fEsprit
de
uma seleção
dos
p r i n c i p a i s a r t i g o s d a Enciclopédia,
de
Diderot e d'Alembert. Estava, pois, a par
da revolução que se processava
no
viveu,
objeto
e
freqüentes
citações,
c a n s a m de louvar
sempre
o valor cultural e
histórico das obras que a compõem.
C o m o só acontecia e m tais casos, a
a d m i r a ç ã o , aliás j u s t a , a c a b o u por fazer
acréscimos
alterando
ao
admirável
a realidade
acervo,
d o s fatos
e
levando a falsas implicações históricas.
Apesar
da relevância
dos filósofos
iluministas ali presentes, a biblioteca
deve ser reduzida
mundo das idéias.
de
às suas
devidas
p r o p o r ç õ e s , e para isso c u m p r e atentar
C o n h e c i a as leis d o s Estados
Unidos,
como ele próprio confessou, e devia
conhecê-las muito b e m para ser aceito
como
um dos redatores
das leis da
projetada República do Brasil, ao lado
de C l á u d i o e Qonzaga.
Para i s s o , e r a
fundamental que tivesse e m mãos o
Recueil
des loix
constitutives...Assim
como pediu emprestado
Mably
ao
intendente
u m livro de
Bandeira,
possível que também tivesse
emprestado
é
pedido
a o d r . J o s é P. R i b e i r o o
e x e m p l a r d o Recueil
que ele trouxe da
Europa para Mariana. O u t r o s s i m , parecenos lícito supor que Domingos
Vidal
tenha se servido d o exemplar da obra
de R a y n a l , q u e o dr. J o s é
Ribeiro
igualmente trouxe. Recorde-se que Vidal
foi s e u c o m p a n h e i r o
de viagem de
Lisboa ao Rio de Janeiro e que sabia
trechos
de cor do
revolucionário
iluminista.
nos dois seguintes fatos:
1) R e s s a l t e - s e , e m p r i m e i r o lugar, q u e a
imaginação de alguns historiadores se
encarregou de colocar nas estantes do
cõnego livros que ali nunca estiveram,
como
a
tiistoire
philosophique
politique
des
commerce
des européens
Indes,
etablissemens
et
et
du
dans les deux
do abade Raynal , e obras de
1 0
Rousseau. Embora conste dos Autos de
Devassa
que a obra
sobejamente
de Raynal era
conhecida
dos incon-
fidentes, n ã o há n e n h u m a
evidência
concreta, nos Autos ou e m qualquer
outro d o c u m e n t o , de q u e e l a figurasse
na biblioteca d e Luís Vieira, apesar d a
sua
avidez
conhecimentos
de
informações
e
e da afinidade
de
princípios entre o ativo
revolucionário
mineiro e o incendiário autor francês. É
até p r o v á v e l q u e o c õ n e g o a t i v e s s e l i d o ,
mas uma coisa é formular uma hipótese,
A biblioteca do c õ n e g o Luís Vieira d a
Silva, notável para a época e o meio e m
e outra é materializar uma probabilidade
e pô-la numa prateleira.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n 1-2. p. 153-166, jan/dez 1995-pag,155
C
A
E
se
a r r o l a d o s no i n v e n t á r i o d a q u e l e s ã o o s
pensa, a biblioteca do cônego nào é a
do c ô n e g o . Trata-se de duas b i b l i o t e c a s
única grande b i b l i o t e c a na capitania de
c o m p l e t a m e n t e diferentes, e m b o r a haja -
M i n a s no s é c u l o
é claro - coincidência de algumas obras.
2) A o c o n t r á r i o d o q u e g e r a l m e n t e
mesmo
a
concerne
mais
XV1I1.
FÍào é, n e m
relevante
no
que
à bibliografia iluminista e
revolucionária. Sob esse aspecto, a mais
importante, embora menor quanto
q u a n t i d a d e d e l i v r o s , é a d o dr.
à
José
Pereira Ribeiro, advogado e m Mariana,
f o r m a d o pela U n i v e r s i d a d e de C o i m b r a .
O dr. J o s é P e r e i r a R i b e i r o n a s c e u e m
Congonhas do C a m p o , c o m a r c a de Vila
Rica, em 1764, e morreu em Mariana,
e m 2 8 de fevereiro de 1 7 9 8 , c o m 3 4
anos.
Bacharelou-se
em
Leis
pela
Universidade de C o i m b r a e m 1 7 8 7 e no
ano seguinte
veio para o Brasil,
O inventário dos seus bens encontra-se
companhia
no A r q u i v o da C a s a Setecentista
Barbosa Laje, trazendo a incendiaria
de
M a r i a n a . " Data d e 1 7 9 8 e traz a r e l a ç ã o
de
Domingos
em
Vidal
o b r a d e R a y n a l e as l e i s d o s
de
Estados
dos livros da sua biblioteca. São 201
U n i d o s . E r a tio ( p o r é m m a i s m o ç o )
do
obras em 4 8 6 volumes. O cônego Luís
dr.
de
Vieira da Silva tinha 2 7 6 obras e m 5 6 3
Vasconcelos,
volumes. Sabe-se, pelos Autos de Devassa
solto. D e p ô s duas vezes na
d a Inconfidência Mineira, que o dr. Ribeiro
m a s n a d a r e v e l o u e n ã o foi m o l e s t a d o .
tinha
Advogou em Mariana e foi
a
po/itique...e
Mstoire
philosophique
et
as leis dos norte-americanos,
Diogo
Pereira
Ribeiro
que foi p r e s o
e
depois
Devassa,
também
p o e t a , c o m o a f i r m a s e u s o b r i n h o , o dr.
D i o g o : "De u m a s u a v i d a d e i n i m i t á v e l e m
c o m o atrás j á ficou dito.
É importante notar que nào constam do
i n v e n t á r i o a o b r a d e R a y n a l e as l e i s d o s
Estados Unidos. A primeira obra teria
suas composições poéticas, que
todos
a d m i r a m , até m e r e c e ser c h a m a d o
Anacreonte de M i n a s " .
o
1 2
sido emprestada a Domingos Vidal, e a
Era c a s a d o c o m Rita C a e t a n a Maria de
s e g u n d a a o c ô n e g o . De q u a l q u e r m o d o ,
Sào J o s é , c o m q u e m teve c i n c o filhos e
é significativa
náo u m , c o m o j á se escreveu. O quinto
a ausência
delas
no
arrolamento dos livros, pois eram obras
nasceu depois
altamente comprometedoras.
dados constam do inventário.
foram emprestadas,
Se
p o d e m ter
não
sido
As obras
de s u a m o r t e .
iluministas (muitas
Esses
delas
q u e i m a d a s logo que se c o m e ç a r a m a
proibidas), revolucionárias e heréticas,
f a z e r as p r i s õ e s d o s c o n j u r a d o s ,
a b u n d a m e m s u a b i b l i o t e c a . Aí
para
evitar suspeitas ou represálias.
D'Alembert,
Pelo fato d e o dr. J o s é P. R i b e i r o ter s i d o
depositário dos livros do cônego
Vieira, não se pense que os
pag. 156. jan/dez 1995
Luís
volumes
Mably,
Robertson,
Febrônio,
Voltaire,
estão
Qenuense,
Bielfeld,
V a t t e l , M o n t e s q u i e u , C o n d i l l a c e Wolff.
n e n h u m a referência à o b r a de Raynal.
o
V
Ela s ó vai aparecer nas páginas d o s Autos
1) D o m i n g o s V i d a l a f i r m a q u e v i u o l i v r o
de Devassa, e é importante notar que todas
d e R a y n a l c o m o dr. J o s é P e r e i r a R i b e i r o
às vezes e m q u e ela é citada está associada
durante a viagem de regresso ao Brasil.
ao e x e m p l a r d o dr. J o s é Pereira Ribeiro.
2) D o m i n g o s V i d a l s a b i a d e c o r a l g u m a s
Pode-se até m e s m o o b s e r v a r a seguinte
passagens d a o b r a e fala sobre e l a c o m
s e q ü ê n c i a n o s Autos:
o seu primo, o também
inconfidente
RAYNAL, Guilhaume Thomaz. Histoire philosophique et politique des é t a b l i s s e m e n t s et du
commerce des e u r o p é e n s dans les deux Indes. Paris: Anable, Cost.es et Cie, 1820.
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n* 1-2. p. 153-166, jan/dez 1995-pag. 157
A
C
c o r o n e l F r a n c i s c o A n t ô n i o de
Oliveira
E
mineiros
e
excitar-lhes
o
ânimo
Lopes.
revolucionário.
3) O l i v e i r a L o p e s f a l a d o l i v r o a o p a d r e
Muitos são os livros de J u r i s p r u d ê n c i a
T o l e d o e diz q u e e l e " e s t a v a n a m ã o d e
q u e a l i se e n c o n t r a m , h a v e n d o t a m b é m
um d o u t o r n a c i d a d e de M a r i a n a " . Dá
as o b r a s - p r i m a s d a l i t e r a t u r a u n i v e r s a l ,
pormenores da obra.
gramáticas,
dicionários,
história,
geografia,
4) O t e n e n t e - c o r o n e l F r a n c i s c o d e P a u l a
Freire de A n d r a d a revela q u e , e m s u a
casa, Tiradentes,
Alvarenga Peixoto,
padre
e
Toledo
o
padre
o
Rolim
comentaram a obra. Enfim, a obra é
m i n u c i o s a m e n t e d e b a t i d a a partir
do
e x e m p l a r d o dr. R i b e i r o , o ú n i c o c i t a d o
n o s A u t o s e s ó lá c i t a d o . Mão há n o t í c i a ,
documentalmente
nenhum
comprovada,
outro exemplar
em
de
Minas
passava
para outro os dados essenciais da obra
de Raynal, de m o d o que os que
não
tiveram a o p o r t u n i d a d e de m a n u s e a r o
livro assimilaram auditivamente
sua
m e n s a g e m r e v o l u c i o n á r i a . Ma c a s a d e
Andrada, ela se transmitiu através de
uma 'leitura' coletiva, j á que a obra foi
leitura',
embora
s u p e r f i c i a l , tinha a vantagem de
ser
e s c l a r e c e d o r a , por se p r o c e s s a r
por
m e i o de d e b a t e s
Assim, os
e troca de
idéias.
inconfidentes menos cultos
tiveram a oportunidade de alcançar um
natural, filosofia e t c ,
acervo
diversificado,
A n o t á v e l b i b l i o t e c a i l u m i n i s t a d o dr.
Pereira
importante
Ribeiro
suporte
Inconfidência
contribuído
pag. 158. Jan/dez 1995
para
formando
que
um
evidencia
amplo interesse cultural.
E n t r e as o b r a s l i t e r á r i a s , d e s t a c a m - s e as
de Anacreonte, Safo, Horácio, Virgílio,
T e r ê n c i o , C í c e r o , Milton, Le Sage
Blas
de Santillane,
(Qil
uma das
novelas
m a i s lidas no s é c u l o XVIII),
Oesner,
foi
o
mais
ideológico
Mineira,
(Caramuru).
Também
merecem destaque
Fernáo
M e n d e s P i n t o , frei L u í s d e S o u s a (Vida
de dom
frei Bartolomeu
M a t i a s A i r e s (Reflexões
dos homens),
(História
(em
dois
Mártires),
sobre
a
vaidade
S e b a s t i ã o d a R o c h a Pitta
da América
botânica).
dos
vols.),
Portuguesa),
Tissot
Lineu
(Filosofia
P u f e n d o r f (Direito
Platão (Diálogo
moral).
Mencionamos
a
seguir
natural),
obras
de
escritores
iluministas (muitas
delas
proibidas)
e obras que, ou por
serem
consideradas heréticas, ou por motivos
m o r a i s , f o r a m c o n d e n a d a s p e l a Igreja:
r a z o á v e l grau de c o n s c i e n t i z a ç ã o .
José
teologia,
matemática, medicina, química, história
Durão
C o m o se v ê , u m i n c o n f i d e n t e
Tal
de
C o r r e i a Q a r ç á o , frei J o s é d e S a n t a R i t a
n a q u e l a é p o c a (até 1 7 8 9 ) .
comentada.
livros
da
tendo
conscientizar
os
1) D ' A l e m b e r t :
d'histoire
Mélanges
et de philosophie.
de
littérature,
5 vols.
D'Alembert foi, juntamente c o m Diderot,
um
dos
Enciclopédia,
organizadores
da
famosa
obra condenada nào só
o
V
pelo poder espiritual, como
6) O b r a s d e M a b l y . 11 v o l s . M a i s a d i a n t e ,
também
o e s c r i v ã o m e n c i o n a o Droit public
pelo temporal.
E m Mélanges...,
1'Europe,
D'Alembert diz que os
filósofos
e
cientistas
foram
injustamente perseguidos por causa das
suas idéias e das suas
responsabilizando
a Inquisição
proibido
na T r a n ç a por suas
audazes
em
matéria
social.
de
O
autor
da
razão , bem como
um
o b s t á c u l o às r e v o l u ç õ e s
Com
o
générale.
intuito
superstição,
de
9 vols.
Millot
a
sempre do m e s m o m o d o .
dirige
É autor de
3) Robertson: Histoire de 1'Amérique. 4 vols.
um
dos
Iluminismo
escocês,
luminares
do
afirma que
Tribunal da Inquisição, em todos
o
os
lugares onde era e s t a b e l e c i d o , tolhia o
espírito de pesquisa e o progresso das
1
O
padre
e Metafísica.
Antônio
2 vols.
Qenuense,
representante do Iluminismo italiano, é
considerado um autor perigoso.
Elementos
de teologia,
Seus
publicados em
1751, foram condenados pelo arcebispo
de Mápoles, Spinelli, e Qenuense
foi
afastado da cátedra de Teologia,
que
du Parlement.
O escrivão não
c i t a o a u t o r . P o d e s e r a Histoire
Parlement
Histoire
d'Angleterre,
du
de
Paris,
Voltaire. Mesta s e g u n d a o b r a ,
como
um
órgão
du
de Raynal , ou
Parlement
critica o Parlamento,
domésticas,
1 5
De
Statu
Ecclesiae,
de
Voltaire
apresentando-o
composto
jansenistas reacionários.
por
obra
os
p r i n c í p i o s do g a l i c a n i s m o , isto é, a
autonomia dos bispos franceses diante
da autoridade do Papa.
8) V ol ta i r e : Siècle
de Louis
XIV,
Carlos
Henriade.
O Siècle
de Louis
Berlim, em
XIV
publicou-se
1 7 5 1 , e foi
em
proibido'na
F r a n ç a . Mo f i m d o l i v r o , V o l t a i r e d i z q u e
esse século teria sido, em todos
os
aspectos, notável, se não tivesse dado
lugar à s u p e r s t i ç ã o , e q u e L u í s XIV t e r i a
s i d o o rei i d e a l , se n ã o t i v e s s e t i d o u m
jesuíta por confessor.
9) S a m u e l R i c h a r d s o n : Pamela.
ocupava desde 1741.
5) Histoire
possante
p r o i b i d a p e l a Igreja por d e f e n d e r
XII.
Letras. *
4) Q e n u e n s e : Lógica
a
7) J u s t i n o F e b r ô n i o . 2 v o l s .
sarcasmos contra os padres e os papas.
Robertson,
ataca
pois a c o s t u m a os espíritos a pensar
combater
o abade
e
a o s p r i n c í p i o s d o C r i s t i a n i s m o e às l u z e s
1 3
2) M i l l o t : Histoire
idéias
política
Inquisição, dizendo que ela é contrária
pelo
a t r a s o c u l t u r a l e m q u e a l g u n s p a í s e s se
encontravam.
de Mably, em três vols., livro
economia
descobertas,
de
4 vols.
Editado em 1 7 4 0 , o romance do escritor
inglês foi i n c l u í d o no
Prohibitorum
e m 17 4 4 .
Index
Librorum
1 6
10) O b r a s d e L i n g u e t . 5 v o l s .
Linguet, um dos que mais c o m b a t e r a m
o despotismo monárquico,
escreveu
inúmeros livros , sobre os mais variados
assuntos. Seus escritos mordazes e sua
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 155-166. Jan/dez 1995-pag.l59
extrema audácia levaram-no ao exílio e
do
à prisão, tendo sido condenado à morte
a b a d e R a y n a l , O espírito
e m 1 7 9 4 , s o b o r e g i m e d o terror. E s t e v e
a c a b e ç a de todo o p o v o d a França.
encarcerado
na Bastilha durante
dois
anos, de onde saiu e m m a i o de 1 7 8 2 .
Mo a n o s e g u i n t e , f o r a m p u b l i c a d a s e m
L o n d r e s s u a s Memórias
da Bastilha,
obra
que alcançou grande repercussão e foi
uma das mais vendidas
século XVIII.
na França no
Iluminismo
15)
Obra
elementar
Segundo
das leis
de
o
virou
Condillac,
iluminista francês.
16) Wolff: Princípios
de direito
natural.
3 vols.
Wolff foi u m d o s grandes
Iluminismo
17
francês.
nomes do
alemão.
jesuítas,
A análise de bibliotecas esbarra e m
editada em 1768, foi queimada por
várias dificuldades. Uma delas, de difícil
decreto d o Parlamento de Paris, ao pé
solução, diz respeito
Sua
História
imparcial
dos
a u m livro da
da escadaria do palácio, apesar do
biblioteca do cônego, objeto de dúvidas
'imparcial' do titulo.
e especulações e matéria
11) História
da América
Inglesa,
sem
obras
que
independência
despertavam
os historiadores.
Elementos
i n d i c a ç ã o d o autor.
As
entre
abordavam
dos Estados
grande
a
Unidos
interesse nos
intelectuais brasileiros da época.
12) B i e l f e l d : Institutions
da arte militar.
Esta o b r a , d e u m d o s m a i o r e s e x p o e n t e s
Trata-se de
Uma obra de
estratégia militar na estante
de um
sacerdote
suscita
revolucionário
indagações , suspeitas e interpretações
polêmicas. O livro estaria ali servindo o
padre-filósofo ou o
politiques.
controversa
padre-conspirador?
Sua função era formar o intelecto o u
dilacerar a carne?
do Iluminismo alemão, c o n t é m o mais
violento
ataque
que j á
se
fez à
I n q u i s i ç ã o . Diz o a u t o r q u e e r a p r e c i s o ,
Eduardo
Frieiro n á o vê mais do que
febre de i n s t r u ç ã o .
1 9
secretamente, p ô r fogo no palácio e nas
Márcio Jardim discorda d o ponto de
prisões da Inquisição, que ele chama de
vista de Frieiro, alegando que no acervo
'horrível
hediondo'.
Tribunal'
Tacha
e de
Portugal de nação
'carola e supersticiosa'.
1 8
13) Vattel: Direito
das gentes.
Obra
e
proibida
'monstro
do
cônego
n ã o se nota
nenhuma
inutilidade, "nada estava ali por acaso
numa
simples
estante".
2 0
composição
de
3 vols.
queimada
pela
Inquisição espanhola e m 1779.
Frieiro cita o d e p o i m e n t o de D o m i n g o s
Vidal na Devassa de Minas, m a s náo o
considera suficiente para provar que o
14) O b r a s d e M o n t e s q u i e u . 6 v o l s .
cônego tenha desempenhado o papel de
Montesquieu foi u m importante
estrategista militar, n ã o cita,
pag. 160, jan/dez 1995
marco
contudo,
R
V
O
%
è
o depoimento de Vidal na Devassa do
quimera ideada e m tertúlias literárias
Rio. Cotejando-se o s dois d e p o i m e n t o s ,
nem um simples devaneio romântico em
pode-se verificar que o da Devassa do
amenos entretenimentos pós-prandiais.
Rio acrescenta u m dado
Ela teve u m a f u n d a m e n t a ç ã o ideológica
importante,
através de u m a única palavra. Senão,
e
vejamos:
realmente c o u b e ao c õ n e g o Luís Vieira
"...tinha feito u m plano..."(Devassa de
Minas).
estratégica,
o
plano
militar
da Silva.
Vê-se que a participação do cõnego no
2 1
movimento
"...tinha feito u m papel..."(Devassa d o
Rio).
e
2 2
foi intensa
e da maior
relevância. Graças à sua erudição e aos
livros
que conseguiu,
foi um dos
Pela Devassa do R i o , sabe-se que o
redatores das leis s e m ser advogado e
plano do cõnego era por escrito, no
o responsável pela estratégia militar
papel, possivelmente c o m u m gráfico,
s e m ser militar. Do m e s m o m o d o q u e
e não, um simples plano verbal, u m
não leu as leis d o s norte-americanos por
palpite que entra por u m ouvido e sai
'febre de instrução', parece que não leu
pelo outro. A C o n j u r a ç ã o não foi u m a
t a m b é m o s Elementos
da arte
militar
A r e v o l u c i o n á r i a obra do abade Raynal, tachada pela Sorbonne de " d e l í r i o de uma alma í m p i a e
queimada por ordem do Parlamento f r a n c ê s . Exemplar da Biblioteca Municipal de S ã o J o ã o dei Rei.
Acervo. Rk> de Janeiro, v. 8. n' 1-2. p. 155-166. jan/dei 1995-pag.l6l
A
C
E
p e l o m e s m o m o t i v o . O fato d e ter e s s e
Unidos. Havia pressão psicológica
livro e m sua biblioteca náo prova que o
o u t r o s países s o b r e o s b r a s i l e i r o s p a r a
tenha lido, mas é provável que s i m .
fazerem também a sua independência.
A b i b l i o t e c a d o dr. J o s é P e r e i r a R i b e i r o
ajuda a esclarecer a questão, pois ele
tinha também os
militare.
Elementos
da
arte
igualmente náo era militar, mas
dos
Mais c e d o o u m a i s tarde e l a se d a r i a , c o m
luta, n a t u r a l m e n t e , e para e l a s e r i a m d e
utilidade os Elementos
da arte
militar.
A biblioteca do cônego tinha a m e s m a
apoio
característica, c o m a d i f e r e n ç a de que
i n t e l e c t u a l a o m o v i m e n t o . Por q u e u m
e m vez de obras j u r í d i c a s havia o b r a s
advogado e p o e t a se interessaria por tal
filosóficas e teológicas. Mas o interesse
a s s u n t o ? n ã o se fale o u t r a v e z e m ' f e b r e
por obras iluministas e relativas
d e i n s t r u ç ã o ' . Isso n ã o e x p l i c a t u d o . Mão
Estados
Unidos
se s a b e d e n e n h u m a o u t r a p e s s o a e m
Elementos
da
Minas, naquela época, que tivesse
o
encontravam aleatoriamente nas duas
livro. P r o c u r a m o s nos arquivos de O u r o
b i b l i o t e c a s , mas e s t a v a m dentro de u m
Preto e M a r i a n a o s i n v e n t á r i o s d e t o d o s
mesmo contexto
os oficiais do Regimento de
pondendo
é
provável
que
tenha
dado
Regular de Minas Qerais.
Cavalaria
Encontramos
alguns,
não conseguimos
outros.
Em nenhum
dos
localizar
inventários
é
arte
o
mesmo.
militar
nào
bibliográfico,
a sua presença
b i b l i o t e c a d o dr. R i b e i r o , t e m o s
na
que
examiná-la no contexto bibliográfico e m
que
ela está inserida. C o m p õ e m
acervo
obras jurídicas,
o
científicas,
literárias, e nota-se um conjunto
de
obras i l u m i n i s t a s e de obras que d i z e m
respeito aos Estados Unidos. Destacams e , s o b r e t u d o , a o b r a d e R a y n a l , as l e i s
d o s n o r t e - a m e r i c a n o s e u m a História
América
Inglesa.
Europa',
da
O dr. R i b e i r o e s t a v a n a
vivendo
em
meio
se
e
expectativas e não a uma epidemia de
f e b r e c u l t u r a l . Meias h a v i a o e x e m p l o a
ser
seguido
e
a
teoria
e
prática
bibliotecas
formavam um arsenal ideológico
Para c o m p r e e n d e r
Os
corres-
aos m e s m o s interesses
revolucionárias. As duas
consultados figura a obra.
aos
de
p r i m e i r a o r d e m , p r i n c i p a l m e n t e a d o dr.
J o s é P e r e i r a R i b e i r o , q u e p a r e c e ter s i d o
o
grande
suporte
ideológico
da
Inconfidência Mineira. Só alguns oficiais
tinham livros, porém poucos e sem nada
de e x t r a o r d i n á r i o
a notar quanto
à
revolução das idéias ou à estratégia
militar, c o m e x c e ç ã o do tenente A n t ô n i o
da Silva Brandão, em cuja
pequena
biblioteca havia uma obra da
maior
importância.
à
efervescência intelectual da é p o c a , era
Um irmão desse oficial, capitão Manuel
jovem
da Silva Brandão, esteve implicado na
e
deve
expectativa
seguindo
ter
participado
da separação do
o
pag. 162. Jan/dez 1995
exemplo
dos
da
Brasil,
Estados
Inconfidência."
O
inventário
dos
bens
do
tenente
o
V
A n t ô n i o d a Silva B r a n d ã o (que m o r r e u
juntamente
no posto d e sargento-mor)
oficiais do Regimento
foi feito e m
com uma relação
de
dos
Cavalaria
Mariana e m 1 8 2 7 . Mele, s ã o arrolados
Regular, e m cujas m a r g e n s fez o b s e r -
19 l i v r o s , e m s u a m a i o r i a d e a s s u n t o
vações acerca de alguns oficiais. A o lado
militar. C i t a m o s apenas os seguintes:
do nome do capitão Manuel d a Silva
Tratado
Brandão escreveu:
das
evoluções
militares;
Instrução
do Regimento
de
Cavalaria
Miliciana;
Máximas
da
guerra;
Instruções
militares
Instruções
de...(ilegível);
secretas
Segundo;
Das
de
muito suspeito".
Antônio
da Silva
" C o m seu efetivo,
E sobre
o
Brandão
tenente
anotou:
"Irmão do capitão Brandão; é h á b i l .
2 5
Frederico
instruções
para
a
Seria interessante saber também o que
liam os alunos de Mariana e c o m o os
infantaria.
livros chegavam até eles.
Encontramos
O manuscrito é de leitura difícil, porque
numa das prateleiras do Arquivo do
em muitos pontos
Museu d a Inconfidência, de Ouro Preto,
bastante
Arquivo
Mariana.
está c o m a tinta
apagada.
da Casa
Encontra-se
no
numa
Setecentista
de
inventários, um traslado do seqüestro
secretas
são instruções
m i l i t a r e s d e F r e d e r i c o II, r e i d a P r ú s s i a ,
um d o s maiores estrategistas do século
XVIII, a m i g o e p r o t e t o r d o s f i l ó s o f o s
i l u m i n i s t a s , e n t r e o s q u a i s V o l t a i r e . Mão
se s a b e q u a n d o e s s e p r e c i o s o l i v r o f o i
a d q u i r i d o , s e n o f i m d o s é c u l o XVIII o u
início
do século
XIX, j á que o
inventário é de 1827. O mais provável
é que esse e alguns outros volumes de
estratégia militar tenham penetrado e m
Minas Gerais na segunda metade do
século
XVIII,
Barbacena
de
fragmentos
de
dos bens do inconfidente Vicente Vieira
2 4
As Instruções
no
pilha
pois
o
visconde
considerava
o
de
tenente
da Mota, guarda-livros
João
Rodrigues
documento
de
estava
do
contratador
Macedo.
O
erroneamente
classificado como inventário de 1721,
apesar do zelo c o m que o material é ali
guardado. Esse e q u í v o c o repete
outro,
cometido no Fórum de Ouro Preto, de
onde procede o manuscrito: escreveram
na f o l h a i n i c i a l , aliás
parcialmente
dilacerada e de difícil leitura, '1721
lnventr". C o m o d i s s e m o s , trata-se de
um traslado.
encontra-se
O documento
original
no Instituto Histórico e
Qeográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro.
Antônio da Silva Brandão 'hábil', e essa
Um trecho do manuscrito nos informa
habilidade naturalmente
decorria da
que o tenente Antônio Gonçalves da
l e i t u r a e e s t u d o d e t a i s l i v r o s . E m 11 d e
Mota, testamenteiro d o padre Francisco
fevereiro de 1 7 9 0 , o visconde
enviou
de Paula Meireles, professor régio de
um ofício a Martinho de Melo e Castro,
Filosofia e m Mariana, comunicou que o
secretário
referido
da Marinha
e
Ultramar,
padre
pedira
em
seu
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n* 1-2. p. 133-166. Jan/dez 1995 - pag. 163
C
A
testamento
2 6
que fossem entregues
ao
Juizo do Fisco vários livros pertencentes
ao c o n f i s c a d o Vicente Vieira da Mota,
que os tinha e n c o m e n d a d o de Portugal
para s e r e m v e n d i d o s aos seus alunos
(não indicamos o número da
folha
porque elas não estão numeradas).
E
heresia caía e m outra.
Aí e s t á u m a p e q u e n a a m o s t r a d o
que
padres e alunos liam em Mariana. O
c õ n e g o Luís V i e i r a d a S i l v a t a m b é m t e r i a
a d q u i r i d o livros por m e i o de
Vieira
da
Mota?
Este
Vicente
é
que
h a b i t u a l m e n t e m a n d a v a vir l i v r o s
de
Os livros que o padre Meireles ia vender
Portugal para os letrados de Mariana e
aos seus alunos são, entre outros,, os
Vila Rica? Eis um indício que
seguintes:
11 v o l s . d a Lógica
reflexão e pesquisa. O capitão Vicente
Metafísica,
de Q e n u e n s e .
É
curioso
V. d a M o t a e r a g u a r d a - l i v r o s
contratador J o ã o Rodrigues de Macedo,
c u j a c a s a foi u m d o s l o c a i s d e e n c o n t r o
Qenuense
nome
dos inconfidentes . A f i r m o u a Basílio de
representativo do Iluminismo italiano,
Brito que era amigo do c õ n e g o , c o m o
sacerdote
revela Basílio e m sua c a r t a - d e n ú n c i a .
estavam
tido
os
rico
e s t u d a v a m nas o b r a s d o p a d r e A n t ô n i o
ou
que
do
alunos
perigoso.
notar
e 10 d a
merece
Qenovesi,
como
avançado
Apesar disso, suas
e
obras
em muitas bibliotecas
de
2 7
Mo t r a s l a d o d o a u t o d e s e q ü e s t r o d o s
bens de Mota, Luís Vieira figura c o m o
padres e leigos da c a p i t a n i a de Minas
um dos seus devedores.
Qerais. liada podia deter o fluxo das
e n t r e o s d o i s e as r e l a ç õ e s d e c o m p r a e
i n o v a ç õ e s . Era d i f í c i l m a n t e r a o r t o d o x i a
venda ou de e m p r é s t i m o levam-nos a
num mundo marcado pela inquietação
considerar
mental e pelo
i n t e r m e d i a ç ã o de Mota na a q u i s i ç ã o de
alvoroço
aspirações. Quem
pag 164. Jan/dez 1995
das
escapava de
novas
uma
a
livros do c õ n e g o .
A
amizade
possibilidade
da
R
V
H
1.
O
O
T
A
S
AUTOS d a D e v a s s a d a I n c o n f i d ê n c i a M i n e i r a ( A . D . I . M . ) . E d i ç ã o d a C â m a r a d o s
D e p u t a d o s e d o G o v e r n o d o E s t a d o d e M i n a s G e r a i s , 1 9 7 6 , vol.11, p . 6 7 .
4
2.
I d e m , i b i d e m , II, p p . 1 0 0 - 1 0 1 .
3.
I d e m , i b i d e m , V, p p . 1 4 9 - 1 5 0 .
4.
I d e m , i b i d e m , V, p . 1 7 3 .
5.
I d e m , i b i d e m , I, p. 2 0 6 .
6.
I d e m , i b i d e m , I, p p . 1 8 9 - 1 9 0 .
7.
I d e m , i b i d e m , VII, p. 1 2 5 .
8.
I d e m , i b i d e m , I, p. 1 9 0 .
9.
I d e m , i b i d e m , II, p. 4 6 .
10. R e c e n t e m e n t e , f o i t r a d u z i d a p a r a o p o r t u g u ê s a Révolution
de /'Amérique,
do
abade Raynal. Esse trabalho pioneiro se deve a Regina Clara Simões Lopes, e m
e d i ç ã o d o A r q u i v o n a c i o n a l . R i o , 1 9 9 3 . Para m a i o r e s i n f o r m a ç õ e s a c e r c a d a o b r a
do grande iluminista francês, veja-se o substancioso estudo introdutório dos
professores Luciano Raposo de A l m e i d a Figueiredo e Oswaldo Munteal Filho.
1 1 . 2 ° Ofício, códice 5 1 , auto 1.162.
1 2 . REVISTA D O A R Q U I V O P Ú B L I C O M1MEIRO, a n o I, f a s c í c u l o 3 , 1 8 9 6 , p p . 4 4 7 - 4 4 8 .
o
13. C f . a e d i ç ã o d o s i r m ã o s M u r r a y , L e i d e n , 1 7 8 3 , 4 v o l . , p. 3 2 1 .
o
14. Cf. a e d i ç ã o d e P i s s o t , P a r i s , 1 7 8 0 , I
o
v o l . , pp. 3 5 0 - 3 5 1 .
1 5 . Cf. a e d i ç ã o d e B a i l l y , G e n e b r a , 1 7 7 6 , 2 v o l . , p p . 4 1 8 - 4 1 9 .
o
16. C f . Index Librorum
Typis Polyglottis
Frohibitorum,
Vaticanis,
1 7 . Ver DARTOri, R o b e r t .
SS.MI D . M . PP. X l l iussu editus
anno
MCMXLV1II.
pp. 3 5 4 e 4 0 7 .
Boêmia
literária
e Revolução.
São Paulo: Companhia das
Letras, 1 9 8 7 , pp. 144-145.
18. Cf. a e d i ç ã o d e S a m u e l e J e a n L u c h t m a n s , L e i d e n , 1 7 7 2 , v o l . 3 . , p p . 1 5 e 2 2 .
o
19. Cf. O diabo
na livraria
2 0 . Cf. A Inconfidência
do cõnego.
Mineira
Itatiaia e USP, 2 e d i ç ã o , 1 9 8 1 , p. 3 7 .
a
- u m a síntese factual. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 1989, pp. 2 8 2 e 3 5 5 .
2 1 . A . D . I . M . , I, p. 2 1 4 .
2 2 . A . D . I . M . , IV, p. 1 4 6 .
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. %* 1-2, p. 153-166, jan/dez 1995 - pag 165
23. J o s é Cruz Rodrigues Vieira considera-o "um sério simpatizante do movimento".
Cf. Tiradentes
: a Inconfidência diante da história. Belo Horizonte: 1 9 9 3 , 2
o
vol.,
2° t o m o , p . 7 0 3 . O í l i a m J o s é c o n s i d e r a q u e h o u v e u m a " p r o t e ç ã o e s t r a n h a , e m
meio a tanto e x c e s s o de poder", aos capitães M a x i m i a n o de Oliveira Leite e Manuel
da Silva Brandão, e x c l u í d o s da devassa, " e m b o r a sabidamente c o m p r o m e t i d o s
p e l o m e n o s p o r o m i s s ã o " . Cf. Tiradentes.
Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974,
p. 2 3 5 .
24. I
o
Ofício, códice 1 0 1 , auto 2 . 0 9 6 .
2 5 . A . D . I . M . , VIII, p p .
255-257.
2 6 . O t e s t a m e n t o , d e 2 9 / 3 / 1 7 9 3 (o ó b i t o d e u - s e e m 1 7 9 4 ) , e n c o n t r a - s e n o A r q u i v o
d a C a s a S e t e c e n t i s t a d e M a r i a n a ( L i v r o d e R e g i s t r o d e T e s t a m e n t o s n° 4 2 ,
I
o
Ofício).
2 7 . A . D . I . M . , I, p. 1 0 0 .
A
B
S
T
R
A
C
T
Dr. J o s é P e r e i r a R i b e i r o , a t t o r n e y in M a r i a n a , a U n i v e r s i t y of C o i m b r a g r a d u a t e , o w n e d
t h e m o s t i m p o r t a n t i l l u m i n i s t l i b r a r y of M i n a s Q e r a i s i n t h e
18th century,
n o t e w o r t h y in thi s r e g a r d ( a l t h o u g h a bit s m a l l e r ) t h a n t h e f a m o u s l i b r a r y
more
belonging
to c a n o n L u í s V i e i r a d a S i l v a . Dr. R i b e i r o ' s i n v e n t o r y c o m p r i s e s n u m e r o u s
books
r e g a r d e d as s u b v e r s i v e a n d p e r n i c i o u s , m a n y of t h e m b a n n e d by p u b l i c a u t h o r i t i e s
a n d the C h u r c h .
R
É
S
U
M
É
Me. P e r e i r a R i b e i r o J o s é , a v o c a t à M a r i a n a , a fait s e s é t u d e s à T U n i v e r s i t é d e C o i m b r e ;
il p o s s é d a i t la p l u s i m p o r t a n t e
d e s L u m i è r e s . De c e p o i n t d e
b i b l i o t h è q u e d e 1'état d e s M i n a s Q e r a i s s u r le S i è c l e
vue, quoique m o i n s vaste, elle était plus remarquable
q u e la f a m e u s e b i b l i o t h è q u e d u C h a n o i n e L u í s V i e i r a d a S i l v a . D a n s 1'inventaire d e
Me. Vieira figure une grande q u a n t i t é de livres c o n s i d e r e s c o m m e s u b v e r s i f s
p e r n i c i e u x , p l u s i e u r s i n t e r d i t s par le p o u v o i r c i v i l et par 1'Eglise.
pag. 166, jan/dez 1995
et
Cláudia Heynemann
Mestre e m História Social d a Cultura - PUC/RJ.
Chefe d o Setor de Pesquisa d o Arquivo Nacional.
E d i ç õ e s perigosas?
a Encyclopédie
para Rofeeré
Darnton
A
o escolher o
philosophes.
tema
Certamente
da
Encyclopédie
discussão
para abordar a obra de
Robert
Darnton,
intenção
é
oportunidade
a
caráter
nossa
de
ter
de articular
limites
este
*"»•""*"
a história
como
presentes
no
deste
de
a s s i m , a Encyclopédie,
a
Encyclopédie,
pensarmos
no
artigo
e
a sua própria conceituaçào e
delimitação
sugere
Luzes,
e da Ilustração, bem
c o n j u n t o de s u a p r o d u ç ã o . A s s i m , falar
certamente
das
o
sabemos ser inesgotável o tema'
do Iluminismo
um livro como
sobre
a
ultrapassa e m muito os
a
objeto a outros temas relacionados c o m
da leitura
que
espaço-temporal.
seu conteúdo
Ainda
marcada
filosófico
pelo
e pela sua
universo de livros clandestinos, nos
proposta
panfletos, na pornografia e e m toda u m a
conhecimento
literatura
cidade de suas imagens, pelos autores
que será
consumida
período pré-revolucionário.
também e sobretudo,
no
Significa
de
sistematização
e mesmo pela
com que contou
do
plasti-
e pelo processo de
refletir sobre as
edição e comercializaçáo, é s e m dúvida
ideológicas
da Revolução e
nenhuma o centro irradiador para u m a
sobre o surgimento
dos intelectuais.
reflexão que é também sobre a natureza
origens
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n« 1-2. p. 167-182. Jan/dez 1995-pag, 167
E
C
A
de u m a h i s t ó r i a d a l e i t u r a e d a q u i l o q u e
das Luzes c o m o assinala Darnton, cabe
ela pode
discutir o que é uma história da obra, o
comunicar
cultural.
Às
como
história
infinitas
imagens
que se pode contar sobre ela
espelhadas pelo 'livro sobre um livro',
tantos
acrescentamos então um
verbetes
publicados,
autores
e colaboradores
centrado
em
comentário
faventure
de
estudos
Encyclopédie
E d i ç õ e s perigosas: a
para Robert Darnton
U m best seller
é paradigmático?
dissipando
de /'Encyclopédie ,
e esta
1
s e r á a h i s t ó r i a a s e r c o n t a d a a partir d e
obscuros
1 7 7 2 , quando Diderot está
leitura.
volume
concluindo
do
dictionaire
tal c o m o a o b r a se p r o p õ e a
Uma
obra
perigosa,
esta
cpnclusão das autoridades
diante
bastante
destes
Para D a r n t o n ,
esta
um
dos
t o d a s as e t a p a s d e s u a c o n f e c ç ã o , o q u e
não foi
ser.
seus
principais atrativos da p e s q u i s a , seguir
na época das Luzes, é o
L'aventure
raisonné,
e mesmo
especificidade é exatamente
sub-titulo que Robert Darnton dá ao seu
último
realizados,
analisados. A s s i m , porque partir do que
l'Encyclopédie.
o
foram
quando
volumes
é
a
francesas,
que
não
se
limitam a atingir todos os c a m p o s
do
possível
em outros
assim
certos
em relação
Trata-se
metodológica,
casos,
de
que
pontos
a história
da
uma
proposta
quer
aliar
os
aspectos mais materiais da literatura do
Antigo Regime à perspectiva
empírica
b r i t â n i c a e às t e n d ê n c i a s s o c i o l ó g i c a s e
estatísticas francesas.
conhecimento, mas que promovem uma
E, é n a F r a n ç a que a h i s t ó r i a d a l e i t u r a
transformação radical, destronando
encontra seu solo mais fértil, lançando
o
antigo reino das ciências,
rearranjando
amplas
o
a
moderna. Uma história da leitura
no
setecentos aponta para reflexões
em
torno do caráter pré-revolucionário
do
universo
cognitivo:
soberana, a árvore do
razão
é
conhecimento
tem c o m o tronco a filosofia, de
onde
questões
t e o l o g i a p a r a u m lugar d i s t a n t e , p r ó x i m a
leituras, e o c o n j u n t o da o b r a de Robert
da magia negra. Apesar dos subterfúgios
Darnton
utilizados nos verbetes, das estratégias
interessante, quando pensamos que à
das entrelinhas, não p o d e m esconder o
a v e n t u r a d a Encyclopédie,
fundamento epistemológico que
análise
a antiga c o s m o l o g i a .
2
que
conteúdos
história
século,
se
os
a
saem os ramos da ciência, deslocada a
atinge
para
sobre
torna
fará
tanto
destas
mais
soma-se a
das
obras
pornográficas, do s u b m u n d o
literário,
do c o n j u n t o de livros c l a n d e s t i n o s que
Se é c l a r o p a r a t o d o s n ó s a i m p o r t â n c i a
que terá a Encyclopédie
do
pensamento
c o m o síntese
iluminista,
H o l b a c h e as c r ô n i c a s e s c a n d a l o s a s .
do
racionalismo cientificista, obra suprema
pag 168, jan/dM 1995
classificados como 'filosóficos' incluem
Para c o m p r e e n d e r m o s e s t e u n i v e r s o , é
Robert Darnton
U aventure
de F Encyclopédie
1775-1800
Préface d'Ernmanuel Le Roy Ladurie
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2. p. 167-182. jan/dez 1995-pagl69
A
C
E
fundamental analisar todos os aspectos
paixão investida nos objetos familiares
que e n v o l v e m a p r o d u ç ã o do livro no
que nós admiramos sobre a prateleira
século
as
de nossas bibliotecas e temos dia após
diversas perguntas que Darnton formula
d i a e m n o s s a s m ã o s . Por t r á s d a s o b r a s
e
do Antigo Regime se d i s s i m u l a uma
XV11I,
que
tendo
podem
em
mente
se
multiplicar
infinitamente. Algumas delas têm um
lugar c e n t r a l p a r a o s p r e s s u p o s t o s d e s t e
artigo: c o m o os grandes
intelectuais,
como
o
movimentos
das
Luzes,
repercutem na s o c i e d a d e ? Até o n d e são
e n t e n d i d o s ? Q u a l a m e d i d a de
influências?
De
que
suas
forma
p e n s a m e n t o dos f i l ó s o f o s se
o
revestiu
q u a n d o se m a t e r i a l i z o u s o b r e o p a p e l ?
O que revela essa empresa sobre
transmissão
das
idéias?
a
Como
funcionava o mercado literário e que
papel tiveram os editores, livreiros
e
outros intermediários da comunicação
cultural?
vasta comédia h u m a n a .
4
A c o n v i v ê n c i a e n t r e as o b r a s d a ' m a i s
adiantada filosofia' c o m a mais 'reles
pornografia', c o m o a t e s t a m as fontes
por ele utilizadas, se dá no a m b i e n t e da
sedição,
na v a l o r i z a ç ã o
das
obras
proibidas que c i r c u l a m na T r a n ç a neste
período, trazendo ainda o
surgimento
de u m novo p e r s o n a g e m : o i n t e l e c t u a l ,
esse n o v o tipo s o c i a l , h o m e m de l e t r a s
3
deste país tão peculiar que é a Prança
literária, u m a República das Letras. Esse
n o v o t i p o e s c a p a às c a t e g o r i a s c l á s s i c a s
do
Antigo
Regime:
"pode
estar
na
3
academia francesa, mas dorme também
Todas estas q u e s t õ e s c o n v e r g e m para a
sob os forros, vive nos cafés e se nutre,
o p ç ã o do autor de tratar a literatura
como
c o m o u m s i s t e m a de
esperanças".
concentrando-se
protagonistas:
comunicação,
em seus
principais
autores,
editores,
livreiros e leitores, descortinando assim
uma história dos livros que se
indica
Voltaire,
de
'rimas
e
6
P r o c u r a r p e r c e b e r as regras d o j o g o d o
mundo
literário, uma sociologia
literatura c o m o e s p a ç o de poder,
da
com
seus campos opostos, alinhamentos e
desenrola no contexto h u m a n o , rica e m
doutrinas, certamente é uma o p ç ã o que
personagens pitorescos; os homens e
negligencia a análise do texto literário
mulheres que fabricaram e venderam
e
os livros
e
c o m p r e e n s ã o de u m s i s t e m a , de u m a
sangue. Eles c o m e r c i a r a m , blefaram,
cultura literária na qual os intelectuais
espionaram,
representam uma força social.
são criaturas de c a r n e
mentiram.
Eles
arruinaram e fizeram fortuna
se
dando
dos
assim,
indivíduos,
em
favor
da
Busca
prioritariamente, assinalar o
livre c u r s o a toda g a m a de e m o ç õ e s
lugar desta R e p ú b l i c a das Letras
humanas.
sociedade do Antigo Regime, e m uma
pode-se
pag, 170. Jan/dez 1995
Procurando-os
conhecer,
apreciar a intensidade
da
leitura que, por
um lado, recusa
na
a
V
R
relação imediata entre
Revolução,
as obras e a
mas que
incessantemente
ao
se
reporta
período
pré-
O
conteúdo das idéias iluministas, dos
leitores destas obras e do sentido das
reformas
empreendidas
e
propostas
revolucionário, no sentido de reafirmar
naquele m o m e n t o . S e é certo q u e para
o caráter literário da Revolução,
responder a pergunta inicial, 'o que liam
a
"revolução no interior d a r e v o l u ç ã o " .
A intelligentsia,
o s f r a n c e s e s n o s é c u l o XVIII', é p r e c i s o
7
essa categoria que se
apresenta ao público através de seus
escritos sediciosos, merece de Darnton
uma
demografia
e uma sociologia
histórica, ainda que não se proponha a
biografar
os 'gênios'
individuais.
É
preciso estabelecer q u e m é escritor na
França pré-revolucionária, e para tal ele
esclarece u m pouco sobre suas fontes
c o m o o a l m a n a q u e La France
littéraire,
cujo aparecimento e m 1752 j á indica
u m a acurada crítica de fontes c o m o os
inventários das bibliotecas, nas quais
não figura a bíblia d a R e v o l u ç ã o ,
contrato
social,
inferências
O
e de onde uma série de
serão
realizadas,
não é
menos correto dizer que efetivamente
o Contrato
estava pouco divulgado na
França pré-revolucionária. O que nào
exclui
o espirito
crítico das Luzes,
presente na visão de m u n d o da qual a
Encyclopédie
será o signo.
mudanças na República das Letras do
A Revolução não era de modo
Antigo Regime, onde os compiladores
pensada pelos homens das Luzes, ainda
cada vez mais incluem nomes, c o m o o
que esta se aproximasse, o que não
faz o i n c a n s á v e l L a P o r t e , v e r d a d e i r o e c o
elimina
dos
político dos textos sediciosos,
enciclopedistas,
um de
seus
o
caráter
algum
eminentemente
estes
redatores, descrito pela polícia francesa
críticos e virulentos papéis que circulam
c o m o " u m h o m e m de más companhias.
às v é s p e r a s d e 1 7 8 9 :
Foi j e s u í t a por oito anos e é u m grande
amigo do abade Raynal".
Uma intelligentsia
a sedição se prepara, instila-se nos
8
espíritos,
Diderot
e
recuperar
outros
social
boêmia, no elemento marginal
a arriscada alquimia que
mas podemos seguir seus traços e
e de u m a base
econômica definida, fundando-se
medir
transmuta a sedição em revolução,
filósofos, mas ainda carente de u m a
identidade
podemos
claramente seus efeitos na ação n e m
que j á se f o r m a e m
torno de Voltaire,
não
sabemos
na
c o m certeza
que ela se
comunica por u m instrumento temível:
desta
o livro.'
república letrada. Sobretudo a questão
da origem destes intelectuais e de s e u
Entre
p ú b l i c o receptor, é fundamental para a
s a b e m o s , a Encyclopédie
discussão e o debate revisionista sobre
d'Alembert. Temível pelos seus próprios
o processo revolucionário, partindo do
pressupostos,
estes
livros
temíveis,
está,
de Diderot e
como anunciamos no
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n 1 -2. p. 167-182. jan/dez 1995 - pag. 171
!
E
C
A
i n í c i o d e s t e a r t i g o , a Encyclopédie
faz u m a p e i o à r e v o l u ç ã o , e
preconiza
um capitalismo
não
sequer
avançado.
Trata-se de u m a o b r a de m e a d o s
século
em
que
não
se
do
discute
e
como
manifesto
filosófico
identificando assim, o
com a filosofia, um conhecimento
que
só
das
é
válido
porque
derivado
faculdades do espírito. Os verbetes
dictionnaire,
heresia está e m afirmar o primado da
preliminar,
razão, e da razão apenas, redesenhando
ler nas entrelinhas., r e c u r s o
o mapa do conhecimento
da censura.
que
está
préliminaire
explicito
no
o
Discours
que, e m uma breve história
,
conhecimento
abertamente as q u e s t õ e s s o c i a i s . Sua
humano,
1 0
Apesar
ao contrário do
do
Discurso
não são tão claros, é preciso
da
porâneos
estratégia,
os
lubridiador
contem-
não têm dificuldades
em
da filosofia, estabelece a genealogia
p e r c e b e r o o b j e t i v o d a o b r a . De 1 7 5 1 " ,
intelectual dos filósofos, desfere golpes
data em que aparece o primeiro tomo,
contra
até
o
tomismo
ortodoxo
e
o
a
grande
crise
de
1759,
a
cartesianismo, apresentando sua obra
Encyclopédie
c o m o u m a compilação de informações
n ú m e r o de instâncias que d e f e n d e m , é
pag. 172. Jan/dez 1995
é denunciada por um sem
o
V
c l a r o , as v e l h a s o r t o d o x i a s e o A n t i g o
de que a R e v o l u ç ã o e n g l o b a muito mais
Regime, n o entanto, o alto investimento
do que a literatura, tende a criar um
dos
sua
novo m o d o de v i d a , e é por sua p r ó p r i a
s o b r e v i v ê n c i a , através das influências
n a t u r e z a o p o s t a ao s i s t e m a c u l t u r a l d o
políticas empregadas. A polêmica sobre
Antigo Regime. Ao transformar a cultura
a obra p e r m a n e c e no entanto, enquanto
francesa, revoluciona-se a literatura, náo
a p a r e c e m o s v o l u m e s 3 a 7. Do l a d o d o s
apenas o texto, mas a sua própria noção
enciclopedistas, Voltaire empresta seu
e,
prestígio a causa, enquanto Diderot e
perspectiva fundamental de Darnton: a
d'Alembert
transformação
editores
garantem
devemos
sublinhar,
esta
é
a
encontram
como
escritores
ilustres,
sistema social. Os atos revolucionários
alguns j á c o n h e c i d o s c o m o
filósofos:
interferem d e c i s i v a m e n t e na liberdade
colaboradores,
Duelos, Toussaint,
dllolbach,
assinala
melhor
Rousseau, Turgot,
Quesnay e outros.
Darnton,
para
as
Como
nada poderia
vendas
do
que
incessante controvérsia que a
d e s p e r t a : a Encyclopédie
ser
a
de
da
imprensa,
literatura
na
liquidação
d o s m o n o p ó l i o s d a Comédie
e
da
Opera,
na
a c a d e m i a s , no f e c h a m e n t o dos salões
é um sucesso
e por fim no a n i q u i l a m e n t o do sistema
Ao
crises e m t o r n o de s u a p u b l i c a ç ã o .
Encyclopédie,
apresentar
assim
1'Encyclopédie
cumprir
a
p r o p o s t a de s i m u l t a n e a m e n t e traçar a
sua história editorial, a empresa de sua
c o n f e c ç ã o e, p o r o u t r o l a d o , i n t e r p r e t a r
o sentido que ela terá na França prérevolucionária,
sua relação com
as
idéias de c a p i t a l i s m o e de E s t a d o , as
implicações e n f i m que ela terá do ponto
de v i s t a d a r e v o l u ç ã o l i t e r á r i a q u e o p e r a
no i n t e r i o r d a R e v o l u ç ã o .
de livre,
lettres,
ele levará adiante este
tema, certamente u m a tese central, da
afirmação
do
caráter
sua
análise
da
um livro,
é um jogo
m u l t i p l i c a n d o as
infinitamente.
um
de
imagens
Podemos pensar
que
assim funciona seu p r ó p r i o m é t o d o para
n ó s , s e u s l e i t o r e s . Ele se p e r g u n t a r á e m
um certo m o m e n t o , porque a literatura
foi tão i m p o r t a n t e para os f r a n c e s e s ,
como
Philinte
encontraram
tempo
para
o
de Molière, e n q u a n t o nas ruas
há u m a l u t a d e s e s p e r a d a e m t o r n o d o
que será o novo regime. A sua resposta
é o caráter literário da Revolução. Mas,
E m o u t r a de s u a s o b r a s , Qens de
gens
espelhos,
1 2
Darnton afirma que
livro sobre
de
procura
das
obra
a n o a a n o , e n q u a n t o se d e s e n r o l a m as
Darnton
Française
destruição
de p r o t e ç ã o da c o r t e .
Laventure
das
c o r p o r a ç õ e s de l i v r e i r o s , na a b o l i ç ã o
e d i t o r i a l , m u l t i p l i c a n d o as s u b s c r i ç õ e s
Em
como
literário
da
Revolução. Nela está implícita a crença
poderíamos
perguntar:
porque
a
literatura é tão importante para Robert
D a r n t o n ? De q u e p o n t o d e o b s e r v a ç ã o
e l e se s i t u a ?
Por u m l a d o , a o d e m a r c a r a h i s t ó r i a d a
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n 1-2, p. 167-182. jan/dez !995-pag.l73
f
A
E
C
leitura c o m o um c a m p o específico
conhecimento,
ele
anuncia
r e c o n s t r u ç ã o , é na verdade a tese de
de
que
Darnton. Ele dirá, então, que
é
enquanto
c h e g a d o o m o m e n t o de aliar a teoria
produtos do sistema literário particular
literária à história dos livros:
ao Antigo
A teoria pode revelar a variedade nas
"eles
reações potenciais a um texto, ou seja,
por
história pode mostrar que as leituras
realmente ocorrem, ou seja, dentro dos
limites de um corpo imperfeito de
argumentaria
em
Por
isso
prol
de
eu
uma
estratégia d u p l a , que c o m b i n a r i a a
análise
empírica.
textual
com
a
pesquisa
15
análise
do
sistema
de
c o m u n i c a ç ã o , p r o p õ e a incorporação da
teoria literária c o m o instrumento
para
uma história da leitura. É ainda, a nosso
ver, u m a l e i t u r a e x t e r n a a o t e x t o ,
no
s e n t i d o d e u m a c r í t i c a q u e n à o parte d o
próprio objeto,
da obra de arte,
das
condições internas à escrita, mas que é
em parte
alcançada
em
momentos
p r i v i l e g i a d o s de s e u t e x t o , c o m o q u a n d o
analisa o
Philinte
personagens
de
1789
modelado
Molière - e terminam em
1794
i n t r o d u z i n d o - o no c o r a ç á o d e u m a n o v a
cultura política".
1 4
Caberia aos intelectuais encontrar uma
ordem nesse novo regime.
Suprimidas
as i n s t i t u i ç õ e s
do
literárias
R e g i m e , as n o v a s f o r m a s
cultura
uma
partir
Antigo
literárias
figuram agora c o m o e l e m e n t o s de u m a
A s s i m , a despeito de anunciar a o p ç ã o
por
a
sistema literário - o espaço
dirigem a leitura sem determiná-la. A
(...).
começam
da
a literatura:
capturando o centro sagrado do antigo
aos constrangimentos retóricos que
evidência
Regime, os escritores
Revolução revolucionam
que
de
Molière,
com
se
movem
sem
qualquer alusão ao que neste m o m e n t o
a c o n t e c e nas r u a s .
revolucionária
e
o
fazem
retornando à experiência anterior.
entanto,
Darnton
assinala
que
Revolução teve uma amplitude
ultrapassou a compreensão
que foram seus artistas.
se
de
um
Mo
a
que
daqueles
Diferenciando-
revisionismo
mais
disseminado, corrente, ele define
que
" a m e u ver, é u m a r e v o l u ç ã o t o t a l e m
seu programa, e segue na s u a prática
u m a r e v o l u ç ã o no t e m p o , no e s p a ç o e
nas r e l a ç õ e s p e s s o a i s c o m o n a p o l í t i c a
e
na
sociedade"
portanto,
1 5
,
estando
de u m f e n ô m e n o
além,
político
derivado do d i s c u r s o de t e ó r i c o s c o m o
Rousseau e Sieyès.
P e r c e b e r que a r e c o n s t r u ç ã o s o c i a l d a
Ma o b r a de D a r n t o n p e r s i s t e a q u e s t ã o
realidade passa pela volta aos temas
básica da repercussão
herdados
movimentos
do
enquadrando
gêneros
Antigo
familiares,
impossibilidade
pag. 174. jan/dez 1995
Regime,
suas observações
da
nos
assinalando
tarefa
dos
grandes
intelectuais como o
das
L u z e s , na s o c i e d a d e . M a i s d o q u e u m a
a
questão, ela é em si u m a p r e m i s s a , e é
de
através dela que se opera a sua análise.
o
V
R e t o m a n d o a s s i m , a o p o s i ç ã o Voltaire/
na R e p ú b l i c a das Letras
Rousseau, ele conclui que Robespierre
Regime
e seu papel
no
Antigo
processo
baniu o riso da República da virtude.
revolucionário
Eles sabiam muito bem o que faziam.
discussão
Esta era u m a e m p r e s a i m p o r t a n t e ,
' r e v i s ã o ' o p e r a d a p o r D a r n t o n , se d á e m
nada menos do que a reconstrução
uma perspectiva bastante específica, e
social
talvez seja
da
realidade.
Também
sobre
está
do
no centro
o revisionismo.
um excesso
da
A
de Le Roy
começaram uma tarefa que Rousseau
Ladurie incluir o autor c o m o um dos
lhes
"quatro mosqueteiros do revisionismo
deixou.
Uma
tarefa
tão
extravagante que ultrapassa o nosso
pré-revolucionário",
entendimento - a correção de Molière.
faventure
16
O lugar q u e estes intelectuais o c u p a m
Diderot, Denls et alll. Encyclopédie.
no prefácio
de /'Encyclopédie,
à
ao lado de
Furet, Daniel Roche e Qayot.
Dictlonnalre r a l s o n n é des sciences, des arts et des m é t i e r s .
Paris: Briasson, 1751 - 1780, 35 vols.
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 167-182, jan/dez 1995-pag.l75
E
c
Renovar a c o m p r e e n s ã o das origens
Para L a d u r i e , a s L u z e s e s t ã o l o n g e d e
intelectuais e culturais
serem especificamente burguesas,
a
fortiorí
o
da França,
significa de q u a l q u e r f o r m a ,
repensar
capitalistas, aprofundando
q u e m são estes intelectuais e qual o caráter
perfil de u m a Ilustração vinculada à
das Luzes. É D a r n t o n q u e m se interroga
nobreza, extremamente poderosa nas
sobre o conceito de ' r e v o l u ç ã o burguesa'.
cidades
Cia resultará burguesa talvez, pelos seus
reavaliando
objetivos finais, m a s intelectualmente as
E s t a d o , " c o m o se m u i t a á g u a n ã o t i v e s s e
L uzes , d a s quais s ã o i n q u e s t i o n á v e i s o s
corrido s o b as pontes d o S e n a desde
prolongamentos revolucionários, estão
flugues
ligadas a u m p ú b l i c o receptor apenas e m
estatísticas
dos
parte ligado às f o r m a s vanguardistas d o
Encyclopédie,
cuja c o n c e n t r a ç ã o se d á
capitalismo b u r g u ê s .
em cidades dominadas pela nobreza,
Diderot, Denis et alii. Encyclopédie.
"o monstro
Capet".
1 7
Ladurie
francesas,
feudal", o
parte das
compradores
Dlctionnalre r a i s o n n é des sclences, des arts et des m é t l e r s .
Paris: Briasson, 1751 - 1780, 35 vols.
pag. 176, jan/dez 1995
setecentistas
da
R
muito
O
V
mais
do
que
em
cidades
Neste
ponto,
o
prefácio
torna-se
caracteristicamente
comerciais.
Os
bastante interessante por efetuar u m a
compradores/leitores
urbanos da obra
genealogia das academias e sociedades
concentram-se
no clero,
na fraçáo
científicas, e os pontos
de clivagem
esclarecida da nobreza e e m u m a certa
entre os aristocratas e o Terceiro Estado,
porção da burguesia que compõe-se de
o processo constitutivo das academias,
notáveis que vivem de renda fundiária,
das sociabilidades
arrendatários que têm ganhos derivados
composição
do
cultura típica do cristianismo
Estado,
funcionários
públicos,
militares, médicos, advogados
e t c . Mo
científicas, sua
e a passagem
para a cultura
de u m a
de origem
clássico
antiga e
coração dessa clientela enciclopedista,
renascentista, cartesiana e voltairiana
há o E s t a d o , a q u i c l a s s i f i c a d o c o m o u m
que
Estado
progressivo movimento
citadino,
modernidade,
matriz
da
a despeito
nossa
de uma
distinguem
as a c a d e m i a s . Um
que torna os
membros das academias,
"igualitários
aparência indiscutivelmente tradicional,
no interior de si m e s m o s , culturalmente
da p e s s o a d o rei e d o s ritos de etiqueta
enciclopedistas"
da corte.
sociedade
O que ele enuncia
neste
de
1 9
,
típicos
de uma
corporações.
As
prefácio, é que os m e m b r o s o u satélites
sociedades científicas serão o palco de
deste Estado, justamente
por estarem
uma diferenciação entre aristocracia e
em
atentos
Terceiro Estado.
seu interior,
transformações
estruturas
estão
às
sócio-políticas das
burocráticas
e
gover-
integra
A Encyclopédie
à desestabilização
se
de um
conjunto de sócio-culturas do Antigo
namentais, preparando uma revolução,
Regime,
à s u a maneira, que irá muito
conjunto c o m toda u m a crise financeira,
deles.
adiante
avalia
Ladurie.
Em
política e de subsistência, entre os anos
1 8
Não d e v e m o s exagerar, adverte Ladurie.
Não os façamos
responsáveis
pelas
Luzes n e m pela Revolução, que eles
involuntariamente a j u d a r a m a preparar.
Afinal,
como
por
volta
de
1 7 8 0 , os
de 1787 e 1 7 8 9 , vai abaixo o "edifício
que uma geração de cupins intelectuais
haviam
vigas".
previamente
roído
até as
2 0
De q u e f o r m a a Encyclopédie
se integra
comerciantes das pequenas cidades não
a este p r o c e s s o ? A p r o d u ç ã o e difusão
se i n t e r e s s a v a m
da o b r a , s u a singularidade,
nem pela aquisição,
n e m p e l a l e i t u r a d a Encyclopédie.
um dos
Eles
atrativos que ela oferece c o m o objeto
estavam muito ocupados e m comprar
para u m a história d a leitura no Antigo
tapeçarias para decorar suas casas. Não
R e g i m e , n o s traz n o v a m e n t e a m e t á f o r a
interpretavam
do j o g o
mundo.
nem transformaram
Idéias,
política
e
o
reformas
estavam na cabeça de intelectuais.
de e s p e l h o s ,
pois
do seu
conteúdo filosófico à sua materialidade,
há u m d e s d o b r a m e n t o
incessante de
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2, p. 167-182. jan/dez 1995-pagl77
A
C
questões que apontam de certa forma
grupo, Darnton identifica u m a tendência
para u m a q u e s t ã o f u n d a d o r a : o q u e l i a m
d o s Annales
o s f r a n c e s e s n o s é c u l o XV11I? A i n d a q u e
Lucien Febvre,
um único livro n ã o possa responder esta
história literária, segundo o qual o livro
pergunta, a história das suas
edições
gera um 'atraso'. A inércia sufocaria o
contém
origens
espírito
o debate
intelectuais
Antigo
sobre
as
da Revolução,
Regime,
sobre
sobre
o
o
campo
específico de c o n h e c i m e n t o que pode
que aplica um princípio de
que atravessa toda a
de inovação
no quadro
cultura literária do Antigo
da
Regime e
quanto maior o número de livros, mais
a inércia se instalaria, entravando
o
ser a história d a leitura e n ã o m e n o s
progresso.
importante, senão u m a exegese, u m a
crescente interesse pelas
análise bastante aprofundada do que
científicas, os franceses e m sua maioria
séria
continuaram a ler o s livros clássicos e
a
síntese
do
pensamento
Assim,
a
despeito
do
publicações
iluminista e do enciclopedismo, uma
religiosos
herança que ultrapassa e m muito seu
c o n s e q ü ê n c i a de todo este raciocínio é
espaço-tempo.
que
as Luzes
correntes
Porque,
seja
ou
empreendimento
nào,
o
maior
da história do livro,
como proclamaram seus editores,
a
Encyclopédie
o
foi
certamente
acontecimento mais extraordinário do
s é c u l o XVIII. E s t a a f i r m a ç ã o d e D a r n t o n ,
ancorada
no m e r c a d o
período, tornando
editorial
mensurável
do
esta
" c o n c r e t i z a ç ã o d a s L u z e s " , traz e m s i
2 1
alguns debates
mais relevantes,
historiográficos, dos
sobre o alcance da
o b r a . De u m l a d o , a v i s ã o d e q u e a s
Luzes são u m vasto
movimento que
modifica a opinião pública, de outro, os
que liam
seus
pais.
não penetraram
mais profundas
A
nas
da cultura
tradicional, constituindo um fenômeno
superficial s e m efeito sobre a maioria
dos
O
indivíduos.
estudo
2 2
de uma única
obra
não
permite avaliar a influência
exercida
pelo livro e m geral, adverte
Darnton,
tarefa q u e ele d e s d o b r a r á n o c o n j u n t o
de s u a o b r a , p e s q u i s a n d o o universo da
literatura
diversos
clandestina
gêneros
através
que a
dos
compõe.
Conforme ele elabora no capítulo "Os
leitores
respondem
fabricação
a Rousseau:
da
a
sensibilidade
romântica" :
2 3
que a c o n s i d e r a m c o m o u m m o v i m e n t o
s u p e r f i c i a l restrito a u m c í r c u l o p e q u e n o
" q u a n d o o s philosophes
de intelectuais.
a conquista do mundo,
empreenderam
com o seu
mapeamento, sabiam que o sucesso
A primeira tese está representada por
historiadores
como Tocqueville,
tiazard, Gustave
medida,
Lanson
Daniel Mornet.
pag. 178, jan/dez 1995
Paul
e e m certa
Mo s e g u n d o
dependeria
de s u a habilidade e m
imprimir sua visão
de mundo nas
mentes de seus leitores. Mas c o m o
V
ocorreria
esta operação? O q u e , de
participam de u m vasto processo
pelo
fato, era a leitura na França do s é c u l o
qual as idéias repercutem através das
XVIII?'.
artérias comerciais e se infiltram e m
Responder a esta questão, compreender
esta e x p e r i ê n c i a q u e n o s é tão familiar
e
o
no
entanto
tão
distante
historicamente, eqüivale a "penetrar e m
um mistério mais profundo - saber c o m o
as p e s s o a s s e o r i e n t a m n o m u n d o d e
símbolos tecido e m torno delas por sua
cultura".
2 4
todos os recantos do continente. Sabem
que são os agentes das Luzes,
porque
vêem na difusão destas idéias, u m a
"mina de ouro"
trabalhar
a ser explorada. Ao
2 5
com
comercialização
o
mercado
do livro,
da
Darnton
realiza aquela que é u m a de suas
propostas
metodológicas,
a de um
sistema de comunicação onde
figuram
Um d o s v e í c u l o s para este m u n d o s ã o
diversos
as f o n t e s u t i l i z a d a s p o r D a r n t o n e m s u a s
operários, livreiros, editores, todos eles
pesquisas, destacando-se os arquivos da
participantes da C o m é d i a humana. É na
Société Typographique de Meuchãtel,
comercialização
u m a casa editora suiça. Mais d o q u e as
entre oferta e d e m a n d a q u e cerca a
fontes impressas o u q u e os d o c u m e n t o s
publicação e circulação da
oficiais de Estado, os arquivos das casas
em suas diversas edições, da primeira
editoras permitem um contato c o m o
a t é a Encyclopédie
mundo d o s livros tal c o m o ele era no
Panckoucke,
século
XVIII.
artesãos,
da obra, na relaçào
Encyclopédie
méthodique
de
que ele localiza uma
estes
p r i m e i r a r e l a ç ã o entre o l i v r o e o e s p í r i t o
capitalista, e é na 'ferocidade' dos
exata d a história do livro propriamente,
editores que se c o n f i r m a m os dados
desde j á p o d e m o s saber q u e Voltaire e
estatísticos:
Rousseau são e n d e r e ç a d o s a u m vasto
enciclopedismo.
e
Encyclopédie
que
o
que
como
documentos n ã o permitam u m a idéia
público
Ainda
personagens
sucesso
da
t e s t e m u n h a o atrativo q u e
as L u z e s r e p r e s e n t a m p a r a a s c l a s s e s
superiores
e m é d i a s , s e n ã o para as
massas que fazem a Revolução.
No
entanto,
há u m a avidez
pelo
2 6
é também
na
própria
afirmação d o grande alcance das Luzes,
que
o autor
inicia u m a espécie de
caminho de volta, náo no sentido de sua
relativização, mas do rompimento de
Nào é u m f e n ô m e n o restrito a França,
u m a r e l a ç ã o d i r e t a e a u t o m á t i c a entre a
mas m e s m o q u e os estudos estatísticos
Encyclopédie
náo possam ser efetuados para
outros
Ou seja, que ela não nos responde sobre
mais
as o r i g e n s i n t e l e c t u a i s e i d e o l ó g i c a s d o
países
(refere-se aos lugares
e a Revolução
Francesa.
'distantes' c o m o Ásia e América), pode-
processo
se p e r c e b e r a r e a l i d a d e d o m e r c a d o d e
obra é muito vasta e n à o p o d e m o s saber
livros.
que tipo de influência terá tido
Os
livreiros
sabem
que
desencadeado
em 1789. A
sobre
Acervo. Rio dc Janeiro, v 8. n* 1-2, p. 167-182. jan/dez 1995 pagl79
E
C
A
seus leitores e muito m e n o s afirmar q u e
continuidades,
a leitura de suas milhares de páginas os
traçadas entre a e d i ç ã o de Diderot e a
impregnou de j a c o b i n i s m o .
de P a n c k o u c k e , d a s a c a d e m i a s r e a i s a o
seu sucesso
editorial
Contudo,
nos permite
perceber que
nacional
ou
ainda
enciclopedismo ao j a c o b i n i s m o ,
p a r a o p ú b l i c o d o s é c u l o XVIII a o b r a
representa u m m o d e l o de coerência.
Ela mostra que o c o n h e c i m e n t o
é
ordenado e não caótico, que o principio
d i r e t o r é a r a z ã o (...)
critérios
Instituto
linhas que podem ser
racionais
instituições
contribuem
enfim que os
aplicados
às
contemporâneas
para
desmascarar
insensatez e a iniqüidade.
a
do
como
assinala Darnton e m s u a conclusão de
faventure
entanto,
de
/'Encyclopédie.
ele apostará
no
no
caráter
igualmente significativo das rupturas.
Seu sentido está no d e s l o c a m e n t o de
um sistema cultural:
A Revolução aboliu o privilégio, principio
fundamental d o Antigo Regime, depois
2 7
ela reconstruiu
u m a nova ordem em
Mais d o q u e u m p r o d u t o d e i n t e l e c t u a i s
torno dos princípios da liberdade e
' c o r a j o s o s ' , as L u z e s f i l o s ó f i c a s - f o s s e m
igualdade.
ou não um produto do
parecer vazias hoje e m d i a , m a s elas
refinamento
Essas abstrações
podem
burguês o u , por outro lado, empresa da
tiveram
nobreza e da burguesia de Estado ou
geração revolucionária da França. A
ainda
história d a Encyclopédie
um produto
grandes
proporções
h i s t ó r i a d a Encyclopédie
mundo
naquele
que circula em
como
mostra a
- compõem um
que se desintegrou
século,
pag. 180. jan/dez 1995
e do qual
elas
se
um sentido
crucial para a
mostra como
expressaram
disseminadas
na
no
ordem
papel,
social,
ainda
e n c a r n a d a s nas i n s t i t u i ç õ e s e integradas
retém
a u m a nova visào de mundo. *
2
o
V
M
1.
O
T
DARNTON, Robert.
L aventure
A
de 1'Encyclopédie,
S
1775-1800:
un best seller au
siècle des Lumières. Paris: Librairie A c a d é m i q u e Perrin, 1 9 8 2 .
2.
I d e m , i b i d e m , p. 3 0 .
3.
I d e m , i b i d e m , p. 2 4 .
4.
DARNTON, R. Oens de lettres, gens de livre. Paris: Éditions Odile J a c o b , 1 9 9 2 , p. 10.
5.
O b s e r v a m o s q u e a Encyclopédie
6.
D A R N T O N , R . G e n s de lettres,
7.
I d e m , i b i d e m , p. 8 .
8.
I d e m , i b i d e m , p. 1 2 5 .
9.
D A R N T O N , R. Edição
é r e a l i z a d a p o r Gens de
gens de livre,
e sedição;
lettres.
o p . c i t . , p. 121.
o universo d a literatura c l a n d e s t i n a no s é c u l o
XVIII. S ã o P a u l o : C o m p a n h i a d a s L e t r a s , 1 9 9 2 , p. 1 6 1 .
10. D A R N T O N , R. faventure
de /'Encyclopédie,
o p . c i t . , p. 3 0 .
1 1 . O A r q u i v o N a c i o n a l p o s s u i a e d i ç ã o c o m p l e t a d a Encyclopédie,
12. D A R N T O N , R. Gens de lettres,
gens de livre,
1751-1780.
o p . c i t . , p. 1 6 0 .
1 3 . D A R N T O N , R. " H i s t ó r i a d a l e i t u r a " . In: B U R K E , Peter (org). A escrita-da
história.
S ã o P a u l o : U n e s p , 1 9 9 2 , p. 2 2 9 . Este t e x t o e n c o n t r a - s e t a m b é m n o l i v r o O
de Lamourette,
beijo
d e R. D a r n t o n . S ã o P a u l o : C o m p a n h i a d a s L e t r a s , 1 9 9 0 .
14. D A R N T O N , R. Gens de lettres,
gens de livres,
o p . c i t . , p. 1 6 3 .
15. I d e m , i b i d e m , p p . 1 6 0 - 1 6 1 .
16. I d e m , i b i d e m , p. 1 6 4 .
17. LADURIE,
E. L e R o y . " P r é f a c e " . In: D A R N T O N , R. Laventure
de
l'Encyclopédie,
o p . c i t . , p. 1 2 .
18. I d e m , i b i d e m , p. 1 2 .
19. I d e m , i b i d e m , p. 1 6 .
2 0 . I d e m , i b i d e m , p. 1 9 .
2 1 . D A R N T O N , R. faventure
de 1'Encyclopédie,
o p . c i t . , p. 5 5 9 .
2 2 . I d e m , i b i d e m , p. 5 6 7 .
2 3 . D A R N T O N , R. " O s l e i t o r e s r e s p o n d e m a R o u s s e a u : a f a b r i c a ç ã o d a s e n s i b i l i d a d e
r o m â n t i c a " . In: O grande
massacre
dos gatos.
Rio de Janeiro: Qraal, 1 9 8 6 .
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n« 1-2, p. 167-182, jan/dez 1995 - pag. 181
2 4 . I d e m , i b i d e m , p. 2 2 7 .
2 5 . D A R N T O N , R. L'aventure
de 1'Encyclopédie,
o p . c i t . , p. 5 7 0 .
2 6 . I d e m , i b i d e m , p. 5 7 1 .
2 7 . I d e m , i b i d e m , p. 5 8 0 .
2 8 . I d e m , i b i d e m , p. 5 8 7 .
A
B
S
T
R
A
C
T
T h i s a r t i c l e p r o p o s e s to a d d r e s s R o b e r t D a r n t o n s w o r k a n d h i s d i s c u s s i o n a b o u t the
h i s t o r y of r e a d i n g , b a s e d o n t h e a n a l y s i s c o n d u c t e d by t h i s a u t h o r , of t h e p u b l i s h i n g
of D i d e r o t s a n d D ' A l e m b e r t ' s
f r a m e w o r k of the Ancien
Regime
Encyclopédie
a n d its s u b s e q u e n t r e p r i n t s , i n t h e
a n d the F r e n c h R e v o l u t i o n , h a v i n g t h e i n t e l l e c t u a l
o r d e r s of t h e r e v o l u t i o n as its f o c a i p o i n t .
R
É
S
U
M
É
C e t a r t i c l e p r é t e n d d i s c u t e r 1'oeuvre d e R o b e r t D a r n t o n et s e s c o n s i d é r a t i o n s s u r
l h i s t o i r e d e l a l e c t u r e , à p a r t i r de l a n a l y s e faite par 1'auter d e la p u b l i c a t i o n d e
l ' E n c y c l o p é d i e , d e D i d e r o t et D ' A l e m b e r t , d e s e s é d i t i o n s p o s t é r i e u r e s , d a n s le c a d r e
de 1'Ancien R e g i m e et d e l a R e v o l u t i o n F r a n ç a i s e et a c o m m e p o i n t c e n t r a l l e s o r d r e s
i n t e l l e c t u e l s d e Ia R e v o l u t i o n .
pag. 182, Jan/diz 1995
Nireu Oliveira Cavalcanti
Arquiteto e professor d a UFF e USU. Doutorando e m História no IFCS-UTRJ.
A
l i v r a r i a do T e i x e i r a e a
c i r c u l a ç ã o de l i v r o s n a c i d a d e
do
N
o
Rio
de
Relatório
J a n e i r O o em
d
os que organizaram o Relatório,
governo do vice-r«
por
Luís de Vasconcel
entre
funcionavam
livreiros.
de
1
1779
quatro
e
de
J á os Almanaques de 1792 e
1 7 9 4 registram apenas u m a loja
enquanto o de 1 7 9 9 registra d u a s .
2
inclusiva
comerciantes
livros, b e m c o m o restauradores
1789,
oficinas
entanto, nesses documentos
uma visão
englobando
consta que na cidade do Rio de
Janeiro,
1794
Ho
não são
de
e
encadernadores - enquanto aqueles que
elaboraram os Almanaques consideraram
apenas
os
que
efetivamente
comercializavam o s livros? Haveria por
acaso essa especialização, diferenciando
o livreiro
que comercializa,
daquele
discriminados q u e m eram os livreiros
considerado
proprietários dessas lojas o u oficinas.
e s c l a r e c i m e n t o recorri às o b r a s d e Rubens
De i m e d i a t o s u r g e a i n d a g a ç ã o : P o r q u e
B o r b a d e M o r a i s , W i l s o n Martins e J o s é
essa diminuição no n ú m e r o de lojas
T e i x e i r a d e O l i v e i r a q u e f o r a m m u i t o úteis
entre 1 7 7 9 e 1 7 9 9 se nesse p e r í o d o a
q u a n t o à a b o r d a g e m d a q u e s t ã o geral d a
população
crescera
cultura d o m i n a n t e d a c i d a d e n o p e r í o d o
expandira
? Teria
diferenciados
de
e a cidade
havido
parte
se
critérios
de
cadastrou essas lojas? Teriam
quem
optado,
artífice?
setecentista, m a s pouco
E m b u s c a de
esclarecedoras
n o tocante a o s livreiros d o R i o d e J a n e i r o
nesse
período.
3
Através
da obra de
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2, p. 183-194. jan/dez 1993 - pag 183
C
A
E
Morais t o m e i c o n h e c i m e n t o d a a t i v i d a d e
população consumidora de livros. Era a
de u m livreiro d e V i l a R i c a ,
chamado
cidade do Rio, nesse período, a segunda
Manuel Ribeiro dos Santos, que atuava
mais importante do Brasil e por onde
e m m e a d o s d o s é c u l o XVIII.
Segundo
passava todo o comércio mineiro c o m
esse autor o negociante era u m misto
o Reino. Possuía um excelente mercado
de l i v r e i r o e d e d o n o d e e m p ó r i o :
consumidor
formado de funcionários
dos diversos órgãos d o poder p ú b l i c o , de
Ma l o j a d e R i b e i r o S a n t o s v e n d i a m - s e
os
produtos
da
terra
e
artigos
i m p o r t a d o s tais c o m o t e c i d o s ( baetas,
bretanhas),chapéus, botas, cobertores,
c e r a , v e l a s e t c . Ma m e s m a c a r t a e m
que
encomendava
livros
ao seu
correspondente e m Lisboa pedia outras
mercadorias
como
d i r í a m o s hoje) ... Ribeiro d o s Santos,
pelo q u e se d e p r e e n d e de suas cartas,
biblioteca
particular,
principalmente de livros de direito. As
cartas
revelam
bibliográfico
conhecimento
e certo
gosto
pelos
e x e m p l a r e s b e m e n c a d e r n a d o s ... h ã o
de s e r d a s i m p r e n s a s ( e d i ç à o , d i z e m o s
hoje) a s m a i s m o d e r n a s e ú l t i m a s e q u e
n e n h u m seja impresso senão de 1720
em diante, c o m títulos dourados nas
costas. Os mais dourados e melhores;
todos novos e nenhum usado e pelo
estado
de
terra
se
costumam
geralmente vender, e estando
alguns
mais caros por falta das imprensas
(esgotados) n ã o venhal
militares
graduados,
botânicos, m ú s i c o s e cirurgiões, boticários,
físicos, de artistas c o m o o s m ú s i c o s e o s
atores. T a m b é m de professores e seus
a l u n o s , artífices,
negociantes e, p o r q u e
não, dos leitores que c o m p r a v a m livros pelo
prazer d a leitura.
um
relógio de parede de autor (fabricante,
tinha
magistrados,
É evidente
que se não houvesse um
dinâmico ambiente cultural no Rio de
Janeiro
organizações
Academias
como
primeira delas foi criada e m 6 de maio
de 1 9 3 6 , c o m o título de A c a d e m i a d o s
Felizes. Era c o m p o s t a de 3 0 m e m b r o s
sob
a presidência
do
cirurgião-mor
Mateus Saraiva. Funcionou
por quatro
anos protegida pelo conde de Bobadela.
Após o encerramento dessa entidade só
se
tem
notícia
funcionando,
ano,
a
de
uma
18 d e f e v e r e i r o ,
inauguração da Academia
Médica,
outra
no a n o de 1 7 7 2 . Messe
Cirúrgica,
houve
a
Fluviense
Botânica,
Farmacêutica ou Sociedade de História
natural do Rio de Janeiro
4
as
n ã o se v i a b i l i z a r i a m . A
(resumindo
Academia Científica do Rio de Janeiro).
O r a , se e s s e l i v r e i r o d e V i l a R i c a e r a t ã o
Funcionou por um tempo maior do que
sofisticado
a anterior vindo a ser extinta e m 1779.
e exigente,
assim
deviam
ser os
mínimo
teriam
livreiros
do Rio de Janeiro
pag. 184. jan/dez 1995
como
consumidores,
o mesmo
nível
no
É
que
essa
os
Academia Científica é anterior
à da
e a sua
importante
ressaltar
Corte, q u e teve o s e u estatuto aprovado
V
o
pelo Aviso Régio de 2 4 de d e z e m b r o de
f u n d a d a n o g o v e r n o d o v i c e - r e i L u í s de
1779 c o m o título de A c a d e m i a
Vasconcelos. A sessão inaugural ocorreu
das
e m 6 d e j u n h o d e 1 7 8 6 . Para p r e s i d i - l a
C i ê n c i a s de L i s b o a .
A presidência da Academia fluminense
c o u b e a o físico J o s é H e n r i q u e
Ferreira,
autor de v á r i o s t r a b a l h o s c i e n t í f i c o s .
O
5
protetor dessa entidade foi o marquês de
Lavradio, governante ilustrado que muito
incentivou o desenvolvimento científico e
tecnológico na capitania do Rio de J a n e i r o ,
c o m o se depreende de s e u Relatório. Esse
6
vice-rei foi q u e m c r i o u o p r i m e i r o horto
botânico na c a p i t a n i a , n o m e a n d o
para
dirigi-lo
José
o acadêmico
Joaquim
foi e l e i t o o c i r u r g i ã o I l d e f o n s o J o s é d a
Costa Abreu. Essa Sociedade
na residência do professor-régio e poeta
Manuel Inácio da Silva Alvarenga situada
na
rua
do
Cano
(atual
Sete
de
Setembro). C o m o término do governo
de Luís de V a s c o n c e l o s
extingue a Sociedade
Rezende,
incentivou
também
Literária.
depois o novo vice-rei,
se
Anos
o conde
de
a reabertura
da
S o c i e d a d e o que veio a ocorrer no ano
de
Henrique de Paiva.
funcionou
1 7 9 4 s o b a p r e s i d ê n c i a de
Silva
Alvarenga. C o u b e ao p r ó p r i o c o n d e de
A terceira e última A c a d e m i a do
c o l o n i a l de que
Rio
se t e m registro
foi
Rezende, no m e s m o ano, extingui-la e m
d e c o r r ê n c i a de d e n ú n c i a s do
José
Bernardo
carpinteiro
Manuel Pereira
e
do
Landim.
Segundo estes delatores, nas reuniões
IMITAÇÃO
DE
da Silva Frade
rábula
da Sociedade eram discutidas
CHRÍSTO.
idéias
francesas. Entre os presos da Devassa
de
1794 estavam o presidente
Silva
Alvarenga e o j o v e m bacharel Mariano
L I V R O
I.
J o s é Pereira da F o n s e c a , futuro m a r q u ê s
A T O » a t a aovmà.wnm 1 i p » , ç u »
de M a r i c á .
7
Infelizmente essa d o c u m e n t a ç à o
CAPITULO
L
as
Da imitação d* Càriito pelo d**preto dê iodas a* v atilada s do
»
'% Qrgkf me ttgtte não anda em
trevo*. Slo palarra* com duo
ÍMU ÇÊristo nos txhorta k imitação d* «dl Viil* e dos «cai
Academias
não
traz
sobre
qualquer
referência quanto aos livreiros da cidade
do Rio de J a n e i r o ,
nesse período.
A
escassez d o c u m e n t a l sobre eles talvez
explique
o porquê
de os
trabalhos
sobre o assunto livreiros só lhes
dar
ênfase após o período da chegada da
C o r t e n o Rio d e J a n e i r o , e m 1 8 0 8 .
I m i t a ç ã o de C r i s t o , de T h o m a s A . K e m p i s .
Ao pesquisar
no A r q u i v o Nacional
o
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8. n» 1 -2, p. 183-194. jan/dez 1995 - pag. 185
C
E
fichário de inventários post-mortem e m
busca de dados sobre um proprietário
de c h á c a r a e m L a r a n j e i r a s ,
entre os diversos
referentes
bens
documentos
a ele
u m a parte q u e t r a t a v a d o s
de seu sogro J o s é
Teixeira.
encontrei
de
Sousa
Para m i n h a s u r p r e s a e e m o ç ã o
8
o referido Teixeira era proprietário de
uma
loja
onde
se vendiam
estando os mesmos
livros,
ali relacionados!
O 'acaso' tinha posto e m minhas mãos
u m a das trilhas para o d e s v e n d a m e n t o
da grande incógnita de c o m o se dava o
comércio
livreiro
proprietário
e
da
quem
loja
era
citada
o
no
Almanaque de 1794.
Os avaliadores dividiram o estoque da
loja e m blocos: u m classificou
como
'livros'
ainda
de
cuja
listagem
constavam mapas, estampas, óperas e
óculos;
o
'fazenda'
outro
foi listado
contendo
como
a relação
dos
I m i t a ç ã o de Cristo, de Thomas A . Kempls.
um negócio de pouca monta.
A diversificação
venda
na loja
das mercadorias
do Teixeira
à
é bem
diversos t e c i d o s , de b o t õ e s , de fios para
a s s e m e l h a d a à do livreiro de Vila Rica,
sapateiro, de lenços, meias,
Manuel Ribeiro dos Santos,
bocetas
mostrando
(pequena caixa de papelão ou madeira)
que tanto na d a cidade d o Rio de J a n e i r o
e machetes (sabre, faca de mato usada
quanto na de Minas Gerais não ocorria
na África o u i n s t r u m e n t o m u s i c a l tipo
a especialização
que hoje
cavaquinho
acostumados
a
como
também
uma
estamos
ver.
Essa
pequena viola). O estoque foi avaliado
heterogeneidade
em 2 . 5 3 4 $ 5 6 0 réis, cabendo aos 'livros'
comerciais
a importância
réis.
mesmo 'homem de negócios' é muito
de 1.389$480
de
atividades
empreendidas
por um
Comparando o valor do estoque da loja
freqüente durante o período colonial na
do Teixeira c o m o d a loja de tecidos
cidade do Rio de Janeiro.
(fazenda seca) d e Manuel Rodrigues d o s
negociantes
Santos, falecido e m 1794, que alcança
determinada
o
poderia gerar lucros atraentes levava-os
montante
podemos
de
supor
13.442$576
que essa
réis,
livraria
deveria, nesse período, ser considerada
pag. 186, Jan/dez 199S
a
percepção
transação
a participarem daquele
mesmo
pessoas
Para esses
de que
comercial
negócio. Até
que dispunham
de
o
V
recursos
mas que nào tinham
casa
Rio de J a n e i r o ,
como
fez o
jovem
comercial estabelecida poderiam se
médico Cláudio Grugel do Amaral que
transformar e m negociantes. É o caso,
escreveu, e m 1 6 7 9 , d o Rio para um
por e x e m p l o , d o padre J o s é d a Silva
amigo em Lisboa solicitando-lhe que
Brandão que e m 1805 arrematou, por
c o m p r a s s e até 7 0 $ 0 0 0 réis e m livros
1 . 0 9 7 $ 0 4 6 , u m lote de t e c i d o s de s e d a ,
segundo a lista que enviara, ou o nosso
em leilão no Real A r m a z é m d a Fazenda,
cientista e professor-régio J o ã o
do conjunto de
P e r e i r a q u e s o l i c i t o u l i v r o s a o frei J o s é
mercadorias
didas aos contrabandistas.
apreen-
Mariano da C o n c e i ç ã o Veloso que se
9
Segundo Francisco da Gama Caieiro o
m e r c a d o livreiro na d é c a d a d e noventa d o
s é c u l o XVIII "continuava v o l u m o s o e firme,
tanto e m Portugual c o m o no Brasil". O autor
cita o caso d o negociante de 'grosso trato'
da praça d o Rio de Janeiro de n o m e A n t ô n i o
Luís Fernandes q u e escreveu para s e u
correspondente e m Lisboa sugerindo: " S e
V.Mercê quizer m a n d a r - m e por s u a conta
um sortimento d e livros ... n ã o deixará d e
fazer-lhe b o a c o n t a , e se o fizer cuido q u e
não se a r r e p e n d e r á " (...).
10
T a m b é m anotei
outros c o m e r c i a n t e s e x p o r t a d o r e s
como
Manuel Pinheiro G u i m a r ã e s q u e s o l i c i t o u
licença a Real Mesa C e n s ó r i a para importar
alguns livros listados. C o m o o m e s m o nào
a f i r m a tratar-se de livros para s e u u s o é
possível que os tenha comprado
r e v e n d ê - l o s o u para atender
Manso
para
pedido de
encontrava e m L i s b o a . "
Outra via muito usada era a encomenda
direta a livreiros estabelecidos no Reino.
Na
documentação
da
Real
Mesa
Censória existente no Arquivo Nacional
da Torre do T o m b o encontram-se listas
de livros e n v i a d o s para o Rio d e J a n e i r o
pelos mais importantes
livreiros
de
Lisboa c o m o Leandro d o s Reis Carril,
J o ã o B a t i s t a R e y c e n d e , v i ú v a M a l l e n 8r
Cia, Diogo Bomgeoris,
Paulo
Martim,
B o r e l St B o r e l , v i ú v a B e r t r a n d e f i l h o ,
Francisco R o l l a n d , Pedro J o s é Reis, Luís
Cipriano Rebello, os padres oratorianos
e outros.
Não se deve desprezar
contribuição
dos fornecedores
a
não
oficiais e não legalizados que faziam
parte d a t r i p u l a ç ã o o u e r a m p a s s a g e i r o s
de algum navio q u e atracara no porto
do Rio de J a n e i r o , c o m o foi o caso d o
amigo o u familiar.
cirurgião do navio Ulisses, que trouxe
O mercado livreiro no Rio de Janeiro era
consigo sete obras de m e d i c i n a para
tão
vendê-las. O professor-régio
promissor
que comportava
a
e poeta
convivência da loja do Teixeira c o m
Manuel Inácio da Silva Alvarenga e m seu
outras
de
depoimento quando preso na Devassa
livros. A maneira mais tradicional de
de 1794 declarara que adquirira de u m
uma pessoa adquiri-los era recorrendo
marujo o livro proibido
a um amigo ou familiar que morasse no
cidadão,
R e i n o o u q u e daí s e d e s l o c a s s e p a r a o
que passara pelo Rio, vindo d a Bahia, o
fontes
de a b a s t e c i m e n t o
Direitos
do
d o abade Mably, e de u m inglês
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n« 1 -2. p. 183-194. jan/dez 1995 - pag. 187
C
A
exemplar do jornal
para cá vieram
Mercúrio.
os filhos
Por f i m ,
de
Paulo
E
Manuel da Rocha
Thiatonio
morte
Paulo Agostinho
comissário
jovem
Inácio
Acompanhando
Augusto
Martim.
Paulo Martim,
Francisco Rolland.
1 2
veio
Esses jovens que
para cá vieram p e r t e n c i a m a
famílias
francesas que se estabeleceram
como
livreiros e m L i s b o a , a partir de 1 7 2 7 .
A Congregação dos padres
1 3
oratorianos
Manuel
Carvalho.
Com a
Rodrigues
Martim, o primeiro e m 1 7 9 9 de nome
Martim e e m 1806 o
Pereira e
de
ambos
passou
o cirurgião
a
Luis
ser
Borges
S a l g a d o (antigo m e m b r o d a S o c i e d a d e
Científica
falecera
do Rio de Janeiro).
Este
em 1789 e no seu
lugar
assumiu Antônio Jacinto Machado, um
atacadista
com
Pescadores
loja
(atual
rua
dos
Visconde
na
de
Inhaúma).
que editava várias obras didáticas de
A correspondência
a u t o r i a de s e u s r e l i g i o s o s e as f a m o s a s
oratorianos
'Folhinhas' mantinha também intenso e
informações preciosas sobre o comércio
rendoso comércio desses seus produtos
realizado.
c o m o Brasil. No caso do Rio de Janeiro,
negociante descreve a dificuldade que
o s s e u s c o m i s s á r i o s - i s t o é, q u e m t i n h a
está t e n d o p a r a r e c e b e r o r e s t o d e d í v i d a
o privilégio da representação aqui - eram
que
Biblioteca l u s i t a n a , d e D i o g o B a r b o s a M a c h a d o .
pag 188. jan/dez 1995
os
mantida entre os
e A n t ô n i o J . M . nos traz
Em
uma
falecidos
delas
e
esse
anteriores
R
O
V
comissários tinham c o m a Congregação
ano correspondente, para que o m e s m o
dos Oratorianos.
possa
E m outra traz
duas
enviá-las
às
regiões
mais
importantes informações, a primeira
distantes, a t e m p o de evitar que elas
sobre a existência de livreiros na cidade
encalhem porque "depois que passa o
do Rio de Janeiro e d a dificuldade para
primeiro e segundo
a venda de a l g u m a s obras. Ele diz n u m
c o m p r a d o r e s j á não as q u e r e m .
trecho da carta:
m ê s d o a n o " os
1 4
Os 'livros' de e n t ã o
Mo que respeita os novos métodos, que V.P.
m e diz aqui, há bastante pelos livreiros, e
julgo que p o u c a saída poderào ter, s ó sendo
c o m alguma diminuição no preço que os
ditos os v e n d e m , para assim agradarem os
compradores. Das folhinhas que recebi d a
viúva, por serem fora d o tempo, s ó tenho
Os
da livraria
do
Teixeira
correspondem a 3 8 3 títulos de obras
diferentes. R e s u m i n d o todos os itens
desse
estoque,
montei
o
seguinte
quadro:
a - obras diversas (383 títulos) - 6 . 9 7 5
unidades
v e n d i d o 7 $ 6 0 0 réis, q u e p o r s e r u m a
bagatela não faço dela promessa que será
'livros'
b-
cartilhas - 198 unidades
j u n t a c o m as d o a n o que v e m (...)
A segunda i n f o r m a ç ã o d i s c r i m i n a a área
de atuação d e s s e
c - taboadas - 4 'mãos'
d - atos de várias c o m é d i a s e ó p e r a s
vendedor:
453 unidades
...e de novo m e o f e r e ç o a dizer-lhe q u e
conferindo
as f o l h i n h a s d o a n o de
e - mapas : coleções de 5 unidades 16 c o l e ç õ e s
1791 a c h o q u e vieram certas, e tendo
as r e m e t i d o para G o i á s , S à o Paulo, Vila
R i c a , Mariana e as m a i s partes
jogos avulsos - 8 unidades
onde
m a p a de b a n d e i r a s - 1 u n i d a d e
se coStuma venderem-se na capitania
das
Gerais,-
só
não tem
havido
c o n d u t o r e s para as l e v a r e m à de Mato
G r o s s o , p o i s c o m o é a parte m a i s l o n g e
f - estampas e santos - 4 0 6 unidades
g-
livros velhos - 37 unidades
h-
papel mata-borrão - 4 5 'mãos'
deste estado, são dificultosos, e os que
este a n o v i e r a m a e s t a c i d a d e j á t i n h a m
i - óculos - 1 caixa
voltado
O
quando
chegaram
as
mencionadas Folhinhas; motivo
este
p o r q u e n ã o f o r a m (...)
O referido
conjunto
desses
apresenta-se
num
383
rico
títulos
leque
de
c o n t e ú d o s variados, o que garante à loja
Antônio J . M . alertou aos
do Teixeira atender aos interesses e
oratorianos
para que e n v i a s s e m as
gostos
'Folhinhas'
em tempo
adquirente.
hábil, de no
mínimo dois m e s e s , antes de iniciar o
diferenciados
do
Os que irão
alfabetização
poderão
público
iniciar
a
adquirir
a
Acervo, Rio de Janeiro. V. B, n* 1-2. p. 183-194. jan/dez 199S-pag.l89
A
C
E
BIBLIOTHECA
L U S I T A N A ,
Hiftorica , Critica , e Chronologica,
NA Q U A L SE C O M P R E H E N D E A N O T I C I A
lios Authorcs Portuguezes, e du Obrai, que compozcraõ
ü e í J c o tempo da promulgação da Lcy da Graça até
o tempo preicote |
POR
y
DIOGO
BARBOSA
M A C H A D O »
^
Vhffiponenfe, Abbade Refervatario da Paroquial
ígreja de Santo Adriaò de Sever, e Acadêmico
do Numero da Academia Reai.
T O M O IV.
Q_CE C O N S T A D E M U I T O S A U T H O R . E S K O Y A M E K T E
vaüosado. tu IbUtethco, c it outro» iÍluftn<U>j, e eme n i i i » , u n f t t i o »
BOI cm Tomoi preiitikouí.
L I S B O A ,
Ka Oncina Patriarcal <U F R A N C I S C O L U I Z A M E N O .
M DOC LUE.
Cem «J í*í-r« K&sJ&tét.
'cartilha' e a 'taboada'. Os religiosos
best-seller
dispõem de uma gama diversificada de
Cristo,
obras q u e vai desde o s catecismos às
latina etc. O s arquitetos e projetistas
normas d o exercício sacerdotal como o
d i s p u n h a m da clássica o b r a de G i a c o m o
Pároco
B a r r o z z i o V i g n o l a - As cinco
perfeito,
C a m e l l o , o Concilio
sagrada
de Antônio
de Trento, a
Moreira
História
do Velho e r/ovo Testamento,
pag 190. jan/dez 1995
o
d a é p o c a a Imitaçáo
de
de Thomas A. K e m p i s , a Bíblia
ordens
de
arquitetura.
Para os engenheiros
e
construtores,
e m geral, há a oferta d o
R
O
V
Engenheiro
português,
de Manuel de
têm
mais
de u m autor.
Há
outras
Azevedo fortes. Há obras militares c o m o
situações de d ú v i d a s e m q u e se faz
Arquitetura
necessário a consulta a especialista da
militar,
Arte militar,
Antônio
de Antonhinho,
e Instrução
de cavalaria,
Pereira Rego.
medicina,
Há livros
botânica, livros
c o m o a Gramática
a
de
área de q u e trata a obra.
de
razões a identificaçào do material ainda
didáticos
Morais
e Silva.
A história
está
representada pelas obras de Bossuet,
Jacques
Benigne
, Millot e Plavius
J o s e p h u s c o m s u a História
Q u a n t o às obras
Alexandre
dos
judeus.
biográficas há a de
Magno,
de d o m Joào
de
Castro, do infante d o m Henrique e de
vários santos. A literatura está
muito
b e m c o n t e m p l a d a c o m as poesias de
C a m õ e s , as de f rancisco de Pina e Melo,
de
Luiz
Rafael
Soyé,
Domingos
nascimento Torres, Vasco Mousinho de
Quevedo
Castelo
poema heróico
Branco,
Afonso
a
Obviamente
livros
com seu
africano
monumental obra de Diogo
Machado,
e a
Barbosa
Biblioteca
lusitana.
não poderiam
de f i l o s o f i a , m o r a l ,
lhamento aos jovens, boas
faltar os
aconsemaneiras,
p r o v é r b i o s e adágios, e até o censurado
p e l a Igreja Lunário
informações
não foi concluída.
de Vernei, d i c i o n á r i o s
de f r a n c ê s e l a t i m c o m o o d e A n t ô n i o
de
Por essas
perpétuo,
contendo
astrológicas.
Sem
dúvida
esse
documento,
que
revelou a e x i s t ê n c i a d a livraria de J o s é
de S o u s a Teixeira,
funcionando
cidade do Rio de Janeiro,
na
em 1794,
a j u d a r á e m m u i t o a e s c l a r e c e r c o m o se
processava o c o m é r c i o livreiro na cidade
e, m a i s a i n d a , c o m o e r a o s e u a m b i e n t e
cultural.
Podemos
supor
que o rol
desses títulos poderia ser b e m maior e
mais variado
considerando-se
livreiro Teixeira,
que o
quando se deu esse
processo, estava doente e c o m mais de
70 anos, segundo o seu genro. A essas
condições adversas e desincentivadoras
para a prática de u m c o m é r c i o d i n â m i c o ,
devemos acrescentar o efeito
sobre
a
cidade
e
a
negativo
população
c o n s u m i d o r a de livros da Devassa de
Minas e d a de 1 7 9 4 , e m q u e f o r a m presos
vários intelectuais do Rio de Janeiro, e m
alguns c a s o s s i m p l e s m e n t e p o r p o s s u í r e m
u m livro c e n s u r a d o p e l a M e t r ó p o l e .
Meu interesse na q u e s t ã o do comércio
A análise do c o n t e ú d o e d a importância
e c i r c u l a ç ã o de livros e sobre as
cultural do conjunto dessas obras só
bibliotecas, na cidade do Rio de Janeiro,
poderá
a
no período setecentista. se deu de forma
identificação de cada u m a delas. É um
tangencial ao trabalho de pesquisa que
trabalho que demandará muito
estou desenvolvendo para elaboração
ser
realizada
após
tempo
e p e s q u i s a , a t é p o r q u e há c a s o s e m q u e
de tese de doutoramento em História
a escrita está i n c o m p r e e n s í v e l e outros
Urbana referente a esta cidade, no
cujo título sumário tipo
período de 1750 a 1810.
Seleta
latina
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n 1 -2, p. 183-194, jan/dez 1995 - pag. 191
a
N
1.
O
M E M Ó R I A S p ú b l i c a s e e c o n ô m i c a s d a c i d a d e d e S à o S e b a s t i ã o d o Rio d e J a n e i r o
para o uso do vice-rei Luís de V a s c o n c e l o s , por o b s e r v a ç ã o c u r i o s a dos anos de
1 7 7 9 até o d e 1 7 8 9 . In:
Revista
do Instituto
Histórico
e Geográfico
Brasileiro,
T o m o XLVI1, R i o d e J a n e i r o , 1 8 8 4 .
2.
A L M A N A Q U E S d a c i d a d e d o R i o ' d e J a n e i r o p a r a os a n o s d e 1 7 9 2 e 1 7 9 4 . In:
Revista
do Instituto
Histórico
e Geográfico
Brasileiro,
vol. 2 6 6 ;
h i s t ó r i c o d a c i d a d e d e S ã o S e b a s t i ã o d o Rio d e J a n e i r o ,
Instituto
3.
Histórico
e Geográfico
Brasileiro,
M O R A I S , R u b e n s B o r b a . Livros
ALMANAQUE
1 7 9 9 . In:
Revista
do
v o l . 2 1.
e bibliotecas
no Brasil
colonial.
Rio d e J a n e i r o :
Livros T é c n i c o s e C i e n t í f i c o s ; São Paulo: S.C.C.T. do Estado de São P a u l o , 1 9 7 9 ;
MART1MS, W i l s o n . História
da inteligência
brasileira.
Vol. I ( 1 5 5 0 - 1 7 9 4 ) . São Paulo:
Cultrix, Ed. da Universidade de São Paulo, 1 9 7 7 - 7 8 ; OLIVEIRA, J o s é Teixeira de.
A fascinante
história
do livro.
Rio d e J a n e i r o : L i v r a r i a K o s m o s E d i t o r a L t d a . , 1 9 8 4 -
8 9 , v o l . IV.
4.
M O R A I S , R u b e n s B o r b a , o p . c i t , p. 4 0 .
5.
José Henrique
filosofia
F e r r e i r a , natural de C a s t e l o B r a n c o , P o r t u g u a l , f o r m o u - s e
e m e d i c i n a na U n i v e r s i d a d e
de
Coimbra, em
1 7 6 2 . Foi
em
sócio
c o r r e s p o n d e n t e d a s S o c i e d a d e s d e M e d i c i n a de M a d r i e de E s t o c o l m o a s s i m c o m o
d a A c a d e m i a d a s C i ê n c i a s d e L i s b o a . Entre o u t r a s o b r a s p u b l i c o u Memória
a Guaxima-,
sobre
discurso crítico, e m que se mostra o dano que têm feito aos doentes
os r e m é d i o s de s e g r e d o e c o m p o s i ç õ e s o c u l t a s e t c .
6.
R E L A T Ó R I O d o m a r q u ê s d o L a v r a d i o . In: Revista
Brasileiro,
7.
do Instituto
Histórico
e
Geográfico
vol. 4 e 7 6 , 1842 e 1884.
S o b r e as A c a d e m i a s , a l é m d a s o b r a s c i t a d a s d e R u b e n s B o r b a M o r a i s , W i l s o n
Martins e J o s é Teixeira de Oliveira, consultar: C A R V A L H O , Augusto d a Silva. "As
a c a d e m i a s c i e n t í f i c a s d o B r a s i l n o s é c u l o X V I H " . In: Memórias
Ciências
de Lisboa.
da Academia
L i s b o a , 1 9 3 9 ; DIAS, Maria Odila da Silva. " A s p e c t o s
I l u s t r a ç ã o no B r a s i l " . In: Revista
do Instituto
Histórico
e Geográfico
das
da
Brasileiro,
v o l . 2 7 3 . S o b r e a D e v a s s a d e 1 7 9 4 c o n s u l t a r : AMAIS d a B i b l i o t e c a M a c i o n a l . V o l .
LX1, 1 9 3 9 , p p . 2 4 7 a 5 2 3 ; A U T O S d a D e v a s s a : p r i s ã o d o s l e t r a d o s d o Rio d e J a n e i r o ,
1 7 9 4 . R i o de J a n e i r o : A r q u i v o P ú b l i c o d o E s t a d o d o Rio d e J a n e i r o , 1 9 9 4 ; S A M T O S ,
pag .192, jan/dez 1995
K
O
V
A f o n s o C a r l o s M a r q u e s d o s . íio rascunho
da Nação:
Inconfidência no Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura/Departamento Qeral de
D o c u m e n t a ç ã o e I n f o r m a ç ã o Cultural, 1 9 9 2 , Biblioteca C a r i o c a , v o l . 2 2 ; LYRA,
Maria de Lourdes
Viana.
A utopia
do poderoso
império;
Portugual e Brasil:
bastidores da política, 1 7 9 8 - 1 8 2 2 . Rio de J a n e i r o : Livraria Sette Letras L t d a . , 1 9 9 4 .
8.
ARQUIVO n a c i o n a l . Inventário post-mortem. Maria J o a q u i n a de Oliveira.
Caixa
1 . 8 2 7 , n. 9 . 2 6 3 .
9.
A R Q U I V O n a c i o n a l . J u n t a d o C o m é r c i o , c ó d i c e 1 4 2 , v o l . 1.
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s e t e c e n t o s e n o p r i m e i r o q u a r t e l d o s é c u l o X I X " . In: Boi. Bibl.
Coimbra,
Universidade
de
3 5 , 1 9 8 0 , pp. 139 a 1 6 8 .
1 1 . A R Q U I V O n a c i o n a l d a T o r r e d o T o m b o . M S S - 2 4 5 - n. 141 (a c a r t a d e C l á u d i o
Grugel d o Amaral) e MSS, cx. 153 (os livros que foram adquiridos por J o ã o Manso Pereira):
a -
Annales
de chymic
- e u m a coleção e m brochura de várias memórias
químicas de diferentes autores - 8
b -
Chymic
c -
Recherches
d -
Analyse
e -
Affinites
f -
Recreations
- par Foureroy
sur les vegetaux
du fer-
- par Parmentier - 1 v o l . 8
chymiques
g -
Institutions
h -
Demonstração
- p a r B e r g m a m - 1 v o l . 8°
physiques,
chemic
economique
12.
nEVES,
Dicionário
d e M. M o d e l ,
9
utilidades
- brochura - 1 vol. 4
da Língua
e chymiques
- F r a n c i s c i d e W a s e r g e r g - 2 v o l . 8°
das grandes
em Portugual
g
p a r B e r g m a m - 1 v o l . 8°
traduit de A l l e m a n d - 2 vol. 8
i -
a
do Brasil
e das fracas,
e tecelagem
de
algodão
9
- brochura - 2 5 vols. 4
9
Lúcia Maria Bastos das. " C o m é r c i o d e livros e censura de idéias: a atividade d o s
livreiros franceses no Brasil e a vigilância da Mesa d o Desembargo d o Paço ( 1 7 9 5 - 1 8 2 2 ) " .
In: Ler História,
2 3 , 1 9 9 2 , pp. 61 a 7 8 .
13. D O M i n G O S , Manuela D. "Colporteurs ou livreiros? Acerca d o c o m é r c i o livreiro e m Lisboa".
In: Revista
da Biblioteca
nacional.
L i s b o a : S. 2 , 6 (1) 1 9 9 1 , pp. 109 a 1 4 2 .
14. A R Q U I V O n a c i o n a l d a T o r r e d o T o m b o . M S S , c x . 9 .
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8. n' 1-2, p 183-194, jan/dez 1995-pag,193
A
B
S
T
R
A
C
T
The a r t i c l e r e v i e w s the t r a d e , c i r c u l a t i o n a n d f o r m s of p u r c h a s e of b o o k s a n d , as a
c o n s e q u e n c e , w h a t was r e a d in Rio de J a n e i r o d u r i n g the last d e c a d e of t h e
18th
century.
T h i s s t u d y is b a s e d i n u n p u b l i s h e d d o c u m e n t s of t h e N a t i o n a l A r c h i v e s
containing
the i n v e n t o r y of J o s é d e S o u s a T e i x e i r a ' s s h o p , w h e r e b o o k s were s o l d .
R
É
S
U
M
L ' a r t i c l e fait u n e a n a l y s e d u c o m m e r c e , d e l a c i r c u l a t i o n et d e s d i v e r s e s
É
formes
d ' a c q u i s i t i o n de l i v r e s , b r e f , d e c e q u e l'on l i s a i t à la v i l l e de R i o d e J a n e i r o p e n d a n t
la d e r n i è r e d é c e n n i e d u X V I I I è s i è c l e .
C e t t e a n a l y s e est b a s é e s u r u n e d o c u m e n t a t i o n i n é d i t e a p p a r t e n a n t a u p a t r i m o i n e
d e s A r c h i v e s N a t i o n a l e s , d a n s l a q u e l l e figure 1'inventaire de 1 ' é t a b l i s s e m e n t d e J o s é
de S o u s a T e i x e i r a , o ú l ' o n v e n d a i t d e s l i v r e s .
pag 194. Jan/dez 1995
P E R F I L
I N S T I T U C I O N A L
. R e a l G&fcineée
P o© rF ét n i g u i e s i e
Leií
e i c n i r a
Antônio Gomes da Costa
Presidente
O:
Real Qabinete
Português
de Leitura foi criado e m
14 d e m a i o d e 1 8 3 7 - 15
a ser construído
o
majestoso
edifício m a n u e l i n o d a rua Luiz de
Camões,
n
9
30 - antiga rua da
anos depois da Independência do
Lampadosa - onde, em 1887, com
Brasil
de
a presença d a princesa Isabel e d o
que se propunha não
conde d ' E u , foi inaugurada a sua
-
portugueses
só
por
a promover
intelectual
dos
um
o
grupo
enriquecimento
associados,
mas
s e d e a t u a l . Mo a n o s e g u i n t e ,
procedeu-
se à ' i n s t a l a ç ã o s o l e n e d a b i b l i o t e c a ' e
também, c o m o escreveu Carlos Malheiro
é nessa altura que J o a q u i m
Dias, "concorrer para restaurar a glória
saudando
literária de s u a Pátria". Poi s e u primeiro
realçando o significado
presidente
Marcelino da
patriotismo dos que a fizeram e a beleza
e jornalista,
do traço arquitetônico, pronunciou u m a
o dr. J o s é
Rocha Cabral, advogado
o imperador
rfabuco,
d.Pedro
I e
da Obra,
o
q u e s e e x i l a r a p o r c a u s a d a g u e r r a entre
frase i n e s q u e c í v e l : "As pedras
liberais e miguelistas e m Portugal.
edifício
parecem
A instituição funcionou e m vários locais
Lusíadas'.
O autor
do centro do Rio de Janeiro:
rua São
arquiteto português Raphael da Silva e
rua dos
Castro e os recursos para a construção
Beneditinos - até q u e e m 1880 c o m e ç o u
foram conseguidos através de donativos
Pedro,
rua da Quitanda,
estrofes
deste
d'Os
do projeto foi o
Acervo, Rio de Janeiro, v. 8, n« 1-2. p. 195-198, Jan/dez 1995 -pag 195
pag. 196. jan/dez 1995
K
O
V
e contribuições d o s portugueses do Rio
de S à o J o ã o d a M a d e i r a , c o n d e d e
de J a n e i r o .
Avelar,
Durante a c a m p a n h a para a o b t e n ç ã o
desses recursos, o visconde
Cristóvão
exortava
de São
os
seus
compatriotas: "O Gabinete Português de
Leitura carece tanto de um edifício
próprio,
como
as
sociedades
de
Beneficiência Portuguesa e a Caixa de
S o c o r r o s D. P e d r o V c a r e c e m d e r e n d a
para a s u a m a n u t e n ç ã o , a primeira; e a
segunda de u m asilo que seja grande
c o m o grande é a sua missão caritativa".
e tantos outros,
todos
eles
'varões prestantes' que se entregaram
por inteiro ao s e r v i ç o e e n r i q u e c i m e n t o
da instituição. A A c a d e m i a Brasileira de
Letras, s o b a presidência de Machado
de A s s i s , r e a l i z o u
primeiras
e m sua sede as
sessões;
Ramiz
Galváo
procedeu ao trabalho de catalogaçào da
b i b l i o t e c a ; o rei d. Carlos c o n c e d e u - l h e
o título de 'Real' e a diretoria, e m 1 9 0 0 ,
a b r i u as p o r t a s d a b i b l i o t e c a a t o d o s o s
que a desejassem freqüentar.
E em correspondência ao conselheiro
Dos anos de 1 9 2 0 a 1 9 5 0 , o Real
do Reino de Portugal, J o s é d a Silva
Gabinete
Mendes Leal, e m 2 6 de maio de 1872,
m a r c a d o pela a d m i n i s t r a ç ã o de A l b i n o
Reinaldo Carlos Montoro mobilizava a
Sousa Cruz que, tendo a seu lado o
'colônia': " É chegada a hora de realizar
c o n h e c i d o escritor Carlos Malheiro Dias,
um grande
realizou um trabalho notável, que se
adiantamento
entre
os
atravessou
portugueses do Brasil...Os terrenos c o m
distinguiu, sobretudo,
a vastidão e proporções requeridas j á
e d i ç ã o d a história
foram adquiridos
portuguesa
erguer-se
e em breve
pode
no bairro das artes e d o s
no
um
período
pelo projeto de
da
colonização
Brasil,
na
qual
c o l a b o r a r a m figuras p r o e m i n e n t e s da
estudos mais este templo de c i ê n c i a . "
h i s t ó r i a , d a c i ê n c i a e d a a r te .
A beleza do edifício e o valioso acervo
Graças a u m decreto de Oliveira Salazar.
bibliográfico, que atingia milhares de
o
obras,
de
'depósito legal' desde 1936, o que lhe
inestimável valor, desde u m exemplar
enseja receber um e x e m p l a r d o s livros
d a e d i ç ã o prínceps
editados em Portugal. Graças a esse
muitas
Ordenações
delas
raras
e
de Os Lusíadas
de D. Manuel,
1521, de autoria de J a c o b
às
Real
Gabinete
é
considerado
editadas e m
privilégio, a sua biblioteca é anualmente
Cromberger,
ampliada
passaram a dar ao Gabinete
Português
com milhares
de
obras,
mantendo-se atualizada c o m o que se
de L e i t u r a u m a n o v a d i m e n s ã o , q u e e m
p u b l i c a naquele país. A atual diretoria
grande
do
procedeu à informatização do acervo,
prestígio e da influência de u m a pléiade
c o m cerca de 3 5 0 . 0 0 0 v o l u m e s , e hoje
de p o r t u g u e s e s , c o m o E d u a r d o L e m o s ,
o l e i t o r faz s u a s c o n s u l t a s e t e m a c e s s o
J o s é Duarte R a m a l h o O r t i g á o , v i s c o n d e
a o b a n c o d e d a d o s a t r a v é s d a rede e d o s
parte
também
advinha
Acervo. Rio de Janeiro, v. 8, n' 1 -2. p. 195-198. jan/dez 1995 - pag 197
terminais instalados na biblioteca.
O Real G a b i n e t e edita s e m e s t r a l m e n t e a
revista Convergência
Lusíada, distribuída por
universidades e outras associações culturais
e científicas, e que tem a colaboração exímia
e valiosa de mestres e especialistas do Brasil
e de Portugal nas áreas d a literatura, d a
história, do p e n s a m e n t o , da língua e da
0
antropologia.
Neste
momento,
está
em
curso
a
instalação de um e s p a ç o de multimídia
com produtos culturais luso-brasileiros.
Interior d a biblioteca.
No Real Gabinete funciona ainda o Centro
d e E s t u d o s , o n d e se r e a l i z a m c u r s o s e
palestras, além de concertos e exibição de
filmes e v í d e o s , s e n d o q u e t o d a s e s s a s
atividades são voltadas especialmente para
estudantes universitários.
dos
p a í s e s l u s ó f o n o s p o d e s e r s ó c i o d o Real
B
utilizar os serviços da biblioteca, participar
dos cursos e atividades do Centro de Estudos
e do Centro Cultural, receber a revista
Convergência
A esta altura, qualquer cidadão
A
Gabinete e entre os seus direitos estão o de
S
T
Lusíada e ter acesso às mais
importantes bibliotecas de Portugal c o m o
VIP-Real Gabinete'.
R
A
C
T
This article d e p i c t s the history of the Real G a b i n e t e Português de L e i t u r a , an institution
l o c a t e d in Rio de J a n e i r o a n d c o n s i d e r e d as "official depository", w h i c h grants it the
privilege of receiving a copy of ali the b o o k s p u b l i s h e d in Portugal, lts library h o l d s currently
a valuable inventory of a b o u t 3 5 0 . 0 0 0 v o l u m e s and is fully c o m p u t e r i z e d .
R
É
S
U
Cet a r t i c l e n o u s d o n n e u n e v i s i o n h i s t o r i q u e d u Real Gabinete
M
Português
É
de
Leitura
( C a b i n e t R o y a l P o r t u g a i s d e L e c t u r e ) , i n s t i t u t i o n s i t u é e à R i o d e J a n e i r o et c o n s i d é r é e
c o m m e "dépôt
legal",
c e q u i l u i p e r m e t t a i t de r e c e v o i r un e x e m p l a i / e d e t o u s l e s
livres édités au Portugal. Actuellement sa b i b l i o t h è q u e , e n t i è r e m e n t i n f o r m a t i s é e , a
un p a t r i m o i n e d e g r a n d e v a i e u r , a v e c à p e u p r è s 3 5 0 . 0 0 0 v o l u m e s .
pag 198. jan/dez 1995
B
I
B
L
I
O
G
B U R K E , Peter. A arte da conversação.
R
A
F
I
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Trad. Á l v a r o L u i z Hattnher. S á o Paulo: U n e s p ,
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dos livros:
l e i t o r e s , a u t o r e s e b i b l i o t e c a s na E u r o p a entre os s é c u l o s XIV e
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C
D A R N T O N , Robert. The forbidden
. G e n s de lettres,
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E
best-sellers
gens de livre.
de VEncyclopédie,
of pre-revolutionary
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1775-1800:
un best s e l l e r au siècle d e s L u m i é r e s .
Paris: P e r r i n , 1 9 9 2 .
. Edição
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o universo d a literatura c l a n d e s t i n a no s é c u l o XV11I. Trad. M y r i a m
C a m p e l l o . S ã o P a u l o : C o m p a n h i a das L e t r a s , 1 9 9 2 .
. Boêmia
literária
. O grande
"
e Revolução.
massacre
Sãó P a u l o : C o m p a n h i a das L e t r a s , 1 9 8 7 .
dos gatos.
São Paulo: Paz e Terra, 1 9 8 6 .
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M e s m e r e o final d o I l u m i n i s m o na F r a n ç a . Trad. D e n i s e
B o t t m a n . S ã o P a u l o : C o m p a n h i a das Letras, 1 9 8 8 .
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Bibliografia organizada pela Divisão de Pesquisa e P r o m o ç õ e s Culturais do Arquivo
Nacional.
pag.202. jan/dez 1995
Neste n ú m e r o
A n t ô n i o G o m e s da Costa
Berenice
Cláudia
Cavalcante
Heynemann
Lorelai Brilhante Kury e Oswaldo Munteal Filho
L ú c i a Maria Bastos P. Neves
Luiz Carlos Villalta
*
Marcos Alexandre Motta
Maria do C a r m o Teixeira Rainho
Nireu Oliveira Cavalcanti
Paulo G o m e s Leite
Roger Chartier
Robert Darnton
T â n i a Maria Tavares B e s s o n e da Cruz Ferreira
700-X
ARQUIVO NACIONAL