1/24 Peter Dormer Os Significados do Design Moderno. A caminho do século XXI Cap. 2 — NOVENTA ANOS DE DESIGN. O estilo em design desde 1900 Sumário das matérias neste capítulo: 1 — O direito de escolha 2 — A economia norte-americana e o design do século XX 3 — Design e consumo na Europa índice geral da obra O design do Ocidente é como é, em larga medida, devido à cultura capitalista liberal na qual se insere e a qual serve. Assim sendo, uma resenha da "história do design" no Ocidente tem de levar em conta a ideologia subjacente à história recente do consumismo. O design, tal como o próprio consumismo, não é uma actividade nem amoral nem apolítica. Neste estudo, muito é elidido, abreviado ou condensado. É claro, no entanto, que, até à data, o design tem sido alimentado por uma ideologia que assenta no conceito de crescimento contínuo. O crescimento contínuo, enquanto conceito económico, tem sido equacionado em termos da própria noção de liberdade. Comprar tanto quanto possível, tão frequentemente quanto possível, é considerado um direito, quase uma necessidade. E é uma atitude que tem beneficiado o design ocidental. No entanto, uma tal interpretação do que é a liberdade pode, por sua vez, tornar-se História. É este o tema da primeira metade deste capítulo. A segunda metade contém uma breve análise das mudanças de estilo no design. 2/24 1 — O direito de escolha O design e os designers devem muito da sua actual projecção ao facto de estarem inseridos numa sociedade capitalista e liberal em vez de estarem, por exemplo, numa sociedade marxista-leninista. Nas sociedades assim designadas (tanto quanto é possível existirem países verdadeiramente marxistas-leninistas), tudo indica que as directivas de planeamento central praticadas nesses regimes não estimularam o consumismo (excepto talvez como reacção à falta de bens essenciais). E é o consumismo, muito mais do que o desenvolvimento da indústria pesada, que dá aos designers oportunidades "criativas". A razão é simples: num ambiente industrial, a máquina tem apenas que desempenhar o seu papel; deve ser de utilização fácil e segura, mas não precisa de ter linhas que a tornem sedutora aos olhos do consumidor ou que levem o potencial comprador a adquiri-la. Numa economia de planeamento central não há necessidade de uma dúzia de tipos de máquina, quando uma só chega perfeitamente. Não é preciso um estilo metafórico ou dirigido à publicidade. O planeamento central não encoraja virtualmente qualquer espécie de sensibilidade adicional nem quaisquer elementos de design "desnecessários". O planeamento central também cerceia, com toda a probabilidade, as inovações tecnológicas. E um dos êxitos do liberalismo económico do Ocidente foi o estímulo dado à tecnologia e, possivelmente, às artes — os artistas são mais ou menos livres de explorar as formas que lhes dite a fantasia. No entanto, são as próprias liberdades do Ocidente que podem limitar tanto a eficácia como a acutilância das artes. Nos regimes autoritários, os artistas são frequentemente algumas das principais vozes da oposição e, portanto, a arte que desafia a visão oficial é sofregamente desejada, nem que seja por causa da sua diferença. No Ocidente, ser diferente é ser normal. É também duvidoso que, quando o artista está em oposição a seja o que for, a sua arte tenha assunto, além do vigor nascido da diferença. Frequentemente, a arte tem de ser construída por uma complexidade subtil e metafórica, de forma a evitar a censura filistina, não deixando contudo de revelar, a todos quantos têm olhos e ouvidos, uma visão alternativa das coisas. Os filmes do russo Andrei Tarkovsky são disso exemplo. O consumismo de tipo ocidental não começou, evidentemente, depois da Segunda Guerra Mundial, nem sequer neste século. Simon Schama, no seu "Embarrassment of the Riches" 1), transmite-nos uma imagem convincente da Amesterdão do século XVII em plena vaga consumista, com ruas e mais ruas de lojas atulhadas de gente e mercadorias. Mas foi a vaga de consumo emergente nos EUA depois da Segunda Guerra Mundial que guindou o design e o consumismo a níveis de verdadeiro excesso. 3/24 Na base deste excesso estava o extraordinário desempenho dos protagonistas da guerra durante o próprio conflito, nomeadamente os EUA. Depois da Segunda Guerra Mundial, a obsolência integrada tornou-se uma característica inerente à economia do Ocidente, talvez porque a experiência da guerra tenha actuado sobre a tolerância, partilhada por designers e fabricantes. Dado o êxito na produção de armas, que foram em seguida destruídas, é possível que esta atitude de "fazer e destruir" se tenha tornado uma ideia fixa na cultura fabril dos EUA. Existia, assim, uma crença na ética do consumo em espiral. É esta a opinião da historiadora do design norte-americano, Kathryn B. Hiesinger, no seu excelente ensaio introdutório a "Design Since 1945", catálogo da exposição com o mesmo nome, realizada no Museu de Arte de Filadélfia em 1983. Diz ela: "A indústria americana identificava novo com bom e defendia a obsolência planeada como um bom princípio económico: o consumidor americano espera produtos novos e bons todos os anos. Habituou-se à exposição automóvel anual... o nosso costume de trocar de carro todos os anos, de comprar novos frigoríficos, aspiradores ou ferros eléctricos de três em três ou de quatro em quatro anos é economicamente saudável... É um hábito verdadeiramente americano, e assenta saudavelmente na nossa economia de abundância". Grandes palavras, citadas por Hiesinger a partir de um livro chamado "Design for Business" , da autoria de J. Gordon Lippincott, publicado em 1947. Acreditar que o novo é bom fundamentava-se numa crença nas virtudes e na necessidade da concorrência. Não era, por si, uma crença nova, já que estava bem enraizada no espírito empreendedor do século XIX e, nos EUA, na teoria e prática de gestão comercial dos princípios do século XX. A concorrência, no capitalismo liberal norte-americano, não era um laissez-faire; tinha uma estrutura, uma organização, uma ideologia e um design. Todos estes elementos foram reconhecidos e sistematizados por F. A. Hayek, economista e sociólogo de origem austríaca que publicou, em 1944, o seu agora famoso livro "The Road to Serfdom". A intenção da obra era criticar o planeamento central socialista, sobretudo o marxista-leninista (Hayek argumentava que acabaria quase de certeza em tirania), e defender o liberalismo capitalista. Hayek tem sido, a espaços, tão denegrido como aclamado — e foi denegrido com o epíteto de fascista, o que não deixa de ser irónico tendo em vista o ataque ao fascismo que o seu livro constitui. O livro foi um estrondoso êxito nos Estados Unidos. Teve um sucesso menor e mais controverso no Reino Unido, o que é compreensível se atentarmos em que a ortodoxia política britânica entre 1945 e 1979 tendia para ideais socialistas e de economia de planeamento central. Além disso, o Reino Unido, como de resto vários outros países da Europa Ocidental, tinha montado um esquema de segurança social que parecia então (como ainda hoje) prestar um bom serviço à população. Por isso, os vigorosos argumentos de 4/24 Hayek contra o planeamento central ou governamental pareciam desajustados, quando julgados à luz de um serviço de saúde nacional, planeado centralmente, que parecia funcionar. Não obstante, há muito de atraente no liberalismo de Hayek, porque ele frisa constantemente a desvantagem de colocar nas mãos de um punhado de pessoas o poder de decidir como deve viver toda a gente. Uma análise das políticas habitacionais em muitos países da Europa de Leste, no Reino Unido e nos Estados Unidos pode mostrar quão desastrosa, e até tirânica, se pode revelar a centralização da tomada de decisões. Hayek enunciava a sua posição do seguinte modo: • 1 "O liberalismo defende o melhor uso possível das forças da concorrência como meio de coordenar os esforços do Homem; não tem o propósito de deixar as coisas tal como estão" 2). • 2 "Numa sociedade competitiva, o preço que temos que pagar por uma coisa, bem como o ritmo a que podemos trocar uma coisa por outra, depende das quantidades de outras coisas das quais, em adquirindo uma, privamos os restantes membros da sociedade. Este preço não é determinado pela vontade consciente de ninguém"3). O ponto 1 é extraordinariamente evidente e existe uma grande quantidade de provas empíricas que o sustentam: o consumismo, o design e o marketing de bens em concorrência entre si produziram um grande leque de escolhas, que manifestamente entusiasma, entretém e satisfaz o consumidor ocidental. Para só falar dos automóveis, existe concorrência bastante entre europeus, japoneses e norte-americanos para proporcionar amplas possibilidades de escolha. No entanto, mais evidente ainda é considerarmos que a concorrência nasce da coordenação e de que não é um salve-se quem puder. Para tudo o que seja mais complicado de produzir do que os potes ou os cestos feitos à mão, as pessoas têm de juntar-se para trabalhar, para projectar, para promover e para vender. Isto explica um dos fenómenos patentes nos EUA, no Japão e na Alemanha e que é o de grandes companhias competirem ferozmente entre si, ao mesmo tempo que cada uma requer dos seus empregados lealdade e empenhamento em relação à empresa com o intuito de a tornar a melhor. Hayek tomou conhecimento da profunda investigação levada a cabo nos EUA — e, de facto, ainda antes, na Alemanha, sobre a maneira como as pessoas podem ser encorajadas a trabalhar em conjunto de modo a competir com outros grupos de 5/24 pessoas igualmente a trabalhar em conjunto. Podemos constatar que os norte-americanos, como os alemães, têm um talento especial para a organização e para a racionalização. Em 1911, um norte-americano, de seu nome. Frederick Winslow Taylor, publicou um livro chamado "The Principles of Scientific Management" , destinado a tornar as forças produtivas mais eficientes, e que, visto em retrospectiva, parece ter tido como efeito sincronizar o ser humano com o ritmo das máquinas — quer fossem tapetes rolantes ou filas de máquinas de escrever nos escritórios. Mas as empresas, grandes e pequenas, depressa descobriram que esta abordagem atomística do trabalho., que tornava os trabalhadores componentes separados de uma máquina humana, precisava de ser temperada com melhores métodos de gestão. É que se constatou que o moral dos trabalhadores andava pelas ruas da amargura, a produtividade estava a diminuir e a rotação de pessoal aumentava quando os trabalhadores sentiam estar a ser encarados como coisas, em vez de pessoas com as quais se podia trabalhar. Outros sociólogos se salientaram. Um dos estudiosos das relações de trabalho foi George Elton Mayo, um australiano que emigrara para os Estados Unidos e que se tornou chefe do Departamento de Investigação Industrial de Harvard em 1926. Antes de desempenhar essa função, tinha sido contratado pela Western Electric Company de Chicago para descobrir uma solução para a insatisfação sentida pelos trabalhadores e para a baixa produtividade. Mayo fez experiências com trabalho à peça, períodos de descanso e refeições quentes grátis. Concluiu — tendo posteriormente feito a sua demonstração científica — pela importância das atitudes da gestão na prossecução de boas relações laborais. Estudou, em seguida, a importância de permitir às pessoas trabalharem em grupos naturais e fez um cuidado trabalho de investigação sobre a psicologia de grupo e os métodos através dos quais se podia estimular não só a produtividade mas uma produtividade de qualidade. Um tal design "abaixo da linha" (os designers contemporâneos encaram o design como um processo, e o design da gestão e do moral do trabalhador enquadra-se nessa visão) é um dos factores que tem permitido à indústria fabril do Ocidente alcançar a sua meta de produção de artigos de qualidade. O trabalho de Mayo e de outros contribuiu para o êxito da ética capitalista liberal, que visa proporcionar aos clientes uma verdadeira escolha do que compram. Um moral fraco sabota a qualidade: torna o melhor impossível de ser atingido 4). Numa economia concorrencial — como contraponto a uma economia de planeamento central — o conceito de "melhor" é, em larga medida, definido não pelo produtor mas pelo consumidor. E, como a história da sociedade de consumo do pós-guerra parece indicar, o melhor é definido como mais do que simplesmente "barato". "Melhor" indica também uma relação qualidade-preço mais favorável, maior confiança no produto e melhor serviço. O resultado, como se verá nos capítulos seguintes, tem sido a produção de bens de consumo duráveis, possuidores de uma qualidade e de níveis de desempenho muito superiores aos requisitos normais do consumidor. As máquinas 6/24 fotográficas, os automóveis e os computadores têm desempenhos muito superiores aos estritamente necessários. Em sociedades não liberais, o indivíduo não é livre de escolher o que quer, antes tem que contentar-se com o que uma meia dúzia de planificadores decidiu que devem ser as necessidades dos indivíduos. O resultado de tal actuação parece ser sempre, na prática, um nivelamento por baixo — em serviço, em qualidade, em design e em variedade. O designer só entra em acção quando os seus serviços são requisitados para levar a melhor sobre uma oferta da concorrência, no sentido de cativar o consumidor individual. O consumo em espiral significa também aspirações em espiral — consumo e aspirações alimentam-se mutuamente. Não é de admirar que as autoridades dos países do Bloco de Leste tenham escondido aos trabalhadores a existência de lojas especiais reservadas aos membros do Partido (nas quais se vendiam géneros ocidentais) e tivessem impedido a circulação de revistas, filmes e vídeos ocidentais que ilustram uma maneira de viver diferente. Censurar as aspirações é um dos modos de evitar a censura da populaça. Aquilo que se desconhece não se deseja. A Segunda Guerra Mundial, durante a qual todas as nações industriais se saíram bem na produção crescente de armas, foi um enorme êxito para o planeamento norte-americano (ajudado, é claro, pela circunstância de ninguém ter invadido ou bombardeado território continental dos Estados Unidos). As estatísticas são impressionantes: no período de 1943 a 1944, os norte-americanos completavam um navio por dia e um avião em cada cinco minutos; entre os aviões, contavam-se grandes bombardeiros de longo curso, como os Superfortress. A organização de fábricas e gabinetes para coordenar este tipo de produção guindou a arte do trabalho em equipa para uma nova dimensão. Os empregados norte-americanos foram bombardeados com propaganda explicando que estavam a participar na equipa que trabalhava com os "homens da frente". Análises de tempos e movimentos decompunham todas as actividades nas suas partes constitutivas, com a finalidade de optimizar o tempo de cada empregado. Nesse momento da sua história, os norte-americanos provaram ser tão competentes no macro como no microplaneamento. A introdução do Plano Marshall depois da Segunda Guerra Mundial foi simultaneamente sagaz e altruísta. Permitiu voltar a pôr de pé a Europa mais depressa do que qualquer europeu podia imaginar em 1945. Sem a ajuda (e protecção) dos Estados Unidos, a evolução da Europa Ocidental teria sido mais lenta e talvez tão amarga como a de Leste. É inegável que a América precisava de uma Europa Ocidental forte, capaz de funcionar como tampão face à União Soviética. Não obstante, quem como nós cresceu num Ocidente moldado pelo Presidente Truman, em vez de num Leste da lavra do secretário-geral Estaline, tem muito por que estar grato. Depois da Segunda Guerra Mundial, o conceito americano do esforço colectivo, consubstanciado na "Empresa", saiu reforçado. Os recém-formados alistavam-se na AT&T, na IBM ou na Coca-Cola como se fosse para toda a vida. "Sejam bons para nós 7/24 que a IBM será boa para vocês". A Empresa exigia lealdade aos seus empregados como o fariam pequenas cidades-Estado e, tal como elas, dava grande importância a uma identidade uniforme, que regesse toda a imagem e modo de actuação da empresa. A identidade institucional teve implicações no design da arquitectura, do mobiliário e do equipamento de escritório, bem como na imagem gráfica e na publicidade utilizadas pela empresa. A historiadora de design Esther McCoy explicou, no seu ensaio" The Rationalist Period" — termo que usa para a década de 50 —, que a exactidão, a padronização e o comando racional das máquinas eram vistos como uma necessidade ética para o bem da humanidade. No entanto, não diz quem fazia essa apreciação. É pouco provável que os trabalhadores considerassem "ética" a racionalização dos seus empregos e vidas. E é manifesto que nem todos assim pensaram — — tornaram-se contestatários, passavam a vida a mudar de emprego, a adoecer ou a trabalhar devagar. Daí resultou uma rápida evolução das ciências sociais ligadas à gestão de pessoal, no intuito de dar resposta a uma necessidade económica de resolução do conflito existente entre permitir que o trabalhador conserve a sua auto-estima enquanto ser criativo e autónomo e os requisitos de produção tendentes a simplificar o trabalho através de processos atomísticos (ver também págs. 147 e 155). Parece que nos EUA o conceito de "lealdade à empresa" fazia parte de uma crença quase generalizada (se bem que não exactamente aceite por toda a gente) de que a lealdade era intrínseca ao trabalho em prol do bem comum. Foi um conceito que deu bons resultados na Alemanha e que resultou (ao que parece) extraordinariamente bem no Japão. Já no Reino Unido, provou ser um conceito frágil, porque os trabalhadores eram fiéis à sua classe ou sindicato ou, embora menos frequentemente, ao seu partido político. Daí que tenha obtido piores resultados face ao esquema organizativo do todos-por-um da concorrência; não adoptou (certamente com algumas boas razões) a característica mais significativa da cultura industrial moderna: a ética organizativa, que tinha sido aperfeiçoada — e era dominada — pelos Estados Unidos. As ciências de gestão e as teorias sobre a empresa não permaneceram imutáveis. Os elementos mais feudais das grandes estruturas empresariais vão sendo postos de parte, à medida que as empresas evoluem em direcção a um sistema federal, em vez de centralizado. Decorre um intenso debate sobre o modo como as empresas podem aprender a viver com a incerteza, sobre corno devem ou deveriam ser tomadas as decisões e a que nível se verificam as tomadas de decisão mais eficazes. Parecemos estar a mover-nos sistemática e animadamente para uma liberdade de consumo cada vez maior e para ambientes de trabalho cada vez mais civilizados, democráticos, interessantes e agradáveis. O trabalhador-consumidor é, aparentemente, bem servido em todos os aspectos pelo sistema capitalista liberal. Quem precisa de planeamento central? Hayek é um herói, afinal. 8/24 Mas tal, como as ciências de gestão têm evoluído para uma situação em que o modelo feudal vai dando lugar a um modelo democrático ou federal, também o mundo exterior tem progredido. De uma maneira alarmante, a espiral de consumo começa a parecer um vórtice. De espiral ascendente dirigida aos prazeres materiais passou a ser uma espiral descendente em direcção à poluição, ao desperdício e à crise ambiental. Além disso, há um círculo cada vez maior de gestores e políticos que começa a aperceber-se de que a espiral de consumo tem, até ao presente, estado restrita a uma vintena das várias centenas de países do Mundo. O que acontecerá quando, no futuro, a ex-URSS e a China começarem a satisfazer a procura dos seus vários milhões de consumidores? O capitalismo liberal, baseado num planeamento central mínimo e num máximo de concorrência, torna-se cada vez mais desconfortável quando encarado globalmente. Se os chineses imitarem os excessos do Ocidente, eles irão estragar ainda mais o nosso Mundo. Enquanto o Terceiro Mundo se manteve simplesmente pobre, não corria o risco de entrar na esfera das liberdades e valores do consumidor ocidental. Mas brasileiros e chineses da Formosa, indianos e chineses continentais estão a dar mostras de quererem aderir às liberdades do consumismo. E exactamente na altura em que estamos a acordar para os enormes danos que estamos a provocar no meio ambiente devido à nossa ausência de planeamento central, estão eles a começar a agredir violentamente o ambiente com o seu desejo de usufruir de algumas das nossas liberdades. Ironicamente, registam-se agora alguns pedidos dissimulados do Ocidente liberal e capitalista (sobretudo dirigidos ao Banco Mundial), tendentes a assegurar uma certa dose de planeamento central. E tudo indica que, para criar um bem-estar maior, o capitalismo liberal tenha de ser moderado por uma maior intervenção do planeamento central e que, em certa medida, as escolhas dos consumidores tenham de se tornar mais restritas. A cultura surgida da Segunda Guerra Mundial, e na qual o design ganhou asas, baseia-se num misto de cooperação (do tipo descrito por Hayek) e de individualismo — quero o meu carro, o meu pedaço de estrada, a minha casa, a minha liberdade de viajar de avião e assim por diante. São liberdades positivas, liberdades cuja negação reforça os aspectos pessimistas da vida. E, no entanto, algumas delas terão de ser, em certa medida, limitadas — se através de mecanismos tributários ou de fixação de preços, em vez de recorrer a legislação especial, eis o que não é ainda claro. Vejamos um exemplo muito simples. Actualmente, 80 % das viagens são feitas pelos habitantes das vinte nações mais ricas. O que aconteceria se os habitantes da China Continental, da ex-URSS e da Índia começassem a ter dinheiro suficiente para viajar? Imagine-se o efeito sobre o meio ambiente dos seus próprios países e o de outros se mais um bilião de pessoas começasse a deslocar-se de um lado para o outro. Até agora, a ética da espiral consumista não tem sido posta em cheque porque os "outros" países do Mundo são demasiado pobres para aderirem ao clube. O consumo 9/24 em espiral tem também vivido do facto de a maioria dos consumidores não ter ainda percebido o que está a fazer. Não sabem como é produzido aquilo que compram. A culpa não é deles. O componente competitivo do mundo capitalista liberal depende da exaltação das virtudes de um produto e não da enumeração dos seus defeitos. A publicidade tem garantido que o divórcio entre as realidades situadas "acima" e "abaixo" da linha continue a ser completo. Quem é que quer saber da violência no matadouro ao trincar um bife? O planeamento central (nas formas desenvolvidas sob o marxismo-leninismo) não tem constituído uma alternativa satisfatória ao capitalismo liberal, porque os países do Bloco de Leste têm estado em falta perante consumidores e ambiente, por igual. No entanto, os últimos anos da década de 80 testemunharam interessantes alterações no Ocidente — uma certa predisposição dos países ricos para estudarem formas de planeamento central supranacional que protejam o ambiente, mesmo que em prejuízo da liberdade de produção (e, portanto, da do designer). A União Europeia — com comissões centralizadas estabelecendo as normas sobre ambiente, segurança e saúde, e ainda sobre direitos do cidadão, normas essas cuja observância é obrigatória para os países-membros — constitui uma das evoluções culturais mais interessantes dos anos 80, abrindo caminho ao surgimento da UE como uma entidade comercial única. Não pretendo, no entanto, "defender" ou sequer "prever" que se verificará uma completa centralização do planeamento. Advogar um tal passo seria, à luz do falhanço da política económica e social da Europa de Leste e da URSS, uma tolice. Seja como for, tendo começado com Hayek, é salutar persistir, com ele, nos avisos relativos ao planeamento central. Diz ele: "O planeamento à escala internacional, mais do que o de escala nacional, não pode deixar de ser uma ‘razão da força , uma imposição de alguns sobre o colectivo de um determinado tipo de padrão e aplicação do que os planificadores pensam ser adequado para os outros". A maioria de nós, no Ocidente, estará talvez tentada a concordar, mas o comentário de Hayek era, na altura, inflamado e só parcialmente objectivo (não esqueçamos que data da Segunda Guerra Mundial). A UE, por exemplo, impõe muitas normas aos seus membros, para benefício do individualismo e dos indivíduos dos Estados-nação que a compõem. Há casos de pessoas que, injustamente julgadas em tribunais britânicos, têm recorrido ao tribunal europeu, onde lhes foi feita justiça. A expressão "razão da força" não se aplica à UE. A UE é um exemplo interessante de cooperação, porque os seus Estados-membros podem violar (e violam) os acordos celebrados com a UE sem perigo de sanções militares. A UE não está, ela própria, livre de se autopenalizar por ter sido intolerante ou até, ocasionalmente, corrupta; os seus burocratas e políticos sabem que é do seu próprio interesse procurarem atingir políticas justas e essencialmente liberais. O facto dos países membros poderem abandonar a federação por sua livre iniciativa introduz de facto um componente de oferta e procura na política comunitária. A união política total seria, provavelmente, um erro. Como sempre, é 10/24 necessário procurar um equilíbrio de interesses — e as federações e coligações são instrumentos úteis, apesar de imperfeitos, para equilibrar interesses que precisam de coexistir. Com efeito, se temos razão para temer o planeamento central por causa do poder que confere a uns quantos, é uma realidade perene que são sempre "uns quantos" que controlam, planeiam e exercem o poder. Numa economia de mercado "livre", existe uma real centralização, assente nos interesses comerciais de um punhado de empresas dominantes em cada sector industrial. Assim, sendo verdade que, por exemplo, as principais companhias petrolíferas competem entre si, não é menos certo que apresentam uma frente unida contra tudo o que pensam poder pôr em causa os seus lucros. Frequentemente, os seus interesses entram em conflito com outros interesses positivos, sobretudo os ambientais. Claro que, como sempre, não há uma estratégia abrangente que nos possa dar o melhor dos mundos. Só que o consumo irrestrito à escala do planeta há-de derrotar-nos, porque a dimensão da população mundial e a dimensão das exigências potenciais de cada indivíduo entrarão em conflito. A tirania de uma burocracia mundial é, sem dúvida, um espectro horrível; mas, para preservar a possibilidade de escolha e alargá-la ao resto do Mundo, parece inevitável termos que descobrir uma forma de consumismo e de escolha mais responsável e madura e gerar um novo modelo, mais subtil, de oferta e procura. O design, que actualmente funciona como uma forma alargada de publicidade ou como resposta a um simples problema de procura do mercado, terá também de amadurecer. Os aspectos éticos e ambientais relativos a onde uma coisa é feita, quem a faz e em que condições, de que é feita, como será utilizada e como será inutilizada ou reciclada tornar-se-ão parte tão integrante do design como são hoje em dia o estilo e a moda. Grande parte desta evolução, necessária para a sensibilidade do design (e da produção), é tornada possível pela evolução da opinião pública, ela própria alimentada pela informação, cuja existência exige, como Hayek apontaria, uma sociedade livre. Nenhum sistema garante por si só essa liberdade. Ironicamente, a Grã-Bretanha, que redescobriu a liberdade das forças de mercado, é hoje considerada por alguns jornalistas europeus como tendo uma imprensa que é apenas livre a 50 %. O período do pós-guerra assistiu, em alguns aspectos, a uma história da liberdade através do efémero. Talvez a próxima evolução traga a liberdade através da qualidade, por via do conservadorismo, da conservação e de uma maior ênfase nos interesses colectivos. O design enquanto profissão tornar-se--á, então, adulto, se puder contribuir para que os consumidores de todo o Mundo dêem estímulo a estas novas aspirações colectivas (em contraponto às individuais). 11/24 2 — A economia norte-americana e o design do século XX Desde 1941 que os Estados Unidos dominam o Mundo em termos económicos e isso apesar do advento do Japão como superpotência. Mercê da dimensão das suas Forças Armadas, continuam também a ser o "polícia do Globo". Neste século, os Estados Unidos consumiram mais do que qualquer outra nação. Paul Kennedy, historiador e autor de "The Rise and Fall of the Great Powers" (1988), mede o crescimento da economia norte-americana em termos da energia consumida. Os valores são na ordem dos milhões, calculados em toneladas métricas de carvão ou equivalente. Assim, em 1890, os EUA consumiram 147 milhões de toneladas, valor que, em 1938, ascendia a 697 milhões. Nenhum outro país igualava este consumo. A importância do poder económico dos Estados Unidos da América, para os Aliados ocidentais que combatiam as potências do Eixo na Segunda Guerra Mundial, foi imensa. Paul Kennedy refere "a mudança radical devida ao aumento de 800 por cento na produção de armas nos EUA entre 1941 e 1943...". Constata também que o poderio norte-americano em 1945 era artificialmente elevado porque o resto do Mundo estava exausto ou subdesenvolvido. Nas palavras de Kennedy: "Tal como os britânicos depois de 1815, os americanos tinham, por seu turno, descoberto que a sua influência informal em muitas partes do Mundo se tornava bastante mais complexa; como os britânicos, encontravam ‘novas fronteiras de insegurança sempre que tentavam definir um limite. Era o advento da Pax Americana" 6). Também a Rússia, em resultado da guerra, pôde alargar a sua esfera de influência de maneira significativa; mas, com Estaline, a URSS agiu de modo diferente dos EUA. Partes da Rússia tinham sido devastadas pela guerra e Estaline agiu ao contrário do Presidente Truman na Europa Ocidental: subtraiu aos países do Bloco de Leste matérias-primas, materiais de construção e maquinaria. É difícil defender que tenha havido uma americanização de estilo na Europa Ocidental. O estilo americano não domina o design. Existe um look declaradamente americano, muito diferente do alemão, italiano, francês ou britânico, e constatamos que as diferenças entre os estilos nacionais evoluíram marcadamente a partir do princípio do século XX. Na base está um gosto pelo orgânico. E apesar da sua apoteose se ter verificado com as cadeiras "túlipa" de Eero Saarinen (1910-1961), no princípio da década de 50, a preferência pelas formas arredondadas e por uma espécie de gótico flamejante continua, nos EUA, a ser endémica, na decoração de interiores, na indústria automóvel e nos artigos para o lar. Este orgânico enriquecido, estética tipicamente norte-americana, é também dominante em grande parte dos trabalhos produzidos nos Estados Unidos sob a designação genérica de artesanato. A cornucópia, o seio, a forma orgânica em geral 12/24 fornecem-nos um conjunto de metáforas visuais sobre a associação que os norte-americanos fazem do excesso material com a liberdade. A forma escultural orgânica e arredondada tornou-se parte do vocabulário do design de mobiliário de meados do século XX, devido aos trabalhos de Charles e Ray Eames. Em 1940, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque organizou um concurso e uma exposição intitulados "Organic Design in Home Furnishings". O prémio foi atribuído, em 1941, a dois designers, Charles Eames e Eero Saarinen (que trabalhavam juntos na Academia de Arte de Cranbrook). Influenciados por Alvar Aalto — arquitecto finlandês, pioneiro do design contemporâneo de mobiliário com utilização de contraplacado, que tinha tido direito a uma exposição retrospectiva, em 1929, em MOMA —, Cadeira envolvente e banqueta Saarinen e Eames começaram a fazer experiências, para os pés, desenhados por Eero dobrando dois planos (uma necessidade, se quisermos Saarinen para a Knoll International. Assento de plástico moldado, criar um efeito de recipiente a partir de uma folha ou estrutura de aço, estofos de placa plana). Aparentemente, este efeito escultural não espuma. EUA, 1948. mereceu a aprovação de Aalto; achava que os resultados estavam mais próximos da moldagem em plástico e que um tal tratamento do contraplacado, prensando-o de modo a dar-lhe forma côncava, "violava a linguagem das fibras da madeira". As clássicas cadeiras de Eames eram recipientes, largos e fundos, como uma generosa casca de ovo aberta ao meio. É o equivalente no mobiliário ao útero materno. O namoro dos Estados Unidos ao design escandinavo sobretudo o sueco —, na década de 20, deixou marcas, já que este design é inspirado nas imagens de recipiente e de útero materno. A forma protectora, aconchegante, é a base tanto do design como da política social da Escandinávia. A década de 1920, que assistiu a uma série de exposições itinerantes suecas nos Estados Unidos, coincidiu com um período alto para a economia. Depois da Primeira Grande Guerra, os EUA encontravam-se em excelente situação financeira. Tinham grandes reservas de ouro, eram o maior fabricante mundial de produtos de consumo e alimentos e tinham um grande mercado interno para estimular a produção em série. Paul Kennedy assinala que a procura do consumo doméstico podia absorver o acréscimo de produtividade e que, em 1929, por exemplo, os EUA produziam 4,5 milhões de veículos (enquanto a Alemanha se ficava pelos 117 000). A grave sucessão de crises na economia americana verificadas na década de 1930 arrastou as outras economias mundiais. Apesar disso, os níveis de consumo dos anos 20 e a continuação de uma procura significativa na década seguinte contribuíram para o desenvolvimento de uma clientela de design industrial profissional no país, 13/24 estreitamente ligada às exigências publicitárias e promocionais de fabricantes de vários tipos. O rápido crescimento da procura, sobretudo nos EUA, de produtos como rádios, aspiradores e frigoríficos, deu um grande impulso à profissionalização do design como actividade por direito próprio. O impulso veio da indústria, que se começava a aperceber das oportunidades comerciais que podia trazer o valor acrescentado gerado pelo estilo e também pela utilização dos próprios produtos para promoção da empresa. Mas não devemos esquecer-nos das estatísticas de Paul Kennedy sobre energia, porque esta, para além de ser a base da produção, é também um bem de consumo em si, desde que haja um número suficiente de utilizadores que torne rendíveis os custos associados à sua geração. Adrian Forty, historiador de design, tem muito a dizer sobre este assunto no seu livro "Objects of Desire" (1986), onde descreve a posição dos produtores de electricidade. Estes descobriram desde muito cedo que tinham que "criar" o maior número possível de utilizadores diurnos de electricidade para que houvesse um equilíbrio entre os picos e as baixas de consumo que habitualmente se verificavam. O equipamento gerador tinha que ser suficientemente potente para dar resposta às necessidades energéticas dos picos de consumo, mas, se estes fossem muito espaçados e de curta duração, haveria muito equipamento dispendioso parado durante longos períodos. Foi por isso que a indústria geradora de electricidade não perdeu tempo a encorajar o desenvolvimento (e o estilo) do maior número possível de máquinas eléctricas. O estilo na indústria eléctrica tem uma história complicada, se não mesmo contraditória Mas os fabricantes de equipamento eléctrico foram dos primeiros a perceber o potencial de um produto que, através do seu design, não só se publicitava como também promovia a própria empresa. Um dos grandes êxitos do estilo como forma de publicidade, e que estimulou o crescimento do design industrial como profissão nos Estados Unidos, foi o streamlining. Este estilo imperou no período entre 1930 e 1945, referido pelos historiadores dos EUA como a "idade do automóvel". O carro torna-se parte da casa, situação ilustrada pela integração da garagem na habitação. A influência dos estilos dos automóveis noutros aspectos do design torna-se cada vez mais forte à medida que o tempo passa. Existe um tipo de mobiliário Art Déco, de grande projecção nos anos 30, que ficou desde então conhecido como Streamlined Moderne. O streamlining era um estilo generalizado, em que cada objecto, grande ou pequeno secretária, rádio, isqueiro, automóvel, locomotiva — adquiria uma forma muito esguia. Há quem faça notar que o streamlining não trouxe qualquer melhoramento aos desempenhos do automóvel, nem aos da locomotiva; mas, como expressão de progresso, as novas linhas eram o supra-sumo. 14/24 Electrodomésticos como os aspiradores, os frigoríficos e as máquinas de lavar foram adoptados mais rapidamente nos Estados Unidos do que na Europa. Em resultado, as cozinhas tornaram-se cada vez mais mecanizadas e o conceito de cozinha planeada, utilitária e moderna implantou-se nos Estados Unidos muito antes de o fazer em Inglaterra, em França ou até na Alemanha. Este facto foi um estímulo adicional para a simplificação do mobiliário e acessórios, tendo os móveis metálicos tubulares entrado nas casas através das cozinhas. Na década de 30, os designers industriais norte-americanos ganharam projecção; além disso, tinham menos pruridos em servir o comércio do que os designers quase-industriais da Bauhaus, prisioneiros da atmosfera "medieval", de uma escola que privilegiava as ideias em detrimento das actividades comerciais. Apesar disso, registou-se uma dissensão cultural nos EUA. Philip Johnson, nascido em 1906, foi mentor de uma exposição polémica no Museu de Arte Moderna de Nova lorque em 1934, "Machine Art". No catálogo da exposição, Johnson distanciou-se — e à exposição — do "estilismo" e do streamlining, defendendo um vocabulário mais básico, e logo mais honesto, o da linha recta e do círculo. Uma das tensões interessantes da idade da máquina é a que se verifica entre o designer, enquanto intelectual querendo servir as massas, e o fabricante e publicitário, fornecedores de uma cornucópia consumista. O primeiro declara: "dê-se-lhes a verdade", os outros ripostam: "nem pensar, façam-se mas é coisas sexy". Um dos primeiros designers industriais da América foi Norman Bel Geddes, que montou um atelier de design industrial em 1926. Tornou-se especialmente famoso pelo seu descomplexado streamlining em locomotivas e, antes disso, pelos seus designs dos rádios Philco. À semelhança de outros designers que surgiram nos anos 30, como Raymond Loewy e Walter Dorwin Teague, a sua formação era na área da arte comercial. Consequentemente, a ideia do objecto encerrar a sua própria publicidade era evidente. A influência dos designers industriais norte-americanos começou a difundir-se. Raymond Loewe que tinha redesenhado o exterior de uma máquina reprográfica para a Gestetner em 1929 e depois se lançou no campo dos automóveis e com o frigorífico Coldspot da Sears Roebnuk Company — abriu um gabinete em Londres. Desde a Segunda Guerra Mundial, apesar dos designers norte-americanos se terem afundado em publicidade, consumismo e comércio (a moda de 1980 das metáforas visuais e pós-modernas no design de produto apenas acelerou a noção do "produto como veículo publicitário"), persistiu uma resistência intelectual, corajosa e constante. O designer industrial Iliot Noyes procurou defender a tese de que, para um bom design, o uso que se Faz (lo objecto deve ser mais importante do que quaisquer considerações comerciais. Era a utilização que tornava a nova ciência da ergonomia tão atraente para os designers norte-americanos da década de 50. Também Henry Dreyfuss, que mais tarde se tornaria o primeiro presidente da Associação de Designers Industriais dos 15/24 Estados Unidos, defendeu a ergonomia, nas suas obras "Designing for People" (1955) e "The Measure of Man" (1959). Está actualmente a ser explorada, em universidades da Pensilvânia e do Ohio, uma nova versão (nesta ciência, sob a designação genérica de Semântica do Produto (ver págs. 110-111 e 172-173). As tendências estilísticas fundamentais do design norte-americano do pós-guerra. distanciadas da ortodoxia da ética de Empresa, manifestam uma preferência pelo orgânico, pelo literal e pelo figurativo. Num certo sentido, o fosso entre a Europa e os EUA é caracterizado por uma maior aceitação, se não mesmo apetência, dos consumidores europeus pelo design abstracto. Com efeito, sempre que os designers europeus procuraram renovar o conteúdo estilístico — — como no caso do gabinete de design Memphis, em Milão (1979-1983) — houve uma tendência para tomar como modelo o design norte-americano. Em muito do que se tomou por radical, pós-moderno, novidade em ornamentação ou neodecorativo no design europeu que fez moda nos anos 80. sente-se a influência do design norte-americano dos anos 50 ou do actual e pujante design proveniente do bairro italo-americano de Filadélfia. Os plásticos laminados e os téxteis sintéticos dos EUA na década de 50, em tons garridos e com decorações frequentemente exóticas, tinham todas as condições para serem alvo de referências irónicas trinta anos depois. E, tal como se disse no capítulo anterior, a opção por um conteúdo de design de linhas simples produz uma imagem mais intelectualizada, mas ainda assim muito literal, do novo design de produto. A maior parte do estilo em design é resultante das exigências do mercado e da publicidade; nos EUA, tais relações tendem a ser mais cruas e, por vezes, mais óbvias do que na Europa. 16/24 3 — Design e consumo na Europa Os antecedentes económicos do design e do consumo na Europa são mais complicados do que os dos EUA; o facto dos países europeus terem, por duas vezes, guerreado no solo uns dos outros pode ser visto como um factor limitativo da evolução da tecnologia e do design. É opinião generalizada que as grandes guerras são um estímulo, e não um obstáculo, para o desenvolvimento. Mas trata-se de uma ideia não comprovada: a concorrência comercial produz efeitos tão significativos no desenvolvimento em períodos prolongados de paz como a rivalidade no aperfeiçoamento de armas em períodos de guerra intensa. A fundação da UE deu origem a um mercado forte, ainda que não tenha atingido enquanto federação comercial o poderio dos Estados Unidos ou do Japão. Poderá rivalizar com ambas as potências. mas para que isso aconteça é necessário um maior grau de união política. Tal como as coisas estão, a UE tem muito a temer da parte do Japão, se bem que, como sempre — acontece em termos comerciais, o medo não seja unilateral. O arranque, em 1992, de um mercado único, com a supressão de todas (ou quase todas) as barreiras alfandegárias, fortalecerá a UE como potência comercial e há quem tema uma guerra comercial entre três superblocos — a América do Norte, o Oriente e a UE. Desde sensivelmente 1914 a 1935, o estilo de design dominante na vanguarda europeia era angular, vincado, agressivo, mas, durante as décadas de 20 e 30, foi contestado por vários sectores, incluindo a Art Déco, em França, e o streamlining, que fazia furor nos Estados Unidos. Aquilo a que agora chamamos, ou que pensamos intuitivamente ser, o Estilo Moderno (modern stvle), sobretudo no que se refere ao mobiliário e serviços de mesa, tem linhas finas, depuradas e é, frequentemente, rematado a metal. Podemos dizer que esse estilo recebeu um impulso considerável da Bauhaus, lançada pelo arquitecto Walter Gropius (1883-1969) em Weimar, na Alemanha, em 1919; em 1925, mudou-se para Dessau e o design industrial desenvolveu-se como disciplina autónoma. A Bauhaus, no entanto, não foi a única — nem provavelmente a mais importante — instituição a influenciar o estilo do design europeu. Pense-se na indústria, sobretudo no potentado AEG (Aligemeine Eiektricitats-Geselschaft), fundado em 1883 na Alemanha. Em 1907, Peter Behrens, artista que se tornou designer, foi contratado pela AEG para tornar visualmente coerente uma gama variada de produtos — feitos eléctricos, aquecedores, panelas de pressão, chaleiras, ventoinhas, etc. O designou a tradição estilística que estes objectos possuíam, quando Behrens aceitou o repto, baseava-se em processos artesanais e na montagem manual, sendo, evidentemente, anteriores à era da electricidade. Behrens dedicou-se a criar designs que davam expressão à tecnologia que tornava possível os produtos. A história da AEG é fascinante e é contada por Tiniann Buddensieg em "Industriekultur, Peter Behrens and the AEG "(1985). No entanto, a grande lição que a AEG colheu, como passar do tempo corno frisou John Thackara —, foi esta: "Vendo a concorrência a crescer e a sua 17/24 superioridade tecnológica a diminuir, a AEG apercebeu-se de que, apesar de ser lógico padronizar tampas, bases e manípulos, o impacte desta estratégia nas vendas era desastroso. Seguiu-se um debate interno.., findo o qual ganhava força a ideia de que ‘mesmo um motor eléctrico precisa de parecer um presente de aniversário" ". O resultado foi simultaneamente moderno (com a exaltação da máquina) e individualista (os produtos possuíam suficiente carácter para serem reconhecidos como da AEG e não de outro fabricante). Enorme influência teve também o breve desabrochar de uma vanguarda na União Soviética — onde, entre a Revolução de Outubro e o advento de Estaline, se abriu uma fresta de liberdade, provocando uma explosão das artes gráficas e da arquitectura. Em nenhum outro lugar, o modernismo e o abstraccionismo se encontraram mais estreita e genuinamente associados ao radicalismo político do que nos trabalhos de Tatlin, El. Lissitsky, Malevitch e muitos Outros. A Rússia deu ao modernismo, por pouco tempo mas com grande vitalidade, um novo fulgor. Mesmo os cartazes construtivistas, com as suas formas abstractas e disposição lógica, funcionavam como metáfora. A crueza tipográfica e as formas rectilíneas, frequentemente angulosas e fragmentadas, transmitiam uma sensação de energia, de lógica e de mudança. O abstraccionismo russo abriu as janelas do futuro: apresentou uma analogia visual de como se poderia sentir o futuro, em vez de com o que ele se iria parecer. A ruptura com a figuração e a natureza era lógica: se o que se pretendia era antecipar o sentido do futuro, não havia razão para fazê-lo com imagens do presente. O idealismo heróico dos artistas e designers russos foi, em larga medida, aproveitado pela Os franceses André e Paul Vera Bauhaus em meados e finais da década de 20. Quando eram designers de jardins que Estaline acabou com a vanguarda artística, o conjugaram a Natureza com o modernismo do Ocidente tornou-se apenas mais um modernismo. Neste desenho (1920) a geometria fragmentada estilo. Desfaleceu. O modernismo chique surgiu mais é reminiscente do cubismo de ornamentado, mais luxuoso do que o que tinha Georges Braque. emanado da Bauhaus. Nos anos 20, apareceu a Art Deco — simples, elegante, com formas curvas nos braços e pernas. Na década de 30, tornou-se menos clássico e mais brutal, com os seus hexágonos, octógonos, cunhas e cilindros. Misturou madeira, metal e vidro com folheados elaborados, parecendo frequentemente um estilo de mobiliário de cena. A luz fragmentada constituía outro ingrediente: em hotéis, salões de baile, cinemas e bares, a luz reflectia-se em superfícies lacadas, metais cromados e espelhos fumados biselados. Durante o mesmo período, dos primeiros anos do século XX a meados dos anos 30, a Suécia criava uma filosofia de fabrico e design que dava primazia à consciência social, género que se tornou um poderoso meio para exprimir o empenho na 18/24 construção de uma sociedade mais justa. Na Finlândia, diz-se, o design era uma forma de expressão de nacionalidade (o país só se tornou independente em 1917). A social-democracia é um denominador comum dos quatro principais países: surgiram governos sociais-democratas na Dinamarca (1929), na Suécia (1932), na Noruega (1935) e na Finlândia (1937). O pós-guerra viria a incluir neste grupo a Islândia, que se tornou uma república em 1944. Em Estocolmo, uma exposição de decoração de interiores realizada em 1917 teve, como fio condutor, o tema da responsabilidade social, bem patente na importante exposição do Funcionalismo realizada na mesma cidade, em 1930. Esta exposição evidenciou uma ética do design que reunia atitudes tradicionais, relativamente ao artesanato e aos materiais, a princípios de clareza e de modéstia. A diferença entre o design do Noroeste da Europa e o verdadeiramente nórdico residia no estilo com preocupações humanísticas deste último. Como foi já referido, o design escandinavo teve um grande impacte nos meios do design norte-americano: realizaram-se exposições itinerantes de design escandinavo nos EUA a partir (los anos 20. No entanto, a tendência orgânica do design foi também ajudada pela evolução de técnicas auxiliares de produção: a gradual introdução das formas plásticas moldadas por injecção é disso exemplo. Por razões que se prendiam com a maneira de retirar as formas de plástico dos seus moldes, aquelas tinham que ser arredondadas. Sylvia Katz explica no seu livro "Classic Plastics" (1984) que a primeira máquina de moldagem por injecção foi patenteada na Alemanha em 1926, mas que passaria uma década antes que ela se tornasse capaz de garantir uma produção completamente automática. Durante os anos 30, no entanto, popularizaram-se vários tipos de plástico, como explica Katz: "As casas dos anos 30 estavam cheias de copos para ovos quentes, galheteiros, appliques@, batedeiras e conjuntos de piquenique moldados por compressão em cores vistosas". Depois da Segunda Guerra Mundial, a postura racional face ao fabrico e ao estilo em design — com uma abordagem mais "científica" do que "artística" do estilo foi particularmente bem recebida na Alemanha Ocidental. Os designers alemães, a par de alguns teóricos e executantes norte-americanos, cedo compreenderam que a ergonomia tinha de ser levada muito a sério. O estilo enquanto ciência recebeu um impulso significativo devido às exigências das emergentes indústrias de aeronáutica civil e militar: era fundamental (por estritas razões de segurança) que o design dos cockpits Fosse tal que piloto, navegador e engenheiro de voo soubessem exactamente o que estavam a fazer num ambiente cada vez mais sofisticado. A segurança dos veículos motorizados tornou-se também um tema muito importante (que, no entanto, só em 1965 seria divulgado nos Estados Unidos através das críticas de Ralph Nader à indústria automóvel americana, no seu livro "Unsafe At Any Speed") e contribuiu para consolidar a ergonomia corno esqueleto 19/24 do design industrial. Hoje em dia, a ergonomia, com cada vez maiores preocupações ambientais, é encarada como o fundamento do design industrial. Um dos mais interessantes desenvolvimentos do design verificados na Europa nos anos 50 deu-se com a abertura da Hochschule für Gestaltung, em Ulm, na RFA, em 1955. Esta escola de design, projectada para suceder à Bauhaus, introduziu, no seu programa de 1957, as disciplinas de Matemática, Lógica e Sociologia. Afastou ainda mais o design da arte, gerando um estilo que utiliza constantemente a lógica e a racionalidade como metáfora. O seu expoente mais notável é o designer alemão Dieter Rams. A Ulm e Rams é atribuída a estética de caixa preta, objecto de tanta troça por parte da juventude pós-modernista dos anos 80. Era uma estética perfeita, e a justificação intelectual do estilo tornava-se redundante, dado o êxito da ciência e da lógica em que se fundava. Nos anos 70, com o desenvolvimento dos microchips e da ciência da miniaturização, a necessidade de dar a máquinas e equipamento eléctrico formas rigorosas e puras já não era justificável só pela razão — o design de caixa preta tornou-se apenas uma das muitas opções que a tecnologia solid state do microchip tornava possíveis. É talvez demasiado simplista fazer uma associação imediata entre a Bauhaus de antes da guerra, passando pela escola de Ulm do pós-guerra e o actual design alemão, genericamente considerado ordenado, racional e depurado. É verdade que muito do estilo alemão ocidental tende a exprimir ordem e disciplina, levando, inclusivamente a que, durante a década de 80. alguns jovens designers se tivessem revoltado contra a ortodoxia, através de um design subversivo, de um anti-design. Registou-se uma erupção repentina de exposições em galerias, mostrando designs (sobretudo em mobiliário) que se manifestavam contra a ortodoxia de classe média da Alemanha Ocidental. Mas a ordem e racionalismo patenteados têm prestado excelentes serviços aos fabricantes e exportadores alemães — encorajando e reafirmando a crença dos consumidores na qualidade e fiabilidade, bem como nos (excessivos) desempenhos de muitos produtos alemães, sobretudo os automóveis. Os italianos foram dos que primeiro se aperceberam do rematado disparate que consiste em procurar uma única estética de design, num Mundo em que a tecnologia oferece tão grande variedade de processos e soluções. Das principais nações industrializadas da Europa, a Itália era, em 1945, a mais pobre; mas, graças à ajuda financeira dos Estados Unidos associada ao apoio político destinado a evitar uma tomada de poder pelos comunistas, o país começou a desenvolver-se economicamente. A Itália não era e continua a não ser um país com muitas empresas de grandes dimensões; mas há excepções como a Fiat. Em 1957, a criação da Comunidade Económica Europeia, de que a Itália fez parte, ajudou o país a expandir-se ainda mais e, entre 1957 e 1963, registou-se um boom económico, que teve grandes implicações no design industrial. 20/24 Os booms são cíclicos; mas no sector industrial a itália continuou a ter êxito, só que de uma maneira diferente de outros países industriais. Em primeiro lugar, a sobrevivência de muitas empresas relativamente pequenas criou uma cultura de flexibilidade produtiva (podemos ainda hoje descrever a Itália como uma cultura de pequenas empresas); em segundo lugar, a concorrência regional e entre cidades faz com que possa ainda ver-se a Itália como uma federação em vez de um Estado unitário, o que parece alimentar a pluralidade e a contestação; em terceiro Intervenção pós-moderna num lugar, a economia paralela, ou seja o trabalho gerador dos símbolos do renascimento de riqueza que escapa ao controlo do Estado (mas não italiano do pós-guerra, o Fiat 500. das pessoas), contribui de modo substancial para o Aqui transformado em discoteca êxito italiano. Estes factores, aliados a uma tradição pelo designer italiano Vincenzo lavicoli. segundo a qual. ao que se diz, "os intelectuais em Itália têm sempre beneficiado de maior prestígio e influência do que nos países anglófonos" 8, criam um ambiente em que, tanto os designers como os seus clientes, estão dispostos a experimentar, a inovar e a filosofar. É fácil — e errado — ridicularizar o designer italiano (que, com toda a probabilidade, recebeu formação em arquitectura), chamando-lhe filósofo louco. Os designers italianos são dos mais pragmáticos. Ettore Sottsass, uma das figuras de maior projecção entre a década de 60 e os dias de hoje, é disso exemplo. Em 1983, subverteu por completo a questão das vantagens da obsolência planeada como factor importante na vida do designer 9). Em vez de dar a resposta esperada (a obsolência planeada é má para um design durável), declarou: "A obsolência, para mim, é verdadeiramente o sal da vida". Só que, nessa altura, a sua famosa confederação de designers, associados no Cachimbo para fumador desenhado pelo estúdio de estúdio Memphis, acabava de alcançar a crista da onda, design Porsche no Áustria. O tendo registado três ou quatro anos de êxito retumbante, design Porsche que assenta devido aos elogios pelos seus designs loucos e efémeros, numa excepcional qualidade que constituíam referência obrigatória da decoração e da de fabrico, conjuga puritanismo e hedonismo. novidade no design pós-modernista dos anos 80. Se alguma coisa havia de mais indicada para ilustrar uma redundância planeada era, sem dúvida, o estilo de Memphis, com a espantosa vulgaridade, tão americana e anos 50, do laminado de plástico. Dos símbolos do design italiano do pós-guerra fazem parte a Vespa 10, lançada pela primeira vez em 1946 e vendida aos milhares durante os vinte anos seguintes, e o pequeno Fiat 500, produzido em 1957 — ambos veículos baratos, para o povo. A empresa Olivetti começou a melhorar a sua posição através de uma série de bons designs industriais aplicados a máquinas de escrever e de calcular, mantendo 21/24 posteriormente a vantagem alcançada no equipamento de escritórios e nos computadores. E a Itália não parou. O Ocidente continua a procurar em itália pistas para bom design e o que o design italiano tem provavelmente de melhor é a capacidade de debate e análise, são as contribuições ideológicas que lhe estão na origem. Ao contrário da Itália, a França acompanhou os Estados Unidos, embora à distância. Apesar de, no respeitante à industrialização, ter feito progressos bastante rápidos após a Segunda Guerra Mundial, a França conserva ainda aspectos antiquados no sector agrário da economia. Continua a existir um grande número de agricultores de pequena propriedade — ao contrário do que se passa no Reino Unido, por exemplo. A França considera-se um líder cultural da Europa, mas só a custo rivaliza com a Alemanha no aspecto económico. Nas últimas três décadas, a França empenhou-se a fundo na investigação e desenvolvimento nos sectores do armamento, aerospacial e da energia nuclear. Como sempre, é muito difícil avaliar quais as vantagens reais que um sector de defesa fortemente subsidiado pode ter na inovação do design e no desenvolvimento económico das indústrias do consumo. O design de consumo francês é... muito "francês". Quando pensamos em características nacionais de design — por oposição às internacionalistas — vem-nos logo a França à ideia. O estilo francês é, em muitos aspectos, diferente e, por vezes, brilhante. O Citroen DS 19 é disso exemplo, com linhas futuristas exprimindo o virtuosismo da técnica e o lado inovador do veículo; já em 1962, possuía características tão avançadas como a tracção dianteira. Como sugere Paul Kennedy, politicamente, a França tem sido extraordinariamente bem sucedida, garantindo uma projecção em termos de política externa muito superior ao que o seu estatuto económico poderia fazer supor. Os Estados Unidos podem ter ainda maior influência no Mundo devido à dimensão da sua economia, mas a sua política externa empalidece, até quase desaparecer, quando Caneta para o dedo comparada à da França. Esta característica merece ser desenhada por Vincenzo focada, porque a França encara a cultura — as artes, o lavicoli. A Itália ainda dá as cartas no que toca a tornar design, a moda — como um importante meio de promoção o design divertido nacional e como contributo para o reforço da língua francesa, das ideias francesas, dos interesses franceses face aos Estados Unidos, à língua inglesa e à cultura anglo-americana. Os primeiros-ministros e os presidentes franceses apoiam e são patronos activos das artes e do design, facto gerador de um ambiente de confiança. Tal como em Itália, toda a gente se mostra interessada na discussão de ideias — interesse partilhado por artistas, designers e industriais. Para dar só um exemplo, em França há condições para que os funcionários públicos com talento passem do Governo para a indústria, da indústria para as artes, das artes para a indústria. 22/24 As críticas à sociedade de consumo, surgidas no final dos anos 60, prosseguiram por toda a Europa e EUA durante a década de 70, coincidindo com recessões causadas em parte pelos súbitos aumentos do preço do petróleo no momento em que os países produtores descobriram que podiam inverter o sentido do jogo face ao Ocidente. Na arte, assistiu-se a uma ruptura repentina com o imaginário pop e a uma sucessão de movimentos que exploravam materiais antitecnológicos. Foi também nos anos 70 que se começou a fazer sentir gradualmente a necessidade de abordar o design e a produção de forma integrada, para proteger os recursos e o ambiente. O design inglês é Em design, as características nacionais são muitas vezes esfumadas. Este conjunto saleiro-pimenteiro foi desenhado em 1987 por Martine Bedin, que é Francesa. Podemos detectar influências alemãs, suecas e japonesas no estilo, mas não norte-americanas. A estratégia japonesa para penetrar por vezes nos mercados europeu e subversivo. Aqui Georgina Godley norte-americano começou a dar frutos apresenta-nos um nos anos 70. A indústria britânica, em Falo com um design particular, perdia para os japoneses a que se faz eco do produção de motorizadas, automóveis, símbolo lua/falo rádios e televisores. O design e a utilizado por Edvord Munch, pintor cujo qualidade de fabrico japoneses, tema constante Foi aliados a preços baixos e à fiabilidade o ciúme sexual e a de desempenhos, assistência e prazos neurose de entrega, encostaram à parede as antiquadas e complacentes empresas do Ocidente. Pior ainda era o sistema de integração do design e inovação na produção, que permite aos fabricantes japoneses lançar novos artigos a um ritmo espantoso, sistema esse que continua a baralhar muitos ocidentais. Paul Kennedy salienta que os Aliados ganharam a guerra às potências do Eixo devido à incapacidade destas em acompanharem o ritmo da produção dos Aliados. O Japão está actualmente a desafiar todas as restantes economias com a velocidade com que introduz no mercado a inovação tecnológica. Contra um concorrente cujos controlo de qualidade, gama de produtos, serviço de entregas e assistência pós-venda são tão bons, qualquer vantagem que o Ocidente possa ter em estética de design é marginal em termos de competitividade. É essencial um estilo inovador, simbólico e metafórico, na batalha pela diferenciação do produto — como parte integrante da publicidade do produto; mas essa diferenciação só é útil se os outros elementos da equação estiverem presentes; como mais de um fabricante de automóveis pôde constatar nos anos 80, um veículo com bom aspecto não se vende se for propenso a enferrujar ou se tiver uma assistência pós-venda ineficaz. 23/24 Contudo, os produtos estão a ficar nivelados "abaixo da linha" e a vantagem do fabricante está em realizar um produto estilisticamente diferente (mas não muito diferente). Melhor dito, muito depende do estilo do produto conseguir transmitir a selecção de valores ideal — os valores que o consumidor partilha. O estilo é organizado em função da classe, profissão, aspirações e nível etário do consumidor do grupo-alvo. Aquilo que os fabricantes exigem agora são enormes quantidades de informação e uma das tarefas levadas a cabo no Japão — onde os fabricantes temem o crescente poder da UE — é o estudo de mercado, pormenorizando as características nacionais do design. As empresas japonesas de consultoria de design estão agora a implantar-se na Europa para descobrirem quais são as características estilísticas mais importantes para os consumidores de cada um dos países europeus. Prevê-se que a década de noventa tenha mercados mais especializados, com estilos cuidadosamente ponderados (variando o seu simbolismo), para atrair grupos de consumidores cada vez mais estudados. Os grupos de consumidores (definidos pela idade, profissão, etc.) serão especificamente visados e descobrir-se-á que têm mais a ver entre si pelo Mundo fora do que com grupos diferentes no seu próprio país. Não parece provável que as características nacionais desapareçam, sendo antes de acreditar que se levantem vozes a favor do regionalismo e do nacionalismo, como resposta a um período de internacionalismo no design. A tendência mais provável do design e da cultura no final da década de 90 será certamente o ressurgimento de uma procura conservadora e nacionalista no Japão, numa crescente rejeição dos modelos ocidentalizados e americanizados, e uma maior consciencialização e apetência por um estilo japonês destinado a consumidores japoneses. Poderão aparecer tendências nacionalistas noutros lugares. incluindo no seio da UE — é que a hegemonia burocrática da "União Europeia" poderá parecer sufocante no final da década. Devemos também contar com um reconhecimento supranacional de que o consumo pelo consumo possa não ser a característica fundamental da liberdade. A ética do consumo em espiral ver-se-á obrigada, tanto por razões naturais como económicas, a procurar um compromisso. O design holístico deverá ter um papel importante na redefinição do conceito de liberdade. 24/24 ÍNDICE GERAL DA OBRA: PREFÁCIO 1 O DESIGN E O ESTILO. A relação entre estilo e engenharia: Acima e abaixo da linha - Estilos agradáveis à vista - Não há artesãos 2 NOVENTA ANOS DE DESIGN. O estilo em design desde 1900 OS FUTUROS DO DESIGN: O direito de escolha - A economia norte-americana e o design do século XX 3 COMO DUAS GOTAS DE ÁGUA. O impacte dos novos materiais Os valores do plástico: A revolução da supercondutividade- As limitações da carne - E o Homem criou a máquina - A infra-estrutura incorpórea 4 O PANORAMA DOMÉSTICO ACTUAL. O design e o lar: Os instrumentos que prolongam o corpo humano - A alma da máquina - Emoções face ao objecto - Valores em mudança 5 DESIGN DE LUXO. O luxo do design A deificação do dinheiro - Objectos paradisíacos - Feitos à mão - Objectosde figuração 6 VALORIZAR A PRODUÇÃO MANUAL. O artesanato de atelier e significado do seu estilo autónomos? David Pye - O percurso do artesão - Libertação face ao mercado - Realizaçãopessoal O estilo do artesanato - Uma estética de oposição? 7 OS FUTUROS DO DESIGN. Conservação e conservadorismo Publicidade e ideologia - Ouro de lei - O design e as raízes da sociedade NOTAS ILUSTRAÇÕES ÍNDICE REMISSIVO ***