CARTA PASTORAL SOBRE AS FESTAS CRISTÃS Queridos Diocesanos: Dirigimos esta Carta Pastoral, sobre as festas cristãs, a toda a Comunidade Diocesana, especialmente aos Párocos e seus mais directos Colaboradores, que se integram e empenham na pastoral de conjunto de um Povo que está simultaneamente na Cidade dos homens e na Cidade de Deus. INTRODUÇÃO As festas que se realizam nas comunidades cristãs têm sido objecto de particular atenção na Diocese de Leiria-Fátima. Em Janeiro de 1980, na sequência de uma reflexão do Conselho Presbiteral, foi publicado o documento "Renovação Pastoral das Festas Religiosas". Ainda hoje são de atender os ensinamentos que nele se contêm, e que vamos recapitular. Na caminhada sinodal da Diocese, o tema das festas voltou a ser objecto de reflexão. O 3º guião sinodal para o trabalho em grupos propôs, entre os vários temas sobre as celebrações, um sobre as festas; houve 54 grupos que enviaram as suas respostas. No sentido positivo, os grupos reconhecem que "as festas são um momento importante: de alegria, convívio e participação de todos, praticantes e não"; uma parte significativa entende que a festa da sua comunidade "é bem preparada e participada". Também se vê nela "momento privilegiado de reforçar a vivência cristã na comunidade" e se aprecia que os saldos sejam entregues ao Conselho Económico. As observações negativas mais apontadas referem que "a preocupação com o arraial e o dinheiro a arranjar abafa a parte religiosa e espiritual da festa"; "alguns artistas convidados não têm nada a ver com o sentido religioso da festa"; "por vezes o ruído é exagerado, não se respeitando quem vive perto". As propostas privilegiam a aposta na preparação espiritual, para aprofundamento da fé, na criteriosa escolha dos artistas e na moderação nos gastos. Também se aponta a necessidade de se dar a conhecer os "padroeiros" e a sua vida. A julgar pela apreciação dos grupos, há entre os fiéis das comunidades cristãs uma visão bastante positiva sobre as festas, sem deixar de haver motivos de preocupação e aspectos a rever. Passados vinte anos, após a publicação do documento do meu Ilustríssimo Predecessor sobre "Renovação Pastoral das Festas Religiosas", torna-se necessário repensar as celebrações festivas das comunidades cristãs. Vamos começar por observá-las atentamente, aprofundar o sentido cristão das mesmas e, finalmente, adiantar algumas linhas de acção pastoral e normas orientadoras para a sua realização. I AS NOSSAS FESTAS HOJE Em cada ano realizam-se na Diocese, para além das celebrações dominicais e sacramentais, talvez mais de duas centenas de festas nas igrejas paroquiais e não paroquiais (capelas). O programa, regra geral, inclui a recolha de ofertas, a missa e a procissão, e o "arraial" com música, comida, bebida e alguns divertimentos (quermesses, jogos, dança, etc). Por vezes, nos dias anteriores ou num só, realiza-se a preparação espiritual, que, nalguns casos, se fica pela missa e confissões ou, mais raramente, uma celebração penitencial. No arraial, juntam-se as pessoas da povoação e as que vêm de fora, muitas vezes por amizade àquelas. O que as leva às festas? Há quem vá por motivos directamente religiosos. Sobretudo quando a igreja tem estatuto tradicional de santuário, há pessoas que vão como peregrinas rezar, "pagar" as suas promessas e oferecer esmolas. O mesmo motivo religioso anima uma parte dos fiéis da comunidade em que se realiza a festa. Há também quem vá para encontrar pessoas amigas, conviver, buscar alegria. Outros vão atraídos mais pela música, pelo artista ou grupo contratado, e para se divertirem. A constituição das comissões de festas segue variados modos. Há as que são formadas pelas pessoas da mesma idade; noutros casos, é por aldeias ou zonas da mesma paróquia, rotativamente; o Conselho Económico ou as Comissões das igrejas também organizam as festas em algumas comunidades; há ainda as Comissões constituídas por oferta dos próprios ou por proposta da comissão anterior; também há quem assuma uma tal tarefa por ter feito uma promessa. Nem sempre as pessoas apresentam as melhores condições para o desempenho da responsabilidade, especialmente no que diz respeito à postura, sensibilidade, formação cristã e conhecimento sobre as características das festas cristãs. Na organização das festas, as Comissões responsáveis trabalham, por vezes durante todo o ano, para arranjar fundos económicos, fazer a programação, estabelecer contratos, ornamentar o arraial e garantir as condições adequadas para que se sintam bem quantos participam na festa. Com alguma frequência, este tipo de preocupações faz deixar para segundo plano os objectivos religiosos e a preparação dos actos litúrgicos. Quanto ao acompanhamento e apoio da parte dos párocos às Comissões, alguns têm uma intervenção directa; outros ficam à margem de todo o processo, participando apenas nas manifestações religiosas; muitos sentem-se impotentes para intervirem; outros não sabem como o fazer; e há aqueles que se sentem angustiados com o rumo que as festas assumiram, chegando a desejar que se faça uma separação radical entre a parte religiosa e a profana… Muitas vezes as festas são concebidas e realizadas mais como festas da aldeia, do que propriamente da comunidade cristã. Daí que os valores postos mais em evidência sejam o convívio entre as pessoas, o acolhimento aos amigos e forasteiros, e os divertimentos. Quem deve organizar as festas? Uma vez que a comunidade humana e a cristã já não se identificam plenamente, nem nos seus membros, nem nos objectivos das festas, temos de levantar a questão sobre os responsáveis pela organização das mesmas, se desejamos que sejam cristãs. Não terá o Conselho Pastoral Paroquial a primeira responsabilidade na programação e na realização das festas? O programa tem várias componentes agrupadas à volta de dois eixos: a chamada parte religiosa e a profana. Frequentemente não se encontra modo de as harmonizar, o que parece gerar um mal-estar em certas pessoas. O que resta de religioso será a celebração da Eucaristia e eventualmente a procissão. O arraial e todo o programa de animação musical acaba por ser o maior objectivo. É certo que a alegria humana, quando autêntica, pode louvar a Deus e honrar os santos. Todavia, com frequência, há mensagens ou formas de os artistas se apresentarem que ofendem a dignidade da festa. O esbanjamento que por vezes existe também não se harmoniza com as características de uma festa cristã. E que dizer do barulho ensurdecedor e dos excessos de comida e de bebida? Não terão as comunidades cristãs que se interrogar se podem esbanjar desta forma o dinheiro, quando faltam os meios para ajudar os mais necessitados, e por vezes nem há condições adequadas para a catequese e outras actividades fundamentais para a missão da Igreja? II A FESTA NA VIDA CRISTÃ A festa é expressão comunitária da alegria que brota espontânea do coração humano, quando a pessoa vive momentos de convívio e felicidade. Podemos mesmo dizer que a vida em si mesma tem uma componente e um sentido festivo, que lhe são imprescindíveis. A Sagrada Escritura exprime isso mesmo nas seguintes palavras do Livro do Ben Sirá (cfr 30, 21-25): "A alegria do coração é a vida do homem, e a alegria do homem prolonga a sua vida. Anima a tua alma, consola o teu coração. Um coração alegre e bom está sempre em festa, cuida da sua alimentação". Ao tentarmos repensar as nossas festas, não podemos deixar de considerar, antes de mais, o seu sentido humano, como se diz no documento mencionado no início desta instrução. Ali se sublinha a fome de presença e de comunhão, e a necessidade que as pessoas têm de experimentarem uma vida diferente: "Na festa os homens manifestam os seus anseios por um mundo diferente, liberto dos males da vida presente, um mundo renovado e mais humano, onde haja harmonia e paz, fraternidade, cooperação e alegria, numa perspectiva de plenitude que só em Deus se pode encontrar". No mesmo documento reconhece-se o que de positivo o homem vive ao participar numa festa comum: "exprime, talvez sem o saber, a Sua fé e a sua esperança numa vida feliz, na comunhão com os outros e na vitória final contra a miséria, o ódio, a tristeza e todos os males, individuais e colectivos, que o oprimem". Um tal valor de sabor religioso encontra-se mesmo na festa "profana"; "é sempre a explosão exterior da fé e da esperança da Humanidade num mundo melhor, um mundo novo, uma salvação ainda não encontrada, mas já vislumbrada". Um outro aspecto a não descurar é a sua dimensão comunitária: a festa exprime e alimenta os vínculos que unem as pessoas, congrega-as e fálas sentirem-se integradas na mesma comunidade, partilhando valores e alegrias comuns. Nesse sentido, ela contribui para criar ou reforçar a identidade de uma aldeia ou bairro. A Igreja não pode deixar de ver com muito apreço estas manifestações festivas, honestas, que mostram como a vocação divina à libertação definitiva e à salvação continua, apesar de tudo, presente e activa, no coração de todos os homens" (cfr EN 25-39; GS 1-3). A vida cristã tem toda ela um sentido festivo, que lhe vem da fé em Jesus Cristo que renovou todas as coisas. Os cristãos participam, já no presente, desta proclamação da presença de Deus na sua vida: "Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram" (cfr Ap 21, 3-4). Na fé, pela qual aderiu ao Evangelho de Jesus Cristo e recebeu uma nova vida, o cristão vive de Deus e no amor para com Ele. Por isso, escuta esta palavra que enche de alegria e esperança a sua vida: "Eu renovo todas as coisas. Ao que tiver sede, Eu lhe darei a beber gratuitamente da nascente da água da vida. O que vencer receberá estas coisas como herança; Eu serei o seu Deus e ele será meu filho" (cfr Ap 21, 5-8). Sobre esta base toda a vida do cristão está envolvida de motivos para festejar. A festa cristã, assumindo todos os motivos humanos para a alegria, penetra-os e envolve-os com o espírito que brota da fé. E isso dá motivo e espírito novo à festa. Mediante as festas que promove, a comunidade dos fiéis exprime a sua alegria pelas obras e pelos dons de Deus ao seu povo. É Deus acima de tudo que está no centro destas iniciativas dos crentes. Eles desejam louvar a Deus que os ama e se lhes manifestou. Como a Mãe de Cristo, cantam por actos e palavras: "A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, pelas Suas maravilhas" (cfr Lc. 1,47). Onde encontram os cristãos o motivo fundamental para as suas festas? Na maior das maravilhas de Deus: a vitória de Jesus Cristo sobre a morte e a vida nova que dá aos seus fiéis. "Toda a festa cristã nasce da nossa fé na Ressurreição de Cristo, isto é, da nossa certeza de que Ele venceu a morte e está vivo, e da nossa esperança de vir a partilhar do Seu triunfo, de seguirmos o Seu caminho. Trata-se, por isso, da celebração festiva da nossa fé, da nossa esperança e da nossa acção de graças a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que O ressuscitou de entre os mortos (cfr Rom 1,4) e nos reconciliou consigo (cfr Rom 5,10-11), chamando-nos a sermos Seus filhos, co-herdeiros de Cristo e participantes da sua glória (cfr Rom 8,14-17)". A festa é expressão da comunidade crente: inclui a celebração dos mistérios da fé mas também a alegria comum e o convívio e comunhão de irmãos unidos "no amor de Cristo", como dizemos na missa. Vivida assim, a festa torna-se testemunho de fé por parte da comunidade crente no meio dos outros homens. E deverá despertar em cada cristão "redobrado entusiasmo pela edificação do Mundo novo, justo, fraterno e feliz, pelo qual todos esperamos ardentemente". III AS FESTAS CRISTÃS NA VIDA DAS COMUNIDADES Não há um modelo pré-definido de festa cristã. Esta deverá exprimir a fé, a alegria e a fraternidade próprias da comunidade crente. Por isso ela não pode delegar noutros a responsabilidade de tomar nas mãos a organização das suas festas. Devem ser obra de todos, embora a sua realização concreta tenha que ser confiada a uma Comissão. Os responsáveis primeiros são o pároco e o Conselho Pastoral Paroquial, que devem definir em cada ano os objectivos específicos e as características marcantes das festas da comunidade. Quais os critérios pelos quais se há-de pautar a programação das festas cristãs? 1. O objectivo principal é louvar a Deus e honrar os santos. Todo o programa deverá ser elaborado em função deste objectivo, procurando dar forma à proclamação das maravilhas de Deus na história humana, na vida dos santos, no percurso da comunidade e dos seus membros e libertar a expressão interior de gratidão e louvor. A celebração solene da Eucaristia, a procissão bem ordenada e com beleza, a música e a actuação de artistas, as representações de determinadas cenas ou episódios são algumas das formas a privilegiar. Antes da festa importa dar a conhecer e fazer experimentar as maravilhas de Deus. É preciso ajudar a comunidade a preparar-se espiritualmente. A iniciativa do escriba Neemias (cfr Ne 8) pode bem sugerirnos quanto a proclamação da palavra de Deus transforma as pessoas e gera motivos profundos para a festa. A evangelização das pessoas é a primeira condição para a realização das festas com um sentido cristão. Não se pode reduzir a preparação espiritual a uma ou mais missas, como tantas, e a confissões à maneira de sempre. Actos culturais e de evangelização também se devem promover na preparação e na realização das festas. 2. Situar a comunidade crente no âmbito da comunidade humana. Ao pensar as suas festas, a comunidade cristã deverá fazê-Io em atenção e diálogo com a comunidade humana de que faz parte. Por isso, é importante reconhecer que se trata também de "festas da aldeia", e que valores como o reforço da identidade comunitária, a alegria sã e o fortalecimento da fraternidade e da esperança deverão ser promovidos. Sendo assim, não é possível nem desejável, sobretudo nas aldeias e bairros com alguma coesão, separar a comunidade humana da cristã, nem a programação religiosa da profana. A comunidade cristã deverá tornar-se o espaço onde cada pessoa encontra lugar e é acolhida amigavelmente. Mesmo quando não participam nos actos de culto, as pessoas deverão encontrar alguma referência para a própria vida. A comunidade cristã abre-se a todos e dá-lhes o testemunho da sua fé, de alegria e de esperança que lhe vêm de Jesus Cristo. Embora deva ser a comunidade cristã e o seu pastor a liderar, é importante promover uma participação mais alargada a outras pessoas da comunidade humana da aldeia, salvaguardando o objectivo principal da festa. Esta, sem prejuízo do fundamental, deverá tornar-se motivo para o convívio e a colaboração de todos, mesmo dos não praticantes. 3. Inserir as festas no conjunto da vida da comunidade cristã. As festas não podem ser realizações isoladas, à margem das outras. Pelo contrário, devem estar bem inseridas na caminhada cristã e no esforço pastoral da comunidade. Para isso, o Conselho Pastoral Paroquial não pode deixar de assumir responsabilidades na reflexão, definição e programação. Elas não podem ser confiadas simplesmente a qualquer comissão, sem que esta tenha recebido orientações do Conselho Pastoral. É neste órgão de corresponsabilidade que devem ser definidas as grandes linhas pelas quais se deve orientar a realização das festas, sempre em harmonia com o conjunto da programação para o ano e para toda a paróquia. Inevitavelmente, também o Conselho Económico paroquial e/ou a Comissão administrativa da igreja devem ser corresponsabilizados na programação das festas. Na vida cristã, a festa deverá constituir verdadeiramente um momento extraordinário, que faz experimentar o diferente do quotidiano, na alegria, na intensidade, no sentimento de fraternidade e de comunhão, na percepção das graças e do amor divino. Assim ela contribui para o revigorar e consolidar da fé e do espírito comunitário, além de dar um novo alento para as responsabilidades a assumir na vida quotidiana. Os párocos acompanhem e orientem as comissões de festas, para que as programem segundo as orientações do Conselho Pastoral. Tal acompanhamento deve incluir a formação cristã e espiritual das pessoas para a missão que vão desempenhar. É de desejar que a fase preparatória inclua catequeses sobre as festas cristãs e a vida dos santos ou o mistério que se celebra. A ausência dos pastores, ou a sua intervenção pelo mínimo, deixando o povo seguir as suas inclinações, pode ter um efeito desastroso, como aconteceu ao antigo povo de Israel, quando Moisés se afastou durante muito tempo e Aarão não teve força para o contrariar. A consequência foi a idolatria e a festa em honra do bezerro de ouro (cfr Ex 32). 4. A liturgia e a procissão deve merecer cuidados especiais. Embora não sejam os actos mais frequentados, são os que melhor concretizam o objectivo principal da festa. Por isso precisam de ser bem preparados e executados com a melhor perfeição, para que a celebração resulte de grande qualidade e beleza. Compete à equipa litúrgica, de que faz parte o pároco ou o sacerdote que preside, em diálogo com a comissão das festas, cuidar dos vários aspectos da celebração. 5. Envolver os diferentes agentes locais. A festa não pode apenas recorrer a músicos, artistas e outros animadores contratados. É necessário envolver os talentos das pessoas da comunidade e mesmo proporcionar a participação das crianças da catequese e das escolas, e dos jovens, dando-lhes oportunidade de participarem a seu jeito e com generosa criatividade. IV ALGUMAS NORMAS PARA A REALIZAÇÃO DAS FESTAS CRISTÃS 1. Nomeação das Comissões. Como já se disse, os primeiros responsáveis pela promoção das festas são o Conselho Pastoral Paroquial ou o Conselho Económico Paroquial ou a Comissão Administrativa da igreja. a) Nos casos em que se entenda ser melhor haver uma comissão organizadora, esta é nomeada pelo pároco, depois de ouvir o Conselho Pastoral. b) Podem fazer parte da Comissão as pessoas que, no entender de quem as nomeia, tenham as características próprias e mereçam a confiança para assumir a responsabilidade de organizar a festa dentro do espírito cristão e nas condições exigidas. c) Depois de uma primeira reunião com o órgão que a nomeou, para definir os objectivos, características e condições para a realização da festa, a Comissão deve, quando possível, tomar posse da sua responsabilidade em acto público, perante a comunidade cristã. d) O presidente nato da Comissão é o pároco; compete-lhe especialmente informar as pessoas sobre o sentido cristão das festas e garantir que estas sejam programadas dentro de tal sentido; se entender conveniente, pode designar um juiz ou um vice-presidente executivo para coordenar a Comissão. 2. Programa. O programa, a começar pela data, que deve adequar-se o mais possível ao calendário litúrgico, concretiza as razões da festa. Por isso, a sua elaboração deve merecer todo o cuidado e obedecer aos objectivos definidos pelo Conselho Pastoral Paroquial. a) A sua elaboração, evitando gastos excessivos, há-de procurar atingir o objectivo principal de uma festa cristã e promover o convívio salutar entre as pessoas, dentro do equilíbrio das várias partes do programa. b) A escolha dos artistas e animadores do arraial deve pautar-se pela qualidade e interesse, tendo em conta que a mensagem não contradiga o espírito humanista e cristão. Dê-se prioridade aos valores locais e promovase a participação dos diferentes grupos da comunidade que respeitem as finalidades da festa. c) A programação das festas deve prever o encerramento às 24 horas de cada dia. Os contratos com artistas e agrupamentos musicais obedeçam ao limite fIxado, para garantir o devido respeito aos vizinhos do lugar do arraial. d) Os programas impressos, devem ter uma apresentação gráfica nobre, sem figuras chocantes para a sensibilidade cristã; quanto ao eventual recurso à publicidade, sejam escrupulosamente respeitadas a regras do bom senso e da legislação fiscal. 3. Preparação. Haja o cuidado de fazer a preparação adequada e atempadamente, de modo que nela possa participar o maior número de pessoas, incluindo aquelas que estão envolvidas na organização da festa. a) A preparação deverá incluir não apenas a organização prática, mas também a formação espiritual e outros aspectos que ajudem a expressar o espírito cristão. b) Procure-se dar a conhecer pelos meios mais adequados, os motivos da festa, a história da própria comunidade e do seu património, e a vida dos padroeiros. 4. Orçamentos ou estimativa de custos e de receitas. a) Normalmente, a organização das festas deve fazer um orçamento ou estimativa das despesas, e providenciar quanto às formas de recolher os meios. b) O objectivo das festas não será arranjar fundos para a comunidade. Todavia, é bom que da realização das festas resulte saldo positivo, para dotar a comunidade dos bens necessários ao seu desenvolvimento. 5. Prestação de contas. a) As contas das festas devem ser apresentadas ao Conselho Económico ou à Comissão da igreja, dentro de dois meses após a sua realização, e registadas no livro próprio da igreja. b) O saldo positivo será entregue na totalidade aos responsáveis pela administração dos bens da comunidade cristã, o Conselho Económico, a Comissão da igreja ou outros, conforme os casos, para as finalidades próprias da Igreja; delas será dado conhecimento à comunidade. c) Nenhuma outra festa será autorizada, enquanto não forem prestadas contas da anterior, como se disse antes. d) Outras aplicações sociais das receitas só podem ser feitas com o acordo expresso da Autoridade Diocesana, devendo ser pedido antes da realização das festas, para não se defraudar quem contribui com as suas ofertas. 6. Ornamentação do arraial, dos templos, altares e imagens. a) Deve procurar-se sobretudo o bom gosto e a beleza, na harmonia de uma comunidade plural. b) Respeite-se e faça-se bom uso do património artístico, de templos e imagens e outros utensílios de valor. 7. Liturgia da festa e procissão. a) Tenha-se cuidado especial nos seguintes aspectos: proclamação da Palavra de Deus, pregação, cânticos, participação activa dos fiéis, incluindo a sagrada Comunhão, e ainda os sinais exteriores: altar, vasos sagrados, paramentos, etc. b) Nas procissões, preveja-se cuidadosamente os itinerários, pedindo, se necessário, a colaboração das autoridades policiais. A organização procure a boa ordem, o ritmo adequado e a beleza do desfilar das pessoas. Também os utensílios, como pálio, lanternas, bandeiras, opas, andores, imagens, aparelhagem sonora, etc. devem estar em boas condições. 8. Ambiente físico e sonoro. Cuide-se de garantir um bom ambiente no recinto das festas, com moderação e equilíbrio, tanto na iluminação como na decoração e nos sons. Evite-se o barulho exagerado, sobretudo à noite, para respeitar os vizinhos e quem precisa de descansar. 9. Licenças e seguros. Os organizadores da festa devem realizá-la com as devidas licenças das autoridades, e fazer seguros que salvaguardem o risco de acidentes. Para cada festa cristã deve ser pedida a licença diocesana, enviando o programa impresso. Tal requisito exprime a comunhão eclesial com o Pastor, e é ocasião para se verificar se as festas são organizadas dentro das normas diocesanas. CONCLUSÃO Estas instruções, elaboradas no espírito da renovação sinodal e baseadas no documento pastoral de 13-01-1980, foram vistas pelo Conselho Presbiteral e analisadas nos respectivos círculos. O objectivo básico é clarificar e unificar toda a acção pastoral, que integra harmoniosamente as funções profética, sacerdotal e caritativa na missão una da Igreja. É óbvio que convirá dar prioridade às celebrações dominicais e às festas litúrgicas que fazem parte do calendário geral ou da tradição vivencial de uma comunidade cristã. Também não olvidamos as celebrações festivas e comunitárias dos sacramentos e sacramentais. Queremos que todas as festas cristãs sejam sinal de fé e alimentem a vida interior. Sem menosprezar o convívio e a alegria relacional. Sempre nas coordenadas da dignidade humana e do louvor a Deus. As festas cristãs, sem esquecer as celebrações litúrgicas dos funerais, são tempos de reflexão e de graça. Sabemos que as tradições podem ter vícios e desvios, que é necessário purificar. Perante ocasionais teimosias e caprichos, teremos a força da pedagogia e do bom senso, a fim de que caminhemos progressivamente, separando as águas, para a renovação e beleza de todas as festas cristãs. A interpelante questão das festas cristãs, que acabamos de abordar à luz do espírito sinodal, será objecto e objectivo da formação permanente do Clero e do Laicado. No Pós-concílio Vaticano II, a Congregação da Educação Católica publicou em 03.06.1979 uma instrução acerca da formação dos candidatos ao sacerdócio ministerial, que determina com insistência: "Seja dada grande importância à celebração das festas dos santos da diocese; cada celebração seja preparada com uma catequese, sem desprezar o valor pastoral de algumas tradições populares" (nº 32). Encerramos estas breves considerações/recomendações com a palavra de esperança que nos diz o Papa na carta apostólica "Novo Millennio Ineunte" de 06.01.2001: "Na nossa caminhada acompanha-nos a Virgem Santíssima, que é estrela da nova evangelização e guia do nosso caminho" (n. 58), para Aquele que é o Caminho. Caríssimos Diocesanos: Todos desejamos que as festas cristãs correspondam sempre mais e melhor à força do Evangelho, que se vive na Igreja. A festa cristã, celebrada na comunidade, testemunha a alegria dos peregrinos, que acreditam na Vida e na Ressurreição de Cristo. Pedimos aos Reverendos Párocos, aos Conselhos e às Comissões a mais recta diligência para implementarmos o bom espírito e a beleza das festas cristãs na nossa Igreja, a Diocese de Leiria-Fátima. Leiria, 13 de Fevereiro 2001 † SERAFIM DE SOUSA FERREIRA E SILVA Bispo de Leiria-Fátima