Álgebra Linear I - Aula 14 1. Matrizes. 2. Forma matricial de uma transformação linear. 3. Composição de transformações lineares e produto de matrizes. 4. Determinante do produto de matrizes. Roteiro 1 Matrizes Uma matriz n × m (onde n representa o colunas) M é definida como segue: a1,1 a1,2 a2,1 a2,2 A = .. .. . . an,1 an,2 número de linhas e m o número de ... ... .. . a1,m a2,m .. . . . . an,m Dizemos que (aj,1 , aj,2 , aj,m ) é a j-ésima linha de A e que (a1,j , a2,j , an,j ) é a j-ésima coluna de A. Quando n = m, dizemos que a matriz é quadrada. Dadas duas matrizes A e B das mesmas dimensões n × m, a1,1 a1,2 . . . a1,m b1,1 b1,2 . . . b1,m a2,1 a2,2 . . . a2,m b2,1 b2,2 . . . b2,m , B = A = .. .. .. .. .. .. , .. .. . . . . . . . . an,1 an,2 . . . an,m bn,1 bn,2 . . . bn,m definimos a soma e a substração de matrizes S = A + B e D = A − B, como segue, a1,1 + b1,1 a1,2 + b1,2 . . . a1,m + b1,m a2,1 + b2,1 a2,2 + b2,2 . . . a2,m + b2,m S= , .. .. .. .. . . . . an,1 + bn,1 an,2 + bn,2 . . . an,m + bn,m 1 e D= a1,1 − b1,1 a2,1 − b2,1 .. . an,1 − bn,1 a1,2 − b1,2 . . . a1,m − b1,m a2,2 − b2,2 . . . a2,m − b2,m .. .. ... . . an,2 − bn,2 . . . an,m − bn,m , isto é, S e D são matrizes das mesmas dimenões n × m que A e B, onde os coefientes si,j e di,j das matrizes soma S e substração D são: si,j = ai,j + bi,j , di,j = ai,j − bi,j . A multiplicação da matriz A pelo escalar λ é a matriz E, n × m, cujos coeficientes são ei,j = λ ai,j . Finalmente, dadas matrizes A, n × m, e B, r × k, o produto P = A B está definido quando r = m e é uma matriz n × k, o coeficiente pi,j da matriz produto é dado por pi,j = ai,1 b1,j + ai,2 b2,j + · · · + ai,m bm,j . Mais tarde veremos como o produto de duas matrizes aparece de forma natural: a regra de multiplicação ficará clara quando estudemos a composição de transformações lineares. V. pode interpretar os coeficientes da matriz produto como segue. Escreva a1,1 a1,2 . . . a1,m ℓ1 a2,1 a2,2 . . . a2,m ℓ2 A = .. .. .. = .. , . . . . . . . an,1 an,2 . . . an,m ℓn onde cada ℓi é um vetor linha de Rm da forma ℓi = (ai,1 , ai,2 , . . . , ai,m ). Analogamente, escreva b1,1 b1,2 . . . b1,k b2,1 b2,2 . . . b2,k B = .. .. .. .. . . . . bm,1 bm,2 . . . bm,k 2 c1 = c2 ck cada cj é um vetor coluna de Rm da forma b1,j b2,j cj = .. . . bm,j Então, pi,j é obtido como o produto escalar dos vetores ℓi e cj , pi,j = ℓi · cj . Observe que o produto A B de duas matrizes pode estar definido e o produto B A pode não esta-lo. Por exemplo, se a matriz A é 3 × 2 e B é 2 × 1. Neste caso A B é uma matriz 3 × 1 e não é possı́vel fazer o produto B A. Também pode acontecer que os dois produtos estejam definidos e os resultados dos produtos serem matrizes de dimensões diferentes. Por exemplo, se A é 3 × 2 e B é 2 × 3, temos que A B está definido e é uma matriz 3 × 3, e A B também está definido e é uma matriz 2 × 2. Portanto, o produto de matrizes não é (em geral) comutativo: mesmo quando as matrizes A B e B A têm as mesmas dimensões. Um exemplo desta situação é 2 1 1 3 A= , B= . 1 1 1 1 Temos AB = 2 1 1 1 1 3 1 1 BA= 1 3 1 1 1 2 1 1 e = 3 7 2 4 = 5 4 3 2 Portanto, os dois produtos estão definidos, porém A B 6= B A. 3 . 2 Forma matricial de uma transformação linear Lembramos que se T e L são transformações lineares de R3 em R3 e de R2 em R2 são da forma: T : R3 → R3 , T (x, y, z) = (a1 x + a2 y + a3 z, b1 x + b2 y + b3 z, c1 x + c2 y + c3 z), L : R2 → R2 , L(x, y) = (a1 x + a2 y, b1 x + b2 y). Observe que T (1, 0, 0) = (a1 , b1 , c1 ), T (0, 1, 0) = (a2 , b2 , c2 ), T (0, 0, 1) = (a3 , b3 , c3 ), L(1, 0) = (a1 , b1 ), L(0, 1) = (a2 , b2 ). As transformações lineares T e L têm as seguintes representações matriciais (representando os vetores na sua forma coluna): x a1 a2 a3 x x a a x 1 2 [T ] y = b1 b2 b3 y , [L] = . y b1 b2 y z c1 c2 c3 z Isto significa que se escrevemos um vetor v na forma coluna [v] e fazemos o produto das matrizes [T ] [v] obtemos como resultado o vetor T (v) na forma coluna: seja v = (x, y, z), então x [v] = y z e x a1 a2 a3 x a1 x + a2 y + a3 z [T ] y = b1 b2 b3 y = b1 x + b2 y + b3 z . z c1 c2 c3 z c1 x + c2 y + c3 z Pelos comentários já feitos temos a seguinte interpretação das colunas da matriz [T ]. 4 • A primeira coluna é a imagem de T (1, 0, 0), • a segunda coluna é a imagem de T (0, 1, 0), • a última coluna é a imagem de T (0, 0, 1). Comentários análogos podem ser feitos para a matriz [L]. Exemplos 1. • As transformações lineares identidade e nula têm como matrizes associadas as matrizes identidade (diagonal igual a 1 e todos os outros coeficientes nulos) e a matriz nula (todos os coeficientes são zero). • As matrizes das transformaçõeso lineares de cisalhamento horizontal H(x, y) = (x, αx + y) e vertical V (x, y) = (x + αy, y) são 1 0 1 α [H] = e [V ] = . α 1 0 1 • Lembrando que a projeção ortogonal no vetor unitário (a, b, c) de R3 é da forma P (x, y, z) = (a2 x + aby + acz, abx + b2 y + bcz, acx + bcy + c2 z). temos a2 ab ac [P ] = ab b2 bc . ac bc c2 • Lembrando a fórmula das reflexões R e S (em R2 ) em torno dos eixos X e Y e T em torno da origem R(x, y) = (x, −y), S(x, y) = (−x, y), (veja a última aula) temos 1 0 −1 0 [R] = , [S] = , 0 −1 0 1 5 T (x, y) = (−x, −y), [T ] = −1 0 0 −1 . • Lembrando a expressão da rotação de ângulo θ no sentido anti-horário Rθ (x, y) = ((cos θ) x − (senθ) y, (cos θ )y + (senθ) x), temos [Rθ ] = cos θ −senθ senθ cos θ . • Consideremos agora a de projeção T na reta ax + by = 0 segundo a direção do vetor v = (c, d). Pelos resultados da aula anterior, ax + by ax + by) T (x, y) = x − c, y − d . ac + bd ac + bd Portanto, ac bc 1 − ac + bd − ac + bd [T ] = . ad bd − 1− ac + bd ac + bd Exemplo 1. Determine a matriz da transformação linear T : R3 → R3 , T (u) = u × v, onde v = (1, 1, 1). Resposta: Para isto determinaremos a i T (x, y, z) = (x, y, z) × (1, 1, 1) = x 1 Portanto, T (1, 0, 0) = (0, −1, 1), forma geral de T . Observe que j k y z = (y − z, z − x, x − y). 1 1 T (0, 1, 0) = (1, 0, −1), T (0, 0, 1) = (−1, 1, 0). Finalmente, obtemos 0 1 −1 1 . [T ] = −1 0 1 −1 0 6 Exemplo 2. Determinar a matriz da transformação linear T : R3 → R3 , T (u) = (u · v) w, onde v = (1, 1, 1) e w = (1, 2, 3). Resposta: Calcularemos as imagens dos vetores i, j e k. Temos T (1, 0, 0) = ((1, 0, 0) · (1, 1, 1)) (1, 2, 3) = (1, 2, 3), T (0, 1, 0) = ((0, 1, 0) · (1, 1, 1)) (1, 2, 3) = (1, 2, 3), T (0, 0, 1) = ((0, 0, 1) · (1, 1, 1)) (1, 2, 3) = (1, 2, 3). Portanto, 1 1 1 [T ] = 2 2 2 . 3 3 3 Analogamente, dada uma matriz [T ] temos uma transformação linear T associada a dita matriz. Dada a matriz a1 a2 a3 [T ] = b1 b2 b3 c1 c2 c3 sua transformação linear associada é T (x, y, z) = (a1 x + a2 y + a3 z, b1 x + b2 y + b3 z, c1 x + c2 y + c3 z). Ou de outra forma, escrevendo os vetores x a1 a2 [T ] y = b1 b2 z c1 c2 3 em froma coluna, a3 x b3 y . c3 z Composição de transformações lineares. Produto de matrizes Considere duas transformações lineares T e L, T : Rm → Rk , L : Rn → Rℓ . 7 Se ℓ é igual a m temos que dado um vetor u de Rn sua imagem L(u) está em Rℓ = Rm , que é o domı́nio de T , portanto podemos aplicar T a L(u), obtendo T (L(u)). Neste caso podemos definir a composição T ◦ L como T ◦ L(u) = T (L(u)). Analogamente, se k é igual a n, dado qualquer vetor v de Rm sua imagem T (v) está em Rk = Rn , que é o domı́nio de L, portanto podemos aplicar L a T (v), obtendo L(T (v)). Neste caso podemos definir a composição L ◦ T . Dadas duas transformações lineares T : Rm → Rk , L : Rn → Rm , a composição T ◦ L T ◦ L : Rn → Rk , é uma nova transformação linear: • T ◦ L(u + v) = T (L(u + v)) = T (L(u) + L(v)) = T (L(u)) + T (L(v)) = T ◦ L(u) + T ◦ L(v), • T ◦ L(σu) = T (L(σu)) = T (σL(u)) = σT (L(u)) = σ(T ◦ L(u)). Observação 1. Como no caso do produto de matrizes, a composição de transformações lineares não é comutativa. Em alguns casos a composição T ◦ L pode estar definida e não esta-lo a composição L ◦ T . Mesmo quando as duas composições estão definidas pode acontecer que T ◦ L 6= L ◦ T . Por exemplo, considere os cisalhamentos T (x, y) = (x + α y, y), e L(x, y) = (x, β x + y). Então L ◦ T (x, y) = L((x + α y, y)) = (x + α y, y + β α y + β x), e T ◦ L(x, y) = T ((x, β x + y)) = (x + α y + α β x, y + βx), que obviamente são (em geral) diferentes. Dê v. mesmo outros exemplos. 8 A seguir calcularemos a matriz associada à composição de duas transformações lineares. Por simplicidade, faremos os cálculos em R2 , os cálculos em R3 são idênticos. Sejam T e L transformações lineares cujas matrizes são a1 a2 c1 c2 [T ] = , [L] = . b1 b2 d1 d2 Para determinar a matriz de L◦T é suficiente calcular L◦T (1, 0) e L◦T (0, 1), que serão as colunas da nova matriz. L ◦ T (1, 0) = L((a1 , b1 )) = a1 L(1, 0) + b1 L(0, 1) = = a1 (c1 , d1 ) + b1 (c2 , d2 ) = = (a1 c1 + b1 c2 , a1 d1 + b1 d2 ). L ◦ T (0, 1) = L((a2 , b2 )) = a2 L(1, 0) + b2 L(0, 1) = = a2 (c1 , d1 ) + b2 (c2 , d2 ) = = (a2 c1 + b2 c2 , a2 d1 + b2 d2 ). Obtendo a nova matriz: [L ◦ T ] = c1 a1 + c2 b1 c1 a2 + c2 b2 d1 a1 + d2 b1 d1 a2 + d2 b2 . . Finalmente, observamos que os cálculos feitos para calcular o produto de duas matrizes fornece a seguinte regra geral. Considere os vetores c = (c1 , c2 ) e d = (d1 , d2 ) que determinam as linhas de [L], e os vetores u = (a1 , b1 ) e v = (a2 , b2 ) que determinam as colunas de [T ]. Temos a seguinte expressão: c·u c·v [L][T ] = . d·u d·v 4 Determinante do produto de duas matrizes Considere as matrizes triangulares a b [A] 0 c e [B] d e 0 f . Denote por det[M] o determinante de uma matriz quadrada (mesmo número de linhas que de colunas). Observe que det[A] = a c det[B] = d f. 9 Observe que [AB] = [A][B] = ad ae + bf 0 cf e que det[AB] = (a d) (c f ) = det[A] det[B]. Neste caso temos que o determinante da matriz produto é o produto dos determinantes. De fato, sempre, o produto de duas matrizes é o produto dos determinantes das duas matrizes. Uma justificativa é a seguinte: reduzindo à forma escalonada, o determinante não muda, assim a afirmação decorre da afirmação sobre o produto de matrizes triangulares. 10