Projetos de
Educação, Comunicação & Participação
Perspectivas para Políticas Públicas
Fernando Rossetti (Editor-Chefe)
Patricia Vasconcellos (Edição e Pesquisa)
Alexandre Le Voci Sayad (Revisão)
Projetos de
Educação,
Comunicação
& Participação
Perspectivas para Políticas Públicas
Fernando Rossetti (Editor-Chefe)
Patricia Vasconcellos (Edição e Pesquisa)
Alexandre Le Voci Sayad (Revisão)
Índice
 Apresentação | 4
 Introdução | 7
1.
2.
3.
4.
5.
Contexto Histórico | 7
Resultados e Limites | 10
Desafios Estruturais | 14
Parcerias, Redes e Voluntários | 21
Aprender Fazendo | 24
 Conclusão | 29
 Cidade Escola Aprendiz | 31
 Fundação Casa Grande | 45
 Cipó - Comunicação Interativa | 55
 Comunicação e Cultura | 70
 MOC - Movimento de Organização Comunitária | 84
 Multirio - Empresa Municipal de Multimeios | 97
 NCE - Núcleo de Comunicação e Educação | 116
 Oficina de Imagens | 139
 Agência Uga-Uga de Comunicação | 152
 Instrumentos de Pesquisa | 163
Educação, Comunicação & Participação
Apresentação
Apresentação
Apresentação
Este Relatório tem como objetivo contribuir para
a disseminação de projetos envolvendo Educação,
Comunicação & Participação em escolas públicas
de ensino fundamental e médio. É um trabalho de
sistematização de idéias, estratégias e metodologias
levantadas ao longo de um processo de pesquisa, junto
a experiências envolvendo crianças, adolescentes
e jovens.
O projeto de pesquisa, sistematização e
disseminação de experiências nessa área resulta de
uma parceria entre o UNICEF, a Educarte (pesquisa
e editoração) e a Central de Projetos (administração),
e prevê a produção em 2004, a partir deste material,
de um manual para secretários municipais
de Educação.
A fase de levantamento de dados envolveu, além
de diversas leituras, visitas de três dias, em média, a
nove instituições em seis estados brasileiros1:






Multirio (Rio de Janeiro, RJ)

Núcleo de Comunicação e Educação
da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo – NCE/ECA/
USP (São Paulo, SP)

Oficina de Imagens (Belo Horizonte, MG)
A escolha dos projetos buscou retratar a diversidade
das experiências em Educação, Comunicação &
Participação que vêm ocorrendo no país.
A Introdução apresenta os elementos considerados
constitutivos do conjunto das experiências. Começa
com um contexto histórico, situando elementos
determinantes para a emergência da Educação,
Comunicação & Participação. Em seguida, alinha
os principais resultados alcançados pelos casos
analisados e algumas das limitações comuns a eles.
O terceiro item da Introdução, denominado
Desafios Estruturais, busca demonstrar que
Agência Uga-Uga de Comunicação (Manaus, a disseminação de projetos desse tipo, com
AM)
qualidade e sustentabilidade, deve considerar – e,
Cidade Escola Aprendiz (São Paulo, SP)
freqüentemente, modificar – a forma como as redes
Cipó - Comunicação Interativa (Salvador, de ensino estão estruturadas – desde a carreira
BA)
docente e os mecanismos de nomeação de diretores
Comunicação e Cultura (Fortaleza, CE)
até o currículo.
Fundação Casa Grande (Nova Olinda, CE)
Em quarto lugar, a Introdução analisa potenciais
MOC - Movimento de Organização e entraves das Parcerias, Redes e Voluntários. Por
Comunitária (Feira de Santana, BA)
último, discute os conceitos e práticas pedagógicas
1 Os termos em negrito são os nomes pelos quais as instituições são mais conhecidas; esses
nomes serão utilizados para referir-se a elas ao longo deste Relatório

4
Educação, Comunicação & Participação
Apresentação
dominantes nas experiências, analisando alternativas
8.Registro, Sistematização, Avaliação e
existentes e ações necessárias para a implementação Disseminação
de políticas públicas na área.
Situa o estágio alcançado pela experiência
Na seqüência da Introdução, são apresentadas
nessas quatro áreas
as nove experiências visitadas durante a pesquisa,
enfocando, em cada caso, as principais questões
9.Resultados e Produtos
envolvidas nesse tipo de projeto. Essas questões
Aponta os principais resultados e produtos da
foram agrupadas em nove itens:
experiência, e suas perspectivas
1.História
Traça o histórico do projeto, analisando seus
principais elementos constitutivos
2.Gestão
Aborda a administração do projeto,
mecanismos de decisão e planejamento
3.Sustentabilidade
Analisa os fatores que garantem – ou
ameaçam – a continuidade do projeto
4.Parceria com a Escola
Descreve como o trabalho se relaciona com as
escolas e o sistema educativo
5.Pedagogia/Metodologia
Apresenta os principais conceitos,
metodologias e materiais da experiência
6.Participação
Discute as estratégias de promoção de
processos participativos no projeto
7.Relações
Alinha padrões de relacionamento decorrentes
da cultura organizacional
Optou-se, nesses nove relatórios relacionados às
experiências analisadas, por apresentar, na medida
do possível, apenas a função de cada entrevistado e
não seu nome próprio. Isso se deve ao fato de que,
na enorme maioria das vezes, a compreensão de cada
experiência envolveu dezenas e, por vezes, centenas
de entrevistas (algumas em grupos grandes), e não
faria sentido citar uma pessoa sem citar muitas outras.
Assim, cita-se o nome de um entrevistado apenas
nos casos em que a compreensão da experiência e do
texto sobre ela exija isso.
Ao final do relato sobre cada experiência, há
também anexos, desde instrumentos pedagógicos
utilizados pelo projeto até textos que contribuem
para a compreensão do trabalho.
Os nove relatos são acompanhados de uma ficha
técnica, com uma síntese dos dados principais da
organização que promove a experiência. Essa ficha
foi um dos instrumentos utilizados para coleta de
informações. Também foi aplicado um extenso
questionário, essencialmente aberto, voltado para
os gestores e educadores envolvidos e outro, voltado
para os estudantes participantes. A metodologia
de aplicação desses instrumentos envolveu desde
entrevistas gravadas, individuais e em grupo,
até oficinas em que os estudantes e educadores
produziram textos.
5
Educação, Comunicação & Participação
Apresentação
A construção dos instrumentos da pesquisa teve
o apoio de um grupo de consultores formado por
pessoas de diversas origens institucionais2.
Os textos deste Relatório têm caráter mais
jornalístico – com descrições e análises – do que
científico. Eles não se pretendem acadêmicos. O uso
de termos ou conceitos como Educação, Comunicação
& Participação não se refere diretamente a qualquer
autor ou linha de pensamento – e quando o faz,
cita a fonte no próprio texto ou em notas de
rodapé. Recomendamos , inicialmente, a leitura da
Introdução, seguida do texto sobre o NCE/ECA/
USP, por ser o projeto que, promovido por um núcleo
universitário, vai mais fundo na fundamentação
teórica de sua prática – sendo que muitos dos outros
projetos se referem a termos por ele introduzidos no
país, como a educomunicação.
Ao final, a Conclusão traz, muito sinteticamente,
os dois caminhos principais para a disseminação em
escolas de projetos nessa área, situando quem são os
parceiros ideais para cada uma dessas estratégias.
2 Cíntia Leandro (Central de Projetos), Gabriela Goulart (ANDI), Iracema Nascimento (Ação
Educativa), Maria Helena Bonilla (UFBA), Mario Volpi (UNICEF), Rachel Mello (UNICEF), Vânia
Quintão (UnB)
6
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
Introdução
Introdução
 CONTEXTO HISTÓRICO
As nove experiências apresentadas neste Relatório
vivem realidades muito distintas. Considerando
apenas o contexto regional, há ações no Amazonas,
na Bahia, no Ceará, em Minas, Rio e São Paulo. Os
projetos são liderados por ONGs, pela Universidade,
pelo governo e alguns resultam de parcerias entre os
três. Os processos educativos envolvem de dezenas
de crianças e jovens a milhares de estudantes e
professores. Os orçamentos das instituições variam
de R$ 100 mil a R$ 25 milhões por ano.
A diversidade de produtos de comunicação criados
pelo conjunto dos projetos é igualmente acentuada:
sites na internet, jornais, revistas, programas de
rádio, fanzines, vídeos, livros, campanhas, cartazes,
murais, histórias em quadrinhos, materiais didáticos
e para-didáticos, entre outros. As metodologias de
desenvolvimento desses produtos também variam
significativamente.
No entanto, num contexto mais amplo, esses
projetos compartilham uma série de raízes
históricas, notadamente nos três campos em que
suas ações se desenvolvem: Educação, Comunicação
& Participação.
1.1. Educação
O campo da educação passa por enormes
transformações no plano internacional e, mais
ainda, no nacional. Expressões como sociedade do
conhecimento, sociedade da informação, lifelong
learning (“aprendizagem por toda vida” ou formação
continuada), entre muitas outras, são rapidamente
incorporadas ao vocabulário cotidiano de boa parte
das sociedades contemporâneas.
No Brasil, as reformas educacionais ganharam
vulto e velocidade cada vez maiores, desde o início
do processo de democratização no país. Uma breve
lista dessas mudanças dão a dimensão do que vem
ocorrendo na área nos últimos anos:

A iminente universalização do acesso ao
ensino fundamental dos 7 aos 14 anos e a
expansão do ensino médio e superior acima
de 10% ao ano

A nova Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, a LDB (9394/96)

O lançamento pelo Ministério da Educação
(MEC) dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs), com seus Temas
Transversais

A possibilidade legal para as escolas de
ensino médio implementarem ações e
projetos próprios em 25% do currículo

A redefinição dos mecanismos de alocação
dos recursos da Educação, como a emenda
constitucional que criou o Fundef, em
1996, e a compra de vagas em universidades
privadas, proposta pelo PT em 2004

O desenvolvimento de complexos sistemas
de avaliação associados às políticas
educacionais
Além disso, novos atores sociais entram na
arena da Educação, principalmente por intermédio
daquilo que vem sendo chamado no Brasil de
7
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
Terceiro Setor. Vários estudos – e a própria
emergência de núcleos de pesquisa e formação
nessa área – indicam um “boom” de organizações
não-governamentais (ONGs) no Brasil a partir da
década de 90 – desde fundações e institutos ligados
a grandes empresas nacionais e transnacionais até
pequenas organizações de atendimento direto.
Associado a isso, há ainda o crescimento das ações
de voluntariado.
Na produção teórica, ocorre uma proliferação
de estudos que alteram desde a maneira como se
concebem os processos de ensino-aprendizagem
e o desenvolvimento humano (construtivismo,
construcionismo, sócio-interacionismo etc.) até
propostas de recortes mais amplos para os sistemas
educativos. Surgem e se consolidam conceitos e
expressões como ações complementares a escola,
educação integral, cidades educadoras, entre outros,
indicando que educação é mais do que aquilo que
se desenvolve estritamente no universo escolar – e,
especialmente, mais do que os conteúdos que são
tradicionalmente trabalhados nas escolas.
O jovem sujeito da educação vive hoje em
um mundo cada vez mais fragmentado, com o
fim das grandes narrativas e o enfraquecimento
das instituições – família, escola, Igreja. Neste
cenário complexo, ganha importância o papel da
educação no processo de construção da identidade
dos indivíduos. A escola predominantemente
transmissora de conteúdos e de comportamentos
passa a ser colocada em questão.
aparelhos de reprodução de música são lançados
praticamente todos os dias, por vezes acoplados
a outras tecnologias de comunicação, como os
telefones celulares.
Jornais impressos agora disputam leitores com
a internet – e sua capacidade quase infinita de
armazenar e transmitir informações. A produção de
vídeos vem barateando a tal ponto seus custos que
é possível imaginar num futuro próximo todas as
escolas com acesso a esse tipo de produção.
Essas mudanças na comunicação impactam
profundamente a Educação e a própria cultura
humana – fato destacado por todos os projetos
analisados. Aqui também se multiplicam as
pesquisas, a ponto de serem propostos novos
campos de atuação social, como a educomunicação,
apresentada no texto à frente sobre o NCE/ECA/
USP. É um movimento até antigo – considerando
que cada nova tecnologia de comunicação e
informação resulta em debate teórico, no mínimo,
desde a prensa de Gutemberg, no século 15. A
questão é a velocidade que as inovações tecnológicas
adquiriram nessa virada de milênio.
1.3. Participação
Transformações não menos significativas vêm
ocorrendo no campo da participação, que podem
ser bem ilustradas, no plano internacional, com a
queda do Muro de Berlim, em 1989, e o que isso
representa para a fundamentação ideológica das
ações sociais, públicas e privadas.
No Brasil, a redemocratização do país promoveu
1.2. Comunicação
e ampliou a circulação de expressões como direitos
No campo da comunicação, as mudanças são ainda humanos, direitos das crianças e adolescentes,
maiores. A confusão atual em torno dos suportes protagonismo juvenil e a própria participação. A
para música é uma boa ilustração disso. Na virada palavra cidadania, de tão usada, até perdeu impacto.
de 2003 para 2004 ninguém no mundo sabia qual
Nesse contexto mais amplo, é preciso considerar
será o suporte de música dominante no século 21. ainda a profunda reestruturação que vem
O vinil acabou. Os CDs já estão ficando defasados. acontecendo na economia mundial, exemplificada
Surgem sites na internet especializados em na importância que ganhou a expressão globalização
disponibilizar música digitalizada, com diversos – e suas implicações para a formação dos cidadãos e
programas, a maioria não-compatível. Novos para a inclusão social.
8
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
Ou seja, há muitas raízes históricas comuns às
nove experiências apresentadas neste Relatório,
apesar da diversidade de origem. Por outro lado,
algumas diferenças revelam como os projetos se
relacionam com esse contexto mais amplo.
1.3.1. Sociedade Civil Organizada
As duas organizações mais antigas (Comunicação
e Cultura e MOC), fundadas antes de 1990, têm
na origem alguma relação com movimentos sociais
ditos de esquerda, quando a polaridade entre
capitalismo e comunismo ainda fazia sentido. O
NCE, embora tenha sido criado na década de 90,
tem lideranças que trabalham com movimentos
populares desde a década de 70. Dessas três
organizações, duas também se associam desde o
início a ramos católicos desses movimentos, como
as comunidades eclesiais de base.
Já as cinco organizações mais jovens (Aprendiz,
Casa Grande, Cipó, Oficina de Imagens e UgaUga) são mais diretamente vinculadas ao fenômeno
do Terceiro Setor. Sua institucionalização seria
impossível sem a disponibilidade de recursos
privados para o desenvolvimento de ações no campo
social, que ocorreu notadamente a partir de meados
da década de 1990.
Um exemplo disso é a Rede ANDI (Agência de
Notícias dos Direitos da Infância), que começou
a ser formada em 1999. A implantação dessa
rede de monitoramento de jornais, com recursos
inicialmente captados pela própria ANDI (ONG
existente desde 1990), foi em alguns momentos
crucial para institucionalização de organizações
analisadas nesta pesquisa.
Cipó, Oficina de Imagens e Uga-Uga fazem
parte da Rede ANDI desde seu primeiro ano de
funcionamento. Todas ressaltam que as parcerias e
a visibilidade decorrentes disso foram fundamentais
para sua sustentabilidade e expansão [como se vê nos
relatórios específicos de cada experiência à frente].
Outro exemplo é a participação de líderes
dessas organizações em programas voltados para
o fortalecimento de gestores e de projetos sociais.
Uga-Uga e Oficina de Imagens, cujos líderes
fazem parte de uma rede de lideranças formada
pela fundação suíça Avina, receberam recursos
e apoio técnico para qualificar seus processos
administrativos.
Embora, mesmo hoje, o vocabulário, o repertório
cultural e a visão política dos projetos tenham muito
a ver com essas origens, de uma maneira ou de
outra, o conjunto das experiências se relaciona com
essas duas vertentes – os movimentos de esquerda e
o Terceiro Setor.
Por um lado, todos sofrem alguma influência
dos movimentos e ideologias de transformação
da sociedade, enfatizam questões como cidadania,
direitos, participação e inclusão – em alguns casos,
sintetizados na missão, pura e simples, de melhorar
a qualidade da educação pública. O educador
Paulo Freire (1921-1997), por exemplo, é um dos
mais citados.
Por outro lado, todas essas experiências fazem
parcerias com os novos atores do campo social
brasileiro que, impulsionados pelas profundas
mudanças na economia local e internacional, se
apóiam em conceitos como responsabilidade social
empresarial e investimento social privado. Foi
com uma instituição desse tipo que o MOC, por
exemplo, fez parceria para desenvolver o Projeto
Comunicação Juvenil no sertão semi-árido
da Bahia.
1.3.2. Estado/Governo
A nona experiência analisada (Multirio), uma
empresa municipal cuja matriz histórica não pode
ser situada diretamente nem nos movimentos de
esquerda nem no advento do Terceiro Setor, traz
uma outra dimensão que afeta todos os casos
deste estudo: o Estado. É destaque nos casos
desta pesquisa o impacto que têm nessas ações
os ocupantes do aparelho governamental e suas
ideologias, valores e práticas, no nível federal,
estadual ou municipal.
9
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
Aprofundaremos essa questão do envolvimento
do Estado/governo em projetos de Educação,
Comunicação & Participação no terceiro item desta
introdução, sobre os Desafios Estruturais. Mas,
antes, apresentaremos as principais conquistas
alcançadas pelas experiências incluídas neste estudo
e algumas de suas limitações.
 RESULTADOS E LIMITES
A velocidade das transformações que vêm ocorrendo
em cada componente do trio Educação, Comunicação
& Participação marca profundamente as ações sociais
que buscam reunir esses três campos. É notável, nos
nove casos analisados neste Relatório, o enorme
crescimento que as instituições e seu atendimento
direto tiveram nos últimos anos.
O NCE e o Comunicação e Cultura, por exemplo,
já estão em processo de nacionalização de algumas
de suas metodologias. O primeiro, abrindo em 2004,
em parceria com o MEC, trabalhos com rádio em 70
escolas da região Centro-Oeste, ao mesmo tempo em
que finaliza um programa de três anos e meio, junto
com a Secretaria Municipal de Educação de São
Paulo, envolvendo 455 escolas de ensino fundamental.
O Comunicação e Cultura atinge 800 escolas nos
estados do Ceará e Pernambuco com o projeto
Primeiras Letras, que publica jornais editados por
alunos e professores de 1ª a 8ª série.
O MOC, cuja missão vai além do foco em Educação,
Comunicação & Participação, é referência nacional em
programas de erradicação do trabalho infantil, e seus
trabalhos atravessam, com capacitações e materiais,
as fronteiras de vários estados e, por vezes, alcançam
outros países da América Latina.
A Multirio, que desenvolve materiais de
comunicação “com” e “para” a rede municipal
de ensino do Rio, teve no ano de 2003 o maior
orçamento desde sua fundação. Iniciou, entre outras
atividades, a produção de filmes de animação sobre
lendas brasileiras para crianças e adolescentes.
Além disso, coordena a realização da 4a Cúpula
Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes,
em abril de 2004 no Rio – um dos maiores eventos
internacionais na área.
As organizações ou projetos mais jovens (pós1995) não chegaram ainda à escala de política
pública. Mas têm crescimento proporcional em
atendimento, impacto e visibilidade. Desde a
fundação, Aprendiz (SP), Cipó (BA), Casa Grande
(CE), Oficina de Imagens (MG) e Uga-Uga (AM)
ampliam significativamente suas redes de parceiros
e seus programas.
O Aprendiz, por exemplo, se lança na consolidação
do que denomina bairro escola – uma articulação de
diversos programas, empresas, ONGs, atores sociais
e instituições de ensino, para criação de percursos
formativos para crianças e jovens, na Vila Madalena,
em São Paulo. Seu site (www.aprendiz.org.br) é um
dos mais importantes na área no Brasil.
A Cipó torna-se referência, de Salvador a São
Paulo, em trabalhos de educação pela comunicação
– que é como eles denominam seu fazer pedagógico.
Além disso, consolida-se como uma das mais
estruturadas agências da Rede ANDI, chegando a
oferecer cursos relâmpago nas redações da mídia
local sobre infância e adolescência.
A Oficina de Imagens, além de ampliar o
número de programas, expande seu principal
trabalho em Educação, Comunicação & Participação,
o Latanet. Em 2003 em 2004, volta-se à capacitação
de educadores da rede municipal de ensino de Belo
Horizonte, junto com estudantes, em parceria com
o governo da cidade.
A Fundação Casa Grande, em Nova Olinda,
sertão do Cariri (CE), embora ainda trabalhe
com atendimento e orçamento comparativamente
pequenos, torna-se referência pelo Brasil afora,
recebendo cerca de 3 mil visitas por mês. Após anos
de batalha jurídica e negociação política, consegue em
2003 o registro de uma rádio educativa – legalizando
um trabalho que, ainda na fase “pirata”, já ameaçava a
audiência das rádios comerciais locais.
A Agência Uga-Uga de Comunicação realiza
em Manaus, em 2003, os dois maiores eventos de
10
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
sua breve história: a 1a Conferência Juvenil dos
Direitos da Criança e do Adolescente e o Seminário
Infância, Adolescência e Mídia na Amazônia. Com
isso, amplia o número de parceiros e consolida sua
sustentabilidade. Também começa a contratar novos
multiplicadores para seus Núcleos de Mobilização
– o que complexifica suas atividades.
As mudanças observadas entre as crianças e
jovens participantes desses programas – quando de
fato ocorrem – mostram o potencial das abordagens
educativas que reúnem o trio Educação, Comunicação
& Participação: ampliam seu vocabulário e repertório
cultural, aumentam suas habilidades de comunicação,
desenvolvem competências em trabalho em
grupo, negociação de conflitos e planejamento de
projetos, melhoram o desempenho escolar, entre
outros ganhos.
Esse movimento também se manifesta
institucionalmente: surgem grêmios estudantis,
novas ONGs, cooperativas de trabalho, grupos
juvenis de intervenção comunitária, periódicos,
projetos conjuntos de professores e estudantes...
Mas o problema é que nem sempre isso ocorre,
especialmente quando o escopo de atendimento
atinge a escala das políticas públicas.
2.1. Quantidade X Qualidade
A diferença no número de crianças, adolescentes e
educadores atendidos pelos projetos está diretamente
relacionada à qualidade dos resultados. Uma
observação geral dos projetos indica que, quanto
maior o atendimento, menor tende a ser o impacto
na vida de cada estudante e menos elaborado tende
a ser o produto de comunicação criado.
Quando se observa, por exemplo, os programas
de atendimento direto, em que o trabalho ocorre
no espaço da própria ONG, é notável a evolução,
em termos de inclusão social, cidadania e repertório
cultural, dos jovens envolvidos e a qualidade dos
produtos de comunicação.
Isso tem a ver com o fato de que o espaço da
escola, de certa forma, determina as relações que
nele ocorrem – sendo sempre mais fácil garantir
a qualidade dos produtos de comunicação, seu
conteúdo, a riqueza de referências éticas fora do
ambiente escolar do que na sala de aula. Mas
mesmo quando a ONG amplia o atendimento
em seu próprio território, a tendência é de
diminuição do impacto individual e da qualidade
dos produtos.
Um dos indicativos disso é que, em geral, muitos
jovens pioneiros nas experiências de Educação,
Comunicação & Participação se incorporam à
própria equipe da ONG. Depois de um ano de
funcionamento do projeto, esse movimento diminui
significativamente e às vezes simplesmente acaba.
Há pelo menos duas explicações para isso.
Em primeiro lugar, quando o atendimento é
pequeno e as turmas envolvem poucos estudantes
(no máximo 25), os vínculos afetivos criados entre
os gestores, educadores e aprendizes são muito
mais fortes – assim como a atenção dada a cada
estudante. À medida que aumenta o número de
pessoas envolvidas na experiência e a metodologia
se consolida, esses vínculos afetivos enfraquecem,
e as principais lideranças dos projetos se afastam
do trabalho pedagógico, para se concentrar nas
atividades de gestão e captação de recursos, que
demandam cada vez mais atenção.
Em segundo lugar, a diminuição da qualidade
frente à ampliação do atendimento está diretamente
relacionada à entrada de novos educadores no
programa, com repertório em geral bastante
diferente daquele dos pioneiros da organização ou
do projeto. Para disseminar trabalhos de Educação,
Comunicação & Participação é necessário formar
multiplicadores, mas estes, muitas vezes, têm
formação inicial e repertório cultural mais frágil do
que a dos pioneiros das experiências.
Considerando os projetos que ocorrem no espaço
escolar, há ainda outro agravante. Na presença dos
líderes ou formadores do projeto, os professores que
desenvolvem o trabalho modificam sua didática.
Mas, quando eles se vão, especialmente quando a
11
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
formação é concluída, a didática tradicional, menos
participativa, tende a se impor e a restringir o
impacto do trabalho.
Não há solução fácil para esse problema – já que é
relacionado à formação dos profissionais das redes de
ensino público do país [leia item Desafios Estruturais
à frente]. A mais importante é uma estruturação
mais consistente dos processos de formação e de
acompanhamento dos multiplicadores – sejam eles
ligados às secretarias de Educação, sejam às ONGs.
Muitos projetos analisados neste Relatório já
acumularam experiência na formação de crianças e
jovens, mas quando se propõem a formar aqueles que
formarão seu público alvo enfrentam sérios desafios,
por falta de experiência, de repertório conceitual e
a dificuldade do professor tradicional de estabelecer
uma relação de diálogo com os adolescentes.
Enfim, dar uma boa formação para os educadores
que trabalharão com as crianças e adolescentes
e supervisionar seu trabalho é fundamental para
a disseminação em escala de política pública de
projetos de Educação, Comunicação & Participação.
Mas isso é bastante oneroso e só é realmente
possível se estiver articulado ao próprio sistema de
formação dos educadores das redes de ensino.
A presença permanente de outros atores sociais
na escola (como os educomunicadores propostos pelo
NCE) também poderia diminuir este problema.
Aprofundaremos esta questão no item Parcerias,
Redes e Voluntários.
Há ainda quem opte pela manutenção da escala
pequena de atendimento no projeto, buscando
ampliar seu impacto por meio da capacitação de
poucas mas influentes lideranças – o que implica
aprimorar o processo de seleção dos aprendizes que
serão formados.
É evidente que os projetos que contam com mais
recursos tendem a obter resultados melhores. Alguns
projetos investem por estudante valores equivalentes
ao de uma mensalidade de escola particular de elite
(acima de R$ 500/mês). Mas outros projetos, com
investimentos significativamente menores, por
vezes obtêm resultados semelhantes.
Fatores como o escopo de atendimento a
estudantes, o espaço onde o programa ocorre
(na escola, numa comunidade pequena ou na
periferia de uma megalópole etc.) e a formação dos
educadores parecem influir muito mais na qualidade
dos resultados do que os valores financeiros
diretamente investidos.
Assim, não se chega, com a amostragem desta
pesquisa, a um per capita ideal – isto é, um valor
de investimento por aluno que seja generalizável.
O que é certo é que um gestor público que queira
implantar em sua rede de ensino projetos de
Educação, Comunicação & Participação terá de ter
bastante vontade política – ou seja, recursos –, se
quiser ter resultados mais permanentes.
O caso do educom.radio, do NCE, que colocará
uma rádio em cada uma das 455 escolas de ensino
fundamental da rede municipal de São Paulo,
dá algum parâmetro nesse sentido. Com R$ 5,8
milhões em três anos e meio, formará mais de 11 mil
pessoas que, nas escolas, terão o papel de multiplicar
seus conhecimentos e facilitar o acesso à radio. Seu
per capita é de pouco menos de R$ 500 por pessoa
formada – um valor elevado, considerando que a
média investida por estudante na escola pública de
ensino fundamental do Brasil está na faixa dos R$
700 por ano, segundo os últimos dados do Inep/
MEC, de 19991.
Mesmo assim, para as lideranças do educom.radio,
o orçamento foi sub-dimensionado, já que não
2.2. Investimento/Estudante
inclui uma série de produtos de comunicação que
Não é possível fazer uma correlação direta entre surgem por demanda de projetos desse tipo, nem
a quantia investida por estudante (o chamado per avaliação externa, nem supervisão após a conclusão
capita), o impacto do projeto em sua vida e a qualidade da formação – todos fatores essenciais para garantir
do produto de comunicação criado por ele.
a qualidade e sustentabilidade dos resultados.
12
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
2.3. Atendimento Direto X Indireto
Um outro desafio na quantificação do per capita de
projetos de Educação, Comunicação & Participação é o
já citado conceito de atendimento direto. Em geral,
entende-se como atendimento direto o número de
aprendizes que passam por algum tipo de formação
ao longo do programa.
A questão é que, muitas vezes, o público atingido
nessas formações dissemina seus conhecimentos
entre pessoas de sua comunidade de origem (o
chamado público indireto); além disso, os produtos
de comunicação gerados por essas experiências
também podem ter grande impacto – atravessando
toda uma rede de ensino ou sendo veiculados por
meios de comunicação de massas.
A Cipó, por exemplo, define sua ação educativa
como sendo “uma nova maneira de ensinar em que
o educando participa ativamente da produção de
peças de comunicação que, uma vez disseminadas,
geram novos processos de educação e/ou de
mobilização social”. Jovens do Aprendiz produzem
programas em algumas das maiores rádios de
São Paulo.
Portanto, para avaliar o impacto desses projetos
em relação aos recursos investidos seria necessário
levar em consideração, além do público diretamente
atingido, os efeitos que as pessoas formadas e seus
produtos de comunicação geram numa comunidade
específica e na sociedade em geral – algo para o
qual não há bases conceituais nem instrumentos de
avaliação desenvolvidos.
2.4. Liderança X Institucionalização
O papel dos líderes dos projetos e a maturidade de suas
organizações também devem ser considerandos para a
disseminação de projetos de Educação, Comunicação &
Participação em redes de escolas, a partir de instituições
externas ao sistema regular de ensino.
Em geral, quanto mais jovem a organização,
mais central é o papel das lideranças pioneiras.
Freqüentemente as organizações têm um único
líder, que inicialmente é o grande empreendedor da
ação educativa. Mas, à medida que o atendimento
expande, as atribuições desse líder aumentam
enormemente. É quando surge a necessidade no
projeto de ampliar o grupo gestor, muitas vezes
agregando um coordenador pedagógico e outros
profissionais que dividem funções de coordenação e
de atendimento a estudantes.
Embora sejam fundamentais para a montagem e
estruturação dos projetos, no médio e longo prazo,
essas lideranças pioneiras podem se tornar gargalos
para a expansão do atendimento. Com o crescimento
inerente a esse tipo de trabalho atualmente, essas
lideranças tendem a acumular tantas funções que
a gestão da organização e do projeto entra em
crise: os educadores na “linha de frente” se sentem
desamparados, a quantidade de recursos a serem
captados aumenta exponencialmente, os parceiros
ou possíveis parceiros sentem dificuldade no contato
e recebem menos atenção, e até a manutenção da
infra-estrutura (espaços de trabalho, computadores,
banheiros etc.) se torna um desafio.
Esse tipo de crise de gestão nos projetos,
decorrente da ampliação do trabalho, é praticamente
universal na história dos casos analisados. Sendo
uma “crise anunciada”, a solução, neste caso, seria,
desde o início, ter a preocupação formar novas
lideranças com quem se pode dividir funções de
gestão. Mas, como ocorre em empresas privadas,
isso nunca é tranqüilo e representa sempre um
consumo enorme de tempo, paciência e recursos.
Há casos em que essa crise dura meses, outros em
que pode levar anos para ser superada.
Organizações mais institucionalizadas, com
seus conceitos e metodologias sistematizados e
modelo de gestão bem estabelecido, têm mais
condições de trabalhar com políticas públicas do
que outras que ainda estão consumindo muita
energia e tempo com essas questões internas,
inerentes a projetos desse tipo. Isso porque a
sistematização das metodologias e a consolidação
do modelo de gestão facilitam o ingresso de
novos atores na organização e sua ambientação na
13
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
cultura organizacional (a aquisição da “alma” do relações públicas entre os executores dos projetos e
projeto, sem necessariamente ter contato com os seus financiadores. Por vezes, é necessário também
líderes pioneiros).
investir na formação dos atores empresariais, para
que conheçam melhor a complexa dinâmica dos
2.5. Evento X Processo
processos sociais e se apropriem de instrumentos
Uma outra “crise anunciada” em projetos desse tipo conceituais que possibilitem uma participação
tem a ver com as características atuais do Terceiro no projeto mais efetiva e menos simplista (o que
Setor brasileiro, seus mecanismos de apoio a ações em geral se manifesta por um grau acentuado
sociais e as expectativas de suas lideranças.
de assistencialismo). Quanto mais próxima a
As empresas privadas hoje esperam resultados relação entre executores e financiadores e mais
extremamente rápidos,em qualquer empreendimento compartilhados os conceitos que movem o projeto,
em que se envolvam. Freqüentemente pressupõe-se maior a sustentabilidade da ação educativa.
grande visibilidade na mídia em relação ao projeto
O amadurecimento do Terceiro Setor brasileiro,
social apoiado e resultados expressivos nos alunos em curso atualmente, tende a ampliar os
em prazos que raramente superam um ano.
prazos de financiamento a esse tipo de projeto,
O problema é que “o tempo da educação se considerando todo o processo, da experiência piloto
mede em gerações”, como diz a educadora paulista à sistematização e disseminação da metodologia, e
Telma Weisz2, e raramente se consegue realmente não apenas os eventos e resultados imediatos.
transformar a vida de um estudante no curto prazo.
Ampliar a rede de sustentação econômica da
Em síntese, educação é processo, mas a expectativa instituição, diversificando os tipos de parceiros e
dominante entre os financiadores e a mídia de massas atividades (organizações internacionais, institutos
é de um evento (conflito que caracteriza a maioria e fundações nacionais, empresas, universidades,
dos projetos sociais e que, por exemplo, explica em governos, venda de produtos, prestação de serviços
parte o suposto fracasso do Fome Zero).
etc.) também potencializa significativamente a
A visibilidade tende a ser maior quando há resultados sustentabilidade dessas ações.
concretos a serem apresentados – o que também leva,
Outra estratégia para enfrentar a tensão imanente
com freqüência, mais de um ano. E, quando há grande entre evento e processo é trabalhar com um plano de
visibilidade inicial, o projeto sai da pauta da mídia de comunicação profissional, que articula ao processo
massas, que tem na novidade (“news”) e nos eventos educativo certos eventos comunicativos – o que inclui
suas principais fontes de notícias.
ter um bom site institucional, lançar publicações
Com isso, a virada de ano fiscal das empresas e e promover eventos, disseminar amplamente os
dos institutos e fundações empresariais constitui produtos criados pelos aprendizes, entre muitas
uma ameaça constante para os projetos sustentados outras atividades possíveis.
financeiramente por eles. Nas festas de fim de
ano, além da dificuldade em pagar 13o salário (um  DESAFIOS ESTRUTURAIS
privilégio na maioria das ONGs), as lideranças O principal entrave para a disseminação, em
desses projetos em geral não sabem se terão de redes de escolas, de projetos que efetivamente
cortar ou ampliar seus recursos humanos no início associam os campos Educação, Comunicação
do ano seguinte – uma tensão que dura, no mínimo, & Participação é a maneira como essas redes
até o Carnaval.
são organizadas.
Aqui também não há solução simples. Envolve,
Sem entrar no mérito do por quê elas se encontram
em primeiro lugar, um investimento constante nas em tal estado, o fato é que as escolas públicas
14
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
conseguem ser ao mesmo tempo moldáveis às
vontades das reformas educacionais desencadeadas
pelos gestores públicos e impermeáveis a mudanças
significativas em seu modus operandi.
Moldáveis às vontades dos gestores porque
a estrutura do sistema educacional brasileira
incorpora um grau acentuado de concentração
de poder nas instâncias de superiores de gestão –
notadamente, nas secretarias estaduais e municipais
e no Ministério da Educação. As escolas têm pouco
ou nenhum poder de fato em determinar seu
funcionamento. Desde a contratação e promoção
dos profissionais até a organização do currículo,
muito do que é realmente importante para o
cotidiano escolar é decidido fora e acima da escola.
Ora o Legislativo decide incluir entre os
conteúdos das escolas disciplinas que considera
importante; ora o Executivo altera o próprio
atendimento das escolas, definindo para elas
novos públicos e, por vezes, novos gestores (como
ocorreu na segunda metade da década de 90, com a
rede de 6.500 escolas estaduais de São Paulo, uma
parte municipalizada, outra, “reorganizada” – que
era o termo utilizado pelo governo na época para
definir quais escolas ofereceriam 1a a 4a séries, 5a a
8a ou ensino médio; mais de 4 milhões de famílias
foram afetadas).
Por outro lado, essas escolas são impermeáveis às
mudanças porque, como diz o economista Claudio
de Moura Castro, “educação é aquilo que acontece
depois que o professor fecha a porta da sala de aula”.
E o fato é que, apesar da nova LDB, dos PCNs e
de muitas outras mudanças legais e conceituais que
possibilitariam uma transformação radical disso
que ocorre dentro da sala de aula, no geral, as aulas
continuam seguindo a metodologia expositiva – o
que Paulo Freire definiu como educação bancária,
que consiste na transmissão de informações para
estudantes que são entendidos como recipientes
vazios – como os cofrinhos de guardar moedas
– a serem preenchidos com o saber acumulado
pelo professor.
Esse modelo de ensino – que era amplamente
questionado por educadores e pensadores do mundo
todo já na primeira metade do século 20 – recebe
seu xeque mate com a revolução nas tecnologias de
comunicação e informação. O problema hoje, mais
do que acesso a informação, é excesso de informação,
extremamente fragmentada. Mas subsiste em larga
escala nas redes públicas brasileiras a metodologia
de abrir o livro didático em sala de aula, copiar seus
textos na lousa, obrigar os estudantes a reproduzir
esses textos em seus cadernos (mesmo que tenham
o livro), e a fazer exercícios, também prescritos
pela edição. O “bom aluno” é associado àquele que
funciona como um bom “cofrinho”, sem muito
questionamento.
São vários os fatores que levam a isso, e
a seguir analisaremos alguns dos principais
desafios estruturais para a consolidação de novas
metodologias de ensino nas escolas públicas
brasileiras, entre elas, os projetos de Educação,
Comunicação & Participação.
3.1. Salários e Status
O curso de graduação universitária com mais vagas
ociosas no Brasil é o de pedagogia, segundo dados
do Inep/MEC de 2002. Além disso, há hoje uma
carência endêmica de professores no ensino básico
em determinadas disciplinas, como química e
geografia – cujos estudantes nas universidades
públicas em geral têm o perfil sócio-econômico
mais desfavorecido entre os universitários brasileiros
(vêm de escolas públicas, têm famílias com menos
escolaridade etc.).
Evidentemente, isso não ocorre por acaso. A
carreira de professor em redes públicas de ensino
é hoje desvalorizada tanto em termos financeiros
como no status social desse profissional. Embora
existam professores e diretores engajados, por vezes
quixotescamente, muitos buscariam uma outra
profissão, se o mercado de trabalho assim permitisse.
Ser professor é uma segunda (por vezes, última)
opção profissional até mesmo entre os estudantes de
15
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
magistério [leia a crônica Normalistas XXX, anexa
ao texto sobre o MOC].
A enorme concentração de mulheres nessa
profissão no Brasil indica que os salários pagos
aos professores servem para complementar a renda
familiar, mas não para sustentar uma família – o que,
apesar de mudanças culturais profundas, continua
sendo uma função predominantemente masculina.
Então, o primeiro desafio estrutural para a
melhoria da educação pública brasileira é valorizar
o trabalho dos professores, tanto economicamente
como simbolicamente. Por um lado, esse desafio
só pode ser superado no médio e longo prazos,
pois depende do crescimento econômico do país
e do conseqüente aumento na arrecadação de
impostos – o que permitiria incrementar os salários.
Mas, mesmo com o orçamento atual, daria para
priorizar mais recursos para a área, o que não vem
ocorrendo no plano federal. No aspecto simbólico
é notável como muito mais poderia estar sendo
feito, imediatamente.
A reforma educacional da Coréia do Sul, por
exemplo, além de priorizar recursos para a educação
ao longo de mais de duas décadas, valorizou
enormemente no plano simbólico o papel do
professor na sociedade.
A vinculação de parcelas da arrecadação de
impostos para a educação, pela Constituição de
1988, e a destinação mais específica de recursos para
os salários dos professores, pelo Fundef (que tem o
nome sugestivo de Fundo de Manutenção do Ensino
Fundamental e de Valorização do Magistério),
mostram que o país até tem ciência desses fatos. Mas
essas ações ainda estão muito aquém do necessário
para que a educação pública realmente dê um salto de
qualidade – e as ações propriamente de valorização
do magistério ainda são mínimas, se comparadas
às informações divulgadas pelo próprio MEC e
pelas secretarias desqualificando a formação desses
professores. O montante de investimento federal em
educação determinado pela emenda constitucional
do Fundef, em 1996, nunca foi de fato respeitado.
3.2. Carreira Docente
Associado aos baixos salários e à desvalorização
simbólica dos professores, há ainda outra distorção
central no sistema de ensino público brasileiro, que
explica por que é tão difícil mudar, para melhor, a
educação.
São raros os casos no Brasil onde o professor de
ensino básico ascende na carreira por critérios de
mérito relacionados ao trabalho que desenvolve
em sala de aula. O tempo de carreira ainda é um
dos principais fatores de ascensão – seja em termos
salariais, seja na possibilidade de optar por uma
escola “melhor” (sem os alunos ditos “difíceis” e sem
um entorno social considerado “perigoso”).
Isso ocorre principalmente nas grandes cidades, e
explica porque as escolas de cidades pequenas, mais
inseridas em uma determinada comunidade, com
recursos humanos mais estáveis, geralmente obtêm
resultados melhores em avaliações como o SAEB,
do Inep/MEC, e o Saresp, da rede estadual de São
Paulo.
A enorme maioria das escolas não tem qualquer
controle real sobre os professores que nela trabalham
– muito menos de definir quem vai dirigi-la.
Em muitos estados e municípios brasileiros,
especialmente no Centro-Oeste, Nordeste e Norte,
o diretor da escola ainda é uma nomeação política
do secretário da área.
Os processos de concurso para efetivação
de professores são extremamente complexos e
demorados, o que deixa muitos docentes em
situação contratual instável, por longos períodos de
tempo.
O resultado é que a circulação de professores e,
freqüentemente, de diretores pelas escolas públicas
é enorme, o que dificulta, quando não impede
completamente, a formação de uma equipe escolar
fixa, com missão, objetivos e valores compartilhados
entre eles e com a comunidade atendida. Questões
como essas são, em regra, definidas fora (e,
novamente, acima) da escola, e apropriadas
individualmente pelos professores, que circulam
16
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
pelas escolas, freqüentemente trabalhando em duas
ou mais redes de ensino.
A circulação de diretores é ainda mais grave. Pela
maneira como a maioria das redes estrutura a carreira
docente, os professores com mais tempo na rede em
questão e mais pontos no prontuário (ganhos com
cursos e especializações muitas vezes desarticulados
do sistema mais geral de ensino) escolhem a escola
onde querem trabalhar e, se tiverem pontos e
tempo suficiente, definem a escola que vão dirigir.
Como há “escolas melhores” (em geral as que dão
menos trabalho) e escolas piores (que atendem as
populações mais carentes), evoluir na carreira, seja
como professor, seja como diretor, que dizer mudar
constantemente do “pior” para o “melhor”. Por vezes,
isso acontece mais de uma vez por ano, ao longo do
ano letivo – e não de um ano para o outro.
Desnecessário dizer, neste Relatório, a importância
que tem o diretor de uma escola. As experiências de
Educação, Comunicação & Participação descritas à
frente são unânimes em atribuir um papel central
para os diretores em tudo que diz respeito à escola.
Em resumo, a cara da escola quem dá é o diretor ou
a diretora. E a circulação de diretores (e professores)
pelas escolas dá essa cara meio esquizofrênica que
têm as redes públicas brasileiras.
Com isso, projetos que disseminam suas
metodologias e conceitos recorrendo à estratégia
de capacitar grupos de profissionais em cada
escola, como muitos deste Relatório, têm pouca
sustentabilidade, pois nada garante que, no ano
seguinte, os componentes da equipe capacitada
continuarão lá – e o diretor, que pode ter em um ano
apoiado o projeto, no ano seguinte corre o risco de
estar em outra unidade a vários bairros de distância.
Esse movimento de pessoas provoca uma espécie
de amnésia sistêmica na gestão da escola.
Outra estratégia usada por algumas experiências
desta pesquisa é capacitar diretamente professores,
por adesão, independentemente da unidade de
origem, tendo como perspectiva criar uma “massa
crítica” de profissionais na rede que conhecem as
metodologias e conceitos de Educação, Comunicação
& Participação, e que podem, com o tempo,
desenvolver individualmente projetos nessa área
ou se associar a outros que, por ventura, também
tenham sido capacitados.
Há ainda a alternativa de identificar e capacitar
lideranças, entre os profissionais e gestores das
escolas, da rede, ou mesmo estudantes e membros
da comunidade, que, onde quer que estejam, vão
empreender projetos inovadores nas escolas e,
com o tempo, “contaminar” as práticas tradicionais
de ensino.
Mas qualquer dessas alternativas seria enormemente
favorecida se existisse isso que todos dizem ser central
para a qualidade da educação, que é a comunidade
escolar. Só que isso não existe – pelos motivos acima
citados – e só será alcançado se ocorrerem mudanças
significativas na carreira docente e na maneira como se
define quem será diretor e quais serão os professores
da escola, associado a uma política de fixação dos
profissionais a uma determinada comunidade – o
que implica ampliar enormemente a autonomia da
unidade escolar nesses processos.
Mexer nessas questões é potencialmente tão
explosivo quanto reformar o sistema de Previdência
no Brasil, já que a carreira docente e as maneiras de
atribuir aulas são consideradas direitos adquiridos,
pelos sindicatos que representam os docentes. E de
certa forma são, já que o rebaixamento dos salários
ocorrido nos últimos 30 anos está associado à
construção de carreiras docentes que pouco ou nada
têm a ver com a qualidade do ensino, mas sim a dar
certas “recompensas” (como o direito de faltar a um
número significativo de aulas) para um profissional
essencialmente desvalorizado.
3.3. Tempo e Espaço
Os Desafios Estruturais apresentados acima já
seriam suficientes para diminuir, quando não
bloquear totalmente, o impacto nas escolas de
projetos de Educação, Comunicação & Participação –
ou de qualquer outra iniciativa que busque melhorar
17
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
o ensino público brasileiro. Mas há ainda outros
fatores a incrementarem essas dificuldades.
Uma das diferenças mais nítidas entre as
experiências desta pesquisa são as que ocorrem
no espaço escolar ou fora dele. Quando se faz um
produto de comunicação – um programa de rádio,
um site ou um jornal, por exemplo – não se trabalha
primeiro o português, depois a geografia, depois
a arte e assim por diante, em períodos de 40 a
55 minutos.
No espaço de uma ONG ou de uma instituição
externa a escola, trabalha-se todos esses conteúdos ao
mesmo tempo, em geral em períodos mais extensos,
de duas ou três horas, com acompanhamento de
equipes multidisciplinares, em espaços igualmente
multidisciplinares (muitas vezes parecidos ao de uma
redação de jornal). Mas na escola, da maneira como
ela está organizada hoje, tudo tem que encaixar no
espaço da sala de aula e no tempo das diferentes
disciplinas, com um professor de cada vez.
O próprio tempo disponível para os professores
trabalharem juntos, articulando o que vão ensinar
nas diferentes aulas, costuma ser exíguo (duas a três
horas semanais, na rede estadual de São Paulo).
O resultado é que essas horas de trabalho coletivo
fora da sala de aula costumam ser preenchidas
por questões burocráticas e, quando sobra
tempo, por questões pedagógicas emergenciais
– impossibilitando que projetos interdisciplinares
freqüentem as pautas dessas reuniões.
A desvinculação dos projetos político pedagógicos
das escolas ao que de fato ocorre na sala de aula
(quando esses PPPs existem) mostra nitidamente
essa desarticulação das disciplinas e dos professores.
É um problema que também tem sido enfrentado,
por exemplo, pelos PCNs, que esbarram na
organização dos tempos e espaços escolares,
especialmente os chamados Temas Transversais.
Novamente, esse desafio só pode ser superado
com bastante tempo e muito mais investimento,
já que implica mais trabalho coletivo entre os
professores, rearranjos importantes das disciplinas e,
inclusive, romper com a cultura bancária de ensino
– que discutiremos em seguida.
3.4. Formação Inicial e em Serviço
Seria injusto atribuir às escolas públicas de educação
básica e aos seus profissionais a responsabilidade
pela organização (ou desorganização) atual dos
tempos e espaços escolares. A maneira como os
conteúdos são divididos em disciplinas e aulas nas
escolas – a chamada grade horária – tem relação
direta com a forma como o conhecimento é tratado
nas instituições de ensino superior e pesquisa não só
do Brasil como de boa parte do mundo.
A escola que conhecemos é resultado, entre
muitas outras coisas, do positivismo (que
fragmentou e “organizou” as áreas do saber humano)
e da revolução industrial (que levou a uma parte
significativa das instituições modernas, inclusive
escolas, um modelo de gestão semelhante ao de uma
linha de montagem). Se dentro de uma universidade
como a USP, departamentos que tratam do mesmo
tema têm dificuldade de diálogo e raramente
conseguem desenvolver projetos conjuntos, por que
esperar que no nível da escola ocorram processos
interdisciplinares?
Professores de português são formados em
faculdades de letras (isso, quando cursam uma
graduação); professores de matemática vêm de
outra faculdade (com culturas e valores diferentes);
professores de geografia, de outra ainda; e assim por
diante. Se nunca tiveram oportunidade de trocar
conhecimentos com outros campos do saber durante
sua formação inicial, é praticamente impossível que
façam isso quando chegarem à escola. Simplesmente
falta o hábito, o repertório dessas práticas de
troca e construção conjunta de projetos – quando
não há uma concorrência aberta, como ocorre
entre departamentos e faculdades de uma mesma
universidade.
Associado a isso, há ainda outro agravante:
as metodologias de ensino das universidades
continuam, em grande parte, seguindo o modelo
18
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
bancário, da aula expositiva, sem prática.
Inclusive teorias complexas e inovadoras, como
o construtivismo e o sócio-interacionismo, são
freqüentemente trabalhadas de maneira abstrata
e descontextualizada. O resultado é que, mesmo
conhecendo as teorias que propõem novas maneiras
de ensinar e aprender, os professores não sabem
como coloca-las em prática.
Os cursos de formação continuada, oferecidos
aos professores que já atuam nas redes de
ensino, raramente se preocupam em apresentar
com didática e metodologia inovadoras idéias e
conceitos inovadores. O que se observa, em parte
significativa das escolas, é que os profissionais
da educação muitas vezes têm o discurso sobre
a interdisciplinaridade, o construtivismo ou a
transversalidade, só que quando fecham a porta da
sala de aula...
Este é um dos grandes méritos da maioria dos
projetos analisados neste Relatório. Quando se
propõem a trabalhar com os professores, buscam
fazer isso com a metodologia que esperam que
seja usada com os próprios estudantes. A maioria,
inclusive, trabalha com os estudantes e com
os professores ao mesmo tempo, em processos
participativos. Para se capacitar alguém a fazer um
jornal é preciso fazer um jornal (e não falar sobre
todas as etapas envolvidas nessa produção). Como
diz um educador entrevistado nesta pesquisa, “não
se chega à democracia falando nela”.
A dificuldade de implementar na prática as idéias
dos PCNs, por exemplo, tem muito a ver com essas
questões de formação inicial e formação em serviço.
E a mudança disso depende de uma mudança
cultural, ideológica e política na maneira como a
sociedade concebe o conhecimento e as maneiras
como o ser humano ensina e aprende – daí ser um
Desafio Estrutural.
vestibular é o melhor exemplo: no ensino médio, ora
determina o que os alunos devem aprender (muitas
vezes mais focados no acúmulo de informações
do que em competências e habilidades), ora serve
de pretexto para as escolas não alterarem seu
currículo e sua metodologia. As próprias famílias
desconfiam se seus filhos adolescentes, no lugar de
terem de resolver listas de problemas maçantes e
descontextualizados, são envolvidos na produção de
um jornal ou site voltado para a comunidade.
O modelo dominante de avaliação no imaginário
social brasileiro ainda é a prova, o exame, com
questões múltipla-escolha ou dissertativas voltadas
para aferir determinados conhecimentos.
Fatores hoje considerados essenciais na seleção
de profissionais pelo mercado de trabalho – como
liderança, capacidade de trabalho em grupo e
competência para acessar e relacionar dados – ainda
estão à margem da enorme maioria das avaliações
escolares. Isso ocorre não só nas provas feitas pelas
escolas e aplicadas aos alunos, como nas avaliações
do sistema educativo, como o SAEB (Sistema de
Avaliação do Ensino Básico), do Inep/MEC, que
aplica testes junto a amostras de estudantes de
escolas espalhadas pelo país todo.
Assim, os projetos de Educação, Comunicação
& Participação, para serem sustentáveis no médio
e longo prazos, precisam também lidar com
essa questão da avaliação, introduzindo novas
abordagens avaliativas, que incluem o processo e não
só a capacidade de responder certas questões num
determinado instante, aumentando o repertório
dos profissionais de educação e das instituições
de ensino nessa área. Até a comunidade deve ser
envolvida em processos de avaliação, para que
amplie sua perspectiva de como podem ser feitos e
para que servem.
Muitas experiências analisadas neste relatório
têm soluções interessantes para avaliação de
3.5. Modelos de Avaliação
processos e resultados. Alguns instrumentos e
Para dificultar ainda mais essas transformações tão roteiros usados pelos projetos estão disponíveis nos
necessárias e urgentes, há ainda as avaliações. O anexos relacionados a cada experiência.
19
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
3.6. Micro-Política
Os vários fatores acima determinam sobremaneira as
relações que ocorrem na escola. A divisão dos tempos
e espaços, a formação dos professores e seu baixo
acesso a bens culturais devido à renda, a maneira como
o diretor é indicado para a escola, a própria cultura
escolar e da rede de ensino são todos elementos
constitutivos da micro-política da educação.
Como diz o próprio nome, os projetos de
Educação, Comunicação & Participação implicam
uma horizontalidade maior nas relações, envolvem
delegar aos estudantes responsabilidades e decisões
que nos modelos mais tradicionais de ensino se
concentram nos níveis superiores de gestão.
A maioria dos projetos deste Relatório deixa
que os aprendizes decidam os assuntos que
querem abordar em seus meios de comunicação.
Freqüentemente, os adultos oferecem alternativas,
ampliam o repertório dos temas e abordagens
possíveis, mas quem escolhe são os estudantes.
No modelo tradicional de ensino, os conteúdos,
a grade curricular, vêm prontos, fechados. Nas
metodologias que se apóiam mais nos interesses
e curiosidades dos alunos, os conteúdos variam
mais, o educador é obrigado a ter um raciocínio
mais interdisciplinar e, muitas vezes, não sabe todas
as respostas.
Na estrutura vertical de poder da Educação
brasileira (MEC > secretarias de educação >
burocracia intermediária > escolas), o peso do
diretor na micro-política da escola é enorme.
Professores em geral têm pouca voz; estudantes,
quase nenhuma. A participação das famílias até
nas atividades que envolvem seus filhos tende a ser
reduzida – e pouco incentivada.
Com a comunicação, é freqüente as crianças
e jovens adquirirem competência com a nova
linguagem e tecnologia mais rapidamente do que
os professores, o que desequilibra as relações micropolíticas da sala de aula.
Assim, além das questões já delineadas, um
dos desafios estruturais centrais dos projetos e
metodologias inovadores é essa cultura de poder, a
micro-política da escola, em geral bastante arraigada
e difícil de mudar de maneira sustentável.
O NCE usa o conceito de ecossistema comunicativo
para abordar essa questão. Parte importante do
poder na escola está na concentração e circulação das
informações, nos fluxos de comunicação. Quando
se insere um meio de comunicação na escola, como
uma rádio, em geral há uma espécie de ruptura nesse
ecossistema comunicativo, especialmente quando as
crianças e jovens têm a oportunidade de serem
protagonistas na produção. Isso freqüentemente
ameaça certas relações de poder, gerando conflitos
interpessoais e até intergrupos (alunos x professores,
professores x direção). Para lidar com isso, o NCE
propõe a gestão comunicativa, cujo objetivo é
tornar mais democrático o ecossistema comunicativo
da escola.
O Comunicação e Cultura, no Ceará, registra
casos em que a direção da escola simplesmente
trancou os jornais produzidos por um grupo de
estudantes. No educom.radio, em São Paulo
algumas rádios passam, sintomaticamente, a
maior parte do tempo trancadas nas escolas. Até
a obtenção de espaço de trabalho na escola para
o desenvolvimento do projeto pode ser muito
dificultada.
É necessário muita habilidade política, de
negociação de conflitos, dentro da escola, para
superar essas tensões. Há vários casos nas
experiências analisadas de surgimento de grêmio
e outras instâncias políticas dentro da escola, a
partir da introdução de meios de comunicação
participativos.
O grande problema é que a sustentabilidade dessas
novas relações micro-políticas, mais horizontais e
participativas, tende a ser baixa, devido à circulação
de diretores e professores e à cultura dominante, na
rede toda, mais vertical e autoritária. Os projetos
por vezes conseguem grandes transformações em
um ano e, no ano seguinte, têm que começar todo o
processo de formação de novo.
20
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
Uma das estratégias utilizadas pelas experiências
analisadas é buscar formar membros mais
permanentes da comunidade escolar, além de
professores e alunos; por vezes um pai ou mãe,
outras, uma liderança comunitária presente no
dia-a-dia da escola. Outra estratégia é disseminar
experiências participativas em várias escolas com a
perspectiva de, no médio e longo prazos, formar uma
massa crítica e mexer de forma mais permanente no
imaginário e na cultura de poder da educação – uma
estratégia que poderia ser comparada à da Guerra
de Guerrilhas [leia Conclusão].
Alguns projetos, como os Núcleos de
Mobilização do Uga-Uga em Manaus, priorizam
as relações públicas com coordenadores pedagógicos
– que têm o domínio sobre os conteúdos curriculares
da escola.
É necessário também criar mecanismos e instâncias
democráticas de controle dos conteúdos veiculados
pelos meios de comunicação produzidos pelos
estudantes. Há casos que constroem conjuntamente
um código de ética, ou documento parecido. O
Clube do Jornal, no Ceará, tem uma ombudsman,
que pode ser acessada por quem se sinta prejudicado
pelas publicações juvenis (são mais de 100
no Estado).
Se esses mecanismos e instâncias não são criados,
a tendência é ocorrer uma interferência maior dos
adultos nos produtos de comunicação dos estudantes.
circulação de secretários da Educação, cada um com
seu pacote de reformas, tendem a ficar confusas,
sem foco nem prioridades bem definidos.
Como as empresas que se envolvem no Terceiro
Setor, os políticos precisam de visibilidade (uns para
reforçar sua marca, outros para se elegerem), então
é grande a tendência de promover mais eventos
do que processos – mesmo nas políticas públicas.
Dá mais impacto social no curto prazo construir
escolas do que investir nos salários e na formação
continuada dos professores.
Idealmente, a educação deveria ter uma burocracia
(no sentido Weberiano do termo) que garantisse
continuidade aos processos e alinhasse os diversos
projetos em desenvolvimento nas redes de ensino.
Mudanças de gestor principal na secretaria ou no
ministério não deveriam representar uma ameaça
para as escolas. Mas o fato é que representam – e as
poucas redes que conseguem ter políticas públicas
continuas e consistentes em sua administração
têm colhido bons frutos em termos de melhoria de
ensino, mostram Ceará e Minas, entre outros.
Enfim, a Educação, Comunicação & Participação
é favorecida quando os gestores da macro-política
educacional, além de criar novos projetos e
promover reformas, asseguram a continuidade dos
processos que já estão em curso e a sustentabilidade
daqueles que eles desencadeiam.
 PARCERIAS, REDES E VOLUNTÁRIOS
3.7. Macro-Política
Outro desafio estrutural a ser sempre considerado – e
um dos mais importantes para o conjunto das políticas
públicas na área social do país – é a continuidade dos
projetos. Ainda é comum no Brasil que cada grupo
político, ao assumir o Executivo, descontinue projetos
da gestão anterior e inicie vários outros.
Como discutiremos com mais detalhe no item
final desta Introdução, educação é um processo,
cujos resultados por vezes levam anos para aparecer,
e as mudanças políticas no topo das redes de ensino
interferem fortemente nisso. Redes com grande
Uma das maiores diferenças entre as escolas e
as organizações analisadas neste Relatório é a
composição da equipe. Nos projetos há de tudo,
várias faixas etárias. De arquitetos a psiquiatras,
de pedagogos a publicitários, de radialistas
a acadêmicos, de estudantes universitários a
profissionais que também atuam no mercado
de trabalho. Muitos remunerados (autônomos,
celetistas, bolsistas, estagiários, prestadores de
serviços), alguns voluntários.
A maioria dos projetos também é associada a redes
sociais e mantém parcerias envolvendo diversos tipos de
21
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
instituições: fundações, ONGs de atendimento direto,
escolas públicas e privadas, meios de comunicação,
sindicatos, organizações comunitárias, grupos de
discussão e campanhas, grupos juvenis, instâncias
governamentais, universidades, entre outras.
Mas as escolas brasileiras estão isoladas. Mal
dispõem de profissionais suficientes para dar conta
do que ocorre dentro delas, quanto mais para se
relacionar de maneira mais intensa e profícua com a
comunidade que a cerca e com a sociedade em geral.
Os principais interlocutores das escolas fazem parte
do sistema de ensino. Até as famílias têm acesso
restrito ao universo escolar.
O problema é que parte expressiva dos resultados,
individuais e coletivos, observados nos projetos de
Educação, Comunicação & Participação, decorrem
dessa riqueza trazida por pessoas e instituições com
origens, culturas e fazeres distintos – aquilo que
na Cidade Escola Aprendiz é chamado de caldo
de cultura.
Em geral, um jornal produzido por uma equipe
multidisciplinar tem mais qualidade do que se for
criado por um grupo uniforme, só de professores
ou só de estudantes, por exemplo. É uma simples
questão de repertório de conhecimentos e
habilidades – o caldo de cultura, que é mais rico
quanto mais diversificado for o grupo. O incremento
do repertório dos estudantes também tende a ser
maior quando são expostos a profissionais com
formação e origem variadas – e também quando
circulam por outros espaços culturais e educativos.
A criação de um produto de comunicação sem
a presença de uma pessoa com repertório mais
amplo na área de comunicação, por exemplo, tende,
especialmente no início do processo, a reproduzir
modelos comerciais de mídia, sem colocar em
questão esses formatos – um dos objetivos
freqüentes nos projetos.
Uma diretora que participou de um projeto
promovido pelo Aprendiz, em São Paulo, diz que
a coisa mais importante que ela aprendeu foi como
a ampliação das relações com pessoas e instituições
externas à escola contribui para a melhoria dos
processos educativos que ocorrem dentro da escola.
Portanto, uma questão central para a disseminação,
com qualidade, da Educação, Comunicação &
Participação nas redes de ensino é como instaurar
processos de enriquecimento, permanente, do
repertório das escolas.
O título deste item aponta um caminho
complementar à formação continuada dos
educadores para isso: Parcerias, Redes e Voluntários.
Quanto mais as unidades escolares tiverem
capacidade de firmarem parcerias, articularem-se
a redes e trazer para dentro delas profissionais
variados e levar para fora dela seus estudantes,
melhor tende a ser sua educação.
Mas isso não é nada fácil e o Brasil já tem
alguns exemplos de experiências mal-sucedidas de
voluntariado em escolas. Por outro lado, é notável
como mesmo projetos pequenos, isolados e com
poucos recursos – como é o caso da Fundação Casa
Grande, no interior do Ceará – são capazes, quando
querem, de trabalhar com repertórios culturais
amplos, sempre em expansão.
As perguntas analisadas à frente apontam
alguns caminhos para ampliar a rede de relações e,
conseqüentemente, o repertório das escolas.
4.1. Quem Articula?
Quem vai buscar parceiros, conversar com
voluntários, escrever projetos, captar recursos,
navegar pela internet em busca de novas
oportunidades para a escola, organizar eventos e
reuniões com a comunidade? Os diretores de escolas
não recebem formação neste sentido. Quando têm
perfil articulador, em geral a escola até se beneficia.
Mas sobra pouco tempo e o sistema de ensino não
prioriza esse tipo de atividade.
Uma solução que vêm aparecendo nas
organizações analisadas é ter um profissional que
cuida dessas questões. O job description (descrição
da função) desse profissional inclui a lista de
tarefas alinhada no parágrafo acima, entre várias
22
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
outras. Dependendo do tamanho da instituição, é
necessário que essa pessoa tenha uma equipe (por
exemplo, quando se promovem muitos eventos para
a comunidade).
Mesmo assim, o executivo principal da instituição
continua sendo o relações públicas número um. Dá
o tom da organização, alinha seus fazeres. Mas
em geral são bem-sucedidas as experiências de
gestão onde esse executivo principal compartilha as
funções de relacionamento com a comunidade com
outro profissional ou mesmo com uma equipe de
profissionais.
A Central Cipó de Notícias, Agência da Rede
ANDI em Salvador, mantém um profissional no
comando das relações externas e outro, das tarefas
internas. O Aprendiz tem a Agência.Aprendiz,
um setor que cuida das parcerias. Nas organizações e projetos onde não existe essa função, os
líderes tendem a ser ainda mais sobrecarregados
de tarefas.
Esse modelo pode ser introduzido nas escolas
e, certamente, favoreceria a disseminação de
projetos de Educação, Comunicação & Participação. Ele já tem sido usado pelas redes de
ensino nos projetos que abrem as escolas aos
finais de semana, por exemplo. O ideal seria que
este profissional tivesse essa função de articulação
externa para toda a escola. Mas, dependendo
da dinâmica de cada unidade e considerando os
Desafios Estruturais mencionados, tende a ser
mais simples associar este profissional ao projeto
que envolve comunicação.
Como já foi dito, o NCE propõe a introdução do
educomunicador nas escolas e a criação de cursos
universitários específicos para sua formação. Entre
outras funções, esse educomunicador também é um
articulador de parcerias e recebe capacitação nesse
sentido. O educom.radio inclusive tem na equipe
pessoas denominadas “articuladores”.
De uma maneira ou de outra, esse profissional
tem que ser um quadro permanente, se não suas
ações perdem sustentabilidade.
4.2. Como Formar?
Os processos de formação em serviço para professores
vêm buscando ampliar suas redes de relações. Muitos
estados e municípios têm se articulado a instituições
de ensino superior nesse sentido. Mas seria importante
ampliar essas parcerias. Há hoje ONGs e empresas, por
exemplo, com capacidade de formação que poderiam
estar sendo associadas a determinadas escolas.
Em termos de política pública, é muito mais
complexo criar processos descentralizados e
diversificados de formação em serviço. Mas
é possível associar, ao menos aos projetos de
Educação, Comunicação & Participação, instituições
que trabalham com determinadas áreas e que
podem acompanhar no médio e longo prazos certos
processos na escola.
Freqüentemente, quando um projeto desse
tipo ganha corpo, a equipe demanda certos
conhecimentos: Como avaliar melhor? Que
software eu uso agora? Como lidar com uma nova
temática que surgiu entre os estudantes?
Nesses casos, o ideal seria as escolas ou as
equipes dos projetos terem acesso a um cardápio de
instituições e cursos que poderiam colaborar na sua
formação. Algumas redes, como a mineira, já têm
trabalhado com esse modelo, oferecendo cursos
em áreas e formatos diferentes, que os professores
ou equipes de projetos podem aderir, se tiverem
interesse.
A formação oferecida pelo projeto Latanet em
Belo Horizonte faz parte desse cardápio da rede
mineira. O que coloca uma outra questão:
4.3. Quais Instâncias?
Conteúdos de formação são em geral centralizados
em um departamento ou divisão das secretarias
de Educação. Relações com a comunidade são
responsabilidade ora da assessoria de comunicação
social ora do gabinete do secretário ora recaem
sobre quem cuida de projetos especiais. Diretores e
coordenadores pedagógicos têm fóruns específicos
de interlocução com os níveis superiores de gestão
23
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
das redes. A cultura política dominante nas escolas
ainda delega pouco poder a associações de pais e
mestres e conselhos escolares.
Assim, trabalhar com parceiros, redes e
voluntários envolve uma série de instâncias
políticas e pedagógicas da rede de ensino. No
campo pedagógico, por exemplo, os casos mais bem
sucedidos de disseminação de projetos de Educação,
Comunicação & Participação têm estreita relação com
as estruturas oficiais de gestão (currículo, formação
etc.) e com as políticas mais gerais da rede.
Os projetos de maior impacto investem muito
tempo e energia na construção dessas relações,
que por vezes são extremamente conflituosas,
envolvendo culturas e expectativas diversas. Mexer
com comunicação e trabalhar de maneira mais
participativa são propostas que necessariamente
encontrarão resistência não só dentro das escolas
como nas instâncias superiores de gestão das redes.
O que se conclui a partir das experiências é que a
melhor maneira de lidar com essa questão é definir
quais são os interlocutores (fixos) do projeto, na
rede e nas organizações parceiras. E criar instâncias
e mecanismos de discussão e planejamento do
trabalho, com reuniões permanentes (e não apenas
para lidar com crises e emergências).
Alguns projetos bem-sucedidos criam um conselho
gestor, composto por representantes das diversas
instâncias da rede de ensino e das organizações
parceiras do projeto, inclusive financiadores. No
nível das escolas também é favorável criar esse tipo
de conselho, vinculado ao projeto de Educação,
Comunicação & Participação – lembrando sempre de
incluir estudantes.
Mas é preciso sempre ter sensibilidade para as
instâncias de poder já existentes, avaliando quais são
estrategicamente importantes de serem incluídas no
conselho gestor do projeto.
4.4. Que Voluntários?
Idealmente, a disseminação de projetos de
Educação, Comunicação & Participação deve contar
com uma rede de apoio de comunicadores em
geral e, inclusive, de profissionais de outras áreas.
Mas para isso funcionar é necessário planejar essa
participação e prever recursos para a formação e
acompanhamento dessas pessoas.
Há situações em que voluntários se tornam mais
problema do que solução para projetos sociais. O
que fazer com aquele engenheiro aposentado que
está oferecendo dar aulas de matemática para os
estudantes? Ele tem formação? Sabe lidar com os
estudantes? Aonde ele vai trabalhar? Voluntários
tendem, como todas as pessoas formadas assim, a dar
aulas expositivas.
Nos projetos analisados neste Relatório há
poucos voluntários. Bons projetos envolvendo
voluntários em geral têm um período inicial de
formação e acompanhamento permanente do
trabalho desenvolvido por eles.
É também mais produtivo buscar voluntários
para desempenhar funções pré-definidas, que
comportem as características do trabalho voluntário,
do que abrir inscrições e depois ver onde encaixa-los
– e tudo isso deve ser claramente informado pelos
meios de comunicação criados pelo projeto.
 APRENDER FAZENDO
Por mais sólidas que sejam as bases conceituais e
o planejamento por trás dos casos analisados neste
Relatório, bons projetos de Educação, Comunicação
& Participação envolvem um alto grau de
experimentação e inovação.
Trabalhar com a criação de produtos de
comunicação implica lidar com imprevistos e
carências, num cronograma apertado. Como
outros processos complexos na sociedade, meios
de comunicação envolvem tantas variáveis que é
praticamente impossível controlar todas elas. Mesmo
na mídia de massa, o fechamento de uma edição é
sempre uma espécie de “crise controlada” – em que se
tem que equilibrar tempo e recursos disponíveis com
a qualidade do produto final, o que implica uma série
de decisões estratégicas em prazos exíguos.
24
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
O mundo escolar, ao contrário, tende a buscar
o previsível – embora também enfrente carências
de toda ordem. Avaliações em geral aferem aquilo
que deveria ter acontecido num dado período
– trabalham com indicadores pré-determinados,
associados ao currículo. Isto é, as variáveis são
conhecidas e monitoradas ao longo do processo.
Nos últimos anos, o termo escolarizar inclusive
ganhou uma acepção negativa, quando usado para
descrever metodologias de ensino e aprendizagem
que tiram de contexto determinados conhecimentos
e organizam sua apresentação de maneira linear,
fragmentada, em aulas expositivas.
Assim, projetos de Educação, Comunicação &
Participação, mais do que uma atividade a mais
entre as várias trabalhadas pela escola, constituem
propostas de transformação do próprio jeito como
a escola trabalha. Isso é universal nas experiências
aqui analisadas. Como diz um educador da Cipó,
em Salvador: “A gente quer ser o feijão-com-arroz,
não o chantilly.”
É possível escolarizar (no mal sentido) a criação
de um produto de comunicação, formatando e
planejando de antemão todas as atividades, de
forma que, quando os alunos se envolvem na
produção, acabam lidando com poucos dos desafios
que teriam de superar na “vida real”. Isso tem
ocorrido em alguns casos, especialmente quando
a execução do produto de comunicação é deixada
exclusivamente nas mãos dos adultos da escola, sem
muita capacitação nem monitoramento; ou quando
se trabalha com multiplicadores pouco apoiados.
Mas o imprevisto, a pressa, a superação de
obstáculos fazem parte do currículo (por vezes,
oculto ou inconsciente) das experiências com
melhor resultado em termos de elevação da
auto-estima, participação social dos estudantes e
desenvolvimento de habilidades e competências
mais gerais, como trabalho em grupo e liderança.
Em mais da metade dos projetos analisados, os
educadores costumam dizer, com certo orgulho,
“aqui nós aprendemos fazendo”. Boa parte desses
projetos construiu sua metodologia de trabalho
desta forma experimental – e só depois foram
buscar sustentação teórica e conceitual para
sistematizar sua prática pedagógica. Resultados
importantes observados nos aprendizes advêm de
seu envolvimento nesses processos de aprender
fazendo – o que contextualiza os conhecimentos e
conteúdos abordados e dá sentido à aprendizagem.
O fato é que, para se disseminar por meio
de políticas públicas a Educação, Comunicação
&
Participação,
mantendo
esse
caráter
experimental, promovendo a metodologia central
do aprender fazendo, é necessário considerar
certas questões que, de uma maneira ou de
outra, envolvem a atividade mais nitidamente
pedagógica do conjunto dos casos analisados
neste Relatório.
5.1. Processo X Produto
Comunicação se concretiza em produtos (site,
jornal, programa de rádio, vídeo etc.) Já educação
é essencialmente um processo. O trabalho com
a criação de produtos de comunicação tende a
subverter a lógica da escola – cujos produtos em
geral têm pouca relevância social, que não a de
avaliar o desenvolvimento do processo de um ou
vários estudantes.
É freqüente a discussão em projetos de Educação,
Comunicação & Participação sobre a importância do
processo e do produto. Alguns defendem que um
bom projeto tem bons produtos – que inclusive
refletiriam a qualidade do processo pedagógico.
Em alguns casos, os adultos chegam a interferir
fortemente na finalização do produto para garantir
sua qualidade. Para outros, é apenas o processo que
importa: a vivência de relações de produção mais
participativas e democráticas, o trabalho com os
conteúdos de forma contextualizada e prática vale
mais, em termos pedagógicos, do que a qualidade
do produto de comunicação que for criado.
Mas a tendência mais ampla é que os projetos se
preocupem em planejar tanto o processo pedagógico
25
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
como o produto de comunicação, com graus variados
de ênfase no primeiro ou no segundo. As instituições
mais jovens, muitas lideradas por jornalistas, tendem a
se preocupar mais com a qualidade do produto final de
seu processo pedagógico do que as organizações com
origem na esquerda. Os projetos maiores, já em escala
de política pública, são mais focados no que acontece
ao longo do processo de formação – e seus resultados
em termos de participação social e cidadania – do que
no acabamento de um jornal ou site.
Independentemente da abordagem que se
escolher, é preciso lidar com essa equação e o ideal
é que tanto o processo como o produto tenham
qualidade – todos ganham com isso, do público
direto da formação ao indireto da comunicação,
além dos financiadores.
5.2. Autoria e Direção
Crianças e jovens envolvidos em projetos de Educação,
Comunicação & Participação demonstram grande
prazer em apresentar o resultado de seu trabalho
– independentemente da qualidade de seus produtos.
Mesmo quando grupos grandes de estudantes estão
envolvidos, esse sentimento de autoria tende a ser
uniformemente distribuído entre os participantes.
O foco que o projeto dá entre processo e produto
interfere nesse sentimento de autoria. Como
foi mencionado, há projetos em que os adultos
buscam não interferir de maneira alguma nos
produtos, outros aonde a interferência chega a alijar
os estudantes.
Não há receita pronta para lidar com essa
questão – embora obviamente é preciso preservar
o sentimento de autoria nos estudantes, pois este
é um fator constitutivo dos resultados em autoestima, por exemplo, em projetos desse tipo.
Os estudantes em geral mostram que têm
repertório suficiente para distinguir um bom
produto, mas não necessariamente para executalo. Freqüentemente gostam e até pedem auxílio de
adultos – educadores ou profissionais – no processo
de criação de seus produtos. Quando os adultos
são capazes de trabalhar de forma não bancária,
participativa com os aprendizes, em geral surge
um sentimento de autoria inter-geracional. Mas
é também possível, no outro extremo, alienar os
estudantes de seu produto, dependendo do nível de
interferência.
Assim, a direção de um processo de Educação,
Comunicação & Participação deve envolver grande
sensibilidade por parte dos adultos, para perceber
momentos em que é possível contribuir e outros
em que é melhor deixar que os estudantes acertem
ou errem e arquem com as conseqüências de suas
próprias decisões.
5.3. Faixas Etárias
Os projetos analisados neste Relatório variam suas
metodologias conforme a idade dos aprendizes
– embora o modelo do aprender fazendo, da
participação mais horizontal dos envolvidos, seja
sempre preservado.
Em síntese, para faixas etárias mais jovens há a
tendência de ser trabalhar com um repertório de
questões, conteúdos e conhecimentos mais reduzido
e a delegar menos responsabilidade para as crianças
– especialmente quando a escala é de política
pública. Quanto mais maduros os aprendizes, maior
o grau de responsabilização e menor a interferência
dos educadores.
Em casos de pequeno atendimento, onde as
relações entre adultos e crianças é muito próxima
ou em que aprendizes de várias idades trabalham
juntos, mesmo as faixas etárias mais novas tendem
a ter mais autonomia. Na Casa Grande, interior
do Ceará, há crianças de 8 anos quem mantêm
programas semanais de uma hora de rádio, que elas
mesmas criam e executam, com ótimos resultados.
Nas escolas onde há um sentimento de
comunidade e identidade mais forte, também se
percebe a formação de grupos inter-geracionais, que
freqüentemente lidam melhor com as diferenças
de idade, dando mais autonomia para todos os
participantes, independentemente da faixa etária.
26
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
5.4. Erro e Correção
A forma como os adultos concebem o que é erro e
como eles devem ser corrigidos tem impacto direto na
sua interferência ou não nos produtos de comunicação
criados por crianças e jovens.
Aqui, novamente, há de tudo. De projetos
disseminados em escolas onde os professores corrigem
o português de um texto de jornal até aqueles onde
os adultos preferem não corrigir nada, deixando que,
uma vez publicado o produto, os alunos percebam,
com os retornos que recebem, onde erraram e
onde acertaram.
É freqüente observar entre adolescentes uma
preocupação com a correção do texto e a qualidade
do produto, que não teriam em outras situações em
que os sentimentos de autoria e de interação com os
pares não fossem tão presentes.
O fato é que a Educação, Comunicação &
Participação, além de propor uma mudança na
forma como se trabalha o ensino e aprendizagem
nas escolas, implica uma reflexão sobre o que é certo
e errado e as formas de corrigir isso.
Alguns projetos recorrem à correção em grupo
– estratégia também usada por escolas com ensino
mais renovado. Seja um grupo corrigindo o trabalho
do outro, seja analisando a produção em grupo
e discutindo seus pontos fortes e fracos. Outra
estratégia é discutir a adequação de determinada
produção, analisando a quem ela se dirige e quais as
demandas de qualidade do produto desse público. É
possível ainda simplesmente eliminar a interferência
adulta, deixando que o produto gere demandas de
correção na próxima edição.
Esta questão interfere também na relação entre
os adultos e os financiadores do projeto, que
freqüentemente não têm repertório conceitual para
compreender a publicação de um jornal com erros
de ortografia ou com uma estética pouco trabalhada
– uma preocupação que por vezes leva os adultos a
interferirem mais do que deveriam no produto.
Talvez o ideal neste caso seja associar as várias
alternativas de correção listadas acima, avaliando,
caso a caso, qual estratégia é mais adequada para
cada momento, considerando não só o aprendiz
como o público alvo da comunicação.
5.5. Rodas e Discussões
A roda de discussão é uma metodologia
praticamente universal nos projetos analisados.
Alguns iniciam todos os dias de trabalho com uma
roda de aquecimento, onde se discute como cada
um está, os fatos mais importantes do momento
e o que será feito no dia, e terminam as atividades
igualmente em roda, avaliando o que foi feito no
período e deliberando sobre os próximos passos.
Problemas de disciplina freqüentemente são
trabalhados em discussões coletivas. Decisões
chave, como o produto que será desenvolvido ou os
temas que serão abordados, chegam a ser decididos
por votação. Como já foi dito, há um certo consenso
de que participação se aprende participando, e os
projetos se preocupam bastante em criar instâncias
e situações nesse sentido.
Nas escolas, onde a cultura dominante é oposta,
as rodas e discussões encontram resistência e pouca
competência e repertório entre os professores de
como promove-las. Novamente é necessário formar
professores e multiplicadores em metodologias mais
participativas, por intermédio de metodologias
participativas. E cuidar para que essa formação não
se reduza a um evento.
5.6. Complementar ou Curricular
As questões levantadas no item Desafios Estruturais
fazem com que a tendência seja as escolas colocarem
à margem de seu fazer principal os projetos de
Educação, Comunicação & Participação.
A maioria dos projetos analisados adiante é
extra-curricular (ocorre na escola, mas fora da grade
horária regular) ou complementar a escola (em
espaços externos, mantendo-se algum diálogo com
a escola de origem dos estudantes).
Como já foi dito, o ideal seria que projetos desse
tipo fossem curriculares, que as metodologias
27
Educação, Comunicação & Participação
Introdução
participativas de criação de produtos de
comunicação ou de desenvolvimento de projetos
pelos estudantes abrangessem todo o trabalho da
escola, inclusive em sala de aula. Mas isso ainda
ocorre em pequena escala – principalmente em
trabalhos bem articulados às políticas da secretaria
da Educação, ou quando há um número pequeno de
escolas envolvidas na experiência.
Em geral, a estratégia utilizada pelos projetos é
buscar que os meios de comunicação produzidos
nos projetos (extra-classe) sejam levados para dentro
da sala de aula, pelos próprios estudantes ou por
professores – que podem utiliza-los como material
para o trabalho pedagógico, já que na maioria das
vezes esses meios abordam questões diretamente
relacionadas ao cotidiano escolar. Em alguns casos,
o material produzido pelos aprendizes, em outros
espaços, tem como objetivo principal este uso em
sala de aula, abordando assuntos, por exemplo,
associados aos Temas Transversais, incluindo
versões para estudantes e outras para professores.
desde empresas de grande porte, com universidades
corporativas, até centros de juventude, postos de
inclusão digital e museus.
Como já foi descrito acima, as escolas regulares
de ensino estão isoladas disso, tendendo a trabalhar
seus conteúdos sem associa-los ao entorno social.
Há uma proposta cada vez mais forte na sociedade
brasileira – incluída na LDB de 1996 – de oferecer
educação em tempo integral para as crianças e jovens
brasileiros, sem que isso signifique necessariamente
ficar na escola o dia todo.
Há várias abordagens teóricas e práticas
atualmente, no Brasil e no exterior, que entendem
que a educação dos cidadãos do século 21 deve
envolver essas diversas instituições. A idéia das
Cidades Educadoras, por exemplo, sintetiza essa
proposta de que o sistema educacional deve articular
vários espaços e atividades educativas, e não apenas
concentrar-se em redes de escolas regulares.
O trabalho com Educação, Comunicação &
Participação tem contribuições importantes
a oferecer para as escolas, seus currículos e
5.7. Escola e Sociedade
metodologias de ensino. Mas seu potencial suplanta
Os espaços que lidam com educação nas sociedades a abrangência da escola. As experiências analisadas
contemporâneas estão se multiplicando. Além dos neste Relatório mostram que, além do potencial
mais tradicionais, como a escola, a família e as de renovação do fazer escolar, projetos desse tipo
igrejas, há hoje várias outras instituições que mantêm são instrumentos poderosos de articulação desses
processos estruturados de ensino e aprendizagem: diferentes espaços e programas educativos.
28
Educação, Comunicação & Participação
Conclusão
Conclusão
Conclusão
Há hoje demanda por parte do sistema educativo e
da sociedade em geral, além de bastante experiência
acumulada no Brasil, para a disseminação de
projetos de Educação, Comunicação & Participação
em escolas de ensino fundamental e médio.
São dois os caminhos básicos para isso, que
devem ser vistos como complementares:
1. Guerra de Guerrilhas
É favorável continuar apoiando projetos
locais, de pequeno porte, com parcerias
envolvendo uma ou algumas poucas
escolas de uma mesma região, mais ONGs
e/ou Universidades – buscando sempre
articulação com a Secretaria da Educação. O
que se percebe é que esses pequenos projetos,
com o tempo, vão ganhando maturidade, se
articulando a outros, gerando uma massa
crítica importante para a transformação
da própria cultura da Educação e para a
disseminação mais ampla de novos projetos.
Por vezes, esse projeto pode até ocorrer
fora da escola, numa ONG, por exemplo,
garantindo-se entretanto que ele dialogue
com o que ocorre dentro da escola.
dezenas ou centenas de escolas, com amplos
processos de formação, planejamento de
projetos e distribuição de equipamentos.
Para isso, seria interessante que as políticas
públicas se associassem a experiências que
já venham trabalhando na área. O ideal
seria a construção de uma rede de projetos
que pudesse disponibilizar conhecimentos,
materiais, processos de formação e supervisão
permanente para o desenvolvimento de
várias políticas públicas no país todo.
O sucesso das iniciativas em menor escala e a
dificuldade em manter a qualidade nas experiências
envolvendo muitas escolas mostram que, mesmo
nos grandes projetos, é necessário manter certas
características de projetos pequenos. Por exemplo,
no lugar de capacitar a esmo toda uma rede e
distribuir para todas as escolas equipamentos de
comunicação – numa abordagem mais universal –,
talvez seja melhor identificar comunidades estáveis,
que tenham perfil ou demanda para aquele tipo de
trabalho, e focalizar mais os processos de formação e
distribuição de equipamentos. Isso tende a melhorar
a relação investimento/resultados.
A primeira linha de projetos pode até ser
2. Políticas Públicas
financiada pelo governo, mas conta hoje com os
É cada vez mais viável – dado o recursos do Terceiro Setor, que talvez seja o parceiro
amadurecimento de muitas experiências financiador mais certo para isso. A segunda linha
iniciadas da maneira descrita acima de projetos já trabalha com escala de política
– desencadear grandes projetos de Educação, pública e é praticamente impossível implementaComunicação & Participação, atingindo la apenas com recursos da iniciativa privada, sendo
29
Educação, Comunicação & Participação
Conclusão
que o Estado deve arcar com parte significativa
dos investimentos. Pode-se iniciar trabalhos na
primeira linha tendo como perspectiva a ampliação
de escala – o que envolverá desde a pesquisa e
desenvolvimento da metodologia, com certos
parceiros, até a disseminação, esta mais associada
ao governo.
O fundamental, independentemente da linha de
ação que se escolher, é compreender que projetos de
Educação, Comunicação & Participação, mais do que
simples metodologias ou disciplinas, constituem
uma proposta de transformação da maneira como
as escolas trabalham o ensino e a aprendizagem.
Ou seja, são processos que levam bastante tempo
– muitas vezes mais do que os quatro anos de uma
gestão de governo. Se isso não for considerado, o
risco é criar bons “eventos” – mesmo que durem três
anos – mas não conseguir mudar significativamente
os processos educativos de forma permanente – isto
é, melhorar a qualidade da Educação.
30
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
Aprendiz
Cidade Escola Aprendiz
A riqueza de uma cidade não está nas belezas naturais, mas na quantidade de pessoas interessantes fazendo
coisas interessantes, compondo paisagens de incessantes inovações.
Gilberto Dimenstein, coluna “Feliz São Paulo Novo”, Folha de S.Paulo, 31/12/2003
 HISTÓRIA
O surgimento da Internet e as expectativas criadas
acerca de seu potencial transformador tiveram estreita
ligação com a criação da Cidade Escola Aprendiz.
A impressão geral, quando a Internet começou
a fazer parte da vida de pessoas, Universidades e
organizações, era de que nada mais seria como antes.
Estudantes abriam empresas de Internet. Algumas
delas, bem sucedidas, passavam a ter suas ações
negociadas em Bolsas de Valores. Rackers desafiavam
esquemas de segurança de grandes multinacionais.
Previa-se uma reviravolta no mundo da Educação.
Neste momento tem início o Cidadão na
Linha, uma experiência inovadora reunindo
jornalistas, educadores e alunos de três escolas
públicas e do tradicional Colégio Bandeirantes
em São Paulo. Juntos, produzem um website sobre
temas de interesse dos jovens, como educação
sexual, música, jogos, cidadania, entre outros. A
partir da experiência do site, o jornalista Gilberto
Dimenstein, responsável pela iniciativa, lança o
livro “Aprendiz do Futuro” (Editora Ática, 1997).
Dirigido a professores e estudantes de ensino médio,
o livro fornecia informações e dicas para a realização
ações que explorassem o potencial da internet no
exercício da cidadania e da educação. Algumas das
inquietações daquele momento são explicitadas na
fala do próprio Gilberto:
Até que ponto poderíamos refazer o olhar e a
prática do professor, tão acostumado à feudalização
educacional, cada qual dono de sua matéria? E,
mais ainda, ensiná-lo a manejar o desconhecido
instrumento da Internet para facilitar a
comunicação e a obtenção de dados? Será que existe
papel mais relevante ao professor do que ser um
administrador de curiosidades? (trecho de artigo
publicado na Revista Educação, Out/2000)
O website www.aprendiz.org.br foi criado
com a mesma linguagem jornalística adotada no
livro, facilitando e enriquecendo a navegação de
internautas recém-chegados à rede. A constatação
de que todos os estudantes de ensino médio
envolvidos na produção do site ingressaram em boas
universidades e ampliaram seus horizontes pessoais,
sociais e profissionais deu ainda mais fôlego à
realização das atividades. O tema da cidadania
e a conjugação dos mundos da comunicação
e da educação foram motores das ações que
desembocariam na criação da ONG.
O jornal é ágil para retratar o cotidiano,
o tempo real. Mas se perde na avalanche do
presente, do imediato. A educação lida melhor com
o perene, o essencial. Mas tropeça para embalar
31
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
a atualidade (...) fazendo da escola um exercício informações sobre estes projetos estão na “Ficha
aborrecido do passado. (Gilberto Dimenstein, de dados da organização”]. Dessa constelação
Revista Educação, Out/2000)
de programas e projetos também fazem parte o
Aprendiz Comgás, o Beco Escola, o Escolinha
Foi produzindo o site, ainda em seu início, da Rua, o Café.Aprendiz, o Garagem Digital, o
com uma equipe que reunia adolescentes e Expressões Digitais, o PraTiCidade, o Histórias
jovens, educadores e comunicadores, entre outros de Vida, a Incubadora, o Rádio Escola, o Rádio
profissionais, que se formou o “DNA” da pedagogia Ativo entre outros.
Aprendiz: criar produtos de comunicação e de arte
A evolução das ações levou a ONG ao
com equipes multidisciplinares e intergeracionais e desenvolvimento do conceito de Bairro-Escola, um
utilizar a comunicação e as novas tecnologias como laboratório de pedagogia comunitária que integra
instrumentos pedagógicos.
agentes sociais diversos em prol da melhoria da
Em pouco tempo, o www.aprendiz.org.br tornou- comunidade e da educação. Desde o início, a idéia
se referência no campo da educação, trabalho de transformar “um bairro inteiro numa escola”
e cidadania. Além do espaço para a divulgação move educadores e aprendizes, que lançam mão
dos projetos da ONG, o site conta com colunas das diferentes linguagens – internet, rádio, jornal,
de jornalistas, intelectuais e políticos de grande revistas, fotografia, grafite, mosaico, cerâmica,
expressão como o próprio Gilberto Dimenstein, televisão, blogs – para promover a melhoria das
Rubem Alves, Antonio Gois, Cristovam Buarque, condições de vida da comunidade.
entre muitos outros e é atualmente o mais visitado
A atuação do Aprendiz no bairro da Vila
do Brasil entre os sites de educação contando, em Madalena vem criando uma comunidade educativa
2003, com cerca de oito mil visitantes únicos por que experimenta programas de arte-intervenção
dia. Pesquisa recente mostra que o público que urbana, expressão corporal, comunicação, tecnologia
acessa o site Aprendiz é formado por estudantes e geração de renda numa construção de parcerias
de ensino fundamental e médio (17%), estudantes que compõe redes de aprendizagem.
de ensino superior (31%) e profissionais liberais,
No Bairro-Escola, a idéia de bairro vai além dos
principalmente na área educacional (51%) tendo, limites geográficos e administrativos: diz respeito
portanto, um impacto significativo na área às relações de aprendizagem e ao diálogo que se
da educação.
estabelece entre as pessoas e entre pessoas e espaços.
Durante os seis anos que seguiram a criação da Assim, ainda que grande parte das ações ocorra na
ONG, o que se viu foi uma explosão de criatividade Vila Madalena, bairro conhecido por reunir um
no desenvolvimento de programas e projetos. Cada grande número de artistas, intelectuais e universitários
idéia originava uma nova ação que, por sua vez, se de São Paulo, o trabalho do Aprendiz atinge um
transformava em nova parceria, fazendo com que a universo mais amplo, pois se dirige aos problemas
ONG crescesse num ritmo bastante acelerado. O e às potencialidades que o espaço público urbano
atendimento direto passou de 10 jovens em 1997 (o apresenta – espaço público entendido não apenas
grupo pioneiro) para 530 aprendizes em 2003.
como espaço físico, mas como espaço ocupado pela
A Oficina de Sites e o Cem Muros foram mídia2 e por fluxos de comunicação diversos.
projetos1 que contribuíram para o amadurecimento
A organização de incubadoras e cooperativas,
do trabalho e das relações da ONG com a os problemas do transporte público, o desemprego
comunidade, o primeiro no campo da educação pela juvenil e as novas modalidades de trabalho como a
comunicação e o segundo, da arte-intervenção [mais profissão de DJ, o papel do grafite e dos murais
1O
Oficina de Sites teve duração de quatro anos e o projeto Cem Muros durou dois anos e meio
Jürgen Habermas, a esfera pública é o ambiente dentro da vida social onde ocorrem processos
discursivos de formação da opinião e da vontade. Nele, a imprensa é uma importante instituição.
2Para
32
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
na revitalização de áreas deterioradas da cidade,
a veiculação de programas de rádio feitos por
estudantes, o mundo dos blogs e a inclusão social
e digital de idosos são todos temas que fazem parte
do trabalho da ONG pois permeiam a vida e o
espaço público da metrópole.
A agilidade e a flexibilidade para mudanças na
Cidade Escola Aprendiz (ou no Aprendiz, como
também é chamado) tem, assim, relação com o
dinamismo do espaço em constante mudança. Para
acompanhar esse ritmo, o desenho dos programas
evoluiu de uma estrutura composta de núcleos e
programas para a idéia de percursos formativos a
serem trilhados pelos aprendizes.
A idéia desses percursos é fazer com que as crianças
e jovens participem da escolha dos programas como
parte de sua formação pessoal e comunitária.
Por meio de parcerias, a ONG compõe redes de
aprendizagem na comunidade, disponibilizando
programas com os quais os aprendizes trilham uma
trajetória em arte-intervenção urbana, comunicação
e tecnologia. Os percursos pretendem que as
crianças e jovens adquiram:

Alfabetização e fluência digital

Habilidades de expressão e comunicação
oral, escrita e artística

Capacidade de leitura crítica da mídia

Capacidade de transformar informação em
conhecimento

Capacidade para atuar na melhoria de suas
comunidades

Capacidade de re-significar o espaço
urbano

Habilidades e competências requeridas pelo
mundo do trabalho
A integração entre casa, rua, escola,
estabelecimentos comerciais e pessoas da vizinhança
que permeiam o conceito de bairro-escola sempre
esteve presente nos programas e projetos da ONG.
Um exemplo é o Oldnet, projeto em que estudantes
ensinam idosos a navegar na Internet e a buscar, na
web, sua história e seus antepassados. As ações
contribuem para reduzir o isolamento dos idosos,
muito comum nas grandes cidades e promovem
sua inclusão digital. O projeto também desenvolve
solidariedade intergeracional, fazendo com que o
jovem compreenda o mundo do idoso e as questões
que envolvem o processo de envelhecimento, o que
contribui para sua convivência familiar e para a
maior tolerância em suas relações.
Estimular a participação social e a cidadania,
propor o trabalho coletivo em um ambiente de
competição e individualismo exacerbados como a
cidade de São Paulo é um desafio a mais enfrentado
pela ONG. Em cidades menores, o impacto das
ações tende a ser maior. Projetos que ocorrem em
grandes cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro
lidam com um ambiente complexo e uma realidade
mais difícil de ser transformada.
 GESTÃO
Como o próprio nome e o conceito bairro-escola
sugerem, a ONG investe contra a “atual geografia da
educação limitada aos muros da escola”3, alheia ao
que ocorre no bairro e na cidade. Valoriza o encontro
e a troca de idéias, inspirando-se na estrutura de uma
redação de jornal: um ambiente aberto que estimula
os fluxos de comunicação. Alguns projetos e ações,
sempre apoiados sobre o tripé educação, trabalho e
cidadania, nascem de conversas informais no Café
Aprendiz, local de encontro para uma boa refeição
e cybercafé pedagógico cujos recursos gerados
contribuem para a sustentabilidade financeira da
ONG, e na Praça Aprendiz das Letras, revitalizada
pela ONG com murais de mosaico e grafites feitos
pelos aprendizes. Os muitos eventos e festas, as
sessões de cinema ao ar livre, as oficinas de grafite
e as apresentações a visitantes são momentos de
encontro que ampliam o fluxo de comunicação,
favorecendo o desenvolvimento das atividades.
A gestão da Cidade Escola Aprendiz é
relativamente descentralizada. Enquanto as
decisões sobre gestão financeira e parcerias são
tomadas em reuniões deliberativas com um grupo
3 Relatório Cidade Escola Aprendiz 2000/2001
33
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
representativo de cada um dos programas Aprendiz,
formado de 15 pessoas, as questões pedagógicas
são definidas pelas coordenações dos projetos. Foi
criado também um espaço ampliado para a troca de
informações e qualificação da equipe, em reuniões
semanais abertas a todos. Assim, os dois momentos
de encontros e trocas instituídas pela ONG são:
1) Reunião de colegiado e gestão, de caráter
deliberativo e freqüência quinzenal, na qual
decide-se sobre a criação de novos programas,
planejamento, recursos humanos, administração
financeira (desde a captação até a gestão dos
recursos), comunicação institucional, relações
públicas e algumas questões pedagógicas.
2) Reunião pedagógica, de caráter formativo
e freqüência semanal. É um momento de
compartilhar experiências dos diversos programas
e projetos e questões do dia-a-dia, aberto a
todos os educadores da ONG, às escolas e outros
parceiros. Recebe convidados que desenvolvem
experiências ligadas ao Aprendiz ou que possuem
conhecimentos em áreas afins ao trabalho da
ONG. Nessas ocasiões as reuniões são realizadas
na Praça Aprendiz das Letras.
Os coordenadores dos projetos foram assumindo,
cada vez mais, as funções de gestão (orçamento,
captação de recursos, material, questões jurídicas,
contato com os parceiros) além da responsabilidade
pelos aspectos pedagógicos dos projetos (desenho do
projeto, seleção, formação dos educadores, avaliação).
Os projetos estão localizados em endereços
diferentes (quatro casas na Vila Madalena e uma
no Brás), o que faz com que a Internet (email e
site) seja um importante veículo de comunicação da
equipe e entre ONG, parceiros e comunidade.
 SUSTENTABILIDADE
A imagem da constelação de programas e projetos ajuda
a compreender o espírito, a cultura do Aprendiz. Cada
ação gera novas idéias que, por sua vez, encontram um
campo fértil e recursos para serem postas em prática em
função da proximidade do Aprendiz com educadores,
financiadores e comunidade, gerando assim novos
projetos. Cria-se um grande “mosaico” de ações e
projetos nos mais diversos campos: pintura, grafite,
expressão escrita, rádio, incubadora de empresas
juvenis, sempre articulando comunidade e escolas
públicas e particulares.
O espírito empreendedor e uma certa
descentralização da estrutura ajudam a formar
essa cultura interna. A existência de um líder de
grande visibilidade e carisma na mídia, reconhecido
e influente no campo das empresas e da educação,
imprime essa dinâmica possibilitando a ampliação
do trabalho da ONG, que já conta hoje com
mais de cinqüenta parceiros entre pequenos
doadores e uma parcela significativa das grandes
empresas que atuam no país: bancos, empresas de
telecomunicações e informática etc. Portanto, se
comparada à maior parte das ONGs que atuam no
chamado Terceiro Setor, a Cidade Escola Aprendiz
tem certa facilidade na captação de recursos.
Esse fenômeno também se deve à existência
de um grupo de pessoas que, sintonizadas com as
atuais tendências no campo do jornalismo, design,
arquitetura, educação, arte e tecnologia, formam
uma rede em torno dos projetos, agregando valor aos
processos e produtos de comunicação do Aprendiz.
Conhecida dentro e fora do mundo da educação e da
sociedade civil organizada, a ONG mobiliza os mais
diversos atores sociais, entre artistas, empresários e
educadores. Também faz parceria com outros grupos
e veículos de comunicação, como o Canal Futura,
a Revista Educação e a MTV. A proximidade com
a cultura das empresas e a elaboração de produtos
de comunicação atraentes, que sabem transmitir
aos parceiros as mensagens e idéias dos projetos,
aumentam o impacto social das mensagens.
Todavia, o problema da curta duração das
parcerias, que atinge o Terceiro Setor em geral,
também impõe barreiras à continuidade de
34
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
projetos no Aprendiz. Os mundos das empresas e
da educação caminham em ritmos diferentes. Os
processos educativos, de maneira geral, exigem um
período de tempo maior para se obter resultados
consistentes. A etapa da disseminação – que
constitui um dos maiores desafios nos projetos de
Educação, Comunicação & Participação – muitas
vezes tem que enfrentar o problema da renovação
da parceria já que é complicado planejar a fase
de disseminação (seus custos, sua duração) já no
momento da concepção do projeto, antes do
desenvolvimento da metodologia.
As fundações e organismos internacionais, talvez
por sua natureza, demonstram maior entendimento
da exigência de mais tempo para se obter resultados
consistentes em projetos de educação.
Os projetos da Cidade Escola Aprendiz são,
muitas vezes, concebidos em conjunto com os
parceiros. Um exemplo é o Rádio Ativo, uma
parceria entre a Fundação BankBoston e a Rádio
89FM. Nela, os parceiros criaram, em conjunto,
o projeto e o planejamento pedagógico. A Rádio
89FM “entra” com a estrutura e o apoio de
funcionários responsáveis pela trajetória dos jovens.
Com duração de um ano, o Rádio Ativo tem uma
característica comum aos projetos voltados à mídia
de massa: o atendimento direto é numericamente
reduzido, mas o público indiretamente atingido, que
recebe o impacto das ações, é bastante numeroso:
um programa na 89FM pode chegar a ser ouvido
por um milhão de pessoas.
A Agência.Aprendiz é um núcleo fundamental
na gestão e sustentabilidade da ONG. Formado por
três funcionários, um estagiário e dez voluntários
(dados de 2003), é responsável pela comunicação da
Cidade Escola Aprendiz, produzindo informativos
para a equipe e os parceiros da organização. A
Agência organiza eventos que reúnem a comunidade
e os parceiros, além de desenvolver produtos que
aumentam a visibilidade do trabalho educativo.
A ONG também desenvolve parcerias com
o setor público. O projeto Eu escrevo alguém
responde foi uma oportunidade de parceria com
a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo,
dirigida a adolescentes em liberdade assistida.
As atividades consistiram em trocas de cartas
entre amigos, famílias e envio de cartas para
autoridades públicas sobre questões que os jovens
consideravam importantes.
Os projetos de atendimento direto demandam
uma equipe multidisciplinar – o que em geral é
mais oneroso. O Histórias de Vida, por exemplo,
que atende diretamente 30 jovens, conta com
coordenador, uma psicóloga, professores de
Língua Portuguesa e História, um webmaster e um
webdesigner, uma antropóloga, além de monitores
que são, em geral, ex-aprendizes.
 PARCERIA COM A ESCOLA
A mudança curricular, especialmente em escolas
das redes públicas de ensino, constitui um dos
maiores desafios enfrentados pelas ONGs que
fazem parte deste Relatório. A disseminação
do projeto Expressões Digitais, por exemplo,
enfrentou barreiras tais como a rotatividade de
professores, coordenadores e diretores das escolas
envolvidas, a falta de tempo para o trabalho coletivo
dos professores no planejamento e avaliação das
atividades, a dificuldade de trabalhar metodologias
mais participativas, diferentes da aula tradicional à
qual o professor está habituado, bem como barreiras
para o uso da sala de informática.
A parceria com a Escola Estadual Prof.
Antonio Alves Cruz, na Zona Oeste de São Paulo,
enfrentou todos estes problemas. Ainda assim, a
experiência vem mostrando que a inserção de
programas de educação e comunicação em meio
escolar, ainda que enfrentem diversos desafios
para transformar a escola de maneira mais
orgânica, trazem mudanças positivas em certas
dinâmicas escolares. A atuação do Aprendiz e
do Projeto Fênix, duas ONGs que desenvolvem
projetos no Alves Cruz, contribuiu para impedir
seu fechamento e provocou um aumento da
35
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
procura de vagas por alunos de várias partes da
cidade, o que rendeu, à Cidade Escola Aprendiz,
uma menção honrosa no Prêmio Itaú-Unicef
2003 e fez com que a Associação Fênix fosse uma
das vencedoras deste mesmo Prêmio.
Outra questão importante, visto que a ONG
atende grupos formados por alunos de várias
escolas – cada projeto recebe cerca de três ou
quatro alunos de cada escola –, é como capacitar e
motivar os aprendizes para replicar a metodologia
do projeto em suas escolas frente a todas essas
barreiras da estrutura escolar: faltas freqüentes
de professores, sobrecarga de trabalho, pouco
tempo de planejamento na escola, dificuldades dos
alunos de se organizarem para superar problemas
de infra-estrutura e para mobilizar a comunidade
escolar. O Inconformáticas, iniciativa de alunos
da Escola Estadual Godofredo Furtado que
participaram da Oficina de Sites e decidiram,
a partir da experiência, desenvolver um projeto
educativo voltado a seus colegas e a professores
da escola é um exemplo de superação destas
dificuldades. O projeto liderado pelos jovens
viabilizou a abertura da sala de informática que
permanecia fechada até aquele momento. Os
alunos, como apoio das coordenadoras da Oficina
de Sites, organizaram oficinas na escola entre os
anos de 2000 e 2001, cujo objetivo era estimular o
debate sobre os problemas do sistema de ensino e
sobre como inserir práticas pedagógicas inovadoras
na escola. A aprendizagem do computador seria
um coadjuvante neste processo. Segundo dados
publicados em um site feito pelos alunos (www.i
nconformatica.cjb.net), os jovens desenvolveram
competências importantes como o trabalho em
equipe, a condução de dinâmicas participativas
e a avaliação das atividades. Foram produzidos
fanzines sobre temas como as novidades na escola,
política, música e sexualidade. Após cerca de
dois anos de atividades, o projeto acabou, com a
formatura dos “inconformáticos” e mudança na
direção da escola.
É importante também lançar um olhar sobre
as escolas que vêm obtendo bons resultados com
projetos de educação e comunicação. Como
observamos em outras experiências presentes neste
Relatório, o sucesso de um projeto está fortemente
ligado às condições de funcionamento da escola
e da rede de ensino. Na Escola Estadual Pedro
Alexandrino, Zona Norte de São Paulo, o projeto
Expressões Digitais vem colhendo resultados
significativos. Ao contrário do que ocorre em
muitas escolas públicas, esta conta com uma equipe
estável com baixa rotatividade. Grande parte dos
alunos mora nas imediações e o projeto conta com o
apoio da diretora da escola.
A Cidade Escola Aprendiz trabalha grande
parte do tempo no ambiente externo à escola,
trazendo os atores – adolescentes, professores
– para a formação no espaço da ONG, o que
ajuda a preservar a proposta original e a estrutura
do projeto, mas dificulta a integração das ações à
grade curricular. Com o objetivo de buscar maior
sinergia com a escola, a ONG criou o projeto
Histórias de Vida. Nele há um esforço por maior
integração à cultura escolar, com a adaptação da
metodologia desenvolvida pela Oficina de Sites
para possibilitar a incorporação das ações por
professores da rede de ensino. Os jovens já não
fazem mais websites para outras ONGs, mas
estão construindo um portal no qual suas próprias
experiências vão ser tratadas no contexto de seu
bairro, cidade, país. Estudam a sua história de vida
junto com a história do mundo, aproximando-se
do currículo escolar.
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
Há um alinhamento conceitual em relação às
diretrizes pedagógicas que norteiam o trabalho da
Cidade Escola Aprendiz, tais como o conceito de
bairro-escola, os percursos formativos, os quatro
pilares da educação4, o trabalho por projetos, a
pesquisa a partir de situações-problema ligadas à
vida dos aprendizes, a organização do espaço em sub-
4cf
UNESCO, Relatório Delors, 1999. A partir do relatório, os processos de avaliação instituídos na
ONG levam em conta o desenvolvimento de aprendizes em relação a: aprender a ser, a conviver,
a fazer e a conhecer.
36
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
grupos de aprendizes, a importância pedagógica da
roda5 no início ou no final de cada trabalho e o papel
do educador como mediador da aprendizagem.
Mas a condução das atividades ocorre de
maneira descentralizada, com certa autonomia
dos coordenadores, sendo a livre expressão e a
experimentação traços marcantes no funcionamento
da ONG. Valoriza-se a diversidade de referências
do grupo multidisciplinar. Os educadores trazem sua
própria “bagagem” cultural, que é ampliada por meio
das atividades de formação que ocorrem na ONG,
especialmente nas reuniões pedagógicas de caráter
formativo [ver item “Gestão” deste Relatório].
A mediação de todos os processos é feita pelo
chamado “caldo de cultura”, formado por um grupo
multidisciplinar de educadores, designers, artistas,
jornalistas e voluntários, além de infra-estrutura,
materiais, visitas a exposições, museus e cinemas
para ampliar o repertório cultural e estético dos
jovens. A organização do espaço – outro fator
importante na mediação da aprendizagem – é bem
diferente da sala de aula tradicional. O trabalho dos
jovens, reunidos ao redor de mesas e computadores,
é acompanhado por educadores que circulam entre
os grupos. Conteúdos programados e temas que
emergem na criação dos produtos de comunicação
são igualmente explorados pelos educadores. A
ampliação do leque de referências culturais favorece
a elaboração de produtos mais interessantes, bonitos,
com profundidade e adequação de conteúdos
ao “cliente”.
A experiência de quatro anos (1999 a 2002) da
Oficina de Sites, um dos principais programas da
ONG em Educação, Comunicação & Participação,
gerou aprendizagens importantes lançou luz sobre
os desafios de aprimorar projetos para sua inserção
também em ambiente escolar. Inicialmente chamado
de Design Social – que, mais tarde se tornaria um
dos núcleos do Aprendiz incorporando outros
projetos –, sua proposta era colocar estudantes
de escolas públicas e particulares em contato com
outras ONGs e desafiá-los a construir websites
4Ao invés da disposição enfileirada da sala de aula tradicional, em que todos olham para o
professor, o Aprendiz adota, em seus projetos, a roda, em que todos se olham, nos momentos
de discussão de temas ou para iniciar e finalizar uma atividade.
para essas instituições. Uma tribo Xavante, uma
associação de catadores de lixo e uma organização
do movimento negro, a Fala Preta, foram alguns dos
“clientes” beneficiados pela Oficina de Sites.
O
Aprendiz
estimula
o
tratamento
interdisciplinar e contextualizado de temas,
aproximando-se das recomendações dos novos
Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino
Médio (PCNEMs). Todavia, é fácil perceber que
os sistemas de avaliação centralizados (Enem,
Saeb, Saresp em São Paulo, além do vestibular),
bem como as avaliações escolares que adotam uma
estrutura disciplinar rígida, retiram grande parte
da liberdade para que professores e alunos da rede
implementem ações nesses moldes.
A necessidade de contemplar conteúdos do
vestibular ainda é considerada uma barreira
para o desenvolvimento de novas metodologias
de ensino-aprendizagem, mesmo nas escolas
particulares. (Coordenadora do Expressões Digitais)
Os educadores do Aprendiz reforçam que a
ausência de nota é um fator importante para o
sucesso dos projetos, pois favorece a auto-avaliação,
para a qual o produto é um indicador. Não se faz algo
para o professor, mas para o grupo, a coletividade.
Grande parte das ações da ONG é voltada à
comunidade, ao bairro, às relações com o espaço
urbano. Mas há projetos desenhados com o intuito
de se integrar à escola, como o Expressões Digitais.
Este projeto procura promover uma mudança no
currículo, já que foi concebido com a idéia de integrar
a grade curricular na disciplina Língua Portuguesa
(embora possa ser conduzido por professores de
outras disciplinas). Por meio da leitura de revistas e de
outros materiais, o jovem pode se familiarizar com o
mundo do jornalismo de modo a ter uma visão crítica
sobre os conteúdos da mídia. A metodologia apóiase na produção de textos e no domínio da técnica de
construção de fanzines. O produto de comunicação
contendo uma análise crítica das principais revistas
37
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
do mercado circula pela escola e sensibiliza outros
atores para a importância de processos como este.
O programa favorece a autonomia do aprendiz em
sua relação com o saber, pois estimula o jovem a
ir atrás do conhecimento no livro, nas pesquisas
em Internet, nos contatos com jornalistas etc.
Os aprendizes participam de todas as etapas, da
criação do fanzine até a busca de patrocínio para sua
impressão e distribuição.
A gente vai atrás do conhecimento, (...) vai
buscar no dicionário, vai ver a gramática, vai
ligar pra jornalista, vai abrir o site da revista...
(Coordenadora do projeto Expressões Digitais).
Na etapa de disseminação da metodologia está
prevista a formação de professores para trabalhar
o projeto Expressões Digitais nas escolas. Esta
sensibilização vai envolver 15 horas e abordar
conteúdos de informática – edição de texto e internet
– e capacitação para dinâmicas participativas.
A preocupação com a autenticidade das
referências e da linguagem do aprendiz levou os
educadores da ONG a adotar uma nova visão
sobre “erro” e “acerto”. Utiliza-se sempre a idéia de
“adequação” em lugar de “certo” ou “errado” durante
todo o processo de elaboração dos produtos de
comunicação.
Se há envolvimento, você quer que aquele
produto seja comunicado e bem comunicado.
...Portanto a busca não é “do erro ou do acerto”, é
da adequação. ... E, portanto, não tem erro, não
existe erro. Existe um fazer e refazer para ser
mais adequado, para melhorar, para conseguir
um efeito mais interessante ... não tem nota, não
tem a caneta vermelha. (Coordenadora do projeto
Expressões Digitais)
A seleção de aprendizes adota critérios cujo mais
importante é o desejo de participar no programa.
Também se analisa a escrita dos candidatos por
meio de uma redação. Tenta-se obter um grupo
heterogêneo e representatividade de diferentes
etnias e condições sócio-econômicas. Definiu-se,
ainda, que 30% dos aprendizes viriam de escolas
particulares e 70%, de escolas públicas. Os egressos
do programa ficam incumbidos de organizar, no ano
seguinte, a divulgação e o recrutamento de novos
aprendizes nas escolas.
Em relação ao voluntariado, o projeto Rádio Ativo
vem obtendo bons resultados com o envolvimento
de funcionários da rádio 89FM no processo de
formação de aprendizes, que fazem uma espécie
de estágio rotativo pela rádio. Os coordenadores
do projeto consideram importante a alta freqüência
dos jovens, de quatro dias semanais dos quais três
dias são passados na rádio, onde aprendem a fazer
os programas, e um dia ficam na sede do Aprendiz,
em atividades de formação geral como oficinas de
comunicação e auto-conhecimento.
O conteúdos das oficinas consistem de temas
já programados (mundo da comunicação, jornal
impresso, jargões do jornalismo) e temas que vão
surgindo no processo (o que é Lei Rouanet, o que
é crédito educativo etc.). Trabalha-se também a
questão da inclusão social, já que o projeto é aberto
a portadores de deficiências. Entre os participantes
há um portador de deficiência visual e uma jovem
em cadeira de rodas.
A equipe do projeto Rádio.Ativo considera
fundamental o esforço de comunicação para o
envolvimento dos funcionários-voluntários com
os objetivos do projeto. Esta comunicação, além
de motivar os participantes e informar sobre alguns
resultados, deve levar em conta o choque cultural
entre profissionais e aprendizes. Estes últimos, por
serem em geral jovens de baixa renda, possuem
um perfil diverso dos estagiários universitários que
costumam circular pelas empresas.
O voluntariado está presente em outros projetos
da ONG e a figura da coordenadora de voluntários
é fundamental para garantir a eficácia e a qualidade
do trabalho.
38
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
O Café.Digital é um programa apoiado pelo
UNICEF no qual professores e alunos de escolas
parceiras passam por uma formação, no espaço
do Café Aprendiz, para usar a Internet como
instrumento de pesquisa e criar blogs na rede. A
idéia inicial era que os garçons fossem estudantes
que iriam dar suporte e orientação às pesquisas em
Internet, num ambiente não-formal de educação.
Todavia o desenho original trouxe dificuldades,
pois os garçons não davam conta de, ao mesmo
tempo, atender as mesas e trabalhar em pesquisa.
A partir de 2002, os garçons passaram a atender
exclusivamente o Café e um monitor-web se
ocupava de atender alunos e professores e de criar
situações pedagógicas naquele espaço. Como
mencionamos, o Café intensificou a comunicação
dentro e fora da ONG, possibilitando maior
proximidade nas relações e oportunidade de
encontro e troca, o que leva a refletir sobre as
barreiras à comunicação impostas pela organização
do espaço escolar, onde há uma separação entre
espaço dos alunos e espaço dos professores/
administração, dificultando o diálogo.
Por fim, o programa Oldnet também é uma
ação que procura responder a desafios impostos
pelo espaço urbano, em sintonia com o conceito
de bairro-escola. O projeto, que teve início no
lar de idosos Golda Meir, propicia o encontro de
gerações: os idosos, que vão aprender a navegar na
internet e construir sua página pessoal no Museu
da Pessoa (www.museudapessoa.net) e os jovens,
que serão seus monitores neste processo. Além da
inclusão digital de idosos – população que sofre um
isolamento ainda maior que a maioria da população
nas grades cidades –, o projeto faz com que o jovem
experimente a condição de educador e conduza o
processo educativo, do planejamento à avaliação das
ações, o que é importante para a relação do jovem
com seus professores na escola.
O projeto também ocorre em outros lares
de idosos, além de escolas e no próprio
Café.Aprendiz. A alta procura de idosos pelo
projeto (a lista de espera conta com cerca de 50
pessoas) fez com que o Aprendiz aumentasse a
oferta de capacitação para jovens monitores. O
interesse da mídia em divulgar o projeto aumentou
ainda mais a procura. Um dos desafios é criar
mecanismos em que cada jovem possa atender
mais de um idoso, média atual. Os resultados têm
sido extremamente positivos, com uma presença
assídua de idosos. Instituições de diversas partes
do Brasil vêm tentando implementar o projeto,
o que sinaliza a possibilidade de formação
de uma rede de capacitação e disseminação
dessa metodologia.
 PARTICIPAÇÃO
As regras de convivência nos projetos são
estabelecidas em conjunto por educadores e
aprendizes. Quantas faltas serão aceitas, a proibição
de comer e usar o computador ao mesmo tempo são
exemplos de regras, mas cada projeto ou grupo tem
liberdade para “fazer os seus combinados”.
Muitas vezes as regras são colocadas por escrito
e os aprendizes são estimulados a cobrar seu
cumprimento, sempre de forma democrática e
tentando trazer para o grupo as questões polêmicas.
Há uma preocupação em qualificar a participação
do adolescente, o que pode ser observado, por
exemplo, no Rádio Ativo. Os meninos passam por
uma capacitação durante quatro meses e, só então,
partem para a criação e realização de seu programa
de rádio.
Ao contrário de algumas das organizações
presentes neste Relatório, nas quais a participação
política e a autonomia do jovem é prioritária em
relação aos demais aspectos do projeto, o Aprendiz
parece dar ênfase à ampliação do repertório
cultural dos adolescentes, ao desenvolvimento
de uma visão crítica acerca do mundo e dos
conteúdos da mídia e à trabalhabilidade. Os
produtos de comunicação são bastante atraentes
e criativos, o que aumenta o impacto sobre os
receptores das mensagens.
39
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
 RELAÇÕES
A informalidade nas relações cotidianas, o espaço
aberto à circulação de todos (equipe, parceiros,
professores e aprendizes) favorecem o encontro,
o diálogo, a troca de idéias. Os espaços do
projeto propiciam relações mais horizontais e
formas espontâneas de diálogo e qualificação
permanentes.
Um dos problemas enfrentados pela Cidade
Escola Aprendiz e por quase todas as ONGs que
fazem parte deste Relatório, reside na dificuldade de
emancipação dos aprendizes, para que trilhem seu
caminho após a experiência no projeto. O Aprendiz
desenvolve um leque de atividades, o que acaba
fazendo com que o adolescente egresso procure se
integrar a outras atividades nos vários programas e
projetos de arte, comunicação e novas tecnologias.
Alguns poucos conseguem se incorporar à equipe
da ONG, trabalhando no site, na administração ou
em algum dos programas.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
A ONG não adota um sistema integrado de
registro, avaliação e sistematização e podemos
dizer que alguns projetos encontram-se em
estágio avançado de disseminação enquanto
outros ainda estão em fase inicial de registro
e sistematização.
Fruto de uma parceria com a UNESCO, está em
curso a sistematização dos projetos Incubadora,
Histórias de Vida, Oficina de Sites, Expressões
Digitais/Eu escrevo alguém responde, Oldnet e
Rádio Escola/Rádio Ativo.
Assim como ocorre no Terceiro Setor de forma
geral, também se coloca ao Aprendiz o desafio
de obter financiamento para todas as fases do
desenvolvimento dos programas – não apenas
para a concepção e execução, mas também para
a sistematização e disseminação. Como vimos,
é comum que esta última fase fique aguardando
uma renovação da parceria ou a busca de um novo
parceiro. O programa Expressões Digitais, por
exemplo, que está sendo disseminado para dez
escolas por meio de uma parceria firmada no final
de 2003 com a Secretaria de Estado da Educação de
São Paulo, levou cerca de um ano para viabilizar esta
fase de disseminação.
O Manual do Expressões Digitais sistematiza
a experiência que vem ocorrendo desde 1999 com
a participação de estudantes de escolas públicas e
particulares. O objetivo do programa é desenvolver
um método de ensino-aprendizagem em Língua
Portuguesa para ser aplicado nas escolas, que
permita um novo relacionamento entre professor
e aluno, além de estimular um interesse mais
autêntico do aprendiz pelo conhecimento. O
Manual consiste em um roteiro de ações para
professores e alunos interessados em trabalhar com
a leitura crítica da mídia impressa e a produção
de texto. Ao mesmo tempo em que os jovens
desenvolvem a leitura crítica e a produção de
texto no computador, são incentivados a pesquisar
as dificuldades de língua portuguesa, a acessar a
internet para consultar sites das editoras de revistas
e entrevistar jornalistas.
É possível vislumbrar caminhos alternativos às
escolas/Secretarias de Educação para a disseminação
das metodologias. No projeto Rádio Ativo, por
exemplo, a parceria com um grupo de comunicação
sinaliza a possibilidade de ampliação das ações a
outras cidades nas quais o grupo possui veículos
de comunicação. Neste sentido, o Ministério e as
Secretarias Municipais do Trabalho, os Núcleos de
Tecnologia e Educação (NTEs), o Ministério das
Comunicações e da Cultura também podem ser
considerados parceiros potenciais na articulação
entre ONG, escola e empresa.
 PRODUTOS E RESULTADOS
A Cidade Escola Aprendiz foi criada a partir de
um produto de comunicação, o site Aprendiz. Isto
talvez explique a importância atribuída ao produto
em todos os projetos e ações que foram sendo
40
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
concebidos com o passar do tempo. Ainda que o
processo de aprendizagem venha recebendo cada
vez mais atenção dos educadores, em parte pela
necessidade de viabilizar sua inserção na escola,
os produtos de comunicação – websites, fanzines,
murais, grafite, programa de rádio, reportagens
– são fundamentais no trabalho da ONG. Na
Oficina de Sites, por exemplo, vinte e um sites
foram produzidos entre 1999 e 2002 para ONGs
“clientes” do Aprendiz .
Se eu tenho um produto, é porque muita gente
vai ver este meu produto. Se muita gente vai
ver o meu produto eu quero fazer bem feito. Se
meus pais vão ver, meus amigos vão ver, meus
professores vão ver, meu namorado vai ver. Eu
quero que esteja bem feito, não quero escrever
errado, que depois vão caçoar de mim, não quero
fazer mal feito. Este é um estímulo grande.
(Coordenadora do Rádio Ativo)
O produto também ajuda educadores a conhecer
os educandos e a “captar” aspectos que não ficam
evidentes na avaliação escolar formal. Há relatos
em que se conheceu, por meio do produto,
especificidades do desenvolvimento cognitivo
de participantes com necessidades especiais,
reforçando a idéia de que o portador de deficiência
pode desenvolver-se melhor que a média do grupo
em alguns campos importantes.
A gente tá aprendendo que o deficiente auditivo
se comunica diferente. ... O site dela é diferente, a
linguagem ... ela se comunica diferente com as
mesmas ferramentas. ... A comunicação é mais
rápida. Pra você dar nome às pessoas, você usa
a primeira letra do nome e uma característica.
... o Giovane era o “G” e os caracolzinhos...
(Coordenadora do Histórias de Vida)
A possibilidade efetiva de veicular o produto
de comunicação para um universo mais amplo
aumenta o impacto das mensagens, como ocorre no
programa “Ativando” produzido pelos adolescentes
do Rádio Ativo.
Os adolescentes que participam dos programas
do Aprendiz contam ainda com a Incubadora,
que dá suporte para que desenvolvam um plano
de negócios e se profissionalizem em sua área de
interesse, seja ela “contação de histórias”, música ou
soluções hidráulicas.
É grande a vocação da Cidade Escola Aprendiz
para parcerias que permitem colocar em pauta temas
relevantes para a sociedade, estimulando o debate e
a experimentação em um ambiente urbano saturado
de informação como São Paulo, onde as mensagens
se perdem em meio a um mar de referências.
No final de cada ano, nos eventos que marcam a
conclusão de um projeto, ou ainda nas reuniões
pedagógicas, é comum ver diretores de grandes
empresas, intelectuais, professores e representantes
de movimentos da sociedade civil que assistem
a exposições dos jovens aprendizes, desenham
mosaicos e constroem painéis em espaços púbicos
a partir de “temas geradores” como violência e
juventude ou trocam idéias sobre educação, trabalho
e cidadania.
Mas há desafios de naturezas diversas neste
estágio de consolidação do trabalho da ONG, que
dizem respeito tanto às parcerias com empresas e
fundações como com a rede pública de educação.
Em relação às empresas, ainda que a criação
conjunta de projetos em parceria seja um aspecto
enriquecedor, pois conjuga os mundos da educação e
do trabalho num cenário de desemprego estrutural que
atinge os jovens com mais força, ela também coloca
o desafio de se obter consistência nas metodologias
para sua disseminação – o que exige um período de
tempo mais longo do que ocorre em grande parte
das parcerias. Como já mencionamos, enquanto a
educação envolve um planejamento de longo prazo,
os tempos das empresas são condensados.
Em relação ao mundo da escola – especialmente
da escola pública – para grande parte das ONGs
41
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
presentes neste Relatório, o caminho a ser trilhado
é árduo e envolve várias definições como, por
exemplo, qual será o grau de envolvimento com a
escola. No caso do Aprendiz, frente à dificuldade
de se alcançar um envolvimento mais orgânico
dos projetos na escola, a maior parte das ações se
dirige ao trabalho direto com os aprendizes para
melhorar sua relação com o conhecimento e com a
escola, bem como para qualificar sua participação
social. Este “prazer de aprender”, associado à
visibilidade da ONG e às oportunidades de
trabalho e cultura que ela gera, faz com que os
programas do Aprendiz sejam extremamente
valorizados por alunos das escolas parceiras, que
disputam suas vagas.
A idéia da educação para além dos muros da
escola encampada pelo Aprendiz vem mostrando
seu efeito catalisador e multiplicador, ampliando
os fluxos de comunicação, estimulando ações
coletivas e adensando o tecido social nas áreas da
cidade em que atua. No plano individual, o impacto
da participação nas ações do Aprendiz mostrase decisivo, como no exemplo de uma jovem que
participou do grupo pioneiro na criação da ONG
(anexo). Nas ações coletivas, os exemplos são
muitos, como as ações implementadas por jovens
do programa Aprendiz Comgás, entre elas o cinema
na escola, as hortas comunitárias e os grupos de
contação de histórias. Apresentações teatrais
infantis em praça pública têm, como atores, crianças
do bairro que ao conhecerem a ONG, não quiseram
mais deixar aquele espaço lúdico e criativo. Painéis
de mosaico fazem de muros de São Paulo espaços
onde pessoas comuns podem deixar sua marca e
imprimir uma estética própria, transformando as
ruas da cidade em espaços educativos.
42
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
Dados - Aprendiz
Nome
Associação Cidade Escola Aprendiz
Natureza da
organização
Organização Não-Governamental sem fins lucrativos
Missão
Pesquisar e desenvolver programas educativos que possibilitem o despertar da
comunidade da Vila Madalena para o conhecimento.
Endereço
R. Belmiro Braga, 154. – Vila Madalena. São Paulo – SP.
Telefone
(11) 3819-9225/9226 ou (11) 3813-7719
E-Mail
[email protected]
Site
www.aprendiz.org.br
Responsáveis
Miguel Pereira Neto - Presidente
Gilberto Dimenstein – Diretor Pedagógico
Célia Pecci/ Yael Sandberg – Diretoria Pedagógica
Alexandre Le Voci Sayad – Coordenação de Educação e Comunicação/ editorchefe Site Aprendiz
Cilena Faria – Agência Aprendiz
Infra-estrutura
Quatro casas na Vila Madalena: Uma administrativa
Um atelier para os programas que envolvem de arte-educação
Um laboratório para os programas que envolvem de educação e comunicação
O Café Aprendiz: espaço para networking e captação de recursos
Principais
Programas/Projetos
Aprendiz Comgás, Escola da Rua, Escola na Praça, Site Aprendiz, Histórias de
Vida e Oldnet.
Números de
atendimento
2003: 600 diretos e quase 16.000 indiretos, entre crianças e jovens basicamente.
Equipe/Formação/
Capacitação
Caldo cultural: arquitetos, pedagogos, educomunicadores e artistas plásticos
formam a equipe multidisciplinar do Aprendiz.
Formas de
Contratação
CLT e Contrato de prestação de serviços.
Produtos
Site Aprendiz, produtos oriundos dos grupos da Incubadora Aprendiz, blogs do
História de Vida e intervenções urbanas na cidade de São Paulo.
Orçamento
Por volta de R$ 3,5 milhões/ano.
Principais Parceiros
2003: Comgás, Votorantim, Banco Itaú, Fundação Bradesco, Intel, Microsoft,
Instituto Ayrton Senna, Unicef, Unesco, Fundação BankBoston, Intel e
comerciantes e moradores da Vila Madalena, São Paulo.
43
Educação, Comunicação & Participação
Cidade Escola Aprendiz
Anexo - Cidade Escola Aprendiz
A história de Kátia Gama, 22 anos, se confunde
com a história da Cidade Escola Aprendiz. Ela
participou do primeiro projeto da ONG, quando
ainda cursava o 3o colegial e foi uma dos cinco
alunos de Escolas Estaduais selecionados pelo
Colégio Bandeirantes para escrever para o site
Aprendiz, junto com os alunos da Instituição.
Além de produzirem notas para o site, que tratava
de temas relacionados à educação para a cidadania,
eles tinham aulas de inglês, português, atualidades e
história da arte.
Alguns meses depois, a Unesco ficou conhecendo
o trabalho desenvolvido pela Cidade Escola
Aprendiz e propôs que os aprendizes criassem um
site sobre os cinqüenta anos da Declaração dos
Direitos Humanos. O Grupo aceitou o desafio e
com a ajuda de consultores voluntários produziram
o conteúdo e o design do site. A experiência evoluiu
para o desenvolvimento do Projeto “Design
Social”, uma oficina de criação de sites que existe
até hoje na Cidade Escola Aprendiz.
Kátia trabalhou por três meses na
administração da Cidade Escola Aprendiz e,
em seguida, foi convidada para ser pauteira do
Jornal do Futura, que a partir de uma parceria
com o Aprendiz, pretendia levar alunos do
Projeto para estagiar no canal. Paralelamente,
também através de uma parceria do Aprendiz
com a MTV, ela acompanhava o dia a dia da
equipe de produção musical da emissora e ainda
cursava Publicidade e Propaganda na PUC
São Paulo.
Durante o período em que fazia estágio no Canal
Futura e na MTV, Kátia recebeu uma bolsa estágio
da Nortel, uma empresa de telecomunicações.
Quando resolveu se desligar dos projetos, foi
convidada pela própria empresa que a patrocinava
para trabalhar no Departamento de Marketing,
onde ficou por seis meses. Depois, voltou para
MTV, onde produziu e dirigiu o “Olimpíadas de
Clip”. Teve outras experiências profissionais, mas há
quase dois anos está de volta para a Cidade Escola
Aprendiz onde faz parte da agência.aprendiz que
é o núcleo responsável pela comunicação, criação
de produtos, marketing e relacionamento com
os parceiros.
Fonte: www.aprendiz.org.br, janeiro de 2004 - agência.aprendiz
44
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
Casa
Grande
Fundação Casa
Grande
Eram os narradores que constituíam a maior atração. Ao seu redor se formava o círculo de pessoas mais numeroso e fiel.
(...) Suas palavras vinham de longe e permaneciam flutuando no ar por mais tempo do que as das pessoas comuns.
Elias CANETTI, As vozes de Marrakech: anotações sobre uma viagem, p. 93

HISTÓRIA
“São seis horas na Casa Grande FM.” Que importa
o que ocorre no resto do mundo? Importa muito.
Mas, para os setenta meninos que participam dos
projetos da Fundação Casa Grande, a estética da
chamada aldeia global não se sobrepõe à cultura
do Cariri. Ao contrário, as vozes que chegam a
Nova Olinda pela televisão, rádio, revistas, jornais e
pelos cerca de três mil turistas que passam por lá a
cada mês, ajudam a ampliar o cardápio de estilos e
o repertório de referências culturais e artísticas das
crianças e adolescentes.
Das cinco horas da manhã às dez da noite,
Nova Olinda e arredores podem ouvir programas
de rádio feitos pelos adolescentes como o
“Submarino Amarelo” (programa educativo), o
“Escala de Sol” (Blues), o “Tribo Cidadã”, sobre
educação ambiental, drogas e trabalho, o “Naquele
Tempo” (a era do rádio), além dos programas
de jornalismo, forró, MPB, rock e até música
erudita. Nos primeiros anos do projeto a rádio
funcionava apenas nos finais de semana, com três
auto-falantes localizados em cima da casa. Depois
passou a ser rádio por ondas, transmitida também
durante a semana para Nova Olinda e cinco
municípios vizinhos. “A rádio que educa” presta
serviços à comunidade. Os moradores da zona
rural nem sempre podem ir até a cidade na hora do
Terço da Igreja, mas ouvem a cerimônia pelo rádio
sintonizando a Casa Grande FM.
Conhecer a Fundação Casa Grande nos faz indagar
o que explica que um grupo de jovens do sertão do
Cariri consiga equacionar de forma tão criativa questões
complexas e centrais no mundo contemporâneo, como
o poder da mídia de massa de ditar comportamentos e
estéticas, a dificuldade das culturas locais de sobreviver
a uma cultura global hegemônica e a impotência da
escola frente a esses fenômenos.
A chapada do Araripe era um oásis no meio
do Sertão, um grande entroncamento humano
onde povos e mais povos passaram por aqui e
brigaram por este oásis. Por isso a região do Cariri
é um celeiro cultural no Ceará. (Alemberg Quindins,
Presidente da Fundação Casa Grande)
Esse “celeiro cultural” engloba as cidades de Nova
Olinda, Santana do Cariri, Assaré (cidade natal do
poeta Patativa de Assaré), Crato, Juazeiro do Norte
e Barbália, uma região riquíssima por sua história
natural – no museu paleontológico de Santana do
Cariri há resquícios arqueológicos de dinossauros
encontrados lá.
Localizada em uma região de memórias, lendas,
mitos, fósseis e pinturas rupestres, pode-se dizer
45
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
que a Fundação Casa Grande também passou por
um período “pré-histórico” de gestação quando,
durante dez anos, Alemberg Quindins e Rosiane
Limaverde pesquisaram a música e a geografia da
região e reuniram objetos, lendas e histórias. Ela
nasce com o Memorial do Homem Kariri, que
ocupa a primeira casa construída em Nova Olinda
em 1717 e recuperada em 1992, como relata uma
mãe de dois jovens que participam do projeto:
Outro dia eu ia passando em frente e eu vi
umas pessoas filmando e disse “ih, parece que vão
fazer alguma coisa aí”. Depois eu vi roçando,
queimou os matos da frente aí terminou virando
um museu... Só tinha gente grande, foi feito pra
adultos. Mas os meninos é que foram chegando.
Chegou Miguel, Luciano depois Samara... Aí
eles prestavam atenção em como é que Rosiane e
Alemberg recebiam as pessoas. Aí quando Rosiane
e Alemberg se distanciavam um pouquinho, que
chegavam pessoas, eles iam receber. Quando foi um
dia, Rosiane e Alemberg perceberam eles dando
aula, explicando as coisas. Aí eles foram ficando.
(mãe de jovens e participante de uma cooperativa criada
pelo projeto)
Do interesse espontâneo das crianças pelo museu
se criou a “função” de monitor-mirim, ponto de
partida para todas as atividades de comunicação
que foram sendo criadas à medida que a Escola de
Comunicação da Meninada do Sertão se estruturava.
Com mais de dez anos de atividades, a Casa Grande
vem recebendo a visita de pesquisadores, educadores,
artistas de expressão nacional e turistas em geral, em
um rico processo de intercâmbio artístico e cultural.
Na Fundação a porta de entrada pra se chegar
na comunicação é a Casa Grande [Museu]. Num
machado daquele ou numa pintura rupestre daquela
está o início da Comunicação. Você entra na Casa
Grande e você vai ver as pinturas rupestres, que
podiam ser os jornais de hoje. Você vai pegar os
machados, que são o design gráfico hoje. (Alemberg
Quindins, Presidente da Fundação Casa Grande)
A base do trabalho da Fundação parece estar
na construção da identidade a partir da cultura de
origem, estabelecendo-se uma relação entre passado
e presente, entre as raízes da cultura local e os canais
de comunicação desta cultura com o mundo. Assim,
antes de aprender as técnicas de rádio ou TV,
procura-se entender como era a comunicação na
“pré-história” da região.
Em um mundo cujas fronteiras se dissolvem, a
Casa Grande mostra que as raízes profundas em
uma cultura local, com valores e estética próprios,
são compatíveis com a abertura para o mundo.
Possuir uma forte identidade própria parece ser
justamente aquilo que permite o domínio de
referências e estilos de outras culturas. Assim, há
uma consciência do equívoco que representa a
tentativa de cristalizar determinada cultura, congelála no tempo e valoriza-se as trocas culturais.
Na visão dos adolescentes, a Fundação
Casa Grande possui um papel relevante no
desenvolvimento do Cariri como pólo turístico.
A Escola de Comunicação pode, segundo eles,
contribuir para o desenvolvimento de um mapa
turístico regional com ênfase para a diversidade de
cada município, valorizando sua identidade própria.
A idéia é que, daqui a algum tempo, cada um desses
municípios conte com uma rádio comunitária
oferecendo às pessoas a possibilidade de escolher
entre os diversos estilos musicais, mas que respeite
a vocação e as tradições de cada cidade. Rádio,
vídeo, literatura de cordel, música e teatro: o plano
dos adolescentes é articular essas atividades para
fortalecer a cultura da região.
Admitamos que toda sociedade humana possa
ser considerada um sistema de comunicações; cada
um dos momentos sucessivos de sua existência se
definirá em virtude de dois critérios: a natureza
das técnicas de que se faz uso para a transmissão das
46
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
mensagens e a natureza das formas que asseguram
a diferenciação destas. (...) quanto às técnicas, serão
a voz e a escrita; quanto às formas de diferenciação,
serão as diversas estruturas sociais e mentais ou,
mais restritivamente, políticas e estéticas 1.
 GESTÃO
Enquanto a gestão financeira da organização é
feita pelos diretores da ONG –Alemberg, Rosiane
e uma diretora financeira – os adolescentes se
responsabilizam, coletivamente, pela manutenção
do patrimônio físico e pela definição dos bens a
serem adquiridos: equipamentos, CDs, revistas e
materiais diversos, enfim, tudo o que for necessário
para seu funcionamento.
A liderança exercida pelos adolescentes tem
um papel importante no projeto. Como os líderes
da organização (diretores) moram em uma cidade
vizinha, lideranças entre os adolescentes emergem
quase que espontaneamente e passam a estruturar o
trabalho e o dia-a-dia da Fundação.
 SUSTENTABILIDADE
A Fundação Casa Grande opera com um orçamento
bastante reduzido se compararmos à média dos
projetos que integram este relatório, o que se
explica pelo baixo custo das tecnologias exploradas
e, também, por situar-se em uma pequena cidade,
onde os custos são inferiores aos da metrópole.
Grande parte dos investimentos iniciais no projeto
foram feitos pelos próprios fundadores da Casa
Grande, durante seus primeiros anos de existência.
Embora receba hoje apoio do Governo do Estado
do Ceará, muitas vezes a relação com o poder público
(particularmente o municipal) gerou problemas para
a Casa Grande pois, sendo uma rádio comunitária,
sofria constantes ameaças de fechamento.
A parceria com o Instituto Ayrton Senna criou a
possibilidade de investimentos em infra-estrutura,
especialmente a aquisição de CDs que fizeram
da discoteca da Casa Grande FM a maior e mais
completa da região. Lojas de disco costumam
oferecer seus lançamentos aos adolescentes, para
que veiculem na rádio.
Um importante passo rumo à autonomia dos
projetos em relação aos grandes financiadores foi a
criação da Cooperativa de Pais e Amigos da Casa
Grande (Coopagran). Aproveitando o potencial
turístico intensificado pela visibilidade do projeto,
familiares dos adolescentes passam por uma
formação no Sebrae, criam pousadas domiciliares
e são capacitados a produzir materiais com a
imagem da Casa Grande que podem ser vendidos
aos turistas (camisetas, bolsas, canecas etc.), além
de cuidarem da “bodeguinha”, que serve os lanches
para os meninos e visitantes. As pousadas oferecem
a oportunidade de intercâmbio cultural entre
turistas e as famílias da cidade.
Violeta Arraes possui vínculos estreitos com a Casa
Grande, tanto que o teatro recém-inaugurado pela
ONG leva seu nome. Por ser uma figura de expressão
nacional, vem contribuindo tanto em processos
internos da ONG (é membro de seu Conselho)
como no estabelecimento de canais importantes para
sua sustentabilidade, abrindo portas dentro e fora do
país, como uma espécie de “embaixadora”.
 PARCERIA COM A ESCOLA
Os adolescentes do projeto capacitam alunos das
escolas da cidade em uma iniciação ao cinema
e à música, cujas oficinas ocorrem no Teatro
Violeta Arraes.
A Fundação Casa Grande procura incentivar
o bom desempenho escolar. Para que um
adolescente participe no projeto, é necessário que
ele freqüente a escola e tenha boas notas e bom
comportamento, ainda que não exista uma regra
ou um dispositivo que explique o que se entende
por bom comportamento. Todavia, não são citados
casos em que alguém teve que deixar o projeto por
não atender a esses requisitos. Os adolescentes não
vêm motivo para um menino que freqüenta a Casa
Grande “ir mal” na escola, já que a ONG oferece
espaços para o estudo à tarde e a criança pode
1 Paul ZUMTHOR, A Letra e a Voz, 1993, p. 25
47
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
contar com a ajuda dos mais velhos para resolver os interessadas na proposta. Envolver a criança desde
problemas escolares.
pequena, garantir sua integração antes que ela cresça e
seja “bombardeada” pelos conteúdos da mídia de massa
parece ser um dos aspectos que explicam o sucesso
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
O rádio, carro-chefe entre os meios de comunicação do projeto. E o rádio tem essa qualidade de atrair
da Casa Grande, mostra-se um meio particularmente imediatamente o interesse das crianças menores.
“inclusivo”. É fácil fazer rádio. Se o jornal impresso
Os jovens não negam o impacto da mídia de massa
exige o domínio da escrita2 e a produção de vídeo sobre a sua vida. Se apropriam dela e procuram
envolve um processo complexo e custoso, o rádio, construir espaços de diálogo a partir, por exemplo
por sua simplicidade, favorece a autonomia dos de conteúdos das novelas. Um dos programas
adolescentes em relação aos adultos. A simplicidade da veiculados propôs discutir como os adolescentes
tecnologia permite que a criança opere equipamentos tratam o idoso, discussão que se originou com uma
e apresente programas. Jovens-monitores organizam personagem da novela das oito da Rede Globo, que
oficinas para os meninos menores, que ocorrem tratava mal seus avós.
durante a “Voz do Brasil”, único momento do dia em
Não há seleção para ingressar na Casa Grande,
que a Casa Grande FM fica fora do ar.
que está aberta a qualquer criança da cidade que
O rádio atrai o interesse das crianças. Aprende-se “no queira participar do projeto. Mas os diretores da
ar” e os erros inerentes ao processo de aprendizagem ONG definiram, em conjunto com os jovens,
não ficam registrados, assumindo um peso menor sobre que deve haver um período de adaptação no qual
a auto-estima. O medo de errar não oprime tanto. O se cobra constância e qualidade. É fácil perceber
grande fascínio pelo rádio pode ser explicado, além quais os meninos que se encontram neste período:
deste fator, pelo prazer de “falar” e de criar programas são aqueles que circulam pela Casa Grande sem o
musicais ou jornalísticos para a comunidade sem ter uniforme da Fundação. Para ganhar o uniforme (ou
que, antes, dominar totalmente a técnica. Desde cedo a “farda”, como dizem no Ceará), os meninos recémos adolescentes sentem-se “radialistas profissionais”, chegados precisam demonstrar vontade de aprender
pois fazem sozinhos programas que vão ao ar e têm e preocupação com qualidade, aspectos valorizadas
grande impacto na cidade.
no projeto. A criança que chega pequena, pode passar
Embora apóie-se na oralidade, o rádio ajuda a até dois anos freqüentando a “escolinha”. A partir dos
qualificar a expressão escrita já que as crianças têm 8 ou 9 anos eles já participam de outras atividades
que escrever o roteiro de seu programa. Observa-se e laboratórios da escola de comunicação. Todos têm
que, para construir um roteiro, o adolescente envolve que passar, mais cedo ou mais tarde, pela função de
um grupo maior nas discussões de idéias, o que “recepcionistas do museu”, considerada fundamental
qualifica seu modo de expressão e sua argumentação. para a formação pelos líderes da ONG. Observa-se
Pessoas que visitam o projeto também são que, em geral, os recém chegados apenas executam as
incorporadas nos programas jornalísticos, o que tarefas a eles atribuídas e, só depois de algum tempo,
mostra uma flexibilidade do rádio como veículo passam a demonstrar preocupação com os processos
que capta e reproduz a realidade em seu dinamismo. coletivos, dar idéias, argumentar e se envolver com
Mostra também a abertura dos jovens aos visitantes, os produtos de comunicação. Não há um período de
a busca de integração.
tempo pré-definido entre a entrada no projeto e o
No início, a idéia de Rosiane e Alemberg era recebimento do uniforme e as decisões a esse respeito
direcionar as atividades aos jovens da cidade, mas dependem do desenvolvimento de cada menino e são
percebeu-se que as crianças é que se mostravam mais tomadas coletivamente, por diretores e adolescentes.
2Como
vimos em outros projetos que integram esta pesquisa, na mídia impressa os erros
adquirem uma dimensão significativa. Nas matérias assinadas pelos jovens, fica evidente suas
dificuldades com a língua escrita.
48
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
Se o ingressante já é um adolescente, ele começa
trabalhando como recepcionista do Museu. Se
é ainda criança, o ingresso ocorre pela chamada
“escolinha”, a etapa inicial que dura cerca de dois
anos, na qual a meninada deve conhecer a préhistória e a história da Região do Cariri. Nesta etapa,
a criança vivencia a “contação” de histórias e lendas, os
instrumentos musicais, as músicas e as brincadeiras.
A aprendizagem ocorre coletivamente pelo contato,
a conversa, as atividades em grupo, numa antítese do
que vivemos hoje nas grandes cidades:
Vivemos hoje o advento de mecanismos de
tecnologias para que o homem se isole mais e tenha
tudo em casa. Isso é o que? Cortar a conversa, o
contato humano. Esse contato humano...por exemplo,
ce chega num banco hoje e não existe nenhum
contato humano. ... “Seus problemas, resolva pelo
telefone”. Cê precisa ter o contato humano. Acho que
vai chegar ainda o tempo em que, o que vai fazer
a diferença é a retomada desse contato humano. Eu
tinha um tio que era contador de história. E na
época do Natal ele ia para a Igreja e a cidade inteira
depois da missa ia ouvir as histórias dele...(Alemberg
passo é aprender a tirar notas musicais de latas.
A bandinha de lata faz sucesso por onde passa e
teve participações em shows de artistas como Zeca
Balero e o coreógrafo Ivaldo Bertazzo.
Estudantes de pedagogia da Universidade Federal
de Ceará organizam mensalmente oficinas de rádio,
vídeo e outros temas que sejam considerados relevantes
pelos meninos. Observa-se que, em contraste com
a maior parte dos conteúdos da escola, os saberes
mobilizados no projeto são contextualizados e têm
significado para os educandos. Parte-se sempre da
cultura e geografia da região.
 PARTICIPAÇÃO
A participação dos adolescentes ocorre em todas as
dimensões do projeto. Eles são a voz oficial da Casa
Grande, portanto um visitante que quer conhecer
a ONG não busca informações junto aos diretores,
mas fala diretamente com os meninos.
Como os adolescentes ficam responsáveis
integralmente pelo dia-a-dia da Casa Grande,
percebemos que o conceito de autonomia não se
aplica apenas à participação nos programas e produtos,
mas à própria gestão, aos cuidados com a limpeza e a
Quindins, Presidente da Fundação Casa Grande)
organização do Museu e da Escola de Comunicação
e à formação das crianças menores recém-chegadas
As regras de convivência são flexíveis e estabelecidas ao projeto. Um aspecto interessante desta autonomia
pelos próprios adolescentes. Os jovens ficam no é que não há uma separação entre trabalho manual
projeto durante o período oposto à escola. Cada um e intelectual. Todas as atividades são vistas com o
deles é responsável por um setor. Cada programa de mesmo grau de seriedade e responsabilidade. É uma
rádio é feito integralmente por uma pessoa.
concepção que vai na contra-mão do mundo dos
Há um incentivo para se traçar um projeto de especialistas. Aqui, todos participam em atividades
vida e para os cuidados como a saúde. Não beber e que vão desde um programa de vídeo até a obra de
não fumar são aspectos bastante valorizados pelos construção do teatro.
jovens do projeto, ao contrário do que ocorre com
outros jovens da região, onde o alcoolismo é um
[Na Fundação Casa Grande], desde o chão até
problema grave.
o equipamento mais caro, quem administra um
A música tem importância central entre as
setor (TV, Rádio, Gibiteca etc.), tem que cuidar
referências artísticas da Casa Grande. Há alguns
da limpeza, de tudo, até o equipamento mais caro,
anos foi organizado um “Fest-lata”, festival que
a dar uma entrevista para uma TV, a pessoa tem
reuniu bandinhas de lata da cidade, trazendo
que responder por aquele projeto em tudo. (jovemmuitos adolescentes para o projeto. O primeiro
monitor do projeto)
49
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
Há também uma valorização do “coletivo”, da
coletividade. Nos relatos, é comum o uso, pelos
adolescentes, dos termos “a gente”, “nós”, mas do
que “eu”, “meu”. Na pergunta sobre sugestões e
alertas para outras instituições e pessoas que queiram
desenvolver projetos de Educação, Comunicação &
Participação, uma das sugestões dos adolescentes foi
“trabalhar melhor a coletividade dos jovens (família,
amigos, comunidade)”. Enfatizou-se o fato de que o
jovem que faz rádio se sente responsável por todos
os outros setores. Olha o todo. Trata-se da lógica
oposta à competição empresarial.
Começando aqui o grupo “um”, a parte d’agente
foi colocar os conceitos e alguns alertas que agente
daria a instituições, prefeituras e pessoas que
queiram estimular um trabalho nesta área. E, a
primeira coisa que a gente colocou foi autonomia...
(jovem-monitor do projeto)
Essa parte aqui, como é muito mais pessoal, eu
vou abrir para quem quiser falar também (jovemmonitora do projeto)
Os jovens, não apenas procuram dar voz
aos participantes mais novos, mas também à
Você está plugado na 104,9 (...) meu nome é comunidade, reconhecendo o papel social da
Totonho, eu estou aqui na Casa Grande há oito presença de uma escola de comunicação em uma
anos, e o que me faz estar aqui é a experiência pequena cidade no sertão do Ceará:
e as oportunidades que temos durante toda a
convivência com as outras pessoas (adolescente
Boa tarde amiguinhos e amiguinhas que estão
participante do projeto).
em sintonia com a Casa Grande FM. Agora
estamos com o Programa Submarino Amarelo,
O espírito de coletividade também se observa
com apresentação de Isadora e Suelânia. Quem
nos relatos contrários ao estabelecimento de bolsaquiser participar, é só ligar 540-1333. Ou então
auxílio, quando os adolescentes afirmam que as
mande seu bilhetinho para a Rua Geremias
bolsas deveriam se destinar aos meninos que vêm das
Pereira, 444 (jovem em programa de rádio).
zonas rurais e precisam de recursos para alimentação
e transporte, ou ainda formar um fundo para jovens
É perceptível um sentimento de segurança dos
que quisessem entrar na faculdade e tivessem que jovens em relação ao futuro e às suas escolhas e
mudar de cidade.
planos de vida.
Fica evidente o sentimento de que a Casa Grande
é deles, portanto eles são responsáveis por todos os
Quem faz o futuro também faz o presente,
cuidados. Valoriza-se, neste ponto, os rituais. Um
pois esta nação vai ser um dia da gente. Amanhã
dos marcos é a “Renovação”, em que os adolescentes
somos nós. Casa Grande FM. Casa Grande FM.
em conjunto pintam e limpam a Casa Grande e
realizam uma grande festa, no final do ano.
Em parte, isso se deve à postura de estímulo às
Os adolescentes parecem ter desenvolvido decisões e opiniões próprias dos jovens. Confiauma postura que vai além do envolvimento com se no seu gosto e nas suas opiniões para adquirir
as atividades, de um real comprometimento. Na equipamentos ou CDs e vídeos para a Fundação.
oficina proposta como parte desta pesquisa (ver
documento anexo) , os “veteranos” ajudaram a  RELAÇÕES
estruturar as idéias e a garantir que a dinâmica A aprendizagem a partir do exemplo pauta as
favoreceria a participação de todos os mais de trinta relações internas na ONG. Os adolescentes
meninos presentes.
ressaltam a importância de um líder íntegro e
50
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
cuidadoso, que acaba influenciando, por seu modo
de agir, o comportamento dos meninos:
...ele [Alemberg] é uma pessoa que tem cuidado
no trânsito. E em tudo... ele é o exemplo pra gente.
A gente respeita ele de uma forma tão natural
(jovem-monitor do projeto) .
existe o valor da fala. ... Tem uma coisa que eu tô
dizendo pra você neste ambiente aqui, que se fosse
em outro ambiente, não era a mesma coisa. Então,
essa mágica que a gente chama, lá na casa Grande,
de “encanto”. O encanto é isso. (Alemberg Quindins,
Presidente da Fundação Casa Grande)
Não se pode falar em um potencial de multiplicação
Assim, eu ensino o que sei fazer, ensino pelo exemplo. do projeto em termos quantitativos, em atendimento
O maior passa para o menor. As aprendizagens com direto de um grande número do jovens. Pelo contrário,
pessoas de fora, com os visitantes também são um a existência do projeto se apóia justamente no fato de
componente fortíssimo da filosofia da ONG.
que os adolescentes foram construindo gradativamente
Considera-se que houve uma mudança de cultura os projetos e ações e aqueles jovens que permaneceram
para que os pais dos adolescentes aceitassem que os no projeto acabaram se tornando monitores.
filhos, ao invés de começar a trabalhar muito cedo
(em atividades de pedreiro, agricultor ou funcionário
Eu fui ajeitando a Casa Grande e a Casa Grande
em pequenas fábricas, as ocupações mais comuns
foi me ajeitando. (jovem-monitor do projeto)
da região) participassem do projeto. O trabalho
da Fundação Casa Grande cria a possibilidade de
Todavia, há um alto potencial de disseminação
romper com a continuidade, com um destino certo das idéias e de aspectos do trabalho desta ONG,
e inexorável de adolescentes moradores do meio extremamente original e criativa. Sua grande visibilidade
rural. O provável servente de pedreiro pensa em ser sinaliza que as ações podem ser bem recebidas em outros
médico. A babá pensa em ser produtora de vídeos. locais de Zona Rural e com cultura local específica.
Um exemplo concreto é o trabalho que Alemberg
Eu digo que a Casa Grande é uma faculdade de vem desenvolvendo em Moçambique. A partir de um
comunicação sem vestibular. Porque a experiência pedido de moçambicanos que visitaram a Fundação
que esses meninos têm dentro desses projetos é Casa Grande, algumas idéias que norteiam o trabalho
muito grande. Pelo número de pessoas que ele estão sendo levadas a este país, que acaba de sair de uma
recebe, que passa informação pra ele, que ele passa guerra civil. Alemberg acredita na importância de se
a informação para essas pessoas. É uma troca de trabalhar as origens e os valores da cultura local como
conhecimento muito grande e enriquece muito. base para um projeto de desenvolvimento.
Todo mundo que passa ensina alguma coisa.
Com o financiamento do Unicef e parceria com
Samuel aprendeu a gostar de blues, aprendeu a algumas prefeituras, os meninos também percorrem
gostar de jazz. E engraçado é que o pai também outros municípios do Ceará realizando oficinas
aprende, o engraçado é que o pai vai na onda... de comunicação com adolescentes. Trezentos e
(Mãe de adolescente e participante da Coopagran)
quarenta adolescentes de diversas cidades foram
atendidos em 2003 em oficinas que ocorrem com
freqüência quinzenal.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
A base da Casa Grande é a tradição oral. Tanto  PRODUTOS E RESULTADOS
que não existe muito material escrito sobre a Casa É difícil transmitir, em um texto técnico, a riqueza
Grande. Mas, se você chega na Casa Grande, dos conteúdos veiculados pela Casa Grande FM,
51
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
pelas reportagens de TV ou ainda pelas revistas
da Editora. Há uma preocupação educativa que
se observa, por exemplo, na revista em quadrinhos
“Todos Contra o Fumo”, que lançou mão de lendas
locais e de uma linguagem lúdica para a campanha
anti-tabagista. Mas há também uma boa dose de
humor nas locuções, nos “jingles” e nas chamadas
da Casa Grande FM.
A Casa Grande já está se estruturando para
mandar programas a outras rádios do Brasil.
Além do rádio, chamam atenção as reportagens
jornalísticas de utilidade pública como um programa
feito sobre a festa de São Sebastião, retratando
a importância desta manifestação religiosa e o
problema do livre acesso de crianças e adolescentes
ao álcool durante as comemorações. A ênfase foi
dada à omissão das autoridades, em um enfoque de
“busca de soluções”. A reportagem acabou gerando
um maior comprometimento de forças locais
importantes (Igreja, comércio, polícia, autoridades
políticas), unindo a comunidade. Materiais da Casa
Grande Editora anexados a esta pesquisa são as
revistas em quadrinhos “Todos Contra o Fumo” e
“Casa Grande Tur”.
A Fundação Casa Grande recebe hoje três
mil visitas por mês, fazendo com que a pequena
cidade de Nova Olinda torne-se um pólo de
desenvolvimento turístico regional. A criação da
Coopagran (ver item “Sustentabilidade”) ocorre no
sentido de incentivar o “turismo social” na região.
Esse processo de envolvimento da família e de
capacitação dos pais é considerado muito importante
pois o desenvolvimento dos adolescentes não é visto
como um processo independente da qualidade das
relações familiares.
As crianças e adolescentes que participam da
Fundação Casa Grande têm índice de repetência zero,
o que leva familiares e professores a reconhecerem
que os processos de aprendizagem no projeto
influenciam positivamente o desempenho escolar.
Os adolescentes também perceberam que foram
melhorando a qualidade de seu repertório musical e
3Cf
cinematográfico e ampliando sua visão de mundo.
Essa abertura para decidir, opinar e a
responsabilidade de cuidar da Casa Grande
influencia, segundo os jovens, as relações familiares,
com amigos, além da própria escola. Fica evidente que
o tipo de aprendizagem na Fundação Casa Grande
contribui para a construção de valores e de um plano
de vida. Sobre a pergunta “Como vc se enxerga daqui
a uns 10 ou 15 anos...”, uma jovem respondeu pelo
seu grupo dizendo que, além de concluir os estudos e
ter uma formação, os meninos gostariam de
ter um ambiente familiar saudável, educar bem
os filhos; teve gente que contou que quer ter um filho
e adotar mais três ... e eles também concordam que,
seja qual for a atividade profissional que eles vão
exercer futuramente, eles querem voltar tudo o que
eles vão estar fazendo aqui pra cidade, aqui pra
região. (jovem-monitora do projeto)
Se há no mundo um sentimento generalizado de
insegurança e de subordinação de valores locais ao
enorme leque de imagens e valores disseminados,
especialmente, pela televisão 3 percebe-se, no
caminho oposto, um sentimento de segurança entre
os jovens da Fundação Casa Grande:
Uma coisa que eu observei, que eu não tinha
observado antes, que quando eles iam falar ‘eu
vou fazer tal coisa, eu vou ser jornalista’. Eles não
falavam ‘se eu for jornalista’. Eles falam ‘quando
eu for jornalista’... (jovem-monitora do projeto)
Meu caminho pelo mundo, eu mesmo faço. Pois
a Bahia já me deu régua e compasso. (...) O que é
essa segurança? É a régua e o compasso que só uma
compreensão antropológica, só uma compreensão
de onde se está pisando, pode dar, né. Essa coisa da
origem. A fonte de onde você vem é uma fonte segura,
é uma fonte que traz esta segurança para a pessoa.
E a base da Casa Grande é esta fonte. (Alemberg
Quindins, Presidente da Fundação Casa Grande)
David HARVEY, Condição pós-moderna, 1992, p. 275.
52
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
Dados - Casa Grande
Nome
Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri
Natureza da
organização
Fundação
Missão
Educar crianças e jovens do sertão através dos programas de Memória, comunicação,
artes e turismo.
Endereço
Av. Geremias Pereira, 444- Nova Olinda/ CE
Telefone
88- 546 1333/ 99661874
E-Mail
[email protected]
Site
Não tem
Responsáveis
Francisco Alemberg de Souza Lima/ Rosiane Limaverde Vilar Mendonça
Infra-estrutura
Museu, Escola de Comunicação e Teatro.
Principais
Programas/Projetos
Memorial do Homem Kariri, Escola de Comunicação da Meninada do Sertão,
Teatro de Violeta Arraes- Engenho de Artes Cênicas e Cooperativa dos Pais e
Amigos da Casa Grande.
Números de
atendimento
70 crianças e jovens
Equipe/Formação/
Capacitação
Diretoria Executiva e voluntários
Produtos
Produtos de comunicação e Produtos turísticos
Orçamento
R$ 8.500,000 (mensal)
Principais Parceiros
Unicef, Instituto Ayrton Senna, Fundação Vitae, BNDES, Sebrae, SESC, Governo
do Estado do Ceará, Universidade Federal do Ceará.
53
Educação, Comunicação & Participação
Fundação Casa Grande
Anexo - Fundação Casa Grande
OFICINA COM OS MENINOS DA ESCOLA
DE COMUNICAÇÃO
Fundação Casa Grande
13 de agosto de 2003
Grupo 1:
Olhando para as atividades da Fundação Casa
Grande – o trabalho em rádio e comunicação
em geral –, que idéias vocês dariam para projetos
implementados em outros cantos do Brasil que
envolvam educação, comunicação e participação?
Grupo 2:
Quais as principais transformações em você
mesmo no trabalho com a Fundação Casa Grande.
Como você se vê daqui a 10 ou 15 anos?
Grupo 3:
Como você enxerga a sua região, a região do
Cariri, daqui a 10 ou 15 anos com o trabalho
da Fundação Casa Grande? (aqui se estimulou
a reflexão sobre o impacto da comunicação e
do turismo na comunidade (famílias, pessoas da
comunidade, região como pólo de turismo).
54
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Cipó
Cipó - Comunicação Interativa
 HISTÓRIA
A data oficial de fundação da Cipó – Comunicação
Interativa é março de 1999. Mas a passagem de
suas principais lideranças nos anos anteriores por
instituições como o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia
e a Fundação Odebrecht e por cursos como o Human
Rights Advocates Training Program, da Columbia
University, em Nova York, pode ser situada como a
fase de constituição das raízes desta organização.
Também foram centrais para o sucesso atual
dos programas da ONG o empreendedorismo
dessas lideranças, que, com formação e repertórios
bastante diversos, investiram energia e, por vezes,
recursos próprios, para que o projeto se estruturasse
e tivesse continuidade.
No Liceu, por exemplo, elas estiveram diretamente
envolvidas na experiência de desenvolvimento de
vídeos com adolescentes e jovens, entre muitas outras.
Da Fundação Odebrecht, a Cipó herdou o repertório
de planejamento estratégico, parte central da chamada
Tecnologia Empresarial Odebrecht, além da rede de
relações constituída durante a construção do GIFE
(Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), ao
longo da década de 90.
Essa rede de relações, notadamente situada no
eixo Rio-São Paulo, é crucial para se compreender a
sustentabilidade, ao menos inicial, mas também atual,
da Cipó – que fica em Salvador, e portanto fora do fluxo
principal de recursos do Terceiro Setor.
Foi em 1998 que se definiu a missão, a visão e o logo
da Cipó – com os tradicionais três macaquinhos, só
que neste caso com olhos, ouvidos e boca bem abertos.
Desde o início, a idéia era “formar uma organização
com foco em educação pela comunicação”, segundo
suas lideranças.
Hoje, mais de cinco anos depois, quando o projeto
começa a disseminar suas metodologias de forma mais
sistemática em escolas públicas, é possível encontrar
na fala de diversas das mais de 70 pessoas que compõe
a equipe (entre funcionários, estagiários e prestadores
de serviço) a afirmação de que a Cipó pretende que a
comunicação tenha um papel mais central na educação,
que suas metodologias sejam inseridas nos currículos.
“A gente quer ser o feijão-com-arroz, não o
chantilly”, diz um dos coordenadores do programa
Escola Interativa, uma das principais ações hoje
de disseminação da metodologia Cipó de educação
pela comunicação em escolas públicas.
O primeiro ano de funcionamento da ONG,
1999, denominado na historia oficial como “Pedra
Fundamental”, contou com três parceiros principais:
UNICEF, Instituto Ayrton Senna e ANDI (Agência
de Notícias dos Direitos da Infância). Os dois
primeiros criaram as condições econômicas para
a estruturação da área essencialmente pedagógica
da organização. A primeira ação neste sentido foi
o desenvolvimento, com 40 adolescentes, do Plano
de Comunicação do MIAC – o Movimento de
Intercâmbio Artístico Cultural pela Cidadania,
que reúne diversas instituições da Bahia com o
propósito de utilizar a arte e a cultura para melhorar
os sistemas públicos de ensino e saúde.
Com a ANDI, a Cipó foi, nesta época, a
55
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
organização parceria da experiência piloto de
funcionamento em rede da metodologia de
clippagem e monitoramento da mídia impressa,
então usada pela agência. A Rede ANDI conta
hoje com mais de dez organizações parceiras e está
em processo de disseminação de sua metodologia
para países da América Latina. A Central Cipó
de Notícias (CCN) mantém até hoje o papel
de fazer experiências e sugerir inovações para o
funcionamento da rede.
Em seus anos iniciais, os programas da Cipó se
dividiam em duas áreas principais:

Educação pela Comunicação

Comunicação Educativa
Hoje essas duas áreas são definidas, mais simplesmente, como:

Educação

Mobilização
Em 2000, chamado ano do “florescimento”,
uma parceria com o site iG, com base em São
Paulo, permitiu o investimento necessário para a
diversificação e o fortalecimento tanto das ações
pedagógicas como de mobilização social. Outros
parceiros também se agregaram e os programas se
multiplicaram. Além da CCN, do Estúdio Cipó
de Multimeios (que trabalha com as linguagens
de Artes Gráficas, Cine/TV/Vídeo, Fotografia e
Webdesign) e do site iGuais, feito por adolescentes
para adolescentes, a organização produziu e
participou de diversos eventos, fez mobilização
social utilizando o teatro (o Cidadão de Papel) e
aprofundou sua relação com o sistema formal de
educação e com a mídia de Salvador.
Em 2001, rompeu-se a chamada “bolha da
internet” ou “da Nasdaq” e o iG, descapitalizado,
encerrou a parceria com a Cipó. A organização
é obrigada a reajustar tamanho, remunerações e
programas – embora as linhas de ação, e a própria
visão e missão, continuem inalteradas. Com menos
recursos, e apesar das dificuldades, a organização dá
a volta por cima, se estruturando e sistematizando
melhor, não só na área administrativa-financeira,
como na pedagógica [ler item específico à frente].
Por outro lado, o projeto da Cipó Produções
vence, ainda em 2001, o Prêmio Empreendedor
Social Ashoka-Mckinsey e recebe recursos para sua
implementação [ler “Sustentabilidade”].
Em 2002 surge o embrião do Núcleo de
Avaliação, Sistematização e Disseminação, que
hoje está presente no fazer de todos os programas.
A consolidação e visibilidade da organização atraem
novos parceiros, que geram novos projetos. Apesar
dos altos e baixos dos recursos destinados a essa área
(2003 é um ano particularmente ruim), a tendência
da organização é continuar crescendo em impacto e
consistência. Hoje a Cipó mantém sete programas,
entre eles encabeçar uma rede nacional, formada por
jovens, de monitoramento das políticas voltadas para
crianças e adolescentes.
 GESTÃO
Como a maioria das instituições jovens que
participam desta pesquisa, a Cipó, com seus cinco
anos de idade, apóia-se fortemente de suas lideranças
pioneiras, que encabeçam não só os planejamentos
estratégicos e os alinhamentos pedagógicos como a
captação de recursos.
Há um processo de fortalecimento institucional
em curso há mais de dois anos, que tende a
distribuir algumas das funções hoje centradas nessas
lideranças para outras instâncias da organização.
A Cipó Produções, por exemplo [ler
“Sustentabilidade”], tem o potencial de repartir
o pesado fardo da captação de recursos. A
incipiente consolidação do Núcleo de Avaliação,
Sistematização e Disseminação
também
institucionaliza saberes e fazeres que antes eram da
responsabilidade de poucas pessoas. A contratação
de uma liderança já representativa na mídia da
cidade pela Central Cipó de Notícias para cuidar de
articulação com a sociedade – e que acaba fazendo
isso não só para a CCN como para toda a ONG
– é um sinal de que a instituição está promovendo o
surgimento de novas forças internas.
56
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Em termos de planejamento, esta organização
se destaca entre as nove visitadas nesta pesquisa,
pela clareza de princípios e de caminhos que
quer trilhar.
O modelo de diretoria e de conselhos é simples
e prático, e segue os ditames da legislação relativa
às associações civis privadas sem fins lucrativos:
Assembléia Geral, Conselho Diretivo, Conselho
Fiscal e Direção Executiva. Esse sistema de conselhos
tem um papel mais consultivo e colaborativo do que
propriamente deliberativo – função mais diretamente
centrada nas lideranças pioneiras.
A organização tem um conjunto de reuniões
semanais, quinzenais e mensais para as diferentes
equipes planejarem seus respectivos trabalhos e a
articulação e sinergia entre eles. No início de cada
ano ocorre o planejamento conjunto de todos os
projetos, consolidado em um documento que reflete
as principais linhas de ação da organização.
 SUSTENTABILIDADE
Situar-se fora do eixo Rio-São Paulo, neste caso,
em Salvador, implica de certa forma estar à margem
do chamado Terceiro Setor – aquele em que a
iniciativa privada investe recursos naquilo que é
público, ou seja, em ações sociais. As oportunidades
de financiamento privado locais são limitadíssimas,
o que impõe quatro alternativas, que vêm sendo
exploradas com bastante sucesso pela Cipó:

Financiamento
de
organizações
internacionais, como UNICEF, Save the
Children e Avina

Financiamento de empresas e fundações
empresariais nacionais do eixo Rio-São
Paulo, como Fundação Abrinq e Vitae

Apoio governamental (que tem vindo mais
na forma de facilitação do que em recursos
financeiros)

Geração de recursos próprios
A Cipó surgiu essencialmente apoiada nos dois
primeiros itens acima. Mas tende, no médio e longo
prazos, a incorporar os maiores projetos às políticas
públicas e a gerar recursos menos “carimbados”
via venda de serviços e produtos. Como ainda
depende bastante do financiamento de parceiros
de grande porte, o final de qualquer parceria tende
a resultar em crises, obrigando os programas a se
reestruturarem e – em último caso – suspenderem
suas atividades.
O destaque para atingir essa maior autonomia
financeira é a Cipó Produções, que oferece serviços
na área de comunicação para outras organizações
não-governamentais da região (e às vezes até de
São Paulo), tendo como principal mão-de-obra
jovens que já participaram de processos educativos,
orientados por profissionais contratados caso a caso.
Foi este projeto que ganhou o 1º lugar no Prêmio
Empreendedor Social Ashoka-Mckinsey, em
novembro de 2001.
Na Rede ANDI, a Cipó é uma das poucas
organizações que conseguem contrapartidas significativas aos recursos captados pela própria ANDI.
A sustentabilidade ganha crescente consistência
dado o impacto cada vez mais freqüente e visível
das ações da ONG, não só em termos pedagógicos
como de comunicação de massas nos meios da
região. A Central Cipó de Notícias, por exemplo,
já realiza cursos em redações da imprensa
de Salvador.
Durante a visita desta pesquisa, Anna Penido teve
uma reunião com o prefeito de Salvador para buscar
a doação de um terreno para que a Cipó possa, no
futuro ter sua sede própria. Hoje, conta com uma
casa (o terceiro imóvel que alugou em sua história),
que, embora tenha 15 cômodos e 500 m², já está
ficando pequena para o movimento de pessoas que
a organização gera.
 PARCERIA COM A ESCOLA
Os problemas enfrentados pela Cipó na relação
com as escolas públicas e com a rede publica de
ensino não diferem dos vividos pelo conjunto dos
projetos analisados nesta pesquisa [ler “Introdução”
deste Relatório].
57
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Embora a organização tenha como proposta
que suas metodologias sejam incorporadas no
próprio projeto político pedagógico das escolas,
seus programas ainda são vistos, frequentemente,
como extra-curriculares ou complementares, tanto
pelos professores envolvidos como pelos gestores
educacionais da rede municipal (parceria principal).
O programa mais voltado para a inserção no
currículo escolar de medodologias que recorrem
à criação de produtos de comunicação é chamado
Escola Interativa. Para facilitar sua inserção
curricular, esse programa é estruturado com foco na
melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem
na área de Códigos e Linguagens – uma das três
áreas do conhecimento definidas pelos Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCNs) do Ministério
da Educação.
Professores e alunos passam por momentos de
formação e elaboram conjuntamente um projeto
educativo, cuja implementação envolve os demais
alunos da escola na construção de um Núcleo
Interativo, que constituem pólos de produção
de peças de comunicação, como jornais, murais,
fanzines, sites e programas de rádio. A produção
articula-se com os conteúdos curriculares e
proporciona o uso qualificado dos laboratórios de
informática. O Núcleo e seus produtos passam a
influir nos conteúdos das aulas e na maneira como
esses conteúdos são aprendidos.
Nas escola visitadas, além da motivação entre os
educadores envolvidos, ficou evidente a incorporação
do conceito de “produto” no fazer pedagógico [leia
item Pedagogia/Metodologia, a seguir]. Ao todo,
o programa Escola Interativa envolve em 2003 15
escolas municipais de ensino fundamental e/ou médio.
Os professores tiveram ajuda de custo do projeto
para participar da capacitação que ocorre na própria
sede da Cipó. Mas a formação contínua em serviço
e o acompanhamento da produção nos Núcleos
Interativos acontece nos horários dedicados às
atividades pedagógicas, complementares ao ensino em
sala de aula, momentos já remunerados pela prefeitura.
 PEDAGOGIA /METODOLOGIA
A Cipó foi e continua sendo uma organização
construída por comunicadores, mais do que por
educadores, embora o conjunto dos profissionais
que atuam na organização tenha um bom tanto dos
dois perfis – e formações bastante diversas. Essa
origem mais na comunicação do que na educação
se reflete nos fundamentos conceituais da prática
pedagógica.
“Nosso trabalho é muito o de construir a casa
e depois desenhar a planta”, diz Anna Penido,
acrescentando: “O que acontece é que a gente
precisa mesmo sofisticar um pouco [o referencial
teórico do trabalho].” Mas isso já está sendo
feito, com a sofisticação inerente à organização,
desde a constituição do Núcleo de Avaliação,
Sistematização e Disseminação, liderado por uma
profissional com forte embasamento teórico.
Embora não tenha relação mais sistemática com
a Universidade, a organização promove discussões
complexas e profundas sobre os conceitos que
fundamentam o seu fazer, isto é, sobre o que é
educação pela comunicação. Utiliza, como parâmetro
pedagógico, os chamados “Quatro Pilares da
Educação do Século 21”, da Unesco. Também
aborda questões como construtivismo e sócioconstrutivismo. É este último que fundamenta a
metodologia usada.
Segundo a coordenadora do Núcleo de Avaliação,
Sistematização e Disseminação, a educação pela
comunicação da Cipó, enquanto fundamentada no
sócio-construtivismo é uma metodologia que:

Enfatiza processos e produtos: os
processos de aprendizagem são dialógicos
e os produtos são artefatos socialmente
relevantes, que servem de mediadores na
construção do conhecimento. Aprende-se
fazendo/produzindo esses artefatos;

Os papéis de educadores e educandos
se transformam ao longo do processo,
não estão pré-definidos, pré-fixados. As
responsabilidades são compartilhadas durante
58
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
todo o processo, mas não são simétricas (i.e.
não são totalmente equivalentes). Educadores
são “mais experientes” e, no início, criam as
condições para que os educandos construam
o conhecimento e, muitas vezes, orientam
diretamente os educandos em ações
conjuntas, mas eles também constroem novos
conhecimentos e se desenvolvem no processo.
Educandos são “novatos”, no início, mas
podem tornar-se educadores mais adiante,
multiplicando o processo em suas escolas
e comunidades. Todos se transformam,
participam e aprendem;

A avaliação da aprendizagem ocorre ao
longo de todo o processo e tem como
finalidade ajudar/promover o desenvolvimento/aprendizagem do educando, dos
educadores e da instituição (pois não dá
para pensar numa avaliação que só veja
o nível individual também). Os erros são
incorporados ao processo de aprendizagem
e servem para orientar ações futuras, tanto
dos educandos, quanto dos educadores
e da instituição. A principal avaliação é
a que se dá no contexto das atividades
de aprendizagem, no fazer cotidiano, no
diálogo entre educadores e jovens;

A colaboração na construção do conhecimento
gera “transformação da participação”,
muito mais do que meramente aquisição
de habilidades e competências individuais.
No início, os educandos são “verdes”, são
novatos no processo e os educadores são
mais experientes. Depois, os educandos vão
participando mais e ficando, eles próprios,
mais experientes, assumindo cada vez mais
responsabilidades na condução das ações, na
produção das peças/produtos/processos de
comunicação e na disseminação dos mesmos.
Resumindo, numa formulação simples (e
comunicativa), a Cipó promove “uma nova maneira
de ensinar em que o educando participa ativamente
da produção de peças de comunicação que, uma vez
disseminadas, geram novos processos de educação
e/ou de mobilização social”. Neste sentido, vale citar
a Visão da organização: “Ser um dos mais eficazes
laboratórios do país em experiências de educação
pela comunicação, constituindo-se em centro de
referência nacional nesta área.”
A ONG trabalha com a dupla de conceitos Processo
e Produto [leia Introdução], que, em sua pedagogia,
devem ter pesos iguais. Os jovens que participam
do processo pedagógico desenvolvem bastante
autonomia, mas os adultos/educadores também
intervêm de forma significativa na construção e
finalização dos produtos de comunicação para
garantir sua qualidade e efetividade como geradores
de novos processos educativos e de mobilização.
Isso acontece essencialmente nos programas que
se desenvolvem dentro da ONG. Na maioria
destes programas, criam-se diversos produtos de
comunicação, com dificuldade crescente, até chegar
ao produto final, em geral lançado em eventos, que
visam sua disseminação.
Nas escolas públicas visitadas, muitas das
professoras envolvidas nos programas demonstravam
ter incorporado a criação de produtos em suas ações
pedagógicas, mesmo as que ocorrem em contextos
outros que não diretamente relacionados ao trabalho
com a Cipó. Uma professora, por exemplo, estava
construindo na aula de geografia uma espécie de Atlas
com seus estudantes.
Dada a capacidade limitada de atendimento
direto, a Cipó prioriza a seleção de adolescentes
que já têm histórico de liderança e repertórios
enriquecidos. Há também a preocupação de formar
grupos cujos participantes apresentem diversidades
étnicas, de gênero e de local de habitação, além de
incluir deficientes. Praticamente todos os jovens são
de famílias de baixa renda.
A preferência por jovens com perfil de
liderança faz com que um dos principais desafios
da disseminação dessa pedagogia/metodologia
desenvolvida na Cipó seja atingir, com os alunos
59
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
das escolas, o mesmo grau de responsabilidade e
autonomia conquistado pelos aprendizes que atuam
dentro da Cipó.
Em geral, o currículo de cada programa é
dividido em conteúdos distintos mas articulados
(linguagem específica da comunicação, leitura e
expressão, comunicação digital etc.), trabalhados
por profissionais especialistas em cada área e
contando com carga horária específica.
parte dos Núcleos Interativos, por exemplo,
leva à constituição de grupos de aprendizes por
vezes mais sociáveis do que pró-ativos. Como em
outras experiências pesquisadas, a faixa etária dos
aprendizes também tem grande influência no nível
de pró-atividade e participação. No geral, quanto
mais jovem a turma, mais imatura e menos próativa ela tende a ser.
 RELAÇÕES
 PARTICIPAÇÃO
Como foi dito acima, a seleção de adolescentes e
jovens pela Cipó tende a priorizar lideranças que
poderão, depois do processo pedagógico, multiplicar,
em suas comunidades, suas aprendizagens e
valores. Assim, a enorme maioria dos aprendizes
entrevistados era de uma notável pró-atividade e
disposição para a participação social.
A própria seleção é participativa: envolve uma
“mobilização boca-a-boca”, por ex-aprendizes
da Cipó, para inscrição de candidatos e, depois,
vivências com pelo menos o dobro do número de
estudantes que serão selecionados, para definição do
grupo final de trabalho.
Destaca-se também a ênfase que a Cipó coloca na
autonomia e participação dos aprendizes, no que se
refere diretamente ao programa em que participam.
O amadurecimento institucional e envelhecimento
dos aprendizes pioneiros também levam a uma
participação maior de jovens (por exemplo, com
a criação de um conselho jovem) no dia-a-dia
da organização.
A forte presença de processos de planejamento
estratégico na ONG é também um facilitador
e instrumento importante para que esses jovens
líderes multiplicadores tenham mais impacto
em suas ações individuais de participação social
transformadora.
Nas escolas envolvidas na Escola Interativa,
a autonomia e participação dos adolescentes e
jovens não é tão acentuada. A opção por dividir
com a escola a seleção dos estudantes que farão
O desafio constante de captação de recursos, muitas
vezes concentrado em poucas lideranças, é um fator
que freqüentemente interfere nas relações internas
das ONGs. Os bons educadores tendem a pensar
em processos, no longo prazo. Quem capta recursos
muitas vezes é obrigado a se adaptar a exigências dos
financiadores, que hoje são mais focados em produtos
e no curto prazo. Por vezes, nem assim, conseguem
os recursos para garantir a continuidade de uma ou
outra ação ou até de uma equipe. E isso tudo acaba
gerando tensões internas.
Esse tipo de desafio também faz parte da história
da Cipó. Mas a organização, de maneira bastante
consistente, tem buscado construir caminhos para
superá-lo. E as ações mais importantes nessa área
são o processo em curso de institucionalização da
organização (leia item Gestão).
No geral, as relações internas e com parceiros é
bastante cordial e colaborativa, inexistindo pontos
significativos de tensão. O sistema de reuniões
pedagógicas e de planejamento, em constante
aprimoramento, está melhorando ainda mais as
relações, ao criar espaços e momentos institucionais
de resolução de conflitos e de construção conjunta
de sentidos e conhecimento.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
Chamou a atenção, na visita para esta pesquisa,
a preocupação do conjunto dos coordenadores de
programas com a sistematização de seus trabalhos,
para sua posterior disseminação. Praticamente
60
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
todos os programas da organização estavam com
esse desafio de sistematização.
Por trás disso há duas linhas determinantes,
ambas bastante associadas. Em primeiro lugar, a
origem da ONG, associada ao “boom” do Terceiro
Setor, na segunda metade da década de 90, fez com
que a Cipó já nascesse com a disposição de pesquisar
metodologias de educação pela comunicação,
sistematiza-las para depois dissemina-las – que é
o discurso predominante hoje nessa área. Isso está
contido nas definições, de 1998, de Missão e Visão.
Em segundo lugar – e para dar consistência a essa
determinação – a organização instituiu recentemente
seu Núcleo de Avaliação, Sistematização e
Disseminação, com uma liderança que vem
agregando muito valor a essa atividade dentro da
organização. O próprio processo de entrada dessa
profissional é interessante, pois pode ser reproduzido
em outras organizações.
No início, o apoio à avaliação e sistematização se
deu como prestação de serviços, em um ou outro
programa. À medida que o trabalho se desenvolvia,
o envolvimento desta profissional na Cipó foi
aumentando, até chegar à dedicação quase exclusiva,
com a constituição do Núcleo. Em 2003, além de
ficar em tempo integral na ONG, já começa ser
ampliada a equipe do Núcleo.
Ou seja, outras ONGs também poderiam, para
instituir processos mais permanentes de avaliação
e sistematização, recorrer à contratação de serviços
esporádicos nessa área. À medida que esse trabalho vai
ganhando consistência e visibilidade na organização,
com publicações, eventos ou capacitações, é
possível aumentar o investimento, até consolidar
um núcleo que atue de maneira transversal nos
programas, garantindo alinhamento, sistematização
e disseminação dos saberes desenvolvidos.
Hoje quando um educador é contratado pela
Cipó, ele já tem à disposição um conjunto de
instrumentos de ação. Esses instrumento, inclusive,
poderiam ser imediatamente disseminados para
outras ONGs e escolas, onde, com raras exceções,
são materiais escassos. Os chamados “Instrumentos
Básicos a Todos os Programas” são:
Para diagnóstico inicial:

Ficha de Inscrição

Questionário Inicial do adolescentes

Roteiro de entrevista com adolescentes
Para avaliação do processo:

Questionário de avaliação do programa

Carta de feedback do educador para o
adolescente

Questionário de auto-avaliação do adolescente

Roteiro de relato narrativo
Para avaliação do resultado:

Questionário de avaliação final do
adolescente

Roteiro de entrevista com adolescentes

Carta de feedback do educador para o
educando

Roteiro de relato narrativo
O documento que apresenta os itens acima
observa, ao final, que “esses instrumentos podem
e devem ser adaptados à realidade/objetivos/
indicadores de cada programa com o apoio do
Núcleo de Sistematização e Disseminação”.
Os indicadores desenvolvidos para avaliar
a formação de adolescentes e jovens também
merecem destaque pela qualidade e extensividade
das questões analisadas (desde postura física, o
cuidado com o corpo, com a saúde e aparência,
até a qualidade da produção de textos e o nível de
criticidade das argumentações e atitudes).
Enfim, a Cipó já tem muito a ensinar a outras
ONGs sobre registro, avaliação e sistematização.
Nesse sentido, os anos de 2002 e 2003 poderiam ser
chamados de anos de consolidação, sistematização
e disseminação.
O programa Escola Interativa, já está em 15
escolas da rede municipal e deve ser tomado como
o germe de uma inserção e de um impacto muito
maiores, no futuro, nas redes públicas de ensino.
Impacto semelhante a este – e com futuro tão
promissor quanto – é o do trabalho que vem sendo
61
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
desenvolvido pela Central Cipó de Notícias com os
meios de comunicação da cidade.
Mas a visão de que o trabalho da ONG deve ser
capaz de disseminar-se para além de seus atendidos
diretos, existente desde a fundação – fez com que
a ONG estivesse sempre, de uma maneira ou
outra, crescentemente presente na vida escolar de
Salvador. O destaque nessa área são as “Coletâneas
Cipó”, que reúnem a cada ano o conjunto dos
produtos finais das oficinas do Estúdio Cipó de
Multimeios, um material riquíssimo, desenvolvido
por adolescentes e jovens, para ser usado nas escolas
pelos professores e jovens multiplicadores.
Essas coletâneas são publicadas com um guia de
“Sugestões para o Educador”, que traz maneiras de
como utilizar em sala de aula os materiais distribuídos
gratuitamente e instrumentos de monitoramento e
avaliação. Os próprios jovens participantes dos
programas funcionam como principal agente de
distribuição desses materiais, utilizando os mesmos
em ações educativas desenvolvidas em suas escolas
e comunidades..
Destaca-se também nessa área a parceria da
Cipó com o MOC (Movimento de Organização
Comunitária, de Feira de Santana, BA, uma
das experiências analisadas nesta pesquisa), de
capacitação no Projeto Comunicação Juvenil (leia
mais na seção relativa ao MOC).
constituindo seu modus operandi básico – o que faz,
com quem faz, como faz. Mas a clareza de definição
de princípios, missão e visão deram em pouco tempo
para a ONG uma consistência em seu trabalho que
é observável tanto no alinhamento do discurso dos
membros da equipe quanto na repercussão que suas
ações têm tido em todo o país.
A crescente visibilidade e impacto (foram 4.650
crianças e jovens atendidos diretamente em 2002), o
profissionalismo com que a atividade de sistematização
é levada e o comprometimento com a disseminação
fazem com que a ONG esteja neste momento
em nítida expansão – sempre com as restrições
orçamentárias inerentes a esse tipo de atividade.
Com tudo isso, as metodologias desenvolvidas na
Cipó têm de fato o potencial de ganhar escala de
política pública.
“Na Cipó, implementamos nosso laboratório
pedagógico, onde concebemos e testamos
diferentes formas de utilização da comunicação
como metodologia e material educativo. Mas é
partilhando esses conhecimentos e produtos com
outras instituições e educadores que nos sentimos
de fato contribuindo com a formação de uma nova
geração de brasileiros, mais consciente, responsável,
solidária e empreendedora, melhor preparada para
conduzir os rumos da sua vida e para enfrentar os
desafios do mundo contemporâneo”, assina a equipe
do Estúdio Cipó de Multimeios, na introdução do
RESULTADOS
E
PRODUTOS
“Guia de Sugestões para o Educador”, da Coletânea

Resumindo mais do que talvez seja recomendável, Multimídia “Cultura da Bahia – Design Popular”,
a Cipó passou seus primeiros anos de vida que foi lançada, inclusive, em São Paulo.
62
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Dados - Cipó
Nome
CIPÓ – Comunicação Interativa
Natureza da
organização
Organização Não Governamental sem Fins Lucrativos
Missão
Criar oportunidades para o pleno desenvolvimento de crianças, jovens e
adolescentes por meio do uso educativo da comunicação.
Endereço
Rua Amazonas, nº 782 - Pituba.
Telefone
(71) 240-4477 Fax: (71) 345-7610
E-Mail
[email protected]
Site
www.cipo.org.br
Responsável
Anna Penido
Casa alugada com aproximadamente 500 m2, sendo: 15 cômodos, 02 varandas e 04
banheiros. Os 15 cômodos estão distribuídos da seguinte forma:
Infra-estrutura
Principais Projetos:
CCN: com 3 computadores;
Laboratório de informática: com 15 computadores (onde funciona o Estúdio de
Webdesign);
Cibersolidário: com 12 computadores;
Comunidade Digital: com 10 computadores
duas salas para educadores: contendo, ao todo, 6 computadores;
um auditório com quarenta cadeiras (removíveis);
uma ilha de edição,
uma sala para a Cipó Produções: com 3 computadores
uma sala onde funcionam o Núcleo Administrativo-Financeiro, o Núcleo
Desenvolvimento e Sustentabilidade e a Direção Executiva: com 4 computadores
e um laptop;
uma sala onde funciona o Núcleo de Avaliação, Sistematização e Disseminação
com dois computadores;
a recepção com um computador;
a sala do memorial e para pequenas reuniões;
a cozinha;
uma pequena biblioteca.
Escola Interativa, Comunidade Digital, Cibersolidário, Estúdio CIPÓ de
Multimeios (Núcleo de Web), Central CIPÓ de Notícias, O Cidadão de Papel,
Currículo Vivo, Vida Inteligente.
63
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Números de
atendimento
Números de Beneficiários
1999
2000
2001
2002
Adolescentes e Jovens Formados
40
580
1.171
4.657
Adolescentes e Jovens Mobilizados
860
8.987
14.100
26.900
Educadores Capacitados
20
46
18
385
Comunicadores Mobilizados
32
134
200
100
Familiares Sensibilizados
0
46
80
141
Equipe/Formação/
Capacitação
03 Funcionários, 37 Estagiários, 38 Prestadores de Serviço.
A equipe é composta por jornalistas, pedagogos, administradores de empresas,
assistentes sociais, designers gráficos, psicólogos, dentre outros. Alguns possuem
especialização, pós-graduação ou mestrado.
Formas de
Contratação
Funcionários de acordo CLT, Estagiários através do CIEE e Prestação de Serviço
Pessoa Jurídica.
Programa Estúdio Cipó de
Multimeios
Projeto O Cidadão de Papel
Produtos
Comunidade Digital
Coletânea Estúdio CIPÓ de Multimeios
(2001),
Coletânea Cultura da Bahia-Design
Popular (2002).
Peça O Cidadão de Papel (desde 2001),
Coletânea O Cidadão de Papel (2003).
Website - Sou de Atitude (desde 2002).
Website Escola com Sabor(desde 2002),
Projeto Escola Interativa
Projeto Cibersolidário
Webfanzines e Programas de Rádio (desde
2000).
Cartilhas de Identidade;
Currículos.
Orçamento
R$ 1.199.992,21 (hum milhão cento e noventa e nove mil novecentos e noventa e
dois reais e vinte e um centavos) em 2002.
Principais Parceiros
Unicef, Vitae, Ministério da Justiça, Instituto Credicard, Instituto C&A,
Programa Crer Para Ver, Rede Andi e Pommar.
64
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Anexo - Cipó
EDUCAÇÃO PELA
PELACOMUNICAÇÃO
COMUNICAÇÃO
E SÓCIO-CONSTRUTIVISMO
E
NA CIPÓ*
SÓCIO-CONSTRUTIVISMO NA CIPÓ*
* Texto de Elsa de Mattos, do Núcleo de Avaliação,
Sistematização e Disseminação da Cipó, produzido
para a pesquisa Educação, Comunicação & Participação
com o intuito de apresentar as bases teóricas que
fundamentam a prática educativa dos programas da
organização. As citações de autores são acrescidas de
informações em notas de rodapé ou na bibliografia ao
final deste anexo.
A afinidade maior da educação pela comunicação
desenvolvida pela Cipó é com o sócioconstrutivismo/construcionismo – uma espécie de
evolução, ou atualização, do construtivismo.
Enquanto o construtivismo entende a construção
do conhecimento como um percurso individual
feito pelo sujeito que conhece (o bebê que já é
um pequeno cientista desde o seu nascimento), o
sócio-construtivismo pensa que o conhecimento é
construído numa relação dialógica, eminentemente
social, no sentido de que é preciso haver interação
entre sujeitos para que o conhecimento ocorra.
As bases do sócio-construtivismo derivam
do construtivismo Piagetiano1 e do sóciointeracionismo de Vigotsky2. No momento em
que passamos da visão do sujeito que constrói
individualmente o seu conhecimento para uma
visão de construção coletiva do conhecimento, aí
temos mais espaço para pensar a educação pela
comunicação.
Embora tenhamos uma enorme simpatia por
Piaget e suas idéias, devemos reconhecer que elas
surgiram no contexto do racionalismo ocidental,
que glorifica a razão e coloca o conhecimento como
uma possessão individual, em termos de assimilação
e acomodação, ou em termos de aquisição de
habilidades ou competências, enquanto processos
intrínsecos ao indivíduo. Atualmente, depois que
as idéias de Vigotsky tornaram-se mais difundidas
no mundo, temos de pensar a construção do
conhecimento a partir do social e não mais
tomando o indivíduo como lócus do conhecimento
(vou voltar a isso mais adiante).
Uma revisão rápida do que aconteceu com o
construtivismo de Piaget nos leva a dois caminhos:
o cognitivismo e o sócio-construtivismo. O
cognitivismo é um movimento eminentemente norteamericano que se intitula “a revolução cognitiva”,
mas que nada tem de realmente revolucionário.
No contexto americano, onde havia um domínio
do behaviorismo clássico (skinneriano3), enquanto
teoria explicativa de como os seres humanos
conhecem/aprendem, talvez o cognitivismo seja
realmente uma “revolução”. Vou explicar porque.
O behaviorismo diz que as pessoas conhecem/
aprendem numa relação direta com o mundo, ou
seja, onde o sujeito é uma caixa vazia que recebe
tudo do ambiente, numa relação entre estímulo e
resposta. Isso tem conseqüências para todas as
ciências e práticas sociais, inclusive e principalmente
para a educação. Então, o cognitivismo chega e diz
assim: o sujeito não é uma caixa vazia, ele constrói
o conhecimento, ele tem uma série de estruturas
cognitivas internas, esquemas de codificação e
sistemas de processamento de informação (Pappert4
gosta dessas metáforas) que ele usa para construir
o conhecimento. Essa visão pode ser considerada
revolucionária tomando como ponto de partida o
behaviorismo clássico (como era o caso nos Estados
1De
Jean Piaget, psicólogo e pedagogo suíço (1896-1980)
Lev Semenovich Vigotsky, psicólogo russo (1896-1934)
Burrhus Frederic Skinner, psicólogo norte-americano (1904 -1990)
4De Seymour Pappert, educador norte-americano do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT)
2De
3De
65
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
Unidos), mas não o construtivismo, porque ela
não diz nada de novo em ralação ao que Piaget já
tinha dito, ela apenas aprofunda a compreensão
sobre os mecanismos internos que o sujeito
utiliza para conhecer. Mas, o conhecimento ainda
continua a ser entendido como uma construção
individual, numa perspectiva da aquisição
de habilidades competências e estruturas de
pensamento, utilizando esquemas de codificação
e processamento de informação.
Bom, então o cognitivismo é um dos
caminhos de atualização do construtivismo e
o outro, é o sócio-construtivismo. Esse último,
parte do sócio-interacionismo de Vigotsky que,
resumindo, diz o seguinte: o sujeito conhece,
tudo bem, mas antes do sujeito estão as
relações sociais, o sujeito para conhecer precisa
interagir com outros sujeitos (por isso o nome
é sócio-interacionismo). Essa visão, é mais
“revolucionária” do que o cognitivismo, porque
ela rompe com a idéia de um sujeito individual
que conhece o que quer que seja. Essa linha
de pensamento retira do indivíduo o lócus do
conhecimento, pois o conhecimento não é mais
visto como uma aquisição individual, mas está
situado no âmbito da relação dialógica entre
sujeitos. Ao invés de tomar o sujeito individual
como unidade de análise, Vigotsky tomava a
“atividade”, a ação interpessoal. Curioso é que
Vigotsky e seus seguidores (principalmente
Luria e Leontiev) começaram a estudar a
linguagem humana para ter essa sacada.
Ele usava o termo “ferramenta socialmente
construída” para se referir à linguagem humana
e achava que a linguagem era um artefato
sócio-histórico que mediava a construção do
conhecimento. Ele começou, portanto, a estudar
a comunicação humana para entender isso.
A partir daí, a construção do conhecimento
pode ser entendida como essencialmente
dialógica, relacional, ao invés de simplesmente
cognitiva, intrínseca ao sujeito. Além
disso, ela implica uma série de outros fatores
(emocionais, morais, estéticos, lingüísticos),
além dos cognitivos. Mas essa perspectiva sócioconstrutivista, entretanto, não perde de vista
o indivíduo, ela apenas traz à tona o social no
processo de construção do conhecimento. Uma
das metáforas mais interessantes utilizadas pelos
sócio-construtivistas para falar do conhecimento
diz que conhecer é “participar” de relações sociais
(Gergen, 1994). Essa concepção torna ultrapassada
a noção de conhecimento enquanto “aquisição” de
habilidades ou capacidades (que representam uma
visão exclusivamente do plano individual). Ela fala
de “transformação na participação”, envolvendo
tanto os indivíduos, quanto seus parceiros nas
atividades/ações que desenvolvem (essa visão é
mais ampla, pois não considera somente o plano
individual). O conhecimento é produto, não da ação
individual, mas da ação conjunta (joint-action),
intersubjetiva, mediada por artefatos (Rogoff,
1998). Isso tem conseqüências para a educação,
onde se fala, por exemplo, no desenvolvimento de
comunidades de aprendizagem, inteligência coletiva
etc. (essas são as metáforas mais comuns).
A educação pela comunicação pode ser
entendida, a partir dessa perspectiva, como uma
metodologia de ensino-aprendizagem que parte
da teoria sócio-construtivista de construção
do conhecimento e pressupõe a participação
ativa (dos sujeitos envolvidos) na produção de
peças/produtos/processos
de comunicação.
Essa participação se dá numa ação conjunta
(joint-action) com outros indivíduos, onde
existe o tempo todo a produção de artefatos
(peças/produtos/processos
de
comunicação)
que são socialmente relevantes e que servem de
mediadores à construção do conhecimento (pois a
aprendizagem se dá pelo fazer). Portanto, o sujeito
produz conhecimento (aprende) numa interação
dialógica, comunicacional, entre indivíduos,
produzindo esses artefatos. Essa não é uma forma
de participação qualquer, é uma participação bem
66
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
específica, mas que tem um grande potencial de
amplificação da participação pela própria natureza
da comunicação nos dias atuais. Por isso, na
Cipó, temos um complemento a essa definição
básica, quando dizemos que as peças/produtos/
processos de comunicação produzidos, uma
vez disseminados, geram novos processos de
educação e mobilização social. Porque a própria
natureza da comunicação nos dá essa possibilidade
de amplificação dos processos e, além disso,
a instituição da qual fazemos parte tem um
fim social.
Isso tudo é uma digressão epistemológica, creio,
para situar a educação pela comunicação no universo
das teorias do desenvolvimento e da aprendizagem.
Porque ela se propõe a ser uma metodologia
de ensino-aprendizagem, então tem que estar
respaldada numa teoria do desenvolvimento/
aprendizagem (não pode estar somente respaldada
numa teoria da comunicação). Mas ainda é preciso
falar da questão da metodologia propriamente dita.
O que toda essa história de conhecimento enquanto
relação dialógica, enquanto interação, participação
em ação conjunta, tem a ver com essa metodologia
de ensino-aprendizagem que é a educação pela
comunicação? Ou seja, como a educação pela
comunicação promove a aprendizagem?
Paulo Freire chamava de “educação bancária”
as metodologias tradicionais que partem de
concepções mais rígidas de aprendizagem. O sujeito
que aprende é visto como uma caixa vazia, onde o
professor vai colocar os pedaços de informação
dentro. Como diz Paulo Freire, essa forma de
ensinar é igual a uma conta bancária na qual vai
se depositando dinheiro. Aqui, os papéis estão prédefinidos, temos o educando passivo de um lado
e o educador ativo de outro. Essa metodologia de
ensino-aprendizagem pressupõe que a atividade
está do lado do educador, do lado exterior ao sujeito,
no “ambiente”. É uma concepção behaviorista:
os educadores são responsáveis por preencher
os educandos com conhecimento e informação,
enquanto o educando é um receptor passivo. Com
o construtivismo, essa relação se inverte. O aluno
passa a ser visto como pólo ativo, é o sujeito que
constrói o conhecimento, é ele quem “aprende”.
Piaget dá muita ênfase aos processos que ocorrem
no âmbito “interno” do sujeito, sobretudo processos
cognitivos, processos intrínsecos de assimilação e
acomodação do conhecimento., são facilitadores,
são mediadores. O educador é entendido como
facilitador da aprendizagem, alguém que “ajuda”,
que “criam as condições necessárias para a
aprendizagem”, mas quem constrói o conhecimento
é o educando. Entretanto, de certa forma, assim
os papéis ficam pré-definidos também. Quem
aprende á o aluno, o professor é o facilitador.
Mas isso é pouco, porque, na verdade, os adultos,
os educadores, aprendem também e reconstroem
conhecimentos no processo. Então, eles não estão
apenas “criando as condições necessárias” ou
“facilitando” a aprendizagem dos alunos, eles estão
aprendendo também, produzindo novos sentidos,
co-criando, re-significando o que já sabiam, se
reinventando, enfim.
Tomando-se
o
partido
do
sócioconstrutivismo, entende-se que há uma
comunidade de aprendizagem onde todos estão
aprendendo e participando. Alguns assumem,
em certos momentos, determinados papéis e os
outros, assumem outros papéis, mas tudo isso pode
se inverter, porque todos estão colaborando, todos
estão se desenvolvendo. Os adultos criam algumas
condições necessárias, de início, mas as crianças,
adolescentes e jovens podem criar outras, e todos
transformam seu entendimento, seus papéis e
suas responsabilidades enquanto participam nesse
processo. Então, aqui, a metodologia implica que
todos são ativos, porque a ação/atividade é conjunta
(joint-action). Isso não quer dizer que, no início,
exista uma simetria entre os papéis dos adultos e
das crianças/jovens. Crianças/jovens e educadores
são ativos e colaboram, mas, inicialmente, os
adultos são mais responsáveis por guiar o processo
67
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa
e apoiar os mais jovens. No decorrer da atividade,
à medida que o tempo vai passando, entretanto,
todos vão transformando a participação. Então
os papéis não estão pré-definidos, ou estão prédefinidos apenas inicialmente, por um curto
período de tempo.
As pessoas dialogam e interagem bastante
nesses ambientes, porque ninguém detém
o conhecimento como algo acabado, como
um estado final onde alguns (geralmente os
educandos) têm que chegar. Não existe “instrução”
no sentido tradicional, todos estão participando
ou se transformando à medida que participam das
atividades/ações. Nessas circunstâncias, os autores
como Rogoff (1998) se referem a “novatos”
(newcomers) e “mais experientes” (old-timers)
para falar dos papéis de educandos e educadores.
Mas, à medida que o tempo passa, os novatos vão
se tornando mais experientes e assumindo cada
vez mais responsabilidades e participando cada
vez mais ativamente no processo (e até se tornam
multiplicadores em suas escolas e comunidades).
Assim também ocorre na Cipó. A gente, quando
fala disso, diz que os meninos mais novos ainda
estão “verdes”, depois vão ficando mais “maduros”.
É uma outra forma de dizer a mesma coisa.
Alguns autores, ao invés de usarem o termo
“comunidade de aprendizagem”, falam de
“comunidade de prática”, porque acham que
comunidade de aprendizagem soa como algo
artificial (Lave e Wanger, 1990; Wenger, 1998).
O termo comunidade de prática se aplica mais
facilmente às ONGs do que às escolas, pois
nas últimas os ranços da educação tradicional
são muitos.
Nos programas desenvolvidos internamente na
Cipó, esse tipo de colaboração, de comunidade
de aprendizagem dialógica é mais comum, ou
mais prevalente, nos programas mais longos,
de um ou dois anos, como o Estúdio CIPÓ de
Multimeios, o Sou de Atitude, a Central CIPÓ
de Notícias. O Cibersolidário ainda está em fase
experimental, porque está no início, mas deverá
ser um híbrido. A Escola Interativa é um híbrido
também, porque lida com duas culturas ou com
duas formas de entender a educação, uma da Cipó e
a outra das escolas, uma mais dialógica, a outra mais
tradicional. E o que o programa faz é justamente
experimentar com professores e alunos essa forma
mais dialógica de construir o conhecimento e vai
vendo o que acontece na prática. Em cada escola
acontece de um jeito. Algumas escolas, após dois
anos passam a adotar práticas mais dialógicas, outras
não. Porque não depende só da gente, e sim de um
conjunto de circunstâncias, envolvendo inclusive
políticas educacionais.
Resumindo, a educação pela comunicação
enquanto fundamentada no sócio-construtivismo é
uma metodologia que:

Enfatiza processos e produtos: os
processos de aprendizagem são dialógicos
e os produtos são artefatos socialmente
relevantes, que servem de mediadores na
construção do conhecimento. Aprende-se
fazendo/produzindo esses artefatos;

Os papéis de educadores e educandos
se transformam ao longo do processo,
não estão pré-definidos, pré-fixados. As
responsabilidades
são
compartilhadas
durante todo o processo, mas não são
simétricas (i.e. não são totalmente
equivalentes). Educadores são “mais
experientes” e, no início, criam as condições
para que os educandos construam o
conhecimento e, muitas vezes, orientam
diretamente os educandos em ações
conjuntas, mas eles também constroem
novos conhecimentos e se desenvolvem
no processo. Educandos são “novatos”, no
início, mas podem tornar-se educadores
mais adiante, multiplicando o processo
em suas escolas e comunidades. Todos se
transformam, participam e aprendem;

A avaliação da aprendizagem ocorre ao longo
68
Educação, Comunicação & Participação
Cipó - Comunicação Interativa

de todo o processo e tem como finalidade BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
ajudar/promover o desenvolvimento/apren
dizagem do educando, dos educadores e da
Gergen, Kenneth J. (1994). Realities
instituição (pois não dá para pensar numa
and Relationships: Soundings in Social
avaliação que só veja o nível individual
Construction.
Cambridge,
Harvard
também). Os erros são incorporados ao
University Press.

processo de aprendizagem e servem para
Lave, Jean and Wanger, Etienne (1991).
orientar ações futuras, tanto dos educandos,
Situated Leaning: Legitimate Peripheral
quanto dos educadores e da instituição. A
Participation. New York, Cambridge
principal avaliação é a que se dá no contexto
University Press.

das atividades de aprendizagem, no fazer
Rogoff, Barbara (1990) Apprenticeship in
cotidiano, no diálogo entre educadores
Thinking: Cognitive Development in Social
e jovens;
Context. New York, Oxford University
A colaboração na construção do
Press.

conhecimento gera “transformação da
Rogoff, Barbara, Matusov Eugene and
participação”, muito mais do que meramente
White, Cynthia (1998). Models of Teaching
aquisição de habilidades e competências
and Leaning: Participation in a Community
individuais. No início, os educandos são
of Learners. Malden, Blackwell Publishers.

“verdes”, são novatos no processo e os
Wanger, Etienne (1998). Communities of
educadores são mais experientes. Depois, os
Practice: Learning , Meaning, and Identity.
educandos vão participando mais e ficando,
New York, Cambridge University Press.
eles próprios, mais experientes, assumindo
cada vez mais responsabilidades na condução
das ações, na produção das peças/produtos/
processos de comunicação e na disseminação
dos mesmos.
69
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
Comunicação
e Cultura
Comunicação
e Cultura

HISTÓRIA
Um pedido de colaboração na publicação da
Associação de Moradores do Mucuripe, bairro
popular de Fortaleza, deu origem em 1987 à
organização não-governamental Comunicação e
Cultura. Durante uma prolongada pesquisa-ação
sobre mídia impressa popular, a ONG acompanhou
o trabalho de mais de trinta grupos de editores no
Ceará. Em junho de 1991, lançou o projeto Jornais
Comunitários Associados, para facilitar a publicação
de jornais populares em Fortaleza.
Esse trabalho deu origem a projetos que
envolvem educação, comunicação e participação,
entre os quais podemos destacar:
1. Clube do Jornal Escolar
2. Primeiras Letras
3. De igual Para Igual
1.1. O projeto Clube do Jornal Escolar surgiu
em 1994 em resposta à demanda de alunos,
professores e diretores de escolas públicas. Promove
a organização juvenil por meio de clubes criados
nas escolas de ensino médio e abertos à participação
de todos os adolescentes interessados. Não há um
número mínimo ou máximo de estudantes para
fomar um clube. Já existem hoje mais de cem clubes
associados, contando em média com 10 sócios.
Grande parte do trabalho dos adolescentes ocorre
no próprio espaço da escola e envolve reuniões da
pauta do jornal e divisão do trabalho entre digitação
e diagramação. Há um formulário de auxílio à
diagramação feito pela ONG, que também fornece
aos clubes um programa de editoração eletrônica.
As ações são estruturadas com a participação
de seis assessores do projeto – todos estagiários
universitários –, sendo que cada assessor acompanha
cerca de dezoito clubes. As visitas do assessor às
escolas, quando realizam reuniões com os clubes,
ocorrem aproximadamente uma vez por mês.
Para estabelecer relações pautadas pela ética
a ONG instituiu uma ouvidoria que fica na sede
da organização e acompanha o conteúdo dos
jornais. Esta função, que era desempenhada por
“professores moderadores”, teve que ser assumida
por um membro da equipe da Comunicaçaõ e
Cultura, já que muitos professores com formação
tradicional tentavam influenciar a escolha de temas
e conteúdos, impedindo a desejada autonomia dos
jovens na produção dos jornais.
Os alunos enviam os textos para a ouvidora, que
procura garantir que todas as matérias tenham as
assinaturas de seus autores e ofereçam direito de
resposta em caso de acusação ou citação de outros
membros da equipe escolar ou alunos. A idéia é que os
jornais exerçam sua função crítica sem cair em ataques
pessoais, calúnias, ou uso de linguagem inconveniente.
Quando essas regras são observadas pelos alunoseditores, o jornal está pronto para ser impresso.
O “Código de Ética no Jornalismo Escolar”, uma
publicação elaborada pela ONG, é outro importante
instrumento de estímulo ao comportamento
ético dos editores e contribui para que os jornais
70
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
estudantis sejam efetivamente instrumentos de
garantia dos direitos democráticos. O Código de
Ética não é considerado pela instituição como
um condicionamento, mas como o instrumento
que define a identidade entre ela e os jovens que
participam do projeto.
Não há processos de seleção para o ingresso
no Clube do Jornal, o que aumenta o potencial
democrático das ações da ONG. A eliminação da
seleção, que obrigou a Comunicação e Cultura
a reforçar seus cursos e oficinas para lidar com
o déficit educacional de parte dos adolescentes, é
encarada como uma grande conquista pois reforça
o caráter “inclusivo” do projeto. A seleção seria mais
uma barreira para adolescentes oriundos, em sua
maioria, de camadas populares e que já encontram
dificuldades para a vencer as diferentes etapas de
sua escolarização.
A compreensão da importância da comunicação
e da mídia para a formação de consensos nas
sociedades contemporâneas e a constatação do
potencial de mobilização política dos jornais são
traços marcantes do projeto. Esta visão parece
estar relacionada à ação militante sob um regime
político autoritário vivenciada pelas lideranças da
ONG, que leva a uma ênfase na possibilidade de
transformação nas relações de poder na sociedade a
partir da manifestação juvenil.
1.2. “Eu escrevo por quê?” Essa indagação é o
ponto de partida das ações do projeto Primeiras
Letras. Criado em 1995 a partir de um pedido de
professoras de uma escola comunitária de Fortaleza,
o projeto teve uma aceitação tão grande que, em
2003, já faz parte do dia-a-dia de 800 escolas
nos estados do Ceará e Pernambuco. Viabiliza a
publicação de jornais editados pelos professores de
1ª a 8ª séries e turmas de aceleração com textos e
desenhos dos alunos. Os jornais são instrumentos
de dinamização das aulas e de valorização social
da escrita. Segundo Daniel Raviolo, presidente da
ONG, “O Primeiras Letras tem uma vocação muito
grande de integração com a política pública. (...) É
uma ferramenta pensada para os professores e está
sendo otimamente recebida. Produzir um jornal em
sala de aula, para o professor, não é um trabalho a
mais, ao contrário: é um facilitador do trabalho que
ele já vem realizando.”
Cada escola tem seu próprio jornal, que chega
a circular para os pais de alunos. Assim como no
Clube do Jornal, as publicações são preparadas na
escola e enviadas para a sede da Comunicação e
Cultura, onde é feita a impressão.
1.3. A ONG desenvolve ainda o projeto De
Igual para Igual, que busca estimular o sexo
seguro e a prevenção de doenças sexualmente
transmissíveis, além de uma mudança nas relações
de gênero e a diminuição nos índices de gravidez
na adolescência. Trata-se de um esforço de criação
de um espaço editorial para temas relacionados à
sexualidade, já que se constatou que a problemática
da saúde reprodutiva era recorrente nos jornais
escolares.
A presença de jovens de escolas diversas na sede
da ONG, seja para participar de oficinas, levar
os arquivos ou buscar os jornais impressos, gera
possibilidades de troca e intercâmbio de experiências
que são muito valorizadas pelos jovens.
A participação da Comunicação e Cultura em
instituições e redes como a Associação Brasileira
de Organizações Não-Governamentais (ABONG)
e o Fórum Cearense pelos Direitos da Criança e do
Adolescente (Fórum DCA) evidenciam uma visão
da importância da articulação e participação em
questões sociais amplas.
 GESTÃO
Embora a participação e a autonomia sejam
conceitos-chave para todos os projetos e ações
desenvolvidos junto aos adolescentes e à escola, a
gestão da Comunicação e Cultura é centralizada
e as principais decisões são tomadas em reuniões
semanais entre presidente, coordenadores dos
projetos e responsáveis pela área financeira. Nestas
reuniões, a problemática levantada pelos assessores
71
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
a partir do contato direto com os adolescentes, são
levadas à presidência e à direção da ONG pelos
coordenadores. Estes, por sua vez, realizam reuniões
semanais com suas equipes.
A equipe do Clube do Jornal é formada por
coordenadora, ouvidora, seis assessores e alguns
bolsistas (em geral, sócios dos clubes). Já o Primeiras
Letras conta apenas com uma coordenadora e
uma assistente.
Essa gestão mais centralizada se comparada a
grande parte das instituições da Sociedade Civil
Organizada torna possível a atuação em um
universo numeroso e o estabelecimento de uma
relação orgânica com a rede pública de ensino.
Todos os membros da equipe têm clareza sobre
os objetivos e decisões e podem, assim, atuar com
maior autonomia no dia-a-dia dos clubes e das
escolas. Essa forma de organizar o trabalho também
parece otimizar a relação com o tempo, fator
importante quando se trabalha com um grande
número de adolescentes e escolas.
 SUSTENTABILIDADE
A Comunicação e Cultura conta com uma
diversidade de financiadores (empresas grandes
e pequenas, fundações, Secretaria da Educação
etc.), o que contribui para a conquista de uma certa
estabilidade institucional, se comparada à gestão
financeira de grande parte das ONGs.
Quando não está imprimindo jornais dos clubes, a
gráfica da organização é aberta à prestação de serviços
externos cuja renda é revertida para os projetos.
Para atuar de maneira integrada à rede pública
de ensino, a Comunicação e Cultura se preocupa
em garantir custos reduzidos. A qualificação dos
produtos e processos ocorre, assim, não só nas
oficinas (atendimento direto), mas pela prática das
trocas em rede. A equipe da ONG procura evitar
a postura de tentar substituir os profissionais da
rede e adolescentes na realização das atividades,
procurando garantir sua autonomia e apoiando sua
qualificação ao longo do tempo.
Os projetos exigem uma infra-estrutura
simplificada, que pode ser encontrada em qualquer
escola pública. O acesso ao computador é o único
pré-requisito para que os adolescentes possam
digitar suas matérias e fazer a diagramação do
jornal, que será, mais tarde, impresso na gráfica da
organização e distribuído na escola e comunidade.
“... a internet seria um meio maravilhoso
porque todas as pessoas podem ter o seu site,
podem criar uma página, podem divulgar o
que elas acham que é interessante, criar uma
notícia. Por outro lado a gente vê que tem toda
a deficiência, tem locais que, mesmo quando
tem internet os meninos não têm acesso. Será
que vale a pena realmente trabalhar a internet
se tem dois computadores por escola pública de
dois mil alunos?” (Márcia, assessora do Clube do
Jornal Escolar)
Os Clubes arcam com uma pequena parcela
do custo dos jornais escolares: enquanto a
impressão de mil exemplares de um jornal de 4
páginas custa mais de R$ 200 à Comunicação
e Cultura, cada clube paga apenas R$ 21. Para
obter este valor, os jovens são estimulados e
capacitados a captar recursos, oferecendo em
troca espaço publicitário em seu jornal. Foi
criado ainda um material de apresentação do
projeto – uma pasta – com o objetivo de fazer
com que os membros dos clubes sintam maior
segurança nos primeiros contatos com possíveis
patrocinadores.
No projeto Primeiras Letras foi construída uma
tabela de custo vs tiragem do jornal, facilitando
o planejamento financeiro e estimulando a escola
a refletir sobre o número de cópias efetivamente
necessárias. Cada escola arca com uma contribuição
simbólica para as despesas de impressão, como
mostra a Tabela abaixo. A impressão de 100
exemplares custa, para a escola, R$ 11 e a impressão
de 1.000 exemplares, R$ 28:
72
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
Tabela Participação nas
Despesas de Impressão
Tiragem
Papel Branco – 4 páginas
200
12
300
13
400
14
500
15
600
18
700
20
800
23
900
25
1.000
28
Fonte: Comunicação e Cultura – Primeiras Letras
Secretaria de Educação Básica do Ceará (Seduc)
e as 15 Secretarias Municipais de Educação
conveniadas financiam a capacitação dos professores
de suas redes.
 PARCERIA COM A ESCOLA
Podemos dizer que projetos como o Clube do
Jornal Escolar e o Primeiras Letras buscam
uma renovação da escola a partir da liberdade de
expressão, do resgate da função social da escrita e
da mobilização social para a mudança.
A figura do assessor – em geral um universitário
que faz estágio de meio período no projeto
– é fundamental para o funcionamento do Clube do
Jornal. O assessor apóia os clubes nas diferentes etapas
de produção do jornal. Respeitando a autonomia dos
jovens, o assessor não dá sugestões ou indicações:
procura apenas orientar os membros dos clubes sobre
os caminhos possíveis. É muito comum que os alunos
encontrem barreiras na escola, especialmente ao uso
da sala de informática, dificultando os processos de
produção do jornal, momentos em que contam com
o apoio dos assessores. A figura do assessor tem um
impacto significativo nos resultados do projeto. No
interior do Estado, por exemplo, acredita-se que um
dos fatores que explicam resultados tão positivos
em relação a Fortaleza é o fato de que o número de
escolas por assessor é menor do que na capital.
O diálogo franco e aberto dos jovens com os
assessores durante as discussões sobre o jornal
faz emergir questões, muitas vezes delicadas,
vivenciadas pelos jovens. Os educadores do projeto
acreditam que é também papel da escola estabelecer
trocas sobre temas significativos e preocupações
dos jovens, mas acreditam que grande parte dos
professores não está preparada para este tipo de
relação. Com a experiência nos debates e nas
discussões sobre os jornais, os jovens se desinibem
e passam a “puxar” discussões na sala de aula sobre
temas que consideram relevantes. Muitas vezes, por
não fazerem parte do planejamento curricular, estas
discussões são desestimuladas pelo professor. Notase a importância da inserção, nos programas de
formação de professores, de dinâmicas que vão além
das questões de conteúdo, capacitando professores
para lidar com o jovem, reconhecê-lo como sujeito e
estabelecer com ele canais de diálogo.
Se grande parte do corpo docente enxerga a mídia
como concorrente do professor e das aulas, estes
projetos procuram estimular um debate crítico sobre
temas em pauta na mídia de massa. Um dos desafios
que os educadores do projeto vêm encontrando é
o impacto de programas jornalísticos de TV que
exploram a violência de maneira sensacionalista.
Para a escola, cujo currículo é organizado e encarado
como um conjunto de aulas e onde cada disciplina
tem conteúdos a serem “vencidos” pelo professor, é
preciso refletir sobre como trazer os temas da mídia
para dentro da escola de forma estruturada, tarefa
importante para a formação de receptores críticos
(ler “Introdução”).
De forma geral, os professores encaram erros
no jornal como responsabilidade da ONG, e não
da escola. Ao invés de questionar os processos de
73
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
ensino-aprendizagem implementados na escola,
muitos professores se omitem em colaborar com
os alunos na construção do jornal e se limitam a
criticar os alunos pelos erros quando o jornal chega
à escola. Sobre os conflitos entre alunos e corpo
docente intensificados com a presença dos jornais,
há casos dramáticos em que a diretora queimou os
jornais, tentou subornar alunos para pararem de
fazer os jornais e ainda de professores que usaram
os jornais para apagar a lousa.
Estas últimas constatações sobre a postura
autoritária de alguns professores e diretores
levam-nos a pensar que projetos como o Clube
do Jornal Escolar, que transformam as relações
de poder dentro do sistema de ensino, não podem
prescindir da existência de uma organização ou de
articuladores externos à rede pública. Já o projeto
Primeiras Letras parece funcionar bem dentro da
dinâmica da rede, sem grandes conflitos éticos e,
portanto, sem a necessidade de uma ouvidoria e de
assessores externos à rede.
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
A ação da Comunicação e Cultura não ocorre
diretamente sobre o produto de comunicação, mas
sobre os processos, as discussões, o incentivo a uma
postura investigativa de professores (Primeiras
Letras) e adolescentes (Clube do Jornal). Em
lugar de resultados rápidos e imediatos relativos
à qualidade dos jornais, o que se busca é um
desenvolvimento ao longo do tempo, para o qual a
autonomia dos sujeitos tem que ser respeitada. Os
assessores do Clube do Jornal não corrigem erros
ortográficos e gramaticais dos alunos-editores. O
objetivo é que os jornais possam ser utilizados como
recursos pedagógicos pelos professores e que, ao
longo do tempo, o número de erros diminua. Para
os assessores, o “erro a ser corrigido” diz respeito
apenas às questões éticas e deve ser abordado no
contato com a ouvidoria do projeto.
No Clube do Jornal Escolar não há reforço escolar
ou formação específica para temas do currículo formal.
Por vezes, as aprendizagens curriculares entram em
pauta nas conversas entre jovens e assessores, mas
de maneira espontânea, quando os jovens trazem
questionamentos. O projeto desenvolve atividades de
capacitação e de assessoria aos adolescentes editores
dos jornais. A capacitação abrange dois cursos,
compostos de 12 oficinas cada, que ocorrem com
freqüência de duas vezes por semana.
1) O “Curso Introdutório ao Jornalismo” procura
sensibilizar os jovens para a importância do
protagonismo, da liberdade de imprensa e do
papel do jornal na sociedade.
2) O “Curso de Redação Jornalística” aborda as
diferentes etapas de produção de textos de caráter
jornalístico.
O projeto oferece ainda oficinas de diagramação, de
captação de recursos e de realização de entrevistas.
A origem dos cursos foi motivada pela percepção
de defasagem dos jovens em produção de texto,
expressão oral e também em conhecimentos
políticos e de conjuntura social. Diferentemente
do que (em geral) ocorre na escola, os temas são
abordados de maneira contextualizada. Os textos
produzidos pelos próprios adolescentes são lidos
para o grupo que, em conjunto, analisa e corrige
aspectos de concordância verbal, conectivos etc.
Alguns exemplos de temas abordados nestes cursos
foram a Guerra no Iraque e o escândalo do desvio do
dinheiro das merendas escolares por um deputado
cearense. A discussão de temas como este último
ajuda a ampliar a compreensão dos jovens sobre
a complexidade dos problemas da educação. Os
jovens passam a entender que a escola pública está
inserida em um contexto amplo e que nem todos os
problemas da escola são de responsabilidade apenas
do diretor e dos professores. E o jornal torna-se um
veículo para debater essas questões.
As oficinas de redação jornalística ocuparam o
lugar de um curso de Língua Portuguesa que ocorria
74
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
nos mesmo moldes das disciplinas escolares. Os
educadores da ONG perceberam que, ao replicar a
metodologia da escola, repetia-se o desinteresse dos
jovens. O interesse aumentou quando se propôs usar
os textos dos adolescentes como ponto de partida
para as aprendizagens em Língua Portuguesa. Vale
mencionar que a inscrição no curso não é obrigatória
para os participantes dos clubes.
Por serem universitários, os assessores já trazem
referências culturais importantes para o trabalho
e, por serem jovens, mostram certa abertura para
as dinâmicas participativas e a mobilização social.
A capacitação para o projeto ocorre de maneira
coletiva. A assessor recém-chegado passa por um
período em que apenas acompanha o trabalho
de outros assessores e as discussões da equipe. Só
após algum tempo, assume um grupo de escolas.
Nesse período, realiza leituras sobre o projeto, seus
conceitos e princípios teóricos e sua metodologia.
O projeto Primeiras Letras conta com uma
formação inicial de 16 horas1 para os professores das
escolas. Em cada escola são capacitados um professor
e um coordenador pedagógico. Após esta etapa, há
encontros de qualificação e trocas de experiência.
A ONG vem estudando junto com a Seduc
possibilidades de estimular o uso do jornal como
uma forma alternativa de avaliação escolar. A idéia,
que partiu do Unicef-Ceará, é que a Seduc analise,
no conteúdo dos jornais, a qualidade dos processos
de ensino-aprendizagem na escola em relação às
linguagens e códigos e aos aspectos de compreensão
das questões sociais
Os processos de ensino-aprendizagem que a
produção de um jornal propicia se diferenciam do
ensino tradicional, que tem na nota seu principal
mecanismo de reconhecimento. A abordagem de
temas ligados ao contexto dos jovens e a consciência
de que existem receptores da comunicação trazem
a tona a função “social” do jornal e estimulam o
abandono de uma escrita burocrática.
O jornal escolar aproxima o jovem do cotidiano
da comunidade. Por exemplo, enquanto no Ceará o
currículo formal aborda as quatro estações do ano,
os clubes tratam, no jornal, da problemática das
chuvas, observando que o Estado possui apenas
duas estações claramente perceptíveis durante o
ano. Os questionamentos sempre partem da vida
dos sujeitos para se ampliar para o bairro, a cidade,
o país e o mundo.
A autoria é outro aspecto relevante na produção
dos jornais. As educadoras do Primeiras Letras
relatam um episódio em que uma aluna, ao notar
que sua redação aparecia em outros exemplares do
jornal, saiu correndo surpresa para conferir se todos
os exemplares continham seu texto:
“... uma aluna, ela pegou o jornal e olhou
assim: “ah! A matéria tá aqui! Tá no teu
também! Tá no teu também! Então ela saiu na
sala correndo. Na cabeça dela ela pensava que o
jornal dela tinha só as matérias dela, o jornal
do outro tinha as matérias do outro...que nem o
caderno dela. Quando ela viu que todos os jornais
tinham um texto dela, aí ela viu a disseminação,
a multiplicação...” (Karina, Coordenadora do projeto
Primeiras Letras)
O desafio atual da ONG é desenvolver uma
produção de textos com enfoque jornalístico, o que
envolve o conhecimento dos diferentes gêneros
jornalísticos.
 PARTICIPAÇÃO
A Redije (Rede de Integração de Jornais Estudantis)
foi criada como forma de institucionalizar o
conjunto dos Clubes de Jornais Escolares. Nasceu
da necessidade de promover a autonomia dos
adolescentes e criar uma identidade entre os clubes.
Seu objetivo é dar apoio e promover trocas entre
os diferentes clubes em todo o estado do Ceará.
Trata-se de uma instituição formal, com seu
próprio estatuto, seu código de ética, o que procura
garantir sua existência de maneira independente
da Comunicação e Cultura. Edita a publicação
3Por
ser pouco tempo, os educadores do projeto a consideram mais uma sensibilização do que
uma formação.
75
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
“Redige Informa” e realiza plantão de dúvidas e de
apoio para a produção dos jornais, um processo em
que os próprios jovens se organizam para qualificar
o trabalho dos Clubes.
“Foi muito bom para fortalecer essa identidade
dos Clubes, porque agora eles podem dizer: ‘olha,
eu sou do clube Expressão, que faz parte da Redije,
a Rede de Jornais Estudantis aqui do Ceará’.
Então tem uma referência maior. E também
porque a gente sabe que a bandeira principal da
Redije é a liberdade de expressão. Então isso é
muito bom porque quando acontece uma injustiça
com um dos clubes filiados, (...) um jornal que
está sendo censurado, um jornal que a diretora
não quer aceitar na escola, que a gente sabe que
essas coisas acontecem, a Redije também entra aí.
Aquela história da liberdade de expressão: todo
mundo tem direito a isso. Então a gente luta
para garantir essa liberdade dos Clubes.” (Aline,
dentro da escola, seria fechado e transferido para
uma área “nobre” da cidade. Inicialmente a escola
ficou apreensiva com a cobertura feita pelo jornal,
com medo de que a comunidade a responsabilizasse
pela mudança. Mas a repercussão da notícia fez com
que moradores do bairro fossem até a escola para
buscar informações, aumentando o diálogo entre
escola e comunidade. A direção, por sua vez, passou
a enxergar a função social do jornal e seu potencial
de criação de canais de diálogo.
O jornal estimula a participação dos alunos em
esferas da escola que seriam exclusivas de atuação
do grêmio, pois expõe os desafios encontrados na
estrutura escolar: acesso à sala de informática e à
biblioteca, uso de máquinas e outros espaços na
escola, canais de diálogo com os Centros Regionais
de Desenvolvimento do Ensino (Credes) e a Seduc.
Os projetos, particularmente o Clube do Jornal,
procuram assim, mudar as relações de poder na
escola, estabelecendo relações menos assimétricas:
coordenadora estadual da Redije)
Com um ano de funcionamento, a Redige ainda
conta com o apoio financeiro do Comunicação e
Cultura para seus custos fixos (sala, luz, telefone etc.)
mas já vem conseguindo patrocínio para garantir a
presença dos jovens em eventos organizados pela
Rede. Sua forma de financiamento é, efetivamente,
uma fonte de preocupação pois, se até mesmo ONGs
com atuação consolidada na área social encontram
dificuldades de financiamento (ler “Introdução”),
desafio ainda maior encontram redes descentralizadas
nas quais os próprios jovens se encarregam de captar
recursos. Pela importância de associações como esta
para a organização e mobilização juvenis, o tema do
financiamento de redes formadas por jovens deve ser
tratado com atenção pelos formuladores de políticas
de juventude.
O jornal vai além dos espaços da escola,
prestando um serviço à comunidade. Um entre
muitos exemplos desse fato foi a denúncia de que
o posto de saúde de um bairro pobre, localizado
“O diretor só pega no jornal quando o jornal
chega na escola” (Sócio de Clube)
“O adolescente tem que ser uma pessoa tão
importante quanto o professor dentro da escola.”
(Daniel Raviolo, Presidente da Comunicação e Cultura)
Com o jornal, alguns alunos passam a participar
da vida política de suas cidades. Alguns começaram
a assistir as sessões da Câmara de Vereadores para
escrever matérias para os jornais escolares. Um grupo
de editores, que começou as atividades políticas em
jornal escolar no interior do Ceará, quer colocar um
jovem de seu grupo na Câmara de Vereadores, para
que ele possa representar seus direitos e demandas.
Muitos familiares de jovens editores mostramse inicialmente contrários ao ingresso do filho no
projeto, considerando que seria mais útil a procura
de um emprego. Com o passar do tempo, ao perceber
que filho produz um jornal que o próprio pai se
interessa por ler, a postura da família se modifica
76
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
e os pais passam a se orgulhar do envolvimento do
adolescente no clube do jornal. O projeto desenvolve
uma educação voltada para valores, autonomia e
senso de responsabilidade, o que é valorizado pelos
familiares, inseguros com a percepção de impotência
da família na educação dos filhos. A mudança de
postura do jovem acaba, por vezes, influenciando
até mesmo uma mudança positiva na qualidade das
relações familiares.
Fazer parte de um grupo é uma dimensão
importante das ações da ONG. No projeto De Igual
para Igual, no qual são tratados temas delicados e
que muitas vezes são tabus no ambiente familiar, as
próprias famílias passam a reconhecer a importância
da comunicação “de jovem para jovem”:
“O adolescente se abre mais com outro
adolescentes do que com os pais, porque os pais
cobram muito dos filhos.” ( Juracir Figueiredo, mão de
adolescente que participa do projeto)
O Clube do Jornal reflete a diversidade de
interesses e graus de participação existente em
grande parte dos grupos e movimentos juvenis. Entre
os sócios há desde aqueles extremamente envolvidos,
que planejam e cobram os demais pelas tarefas
pactuadas, até aqueles que costumam “fazer bagunça”
(nas palavras de alguns adolescentes) durante as
reuniões e não dão seqüência ao que foi combinado.
“No último final de semana antes de começar
as aulas (...) eu tive que ir na casa de cada pessoa
exclusivamente pra saber se tinham quebrado a
perna, se tinham morrido, se estavam doentes, se
tinham viajado (...) mas nem assim melhorou. Eu
tento fazer uma espécie de concentração. Eu falo
“oh, tu ta no jornal então tu tem que fazer, não é
só o teu nome aqui.” (Sócia do clube do jornal)
Esse fenômeno faz com que os sócios envolvidos
tenham que lidar democraticamente com os
conflitos, assumir uma postura responsável e
aprender a dialogar. A ONG estimula a postura de
sensibilização e negociação em lugar de confronto
e ameaça de expulsão. Quando os sócios expressam
a vontade de expulsar membros que não participam
de maneira efetiva, os assessores estimulam a busca
de soluções alternativas que evitem o confronto.
A participação no jornal é aberta a toda a escola
que pode mandar artigos para os editores. Segundo
os jovens, para se obter um maior envolvimento dos
alunos com o jornal, especialmente nas escolas em
que há dois ou três turnos e nem todos os alunos se
encontram, é fundamental que haja visibilidade do
projeto na escola, por meio de cartazes e materiais
dispostos em diversos ambientes que informem o
que está ocorrendo no projeto.
 RELAÇÕES
Segundo a equipe do Primeiras Letras, há uma
diferença de ritmo entre as ONGs e a rede de
ensino que faz com que, muitas vezes, as ONGs
tentem “acelerar” os processos e até assumam parte
da responsabilidade que caberia à rede pública. Os
coordenadores sublinham a importância de redobrar
os cuidados para não tentar substituir a equipe
escolar, desempenhando o papel dos profissionais
da rede. Ainda que as ações demandem mais tempo
para sua realização é fundamental que a equipe
da organização mantenha-se apenas na assessoria
e sempre delegue as responsabilidades sobre as
atividades para diretores e professores.
Embora o Primeiras Letras estimule novas
dinâmicas e formas de sociabilidade entre atores da
escola, é no projeto Clube do Jornal Escolar que
os jornais promovem mudanças mais profundas
nos ecossistemas comunicativos da escola e, muitas
vezes, intensificam conflitos, já que os alunos
podem publicar e fazer circular notícias que nem
sempre agradam à direção e aos professores:
“Uma diretora disse: ‘O jornal é uma arma
apontada para a nossa cabeça’. “ (Assessor do Clube
do Jornal )
77
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
instâncias que vão além da escola, como a falta de
verbas, que muitas vezes diz respeito a políticas
educacionais mais amplas. Também se observa que
as dificuldades, especialmente os conflitos entre
alunos e direção, são maiores no início do trabalho,
e as relações vão melhorando à medida que o tempo
coordenadora do projeto Clube do Jornal Escolar)
passa e cresce o número de jornais editados.
Muitos dos sócios que participam da pesquisa estão
Em algumas escolas, é preciso envolver a diretora há mais de dois anos no projeto. Relatam que, quando
na liberação dos meios para a digitação do jornal, teve início o Clube em sua escola, havia um sentimento
já que a burocracia da escola tenta impedir o acesso de que aquele seria apenas mais um projeto e que não
dos alunos. O jornal passa a ser um reforço para que iria perdurar. Com o tempo, cresce o respeito pelo
os alunos exijam seus direitos.
projeto pois se percebe que ele “veio para ficar”.
A direção da escola freqüentemente expressa
um temor de que notícias negativas sobre a escola  REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
cheguem ao Crede que, por sua vez, teme que estas
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
notícias cheguem à Secretaria de Educação. Os alunos A Comunicação e Cultura possui um sistema
observam ainda que o jornal passa a ser um contraponto centralizado de informações estatísticas que permite
às informações divulgadas pelos órgãos oficiais:
controlar a quantidade e a data de publicação de cada
número de jornal. Esses dados estão disponíveis no
“Tá todo mundo preocupado com a imagem da website da ONG. As coordenadoras do Clube do
escola. Tá todo mundo preocupado em colocar um Jornal e do Primeiras Letras enviam a um funcionário
cartaz lá na porta do aeroporto dizendo que 99% as informações que são lançadas em um software de
das crianças estão na escola, dizendo que tá todo controle. As coordenadoras também se encarregam de
mundo passando de ano (...) a gente fica muito realizar avaliações qualitativas sobre o desenvolvimento
chateado porque a gente vive muito no colégio uma dos jovens (Clube) e dos educadores (Primeiras Letras).
situação, a gente está passando por uma situação
O Clube do Jornal e o Primeiras Letras contam,
muito precária nas escolas. “ (Renan, Sócio do Clube cada um deles, com uma publicação mensal (no caso
do Jornal e bolsista do Comunicação e Cultura)
do Primeiras Letras, trata-se de um jornal mural)
informando a comunidade escolar sobre os projetos.
Os alunos percebem também que há diretores
que se aproximam dos clubes com a intenção de  PRODUTOS E RESULTADOS
tentar conduzir o trabalho e procuram resguardar sua A liberdade para elaboração dos jornais começa
autonomia e independência. Sentem a necessidade de pela escolha do nome, que envolve também uma
enfatizar que o jornal é dos jovens, e não da escola. Mas imagem própria. Muitos deles “brincam” com o
há também casos em que o diretor pede ao clube espaço nome da escola, numa aproximação entre o universo
para publicar algum texto e/ou comunicado à escola.
juvenil e a cultura escolar. Para garantir uma melhor
No decorrer do tempo observa-se, portanto, organização do jornal e facilitar a realização das
que os jornais ampliam o diálogo entre os diversos matérias, alunos de alguns Clubes criam colunas e
atores do mundo escolar. Uma das razões, como quadros fixos como o “quadro de humor”.
já mencionamos, é a busca de conhecimento
No Primeiras Letras, o jornal foi concebido
sobre a complexidade dos problemas escolares em inicialmente como um instrumento pedagógico no
“O jornal ‘mexe’ a escola, ele mexe. E tudo o
que mexe causa incômodo (...) agora o cuidado
que a gente tem é que os próprios adolescentes
não vejam o jornal como bombas que eles podem
lançar (...) então esse é o cuidado que a gente tem,
que a informação seja clara e justa.” (Elisângela,
78
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
qual o professor inseria todos os textos dos alunos, sem
levar em conta o receptor do jornal. Mas o impacto
do jornal junto à comunidade cresceu e pesquisa feita
pela ONG mostrou que 80% das famílias dos meninos
liam os jornais (além disso, cada exemplar era lido, em
média, por de três pessoas). Assim, além da utilização
do jornal como instrumento pedagógico, o Primeiras
Letras adotou a visão do jornal como produto de
comunicação e mobilização social.
Para qualificar o jornal neste sentido, os educadores
do projeto propõem a discussão da pauta do jornal nas
reuniões de planejamento coletivo na escola. Definida a
pauta, a idéia é que os professores estimulem a produção
de textos pelos alunos a partir de temas relacionados a
sua disciplina. Foi criada e divulgada entre os professores
uma tabela de apoio à produção conjunta de uma pauta.
Muitas professoras afirmam que esta ferramenta facilita
o trabalho, pois deixa de ser necessário passar de sala em
sala de aula para buscar textos, já que a divisão de temas
e artigos já foi previamente planejada.
Pesquisa feita pela ONG sobre o Primeiras Letras
ouviu 248 diretores(as) de escolas, 255 professorescoordenadores do projeto, 1.254 professores e 5.402
alunos durante o primeiro semestre de 2003.
85% dos alunos entrevistados acham o jornal escolar
ótimo ou bom. 87% dos professores dizem que o jornal
entra na pauta das reuniões de planejamento e 88%
deles acham que os alunos se sentem incentivados a
escrever no jornal. O maior objetivo do projeto, na
visão dos professores, é o estímulo à leitura e a escrita,
seguido pelo estímulo à criatividade. A criticidade
também é encarada como um ponto forte do projeto.
70% dos professores responderam que o projeto está
alcançando seus objetivos.
A existência de um produto de comunicação cria
oportunidades de conjugar conhecimentos teóricos
com atividades voltadas para a prática, uma demanda
comum dos adolescentes que reclamam de um currículo
excessivamente acadêmico. Mas o professor tradicional
continua com a visão de que o aluno só pode escrever
em um jornal quando dominar a linguagem ensinada
na escola. Por esse motivo, professores capacitados no
projeto Primeiras Letras contam que muitos de seus
colegas não acreditam no projeto:
“Jornal aqui na escola? Mas esses meninos não
sabem nem escrever!”
No Clube do Jornal Escolar, alguns professores
já usam os jornais em atividades na sala de aula.
O jornal ajuda a avaliação dos resultados do projeto.
Alguns jornais mostram um salto qualitativo do trabalho
quando, antes dominados por cartas e mensagens
individuais como os “recadinhos do coração”, passam
a focalizar notícias de utilidade pública para a escola e a
comunidade e apresentar um olhar jornalístico.
Há ganhos até mesmo de infra-estrutura para a
escola conquistadas pelos alunos por meio de matérias
do jornal, como uma máquina foto-copiadora:
“Nós conseguimos a máquina de Xerox da
escola por causa do jornal. Mandamos uma
cópia para a direção do Crede [Centro Regional
de Desenvolvimento do Ensino] a direção do
Crede leu o jornal e, na mesma semana, mandou
uma máquina de Xerox. Por que nós tínhamos
que pagar para ter nossas provas xerocadas...”
(Sócia do Clube do Jornal)
Além da máquina foto-copiadora, há diversos
relatos de reforma na escola, construção de quadras
poliesportivas, denúncias sobre o baixo potencial de
aprendizagem com os Telecursos, entre outros, que
se devem à atuação dos jovens do Clube do Jornal.
“...o nosso jornal mudou muito o nosso colégio
porque uma coisa bem engraçada: o que não existia
em nosso colégio era a leitura. E a coisa que mais
emociona é que quando nosso primeiro jornal saiu,
foi ver todos os alunos no recreio com nosso jornal,
lendo. “ (Sócio do clube do jornal)
O jornal promove uma dinamização do ambiente
familiar. Questões polêmicas em relação, por exemplo, a
79
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
drogas ou política, aos direitos e deveres, são trabalhadas
em oficinas complementares e há relatos de que o jovem
assume o papel de educador ou provocador de novos
temas de debate em sua própria casa.
professores está na escola desde sua fundação e a
equipe escolar procura estabelecer uma relação de
proximidade com os alunos – os professores vão
recebê-los diariamente na porta da escola.
O relato da diretora mostra que o currículo não é
“...em época de eleição, a gente tinha brigas encarado como uma seqüência de aulas, mas como
ferrenhas lá em casa, com relação à questão política. ações que se estendem ao planejamento e à reflexão
E acho que é um crescimento muito ‘massa’, que em sobre as atividades da escola. A diretora da escola
muitas famílias não se tem. E eu consegui levar conversa com alunos sobre erros presentes no jornal
para a minha casa uma discussão e era muito forte e se preocupa com a circulação de informações na
porque eles defendiam de um lado, eu defendia de escola -- preocupação levou à instalação de um
outro e a gente trocava material, então sempre sistema de som que interliga todas as salas de aula.
acontece isso, tanto para a questão da sexualidade,
como de um modo geral.” (Mirlaide, sócia de um clube
“Tudo o que acontece aqui não é só um segmento
e atual bolsista no projeto)
que toma conhecimento. Todo e qualquer projeto
que vá acontecer na escola, primeiro ele tem que ter
Também há relatos que apontam novas dinâmicas
o aval de todo mundo. E mesmo o professor sendo
no interior da escola, novas formas de sociabilidade
das séries iniciais, ele vai ter o contato com o jornal.
entre os jovens e entre jovens e equipe escolar.
E ele vai fazer as suas críticas.” (Diretora da Escola)
A observação da forma como ocorrem os projetos
da Comunicação e Cultura em ambiente escolar e
de como esses processos ocorrem de forma diversa
em escolas diferentes, lança luz sobre uma questão
relevante. Além das inúmeras conquistas e resultados
positivos dos projetos em relação à população à qual
as ações se destinam, as atividades chamam atenção
para as possibilidades reais de se estabelecer relações
democráticas nos sistemas de ensino. Até que ponto
as escolas e as redes de ensino estão efetivamente
preparadas para o diálogo, os processos de autoPor fim, é importante ressaltar que há ambientes avaliação e avaliação formativa, abertas a reconhecer a
escolares que favorecem e que não favorecem o multiplicidade de vozes presentes na escola e a conviver
desenvolvimento de projetos como esses. Uma das democraticamente com a circulação de informações e
escolas em que os projetos funcionam melhor fica sentidos entre os atores da comunidade escolar?
no município de Maracanaú, vizinho de Fortaleza.
Fundada na década de 90, já é reconhecida como
“Antes eu não tinha coragem de falar, assim,
uma boa escola, apresenta baixíssima rotatividade de
chegar em uma sala e falar sobre um assunto. Hoje
professores e as diretoras são as mesmas desde seu
em dia, se perguntar, eu levanto, falo normalmente,
início. É uma escola pequena (cerca de 400 alunos)
sei conversar e sei botar a minha crítica e sei levar
que se recusou a aceitar as aulas por Telecurso,
a crítica dos outros. Sei questionar muita coisa.”
muito estimuladas pela Seduc. A maior parte dos
(Michele, sócia do Clube e atual bolsista do projeto)
“Antes do jornal era assim: você chegava, assistia
a aula, merendava e ia embora. Todo dia a mesma
coisa, muito repetitiva. Aí depois que a gente fez a
edição do jornal, os professores chegavam na sala e
tinham o que comentar, entendeu? Tinham o que
falar sobre aquelas matérias, tinham o que falar
sobre o jornal. Hoje aumentou mais o relacionamento
entre um aluno e outro (...) o pessoal que fazia o
jornal, as matérias, os outros já iam querer saber
quem é, conversar” (Sócia do Clube do Jornal)
80
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
Dados - Comunicação e Cultura
Nome
Comunicação e Cultura
Natureza da
organização
Organização não-governamental
Missão
A missão do Comunicação e Cultura é promover atividades e projetos junto às populações
de baixa renda do estado do Ceará, em especial os jovens, utilizando os recursos da
comunicação alternativa e da mobilização social, para a melhoria da qualidade de vida
e o desenvolvimento de atitudes participativas e solidárias, particularmente no que diz
respeito ao envolvimento na esfera pública e o exercício de direitos
Endereço
Rua Castro e Silva, 121 – Centro – Fortaleza, Ceará CEP 60030-010
Telefone
(85) 231.6092
E-Mail
[email protected];
[email protected];
[email protected];
[email protected]
Site
http://www.comcultura.org.br;
Responsáveis
Daniel Gerardo Raviolo - Presidente, Maria Elisangela Albuquerque - Secretária
Executiva e Jorge Assef Lutif Jr.- Ger. Administrativo Financeiro.
Infra-estrutura
A instituição está em dois andares do Edifício Oriente no endereço já citado, onde
funcionam: Recepção da Instituição, Setor de Recepção e Expedição dos Jornais,
Administração, Coordenações de Projetos, Presidência, Secretaria Executiva, Salas
para Oficinas, Laboratório de Informática, Núcleo de Qualidade Gráfica, Setor de
Matrículas, Sala de Convivência e Sala da REDIJE. O Comunicação e Cultura também
está interligado a Internet rápida. A instituição possui uma Gráfica que está em prédio
separado na Rua Floriano Peixoto127-Centro.
Principais
Programas/Projetos
Projeto Primeiras Letras, Projeto Clube do Jornal e Projeto Aliança De Igual Para
Igual.
Números de
atendimento
836 Escolas beneficiadas
552 Bairros/Localidades
121 Municípios
Equipe/Formação/
Capacitação
A ONG possui cerca de 40 funcionários. Com exceção dos estagiários e bolsistas (que
trabalham meio período), todos são contratados com carteira assinada.
81
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
Produtos
Jornais Estudantis produzidos pelos adolescentes dos Clubes do Jornal, Jornais Escolares
produzidos por professores com textos e ilustrações das crianças – projeto Primeiras
Letras, materiais pedagógicos para execução dos projetos, e materiais de comunicação
interna. Além disto, a gráfica presta serviços externos, revertendo o recurso adquirido
para os projetos da instituição.
Orçamento
2002 – R$ 939.094,00
Principais Parceiros
Secretaria de Educação Básica do Estado do Ceará – SEDUC
Secretarias de Educação do Estado do Ceará
Avina
Conselho Municipal da Criança e do Adolescente -COMDICA (Fortaleza)
Instituto C&A
Unesco
Fundação MacArthur
Unicef
Instituto Elo Amigo
Federação das Empresas de Transporte Rodoviários do Ceará, Piauí e Maranhão
Sindicato de Empresas de Transporte Coletivo Itermunicipal e Interestadual do Ceará
Comerciantes locais que patrocinam os jornais escolares
do Estado do Ceará, Universidade Federal do Ceará.
82
Educação, Comunicação & Participação
Comunicação e Cultura
Anexo - Comunicação e Cultura
ATENDIMENTO - COMUNICAÇÃO E
CULTURA - 2002
Clube do Jornal
Total

Número de escolas participantes 108

Número de municípios beneficiados 28

Número de bairros/localidades beneficiados
60

Número de jornais 108

Número de edições de jornais 266

Tiragem total dos jornais 321.500

Número total de sócios (at direto) 1.336
Primeiras Letras

Número de escolas participantes 662

Número de municípios beneficiados 105

Número de bairros/localidades beneficiados
345

Número de jornais 651

Número de edições de jornais 1.142

Tiragem total dos jornais 628.100

Número de professores capacitados (at
direto) 408

Número de alunos beneficiados com o
projeto 397.200
De Igual para Igual

Número de escolas participantes 108

Número de municípios beneficiados 28

Número de bairros/localidades beneficiados
60

Número de edições de jornais juvenis
publicados com a editoria De Igual Para
Igual 172 Número de exemplares distribuídos
215.000

Número de jovens que participam do projeto
460
83
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
MOC
MOC - Movimento de
Organização Comunitária

HISTÓRIA
O MOC desenvolve hoje todos os seus trabalhos
em parceria com uma extensa rede de organizações
comunitárias construída ao longo de seus quase
40 anos de atuação no semi-árido baiano, na
chamada região sisaleira, que tem como pólo o
município de Feira de Santana. Nascido em pleno
regime militar de movimentos sociais de esquerda,
associados à igreja católica, como as pastorais,
envolve hoje mais de 80 mil pessoas em suas ações
– que têm em comum uma concepção freiriana de
educação e a orientação em “empoderar” os agentes
locais, como estratégia de transformação social e
desenvolvimento regional.
A organização é ao mesmo tempo simples e
sofisticada em seus processos de planejamento
e gestão, bastante abrangentes e participativos.
Tem rotinas sedimentadas de registro, avaliação,
sistematização e disseminação. Mesmo assim,
seus coordenadores ressaltam que “é um desafio
muito grande ter um exercício permanente de
sistematização”.
A instituição agrupa sua multiplicidade de ações
em cinco áreas básicas:
1) Programa de Fortalecimento da Agricultura
Familiar no Semi-Árido
2) Programa de Gênero
3) Programa de Educação Rural
4) Programa de Políticas Públicas
5) Programa de Comunicação
Além disso, tem um conjunto de “projetos especiais”,
entre os quais se encaixa o Projeto Comunicação
Juvenil, objeto de atenção desta pesquisa.
O surgimento no MOC de um projeto voltado
para jovens, com foco em comunicação, não ocorreu
por acaso no início do século 21. Entre os muitos
desafios com que se defronta hoje uma organização
das dimensões do MOC, pode-se destacar duas
que vinham emergindo havia alguns anos: 1) como
desenvolver programas e metodologias consistentes
voltadas para os jovens (até então a organização
tinha várias ações nessa área, mas sem muita
sistematização); 2) como ampliar e aprimorar os
processos de comunicação na organização, que
tem larga experiência na montagem de rádios
comunitárias, mas relaciona-se com algumas
lideranças comunitárias que ou não valorizam o
campo da comunicação, ou tendem a monopolizar
sua gestão e seu poder.
São desafios cujo enfrentamento cristalizou-se
também em outras ações, como a contratação, em
2003, de uma profissional de comunicação para
coordenar essa área na instituição (profissional esta
com formação anterior pela Cipó – Comunicação
Interativa, outra experiência desta pesquisa). O
84
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
novo foco em jovens aparece no planejamento de
alguns outros programas da organização em 2003.
Mas é no Projeto Comunicação Juvenil, hoje com
cerca de 30 lideranças formadas, que esses dois
desafios encontram uma proposta mais articulada
de enfrentamento.
O projeto surgiu do convite feito pelo Instituto
Credicard, de São Paulo, que mantém o Programa
Jovens Escolhas, com foco em três eixos estratégicos:

Educação para Valores

Cultura da Trabalhabilidade

Protagonismo Juvenil
Como sempre faz, o MOC consultou os parceiros
que de alguma maneira se relacionariam a este projeto
(sindicatos de trabalhadores rurais, movimentos de
mulheres , fóruns, redes, cooperativas, grêmios
estudantis etc.) e, além de aceitar o convite do
Instituto Credicard, estabeleceu, com os parceiros,
as linhas gerais de ação do MOC neste projeto:

10 municípios participariam, cidades estas
com uma média 15 mil habitantes

As organizações comunitárias de cada
município indicariam jovens, que passaram
por um processo de seleção, em que ficariam
três, com pelo menos uma mulher

A faixa etária seria de 15 a 21 anos

Os jovens do projeto já teriam perfil de
liderança e atuação comunitária

Uma vez selecionados, os 30 jovens, mais os
técnicos do MOC, construiriam o projeto
definitivo a ser apresentado ao Instituto
Credicard
Já no processo de planejamento participativo, os
jovens selecionados apontaram quatro eixos que eles
gostariam de trabalhar (considerando, para isso, os
eixos do programa do Instituto Credicard):

Cultura e Revalorização Cultural

Cidadania e Políticas Públicas

Desenvolvimento Local Sustentável

Comunicação Social
O Programa se inicia no MOC, oficialmente,
cerca de seis meses depois do contato inicial com o
Instituto Credicard, em janeiro de 2002. Na primeira
fase, de quatro meses, a metodologia do Projeto
centrou-se na formação dos “jovens comunicadores/
as sociais” (todos documentos da organização
utilizam o masculino e o feminino quando se referem
a grupos constituídos por homens e mulheres).
Na prática, essa formação envolveu algumas
pesquisas de campo, desenvolvidas pelos próprios
jovens (por exemplo, um levantamento sobre outras
iniciativas envolvendo jovens, valores e mundo do
trabalho) e uma série de oficinas, algumas mais de
integração, outras com conteúdos específicos, como
rádio e jornalismo. Esse processo todo é resumido
na expressão freiriana de “ação-reflexão-ação
continuadas” [leia item pedagogia/metodologia].
A fase seguinte, a partir de maio de 2002, consistiu
em pôr em prática os planos de ação locais construídos
pelos jovens, na fase inicial do programa. Antes, todavia,
nova rodada de interlocução com as organizações
parceiras do projeto foi realizada, para apresentar e
enriquecer as ações propostas pelos jovens.
Ou seja, embora o projeto desde o início tenha
o conceito de co-gestão, o MOC teve um papel
mais central no início e aos poucos os jovens foram
desenvolvendo mais autonomia – embora esta seja
sempre relativa, já que é compartilhada com todos
os parceiros. A pedido dos jovens vem se buscando
incorporar as suas famílias nesse processo, embora
esta ação ainda não seja sistemática.
Como costuma acontecer em projetos que
envolvem educação, comunicação e participação,
o projeto teve muitos outros frutos, além dos
planejados: coberturas de eventos, visitas a outros
programas e participação em encontros, programas
de rádio, publicações, entre outros.
Mas talvez o mais interessante foi que esse
projeto juvenil, com foco em comunicação, acabou
se transversalizando no MOC, relacionando-se hoje
com a maior parte das atividades da organização.
Atualmente, os jovens comunicadores e as jovens
comunicadoras não só têm participação importante
na concepção e planejamento da comunicação
85
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
institucional da organização, como “prestam serviço”
nessa área a vários dos programas desenvolvidos e a
parceiros associados.
O periódico da organização focado na erradicação
do trabalho infantil, o Jornal Giramundo, mantido
em parceria com o UNICEF, foi reestruturado e é
hoje co-produzido por eles, numa associação com
a Cipó – que vem tendo um papel importante no
programa na introdução e construção coletiva de
metodologias de educação pela comunicação.
O avanço mais notável em 2003 foi a proposta
e a realização da construção de Planos de Ação
Municipal, em que os jovens traçam ações e metas para
cada um dos dez municípios envolvidos no projeto.
muito presente. É, inclusive, decisão estratégica da
organização não se envolver na política partidária
da região e do país.
O secretário executivo do MOC, Naidson Batista,
ressalta como foi importante essa desvinculação
da organização de qualquer proposta políticopartidária no contexto do governo Lula. Várias das
políticas iniciais do governo petista desagradaram
movimentos sociais do semi-árido baiano. E a
organização, discordando junto com os movimentos
sociais, de algumas medidas do governo, tem se
posicionado criticamente e inclusive se organizado
para modificar certas políticas do governo federal.
 SUSTENTABILIDADE
 GESTÃO
O Projeto Comunicação Juvenil tem uma Comissão
Gestora, que é formada por um representante de
cada município envolvido (em geral de um sindicato
ou outro tipo de organização), um gestor financeiro
e coordenadores jovens, todos escolhidos a partir de
critérios definidos por eles. É uma estrutura dita de
co-gestão, que tem por objetivo planejar, monitorar
e avaliar as ações do programa – além de promover
a aprendizagem desse tipo de ação. Esse modelo de
gestão compartilhada tende também a gerar outros
espaços de participação juvenil nas estruturas da
organização como um todo.
Ao citar a questão da gestão do Projeto
Comunicação Juvenil, em um documento inicial de
sistematização, o coordenador Técnico Pedagógico
da organização, Clodoaldo Almeida da Paixão, cita
a necessidade de ter “paciência pedagógica” para
lidar com os jovens. Na verdade, o que se percebe
é que o MOC e seus dirigentes têm profunda
“paciência pedagógica” em relação a todos os atores
locais e sua participação na gestão da organização e
seus projetos.
Esse tipo de proposta e de prática participativa
contrasta intensamente com a cultura local, do
Estado e da Região, bastante paternalista, em
que a política coronelista e clientelista ainda é
O Instituto Credicard, que é uma associação
de três grandes empresas (Orbitall, Redecard
e Credicard), foi desde o início o principal
parceiro do Projeto Comunicação Juvenil. O seu
financiamento associado à parceria com o UNICEF
em iniciativas relacionadas ao programa deram uma
boa sustentabilidade inicial para o projeto, pois
garantem recursos por mais de um ano – o que é
raro no chamado Terceiro Setor.
Destaca-se também o fato de que, neste caso, não
foi o MOC que tinha um programa, ou demanda,
e procurou financiamento, mas, ao contrário,
uma organização do Terceiro Setor o procurou,
propondo uma aliança para desenvolver ações em
uma determinada área.
O modelo de gestão e de construção de projetos
no MOC, acentuadamente participativo, enraíza
as ações na comunidade e em suas organizações.
Além disso, o MOC tem a determinação de criar
referências a partir de seus projetos, que possam ser
sistematizadas e disseminadas. A organização já tem
larga experiência em sistematização e disseminação
de práticas, cobrindo de caprinocultura a currículos
para escolas rurais. Algumas dessas metodologias
sistematizadas já estão publicadas até em outras
línguas, como o espanhol e inglês, no caso da
erradicação do trabalho infantil.
86
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Além disso, o projeto foi construído em
parceria com os jovens na perspectiva de não
criar dependência destes em relação ao MOC.
Ao contrário, ao se capacitarem como agentes de
comunicação e de desenvolvimento local, numa
região rural constituída por pequenas comunidades,
as 30 lideranças juvenis participantes (três por
município) já estão criando para si novos papéis
sociais em seus municípios e tendem a ter muito
mais facilidade de gerar renda do que outros que
não tenham participado de um processo desse tipo.
Os jovens comunicadores incluíram em
2003 a criação de um Fundo Juventude. A
idéia é concentrar neste fundo os mecanismos e
estratégias de captação, gerenciamento e utilização
de recursos. Pedagogicamente, essa estratégia
visa dar condições práticas para que os jovens
desenvolvam competências de empreendedorismo
e protagonismo.
Os jovens do Projeto recebem bolsas na fase em
que estão sendo capacitados e discutindo com o
MOC a execução de seus Planos de Ação Municipal.
Mas mesmo que os recursos cessem imediatamente,
a região sisaleira do semi-árido da Bahia, com seus
1,2 milhão de habitantes, já tem hoje em 10 de seus
35 pequenos municípios, núcleos bem formados de
jovens para desenvolverem produtos de comunicação
que promovam desenvolvimento e participação
comunitária. Jovens estes que, desde o início, são
articulados aos movimentos sociais da região.
“Isso aqui não é só um projeto”, diz uma jovem
de Retirolândia, um dos municípios cobertos. “Já
tem um trabalho que acontece independentemente
do projeto” , afirma, para realçar o enraizamento e
a disseminação das idéias e ações de comunicação
juvenil naquelas comunidades.
formais de educação do que à escola regular (da
maneira como ela está organizada hoje).
Apesar disso, a forte inserção do MOC
nos processos educativos da região e a atual
transversalidade do projeto de jovens em relação a
outros projetos da organização criam uma interface
interessante com o mundo escolar.
Os três jovens capacitados da cidade de Valente,
por exemplo, decidiram em seu plano de ação, entre
outras coisas, criar um fanzine para a escola em que
estudaram. Conseguiram o apoio do diretor e de
alguns professores e estão produzindo esse jornal
e distribuindo-o aos alunos. Ainda enfrentam
dificuldades de recursos para impressão, o que
faz com que apenas um em cada cinco estudantes
receba a publicação.
Jovens como estes que tentam entrar com suas
atividades e produtos de comunicação nas escolas
vêm encontrando os mesmos problemas que outros
projetos desta pesquisa: dificuldade em envolver
os alunos e professores, compartimentalização
das disciplinas (o que dificulta a inserção de
produtos e propostas interdisciplinares); modelo
bancário de educação; ausência de estruturas de
representação estudantil e de cultura de “dar voz” às
crianças e adolescentes; um acomodamento geral e
impermeabilidade a novidades e mudanças.
“A dor de cabeça nossa é que na escola
há uma grande resistência dos adultos em
relação à participação dos jovens”, diz um dos
coordenadores. Participação esta que representaria
uma transformação nas práticas cotidianas dentro
e fora da sala de aula. “Fazer esta metodologia na
escola é difícil. O estudante, quando dá a idéia,
não é aceito”, diz um jovem da Central Cyberela
de Comunicação [Leia mais em “Resultados e
Produtos”, último item desta seção].
Os jovens se ressentem. Alguns, como no caso
 PARCERIA COM A ESCOLA
A escola não é o foco prioritário do Projeto de Valente, já formulam a necessidade de serem
Comunicação Juvenil. A própria metodologia de capacitados para encarar o universo escolar. O que
formação dos jovens, centrada na trilogia ação- se percebe é que esses jovens, por terem apenas
reflexão-ação, é mais adequada a situações não- o repertório das práticas escolares a que tiveram
87
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
acesso em sua formação básica, têm dificuldade de
pensar alternativas à maneira como a escola está
atualmente organizada. Ou seja, eles percebem que
lhes falta algo, mas, como é uma falta de repertório,
eles não sabem exatamente o que está faltando.
Assim, ainda com o exemplo de Valente, os
jovens tendem a reproduzir a cultura e o esquema
de poder da escola que freqüentaram, mesmo que
tenham propostas inovadoras, como a da produção
do fanzine. Por exemplo, criam menos momentos de
construção coletiva do fanzine do que poderiam, têm
dificuldade em ver que seu produto poderia ter uma
interface maior com o próprio processo de construção
anual do projeto político pedagógico da escola.
Na visita à escola de Valente foi feita uma entrevista
com um grupo de estudantes de magistério, que
mostrou nitidamente essa dificuldade em enxergar
modelos diferentes de construção de conhecimento e
de práticas didáticas, uma impotência diante da escola.
“Mudar como, se nunca mudou?”, perguntou uma
jovem futura professora [leia a crônica “As Normalistas
de Valente”, produzida durante a visita].
momento, são os jovens que são estimulados a
conhecer, analisar e transformar a si próprios e suas
comunidades. Esse trio de conceitos se alinha ao
outro, já citado, de ação-reflexão-ação continuada,
base do trabalho com os jovens.
Mas, como já foi dito, a organização tem profundidade
em seus processos de planejamento e esses conceitos
não ocorrem ao acaso, de improviso, mas inseridos em
planos que estabelecem objetivos (gerais e específicos),
ações e responsáveis, metas e indicadores, apontam
desafios e institucionalizam instâncias participativas de
monitoramento dessas questões.
A educação pela comunicação se adequa
naturalmente a esses princípios conceituais
e metodológicos. “O fato de trabalhar com
comunicação explodiu o pensar dos jovens, sua
leitura do mundo”, diz um coordenador. “A pessoa
não se vê só como sujeito pedagógico, mas como
sujeito social.” Os jovens de Retirolândia, por
exemplo, montaram seu primeiro programa de
rádio após apenas um mês de capacitação.
[Anexo projeto comunicação juvenil 2003, em doc]
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
O MOC busca ser Paulo Freire aplicado. O
maior educador brasileiro pode ser encontrado
nos princípios, no vocabulário, nas metodologias,
no cotidiano dos programas da organização.
Há também Piaget, entre outros pensadores e
educadores presentes nos fazeres pedagógicos da
instituição. Mas a “Pedagogia do Oprimido”, “da
Autonomia” ou outro nome que se queira dar ao
fazer pedagógico freiriano, é que domina.
A metodologia de formação de professores rurais
e monitores utilizada pelo MOC, já sistematizada e
publicada, trabalha um trio de conceitos: Conhecer,
Analisar e Transformar. Esses termos são autoexplicativos e é possível ver esse tipo de abordagem
se aplicar também ao Projeto que envolve jovens.
A própria organização parece, num primeiro
momento, buscar “conhecer, analisar e transformar”
os jovens e sua relação com os jovens. Num segundo
[Os projetos relacionados ao planejamento e à
metodologia do Projeto de Comunicação Juvenil estão
em anexo.]
 PARTICIPAÇÃO
Já foi apresentada nos itens anteriores a centralidade
da participação nos programas do MOC. Assim,
neste item, abordaremos os desafios que os
educadores do MOC e os próprios jovens vêm
encontrando nesse campo.
O primeiro é a cultura – não só daquela região
– de os adultos decidirem pelos jovens. Mesmo os
adultos que trabalham no MOC reconhecem que
estão aprendendo a lidar com este público, buscando
dar voz, poder de decisão e autonomia relativa.
A estratégia central foi, diante do convite do
Instituto Credicard, selecionar jovens (indicados
pelas organizações sociais da região) e construir
88
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
com eles o projeto que seria apresentado. Esse
projeto previa um segundo momento em que os
jovens formulariam os seus próprios projetos de
intervenção comunitária. Nas comunidades, o
projeto conjunto (jovens e MOC) e os específicos
por município (feitos por trios de jovens) também
colocam desafios de aprendizagem, de resignificação de papéis sociais e de divisão de poder.
A questão juvenil é um tema recente no meio
no meio rural – embora a organização já tenha
experiência com grêmios e pastorais envolvendo
jovens. Assim, há uma certa resistência em dar a
essa população um papel mais central. As lideranças
adultas já bem consolidadas na região revelam duas
percepções. Por um lado, o empoderamento de
jovens líderes para ação social gera condições para
a continuidade dos movimentos comunitários da
região, mas, por outro, ameaça as relações de poder.
O próprio fato de o projeto envolver a criação,
participação e fortalecimento de rádios e outros
veículos de comunicação mexe na correlação atual
de forças. A maior parte das rádios comunitárias
da região, construídas em parceria com o MOC,
são de associações e sindicatos de trabalhadores
rurais. As lideranças destas organizações ganham
bastante projeção e status por dominarem essas
rádios. A entrada de jovens provoca uma cisão
nesse ecossistema comunicativo (usando o
conceito do Núcleo de Comunicação e Educação
da USP) e exige um rearranjo de poderes e
relações. Isso é evidentemente conflituoso
e implica mudanças individuais de todos os
envolvidos e mudanças culturais nas organizações
daquelas comunidades. Ou seja, são processos de
médio e longo prazos.
Este processo está em curso, com resultados
já surpreendentes para os educadores do MOC.
“Hoje para segurar eles é difícil, porque eles querem
tudo” , diz um coordenador, impressionado com
a pró-atividade e responsabilidade adquiridos
pelos jovens no processo de construção e
implementação do projeto.
 RELAÇÕES
A inserção do MOC na região, a importância
reconhecida de seu trabalho de mais de 35 anos, os
resultados práticos na vida de muitas das pessoas do
local resultam em relações muito construtivas.
O princípio da co-gestão na maior parte dos
fazeres da organização, embora implique lidar
constantemente com conflitos de interesses e
posições, promove nitidamente um sentimento de
comunidade e pertencimento.
“Se não fosse a Comissão Gestora, a gente não teria
conseguido nem a metade do que consegue”, diz uma
dos jovens, sobre a importância do mecanismo de
gestão compartilhada do Projeto Comunicação Juvenil.
Isso é favorecido pela abordagem pedagógica
freiriana de valorização da cultura e do repertório
local. Os programas de rádio realizados pelos jovens,
por exemplo, priorizam músicas e informações
locais e sua programação contrasta fortemente
com a das rádios comerciais que, ameaçadas na luta
pela audiência, chamam a polícia. Uma legislação
distorcida nessa área obriga muitos dos jovens
comunicadores a serem “piratas”. [LINKS PARA
PROGRAMAS DE RÁDIO E CDs]
O tamanho atual da organização, com uma
equipe de mais de cem funcionários, e o vulto de
seus programas, cobrindo mais de 80 mil pessoas,
são alguns dos fatores que mais geram desafios de
relacionamento e tensões. Mas o clima geral, ao
menos para um visitante, é de respeito entre todos
os atores envolvidos (que são muitos, de origens
diversas) e de trabalho conjunto.
Há uma discussão interessante na organização
sobre se os programas devem ser alinhados
institucionalmente, isto é, se devem ter planejamento
conjunto e se os educadores devem ter mais tempo
de trabalho conjunto. Para uns, deveria haver
mais trabalho de alinhamento central do conjunto
dos programas. Para outros, o alinhamento e a
complementaridade dos programas ocorrem na
linha de frente, na própria comunidade, e não
necessariamente dentro da organização.
89
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Dentro do Projeto Comunicação Juvenil, o
principal desafio de relacionamento em 2003 foi o
ingresso de jovens que não haviam participado do
projeto desde o início. Ainda não há mecanismos
sistematizados de transmissão das aprendizagens
e conhecimentos adquiridos ao longo de um ano e
meio de planejamento e ação. Assim gerou-se uma
certa assimetria de poder e conflitos de expectativas
entre veteranos e calouros.
Como cada município tem trios de jovens atuando
conjuntamente, a perda de um número significativo
de jovens de um ano para o outro, enfraquece
significativamente o impacto do programa. Este
problema é destacado pelos próprios jovens, que
reviram com o MOC o sistema de seleção e de
bolsas para superar o desafio. Entre outras coisas,
mantém-se ações sistemáticas de mobilização e
intercâmbio com outros jovens da região.
É um desafio que atinge com freqüência os
projetos que lidam com jovens de baixa renda.
Por vezes um emprego que remunera melhor
acaba sendo mais interessante para o jovem e é
especialmente mais valorizado pela família.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
Como já foi dito, o MOC tem bastante experiência
nessa área. O Projeto Comunicação Juvenil,
no segundo ano, já tem um texto inicial de
sistematização, que ainda está em construção e
discussão. Deste trabalho, vale destacar, as questões
consideradas chave para o sucesso do programa:

Grupo formado a partir da indicação de
entidades parceiras, com envolvimento
prévio em movimentos sociais)

Grupo selecionado mediante critérios como
gênero, faixa etária, ação comunitária e
relação com o movimento social

Seções mensais e até quinzenais de encontro,
trocas, reuniões e oficinas

Acreditar que é possível criar não apenas
“para”, mas “com” os jovens alternativas para
os mesmos
Valorizar a ação protagônica e participativa
dos jovens

Valorizar a dimensão prática das ações e
avalia-las processualmente

Compreender formação como um processo
dinâmico e não como “educação bancária”

Enfatizar o processo de elaboração e reflexão
do produto e não tanto seu acabamento
técnico, inicialmente

Não ter fórmulas prontas, mas pressupostos,
metodologia, estratégias e objetivos claros,
bem como princípios inalienáveis
Vale destacar também que a avaliação está
presente em diversos estágios e por diversos
instrumentos e meios.
Como também já foi dito, o MOC tem muitos
produtos sistematizados, a maior parte em formato
de livro/manual, em diversas áreas. Os materiais de
disseminação já existentes na ONG mereceriam
um capítulo a parte. É possível obter esses materiais
diretamente na organização, via carta ou e-mail.
No caso da capacitação dos jovens comunicadores,
está caminhando para um modelo que pode
contribuir significativamente para a disseminação
de projetos desse tipo, especialmente em regiões
rurais, associados a projetos de melhoria do ensino.
Os jovens do Projeto também contribuem para a
sistematização, por meio de relatórios municipais,
gravações de entrevistas e produção de impressos.

 RESULTADOS E PRODUTOS
Uma das cenas mais belas de projetos que envolvem
educação, comunicação e participação é ver uma
criança ou um adolescente ao vivo no ar, produzindo
seu próprio programa de rádio, decidindo que música
vai pôr, escolhendo o momento certo de fazer um
comentário ou de inserir uma vinheta, alegrando-se
de receber o telefonema de um ouvinte.
O Projeto Comunicação Juvenil já conta com
CDs gravados de programas especiais, faz uma
espécie de arqueologia da cultura local e está
90
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
disseminando vários programas infanto-juvenis de
rádio pelo sertão semiárido baiano, abrindo espaço
para este segmento da população que em muitas
partes do país não têm oportunidades de expressão
e diálogo.
Se o que se destaca no trabalho com rádio da
Fundação Casa Grande (que participa desta
pesquisa) é a riqueza do repertório musical e estético
construído no trabalho pedagógico e transmitido
nas ondas do rádio, no MOC chama a atenção a
articulação do programa com a comunidade e seus
movimentos organizados (sindicatos, associações
etc.). Os programas enfatizam a prestação de
serviços, que é uma das áreas nobres da comunicação
em geral e do jornalismo em específico.
O resultado mais vistoso neste aspecto foi a
criação da Central Cyberela, em Retirolândia,
uma espécie de agência de notícias da região do
sisal, que surgiu de uma parceria entre os jovens
formados no projeto, a rádio comunitária Arcos
FM e a comunicadora Rose Rios. Ela ganhou
num concurso para mulheres no rádio software
e hardware para produção de programas de
maneira informatizada, e capacitação para
lidar com isso. O prêmio foi conquistado no
Concurso Cyberela, promovido pelo Cemina
(Comunicação, Educação e Informação de
Gênero), uma ONG do Rio de Janeiro, que atua
na área.
Hoje adultos, crianças e jovens dividem o
espaço físico da Arcos/Cyberela e o tempo no
ar, numa espécie de simbiose, onde um enriquece
o trabalho do outro e, todos juntos, conseguem
mais audiência. Várias outras rádios comunitárias
também abriram espaços para programas “de jovem
para jovem”. Fica tão bom que gera concorrência
– e, conseqüentemente, conflito – com as rádios
comerciais locais.
A quantidade de publicações resultantes da
atuação desses jovens também merece registro,
nesta conclusão. Há desde boletins municipais,
até periódicos produzidos para entidades ou
movimentos parceiros, coberturas de eventos, entre
muitos outros
Há ainda passos importantes a serem dados.
O MOC, que aos poucos se coloca o desafio de
profissionalizar sua comunicação, ainda não tem
um site na internet digno de nota. A riqueza
dos materiais que são produzidos no local ainda
não tem canais mais consistentes de escoamento
e disseminação.
Mas o que se percebe é que este projeto está gerando
um conjunto de produtos comunicacionais que
tende ganhar massa crítica suficiente para realmente
transformar o ecossistema comunicativo não só
do MOC como de toda a região, dando voz , com
qualidade, a parcelas antes completamente excluídas
dos meios de comunicação de maior impacto.
91
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Dados - MOC
Nome
MOC – Movimento de Organização Comunitária
Natureza da
organização
Organização não-governamental
Missão
Contribuir para o desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente
sustentável da sociedade humana, através de capacitação, assessoria educativa,
incentivo e apoio a projetos referenciais, buscando o fortalecimento da cidadania, a
melhoria da qualidade de vida e a erradicação da exclusão.
Endereço
Rua Pontal, 61 – Cruzeiro – Feira de Santana-Ba – Cep 44017-170
Telefone
(75) 2211393/ 2211604
E-Mail
[email protected]
Site
www.moc.org.br
Responsáveis
Naidison de Quintella Baptista
Infra-estrutura
Uma sede em Feira de Santana-Ba
Uma sub-sede em Serrinha-Ba
Um Centro de Treinamento em Feira de Santana
Equipados com:
20 computadores
11 Impressoras
01 Fax
01 Central telefônica com 32 ramais
01 xerox
04 automóveis
92
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Programa Agrícola
Objetiva a melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares, possuidores
de pouca terra, na região semi-árida da Bahia, através de um processo de
planejamento e exploração da propriedade agrícola em base a princípios de
convivência com a seca. Para viabilizar este processo, o Programa Agrícola do
MOC enfatiza o crédito e a assistência técnica. O Programa Agrícola, hoje, atinge
cerca de 1700 famílias.
Programa de Gênero
... é responsável pela criação e assessoria, na região, de um Movimento de
Mulheres Trabalhadoras Rurais. O programa atua em oito municípios e há
aproximadamente 800 mulheres neste processo.
Programa de Educação Rural
Este programa atua objetivando a melhoria das condições e da qualidade da educação
pública na região. Para isso, age em frentes diferenciadas e intercomplementares:
Capacitação de professores rurais;
Formação dos monitores da Jornada Ampliada;
Sub-Programa Malas de Leitura.
Principais
Programas/Projetos
(trata-se de um reforço ao processo de leitura critica nas escolas e jornadas ampliadas).
Programa de Políticas Públicas
Tua no incentivo à participação da população organizada nas políticas públicas,
através da interferência no orçamento municipal, da participação nos Conselhos
e Comissões Paritárias de Gestão de Políticas e, para isso, criando condições de
maior organização, melhor gestão e inter-relacionamento entre as entidades da
sociedade civil, assim como debate e sistematização de suas propostas.
Este programa atua com três sub-programas específicos que são:
Sub-programa de Conselhos – os Conselhos são órgãos paritários, formados por
representantes da sociedade civil e do poder público, encarregados da formulação e
gestão de políticas setoriais nos municípios. O Sub-programa atua na formação e
assessoria dos Conselheiros.
Sub-Programa de Fortalecimento da Sociedade Civil – trata-se da formação e
fortalecimento das organizações da sociedade civil, para que possam dialogar e
interrelacionar-se com o poder público, na elaboração, proposição e execução de
políticas públicas de interesse social.
Sub-Programa de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil- monitoramento
e incentivo à participação no Peti.
93
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Números de
atendimento
82.677
A equipe do MOC é formada por economistas, pedagogos, professores, sociólogos,
educadores, agrônomos, técnicos agrícolas, administradores.
Equipe/Formação/
Capacitação
25 nível superior
48 nível médio
Equipe de apoio administrativo com 20 (2 nível superior e 18 nível médio).
A equipe freqüenta processos de capacitação variados, de acordo com área de
atuação/interesse.
Formas de
Contratação
Carteira de Trabalho (CLT)
Produtos
Vários.
Orçamento
R$ 3.188.248,59
Principais Parceiros
ASA, CESE, ASSOCENE, REDECARD SA, MINISTÉRIO DO
DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO, SETRAS, AMENCAR, PFIZER,
UNICEF, CAR, INCRA, IICA, DED, PCD, BERLI, OIT/IPEC, UNICEF,
CORDAID, PÃO PARA O MUNDO, MISEREOR, CRS, HORIZONT
3000, OMICRON, KINDERMISSIONWERK, MANUS UNIDAS, BANCO
MUNDIAL
94
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
Anexo - MOC
AS NORMALISTAS
Fernando Rossetti (Valente, Bahia, 22 de julho
de 2003)
Temendo uma invasão de insetos, que já haviam
picado alguns estudantes, a direção do Colégio
Estadual Wilson Lins decidiu suspender as aulas,
naquela tarde de julho, época de chuvas na região de
Feira de Santana.
A cidade é Valente, com cerca de 20 mil
habitantes, no sertão semi-árido da Bahia, 230 km
a oeste de Salvador.
Uma turma de estudantes do 3o ano do ensino
médio normal, o magistério, quatro anos de
duração, só mulheres, dos 17 a 21 anos de idade,
está se preparando para ir embora.
Peço licença para entrar e conversar com elas, para
uma entrevista da pesquisa que estou fazendo para o
Unicef. Elas logo topam e sentamos em roda.
A conversa gira inicialmente em torno de
um fanzine, produzido por três ex-alunos da
escola, participantes do projeto Comunicadores
Juvenis desenvolvido pelo MOC (Movimento de
Organização Comunitária).
O projeto envolve a capacitação de 30 jovens de
10 cidades (três de cada) em comunicação. Já há
dezenas de produtos, cobrindo da produção cultural
local, registrada em CD, a jornais, boletins e fanzines.
Há também muitas rádios comunitárias, obrigadas a
serem piratas por uma legislação que privilegia os
grandes meios de comunicação e o capital.
O fanzine do Colégio Wilson Lins tem apoio do
diretor, que banca a fotocópia de 240 exemplares.
A escola tem 1.200 alunos em três turnos. Uma
caixa na biblioteca recolhe sugestões de pauta, que
são selecionadas e produzidas pelos três jovens. As
edições são mensais, uma folha A4 frente e verso em
preto e branco – o Fanlins, que cobre de eventos e
interações locais a debates internacionais.
As estudantes conhecem pouco o fanzine, dizem
que a tiragem é pequena (1 para 10). Uma delas
pede mais participação na produção: “Teria que, pelo
menos, ter uma reunião para expor nossas idéias.”
Mas a maioria se mostra pouco disposta a mudar a
escola:

A gente já acostumou, é uma rotina sempre.

Eu mesmo tenho preguiça.

Mudar como, se nunca mudou?
A boa aula, para elas, “é prática”, “interativa”,
“uma aula em que possa participar”. Mas são poucos
os professores da escola que conseguem isso.
Também são poucas as estudantes que realmente
querem ser professoras, mesmo estando em um
curso de formação para o magistério. Praticamente
nenhuma vê perspectiva de seguir os estudos
– e o grupo demonstra desconhecimento da
determinação legal de que todos os professores do
ensino básico tenham formação superior, até 2007.
Ser professora aparece como uma alternativa
remota, pouco prazerosa, para a enorme maioria.
“Aqui a gente estuda para ter mais oportunidade.”
Há poucas alternativas de trabalho em Valente. “Eu
não descarto a possibilidade de ser professora.”
Das 30, umas três demonstram ter realmente
interesse e motivação em dar aulas. Uma adolescente
diz que ter tido filho ajudou a entender mais sobre
educação. “É a chance que tem”, diz outra.
Para elas, o mundo de fora da sala de aula se
relaciona pouco com o de dentro. A Guerra do
Iraque até que entrou, na aula de geografia. Mas
95
Educação, Comunicação & Participação
MOC - Movimento de Organização Comunitária
“é mais fácil abrir o livro, copiar na lousa e dar
exercícios.”
Os Parâmetros Curriculares Nacionais são
considerados complicados. A maioria não vê como
aplicá-los em aula e tem um repertório pequeno
de experiências educativas – em geral baseadas
na transmissão, pelo professor, de conteúdos, com
metodologia expositiva, pouco interativa.
Pergunto se devemos encerrar a entrevista – há os
insetos e mais de 30 minutos já se passaram – mas as
normalistas querem mais conversa. Aos poucos, cada
vez mais gente participa. A desmotivação é enorme.
Mas um pequeno estímulo, uma breve discussão, é
suficiente para fazer os olhos brilharem.
Muitas põem a culpa nos próprios estudantes, que
seriam pouco dedicados. Tendo como perspectiva
tornarem-se professoras, intuem, com a disposição
que têm atualmente, uma ameaça futura.
Pergunto, então, quem foi o educador mais
importante do Brasil. Silêncio... Tento dar uma
pista: “Ele é um dos intelectuais brasileiros
mais conhecidos no exterior.” Silêncio... “Vocês
conhecem Paulo Freire?” E uma estudante arrisca:
“Já ouvi falar em Paulo Coelho...”
96
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Multirio
Multirio - Empresa
Municipal de Multimeios

HISTÓRIA
A Secretaria Municipal de Educação da cidade do
Rio de Janeiro (SME) possui uma das maiores redes
públicas municipais de ensino da América Latina,
com mais de mil escolas, cerca de 40 mil professores
e 700 mil alunos de Educação Infantil, Ensino
Fundamental, Educação Especial e do Programa de
Jovens e Adultos.
A Multirio - Empresa Municipal de
Multimeios, da Prefeitura do Rio de Janeiro, foi
criada por Lei Municipal em outubro de 1993,
na primeira gestão do prefeito César Maia (19931996), após uma ampla discussão com a câmara
de vereadores da cidade. Surgiu com o desafio de
renovar as práticas educativas da rede tendo, como
eixo pedagógico, a criação de oportunidades a
professores e alunos para conviver e interagir com
múltiplas linguagens tecnológicas.
Planejada e implementada pela educadora
Regina de Assis, na época secretária de educação do
município e hoje presidente da empresa, a Multirio
tem em seu DNA um vasto número de experiências
nacionais (como o programa “Um Salto para o
Futuro”, de formação de professores da TVE) e
internacionais (como o Channel 4 britânico).
Inicialmente, o trabalho da Multirio era direcionado
principalmente ao uso da televisão como suporte à
ação do professor e à sua formação, uma resposta
à necessidade de se formar um grande número de
professores “em serviço”, ampliando seu repertório
cultural. A empresa teve, neste momento, um papel
importante no desenvolvimento do Núcleo Curricular
Básico Multieducação, currículo implantado na
rede pública municipal a partir de 1993 e que teve a
participação efetiva de 75% dos professores da rede. A
articulação envolveu as cerca de mil escolas em torno
de uma proposta que contemplava as especificidades
da cidade do Rio de Janeiro.
A equipe da Multirio, composta por profissionais
de educação e comunicação, teve a participação de
pessoas que “fizeram história” na mídia brasileira,
entre elas Walter Clark, ex-diretor da Rede Globo.
Para obter um enfoque jornalístico nos conteúdos
da comunicação, a Multirio mantém uma equipe
de jornalistas experientes com vasto currículo em
veículos como Canal Futura, TVE, Rede Globo, e
em jornais como “O Dia” e “Jornal do Brasil”.
A partir de 2001, com a volta de César Maia ao
poder municipal, a Multirio passou a contar com
um orçamento anual superior a R$ 20 milhões, que
permitiu vôos ainda mais altos. Após o advento
da internet e da TV a cabo, com a multiplicação
dos veículos de mídia e o conseqüente aumento
do volume de informação produzida, a Multirio
passou a trabalhar pela inserção dos meios de
comunicação nos processos educativos que ocorrem
na escola. Para tanto, iniciou o trabalho com outras
97
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
linguagens, construindo uma rede de transmissão de
conteúdos educativos que engloba hoje programas
de TV, websites, CD-ROM e publicações voltados
para a educação.
Atualmente a maior parte dos investimentos
da Multirio é voltada à produção e disseminação
de conteúdos. Mas uma outra parcela de recursos
financeiros e humanos da empresa também se dirige
ao estabelecimento de processos interativos dentro
da rede de ensino. Entre estes projetos, que podem
ser considerados de envolvimento direto aos alunos
da rede, destacam-se o Abrindo o Verbo, o Juro que
Vi e o Carta Animada pela Paz .
O Abrindo o Verbo é um programa de debates
em que alunos expressam sua opinião em relação ao
papel da mídia e a temas relacionados ao mundo dos
jovens. Um apresentador (também professor da rede)
media o debate, que conta ainda com a interlocução
de uma psicanalista fazendo comentários sobre
as discussões. A participação dos adolescentes no
programa, que entra na programação televisiva da
Multirio, tem o objetivo de contribuir para seu
desenvolvimento intelectual e afetivo.
No projeto Juro que Vi, desenhos animados
retratam lendas brasileiras como o Curupira e a
Iara. O roteiro de cada animação é construído
em conjunto com crianças, em dinâmicas que
usam a técnica de focus groups, detalhada mais à
frente neste Relatório. O projeto Carta Animada
pela Paz, desdobramento do Juro que Vi e que
nasceu por iniciativa da equipe de animadores,
organiza oficinas em escolas localizadas em áreas
de baixo Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH), que sofrem com a alto grau de fracasso
escolar. São selecionadas crianças que apresentam
os maiores problemas escolares, com idades de
aproximadamente onze anos. Nas oficinas, o
grupo aprende a criar suas próprias animações,
cujo enfoque é a paz e o respeito à infância e à
juventude. Um dos “roteiros” feitos pelas crianças
é selecionado pelo grupo de educadores e crianças
para se transformar em desenho animado.
O trabalho da Multirio é estruturado atualmente
em três núcleos de produção (além de projetos
especiais) que atuam de forma articulada. Os
núcleos e seus principais programas e projetos são:
1) Núcleo de Televisão: “Nós da Escola”, “Rio:
a Cidade!”,”Abrindo o Verbo”, “CriAtividade e
“Encontros Essenciais”. A programação de TV é
veiculada na NET, com quatro horas diárias (das
7h30 às 11h30), e na TV Bandeirantes, com duas
horas diárias (das 7h às 8h e das 14h às 15h).
Como estão presentes na TV aberta, os conteúdos
não se limitam à rede de ensino, sendo assistidos
por diversas parcelas da sociedade.
2) Núcleo de Publicações: Revista “Nós da
Escola”, Encartes “Giramundo” e Guias de
Infância e Juventude.
3) Núcleo de Informática: portal Multirio
(http://www.multirio.rj.gov.br) e suporte ao
Projeto Século XX1 (website e Cd Rom Século
XX1).
Projetos Especiais: “Juro que Vi”, “Carta
Animada pela Paz”, e “Século XX1”. Este último
tem a preocupação de qualificar educadores da rede
para lidar a cultura juvenil e com preocupações
e temas de importância para os jovens. Lançado
em setembro de 2002, este projeto conta com
um conjunto de materiais formado por website,
(www.multirio.rj.gov.br/seculo21),
CDROM,
publicações e vídeo voltados para professores que
trabalham com adolescentes.
Além do trabalho com esses núcleos, a Multirio
lidera a organização da 4a. Cúpula de Mídia para
Crianças e Adolescentes - 2004, com uma equipe
escalada especialmente para o evento. Todo o
material de comunicação – websites, vinhetas etc.
– está sendo feito pela empresa, que também já vem
realizando, desde 2003, encontros com parceiros e
construção conjunta da programação do evento.
98
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
A Multirio trabalha a chamada convergência
de mídias, procurando explorar o potencial das
diferentes linguagens. Mais do que colocar produtos
didático-pedagógicos em diferentes formatos, essa
idéia consiste em desenvolver um novo modelo de
produção que favoreça o diálogo entre os diferentes
suportes. Para os produtos agrupados sob o guardachuva Nós da Escola, por exemplo, adota-se, um tema
do mês, como “Avaliação”. Enquanto a TV mostra
como ocorrem os processos de avaliação na escola com
entrevistas, imagens e dramatização, o website Nós da
Escola abre espaço para um debate com professores e,
na revista de tiragem mensal, especialistas aprofundam
conceitos ligados ao tema. A versão eletrônica do Nós
da Escola procura divulgar uma agenda de eventos da
rede, bem como experiências bem sucedidas que vão
de projetos da Secretaria Municipal de Educação a
ações de iniciativa de professores e alunos.
Talvez por contar, com uma equipe multidisciplinar,
composta por jornalistas e educomunicadores1, a
Multirio consiga ir além das competências comuns
aos órgãos públicos, criando um espaço de troca de
opiniões na rede, de diálogo com os professores.
Um importante diferencial da Multirio em
relação às estruturas de grande parte das redes de
ensino parece estar no fato de que, ao trabalhar
a convergência de mídias com uma equipe de
profissionais oriundos dos meios de comunicação,
a empresa obtém maior agilidade para captar e
fazer circular temas da atualidade com um enfoque
jornalístico. A equipe, com experiência nos meios
de comunicação, está “antenada” e sensível a esses
temas. A existência de uma área de pesquisa
(que organiza dinâmicas de grupo com alunos e
professores) e outra de integração com as escolas, a
Assessoria de Integração, amplia este potencial.
A gente escolhe alguns temas com um recorte um pouco
mais específico. Por exemplo, no tema música, a gente
começa com uma música que no Rio de Janeiro ainda é
muito importante, como o rap e o funk. Agora estamos
trabalhando um tema chamado “sexo e mídia” e vamos
preparar um próximo tema chamado “identidade”.
Em cada um desses temas, a gente articula o ponto de
vista dos adolescentes com as grandes questões do século
21 como globalização, revolução tecnológica, as novas
mídias, desigualdade social. A gente tenta fazer esta
articulação com vistas a uma apropriação pedagógica,
por exemplo, que projetos de aprendizagem você pode
desenvolver a partir dests cruzamentos? (Coordenador
do projeto Século XX1)
O perfil dos profissionais que atuam na
Multirio, com formação na área de comunicação,
cria condições para a implementação de projetos
de envolvimento direto como o Carta Animada
pela Paz e o Abrindo o Verbo, que dão voz à base
do sistema de ensino e transformam os ecossistemas
comunicativos – ainda que em números reduzidos
em relação ao tamanho da rede.
Considerando o foco desta pesquisa, de analisar
projetos de Educação, Comunicação & Participação,
talvez a maior aprendizagem com o trabalho da
Multirio – que, como dissemos, atua dentro do
campo de ação da SME – seja observar como os
sistemas de ensino podem se transformar para abrigar
projetos de Educação, Comunicação & Participação. Se
temos uma empresa que possui condições favoráveis
para implementar tais projetos, pois está ligada
organicamente às lideranças da Secretaria de Educação
e que possui orçamento de vulto, que dificuldades e
êxitos vem colhendo para atingir seus objetivos? A
Multirio pode, assim, dar pistas sobre como as próprias
redes de ensino devem se estruturar, especialmente em
termos do perfil dos profissionais, se quiserem ter
impacto junto ao público da educação e mudar as
relações de poder na rede, tornando seus processos
mais participativos.
 GESTÃO
Organização ligada à rede pública de educação
– o próprio orçamento da Multirio é previsto por
1Termo
cunhado por Jesús Martin Barbeiro, assim explicitado pelo Prof. Ismar de Oliveira Soares:
“Ainda que ela beba elementos de cada uma, ela tem outras origens que não só a comunicação
e a educação. Ela tem origem na antropologia, na sociologia e na psicologia, por exemplo, e nas
ciências sociais em geral. E aí nós descobrimos a existência do educomunicador [...]. Nós não
inventamos isso, verificamos que existia o perfil de um profissional com um pé na comunicação,
um pé na educação e uma mão na sociologia...”
99
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
lei dentro dos gastos de educação – a atuação da
Multirio está inevitavelmente atrelada à vontade
política do poder executivo municipal. Para atenuar
possíveis problemas de descontinuidade, comuns a
organizações sensíveis a mudanças com a alternância
de partidos no poder, a Multirio instituiu que a
diretoria pedagógica seria assumida sempre por
um profissional de carreira na rede de ensino. Esta
decisão tem, como objetivo, ampliar a permanência
dos diretores favorecendo a continuidade das ações.
Além disso, ter um líder com experiência na rede
gera maior familiaridade da direção com questões
relevantes do sistema público de educação.
Em relação às formas de contratação, a Multirio
passará a adotar as regras vigentes na rede pública
e seus empregados serão contratados pela Lei do
Funcionalismo Público.
Para os coordenadores de projeto da Multirio,
a descentralização pela qual passou a rede de
ensino no Rio de Janeiro [Ler item “Centralização/
Descentralização” na introdução deste relatório]
ajudou os profissionais da Multirio a dar conta
da diversidade sócio-cultural entre alunos e
professores da rede. A divisão em coordenadorias
regionais facilita a obtenção de informações sobre
as escolas, bem como a distribuição de produtos de
comunicação, facilitando o trabalho da empresa.
 SUSTENTABILIDADE
Como dissemos no item anterior, o maior desafio que
a Multirio enfrenta em termos de sustentabilidade
é contar com a vontade política do poder executivo
municipal na prioridade orçamentária necessária à
manutenção de seus projetos e programas, para os
quais conta com uma equipe de mais de cem pessoas.
O bom relacionamento da principal liderança da
Multirio com o prefeito César Maia proporcionou
tanto a oportunidade de criação da organização
como, em 2003, a obtenção do maior orçamento de
sua história. Mas a alternância no poder municipal
tende a ameaçar a estabilidade orçamentária
da organização.
A Lei não permite à Multirio realizar lucro,
o que poderia ser reinvestido na organização. A
empresa recebe inúmeros pedidos por materiais
pedagógicos, que são distribuídos gratuitamente ou
a preço de custo.
 PARCERIA COM A ESCOLA
Ao contrário de outras experiências contempladas
neste Relatório, a Multirio é vinculada diretamente
ao Poder Público e, por esta razão, sua interlocução
com as escolas é, desde o princípio, facilitada.
Outro aspecto que facilita a interlocução com as
escolas é o fato de que grande parte do trabalho da
Multirio se concentra na produção e disseminação
de conteúdo, o que diminui sua interferência
na própria cultura escolar (ou no ecossistema
comunicativo, como diz o NCE/ECA/USP).
Mas, nos casos em que há tensões dentro da escola,
especialmente na relação professor-aluno, originadas
pela presença dos meios de comunicação, a Assessoria
de Integração procura trabalhar esses problemas e
levar as questões à Multirio e à SME, na busca de
soluções. Essa Assessoria, que é o principal órgão
de interlocução da Multirio com a rede, também
procura garantir que a escola utilize os produtos da
empresa de maneira interessante e eficaz.
Carta animada pela paz é o projeto de maior
interação direta com a escola. A equipe de animadores
da Multirio organiza oficinas em encontros
que duram cerca de dois meses e contam com a
coordenadora e de alguns membros da equipe de
animadores. Há sempre um professor da escola que
acompanha as oficinas e assume a responsabilidade
de transmitir a experiência aos demais professores.
Primeiramente, se ensina às crianças como fazer
uma animação a partir de brincadeiras simples
como criar a sensação de movimento com apenas
dois desenhos. O próximo passo é estimular as
crianças a pensarem sobre temas e roteiros para a
animação. Por último, o grupo formado por crianças
e educadores escolhe um dos temas, cujo roteiro será
transformado em um desenho animado. O tema da
100
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
violência –- de balas perdidas a violência doméstica
–, bem como o consumo de álcool já fizeram parte da
primeira animação.
Como as oficinas ocorrem em zonas violentas
da cidade, por vezes, chega a ocorrer disputas
entre grupos rivais do crime organizado em que
se “ordena” o fechamento da escola. Nesses dias
a direção da escola vê-se obrigada a cancelar as
atividades do projeto.
A Multirio atua atualização em serviço e
qualificação de professores por meio de materiais
que estabelecem diálogo com professor, procurando
elevar seu status e dar subsídio ao seu trabalho.
propõem sempre atividades práticas a partir de
uma pauta específica. Exemplos de pautas recentes
do Giramundo: Educação para o consumo,
Psicomotricidade e Escola promotora de saúde.
Um dos aspectos interessantes de se trabalhar com
professores das Salas de Leitura reside em uma certa
liberdade que eles possuem para definir conteúdos
e atividades, como observamos neste trecho de
entrevista feita pela equipe da Multirio com uma
professora que participa do projeto Juro que Vi:
Multirio: A sala de leituras vira um espaço onde
eles podem desaguar um monte de coisas...
“A revista [Nós da Escola] nos insere em tudo o que
Professora: É onde eles têm oportunidade
está acontecendo. Ela é, portanto, um instrumento
de falar. Hoje mesmo eu fiz uma atividade com
fundamental de leitura e enriquecimento para
uma turma sobre o medo. Então eu deixei eles
o professor. Muitos dos aspectos das nossas ações
conversarem sobre os medos que eles têm, depois
pedagógicas foram explicitados nos artigos. Para
pedia para cada um me contar. Eles contam muitas
este ano, acho que ela poderia retratar o problema
coisas. Contam até da família que eles têm medo, da
da violência em nossas escolas, a questão das drogas e
violência que eles vivem no dia-a-dia.
como nós professores podemos trabalhar os limites de
nossos alunos” (Professora da Escola Municipal Luiz  PEDAGOGIA / METODOLOGIA
César Sayão Garcez, Olaria, Rio de Janeiro)
Embora o público-alvo prioritário das ações da
Multirio seja o educador, vamos aqui mostrar
Uma importante ação que vem sendo também as ações voltadas aos alunos. Considerando
implementada pela Assessoria de Integração a grande exposição das crianças e adolescentes
– formada por profissionais que já trabalharam na à mídias como TV e rádio, a Multirio dirige
rede de ensino – são os cursos voltados a professores seus esforços para o que chama de alfabetização
das Salas de Leitura (misto de biblioteca, laboratório para mídia, que começa por expor as crianças e
de informática e sala de vídeo). Este professor não adolescentes a programas de qualidade.
possui uma turma nem é responsável por uma
“Mídia de todos e mídia para todos” é o slogan da
disciplina específica. Sua função é monitorar a Sala 4a. Cúpula de Mídia para Crianças e Adolescentes.
de Leitura e realizar projetos com os alunos. São, Mas quando se pensa em mídia de todos, percebefreqüentemente, convidados a participar de oficinas se que a TV é, ainda hoje, uma linguagem de massa
oferecidas pela Multirio, cujas aprendizagens giram produzida por poucos. Neste sentido, a Multirio
em torno da produção de textos jornalísticos, vídeo, vem explorando o uso das câmeras digitais pelos
rádio, navegação na internet/criação de websites e professores para empoderar a base escolar e permitir
elaboração de projetos.
a produção de comunicação na escola.
Os Encartes Giramundo são enviados aos
Outro exemplo de ação que procura alfabetizar
educadores junto com a revista Nós da Escola. para a mídia é o programa Abrindo o Verbo,
Criados para serem colecionados pelos professores, construído, desde o roteiro, a partir do “papo”
101
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
com o jovem. Trata-se de um programa no estilo
1) transmitir valores que contribuam para a
“auditório” em que um mediador propõe temas e
formação afetiva, intelectual, cultural, política e
o público presente pode participar. É gravado no
social do adolescente;
espaço da escola, o que aumenta a espontaneidade
dos adolescentes. A equipe do programa decidiu
2) seduzir o adolescente;
substituir as típicas “baterias de perguntas” sobre o
tema pela criação de situações ilustrativas a partir
3) tocar questões verdadeiramente relevantes
das quais se induz o debate. Esta medida tem se
para o adolescente.
mostrado muito importante para assegurar que
os adolescentes expressem suas próprias opiniões
Para aprofundar as discussões e fazer com que o
e valores, e não apenas reproduzam o discurso programa efetivamente responda a esses desafios, se
de outros adultos. Conforme o documento de organizam grupos focais de pesquisa [anexo a este
apresentação do projeto:
relatório, um exemplo de roteiro para um focus group,
bem como alguns textos de referência sobre esta
O desafio é construir um programa que evite o ferramenta de pesquisa qualitativa]. Sete grupos foram
clichê, a mesmice, o sensacionalismo, a exposição realizados ao longo de um ano, cada qual formado por
desnecessária de questões íntimas – tendência seis a dez alunos da rede. Os encontros duraram cerca
atual nos programas de TV –, mas que valorize a de uma hora e meia, durante a qual se desencadeia uma
espontaneidade, a criatividade e a sinceridade das discussão sobre temas que interessam particularmente
convicções apresentadas pelos participantes... O aos adolescentes. Os adolescentes também assistem às
objetivo do programa, desde o começo, é fazer com edições do programa e fazem críticas.
que o jovem perceba que tem coisas importantes
Assim, embora a participação dos adolescentes - e
a dizer, e que essas coisas sejam ouvidas não mesmo dos educadores - não ocorra na instância das
só por outros jovens, como também por pais, decisões sobre os produtos, a Multirio criou diversos
professores e profissionais que trabalham com os dispositivos que permitem uma interação com esses
adolescentes. (p. 2)
atores para que suas idéias cheguem aos produtos de
comunicação. E a participação efetiva do adolescente
A gravação do programa ocorre nas escolas. tem impacto na visão dos professores, que assistem o
A metodologia é desenhada para, de um lado, programa, sobre seus alunos:
estimular a participação e a autonomia dos
adolescentes e, de outro, chegar a um produto
“Cada CRE [Centro Regional de Educação]
final consistente e interessante aos receptores das
reúne todo o pessoal das suas escolas pra assistir
mensagens. Para isso, são feitas duas gravações
e debater os programas e esta resposta vem com
diferentes, uma apenas com os alunos e outra,
muita força: ‘Mas são os nossos alunos!’. ... De
dias depois, com o mediador. No momento da
repente a pessoa descobre que são eles mesmos, de
edição as duas gravações são utilizadas, fazendo
verdade, não é uma farsa, e que eles são legais,
com que a maior parte do programa guarde a
espertos e inteligentes, estão ali falando na
espontaneidade de expressão e a autonomia
televisão. Parece que todo mundo re-descobre o
dos participantes.
que já sabia.” (Diretor do Abrindo o Verbo)
Para a equipe do Abrindo o Verbo, três desafios
principais marcam a produção de um programa
No projeto Juro que Vi, a metodologia
para adolescentes:
participativa é usada para construção das histórias
102
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
com as crianças, de maneira bastante diferente da
No projeto Carta Animada pela Paz que, como
prática de transmissão, muito comum nas salas dissemos, é implementado pela mesma equipe do
de aula. Essas metodologias contribuem para a Juro que Vi, primeiramente as crianças criam as
sociabilidade das crianças.
histórias e produzem os textos. Depois, concebem
a animação. Os alunos constatam que a animação
No princípio, só ele queria falar, não queria requer trabalho e empenho, pois são necessários,
dar vez aos outros. Depois ele foi amadurecendo. em média, 30 desenhos ou quadros, para retratar
Agora, a gente já nota um comportamento muito uma única cena. Mas descobrem também que não
diferente. Parece que a auto-estima dele está um precisam ser excelentes desenhistas nem dispor de
pouco mais valorizada. Ele está produzindo e equipamentos sofisticados para dominar a técnica
participando melhor... Eu acredito que o projeto da animação. Um bom trabalho pode ser realizado
tenha sido um dos elementos que ajudaram nessa com poucos - e baratos – recursos (vide Anexo 4).
integração dele. (Professora de Escola Municipal)
Na Multirio, os desenhos são escaneados e, na tela
do computador, ganham movimento por meio de
Há dois aspectos que chamam atenção no um software chamado flash.
conteúdo das lendas que se transformam em
Embora no campo da produção e disseminação
animações, como a do Curupira. Em primeiro lugar, de conteúdo a Multirio tenha alcance um
são temas que fazem parte das raízes da cultura público numeroso com o portal e com programas
brasileira e que, com freqüência, são deixados de transmitidos pela televisão, os números de
lado pela mídia de massa.
envolvimento direto são relativamente reduzidos,
já que conta-se com uma equipe que tem diversas
Este projeto [ Juro que Vi] é totalmente diferente atribuições (produzir as animações, por exemplo)
dos outros que a gente faz aqui [na escola]. As além da realização das oficinas nas escolas. Durante
crianças tiveram a oportunidade de criar o o primeiro ano do Carta Animada pela Paz, cerca
personagem e a estória, na interação que foi feita. de 100 crianças participaram das oficinas.
Eu achei muito interessante porque descobri que,
O Projeto Século XX1 procura ampliar a
infelizmente, os alunos não conhecem muito sobre compreensão dos professores sobre questões
a nossa cultura. E eles ficaram muito interessados importantes no mundo adolescente, elegendo
em saber sobre a estória do Curupira, depois da os seguintes temas para reflexão: “Funk e Rap”,
Iara e do Boto... (Professora responsável pela sala de “Violência Urbana e Juventude”, “Sexo e Mídia”,
leitura de uma escola municipal).
“Guerra” e “Água”. A aproximação destes temas
se dá com a navegação pela palavra “chave”, que
Além disso, a lenda também lida com a violência significa, no contexto do projeto:
(o caçador, os perigos da floresta), sendo um canal
Conceito: interpretação e análise dos diversos
interessante para expressão, pelas crianças, da pensadores para os temas.
violência na qual estão imersas em seu dia-a-dia.
Hoje: fatos como se apresentam na atualidade.
Como um resultado indireto do trabalho,
Atividade: sugestões para o educador de
pode-se afirmar que o fato dos profissionais de atividades a serem desenvolvidas na escola ou na
animação da equipe desempenharem o papel comunidade.
de educadores e interagirem com as crianças
Vitrine: sugestões de vídeos, livros, sites, filmes
contribui para a qualificar o produto final de etc., que possam apoiar as atividades e o debate e
seu trabalho.
permitam aprofundar os temas.
103
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Experiência: relatos que mostram como
os temas já foram utilizados com sucesso em
situações pedagógicas.
Todos os professores da rede receberam um rico
material impresso com textos produzidos sobre os
temas e cada escola recebeu dois kits (caixa com
livros e vídeo). Isso porque nem todas as escolas
possuem computadores com internet instalada e
optar por contar apenas com suporte de internet
excluiria um público significativo da rede.
Procura-se apresentar um tratamento sofisticado
e consistente sobre temas delicados, por vezes tabu,
mas que o educador que lida com adolescente
precisar dominar, como sexo e drogas. Assim como
outros projetos da Multirio, o Século XX1 trabalha
a desmistificação e a análise crítica do conteúdo
dos meios de comunicação. Também aproxima os
temas de questões ligadas ao Rio de Janeiro, para
que os conteúdos tenham sentido para o público ao
qual se dirigem.
Ao observar os materiais do projeto, percebemos
que há uma tentativa de aproximar o mundo dos
professores das linguagens e das culturas juvenis.
A publicação sobre “Funk” inicia dando a palavra
aos funkeiros e mostrando letras de músicas. A
abordagem procura conectar disciplinas e áreas
do conhecimento. No tema “Funk e Rap”, por
exemplo, há ganchos para a questão do desemprego
juvenil e seu impacto sobre o crime organizado e
para os aspectos econômicos da indústria do funk.
Os conteúdos apresentam-se com uma vasta gama
de desdobramentos e temas correlatos, sempre
associados a aspectos que permeiam a realidade de
professores e adolescentes. A abordagem é bastante
instigante, com um enfoque jornalístico. Procura-se
criar materiais que sejam de grande interesse tanto
para os professores como para os alunos, embora
ainda não existam pesquisas sobre este impacto
(o projeto é relativamente recente). O material,
que contém informações, dados estatísticos e sites
de referência, também propõe a revisão, pelos
“Cada um desses temas, a gente articula o ponto educadores, de conceitos, valores e opiniões:
de vista dos adolescentes com as grandes questões
do século 21, como globalização, revolução
Discutir as relações entre violência urbana e
tecnológica, as novas mídias, a desigualdade
juventude requer cuidado. Há o risco de se tirar
social, as migrações ... a gente tenta manter
do problema toda a sua complexidade. Já se
esta articulação com vistas a uma apropriação
tornou comum concentrar as causas da violência
pedagógica. Por exemplo, que projetos de
na desigualdade social, no tráfico de drogas,
aprendizagem você pode desenvolver a partir
na desestruturação da família, na mídia...
destes cruzamentos? Que materiais educativos
mas nenhuma desses fatores isoladamente pode
você pode ter a disposição para o desenvolvimento
explicar o quadro com que nos deparamos hoje.
dos seus projetos?” (Coordenador do projeto Século
Temos uma espécie de caricatura da violência,
XX1)
que se expressa em imagens específicas, como a
de traficantes em confrontos armados, mortes,
Em meio ao mar de informações em que o
assaltos, roubos. Pouco se fala, no entanto, nos
professor – especialmente aquele das séries finais
pequenos atos violentos cometidos no cotidiano.
do ensino fundamental– tem que navegar e de uma
Discriminação, preconceito, intolerância fazem
realidade em constante mutação, o Século XX1
parte do nosso dia-a-dia sem, muitas vezes, nos
reúne referências e articula dados e conhecimentos
darmos conta, e podem alimentar, com a mesma
da mídia e de pesquisas acadêmicas que possibilitam
força dos atos brutais e truculentos, a cultura da
a ampliação de repertório por meio do cinema,
violência. (extraído da publicação que faz parte do kit
músicas, artes plásticas e literatura.
multimídia do Projeto Século XX1).
104
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Um dos esforços do projeto é a qualificação
dos professores para realizarem projetos com
seus alunos, tendo sido criado, no site do projeto,
um espaço aberto para que professores enviem
seus projetos.
Por último, a ampliação do repertório dos
educadores e da rede como um todo passa pela
aquisição de programas internacionais a serem
exibidos pela Multirio. Há, na empresa, uma
Assessoria de Aquisição que pesquisa programas,
realiza aquisições e avalia, junto aos educadores, a
eficácia e o interesse por eles.
Entre os exemplos de programa estrangeiros bem
avaliados pelo público está o programa “Quando o
Mundo Falava Árabe”. A Multirio transmitiu este
programa em um momento histórico em que se
debatia intensamente a cultura árabe, após os ataques
de 11 de setembro, na época da ofensiva dos EUA ao
Afeganistão. Com o mundo árabe sob os holofotes, a
empresa acreditava ser necessário estimular discussões
mais aprofundadas sobre o tema.
Um desdobramento do programa Abrindo
o Verbo é a abertura para adolescentes que
participaram do programa realizarem reportagens
sobre temas de sua escolha. A pauta para esses
programas é definida da seguinte forma: cria-se
um conselho editorial adolescente que assiste os
principais jornais de determinado período e debate
quais os assuntos que ficaram faltando na cobertura
da mídia. Estes assuntos tornam-se a pauta para
realização do programa. Grupos de alunos também
replicam o projeto na escola, mesmo sem o uso das
câmeras de vídeo:
“Alguns desses núcleos de adolescentes que
participaram do programa começaram a fazer
‘Abrindo Verbos’ entre eles. Não gravados, mas com
a mesma dinâmica.” (Diretor do Abrindo o Verbo)
O desafio para este programa é valorizar a
espontaneidade do jovem. É importante chegar
à escola com uma equipe técnica reduzida (não
chamar tanta atenção) e usar o equipamento de
maneira “passiva”, tentando retirar a agressividade
 PARTICIPAÇÃO
Como foi dito antes, o foco da Multirio é da câmera para que jovem não fique acuado ou não
disseminar produtos de mídia de qualidade, mais do “vista uma máscara”.
que produzir produtos de comunicação nas próprias
escolas. Assim, a questão da participação não se  RELAÇÕES
coloca entre as prioridades nem entre os conceitos A integração com a Universidade é um aspecto
que fundamentam a prática dos projetos.
marcante da estrutura da Multirio. Muitos dos
Há, todavia, ações que recorrem a estudantes cargos de direção são ocupados por pesquisadores
e professores. Alguns exemplos deste esforço são acadêmicos, o que proporciona a união entre o
a elaboração do roteiro do programa Juro que conhecimento sistemático em pesquisa e a riqueza
Vi, para o qual são organizados focus groups da experiência dos professores da rede pública.
com crianças de 6 a 11 anos acompanhadas do
Regina de Assis, presidente da Multirio,
professor. Outro dispositivo que amplia os fluxos mantém-se em contato com o público –
de comunicação na rede é a presença da ouvidoria
professores e alunos da rede pública – por meio
responsável por receber e transmitir, às diversas da exibição do programa Encontros Essenciais,
áreas da Multirio, as opiniões e sugestões da em que ela realiza entrevistas semanais com
rede de ensino. Mas o estabelecimento de personalidades de diversas áreas como cultura,
dinâmicas participativas de maneira orgânica educação, ciência e tecnologia. Nele, o entrevistado
na rede de ensino continua a ser um conceito fala sobre encontros que marcaram sua vida e
ainda distante.
influenciaram sua trajetória.
105
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
O programa Abrindo o Verbo é visto por cerca
de 300 mil pessoas no Rio de Janeiro, indo além
da comunidade escolar. O diretor do programa
estabelece um canal direto para receber sugestões
do público, atendendo, ele próprio, os telefonemas
de espectadores que entram em contato com a
ouvidoria da Multirio para falar sobre o programa.
Há poucas pesquisas sobre como se utilizam
os produtos agrupados sob o guarda-chuva Nós
da Escola. Acredita-se que ainda há certa subutilização, por diferentes motivos, especialmente
pela falta de tempo do professor em razão de
uma jornada excessiva e da rigidez da grade
curricular e de seus horários de trabalho na
escola. Embora os professores de 5a a 8a series
trabalhem 16 horas por semana, das quais 4 horas
são destinadas ao planejamento, muitos dão
aulas em duas escolas simultaneamente (dupla
regência). Em geral, não conseguem se organizar
para criar formas coletivas de uso dos produtos,
pois cada um tem seus horários. Por essas razões,
muitas vezes os produtos da Multirio são vistos
como concorrentes (e não complementares) à
grade curricular.
Grande parte da comunicação produzida e
disseminada pela Multirio é voltada à formação
e atualização em serviço dos professores. A maior
parte dos produtos é auto-referente. Mas, para os
produtos que demandam uma articulação e contatos
presenciais para sua disseminação, esse papel é
desempenhado pela Assessoria de Integração da
Multirio, formada por três pessoas.
A figura do professor da Sala de Leitura parece
fundamental para a capilarização dos projetos da
Multirio na rede de ensino. A principal razão
apontada para a adoção desses professores como
público prioritário de alguns cursos e projetos é
sua disponibilidade: por não possuir uma turma,
podem freqüentar o curso ou despender mais tempo
para conhecer os materiais e planejar seu uso na
escola sem alterar demasiadamente a rotina escolar.
Também acabam se aproximando dos recursos de
comunicação – videocassete, computadores etc. – da
escola, recursos que ficam nas salas de leitura.
Esse aspecto da disseminação do projeto deve
ser observado quando se pensa em expandir o
projeto para um conjunto de escolas ou uma rede de
ensino. Mas neste modelo de disseminação também
está a grande limitação da Multirio – como ela
tem dificuldade em entrar na sala de aula, acaba
recorrendo àquilo que é extra-classe, a biblioteca, e
acaba ficando um pouco “terceirizada” na escola e
afastada do currículo regular.
 PRODUTOS E RESULTADOS
Um resultado significativo das ações da Multirio
no campo da Educação, Comunicação & Participação,
foco deste Relatório, é o espaço que vem abrindo em
seu portal para a participação de professores e alunos.
A intensificação dos fluxos de comunicação na rede de
ensino se torna uma possibilidade real com a abertura
à expressão de quem está no dia-a-dia da escola. Há
hoje, no portal da Multirio, um espaço de divulgação
de blogs e sites escolares, bem como de produtos de
comunicação criados por alunos e professores que
participaram dos cursos realizados pela Assessoria
de Integração (Anexos 1 e 2). As rádios criadas, por
Ela [a Assessoria de Integração] vai a campo, exemplo, são divulgadas inclusive com link para os
discute com diretor de escola, com o coordenador sons de programas gravados pelas crianças. O mesmo
de CREs [Centro Regional de Educação], com ocorre com sites, vídeos e jornaizinhos produzidos.
professores de sala de leitura, que são os professores
Tanto no programa Abrindo o Verbo como
que a gente identifica como o sujeito na escola que no projeto Carta Animada pela Paz, observapode trabalhar um pouco mais esta questão da se uma mudança de postura dos educadores em
mídia. (Diretor de Mídia e Educação).
relação aos alunos. No primeiro, muito assistido
106
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
por professores, nota-se um reconhecimento da
postura do adolescente e há muitos relatos de
elogios da comunidade escolar aos alunos. No
Carta Animada, o interesse e o envolvimento
das crianças – escolhidas em geral por serem
consideradas
“crianças-problema” na escola
– faz com que os professores re-avaliem sua prática
pedagógica ao observar que é possível trabalhar com
esses alunos de maneira mais criativa daquela que
vinham fazendo antes. A equipe de animadores da
Multirio prevê, para este projeto, a produção pelos
alunos de dez vídeos com cerca de dois minutos
cada. Os desenhos animados serão exibidos durante
a 4a. Cúpula Mundial de Mídia para Crianças
em 2004.
A Multirio procura se integrar ao que acontece
no panorama internacional nos campos de mídia
e adolescência. A série CriAtividade é uma coprodução com o canal inglês Channel 4, no qual
uma série de programas de TV é produzida em
diversos países, mostrando adolescentes “que fazem
coisas”, criam, mostram suas habilidades. Como
regra, os programas produzidos mundo afora não
têm fala, para que possam ser vistos por crianças de
diversos países. No Rio de Janeiro foram realizados
seis documentários que já estão sendo exibidos pela
Multirio e que vão circular em outros países, com
apoio do Children’s Television Trust International
(CTTI).
O Curupira é o primeiro de cinco desenhos
animados que fazem parte do projeto Juro que
Vi. Com 10 minutos cada, todos contam lendas
brasileiras. Para a realização do roteiro, o Curupira
teve a participação de estudantes de 4 a 11 anos
(Anexo 3).
Como mencionamos, o alcance dos programas
da Multirio superam o universo da rede de ensino,
atingindo um contexto mais amplo. O Programa
“Rio, a Cidade!”, por exemplo, transmitido todo o
dia na BandRio, alcança o terceiro lugar no Ibope,
perdendo apenas para a Globo e o SBT.
Por fim, o incentivo e o reconhecimento aos
educadores, que passa por salários e plano de
carreira – atribuições da SME –, mas também
pela oferta de materiais de qualidade, de subsídios
ao seu trabalho e pelo reconhecimento dentro
do sistema – objetivos perseguidos pela Multirio
–é uma importante estratégia para melhorar a
qualidade do trabalho docente e o “clima” nas
escolas. A possibilidade explorada pela Multirio de
dar visibilidade ao que ocorre na escola, de produzir
conteúdos e materiais atuais, pensando na prática
do professor transmite, a este profissional, a idéia de
valorização de seu trabalho.
107
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Dados - Multirio
Nome
MULTIRIO – Empresa Municipal de Multimeios Ltda.
Natureza da
organização
Empresa Municipal da cidade do Rio de Janeiro, criada por Lei Municipal em
outubro de 1993.
Responsável pela produção de programas de TV, vídeos, sites, CD-ROM e
publicações voltados prioritariamente para a Educação.
Missão
O objetivo da MULTIRIO é viabilizar um novo paradigma para as práticas
pedagógicas da Educação Pública Municipal do Rio de Janeiro, com o enfoque de
educação cidadã inclusiva, tendo como eixo pedagógico a Multieducação.
Endereço
Largo dos Leões, 15 – Humaitá
22260-210 Rio de Janeiro RJ
Telefone
(21) 2528-8289 / 21 2266-0854
E-Mail
[email protected]
Site
http://www.multirio.rj.gov.br
Responsáveis
Regina de Assis - Presidente
Marcos Ozório – Diretor de Mídia e Educação
Infra-estrutura
Sede própria. Material produzido é utilizado em lavboratórios da rede municipal de
educação do Rio de Janeiro.
Principais
Programas/Projetos
Nós da Escola, Rio: a Cidade!, Abrindo o Verbo, Encontros Essenciais, Juro que Vi,
Carta Animada pela Paz, Fazendo e Acontecendo (Making it) e Projeto Século XX1.
Números de
atendimento
1.044 escolas municipais, cerca de 30 mil professores e 700 mil alunos, de Educação
Infantil e Ensino Fundamental
108
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Equipe/Formação/
Capacitação
Regina de Assis (Presidente da MultiRio)
Marcos Ozorio (Diretor de Mídia e Educação)
Célia Borges (Diretor de Administração de Finanças)
Eduardo Meirelles (Núcleo de Computação)
Fábio Junqueira (Núcleo de Televisão, Rádio e Cinema)
Maria Inês Delorme (Núcleo de Publicações)
Élida Vaz (Ouvidoria)
Formas de
Contratação
CLT e Contrato de prestação de serviços. A Multirio encontra-se em fase de
transição e passará a adotar as regras vigentes na lei do funcionalismo público.
Produtos realizados com a participação de crianças e adolescentes:
Produtos
- Desenhos animados “Simplesmente Acari” e “Paz em Jacarezinho”, que fazem
parte do projeto Carta Animada pela Paz.
- Animação da lenda “O Curupira” cujo roteiro foi criado com a participação de
alunos da rede.
- Programa Abrindo o Verbo, de freqüência semanal, no qual os próprios
adolescentes são os responsáveis pela escolha dos temas e pelo encaminhamento
do debate.
- Blogs e sites escolares ou comunitários, programas de rádio e vídeo publicados
no portal Multirio
Orçamento
R$ 27 milhões
Principais Parceiros
Midiativa
Andi – Agência de Notícia dos Direitos sa Infância e
Cecip – Centro de Criação de Imagem Popular
Unicef – Fundo das Nações Unidas para a Infância
109
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Anexo I - Multirio
SITES E BLOGS DAS ESCOLAS
SITES
www.figpim.hpg.com.br
Escola Municipal Figueiredo Pimentel, Turiaçu
(5ªCRE)
O site traz informações sobre a escola, seu projeto
político-pedagógico, histórico da criação, álbum
de fotos dos eventos realizados e serviços para
o internauta. Há um link para a versão digital
do jornal escolar O Pimentinha, que traz jogos,
com receitas culinárias e pesquisas sobre datas
comemorativas, realizadas pelos alunos.
www.alunosnahistoria.hpg.com.br
(Novo site de alunos)
Escola Municipal Presidente Humberto Castelo
Branco, Sulacap, 8ª CRE
O site, da turma 802 da escola, foi organizado com
apoio das professoras Ana Maria e Sonia Mesquita
. Traz fotos e entrevistas com integrantes da
comunidade escolar.
www.multirio.rj.gov.br/multirio/curso_internet/
santa_marta/index.htm
Escola Municipal Joaquim Nabuco,
Botafogo (2ª CRE)
Vencedor do prêmio Comdedine de Pesquisa Escolar
2003, o site apresenta a história do Morro Santa
Marta, em Botafogo. Gravado em CD, usando
linguagem web, traz o histórico da ocupação do morro
e da chegada de recursos como água e luz, apresenta
perfil e origem de seus moradores e as instituições
que atuam na comunidade, entre outras informações.
Criado pelos professores e por alunos da 8ª série, o
trabalho busca, de acordo com a equipe, suprir a falta
de informações em torno da comunidade de onde
vem a maior parte dos alunos da escola – “pois não se
escreve sobre o pobre, negro e anônimo...”.
http://www.birafitness.com
Escola Municipal Araújo Castro, Campo Grande
(9ª CRE)
Site do professor Ubirajara B. De Almeida,
oferece informação a respeito de exercícios físicos,
modalidades de trabalho do profissional de
Educação Física, saúde, alimentação, entre outros
temas afins. Traz, ainda, links de serviço para os
professores, como acesso a contra-cheque, Diário
Oficial e calendário de pagamento.
http://vicentinhohtml.sites.uol.com.br
Escola Municipal Vicente Licínio Cardoso, Zona
Portuária (1ª CRE)
O site oferece ao internauta um panorama bem
completo do dia-a-dia, do perfil e das propostas
da escola. Descreve os projetos desenvolvidos por
alunos e professores, sobre o mundo do trabalho e
a região portuária, onde a escola se localiza e sobre
meio ambiente (com foco no tema Água); apresenta a
íntegra do estatuto de criação do grêmio estudantil da
escola; traz informações sobre a zona portuária, como
mapas, opções de lazer, linhas de ônibus, características
locais, pontos de referência etc. Oferece, ainda, link
para o jornal Vicentinho, com direito a fotos da equipe
que produz o jornal, e para os blogs das alas dos alunos
e das alunas de 5ª a 8ª séries da escola.
geocities.yahoo.com.br/generalosorio2002
Escola Municipal General Osório, Coelho Neto
(6ª CRE)
O site traz informações sobre o projeto políticopedagógico da escola, apresenta desenhos e
outras produções dos alunos, tem espaço para
chat e fórum de discussão e oferece, ainda, link
para o blog coletivo Violência urbana, dia sim à
110
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
paz, movimentado pelos alunos e pela professora
Fátima Lucia Braga, para o jornal eletrônico da
escola, Gemgo, para o portal MULTIRIO e para o
projeto Século XX1.
www.explosaoonline.kit.net
Escola Municipal Barão de Santa Margarida,
Campo Grande (9ª CRE)
Site do jornal eletrônico da escola, reúne notícias
do cotidiano escolar, como visitas recebidas,
premiações, participação da escola em eventos;
artigos e poesias; entrevistas; e serviço, como
levantamento de preços de alimentos que
compõem a cesta básica. Todos os textos são
produzidos por alunos.
BLOGS
http://www.escolaernanicardoso.blogger.com.br
Escola Municipal Ernani Cardoso, Guadalupe
(6ª CRE)
Os projetos desenvolvidos pela escola e os
trabalhos dos alunos deles decorrentes compõem
este blog, realizado sob orientação da professora
Maria Aparecida Braga de Oliveira.
http://hdpensante.weblogger.terra.com.br
Pólo de Educação pelo Trabalho José Emygdio
de Oliveira, Oswaldo Cruz (5ª CRE)
Blog do professor Vítor Nunes, que trabalha no
Pólo, com oficinas de Informática Educativa,
Rádio e Imprensa Escolar. O blog traz textos que
analisam a prática docente e descrevem o processo
de trabalho nas oficinas.
http://www.blogremio.blogger.com.br
Escola Municipal Alba Cañizares do
Nascimento, Inhoaíba (9ª CRE)
O Blogrêmio foi criado em agosto de 2003 pelos
alunos do Grêmio Estudantil da Alba Cañizares.
Orientados e incentivados pela professora
Margarete Nascimento, eles utilizaram apenas o
computador da Direção, único na escola ligado à
Internet, para construir o blog, onde os visitantes
encontram as novidades sobre a escola e seus
projetos, opiniões dos alunos e fotos.
http://taniamara.weblogger.terra.com.br
Pólo de Educação pelo Trabalho General
Humberto de Souza Mello, Vila Isabel (2ª CRE)
Em seu blog, a professora Tania Mara Antunes,
compartilha com os internautas as formas como
desenvolve atividades com os alunos, relata os
passeios e outros eventos realizados e apresenta
as pesquisas que os alunos vêm desenvolvendo.
Oferece, ainda, links para blogs de todos os alunos,
cujo desenvolvimento ela coordenou. O relato
desta experiência também consta do blog.
http://www.albertsabin303.blogger.com.br
Escola Municipal Albert Sabin, Vila da Penha
(5ª CRE)
Crianças de 9 a 12 anos da E. M. Albert Sabin
estão dando seu recado no blog Turma 303 em
Ação. A professora Celestina Bittencourt e seus
alunos mantêm o blog, desenvolvido durante
a oficina Navegando e Criando na Internet,
atualizado com muitas poesias escritas por eles
mesmos, mensagens contra as drogas e divulgação
das atividades realizadas na escola. Há até uma
Corrente do bem para que “todos passem de ano”.
Vale a pena conferir.
http://emcharlesdickens.blig.ig.com.br
Escola Municipal Charles Dickens, Campo
Grande (9ª CRE)
A professora Dalinda Lemos, da sala de leitura, foi
quem deu o pontapé inicial para que os alunos da
E.M. Charles Dickens criassem um blog. E eles
capricharam. Com visual atraente, o blog Charles
é usado para que os alunos divulguem e comentem
eventos e projetos em que estão envolvidos na
escola. O espaço é utilizado também para oferecer
aos internautas dicas sobre internet.
111
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
http://www.emoctavio.blog.aol.com.br
Escola Municipal Octávio Tarquínio, Pavuna (6ª
CRE)
Quem visitar o blog Octávio Tarquínio em Ação
vai ficar por dentro das atividades desenvolvidas
na escola, como o júri simulado, as oficinas, festas
e passeios. O blog foi criado em novembro de
2003, pelas professoras Maria Aparecida Braga de
Oliveira, da sala de leitura e Luciene Coutinho,
coordenadora pedagógica e já está recebendo
comentários.
http://www.violenciatofora.blogger.com.br
Escola Municipal Presidente João Goulart,
Ipanema (2ª CRE)
Os alunos da professora Regina Fortes criaram
um blog onde escrevem suas opiniões sobre as
causas da violência e o que fazer para acabar com
o problema, seja na escola, na rua, nos bailes que
freqüentam. A mensagem pacifista é expressa de
diversas maneiras, com poesia, rap e recadinhos
rápidos, que falam também da necessidade de
acabar com os preconceitos sociais e de difundir a
solidariedade e a tolerância entre as pessoas.
http://www.escoladecristal.blig.com.br
Escola Municipal Belisário Pena, Campo
Grande (9ª CRE)
Em sintonia com o Projeto Político Pedagógico
da escola, que realiza trabalho voltado para textos
em prosa e poesia, o blog, batizado de Escola
de Cristal, busca conciliar informação, pesquisa,
conhecimento e processo de produção aos recursos
de informática. O resultado é traduzido em poesias
de alunos, que são apresentadas no espaço. Em
destaque, os poemas que homenageiam o bairro de
Campo Grande, onde fica a escola.
www.emnacunidas.blogger.com.br
Escola Municipal Nações Unidas, Bangu (8ª
CRE)
O blog traz informações sobre o dia-a-dia da escola
e sobre os trabalhos realizados pelos alunos em
torno de temas relacionados ao Projeto Século XX1.
Fonte: Portal Multirio
http://www.multirio.rj.gov.br
112
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Anexo II - Multirio
PROFESSORES E ALUNOS: DE CONSUMIDORES A PRODUTORES DE MÍDIA
Rádio Tagarela
Escola Municipal Waldir Azevedo
Franco, Bangu (8ª CRE)
A montagem da rádio começou em 4 de agosto de
2003, por iniciativa da professora Claudia Senna,
da sala de leitura. Desde setembro, a programação
fica a cargo dos alunos, responsáveis pelo roteiro e
pela locução. Os programas têm cunho pedagógico,
sem deixar de ser divertidos, e vão ao ar
diariamente, ao vivo, por 10 minutos. A professora
ressalta a força de vontade da equipe, assim como
Ao aproximar os alunos da mídia, não apenas o apoio da direção da escola, da coordenação
como usuários, mas como produtores, as oficinas pedagógica e do corpo docente como fundamentais
de mídia buscam não só contribuir para o para o funcionamento da Tagarela FM.
enriquecimento das atividades pedagógicas da rede
pública da Prefeitura do Rio, como para tornar esses
Fonte: Portal Multirio
alunos leitores críticos daquilo que lhes é oferecido
http://www.multirio.rj.gov.br
nos jornais, na televisão e via internet.
Ao longo de 2003, cerca de 300 professores de
Salas de Leitura das escolas públicas municipais do
Rio de Janeiro participaram de oficinas de mídia
organizadas pela MULTIRIO e sua Assessoria
de Integração. Em aulas práticas e teóricas, eles
aprenderam a criar rádios escolares, vídeos, jornais
e blogs e também a elaborar projetos. O resultado
foram cerca de 100 trabalhos que realizaram em
suas escolas, com seus alunos, alguns dos quais
reproduzidos aqui.
113
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Anexo III - Multirio
Numa noite de lua cheia, no coração da floresta,
aconteceu esta história. Uns dizem que é lenda,
coisa do povo da roça, que tem muita superstição.
Outros não.
Dizem que aconteceu de verdade.
Um caçador e seu ajudante estavam em busca de
aventura. O caçador desafiava as trevas e os mistérios
da floresta com sua espingarda, caçando por esporte
e para afirmar sua valentia. A lenda diz que o
Curupira é o espírito guardião da floresta. Com
seus pés para trás e cabelo vermelho, o Curupira
não tolera abusos. Ele sempre pune aqueles que não
respeitam a floresta.
Quem estava lá me contou assim. E disse: JURO
QUE VI.
Quando decidimos iniciar a série pelo
Curupira, a equipe de arte começou a procurar
referências: arte popular brasileira, livros
infantis, imagens de cenários prováveis, fotos e
desenhos de animais da nossa fauna, tudo que
pudesse ajudar a definir o visual do filme. Desse
estudo, vieram dezenas de pinturas conceituais
de cenários e personagens. Aqui temos a
evolução do “Tobias”, o ajudante do caçador.
corretamente, faziam um pencil-test, ou seja:
escaneavame tocavam os desenhos no computador
ainda sem cores. Os desenhos prontos eram
mandados para o pessoal de clean-up, que
limpava os traços para que fossem coloridos.Com
os lay-outs prontos, mais de 80 cenários foram
pintados diretamente no computador
Para fazer o som, os produtores musicais
trabalharam primeiramente os efeitos sonoros: os
ruídos da floresta, vozes e efeitos especiais. Depois,
criaram a trilha musical, que foi dividida de acordo
com as várias partes do filme. Assim, cada parte
da música reforça o que os desenhos mostram.
A música contou com a participação especial do
músico pernambucano Naná Vasconcelos, que
foi gravada em Recife.Esse filme contou com
a colaboração dos alunos da Escola Municipal
George Sumner da 3ª Coordenadoria Regional de
Educação, da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Made with the collaboration of children from
the Public Elementary Schools of the City of Rio
de Janeiro
Beatriz Limeira (8 anos)
César Bernardo Dutra (10 anos)
Edson Pereira de Lima Jr. (7 anos)
Luiz Felipe da Silva Carvalho (8 anos)
Renata Soares da Silva (7 anos)
Os animadores recebiam uma cena de cada vez. Sthefanie Arruda da Silva (10 anos)
Então, começavam pelos desenhos principais, Taiane da Silva Pereira (9 anos)
e para ver se os personagens estavam animados Thaynara Costa de Souza (8 anos)
114
Educação, Comunicação & Participação
Multirio - Empresa Municipal de Multimeios
Anexo IV - Multirio
CONSTRUINDO UM LABORATÓRIO DE ANIMAÇÃO
O laboratório de animação do Ciep Adão Pereira Para fazer a mesa de luz:
Nunes, em Acari, Zona Norte do Rio, foi montado
no início deste ano e funciona na sala de leitura
Material necessário: Pedaços de madeira;
da escola. A direção gastou cerca de R$ 600 para lâmina de vidro; folha de papel vegetal; lâmpada de
equipar a oficina, com papéis, canetas, lápis de 40W ou 60W
cor e a confecção de 15 pequenas mesas de luz.
Montagem:

Para a diretora, Ademilda José Maria, valeu a
Construa uma caixa com os pedaços de
pena. Desde que as aulas de animação começaram,
madeira

as faltas diminuíram. “Não há preço que pague a
Utilize a lâmina de vidro para o tampo. • No
alegria das crianças nessas aulas”, diz
interior da caixa, coloque a lâmpada, que
E não é só isso. A professora Rosi Marilane,
deve estar ligada à corrente elétrica.

que comanda a oficina, explica que as aulas
Cubra o vidro com o papel vegetal.

elevam a auto-estima do grupo e desenvolvem a
Os pinos devem ser afixados no beiral
criatividade e a desenvoltura na produção de textos.
superior da madeira para segurar o papel.

A distância dos pinos deve ser a mesma dos
Na oficina de animação, é possível trabalhar
furadores de papel. Eles devem estar firmes
também os conteúdos de outras disciplinas, como
para garantir a precisão do registro.
Física e Matemática. A questão da aceleração do
movimento, bem como frações e conjuntos são
temas que surgem durante o trabalho.
115
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
NCE
NCE - Núcleo de
Comunicação e Educação

HISTÓRIA
O projeto Educomunicação pelas Ondas do Rádio
ou, como é mais conhecido, educom.radio, é hoje a
ação mais visível de um conjunto de atividades que
fazem do Núcleo de Comunicação e Educação da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo (NCE/ECA/USP) a principal referência
no Brasil no campo da pesquisa acadêmica e da
disseminação da chamada educomunicação.
Surgiu de uma proposta de parceria da Secretaria
Municipal de Educação de São Paulo, que desafiou
o NCE a instalar, até o final de 2004, uma rádio em
cada uma das 455 escolas de ensino fundamental
da rede paulistana. Para isso, o educom.radio
deverá formar, em três anos e meio, mais de 11
mil pessoas, com cursos semestrais de 100 horas,
cobrindo estudantes, professores, coordenadores
pedagógicos, diretores e membros da comunidade.
Cerca de 40% desse atendimento ocorrerá em
2004. É um dos maiores projetos de Educação,
Comunicação & Participação em redes públicas de
ensino do país.
O ideal de Universidade que articula ensino,
pesquisa e extensão está muito presente no
trabalho do NCE, cujos coordenadores citam com
freqüência, ao se referir ao educom, a inter-relação
entre teoria e prática. As influências teóricas cobrem
desde o educador francês Celèstin Freinet (18961966) até Paulo Freire (1921-1997), passando por
antropólogos, psicólogos e psicanalistas, pela Escola
de Frankfurt, por sociólogos, entre muitas outras.
Um comentário de Freinet, escrito no início do
século passado, talvez resuma bem o objetivo não
só do educom.radio como de toda a atividade do
NCE relacionada à educação escolar: “As técnicas
tradicionais [de ensino] são isoladas da vida e todos
os alunos se desinteressam. Precisamos restabelecer
o circuito para ligar a escola à realidade.”
Nas palavras de um educador e coordenador do
educom.radio:
O que a gente está trabalhando é a mudança
nas relações.
Ou ainda, segundo um dos responsáveis pelo
projeto por parte da Secretaria Municipal de Ensino
de São Paulo (SME):
Com rádio você começa a repensar as práticas
cotidianas da escola. As relações mudam.
Por trás desse movimento – e para se compreender
as bases teóricas que sustentam a prática do NCE –
está o conceito de ecossistemas comunicativos, que,
como o conceito educomunicação, foi cunhado por
um dos principais protagonistas na América Latina
da reflexão-ação acadêmica sobre as sociedades
116
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
mediatizadas tecnologicamente, o colombiano Jesús
Martín-Barbero, autor da obra, já clássica na área,
“Dos Meios às Mediações: Comunicação, Cultura
e Hegemonia”1.
Em síntese, esses conceitos pressupõem que a
comunicação é parte essencial da produção e reprodução
da cultura – na acepção antropológica desse termo. Ou
seja, a comunicação, na qual estão envolvidas pessoas
e tecnologias (as mediações), participa da criação de
sentidos, daquilo que move as pessoas.
De uns tempos para cá, certas tecnologias, como
o rádio, a televisão e a internet, têm tido um papel
cada vez mais central nos processos de comunicação
e, conseqüentemente, na produção da cultura.
Só que esses meios de comunicação podem ser
dominados por alguns – deixando a maioria como
receptora – ou ser acessível a todos – neste caso,
também como emissores. Saber lidar com essas
tecnologias, comunicar-se com elas, representa,
assim, ter instrumentos para influir na própria
sociedade e em suas relações.
Daí a importância de trabalhar essas questões
na escola – instituição, por tradição, voltada para a
transmissão de informações e produção de sentidos
compartilhados. A escola educomunicativa proposta
pelo NCE se contrapõe à escola tradicional,
funcionalista, que apenas reproduz o status quo.
Esses conceitos – educomunicação, ecossistemas
comunicativos, mediações, funcionalismo, emissão e
recepção – serão aprofundados ao longo deste texto.
Segundo o fundador do NCE, Ismar de Oliveira
Soares, a história do educom.radio remonta 30
anos. Talvez pudesse ser iniciada ainda antes,
nas décadas de 50 e 60, quando a Igreja Católica
disseminou no país o uso das rádios comunitárias
como instrumento educativo. Mas foi no final
dos anos 70 que a União Cristã Brasileira de
Comunicação criou o projeto Leitura Crítica da
Comunicação, que atendia lideranças comunitárias
e professores, com seminários de curta duração,
centrados na recepção crítica da mídia, com ênfase
na televisão, suas novelas e noticiários.
Ocorreram cerca de 60 cursos ao ano, ao longo da
década de 80, que, entre outras coisas, disseminaram
pelo país a expressão “leitura crítica da mídia”.
O grupo que desenvolvia essas ações participou,
inclusive, das discussões da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional, a LDB, promulgada
em 1996. “Isso deu uma perspectiva de trabalho em
rede, em grande escala”, diz essa liderança.
Em meados da década de 80, Soares ingressou
na Escola de Comunicações e Artes da USP,
onde continua desenvolvendo projetos nessa área
e lança o Simpósio Brasileiro de Comunicação
e Educação. Até hoje, ele mantém relações com
movimentos religiosos no campo da comunicação
e educação, e atualmente preside a União Católica
Internacional de Imprensa (UCIP). Em 1996 criou
o Núcleo de Comunicação e Educação, que passa
a ser o promotor da principal reunião acadêmica
do país nessa área. Em 2003, já na sexta edição, o
encontro foi renomeado como Simpósio Brasileiro
de Educomunicação.
Entre 1997 e 1999, o NCE liderou uma pesquisa
cobrindo 12 países ibero-americanos, com uma
amostragem de 172 especialistas que trabalhavam
com a relação comunicação-educação2. A partir dos
resultados desse e de outros estudos3, o grupo propõe
a emergência da educomunicação como um novo
campo, que não é nem comunicação, nem educação.
Ainda que ela beba elementos de cada uma,
ela tem outras origens que não só a comunicação
e a educação. Ela tem origem na antropologia,
na sociologia e na psicologia, por exemplo, e nas
ciências sociais em geral. E aí nós descobrimos a
existência do educomunicador [...] O Celèstin
Freinet, por exemplo, era um educomunicador;
Paulo Freire era educomunicador; Betinho foi
um educomunicador. Nós não inventamos isso,
verificamos que existia o perfil de um profissional
com um pé na comunicação, um pé na educação,
e uma mão na sociologia, uma na medicina... em
várias áreas. Todos eles preocupados com a questão
1Rio
de Janeiro, EdUFRJ, 1997
“Comunicação/Educação: A Emergência de um Novo Campo e o Perfil de seus Profissionais”,
Contato, Revista Brasileira de Comunicação, Arte e Educação, ano 1, n.2, pp 17-74
3Como o realizado pela Marquette University (Milwaukee, Wisconsin), 1999-2000
2
117
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
do confronto mercado-cidadania. E com uma
opção clara pela cidadania. Não que desprezassem
o mercado – eram pessoas que trabalhavam,
tinham projetos. Mas [...] colocavam no resultado
cidadão o seu foco de atenção [...] Aí nós sentimos
a necessidade de difundir as descobertas dessa
pesquisa e nos propusemos também a oferecer
assessoria. (Ismar de Oliveira Soares)
Uma das primeiras experiências do NCE em
assessorias foi Programa de Educação Continuada
do Estado de São Paulo, no final da década de 90.
Envolveu duas diretorias de ensino, 900 professores
por ano, com cursos sobre tecnologias da informação,
a partir da perspectiva da educomunicação.
A circulação nacional e internacional das
principais lideranças do projeto e seu envolvimento
na criação e produção de congressos e publicações
colocou o grupo em contato com diversas
experiências na África, nos Estados Unidos, na
Europa, no uso da comunicação para combater a
violência, entre muitas outras.
No início da administração de Marta Suplicy (PT)
na cidade de São Paulo, em 2001, uma das alunas
do curso de extensão universitária em gestão de
processos comunicacionais, oferecido pelo NCE na
USP, era professora da rede municipal e propôs que
o núcleo experimentasse trabalhar com a violência
existente em sua escola – que já havia sido depredada
duas vezes. A professora-aluna promoveu uma
aproximação do NCE com a Secretaria Municipal de
Ensino (SME), que, depois de conhecer a proposta,
desafiou o grupo a cobrir toda a rede (quase mil
escolas). O NCE negociou e acertou cobrir as 455
escolas de ensino fundamental.
O educom.radio entrou na rede municipal no
segundo semestre de 2001, via Projeto Vida, criado
na época pela SME para lidar com a violência escolar.
A idéia deste projeto é articular diversas atividades,
inclusive, abrindo as escolas aos finais de semana,
tendo como conteúdo os temas transversais propostos
pelos Parâmetros Curriculares Nacionais do MEC.
Assim, a secretaria negociou que o NCE, além de
instalar rádios e capacitar as comunidades escolares a
lidar com elas, também ofereceria formação nas áreas
cobertas pelos temas transversais.
Eles queriam que os alunos e professores
usassem a rádio para mexer com meio ambiente,
com cidadania [...] O desafio foi maior, porque
acabou duplicando nossa tarefa. Tivemos que
montar uma equipe muito grande, de palestrantes,
de especialistas, porque o projeto de rádio em si
poderia ser menor. (Ismar de Oliveira Soares)
No segundo semestre de 2003, a equipe do
projeto somava quase 200 pessoas. Nos primeiros
cinco semestres do projeto (2001 a 2003), cerca
de 500 educadores e profissionais passaram pelo
educom.radio.
Uma parte essencial do educom.radio
– a aquisição dos equipamentos – também trouxe
enormes desafios. Quando solicitado a fazer a
lista dos materiais necessários por escola, o NCE
produziu uma lista do que seria ideal [veja em
Pedagogia/Metodologia]. O preço por escola
superou um pouco o valor de uma compra realizável
pelo Poder Público Municipal sem licitação (R$
8 mil), e as rádios entraram na burocracia de
aquisições da Prefeitura. Atualmente, a coordenação
está sugerindo que a lista de equipamentos seja
simplificada. Em alguns casos, a rádio chegou quase
um ano depois da capacitação.
O projeto aprendeu muito com a dificuldade
de acesso aos equipamentos. Novas linguagens
acabam sendo incorporadas. Um gravador assume
um papel muito mais importante. (Coordenadora
do NCE)
Talvez a maior deficiência do projeto, ressaltada
pela própria equipe coordenadora, seja a ausência de
uma avaliação mais sistemática e, idealmente, externa,
de resultados, com marco zero e aferição posterior à
118
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
capacitação e implantação do equipamento. Assim,
é difícil, dada a abrangência do projeto, analisar seus
resultados globais, frente aos objetivos estabelecidos
– que, aliás, são complexos de aferir (participação da
comunidade, inserção na grade curricular, alterações
no ecossistema comunicativo da escola etc.).
Foi pensado, mas não foi orçado. Não havia
verba suficiente para avaliação [...] Estamos
sugerindo que a Prefeitura faça isso. (Ismar de
Oliveira Soares)
O que se sabe é que em algumas escolas o projeto
não deslancha, por razões discutidas à frente. Em
outras, é visível o envolvimento da comunidade com
a sua rádio e a inserção desta na vida da escola.
Quando vi os professores e alunos discutindo
juntos o planejamento da rádio em sua escola, e
surgiram discussões sobre disciplina e violência,
entendi que o rádio é o veículo de integração desses
dois públicos, por vezes tão distantes. (Mediadora
do educom.radio)
Um encontro de jovens radialistas do projeto
lançou, em dezembro 2003, um manifesto
denominado “A Rádio que Queremos”:
... que tenha a participação de todos, seja livre
para a gente dizer o que pensa e dê transparência
ao que se faz na escola [...] Talvez, um slogan
legal para a rádio que queremos seja este: os
incomodados não se mudem. Os incomodados que
façam mudar! 4
Resultados como esses e a própria dimensão
do projeto dão a ele visibilidade crescente,
inclusive em meios de comunicação de massa.
No segundo semestre de 2003, o MEC, gestão
Cristovam Buarque, também incorporou a idéia
da educomunicação e disponibilizou recursos para
trabalho semelhante ao de São Paulo em 70 escolas
4Site
do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás,
a partir de 2004. Será um curso semi-presencial,
associado ao projeto Rádio Escola do ministério.
 GESTÃO
O projeto educom.radio enfrenta grandes desafios
de gestão. Além do orçamento enxuto e “carimbado”,
de trabalhar em uma área para a qual não há fórmulas
prontas, nem muita experiência acumulada, da sempre
conflituosa relação professor-aluno-mediada-portecnologias, o NCE administra uma vasta e jovem
equipe e uma complexa rede de parcerias.
De um lado há a Universidade de São Paulo e sua
Escola de Comunicações e Artes, em que se insere o
NCE. “A USP valoriza muito o ensino e a pesquisa,
mas não a extensão”, diz um dos coordenadores do
projeto. Trabalhos como o educom.radio, embora
possam garar pesquisas, são nitidamente atividades de
extensão universitária. Assim, dentro de sua própria
casa, o NCE enfrenta o desafio de amarrar alianças e
de cuidar para não ferir sensibilidades acadêmicas.
Para enfrentar essas dificuldades, o projeto abre
espaço para que docentes da ECA e da Faculdade
de Educação da USP participem e ofereçam
contribuições a partir de suas especificidades,
mantendo uma certa pluralidade no tratamento das
questões conceituais envolvidas no projeto.
Além da USP, há o Poder Público, aqui
representado pela Secretaria Municipal de Ensino
de São Paulo, que entrou 2004 com seu quarto
secretário desde o início da gestão Marta Suplicy
– o que complica a interlocução [Leia mais no item
Parceria com a Escola].
O terceiro público envolvido na parceria
que sustenta o educom.radio é encarregado
de trabalhar a formação nos chamados eixos
temáticos do projeto, especialmente os conteúdos
relacionados aos temas transversais dos PCNs. Esse
grupo é composto por professores universitários,
dirigentes de organizações não-governamentais e
outras instituições que trabalham com educação,
radialistas, comunicadores, militantes, entre
www.educomradio.com.br
119
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
outros. Como no caso dos colegas da USP, essas
pessoas e organizações têm visões próprias sobre
como organizar um projeto social das dimensões
do educom – o que é potencialmente conflituoso
para a equipe.
Some-se a isso toda a papelada e burocracia
necessária para remunerar de uma forma ou de
outra todas essas instituições e pessoas, e oferecer
mais de 10 mil certificados de curso de extensão
reconhecidos pela USP e pela SME – dá para
se ter uma idéia do trabalho que dá gerir o
educom.radio.
O documento base para orientar esse trabalho é o
contrato assinado entre o NCE (por intermédio da
Fundação Universidade de São Paulo, a FUSP) e a
SME em 2001. Estabelece que a gestão do projeto
é feita pelo NCE em conjunto com o Projeto Vida
– que lida com violência nas escolas.
Mas, como o Projeto Vida é em grande parte
extra-classe e extra-curricular, muitas vezes aos
finais de semana, e o educom.radio é uma de várias
ações associadas a ele, o nível de interferência da
SME na sua condução tem sido reduzida.
Em geral, na fase inicial de experiências desse tipo,
as funções de cada pessoa, especialmente na equipe
de coordenação, ainda são pouco diferenciadas. À
medida que o projeto se expande, esse modelo de
gestão colegiada tende a inflar o número de pessoas
envolvidas em cada decisão ou reunião, e acaba
consumindo mais energia e tempo.
É sempre conflituoso superar essa fase pioneira,
mais participativa, para uma em que as funções de
cada um estão mais bem definidas e as questões
relacionadas aos projetos são distribuídas entre
várias lideranças. E não foi sem conflito que, do
terceiro para o quarto semestre do educom.radio,
houve uma reestruturação do modelo de gestão do
NCE e, por extensão, da gestão do projeto.
A principal mudança foi a instituição de um
Conselho Gestor, que se reúne semanalmente, e
a criação de coordenadorias. O Conselho Gestor
é composto pelo supervisor do projeto, Ismar de
Oliveira Soares, e por sete pessoas envolvidas na
liderança de seis coordenadorias:

Capacitação técnica-pedagógica

Comunicação

Formação

Gestão administrativa

Memória

Site
Além disso, o projeto divide as 455 escolas em 13
pólos regionais, cada um com uma equipe composta,
em média, por 10 pessoas (um articulador, que
se reúne semanalmente com a coordenadoria
de formação, um assistente de coordenação,
mais os chamados mediadores). A SME também
disponibiliza um ou mais responsáveis pelo
projeto em sub-prefeituras5 associadas aos pólos.
Além desses profissionais, há ainda cerca de 40
palestrantes de eixos temáticos. Considerando
outros funcionários de apoio envolvidos, dá ao todo
quase 200 pessoas.
Cada pólo tem seu e-group e reunião específica
de coordenação. O Conselho Gestor e muitas
coordenadorias também têm seu e-group. E
assim, com reuniões de CG, de formação, por
pólo, reuniões mensais gerais, mais os e-groups,
o site, um boletim informativo trimestral, e muita
conversa e negociação, se estrutura a gestão do
educom.radio.
 SUSTENTABILIDADE
Na perspectiva de ONGs que têm projetos com
orçamentos em geral na casa das dezenas ou
centenas de milhares de reais, o valor contratual
do educom.radio, de R$ 5,8 milhões em três anos
e meio, pode parecer elevado. Para universidades
também: este valor é superior ao orçamento anual
da ECA/USP.
Mas, quando perguntado se mudaria algo
no contrato assinado entre o NCE e a SME, a
principal liderança do projeto responde de imediato:
“Eu colocaria uma clausula financeira de reajuste
pela inflação.”
5Criadas
pela gestão petista em São Paulo, as sub-prefeituras estão assumindo as funções
relacionadas à Educação antes coordenadas por 13 NAEs (Núcleos de Ação Educativa),
responsáveis pelas escolas de determinadas regiões; 17 das 31 sub-prefeituras já
desempenhavam esse papel em 2003
120
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Nós vamos partir agora para uma nova fase
do projeto estrangulados, porque não só não houve
correção, como houve um corte de 5% devido ao
imposto que a Secretaria de Finanças [de São Paulo]
passou a cobrar de todas as prestações de serviços com
que ela trabalha. (Ismar de Oliveira Soares)
Como em todo projeto pioneiro, a construção do
orçamento do educom.radio envolveu uma certa
dose de “futurologia”. Com a execução, surgiram
novas demandas e, conseqüentemente, novas
despesas. A solução foi realocar recursos já previstos
no orçamento ou buscar novas parcerias. Foi assim
que se montou a equipe que produz o site e o boletim
“O Educomunicador”. Foi assim também que se
superou o impasse do transporte de cerca de 170
pessoas todos os sábados – o que, contratualmente,
deveria ser oferecido pelos NAEs, que não tiveram
dinheiro nem infra-estrutura para isso.
O resultado é que o educom.radio tem que fazer
uma certa ginástica orçamentária para dar conta
de todos os desafios assumidos. Para complicar, a
liberação de recursos pela Prefeitura (e do Poder
Público em geral) costuma ser feita em blocos,
cobrindo vários meses – o pagamento de um
palestrante, por exemplo, chega a levar um trimestre.
Juntando a complexidade da equipe, a falta de
equipamentos, mais os atrasos no pagamento, esse
projeto tinha tudo para dar errado. Na verdade,
eu acho que o milagre por trás desse projeto se
chama educomunicação [...] Porque se fosse um
curso de educação curricular, já teria fracassado.
 PARCERIA COM A ESCOLA
O educom.radio é um projeto com características
de política pública, dada a cobertura de escolas.
Assim, analisaremos a parceria com a escola sob duas
perspectivas. Em primeiro lugar, num plano mais
macro-político, a relação do NCE com a Secretaria
Municipal de Educação. Num segundo momento,
discutiremos mais especificamente a inserção da
rádio em cada escola, a micro-política do projeto.
Para ganhar o vulto do educom.radio numa rede de
ensino, qualquer projeto depende de articulação com
as instâncias de gestão da Educação. As experiências
analisadas nesta pesquisa – como o Clube do Jornal
Escolar, em Fortaleza, ou o Latanet, em Belo
Horizonte – demonstram que quanto mais estreita for
essa articulação, melhor tendem a ser os resultados. A
“terceirização” dos projetos de Educação, Comunicação
& Participação, isto é, eles acontecerem sem muita
articulação com o restante das atividades da rede, ao
contrário, tende a diminuir o impacto. Mudanças
políticas na estrutura de gestão da rede também
afetam fortemente essas experiências.
No caso da SME, de 2001 a 2003, passaram
pela pasta quatro secretários – sendo que o
educom.radio foi negociado na gestão do primeiro
desses secretários. O projeto se manteve, apesar
dessas mudanças políticas – por ter contrato de
três anos e meio e estar associado a um trabalho
importante para a Prefeitura, o Projeto Vida, de
prevenção à violência escolar. Mas, no lugar de
inserir-se cada vez mais no cotidiano das escolas,
tendeu, em alguns momentos, a caracterizar-se
como um daqueles projetos “terceirizados”.
(Ismar de Oliveira Soares)
Fica na dependência de uma avaliação externa
abrangente a análise da sustentabilidade do projeto
para além da fase de formação – isto é, se as rádios,
uma vez implantadas, se sustentam na escola e
na comunidade, independentemente de quem é
secretário ou prefeito. Como diz um técnico da
SME, “os governos passam, a comunidade fica”.
O Educom ficava um pouco fora das discussões
da rede. (Matias Vieira, coordenador do Projeto Vida)
Tanto a coordenação do Projeto Vida como do
educom.radio afirmam que o ideal seria o trabalho
com rádios estar associado ao DOT (Departamento
de Orientação Técnica), responsável por questões
curriculares e formação de professores. Na verdade,
121
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
em 2003, comentava-se nas instâncias de gestão da
rede que o próprio Projeto Vida se beneficiaria se
estivesse mais vinculado ao DOT (a ironia é que
ambos, Vida e DOT, estão no mesmo andar de um
prédio da SME).
O Projeto Vida busca ações integradas para
lidar com a violência. Não dá para as ações serem
desintegradas das ações pedagógicas da escola [...]
A escola oferece o muro, mas não a sala de aula.
O professor de arte não traz o grafite para a aula.
(Matias Vieira, coordenador do Projeto Vida)
Sintetizando, no plano macro-político, o
educom.radio ressente, como muitas outras ações,
as descontinuidades administrativas na SME. Além
disso, aponta para a possibilidade de ampliar o seu
impacto se estiver mais associado aos processos
regulares de planejamento curricular e de formação
de professores.
À medida que o trabalho avança e ganha
visibilidade, novas articulações e alianças são feitas
entre lideranças do projeto, da educação municipal
e da cúpula da Prefeitura. Encontros e conversas
informais entre essas lideranças ocorreram algumas
vezes em 2003 – por exemplo, na inauguração de
CEUs (Centros Unificados de Educação, principal
projeto de Educação da gestão Marta Suplicy), o que
gera boas perspectivas de superação desses desafios.
Ainda no plano estrutural, a mudança freqüente
de professores e diretores de escola deixa desfalcadas
as equipes formadas para trabalhar com a rádio. E a
própria arquitetura escolar dificulta certas atividades.
Em termos micro-políticos, Matias Vieira,
coordenador do Projeto Vida construiu, ao longo da
entrevista, uma lista de pré-requisitos para parcerias
entre um projeto como o educom.radio e a escola:

Abrir-se para ouvir o outro

Definir os espaços de cada um com clareza

Acreditar que os dois podem fazer juntos

Construir confiança

Valorizar o que já existe
Construir novas relações
Criar mecanismos, novas regras, metodologias

Saber que as mudanças são processuais, não
por decreto

É demorado e desgastante
O principal líder do NCE destaca o papel
central da direção da escola e/ou da coordenação
pedagógica no sucesso de experiências desse tipo.


Os coordenadores pedagógicos são ciosos de tudo
que é conteúdo. A atividade pedagógica é deles. Os
coordenadores têm relação direta com a DOT. Mas
na DOT não se falava em educom.radio. Então,
para eles, era como os instrumentos de uma banda
chegando na escola: “Você coloca isso num lugar
qualquer”. (Ismar de Oliveira Soares)
Quando a direção e a coordenação pedagógica
são envolvidas, surgem novos desafios. Se ela não
participa da formação, tende a conceber a rádio da
escola a partir de um repertório mais limitado, em
geral de rádios comerciais. Isso gera atrito entre
os estudantes, os professores e a coordenação ou
direção – que têm o poder de simplesmente fechar
o equipamento.
A escola tradicional tem uma hierarquia que
controla a informação e o diálogo. Esse modelo
entra em questão quando o projeto entra. Todos têm
que discutir a cultura midiática, transformando-os
em produtores midiáticos. (Coordenadora do NCE)
A linguagem radiofônica traz para a escola
a possibilidade de o aluno criar, participar,
fazer a pauta. (Matias Vieira, coordenador do
Projeto Vida)
É uma crise anunciada. (Coordenadora do NCE,
sobre a introdução da educomunicação nas escolas)
Os professores também têm bastante poder de
favorecer ou dificultar o sucesso de uma rádio:
122
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
O professor é o profissional mediador da
produção da cultura... [Com a rádio] ele passa a ter
papéis outros. (Formadora do educom.radio)
A grande diferença que os estudantes percebem é
que no sábado eles vêm para ser ouvidos. (Formadora
do educom.radio)
A quebra de paradigma é que a comunicação
Numa escola onde a rádio “dá certo”, em geral se
tira do professor aquilo que era a base do seu observa que:

poder, que era deter a informação. (Formadora do
a diretora e a coordenadora pedagógica
educom.radio)
facilitam o projeto

os professores e alunos trabalham a
A estratégia do educom.radio para se inserir
aprendizagem e o conhecimento de maneira
na cultura escolar – ou para intervir mais
mais participativa, não “bancária”

consistentemente em seu ecossistema comunicativo
há prazer no trabalho

– é formar cerca de 25 pessoas por escola, que se
os equipamentos estão instalados e com
tornarão mediadoras do uso da rádio, facilitando seu
infra-estrutura adequada

acesso e disseminando o que aprenderam no curso,
participam do processo, além da comunidade
inclusive a ideologia e a prática mais participativa.
interna da escola, famílias e lideranças
comunitárias
Os professores precisam de um espaço deles. Os
alunos se desenvolvem com a técnica em separado.
Tanto o aluno como o professor têm que ter sua
Aí põe eles juntos. Tem professor que literalmente
cidadania resgatada. E também a comunidade, os
entra em crise. É o momento da crise de paradigmas.
pais, o pipoqueiro. O projeto traz para a escola a
Aí tem professor que diz que o curso não está bom
comunidade. (Coordenadora do NCE)
[...] Mas os professores acabam se adaptando à
nova forma. É prazeroso. (Coordenadora do NCE)  PEDAGOGIA/METODOLOGIA
As características e a extensão dos textos deste
Entre professores, a evasão dos cursos está na Relatório não permitem abordar de forma
faixa de 18% – considerada baixo pelo NCE, aprofundada as pesquisas, os autores, nem as bases
pela complexidade e dimensão do projeto. Em conceituais que sustentam a prática pedagógica e
relação aos alunos, observa-se uma circulação metodológica do NCE e, conseqüentemente, do
de participantes, o que aumenta o atendimento educom.radio. Assim, para descrever o trabalho que
inicialmente planejado para esse público.
é desenvolvido pelo projeto nas escolas, citaremos
O curso, oferecido em 12 sábados consecutivos, apenas as idéias centrais por trás dessa prática, sem
dia inteiro, fornece a cada participante docente necessariamente apontar sua origem nem alongartrês certificados de extensão universitária, se na definição dos conceitos.
correspondentes a três cursos de 32 horas,
Como núcleo de ensino, pesquisa e – cada vez
expedidos pela Universidade de São Paulo. Para mais – extensão, o NCE defende “a tese segundo a
os professores isso representa ascensão na carreira qual um novo campo de intervenção social vem se
e incremento salarial. Mais de 70% dos envolvidos firmando, na interface entre comunicação e educação,
atribuem conceito “muito bom” ou “excelente” para inteiramente voltado para a construção de ecossistemas
o curso (numa escala que também inclui “fraco”, comunicacionais em espaços educativos.”6
“razoável” e “bom”), segundo avaliações conduzidas
As idéias acadêmicas em torno disso podem ser
pela coordenação.
resumidas grosseiramente a dois grandes grupos.
6“Caminhos
da Educomunicação na América Latina e nos Estados Unidos”, Ismar de Oliveira
Soares, 1 Cadernos de Educomunicação/Revista Comunicação & Educação da ECA/USP, 2002
123
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
De um lado, há as teorias ditas funcionalistas, que
ressaltam a maneira como a sociedade “funciona”
e como ela se mantém “funcionando” – no que as
escolas têm um papel central –, e de outro lado,
há as teorias que, além de identificar os elementos
constitutivos e motrizes da sociedade, apontam
mecanismos para mudá-la – especialmente, por meio
da educação. Umas tratam mais do equilíbrio e do
desequilíbrio social (da “Ordem e Progresso”), outras
têm uma perspectiva mais dialética, que envolve crises
e desenvolvimento. As primeiras são mais associadas
à reprodução do sistema econômico vigente e de suas
formas de poder; o segundo conjunto fundamenta
práticas que buscam transformar esse modelo
econômico e político, dando mais relevo a questões
sociais, como cidadania e solidariedade. Um autor
representativo do primeiro grupo é o sociólogo
francês Emile Durkheim, “pai” do funcionalismo; o
segundo grupo é bem representado por Paulo Freire.
Como foi dito no item inicial deste texto, a
educomunicação se contrapõe ao funcionalismo;
defende uma escola que, no lugar de manter as
coisas como elas são, promove o fortalecimento e a
mudança individuais e coletivos.
A nossa intenção [em relação ao educom.radio] é
que vire curricular, não na perspectiva do curricular
conteudístico, porém que seja contemplado nas
práticas educativas da escola, e que a partir de um
exercício feito por professores, alunos e membros da
comunidade, os resultados esperados pelo Projeto
Vida aconteçam. Assim, em primeiro lugar,
queremos criar um ambiente de diálogo e, em
segundo, esperamos conseguir semear informações,
conceitos e práticas educomunicativas na rede
[municipal de ensino de São Paulo]. A gente quer
vivificar a rede através da prática educomunicativa.
Além de um resultado imediato, que é a colaboração
e a redução da violência, buscamos promover uma
modificação das práticas educativas, sob influência
da educomunicação e de seus recursos. (Ismar de
Oliveira Soares)
A ação que o projeto desenvolve na escola é
denominada gestão comunicativa. Este conceito se
contrapõe a dois outros, muito presentes em ações
educativas norte-americanas:

mediação tecnológica na educação

educação para a comunicação
“No caso específico dos Estados Unidos,
observamos que o presumível campo da
educomunicação passa por duas áreas de
intervenção
sociopolítico-cultural
[...]:
as
mediações tecnológicas nos espaços educativos, que
apontam para a necessidade de preparar professores
e estudantes para usufruir os novos recursos e usalos adequadamente, tanto nos processos de ensinoaprendizagem, quanto nas atividades voltadas
para ampliar o campo da expressividade das novas
gerações (‘information literacy’); e a denominada
educação frente aos meios de comunicação,
preocupada com o impacto do sistema de meios
sobre crianças e adolescentes (‘media literacy’).”7
O conceito de gestão comunicativa, inerente ao
educom.radio, amplia essas duas perspectivas:
“Trata-se de um campo voltado para o
planejamento e a execução de políticas de
comunicação educativa, tendo como objetivo
a criação e o desenvolvimento de ecossistemas
comunicativos mediados pelos processos de
comunicação e suas tecnologias”.8
A visão da gestão comunicativa se propõe
mais holística do que as duas abordagens norteamericanas. Acaba, por exemplo, com a dicotomia
emissor x receptor, uma vez que, imersos na cultura,
todos são, de distintas maneiras, emissores e
receptores de comunicação, isto é, mediadores. O
conceito de cultura, aliás, também é central para se
compreender a prática educomunicativa.
A linha do NCE é a trilogia comunicação,
educação e cultura. (Coordenadora do NCE)
O elo de ligação de todos esses conceitos é a
teoria das mediações culturais, do colombiano
7“Caminhos
da Educomunicação na América Latina e nos Estados Unidos”, Ismar de Oliveira Soares,
Cadernos da Educomunicação, 1. Caminhos da Educomunicação, Editora Salesiana, 2001
da Educomunicação na América Latina e nos Estados Unidos”, Ismar de Oliveira Soares,
Cadernos da Educomunicação, 1. Caminhos da Educomunicação, Editora Salesiana, 2002
8“Caminhos
124
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Jesús Martín-Barbero, apresentada no livro acima
citado “Dos Meios às Mediações: Comunicação,
Cultura e Hegemonia”.
A proposta é compreender a “comunicação como
um processo compartilhado e mediado pelos meios,
mas não determinado só por eles.”9
Assim, de forma semelhante ao trio conceitual
Conhecer, Analisar e Transformar da pedagogia do
MOC (Movimento de Organização Comunitária,
de Feira de Santana), o conceito de gestão
comunicativa propõe, por meio de sua prática
educativa, que as pessoas tomem consciência do
conjunto dos processos comunicativos em que estão
inseridas, e tenham os instrumentos (conceituais,
tecnológicos) para atuar sobre eles, transformando
tanto a cultura como a realidade. Evidentemente,
isso tem um impacto profundo na educação
escolar, com suas maneiras já arraigadas de gerir a
comunicação e transmitir informações.
O educom põe professores, alunos e membros
da comunidade, às vezes a direção também, todos
juntos fazendo exercícios de práticas comunicativas.
E mediante esses exercícios eles compreendem como
funciona o sistema e como interferir nele. (Ismar de
Oliveira Soares)
No plano das escolas, o projeto educom.radio
consiste, como já dissemos, na instalação de um
equipamento de rádio em cada uma das 455 escolas
de ensino fundamental de São Paulo e em uma
capacitação de 100 horas que cobrirá cerca de 12
mil pessoas em três anos e meio.
O equipamento proposto inicialmente pelo
NCE à SME, que dependendo da forma como é
feita a compra – processo de licitação, em bloco ou
por partes etc. –custa entre R$ 6 mil e R$ 9 mil, é
composto por:

1 Transmissor de rádio

10 Caixas receptoras

1 Antena

1 Mesa de oito canais
3 Microfones (2 sem fio)
1 Tape duplo

1 Gravador de CD

1 Fone de ouvido

1 Rack

5 Gravadores de mão
Esse equipamento é instalado na escola por
uma equipe designada pelo fornecedor. A escola
deve disponibilizar um espaço, “que comporte
o equipamento e pelo menos uma das caixas
receptoras, cadeiras e, se possível, um quadro negro,
um armário e uma mesinha”10.
Em 2003, o NCE e o Projeto Vida estavam
formulando uma lista mais enxuta de equipamentos,
para facilitar sua aquisição e chegada mais rápida na
escola.
A capacitação oferecida a educadores, estudantes
e membros da comunidade cobre, no campo prático,
a realização de produtos de comunicação, como
pesquisas, programas de rádio, jornais; no campo
teórico, a capacitação aborda as teorias acima
esboçadas e eixos temáticos relacionados aos temas
transversais dos PCN:

Meio Ambiente

Diversidade Cultural

Saúde

Protagonismo Juvenil

Leitura Crítica da Comunicação
O curso tem a duração de um semestre letivo,
12 sábados. Para as turmas que freqüentaram
os primeiros semestres, havia sábados em que
se trabalhava só teoria e outros em que se
desenvolviam atividades práticas. Mas a experiência
mostrou que é mais produtivo realizar num mesmo
sábado atividades teóricas e práticas – embora
isso signifique ter de deslocar mais profissionais
(palestrantes, mediadores, radialistas) num mesmo
dia pelas escolas. Professores e estudantes almoçam
na escola nos dias da formação.
A distribuição das palestras e oficinas no currículo é
feita em três módulos. Para certificação, admite-se uma
falta por módulo. São quatro sábados por módulo.


9“O
Lugar Social da Comunicação Mediática”, Mauro Wilton de Souza, Cadernos da
Educomunicação, 1. Caminhos da Educomunicação, Editora Salesiana, 2002
Educomunicador” nº 7
10“O
125
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Módulo 1: Comunicação e Educação
Palestras de Educomunicação

O campo da educomunicação

Linguagens de comunicação

Práticas educomunicativas

Impacto dos meios sobre crianças e
adolescentes

Políticas de Comunicação
Oficina de diagnóstico da Educomunicação
Oficina sobre produção radiofônica
Módulo 2: Planejamento e Educomunicação

Palestras sobre Eixos Temáticos
Oficina de Planejamento de Educomunicação
Oficina de Multimídia – Rádio, Jornal e Vídeo
Módulo 3: Comunicação e Projetos Colaborativos
para a Construção da Paz

Palestras sobre Eixos Temáticos

Oficinas de Práticas Radiofônicas

Oficinas de multimídia
Avaliação
circulação de público entre a primeira capacitação
e esta, especialmente entre os estudantes. A
escola recebe ainda dez exemplares do “Manual
do Equipamento”.
O número 5 do boletim “O Educomunicador”,
do NCE, ressalta em um artigo que “os 25 membros
da comunidade escolar que participam do educom
em cada uma das unidades de ensino formam o
núcleo de multiplicadores que irá, com sua ação,
determinar o sucesso ou não do projeto na escola”.
A formação dos professores da escola também
é central para o sucesso do projeto. Nesse campo,
surgem desafios relacionados à formação inicial
desses professores e à formação oferecida pelo
educom.radio.
A formação que a gente recebe é tradicional. As
faculdades precisariam também estar se renovando.
(Assistente do educom.radio)
Com a formação inicial oferecida pela maioria
das faculdades hoje, a tendência é a comunicação
e as tecnologias serem, também, escolarizadas,
ficando limitadas a certos horários e profissionais.
Em cada escola, local onde ocorre a capacitação, há
turmas, em média, de 25 pessoas, divididas entre:

13 professores

2 membros da comunidade

10 estudantes
A escola ainda ocupa um espaço importante
Esses participantes são indicados pela escola – o
de construção de referências. A questão é como a
que faz com que os grupos variem muito de perfil.
escola pode usar outros meios sem escolariza-los.
Segundo coordenadores envolvidos, há escolas que
(Coordenadora do NCE)
encaram a participação no projeto como um prêmio;
outras que colocam essa participação como a última
O professor se espelha muito na questão do livro
chance para determinados alunos. Há professores
e do giz, porque é a alternativa de trabalho que ele
que ingressam no curso pelos pontos na carreira;
tem. Mas tem professores que mesmo sem recursos
quando o projeto ganha visibilidade na escola,
conseguem fazer diferente. Tem que abortar o
muitos estudantes se aproximam.
currículo pré-determinado, pegar a pauta do
O número de escolas envolvidas aumenta a cada
dia e trazer o currículo para isso. (Matias Vieira,
semestre; chegando em 2003 a cerca de seis escolas
coordenador do Projeto Vida)
por pólo (são 13 ao todo).
Quando as escolas recebem o equipamento
Em relação à didática do próprio educom.radio,
após o curso, o NCE oferece uma capacitação a coordenação do projeto detectou, por meio de
suplementar de 6 horas, onde são atendidas avaliações, que alguns dos palestrantes estavam
duas turmas de 10 a 15 pessoas. Há uma certa reproduzindo um modelo “bancário”, ás vezes até
126
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
autoritário, de ensino. Em 2003 começou a haver
reuniões também com esses palestrantes.
A origem essencialmente acadêmica do
educom.radio faz com que o processo educativo
seja sempre mais valorizado do que o produto
de comunicação – ao contrário do que ocorre em
muitas experiências de Educação, Comunicação &
Participação lideradas por jornalistas.
Aprendiz – para quem, na aprendizagem da leitura
e da escrita, não há erros, mas usos adequados e
inadequados da linguagem, dependendo do contexto,
do suporte, da mediação, e a questão é perceber essa
adequação. No caso do educom.radio, a proposta é
que a correção seja negociada.
Todas as correções têm que ser negociadas pelo
grupo. (Formadora do educom.radio)
A educomunicação está sempre ressaltando o
processo. O produto deve favorecer o próprio processo.  PARTICIPAÇÃO
(Coordenadora do NCE)
A educomunicação pressupõe e promove a
participação.
O produto na verdade é o resultado de um
processo afetivo. Perde a característica de um produto
A qualidade do ecossistema comunicativo
obrigatório. Criatividade, negociação, gestão, isso é
da escola é central. Se é mais aberto, tem pais
que é importante. É um processo coletivo de produção
participando, grêmio estudantil, há grande
de sentidos, que pode até ser refletido lá no programa
possibilidade do projeto se enraizar. A questão
de rádio. (Coordenadora do NCE)
é das pessoas envolvidas. (Articulador do
educom.radio)
Se há foco no produto, o risco é ter um uso
mecanicista da comunicação, uma relação
A entrada de uma tecnologia de comunicação
autoritária. O produto é resultado, é lúdico. em uma escola, como uma rádio, embora possa
(Formadora do educom.radio)
ser escolarizada (como vem acontecendo com os
laboratórios de informática), tende a favorecer
Atingir a qualidade é uma questão de evolução do ecossistemas comunicativos mais participativos.
processo do grupo. (Coordenadora do NCE)
A rádio promove a democratização do espaço
O grupo coordenador pensou em criar uma
escolar [...] estimula a criação de grêmios estudantis.
rede de radialistas amigos da criança, para apoiar o
(Matias Vieira, coordenador do Projeto Vida)
projeto nas escolas, levando a elas seu know-how.
Mas a idéia não progrediu. Para envolver radialistas
Pelo menos duas questões são centrais para essa
voluntários seria necessário capacita-los – caso transformação: a ressignificação da identidade
contrário, haveria o risco desses voluntários também dos envolvidos e a construção de novas relações,
reproduzirem modelos funcionalistas de educação, principalmente, entre professor e aluno.
dificultando mudanças no ecossistema comunicativo
da escola. O forte foco no processo também
A grande sacada é fazer do aluno um sujeito da
potencializa conflitos entre os educadores do NCE
educação. Com rádio, ele é um sujeito pleno. Ele faz
e do Projeto Vida com alguns comunicadores – em
a pauta, ele fala, ele avalia [...] Na escola o professor
geral, mais focados no produto.
em geral fala, fala, fala, e não tem discussão. Não
O tratamento dado aos erros tem certa semelhança
há o exercício da participação. Muitas concepções de
com a idéia da adequação usada pela Cidade Escola
educação defendem a dialogia. A rádio proporciona
127
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
à educomunicação e ao educom.radio. Assim, a
gestão comunicativa, mais do que uma metodologia
de superação de conflitos, é uma maneira de
Isso de fato aumenta a participação estudantil. estar lidando permanentemente com o cotidiano
Em um caso, alunos do projeto discordaram de uma essencialmente conflituoso da educação.
decisão da diretora. Foram até ela e a entrevistaram
sobre o assunto, e puseram suas explicações no ar.
Se nós temos 12 mil pessoas envolvidas, temos
Nesses lugares, os educadores participantes afirmam
12 mil expectativas. E você tem que gerenciar as
que há um incremento significativo de auto-estima
expectativas. (Ismar de Oliveira Soares)
entre as crianças e jovens envolvidas. Para alguns,
isso se deve ao fato de que na educomunicação
É interessante notar que, nesse aspecto, o projeto
“as pessoas se sentem capazes, se vêem presentes lida com duas questões centrais no campo da
naqueles produtos”. (Mediadora do educom.radio) administração contemporânea: relacionamentos e
O acesso dos estudantes aos equipamentos, às mudanças. O educom.radio, além de envolver uma
informações sobre a escola e às instâncias de decisão variedade enorme de relações, propõe processos de
e poder aparece na experiência do educom.radio mudança nesses relacionamentos.
como um fator central para o sucesso do projeto, no
campo da participação:
“[A educomunicação] trata-se, na verdade, de uma
perspectiva de análise e de articulação em permanente
O projeto funciona melhor quando há o construção, e que leva em conta o contínuo processo
movimento de soltar o equipamento. (Coordenadora de mudanças sociais e de avanços tecnológicos pelos
do NCE)
quais passa o mundo contemporâneo.”11
isso. Não é o professor que cria. É o estudante que
cria. (Matias Vieira, coordenador do Projeto Vida)
A gestão participativa, para ocorrer, necessita
Apesar dos conflitos, há também belos encontros
que se disponibilize as informações e se envolva no educom.radio, com destaque para os momentos
na tomada de decisões. (Assistente de coordenação do em que pessoas de extratos e idades diferentes
educom.radio)
se reúnem na salinha da rádio e produzem um
programa ao vivo, para toda a escola.
Se fizermos uma gestão participativa, se nós ao
definirmos um conteúdo ou uma linguagem para
Mudou a nossa relação com os professores. Agora
o programa de rádio fizermos isso coletivamente;
a gente é mais amigo. (Aluna da Escola Municipal de
discutimos e, se houver discordâncias, fazemos uma
Ensino Fundamental, Professor Pasquale)
votação, em que todos têm igual direito, professor
ou aluno, independentemente de sua posição social,  REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
nós introduzimos uma prática que quebra as
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
hierarquias, em função de uma comunicação não O fazer da universidade e, conseqüentemente,
hierarquizada. (Ismar de Oliveira Soares)
do NCE, envolve essencialmente registro,
sistematização, avaliação e disseminação. Assim,
é grande a diversidade de materiais nessas áreas
 RELAÇÕES
Considerando que um de seus principais objetivos relacionadas ao educom.radio.
é quebrar hierarquias e paradigmas pedagógicos
Um dos pontos altos são os “Cadernos de
mais tradicionais e autoritários, o conflito é inerente Educomunicação”, publicados pelo NCE em
11“Caminhos
da Educomunicação na América Latina e nos Estados Unidos”, Ismar de Oliveira
Soares, Cadernos da Educomunicação, 1. Caminhos da Educomunicação, Editora Salesiana,
2002
128
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
parceria com a Editora Salesiana. Reúnem textos
conceituais abrangentes e didáticos, que fazem uma
boa introdução acadêmica ao tema. São distribuídos
para os participantes do curso.
Outro destaque é o site do educom.radio (www.e
ducomradio.com.br), que disponibiliza a bibliografia
básica do projeto, artigos e reportagens, entre muitos
outros textos e ambientes de encontro, formação e
discussão virtual (o próprio NCE mantém um
site, com artigos e bibliografias, e publicações
acadêmicas associadas à Escola de Comunicações e
Artes da USP e a outras instituições da área).
No NCE há pelo menos três pós-graduandos da
equipe desenvolvendo teses em torno da experiência
do educom. Mais de dez pesquisadores de outras
faculdades e universidades também têm demandado
informações – além de estudantes de dois trabalhos
de conclusão de cursos de graduação.
O ponto ainda falho, como apontado acima,
é a falta de uma avaliação externa. Esse tipo de
informação é fundamental para o planejamento
e a disseminação da educomunicação e de outros
projetos de Educação, Comunicação & Participação
por meio de políticas públicas.
O projeto também carece de recursos para
sistematizar a enorme quantia de registros que está
acumulando – textos, vídeos, depoimentos etc.
Entre os principais instrumentos de registro e
avaliação do educom.radio, estão:

Fichários individuais, com vários formatos
de registro

Ao final de cada dia do curso, os
participantes preenchem fichas relatando as
aprendizagens e impressões. Esse material é
usado no final para avaliar o andamento das
atividades

Relatório por turma, escrito por um
mediador

Relatório de avaliação final do curso, feito
por todos os educadores envolvidos

Registro inicial de expectativas dos diversos
atores
Relatórios das equipes do NCE
Atas de reuniões

Roteiros para entrevistas

Sugestões de dinâmica
Além disso, todos os articuladores e mediadores
acompanham as atividades desenvolvidas nos cursos,
produzindo relatórios semanais e discutindo-os nas
reuniões de formação e avaliação com a equipe do
NCE. Já há mais de 1.200 desses relatórios escritos.


 RESULTADOS E PRODUTOS
Os resultados e produtos do educom.radio se
multiplicam na proporção das comunidades
formadas em educomunicação e das rádios instaladas
nas escolas. O projeto terminou 2003 com 264 das
455 escolas cobertas e 6.580 pessoas inscritas nas
formações – o que significa que praticamente 40%
do trabalho será realizado em 2004.
Em novembro de 2003, o educom.radio também
promoveu o I Simpósio Brasileiro de Educomunicação,
interligando os 13 pólos de São Paulo, com uma rede
de comunicação composta de diversos meios – rádios,
vídeos, internet, boletim – produzidos por crianças,
adolescentes, educadores, pais e mães, entre outros
atores das comunidades escolares.
Em 2002, além do simpósio e do educom.radio,
o NCE executou um programa em parceria com o
governo do Estado de São Paulo, o Educom.TV.
O objetivo era semelhante ao do educom.radio:
“Motivar os professores a reverem suas práticas
educativas à luz da teoria da educomunicação”. Teve
a inscrição de 2.240 professores, coordenadores
pedagógicos e diretores de 1.024 escolas estaduais
de São Paulo. O curso foi semi-presencial, com a
maioria das atividades desenvolvidas a distância.
Resultou em 980 projetos de educomunicação,
elaborado por duplas de cursistas, envolvendo a
utilização de materiais produzidos pelo TV Escola
do MEC.
O boletim “O Educomunicador”, editado pelo
NCE, inicialmente com apoio da Editora Salesiana,
já estava na 18a edição ao final de 2003. Com oito
129
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
páginas coloridas, a publicação traz matérias sobre
as atividades do núcleo, crônicas dos educadores
sobre suas experiências no educom, artigos sobre
a história do rádio, resultados das avaliações,
orientações para participantes dos cursos, entre
outros assuntos de interesse para educomunicadores.
Esses são alguns dos resultados e produtos do
NCE, sem considerar a produção propriamente
acadêmica, que cobre de teses de doutorado a
dissertações e cursos de extensão. A tendência é de
ampliação significativa dessas atividades, tendo em
vista a demanda crescente na área, a nova parceria
com o MEC, entre muitas outras oportunidades
que vêm surgindo para o grupo que coordena o
educom.radio.
Mas talvez o produto ou resultado mais
importante do projeto seja o que acontece com as
crianças que realmente se envolvem nas experiências
educomunicativas. Ao criar seus meios de comunicação,
mudam a relação com os meios de comunicação de
massas e com a aprendizagem e o conhecimento, se
apropriam mais de seus próprios destinos.
A criança, no início, até reproduz a linguagem
conhecida . Mas como ela é muito criativa recria,
ressignifica. (Formadora do educom.radio)
Com isso, essas crianças vivenciam o que é ser
cidadão.
É com a prática que se aprende. Não se chega à
democracia falando nela. (Coordenadora do NCE)
130
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Dados - NCE
Nome
Núcleo de Comunicação e Educação
Natureza da
organização
Núcleo de Pesquisa e Extensão da USP
Missão
Realizar pesquisas com temas referentes à interface entre os campos da
comunicação e da educação, aplicando os resultados em projetos que possibilitem
o repensar das práticas pedagógicas à luz da necessária confluência com a chamada
idade mídia, apoiando-se no conceito de educomunicação.
Endereço
Av. Prof. Lucio Martins Rodrigues, BL 22, Sala 26. Cidade Universitária. São
Paulo/SP (CEP: 05508-900)
Telefone
(0xx11) 3091- 4784 / 7716-5698
E-Mail
[email protected]
Site
www.educomradio.com.br;
Responsáveis
Prof. Dr. Ismar de Oliveira Soares (coordenador)
Infra-estrutura
Sala com computadores, arquivos, material de consumo, gravadores, vídeo, tv,
acervo de fitas, projetos e pesquisas, papers, etc.
Principais
Programas/Projetos
educom.rádio – educomunicação pelas ondas do rádio – em andamento.
Números de
atendimento
até dezembro de 2004 deverá atender às 455 escolas de ensino fundamental do
município de São Paulo, perfazendo cerca de 11.000 cursistas, entre funcionários
das escolas (professores e outros), alunos e membros da comunidade do em torno.
Equipe/Formação/
Capacitação
Aproximadamente 150 pessoas, entre equipe de capacitação e formação e equipe
administrativa.
131
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Formas de
Contratação
Mediante contrato de prestação de serviço firmado entre a pessoa física e a
Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (FUSP), entidade que é
contratada pela Secretaria Municipal de Educação – Projeto Vida – para executar
o curso.
Produtos
Durante o curso são feitas principalmente produções radiofônicas, mas também
algumas produções em vídeo e jornais murais.
Orçamento
R$ 5,8 milhões em três anos e meio
Principais Parceiros
O curso foi contratado pela Secretaria Municipal de Educação, por meio do
Projeto Vida, junto ao NCE/ECA/USP.
132
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Anexo I - NCE
A RÁDIO QUE QUEREMOS
Alunos da rede municipal de ensino fundamental se reuniram no último dia 6 de dezembro, em treze
locais diferentes de São Paulo, nas regiões leste, oeste, norte e sul, para redigir um manifesto sobre a rádio
que desejam construir em suas comunidades escolares. Foram, ao todo, 780 estudantes de 80 escolas que
trabalharam na elaboração do Manifesto “A rádio que queremos”. O documento a seguir contém as idéias
que crianças e adolescentes defendem para uma nova forma de comunicar e entender o espaço de ensino.
Veja e opine!
“Queremos uma rádio que tenha a participação de todos, seja livre para a gente dizer o que pensa e dê
transparência ao que se faz na escola. Antes de serem tomadas decisões que mexem com a gente, queremos
que elas sejam apresentadas e discutidas na rádio, e que ela convide toda a comunidade a se manifestar.
Queremos uma rádio que não fira ninguém com nenhuma forma de discriminação, que ajude
a nos prevenir contra a ameaça das drogas e da violência. Queremos uma programação escolhida
democraticamente por todos nós, com muita música, que divulgue as bandas novas que tocam na escola e
o teatro que fazemos; que tenha notícia e que politize, mas sem ser chata.
A rádio da gente precisa de humor, esporte e, uma coisa muito importante: precisa divulgar o
ECA para os 4 cantos do mundo porque muitas pessoas não sabem ainda o que diz o Estatuto da
Criança e do Adolescente. Nós já sabemos com certeza que educação depende de comunicação.
Talvez, um slogan legal para a rádio que queremos seja este: os incomodados não se mudem, os incomodados
que façam mudar!”
133
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
Anexo I - NCE
RELATÓRIO SEMANAL DE ARTICULAÇÃO
NAE ___ Data __ /__ /__ Atividade [ ] pólo [ ] UE
1. NOME
2. EMEF´s PRESENTES
3. SOBRE OS CURSISTAS
•
•
•
Perfil do grupo (expectativas, grau de envolvimento, tipo de intervenção, posicionamento frente à equipe do
educom.rádio)
Facilidades/dificuldades encontradas no relacionamento interpessoal
Questões levantadas sobre o projeto
•
Sugestões do grupo
4. SOBRE O REPRESENTANTE DO NAE
•
•
•
•
Nome do representante
É cursista? (sim ou não)
Participou das atividades dos cursistas programadas para o dia?
Facilidade/dificuldade de comunicação com o articulador
•
Questões levantadas pelo representante ao NCE
5. SOBRE A EQUIPE NCE
•
•
Grau de envolvimento/iniciativa/empenho/colaboração
Relacionamento entre os pares (facilidade/dificuldade)
•
Comunicação com os cursistas (facilidade/dificuldade)
6. SOBRE O DESENVOLVIMENTO DAS ATIVIDADES
•
•
•
Nome da palestra
Nome do palestrante
Facilidades / dificuldades de comunicação com o articulador e com os cursistas
•
Aspectos que o palestrante estabeleceu de ligação entre a sua palestra e o projeto como um todo
7. VISITAS AO NAE
• Nome
• Motivo da visita
•
Alteração na rotina (se houve, explicite)
8. CONSIDERAÇÕES SOBRE AS AÇÕES
•
educom.rádio
Relações entre teoria e prática
5ª fase
134
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
RELATÓRIO SEMANAL DE ASSISTÊNCIA DE COORDENAÇÃO
1. NOME
NAE ___ Data __ /__ /__ Atividade [ ] pólo [ ] UE
2. LOCAL
3. ESCOLAS PARTICIPANTES
4. EQUIPE NCE
Função
Nome
Chegada
Saída
Manhã
Tarde
Articulador
Assistente
Capacitador
Capacitador
Capacitador
Capacitador
Capacitador
Capacitador
5. NÚMERO DE CURSISTAS PRESENTES
Professores
Comunidade
Estudantes
Diretores
Coordenadores
TOTAL
135
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
6. SUBSTITUIÇÕES DE CURSISTAS
EMEF
NOME
Prof
Com
Est
7. NAE
Houve presença de representante
Tempo de permanência no encontro
[ ] sim
das
[ ] não
às
horas
Nome do representante
8. INFRA-ESTRUTURA DA ESCOLA
Acomodação / Condições de limpeza
Equipamentos
Tevê
[ ] Sim
[ ] Não
[ ] Nº de aparelhos
Som
[ ] Sim
[ ] Não
[ ] Nº de aparelhos
Retroprojetor
[ ] Sim
[ ]Não
Disponibilidade dos equipamentos no dia
Refeições
136
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
9. ATIVIDADES DOS ADULTOS
Manhã
Tarde
10. PALESTRA
Palestrante
Período
11. DEMANDAS E SUGESTÕES
12. INFORMAÇÕES PARA A SECRETARIA DO NCE
13. CONSIDERAÇÕES SOBRE AS AÇÕES
_________________
Local e Data
__________________
Assinatura
137
Educação, Comunicação & Participação
NCE - Núcleo de Comunicação e Educação
5ª fase
educom.rádio
RELATÓRIO SEMANAL DE MEDIADOR
GRUPO 4
MARIAZINHA FUZARI
Atividade [ ] pólo [ ] UE
Data __ /__ /__
1. MEDIADOR
2. EMEF(s) atendida(s)
•
Citar as escolas com as quais você trabalhou
3. Nº de cursistas [
]
mulheres
[
]
homens [
]
4. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NO DIA
5. SOBRE OS CURSISTAS
• Perfil do grupo (expectativas, grau de envolvimento, tipo de intervenção, posicionamento frente à equipe do
educom.rádio)
• Facilidades/dificuldades encontradas no relacionamento interpessoal
• Questões levantadas sobre o projeto
•
Sugestões do grupo
6. CONSIDERAÇÕES SOBRE AS AÇÕES
•
Relações entre teoria e prática
138
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Oficina
Oficina de Imagens

HISTÓRIA
Como diz o próprio nome, a Oficina de Imagens, de
Belo Horizonte, começou seu trabalho de educação
e comunicação pelas imagens. Quando decidiram
fundar a organização não-governamental, seus
principais líderes já tinham um extenso percurso
em trabalhos com fotografia e vídeo, muitas vezes
entrelaçados aos campos da educação e da arte.
As instituições pelas quais passaram os líderes
ao longo da década de 90 incluem a área de
vídeo-jornalismo da PUC de Minas Gerais, a
comunicação da Secretaria de Estado da Saúde
e da Secretaria Municipal da Educação de Belo
Horizonte, a TV Educativa de Minas Gerais,
a Rádio Favela de Belo Horizonte, uma escola
particular construtivista voltada para crianças com
problemas de sociabilidade, entre outras.
O certo é que havia um grupo de pessoas, com
vínculos antigos de amizade, que já transitava na
interface entre educação e comunicação, mantinha
relações com a Universidade, e que passou boa
parte da década de 90 fazendo experimentações
educomunicativas, por vezes remuneradas, outras
não. “Fomos juntando repertórios”, conta um dos
líderes, sobre o grupo de estudos que constituíram
em torno de 1997.
Influenciados por autores como Walter
Benjamin, Pierre Levy e Arlindo Machado, o grupo
tinha como tema transversal a preocupação com o
papel da comunicação e de seus meios na formação
política das pessoas. Alguns eventos ocorridos nessa
época, como um encontro sobre imagem e educação,
no MIS (Museu da Imagem e do Som, de São
Paulo), também contribuíram para a determinação
do grupo em dar continuidade e mais consistência a
suas experiências de educação e comunicação.
É dessas experimentações que surge o Projeto
Latanet – Da Latinha a Internet, hoje o principal
programa de educação pela comunicação da Oficina
de Imagens. “Vi que para fazer vídeo com as crianças
teria de montar um percurso e que teria de começar
trabalhando com foto”, diz um dos líderes. E foram
as primeiras fotos, feitas com uso de latas, numa
técnica denominada “pin-hole” (buraco de agulha),
que acabaram dando nome ao programa. Um
programa que vem mudando significativamente,
ano-a-ano, desde 1997, e que hoje concentra-se
mais na capacitação de professores, embora sempre
inclua estudantes.
O interessante na construção inicial dos fazeres
pedagógicos do grupo é a maneira como os diversos
conteúdos e experiências foram sendo tecidos. Por
exemplo: uma das etapas atuais do Latanet, que
é a construção de objetos óticos, foi inspirada em
um programa de televisão voltado para crianças.
Ele tratava de câmeras escuras (grandes caixas,
com um pequeno furo de um lado, pelo qual entra
a luz e projeta, no outro lado, a imagem invertida
do que estiver no exterior). Coisas da física ótica,
mas que também remetem a uma tecnologia do
Renascimento, usada para desenhar as paisagens
dos quadros. Assim, um simples programa na TV
deu origem a uma das mais divertidas e envolventes
139
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
oficinas do Latanet, em que se tecem ciência,
história, cidadania, comunicação, arte...
E foi construindo esses objetos óticos, inventando
novos, analisando os fenômenos físicos envolvidos
neles, discutindo textos, fazendo fotos pin-hole,
trocando os resultados dos trabalhos e das discussões
por e-mail, que o grupo de jornalistas e educadores
realizou a primeira edição do Latanet, ainda bastante
tentativa e assistemática, com oficinas que envolviam
adolescentes moradores de Vigário Geral, no Rio de
Janeiro, e do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte,
ambos bairros de baixa renda e IDH.
A ênfase era em desestigmatizar o olhar
sobre o pobre, e os educadores discutiam com os
participantes como eles poderiam comunicar seu
próprio olhar. “A gente achava que as pessoas tinham
que falar do mundo a partir das suas comunidades.
Fazia Paulo Freire sem saber”, diz um dos líderes da
Oficina de Imagens.
Nessas discussões aparecia a Rede Globo, mas
também a pintura no Renascimento, e o papel
de ambos na difusão de determinados olhares
e culturas. Também eram tema de conversas e
atividades a relação da arte com a ciência, e desta
com o desenvolvimento desses olhares; o surgimento
do impressionismo, do surrealismo, do pensamento
freudiano, tudo isso no contexto da sociedade
industrial. “Se no campo da linguagem visual
teve toda uma experimentação, a escola estava se
organizando como uma linha de produção”, afirma
um educador e comunicador.
Esse caldo de cultura de pessoas, instituições,
referências e imagens concretiza-se em 1998 na
criação oficial da Oficina de Imagens. O trabalho
experimental do Latanet continua em 1998, menos
sistemático ainda do que em 1997, por falta de
recursos, mas com oficinas, palestras e participação
em eventos, como o Seminário Internacional de
Educação e Comunicação do NCE-ECA-USP,
que também participa desta pesquisa.
Nesses eventos seus educadores conhecem
várias outras pessoas que também vinham fazendo
experiências na área: do próprio NCE, de São Paulo,
do Auçuba, em Recife, da TV Maxambomba, no Rio,
do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia – uma das raízes
históricas da Cipó –, entre várias outras instituições
Em 1998 e 1999 o desafio principal torna-se
trabalhar como uma organização – naquela fase,
ainda sem qualquer apoio financeiro. O grupo realiza
duas edições de seu próprio Fórum de Educação e
Comunicação, trabalha com a Rádio Favela, então
em fase de grande visibilidade, produzindo um
programa chamado “De Olho na Mídia”. Este abre
um novo braço de ação para o grupo, ao coloca-los
em contato com a ANDI e sua proposta de criar
uma rede nacional de monitoramento da mídia.
A crescente articulação com outras pessoas,
projetos e instituições os leva a integrar a Rede de
Educação pela Comunicação (Reducom), mantida
então pelo Instituto Ayrton Senna. Nesse trabalho,
o grupo se vê, novamente, desafiado a sistematizar o
que aprendera até então para estruturar o currículo
do projeto Latanet e realiza-lo, ao longo de 2000,
em parceria com o Centro Cultural Maria Lívia,
instituição de Belo Horizonte experiente em arteeducação. A questão escolar se torna cada vez
mais presente.
A parceria com o Instituo Ayrton Senna se
desdobra em outro trabalho, de produção de vídeocartas por estudantes participantes do Programa
Largada 2000, promovido pelo SESI em parceria
com o Instituto.
Como em outras organizações, o desenvolvimento
dos programas da Oficina de Imagens reflete os altos
e baixos de financiamento. Assim, 2001 é um ano
em que, de um lado, nasce a Agência da Rede ANDI
na Oficina, que mais tarde daria origem ao Núcleo
de Comunicação e Mobilização Social. Mas, por
outro lado, faltam recursos para a continuidade mais
consistente do Latanet, que novamente ocorre por
meio de oficinas e participação em eventos. E foi
num desses eventos, o 1o Seminário Brasileiro de
Crianças e Adolescentes Trabalhadoras, promovido
pelo Movimento Nacional dos Meninos e Meninas
140
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
de Rua, que os líderes do Latanet se aproximam do
UNICEF, que desde 2002 apóia o projeto.
Os recursos do UNICEF e a consolidação da
Agência da Rede ANDI, com o ingresso de outros
apoiadores, leva a uma crescente profissionalização
da ONG, a partir de 2002, permitindo que seus
líderes dediquem mais tempo aos projetos. Mas
mesmo quando os recursos faltam, os trabalhos
externos agregam conhecimentos importantes, como
a fase em que um dos líderes produz vídeos para a
rede municipal de ensino de Belo Horizonte, no final
de 2001: “Aí é que eu fui entrar na Educação.”
No segundo semestre de 2002 começa a ser
implantado na ONG o Núcleo Multimeios,
que hoje reúne os trabalhos de produção de
comunicação por estudantes e educadores. É
quando começa a ser implantado o Projeto Latanet
2002, que trabalhou com 40 estudantes de duas
escolas municipais, em encontros semanais ao longo
de um semestre, e com 16 professores, em reuniões
esporádicas de formação [leia mais em pedagogia
/ metodologia]. Esta experiência que deu origem a
um bom documento de sistematização [leia no item
correspondente à frente].
Em 2003, com o apoio do UNICEF na
articulação de uma parceria mais sistemática com
a Secretaria Municipal de Educação, o foco do
Latanet muda dos estudantes para os educadores
e o programa de formação, também no segundo
semestre, envolve encontros aos sábados de 45
professores e 15 gestores, com 10 monitores jovens
formados no Latanet 2002. Para 2004 a idéia
é formatar um conjunto de materiais, num kit
pedagógico, com práticas e conceitos. “O processo
que está construindo (esses materiais); não adianta
criar um pacote e baixar na rede”, diz um dos líderes
da ONG.
Uma parceria com o Instituto WCF – Brasil e
com a Visão Mundial, atraídos pelos resultados
alcançados pela organização, abre um novo
programa. Este, mais centrado no protagonismo
juvenil, forma 20 lideranças juvenis de comunidades
de baixa renda, para trabalhos de combate à
violência, ao abuso e à exploração sexual de crianças
e adolescentes.
 GESTÃO
O “aprender fazendo”, que caracteriza boa parte
das experiências pedagógicas desta pesquisa,
tem, no caso da Oficina de Imagens e de outras
organizações jovens como ela, um componente
forte na área de gestão.
No “boom” do chamado Terceiro Setor, a partir
de meados da década de 90, surgiram inclusive
prêmios e programas de apoio para instituições
como a Oficina de Imagens, que são criativas
na atividade fim, mas muitas vezes trazem um
repertório reduzido de conhecimentos e experiências
de gestão.
No caso específico da Oficina de Imagens, a
gestão é identificada pelos próprios líderes como um
dos desafios atuais da organização, dada a grande
expansão em programas e atendimento desde 2001.
Também semelhante a outras ONGs desta pesquisa,
um dos líderes faz parte da rede montada no país pela
Fundação Avina, e tem como projeto nesta parceria o
fortalecimento da gestão da Oficina.
Atualmente há uma divisão dos fazeres da
organização em dois núcleos, um mais relacionado
a programas que utilizam a comunicação na
educação, que em 2003 reuniu o Latanet e o Jite
(Jovens Interagindo); outro, centrado na relação
com os meios de comunicação e a comunicação de
massas, onde, entre outras coisas, são desenvolvidas
as atividades da Rede ANDI. O primeiro é
denominado Núcleo Multimeios e o segundo,
Núcleo de Comunicação e Mobilização Social.
Ao contrário de outras organizações desta
pesquisa, onde a liderança ou recai nitidamente
em uma pessoa, ou recai em instâncias
institucionalizadas de poder, no caso da Oficina a
liderança principal é exercida por duas pessoas, que
inclusive dividem a mesma sala de trabalho. Até
recentemente, ambos participavam de tudo. Com
141
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
a instituição dos dois núcleos, definiu-se que um
lideraria um núcleo e outro, o outro. As questões
mais gerais da organização são deliberadas por estes
dois junto a outros integrantes da equipe (inclusive
da diretoria, mais distante do dia-a-dia).
O programa da Oficina mais centrado na
disseminação de metodologia de educação e
comunicação em escolas públicas é o Latanet,
e analisaremos a seguir a gestão mais específica
deste trabalho.
Embora o Latanet 2003 (e mesmo 2002) seja
uma parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte e,
mais especificamente, com a Secretaria Municipal
de Educação, o grosso das atividades de gestão do
programa recai sobre a Oficina de Imagens. Mas é
um peso que, de certa forma, a ONG junto com o
UNICEF buscam sistematicamente dividir com o
poder público.
A tendência, como em vários outros casos, é o
trabalho do Latanet ser visto como algo externo
à rede de ensino, quase como uma terceirização
de trabalhos extra-curriculares. Mas, longe disso,
o Latanet é praticamente uma proposta curricular
completa [leia mais em pedagogia / metodologia] e sua
verdadeira implementação implicaria uma revisão
significativa da própria organização dos tempos e
atividades escolares.
Cientes disso, a Oficina de Imagens e o
UNICEF pediram, ainda em 2002, uma reunião
com o secretário da Educação, para apresentar o
projeto e sua articulação na rede. Belo Horizonte
tem tido o privilégio, entre os municípios do país,
de ter uma política educacional consistente e
contínua há três gestões (o mesmo ocorrendo, aliás,
no nível estadual). E uma das propostas centrais da
Secretaria Municipal de Educação é exatamente a
gestão participativa.
Foi assim que se constituíram duas instâncias
gestoras para o Latanet, uma mais política, que
inclui lideranças das três entidades (Oficina, SME
e UNICEF) e se reúne uma ou duas vezes ao ano, e
outra mais técnica, composta por gestores da SME
e pelos coordenadores do Latanet, com reuniões,
no mínimo, mensais. Mesmo assim, o grosso das
decisões no dia-a-dia é da Oficina, já que é ela que
executa o programa e faz as articulações necessárias
para que ele de fato ocorra.
Mas a costura técnica-política com a Secretaria
é vista como crucial pelas lideranças da ONG:
“O que é construir uma política pública? É uma
política construída pelo governo, uma política
governamental? Ou é uma política construída por
diversos atores sociais?”, pergunta um desses líderes.
“Não adianta a gente querer colocar o Latanet como
política governamental, tem que ir ao encontro da
escola e não de encontro.”
Ao longo dos trabalhos de 2002 e 2003
construiu-se uma certa divisão de papéis em
certas áreas. Por exemplo, a comunicação com os
professores é mediada pela Oficina de Imagens; já
a comunicação institucional com as escolas é feita
através da secretaria.
A Oficina vê seu papel como o de “provocação”,
“articulação”, “trazer a metodologia”, “execução do
projeto”, “formatação”, “capacitação”. A SME, além
do papel político, cria as condições para que essas
ações sejam possíveis.
“O que faz funcionar melhor é nossa autonomia
política. Nós não estamos amarrados à escola nem
à política governamental”, afirma uma liderança da
Oficina, apontando para um fator que pode ser
essencial para a introdução de projetos de Educação,
Comunicação & Participação em redes públicas de
ensino. Isto é, a necessidades da articulação de atores
sociais com diferentes níveis de comprometimento
com as diversas instâncias das redes educativas.
 SUSTENTABILIDADE
Os altos e baixos de financiamento para projetos,
comuns em muitas ONGs desta pesquisa, são
marcantes nos primeiros anos da Oficina de
Imagens. A própria história do Latanet, principal
programa analisado neste texto, é vinculada a esses
altos e baixos.
142
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Assim, em 1997, surge o Latanet, unindo
adolescentes de comunidades pobres do Rio e
de BH, com um pequeno apoio da Secretaria
Municipal de Educação e muito esforço e
investimento pessoal dos líderes desse processo. Em
1998 e 1999, o programa existe apenas em oficinas
e participação em eventos, pois não há um parceiro
financiador fixo. Em 2000, parceria com o Centro
Cultural Maria Lívia e o Instituto Ayrton Senna faz
o programa ressurgir, mais organizado e com mais
profundidade. Em 2001, novamente o programa
entra em recesso, por falta de recursos. Só em 2002,
com a parceria com o UNICEF e a SME é que o
programa realmente consolida sua sustentabilidade
– garantida, atualmente, inclusive em 2004.
A questão é que, quando há recursos, os resultados
são cada vez mais consistentes. E isso traz cada vez
mais parceiros – como no caso do Instituto WCF.
Central também para a visibilidade e conseqüente
sustentabilidade da ONG foi a participação na
Rede ANDI – porta de entrada da WCF. Em 2001,
os únicos recursos disponíveis na ONG eram os que
vinham da Rede ANDI. Atualmente, os parceiros e
financiamento se multiplicam à medida que a ONG
amadurece técnica e politicamente, inserindo-se
cada vez mais nos meios de comunicação e nas
redes educativas da cidade de Belo Horizonte. Hoje
a ONG executa oficinas em várias partes do país.
Embora não esteja situada diretamente no eixo RioSão Paulo, onde os recursos do Terceiro Setor são mais
abundantes, a proximidade geográfica facilita o acesso
a esses potenciais parceiros. E o fato é que a ONG vem
diversificando suas fontes de financiamento e, se isso
for associado, como se pretende, a um processo mais
profundo de planejamento estratégico da organização,
a sustentabilidade tenderá a sofrer menos altos e baixos
do que os que ocorreram nos anos iniciais.
para sua rede de ensino. Denominada “Escola Plural”
e implementada a partir de 1995, essa política foi uma
das primeiras na Brasil a instituir o sistema de ciclos
no ensino fundamental (mecanismo que possibilita
um rearranjo dos currículos e da organização dos
tempos escolares; o que às vezes é reduzido, em
comunicações desinformadas, à eliminação da
reprovação de uma série para outra).
A Escola Plural propõe uma gestão participativa
das escolas (há eleição dos diretores na rede
municipal e estadual de Minas desde 1989),
rotatividade de professores nos cargos técnicos
da secretaria, especialmente na área de formação,
Projetos Político Pedagógicos por escola, que pode
solicitar recursos específicos para implantação de
projetos especiais. Enfim, uma série de medidas em
geral consensuais entre educadores como indutoras
de qualidade no ensino.
Foram muitas as iniciativas inovadoras que
surgiram na rede municipal de Belo Horizonte desde
então. Mas tem sido igualmente forte a resistência que
esse tipo de proposta encontra nas próprias escolas e
entre as famílias, que em geral trazem o repertório da
escola tradicional, seriada, com currículo centralizado
na secretaria e pedagogia “bancária”.
Assim, a Oficina de Imagens enfrenta na sua
relação com as escolas a mesma dualidade: pelo
lado dos gestores da educação municipal, está
perfeitamente de acordo com a política proposta;
já pelo lado das escolas, de seus agentes e suas
comunidades, o trabalho não flui tão fácil.
Por exemplo, as escolas de Belo Horizonte podem,
se quiserem, organizar seus currículos baseadas no
desenvolvimento de projetos, articulando o conjunto
das disciplinas em torno desses projetos. “Mas tem uma
cultura escolar muito estabelecida. É difícil romper com
ela. É mais fácil reproduzir o esquema transmissivo”,
afirma um educador, que atua na área técnica da
secretaria. Mesmo quando há projetos especiais, eles
 PARCERIA COM A ESCOLA
Impossível falar das parcerias estabelecidas pela tendem a ser marginalizados por essa cultura: “A escola
Oficina de Imagens com as escolas de Belo Horizonte tem autonomia, mas os projetos ficam por último, com
sem citar, primeiro, a política do Executivo municipal o tempo que sobrou (nas reuniões).”
143
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
A Oficina de Imagens começou seu trabalho de
educação em espaços não-escolares. “Com a escola
a gente via que não conseguia se comunicar, parecia
uma coisa hermética. Mas depois foi percebendo
que este é o modus operandi das escolas”, diz um
dos líderes da organização.
A estratégia – inicialmente intuitiva e hoje já bem
sistematizada – foi formar uma rede de apoios dentro
do sistema escolar, que no futuro possa gerar a “massa
crítica” necessária para projetos do tipo Latanet
serem de fato incorporados como fazer próprio das
escolas – e não simplesmente como uma atividades
extracurricular promovida por um terceiro. “Estamos
construindo todo um processo de relação com alunos
e professores que catalize o que já vem acontecendo
nas escolas”, diz uma liderança da ONG. “Nossa
estratégia (com as escolas) é por contaminação.”
O que está claro para esta liderança é que
não dá para implantar projetos como o Latanet
“de cima para baixo” e que seu sucesso depende
do envolvimento dos gestores da educação e da
capacitação dos educadores.
Foi assim que se optou em 2003 a focar as ações do
Latanet na capacitação de professores (45) e gestores
de ensino (15), com mediação de monitores jovens
(10), formados no ano anterior. O envolvimento dos
docentes e gestores se deu por simples adesão. A idéia
é em 2004 produzir materiais e distribui-los para esta
rede de pessoas capacitadas, que, assim, saberão o que
fazer com eles.
A identidade de objetivos entre a Escola Plural
e a Oficina de Imagens em relação à educação
escolar tem sido um grande facilitador do trabalho
da ONG, que merece atenção pelo potencial
que tem hoje em dar resultados importantes e de
grande impacto.
Mas os desafios que terão de ser superados até lá
ainda são enormes. Enquanto é apenas um projeto
extracurricular, ou de formação de professores, tudo
tem caminhado razoavelmente bem. “Quando aparece
um projeto como o Latanet o interessante fica lá e o
chato fica na escola”, diz um técnico da SME.
Mas o projeto Latanet, para realmente
transformar a educação escolar, terá que entrar na
sala de aula, não apenas na escola. E este é o grande
desafio até agora inclusive dos projetos propostos
pela Escola Plural. “É preciso pensar a organização
dos tempos (da escola), pois o projeto trabalha
questões de formação humana como um todo”,
afirma um professor que admira o trabalho.
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
“Na escola, se eu erro, eles tiram ponto. Aqui,
se eu erro, eles ensinam de novo.” (Estudante do
Latanet)
A apresentação da sistematização do Latanet 2002
traz uma definição um tanto abrangente dos objetivos
do programa, mas que, para quem conhece o projeto
mais de perto, está bem próxima da realidade:
“Este projeto propõe articular questões da história
da ciência, do desenvolvimento das tecnologias
da informação e dos conhecimentos escolares.
Por meio de oficinas, os participantes constroem
câmeras fotográficas com latas de alumínio que
possibilitam capturar imagens de suas vidas e de
suas comunidades. Essas imagens são objeto de
intercâmbio, via internet, através de fotomensagens.
Esse processo envolve: articulação da história das
ciências e dos conteúdos escolares; interpretação
de imagens e leitura crítica da mídia; apropriação
de técnicas e linguagens de comunicação; pesquisa
sobre o entorno e a história das comunidades
envolvidas; intercâmbio e trocas de experiências.”
Ou seja, é uma proposta pedagógica que poderia
cobrir boa parte do currículo escolar – hoje
fragmentado em disciplinas e séries.
Na busca por compreender como isso acontece
na prática, foi perguntado a um grupo jovens que
participou do Latanet 2002 o que caracteriza a
educação na escola e o que caracteriza a educação da
Oficina de Imagens. Cada estudante escreveu uma
tarjeta para a educação na escola e uma, para educação
na ONG. Os resultados estão na tabela a seguir:
144
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Educação na Escola
Educação na Oficina de Imagens
Comum, chato, muito corrido
Simplesmente prática, livre
Não tem diálogo
Legal c/ muita responsabilidade p/ aprendermos. E só.
Descontraído, Trabalho em grupo, solto, bem prático,
criativo, você tem opção de escolha
Na OI é ótimo, também, c/ responsabilidade mas c/
aquele arzinho de que além de aprender ajudamos a
ensinar
Presa
Livre
Suficiente
Satisfatória, legal, curioso
Muito corrido e bom
Legal, aproveitadora
Anormal, pouco produtiva, desconfortável, teórica
Normal & Curioso
Quanto ao conteúdo é até bom, mas quanto à forma
que esse conteúdo é passado é um tanto inadequada.
Modo alternativo de aprender, aprender com interesse
e graça
Mais prática, os conteúdos são trabalhados interdisciplinarmente
Teórica, quase não sai da sala de aula
É um pouco complicada
Interessante, diferente, tempo livre
Prof. Sempre está certo
+ descontraído, com responsa
O interessante é que os alunos, além de fazerem
distinções tão claras, têm sugestões de como
melhorar a educação escolar:

O prof. tem que fazer com que nós gostemos
de sua matéria, e não somente “ter” que nos
passar a matéria

Liberdade de expressão dos alunos e
criatividade

Vontade de todas as partes em melhorar

Fazer com que o professor se interesse pelo
aluno e comece a trata-lo como amigo, mas
sempre com muito respeito

Que os professores venham a escutar os
alunos e analisar as suas propostas

Passar para a prática

Requalificação

Mais dialogo

Sairmos da sala de aula

Dar um “por que” para o que aprendemos
Enfim, os jovens vêem a escola como algo
necessário, mas lidando com o conhecimento de
forma teórica e abstrata e pouco aberta ao diálogo
e participação. E isso mudaria se os professores
articulassem melhor os conteúdos ao dia-a-dia
dos alunos (“sair da sala de aula”) e simplesmente
conversassem mais com eles.
Também nesta área de educação junto com
a escola e seus agentes, o grupo da Oficina
de Imagens construiu seus conhecimentos na
experimentação. “Só depois é que a gente foi tomar
consciência de que a forma que a gente trabalhava
era construtivista”, diz um dos líderes da ONG.
Significativamente, a metodologia de capacitação
de educadores segue os mesmos princípios: “No
caso do Latanet, vem primeiro a prática”, diz uma
professora da rede municipal de Belo Horizonte.
A experimentação está de certa forma na raiz da
metodologia: “Estamos hoje experimentando como
145
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
é trabalhar com aluno, técnico e professor juntos”,
diz um dos coordenadores do programa em 2003.
Os resultados dessa nova metodologia de
capacitação de docentes, primeiro prática e depois
teórica, se reflete em algumas conclusões dos
participantes. Um gestor da SME diz, por exemplo:
“O Latanet mostra que você não precisa de cursos
de informática.” “Aproxima com a internet de
maneira tranqüila e significativa.”
Este gestor faz uma síntese do que ele acha
importante na metodologia, centrada no uso da
comunicação:

Criar estratégias para que o professor tenha
que usar o site

Envolver trocas pela internet

Usar a comunicação como instrumento de
interação e construção de conhecimento
Segundo um jovem educador da Oficina: “A idéia
da comunicação (como metodologia de ensino) é
que o conhecimento não vai morrer ali, vai passar
para outro. O outro tem que ficar sabendo, tem que
comunicar isso.”
Entrevistas com os educadores mostram que
eles vêem ainda outros ganhos da introdução da
comunicação na educação: “O projeto (Latanet)
está desconstruindo aquilo que vem pela mídia para
depois reconstruir”, diz um educador que atua na
área de formação.
Alguns educadores da Oficina de Imagens
alertam para o fato de que a comunicação não
necessariamente resulta em novos processos
educacionais e de que estes podem inclusive
ocorrer sem a comunicação: “Você pode ter isso
sem qualquer instrumento. E você pode ter
educação autoritária com cinema, TV e vídeo”.
Embora bastante intuitivo, a metodologia que está
aparentemente norteando a ação destes educadores
é a do trabalho com projetos: “Vislumbrar a linha
de chegada facilita. Aqui (no Latanet) os meninos
podem vislumbrar um produto que vão ter no final
do processo.” Esses educadores também ressaltam
a importância da autoria (do educador/estudante
em relação ao produto de comunicação) no sucesso
dessa metodologia.
A composição profissional deste e de outros
grupos de educadores em projetos de Educação,
Comunicação & Participação mostra ainda outra
pista em relação ao sucesso da metodologia: “Na
educação pela comunicação tem que fazer o trânsito
dos profissionais; não dá para a escola saber tudo”.
Ou seja, o sucesso da implantação em escolas
dependerá da parceria com outros profissionais de
ambiente extra-escolar.
A publicação Projeto Latanet 2002 traz ainda dicas
importantes de como organizar eventos e capacitações.
Por exemplo: no capítulo referente à apresentação do
projeto nas escolas, para estudantes e professores, o
relatório introduz a o conceito de “aula dialogada”:
“Ao invés de uma mera exposição sobre o projeto,
buscou-se estabelecer um espaço interativo, numa
espécie de aula dialogada, que teve como temas a
própria Oficina de Imagens; o trabalho de uma ONG;
a possibilidade de fazer fotos com uma lata de alumínio;
o papel da mídia hoje, principalmente, a televisão e sua
influencia na vida das pessoas; dentre outros.”
Enfim, “aula dialogada” é uma boa definição para
vários fazeres pedagógicos da Oficina de Imagens.
 PARTICIPAÇÃO
A metodologia “dialogada” e a estratégia de
desconstruir os meios de comunicação de massas e
depois construir, com os professores e estudantes, uma
linguagem própria e seus veículos de comunicação e
tende a re-significar o lugar do jovem na sociedade.
Por exemplo, a apresentadora global Angélica
esteve na Oficina de Imagens, gravando um vídeo
para a campanha Criança Esperança junto com os
adolescentes e seus objetos óticos. Dois meses depois,
um jovem envolvido na gravação, calouro na época,
avaliou a experiência: “Quando ela veio até parecia que
ia sair faísca, que ia brilhar. Mas não, é uma pessoa. Você
não precisa sentir medo. Um dia você pode estar ali.”
O depoimento de jovens do Latanet sobre as
principais mudanças pessoais devido ao programa
146
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
resume, razoavelmente bem, a orientação da
organização na área de participação:

Aprendi a ter mais responsabilidade e vê as
coisas com outros olhos

[Mudou] tudo, principalmente o meu modo de
pensar, de ver as coisas no dia-a-dia. Responsa

Penso mais; amadureci em vários aspectos
da minha vida

[Mudou] O modo de pensar, em relação a
maneira de encarar a sociedade e a mídia de
um modo geral, e uma maior ganancia pelo
conhecimento

Maduro Responsável Despertou em mim
uma enorme criatividade

Amadureci; não me deixo ser manipulada
pelo que a mídia expõe (procuro analisar
informações e não generalizar)

A percepção da vida melhorou e aumentou
minha responsabilidade
Entre os jovens do Jite ( Jovens Interagindo),
que desenvolvem projetos para suas comunidades, as
duas palavras que mais surgem para definir o que é
necessário para que um jovem se torne protagonista
– como eles estão se tornando – são: “Informação”
e “oportunidades”.
infantil e é reforçada até na universidade”, afirma
uma gestora da SME-BH.
E é neste campo, da capacitação, que eles também
vêem possibilidades de superação deste desafio:
“Quanto mais a formação do professor é diversificada,
melhor. O Latanet traz isso”, diz um educador.
Outro elemento fundamental para a superação da
educação e do padrão de relacionamento “bancário”
é a própria organização do currículo, apontam
também educadores e educadoras envolvidos na
gestão da SME:

Nas escolas tem a cultura do pré-requisito,
tipo o que eu vou ensinar para o aluno se ele
não sabe ler.

A escola consegue fazer um objeto ótico [no
Projeto Latanet, que ocorre extra-classe]
por exemplo, mas não consegue por isso nas
disciplinas.

É tipo “Eu tenho o meu conteúdo e tem o
projeto”. Um fica separado do outro.
A participação de docentes no Latanet, junto
com adolescentes e jovens, às vezes tidos como
“problema” em suas escolas de origem, traz novas
percepções: “O professor às vezes leva um susto
com o aluno: ‘Puxa, ele é capaz.’” E surgem novas
visões de como trabalhar desta nova maneira: “Se
não reduzir o currículo a uma grade, dá!”
 RELAÇÕES
O ingresso de projetos de Educação, Comunicação
Enfim, como diz uma professora: “O grande desafio é
& Participação na sala de aula implica mexer que a escola pare de tirar esse desejo de aprendizagem.”
fortemente com relações, mais especificamente,
com as relações entre professores e estudantes.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
“Nós professores não fomos preparados para lidar AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
com a dúvida. Há essa insegurança de lidar com as Como já foi dito acima, o Projeto Latanet – Da
questões que os alunos apresentam. É mais fácil Latinha à Internet tem um bom documento de
lidar com o conhecimento redondo do que com a sistematização, que merece a leitura daqueles que
dúvida, a indagação”, diz uma educadora envolvida trabalham com projetos envolvendo Educação,
em processos de formação na SME-BH.
Comunicação & Participação. Esse documento,
Diante dessa insegurança, a relação do professor denominado Latanet 2002, até mais do que uma
freqüentemente torna-se autoritária ou distante ou sistematização, tem um pouco de cada um dos
ambas. Mas os educadores localizam como raiz conceitos do título acima (Registro, Sistematização,
deste problema sua própria formação: “O saber que Avaliação e Disseminação). E experimenta
norteia a prática do professor vem desde a educação estratégias interessantes em todos esses campos.
147
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
O Latanet representa, a cada ano, o estágio atual
da pedagogia e da visão da Oficina de Imagens.
Assim é possível acompanhar, nos materiais usados
pelo projeto, a evolução dessa pedagogia e dessa
visão. Para 2003 – em que o programa focou na
capacitação de docentes – boa parte dos materiais
usados estão disponíveis no site da organização.
A parceria com o UNICEF aponta para um
processo, em 2004, mais intenso de sistematização e
disseminação, com a formatação de um “Kit Latanet”
que possa ser apropriado pelos educadores e gestores
que já passaram pelo programa em 2003. “O processo
que está construindo; não adianta criar um pacote e
baixar na rede”, diz um líder da Oficina.
Assim, os próprios professores passam a ser os
agentes da disseminação (o que Bernardo Toro
chama de re-editores). “O que a gente quer é
que os professores possam estar pensando como
redimensionar o Latanet para dentro da escola”.
Os gestores da SME envolvidos no projeto
identificam ações simples, mas essenciais para
o sucesso dos processos de capacitação de
professores, ações que, na verdade, estão mais no
campo simbólico:

Tema ser atraente para o professor

Professor se sentir valorizado

Espaço da capacitação ser bonito

Almoço ser gostoso

Oferecer bons materiais (pastinha com
caneta é essencial)
O diário dos jovens na área do site da Oficina
de Imagens relativa ao Jite ( Jovens Interagindo) é
também um bom exemplo de registro, sistematização,
avaliação e disseminação, tudo junto.
um projeto que capacitava algumas dezenas de
jovens ao ano para um programa inserido na rede
municipal de ensino, que trabalha com educadores
na construção de novas estratégias para transformar
o currículo e as práticas escolares.
Ainda na área de formação, a Oficina criou em 2003
o Jite ( Jovens Interagindo), focado essencialmente em
protagonismo juvenil (ou participação, ou mobilização
social), e com isso acumula mais experiência nesta área.
Experiência esta que, evoluindo, deve se cristalizar em
produtos e materiais inovadores, como vem ocorrendo
com o Latanet.
Pelo lado da comunicação e mobilização social
a ONG deu um salto semelhante nos últimos dois
anos. Além de publicar anualmente a pesquisa “A
Criança e o Adolescente na Mídia – MG”, a Oficina
tem conseguido realizar eventos de lançamento desta
pesquisa com participação e impacto cada vez maior e
já é conhecida entre os comunicadores daquela cidade
como referência na área de infância e adolescência.
O relacionamento do grupo os Conselhos
Tutelares e Conselhos Municipais da Criança e do
Adolescente de Minas Gerais resultou na produção
da revista bimestral “Bons Conselhos”. Depois
disso, a Oficina foi convidada a liderar um programa
da ANDI de capacitação em comunicação de
Conselhos Tutelares do país todo. Esta experiência
estava, no segundo semestre de 2003, sendo
sistematizada em um manual de orientação para
construção de planos de comunicação.
O site da organização “tem que melhorar”, dizem
sempre as lideranças da Oficina de Imagens, mas
mesmo assim traz boas amostras dos resultados do
trabalho pedagógico da ONG, especialmente nos
dois programas educativos (Latanet e Jite) mantidos
pelo Núcleo Multimeios.
 RESULTADOS E PRODUTOS
Os resultados e produtos da Oficina de Imagens
Enfim, com a continuidade do Latanet garantida
vêm aumentando em quantidade, qualidade e por uma sólida parceria com a Secretaria Municipal
impacto em suas duas principais áreas de atuação: de Educação de Belo Horizonte e o crescimento
Educação com Comunicação e Comunicação para das ações e parceriasda ONG, a Oficina de
Mobilização Social.
Imagens tende a continuar por um bom tempo seu
Pelo lado educativo, o Latanet evoluiu de movimento ascendente.
148
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Dados - Oficina de Imagens
Nome
Oficina de Imagens – Comunicação e Educação
Natureza da
organização
Organização da Sociedade Civil Organizada - OSCIP
Missão
“Pesquisar, desenvolver e difundir métodos educacionais para a formação
de adolescentes, educadores, comunicadores e agentes da sociedade civil, a
partir do uso social e educativo dos recursos da comunicação, para promover o
desenvolvimento da sociedade com ênfase na promoção dos direitos da criança e
do adolescente”
Endereço
Rua Salinas, 1101 – Bairro: Santa Tereza – CEP 31015-190
Belo Horizonte - MG
Telefone
(31) 3482-0217 Fax: ramal 26
E-Mail
[email protected]
Site
www.oficinadeimagens.org.br
Responsáveis
Diretor Presidente: Luiz Guilherme Queiroz Gomes
Diretor Administrativo: Adriano Celso Guerra
Diretor Financeiro: Bernardo Vasconcellos C. Brant
Infra-estrutura
A Oficina de Imagens (OI) está localizada em uma ampla casa no bairro Santa
Teresa, região leste de Belo Horizonte. A organização interna da casa oferece os
seguintes espaços de trabalho: sala de reuniões, sala da diretoria, sala do setor
administrativo-financeiro, sala de informática e Núcleo Multimeios, sala para o
Núcleo de Comunicação e Mobilização Social, sala para o Núcleo de Programação
Visual, área coberta para realização de oficinas com adolescentes.
149
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Núcleo Multimeios:
Projetos:
Projeto JITE ( Jovens Interagindo)
Projeto Latanet - da latinha à Internet
Principais
Programas/Projetos
Núcleo de Comunicação e Mobilização Social:
Atuais projetos: Rede ANDI, Mídia e Conselhos (em parceira com a ANDI e
o CONANDA), revista Bons Conselhos (em parceria com o Instituto Telemig
Celular), site da Frente de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente-MG,
site Oficina de Imagens e Assessoria de Comunicação ao Grupo de Instituições
Solidárias (GIS).
Núcleo de Programação Visual:
Este núcleo tem a função de contribuir para a sustentabilidade financeira da
Oficina de Imagens, através da produção de peças de comunicação (sites, cartõespostais, camisas, folders, jornais, manuais, relatórios, banners, planfletos, cartões,
convites, cartazes, etc).
Clipping TIM – A Oficina de Imagens é hoje responsável pela realização do
clipping empresarial da empresa de telefonia celular TIM.
Números de
atendimento
Diretamente: 36 adolescentes e 65 educadores
Indiretamente: 600 adolescentes; 90 educadores; 60 veículos de comunicação
de MG; 50 jornalistas; 120 instituições do 3º Setor; 60 Organizações
Governamentais; 42 especialistas da área da infância e adolescência; 23 empresas;
25 instituições de ensino; 100 estudantes universitários
Equipe/Formação/
Capacitação
Diretoria Executiva
Luiz Guilherme Gomes, Adriano Guerra e Bernardo Brant ( Jornalistas)
Administrativo/Financeiro
Evandro Miranda (Contabilista)
Alcione Rezende (Secretária Executiva)
Núcleo de Comunicação e Mobilização Social
Coordenação: Adriano Guerra
Jornalistas: Fabrício Santos e Cristina Guimarães
Estagiários: Débora Jabour Keila Costa, Fabiana Schmitz, Keila Costa Taciana
Ramos e Thiago Herdy (Estudantes do Curso de Jornalismo)
Núcleo Multimeios:
Coordenação: Bernardo Brant
Consultoras: Elizabeth Gomes, Cláudia Caldeira, Cláudia Ricci
Educadores: Ângela Nascimento, Fabiano Barroso, Fernando Rabelo, Silvana Côrtes
Estagiários: André Hallak, Janaína Roseslato e Thiago Belchior.
Núcleo de Programação Visual
Coordenação: Henrique Milen ( Jornalista)
Estagiários: Ana Paula Vizeu, Natália Correa e Pâmera Ferreirai
150
Educação, Comunicação & Participação
Oficina de Imagens
Formas de
Contratação
Produtos
Estagiários: Termo de Compromisso de Estágio.
Profissionais:Prestação de Serviços (Via emissão de Recibo de Pagamento a
Autonômo ou emissão de nota fiscal) e Regime CLT.
Núcleo de Comunicação e Mobilização Social:
Clipping MG–Criança e Adolescente; Prioridade Absoluta; Revista Bons
Conselhos;
Pautas Especiais; Pesquisa anual “A Criança e o Adolescente na Mídia de Minas
Gerais”; Site Frente de Defesa; Programa de Rádio (Boletim da Infância e
Adolescência); Site Oficina de Imagens, Cobertura On Line; outras publicações
editoriais
Núcleo de Programação Visual:
Materiais de comunicação (sites, cartões-postais, camisas, folders, jornais,
manuais, relatórios, banners, planfletos, cartões, convites, cartazes, etc); Clipping
Empresarial
Orçamento
R$ 650 mil em 2003
Principais Parceiros
Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente - Amencar
Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente - CEDCA
Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente - CONANDA
Fundação Kellog
Fundo Cristão para Crianças
Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF
Grupo de Instituições Solidárias - GIS
Instituto Telemig Celular
Instituto WCF-Brasil
Prefeitura de Belo Horizonte
Save the Children - Suécia
TIM/Maxitel
União Européia/Novib/Missão Criança
Visão Mundial
151
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
Uga-Uga
Agência Uga-Uga de Comunicação

HISTÓRIA
A criação e os expressivos resultados da Agência UgaUga de Comunicação são decorrentes de um conjunto
de fatores que, combinados, impulsionaram o trabalho.
Esses fatores, inclusive, apontam perspectivas para
disseminação mais ampla de iniciativas de Educação,
Comunicação & Participação.
Em primeiro lugar havia uma jornalista
empreendedora, Eneida Marques, que em 1997
assumiu fazer, com um grupo de adolescentes, um
jornal voltado para estudantes da rede pública de
ensino de Manaus (AM). E assumiu isso quase como
uma missão, pelas crianças e jovens da Amazônia,
sem experiência anterior na área de educação.
Em segundo lugar havia uma oficial do UNICEF,
que percebeu a oportunidade de uma parceria com
a Secretaria Municipal de Educação de Manaus,
onde a jornalista era assessora de imprensa, e
estimulou e ofereceu apoio para desenvolver o
jornal por e para jovens da Amazônia. Sua idéia e
do próprio UNICEF era (como a desta pesquisa
é) criar estratégias que contribuam para a melhoria
do ensino público, tendo como foco o conceito, na
época ainda incipiente, de “protagonismo juvenil”
– hoje substituído pela palavra “participação”.
Em terceiro lugar, a secretária da Educação de
Manaus na época envolveu-se na discussão do
jornal jovem, gostou do projeto e o apoiou política
e financeiramente. Ou seja, já de início, havia
uma liderança local formada em comunicação,
uma organização internacional com propostas,
know-how e recursos, e uma gestão pública
municipal interessada em projetos inovadores no
ensino fundamental.
Outros dois fatores determinantes do surgimento
e da consolidação da Agência Uga-Uga ocorreram
a milhares de quilômetros de distância, no eixo RioSão Paulo-Brasília: primeiro, o “boom” do chamado
Terceiro Setor e o fato de muitas fundações e
empresas nacionais e internacionais terem na
Amazônia um local estratégico para investimento
social, o que disponibilizou mais recursos e
oportunidades para a área social; e, segundo,
a decisão da ANDI (Agência de Notícias dos
Direitos da Infância), nesse contexto, de expandirse em rede, associando-se a outras ONGs, entre
elas, a organização que surgiu a partir do trabalho
do jornal Uga-Uga.
Um sexto fator constitutivo da organização, e
talvez o mais importante, é a própria Amazônia e sua
jovem população, mais da metade com idade abaixo
de 21 anos, numa complexa busca de identidade e
sobrevivência. Um território que, de tão rico, gera
disputas que ameaçam a sustentabilidade não só
daquela região como de todo o planeta.
O UNICEF levou, ainda em 1997, consultores
para apoiar a construção do projeto na época
denominado Jornal na Escola, na Secretaria
Municipal de Educação. Juntos definiram como
público alvo a faixa etária dos 12 aos 19 anos e
escolaridade de 5a a 8a séries (a defasagem idade
série no Amazonas é de 54%, contra 34% em
todo o Brasil). A metodologia de produção seria
152
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
essencialmente participativa, como estratégia para
favorecer o protagonismo dos envolvidos.
O grupo inicial de trabalho envolveu 22 jovens,
indicados por duas grandes escolas municipais, e,
segundo seus dirigentes, com perfil dinâmico, de
envolvimento social. Eram jovens que realmente
tinham um diferencial. Alguns faziam teatro. Outros
se destacavam nos estudos. Cinco desses jovens
pioneiros hoje ocupam posições de coordenação na
Agência Uga-Uga de Comunicação. A evolução
e amadurecimento desses jovens constituem
um sétimo fator determinante na história e nas
perspectivas futuras da organização.
O grupo inicial de jovens definiu, com a jornalista,
Uga-Uga como nome do jornal.
Duas edições foram publicadas naquele ano
de 1997, com tiragem de 3.000 exemplares,
distribuídos nas duas escolas municipais. Para o
ano seguinte, o planejamento previa um jornal
bimestral, mas o processo de capacitação dos jovens
ainda estava no início, e isso não foi possível. Era
difícil para os adolescentes, em início de formação,
com o repertório que traziam da escola, seguirem o
cronograma de produção, ainda que este cronograma
tivesse sido construído por eles mesmos.
Assim, em 1998, o jornal foi trimestral, com
6.000 exemplares, enviados para todas as escolas que
tinham biblioteca. A partir de 1999 virou bimestral,
associado ao ano letivo. Hoje é distribuído a cerca
de 14.700 estudantes, de 5a a 8a séries, de 19 escolas,
e já tem uma produção mais sistematizada do que
experimental. Teve picos de 15 mil exemplares
disseminados em mais de 100 escolas. Em 2003,
após longas discussões e uma avaliação externa,
preferiram concentrar o trabalho, para ter mais
impacto, distribuindo mais jornais em uma mesma
escola (garantindo que todos os recebessem), a diluílo em vários locais, sem ter como avaliar sua inserção
no dia-a-dia das escolas e das crianças e adolescentes
[leia mais em Pedagogia/Metodologia].
Já no início, aquele jornal, feito por adolescentes
da Amazônia, ganhou visibilidade nacional, tanto
nos meios de comunicação como na extensa
rede de parceiros associados ao UNICEF.
Organizações como a ANDI e o Instituto Ayrton
Senna identificaram o grupo e os convidaram
para participar de encontros, redes e projetos. A
publicação e seu modo de produção, na verdade,
acabam sendo o gatilho do que viria a se constituir e
se autonomear como uma agência de comunicação.
Essa virada ganhou mais velocidade em 1999.
“Estava sendo tão legal para a gente, mas éramos
tão poucos”, comenta uma das envolvidas desde o
início do processo. E foi novamente em discussões
que envolveram desde os jovens até técnicos da
Secretaria da Educação, passando pelo UNICEF,
que se construiu a idéia de montar Núcleos de
Mobilização nas escolas.
Como ocorreu com os jovens pioneiros, esses
Núcleos seriam formados por grupos de estudantes
e educadores, apoiados pelo Uga-Uga, para criarem
produtos de comunicação, por meio dos quais
se experimentariam novas relações de ensino e
aprendizagem, mais participativas, com foco em
cidadania. Como o produto mais factível para todos,
em termos de recursos e conhecimento disponíveis,
era o fanzine, os Núcleos de Mobilização
surgiram tendo (e até hoje têm) como principal
produto fanzines sobre a realidade de cada grupo,
comunidade e escola.
Ao longo de 1999 e início de 2000, o grupo
discutiu o funcionamento da Rede ANDI, junto
com outras quatro ONGs que foram pioneiras neste
projeto, capacitando-se para aplicar a metodologia de
monitoramento da mídia nos meios de comunicação
impressos da Amazônia (quatro jornais diários,
atualmente). Mais ou menos no mesmo período,
esse grupo construiu o projeto e o estatuto social
da organização que seria criada. Assim, no primeiro
semestre de 2000, o grupo, então com cerca de 15
pessoas, quase todas jovens (22 anos em média), se
lança como uma organização não-governamental, já
com três projetos com recursos garantidos por no
mínimo um ano:
153
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
Jornal Uga-Uga (produzidos por adolescentes
e jovens e distribuído nas escolas)

Núcleo de Mobilização (atividade que
ocorre dentro das escolas)

Núcleo de Notícias (relacionado às
atividades da Rede ANDI)
Tornar-se ONG foi uma estratégia de
crescimento do grupo. O jornal tinha provocado o
surgimento de tantas outras ações e associações que
o grupo que o produzia já não cabia mais nos limites
institucionais da Secretaria da Educação – e a líder
do processo já não podia desempenhar, ao mesmo
tempo, as funções de assessoria de imprensa. Mas
mesmo tendo virado ONG, a Agência Uga-Uga de
Comunicação lidou algum tempo com essa marca
de origem: para determinadas pessoas era associada
a um determinado grupo político ou à Prefeitura.
Mas a crescente autonomia administrativa e
financeira da ONG em relação ao Poder Público
mostrou que isso era mais preconceito do que fato.
Em 2001 começou uma fase que poderia ser
chamada de consolidação e amadurecimento da
organização, uma fase que ainda estava em curso
quando foi feita a visita para esta pesquisa, no
segundo semestre de 2003. A proposta é ter a
proposta pedagógica – desenvolvida desde o início
do jornal – sistematizada até meados de 2004.
Os três programas iniciais (jornal, mobilização
e Rede ANDI) mantém-se até hoje, alguns com
novos parceiros (Petrobrás, Avina, Instituto C&A,
entre outros). Um apoio da WCF em 2002 e 2003
abriu uma quarta área de atuação, de enfrentamento
ao abuso e exploração sexual de crianças e
adolescentes, utilizando a experiência acumulada
na organização tanto em comunicação como em
mobilização e participação.
Resumindo, os elementos chave da Agência
Uga-Uga foram (sem ordem de importância):

Liderança formada em comunicação

Apoio técnico e financeiro do UNICEF

Apoio político e financeiro da Secretaria
Municipal de Educação de Manaus

“Boom” do Terceiro Setor no eixo Rio-SPBrasília, disponibilizando recursos (com
destaque para a Rede ANDI)

Acesso à rede de relações e aprendizagens
do Terceiro Setor (também destacando a
Rede ANDI)

Participação dos adolescentes

Identidade cultural da Amazônia
Para as lideranças do processo, o diferencial
do projeto na Região Norte foi trabalhar com a
participação juvenil, por meio da criação de produtos
de comunicação. “Não conheço nenhuma outra ONG
na região que faça isso”, diz uma coordenadora.

 GESTÃO
A equipe da Agência Uga-Uga de Comunicação é
formada por cerca de 25 pessoas, quase todas jovens
e estudantes (hoje, universitários).
No início da organização, de 1997 a 1999, o
grupo pioneiro, formado pela então assessora de
comunicação da Secretaria da Educação e cerca de
10 jovens, decidia – e aprendia – tudo junto. Foi este
grupo, apoiado pelo UNICEF, que construiu, artigo
por artigo, o estatuto social da organização. A ONG
existe legalmente desde abril de 2000.
O sucesso desse grupo pioneiro gerou seu
principal desafio desde então: dar conta de uma
organização cada vez maior e mais complexa, com
impacto, visibilidade e orçamento crescentes.
Os núcleos mais relacionados à participação
e à produção de comunicação são hoje liderados
por jovens pioneiros – que foram formados como
mobilizadores sociais ao longo do processo de
construção da organização. A agência da Rede
ANDI, área da Uga-Uga que se relaciona com meios
de comunicação, outras ONGs e comunicadores
em geral, contrata desde 2001 uma jornalista
profissional para sua coordenação.
Os jovens pioneiros, por seu próprio êxito,
valorizam o aprender fazendo, inclusive na gestão.
A atividade da Rede ANDI, com metas e sistema
de cobrança estabelecidos em instâncias externas à
154
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
ONG e com uma experiência acumulada de mais
de dez anos nessa área, traz novas possibilidades e
aprendizagens de gestão.
A coexistência desses dois modelos, um mais
experimental e intuitivo, outro mais profissional
e sistematizado, gera um movimento dialético na
organização. Por vezes há conflito, os jovens achando
que os mais velhos e experientes burocratizam a ONG;
os mais experientes ressentindo a improvisação. Mas
na maior parte do tempo essa dualidade é rica e fértil,
contribuindo para o sucesso da organização.
Nesse contexto, a diretora executiva, acumulou
praticamente todas as funções-chave, internas e
externas, desde captação de recursos até coordenação
pedagógica. Ciente disso, vem promovendo um
movimento de planejamento na organização que
distribua e institucionalize certos fazeres e poderes.
O novo plano de gestão será implantado em 2004.
Assim como a Oficina de Imagens, a Agência
Uga-Uga de Comunicação recebe apoio da Avina,
organização do Terceiro Setor da Suíça, no processo
de planejamento e aprimoramento dessa área.
Uma avaliação externa, iniciada em 2001, com apoio
do UNICEF, cujo relatório saiu em 2003, conclui,
neste campo da gestão, que é central para o sucesso
futuro da ONG a qualificação técnica da equipe de
coordenação, para que seja possível a desconcentração
das funções estratégicas da entidade.
 SUSTENTABILIDADE
A Agência Uga-Uga de Comunicação teve dois
apoios centrais para seu surgimento e continuidade:
a Secretaria Municipal da Educação de Manaus e
o UNICEF. A quantia que um e outro investiu nos
programas da organização variou bastante, desde
1997. Mas foram esses dois apoios, conseguidos
localmente, que tanto deram o chamado seed
money, isto é, o “dinheiro semente” para iniciar
o trabalho, como sustentaram a consolidação da
estrutura central da ONG.
Se no Nordeste as pessoas já se sentem marginais
ao Terceiro Setor, que é um fenômeno associado
à iniciativa privada, especialmente às grandes
empresas e ao mercado financeiro, ou seja, ao eixo
Rio-São Paulo, no Norte a sensação de isolamento
é ainda maior.
Mas a visibilidade conseguida com o Jornal
Uga-Uga em 1998 aproximou outros potenciais
parceiros. Em processo de constituição como
ONG – e tentando se diferenciar do governo,
onde nasceu –, surgiu como uma oportunidade
imperdível a proposta de associação à Rede ANDI,
para desenvolver um programa de monitoramento e
apoio à mídia relacionada à infância e adolescência.
Alguns jovens pioneiros, inclusive, resistiram a
essa entrada: trabalhar na Rede significava aderir
a uma metodologia já fechada. E eles preferiam,
como haviam feito até então, aprender fazendo.
“Mas não dava para perder [essa oportunidade].
O Jornal, os Núcleos de Mobilização mais a Rede:
era como se fechasse um círculo. A gente poderia
trabalhar com os adolescentes, mas também com os
meios de comunicação e sua compreensão sobre as
crianças e os adolescentes”, diz a diretora executiva.
Segundo a avaliação externa, proposta e financiada
pelo UNICEF e realizada pelo professor e pesquisador
Dirk Oesselman, da Unama (Universidade da
Amazônia):“Os contatos diretos com os comunicadores
da mídia impressa, radiofônica e televisiva ampliam o
espectro não somente do público alvo, como também
da direção da sua atuação, dando à Agência uma
identificação pública mais ampla, porém, diferente do
que era inicialmente.”
Com isso, uma nova onda de visibilidade ocorre
em 2000 e 2001, e novos parceiros se aproximam,
ampliando alguns programas e gerando outros.
Esses novos apoios são fundamentais para a
diferenciação da jovem ONG de sua incubadora, a
Secretaria da Educação.
A avaliação externa vê o risco de que, na necessidade
de buscar recursos, a ONG possa concentrar seu
trabalho mais na criação de produtos de comunicação,
ou seja, em resultados, do que no processo de favorecer
e mobilizar a participação de adolescentes.
155
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
Como foi dito na seção sobre gestão, no caso
da Agência Uga-Uga de Comunicação, a coexistência do processo e do produto, o primeiro
mais associado às origens da organização, aos
jovens, e o segundo, à sua profissionalização, gera
um movimento dialético, que por vezes se manifesta
como crise ou conflito, mas em geral é bastante rico
e produtivo.
Quando foi feita a visita desta pesquisa, a
Secretaria da Educação tinha no comando uma
política alinhada à proposta da Uga-Uga. Mas a
organização hoje já diversificou a tal ponto suas
atividades, contatos e financiamentos que já teria
como se sustentar sem este vínculo – embora ele
seja um facilitador importante para a disseminação
dos Núcleos de Mobilização. Em 2003 a prefeitura
custeou apenas a impressão do Jornal Uga-Uga.
 PARCERIA COM A ESCOLA
Além de ter sido crucial para a sustentabilidade
inicial da Agência Uga-Uga de Comunicação, a
associação à Secretaria Municipal de Educação de
Manaus também facilitou desde o início a inserção
do projeto nas escolas públicas.
Mas nem por isso o trabalho deixou de enfrentar
problemas comuns a outros projetos desenvolvidos
por ONGs externas ao sistema de ensino. Na própria
Secretaria, em alguns momentos, surgiu resistência
em relação às atividades daqueles adolescentes
comunicadores, que em pouco tempo de trabalho
começavam a questionar não só o modus operandi da
escola, como percebiam que alguns problemas tinham
origem fora da escola, alguns na própria Prefeitura.
“Uma das coisas que a gente aprende é que tem
que ser diplomático. Às vezes dá vontade de dar um
murro na cara, mas tem que dar um sorriso”, conta
uma das jovens pioneiras da Agência Uga-Uga,
sobre a relação com algumas escolas.
Quanto ao envolvimento de professores,
os Núcleos de Mobilização, que promovem
protagonismo juvenil e produzem fanzines,
passaram por uma experiência semelhante à vivida
no início do projeto Clube do Jornal Escolar, da
Comunicação e Cultura, em Fortaleza. Em ambos,
a idéia era ter um professor de referência em cada
escola, para marcar reuniões e monitorar o trabalho.
Mas na maioria dos casos, tanto em Manaus
como em Fortaleza, o professor mais dificultou
do que facilitou o processo, ou por sobrecarga de
trabalho, o que o tornava uma espécie de gargalo do
processo todo, ou por real disputa de poder (fissuras
provocadas pelo projeto naquilo que o Núcleo
de Comunicação e Educação da USP chama de
“ecossistemas comunicativos”).
“Tem escola que está difícil de andar, porque a
pedagoga não avisa os alunos que vai ter reunião”,
conta uma mobilizadora, sobre um dos desafios
encontrados em 2003.
Tanto o jornal Uga-Uga como o Núcleo de
Mobilização desenvolvem suas ações em momentos
extraclasse, sem uma estratégia sistematizada para
se tornar curricular, o que aumenta o desafio de
inserção mais consistente e contínua dos valores e
fazeres do projeto no cotidiano da escola. Mas as
diretoras e coordenadoras pedagógicas em geral
reconhecem o trabalho.
“O (jornal) Uga Uga tem sempre alguma relação
com o tema transversal, serve de estímulo”, diz
uma diretora.
Depende, aliás, da direção e, às vezes, da
coordenação pedagógica, a facilidade ou não no
contato com professores e no acesso a espaços para
oficinas e reuniões.
Como em outras experiências pesquisadas neste
projeto, parte da coleta de dados se deu por meio
de oficinas com diferentes públicos envolvidos no
trabalho. No caso da Uga-Uga, foram realizadas
oficinas com crianças e adolescentes atendidos nos
programas e com a equipe pedagógica, recorrendo ao
uso de tarjetas e perguntas chave, para levantamento
dos conceitos e imaginário do grupo em relação a
determinadas questões.
Na oficina realizada com os educadores, a equipe
de jovens pioneiros que coordena os programas
156
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
que se relacionam ao mundo escolar considerou
fundamental para que a escola possa incluir projetos
mais participativos, envolvendo comunicação:

Capacitar
os
educadores
(diretor,
coordenador pedagógico e professores),
usando metodologias construtivistas (e não
só com leituras e aulas expositivas)

Democratizar a gestão da escola

Mudar a cultura “adultocêntrica”

Acreditar na capacidade dos adolescentes

Valorizar esse tipo de ação

Valorizar o professor, que tem que gostar do
que faz

Ter o repertório da comunicação
 PEDAGOGIA / METODOLOGIA
A metodologia que há hoje nos programas de
Educação, Comunicação & Participação da Agência
Uga-Uga foi construída no modelo aprender
fazendo, o que é bastante comum em outros
projetos desse tipo e, em alguns casos, fator chave
para o sucesso da proposta [leia introdução a esta
pesquisa].
“Eu sentia que tinha que estar preparada, mas
não estava. Tinha momentos que me perguntava:
‘Será que vou pirar a cabeça dos meninos?’”, conta
a diretora executiva, sobre o início do processo
pedagógico, quando ainda era assessora de
comunicação da Secretaria da Educação.
Pelo lado dos meninos, essa disponibilidade da
jornalista em também aprender, embora estivesse na
posição de educadora, dava bons resultados: “Para
mim, foi a primeira vez que disseram na escola ‘O
que vocês gostariam de fazer?’ ‘O que vocês acham
disso?’ A gente se sentia importante, dava opinião,
foi ficando cada vez mais participativo”, diz uma das
jovens pioneiras do jornal Uga-Uga.
O contato do grupo pioneiro com o UNICEF
e seus consultores foi a principal via de acesso a
metodologias de dinâmicas e de criação de produtos
de comunicação. Foi num planejamento conjunto,
da líder e dos jovens pioneiros com a equipe do
UNICEF, que se definiu a estratégia da ação
pedagógica do grupo:
“Oportunizar o protagonismo dos alunos da rede
pública, estimulando e apoiando a sua iniciativa de
comunicação horizontal com outros jovens, como
um fator com potencial de dinamizar o processo de
ensino-aprendizagem, aumentando a auto-estima
dos alunos e gerando debates dentro das escolas
sobre temáticas do cotidiano desses jovens.”
Em 2003 a principal atividade da Agência
Uga-Uga em educação pela comunicação era
desenvolvida pelo Núcleo de Mobilização.
Consiste em organizar grupos de estudantes de 12
a 19 anos de idade, oferecer a eles uma capacitação,
três diferentes oficinas (Cidadania, Participação
Juvenil e Comunicação) e propor o desenvolvimento
de alguns produtos de comunicação, começando por
um cartaz (tipo um jornal mural) e culminando na
publicação de um fanzine.
Atualmente a estratégia consiste oferecer
aos educadores uma capacitação de cinco dias a
estagiárias mobilizadoras, em geral estudantes
universitárias ou recém-formadas. Estas passam a
trabalhar dois períodos por semana com cada grupo
formado nas escolas. Durante dois meses, reúnem
grupos formados por estudantes de duas escolas,
para que eles desenvolvam projetos em comum.
Foram realizadas para isso oficinas em Mobilização
social, Técnicas de Fanzine, Participação Juvenil e
Passo a Passo na Mobilização.
“O fanzine é o estímulo para fazer o processo
ficar mais interessante. Mas a questão é o processo,
ser protagonista, cidadão, conhecer seus direitos”,
diz uma estagiária mobilizadora. As atividades
nas escolas, em horário alternado ao das aulas,
em geral começam com uma roda, em que as
crianças e jovens apresentam o que fizeram desde
o encontro passado. Na seqüência discutem e
pactuam o que tem que ser feito até o próximo
encontro, sempre com vistas à confecção de um
produto de comunicação. Há núcleos que chegam
a produzir três fanzines em um ano. Outros que
157
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
não conseguem, por razões ligadas ‘a dificuldade
de estruturação do grupo.
Como já foi dito, as atividades dos núcleos de
mobilização nas escolas são por adesão, em horário
complementar ao curricular, sem bolsas ou outros
atrativos que não a própria atividade de discussão e
produção. Assim, quando os estudantes conseguem
um emprego, ou qualquer fonte de renda,
imediatamente abandonam o trabalho. Há também
uma rotatividade acentuada de integrantes.
Para o autor da avaliação, Dirk Oesselman,
este trabalho de mobilização deve ser priorizado
e fortalecido pela Agência Uga-Uga de
Comunicação: “Protagonismo precisa de processos
contínuos de apoio, para que consiga realmente se
estruturar”. Foi nesse sentido que a ONG decidiu
trabalhar em 2003 com menos grupos e em menos
escolas do que em 2002, de maneira a concentrar
seu impacto.
De qualquer forma, tanto estudantes como adultos,
educadores ou familiares, percebem mudanças entre
os participantes. Algumas das palavras e conceitos
mais usados para definir isso são: “desempenho
escolar” (embora não exista levantamento quantitativo
que demonstre), “responsabilidade”, “maturidade”,
“participação” e “crítica”.
Em relação aos meios de comunicação de massa
educadores da Uga-Uga e da escola também relatam
progresso na visão dos evolvidos:

“Eles percebem que a mídia deseduca.”

“Começam a perceber que o jornalista não é
dono da verdade.”

“A produção da comunicação permite que ele
comece a questionar.”

“Percebem a responsabilidade daquilo que
escreve, que vai ter impacto.”
O primeiro projeto, que envolvia o desenvolvimento
de um jornal por jovens para jovens formou um grupo
iniciado com pouco mais de 20 adolescentes, que ao
longo de dois anos de trabalho desenvolveram o UgaUga em todos seus aspectos: do projeto editorial e
gráfico ao estatuto da ONG que o produzia.
Entrevistas com alguns desses pioneiros mostraram
o desafio que representou para todos trabalhar de
maneira participativa:

“Essa história de protagonismo, a gente não
foi ensinado a fazer nada. O político que ia
fazer para a gente.”

“A discussão do estatuto levou mais de um
ano. A gente poderia ter copiado. Mas foi um
processo muito importante.”

“A gente deixou de ser ninguém para ser
alguém.”

“Eu sabia do orçamento, era tudo às claras,
me sentia parte do processo.”
Essa proposta de envolver os adolescentes em
tudo foi, sem dúvida, crucial para o desenvolvimento
da iniciativa e participação dos pioneiros. Mas gerou
ao mesmo tempo um certo problema de conteúdo
nos meios de comunicação do grupo, dada sua
juventude e repertório em construção – desafio que
foi, com o tempo, superado pelo grupo.
Uma vez estruturada a organização, em 2000, a
participação das crianças e adolescentes ingressantes
nos programas passou a se concentrar na atividade
em que estavam diretamente envolvidos, e não mais
na gestão da própria ONG – que ficou nas mãos
dos pioneiros.
Mas os processos pedagógicos gerados, por
exemplo, pelo Núcleo de Mobilização continuam
a propiciar a construção do protagonismo. Em uma
breve oficina com crianças na faixa dos 11, 12 anos,
que participavam de um núcleo em uma escola
bastante periférica de Manaus, foi pedido que
 PARTICIPAÇÃO
A participação juvenil foi uma espécie de escrevessem como é a educação na escola e como é
pedra fundamental da Agência Uga-Uga de a educação no programa da Uga-Uga. Quase todas
Comunicação. Mas ao longo da curta história da as falas em relação ao trabalho da ONG se referem
ONG esse conceito teve sentidos diferentes.
a aspectos participativos:
158
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
“No Uga-Uga é muito diferente você debate
você tem mais liberdade para falar.”

“Agente fala mais abertamente, tem uma
comunicação melhor mais dinâmica.”

“Eu gosto porque é um show de
conhecimentos divertimentos, e a gente faz
acontecer brincando.”

“No Uga-Uga a gente fala e conversa sobre
outros temas entre nossa língua dos jovens.”

“Aqui tem mais diálogo e participação
de todos.”
Outro mecanismo institucionalizado de
participação é um conselho editorial de jovens para
o jornal Uga-Uga, que, a partir de 2001, passou a
ter uma produção mais profissional (mesmo que
continue sendo feito por jovens pioneiros) do que
experimental (como ocorria no início, quando
ninguém tinha experiência e tudo era novo).
Além disso, os adolescentes que produzem o
jornal participam do processo de planejamento das
atividades do jornal – no ano de 2003 foram iniciadas
ações voltadas para a inserção de adolescentes em
fóruns de decisões e de políticas publicas.
Foi realizada também a primeira Conferencia
Juvenil dos Direitos da Criança e do Adolescente
com a participação de 85 adolescentes. Estes
elegeram 20 adolescentes para participar como
delegados na IV Conferencia Municipal dos
Direitos da Criança e do Adolescente.

 RELAÇÕES
Nos itens anteriores foram apresentados dois
processos essencialmente dialéticos na estrutura
atual da Agência Uga-Uga de Comunicação. O
primeiro é a convivência do grupo pioneiro de jovens
da organização, com um histórico bem sucedido
de aprender tudo fazendo, com profissionais que
foram sendo agregados à organização, devido ao
crescimento da ONG.
O segundo é a coexistência de programas muito
mais focados no processo (como no caso do Núcleo
de Mobilização, cujo fim maior é a formação cidadã
atrelada ao protagonismo juvenil), com outros mais
centrados no produto (como o Núcleo de Notícias,
associado à Rede ANDI, que tem um cardápio de
produtos e eventos e um cronograma que exigem
uma gestão bastante profissional para serem de fato
realizados).
São processos dialéticos porque tanto geram
crises como sua superação e o conseqüente
desenvolvimento e amadurecimento dos envolvidos.
No geral, o grupo que trabalha na sede da organização
é bastante jovial e alegre e esses processos dialéticos
não chegam a se revelar como tensão.
“O desafio está entre duas identidades de
trabalho: uma descrita como ‘protagonismo juvenil’,
que necessita um destaque maior nos meios para
alcançar determinados resultados, priorizando o
processo educativo-mobilizador junto aos jovens.
Uma outra identidade da Agência tem uma face de
prestação de serviços profissionais, localizada, neste
momento, mais no Núcleo de Notícias.” (Avaliação
Externa)
A equipe como um todo e a diretora executiva
em particular demonstram ter consciência desses
fenômenos e vêem no processo de planejamento
participativo em curso o principal instrumento para
superação de novas crises de relacionamento.
 REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO,
AVALIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO
Por ser uma organização muito jovem, tanto em
idade como na faixa etária de seus integrantes, a
Uga-Uga tem um processo ainda incipiente de
registro, sistematização, avaliação e disseminação.
O apoio técnico do UNICEF trouxe para a ONG
algumas das contribuições mais importantes nessa
área. A avaliação externa, por exemplo, além de
resultar em um relatório bastante detalhado sobre
o trabalho e seus desafios, propôs vários indicadores
de avaliação, especialmente em relação ao impacto
que o jornal Uga-Uga tem. São indicadores que,
embora já tenham tido aplicações piloto, ainda
não entraram na rotina do trabalho. Como esta
159
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
publicação foi o primeiro produto da ONG, o
avaliador considera essencial a construção “de um
projeto mais articulado de distribuição e uso do
jornal” nas escolas.
O Núcleo de Mobilização passa por um desafio
semelhante. O ano de 2003 foi o primeiro ano em
que a organização selecionou novos mobilizadores
para trabalharem diretamente nas escolas, porque a
equipe pioneira já não dava mais conta sozinha.
Para isso, teve que capacitar esse mobilizadores.
Usou, na oficina de Comunicação, um Manual de
Fanzine, que traz textos, roteiros e sugestões de
como desenvolver as atividades de mobilização nas
escolas. É um documento ainda em construção, com
textos de conteúdo e qualidade muito variados, que
estava sendo revisto e ampliado para 2004 e deve ser
trabalhado juntamente com outros instrumentos de
capacitação de mobilizadores.
 RESULTADOS E PRODUTOS
Dois eventos realizados em Manaus pela Agência
Uga-Uga de Comunicação em 2003 são indicativos
de seu momento e de seus resultados:

1a Conferência Juvenil dos Direitos da
Criança e do Adolescente, no primeiro
semestre;

Seminário Infância, Adolescência e Mídia na
Amazônia, no segundo semestre.
Ambos tiveram participação significativa, o
primeiro de representantes adolescentes de todas
as regiões de Manaus, o segundo de jornalistas
dos principais meios de comunicação (TV, rádio e
jornais) do Amazonas e de Roraima.
São dois eventos pioneiros na extensa região
amazônica, que podem adquirir relevância histórica
para sua comunidade, se os processos que eles
iniciaram tiverem continuidade. O sucesso de
público desses eventos mostra o enraizamento,
visibilidade e reconhecimento que o trabalho da
ONG ganhou ao longo dos anos na cidade de
Manaus e em seu vasto entorno.
A avaliação produzida com apoio do UNICEF
identifica uma tensão entre processo e produto na
captação de recursos, enfatizando que a Uga-Uga
arrisca-se a caminhar para uma profissionalização,
com foco no produto, inclusive por ser mais fácil
de captar recursos, e perder ênfase em seu eixo
pedagógico, mais processual, que seria o que de fato
promove o protagonismo.
O que se observa é que a ONG tenta, à sua
maneira de “aprender fazendo”, dar passos nas duas
direções, buscando, por um lado, estruturar melhor
mecanismos de capacitação de re-editores de sua
metodologia de produção de fanzines e formação de
protagonistas nas escolas e, por outro lado, amplia as
atividades e produtos voltados para comunicadores,
meios de comunicação e setores organizados da
sociedade civil.
Ou seja, a Agência Uga-Uga de Comunicação
tem pela frente um desafio comum a todas as
outras organizações: encontrar a sua maneira de
qualificar e ampliar ao mesmo tempo os processos
educativos e os produtos de comunicação e
mobilização. Esse difícil equilíbrio é central não
só para a sustentabilidade da organização como
para que de fato haja uma disseminação maior dos
conhecimentos e das transformações promovidos
por esses processos e produtos.
160
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
Dados - Uga-Uga
Nome
Agência Uga-Uga de Comunicação
Natureza da
organização
ONG
Missão
Contribuir para a melhoria da qualidade de vida das crianças, adolescentes e
jovens em situação de risco no Amazonas, por meio da Educação, utilizando para
isto os recursos da Comunicação.
Endereço
Conj. Espanha III, Quadra 01, Casa 19 – Aleixo - CEP: 069060-020
Telefone
(092) 642 – 9003 / 642 - 8013
E-Mail
[email protected]
[email protected]
[email protected]
mobilizaçã[email protected]
Site
www.agenciaugauga.org.br
Responsáveis
Eneida Marques, diretora executiva.
Infra-estrutura
Sede alugada, 07 Computadores em rede, móveis de escritório, etc...
Principais
Programas/Projetos
Jornal Uga-Uga, Núcleo de Noticias dos Direitos da Criança e do Adolescente,
Núcleos de Mobilização Social, Projeto de Enfretamento a Violência Sexual
Infanto Juvenil.
Atendimento
Adolescentes e jovens na faixa etária dos 12 anos e 19 anos.
161
Educação, Comunicação & Participação
Agência Uga-Uga de Comunicação
Núcleo de Notícias dos Direitos da Criança e do Adolescente / REDE ANDI
Naira Araújo – Coordenadora do Núcleo de Notícias – Jornalista
Cristiane Silveira – Jornalista Assistente
Vanessa Andrade – Estagiária Monitora– Estudante de Administração
Amanda Mota – Estagiária – Estudante de jornalismo
Alessandra Karla – Estagiária – Estudante de jornalismo
Jorge Eduardo – Estagiário – Estudante de jornalismo
Equipe/Formação/
Capacitação
Núcleos de Mobilização Social:
Ivete Azevedo – Coordenadora – Estudante de Geografia
Neire Souza – Mobilizadora – Estudante de História
Iane Obando – Estagiária mobilizadora – Estudante de Psicologia
Katiane Silva – Estagiária mobilizadora – Estudante de Psicologia
Keila Souza – Estagiária mobilizadora – estudante de Pedagogia
Jornal Uga-Uga:
Cleudomar Viana – Coordenador do Jornal – Estudante de Letras
Rosário Reis – Diagramadora do Jornal – Professora
Anália Cristina – Estagiária Assistente do Jornal – Estudante de Jornalismo
Isabelle da Costa – Repórter Escolar – Estudante do Ensino Médio
Emerson Quaresma – Repórter Escolar – Estudante do Ensino Médio
Luciana Moreira – Repórter Escolar – Estudante do Ensino Médio
Roseane Fonseca - Repórter Escolar – Estudante do Ensino Médio
Projeto de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil
Graça Medeiros – Coordenadora do Projeto – Estudante de Geografia
Cláudia Vasconcelos – Estagiária – Estudante de Rádio -Jornalismo
Graça Barreto – Pesquisadora da UFAM, é Consultora do projeto.
Formas de
Contratação
Análise curricular, testes de aptidão para a área de Comunicação e entrevistas
individuais.
Produtos
Fanzines, Jornal Uga-Uga, pesquisa de analise de mídia, clipping eletrônico,
agenda prioridade absoluta e cartilhas educativas.
Orçamento
R$ 184.000,00
Principais Parceiros
UNICEF, (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Rede ANDI, Instituto
WCF / Brasil, Petrobrás, Prefeitura Municipal de Manaus, Instituto C&A e
Fundação AVINA.
162
Educação, Comunicação & Participação
instrumentos de pesquisa
PROJETO EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO & PARTICIPAÇÃO
Instrumento de coleta de dados - crianças, adolescentes e jovens
Nome:
Estuda?
( ) sim
( ) não
Idade:
Série:
Projeto:
Trabalha?
( ) sim
( ) não
Cidade:
(Se sim) em que:
Atividades das quais participou:
Grau de escolaridade dos pais:
1. HISTÓRIA
Conte a história do projeto/organização





Primeiro contato
Processo de seleção
Fases da história
Implantação na escola/comunidade
Descrição dos programas/projetos que participa
2. PEDAGOGIA / METODOLOGIA
Como é a sua visão sobre a pedagogia/metodologia do projeto?











Descrição da metodologia em ação
Linguagens (mídia de massa X linguagens alternativas)
Articulação ao currículo escolar
Envolvimento dos professores nas atividades
O que é considerado erro e como é tratado (diferenças em relação à escola)
Gosto pelo estudo, retorno à escola (para alunos que evadiram)
Regras, rotinas, horários, sanções
Espaços
Capacitações/formações
Atividades que mais/menos gosta
O que dá certo e o que dá errado
3. PRODUTO
Fale sobre o produto e sobre os processos para sua realização


Descrição do processo de elaboração do produto de comunicação
Descrição do produto de comunicação
o
Meio de comunicação
163
Educação, Comunicação & Participação
Instrumentos de Pesquisa
o
o
o
Tiragem/acesso (website)
Informações técnicas
Conteúdo/linguagem
4. GESTÃO E PARTICIPAÇÃO
O projeto promove sua participação? Como?









Momentos de participação/expressão
Participação no planejamento do projeto/da ONG
Instâncias de decisão - Conselhos/Colegiados
Liderança(s) / Coordenação
Capacitação para a participação/expressão
Construção das regras do programa
Interface com a comunidade
Autonomia nas atividades
Mecanismos de:
o
o
o

Fixação de metas
Cobrança
Monitoramento das atividades
Comunicação interna
o
Redes internas
5. REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO E AVALIAÇÃO
Quais os processos registro, sistematização e avaliação?




Diário de bordo
Registros coletivos
Descrição dos momentos avaliação
Instrumentos de avaliação
6. RELAÇÕES
Como são as relações inter-pessoais?




Na organização
Na escola
Entre membros da organização e da escola
Com outros participantes do projeto
7. RESULTADOS
O que deu certo, o que não deu e quais os principais desafios?


Aprendizagens
Mudanças observadas nas relações com
o
o
o
o
o
Educadores do projeto
Professores
Colegas
Familiares
Você mesmo
164
Educação, Comunicação & Participação
Instrumentos de Pesquisa
PROJETO EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO & PARTICIPAÇÃO
DADOS DA ORGANIZAÇÃO PARCEIRA DO UNICEF
1. Nome:
2. Natureza da organização:
3. Missão:
4. Endereço:
5. Tel/Cel/Fax:
6. E-Mails:
7. Site:
8. Responsáveis:
9. Infra-estrutura:
10. Principais Programas/Projetos:
11. Números de atendimento:
12. Equipe/Formação/Capacitação:
13. Formas de Contratação:
14. Produtos:
15. Orçamento:
16. Principais Parceiros:
165
Educação, Comunicação & Participação
Instrumentos de Pesquisa
PROJETO EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO & PARTICIPAÇÃO
Instrumento de coleta de dados - gestores e educadores (ONGs e Rede de Ensino)
Projeto:
Formação:
Cidade:
Participantes da entrevista:
Cargo / função:
1. HISTÓRIA
Conte a história do projeto/organização




Iniciativa de criação do projeto
Primeiro contato
Fases da história
Principais programas/projetos de educação e comunicação
2. GESTÃO
Como é a gestão do projeto/organização?







Liderança(s)
Coordenação
Instâncias de decisão - Conselhos/Colegiados
Reuniões
Organograma/fluxograma
Planejamento
Mecanismos de:
o
o
o

Fixação de metas
Cobrança
Monitoramento das atividades
Comunicação interna
o
Redes internas
3. SUSTENTABILIDADE
Como está a sustentabilidade da organização e dos projetos?





Financiadores
Parceiros
Infra-estrutura/espaços
Modos de captação (centralizado/descentralizado)
Participação em redes
4. PARCERIA COM A ESCOLA
Como é a relação ONG-Rede de Ensino-Escola?


Condições necessárias para o trabalho
Condições limitantes do trabalho
166
Educação, Comunicação & Participação
Instrumentos de Pesquisa



A escola pauta o trabalho da ONG? Como?
A universidade tem algum papel?
Liderança(s) na escola
5. PEDAGOGIA / METODOLOGIA
Como você definiria a pedagogia/metodologia do projeto?










Fundamentos conceituais/Bibliografia
Linguagens (mídia de massa X linguagens alternativas)
Articulação ao currículo formal
O que é considerado erro e como é tratado
O que dá certo e o que dá errado
Acesso, regresso, permanência e sucesso escolar
Processo de seleção
Regras, rotinas, horários, sanções
Capacitações/formações
Descrição da metodologia em ação
6. PARTICIPAÇÃO
O projeto promove a participação das crianças e dos jovens? Como?






Visão de participação
Momentos de participação/expressão
Capacitação para a participação/expressão
Construção das regras do programa
Interface com a comunidade
Autonomia nas atividades
7. RELAÇÕES
Como são as relações inter-pessoais?




Internos na organização
Interno na escola
Entre membros da organização e da escola
Lideranças (prós e contras)
8. REGISTRO, SISTEMATIZAÇÃO E AVALIAÇÃO
Quais os processos registro, sistematização e avaliação?









Objetivos
Para quem se faz?
Quem faz
Como faz
Impacto
Instrumentos
Produtos
Divulgação
Cases
167
Educação, Comunicação & Participação
Instrumentos de Pesquisa
9. DISSEMINAÇÃO
Quais os processos de disseminação de conhecimentos construídos pela organização?





Impacto
Capacitações
Materiais
Novas parcerias
Produtos
•
•
•
•
•
Meio de comunicação:
Tiragem (para impressos):
Acesso (para websites):
Informações técnicas:
Conteúdo/Linguagem
. que linguagens/referências revela?
. reproduz mídia de massa? É interessante, sedutora, sensível?
. os conteúdos têm relação com o currículo escolar?
10. RESULTADOS
O que deu certo, o que não deu e quais os principais desafios?




Na organização
Na escola
Na metodologia
Entre os educadores e aprendizes
168
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Educação, Comunicação & Participação