Polifonia PERIÓDICO DO Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem-Mestrado Número 17 – 2009 – issn 0104-687X Estudos Linguísticos iv gelco POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 1-257 2009 issn 0104-687x MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO Reitora Maria Lúcia Cavalli Neder Vice-Reitor Francisco José Dutra Souto Pró-Reitora Administrativa Valéria Calmon Cerisara Pró-Reitora de Planejamento Elisabeth Aparecida Furtado de Mendonça Pró-Reitora de Ensino de Graduação Myrian Thereza Serra Martins Pró-Reitora de Ensino de Pós-Graduação Leny Caselli Anzai Pró-Reitor de Pesquisa Adnauer Tarquínio Daltro Pró-Reitor de Vivência Acadêmica e Social Luis Fabrício Cirillo de Carvalho Diretora do Instituto de Linguagens Rosângela Cálix Coelho da Costa Coordenadora do Mestrado em Estudos de Linguagem Cláudia Graziano Paes de Barros Coordenadora da Editora Universitária Elizabeth Madureira Siqueira Conselho Editorial Ana Antônia de Assis-Peterson – UFMT Cássia Virgínia Coelho de Souza – UFMT Célia Maria Domingues da Rocha Reis – UFMT Cláudia Graziano Paes de Barros – UFMT Daniel Faïta – IUFM/FR Diana Boxer – University of Florida Elias Alves de Andrade – UFMT Enid de Abreu Dobránsky – USF Franceli Aparecida da Silva Mello – UFMT Helena Nagamine Brandão – USP Lúcia Helena Vendrúsculo Possari – UFMT Ludmila de Lima Brandão – UFMT Manoel Mourivaldo Santiago Almeida – USP Marcos Antônio Moura Vieira – UFMT Maria Inês Pagliarini Cox – UFMT Maria Rosa Petroni – UFMT Marilda C. Cavalcanti – UNICAMP Mário Cezar Silva Leite – UFMT Nancy H. Hornberger – University Of Pennsylvania Piers Armstrong – Dartmouth College Rhina Landos Martinez André – UFMT Roberto Leiser Baronas – UFSCAR Simone de Jesus Padilha – UFMT Sônia Aparecida Lopes Benites – UEM Stella Maris Bortoni – UnB Vera Lúcia Menezes de O. e Paiva – UFMG Editores Executivos Célia Maria Domingues da Rocha Reis Maria Inês Pagliarini Cox Maria Rosa Petroni Organizadores Ana Antônia de Assis-Peterson Maria Inês Pagliarini Cox Maria Rosa Petroni Polifonia PERIÓDICO DO Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem-Mestrado Número 17 – 2009 – issn 0104-687X Estudos Linguísticos iv gelco POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 1-257 2009 issn 0104-687x Universidade Federal de Mato Grosso Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367 Bairro Boa Esperança – Campus Universitário Gabriel Novis Neves CEP: 78.060-900 – Cuiabá-MT – Brasil Fones: 0XX-65-3615.8408 – Fax: 3615.8413 Polifonia Periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem – Mestrado Instituto de Linguagens Universidade Federal de Mato Grosso Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367 Bairro Boa Esperança – Campus Universitário Gabriel Novis Neves CEP: 78.060-900 – Cuiabá-MT – Brasil Fones: 0XX-65-3615.8408 – Fax: 3615-8418 e-mail: [email protected] Ficha Catalográfica - Biblioteca Central Polifonia. Periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem - Mestrado [do] Instituto de Linguagens, Universidade Federal de Mato Grosso - Ano 17. nº 17. (2009). Cuiabá: Editora Universitária, V. I; 22,5 cm 257p. Semestral I. Universidade Federal de Mato Grosso Capa, Editoração e Projeto Gráfico: Candida Bitencourt Haesbaert Av. Fernando Corrêa da Costa, 2.367 – Boa Esperança Coxipó da Ponte – CEP: 78.060-900 – Cuiabá, MT Fone: (65) 3615 8322 – fax: (65) 3615 8325 [email protected] ISSN 0104-687x SUMÁRIO NOTA DAS EDITORAS MEMÓRIA DOS CAMINHOS DO GELCO................ 1 Denize Elena Garcia da Silva ARTIGOS O ESTATUTO DA PREPOSIÇÃO COM EM CONSTRUÇÕES COM ALTERNÂNCIA SINTÁTICA.......9 Heloisa Maria M. L. Salles Rozana Reigota Naves TERMINOLOGIA APLICADA: PERCURSOS INTERDISCIPLINARES........................................ 29 Maria Aparecida Barbosa TERMINOLOGIA JURÍDICA DO MEIO AMBIENTE: AMOSTRA DE VERBETES................................... 45 Marieta Prata de Lima Dias O PROCESSO DE PREDICAÇÃO DAS UNIDADES TERMINOLÓGICAS COMPLEXAS DA ENGENHARIA CIVIL............................................ 59 Cleide Lemes da Silva Cruz ESTUDOS LINGUÍSTICOS NO/DO MATO GROSSO – O FALAR CUIABANO EM EVIDÊNCIA.................... 75 Maria Inês Pagliarini Cox ESTUDOS DA LÍNGUA CHIQUITANO DO BRASIL: TRAJETÓRIA E PERSPECTIVAS.......................... 91 Áurea Cavalcante Santana Ema Marta Dunck-Cintra ANÁLISE DO DISCURSO: REALIDADES E PERSPECTIVAS................................................. 111 Nara Maria Fiel de Quevedo Sgarbi REFLEXÕES TEÓRICAS E EPISTEMOLÓGICAS EM TORNO DA ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA.... 125 Viviane Melo Resende REALISMO CRÍTICO E ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA: REFLEXÕES INTERDISCIPLINARES PARA A FORMAÇÃO DO EDUCADOR DE LÍNGUAS EM PROCESSO DE EMANCIPAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL............................... 141 Solange Maria de Barros Barra Papa OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO DOS MORADORES DE RUA NA CIDADE DE CÁCERES-MT.................................................... 155 Olimpia Maluf-Souza FORMAÇÃO TECNOLÓGICA DO PROFESSOR EM UMA SOCIEDADE DIGITAL: DESAFIOS E PERSPECTIVAS............................................... 165 Maria Cristina Lima Paniago Lopes O TEXTO E AS PRÁTICAS TEXTUAIS E DISCURSIVAS PRESENTES EM UMA DISCIPLINA NA MODALIDADE A DISTÂNCIA............................. 175 Arlinda Cantero Dorsa ENSINO DE LÍNGUAS NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: OS CONFLITOS HISTÓRICOS E OS DESAFIOS EM SALA DE AULA................. 189 Sueli Correia Lemes Valezi EDUCAÇÃO INDÍGENA EM CONTEXTOS URBANOS DOS MUNICÍPIOS DE BARRA DO GARÇAS, PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGARÇAS: DESAFIOS DE NOVOS TEMPOS............................. 203 Marly Augusta Lopes Magalhães ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS NA REDE PÚBLICA DO ESTADO DE MATO GROSSO: A REALIDADE DOS OBJETIVOS ATRAVÉS DO CURRÍCULO..................................................215 Sergio Flores Pedroso PRÁTICAS DE LINGUAGEM E(M) FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LÍNGUA MATERNA........... 225 Maria Rosa Petroni “EU AMO A LÍNGUA PORTUGUESA!”: O DISCURSO DE USUÁRIOS DO ORKUT........... 239 Dánie Marcelo de Jesus INSTRUÇÕES AOS AUTORES PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS NO PERIÓDICO POLIFONIA......... 255 CONTENTS EDITORS’ NOTE MEMORIES OF GELCO’S PATHS............................. 1 Denize Elena Garcia da Silva ARTICLES THE STATUTE OF THE PREPOSITION WITH IN CONSTRUCTIONS WITH SYNTACTIC ALTERNATION....................................................... 9 Heloisa Maria M. L. Salles Rozana Reigota Naves APPLIED TERMINOLOGY: INTERDISCIPLINARY PATHS................................................................. 29 Maria Aparecida Barbosa JURIDICAL TERMINOLOGY OF THE ENVIRONMENT: A SAMPLE OF ENTRIES........... 45 Marieta Prata de Lima Dias THE PROCESS OF PREDICATION OF THE COMPLEX TERMINOLOGICAL UNITS OF CIVIL ENGINEERING..................................................... 59 Cleide Lemes da Silva Cruz LINGUISTIC STUDIES IN/OF MATO GROSSO – THE CUIABANO DIALECT IN EVIDENCE............... 75 Maria Inês Pagliarini Cox STUDIES OF THE CHIQUITANO LANGUAGE IN BRASIL: TRAJECTORY AND PERSPECTIVES... 91 Áurea Cavalcante Santana Ema Marta Dunck-Cintra DISCOURSE ANALYSIS: REALITIES AND PROSPECTS .................................................... 111 Nara Maria Fiel de Quevedo Sgarbi THEORETICAL AND EPISTEMOLOGICAL REFLECTIONS ON CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS.......................................................... 125 Viviane Melo Resende CRITICAL REALISM AND CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS: INTERDISCIPLNARY REFLECTIONS FOR LANGUAGE TEACHER EDUCATION IN PROCESS OF EMANCIPATION AND SOCIAL TRANSFORMATION........................................... 141 Solange Maria de Barros Barra Papa PROCESSES OF SUBJECTIVITIES OF STREET DWELLERS IN THE CITY OF CÁCERES, MATO GROSSO................................................. 155 Olimpia Maluf-Souza TECHNOLOGICAL FORMATION OF TEACHERS IN A DIGITAL SOCIETY: CHALLENGES AND PERSPECTIVES................................................. 165 Maria Cristina Lima Paniago Lopes THE TEXT AND THE TEXTUAL AND DISCURSIVE PRACTICES PRESENT IN A DISCIPLINE OF A DISTANCE LEARNING COURSE............................... 175 Arlinda Cantero Dorsa THE TEACHING OF LANGUAGES IN THE VOCATIONAL EDUCATION: THE HISTORICAL CONFLICTS AND THE CLASSROOM CHALLENGES.................................................... 189 Sueli Correia Lemes Valezi INDIGENOUS EDUCATION IN URBAN CONTEXTS OF THE CITIES OF BARRA DO GARÇAS, PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGRAÇAS: CHALLENGING NEW TIMES.................................... 203 Marly Augusta Lopes Magalhães TEACHING OF FOREIGN LANGUAGES IN THE PUBLIC SCHOOL SYSTEM OF THE STATE OF MATO GROSSO: THE REALITY OF THE OBJECTIVES THROUGH THE CURRICULUM......... 215 Sergio Flores Pedroso LANGUAGE PRACTICES AND/IN THE TEACHER EDUCATION OF THE BRAZILIAN PORTUGUESE TEACHER.......................................................... 225 Maria Rosa Petroni “I LOVE PORTUGUESE LANGUAGE!”: THE DISCOURSE OF ORKUT USERS................ 239 Dánie Marcelo de Jesus INSTRUCTIONS FOR AUTHORS TO SUBMIT A PAPER TO THE JOURNAL POLIFONIA.............. 255 Apresentação Entre os dias 4 e 7 de novembro de 2008, realizamos na Universidade Federal de Mato Grosso, na cidade de Cuiabá-MT, o IV Encontro Nacional do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste – GELCO. Criado em outubro de 2000, o GELCO congrega pesquisadores e professores que atuam na área de Letras e Linguística na região centro-oeste do Brasil. Como entidade regional, o GELCO conta com uma rede de associados que se estende desde Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distrito Federal, incluindo o estado de Tocantins. Como associação científica, o GELCO tem buscado abrir um espaço político para: o fomento e a expansão da pesquisa linguística por meio de projetos interinstitucionais; a divulgação e a circulação dos conhecimentos produzidos na região de modo a perfilar a vocação da área de Letras e Linguística do centro-oeste no cenário nacional; a promoção de intercâmbio acadêmico entre seus associados e pesquisadores, filiados a outras sociedades científicas, nacionais ou estrangeiras; a atuação protagonista no aperfeiçoamento dos cursos de Letras, tendo em vista a formação competente de professores de línguas para o ensino básico, sob a orientação da LDB, assim como dos parâmetros e orientações ministeriais em vigor; o suporte a jovens pesquisadores hispano-americanos para participação em programas de pesquisa linguística no centro-oeste, ligados a instituições públicas de pós-graduação; o apoio à pesquisa das línguas indígenas no centro-oeste, bem como à política de educação para os povos indígenas, com ênfase aos programas de revitalização das línguas indígenas. Linguagens: desafios contemporâneos foi o tema escolhido para articular as discussões que tiveram lugar nas inúmeras atividades acadêmicas e artísticas que compuseram o programa desta IV edição do GELCO. Nesta Polifonia, reunimos trabalhos apresentados em conferências e mesas durante o evento, com o intuito de compartilhar nossas discussões com parceiros do centro-oeste e de outras regiões brasileiras que não estiveram conosco em novembro de 2008. Célia Maria Domingues da Rocha Reis Maria Inês Pagliarini Cox Maria Rosa Petroni MEMÓRIA DOS CAMINHOS DO GELCO Denize Elena Garcia da Silva1 Colocar em pauta os caminhos do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste, situá-lo sócio-historicamente, sobretudo em termos de uma espécie de inclusão social no cenário acadêmico brasileiro, remete-nos ao campo de uma política de identidade. O termo inclusão, tão utilizado na atualidade, significa “ter direito a ter direitos”, o que pressupõe a meu ver uma relação próxima ao conceito de identidade. Assim esta apresentação resgatará um momento especial, qual seja, o surgimento de uma sociedade acadêmicocientífica no Centro-Oeste do Brasil. O GELCO nasceu diante do fato de professores e pesquisadores que vivemos nessas “paragens brasileiras”, assumirmos, de modo consciente, uma identidade coerente com a imensidade de bens culturais, de variedades dialetais, com uma diversidade linguística (num olhar sobre as línguas indígenas) e, sobretudo, com a necessidade de sermos conhecidos pelos outros. Nas palavras do estudioso Calhoun (1994, p. 9-10): Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas em que alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida... Sempre [segundo Calhoun], o autoconhecimento – invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser conhecido, de modo específico, pelos outros. No contexto dessas ideias nasceu a associação. Criado na Universidade de Brasília, em 11 de outubro de 2000, durante o I Encontro de Professores de Letras do Brasil Central, o GELCO passou a congregar profissionais e estudantes da grande área das Letras, envolvendo Literaturas, bem como Linguística Teórica, Linguística Aplicada e Ensino de Línguas. 1 A autora, Professora Associada II da Universidade de Brasília (UnB), é fundadora e conselheira honorária do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste (GELCO). POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 1-8 2009 issn 0104-687x Como entidade regional, o GELCO contou, de início, com uma rede de associados que se estendia desde os Estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distrito Federal, incluindo o Estado de Tocantins desmembrado para o norte. Desde então vem ganhando adeptos de outras regiões brasileiras, graças ao contato com associações nacionais e até mesmo internacionais. Devo ressaltar que a necessidade de sermos conhecidos de modo específico, de marcarmos nossa identidade, encontrou eco e respaldo também nas agências de fomento. A propósito, ao discutir a questão da identidade e significado na sociedade em rede, Manuel Castells (1999, p. 24), em seu livro O poder da identidade, sugere que a construção social da identidade sempre ocorre em um contexto marcado por relações de poder. Nessa perspectiva, propõe o autor uma distinção entre três formas e origens de construção de identidades: a legitimadora, a de resistência e a de projeto. Enquanto a identidade legitimadora envolve instituições dominantes da sociedade visando à expansão e racionalização de sua dominação no que concerne aos atores sociais, a identidade de resistência surge como decorrência de condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, o que implica o surgimento de trincheiras de resistência e sobrevivência de seus integrantes. Mas é no terceiro tipo de identidade que podemos contextualizar o escopo do GELCO, uma vez que a identidade de projeto, resultante da utilização de material cultural, permite a construção de uma nova identidade capaz de redefinir uma posição na sociedade e, em condições propícias, transformá-la. O I GELCO, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, no mês de outubro de 2001, representou oficialmente a voz do Centro-Oeste no espaço acadêmico brasileiro, quando recebemos então apoio de instituições de ensino superior, bem como duas aprovações do projeto com apoio financeiro do CNPq e da Capes. Nesse primeiro evento, foram discutidos os avanços, bem como os desafios do ensino, da pesquisa e dos cursos de pós-graduação na região Centro-Oeste voltados para os estudos da linguagem. 2 Como não poderia deixar de ser, o regionalismo de Manoel de Barros, maior expoente vivo da poesia brasileira, ensinou-nos, enquanto linguistas, ao lado de colegas professores de línguas e literaturas, a admirar a paisagem de cor local matizada por versos que carregam pormenores do dialeto pantaneiro. Manoel de Barros (1999), em um de seus poemas, registra o seguinte: “Não tenho bens de acontecimentos. O que não sei fazer desconto nas palavras. Entesouro frases”. Se traçarmos um paralelo de nosso lado profissional com o poeta, tecemos conhecimentos, embora nem sempre eles se transformem em bens de acontecimentos, tampouco bens de produção tecnológica. Na realidade, fazemos muito e não inventamos nada, uma vez que na maioria das vezes trabalhamos ou com a gramática da língua, ou com a tecnologia da palavra, ou com mecanismos interdiscursivos que nos permitem apontar e interpretar a relação texto e contexto. Não obstante, ao fazermos uma descrição linguística, um estudo lexicográfico, uma interpretação de textos literários, repetidos, ou textos de uso único, pragmáticos, ao ensinarmos línguas e literaturas, podemos transformar nossa realidade. Se por um lado, garimpando a cor local, surge o homem-matéria de literatura, por outro surgem os que pesquisam as línguas na sua interioridade, na gramática, e os que, labutando nas instâncias do discurso, ensinamos que a língua é um contrato social. Mas a noção de regionalismo vem agregada ao aspecto da identidade. Por isso, evocar Manoel de Barros implica dar força à voz do Centro-Oeste brasileiro. Ao discutir o regionalismo e a cultura local de Mato Grosso do Sul, Maria Adélia Menegazzo (2003, p. 161) afirma em seu artigo que “[...] num primeiro momento, o regionalismo pode ser visto como marca de exclusão, afinal, encontramo-nos fora do eixo cultural brasileiro”. Mas, continua a autora, “[...] se pensarmos na profusão de fronteiras nacionais e internacionais que compõem nosso entorno, diremos, parafraseando Mario de Andrade (1972, p. 16), que somos, por definição, uma região formada por ‘acrescentamento muito mais que por evolução natural’”. Nesse sentido, o caráter plural não só da cultura sul-matogrossense, mas dos Estados de Mato Grosso, Goiás e do 3 Distrito Federal tem muita riqueza para mostrar e contar. E o GELCO, em seu primeiro evento, foi a prova disso, como se encontra registrado em três coletâneas: 1 livro – Estudos de linguagem – e dois volumes especiais da Revista Papéis, da Editora da UFMS, somando 97 artigos que representam, em sua maioria, publicações de trabalhos voltados para linguística, literaturas, descrição e ensino de línguas, todos assinados por professores e estudantes no papel de pesquisadores sensíveis à construção social de uma nova realidade brasileira. O II GELCO realizado na Universidade Federal de Goiás, na cidade de Goiânia, no período de 8 a 10 de outubro de 2003, consolidou as metas traçadas pela associação, sobretudo no que concerne ao fortalecimento de uma consciência acadêmico-científica voltada para valores étnicos, raciais e culturais. Naquela ocasião tive a oportunidade de lançar, por um lado, um desafio aos participantes do evento para a necessidade de implementação de linhas de pesquisa que refletissem a cor local. Por outro lado, a escolha do tema central do evento – Integração Linguística, Étnica e Cultural – significou uma homenagem às nações indígenas e, ao mesmo tempo, um alerta com relação à própria situação dos povos indígenas no Brasil, cujas línguas somam hoje 180 somente, das 1.500 que eram faladas antes da colonização. O desafio, naquele momento, implicava a necessidade de se levar a cabo pesquisas voltadas para a diversidade linguística e cultural, considerando-se não só o português, mas também as línguas faladas pelas nações indígenas. Lembro-me que frisei a existência de uma realidade que é uma constante entre nós. Trata-se da variação e mudança nos usos linguísticos, fenômenos que vêm sempre ligados a processos sociais, atrelados, por sua vez, a fatores étnicos, raciais e culturais. Foi assim que, durante três dias, através de 4 conferências plenárias, 72 apresentações em mesasredondas, 180 apresentações em sessões coordenadas, 258 apresentações em sessões individuais e 53 apresentações em painéis, o GELCO abriu espaços para momentos de intercâmbio de conhecimentos e experiências entre pesquisadores não só do Centro-Oeste, mas das outras regiões do Brasil. Os procedimentos metodológicos que viabilizaram 4 os debates, envolveram palestras de especialistas das áreas de linguística, línguas e literaturas, cujos temas, além de refletirem os avanços em estudos das respectivas linhas de pesquisa, permitiram a reflexão e o diálogo sobre questões ligadas à pesquisa em linguagem, bem como ao ensino de línguas e literatura. Posso afirmar que, durante aqueles três dias, tivemos a consolidação da nossa identidade de projetos no cenário brasileiro e, com isso, o nosso “direito a ter direitos” futuros, sobretudo junto às agências de fomentos. O II GELCO representou para muitos uma estação de partida, ou até mesmo de passagem, para novos caminhos de pesquisa. Entre os conferencistas do II GELCO que nos brindaram com sua participação, destaco três nomes: Ingedore Koch, Silvia Lúcia Bingonjal Braggio e Lucia Maria Pinheiro Lobato. A primeira, Ingedore Koch, está sempre a nos ensinar, pelos caminhos da Linguística Textual, que usar uma língua significa realizar ações. Trata-se, aqui, de ações conjuntas. Nas palavras de Koch (2006, p. 37): [...] as ações verbais são ações conjuntas, já que usar a linguagem é sempre engajar-se em alguma ação em que ela é o próprio lugar onde a ação acontece, necessariamente em coordenação com os outros. Essas ações não são simples realizações autônomas de sujeitos livres e iguais. São ações que se desenrolam em contextos sociais, com finalidades sociais e com papéis distribuídos socialmente. Foi nessa perspectiva que, durante três dias, o GELCO permitiu-nos reunir participantes com ações verbais, muitas das quais resultaram ações conjuntas com vistas a uma identidade de projetos no coração do Centro-Oeste brasileiro. Entre as necessidades a serem contempladas em futuros projetos de pesquisa, destacou-se a urgência de ações conjuntas para aqueles voltados para as línguas indígenas. Passo a falar agora em nome e no nome de Silvia Braggio (2006) que, de maneira veemente, denunciou uma realidade ameaçadora, qual seja, a morte e extinção de muitas línguas indígenas no mundo e, de modo específico, no Brasil. De 5 acordo com os dados apresentados por Braggio, somente sete línguas contam com mais de 10.000 falantes. Embora em quase todos os Estados brasileiros haja povos indígenas, a proporção de indígenas por grupo é muito baixa, haja vista que o número de línguas com menos de 101 falantes cobre quase um terço do total de línguas. Acrescente-se a isso a seguinte realidade: pequenas comunidades têm menos resistência às forças tecnológicas e socioeconômicas, o que implica o fato de o tamanho de um grupo representar um forte fator de desaparecimento de uma língua indígena. Faço minha uma pergunta de Silvia Braggio: “Por que manter essas línguas vivas?” As respostas encontradas por Braggio são muitas e vão desde a necessidade de impedir o rompimento da transmissão da herança cultural, que se dá principalmente através da língua, até a perda das chaves para a sobrevivência psicológica, social e física, uma vez que a língua constitui uma forte marca de identidade cultural. Mas, sobretudo, como uma forma de homenagem, valho-me do que nos deixou Lucia Lobato (2006) em conferência proferida no II GELCO assim intitulada: “Sobre a questão da influência ameríndia na formação do português do Brasil”. Para a nossa grande cientista, que continua viva entre nós através de seu legado de pesquisa, tal influência pode ter ocorrido devido ao fato de a aprendizagem do português ter-se realizado em idade adulta, durante três séculos, na condição de segunda língua. Na explicação de Lobato, os pontos de convergência destacados entre as línguas ameríndias e o português do Brasil representam pontos de divergência estrutural, na atualidade, entre o português brasileiro e o português europeu. Lucia Lobato, além de nos deixar um estudo que evidencia a importância das línguas indígenas na formação do português do Brasil, sugere que novas linhas de pesquisa desenvolvam estudos voltados para a influência das línguas africanas. E esta foi uma das razões que inspirou o tema central do III GELCO: Línguas e culturas: caminhos convergentes. Cumprindo seu propósito de realizar ações conjuntas e na busca de caminhos convergentes, o GELCO hospedou o I Colóquio da ALED (Associação Latino-Americana de 6 Estudos do Discurso) no Brasil, assim como o II Simpósio de Língua de Sinais e Bilinguismo, momentos que ocuparam o espaço desses três dias, enriquecidos por debates e reflexões que têm norteado os caminhos futuros do GELCO como associação científica com forte presença no cenário acadêmico brasileiro. A 3ª. edição do GELCO aconteceu na Universidade de Brasília, através de 24 conferências e cerca de 150 apresentações em mesas-redondas, sessões coordenadas e individuais, além de 20 minicursos e 40 apresentações em painéis. O triplo evento concretizou uma vez mais o escopo central da Associação, qual seja, o de proporcionar intercâmbio de conhecimentos e experiências entre pesquisadores, docentes e estudantes já não só do Centro-Oeste, mas também do Distrito Federal, com outras regiões do Brasil. O GELCO, em sua 4ª. edição, juntamente com o VII Seminário de Linguagens, incentivou apresentações de trabalhos de pesquisa voltados para a comunicação que perpassa mundos virtuais no ciberespaço, ao mesmo tempo em que contou com “a reaproximação de práticas intersemióticas e, sobretudo, práticas entressaberes”, unindo, de forma magistral, grupos de trabalho voltados para língua portuguesa, literatura, teorias da gramática, línguas estrangeiras, educação musical e informática entre outros. E, mais uma vez, mãos acadêmicas, movidas pela força histórica dos bandeirantes e fortalecidas pelo labor da docência e da pesquisa, prepararam com esmero o tema central do duplo evento. Assim é que Linguagem: desafios contemporâneos, mais que um tema, nomeou um congresso cujos participantes discutiram, na Universidade Federal de Mato Grosso, na cidade de Cuiabá (MT), desde estudos sobre “diversidade linguística”, “cultura, memória e identidade”, passando pela “análise de discurso e práticas sociais”, até “línguas indígenas e educação bilíngue”, além de “literatura e outras linguagens”, como a musical e a da informática. Enfim, mais que grupos temáticos conjugados com minicursos, os organizadores prepararam terreno fértil e proporcionaram efetivamente um plantio, durante três dias, de “práticas entre saberes”, razão pela qual todos colhemos trabalhos 7 advindos de frutos intelectuais, adoçados pela busca de linguagens que semeiam o saber e a paz. Referências ANDRADE, M. de. Literatura nacional. In: ANDRADE, M. de. O empalhador de passarinho. São Paulo: Martins Fontes/IN, 1972. p. 167. BARROS, Manoel. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Campo Grande: Saber Sampaio Soares, 1999. BRAGGIO, S. L. Línguas indígenas ameaçadas: documentação, tipologias sociolingüísticas. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia: Cânone Editora; GELCO, 2006. p. 43-53. CALHOUN, C. (Org.). Social theory and the politics of identity. Oxford: Blackwell, 1994. CASTELLS, M. O poder da identidade. Tradução Klauss Brandini Gerhardt. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999. LOBATO, L. M. P. Sobre a questão da influência ameríndia na formação do português do Brasil. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia: Cânone Editora; GELCO, 2006. p. 54-86. KOCH, I. G. V. Lingüística textual hoje: questões e perspectivas. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia: Cânone Editora; GELCO, 2006. p. 21-42. MENEGAZZO, M. A. Regionalismo: local da cultura/cultura local. In: SILVA. D. E. G. et al. (Orgs.). Estudos de linguagem: interrelações e perspectivas. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2003. p.159-166. 8 O ESTATUTO DA PREPOSIÇÃO COM EM CONSTRUÇÕES COM ALTERNÂNCIA SINTÁTICA Heloisa Maria M. L. Salles1 Rozana Reigota Naves2 RESUMO: O presente estudo examina construções em que a preposição COM introduz um argumento realizado com o papel temático de Instrumento. Verifica-se que os predicados relevantes admitem mapeamento sintático em que o argumento interpretado como instrumento ocorre em diferentes funções sintáticas: ora como sujeito ou argumento oblíquo (no caso dos causativos e dos psicológicos), ora como complemento direto ou indireto (no caso dos locativos). Adotando-se uma abordagem em termos da estrutura léxico-conceitual dos verbos, postula-se que a preposição COM constitui marcador gramatical do estatuto argumental do sintagma que introduz. PALAVRAS-CHAVE: Alternância Instrumental, Copredicação, Núcleo Aplicativo THE STATUTE OF THE PREPOSITION WITH IN CONSTRUCTIONS WITH SYNTACTIC ALTERNATION ABSTRACT: In this paper we analyse certain constructions containing the preposition WITH that introduces an argument that is interpreted as the thematic role of Instrument. We observe that in these predicates the argument with the Instrument thematic role can be mapped into different syntactic positions: either as the subject or oblique internal argument position (in the case of causatives and psychological predicates); either as the direct or the indirect complement position (in the case of locative predicates).Taking an approach based on the conceptual-lexical structure of these verbs, we propose that the preposition WITH is a grammatical marker of the argumentative statute of the constituent it introduces. KEYWORDS: Instrumental Alternation, Co-predication, Applicative Head 1 Docente e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), com doutorado em Linguística pela University of Wales (1997) e pós-doutorado pela University of Leiden (2007). 2 Docente e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), com doutorado em Linguística pela Universidade de Brasília (2005). POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 9-27 2009 issn 0104-687x Introdução Neste estudo examinam-se construções em que a preposição COM introduz um argumento realizado com papel temático de Instrumento3, seja no campo denotativo (físico, material) – representado em (1) e (2) –, seja no campo metafórico (abstrato, psicológico) – representado em (3). (1) a. A Maria bordou o vestido com lantejoulas. (2) b. A Maria abriu a porta com a chave. (3) c. O João preocupa a Maria com esse tipo de comportamento. Um fato a respeito dessas construções é que elas admitem a alternância sintática entre o constituinte introduzido pela preposição COM e outro constituinte – o objeto, no caso de (1), e o sujeito, no caso de (2) e (3) –, como demonstrado a seguir: (4) a.A Maria bordou o vestido com lantejoulas. [altern. locativa] b.A Maria bordou lantejoulas no vestido. (5) a.A Maria abriu a porta com a chave. [altern. instrumental] b. A chave abriu a porta. (6) a.O João preocupa a Maria com esse tipo de comportamento. b. Esse tipo de comportamento preocupa a Maria. Acresce-se a esse fato o de que as construções em (5) e (6) ainda admitem uma estrutura intransitiva, em que o argumento interpretado como Tema aparece na posição de sujeito, como ilustram os dados em (7c) e (8c): (7) a.A Maria abriu a porta com a chave. [altern. causativo-incoativa] b.A chave abriu a porta. c. A porta abriu (com a chave). (8) a.O João preocupa a Maria com esse tipo de comportamento. 3 Optamos, aqui, por grafar os rótulos atribuídos aos papéis temáticos com inicial maiúscula. b.Esse tipo de comportamento preocupa a Maria. [altern. psicológica] c. A Maria se preocupa (com esse tipo de comportamento). Contrastam, com os dados em (7), as construções em (9). A sentença (9a) se constrói exatamente como (7a), com um sujeito Agente, um objeto Tema e um sintagma Instrumento, introduzido pela preposição COM. Apesar disso, não admite a alternância instrumental (9b), nem a alternância causativo-incoativa (9c): (9) a.O João pintou a casa com um rolo. b.*Um rolo pintou a casa. c.*A casa pintou (com um rolo). Esse contraste se verifica com outros verbos, em que ou todas as alternâncias são possíveis, ou somente a estrutura transitiva com sintagma Instrumento é gramatical (cf. (10)(11) versus (12)-(13)): (10) a. O João quebrou a vidraça com uma picareta. b. A picareta quebrou a vidraça. c. A vidraça quebrou (com a picareta). (11) a. O charlatão curou o doente com aquele placebo. b. Aquele placebo curou o doente. c. O doente se curou4. (12) a. O Pedro cortou a torta com uma faca. b. *Uma faca cortou a torta. c. *A torta cortou. (13) a. A Maria varreu o tapete com a vassoura de piaçava. b. *A vassoura de piaçava varreu o tapete. c. *O tapete varreu. Partindo do pressuposto de que a estrutura semânticolexical dos verbos fornece as informações relevantes para a projeção dos argumentos na sintaxe, pretende-se investigar neste trabalho as seguintes hipóteses: (i)O sintagma introduzido pela preposição COM nos predicados exemplificados acima tem diferentes es4 Considera-se, para efeitos deste trabalho, que a manifestação fonológica (ou não) do pronome se (antipassivo) nas construções inacusativas não interfere na análise que será proposta para o sintagma [COM...]. 11 tatutos sintáticos em cada grupo de verbos: no grupo que admite as alternâncias, existe uma relação entre o Agente e o Instrumento, a qual se define pela noção de fusão/fissão de papéis temáticos e (opcionalmente) por uma relação de correferencialidade e é mapeada na sintaxe por um mecanismo de copredicação com o verbo, o que propicia a alternância dos dois argumentos na posição de sujeito; no grupo que não admite as alternâncias, o sintagma introduzido por COM é projetado por um núcleo lexical e denota a função Instrumento selecionada pelo verbo, sendo sua manifestação independente do argumento externo na configuração transitiva. (ii)A alternância instrumental e a alternância causativoincoativa ocorrem com predicados que não selecionam a noção de instrumento em sua estrutura léxicoconceitual ou, inversamente, a presença de traços na estrutura léxico-conceitual do verbo que remeta à noção de instrumento impede a manifestação da variante incoativa – essa generalização será retomada e modificada. Um corolário dessa hipótese é o de que a manifestação da variante incoativa pressupõe a realização do predicado independentemente de um instrumento – o que corresponde à possibilidade de denotar a causação independentemente de uma causa externa. Será proposto que, no caso dos predicados do primeiro grupo, em que ocorrem as alternâncias instrumental e causativo-incoativa, o sintagma Instrumento se vincula estruturalmente ao argumento Agente, os quais são realizados por um núcleo funcional aplicativo que introduz dois argumentos considerados argumentos “aplicados” ao predicado – havendo a possibilidade de esse núcleo ser realizado como um aplicativo alto ou baixo afetando, respectivamente, a posição de sujeito ou de objeto (direto). Já no caso dos predicados que não alternam, o sintagma Instrumento é selecionado pelo verbo, sendo projetado como um argumento independentemente do argumento externo. O trabalho está desenvolvido da seguinte maneira: na seção 1, discutimos as propriedades sintáticas e semânticas dos predicados que participam das alternâncias, buscando 12 explicar o contraste de gramaticalidade explicitado pelos dados de (10) a (13) acima; na seção 2, apresentamos a proposta do modelo teórico construcional de fusão/fissão de argumentos, como suporte para a nossa proposta de que Agente e Instrumento se vinculam como argumentos aplicados dos predicados que admitem as alternâncias; na seção 3, desenvolvemos uma proposta de análise para os predicados em foco, em termos das noções de copredicação e de núcleo aplicativo; por fim, na última seção, apresentamos as nossas considerações finais e procuramos estender a proposta para a alternância locativa, sugerindo que se estabelecem as mesmas relações de copredicação e de fusão/fissão de argumentos, mas implementadas em termos de um núcleo aplicativo baixo, já que os argumentos envolvidos nessa alternância estão contidos internamente ao predicado. 1. Propriedades léxico-conceituais dos predicados em foco Foi apresentado na Introdução que um certo grupo de predicados, em que ocorre a projeção de um sintagma Instrumento, participa da alternância instrumental e da alternância causativo-incoativa (cf. dados em (7) repetidos abaixo como (14)). (14) a. A Maria abriu a porta com a chave. b. A chave abriu a porta. c. A porta abriu (com a chave). Tais predicados podem ser caracterizados pela seguinte observação descritiva: A interpretação do Instrumento não é obrigatória, como se depreende de Maria abriu a porta/A porta abriu – embora em A chave abriu a porta o argumento na posição de sujeito, sendo um Instrumento, pressuponha um Agente (implícito). Em outras palavras, se o sintagma [COM...] não fosse projetado em (14a), poderia haver uma interpretação em que a Maria tivesse aberto a porta involuntariamente ou mesmo voluntariamente, mas sem se utilizar de um instrumento específico (simplesmente virando a maçaneta, por exemplo). E em (14c), obtém-se a interpretação de que a porta teria aberto por si mesma, ou 13 a de que uma causa externa (não volitiva), não explicitada, teria feito a porta abrir. O mesmo acontece com os dados (10) e (11) acima. Essa observação não se aplica, entretanto, aos predicados que não admitem as alternâncias instrumental e causativo-incoativa (os dados estão repetidos em (15)): (15) a. O João pintou a casa com um rolo. b. *Um rolo pintou a casa. c. *A casa pintou (com um rolo). Nesses casos, a interpretação do Instrumento é obrigatória, mesmo que ele não esteja manifesto na sentença: Assim, em O João pintou a casa, pressupõe-se que o Agente tenha se utilizado de um instrumento próprio para esse tipo de pintura, que é possivelmente diferente do instrumento apropriado para a pintura de telas, por exemplo. O mesmo vale para os dados (12)-(13): ainda que não se explicite lexicalmente o Instrumento, sabe-se que o Pedro deve ter se utilizado de um para cortar a torta e que a Maria deve também ter se utilizado de algo para varrer o tapete. Com esse contraste, é possível definir condições para a ocorrência da variante incoativa em termos da presença/ ausência de traços selecionais no verbo para a função Instrumento: a ausência de traços selecionais para o argumento Instrumento no verbo é condição para a manifestação da variante incoativa – somente nesse caso é possível construir a denotação independentemente da Causa/Causador; inversamente, na presença de traços lexicais para Instrumento, a variante incoativa é bloqueada. 1.1. Sobre a interpretação obrigatória (ou não) de Instrumento A observação de que, com verbos como pintar, a noção de instrumento é obrigatoriamente realizada nos traços lexicais do verbo, mesmo quando não está manifesta nas construções por meio de um sintagma instrumental, contrariamente ao que ocorre com verbos como abrir, pode ser analisada sob uma perspectiva semântica e sob uma perspectiva morfológica. 14 Com relação à perspectiva semântica, identifica-se que, nos predicados que têm a noção de instrumento representada em sua estrutura léxico-conceitual, a manifestação desse argumento produz obrigatoriamente uma leitura de lista: (16) O João pintou a casa com um rolo, não com um pincel, nem com spray. Nos casos em que o verbo não apresenta em sua estrutura léxico-semântica traços que introduzem uma variável de Instrumento, supõe-se que a presença do Instrumento é determinada por fatores independentes: assume-se, conforme sugerido, que o argumento Causa/Causador é introduzido por um morfema aplicativo, realizado como um operador do tipo COM, estando sua manifestação associada à presença de uma causa externa. Em (17), a ausência do sintagma Instrumento resulta em ambiguidade quanto ao caráter intencional ou não da causa, o que remete à noção de causa interna vs. causa externa: em João quebrou a vidraça, a causa pode ter origem intencional ou acidental, enquanto em João quebrou a vidraça com a picareta, somente a interpretação de causa intencional está disponível, e seu corolário, que é a interpretação de causa externa. Nesse sentido, pode-se dizer que o sintagma COM é selecionado na relação com o argumento Causa/Causador e não na relação com o predicado. Nesse caso, o argumento que realiza a função de Instrumento também corresponde a uma leitura de lista. (17) O João quebrou a vidraça com uma picareta. Com relação à perspectiva morfológica, verifica-se que um conjunto significativo de verbos que apresentam a noção de instrumento codificada em suas propriedades lexicais são denominais, formados a partir do nome do instrumento: escovar, encerar, ensaboar, filtrar, lixar, pentear, regar, rastelar. Verbos denominais, ao serem formados por nomes que denotam instrumentos, deveriam confirmar a hipótese de se articularem com argumentos introduzidos por COM, uma vez que, do ponto de vista interpretativo, apresentam uma especificação quanto ao tipo de instrumento. É o que ocorre com escovar, por exemplo, em que as alternâncias instrumental e causativo-incoativa não ocorrem: 15 (18) a. O funcionário escovou o terno com a escova de plástico. b. *A escova de plástico escovou o terno. c. *O terno escovou. No entanto outros verbos denominais trazem questões adicionais para a discussão, as quais parecem entrar em conflito com o que acabamos de dizer – embora o conflito seja aparente. É o caso dos dados a seguir, em que se supõe a formação enfeitar [prover X COM enfeite] e envenenar [prover X COM veneno], adotando-se uma versão de Hale e Keyser (1993; 2002) para a formação de denominais: (19) a. Os comerciantes enfeitaram as lojas com arranjos de Natal. b. Os arranjos de Natal enfeitaram as lojas. c. As lojas *(se) enfeitaram. (20) a. O João envenenou o gato com o cianureto. b. O cianureto envenenou o gato. c. O gato *(se) envenenou. De acordo com o contraste estabelecido até aqui, os dados se alinham com aqueles em que o argumento Instrumento pode ser realizado na posição de sujeito – note-se o paralelo com os dados em (10) e (11). Dado o processo de formação denominal e considerando-se a análise anterior quanto à presença dos traços lexicais (de Instrumento) no verbo, a expectativa seria a de que tais formas bloqueassem a variante incoativa e a realização do Instrumento na posição de sujeito da variante transitiva (alternância instrumental). A conclusão imediata é a de que verbos denominais apontam para um contraste interno, definido em termos da possibilidade de o nominal de que são formados ser um instrumento capaz de entrar, ou não, na estrutura léxicosemântica do predicado como introdutores da variável que seleciona o argumento Causa/Causador. Nesse aspecto, escovar distingue-se de enfeitar, em relação ao papel dos nominais escova e enfeite: o segundo, mas não o primeiro, representa um nominal que corresponde a um instrumento com propriedades de desempenhar o papel temático de 16 Causa/Causador. De fato, enfeite, diferentemente de escova, denota uma entidade que apresenta propriedades semânticas tais que permitem que o próprio nominal receba uma interpretação de Causa/Causador – embora um agente (implícito) esteja presente. A discussão sobre a formação dos denominais (cf. o debate construcionista vs. lexicalista), entretanto, desvia o foco da presente análise que se limita, neste ponto, a dizer que os verbos denominais, precisamente por apresentarem em sua formação um nome que denota o instrumento, admitem a possibilidade de gerar elementos para os dois grupos de verbos – para os que admitem as alternâncias e para os que não as admitem. Diferentemente, no caso dos predicados não-denominais como pintar/cortar, em que não há especificação quanto à natureza semântica do instrumento na estrutura morfológica do predicado, mas que apresentam, em sua estrutura léxico-conceitual, uma variável (a qual é inespecificada) que liga um argumento interpretado como Instrumento, a generalização se sustenta quanto à impossibilidade de participar das alternâncias, estando excluída a interpretação em que o Instrumento é interpretado como Causa/Causador. Nesse caso, o argumento Instrumento é introduzido na configuração preposicional e manifesta uma interpretação de lista. Com essa análise, a relação entre o argumento interpretado como Causa/Causador e o nome que participa da formação do verbo denominal é definida, composicionalmente, na configuração sintática que postulamos estar acessível, desde que condições formais sejam acionadas, as quais, como antecipamos, estão relacionadas à manifestação do núcleo funcional aplicativo introduzido por COM, questão essa que será retomada. Em suma, essas evidências levam à conclusão de que a noção de instrumento está necessariamente presente na estrutura léxico-conceitual dos predicados que não alternam, mas não está presente na estrutura léxico-conceitual dos predicados que alternam. É, portanto, a presença do papel temático Instrumento na estrutura argumental de certos verbos que impõe restrições à alternância instrumental (em maior ou menor grau) e à alternância causativo-incoativa desses predicados. 17 1.2. Estendendo a discussão para os predicados psicológicos Vimos que, no caso dos predicados causativos em que se verificam as alternâncias instrumental e causativo-incoativa, os argumentos Agente-Instrumento são mapeados por meio de um núcleo funcional aplicado ao predicado – numa estrutura de copredicação a ser explicitada na seção 3. Neste ponto, explora-se a possibilidade de que tal análise seja estendida aos verbos psicológicos, em que se constata um tipo de alternância semelhante ao da alternância causativa (cf. dados em (8), repetidos em (21) abaixo, com adaptações para a discussão que se coloca nesta seção): (21) a. O João preocupa a Maria com o seu comportamento. b. O comportamento do João preocupa a Maria. c. A Maria se preocupa (com o comportamento do João). A alternância psicológica propriamente dita é aquela que se observa nas sentenças (21b) e (21c), em que o argumento Experienciador (a Maria) ora se apresenta como objeto ora como sujeito. Quando o Experienciador é sintaticamente o objeto, o argumento sujeito recebe o papel temático de Causador (CROFT, 1993; PESETSKY, 1995). O fato é que esse argumento Causador pode ocorrer de forma disjunta, como ilustrado em (21a), em que o sintagma [COM...] apresenta uma relação com o sintagma sujeito, considerada aqui como sendo uma leitura instrumental de tipo metafórico, abstrato (o próprio comportamento é “utilizado” por João para preocupar a Maria). Dado que os predicados psicológicos admitem as alternâncias instrumental (cf. (21b)) e causativo-incoativa (cf. (21c)), considera-se que eles se comportam como os verbos da classe de abrir, descritos acima, ou seja, os verbos da classe de preocupar não teriam a noção de instrumento como parte da sua estrutura léxico-conceitual. Com respeito especificamente à relação Agente-Instrumento, a estrutura (21a), com o argumento Causador (o João) associado a um sintagma Instrumento (com o seu comportamento) fornece uma evidência estrutural importante para a proposta deste trabalho: a correferência obrigatória 18 entre o sintagma Instrumento e o argumento sujeito. Os dados em (22) exemplificam essa propriedade: (22) a. O Joãoi preocupa a Maria com o seui comportamento. b.*O Joãoi preocupa a Mariaj com o seuj comportamento. c.*O João preocupa a Maria com o comportamento do Pedro5. A exigência de correferência entre o sintagma Instrumento e o argumento sujeito não se aplica aos predicados que não alternam (aqueles em que o Instrumento faz parte da estrutura argumental dos verbos), como se observa em (23) e (24): (23) a. O Joãoi pintou o filho com o seui pincel. b.O João pintou o filhoj com o seuj pincel. (24) a. O Joãoi envenenou a Maria com os seusi comprimidos. b.O João envenenou a Mariaj com os seusj comprimidos. O contraste entre (22), de um lado, e (23)-(24), de outro lado, permite concluir que os sintagmas Instrumento desses predicados possuem estatutos distintos com relação à projeção sintática em que ocorrem. Em particular, considera-se que a configuração em que é projetado o sintagma introduzido pela preposição COM na estrutura com o verbo psicológico propicia a ligação anafórica ilustrada em (22). 2. Uma hipótese para o mapeamento de argumentos em diferentes posições sintáticas: fusão/fissão de argumentos A análise que será proposta para os predicados em questão se baseia fortemente na noção de composicionalidade da semântica da sentença. Segundo esse tipo de abordagem, a interpretação das sentenças depende fortemente das relações entre os itens lexicais e suas estruturas léxicoconceituais. Em termos nocionais, para dar conta da dis5 Essa sentença poderia ser considerada gramatical na interpretação de que o João causa preocupação em Maria ao, por exemplo, contar a ela sobre o comportamento do Pedro. Entretanto, se a interpretação for essa, é o comportamento do Pedro que efetivamente causa preocupação em Maria. Na interpretação de que é o João que causa preocupação em Maria, pressupõe-se a elipse de parte do sintagma Instrumento (O Joãoi preocupa a Maria com (o seui relato sobre) o comportamento do Pedro), em que se observa a correferência com o argumento sujeito. 19 tinção, demonstrada anteriormente, de que o Instrumento ora se configura como uma variável prevista na estrutura léxico-conceitual dos verbos, bloqueando a alternância sintática, ora se associa ao argumento Agente, possibilitando o mapeamento ou do Agente ou do próprio Instrumento na posição de sujeito da sentença, adota-se, neste trabalho, a noção de fusão/fissão de argumentos utilizada nos modelos construcionais da teoria gramatical. O termo fusão é empregado nessa teoria como referência ao mecanismo pelo qual os falantes inferem relações de correferência entre os argumentos da construção e os papéis temáticos dos participantes, atribuídos pelo verbo. Os papéis temáticos são, nesse sentido, instâncias mais específicas dos argumentos. Goldberg (1995 apud MICHAELIS e RUPPENHOFER, 2001, p. 41) propõe que a fusão de argumentos seja restringida pela Condição de Participante Compartilhado, de acordo com a qual pelo menos um argumento da construção tem de ser fundido a um papel temático do verbo. A ideia central de que este trabalho se valerá para implementar uma proposta de análise das construções com alternância instrumental é a de que um único argumento (em termos das posições previstas na estrutura léxicoconceitual dos verbos) pode ser projetado como dois sintagmas interdependentes (correferentes, em sentido lato), na estrutura sintática. Daí a utilização do termo fissão, associado ao termo fusão. Sendo assim, em predicados do tipo abrir (causativo) e preocupar (psicológico), projeta-se um núcleo aplicativo na posição de sujeito (como será implementado na próxima seção), contendo os argumentos Agente/Causador e Instrumento, o que estaria contemplado na noção teórica de fusão dos argumentos. 3. Uma análise em termos de copredicação Nesta seção, passamos a discutir o mapeamento sintático da projeção introduzida pelo núcleo dito aplicativo, o qual, por hipótese, introduz (até) dois argumentos na projeção do predicado. A aplicação dos argumentos ao predicado pode ser definida em termos de um processo de copredicação, a 20 que se associa a noção de atribuição de composicional de papel temático. A noção de atribuição composicional de papel temático foi usada na literatura primordialmente na caracterização da relação entre o verbo e a preposição em configurações de objeto indireto. É assim que construções do tipo promise NP-PP são caracterizadas em Chomsky (1981, p. 93): “[…] each lexical element alpha assigns a theta role to every NP or clause in its complement (if there are any) including NP in PP linked to alpha, in which case the theta role will be determined compositionally by alpha and the P head of PP”. Outras abordagens consideram o papel semântico e sintático da preposição. Marantz (1984), por exemplo, discute a interpretação de instrumentais, em configurações como em (25), em oposição a (26), assumindo como basicamente correta a afirmação de Dick Carter (apud MARANTZ, 1984, p. 17) de que, no par (25a-26a), “[...] it is wrong to look at the preposition ‘with’ as assigning some instrumental role inherently associated with the preposition”, considerando que é o predicado introduzido por unlock que atribui o papel temático de instrumento ao sintagma a key. (25) a. Elmer unlocked the porcupine’s cage with a key. b. Elmer examined the inscription with the magnifying glass. (26) a. A key unlocked the porcupine. b. *The magnificent glass examined the inscription. O contraste em (25) e (26) é tomado como evidência sintática para a afirmação de que o papel semântico de instrumento varia dependendo do tipo de verbo com que o sintagma ocorre. Marantz (1984) distingue a atribuição de um papel semântico a um constituinte do fato de esse constituinte ocorrer como um argumento de um predicado: argumentos diretos de predicados têm seu papel temático atribuído pelo próprio predicado, enquanto argumentos indiretos não recebem seu papel temático do predicado que os toma como argumentos. Marantz propõe então que as preposições sejam definidas como uma categoria lexical que pode funcionar como um núcleo de PP ou como um atribuidor de papel temático, sem uma estrutura argumental. 21 A noção de atribuição composicional de papel temático e seu correlato sintático, tal como apresentado por Marantz (1984), recebeu diferentes tratamentos teóricos. Um aspecto convergente nas análises é o reconhecimento de que existem argumentos que são introduzidos na configuração por meio de preposição – o chamado argumento oblíquo – cujas propriedades sintáticas remetem à discussão quanto à assimetria complemento e adjunto. Entre os casos que se enquadram nessa situação, constam os chamados argumentos benefactivos e os instrumentais. Na presente análise, adota-se a noção de copredicação para caracterizar a situação em que o argumento (oblíquo) é selecionado por um predicado (WECHSLER, 1995). Em particular, propõe-se que o sintagma Instrumento ocorre em duas configurações sintáticas distintas, as quais interagem com a manifestação da chamada alternância instrumental e causativo-incoativa: (i) a configuração introduzida por um núcleo lexical – a preposição [COM] –, com estrutura argumental própria, caso em que ocorre como modificador do predicado; (ii) a configuração introduzida por um núcleo funcional – o núcleo aplicativo [COM] – em que são projetados dois argumentos – o Agente e o Instrumento –, cuja manifestação, pelas características formais do núcleo aplicativo, admite a possibilidade de realização simultânea ou alternada deles mesmos. A manifestação do processo em (ii) possui dois correlatos que são a noção de fusão/fissão de papéis temáticos, discutida na seção anterior, e a noção de copredicação. A postulação do núcleo aplicativo, por sua vez, vem associada à tradição que investiga a presença do chamado morfema aplicativo em línguas como o chichewa, da família Banto. Na presença do morfema aplicativo no verbo/predicado, além do objeto direto do verbo, é possível realizar um argumento adicional como um sintagma nominal, associado ao papel temático de Meta – conforme ilustrado em (27), em oposição a (28), em que o argumento interpretado como Meta ocorre em uma configuração oblíqua. Os exemplos a seguir são do chichewa e foram retirados de Baker (1988, p. 229): (27) Ndi-na-tumiz-ir-a mfumu chipanda cha mowa 1s-PAST-send-APPL-ASP chefe calabash of beer ‘I sent the chief a calabash of beer’ 22 (28) Ndi-na-tumiz-a chipanda cha mowa kwa mfumu 1s-PAST-send-ASP calabash of beer to chief ‘I sent a calabash of beer to the chief’ Tais dados remetem particularmente à presença do chamado argumento benefactivo e sua relação com a questão da alternância dativa, recorrentemente discutida na literatura. Conforme referido anteriormente, a distribuição do argumento benefactivo tem sido associada à noção de copredicação. Em estudos recentes, o morfema aplicativo tem sido analisado como um recurso de ampliação de valência, o que explica a referência ao(s) argumento(s) que introduz como argumento(s) aplicado(s). Na presente abordagem, assume-se uma perspectiva construcionista, em que os papéis temáticos se depreendem da relação entre os núcleos sintáticos determinados pela projeção da raiz do predicado, e os núcleos aplicativos são inseridos como itens funcionais em termos de propriedades definidas na configuração sintática do predicado (HALE e KEYSER, 1993; 2002; MARANTZ, 1993; PILKKÄNEN, 2002; BORER, 2005). Em particular, no que se refere à alternância instrumental, propõe-se uma configuração como em (29) para a projeção do núcleo aplicativo COM e seus argumentos. A projeção do núcleo aplicativo COM é realizada na projeção do predicado abrir como um núcleo aplicativo alto, em uma configuração de adjunção, a qual, por hipótese, corresponde ao mapeamento sintático da relação de copredicação (cf. (30)). (29) AplP ^ João Apl’ ^ COM a picareta (30) [TP João [T’ abriu [VP [AplP (João) [Apl’ COM [a picareta]]] [VP (abriu) [DP a porta]]]]] A realização do núcleo aplicativo alto na projeção do predicado, tal como ilustrada em (30), encontra-se em distribuição complementar com a realização do argumento 23 Instrumento introduzido pelo núcleo lexical COM, nos casos em que tal configuração liga uma variável associada ao instrumento introduzido pelo predicado, a qual é interpretada em uma leitura de lista, conforme mencionado na seção 1. Ficam em aberto os detalhes da implementação técnica da configuração em (30), mas ressalta-se que a ordem pode ser obtida mediante movimento remanescente do VP para uma configuração acima do núcleo aplicativo. Na configuração em (30), o argumento interno do predicado abrir é licenciado in situ, recebendo caso acusativo inerente, enquanto os argumentos da projeção do núcleo aplicativo estão disponíveis para ocorrer na posição sintática associada ao caso nominativo – o que pode ser realizado seja pelo argumento Agente, seja pelo argumento Instrumento. Propõe-se que, nessa configuração, manifesta-se a fusão/fissão de argumentos que dá origem às duas variantes da alternância instrumental, cabendo determinar as condições que levam à ocorrência da variante com um dos argumentos apenas. Em particular, cabe determinar o estatuto do argumento Agente, apagado na variante com o instrumento na posição de sujeito, mas realizado implicitamente, como se depreende do fato de que a presença do argumento Instrumento impõe a leitura de causação por uma causa externa. Considera-se que a implementação dessas propriedades na sintaxe permitirá captar a assimetria observada nos dados a seguir, em relação à ocorrência da voz passiva, por exemplo: (31) a. João viu Pedro com o binóculo. b. Pedro foi visto por João (com um binóculo). (32) a. João abriu a porta com uma chave. b. A porta foi aberta por João (com uma chave). c. A chave abriu a porta. d. A porta foi aberta (*pela chave)/(com a chave). Considerações finais e extensão da proposta à alternância locativa O presente estudo examinou o estatuto da preposição COM em construções com alternância sintática, considerando-se particularmente o sintagma com papel temático 24 de Instrumento. Na discussão, partiu-se dos contextos de alternância instrumental e de alternância causativo-incoativa, propondo-se que a manifestação das alternâncias é determinada pela ausência, no predicado, de propriedades léxico-conceituais associadas à ocorrência do papel temático de Instrumento. Um correlato dessa restrição é a possibilidade de o predicado projetar a variante incoativa, a que se associa (necessariamente) a noção de causa interna. A presença do argumento interpretado como Instrumento é então obtida por um processo de copredicação, mediante a realização de um núcleo aplicativo (alto) na projeção do predicado. Nesse sentido, postulou-se que o sintagma COM ocorre em duas configurações: (i) como um núcleo funcional aplicativo (alto), em que se realizam os argumentos Agente e Instrumento; (ii) como um núcleo lexical que introduz o argumento Instrumento, o qual liga uma variável introduzida pelas propriedades léxico-conceituais do predicado, a que se associa uma leitura de lista. A análise foi então estendida para os predicados psicológicos. Mediante a identificação de semelhanças sintáticas em relação à manifestação da alternância psicológica e à distribuição do argumento introduzido pela preposição COM nesses predicados, concluiu-se que a variante causativa desses predicados pode ser analisada em termos de uma configuração de copredicação, envolvendo o predicado psicológico e um núcleo aplicativo. Tal análise se confirma por fenômenos de ligação anafórica, em que se verifica a orientação obrigatória para o Agente, o que sugere que a anáfora e o antecedente encontram-se em uma configuração sintática fixa, a qual, por hipótese, corresponde à projeção do núcleo aplicativo. Muitas questões permanecem em aberto, notadamente no que se refere à implementação técnica da estrutura sintática associada ao núcleo aplicativo. Neste ponto, esta pesquisa se limita a reter os contrastes empíricos como um ponto de partida na investigação da hipótese de trabalho, em que se supõe a possibilidade de distinguir dois tipos de configuração associados à realização sintática do papel temático de Instrumento introduzido pela preposição COM. 25 Ainda em relação a tal configuração, resta mencionar o caso da alternância locativa, apresentada na introdução (cf. (1)), no contraste com os demais tipos de alternância, para a qual se sugere que seja também analisada em termos da presença de um núcleo aplicativo, nesse caso em realização sintática baixa, na projeção interna do VP. Nesse aspecto, tal caso se alinha com a chamada alternância dativa, para a qual existe, na literatura, tratamento teórico em termos da presença de um núcleo aplicativo baixo (MORAIS, 2006). Esse caso fica para investigação futura. Referências BAKER, M. Incorporation: a theory of grammatical function changing. 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Em função de uma renovada tipologia dos universos de discurso, assinala a necessidade de consolidação de disciplinas como a Terminologia Aplicada e a Etno-terminologia; destaca os processos de banalização, vulgarização, popularização de linguagens especializadas, enquanto importantes mecanismos de circulação e difusão do conhecimento; enfatiza a adequação dos discursos a diferentes grupos de destinatários, a comunicação entre especialistas e não especialistas, os distintos níveis de linguagem envolvidos e algumas decorrências transdisciplinares. PALAVRAS-CHAVE: Etno-terminologia, Léxico,Terminologia Aplicada APPLIED TERMINOLOGY: INTERDISCIPLINARY PATHS ABSTRACT: This is a study about the relationship between the interdisciplinarity and the specificity of the disciplines that deal with words. As a consequence of a renewed typology of the universes of discourse, it points out the need of consolidation of disciplines such as Applied Terminology and Ethno-terminology; it is also points out the process of banalization, vulgarization, and popularization of specialized languages that are important mechanisms of circulation and diffusion of knowledge; it emphasizes the discourse adequacy to different groups of addressees, the communication between specialists and non-specialists, the distinct language levels involved and some transdisciplinary results. KEYWORDS: Ethno-terminology, Lexicon, Applied Terminology 1 Professora Titular do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 29-44 2009 issn 0104-687x Introdução: léxico e transdisciplinaridade O princípio da inter e multidisciplinaridade exige complementarmente o princípio da especificidade do objeto, campo e métodos das diferentes disciplinas científicas, correspondente a recortes observacionais distintos de um aparentemente mesmo objeto de estudo. Assim como as ciências básicas e aplicadas, as disciplinas integrantes das ciências da palavra mantêm processo de cooperação e, ao mesmo tempo, especificidades epistemológicas. Buscamos delimitar a identidade científica da Lexicologia, Lexicografia, Terminologia e Terminografia; a forte relação de cooperação interdisciplinar entre ciências básicas ou entre ciências aplicadas e/ou tecnologias; a alimentação e realimentação entre estas e aquelas têm como condição sine qua non a especificidade epistemológica no tratamento da palavra, o que lhes assegura autonomia de modelos, métodos e técnicas, pois, dialeticamente, é preciso distinguir para articular. Lexicologia e Lexicografia configuram duas atitudes e dois métodos em face do léxico: a Lexicografia, como técnica dos dicionários; a Lexicologia, como estudo científico do Léxico. Dentre suas tarefas, destaca-se a de abordar a palavra como instrumento de construção de uma “visão de mundo”, de sistemas de valores, como geradora e reflexo de recortes culturais; analisar a influência do contexto em cada palavra e, reciprocamente, a determinação e atuação de cada palavra em seus diferentes contextos possíveis. A complexa questão se estende à multissignificação dessas disciplinas; os discursos lexicográficos são, simultaneamente, registro de palavras e objeto de estudo da Lexicografia, como investigação fundamental; esta, objeto da Metalexicografia enquanto Epistemologia da Ciência Lexicográfica. Semelhantes relações estabelecem-se entre Terminologia e Terminografia, respectivamente, ciência da palavra Técnico-Científica e tratamento terminográfico desse tipo de palavra. Por outro lado, as questões relativas às unidades lexicais e seus conjuntos podem ser consideradas do ponto de vista diacrônico, sincrônico, pancrônico; podem sofrer um tratamento quantitativo ou qualitativo, receber uma abordagem descritiva ou aplicada. Assim, ao lado da Lexicologia Descritiva, a Lexicologia Aplicada se tem revelado 30 importante, fundamental mesmo para múltiplos campos, tecnologias e práticas. As áreas de pesquisa acima sumariamente elencadas e os modelos teóricos construídos têm sido aplicados, com eficácia, a domínios como ensino de língua materna ou estrangeira, descrição, diagnóstico e terapia de distúrbios da linguagem, processos de tradução automática ou mecânica, técnicas de documentação, tratamento da informação, dentre outras. Da mesma forma, semelhante eficácia se comprova nos trabalhos de Terminologia Aplicada. Desses, destacamos, aqui, os processos de banalização/ vulgarização/ popularização de linguagens especializadas, enquanto importantes mecanismos de circulação e difusão do conhecimento; consideramos a necessária adequação dos discursos a diferentes grupos de destinatários, a comunicação entre especialistas e não especialistas, os distintos níveis de linguagem envolvidos e algumas decorrências transdisciplinares. 1. Questões preliminares a propósito do ensino do léxico A complexa e multifacetada problemática do ensino do léxico se tem configurado como forte preocupação dos pesquisadores, no quadro das variadas e urgentes tarefas que se impõem à Lexicologia, à Lexicografia e à Terminologia. No mundo contemporâneo, o exame das práticas sêmiolinguísticas dos enunciadores e dos enunciatários do discurso pedagógico tem permitido observar claramente que a questão do ensino do léxico não é considerada importante é, até mesmo, frequentemente esquecida ou desconhecida no tocante aos modelos e aplicações, de que resulta, qualitativa e quantitativamente, um baixo rendimento, não só na matéria específica da língua materna, como também em todas as demais, pois todas se realizam em linguagem. Diante disso, propusemo-nos a desenvolver pesquisas que conduzissem à elaboração de um modelo semióticolinguístico que desse conta dos processos de aquisição e desenvolvimento da competência e do desempenho lexicais, seja na comunicação utilitária da linguagem dita “banal”, seja nos universos de discurso específicos e altamente específicos das sociedades heterogêneas, industriais e pós-industriais. 31 Numa primeira etapa, concluída há tempo, apresentamos um modelo que se sustenta em dois parâmetros: o da necessidade de ser observada no processo ensino-aprendizagem do léxico, a coocorrência das variedades de normas linguísticas diversas, convergentes e conflitantes no mesmo sujeito falante-ouvinte; o da imprescindibilidade de tomar-se como ponto de partida e de referência o universo linguístico e sociocultural do aluno (BARBOSA, 1984). Figura 1 – Discurso de pedagogia do léxico TD Sustentação do Discurso Pedagógico Demais normas Norma padrão Discurso Não realista Discurso Demagógico Não demais normas Não norma padrão Fonte: Barbosa, 2008. Em seguida, foram considerados o primeiro parâmetro apontado e as diferentes funções semióticas e metassemióticas, ou seja, as diversas relações entre o plano do conteúdo e o plano da expressão, suas transformações e transposições, sua distribuição nas perspectivas diatópicas, diastrática, diafásica e mesmo diacrônica da língua, as relações intra e interuniverso de discurso (BARBOSA, 1992, p. 258-264). Tornou-se necessário, então, articular aquelas etapas e obter mecanismos que tornassem viável o processo proposto. Demonstraram-se relevantes o desenvolvimento dos processos de automatização das formas vocabulares e terminológicas, de sua adequada atualização e sintagmatização às situações de enunciação e de discurso, ao contexto sociocultural, em condições de sinfasia e sinstratia, de diastratia e diafasia. Esses complexos problemas exigiram o estudo das articulações e da interação entre dialetos stricto sensu, socio32 letos, tecnoletos, idioletos, de sua convergência e conflito, no sujeito falante-ouvinte. Examinamos, tendo em conta esses critérios e variáveis, as relações estruturais-funcionais, morfo-semântico-sintáxicas e léxico semânticas da parassinonímia, da hiperonímia, da hiponímia, da co-hiponímia, da paronímia. Essa análise trouxe subsídios valiosos, por sua riqueza e complexidade, para uma melhor compreensão dos processos de desenvolvimento do vocabulário ativo e passivo, dos mecanismos de enunciação de codificação/decodificação que conduzem a formular métodos suscetíveis de contribuir substancialmente para a ampliação da competência lexical e para o aprimoramento do desempenho linguístico, em situação de discurso, dos mecanismos de produção de significação e informação determinantes da eficácia discursiva. Numa etapa subsequente, fazendo dos aspectos acima considerados o alicerce de nossas reflexões sobre a pedagogia do léxico, direcionamos nossa pesquisa, nessa subárea, para um tipo de “conjunto vocabulário” bastante específico: o das metalinguagens técnico-científicas (BARBOSA, 1993, p. 56-63), examinado no âmbito da problemática do desenvolvimento da competência e do desempenho lexicais. 2. Natureza e funções das metalinguagens técnico-científicas Ciências e tecnologias constituem universos de discurso que constroem uma metalinguagem específica e uma “visão de mundo” segunda. Aprender uma ciência básica, uma ciência aplicada ou uma tecnologia corresponde a aprender (adquirir competência e desempenho) a linguagem de especialidade respectivamente constituída. O universo de discurso metalinguístico de uma ciência, representação e síntese das suas descobertas e do saber construído, se preciso bem-elaborado, leva a aprimorar a prática profissional em toda a sua abrangência; essa prática realimenta tal discurso como novos “fatos” e novas unidades linguísticas, reafirmando o processo de alimentação e realimentação da ciência básica e da ciência aplicada e/ ou tecnologia. 33 Com efeito, os modelos científicos e tecnológicos aperfeiçoam-se com a própria mudança dos “fatos” que constituem o seu objeto de estudo, com os avanços da investigação. Evoluem, concomitantemente, os seus discursos linguísticos, daí resultando a necessidade do rediscurso constante da ciência e da tecnologia, de sua definição e limites, do seu objeto, dos seus métodos e técnicas, da sua metalinguagem. Como se sabe, toda ciência ou tecnologia, seja do ponto de vista epistemológico, seja do metodológico, seja, ainda, daquele da construção do seu saber metalinguístico, estabelece estreitas relações de cooperação interdisciplinares no nível das ciências básicas ou no nível das ciências aplicadas, e de alimentação e realimentação entre estas e aquelas com outras ciências básicas, ciências aplicadas e/ou tecnologias. Esse processo de contribuição recíproca entre tais disciplinas não lhes retira, contudo, a especificidade do objeto de estudo, campo, métodos e técnicas e, até mesmo, de modelos e de metalinguagem. De fato, sustentando-se todas nesse relacionamento complexo e dinâmico de interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, alimentação e realimentação, intra e interáreas do conhecimento humano, perseguem, efetivamente, objetivos comuns: a busca da verdade, a análise e descrição do seu objeto, a redução dos fatos a modelos, a construção do saber, o aprimoramento da qualidade de vida, a construção de um discurso metalinguístico específico. Em semântica profunda, temos: Figura 2 – Especificidade x interdisciplinaridade TD Processo de construção do conhecimento (fronteiras) Compartilhado Exclusivo Especificidade Interdisciplinaridade Não Exclusivo Fonte: Barbosa, 2008. Não Compartilhado Ø 34 Considerando-se apenas o último aspecto apontado, o do discurso metalinguístico, é lícito dizer-se que a prática de uma ciência básica ou aplicada, a sua produtividade e crescimento, demonstram a imperiosa necessidade de construção e permanente reconstrução de um vocabulário próprio, preciso e consensual, instrumento de análise e descrição, que não somente permite defini-las e circunscrevêlas enquanto disciplinas, como também lhes proporciona a aplicação mais rigorosa, produtiva, eficaz dos princípios, métodos e técnicas. Uma ciência que não conseguisse autodefinir-se não teria identidade, não poderia delimitar nem o seu objeto de estudo, nem os seus processos de atuação. Dessa forma, uma ciência ou tecnologia vão se constituindo e se delimitando como tais no processo histórico de acumulação e transformação do conhecimento, à medida que, simultaneamente, vão se delimitando o seu objeto formal, os métodos e técnicas de análise e descrição desse mesmo objeto, bem como, igualmente, vai se consolidando a sua metalinguagem. Noutras palavras, com a precisa definição dos seus termos, e somente assim, determinam-se claramente os fatos próprios ao seu universo, seus métodos e técnicas. É legítimo afirmar, pois, que a construção da ciência é indissociável da construção de sua metalinguagem. À proporção que se vai constituindo, consolida-se a ciência e sua identidade epistemológica (BARBOSA, 1989). Esses aspectos, dentre outros, mostram a importância das metalinguagens terminológicas na sociedade atual, para a ampliação do saber e do saber-fazer do indivíduo, não só sobre determinada ciência ou tecnologia, como também o seu saber sobre o mundo. Daí decorre a importância dos modelos epistemológicos e metodológicos de tratamento, complicação, recuperação e transmissão de metalinguagens. Nessas condições, o vocabulário técnico-científico é, ao lado das outras obras lexicográficas, um dos instrumentos imprescindíveis para o recorte “fato” científico e para a armazenagem e recuperação desses dados, para a comunicação mais intensa e eficiente entre especialistas, no interior de uma área científica e entre áreas científicas. Além disso, assinala-se por importante instrumento de pesquisa e de sustentação do arcabouço teórico da ciência ou tecnologia (BARBOSA, 1989, p. 107). 35 3. Um percurso de transmissão da metalinguística técnico-científica Formalizando o problema do ensino de léxico no contexto da teoria da comunicação, definem-se várias situações pedagógicas. Apresentamos algumas dessas situações (BARBOSA, 1984, p. 96-103). Há discursos pedagógicos, em nível do léxico, que operam com um falso diassistema: supõe-se parte de elementos linguísticos, sociais e culturais comuns ao emissor (conjunto A, do professor) e ao receptor (conjunto B, do aluno), quando, na verdade, produz-se apenas, ou sobretudo, no universo de A. Esses discursos acarretam, entre outras coisas, aumento do custo de armazenagem e codificação, perda do rendimento sintagmático. Seu resultado traduzse num esquema de comunicação em que a intersecção mínima entre o conjunto discursivo e vocabular de A e o de B, pequena, tende a zero, daí decorrendo incomunicação e pouco aproveitamento. Discursos impositivos não respeitam a competência do aluno. Seu efeito é o sufocamento do universo linguístico e sociocultural preexistente do aluno. Por outro lado, o ensino que opera somente no dia-norma (professor-aluno) reitera os recortes do universo linguístico e sociocultural do aluno. Dele resulta a não ampliação do conjunto de elementos disponíveis em sua competência e a anulação da comunicação pedagógica dialógica desejável. Processo de tal forma reiterativo tem situação comparável à da comunicação monológica (diálogo interior), em que o subsistema de A e o subsistema de B tendem à identidade. Entretanto o ensino que parte do universo de B ou, se preferirmos, do dia-sistema e do dia-norma do conjunto A e do conjunto B (conjunto universo do aluno) e conduz paulatinamente à incorporação em B dos elementos do conjunto-diferença primitivo de A (conjunto universo do professor) tem como consequência a ampliação da intersecção entre ambos. Tal solução é, sem dúvida, melhor. Esse tipo de discurso pedagógico sustenta-se na tensão dialética entre universo conhecido/universo desconhecido e minimiza a possibilidade do efeito de ruptura, tanto no processo 36 de a, quanto no de B; permite progressiva ampliação da competência linguística e visão do mundo, sem anular ou sufocar o universo linguístico e sociocultural anterior; e a sua reorganização. Assim o professor-destinador, na estratégia de sua intervenção cognitiva, dota o aluno-destinatário de uma dupla competência narrativa e científica: uma, geral, pois se insere numa situação em que se passa de um estado de não saber a um estado de saber, outra, específica, já que reconstrói a sucessão de ações que constitui essa transformação. O discurso do não saber nunca deve, a nosso ver, partir do conjunto diferença de A e ser imposto ao conjunto B. A dinâmica da passagem do “não saber” para o “saber” requer, pois, fazer um percurso que começa no conjunto diferença de B ou na interseção entre A e B, vem para o conjunto diferença de A, retorna para os dois anteriores, ampliando-os e reformulando-os. O universo do professor enriquece-se simultaneamente. Para viabilizar esse processo, principalmente no caso do vocabulário técnico-científico, que se opte pelo modo paradigmático (forma dicionarística) ou pelo modo sintagmático (discurso dissertativo) de transmissão desse “saber”. Parece-nos importante, no que concerne ao vocabulário, dotar o aluno de um número expressivo de parassinônimos lexicais diastráticos e diafásicos, de mecanismo de atualização e devida contextualização dessas formas equivalentes e procurar fazer dos vocábulos banais, vulgares ou populares (“saber” do aluno) o ponto de partida para o acesso aos termos correspondentes (integrados no “saber” do professor) e para o acesso à teoria a eles subjacente. Ressalta-se nesse processo a importância não só do domínio do maior número possível de parassinônimos, como também da automatização de mecanismo de comutação, segundo o contexto discursivo, dessas formas lexicais parassinônimas, quase sinônimas ou “equivalentes”. Empregamos aqui o termo “equivalente” em sentido amplo, conforme a concepção de Lyons (1979, p. 478) que define a sinonímia em função da ampliação recíproca ou equivalência, e não no sentido específico que tem na área da Terminologia, onde é definida como a relação estabelecida 37 entre designações de línguas diferentes que representam a mesma noção (BOUTIN-QUESNEL, 1985, p. 20). Nessas condições, o dicionário terminológico ou vocabulário técnico-científico e especializado tem um papel relevante a desempenhar no processo de ensino-aprendizagem das metalinguagens técnico-científicas, como também das linguagens especializadas, desde que seja elaborado de maneira a atender a certas exigências que assegurem a sua eficácia. Destaca-se aqui a necessidade de tomar o modo paradigmático de transmissão de uma teoria científica, com as vantagens próprias do dicionário, e articulá-lo com um sistema de remissões ordenado por relações semântico-conceptuais que favoreçam percursos de reconstituição coerente por parte do usuário, da teoria ou das teorias em causa. As metalinguagens técnicas são construídas muitas vezes a partir da língua comum. Logo, para ensinar a um sujeito falante-ouvinte uma “língua de especialidade”, é necessário começar da língua comum e passar paulatinamente para a linguagem especializada; nesse processo, a linguagem banalizada funciona como instrumento eficaz de intermediação. Ao fazer essa intermediação, ela estabelece uma função-relação de dependência entre os elementos do discurso transcodificador e transcodificado. O importante, pois, é o estabelecimento de uma relação de dependência entre o vocábulo e o termo e o enriquecimento do vocabulário, do sujeito falante-ouvinte e o ganho de precisão nos mecanismos de substituição automática dos vocábulos, na passagem de um universo de discurso a outro. Segundo Andrade (1999, p. 12-22), [...] observa-se que a comunicação entre especialista dos vários domínios e o público geral, não especialista, apresenta-se como um fenômeno bem mais complexo do que aparenta, pois ocorre também no sentido inverso, dos não especialistas para os especialistas e deve levar em conta o grau de especificidade, em função do emissor, do suporte e do destinatário [...] assim como há graus de especificidade na linguagem técnico-científica, deve haver graus de complexidade no universo de discurso da vulgarização, pois destinatários deste tipo de discurso não pertencem todos às classes populares. 38 No eixo do continuum cientificidade-banalização, podemos detectar termos/vocábulos que se situam na interface entre o discurso científico e o discurso banal, como, por exemplo, o termo/vocábulo câncer. Esse tipo de termos garante a comunicação entre especialistas de uma área, entre leigos, entre os primeiros e os segundos. Por conseguinte, entre o mais alto grau de cientificidade e o mais alto grau de banalização, existe sempre um subconjunto que tem dupla natureza, a de termo e a de vocábulo. Esses processos confirmam, uma vez mais, a tese da semiose ilimitada. Figura 3 – Cientificidade x popularização TD Circulação do conhecimento Cientificidade Popularização Metalinguagem cientifica Disseminação da informação não Popularização Fonte: Barbosa, 2008. não Cientificidade Ø Verifica-se que as unidades lexicais dos discursos etnoliterários têm características muito específicas: de um lado, são vocábulos metassemióticos, de outro, são quasetermos técnicos, pois pertencem a uma linguagem especial/ especializada. Seus sememas não correspondem, pois, nem aos sememas da língua comum, nem aos sememas das linguagens dos domínios científicos. Essas unidades lexicais apresentam sememas construídos, em grande parte, com semas específicos do universo de discurso etnoliterário, provenientes das narrativas e cristalizados, de maneira a tornarem-se verdadeiros símbolos dos temas envolvidos. É preciso estar familiarizado com as histórias, conhecer o pensamento e o sistema de valores da cultura em questão, para poder compreendê-los bem. De fato, é outra linguagem que é preciso aprender, para interpretá-los corretamente. 39 Nessas condições, a unidade lexical do universo de discurso etnoliterário tem um estatuto nitidamente diferente. No nível da norma e do falar concreto, ela subsume as duas funções, vocábulos e termo. Com efeito, trata-se de um vocábulo, nos seus aspectos referenciais, pragmáticos e simbólicos, em função semiótica, metassemiótica ou metametassemiótica, e é um termo, na medida em que a unidade léxica em questão tem características de uma linguagem de especialidade. È possível, assim, propor, em semântica profunda, o seguinte modelo: Figura 4 – Tensão vocábulo x termo TD Unidade léxica etno-literária Vocábulo Termo Linguagem especialidade Língua geral Não Termo Fonte: Barbosa, 1998. Não Vocábulo Ø Todas essas considerações conduzem a observar que os discursos etnoliterários, a literatura oral, a literatura popular, certos contos regionais conservados pela tradição oral e/ou por uma imprensa artesanal, popular, e sustentados por um sujeito-enunciador coletivo assemelham-se em muitos aspectos ao mýthos da cultura grega antiga. Têm os seus textos importantes funções culturais e sociais. Desempenham, com certeza, um papel na socialização dos membros da comunidade e, além disso, uma função estética, um função didática, uma função mítica. Da mesma forma que os mitos gregos, os mitos indígenas da América do Norte, dentre muitos outros que poderiam aqui ser citados, aqueles discursos e seus textos oferecem subsídios importantes para os estudos antropológicos e para as reflexões psicanalíticas. Ensinam ao sujeito-enunciatário 40 individual e/ou coletivo elementos cruciais da natureza humana, da alma, dos impulsos, da afetividade, em suma, da psyché humana. De certo ângulo, esses discursos etnoliterários poderiam ser considerados ficcionais, na medida em que os “eventos” narrados são ou parecem ser inverossímeis, se tomados denotativa-mente, e não correspondem a fatos historicamente comprovados. Aproximar-se-iam, então, da fábula. De outro ângulo, porém, esses discursos, como vimos, revelam e sustentam sistemas de valores, sistemas de crenças, um “saber” compartilhado sobre o “mundo”, que integram o imaginário coletivo de uma cultura, de uma sociedade. Contribuem, assim, para o sentimento de sua permanência no eixo da História e para a configuração de uma identidade cultural, intuitivamente, ao menos reconhecida pelos membros da comunidade em causa. Nesse sentido, levando-se em conta a sua continuidade no tempo, a sua presença nos dias que correm, parece legítimo vê-los como documentos do pensamento e dos valores coletivos, imprescindíveis, portanto, para a compreensão do processo histórico da cultura. Nesses termos, foi possível elaborar um modelo semiótico que permitiria situar os discursos etnoliterários em relação aos discursos literários na concepção tradicional e aos discursos sociais não literários. Esquematicamente, tem-se: Documentais e ficcionais são termos de metalinguagem, devem ser lidos aqui como duas tendências contrárias. Os discursos sociais não literários têm um estatuto sociossemiótico, conferido pela sociedade que os caracteriza como documentais x não ficcionais, de acordo com o seu modo de existência e produção socialmente aceito, de forma que constituem a dêixis positiva do modelo. Os discursos literários stricto sensu são vistos pela sociedade como aqueles que tendem a ser combinação de ficcionais x não documentais, o que lhes dá a posição da dêixis negativa, no mesmo modelo. Nessa perspectiva, os discursos etnoliterários sustentam-se numa tensão dialética entre os dois termos, documentais x ficcionais, por todas as razões acima expostas. Confirma-se, uma vez mais, a sua função mítica e a sua função pedagógica. 41 Figura 5 – Documentos x ficção Tensão dialética Discursos etno-literários Documentais Ficcionais Discursos sociais Não-literários Discursos Literários Não-ficcionais Não-documentais Ø Fonte: Pais, 2007. Considerações finais Quanto às implicações didático-pedagógicas, cumpre ressaltar que o desenvolvimento da competência lexical do sujeito falante-ouvinte requer, dentre outros aspectos, que ele adquira um número razoável de variantes diafásicas, ou seja, de parassinônimos pertencentes a universos de discurso diferentes. Daí resultam: aumento do número de unidades memorizadas e disponíveis para atualização; maior rigor nas oposições semêmicas e maior precisão do enfoque semântico; maior habilidade na seleção das unidades léxicas, em face da situação de enunciação e de discurso; maior habilidade na manipulação das relações de significação; maior habilidade na transposição de sentidos e no trânsito entre universos de discurso (metalinguagem e transcodificação). O desenvolvimento de mecanismos que permitam estabelecer relações entre vocábulos da linguagem banalizada e termos técnico-científicos revela-se muito eficaz para a comunicação entre o leigo e o especialista e como instrumento, para o aluno ou iniciante, de acesso a um novo universo de discurso, sem que este lhe pareça uma linguagem artificial e completamente desvinculada de seu saber anterior; além disso, mostra-se valioso instrumento de ampliação de seu vocabulário. 42 Outro aspecto importante do processo é o desenvolvimento de mecanismo de passagem de unidades do vocabulário passivo para o ativo, indicadora do grau de sua automatização, pelo aluno/iniciante que não mais se restringe à enunciação de decodificação, mas alcança também a de codificação. É um momento revelador do acesso a um saber técnico-científico e seu crescimento: o sujeito-falante já consegue discursar ou rediscursar a investigação e os modelos técnico-científicos. Aprender uma língua é aprender um modo de “pensar o mundo”. O mesmo acontece com as metalinguagens técnico-científicas, seus recortes, seus sistemas de valores e designações que lhe correspondem. Assim a metalinguagem técnico-científica de qualquer área do saber e/ou de suas aplicações constrói a sua “visão do mundo” específica, de tal forma que só é possível aprender uma ciência, quando se adquire a competência semiótico-linguística do seu universo de discurso. Tem-se aí o problema seriíssimo do sujeito falante-ouvinte não iniciado que deseja aprender um nova ciência ou tecnologia. Por vezes, essa tarefa se mostra mais difícil que o aprendizado de outra língua natural. Ao assimilar uma metalinguagem técnico-científica, o pesquisador iniciante estará assimilando e construindo o saber e o saber-fazer específicos daquela ciência e/ou tecnologia, os quais lhe possibilitam entender, rediscursar e realimentar não só os modelos científicos ou tecnológicos, como também a sua própria “visão do mundo” anterior, num processo de amadurecimento intelectual e pessoal. Os processos de banalização, vulgarização, popularização revelam-se instrumentos eficazes da difusão e circulação do conhecimento e, por conseguinte, têm alto interesse para a Terminologia Aplicada. Referências ANDRADE, Maria Margarida. Sobre a normalização terminológica: banalização/vulgarização. Revista brasileira de lingüística, São Paulo: Plêiade, v. 10, n. 1, p. 7-27, 1999. BARBOSA, Maria Aparecida. Da constituição e transmissão do saber lexical: um modelo lingüístico pedagógico. Revista brasileira de lingüística, São Paulo, v. 7, p. 83-106, 1984. 43 ______. 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Embora esses aspectos sejam subáreas do tema meio ambiente, presume-se que o entendimento dos conceitos a eles relacionados, em nível de legislação nacional, seja uniforme. Este estudo visa comparar alguns dos conceitos constantes na legislação ambiental e apresentar verbetes conciliatórios quanto à definição de termos essenciais nesta área do Direito. PALAVRAS-CHAVE: Terminologia, Direito Ambiental, Meio Ambiente Juridical terminology of the environment: a sample of entries ABSTRACT: Besides the Federal Constitution, the Brazilian Environmental Legislation includes several laws, a forest code, decrees, law-decrees, resolutions and provisional measures that control human actions regarding different aspects of the environment – such as natural, cultural, artificial and occupational. Although these aspects constitute a sub-area of “environment” as a theme, it is generally assumed that the understanding of the concepts related to such aspects, in what concerns the national legislation, is uniform. This study aims to compare some of the concepts included in the environmental legislation and to present conciliatory entries for the definition of essential terms in that field of law. KEYWORDS: Terminology, Environmental Law, Environment 1 Doutora em Linguística pela USP e professora no Instituto de Ciências Naturais, Humanas e Sociais do Campus de Sinop/UFMT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 45-58 2009 issn 0104-687x Introdução Esta pesquisa objetiva percorrer parcialmente a história dos ideais sociais e constatar sua expressão na norma ambiental, por meio da observação de conceitos legalmente estabelecidos ou, em sua ausência, dos semas presentes, à luz de pesquisadores da área de Direito Ambiental. São focalizados os termos <preservar> / <preservação>, <conservar> / <conservação> e <meio ambiente>, <desenvolvimento>, <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável>, coletando dados em especial no Código Florestal de 1934, no Novo Código Florestal de 1965 e suas reformas, na Lei no. 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, na Constituição Federal de 1988 (CF) e na Constituição Federal do Estado de Mato Grosso de 1989. Dessa forma, pretende-se melhor compreender a dinâmica da terminologia em sua aplicação legal, sugerindo alguns verbetes conciliatórios e apontando outros carentes de definição. 1. Ideais sociais e terminologia da norma ambiental O hino nacional brasileiro, escrito por Joaquim Osório D. Estrada, retrata o Brasil como terra, natureza, solo – “Terra adorada... Dos filhos deste solo és mãe gentil idolatrada pelos filhos”. Idolatrada pelos filhos, esta mãe, que tem “mais amores” e “vida” no seio de seus “risonhos lindos campos e “bosques”, deve ser contemplada. Era uma época em que o autoritarismo real fazia vacilar a recente Independência, e os “recém-donos” da terra demonstravam por esta, de forma apelativa, sua veneração. Na Constituição Federal de 1824, a referência ao ambiente tinha uma visão romântica, a natureza era percebida como uma mãe cujo amor é sempre inesgotável, assim como seus recursos. Este ideal é também presente na legislação da década de 30. No Artigo 1o. do Código Florestal de 1934, “[...] as florestas existentes no território nacional, consideradas em conjunto, constituem bem de interesse comum a todos os habitantes do país, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações que as leis, em geral, e especialmente este Código, estabelecem”. Vê-se neste momento que o brasileiro 46 já se tornou proprietário de suas florestas que, por sua vez, constituem para ele “bem de interesse comum”. Estão, pois, centradas no interesse dos habitantes da nação enquanto bem material. Na década de 60, no Brasil, havia a preocupação de definirem-se instrumentos para o desenvolvimento florestal e a produção industrial de madeira, proteger o solo para proteger a floresta, não como bem ambiental, mas como promoção do desenvolvimento (PIVA, 2000). Na região Centro-Oeste, ocorria o processo migratório da fronteira agrícola, uma das respostas à apreensão internacional entre o crescimento populacional e a capacidade de produção dos alimentos. Assim, ao se reelaborar o Novo Código Florestal, Lei Federal no. 4.771, de 15 de setembro de 1965, no mesmo Artigo 1o. do Código de 1934, em referência às florestas, é acrescentada a expressão “[...] reconhecidas de utilidade às terras que revestem”. Diz-se claramente que os habitantes do país têm o direito de propriedade sobre as florestas, e estas são úteis às terras onde estão. Para que tal meta fosse mais bem alcançada e fiscalizada, criou-se o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), pela Lei nº. 289 de 1967. Devido à repercussão mundial do desflorestamento da Amazônia, editaram-se dezenas de Medidas Provisórias determinando alterações no Código Florestal, anuladas em 2000 devido à ilegalidade da frequência do documento. Na ocasião, embora vistas como desobediência civil, começam a surgir as primeiras manifestações de proteção ao meio ambiente natural, o que possibilitou a grande discussão internacional na Conferência de Estocolmo em 1972 promovida pela Organização das Nações Unidas. Após dez anos deste evento, o número de países com agências estatais para cuidar do meio ambiente natural passou de doze para cento e quarenta. Entre esses, o Brasil com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), órgão subordinado ao Ministério do Interior, instituída pelo Decreto nº. 73.030, de 30 de outubro de 1973. No Decreto no. 5.875 de 15 de agosto de 2006, que trata da redução, para fins de recomposição, da área de reserva legal, em atendimento à recomendação do Conselho Nacio47 nal do Meio Ambiente (CONAMA), pode-se ler o conceito de “uso alternativo do solo” como “[...] substituição de florestas e formações sucessoras por outras coberturas do solo, tais como projetos de assentamento para reforma agrária, agropecuários, industriais, de geração e transmissão de energia, de mineração e de transportes”. Implicitamente, percebem-se restrições ao exercício do direito de propriedade que passa a ser condicionado à utilidade coletiva. A crescente conscientização acerca da esgotabilidade dos recursos naturais do planeta Terra fez o homem perceber que florestas, solo, água, minas, fauna e flora não são simplesmente propriedade privada ou pública, são bens humanos, ou melhor, bens ambientais difusos. E, como tais, caracterizam-se pela “[...] indeterminação dos sujeitos, indivisibilidade do objeto, intensa litigiosidade interna e transição ou mutação no tempo e no espaço” (PIVA, 2000, p. 39). Este autor relata que o meio ambiente [natural] configurou-se como um terceiro tipo de bem, inconfundível com o bem privado e com o bem público; sendo bem, torna-se um direito e, portanto, um bem imaterial2, transindividual e cujo titular é o povo, ou seja, “[...] brasileiros e estrangeiros residentes no país [... e ...] indivíduos (pessoas naturais) e indivíduos organizados (pessoas jurídicas) ” (FIORILLO; RODRIGUES, 1996 apud PIVA, 2000, p. 40). 2. Enfoque em alguns termos À luz da literatura de Direito Ambiental, escolhemos alguns termos e os buscamos no corpus da legislação deste estudo. Por vezes, seguimos um percurso cronológico e temático da norma para, “[...] em vez de analisar friamente a letra do texto, inseri-lo em meio ao contexto (de artigos da Constituição, de artigos da Lei, de artigos do Decreto...) para, então, verificar o respectivo sentido por ele formado” (BITTAR, 2008, p. 91). Em alguns momentos, também foi necessário nos lembrarmos de fatos sociopolíticos para melhor incluir a parte (o termo) no todo. 2 “Bens imateriais, também denominados incorpóreos, são bens de natureza abstrata. São direitos que as pessoas, individualmente, organizadas em grupos ou indeterminadamente têm sobre as coisas, sobre o produto do seu intelecto ou contra outra pessoa, tais como os direitos reais, pessoais e intelectuais.” (PIVA, 2000, p. 100). 48 2.1. <preservar> e <preservação> versus <conservar> e <conservação> No emergente movimento ambiental do final do século XIX, anteriormente delineado, surgem duas correntes de pensamento – a preservacionista e a conservacionista. Para os preservacionistas [...], dentro de uma concepção romântica, a natureza deveria ser preservada em seu estado primitivo, como objeto de contemplação do homem, necessária à sua expansão espiritual; e para [...] os conservacionistas [...], ao contrário [...] a providência a ser tomada residia na utilização racional dos recursos naturais, com base na experiência em manejo florestal trazida da Alemanha. Já se pregava, então, a necessidade de se garantir às futuras gerações a existência de recursos naturais, prevenindo-se o desperdício, em face da depleção que vinham sofrendo (LEUZINGER; CUREAU, 2008, p. 7-8). Na CF de 1988, em um único artigo de seis parágrafos, há cinco vezes alusão à significação de “preservar/preservação”, ou seja, três vezes o verbo <preservar> e duas vezes <preservação>. O Art. 225 afirma que “[...] todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Ao lado do vocábulo <preservar>, o legislador delineia um objetivo de <conservar> quando se preocupa com as gerações futuras. Na Lei no. 7.735/89, cuja ementa diz respeito à criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (que substituiu o IBDF e extinguiu a SEMA) –, no Artigo 2°., é estabelecida a vinculação do Instituto à Secretaria do Meio Ambiente da Presidência da República, “[...] com a finalidade de assessorá-la na formação e coordenação, bem como executar e fazer executar a política nacional do meio ambiente e da preservação, conservação, uso racional, fiscalização, controle e fomento dos recursos naturais” (Grifos nossos). 49 A Constituição Estadual de Mato Grosso, de 1989, repete o artigo acima no Capítulo III Dos Recursos Naturais, somente substituindo “Poder Público” por “Estado” e “Municípios”. No total dos artigos há vinte e oito vocábulos relacionados a <preservar>/<preservação referentes ao meio ambiente em todos os aspectos, sendo dez constantes no capítulo Dos Recursos Naturais; da mesma forma, no total, há quinze ocorrências de vocábulos relativos a <conservar> e <conservação>, sendo dez no capítulo Dos Recursos Naturais. Pela Constituição Federal/1988 e pela Constituição Estadual/1989, poderíamos cogitar que “preservar” é uma postura mais constante que “conservar” em nível federal e estadual? Estaria ainda o ideal romântico do hino nacional arraigado no pensar do homem brasileiro atual? 2.2. <meio ambiente> O termo <meio ambiente>, segundo Leuzinger e Cureau (2008), foi usado pelo teólogo e poeta dinamarquês Jens Baggesen (1764-1826) e aplicado no discurso da Biologia pelo filósofo e biólogo alemão Jakob Von Uexküll (1864-1944). Diversos estudiosos da área de Direito Ambiental, entre eles Sirvinskas (2008) e Leuzinger e Cureau (2008), têm discutido a inadequação do conceito de <meio ambiente>, legalmente disposto pela primeira vez no Art. 3o. da Lei n. 6.938/81, como “[...] conjunto de condições, leis, influências, alterações e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. Tal crítica justifica-se porque a doutrina jurídica tem entendido o meio ambiente sob quatro aspectos: (1) meio ambiente natural que “[...] integra a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna, a flora, o patrimônio genético e a zona costeira”; (2) meio ambiente cultural que “[...] integra os bens de natureza material e imaterial, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico”; (3) meio ambiente artificial que “[...] integra os equipamentos urbanos, os edifícios comunitários (arquivo, registro, biblioteca, pinaco50 teca, museu e instalação científica ou similar)”; e (4) meio ambiente do trabalho que “[...] integra a proteção do homem em seu local de trabalho, com observância às normas de segurança”( SIRVINSKAS, 2008, p. 38). Na Lei 6.938/81, descontada a participação em nomes de órgãos públicos, há trinta e seis ocorrências do termo <meio ambiente>. Por sua vez, das dezoito ocorrências do termo <meio ambiente> no capítulo III DO MEIO AMBIENTE da CF/1988, oito se adequam ao conceito de <meio ambiente natural>. Os 357 artigos da Constituição Estadual de Mato Grosso contêm trinta e duas ocorrências de <meio ambiente>, indiscriminadamente fazendo alusão aos quatro aspectos acima elencados, sendo dezenove constantes no Capítulo III Dos Recursos Naturais (do Título V - DO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL). É válido observar que a legislação não assimilou os aspectos diversos de <meio ambiente> e entende o termo como sinônimo de <meio ambiente natural>. 2.3. <desenvolvimento>, <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável> Cunha (1977) historia o primeiro uso da palavra “desenvolvimento”3 em 1844, antecedido por “desenvolver”, século XIV, com o sentido de “fazer crescer, progredir”. Não encontramos na legislação o entendimento legal deste vocábulo. Diniz (1998) dá conhecimento de seu significado em Ciência Política – “a) Progresso econômico, social e político de um país; b) passagem gradual de um estádio inferior a um mais aperfeiçoado”; ao passo que Silva (2007) alude somente ao contexto da linguagem comum. <ecodesenvolvimento>, segundo o economista polonês Ignacy Sachs que residiu no Brasil (20034 apud LEUZINGER; CUREAU, 2008, p. 10), foi aplicado pela primeira vez pelo canadense Maurice Strong, quando organizava a Confe3 Aplicamos o sinal de aspas para palavra, vocábulo da linguagem comum e, como convencional em Terminologia, < > para termo, vocábulo da linguagem especializada. 4 Entrevista de Sachs a Varella in VARELLA, Marcelo. Direito Internacional Econômico Ambiental. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 30. 51 rência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano em Estocolmo/1972, na posição de secretário-geral do evento, significando “[...] conciliação entre promoção do desenvolvimento econômico e proteção do meio ambiente”. <desenvolvimento sustentável>, em substituição a <ecodesenvolvimento>, foi conceituado, primeiramente, em 1983, pela Ministra da Noruega da época, em um estudo elaborado pela União Mundial para a Natureza (UICN), organização internacional criada em 1948, com a significação de “[...] aquele capaz de satisfazer às necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer as suas próprias necessidades”. Na Lei no. 6.938/81, contamos <desenvolvimento> (2 ocorrências), <desenvolvimento econômico> (1), <desenvolvimento socioeconômico> (1); não há <ecodesenvolvimento> nem <desenvolvimento sustentável>. Na CF/1988 há sessenta vezes a palavra “desenvolvimento” e nenhuma ocorrência de <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável>. No Código Florestal há duas ocorrências do termo <desenvolvimento>, constantes desde a primeira redação, e não há <ecodesenvolvimento> nem <desenvolvimento sustentável>. Na Constituição do Estado de Mato Grosso, grosso modo, há quarenta e sete ocorrências de “desenvolvimento”, e não há <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável>. Em Carta de Terra (1992), um dos documentos resultantes da Cúpula da Terra (ECO/Rio), há doze ocorrências de <desenvolvimento>, nenhuma vez <ecodesenvolvimento> e três vezes <desenvolvimento sustentável>, o que confirma a substituição deste por aquele. O adjetivo “sustentável” tem sido bastante produtivo na formação de novos termos como, por exemplo, em <manejo florestal sustentável de uso múltiplo>, usado pela primeira vez no Art. 2o do Decreto no 2.788 de 1998. e entendido como [...] a administração da floresta para a obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentabilidade do ecossistema objeto do manejo e considerando52 se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplos produtos e subprodutos madeireiros e não madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços de natureza florestal (BRASIL,1998)5. Constata-se que parte da legislação brasileira ambiental corpus desta análise não aplica até o momento os termos <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável>. 3. Constituições Federais: curiosidade Apenas como curiosidade comparativa, na CF de 1824, “conservar” (2 ocorrências) refere-se à pessoa, como se lê em “Qualquer póde conservar-se, ou sahir do Imperio” e “Ainda com culpa formada, ninguem será conduzido á prisão, ou nella conservado”, e não há “preservar”. Na CF de 1921, “desenvolvimento” (1) relaciona-se às letras, artes e ciências, imigração, agricultura, indústria e comércio; “conservar” (2) refere-se à nacionalidade de origem e à prisão; não há “preservar”. Na CF de 1934, “desenvolvimento” (2) refere-se a serviços e a crédito bancário. Na CF de 1937, há “desenvolvimento” (4) de conflitos ideológicos, faculdades da infância e da juventude; “preservação” (2) diz respeito à paz e a cuidados da infância e da juventude e da arte, à ciência e ao ensino; “conservar” (2) significa conservar empregados e [pessoas] em prisão; e não há <meio ambiente>. Na CF de 1946, “desenvolvimento” (2) é endereçado ao ensino; “conservar” (2), a estradas e nacionalidade brasileira. Na CF de 1967, há “desenvolvimento” (4) em referência à economia, empresa, planos regionais e sistemas políticos; “preservação” (3) à política e à nacionalidade; não há “conservação”; na emenda, datada de 1969, aumenta-se o número de ocorrências de “desenvolvimento” (9) e divergem-se as preocupações (nacional, regional, da economia, das empresas e do ensino); “preservar” (5) é destinado à nacionalidade, à ordem pública, à política e à integridade e independência do país. Portanto em nenhuma constituição anterior à de 5 O termo <manejo florestal sustentável> é definido similarmente no inciso VI do Art. 3o da Lei no 11.284, de 2 de março de 2006. (SIRVINKAS, 2008, p. 620). O termo <manejo florestal sustentável de uso múltiplo> é também encontrado no Art. 17 da Lei Complementar nº. 233/2005 (BRASIL, 2005) da Legislação Ambiental de MATO GROSSO e no Capítulo V do Decreto no. 8.188 de 10 de outubro de 2006 da Legislação do Estado de Mato Grosso (BRASIL, 2006). 53 1988 houve aplicação dos termos da área ambiental alvos de análise neste estudo nem a palavra “meio ambiente”. 4. Propondo verbetes O Vocabulário Jurídico 27ª. ed. (edição com primeira impressão em 2006), de Silva (2007), registra <desenvolvimento>, <desenvolvimento econômico>, <desenvolvimento nacional> e <desenvolvimento regional>; não registra <ecodesenvovimento> nem <desenvolvimento sustentável>. Também o Dicionário Compacto Jurídico (2007), de Deocleciano Torrieri Guimarães, não assinala os três termos. O Vocabulário Básico do Meio Ambiente, compilado por Iara Verocai Dias Moreira (maio 1992), somente inclui, em mais três línguas além do português, <desenvolvimento urbano> e <ecodensenvolvimento>. O Dicionário Jurídico (1988), de Maria Helena Diniz, apresenta verbetes para <desenvolvimento>, <desenvolvimento econômico>, <desenvolvimento florestal>, <desenvolvimento rural> e <desenvolvimento sustentado>; deixa, contudo, ausentes <ecodesenvolvimento> e <desenvolvimento sustentável>. Aproveitamos para propor: <meio ambiente> – ambiente de interação de elementos naturais, artificiais, culturais e do trabalho. <meio ambiente natural> – “[...] conjunto de condições, leis, influências, alterações e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas” (Art. 3º. da Lei n. 6.938/81). <meio ambiente cultural> – ambiente contextualizador do patrimônio cultural de uma sociedade, incluindo todas as formas de expressão identificadoras. <meio ambiente artificial> – ambiente contextualizador do espaço resultante da ação transformadora humana. <meio ambiente do trabalho> – ambiente contextualizador do espaço em que se localiza qualquer trabalhador. 54 Há muitos termos da área ambiental que carecem de atualização, tais como (1) <biodiversidade> que na década de 80 significava riqueza de espécies, passou a incluir diversidade genética e, posteriormente, diversidade ecológica; (2) <cidadania ecológica>; e (3) <desenvolvimento sustentável>, entre outros. Considerações finais A terminologia jurídica é uma expressão de culturalidade da vida em sociedade, fruto da interação entre agentes que tentam intervir uns sobre os outros. As políticas públicas nacionais e internacionais ambientais, concretizadas em eventos diversos e respectiva documentação, são refletidas na legislação, com menor ou maior brevidade. Parece-nos haver necessidade de melhor “aproveitamento”, “discussão” da terminologia científica para inserção legal. Além disso, é necessário haver conscientização deste período de nova relação humana com o <meio ambiente natural>. Estamos presenciando a passagem de ambiente de bem material para imaterial, de propriedade individual ou nacional para propriedade coletiva, transindividual e indivisível. A visão patrimonial, egoística e individual, que vinha caracterizando os ordenamentos, deverá dividir o espaço jurídico reservado para as pessoas com propósitos humanos, desprendidos e metaindividuais (PIVA, 2000, p. 175). O proprietário de terras atual tem sido sancionado por sua atuação (ou de seus genitores, progenitores ou mesmo de outros proprietários anteriores), baseada em ideais do passado, talvez pela incompreensão histórica legislativa. A CARTA DA TERRA equivale à Declaração dos Direitos Universais Humanos e propõe uma aliança global para cuidar da Terra, com expressões tais como “família humana”, “comunidade terrestre com um destino comum” e “sociedade sustentável global”. Recortamos um trecho deste documento: 55 Terra, Nosso Lar A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado (CARTA..., 1992). Se aceitarmos a proposta desta Carta, os homens, a ciência e a legislação certamente conseguirão convivência mais harmônica e <sustentável>! Referências BITTAR, Eduardo C. B. Linguagem jurídica. 3. ed. rev. e aum. São Paulo: Saraiva, 2008. BRASIL. Constituições do Brasil. Portal da Presidência da República Federativa do Brasil. 28 set. 2007. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ Constitui%C3%A7ao24.htm>. Acesso em: 30 out. 2008. BRASIL. 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São Paulo: Ridee, 2008. 58 O PROCESSO DE PREDICAÇÃO DAS UNIDADES TERMINOLÓGICAS COMPLEXAS DA ENGENHARIA CIVIL Cleide Lemes da Silva Cruz1 RESUMO: Esta comunicação tem a finalidade de apresentar algumas considerações a respeito do processo de formação das unidades terminológicas complexas (UTC) na área da Engenharia Civil. A abordagem analítica partiu de um dos fenômenos da construção das UTC, a predicação, que compõe o termo a partir de uma base que, por meio de adjunções ou complementações, recebe predicadores interpretados como designadores de propriedades ou relações. Será adotado para análise das UTC o constructo desenvolvido por Faulstich (2003) e a teoria da predicação presente em Castilho (1994). PALAVRAS-CHAVE: Predicação, Unidades Terminológicas Complexas, Engenharia Civil THE PROCESS OF PREDICATION OF THE COMPLEX TERMINOLOGICAL UNITS OF CIVIL ENGINEERING ABSTRACT: This study has the purpose to present some considerations regarding the process of formation of the complex terminological units (CTU) in the area of Civil Engineering. The analytical approach departs from one of the phenomena of the construction of the CTU, the predication that composes the term from a base, which, by means of adjunctions or complementation, receives predicators interpreted as designators of properties or relations. It will be adopted for analysis of the CTU construct, developed by Faulstich (2003) and the theory of the prediction presented in Castilho (1994). KEYWORDS: Prediction, Complex Terminological Units, Civil Engineering 1 Mestre em Linguística pela UnB, professora do CEFET/MT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 59-74 2009 issn 0104-687x Introdução O trabalho terminológico surge da necessidade de denominar os sistemas de conceitos das diferentes expressões ou palavras, com o objetivo de permitir uma comunicação eficiente entre especialistas (CRUZ, 2005, p. 28). Nesse sentido, a análise dos termos que fazem parte de um determinado repertório especializado se faz importante, senão necessário, para que haja, efetivamente, a interação entre especialista e usuário do termo técnico. Dessa forma, escolhemos a área da Engenharia Civil por se acreditar que os termos veiculados nesse campo especializado poderão contribuir para a ampliação do modelo proposto por Faulstich (2003, p. 11-31) no que se refere à análise da formação e das regras de construção das Unidades Terminológicas Complexas (UTC). Inicialmente foram observadas a partir da coleta de UTC presentes nas Normas Brasileiras de Regulamentação (NBR) da Engenharia Civil, das quais o especialista faz uso em sua prática diária. Embarcamos no estudo destas unidades porque cremos que algumas propostas teórico-terminológicas podem traçar regras que sustentem o processo de criação de novas UTC ou ainda a ampliação de uma UTS (Unidade Terminológica Simples). É imprescindível salientar que nossos propósitos estão embasados, principalmente, no caráter comunicativo que a terminologia apresenta nos últimos anos, permitindo tratar os termos ou Unidades Terminológicas (UT) como distintas unidades transmissoras de conhecimento especializado. A proposta desta pesquisa é a análise funcionalista sobre a formação das unidades terminológicas complexas (UTC), no sentido de descrever o léxico terminológico sob a perspectiva da predicação proposta por Faulstich (2003) para estabelecer novas regras de construção das UTC. Trabalharemos com um corpus formado de UTC de base nominal na linguagem de especialidade da Engenharia Civil (LEsp), na forma como são veiculadas em manuais, artigos científicos, relatórios de pesquisa, relatórios técnicos, NBR, obras científicas, dissertações entre outros – impressos e em formato eletrônico – encontradas no português do Brasil. 60 1. Considerações sobre a área escolhida e a teoria adotada Sobre a base que afirmamos anteriormente, procedemos às seguintes explicações para posterior análise dos termos coletados: A área da Engenharia Civil nunca, mais do que em todos os tempos, esteve tão em alta como no momento atual, e, como não era de se ignorar, os termos técnicos ligados a ela também se fazem presentes nos cursos de engenharia e nos cursos técnicos, nos diversos Centros Federais de Educação Tecnológica (CEFET) e nas Universidades do Brasil. Cabe ressaltar que a linguagem de especialidade nesse espaço de conhecimento requer análises e estudos no sentido de expor como os termos técnicos são veiculados nessa área do saber e do fazer. Ao nos depararmos com o uso de NBR para as práticas de atividades ligadas à Engenharia Civil, constatamos que elas eram intituladas por UTC, como se pode ver no exemplo a seguir: NBR 13292 (ABNT, 1995) – “Determinação do coeficiente de permeabilidade de solos granulares à carga constante21”. Este fato desencadeou uma análise da construção dessa UTC de base nominal. Ao analisarmos a formação da UTC, a partir do modelo proposto por Faulstich, vimos que o modelo atende à análise, mas, por outro lado, pode ser ampliado para que possa dar conta de todas as informações subjacentes à formação de outras UTC da Engenharia Civil. Cabe ainda ressaltar que o modelo de Faulstich busca evidenciar a extensão-significação dos termos, à medida que demonstra o funcionamento de terminologias a partir da análise de casos, como variam em seu próprio âmbito e como processam os fenômenos gramaticais. Faulstich (2003) propôs um constructo teórico para a terminologia. O constructo serve aos nossos propósitos, porque traz consigo a base do modelo que aplicaremos nesta pesquisa, a saber: C = < T (F), LT, R > 2 Cf. em: http://portal.mec.gov.br/setec/arquivos/pdf3/jornada2_livro.pdf . 61 em que: T = terminologia3 F = formativo4 LT = fundo lexical terminológico R = regra Seja C = < T (F), LT, R > em que LT [A], F = {R} e a B F→B C n R [F→A] F→Aa F→ABC etc. Quer dizer que o constructo de Faulstich compõe-se de um formativo terminológico que pode ser ou um termo simples (F→A) ou predicado5 (AB; AaB; ABC etc.). Em outras palavras, os formativos se organizam numa sequência de base + predicado, até que as combinações sucessivas atinjam a exaustão semântica. Ainda segundo Faulstich, a construção de terminologias complexas é um fenômeno que se dá num contínuo conceitual que vai do + geral ao + específico. No lugar de formativo + geral está uma base lexical de caráter genérico que opera um significado abrangente e da língua comum ou mais próximo dela. A base sustenta um predicado organizado por meio de argumentos6 que atribuem à base o caráter particularizante de “especialidade” e forma a unidade terminológica complexa (UTC). Assim, a partir da aplicação do constructo apresentado acima, acreditamos ser possível comprovar as regras já postuladas por Faulstich, no sentido de descrever a formação das UTC na área pesquisada, além, é claro, de dotar o público especializado de um conhecimento da linguagem diferente da que se apresenta na relação técnica. 3 Refere-se ao conjunto de termos e não à disciplina. 4 Idem. 5 De acordo com M. H. de Moura Neves (1994), “Os predicados são semanticamente interpretados como designadores de propriedades ou relações, e suas categorias são distinguidas segundo suas propriedades formais e funcionais”. 6 De acordo com M. H. de Moura Neves (op. cit.), “[...] argumentos são [constituintes] exigidos pela semântica do predicado”. 62 2. Metodologia Serão analisadas as UTC da área da Engenharia Civil na sua distribuição em diferentes categorias lexicais e nas formas variantes textuais, bem como aquelas formas que se originam na mudança categorial. Isso permite verificar que forças atuam – e como atuam – na formação e na categorização das unidades complexas dos conceitos da área. O foco funcionalista, então, possibilita não só uma análise das UT sob o ponto de vista lexical e conceitual, mas também o estudo dos fatores de influência na sua forma e função que vão além das características morfossintáticas e conceituais. Além disso, fornece importantes subsídios para explicar a produtividade e a variação entre termos simples e predicados nas unidades terminológicas nos textos. Para esta análise, adotamos os seguintes procedimentos: 1.Identificar primeiramente as UTC restritas à área da Engenharia Civil; 2.Adotar procedimentos teórico-metodológicos para a classificação de um termo segundo sua construção: UTS ou UTC; 3.Descrever as UTC formadas a partir do constructo definido por Faulstich (2003, p. 14-15), em que o constructo (C) é igual à equação formada por terminologia (T) que se compõe de formativo (F), partindo das unidades formadas por nomes, para identificar suas propriedades linguísticas, principalmente sua função semântica que permite explicar sua formação; 4.Aplicar as regras que confirmem o processo de formação das UTC; 5.Observar a ocorrência de variação de cada conjunto sintagmático com vistas a explicar como o usuário incorpora o termo e aplica regras de derivação de forma espontânea. 3. Referencial teórico Segundo uma abordagem funcionalista, a língua é um instrumento de interação social. Não existe, em si e por si, como uma estrutura arbitrária de alguma espécie, mas 63 existe em virtude de seu uso para o propósito de interação entre seres humanos (NEVES, 1994). Laface (1998) confirma que as línguas permitem aos interlocutores falar do mundo e das coisas. Sendo elas instrumento da comunicação, constituem fonte da ação humana e implicam escolha consciente do usuário. Nesse ponto, o léxico da língua geral aparece como lugar privilegiado no domínio estruturado e acessível às mudanças de caráter social, cultural e histórico. Por outro lado, o léxico da língua de especialidade possui características direcionadas a termos técnicos voltados para uma determinada área do conhecimento. Para Cabré (1993, p. 14), “[...] estudiar una materia equivale a aprender los lenguajes de esa materia”. Cruz (2007a) postula que este saber é um conhecimento dos pontos de vista específicos que orientam um modo próprio de explicar e interpretar a realidade. Na ausência das linguagens de especialidade, “sabemos o mundo” segundo o que nos dita a linguagem natural, inserindo-nos no senso comum. No entanto não é apenas com o recurso à linguagem natural que se introduz a indeterminação conceitual. Saber o mundo através de um conjunto de termos sem consistência conceitual provenientes, por exemplo, de diferentes áreas, na ausência de normalização, equivale a ter em mãos vários fragmentos que, se juntados, não fazem sentido ou o fazem à custa de muito esforço. Em larga medida, portanto, o conhecimento e a compreensão de uma área de conhecimento vinculam-se ao domínio da linguagem desta mesma área. O núcleo específico de uma linguagem de especialidade é seu vocabulário que “[...] normalizado e organizado semântica e logicamente” constitui a terminologia da área (CRUZ, 2005, p. 28). Ao estabelecer um paralelo entre as funções da língua geral e da linguagem de especialidade, Cabré (1998, p. 138) salienta que “[...] la fonction principale des langues de spécialité est d’informer et d’échanger de l’information objective sur um sujet spécialisé”. A funcionalidade das linguagens de especialidade está estreitamente ligada, portanto, às peculiaridades da comunicação inter-humana, tanto no meio estritamente especializado quando do vulgarizado (CAFÉ, 2003, p. 63). 64 Maciel (1998, p. 40) entende a linguagem de especialidade como sendo o repertório linguístico usado pelos especialistas de áreas técnicas, científicas, artesanais e ocupacionais. É um uso da língua em uma situação comunicativa especializada e não um sistema de comunicação. São os termos, isto é, as palavras técnicas, os primeiros traços que saltam aos olhos do leitor que se depara com um texto técnico ou científico. Consequentemente, logo à primeira vista, são os termos que revelam a especialização e que caracterizam imediatamente a linguagem de especialidade. Termo e palavra compõem a competência do falante ideal, competência geral, quando comum a todos, e/ou competência específica, quando própria de determinado grupo de falantes. O léxico de qualquer língua constitui um vasto universo de limites imprecisos e indefinidos. Abrange todo o universo conceptual dessa língua (BIDERMAN, 2001, p. 179). Cabré et. al. (1996, p. 5) afirma que o conjunto de termos de uma área especializada representa o conhecimento dessa área e ao mesmo tempo denomina seus conceitos, sendo, portanto, uma maneira de conhecer e de determinar. Ao mesmo tempo também os termos permitem a transferência do conhecimento da especialidade e são, portanto, unidades de comunicação e expressão. Segundo esta mesma autora (1993, p. 37), “[...] para os especialistas, a terminologia é o reflexo formal da organização conceitual de uma especialidade e um meio inevitável de expressão e comunicação profissional”. Krieger (2001 data apud KRIEGER; MACIEL, 2001, p. 47) explica que é importante considerar o funcionamento da linguagem com toda a sua complexidade para descrever, em melhores condições, a especificidade dos contextos discursivos nos quais os termos se manifestam em toda a sua diversidade de configurações. O conteúdo de um termo, afirma Barros (2004, p. 58), é relativo a um domínio e a uma situação de uso. Dentro de um sistema conceptual, o valor de um termo é dado pelo lugar que ocupa na estrutura, podendo ocupar lugares diferentes de acordo com os critérios de organização do sistema de conceitos. “Os termos não pertencem a um domínio, 65 mas são usados em um domínio com valor singularmente específico” (CABRÉ, 1999, p. 124). Faulstich (2003, p. 11), em suas pesquisas, comenta que “[...] os estudos terminológicos focalizam mais o conteúdo semântico do que a forma de um termo e a função que este desempenha no discurso especializado”. Segundo a autora, tanto o conteúdo quanto a forma são entidades que ordenam o termo. Também é em Faulstich (2003, p. 13) que encontraremos o constructo da gramática que analisa o formativo, sendo este simples ou complexo (predicado). A predicação, segundo Neves (1994), é considerada como núcleo de uma estrutura de cláusula subjacente e que pode ser descrita segundo os três níveis: predicação nuclear; predicação central; predicação estendida. Para Santos (2007, p. 183), a proposição consiste em uma predicação construída em uma camada de ordem mais alta que simboliza um fato possível. Nesta relação predicativa, surgem os elementos (operadores e satélites). O núcleo específico de uma linguagem de especialidade é seu vocabulário que, nominalizado e organizado semântica e logicamente, constitui a terminologia da área, (CRUZ, 2005). Nesse sentido, afirma Cruz (2008, p. 46): É fato reconhecido que as denominações servem de referência para a determinação do vocabulário de uma especialidade. Integram semelhante vocabulário os termos relativos aos objetos, processos e métodos da área. Como os conceitos atribuídos aos termos não resultam de convenções arbitrárias ou de preferência individuais, mas de relações entre suas características constitutivas, passíveis de serem objetivadas e confirmadas, o reconhecimento de uma denominação e de seu conceito é tarefa que exige análise da pertinência dessas características ou traços em relação ao domínio considerado. Em si mesmas, as denominações podem ser fruto da germinação de ideias, do desenvolvimento efetivo do conhecimento da área ou de mera confusão, seja por ausência de rigor, seja por modismo. 66 No âmbito metodológico, a predicação é definida como o processo de atribuição de predicados na expressão linguística. Os predicados são formados por argumentos ou satélites (CAFÉ, 2003a, p. 121). 4. Análise dos termos Como já dissemos anteriormente, a base sustenta um predicado organizado por meio de argumentos que atribuem à base o caráter particularizante de “especialidade” e forma a unidade terminológica complexa (UTC), como neste exemplo, na figura 1, (CRUZ, 2008, p. 49), escolhido da terminologia presente na NBR 6970/1999 da área de Construção Civil que ressalta a adaptação da função semântica do termo defensas para expressar o conceito da UTC - defensas metálicas zincadas por imersão a quente. O termo simples defensas é definido como <trabalho de cabos trançados, com recheio de materiais variados (borracha, cortiça, pedaços de cabo etc.), geralmente de forma cilíndrica, usado do lado de fora do navio, na altura do verdugo, para protegê-lo no encontro com o cais> (HOUAISS, 2001). No sentido dessa definição, defensas exerce a função semântica de entidade. Quando o termo é empregado na UTC, defensas metálicas zincadas por imersão a quente, a base defensas adquire novas características que exprimem funções semânticas que ela não possuía na forma de um item lexical simples. O item defensas no segmento defensas metálicas zincadas por imersão a quente exercerá a função de agente que é metálico. Para exprimir esse novo papel temático de defensas, em consonância com Café (2003b), o especialista utilizou o recurso da denominação sintagmática expandindo a UTC à direita quantas vezes foram necessárias para representar o conceito desejado. Figura 1 – Formativo Terminológico 1 [ [ [ [ [ [ defensas ] metálicas ] zincadas ] por imersão ] a quente] * [ET] [ A B C D Fonte: CRUZ, 2008a. 67 E ] [R1] No exemplo acima, A é base predicada por BCDE com movimentos da direita para esquerda. Assim A opera o conceito + geral, B reopera no conceito A; C reopera no conceito AB, D reopera no conceito ABC; e E reopera no conceito ABCD e fecha o termo complexo. Como bem afirma Faulstich (2003, p. 15), no contínuo de uma UTC, os argumentos são reoperadores do significado de cada conjunto sintagmático antecedente, com a função de especificar, de tal forma que no intervalo que vai do + geral ao + específico se processa o novo conceito que seja próprio da área de especialidade a que pertence o termo em causa. A terminologia opera e reopera conceitos gerais e específicos e produz termos que nem sempre se inserem no vocabulário de um usuário comum, mas no de profissionais que se utilizam de conceitos específicos na sua comunicação especializada. Em uma análise funcional, as expressões são analisadas dentro da predicação, há uma relação entre um predicado e seu sujeito. “O predicado, que designa propriedades ou relações, se aplica a um certo número de termos que se referem a entidades, produzindo uma predicação que designa um estado de coisas, ou seja, uma codificação linguística (e possivelmente cognitiva) que o falante faz da situação” (NEVES, 1998, p. 70). Para a Gramática funcional, a língua geral é formada de predicados e de termos (argumentos e satélites), o que constitui a estrutura geral da predicação de uma língua. No que concerne às línguas de especialidade, as UTC são definidas como segmentos formados de uma base seguida de argumentos e/ou satélites. A base é o centro da estrutura com o qual os argumentos têm uma relação direta. Como ilustrado na figura 2, este conjunto composto de base + argumento forma uma predicação nuclear. Os satélites, por sua vez, são elementos que têm por função completar o significado produzido da relação entre a base e o argumento. Desta forma, os satélites mantêm essencialmente uma relação com o conjunto base + argumento, ou seja, com a predicação nuclear. A união de um satélite a uma predicação nuclear é chamada predicação estendida. 68 Figura 2 - Regra de formação da UTC Fonte: Café, 2003b. Os índices 1, 2 e n, segundo Café (2003b, p. 123), indicam a ordem dos argumentos e dos satélites na UTC. Os colchetes são utilizados para circundar os conjuntos e subconjuntos de relações estabelecidas entre os elementos da UTC. Estas relações podem existir no interior da predicação nuclear ou da predicação estendida. Pode-se igualmente encontrar relações dentro de um conjunto de argumentos. Neste último caso, utilizamos a barra oblíqua (/) para mostrar a hierarquia relacional entre os argumentos. Este signo gráfico é utilizado principalmente para marcar a expansão de um argumento, ou seja, no caso em que um argumento é modificado ou especificado por outro argumento. A determinação de uma regra de formação para uma UTC é fundamentada num conjunto de interpretações de cunho funcionalista, como, por exemplo, na figura 3: Figura 3 – UTC 1 Fonte: Cruz, 2008b. 69 A base programação recebe argumentos à direita até exaurir as condições universalmente válidas para a representação do conceito. Ao significado do formativo propagação acrescentam-se formativos com características individualizantes, capazes de formar um conceito e um único referente. Observe a listagem abaixo da construção da UTC (CRUZ, 2007b). 1. programação 2. programação de sondagens φ φ φ φ 3. programação de sondagens de simples reconhecimento φφφ 4. programação φ de simples reconhecimento φ φ φ 5. programação de sondagens φ dos solos φ φ 6. programação de sondagens φ dos solos para fundações φ 7. programação φ φ φ para fundações de edifícios 8. programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos φ φ 9. programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações φ 10. programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios. O zero (φ) diz que ali é o lugar de um formativo apagado no texto; a coesão discursiva, porém, possibilita que o leitor recupere na cadeia lexical o item ausente. Assim programação representa o papel de processo; de sondagens, o papel de paciente; de simples, o papel de intensidade; de reconhecimento, o papel de resultado; dos solos, o papel de entidade; para fundações, o papel de fim; e de edifícios, o papel de forma. Com base nesses dados, podemos aplicar a análise da predicação e assim definir ser programação a base do segmento, pois, por meio dela, podemos determinar o papel semântico dos outros componentes da UTC. Além disso, a base é dita ativa, pois se trata de um substantivo derivado de um verbo. À direita de programação, encontra-se o elemento de sondagens. Considera-se este componente um argumento por dois motivos: a) mantém relação direta com a base; e 70 b) consiste em elemento fundamental exigido pela semântica da predicação. Sem ele, a predicação seria incompleta. Também são considerados argumentos os predicadores de simples e reconhecimento. Já os termos dos solos, para fundações e de edifícios são considerados satélites por conterem informações adicionais à base programação. Considerações Finais Dentre os formativos, encontramos os seguintes termos: 1.Determinação do coeficiente de permeabilidade de solos granulares à carga constante 2.Determinação do limite de plasticidade 3.Determinação do limite e relação de contração de solos 4.Determinação do índice de vazios mínimo de solos não-coesivos 5.Determinação do coeficiente de permeabilidade de solos argilosos à carga variável 6.Ensaio de compressão triaxial não-adensado e nãodrenado 7.Coleta de amostras indeformadas de solos de baixa consistência em furos de sondagem 8.Solos argilosos dispersivos - Identificação e classificação por meio do ensaio do furo de agulha (pinhole test) 9.Ensaio de penetração de cone in situ (CPT) 10. Controle de compactação pelo método de Hilf. Às bases UTS, ou seja, termos simples, são agregadas predicações à direita até a exaustão do termo. Grande parte dos termos é de base nominal, ou seja, a base é um substantivo. As expansões sucessivas criam novas dimensões semânticas e noções mais específicas à UTC. As bases receberam novas propriedades que não existiam na sua forma simples, isto é, adquiriram outras propriedades intencionais e extensionais. 71 Castilho (1994, p. 81) analisa as relações entre a predicação e a semântica e afirma que “[...] a predicação é um processo gerador de significados não contidos no sentido dos itens lexicais envolvidos e depende crucialmente da relação entre um item-predicador e um item-sujeito”. Uma vez registrada a unidade terminológica complexa (UTC) em toda a sua extensão, o usuário daquela terminologia incorpora o termo e aplica regras de derivação de forma espontânea. Os termos podem ser categorizados segundo sua função sintática, função pragmática e categoria gramatical. No que concerne às categorias gramaticais, a UTC programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios é formada de Subst. + Loc. Adj. + Loc. Adv. + Subst. + Loc. Adv. + Loc. Adv. + Loc. Adj. Quanto à função sintática, programação representa o sujeito da UTC. Esta função é atribuída a todos os elementos de uma UTC considerados como ponto de partida para a análise do segmento sob perspectiva sintática. Quanto à função pragmática, programação é interpretada como o tópico, pois é o elemento ao qual todos os argumentos e satélites fazem referência a fim de precisar o objetivo da comunicação. De sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios, por serem elementos que especificam o estatuto informacional do elemento tópico, ou seja, ele pontua a informação do tópico. Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6970: Defensas metálicas zincadas por imersão a quente. Rio de Janeiro, 1999. ______. NBR 13292. Determinação do coeficiente de permeabilidade de solos granulares à carga constante. Rio de Janeiro, 1995. ______. NBR 8036. Programação de sondagens de simples reconhecimento dos solos para fundações de edifícios. Rio de Janeiro, 1983. BARROS, L. A. Curso básico de terminologia. São Paulo: Editora da USP, 2004. 72 BIDERMAN, M. T. C. Teoria lingüística: (teoria lexical e lingüística computacional). 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. CABRÉ, M. T. La terminología: teoria, metodologia, aplicaciones. Barcelona, Espanha: Antártida; Empúries, 1993. ______. et. al. Las Relaciones Conceptuales de Tipo Causal: Um Caso Práctico. V Simposio Iberoamericano de Terminologia. Cidade do México, 03 a 08/11/1996. http://74.125.93.132/ search?q=cache:http://www.riterm.net/actes/5simposio/cabre6. htm. Acesso dia 18 de março de 2008. ______. La terminologie. Les Presses de l’Université d’Ottawa/ Armand Collin. Ottawa/Paris: 1998. ______. 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Dicionário de terminologias da área de construção civil. Projeto de pesquisa apresentado ao DPPG do CEFETMT, Cuiabá: CEFETMT. 2007a. ______. Terminologia: (re) aplicação do constructo de Faulstich. In: II Jornada Nacional de Produção Científica, Profissional e Tecnológica. 2007, São Luiz. Caderno de Resumos. São Luiz, MA: SETEC/CEFETMA, 2007b, p. 110. ______. Descrição das unidades terminológicas complexas na área de construção civil. Brasília, DF: SETEC/MEC, 2008a. p. 45-50. (4ª. série dos Cadernos Temáticos). 73 ______. De UTS a UTC: A adaptação das funções semânticas. In: ABRALIN em cena: Mato Grosso do Sul. Campo Grande. João Pessoa: Ideia, 2008b. p. 79-85. FAULSTICH, E. Formação de termos: do constructo e das regras às evidências empíricas. In: FAULSTICH, E.; ABREU, S. P. Lingüística aplicada à terminologia e à lexicologia – Cooperação Brasil e Canadá. Porto Alegre: UFRGS, Instituto de Letras, NEC, 2003. p. 11-31. HOUAISS, A. Dicionário eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa. 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Modalizadores Epistêmicos: uma investigação funcionalista. Estudos Literários. V.8, nº 14. Maringá: UEM. p. 179-192. 2007. 74 ESTUDOS LINGUÍSTICOS NO/DO MATO GROSSO – O FALAR CUIABANO EM EVIDÊNCIA Maria Inês Pagliarini Cox1 RESUMO: Neste texto, são reunidos estudos já realizados acerca do falar cuiabano. Eles são arranjados não cronologicamente, mas por temas e perspectivas teóricas. O primeiro tema reúne estudos sobre a história do falar cuiabano. O segundo tema retoma descrições de indicadores dialetais em nível fonético-fonológico e morfossintático. O terceiro tema concentra trabalhos sobre a variação e a mudança que vêm afetando o falar cuiabano, desde que se iniciou a nova colonização de Mato Grosso na segunda metade do século XX. E, finalmente, o quarto tema traz à tona a resistência inesperada de um traço estigmatizado – o rotacismo – ao processo de mudança em curso. PALAVRAS-CHAVE: Falar Cuiabano, Viés Histórico, Viés Teórico LINGUISTIC STUDIES IN/OF MATO GROSSO – THE CUIABANO DIALECT IN EVIDENCE ABSTRACT: In this text, studies done about the cuiabano dialect are gathered. They are not arranged chronologically but according to thematic and theoretical perspectives. The first theme brings together studies about the history of the cuiabano dialect. The second theme works with descriptions of dialectal indicators in a phonetic-phonological and morphosyntactic levels. The third theme gathers studies on the variation and the change that have been affecting the cuiabano dialect since the beginning of the new colonization of Mato Grosso in the second half of the 20th century. And, finally, the fourth theme brings to life the unexpected resistance of a stigmatized feature – the rhotacism – to the process of change underway. KEYWORDS: Cuiabano Dialect, Historical Bias, Theoretical Bias 1 Professora do Program de Mestrado em Estudos de Linguagem da UFMT POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 75-90 2009 issn 0104-687x Introdução Falar dos “estudos linguísticos no/do Mato Grosso” não é uma tarefa simples, dada a gama de caminhos que se abrem para a abordagem do tema. Assim, opta-se por abordá-lo pela via do objeto que singulariza a região – o falar cuiabano. Evocam-se estudos acerca do falar cuiabano que vêm sendo feitos desde 1978, como o trabalho inaugural de Maria Francelina Drummond, um trabalho descritivo de caráter dialetológico, nos moldes de O dialeto caipira de Amadeu Amaral. Os estudos não serão retomados segundo uma ordem cronológica, mas sim arranjados tematicamente em algumas subseções tendo como parâmetro os aspectos focalizados, assim como as perspectivas teóricas adotadas. 1. O falar cuiabano – um pouco de história A formação do falar cuiabano como uma variedade singular entre as variedades atestadas para o português brasileiro é um tema frequente nos estudos de Santiago Almeida (2000, 2005a e 2005b). O autor levanta aspectos da história social e cultural da Baixada Cuiabana, imprescindíveis à compreensão de certos traços linguísticos que caracterizam o português falado nessa região. Investiga a formação da etnia cuiabana, com destaque para a base humana e linguística. Seus estudos conjeturam a hipótese de que a paulistanidade caipira, trazida pelos Bandeirantes no início do século XVIII, foi uma influência decisiva na formação do perfil sociocultural do povo da Baixada Cuiabana. Afinal, as águas do Cuyabá eram utilizadas pelos bandeirantes e monçoeiros paulistas como caminho de acesso, primeiro, às minas de escravos indígenas e, depois, às minas de ouro. Destarte, o falar cuiabano seria o resultado do contato, bastante estreito, entre o dialeto caipira, recheado, ele próprio, de elementos típicos do português arcaico, e as línguas indígenas faladas na região. Para sustentar a tese de que traços do falar cuiabano são arcaísmos de português que chegaram à região com a fala caipira dos bandeirantes, Santiago-Almeida (2005b) realiza uma comparação entre pronúncias de vogais e consoantes ouvidas na Baixada Cuiabana e pronúncias registradas 76 pela literatura de história da língua portuguesa em séculos passados. Para ficar num único exemplo, pode-se citar o caso das consoantes africadas [] e [], que alguns pensam ser um traço exclusivo do falar cuiabano. Elas foram atestadas também em fases anteriores do português europeu. As consoantes [] e [] “estão presentes em mais de uma fase da história da língua portuguesa e permanecem vivas até hoje na expressão oral de muitos cuiabanos, provavelmente porque encontrou por lá um terreno fértil, adubado com línguas indígenas, em particular o bororo, que possuem tais fonemas” (SANTIAGO-ALMEIDA, 2005b, p. 87). Já Souza (1999) vê na hipótese da origem crioula ou semicrioula do português brasileiro uma explicação possível para a compreensão de traços peculiares do falar cuiabano. Para sustentar sua tese, busca, primeiro, retratar as condições sócio-históricas que favoreceram o processo de crioulização linguístico-cultural do cenário brasileiro. Acredita que “nos locais de aglomeração e aglutinação humana, especialmente na efervescência das minas, caldearam-se povos e línguas em todos os sentidos, resultando numa formação linguística híbrida, com tendências marcadamente crioulizantes”. A descoberta e a consequente febre do ouro em Mato Grosso, no início do Século XVIII, trouxeram à região grupos migratórios os mais diversos, engendrando uma situação de trocas linguísticas multilíngues. Entre bandeirantes e índios domesticados certamente predominava a língua geral. Contudo, migrantes negros e mestiços, vindos de Minas Gerais, Bahia e Maranhão, teriam trazido variedades linguísticas crioulizadas. Em Mato Grosso, como em outras zonas auríferas, a população era formada predominantemente por escravos africanos e seus descendentes. Confirmando essa tendência, Leverger observou que, no final do século XVIII, três quartos da população mato-grossense era formada por negros, mulatos e outros mestiços. Assim, muito provavelmente o português crioulizado falado por essa parcela da população, em contato com outras formações linguísticas, tenha dado origem ao falar cuiabano. Em resumo, o falar cuiabano seria fruto ou de uma situação de isolamento que teria favorecido a conservação de traços de português antigo que chegaram à região via 77 dialeto caipira, ou de um processo de crioulização em que as gramáticas do português, das línguas indígenas faladas pelas nações que habitavam a região e das línguas africanas trazidas pelos escravos teriam se misturado (SOUZA, 1999), ou de influência do castelhano em vista da vizinhança com a América Hispânica e mesmo da presença dos espanhóis na região, antes da entrada das bandeiras paulistas, conforme Mendonça (1970). É bastante provável que os fatores focalizados individualmente por essas hipóteses tenham agido em conjunto na formação da identidade do falar cuiabano, como conjetura Dettoni (2003, p. 197): Conviveram, nesta região, em diferentes momentos e em diversos graus de intensidade, as línguas indígenas nativas, a variedade castelhana da fronteira, a língua dos bandeirantes colonizadores, diversas variedades do português ali introduzidas pelos sertanistas migrantes, além da variedade falada pelos escravos para lá transferidos. Foi nesse contexto multilíngue e multidialetal que floresceu e se fixou a variedade de português falada, ainda hoje, na baixada cuiabana. 2. O falar cuiabano – os principais indicadores No curso de quase trezentos anos de esporádicos contatos com outras regiões do país, foi se engendrando na Baixada Cuiabana2 uma variedade de português diferente de outras faladas no Brasil. Os imigrantes que aqui chegaram nas décadas de 1950, 1960 e 1970, impelidos pela “marcha para o oeste”, incentivada pelo presidente Getúlio Vargas desde os anos quarenta, mobilizados pelo sonho e empresa espetacular de construção de Brasília durante o governo de JK, seduzidos pelas políticas públicas de incentivo ao povoamento do Brasil Central e da Amazônia e encorajados pela pavimentação das rodovias BR-163 e BR-364, ambas ligando Cuiabá aos grandes centros do país, depararam-se 2 Denomina-se Baixada Cuiabana a região formada pelos municípios e comunidades que devem sua origem ao rio Cuiabá e seus afluentes. Segundo Santiago-Almeida (2005: 21), “as águas desses rios foram utilizadas pelos monçoeiros e bandeirantes paulistas, no século XVIII, como principal caminho de acesso, primeiramente, às aldeias indígenas (minas de escravos) e, depois, às minas auríferas da dita região”. Tais atividades econômicas deram origem ao povoamento dessa região, provendo-a de uma base cultural e linguística homogênea determinante na formação do falar cuiabano. 78 com brasileiros falantes de um português singular, pouco conhecido fora do estado de Mato Grosso. Dentre os aspectos fonológicos envolvendo as consoantes, a realização das fricativas palatais [] e [] como as africadas [] e [], respectivamente, tem sido considerada a marca registrada do falar cuiabano e, não raro, usado como uma metonímia caricatural para designar a estranheza provocada pela variedade linguística aqui falada, a exemplo dos enunciados: (1) [ ] “É cuiabano de tchapa e cruz.”; (2) [ ] “Larga de moadje!”. No falar cuiabano, não se realizam como africadas as consoantes oclusivas dentais [t] e [d] antes da vogal anterior alta [i], diversamente do que ocorre em muitos outros dialetos do português brasileiro. Ocorre também a palatalização da consoante fricativa alveolar [] na posição de travamento de sílaba, lembrando a pronúncia carioca, nordestina e até mesmo a lusitana. Diz-se [] e não []. Articulada com esse fenômeno da palatalização, compartilhado por inúmeras variedades de português, a eliminação da semivogal anterior [], antecedendo a consoante palatal [] em sílaba final, é um indicador de cuiabania linguística: o que muitos brasileiros pronunciam como [] ou [], o cuiabano pronuncia como [], eliminando a semivogal [j], quando ela existe, e não inserindo quando ela não existe, a exemplo de [] e [], como é frequentemente ouvido em vários dialetos de português. Um último fenômeno consonantal – o rotacismo – cabe ser aqui apresentado como um traço característico do falar cuiabano pela sua intensidade, mesmo não sendo exclusivo dessa variedade linguística. Nos encontros consonantais tautossilábicos, ouve-se [] em vez de [], [], [] e [] em vez de [], [] e []. Em outras regiões brasileiras, pela sua associação com ruralidade, oralidade e analfabetismo, é um traço estigmatizado e timbrado com a pecha de caipirismo, é um marcador3 social, por assim dizer. Entretanto, na região da Baixada Cuiabana, é um indicador4 linguístico, pois reúne, indistintamente, falantes das zonas 3 Marcadores são traços de linguagem que distinguem subgrupos – classes sociais diversas – dentro de uma mesma região e indicam maior ou menor formalidade (Possenti, 2002, p. 322). 4 Indicadores são traços de linguagem que distinguem um grupo de outro – digamos, uma região de outra –, mas não distinguem um subgrupo de outro na mesma região (Possenti, 2002, p. 321). 79 rural e urbana, pouco ou muito escolarizados e letrados, e ocorre em contextos de interação mais ou menos formais. Em relação às vogais, dois processos, ambos envolvendo as nasais, soam não familiares a quem vem de outras regiões do país. Em primeiro lugar, nota-se o timbre da vogal baixa central [] em contexto de nasalização. Uma palavra como “Ana”, que um paranaense, por exemplo, pronunciaria como [], nasalizando e, concomitantemente, elevando a vogal, um cuiabano diria [], com uma nasalização mais tênue e sem elevação, à maneira do espanhol. Em segundo lugar, é notável também a singularidade na pronúncia do ditongo nasal <ão>. Uma palavra como “irmãos”, o falante cuiabano pronuncia não [], mas [], estando, pois, sujeita a um processo de homorganização entre vogal e semivogal (a vogal [a] se torna posterior, média e arredondada, assimilando propriedades articulatórias de [w]) que culmina com a monotongação do ditongo5. Dentre os aspectos morfossintáticos, o traço que mais se sobressai é a não aplicação categórica da regra de concordância de gênero na locução nominal (Uai, Nenê! Cadê A COZINHEIRA NOSSO?)6, na relação sujeito-predicativo (No sítio eles falam que A CRIANÇA TÁ TORTO) e na anáfora pronominal (ÁGUA DE MANDIOCA, ELE mata carregador, o formigueiro que corta a pranta). Para uma análise mais consistente desse fenômeno, recomenda-se a leitura da tese A concordância de gênero na anáfora pronominal: variação e mudança linguística no dialeto da baixada cuiabana – Mato Grosso, defendida por Rachel do Valle Dettoni em 2003, na Universidade Federal de Minas Gerais. Além dessa singularidade, outro aspecto morfossintático bastante proeminente no falar cuiabano é ausência de artigo definido em sintagmas nominais, como neste exemplo registrado por Dettoni (2003, p. 12): “Mãe de meu vovô, que é pai de papai, foi índia”. Não menos perceptível é o uso de “no” (preposição em + artigo o) para designar “na casa de”: “Fui no comadre” corresponde a “Fui na casa da comadre”. 5 Para um estudo mais detalhado dos aspectos fonológicos do falar cuiabano, recomendo a leitura de SantiagoAlmeida (2000 e 2005). 6 Os exemplos citados neste parágrafo e nos seguintes foram extraídos de Dettoni (2003). Foi preservada a transcrição proposta pela autora. 80 Cuiabanos costumam explicar tal uso de “no” como reminiscência da expressão “no solar de”, historicamente apagada/ reduzida. Assim, removendo-se as camadas arqueológicas, encontrar-se-ia, subjacente a “Fui no comadre”, o enunciado “Fui no solar da comadre”. Investigando mais detidamente essa hipótese, Dettoni (2003, p. 10-12) assinala que ela não recobre todos os usos de “no”, assim como carece de evidência empírica – por exemplo, registro escrito de fases anteriores da língua – que a confirme. Também singular é o uso do marcador conversacional “diz que” nas mais diversas construções: (3) “Ele começô co uma obração, diz que o verme comeu todo o intestino dele”; (4) “Aí ele foi diz que deitô lá, saiu foi deitô lá no corredor, aí fiquei que::to olhano pra ele assim”. Segundo Dettoni (2003, p. 13), nem sempre a expressão “diz que” carreia o sentido de indeterminação. Se no exemplo (3) esse sentido está presente, no (4) não. Um dos informantes entrevistados por Assis-Peterson (2005, p. 191) afirma que o “diz que” é a melhor invenção dos cuiabanos, pois permite-lhes dizer o que pensam sem se comprometerem. Dentre os aspectos lexicais, estranha-se o uso de algumas palavras, ou porque não fazem parte do vocabulário de outras variedades de português, ou porque, se fazem, são empregadas com um sentido outro. Interagindo com cuiabanos, aprende-se que (5) “digoreste” é algo ou alguém bacana, nota dez, legal; (6) “tocera” é pessoa vaidosa, convencida; (7) “bambolê” é sandália de borracha, tipo havaiana; (8) “baleia” é ônibus urbano, lotação; (9) “bolicho” é vendinha; (10) “invisível” é grampo de cabelo; (11) “chiriri” é um pouquinho; (12) “rebuçar” é cobrir-se; (13) “xixir” é fazer cocô; (14) “cepo” qualifica pessoa formada, forte, grande; (15) “ajojar” [] é juntar-se, arranchar; (16) “rir pra catiça” é rir muito; (17) “agora qua:::ndo?!” indica dúvida, espanto; (18) “tcha por Deus!” indica admiração, espanto; (19) “era e pacuera” significa algo muito antigo. Certamente muitas características do falar cuiabano ficaram de fora desse retrato esboçado em traços mínimos, sobretudo aquelas que dizem respeito à entonação, ao ritmo descansado da fala cuiabana, aos acentos enfáticos usados para realçar certos sentidos, como por exemplo, para dizer 81 que “mora lá longe”, o cuiabano diria “mora lá::::: lo:::ndge”, espichando e encompridando as vogais tônicas, de modo a imprimir o sentido de “lonjura” no significante mesmo. De acordo com o mestre salesiano Mario Bordignon, essa toada é herança do bororo, nação indígena intimamente ligada à formação do povo cuiabano. O imigrante que chegar hoje a Cuiabá certamente não ouvirá muitos desses indicadores, circulando pelas ruas da cidade e interagindo com as pessoas nas diversas esferas de atividades próprias dos espaços urbanos. Terá de se deslocar para as regiões ribeirinhas e conversar com pessoas mais velhas para reencontrar o presumido falar cuiabano autêntico. 3. O falar cuiabano – variação e mudança Aproximar-se do cenário mato-grossense no século XXI é aproximar-se de uma trama linguística que enreda muitas vozes. A história de sua formação, nos idos dos séculos XVIII, XIX e XX, e a sua história recente, nas últimas quatro décadas, entrelaçam-se e imprimem nesse tecido uma cor matizada. De um cenário linguístico aparentemente homogêneo, Mato Grosso se converteu, nesses tempos de intenso fluxo migratório, num cenário visivelmente heterogêneo. Escutam-se aqui não mais apenas as notas do falar cuiabano, mas também as do gaúcho, do paranaense, do catarinense, do goiano, do mineiro, do paulista, do nordestino entre outros brasileiros. As relações entre a variedade linguística local e as dos imigrantes estão longe de ser pacíficas. Aliás, tensão e conflito estão sempre presentes nos contextos onde diferenças linguísticas se entrecruzam, uma vez que as diferenças, via de regra, são hierarquizadas segundo o status sócio-econômico de seus falantes. Quer dizer, invariavelmente dividem-se em variedades de prestígio e variedades estigmatizadas, não pelo que elas são em si mesmas, mas pelo poder maior ou menor de seus falantes. Os imigrantes que aqui chegaram, chegaram grávidos da profecia emissária do ocidente, para cultivar não só a natureza selvagem, mas também a presumida barbárie que era a cultura mato-grossense. Com esse espírito missionário, 82 interpretam a língua local como uma língua estropiada e, bem-intencionados, desejam corrigi-la. Enfim, a convivência entre os mato-grossenses de “chapa e cruz” e os “pausrodados” é marcada por embates culturais de toda ordem. Uma vez mais na história da humanidade, o processo de colonização de um novo mundo se reedita como processo de ocidentalização. Os colonizadores que aqui aportaram nas últimas quatro décadas – oriundos principalmente das regiões sul e sudeste, que se representam e apresentam diante dos outros brasileiros como a parte esclarecida e desenvolvida da nação – tenderam a interpretar o matogrossense nativo e suas diferenças culturais e linguísticas como má diferença, como defasagem, como falta, como atraso, como um momento já superado de sua própria história. Essa leitura justificava, assim, a boa intenção de promover o outro à maioridade cultural. O ocidente é sempre bem intencionado! Quer dizer, envergando as bandeiras do progresso e da civilização, os colonizadores transformam diferenças qualitativas em diferenças quantitativas. Não conseguem não hierarquizar, mais exatamente, inferiorizar a diferença. Não conseguem não desejar intervir na diferença. Se a diferença é a má diferença, então intervir na vida do outro é um imperativo moral categórico. Em nome da boa diferença, justifica-se matar a má diferença, justifica-se o etnocídio. Como diz Clastres (1982), em frase lapidar, “A ética do etnocídio é a espiritualidade do humanismo”. De tanto ouvir que sua fala é “horrível”, “esquisita”, “estranha”, “caipira”, “carregada”, “arrastada”, de tanto sentirse sub-avaliado, subestimado, minorizado, estigmatizado, ridicularizado, de tanto ver-se pelo olhar do colonizador, hoje maioria no Estado, o mato-grossense foi passando, ele mesmo, a ver-se/pensar-se/dizer-se pela voz do outro – “pelo amor de Deus, esse nosso “tcha-tcha-tcha” é horrível!”. Sua voz é uma resposta em eco da voz do colonizador. Assim, o mato-grossense foi desenvolvendo uma atitude de vergonha em relação à sua língua materna, um desejo de calá-la, principalmente nos espaços onde a interação com os “estrangeiros” era inevitável. Nesses espaços, expressar linguisticamente a identidade de cuiabano era tornar-se alvo de deboche. Assis-Peterson (2005, p. 195), ouvindo 83 cuiabanos acerca de sua língua materna, observou que “Sob o impacto de forças discriminatórias e de diferentes pressões sociais a estigmatizar a pronúncia carregada dos cuiabanos, fortemente marcada pelos sons [] e [], muitos cuiabanos viram-se obrigados a apagar traços de seu linguajar”. Nessa conjuntura desfavorável à cultura local, o falar cuiabano foi fenecendo. Desde a década de 1980, estudos vêm apontando profundas mudanças no falar cuiabano. Registrara Palma (1983 e 1984) que, entre os cuiabanos jovens, as africadas [] e [] estavam deixando de ser variantes das fricativas [] e [] para serem variantes das oclusivas dentais [t] e [d] seguidas contiguamente pela vogal [i]. Eles abandonavam formas como [] e [], mas incorporavam formas como [] e []. Se do ponto de vista fonético, quer dizer, estritamente linguístico, são semelhantes, do ponto de vista sociolinguístico valem diferentemente. Como variantes de [] e [], [] e [], respectivamente, revestem-se de uma aura negativa decorrente do processo de folclorização da essência, por assim dizer, do falar cuiabano no novo cenário sócioeconômico-cultural. Porém, como variantes de [t] e [d], [] e [] são avaliados positivamente, desejados e incorporados à fala dos mais jovens. Também Dettoni (2003 e 2005) constata, tratando da variação na concordância de gênero na retomada anafórica de itens lexicais femininos por ele(s)/ela(s), estar diante de um caso de mudança em progresso, com tendência nítida para o desaparecimento da variante cuiabana ele(s). Diz a sociolinguista: “Embora a variação na concordância de gênero não constitua um dos traços mais marcantes do falar cuiabano, inclui-se perfeitamente no conjunto das formas estigmatizadas” (DETTONI, p. 2003, 166). A respeito desse traço, ainda em 1980, um dos informantes de Palma dizia: “nós, de fora, devemos ajudar os cuiabanos a mudar todo esse jeito de falar, porque, por exemplo, eles usam ELE quando se referem a mulher... como se mulher fosse homem”. Esse depoimento mostra de forma contundente a pressão linguística exercida pelos imigrantes sobre o uso da forma ele(s), pelos falantes cuiabanos, na retomada de termos femininos. Os trabalhos de Dettoni demonstram (1) 84 que os falantes cuiabanos aprenderam a variante alternativa ela(s) para retomar itens lexicais femininos; (2) que as retomadas por meio de ele(s)/ela(s) coexistem em alguns falantes; (3) que alguns falantes cuiabanos, entre os mais jovens e mais escolarizados, fazem uso categórico da variante ela(s). Segundo a autora (2003, p. 166), “a mudança na concordância de gênero enquadra-se em um movimento mais geral de mudanças que envolvem a neutralização das mais diversas características dialetais e sugerem, para o falar cuiabano, um processo de morte”. Traços de prestígio são mais resistentes à mudança. Por exemplo, é ainda bastante vigorosa a pronúncia da fricativa em posição de travamento de sílaba não como alveolar [], mas como palatal []. Ouvem-se com frequência formas como [], [] etc. Esse é um traço presente também no falar carioca que, pelo seu prestígio nacional, funciona como modelo a ser seguido. Contudo, na contramão de todas as expectativas, há um traço altamente estigmatizado que vem resistindo ao processo de mudança que afeta o falar cuiabano como um todo – o rotacismo nos encontros consonantais tautossilábicos. 4. O falar Cuiabano – a inusitada sobrevivência de um traço estigmatizado As relações de força que agiram/agem no mercado linguístico mato-grossense praticamente calaram as principais divisas que separavam o falar cuiabano das demais variedades regionais do português brasileiro. Foi tanto o escárnio em torno do [] e do [], que o traço-símbolo da cuiabanidade linguística hoje só é ouvido, no espaço urbano, como estilização do homem cuiabano tradicional em representações teatrais e midiáticas. Contemporaneamente, o falar cuiabano vem sendo identificado menos pelas suas consoantes africadas e mais pelo fenômeno do rotacismo. Se antes o falar cuiabano era identificado por um traço que funcionava predominantemente como indicador agora o é por um traço que funciona como marcador. Quer dizer, passa-se de um particularismo incomensurável para um traço que funciona como marcador social e que, portanto, 85 pode-se medir pelo metro que vai das variedades estigmatizadas às variedades de prestígio. Se o [] e o [] ofereciam dificuldade de leitura quando contrapostos às leis do mercado linguístico, sendo avaliados como “horrível, feio, estranho, esquisito, carregado”, o rotacismo é fácil e ligeiramente lido, por esse esquadro, como “erro”. O cuiabano não é mais aquele que fala “esquisito”, mas aquele que fala “errado”. Alguns estudos revelam a produtividade do rotacismo nos encontros consonantais. Assad e Cox (1999) apontaram a inscrição sistemática do rotacismo na grafia de crianças cuiabanas em processo de alfabetização, conjeturando tratar-se de um hábito fonético-fonológico da língua materna que se insinua na modalidade escrita. Santiago-Almeida (2000, p. 173), em pesquisa realizada entre falantes com mais de 50 anos, com baixo grau de escolaridade, e com uma história de vida genealógica, cultural e linguisticamente ligada à Baixada Cuiabana, constatou que a variante rotacizada ocorre em 100% dos casos de encontros consonantais localizados no corpus de registro oral. Quer dizer, na gramática internalizada de falantes com esse perfil parece não haver encontros consonantais com a lateral //, apesar de toda a mudança que se operou no cenário linguístico da região nos últimos 30 anos. Franciscone & Teixeira (2003), numa pesquisa realizada na Baixada Cuiabana, com informantes do sexo feminino e nível médio de escolaridade, chegaram a um resultado semelhante ao de Santiago-Almeida: na narrativa espontânea houve 100% de ocorrência de formas rotacizadas e, no teste de leitura, 96,25%. Zambotto de Lima (2008), em pesquisa realizada na Comunidade de Mata-Cavalo, localizada em Nossa Senhora do Livramento, Município que integra a região da Baixada Cuiabana, também constatou a ocorrência do rotacismo em 100% dos contextos favoráveis ao uso registrados no corpus, independentemente do grau de escolaridade dos falantes e de outros fatores como idade, por exemplo. É curioso que um traço como a africação de [] e [] seja encontrado apenas na fala dos velhos dessa comunidade e o rotacismo, na fala de todas as gerações. Os trabalhos de Cox (2001, 2003, 2004, 2005, 2006a, 2006b, 2007, 2008a, 2008b), voltados para o exame de eventos de escrita em diversas esferas de 86 comunicação do espaço urbano de Cuiabá, revelam que até mesmo em situações de bastante formalidade, como o de uma carta de apresentação, por exemplo, o rotacismo se indicia com uma certa frequência. Em conjunto, os resultados dessas pesquisas evidenciam que a escolaridade e o letramento não têm garantido a autocorreção da variante [] nem mesmo nas situações que exigem um estilo tendendo para o extremo mais monitorado. É difícil, mas não impossível, que as próximas gerações da comunidade cuiabana se deparem com um sistema de escrita em que os encontros consonantais com a letra < l > representem uma forma arcaica. Por uma confluência de fatores, o falar cuiabano está se encarregando de levar adiante uma deriva fonológica que se insinuara no latim vulgar, florescera no período de formação do português na Península Ibérica e navegara por mares e rios nunca dantes navegados, à margem do processo de gramatização e normatização jurídica da língua que tentara represá-la. Como bem lembra Bagno (2003, p. 127), citando Horácio, não adianta expulsar a natureza com um forcado, pois ela sempre ressurgirá (Naturam expellas furca, tamem usque recurret –Epístola X, 24). Revigorado por um mameluquismo linguístico, o rotacismo nos encontros consonantais viça nas terras da Baixada Cuiabana, resistindo à conjunção de forças centrípetas que agem sobre ele para transformá-lo em /l/. Nos confins da América, o português segue cumprindo tendências que se insinuaram na aurora da língua. Que seja bem lembrado, o rotacismo do falar cuiabano não é sinal de ocaso do português! As línguas vivas não têm ocaso. 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Some reflections about the Brazilian Chiquitano language are presented based on the result of phonetic-phonological, sociolinguistic and historical comparatives, as well as the continuity and development of research carried out since October 2003 in the Chiquitano communities of Acorizal and Fazendinha in the district of Porto Esperidião in Mato Grosso. KEYWORDS: Indigenous Language, Sociolinguistics, Chiquitano Language 1 Mestre em Lingüística pela UFG, doutoranda do Programa de Letras e Lingüística da UFG. Bolsista de Apoio Técnico da FAPEMAT e professora da FUNAI, lotada na Administração Executiva Regional de Cuiabá, MT 2 Mestre em Lingüística pela UFG. Técnica da SEDUC, MT - Coordenadora de Ensino Médio da Rede Estadual de Ensino. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 91-109 2009 issn 0104-687x Introdução Os comentários e reflexões que apresentamos a seguir são resultados dos estudos linguísticos nas comunidades Chiquitano3, de Acorizal, e Fazendinha, município de Porto Esperidião, MT, iniciados, por Dunck-Cintra e Santana, em outubro de 2003, e as ações que se sucederam. Como resultados das pesquisas de mestrado em DunckCintra (2005), foi apresentado um estudo sociolinguístico com base na metodologia interpretativista, considerando os aspectos sócio-históricos e linguísticos desencadeadores do deslocamento linguístico vivenciado pelos Chiquitano, demonstrando o conflito de identidade linguística e territorial pelo qual passa o povo Chiquitano brasileiro. Em Santana (2005), foram apresentados o levantamento fonético e o inventário fonêmico preliminar da língua Chiquitano do Brasil. Foram feitos comentários preliminares sobre as diferenças no falar masculino e feminino e sobre os empréstimos linguísticos. Também foram comparados aspectos fonéticos, fonológicos e itens lexicais da língua Chiquitano do Brasil com aspectos linguísticos em publicações na Bolívia relatando similaridades e diferenças entre elas. Em 2005, seguindo as observações de Greenberg (1987) e Adelaar (2005), iniciamos um estudo investigativo preliminar com o objetivo de identificar as similaridades da língua Chiquitano do Brasil com o Proto-Jê4. Nesta comparação foi identificada uma quantidade significativa de vocábulos semelhantes que apontaram para uma variedade considerável de reflexos de fonemas do Proto-Jê (SANTANA, 2006). Atualmente continuamos os estudos linguísticos comparativos e estruturais da língua Chiquitano brasileira e mantemos com as comunidades de Acorizal, Fazendinha e, mais recentemente, com a de Vila Nova Barbecho discussões sobre as políticas linguísticas para aquelas comunidades. 3 A grafia dos nomes tribais no singular seguirá a convenção sugerida durante a 1ª. Reunião Brasileira de Antropologia, realizada no Rio de Janeiro, em 1953, cujo texto foi publicado na Revista de Antropologia, Local São Paulo, v. 2, n. 2, dez. 1954. 4 Trabalho integrado ao Projeto Comparativo Jê-Museu Antropológico – UFG. 92 1. Conta a história que... Os grupos que originaram os Chiquitano viviam na região do Gran Chaco5 com suas práticas culturais e modos de sobrevivência próprios. Com a chegada dos colonizadores espanhóis, em meados do séc. XVI, os grupos indígenas se viram obrigados a constantes fugas para escapar dos “preadores” (caçadores de índios) que tentavam capturá-los para o trabalho forçado em regime de escravidão. A despeito disso, em menos de duas décadas de contato, já havia entre 40 a 60 mil índios escravizados em seu próprio território. Diante da dificuldade de “entendimento” entre colonizadores e comunidade nativa, o governador da já formada cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra solicita, em meados de 1600, a ajuda dos jesuítas para “amansar os indígenas”. No decorrer de quase cem anos, foram criadas na Bolívia onze missões que contavam com 37 mil índios de etnias distintas. Com a expulsão dos jesuítas da América, os Chiquitano passaram a trabalhar nas fazendas e, posteriormente, foram recrutados para a Guerra do Chaco (1932-1935). Desenvolveram tarefas em seringais, na construção da via férrea entre Santa Cruz e Corumbá e na recuperação do setor pecuário. Em 1959, com a proclamação da Reforma Agrária nas terras baixas do Oriente boliviano, os Chiquitano da Bolívia tiveram sua libertação da servidão nas instâncias. Os que estavam do “lado brasileiro” ainda permaneceram no regime de escravidão nas fazendas. Na Bolívia, hoje, habitam a região da Gran Chiquitania aproximadamente sessenta mil indígenas Chiquitano, o segundo povo em número depois do Guarani. No Brasil, segundo Moreira da Costa (2000), constituem uma população próxima de duas mil pessoas. Os Chiquitano da Bolívia e do Brasil compartilham elementos da história e da cultura, mesmo com a linha divisória da fronteira sofrendo constantes modificações 5 Região que envolve, hoje, o pantanal boliviano e parte do pantanal brasileiro. 93 através dos vários tratados e limites entre Brasil e Bolívia. Muitos desses indígenas do lado brasileiro, especialmente os mais idosos, falam o espanhol, herança de um tempo em que a fronteira existia apenas no nome, pois o território tradicional dos Chiquitano ficava onde hoje é a divisa entre o Brasil e a Bolívia, e, em virtude da disputa entre as coroas portuguesa e espanhola, o povo que vivia mais à margem do seu território tradicional foi separado, ficando esta parcela menor no lado brasileiro. No entanto alheios à separação política, os Chiquitano mantiveram seus laços de parentesco, de amizade e rituais (MOREIRA DA COSTA, 2000). 2. O povo Chiquitano brasileiro No Brasil, em meados do séc. XVIII, a coroa portuguesa incentivou o povoamento da fronteira. Considerados mansos, moldados pelos jesuítas, os Chiquitano foram atraídos e utilizados como mão-de-obra nas fazendas. Trabalhando nas fazendas, ficaram por longas décadas longe das políticas públicas brasileiras, só retornando à cena recentemente em virtude de um estudo de impacto ambiental feito na ocasião da construção do gasoduto Brasil-Bolívia. Naquele contexto, o grupo de estudo6 que localizou as primeiras comunidades teve muita dificuldade para encontrar algum morador que assumisse a sua identidade étnica, o que somente foi possível depois de muito contato e diálogo (SILVA, 2001-2002). Hoje os Chiquitano brasileiros fazem parte do grupo de indígenas contemporâneos que lutam pelo reconhecimento étnico. Quase que desconhecidos, fogem aos padrões exóticos, por isso são comumente identificados como “bolivianos”7 ou caboclos pantaneiros. Os antropólogos Silva e Moreira da Costa (2004), primeiros estudiosos desse povo no Brasil, afirmam que pertencem ao mesmo grupo Chiquitano da Bolívia, partilhando traços comuns como território8 e relações familiares com moradores de vilas bolivianas e 6 O grupo de estudo era composto de diversos técnicos, dentre eles um indigenista e um antropólogo. 7 Muitos brasileiros desconhecem que a população da Bolívia é majoritariamente de indígenas, o que reforça a ideia de que o índio brasileiro deva ser “diferente”. 8 Segundo Silva e Moreira da Costa (2004), “Seguramente há um território Chiquitano que antecede a divisão política entre os dois países e que continuou existindo apesar das definições mais recentes dos marcos políticos”. 94 de redutos missionários como San Inácio, Sant’Anna, San Miguel e outros. Mais recentemente, após as publicações de alguns trabalhos acadêmicos9, é que o povo Chiquitano passou a figurar nas estatísticas e quadros demonstrativos dos Povos Indígenas Brasileiros. Segundo Moreira da Costa (2000), trinta e uma comunidades habitam a região fronteiriça de Mato Grosso com a Bolívia, somando cerca de 2000 indivíduos, excetuando-se os que vivem nas áreas urbanas. Figura 1 – Localização do Território Chiquitano 9 Estes foram os primeiros estudos sobre os Chiquitano brasileiros: MOREIRA DA COSTA, José E. O manto do encoberto: identidade e território entre os Chiquitano (MT), 2000. n. f. Monografia (Especialização em antropologia: teoria e métodos) – Departamento de Antropologia, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, MT, 2000; SILVA, Joana A. Fernandes. Territórios e fronteiras Brasil-Bolívia no país dos Chiquitanos. Revista do Museu Antropológico, Goiânia, v. 5-6, n. 1. p. 179-212, 2001-2002; DUNCK-CINTRA, Ema Marta. Vozes silenciadas – situação sociolinguística dos Chiquitano no Brasil - Acorizal e Fazendinha, MT. 2005, n. f. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás, UFG, Goiânia, 2005; SANTANA, Cavalcante. Transnacionalidade linguística: a língua Chiquitano no Brasil. 2005, n. f. Dissertação (Mestrado em Letras e Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Goiás – UFG, Goiânia, 2005. 95 Fonte: Elaborado por Moreira da Costa, 2004 3. Localização das comunidades Chiquitano do Brasil Mapa 1 – Localização atual das comunidades Chiquitano 96 Fonte: FUNAI, 2000. Nas comunidades brasileiras Acorizal (13) e Fazendinha (14) onde foram iniciadas as pesquisas havia, na época, cerca de 270 pessoas, entre elas, 5 “conhecedores da língua”, e estes já idosos. Mostramos a seguir resultados das pesquisas linguísticas nas duas comunidades. 4. Estudos da língua Chiquitano do Brasil 4.1. Estudo sociolinguístico O estudo sociolinguístico pautado nas tipologias de Edwards (1992), complementadas com as de Grenoble e Whaley (1998), empreendido por Dunck-Cintra (2005) em 2003, permitiu observar as relações externas sobre as comunidades e as consequências dessa interferência que desencadeou o deslocamento linguístico vivenciado pelos Chiquitano. Conforme resultado da pesquisa de Dunck-Cintra (2005), pode-se ressaltar que foram muitos os fatores que provocaram um “esconder-se” do povo Chiquitano. Poderiam ser elencados: a morte de milhares de indígenas em 97 virtude do massacre colonizador, a ocupação e usurpação do território tradicional, a escravidão pelos colonizadores, a homogeneização da língua (conflito linguístico) nas missões, a cristianização e massacre cultural, o contato com aqueles que se apossaram de terras tradicionais daquele povo para plantar e criar gado e a varíola que também provocou a morte e a diminuição do grupo. Outro fator bastante intenso que provocou o deslocamento da língua étnica foi a escola, pois o ensino era feito na visão não-indígena e era ministrado por professores não-índios: o currículo, materiais didáticos, calendário, as imagens-mensagens veiculadas pela escola traziam as concepções político-doutrinárias da época. Também podem ser consideradas as atitudes preconceituosas e negativas da sociedade não-indígena em relação aos índios e a convivência com os militares do destacamento que aos poucos fizeram surgir um conflito declarado de poder fazendo com que os Chiquitano silenciassem e perdessem espaço tanto físico como social, entre tantos outros10. Portanto os colonizadores, a igreja, os fazendeiros, a instituição escolar, o Estado, através do destacamento e seus militares, colocaram as comunidades em situações degradantes, provocando o silenciamento da língua e das marcas da identidade étnica. Todas essas influências provocaram o deslocamento da língua Chiquitano, pois instalaram um conflito linguístico fazendo com que os indivíduos tivessem uma atitude negativa em relação à língua, como demonstrado nos comentários: “Nós não gostava, porque muitos reparava, né, na gente, hã, hã. Falavam que se nós conversava assim, era feio, bugre, chamam de bugre, e daí foi deixando, foi deixando, nem as crianças, nem os velho conversa”. (Mikaela Surubi). “Porque entrô muita gente de fora, né. Entrô muita gente de fora e aí foi ficando envergonhado... e foi largando mão, né, de falar essa linguagem, porque achava feio, né, de falar essa língua, né” (Mariano Cesário Lopes). “Porque tem vergonha de ensiná, porque não queria mais falá” (Rosália Lopes). O que se pode observar pelos relatos é que o “mundo dos Chiquitano” acaba não sendo vivido pelas comunidades, o 10Esses aspectos todos estão explicitados em Dunck-Cintra (2005). 98 que os leva a reconhecer como sua cultura aquela que é imposta pela sociedade envolvente. 4.2. Situação sociolinguística dos Chiquitano As ações de inter-relação assimétrica entre população nativa e população majoritária desencadeiam uma desterritorialização do espaço físico e também a ocupação do espaço sociocultural próprio. Isso é perceptível na situação sociolinguística das comunidades Chiquitano de Fazendinha e Acorizal, através do silenciamento da língua e cultura (DUNCK-CINTRA, 2005). Em 2005, a análise dos resultados das entrevistas permitiu observar que somente 5 pessoas11 acima de 60 anos sabiam essa língua, mas não a utilizavam em interação social. Portanto a análise dos resultados das entrevistas permitiu observar que a língua Chiquitano encontrava-se num alto grau de risco de extinção, pois permanecia apenas guardada na memória de alguns dos mais velhos. Se naquele momento a língua Chiquitano pudesse ser ensinada na escola, somente os mais idosos seriam favoráveis à proposta; jovens e adultos se mostraram relutantes, o que pode ser compreendido pelo desprestígio que é conferido às línguas indígenas pela sociedade majoritária. Em nenhum momento, durante as entrevistas iniciais para a pesquisa do mestrado, observou-se interação entre os falantes na língua Chiquitano. O que se pode conjecturar é que havia nas comunidades um tipo de bilinguismo que se denominou “bilinguismo de memória”12 que incide entre alguns dos mais idosos. Em Dunck-Cintra (2005), ao serem indagados se eram Chiquitano, as respostas permitiram identificar que em torno de 25% daqueles entre 12 e 27 anos se diziam Chiquitano; já aqueles entre 30 e 47 anos, 80% se diziam Chiquitano; e entre os mais idosos, aqueles acima de 60 anos, 88,8% se consideraram Chiquitano. 11Hoje são 4, uma vez que faleceu um ancião “lembrador da língua Chiquitano”. 12Faz-se necessário esclarecer que, se assim não considerarmos, estaremos ignorando que os mais idosos possuem uma segunda língua e, com isso, estaríamos eliminando o que resta da língua Chiquitano nas comunidades. 99 No entanto, na época, foi observado também que os Chiquitano foram confrontados por uma situação nova, pois deveriam romper esse silêncio em que se encontravam para fortalecer a possibilidade de ficar com seu espaço, marcar sua territorialidade. Eles haviam sido convocados para assinar um documento que dava a eles um mês de prazo para sair daquele lugar, havia um discurso instalado de que eles não eram índios, estavam nas terras pertencentes ao Exército Brasileiro (Terras da União) e eram considerados posseiros. “Porque o capitão passou por aqui apurando nós para, no prazo de trinta dias, sair daqui. Nós ficamo tudo apavorado, aonde nós vai?” (José Ramos). Diante da situação intimidante, partiram para um contradiscurso, e uma das ações foi ensinar a língua Chiquitano, criando momentos para aprendê-la da maneira que lhes era possível passar palavras e nomes que ainda se encontravam na memória dos mais idosos (DUNCK-CINTRA, 2005) pelo filtro da língua13. Explicaram que “[…] os fazendeiros falam, até agora que nós não somos Chiquitano, porque não sabemos a língua, até agora não param de falar que nós não somos Chiquitano, que pra ser Chiquitano tem que ser na Bolívia, aqui não” (Luís Surubi). “Eles [os que sabiam a língua] tinham que começar a falar para ajudar o nosso povo aqui” (Roseane Caetano). O que estava em jogo não era apenas uma questão ligada à identidade e autenticidade, mas uma disputa por terras indígenas. Por isso o discurso que circulava de que ali não havia índios, apenas estrangeiros e imigrantes, era uma maneira própria de negar os direitos legítimos de quem é brasileiro e nacional (SILVA, 2008). A atitude do povo das comunidades e as ações que incidiram a partir dali os fizeram se reunir e, para além do estudo da língua, interagiram, falaram de sua cultura, lembraram do passado, reconheceram-se como índios, o que lhes possibilitou fortalecer seu lugar de pertencimento, porque fizeram circular o sentido de ser índio, marcando aí sua territorialidade. 4.3. Estudo fonético-fonológico 13É comum, na língua Chiquitano, o uso de uma africada retroflexa no final dos substantivos. 100 A língua do grupo conhecida como Chiquitano ou besuro foi utilizada por mais de sete décadas14 como língua franca pelos missionários religiosos, no processo de evangelização nas reduções jesuíticas fundadas na Chiquitania (RIESTER, 1986). Devido a essa diversidade e múltipla convivência, alguns estudiosos como Metraux (1948) mencionam que é difícil obter um quadro claro da afiliação linguística dos Chiquitano, bem como estabelecer a distribuição inicial dessa língua, ou seja, identificar o grupo principal. Atualmente alguns estudos linguísticos têm levantado hipóteses sobre a afiliação dessa língua, mas até o momento ela é considerada uma língua isolada. Em Santana (2005), foi apresentado o levantamento fonológico e o inventário fonêmico preliminar, a partir de vocábulos coletados com os conhecedores da língua das comunidades brasileiras de Acorizal e Fazendinha. A análise fonêmica inicial permitiu diferenciar, em princípio, 14 fonemas15 consonantais [p, t, k, ?, m, n, r, B, s, S, h, tS ] e 6 vocálicos [i, u, e, o, a]. Em todos os estudos apresentados sobre os Chiquitano na Bolívia, há referências ao falar masculino e feminino. Os estudos realizados no Brasil ainda não nos permitiram observar variações em suas formas mais complexas. Nos dados coletados em nossa pesquisa, as distinções nos registros da fala feminina e masculina foram observados em: • Formas lexicais diferentes para os substantivos designativos de parentesco e designativos de partes do corpo. Ex.: ´avó´ - (F) / (M) ´nariz´ - (F) (M) • Supressão do prefixo /no/, na fala feminina para alguns substantivos que se referem a nomes de animais. Ex.: ´ema´ - /paia’rEs / F ( /nopaia'rEs / (M) • Supressão de consoantes e sílabas, na fala masculina, 14O contato dos jesuítas com os Chiquitano inicia-se no final do séc. XVII e vai até a expulsão dos jesuítas em 1767. 15A glotal oclusiva [?], as fricativas bilabial [B] e retroflexa [] ainda carecem de maiores observações, mas foram, em princípio, consideradas como fonemas distintos. 101 para o pronome, verbo, advérbio e substantivo referentes a elementos da natureza. Ex.: ´falar´ - /saniti'ak/ (F) /aniti'ak/ (M) Observando os quadros fonéticos, fonológicos e ortográficos descritos, percebemos uma grande similaridade entre o Chiquitano na Bolívia e o que descrevemos no Brasil. Como referência para levantamento dessas similaridades, utilizamos as descrições apresentadas por Krusie e Krusie (1975), Riester (1986), Tormo (1992) e Castro, Jiménez e Olívio (2003). Ao comparar aspectos fonéticos e fonológicos, percebemos que os segmentos consonantais estavam similares em sua quase totalidade (SANTANA, 2005): • as oclusivas [p t k], as nasais [m n], a vibrante [r] as fricativas [s S], a oclusiva glotal [?] a fricativa retroflexa [ ] e a africada alveopalatal [tS] foram mencionadas em todas as referências; • a fricativa bilabial [B], a fricativa labiodental [v], a bilabial sonora [b], a fricativa alveolar [z], a fricativa glotal [h], a oclusiva velar [g], a aproximante alveolar [y] e a aproximante labiovelar [w] não foram mencionadas por todos os autores, e as referências apresentaram algumas divergências fonéticas e ou fonológicas. • o que diz respeito às vogais, a similaridade é ainda maior. Foram apresentados em todas as referências seis fonemas vocálicos orais [i e a o u], com nasalização possível em [i) e) a) o) u)]. Encontramos apenas uma divergência em relação aos segmentos vocálicos [ ] e [ u ]. Encontramos referências similares quanto ao apagamento, alongamento e duplicação de vogais. Essas similaridades não permanecem apenas nos campos fonéticos e ou fonológicos, como foram demonstradas, elas foram observadas também no campo lexical. Num levantamento léxico-estatístico preliminar feito entre os itens lexicais que coletamos no Brasil e vocábulos publicados como glossários nas referências bibliográficas bolivianas, foram encontrados cerca de 70% de cognatos. Mais precisamente 66% de cognatos entre o Chiquitano brasileiro e 102 o falado na Província de Ñuflo de Chávez, região de Concepción, Lomerio, e 73% de similaridade entre o falado nas Províncias de Velasco, Chiquitos e Sandoval, regiões de San Ignácio e San Javierito. Dentre os cognatos encontrados, a maioria consistiu, no universo extralinguístico, em palavras com forte componente semântico como os substantivos e adjetivos. Também encontramos cognatos para verbos e advérbios. 4.4. Estudos comparativos com o Proto-Jê Seguindo as observações de Greenberg (1987) e Adelaar (2005), investigaramgou-se as similaridades da língua Chiquitano do Brasil com o Proto-Jê, buscando maiores evidências de correspondências com o Macro-Jê (SANTANA, 2006). Greenberg (1987), baseado numa comparação etimológica com as formas do Proto-Jê, reconstruídas por Davis (1966), considerou haver evidências suficientes para incluir o Chiquitano em um dos 15 subgrupos do Macro-Jê. Em trabalho recente16, Adelaar (2005), falando de “relações externas” com o Macro-Jê, menciona semelhanças morfológicas e lexicais do Chiquitano (dialeto de Lomerio, São Miguel, São Xavier) com o Jê e outras línguas Macro-Jê. Cita como similaridades: a distinção entre o vocabulário da fala feminina e masculina; traços característicos da língua com verbo inicial, preposições, ausência de caso, adjetivo posposto ao nome; paradigmas de referência pessoal, marcadores de posse inalienável. Apresenta ainda uma lista de cognatos com semelhanças lexicais com línguas Macro-Jê como Panará, Xicrin, Maxacali, Parkatêjê, Apinajê, Kainkang, Xavante, Bororo, Canela, Guató, entre outras. Para comparação da língua Chiquitano com o ProtoJê, foram utilizados os exemplos da lista de vocábulos da Dissertação de Mestrado de Santana (2005), atualizada e revisada em maio de 2006 e a lista do Proto-Jê reconstruída por Davis (1966). Das 112 palavras da lista do Proto-Jê, notamos 18 casos de semelhanças com palavras Chiquitano, os quais 16“Buscando as relações externas do Macro-Jê”, trabalho apresentado no IV Encontro Macro-Jê, realizado em Recife, PE – Brasil, em novembro de 2005. 103 apontaram para uma variedade considerável de reflexos de fonemas do Proto-Jê. Essas correspondências sonoras do Proto-Jê para o Chiquitano, segundo Santana (2006), são significativas, mas ainda consistem numa análise preliminar e carecem de maiores estudos e investigações, pois a formação múltipla e sui generis desse povo certamente imprimiu na língua características híbridas e multiculturais, o que justificaria a dificuldade de sua afiliação linguística. 4.5. Políticas linguísticas e ortografia Embora houvesse o conflito de identidade linguística e territorial bastante presente no povo Chiquitano brasileiro, podem-se observar mudanças consideráveis nas atitudes dos membros das comunidades durante os estudos, pois passaram a vivificar atitudes positivas em relação ao resgate dessa língua: “[…] é a nossa língua, a língua dos nossos antepassados” (José Ramos); “[…] gostaria que meus netos aprendessem” (Rosália Lopes); “[…] eu também gostaria de aprender” (Maria Arlene Justiniano). As comunidades estavam despertando do silêncio em que se encontravam e era o momento de pensar em criar uma política educacional de vitalidade linguística e cultural que atendesse às necessidades das comunidades de Acorizal e Fazendinha, a qual poderia se estender às outras comunidades Chiquitano do Brasil. Assim, com o intento de um programa maior de revitalização linguística e uma possível inserção da língua Chiquitano como 2ª. língua, iniciamos atividades de socialização e discussão sobre as funções dessa língua na comunidade (em especial na comunidade escolar) e, consequentemente, uma definição preliminar da ortografia para a escrita da língua Chiquitano no Brasil, visando à elaboração de dicionários, livros de cantos e rezas, cartilhas e materiais que possam atender a toda a comunidade. As atividades realizadas envolveram toda a comunidade, principalmente professores e alunos. Questões como nacionalidade, ensino da segunda língua e similaridades linguísticas com as variedades dialetais presentes nas publicações bolivianas permearam as discussões para a primeira versão da ortografia para a língua Chiquitano no Brasil. A preocu104 pação inicial foi definir a representação dos sons diferentes do português de forma simples e, na medida do possível, acompanhar a representação da variedade boliviana. Depois de estabelecida uma ortografia inicial/preliminar, foi solicitado então aos professores que “experimentassem” essa ortografia. Em outubro de 2007, em um encontro com os professores e algumas pessoas da comunidade, estes entenderam que deveriam utilizar apenas uma forma para [y e i], que seria ( i ) e a redução de um grafema para a grafia da retroflexa [], que passaria a ser grafada como ( rch ). Estabelecemos então uma segunda versão que, com essas alterações, ficou assim: • a = a - tarupes (cuia) • e / E = e / é - pé’és (fogo) • y / i = i – kupikinha (menina) • o / = o/ó – novorórch (lobo) • u = u – tavaurch (chicha) • u = u – masupakich (surdo) • ? = ’ – tama’a (um) • h = h – héskonho (rápido) • k = k – kiumaturch (feio) • m = m – mastakama (bonito) • n = n – napae (avó) = nh – nha’uma (criança) • • p = p - paravarch (arara) • r = r - nosirurch (córrego) • s = s - nosich (servo) • t = t – nopetarch (cágado) • B = v – tavorórch (careca) • S = ch – notuvarich (rã) • tS = tch – tchapórch (copo) • ts = ts – putsiórch (flor) • = rch – ta’arch (chuva) • Os empréstimos: =g, l, b, f, j (como em português). 105 5. O que se vê hoje... Neste período de convivência, a organização e as ações dos membros das comunidades com relação ao processo de reconhecimento étnico têm tomado proporções muito interessantes. No contexto do silenciamento, fez-se necessário um processo de reconstrução identitária. As mudanças são muitas, considerando o curto período de tempo de reconhecimento pelas instituições públicas. De um lado, os professores que ingressaram no Proesi – Programa de Educação Superior Indígena Intercultural da Universidade Estadual de Mato Grosso e no Projeto Haiyô – Magistério Intercultural. Estes, além da situação interna e local (convívio com fazendeiros e trabalhadores da região e demais cidades vizinhas), passaram repentina e diretamente a conviver no meio acadêmico e institucional. Do outro, a reestruturação das famílias com o retorno dos filhos que estavam fora e que agora puderam voltar e construir novas casas, continuar trabalhando nas fazendas vizinhas ou se empregar nas novas atividades e oportunidades remuneradas surgidas dentro das próprias comunidades. Cargos de professor, coordenador, merendeira, outros empregos como auxiliares de enfermagem e vigilante são preenchidos por membros das comunidades. Atualmente continuamos os estudos linguísticos comparativos e mantemos com aquelas comunidades discussões sobre as políticas linguísticas, envolvendo, como vimos, a definição de uma ortografia para a língua Chiquitano brasileira e sua inserção como 2ª. língua na escola e em outras atividades comunitárias. Em 2007 mais uma comunidade Chiquitano, a Vila Nova Barbecho, passou a participar conosco das atividades de estudos e pesquisas linguísticas. Assim continuamos os encontros periódicos com os professores, quando foram realizadas realizando oficinas sobre a língua Chiquitano na escola: escrita, uso e funções, bem como orientações didático-pedagógicas para a inserção da língua em sala. Mas ainda há muito que fazer. É necessário pensar, com eles, em estratégias que contemplem as suas necessidades, para contraporem-se aos modelos da sociedade dominante. 106 Hoje já se veem crianças cantando na língua, encenando teatro, elaborando glossário, enfim, possibilidades de um mundo que outrora lhes foi negado, ser retomado por eles. Os cantos, as histórias contadas pelos mais velhos, a participação dos que se lembram da língua nas aulas (, ) têm permitido trazer à tona um mundo identitário que não é mais o mesmo de seus antepassados, mas que traz em sua “reformulação” as marcas do povo Chiquitano. Considerações finais Os trabalhos acadêmicos desenvolvidos por linguistas, geógrafos, historiadores e antropólogos, juntamente com ações da Funai, Funasa, Igreja, entre outros, permitiram que as comunidades Chiquitano do Brasil começassem a pensar em ações na busca de atitudes para estudos da sua cultura e língua, fortalecendo a identidade étnica. São ações que têm contribuído para o reconhecimento do grupo indígena e ainda ajudado na valorização e autoestima do grupo Chiquitano brasileiro. A condição de língua em alto risco de extinção torna as situações de pesquisa um pouco mais complexas; as relações interculturais devem ser observadas com mais cautela. Mas são essas mesmas condições que provocam um pensar urgente em políticas linguísticas para esse povo, as quais se tornam menos difíceis quando se percebe, hoje, uma grande diferença em relação às comunidades em 2003, pois há atitudes de valorização com relação à identidade e à língua étnica das comunidades de Acorizal e Fazendinha. É comum observar na escola “vestígios” da língua Chiquitano; ela está em cartazes, em atividades aplicadas pelos professores, nas brincadeiras dos alunos. Felizmente, o que se vê nesse povo, hoje, é uma atitude positiva em relação à língua. Os Chiquitano do Brasil aos poucos estão se organizando e reclamando para si seu reconhecimento enquanto indígena brasileiro. Para tanto, estão se organizando através da retomada da língua, de cantos, de ritos e da demarcação de suas terras, a fim de deixar evidente aos interesses hegemônicos que eles não perderam e nem esqueceram o seu passado, e que este passado está presente, embora com 107 transformações. As comunidades de Acorizal, Fazendinha e Vila Nova Barbecho têm-se organizado, sobretudo, no espaço escolar, e ali tem sido o lugar para praticarem a língua, as danças, cantos e rezas. Isso mostra que eles estão se recusando a desaparecer ou a se identificar, como queriam os opressores, com a população regional. Os Chiquitano brasileiros conseguiram sobreviver fisicamente ao colonialismo e assumem, neste momento, a responsabilidade de reinventar o passado, reelaborando, culturalmente, muito do que lhes foi infligido e tomando parte nessa comunidade cultural, no seu pertencimento étnico. Referências ADELAAR, Willem. Buscando as relações externas do MacroJê. In: IV Encontro Macro-Jê. Comunicação Oral. Recife: NEI / UFPE / ANPOLL, nov., 2005. CASTRO, Pablino Parapaino; JIMÉNEZ, Pedro Ipamo; OLÍVIO, Janneth. Guia del Alfabeto Besuro. La Paz, Bolívia: Viceministerio de Educación Escolarizada y Alternativa, Ministerio da Educación, 2003. DAVIS, Irvine. Comparative Jê Phonology. Estudos Linguísticos: Revista Brasileira de Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, Local, v. 1, n. 2. p. 10-24. 1966. ______. Some Macro-Jê Relationships. International Journal of American Linguistics, Local Chicago, USA, v. 34, n. 1. p. 42-47, jan. 1968. DUNCK-CINTRA, Ema Marta. Vozes silenciadas. 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Mem. am., Ciudad Autónoma de Buenos Aires, n. 109 ANÁLISE DO DISCURSO: REALIDADES E PERSPECTIVAS Nara Maria Fiel de Quevedo Sgarbi1 RESUMO: O objetivo deste trabalho é abordar questões que delineiem o “curso que segue” o discurso sobre os trabalhos de AD na região de Mato Grosso do Sul. A pretensão é, exatamente, tracejar um perfil que permita apreciar o espaço particular destinado aos estudos de AD nas IES e observar como a AD brasileira, que já tem uma história consistente construída há mais de 30 anos, se faz presente nos Grupos de Trabalhos (GTs) do referido Estado. Em outras palavras, o estudo observa os “discursos institucionalizados da AD”, como estão e quais suas perspectivas de expansão. PALAVRAS-CHAVE: Análise do discurso, Perspectivas, Linguagens DISCOURSE ANALYSIS: REALITIES AND PROSPECTS ABSTRACT: This paper aims to approach some questions that outline the course of the works about discourse analysis in Mato Grosso do Sul. It is exactly intended to draw a profile which lets us appreciate the place dedicated to the studies of discourse analysis in the Institutions of Higher Education, and observe how the Brazilian discourse analysis is presented in our Work Groups (WGs) since it has a history for more than 30 years. In other words, this study evaluates “the institutionalized discourses of Discourse Analysis”, how they are nowadays and which are their prospects of expansion. KEYWORDS: Discourse Analysis, Prospects, Languages 1 Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa pela UNESP, docente da UNIGRAN na graduação e pósgraduação. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 111-123 2009 issn 0104-687x Introdução O homem faz uso da linguagem para agir, para se comunicar, trocar conhecimentos e experiências e interagir socialmente, além do que a linguagem é o lugar de conflitos e confrontos. Desse modo, uma vez que há esses usos, ele os concretiza por meio da língua, instrumento fundamental para que possa ser efetivada a necessária interação homemsociedade. Nessa interação, o discurso se constitui como uma prática linguística comunicativa que, por sua vez, é estudada teoricamente pela Análise do Discurso (AD) que busca analisar as construções ideológicas presentes em discursos plurissemióticos. Orlandi (2003, p. 63) afirma que: O discurso é definido não como um transmissor de informação, mas como efeito de sentido entre locutores. Assim, se considera que o que se diz não resulta só da intenção de um indivíduo em informar outro, mas da relação de sentidos estabelecida por eles num contexto social histórico. Podemos, portanto, entender o discurso como uma prática social veiculada sob várias formas de comunicação, de modo a constituir a construção social, sendo analisada considerando o contexto sócio-histórico onde está inserida, refletindo, então, uma visão ampla e determinada do mundo que a cerca. Logo, todas as nossas práticas típicas da linguagem se estabelecem por meio de um texto que é produto de atividade discursiva, marcadas essas práticas pelo discurso. Este texto busca desenvolver uma reflexão sobre a AD enquanto teoria e como está sendo trabalhada no circuito acadêmico do Estado de Mato Grosso do Sul, suas contribuições e perspectivas. Versa também sobre a importância da AD na construção e constituição do discurso e seu “aparecimento” nas estruturas curriculares das Instituições de Ensino Superior – IES desse Estado. Sabemos que as teorias tomadas para os estudos do discurso são importantes construtos para o processo ensino-aprendizagem, pois agem na competência discursiva de cada indivíduo. Assim também é necessário torná-las mais presentes nas linhas de pesquisa do país, em especial em 112 MS, Estado em que se encontram um tanto escassas. Desta forma as análises e pesquisas realizadas sobre a Análise do Discurso serão expostas neste trabalho com o objetivo de abordar questões que demonstrem a própria discursividade do discurso em se tratando das investigações em AD presentes na região de Mato Grosso do Sul. Procura também estabelecer os principais pontos entre realidades e perspectivas para esse Estado, seja no que concerne à disciplina propriamente dita e sua inclusão, ou não, na estrutura curricular dos cursos de Letras, seja no tocante aos GTs que abordam a AD. Isso porque a AD brasileira apresenta uma história consistente, há mais de 30 anos, com a real presença nas IES. 1. Os estudos da Análise de Discurso Surgida na França nos anos sessenta, a Análise do Discurso, tendo o discurso como seu próprio objeto, era difundida na área das Ciências Humanas que tinha o texto em total transparência, isto é, apenas enquanto projeção de uma realidade extradiscursiva, de modo a ser uma transmissão do discurso. Segundo Ferreira (data apud INDUSKY; FERREIRA, 2005), a AD buscava analisar o texto de forma totalitária. Para a AD, a interpretação do texto deveria ser considerada, de acordo com Brandão (1998, p. 19), “[...] o modo de funcionamento linguístico-textual dos discursos, as diferentes modalidades do exercício da língua num determinado contexto histórico-social de produção”; a AD se voltava para a análise detalhada do ato discursivo e para os fatores que contribuíam para o seu sentido. Ao excursionarmos pela história da AD, percebemos as cadeias de pesquisas pelas quais a AD fez passagem para chegar às suas linhas de análise sob o discurso, perpassando por Saussure, Marx, Freud, entre outros, pois, como afirma Gregolin (2003, p. 7): A Análise do Discurso é um campo de pesquisa que tem demonstrado sua fertilidade em inúmeros trabalhos. Fundada por Michel Pêcheux, no final dos anos 60, [...] Propondo a análise das condições de possibilidades do discurso, dos processos discursivos. 113 A Análise do Discurso passou/passa por uma formação discursiva com o objetivo de descortinar como língua e história se relacionam mediante os processos discursivos a que são expostas. Para tanto três campos a permeiam, sendo eles o de Saussure, com seu campo linguístico, o da história, com sua materialidade, e o da psicanálise. Dubois (1978, p. 51) assegura que “A análise do discurso tem como objetos essenciais a relação do falante com o processo de produção das frases ou a relação do discurso com um grupo social a que ele se destina”. Isso indica a necessidade de, ao se trabalhar com a AD, ir além das estruturas linguísticas para alcançar a exterioridade discursiva. Ou seja, a necessidade de se buscar o sentido do discurso em determinada situação comunicativa, para que isso possa fazer com que, de fato, a língua seja pensada e mencionada mediante um discurso construído pelo falante em determinada situação comunicativa. Ou ainda, complementando, de acordo com Milton (2007), a língua se materialize e se revista de intenção. Dessa maneira, temos o conceito de discurso como o resultado de sentidos entre os interlocutores. Assim, quando produzimos um discurso, por estarmos em um lugar social determinado, como argumenta Pêcheux (1983), os efeitos de sentido desse discurso surgem na sua própria construção, o que produz diferenças, uma vez que os enunciadores encontram-se em diferentes lugares sociais, com diferentes formas de entendimentos, defensores de diferentes ideologias, entre tantas outras singularidades. Para produzirmos um discurso, portanto, é necessário observarmos a nós mesmos, ao outro e o que encontramos como referente. Essas percepções é que nos levam a determinar o que dizer, assim como essas percepções é que possibilitam ao outro fazer inferências sobre o que dissemos. Vamos, a partir de agora, refletir um pouco acerca desses dizeres que atravessam a língua materializada e se constituem de intenções. 1.1 Estudos da Análise do Discurso no Brasil Como já pontuamos, podemos perceber que a AD procura desvendar o sentido decorrente do discurso. Logo é 114 um estudo permeado pela complexidade que instiga e demonstra os efeitos que podem ser produzidos na maneira que efetivamos os discursos em diferentes contextos. Em outras palavras, a AD nos possibilita trabalhar em busca dos processos de produção do sentido e de suas determinações histórico-sociais, o que nos favorecerá entender a linguagem como produção social, considerando-se a exterioridade como indispensável. O sujeito, por sua vez, deixa de ser centro e origem do seu discurso para ser entendido como uma construção de significação. Essa possibilidade de desvelar de sentidos tem sua história construída no Brasil, ou seja, a história da AD no Brasil vem se expandindo desde a década de 70, assim como a busca para entender seu espaço teórico e sua construção. Com uma história consistente que vem sendo estruturada há mais de 30 anos e se estende por boa parte do país, a AD foi introduzida em Campinas nos fins da década de 70, tendo como sua precursora a profª. Drª. Eni Orlandi e, graças aos interessados em pesquisar essa linha investigativa, ganhou corpo e se legitimou mediante trabalho oriundo de grupos de pesquisas. Por volta dos anos 80 os estudos ainda eram reduzidos, quando se tratava da AD. Hoje temos uma situação bem diferente, pois existem vários grupos de pesquisas envolvidos no estudo do discurso espalhados em todo o Brasil. Artigos científicos, grupos de trabalhos e grandes encontros são realizados, porém o que ainda está em defasagem é a oferta da disciplina de AD nas estruturas curriculares das Instituições de Ensino Superior, sejam públicas ou privadas, fato estranho que, no mínimo, parece contrariar o avanço que pontuamos há pouco. Dessa maneira percebemos o alavancar das pesquisas em AD ao mesmo tempo em que, inversamente, notamos a falta de um estudo claro e efetivo que busque reforçar a importância de se ter a AD como disciplina de ANÁLISE DO DISCURSO não disfarçada com outras nomenclaturas. No Brasil, a AD trabalha com o discurso nas mais variadas formas, desde os discursos institucionalizados, perpassando pelos discursos diários. Retrospectivamente, segundo Barros (1999), as primeiras bases dos estudos do discurso 115 foram os estudos linguísticos, de modo a relacionar conhecimento da língua e seus discursos pela linguagem humana. O quadro que temos hoje, se comparado há 30 anos, é de que os pesquisadores em AD tomaram fôlego e progrediram para novas pesquisas em várias direções, produzindo o acúmulo positivo de conhecimento sobre tais estudos, o que é relevante. Porém, ainda há a necessidade e cabe pôr em prática e desestabilizar a insipiência das estruturas curriculares, reforçando os estudos da AD como disciplina de importância para o estudo do discurso e tornando-a terreno fértil para pesquisas e experiências linguísticas. Pensamos que assim surgiria ainda mais a oportunidade de se trabalhar esse novo objeto de estudo, de modo a construir um campo discursivo próprio e caracterizá-lo em sua estrutura e significação discursiva. É importante ressaltar que, além de suas contribuições teóricas, a AD desempenha um papel social, na medida em que contribui para o conhecimento do discurso, da cultura e da identidade brasileira. Como afirma Barros (1999, p. 8), “As investigações sobre o discurso têm por preocupação auxiliar para que se conheça melhor, por meio da linguagem, a sociedade brasileira”. Desse modo se confirma que, ao produzirmos um discurso, produzimos linguagem e sentido, e esse resultado é que nos favorecerá identificar a sociedade brasileira em seus diferentes discursos desde o institucional ao religioso. Barros (1996, p. 4) afirma ainda que “[...] os estudos dos textos orais no Brasil têm-se efetuado, sobretudo, nas perspectivas textual-interativa e/ou conversacional da conversação, da sociolinguística interacional”, trabalho que envolve grupos de pesquisa localizados em várias IES. Dessa forma, fica visível o quão é importante a AD e como vem se expandindo no Brasil, de modo a envolver-se em várias linhas de pesquisa que também são importantes para verificarmos o funcionamento e a estruturação dos textos, pois o enfoque centrado na AD busca entender cada discurso produzido por diferenciados falantes. Ao lançarmos um discurso, portanto, fazemos uso corrente da língua, assim nos direcionamos a uma análise, passamos a levantar a busca de sentidos de qualquer discurso 116 que realizamos, pois desde uma simples informação sobre horas até um texto jornalístico, por exemplo, são produtos férteis de pesquisa. Diante do exposto, iremos mencionar como estão os estudos da AD em Mato Grosso do Sul, a realidade e as perspectivas para esse campo de pesquisa tão rico em material e pouco estudado sistematicamente. 2. Como estão os estudos de Análise de Discurso em Mato Grosso do Sul? Com 30 anos de existência, Mato Grosso do Sul, por ser um Estado jovem, possui um número interessante de IES, entre públicas e privadas. Por ser um Estado que abriga várias pessoas de outros Estados brasileiros, até mesmo de outros países, com uma pluralidade cultural ampla, acaba por formar uma grande mistura de povos com diversos falares e costumes, transpondo para esse novo ambiente uma nova identidade fervilhante de sentidos diversos. Desse modo, como pontua Orlandi (2003, p. 62-63): A análise do discurso introduz, através da noção de sujeito, a de ideologia e a de situação social e histórica. Ao introduzir a noção de história vai trazer à reflexão as questões de poder e das relações sociais. O discurso é definido não como transmissor de informação, mas como efeito de sentido entre locutores. Assim, se considera que o que se diz não resulta só da intenção de um indivíduo em informar outro, mas da relação de sentidos estabelecidos por eles num contexto social e histórico. Observamos que a Análise do Discurso, mediante a produção de sentido que o discurso entre interlocutores realiza, passa a resgatar e construir um contexto histórico, e é pela miscigenação de culturas e falares que se trabalha a pluralidade presente em uma sociedade. Mediante essa base do discurso é que nos questionamos: Como estão os estudos da AD em MS? Primeiramente analisaremos como a disciplina de AD circula nas estruturas curriculares dos cursos de Letras e logo depois direcionaremos nosso olhar aos grupos de 117 estudos. No que tange aos estudos da AD em MS, podemos perceber certas lacunas, uma vez que existe hoje em MS um total de quarenta (40) IES entre públicas e privadas. Dessas quarenta (40), apenas trinta (30) oferecem o curso de Letras e ainda dessas trinta (30), apenas seis (6) possuem a disciplina de AD com a referida nomenclatura em suas estruturas curriculares. Estes são dados que indicam a necessidade de melhorias no campo de pesquisa tomado pela AD, assim como o desenvolver de um trabalho voltado à disciplina em foco. Gráfico 1 – IES em Mato Grosso do Sul/Letras Fonte: Sgarbi, 2008. Gráfico 2 – IES que ofertam a disciplina de AD Fonte: Sgarbi, 2008 118 Podemos afirmar, com base em levantamentos recentes feitos junto ao INEP, que um pequeno número de IES possui a AD em sua estrutura curricular, o que denota que, apesar dos avanços que a AD teve no Brasil, ainda há muito que melhorar em se tratando de ensino, pois poucos grupos de estudos trabalham com a AD. Hoje, dentre os vários grupos de pesquisa existentes no Brasil, os GEPADS, em constante atividade, o que temos no Estado de MS são apenas três (3) grupos de pesquisa voltados à AD: na UFMS, o GT Identidade e Discurso: história, instituições e práticas, tendo como líder a Profª. Drª. Vânia Maria Lescano Guerra; na UEMS, o GT Núcleo de Estudos em Análise do Discurso, que tem como líder o Prof. Dr. Marlon Leal Rodrigues; e na UNIGRAN, o GT Grupo de Estudos de Análise do Discurso de Dourados (GEAD), tendo como líder a Profª. Drª. Nara Maria Fiel de Quevedo Sgarbi. Gráfico 3 – IES que possuem GTs Fonte: Sgarbi, 2008. Esses dados confirmam como deixa a desejar essa linha de estudo no referido Estado, com poucos pesquisadores fluentes nesse campo, no qual todo e qualquer discurso se torna produto de análise que busca o sentido entre as interlocuções comunicativas. Procurar expandir a AD em Mato Grosso do Sul é um desafio, e o primeiro passo, cremos, seja fazer a sua inclusão nas estruturas curriculares dos cursos de Letras, uma vez que tal atitude poderá disseminar novos grupos de 119 trabalhos que ultrapassem as fronteiras e acresçam novos conhecimentos. Observamos, diante dos dados expostos, que as IES aparentam não se envolver tanto com os estudos da AD; precisamos resolver essa “falha” e reformular ideias de modo a mostrar a importância da AD. Entendemos que a AD vai além de uma simples interrelação comunicativa entre sujeito e fala, mas extrai a real unidade de valor, o sentido que essa comunicação produz em diferentes contextos. Portanto a AD se preocupa em analisar construções ideológicas presentes em um determinado texto, ou seja, o discurso passa ser a prática social da produção de textos, uma vez que todo discurso é uma construção social, não individual. Assim pode ser analisado segundo seu contexto histórico-social, e MS, como toda a diversidade cultural que lhe é própria, se torna campo fecundo para as investigações da AD. 2.1 Perspectivas para a AD em MS Segundo os dados levantados na pesquisa, o desenvolvimento dos estudos da AD em MS deixa a desejar, se for comparado ao que vem sendo feito em outras regiões do Brasil. O Estado, apesar de ter um número considerável de IES e cursos de Letras sendo oferecido, precisa dar um salto em relação aos estudos sobre a AD. Pesquisadores da área da Linguística precisam se dedicar mais e mostrar o quão são importantes os estudos da AD para MS. É necessário pensar e pôr em prática estudos relacionados a AD, fazer com que o rico material linguístico que temos seja, efetivamente, aproveitado, e os estudos na referida área se expandam e possibilitem interlocuções institucionais, pois, como indica Gregolin (2003, p. 67): . Compreender o discurso é passar da funcionalidade, é descobrir como a língua pode estar acumulando ou traçando significados de outrem, da intenção de outrem, e tentar delinear o discurso com outros significados que não aqueles do seu enunciador; é despir a língua de um vestuário e lhe dar outro. Assim a língua, esse mecanismo vivo, em constante processo de mutação, traz sempre a cada novo discurso uma ca120 deia significativa de sentidos. Há que se buscar novas formas de entender e compreender o discurso produzido entre seus interlocutores, pois, se a língua é instrumento para comunicação, o discurso se dá por meio de um determinado contexto, desde que esteja relacionado às intenções do falante. E é isso que necessitamos resgatar nos estudos da AD em MS. Portanto nos questionamos: Mas o que falta ainda para a AD em MS? Acreditamos que precisamos romper as barreiras para buscarmos novos desafios em um campo de pesquisa tão propício como o que temos ao nosso dispor. Precisamos desvendar enigmas de sentidos e notar os fatores que contribuem para que essa intervenção no discurso seja processada. Assim os estudos voltados para a AD poderão contribuir para pesquisas produtivas no Estado de Mato Grosso do Sul. Considerações finais Observamos, em presença dos dados expostos, brevemente expostos, que o envolvimento com os estudos da AD em MS, um construto teórico tão importante para compreender os teares do pensamento e da linguagem do homem, parece ter sido meio relegado ou posto à margem das estruturas curriculares, na própria formação de GTs, na disseminação das pesquisas, entre outros “fazeres”. Precisamos, assim, reformular ideias de modo a mostrar a importância da AD, pois se o discurso é a função de uso da língua em determinado contexto, materialmente relacionado às intenções dos falantes, se os estudos do discurso são imprescindíveis para o ensino-aprendizagem da competência discursiva, como podemos, nós, pesquisadores, nos furtarmos à tarefa de decompor a fragilidade percebida? Carecemos, neste momento, recordar de uma fala de Freud, quando citava a questão da FALTA; para o referido teórico, a nossa relação com o mundo não se dá por intercessão dos objetos, da existência deles, mas pela falta desses. Talvez o que marque a presença da AD, sua força e sua relação entre nós seja justamente a falta que a funda e o que ela traz de mais próprio. O que falta então à AD continua a construir enigma, e no espaço dessa decodificação seguimos buscando respostas. 121 Cremos ser a partir dessa falta que poderemos romper as barreiras e sermos singulares em meio à pluralidade, singularidade no sentido de tomarmos posicionamentos, um a um, em nossos grupos e IES. Isso se não nos fecharmos em nossos “castelos dogmáticos” institucionais e de grupos e vislumbrarmos a necessidade de uma formação discursiva que, de maneira consistente, se discursivise em movimento, em percurso produtivo para os estudos em AD no Estado de Mato Grosso do Sul. Temos que agir, refletir, agir... porque pensar e agir sobre o pensar não mata, muito pelo contrário, cria vida. Referências BARROS, D. L. de. Reflexões sobre os estudos do texto e do discurso. Língua e literatura, São Paulo: USP, n. 22, 1996. ______. Estudos do texto e do discurso no Brasil. DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada. São Paulo: LAEL-PUC/SP, 1999. BRAITH, Beth. 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That’s why coherence between ontology and epistemology is required. Fairclough’s CDA version establishes an interdisciplinary relation with Critical Realism. This dialogue brings both ontological and epistemological consequences. KEYWORDS: Critical Discourse Analysis, Critical Realism, Epistemology 1 Doutora em Linguística pela Universidade de Brasília e docente da Universidade Católica de Brasília. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 125-140 2009 issn 0104-687x Introdução: ontologia e epistemologia Neste trabalho, apresento reflexões acerca da relação interdisciplinar estabelecida entre a Análise de Discurso Crítica (ADC) e o Realismo Crítico (RC)2. Minhas reflexões baseiam-se nos conceitos de ontologia e de epistemologia, apontando para a relação ADC/RC e para a relação ADC/Etnografia. A ontologia diz respeito ao modo como se entende a natureza do mundo social, aos componentes essenciais da realidade social. Embora a essência do mundo social possa parecer fundamental e evidente, há perspectivas ontológicas alternativas, diferentes percepções acerca do que compõe a realidade social. Não há uma verdade universal que possa ser tomada como tácita; a adoção de uma perspectiva ontológica clara do mundo social deve então ser o primeiro passo na definição de um planejamento de pesquisa (MASON, 2002). A epistemologia, por sua vez, é definida como “[...] o estudo da natureza e dos fundamentos do saber” (LAVILLE; DIONNE, 1999, p. 332). Para Páramo e Otálvaro (2006, p. 3), a postura epistemológica refere-se ao “[...] conjunto de pressuposições das quais nos valemos para nos orientar na busca do conhecimento”. A epistemologia diz respeito aos modos por meio dos quais a realidade social pode ser conhecida, ao que se considera como evidência ou conhecimento das coisas sociais. O modelo epistemológico adotado em uma pesquisa precisa ajudar a produzir conhecimentos acerca dos componentes ontológicos do mundo social, de acordo com a versão da ontologia considerada para a pesquisa. Por isso, em uma pesquisa, é necessário haver correspondência entre as perspectivas ontológica e epistemológica. A versão de ADC de Fairclough está ligada à ontologia da vida social desenvolvida no Realismo Crítico. De acordo com esse diálogo interdisciplinar, a relação entre práticas sociais e ordens do discurso e o foco na estruturação social 2 Este ensaio é fruto da investigação Análise de Discurso Crítica e etnografia: o movimento nacional de meninos e meninas de rua, sua crise e o protagonismo juvenil, realizada como pesquisa de doutoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade de Brasília, com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes. Algumas das reflexões feitas aqui também constam do artigo Entre a análise discursiva crítica e a crítica explanatória: a crise do movimento nacional de meninos e meninas de rua e o protagonismo juvenil, apresentado no II Colóquio da ALED no Brasil e em vias de publicação. Essas reflexões são ampliadas e aprofundadas no livro Análise de Discurso Crítica e Realismo Crítico, a ser publicado pela Editora Pontes em 2009. 126 das práticas implicam que os recursos e constrangimentos das estruturas sociais também incidem sobre a estruturação do potencial semiótico, e essa estruturação tem efeito na configuração dos eventos discursivos. Assim como discursos contextualmente localizados podem ser explicados em termos causais, podem também ser identificados como tendo poderes causais em eventos. É isso o que justifica a perspectiva de relação dialética entre linguagem e sociedade, reivindicada pela ADC e nem sempre claramente formulada. 1. Análise de Discurso Crítica e Realismo Crítico Em outra ocasião, já discuti a heterogeneidade da ADC em termos das diversas versões teórico-analíticas que se identificam com o rótulo (RESENDE, 2008a, p. 425): Trata-se de um corpo teórico e um conjunto de métodos porque não há unidade de abordagem sob o rótulo ADC, ao contrário, há uma variedade de propostas baseadas em diferentes relações transdisciplinares entre a Lingüística e as Ciências Sociais (por exemplo, Chouliaraki & Fairclough (1999) voltam-se para a Sociologia; van Dijk (1996) propõe uma articulação voltada para a Psicologia Social e Wodak (1996) sugere uma articulação com a História). É necessário, portanto, quando se fala em ADC, que se defina com clareza de que ADC se fala3. Minhas reflexões aqui estão voltadas para a ADC desenvolvida por Fairclough. E a versão de ADC de Fairclough está ligada à ontologia da vida social desenvolvida no Realismo Crítico. A relação entre a ADC e o RC já aparece em Discourse in late modernity (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999), mas é em Analysing discourse que Fairclough (2003) deixa suficientemente clara sua filiação ao RC: A perspectiva social em que me baseio é realista, baseada em uma ontologia realista: tanto eventos sociais concretos como estruturas abstratas, assim como as menos abs3 Opto pela tradução “Análise de Discurso Crítica” para Critical Discourse Analysis, em lugar de “Análise Crítica do Discurso”. Justifico minha escolha pela tradição histórica dos estudos discursivos no Brasil, consolidados com o rótulo “análise de discurso”. Tome-se como mais um argumento – este diretamente ligado à tradução do termo em si – o texto de van Dijk (1996), em que ambas as formas aparecem: Critical Discourse Analysis” (p. 84) e “Critical Analysis of Discourses” (p. 102). Parece-me coerente traduzir a primeira por “Análise de Discurso Crítica” e a segunda por “análise crítica de discursos”. Para uma reflexão mais detida sobre isso, ver Magalhães (2005). 127 tratas ‘práticas sociais’ são parte da realidade. Podemos fazer uma distinção entre o potencial e o realizado – o que é possível devido à natureza (constrangimentos e possibilidades) de estruturas sociais e práticas, e o que acontece de fato. Ambos precisam ser distinguidos do empírico, o que sabemos sobre a realidade. [...] A realidade (o potencial, o realizado) não pode ser reduzida a nosso conhecimento sobre ela, que é contingente, mutável e parcial (FAIRCLOUGH, 2003, p. 14, grifos meus). Nessa citação, Fairclough faz referência à estratificação da realidade social nos estratos potencial, realizado e empírico, proposta por Bhaskar (1989)4. Ao nível do potencial, correspondem os objetos sociais com suas estruturas e poderes gerativos; o realizado diz respeito ao modo como objetos sociais são configurados em um contexto; e o estrato empírico refere-se ao que podemos observar dos objetos sociais, suas estruturas e poderes gerativos e do modo como se configuram em um contexto. 2. Estratificação da realidade social Distinguir entre potencial e realizado significa reivindicar um status de realidade para as estruturas sociais que, embora não sejam diretamente observáveis, podem ser conhecidas por seus efeitos em eventos. Nesse sentido, Bhaskar e Lawson (1998, p. 5) afirmam que: [...] realidade é constituída não apenas de experiências e do curso de eventos realizados, mas também de estruturas, poderes, mecanismos e tendências – de aspectos da realidade que geram e facilitam eventos realizados que nós podemos (ou não) experienciar. O empírico, por sua vez, é definido como o domínio da experiência, da observação, é aquilo que nós efetivamente observamos dos efeitos das estruturas, das potencialidades 4 Bhaskar (1989) utiliza os termos real, actual e empirical para se referir aos três estratos da realidade. Quanto ao nível do que Bhaskar designa real, preferi utilizar a nomenclatura “potencial”, conforme adaptação de Fairclough (2003). Isso porque entendo que, por um lado, “potencial” designa com maior clareza o que se entende pelo estrato da realidade relacionado aos poderes dos objetos sociais, potencialmente ativados em eventos realizados e, por outro lado, porque a designação desse estrato como “real” pode levar a uma interpretação de que os dois outros estratos seriam menos “reais”, sentido não pretendido na teoria. Quanto ao nível do actual, a despeito de haver traduções como “atual”, considero essa tradução equivocada porque “atual” em português não carrega o mesmo significado de actual em inglês, que se refere ao que “se atualiza” de fato em um dado evento. Por isso preferi a tradução por “realizado”. Essas traduções são mantidas nas citações de originais em inglês. 128 e das realizações. Por isso empírico define-se como categoria epistemológica, enquanto o potencial e o realizado são categorias ontológicas. A respeito dessa distinção, Sayer (2000a) nos ensina que nossa capacidade de observar efeitos e ações sociais não esgota o que poderia existir ou de fato existe, ou seja, o empírico não é correspondente nem ao potencial nem ao realizado, embora a observação possa nos ensinar sobre o que se realiza e sobre o que se poderia realizar. Ao contrário de uma abordagem realista ingênua, que consideraria o que existe como equivalente ao que poderia existir, e o objeto empírico como separado de nosso conhecimento sobre ele, Bhaskar (1989) propõe uma ontologia estratificada do mundo social. O domínio do potencial referese ao que quer que exista, “[...] independentemente de ser um objeto empírico para nós e de termos uma compreensão adequada de sua natureza” (SAYER, 2000b, p. 9). O potencial refere-se também às estruturas internas e poderes causais dos elementos sociais, isto é, à capacidade de se comportarem de maneiras particulares, suas tendências e suscetibilidades a certas mudanças. O empírico, por fim, é definido como o domínio da experiência, da observação; é aquilo que nós efetivamente observamos dos efeitos das estruturas, das potencialidades e das realizações. Assim a diferença do RC em relação a um realismo empírico é que nossa capacidade de observar efeitos e ações sociais não esgota o que poderia existir ou de fato existe, ou seja, o empírico não é correspondente nem ao potencial nem ao realizado, embora a observação possa nos ensinar sobre o que se realiza e sobre o que se poderia realizar – o acesso ao potencial e ao realizado por meio da observação é “contingente”: não é impossível, mas também não é garantido (SAYER, 2000b). 3. Modelo transformacional da atividade social Para o RC, a emergência é uma característica do mundo: a conjunção de certas condições em um dado contexto dá origem a novos processos que têm características irredutíveis às de seus constituintes (SAYER, 2000a). A irredutibilidade é consequência da abertura do social que garante que as relações entre (redes de) práticas seja um equilíbrio provisório, 129 nunca acabado – o que é realizado em um dado momento é dependente de que poderes causais são ativados. A centralidade do conceito de práticas é decorrente do tipo de relação estabelecida entre estruturas sociais e a atividade social. Em suas atividades na sociedade, as pessoas realizam uma dupla função: “[...] elas não devem fazer apenas produtos sociais, mas produzir também as condições da produção de produtos sociais, isto é, reproduzir (ou, em maior ou menor grau, transformar) as estruturas que governam suas atividades substantivas de produção” (BHASKAR, 1998, p. 218). Isso significa que as estruturas sociais são também resultado da ação social e, portanto, são também possíveis objetos de transformação. Uma perspectiva das estruturas sociais como objetos reais e como produtos sociais é indispensável à ciência crítica, pois de outro modo não há como propor a possibilidade de mudança social. Estrutura sociais, então, existem em função das atividades que governam. Mas a relação entre estrutura e ação não é dialética, e sim transformacional, isto é, “[...] não constituem dois momentos de um mesmo processo” (BHASKAR, 1998, p. 214). Dizer que não constituem dois momentos de um mesmo processo significa dizer que não são simultâneas, que há uma assimetria entre esses dois elementos, pois as estruturas são sempre prévias à ação. As sociedades são sempre prévias aos indivíduos, que nunca a criam, apenas a reproduzem ou transformam. Assim como as estruturas sociais são concebidas como coerção da atividade, devem também ser concebidas como recurso para a atividade, o que implica o caráter recursivo da vida social: agentes reproduzem e transformam as estruturas que utilizam (e que os constrangem) em suas atividades. A Figura 1, a seguir, ilustra o modelo transformacional de Bhaskar: Figura 1 – Modelo transformacional da atividade social Fonte: Figura baseada em BHASKAR, 1998, p. 217. 130 De acordo com esse modelo, a sociedade, por um lado, sempre provê as condições necessárias e indispensáveis para a ação intencional humana e, por outro lado, só existe nas ações humanas, que sempre utilizam alguma forma preeexistente de ordem social. A concepção realista crítica da relação entre estrutura e ação, então, enfatiza que as estruturas sociais são condição necessária e preexistente à agência intencional, mas também que elas existem apenas em virtude da agência. As estruturas são tanto a condição (sincrônica) quanto o resultado (diacrônico) da ação social. Que recursos e constrangimentos presentes nas estruturas sociais são produto da ação (já que não há estrutura sem ação, segundo Bhaskar) não significa que estruturas e ações possam ser colapsadas uma na outra (SAYER, 2000b). Assim o modelo transformacional, quando reivindica a assimetria entre estrutura e ação social, está focalizando a historicidade da mudança social, incluindo tanto os recursos e os constrangimentos para a ação quanto a transformação das estruturas sociais no tempo. Toda atividade social pressupõe condições estruturais sincrônicas e possui um potencial para transformar diacronicamente essas mesmas condições. A Figura 2 ilustra essa relação assimétrica entre estrutura e ação: Figura 2 – Relação sicrônica/diacrônica entre estrutura e ação Fonte: RESENDE, 2009, p. 28. Essa assimetria implica também que a relação entre estrutura e ação não é de equivalentes, o que aponta a necessidade de entidades intermediárias. Essas entidades mediadoras da relação entre estrutura e ação são as práticas sociais. 131 4. Práticas sociais e ordens do discurso O conceito de práticas sociais garante o foco nas condições estruturais para a ação, isto é, possibilita que não se perca de vista nem a estrutura nem a ação e que se tenha em mente o tipo de relação transformacional entre ambas. O modelo transformacional da atividade social, aliado à perspectiva da vida social como um sistema aberto em que diversos mecanismos operam em simultâneo, também garante que, embora as atividades sejam restringidas pelas estruturas – em termos materiais e simbólicos –, essa restrição é sempre parcial, no sentido de que há possibilidades para a mudança social. Chouliaraki e Fairclough (1999) e Fairclough, Jessop e Sayer (2002) operacionalizam essa abordagem para construírem a ontologia que orienta a versão de ADC que discuto aqui. Além da concepção da realidade estratificada, captam a conceituação da vida social como um sistema aberto e a noção de mundo social como constituído de redes de práticas articuladas. As práticas são constituídas na vida social, nos domínios da economia, da política e da cultura, incluindo a vida cotidiana (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999). Práticas sociais, em ADC, são conceituadas como caracterizadas pela articulação de quatro elementos: discurso, relações sociais, fenômeno mental (crenças, valores, desejos, ideologias) e atividade material. É importante ressaltar que nessa ontologia se mantém a noção essencial de que esses elementos da prática, embora em relação de interiorização, não se podem reduzir um ao outro. A irredutibilidade dos momentos da prática significa (i) que os momentos das práticas sociais não podem ser reduzidos ao discurso e (ii) que uma alteração na configuração interna de um momento causa uma alteração na configuração da prática. Entender os processos discursivos como contextualizados em práticas sociais implica localizá-los em sua relação com pessoas, relações sociais e mundo material, lembrando que, embora os aspectos discursivos das práticas sociais sejam cruciais para sua configuração, não exaurem todos os aspectos dessas práticas. Os componentes ontológicos do mundo social, nessa perspectiva, são: estruturas e 132 ações sociais, práticas, posições e relações sociais, eventos, identidades, ideologias, discursos, textos. Essa ontologia é coerente com a discussão de Chouliaraki e Fairclough (1999) acerca do continuum entre estruturas, práticas e eventos. Estruturas sociais são entidades abstratas que definem um potencial, um conjunto de possibilidades para a realização de eventos. Mas a relação entre o que é estruturalmente possível e o que acontece de fato não é simples, pois eventos não são efeitos diretos de estruturas: a relação entre eles é mediada por “entidades organizacionais intermediárias”, as práticas sociais (FAIRCLOUGH, 2003, p. 23). Assim pode-se dizer que estruturas, práticas e eventos estão em um continuum de abstração/concretude. Figura 3 – Práticas sociais como conceito mediador entre estrutura e ação Fonte: Figura elaborada por esta pesquisadora, 2009. Em termos especificamente discursivos, pode-se dizer que, ao nível de abstração da estrutura, correspondem os sistemas linguísticos (incluindo tanto o léxico e a gramática quanto o sistema ideacional e o sistema interpessoal) e, ao nível de concretude do evento, correspondem os textos produzidos em interações (FAIRCLOUGH, 2000). O que do potencial dos sistemas linguísticos será ativado no evento discursivo depende da configuração de (redes de) práticas de que o momento discursivo é parte, ou seja, a instanciação do potencial semiótico é organizada nas práticas sociais. Ao nível das práticas, então, corresponde a categoria organizacional intermediária da ordem do discurso: [...] em termos do Realismo Crítico, a lacuna entre o potencial dos sistemas semióticos e as facetas semióticas de eventos realizados é tamanha que outra estrutura 133 precisa ser proposta em um nível mais baixo de abstração, isto é, mais perto do concreto (FAIRCLOUGH, JESSOP; SAYER, 2002, p. 9). Assim como a relação entre o potencial presente nas estruturas sociais e a concretização de eventos é mediada pelas práticas sociais, também a relação entre o potencial dos sistemas linguísticos e os textos produzidos em eventos discursivos é mediada pelas ordens do discurso que se referem a permanências relativas de aspectos discursivos em práticas sociais específicas. Estabelecidas as conexões entre os conceitos de estrutura e sistema linguístico, prática social e ordem do discurso, evento social e texto, a relação entre a estruturação da sociedade e a estruturação de seu potencial semiótico/discursivo pode ser ilutrada como sugere a Figura 4, a seguir: Figura 4 – Organização social do potencial semiótico Fonte: RESENDE, 2009, p. 33. Na Figura 4, as categorias intermediárias de prática social e de ordem do discurso aparecem ligadas porque a estruturação do potencial discursivo somente pode ser estudada e entendida em relação a práticas sociais específicas: as práticas sociais, ligadas a campos específicos da atividade social, organizam e articulam, de modos relativamente estáveis, o potencial discursivo disponível para eventos discursivos nas atividades inerentes a essas mesmas práticas. A configuração de elementos discursivos em textos depende, portanto, das práticas sociais articuladas, por isso as duas categorias intermediárias de práticas sociais e de ordens do discurso explicam a relação entre linguagem e sociedade. Assim como eventos podem criativamente confrontar as expectativas presentes em práticas sociais estruturadas e, então, produzir mudança social, também textos como eventos discursivos contextualizados podem transgredir a ordem do discurso, produzindo transformações na relação entre gêneros, discursos e estilos. 134 A mudança no momento discursivo de práticas é tanto efeito de mudanças sociais mais amplas como pode ter efeito na estruturação social. À ADC interessam tanto os modos como práticas sociais conformam ordens do discurso quanto os modos como mudanças articulatórias em ordens do discurso ligadas a práticas específicas podem configurar mudanças também em seus aspectos não-discursivos. A relação entre práticas sociais e ordens do discurso e o foco na estruturação social das práticas implicam que os recursos e constrangimentos das estruturas sociais também incidem sobre a estruturação do potencial semiótico, e essa estruturação tem efeito na configuração dos eventos discursivos. Assim como discursos contextualmente localizados podem ser explicados em termos causais, podem também ser identificados como tendo poderes causais em eventos. É isso o que justifica a perspectiva de relação dialética entre linguagem e sociedade, reivindicada pela ADC e nem sempre claramente formulada. Por um lado, aspectos discursivos de práticas sociais podem ter efeitos causais na sociedade; podem, por exemplo, legitimar certos modos de ação ou ser utilizadas como base para construções identitárias. Por outro lado, a colonização de diferentes práticas sociais por certas representações discursivas e sua presença em diferentes tipos de texto e a configuração de ordens do discurso em práticas particulares são também resultados de poderes causais, no sentido de que a organização dos elementos discursivos em práticas é socialmente estruturada. 5. Implicações epistemológicas Como vimos, o que se realiza em eventos e o que podemos observar do mundo social não esgotam o que existe, uma vez que há poderes causais subjacentes às estruturas. Isso não significa que não seja possível gerar conhecimento sobre aquilo que não podemos, diretamente, observar, já que podemos, com base no conhecimento sobre as práticas, fazer abstrações sobre os poderes causais ativados/ bloqueados em um dado evento. Se a vida social é um sistema aberto, aquilo que acontece não esgota o que poderia ter acontecido, pois pode haver poderes causais latentes. A abordagem realista das estru135 turas sociais e da relação transformacional entre estrutura e ação justifica a existência da ciência crítica que crê que sua prática teórica possa resultar na superação de questões problemáticas. Essa perspectiva se alinha com a ADC, em sua perspectiva como prática teórica crítica. O Modelo Transformacional da Atividade Social garante que, apesar do constrangimento das atividades pelas estruturas, essa restrição é sempre parcial, no sentido de que há possibilidades para a mudança social. Em termos epistemológicos, isso significa que é possível propor projetos de pesquisa emancipatórios, capazes de revelar: “(a) uma necessidade; (b) algum obstáculo impedindo a realização dessa necessidade; (c) alguns meios para a remoção desse obstáculo” (COLLIER, 1994, p. 183). Tendo em vista a figura que ilustra, em termos ontológicos, o modelo transformacional da relação estrutura/ação (BHASKAR, 1998, p. 217, Figura 1), posso propor a Figura 5, a seguir, como uma ilustração da implicação epistemológica desse modelo transformacional para pesquisas sociais: Figura 5 - Implicação epistemológica do modelo transformacional da atividade social Fonte: RESENDE, 2009, p. 78. Assim pesquisas comprometidas com a mudança social podem se basear epistemologicamente no Modelo Transformacional da Atividade Social de Bhaskar (1989), visando identificar necessidades não-satisfeitas de atores sociais envolvidos nas práticas estudadas, mecanismos que possivelmente bloqueiem a satisfação dessas necessidades, em termos das estruturações sociais, e modos potenciais para a superação desses mecanismos e, então, de transformação dos aspectos estruturais considerados problemáticos. Nas palavras de Collier (1994, p. 182), “[...] a ciência social não 136 leva em conta apenas as crenças e suas relações causais com as estruturas, ela também revela necessidades humanas, suas frustrações e as relações entre essas necessidades e essas frustrações e a estrutura social”. Esse modelo serve de inspiração ao enquadre para ADC proposto por Chouliaraki e Fairclough (1999), notadamente nas etapas em que a autora e o autor sugerem que se identifiquem, em relação ao problema social parcialmente discursivo estudado, obstáculos para serem superados, a função do problema na prática e possíveis modos de se ultrapassarem os obstáculos. Sobre a relação entre o enquadre para ADC de Chouliaraki e Fairclough e o RC, veja também Ramalho (2006) e Papa (2008). À guisa de considerações finais O planejamento da metodologia de uma pesquisa não deve decorrer diretamente do campo social pesquisado e/ ou dos objetivos iniciais da pesquisa; deve, antes, ser resultante da reflexão acerca das perspectivas ontológica e epistemológica adotadas (MASON, 2006). Se o objetivo de uma pesquisa é explorar as relações entre atividades, relações sociais, ideologias e discursos em uma prática social específica, então essa pesquisa apresentará inconsistências caso se baseie em uma epistemologia segundo a qual apenas o que é produzido no momento discursivo das práticas é passível de conhecimento. Se concordamos que ações e processos sociais são passíveis de conhecimento e se queremos entender a relação entre eventos, práticas e estruturas sociais, então só o discurso não definirá um bom projeto: é preciso lançar mão de relações interdisciplinares, o que inclui reflexão epistemológica. Análises discursivas críticas baseadas apenas em dados documentais não conseguem realizar epistemologicamente todo o potencial da perspectiva ontológica adotada pela ADC, baseada em uma realidade social estratificada composta de redes de práticas. Por isso a Etnografia mostra-se um paradigma de pesquisa coerente com essa versão de ADC. Nesse sentido, Fairclough, Jessop e Sayer (2002, p. 2) sugerem que “[...] pode ser necessário ou apropriado su137 plementar a ADC com análises mais concretas-complexas dos domínios extradiscursivos”, assim como Wodak (2003) insiste que o trabalho de campo é desejável para se explorar o objeto da investigação e como condição prévia para trabalhos de análise. Mas Blommaert (2005, p. 233) vai além. Compartilho sua opinião quando sugere o caráter central da contextualização para pesquisas discursivas e propõe a etnografia como meio para tanto: Precisamos desenvolver uma abordagem ampla da linguagem na sociedade, em que a contextualização do discurso seja um elemento central. Se tomamos contexto seriamente, então precisamos investigá-lo seriamente. Isso significa que precisamos adotar um registro eclético de abordagens e métodos capaz de captar a complexidade do discurso como local de desigualdade. Para isso a etnografia é central: uma perspectiva da linguagem como intrinsecamente ligada a contexto e atividade humana. Para análises discursivas lograrem críticas explanatórias, é indispensável um conhecimento contextual capaz de possibilitar o estabelecimento das relações entre representações discursivas e práticas sociais. Isso endossa a relação desejável entre ADC e etnografia. Pesquisas em ADC costumam recorrer a uma ontologia complexa que entra em descompasso com metodologias, por vezes, incapazes de responder a essa complexidade de relação entre linguagem e sociedade. Não basta identificar desejos, motivações – e mesmo ações – de atores sociais em relação a um objetivo de mudança social, porque a efetividade dos projetos pessoais/institucionais depende dos modos como se relacionam com contingências contextuais, com as possibilidades apresentadas nos contextos em que sua atividade social se desenrola. Isso justifica explanações causais: o que há nos contextos pesquisados que permite ou bloqueia o sucesso de uma ação intencional? 138 Referências BHASKAR, R. The possibility of naturalism. A philosophical critique of the contemporary human sciences. Hemel Hempstead: Harvester Wheatsheaf, 1989. _____. Societies. In: ARCHER, M. et al. (Orgs.). Critical realism. Essential readings. London; New York: Routledge, 1998. p. 206-57. BHASKAR, R.; LAWSON, T. Introduction: basic texts and developments. In: ARCHER, M. et al. (Orgs.). Critical realism. Essential readings. London; New York: Routledge, 1998. p. 3-15. BLOMMAERT, J. Discourse. A critical introduction. Cambridge: Cambridge University Press, 2005. CHOULIARAKI, L.; FAIRCLOUGH, N. Discourse in late modernity. Rethinking critical discourse analysis. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1999. COLLIER, A. Critical realism. An introduction to Roy Bhaskar’s philosophy. London: Verso, 1994. FAIRCLOUGH, N. 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Conceitos sobre “poderes causais” e “agentes causais” fornecem uma visão crítica sobre os contextos micro e macrossocial. Apresenta também parte da pesquisa que está sendo desenvolvida, desde 2006, no Centro Socioeducativo do Complexo Pomeri, em Cuiabá/MT. Através da participação coletiva nos grupos de estudos, com os professores, busca-se identificar e analisar as impressões, motivações e atitudes de uma professora de espanhol. Os dados foram coletados através de conversas informais, incluindo narrativas de suas histórias de vida. PALAVRAS-CHAVE: Realismo Crítico, Análise Crítica do Discurso, Emancipação e Transformação Social CRITICAL REALISM AND CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS: INTERDISCIPLNARY REFLECTIONS FOR LANGUAGE TEACHER EDUCATION IN PROCESS OF EMANCIPATION AND SOCIAL TRANSFORMATION ABSTRACT: This paper presents some interdisciplinary reflections about Critical Realism and Critical Discourse Analysis that can contribute to language educators in the process of emancipation and social transformation. Concepts of ‘causal powers’` and ‘causal agents’ provide a critical view of micro and macro social contexts. I also present part of my research study in development since 2006 in the Social Educative Center of Pomeri Complex in Cuiabá, 1 Doutora em Lingüística Aplicada em Estudos da Linguagem pela PUC∕SP. É docente do Departamento de Letras da UNEMAT e colaboradora do Programa de Mestrado em Estudos da Linguagem da UFMT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 141-154 2009 issn 0104-687x Mato Grosso. Through the collective participation in study groups with teachers, I identify and analyze the impressions, motivations and attitudes of a Spanish teacher. The data were collected through informal talks with the teacher, and include narratives of life story. KEYWORDS: Critical Realism, Critical Discourse Analysis, Emancipation and Social Transformation Introdução Nas últimas décadas, a ciência social crítica contemporânea tem demonstrado especial interesse à compreensão dos fenômenos sociais concernentes às questões ontológicas e epistemológicas, com seus mecanismos, poderes e causas. O movimento filosófico britânico conhecido como Realismo Crítico surge para acirrar ainda mais o debate na filosofia das ciências sociais. Conforme Baert (1995), esse novo credo está se consolidando nas diversas disciplinas acadêmicas e encontrando uma falange de seguidores. Em seu artigo intitulado O Realismo Crítico e as Ciências Sociais, Baert questiona o porquê de o Realismo Crítico ser tão sedutor e atrair tantos adeptos fervorosos? Responderei a esta pergunta, ao final deste trabalho. O Realismo Crítico enquanto filosofia de cunho emancipatório tem servido de base para a reflexão teórica e metodológica de um grande número de cientistas sociais interessados em compreender a inter-relação dialética entre sociedade e indivíduos. Para o Realismo Crítico, a sociedade não consistiria apenas de indivíduos, mas da soma das relações dentro das quais os indivíduos se situam (BHASKAR, 1998). Ancorado na filosofia do Realismo Crítico, (BHASKAR, 1998; 2002) e na Análise de Discurso Crítica (FAIRCLOUGH, 1989; 2003), este trabalho traz algumas reflexões interdisciplinares que poderão contribuir para a ciência social emancipatória, mais especificamente para a formação do educador de línguas. Busco descobrir quem são os agentes causais de um determinado evento discursivo. Quem são esses agentes causais? Que poderes causais os mesmos possuem? 142 1. Por que Realismo Crítico? O termo Realismo Crítico pode ser encontrado desde 1887 na obra Zur Wissenschaftslehre und Metaphysik2 do filósofo alemão Aloys Riehl. É um tipo de realismo que se associa com a filosofia transcendental ou crítica de Kant (1781). Na visão de Collier (1994, p. 43), o termo transcendental apresentado por Kant diz respeito a “[...] todo conhecimento que não se ocupa tanto dos objetos quanto da forma como conhecemos os objetos, na medida em que este tipo de conhecimento é possível a priori”. Nesse sentido, a compreensão de uma filosofia transcendental é, portanto, algo que vem a priori, independentemente da experiência. Numa versão mais contemporânea, representada, sobretudo, pela obra de Bhaskar, esse mesmo termo acabou enfatizando a relação entre um tipo de realismo e alguns aspectos da obra de Kant. Surge daí a combinação de realismo transcendental e naturalismo crítico. O próprio Bhaskar assim o definiu: [...] eu chamei minha filosofia geral da ciência de ‘realismo transcendental’ e minha filosofia das ciências humanas de ‘naturalismo crítico’. Gradualmente, as pessoas começaram a misturar os dois e referir-se ao híbrido como ‘realismo crítico’. Ocorreu-me que havia boas razões para não objetar ao hibridismo. Para começar, Kant havia chamado seu idealismo transcendental de ‘filosofia crítica’. O realismo transcendental tinha o mesmo direito ao título de realismo crítico (BHASKAR, 1998, p. 190, grifos da autora). O Realismo Crítico refere-se à ideia de que existe uma realidade exterior, independentemente das concepções que se tenha dela. Bhaskar (1998, p. 41) distingue não apenas o mundo e a nossa experiência, mas a sua estratificação ontológica – a questão do Ser, representado pelos três domínios da realidade: o Real, o Realizável e o Empírico. O domínio do Real pode ser entendido como tudo que existe na natureza, sejam eles objetos naturais (estruturas atômicas e estruturas químicas), sejam sociais (ideias, relações 2 Ensino da Ciência e Metafísica. 143 sociais, modos de produção etc.). O domínio do Realizável consiste em eventos ou atividades que são realizadas e, portanto, geram efeitos de poder, podendo ser observáveis ou não. O domínio do Empírico é entendido como o domínio da experiência. Se tomarmos o exemplo de qualquer trabalhador, seja ele professor, seja médico etc., sua capacidade física e mental se concentra no domínio do Real, enquanto seu trabalho como atividade que gera efeito de poder se concentra no domínio do Realizável. Nessa linha de raciocínio, pode-se afirmar então que os seres humanos não podem ser estudados do mesmo modo como são estudados os objetos naturais. Os seres humanos somente podem ser estudados cientificamente como seres sociais. Em sua visão emancipatória e de transformação social, Bhaskar (1998, p. 462) oferece uma promessa para a ciência social, pois os mecanismos geradores dos problemas podem ser removidos. Para o autor, a emancipação não pode ser alcançada apenas pela mudança da consciência; ao contrário, ela deve ocorrer na prática. Ele diz: Meu ponto de vista é que aquele tipo especial e qualitativo de libertação que é a emancipação e que consiste na transformação, na autoemancipação dos agentes envolvidos, partindo de uma fonte de determinação indesejada e desnecessária para uma desejada e necessária, é, ao mesmo tempo, pressagiado causalmente e acarretado logicamente por uma teoria explanatória, mas só pode ser efetivada na prática (BHASKAR, 1998, p. 462). Se a emancipação significa libertação, a autoemancipação pressupõe então a transformação do próprio indivíduo, do ‘eu’ individualista, unificado, centrado na própria pessoa, para um eu exterior voltado para a solidariedade e fraternidade. A autoemancipação da qual fala Bhaskar, deve, necessariamente, passar pela transformação dos próprios agentes ou participantes. Se olharmos a realidade social, não vemos nada mais do que (re) ações, com seus efeitos e causas. 144 2. Realismo Crítico: “causalidade”, “poderes causais” e “agentes causais” Para compreender os conceitos de “causalidade”, “poderes causais” e “agentes causais”, termos esses usados com certa frequência pelo Realismo Crítico, precisamos, primeiramente, esclarecer o que entendemos por “causalidade”. A “causa”, segundo definição baseada na análise aristotélica, é um “[...] princípio que influi no ser de alguma coisa ou de que depende o ser da coisa ou do acontecimento de um fenômeno” (SELVAGGI, 1988). A “causa” como princípio que influi de fora sobre o ser do efeito, mediante a ação, é a causalidade em ato. Quando o mestre ensina, por exemplo, a seu discípulo, entendemos que a “causa” é o seu ensino. O filósofo Kant (1781) foi quem melhor explicou o conceito de “causa”, aceitando a crítica humana ao admitir a impossibilidade de derivá-lo apenas da experiência como defendiam os racionalistas. A causalidade para Kant não poderia ser reduzida apenas a repetidas experiências. Ao contrário, deve ser entendida como uma categoria a priori da experiência. A causalidade como categoria da inteligência tem valor de conhecimento só para o fenômeno, serve para descrever e unificar a experiência, mas não faz conhecer a coisa em si. É, portanto, a realidade do influxo causal em que se funda toda ação humana, quer na vida cotidiana, quer na produção artística, quer na educação etc. Portanto a “causa” de um determinado fenômeno existe a priori do conhecimento que se tem dele. O Realismo Crítico entende que a vida social não é um sistema fechado, ao contrário, é um sistema aberto, no qual qualquer evento é governado por mecanismos ou poderes emergentes que operam simultaneamente. Num sistema aberto, por exemplo, não é possível identificar determinadas sequências de eventos (caso contrário a atividade experimental não faria sentido). O ponto crucial do argumento de Bhaskar é que os mecanismos causais que operam nos experimentos (ciência naturais), continuam operando no mundo real (enquanto sistema aberto), considerando a independência dos mecanismos causais que são gerados 145 em um determinado evento. Por exemplo, numa determinada atividade experimental, o cientista é o agente causal de uma sequência de eventos porque permite identificar uma possível relação causal entre dois ou mais eventos (BHASKAR, 1998, 12). Em suma, o Realismo Crítico defende a ideia de que é preciso compreender as camadas mais profundas da realidade, nas quais se “escondem” os determinantes causais, incluindo os agentes causais e seus poderes. Conforme Bhaskar (1998), buscar a conhecer as causas dos fenômenos é transcender os fatos e as aparências dos eventos, é desvelar a realidade e as estruturas, mecanismos e tendências geradoras dos eventos. 3. Realismo Crítico e Análise de Discurso Crítica Para os analistas de discurso (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999), o termo Realismo Crítico surge pela primeira vez para melhor explicar a organização da vida social como um sistema aberto. Chouliaraki e Fairclough (1999), em consonância com Bhaskar (1998), entendem que há várias dimensões da vida social, incluindo físico, químico, biológico, econômico, social, psicológico e linguístico, e que estas possuem estruturas distintas, com efeitos gerativos nos eventos, através de mecanismos particulares. Inspirados no Realismo Crítico, Chouliaraki e Fairclough (1999) conseguiram organizar um modelo analítico que possibilitasse identificar problemas sociais materializados em textos orais ou escritos. Essa abertura de possibilidades transdiciplinares fez com que a ADC ganhasse cada vez mais espaço na ciência social crítica, permitindo aos analistas de discurso uma compreensão cada vez mais ampliada da vida social, principalmente em relação aos elementos micro e macrossociais. Chouliaraki e Fairclough (1999), em conformidade com Bhaskar (1998, p. 2002), entendem que as pesquisas em ADC devem estar voltadas para problemas práticos da vida social, vislumbrando, assim, uma “crítica explanatória” (BHASKAR, 1998) construída com base nas descobertas dos problemas sociais oriundos das práticas sociais, e a partir delas buscar soluções para a sua superação. E para alcançar 146 o potencial explanatório, conforme Bhaskar (1998), o ponto de partida é a análise de como os significados são construídos na prática social. Para isso, Fairclough (1989; 2003) propõe uma abordagem de análise de discurso que pode contribuir para o crescimento da pesquisa social crítica, uma vez que a ADC dá ênfase na relação dialética entre discurso e outros elementos das práticas sociais (outras formas de semioses: linguagem corporal, imagens visuais etc.). Embora as contribuições das teorias sociais críticas sejam relevantes para a ADC, há ainda muitos caminhos a percorrer. Nada está pronto e acabado. Reflexões frutíferas ainda estão por vir e certamente serão bem-vindas. Do ponto de vista da análise de significados construídos nos textos, alguns caminhos transdisciplinares surgem como uma tentativa de melhor compreender os níveis micro e macrossociais. Entendo que as narrativas de histórias de vida, por exemplo, podem ser uma rica ferramenta para ampliar a visão do pesquisador na análise de textos orais e escritos3 (PAPA, 2005; 2007; 2008). As narrativas de histórias de vida podem contribuir com a ADC, uma vez que fornecem pistas ao analista sobre outros significados que podem ou não estar presentes nos textos. As narrativas de histórias de vida são descrições de eventos onde são apreendidos os significados das ações dos participantes, suas crenças, valores e experiências vividas e como elas se desenvolvem. Conforme Clandinin e Connely (2004), as experiências são as histórias de vida das pessoas e consistem não apenas de fatos, mas também de valores, emoções e memórias. Nessa mesma perspectiva, Goodson e Sike (2001) argumentam também que as histórias são memórias e que todas as memórias são histórias. Ou seja, quando falamos sobre nós mesmos, estamos nos referindo a nossa identidade, sentimentos, imagens, e os relatos revelam o modo como experienciamos o mundo. Contudo nem sempre o pesquisador consegue captar toda a história de vida do sujeito participante da pesquisa. Quase sempre 3 As narrativas de histórias de vida, enquanto ferramenta de coleta para gerar dados, podem ser utilizadas pelo analista de discurso para uma melhor compreensão dos contextos micros e macrossociais. 147 há um ocultamento de experiências tristes que foram por eles vivenciadas. Nesse caso, os elementos discursivos que poderiam ser cruciais para a análise deixam de ser revelados, e o analista acaba não conseguindo capturar outros discursos da vida desse sujeito. 4. A pesquisa: alguns procedimentos de interpretação Neste trabalho, apresento parte do estudo4 que está sendo realizado na Escola Estadual Meninos do Futuro, localizada no Centro Sócio-Educativo do Complexo Pomeri, na cidade de Cuiabá-MT. Procuro interpretar os significados construídos pelos agentes causais e seus poderes. Quem são esses agentes causais? Que poderes causais eles possuem? A tentativa em desvelar esses influxos causais permitirá uma melhor compreensão dos contextos micros e macrossociais dos fenômenos investigados. A professora envolvida na pesquisa trabalha na escola há mais de quatro anos. Ao conviver com ela durante o período em que estive realizando estudos na escola, pude constatar, através das narrativas de suas histórias de vida, outros significados que não estavam presentes durante as sessões de entrevista. As narrativas de suas experiências de vida foram feitas sem o uso do gravador. A confiança mútua entre esta pesquisadora e a professora contribuiu para que esse tipo de ferramenta fosse utilizado. Keila5 trabalha na escola desde 2003. É professora de espanhol. Diz nunca ter trabalhado com adolescentes e jovens em situação de risco. É a sua primeira experiência com essa clientela estudantil. Ao narrar suas experiências pessoais, sem o uso de gravador6, Keila menciona sobre a sua família. Diz não ter conhecido sua mãe biológica. Fora criada pelo pai biológico e sua madrasta desde tenra idade. Por não ter tido uma filha mulher, sua madrasta adotou-a como legítima, dando-lhe todo o amor e carinho. Keila re4 O projeto desenvolvido na escola tem como título “Formação Contínua do Professor de Línguas: (Re) Construção da Prática Pedagógica”. 5 Os nomes dos envolvidos na pesquisa são fictícios para proteção de identidade. 6 Keila não autorizou que fossem gravadas suas histórias de vida. As narrativas de vida foram feitas de forma reservada e, posteriormente, registradas etnograficamente como anotações de campo. 148 lata também que vivenciou, ainda criança, o drama da sua madrasta com o filho legítimo, ao vê-lo se envolver com drogas. Afirma ter sofrido, juntamente com a mãe adotiva, ao ver seu irmão escolher esse caminho. Para esta análise dos dados, perfila-se aqui o uso de entrevistas informais que foram gravadas e transcritas no ano de 2006. Procuro ater-me na compreensão dos significados construídos por Keila, através da identificação dos agentes causais e seus poderes. No exemplo apresentado a seguir, Keila comenta sobre o Seminário de Literatura realizado pela primeira vez na escola, no ano de 2006. Ela diz: Exemplo 1: Esse seminário de literatura, desde 2004 era pra acontecer... só que aqui ... pra nós desenvolvermos qualquer tipo de evento... nós temos que ter apoio... da segurança... quanto do financeiro mesmo... por quê? Porque se nós quisermos a sós não temos como... temos o livro paradidático... temos como oferecer... mas pra está expondo esse trabalho... sempre há dificuldade... de que forma?... nós temos que ter autorização... pros meninos levarem os livros... igual nós tivemos... pra levá os livros pra ala... pros quartos... pra levá o lápis... a borracha... existe assim toda assim uma formalidade... uma responsabilidade da escola. Percebe-se, conforme Keila, a dificuldade em realizar qualquer tipo de atividade na escola. Ao usar o processo relacional “era”, Keila faz referência a um período de tempo existente no passado (2004), em que já se tinha uma proposta embrionária para que o Seminário de Literatura pudesse ser desenvolvido com os alunos. Ao dizer “[...] qualquer tipo de evento nós temos que ter apoio da segurança”, Keila usa alto grau de modulação “[...] temos que ter”, revelando a proibição da escola para esse tipo de evento. Ao afirmar também “[...] nós temos que ter autorização”, outra modulação alta é utilizada em seu discurso para revelar a impossibilidade da escola em fomentar qualquer tipo de atividade para os alunos. Do ponto de vista da análise macrossocial, é possível 149 apreender outros significados que não estão presentes no discurso de Keila. Para o RC, há a necessidade de compreender as camadas mais profundas da realidade. É exatamente nas camadas mais profundas que se escondem os determinantes causais, incluindo os agentes causais e seus poderes. O discurso de Keila permite que desvelemos uma outra realidade. É preciso que transcendamos aos fatos e às aparências. Assim, se analisarmos mais criticamente o discurso de Keila, formos além das aparências, é possível perceber os agentes causais e seus poderes. Quem são esses agentes causais? Que poderes eles possuem? Vejamos o esquema exemplificado a seguir: Figura 1 – Determinantes causais AGENTES CAUSAIS E SEUS PODERES NÃO HÁ APOIO / NÃO EXISTE LEITURA NÃO HÁ AUTORIZAÇÃO FINANCEIRA OS MENINOS NÃO LEEM Fonte: Elaborada por esta pesquisadora, em outubro de 2008. Conforme Keila, os alunos não levam os livros para a ala (quarto) porque não lhes é permitido. Nesse caso, não há leitura. É preciso ter autorização, apoio, inclusive do financeiro, para que seja autorizado qualquer evento dessa natureza na escola. Os alunos são privados de liberdade para levar o livro, o lápis e a borracha aos seus aposentos. Há que se perguntar então: quem é o agente causal responsável pelo apoio financeiro e pela autorização de qualquer tipo de evento realizado na escola? No exemplo ilustrado a seguir, Keila fala sobre a autorização feita pelo Superintendente do Centro Sócio-Educativo do Pomeri. Vejamos o que ela diz: Tem que ter autorização... né? por quê?... porque de repente esse lápis ele pode transformar numa arma... queiramos ou não... nós sempre temos que pensar des150 sa forma... não generalizando... que irão fazer... mas se algo aconteça... sobre cai... na escola... que este ano o Cristiano acreditou e resolveu apoiar... a educação... ele viu a proposta... a proposta veio do Cristiano... nos envolvemos junto a ele... sentamos junto... e ele falou... ‘se vocês acreditam, eu vou apoiar’. Keila, ao falar sobre a autorização do Seminário de Literatura, menciona o Superintendente Cristiano7, um agente causal com poder para (des)autorizar qualquer atividade pedagógica na escola. Ao dizer: “[...] o Cristiano acreditou e resolveu apoiar”, Keila usa o processo mental “acreditar” para sinalizar uma atitude de decisão sobre a proposta de se realizar o Seminário. Percebe-se, nesse exemplo, que a proposta de realização do Seminário surge a partir de Keila. É ela a responsável pela tentativa de aprovação da proposta. Ao usar o processo mental “ver”, Keila revela que a proposição foi apresentada ao Cristiano. Nesse caso, ela mesma, enquanto agente causal, revestida de poder enquanto educadora e comprometida com essa realidade social, tornou-se a responsável pela negociação da proposta junto ao Superintendente. O processo material “apoiar” é utilizado no discurso do superintendente para sinalizar a sua autorização para a realização do Seminário. Enquanto agente causal, com poderes que lhe são atribuídos pelo Centro Sócio-Educativo do Pomeri, caberia somente a ele dar a voz de comando para autorizar a realização do Seminário. O esquema exemplificado a seguir mostra os agentes e seus poderes causais. Vejamos: 7 Não foi possível realizar entrevistas com o Superintendente Cristiano. 151 Figura 2 – Agentes causais e seus poderes AGENTE CAUSAL E SEUS PODERES AGENTE CAUSAL E SEUS PODERES CRISTIANO KEILA CRISTIANO VIU A PROPOSTA DE KEILA KEILA ENGAJOU E NEGOCIOU COM CRISTINAO ACREDITOU REALIZAÇÃO DO SEMINÁRIO DE LITERATURA NA ESCOLA Fonte: Elaborada por esta pesquisadora, em outubro de 2008. Percebe-se aqui que os agentes causais e seus poderes (Cristiano e Keila) foram os responsáveis pela realização do Seminário de Literatura na escola. Enquanto Superintendente, Cristiano (des)autoriza as atividades que são realizadas na escola, sejam elas educativas, culturais ou não. É ele o responsável pela manutenção da ordem em todo o Centro Sócio-Educativo do Pomeri. Já Keila, enquanto agente causal responsável pela educação dos alunos, detém um poder que lhe é peculiar. Como educadora e comprometida com a escola e com seus alunos, demonstrou ter atitude corajosa para negociar a sua proposta inovadora e ao mesmo tempo desafiadora, tendo em vista que ela estava violando as regras impostas pelo Centro Sócio-Educativo do Pomeri. É importante ressaltar que as narrativas de vida de Keila corroboram para uma melhor compreensão das camadas mais profundas da realidade social vivida por ela. É nas camadas mais profundas que se encontram os determinantes causais, incluindo os agentes causais e seus poderes. Como nos assegura Bhaskar (1998), é preciso conhecer as causas dos fenômenos para transcender os fatos e as aparências dos eventos. O esforço de Keila em prol da melhoria de vida desses jovens que vivem o dia-a-dia no Centro Sócio-Educativo do Pomeri está intimamente ligado às suas experiências de vida. Keila também vivenciou o drama de sua madrasta ao 152 ver seu irmão adotivo se envolver com drogas. Assim como ele, no período de sua adolescência, muitos jovens que vivem hoje no Pomeri têm procurado esse mesmo caminho para esquecer o seu passado triste e desalentador. Considerações finais: algumas reflexões Este estudo nucleou-se pelo desejo de realizar, à luz do RC e ADC, algumas reflexões interdisciplinares que pudessem contribuir para a ciência social emancipatória, mais especificamente para o educador de línguas. Busquei compreender a relação causal existente entre os agentes e seus poderes causais, para uma melhor compreensão dos contextos micros e macrossociais. Considerei as narrativas das histórias de vida como uma ferramenta de coleta utilizada apenas para obter dados. As narrativas de vida podem ser úteis para a ADC na compreensão dos mecanismos sociais de dominação e resistência ou emancipação e transformação social. O uso dessa ferramenta permitiu, por exemplo, capturar outros significados que não estavam presentes no discursivo de Keila, através das narrativas de suas histórias de vida. A sua luta em defesa de atividades pedagógicas que venham contribuir para melhorar a vida dessas jovens revela ser ela uma agente causal ativa no processo de emancipação. Ao privilegiar o desenvolvimento de práticas sociais libertadoras, Keila está também contribuindo para que a sua própria prática pedagógica seja de fato transformadora. Finalizando, retorno à minha pergunta feita no início deste trabalho: por que o realismo crítico é tão sedutor e por que tem atraído tantos adeptos fervorosos? Diria talvez que, em virtude de estar havendo na ciência social crítica moderna uma primazia pela ontologia, mais do que pela epistemologia, há de se colocar como ponto de partida a questão do “Ser”. Quem é esse “ser” social? Precisamos conhecer mais esse “ser” em sua profundidade, compreender que vivemos em um mundo aberto e intransitivo e que a finalidade das pesquisas é conhecer as estruturas, mecanismos, forças e poderes causais que determinam os fenômenos sociais. E nós, educadores, pesquisadores, analistas de discursos, que almejamos alcançar uma ciência emancipatória e de transformação social, não podemos ficar indiferentes a essas questões. 153 Referências BAERT, Patrick. O realismo crítico e as ciências sociais. Dados SciELO, São Paulo, v. 38, n. 2, p. 277- 290, 1995. BHASKAR, R. Critical realism. Essential readings. In: ARCHER, M.; BHASKAR, R.; COLLIER, A.; LAWSON, T.; NORRIE, A. Centre for critical realism. London: Routledge, 1998. BHASKAR, R. From science to emancipation. Alienation and the actuality of enlightenment. New Delhi; London: Sage Publications, 2002. CHOULIARAKI, L.; FAIRCLOUGH, N. Discourse in late modernity. Rethinking critical discourse analysis. Edinburgh: University Press, 1999. CLANDININ, D. J.; CONNELLY, F. M. Narrative inquiry: experience and story in qualitative research. San Francisco: Jossey-Bass Publishers, 2004. COLLIER, A. Critical realism: an introduction to Roy Bhaskar´s Philosophy. London: Verso, 1994. FAIRCLOUGH, N. Language and power. London: Longman, 1989. FAIRCLOUGH, N. Analysing Discourse. London: Routledge, 2003. GOODSON, I.; SIKE, P. Life history research in education settings. Buckingham; Philadelphia: Open University Press, 2001. KANT, E. [1781]. Crítica da razão pura. 1. ed. São Paulo: Editora Icone, 2007. PAPA, S. M. B. I. . Realismo Crítico, Análise Crítica do Discurso e o Processo de Formação do Educador Crítico-Reflexivo. In: Métodos Qualitativos nas Ciências Sociais e na Prática Social, Vol. 01, p. 84-96, Recife, Editora Universitária, 2007. PAPA, S. M. de B. I. Prática pedagógica emancipatória: o professor reflexivo em processo de mudança. Um exercício em análise crítica do discurso. São Carlos: Pedro & João Editores, 2008a. PAPA, S. M. B. I. Realismo crítico e a formação emancipatória do educador de línguas. Texto apresentado em Conferência na UnB – NELiS (Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade), Brasília, jun. 2008b.. PAPA, S. M. de B. I. O professor reflexivo em processo de mudança na sala de aula de língua estrangeira: caminhos para a (auto) emancipação e transformação social. 2005. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem – LAEL, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005). SELVAGGI, Filipoo S. J. Filosofia do mundo. Cosmologia filosófica. São Paulo: Edições Loyola, 1988. 154 OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO DOS MORADORES DE RUA NA CIDADE DE CÁCERES-MT Olimpia Maluf-Souza1 RESUMO: O presente trabalho analisa o processo de espacialização e de subjetivação dos sujeitos moradores de rua da cidade de Cáceres-MT. Assim, tomando como referencial teórico a Análise de Discurso de linha francesa preconizada por Michel Pêcheux, na França, e redimensionada por Eni Orlandi, no Brasil, o que se pretende compreender são os processos de subjetivação desses sujeitos, ou seja, através da escuta das suas vozes e dos seus desejos, analisar como eles discursivizam as medidas de reintegração pensadas para eles. A metodologia da pesquisa se deu com base em entrevistas com os moradores de rua, com os comerciantes e com os moradores vizinhos à Praça Barão do Rio Branco. PALAVRAS-CHAVE: Análise de Discurso, Morador de Rua, Subjetividade Processes OF SUBJEcTIVITIES OF STREET DWELLERS IN THE CITY OF CÁCERES, MATO GROSSO ABSTRACT: This paper analyzes the process of spacialization and subjectivity of street dwellers in the city of Cáceres in the state of Mato Grosso, Brazil. Thus, taking as theoretical reference the Discourse Analysis advocated by Michel Pêcheux in France, and re-elaborated by Eni Orlandi in Brazil, we intend to examine, listening to their voices and their desires, how they produce their discourses about the reintegration policies. The research methodology was based on interviews with the street dwellers, with the local traders and with the people who reside around the Baron of Rio Branco square – where the dwellers live. KEYWORDS: Discourse Analysis, Street Dwellers, Subjectivity 1 Doutora em Linguística pela Unicamp, professora do Departamento de Letras e de Pedagogia da UNEMAT – Campus de Cáceres e coordenadora do projeto Vozes da Cidade (FIDIPEx/CNPq). E-mail: olimpia@ top.com.br. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 155-164 2009 issn 0104-687x O que trazemos para esta comunicação oral é parte da pesquisa que desenvolvemos com moradores de rua da cidade de Cáceres-MT, especificamente os da Praça Barão do Rio Branco2. O nosso propósito, com este estudo, é o de analisar o estatuto e os modos de subjetivação desses sujeitos, tomando como referencial teórico a Análise do Discurso de linha francesa preconizada por Michel Pêcheux, na França, e redimensioada por Eni Orlandi, no Brasil. A questão que nos move para esta pesquisa é a de tentar compreender qual é a participação do sujeito desviante, da sua voz e dos seus desejos sobre qualquer medida de reintegração que as instituições sociais adotam para ele? Assim adotamos como metodologia, para a constituição do corpus de pesquisa, entrevistas com moradores de rua da Praça Barão do Rio Branco e com moradores e comerciantes da região circunvizinha à praça. Para essa análise, trazemos três recortes3 que dão visibilidade ao funcionamento discursivo que essa situação suscita: Eu moro aqui porque não tenho onde morar, eu trabalho aqui, ganho os restos de comida e cuido direitinho dos carros. [...] Eu me sinto seguro aqui, a praça é pública, e nós cuidamos um do outro. Quando eu não consigo alimento ou nenhum carro para cuidar, meus amigos me ajudam. Eu também ajudo eles. Eu estou aqui porque não tenho casa, não tenho emprego, mas eu sou honesto. (E.S., 36 anos, morador de rua desde pequeno, natural de Itajubá, mora em Cáceres há três anos). É tudo ‘craqueiro’ [usuário de crack], é tudo safado, um bando de vagabundos. São porcos, não tomam banho, mijam na praça, ninguém aguenta o fedor. Mijam dentro do Banco do Brasil aí da praça (Caixa Eletrônico). 2 A Praça Barão do Rio Branco é central na cidade de Cáceres-MT e, de uns quatro anos para cá, passou a ser ocupada por moradores de rua que vivem dos trocados que ganham cuidando de carros e de favores obtidos de transeuntes, moradores e comerciantes da região. 3 Realizamos mais de dez entrevistas com cada segmento (moradores de rua, comerciantes e moradores circunvizinhos à Praça Barão do Rio Branco), mas optamos em apresentar três recortes (um de cada segmento), por considerá-los como representativos das discursividades de cada posição-sujeito tomada em análise. 156 Eles são perigosos, a maioria dos moradores de volta da praça tem medo deles, eles são traiçoeiros. Ninguém faz nada para arrancar essa corja daqui, nem polícia, nem prefeito, nem direitos humanos, e a cada dia que passa mais aparece deles aqui, principalmente no Festival de Pesca (A. J. L., 57 anos, morador da região da Praça Barão do Rio Branco desde quando nasceu). São vagabundos, viciados em droga, pinguços, todo o dinheiro que arrancam das pessoas é para o crack e para os ‘corotinhos’4. As pessoas dão dinheiro porque senão eles arranham os carros. Eles atrapalham muito o nosso trabalho, pedem comida nas mesas, se a gente pede para eles não incomodarem os fregueses, eles xingam a gente de tudo o que é nome e falam que é melhor pedir do que roubar. Vários fregueses já saíram sem esperar o pedido por causa deles. Ninguém faz nada, já reclamei na polícia, na prefeitura. Isso é ruim para o turismo de Cáceres. Imagina o turista vendo esse povo esquisito, que enfeia e suja a praça (M. A. C., 41 anos, comerciante na região da Praça Barão do Rio Branco, há cinco anos). Como analista de discurso, o que nos interessa compreender, em recortes como estes, são as vicissitudes do sujeito dito desviante, esse sujeito contemporâneo que não se subordina à norma reguladora dos sentidos de urbanidade. Essa insubordinação não se faz por escolha, mas pela imperiosidade do mundo moderno, pós-moderno, nós diríamos, que cobra do sujeito apenas a produtividade. Para pensar esse sujeito, é necessário então pensar a sua relação com a cidade atual, essa que considera como cidadão o sujeito produtivo e engajado nos ditames impostos pelo neoliberalismo. Sendo assim, para discutir o sujeito na cidade, constituído pelos imperativos do mercado, é que trazemos essas materialidades discursivas heterogêneas e contraditórias entre si, para compreender em que formação(ções) discursiva(s) elas se inscrevem. São discursividades que, de alguma maneira, representam o modo como distintos sujeitos, tomados como posição, re4 O termo faz alusão aos pequenos barris usados para o transporte de água. Os corotinhos são, pois, vasilhames, em matéria plástica, com formato de um pequeno barril, usados para vender cachaça. 157 presentam, nos dias de hoje, sua relação com o cotidiano da cidade produzindo, segundo Pêcheux (1997, p. 46), “[...] um ordinário do sentido”. Esse ordinário do sentido, por parte dos sujeitos que rompem com o “pacto de urbanidade” (os moradores de rua), se faz por uma aparente aceitação/ resignação com o que o poder instituído lhe reserva. Mas, vejamos, essa resignação é, de fato, apenas aparente, pois escolher o quiosque do caixa eletrônico do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal como banheiro público parece ser apenas uma das demonstrações de resistência à representação das duas maiores instituições financeiras do Brasil. Segundo Pêcheux (1997), são as noções de discurso e de formação discursiva (FD) que desempenham o papel de distanciamento do caráter de subjetivação que conforma as teorias da linguagem. Através das formações ideológicas, as práticas linguísticas antagônicas passam a se desenvolver sobre uma mesma base linguística. Pêcheux (1997, p. 160) define essas noções ao afirmar que [...] o sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição etc. não existe ‘em si mesma’ (isto é em sua relação transparente à literalidade do significante), mas é determinada pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo social histórico em que as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas) [...] [elas] mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam, o que significa que elas tomam seus sentidos em referência a essas posições, isto é, em referência às formações ideológicas nas quais essas posições se inscrevem A formação discursiva é então o que em uma dada formação ideológica, ou seja, a partir de uma dada posição sujeito e de uma dada conjuntura, se determina como espaço de dizer, pelo estado da luta de classe (novamente a questão da formação discursiva se faz sobre contradições ao mesmo tempo excludentes e complementares). Pela ótica de qualquer uma das posições no discurso adotadas por essas discursividades em confronto temos o funcionamento da exclusão e da complementaridade de uma pela outra. 158 Para Pêcheux (1997), a formação discursiva determina “[...] o que pode e deve ser dito” (e que está articulado sob qualquer forma de linguagem). O que significa dizer que as palavras, expressões, proposições etc. recebem seus sentidos da formação discursiva na qual são produzidas. Ou seja, a língua serve de base comum a processos discursivos diferenciados que se situam num funcionamento que é regulado pelos processos ideológicos. Assim o que Pêcheux (1997, p. 161, grifos do autor) denomina processo discursivo é o “[...] sistema das relações de substituição, paráfrases, sinonímias etc. funcionando entre elementos linguísticos – ‘significantes’ – em uma formação discursiva dada”, isto é, são funcionamentos da língua marcados pelas diferentes posições-sujeitos do discurso, nos quais somente a concepção da existência de uma relação entre a língua e a ideologia é que explica a apropriação social dos conhecimentos pelos sujeitos. É o que Pêcheux chama de interpelação ideológica. Essas formas de interpelação se materializam e se cristalizam por rituais que fazem renitência através dos aparelhos ideológicos, conforme defende Althusser (1985). A essa concepção de ritual, Pêcheux (1997, grifos do autor) acrescenta ainda que “[...] não há ritual sem falha, desmaio ou rachadura: ‘uma palavra por outra’ é uma definição (um pouco restritiva) da metáfora, mas é também o ponto em que um ritual chega a se quebrar no lapso ou no ato falho”. Ou seja, na estrutura, na sintaxe da língua, há fendas, há brechas através das quais a memória discursiva faz irromper as dissidências, faz irromper o lugar de filiação do dizer. Segundo Pêcheux (1997, grifos do autor), são essas quebras de rituais, são essas transgressões de fronteiras que fazem irromper a ordem do discurso, o real da língua e da história de forma tal que “[...] o lapso pode tornar-se discurso de rebelião, o ato falho, de motim e de insurreição: o momento imprevisível em que uma série heterogênea de efeitos individuais entra em ressonância e produz um acontecimento histórico, rompendo o círculo da repetição”. A AD que parece instar os sujeitos urbanos na contemporaneidade é um efeito da onipresença e onipotência do Mercado como instância máxima de Poder, fazendo com 159 que as relações sociais sejam marcadas, em sua maioria, por uma submissão à circulação da Mercadoria, cuja característica principal é a volatilidade, a rotatividade e a constância desses dois processos. Assim a função simbólica do sujeito urbano é um efeito desse novo capitalismo, ou seja, do neoliberalismo que afeta os seus modos de estar na cidade, o que, em última instância, afeta a sua própria constituição como sujeito urbano5. Payer (2006, p. 14-15) mostra essa relação através da sobredeterminação que a mídia exerce, na atualidade, nessa nova forma de subjetividade produzindo a “[...] interpelação ideológica dos indivíduos em sujeito”. Para a autora, “[...] o valor que a sociedade vem atribuindo à mídia – ou o poder de interpelação que a Mídia vem exercendo na sociedade – passa a assegurar-lhe o papel de Texto fundamental de um novo grande Sujeito, o Mercado, agora em sua nova forma globalizada” (PAYER, 2006, p. 16). Quando falamos discursivamente do sujeito, estamos tomando a posição de Lacan (1998) que o concebe como resultado de uma tripartição do imaginário, do simbólico e do real. Para significar esse sujeito, o autor o faz através de um recurso à linguística, o que lhe permite articular uma ciência do inconsciente. A linguagem é então constitutiva do homem, ou seja, a possibilidade do mundo humano se faz na/pela linguagem. Dito de outro modo, é a ordem do significante que constitui o sujeito e, ao mesmo tempo, é ela que constantemente lhe escapa. Esse movimento teórico, proposto por Lacan, assinala a autonomia da função simbólica em relação ao sujeito. Portanto não falamos de um sujeito evidente, de existência espontânea e autônoma. Essa visão é, comumente, atribuída à Psicologia que toma o sujeito “[...] como único, insubstituível e idêntico a si mesmo [...] participante do teatro da consciência” que se marca 5 Essa posição teórica de assumir o sujeito contemporâneo como estando/sendo marcado pela discursividade mercadológica é assumida por vários teóricos: DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2005; LEBRUN, Jean-Pierre. Un monde sans limite. Tolouse: Érès, 1997; MELMAN, Charles; LEBRUN, Jean-Pierre. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2003. Na área do discurso, citamos PAYER, Maria Onice. Linguagem e sociedade contemporânea: sujeito, mídia, mercado. Rua, n. 11, Campinas, SP : Labeurb/Nudecri/Unicamp, p. 9-25, março de 2005). 160 por um “[...] eu vejo, eu penso, eu falo, eu sou” (PÊCHEUX, 1997, p. 153-154). Na AD, falar do sujeito é falar dos processos linguísticos e histórico-ideológicos que marcam a sua existência, ou seja, é pensá-lo como forma-sujeito que se institui como sujeito de dever/direito do capitalismo. Do ponto de vista discursivo, o sujeito é constituído pelo esquecimento daquilo que o determina, ou seja, ele se esquece de que sua constituição se dá por um processo do significante através da interpelação ideológica e da identificação imaginária. Para a AD, falar do sujeito é falar do efeito da linguagem; sujeito enquanto um ser de linguagem que foi falado antes de falar, o que implica considerar que o sujeito não é origem do dizer e nem controla tudo o que diz. Pêcheux, retomando Lacan ao afirmar que “[...] só há causa daquilo que falha/manca/claudica”, afirma que para se considerar a categoria de sujeito da AD é necessário considerar isso que se constitui como causa, pois ela se manifesta a todo momento, através do chiste, do lapso, do ato falho etc. Ou seja, o que manca, falta, falha é exatamente o traço inconsciente do significante que não é apagado ou tampouco esquecido. O projeto teórico da AD, para Pêcheux, foi sempre o trabalhar a “tríplice aliança”, ou seja, o inconsciente e a ideologia encontram-se materialmente ligados por uma determinada ordem: a da língua. Assim, ao se enunciar, o sujeito urbano produz marcas de sua subjetividade as quais assinalam tanto os traços do registro inconsciente quanto do assujeitamento ideológico. É por essa razão que o sujeito não se percebe no seu próprio dizer, não se percebe constituído, preso a essa rede de significantes que o constituiu. Dessa forma, tanto Lacan quanto Althusser apontam para o fato de estarmos aprisionados ao campo da linguagem e às evidências que nele se constituem: a evidência de que já somos sempre sujeitos e a evidência da transparência e literalidade dos sentidos. Se, de um lado, temos os sujeitos que burlam o pacto de urbanidade e perdem, como consequência, as características que lhe conferem humanidade, por outro lado, os imperativos do mercado continuam a produzir seus efeitos 161 sobre os sujeitos autorizados pelos ditames políticos e econômicos do mercado. Na virada do século XIX para o XX, a cidade passou a ser higienizada por Oswaldo Cruz e seus seguidores. O que se pretendia era livrá-la da ameaça de uma multidão em desvario, quer fosse pelo risco de contágio das suas doenças, quer fosse pela questão da segurança, quer pela ameaça que essa subespécie humana representava para a moralidade e os costumes. O “saneamento” do espaço urbano era então um imperativo tanto para a preservação da sociedade quanto para a assepsia das cidades. Os imperativos da “cidade asséptica” decorriam então de um pensamento racionalizado que se refletia nas várias áreas e no conhecimento que era produzido por elas. Para a limpeza do espaço urbano criavam-se então as grandes internações, levando aos asilos: a vadiagem, o desacato à autoridade, o tumulto da ordem, o furto, a agressividade, a prostituição etc. No momento atual, o apelo que a sociedade instituída faz é de uma outra ordem: a econômica. Assim a grande ameaça que os moradores de rua representam – para os moradores autorizados e os comerciantes – é de ordem comercial. São, pois, os produtos que os moradores de rua consomem e o mercado que eles fazem movimentar (o mercado do crack, da bebida ilícita – o corotinho) o que mais os incomoda. Da mesma forma, a ameaça que eles representam para os comerciantes locais é o que fala mais fortemente nas discursividades em análise. Para Balibar e Laporte (1974 apud PÊCHEUX; GADET, 1998, p. 12), esse funcionamento se marca por uma “[...] formação social dominada pelo modo de produção capitalista, onde o próprio do sistema jurídico é seu caráter universalista-abstrato. [...]. Ele não aceita senão duas distinções pertinentes, a das pessoas humanas e a das coisas”. Ou seja, o gesto dos moradores e dos comerciantes materializa o funcionamento jurídico, moral e tecnológico do humanismo burguês clássico. São os efeitos desse “humanismo” que movem os comerciantes e os moradores autorizados a se inscreverem em formações discursivas desencadeadas pelas práticas sanita162 ristas, ou seja, aquelas que tomavam os “des-herdados” por sua origem socioeconômica, visando excluí-los, bani-los dos meios urbanos, escudados pela argumentação do melhor asilo, da melhor possibilidade de reingresso aos meios de produção. Trata-se do “[...] humanismo reformista com suas promessas piedosas e repletas de boas intenções” (BALIBAR; LAPORTE, 1974 apud PÊCHEUX; GADET, 1988, p.13). Mas o que esse “humanismo” consegue promover, em síntese, é uma divisão social do trabalho que se realiza sob o simulacro da busca de chances iguais para os desiguais. Esse ideal humanista (próprio da democracia burguesa) privilegia as ciências e as técnicas, apaga as resistências externas e internas dessa contradição, de forma a que a divisão social, sob a máxima da igualdade de oportunidades, silencie principalmente o caráter de natureza meramente político e econômico que sustenta atualmente a divisão social do trabalho. Esse mecanismo silencia desigualdades que são estruturais e encerra funcionamentos que são próprios dos modos de produção capitalista. Referências ALTHUSSER, L. Freud e Lacan, Marx e Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda., 1985. BALIBAR, R.; LAPORTE, D. In: PÊCHEUX, M.; GADET, F. Há uma via para a linguística fora do logicismo e do sociologismo. Escritos, n. 3, Campinas,SP: Labeurb/Nudecri/Unicamp, 1998. DUFOUR, Dany-Robert. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2005. FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. 2. ed. 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Procura identificar os desafios, confrontos, possibilidades e perspectivas que despontam para uma atuação mais efetiva, crítica e com qualidade em relação ao uso da tecnologia no contexto educacional. PALAVRAS-CHAVE: Formação Tecnológica, Professor Crítico, Tecnologias Technological formation of teachers in a digital society: challenges and perspectives ABSTRACT: The aim of this work is to discuss questions about teaching and learning in a digital society, more specifically, about the role of the teacher in this context. It discusses its inter-relations and pedagogical actions with orientations based on reflective practices and critical participation, getting the teacher the opportunity to understand the technologies as means and possibility of increasing the educational spaces. We try to identify some challenges, confrontations, possibilities and perspectives that lead towards to a more effective, critical and qualitative acting in relation to the use of the technology in the educational context. KEYWORDS: Technological Formation, Critical Teacher, Technologies 1 Professora do Programa de Mestrado em Educação e pesquisadora no Grupo de Estudos e Pesquisas em Tecnologia Educacional e Educação a Distância, Universidade Católica Dom Bosco. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 165-174 2009 issn 0104-687x 1. Ensinar, aprender e refletir? As transformações exigidas pelo novo espaço cibernético (como, por exemplo, a maneira como pensamos, conhecemos, aprendemos e lidamos com o saber) requerem novos hábitos intelectuais para lidar com novos signos, representações e interações. As novas formas de trabalho, novas maneiras de viver e de se comunicar vêm influenciando a sociedade, exigindo flexibilidade e participação de todos e interdependência. Essa necessidade de mudança representa uma reação à racionalidade técnica2. Sob a perspectiva da racionalidade técnica, a atividade do professor é vista como instrumental, dirigida a resolver problemas mediante a aplicação de teorias científicas, de reprodução de práticas tidas como corretas, sem questionamento das mesmas atividades. Como crítica a essa racionalidade técnica, surge a proposta da racionalidade prática ou do conhecimento prático (SCHÖN, 1983; 1987) que compreende um processo de reflexão sobre uma situação problemática concreta em que se supera a relação mecânica e linear entre o conhecimento e a prática, havendo elaboração e modificação de rotinas, recriação e invenção de procedimentos e recursos. Seguindo essa linha, em que tanto o conhecimento como a prática são importantes, Schön (1983; 1987) preocupase em articular os conceitos de reflexão e ação. Mais do que aplicar conceitos científicos às situações práticas, ele sugere que se aprenda a enquadrar e reenquadrar problemas complexos e ambíguos testando diferentes ações e modificando-as, se necessário. A questão de envolvimento do sujeito com a sua própria prática, além de um compromisso crítico do seu papel na sociedade é, do mesmo modo, a proposta de Perrenoud (1999, p. 13) em relação ao professor reflexivo: “[...] envolverse é, em princípio, interessar-se, informar-se, participar do debate, explicar, mostrar”. Associando ao pensamento 2 Racionalidade técnica é um termo que corresponde a uma concepção epistemológica da prática herdada do positivismo, em que a atividade do profissional é, sobretudo, instrumental, dirigida à solução de problemas através da aplicação de teorias e técnicas científicas. Schön (1983, p. 40) se refere a ela usando o termo citado acima e a ela contrapõe uma postura reflexiva que revê e questiona a prática. 166 reflexivo preocupações relacionadas à transformação social, à participação ativa e ao comprometimento do sujeito com a história, surge o conceito de reflexão crítica. Para Kemmis (1987), a reflexão crítica precisaria ser entendida sob uma perspectiva que reconhecesse que as escolas não se podem transformar sem o comprometimento informado de professores e vice-versa. Para ele, reflexão implica um processo de autoavaliação que coloca o praticante na ação, na história da situação, participante da atividade social, principalmente assumindo posições. O posicionamento crítico-reflexivo implica uma visão da prática como práxis, ou seja, uma ação informada e comprometida que leva em conta tanto pensamento quanto ação. Este comprometimento por parte de todos os participantes do processo educacional faz com que os olhares não fiquem direcionados apenas às teorias e possíveis compreensões, mas também aos processos sociais e históricos. E como o professor lida com essa ação informada e comprometida quando se insere um novo componente em sua prática pedagógica, as tecnologias de comunicação e informação e os ambientes virtuais de aprendizagem? 2. Professor e tecnologia Como propor aos professores acostumados a escrever no papel, usando caneta, lápis e borracha, e a ler textos impressos, folheando página por página, sublinhando o que mais lhe interessa, a também usar um teclado e mouse para digitar seus trabalhos ou a também ler textos e hipertextos com links sem sequência linear? Essa mudança do como escrever ou ler nesse novo ambiente digital requer negociação, discussão dos prós e contras, das facilidades e dificuldades que tal atitude pode gerar e, principalmente, de opção pelo momento de usar, ou não, uma tecnologia específica, um recurso tecnológico adequado. Todo esse processo pode ser chamado de uma nova alfabetização, ou melhor, de uma nova forma de letramento, uma formação tecnológica. Fica muito difícil, em uma sociedade em que a tecnologia é presença quase constante em nossas vidas particulares, em nossos trabalhos, em nossas diversões, enfim, em nosso mundo, ignorá-la e nem ao menos se interessar em como 167 usá-la, em como desfrutá-la de maneira que atenda às nossas necessidades, em conhecê-la para poder saber se serve ou não às nossas expectativas e propósitos. A sociedade tecnológica requer um professor que vá além do codificar e decodificar símbolos, com novas habilidades, novas formas de engajamento e comprometimento, novos processos para compreender o mundo e nele atuar, novas formas de gestão e formas mais flexíveis de trabalho e novas aprendizagens. Portanto já não é suficiente saber ler e escrever para se compreender o mundo; hoje se faz também necessário ler e escrever digitalmente, conhecer e saber utilizar as tecnologias que estão inseridas no contexto do nosso dia-a-dia e seus respectivos códigos, um constante renovar-se. Além disso, a relação professor e tecnologia sugere comprometimento e engajamento no âmbito não só educacional, mas social, político e econômico; requer, portanto, posicionamento e participação. Esta é uma proposta de responsabilidade, de construção colaborativa, de partilha de experiências, de mudança de práticas, indo ao encontro dos quatro pilares da educação para o século XXI sugeridos por Delors et al. (1998): aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver. Pensando nessa relação professor e tecnologia, tornase extremamente relevante propor uma escola que forme cidadãos capazes de lidar com ferramentas tecnológicas, escolhendo-as e utilizando-as de forma pertinente à realidade e, principalmente, aos objetivos educacionais. A importância de o professor adquirir autonomia de utilização do recurso tecnológico e, especialmente, visão crítico-reflexiva em relação ao uso do computador no contexto educacional prende-se à necessidade de promover a sua própria familiaridade com a tecnologia e de conhecer a si próprio. 3. Eu, professor tecnológico? Campos (2000, p. 152) lembra que, antes de dizer sim ao uso educacional das novas tecnologias, algumas vezes, “[...] sem ao menos avaliar e compreender os reais custos e o tempo, a adequação e as consequências de tal assentimento”, deveríamos perguntar para que tal tecnologia serve ou por que a queremos. 168 Possuir um conjunto de saberes técnicos e habilidades importantes para saber lidar com o computador no contexto educacional (como, por exemplo, saber para que tal tecnologia funciona, como funciona, conhecer sua atividade básica utilizando seus diferentes elementos) não significa, necessariamente, que se esteja capacitado para poder realizar a tarefa docente de maneira autônoma. Acreditamos que, para poder realizar uma prática que venha ao encontro dos objetivos propostos, seria adequado, além de conhecer o recurso tecnológico com o qual se pretende trabalhar, considerar as concepções, experiências e visões críticas dos professores, alunos e demais agentes envolvidos no processo educacional. Considerando o processo de digitalização, o professor é visto sob diversas perspectivas. Para alguns, o professor ainda é aquele que pode ser substituído pelas inovações tecnológicas; para outros, é aquele que precisa de tempo para poder preparar todo o seu trabalho artesanal dia após dia, um trabalho difícil e dispendioso e, portanto, não tão simples de ser reproduzido; e há também aqueles que acreditam que o mérito de ensinar poderia ser relegado à utilização de bons programas computacionais, plenos de recursos, sem a necessidade de intervenção do professor. Que caminhos, então, o professor deve trilhar? Quanto ao perfil docente, Moran (2006) argumenta que com a educação online multiplicam-se os papéis do professor, exigindo uma grande capacidade de adaptação e criatividade diante de novas situações, propostas e atividades. O professor online deveria aprender a trabalhar com diferentes tipos de tecnologias, possuir uma visão mais participativa do processo educacional, estimular a criação de comunidades, a pesquisa em pequenos grupos, a participação individual e coletiva. Moran et al. (2000, p. 86) ressaltam a importância do sujeito valorizar a reflexão, a ação, a curiosidade, o espírito crítico e inovador, enfocando o conhecimento como provisório e relativo, dependendo de sua localização histórica. Essa é uma perspectiva da qual compartilhamos, principalmente quando o professor pretende usar o computador no contexto educacional. 169 De acordo com Marco Silva (2006), o professor deveria ser um construtor de redes e não de rotas. Alguém que definisse um conjunto de territórios a explorar e permitisse ao aluno a autoria da sua própria experiência. Como aquele que dispõe teias, o professor possibilitaria o envolvimento do aluno, estimulando sua intervenção como coautores da aprendizagem. Adelina Silva (2006) vai além e sustenta que, mais do que ensinar, o professor deveria levar o aluno a aprender por meio da criação, da gestão e da regulação das situações de aprendizagem, do desenvolvimento de projetos, resolução de problemas, reflexão individual e coletiva. Ao participar desse processo, o aluno teria a possibilidade da aprendizagem mais efetiva. O modelo em que o computador é instrumento pedagógico em ambientações presenciais e a distância (ou seja, aquele que fornece suporte para a melhoria da qualidade do ensino) e também objeto de estudo exige, como ressaltam Sampaio e Leite (2000, p. 66), participação, ação, contextualização, interação, interdisciplinaridade. Esse modelo faz com que o professor repense o seu papel considerando sua formação, sua prática, suas vivências e experiências, suas representações, conceitos e preconceitos. Concordamos plenamente com a afirmação de Almeida (2003, p. 208) quando diz que: A educação com suporte na TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação), quer presencial ou a distância, funda-se no respeito à diversidade, no diálogo, na autoria, na produção de conhecimento e na presença de um formador que tem o papel de mediador do processo de aprendizagem dos alunos. 4. Formar-se de maneira colaborativa Estudos e pesquisas (OLIVEIRA, 1999; SAMPAIO E LEITE, 2000; LOPES, 2005; PERINA, 2003) comprovam a necessidade de se repensar a formação do professor à luz das tecnologias, de modo a trabalhar com segurança a inclusão digital. Elas podem proporcionar a integração e a colaboração entre os usuários, o que agiliza a ação e permite a formação de redes de comunicação e informação entre seus pares. Por isso nos apoiamos nas afirmações de Freire e de 170 Figueiredo a respeito da importância da colaboração e da reflexão para a aprendizagem e, portanto, também podemos deduzir que se presta para a formação continuada. Segundo Freire (1993, p. 9), o homem apreende a realidade por meio de uma rede de colaboração na qual cada ser ajuda o outro a desenvolver-se, ao mesmo tempo em que também se desenvolve. Todos aprendem juntos e em colaboração. “Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo.” Em um processo de colaboração, somos responsáveis pela nossa própria aprendizagem e pela aprendizagem dos outros. Para Buogo, Chiapinotto, Carbonara (2006, p. 24), a aprendizagem nunca se dá como simples assimilação de um conteúdo isolado por um sujeito ainda mais isolado, mas sim acontece como interpretação do que está no mundo da vida, portanto do que está relacionado com os outros conteúdos e outros sujeitos também em processo de aprendizagem. Portanto o processo de aprendizagem será pleno quando se der de modo colaborativo. Nesse sentido estudar é um processo de parceria. A “aprendizagem colaborativa” se revela como elemento fundamental a contribuir no processo de ensino-aprendizagem e, de uma forma mais abrangente, pode ser entendida como: [...] um conjunto de métodos e técnicas de aprendizagem para utilização em grupos estruturados, assim como de estratégias de desenvolvimento de competências mistas (aprendizagem e desenvolvimento pessoal e social), onde cada membro do grupo é responsável, quer pela sua aprendizagem quer pela aprendizagem dos restantes elementos. A aprendizagem colaborativa destaca a participação ativa e a interação tanto dos alunos quanto dos professores. O conhecimento é visto como um construto social e, por isso, o processo de aprendizagem é favorecido pela participação social em ambientes que propiciem a interação, a colaboração e a avaliação (MENEZES et al., 2002, p. 171). Menezes et al. (2002) enfatizam que o ambiente de aprendizagem colaborativa envolve um conjunto de ferramentas de informação e comunicação que pode contribuir para o processo da aprendizagem, permitindo que professores e alunos re171 avaliem continuamente seus papéis e a prática desenvolvida, na medida em que passam a conhecer novas possibilidades, tanto de inserções de novos recursos tecnológicos, quanto no que se refere à forma de utilização destes recursos. Freire (1993) explana que as pessoas sentem a necessidade de viver em grupos interagindo e estimulando o diálogo, pois isso faz parte do ser humano e é por esse motivo que o indivíduo estabelece o seu processo de aprendizagem. Portanto compreendemos que participar de um ambiente de colaboração é, antes de tudo, interligação de dois ou mais sujeitos voltados ao compartilhamento de experiências, pontos de vistas, práticas, conhecimentos, respeitando as diferenças para uma convivência harmoniosa. Considerações finais As transformações ocorrem a cada minuto, principalmente com a inserção das tecnologias em nossas vidas. Surgem novas relações de comunicação, novas formas de lidar com as informações, novos jeitos de enxergar a realidade. E o contexto educacional não pode ignorar esse fato, inclusive as novas visões de como enxergamos o mundo e a nós mesmos, de como nos inscrevemos no âmbito social e como nos relacionamos. Dentre estas transformações, o professor se vê entrelaçado entre receios e esperanças na inserção da tecnologia em sua prática docente. O primeiro sentimento está atrelado ao desconhecido, a novos comportamentos, a novas linguagens, a novas racionalidades, o que pode causar certa insegurança. Já o segundo sentimento está relacionado às novas possibilidades na prática pedagógica, a uma educação com qualidade que possa gerar pessoas críticas, envolvidas e comprometidas não só com a vida privada, mas, e principalmente, com as práticas sociais, no sentido de fazer um mundo melhor. Considerando que somos seres inacabados, incompletos e com ricas possibilidades de desenvolvimento, nós, professores, podemos enxergar essas mudanças no contexto educacional mediado pelas tecnologias e, principalmente, o papel do professor de mediador, articulador e motivador na produção do conhecimento como uma proposta promissora de uma educação aberta, crítica, libertadora e emancipadora. 172 Referências ALMEIDA, M. E. B. Educação, ambientes virtuais e interatividade. In: SILVA, M. (Org.). Educação online. São Paulo: Edições Loyola, 2003. BUOGO, A. L.; CHIAPINOTTO, D.; CARBONARA, V. O desafio de aprender: ultrapassando horizontes. Caxias do Sul, RS: EDUCS/ NEAD, 2006. 192 p CAMPOS, J. L. de. A educação e o fascínio tecnológico: algumas considerações. In: GRANATO, T. A. C. (Org.). A educação em questão: novos caminhos para antigos problemas. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. DELORS, J. et al. 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São Paulo: Loyola, 2006. 174 O TEXTO E AS PRÁTICAS TEXTUAIS E DISCURSIVAS PRESENTES EM UMA DISCIPLINA NA MODALIDADE A DISTÂNCIA Arlinda Cantero Dorsa1 RESUMO: É importante reforçar que têm ocorrido profundas transformações e ampliações das possibilidades textuais e discursivas na comunicação mediada pelas novas tecnologias digitais, e vários estudiosos debruçam-se em analisar estas mudanças. Estas transformações não só operam com os tradicionais princípios da textualidade, como os subvertem e os sofisticam em função de novas estratégias e textualização, no mínimo desafiadoras, para a pesquisa e o ensino. PALAVRAS-CHAVE: Textualidade, Interação, Ambiente Virtual THE TEXT AND THE TEXTUAL AND DISCURSIVE PRACTICES PRESENT IN A DISCIPLINE OF A DISTANCE LEARNING COURSE ABSTRACT: It is important to reinforce that there have been deep transformations and amplification of the textual and discursive possibilities at the communication mediated by the new digital technologies, and several scholars focus at analysing these changes. These transformations do not work only with the traditional principles of textuality, but also overthrow and sophisticate them accordingly to the new strategies and textualizations, at least challenging to the research and to the teaching. KEYWORDS: Textuality, Interaction, Virtual Environment 1 Mestre em Comunicação –Universidade Presbiteriana Mackenzie, Doutora em Língua Portuguesa- PUCSP, Pesquisadora –GETED –UCDB, Professora de Redação e Linguagem Forense no curso de Direito da UCDB e Técnica de Redação na modalidade a distância. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 175-187 2009 issn 0104-687x Este artigo tem por objetivo investigar como o texto é visto de diferentes formas nas práticas textuais e discursivas existentes em um ambiente virtual, assim como analisar as trocas de informações e conhecimentos visando à interação comunicativa. Tem como foco uma disciplina intitulada “Estudo dos Clássicos”, oferecida na modalidade a distância, em uma universidade privada. Estudar o papel da interação em um curso na modalidade presencial que oferece disciplina semipresencial na modalidade a distância, a partir da textualidade desenvolvida pelos participantes, é de suma importância, pois a produção textual passa a ser vista como um conhecimento construído a várias mãos, a várias vozes discursivas, envolvendo nesta aprendizagem todos os protagonistas do ensino-aprendizagem. As profundas transformações e ampliações das possibilidades textuais e discursivas na comunicação, mediadas pelas novas tecnologias digitais, não só operam com os tradicionais princípios da textualidade, como os subvertem e os sofisticam em função de novas estratégias e textualização, no mínimo desafiadoras, para a pesquisa e o ensino. Sobre este assunto, vários estudiosos debruçam-se em analisar estas mudanças. Segundo Silva (2003, p. 15), não resta dúvida de que a produção e circulação de textos virtuais trazem grandes desafios para a educação formal das novas gerações neste contexto. Cabe observar como a inter-relação por meio da linguagem que acontece em um curso de pós-graduação a distância traz um desafio por permitir que sejam observadas as diferentes modalidades utilizadas e quais atingiram os objetivos propostos pelo curso. No entanto, antes de se discutir a textualidade, vale a pena refletir sobre a questão da interação tão presente e necessária em uma modalidade a distância. A interação entre professor e aluno, aluno e professor, torna-se cada vez mais importante na comunicação em ambientes virtuais de aprendizagem e sujeitos de investigação, pois, segundo Berlo (1991, p. 23) identifica, “[...] existe uma 176 relação de interdependência na interação, onde cada agente depende do outro, isto é, cada qual influencia o outro”, tornando-se, assim, parceiros participativos, investigadores e produtores do conhecimento. Em toda situação de comunicação que acontece em um contexto sócio-histórico e ideológico, o papel da linguagem é significativo, pois a interação comunicativa ocorre a partir da produção de sentidos entre os interlocutores; neste aspecto, é fundamental o papel das funções e níveis de linguagem como fatores estruturais na construção desta inter-relação. Os interlocutores, segundo Cunha (2002, p. 168), “[...] falam e ouvem desses lugares, de acordo com formações imaginárias que a sociedade estabeleceu para tais lugares sociais”. Sendo assim, ao definir quais são os objetivos propostos em uma interação comunicativa, deve o professor utilizar as funções de linguagem adequadas ao momento comunicativo, assim como utilizar o registro de linguagem adequado, seja ele formal seja coloquial. Alguns autores, como van Amstel (2004, p. 3), classificam a interatividade como “[...] um canal de mão dupla onde um sujeito ajuda o outro para realizar uma ação conjunta”, e Silva (2003, p. 6) afirma ser a “[...] interatividade um conceito de comunicação e não de informática”. Assim como os dois autores, Lévy (1999, p. 34) já caracterizava a interatividade como “[...] a necessidade de um novo trabalho de observação, de concepção e avaliação dos modos de comunicação”. Estes três autores concordam com o fato de que interatividade implica uma ação e, para que haja essa ação, deve existir uma boa comunicação, não se limitando apenas às tecnologias digitais. Neste processo de reconstrução dos saberes, a participação é fundamental em um processo cooperativo, segundo Demo (2001); já para van Amstel (2004, p. 3), para “[...] se estabelecer verdadeira interatividade, o usuário precisa se sentir participante da ação, precisa ver as coisas se modificarem à medida que ele emprega sua energia”. Os autores acima concordam em um aspecto importante: interatividade é sinônimo de ação e, para que haja essa ação, 177 há necessidade de uma boa comunicação que vai além do uso das tecnologias de comunicação. Sobre este assunto, deparamos, ao longo dos últimos anos, com inúmeros estudos sobre a importância de fatores como interação, colaboração e estratégias de comunicação no contexto de cursos a distância. Em sua obra, Sala de aula interativa, Silva (2003, p. 27) fala sobre a modificação paradigmática da comunicação, ou seja, a natureza da mensagem, o papel do emissor e o estatuto do receptor que passam por uma mudança significativa. Neste contexto, a mensagem, na modalidade comunicacional interativa, se transfigura constantemente, à medida que atende aos receptores, verdadeiros coautores, cocriadores, nas consultas, explorações ou manipulações. Já o emissor é o construtor da rede que define o que deve ser explorado, o que está aberto a navegações e às possíveis modificações ou interferências vindas do receptor. Para Silva (1998, p. 22): As tecnologias digitais tendem, por sua vez, a contemplar as disposições da nova recepção. Elas permitem a participação, a intervenção, a bidirecionalidade e a multiplicidade de conexões. Elas ampliam a sensorialidade e rompem com a linearidade e com a separação emissão/recepção. Sua disposição à interatividade permite ao usuário ser o ator, ser o autor, cujas capacidades imaginativas e criativas podem se revelar de uma complexidade, de uma riqueza notáveis, sem lhe proibir nem a contemplação nem a meditação. Sintetizando a opinião do autor, a circulação de textos em ambientes virtuais de aprendizagem apresenta grandes desafios para a educação, pois a ideia de comunicação perpassa pela mera transmissão de informação e recai na utilização das tecnologias comunicacionais em uma linguagem livre e plural que possibilita a construção de conhecimentos, disponibilizando, assim, a participação, discussão, reflexão e intervenção dos alunos. Corroborando o pensamento de Silva nesta relação de interdependência, Kenski (2005, p. 12) afirma: 178 [...] o saber sólido e imóvel não existe mais. Diploma não é certeza de saber atualizado, já que os saberes devem ser permanentemente reconstruídos. No fluxo e refluxo constantes de novas informações, acesso e interação são palavras-chave para a manutenção de um estado mínimo de aprendizagem. Nesse cenário novo, caem os rótulos, e tanto alunos como professores mergulham no universo de informações disponíveis nos novos meios tecnológicos: são pessoas, tanto quanto outras, consumidoras de informação. A necessidade de um novo trabalho de observação, de concepção e de avaliação dos modos de comunicação é, segundo Lopes e Salvago (2005, p. 5), acreditar “[...] que não basta dispor das novas tecnologias para garantir a interatividade, e sim engajar-se nas atividades propostas, de espírito aberto às discussões e envolvimento no curso, como um todo”. Nesta concepção, é importante contextualizarmos o papel do professor não como o facilitador, parceiro ou condutor do processo de aprendizagem, expressão tão comum e simplificadora nos cursos a distância, mas sim como o grande articulador desta interatividade comunicacional, porque engloba a necessidade de informar, persuadir, conduzir o aluno a buscar o conhecimento, enfim, a interagir com o aluno de acordo com as suas necessidades. Podemos visualizar o professor como o protagonista deste avanço tecnológico, tanto como elaborador de novas ferramentas de aprendizagem como mediador das novas facetas de comunicação interativa. Com relação ao aluno, é importante que estejam claras quais habilidades deve o aluno possuir para atuar de forma satisfatória e interativa em um ambiente virtual de aprendizagem: autonomia, independência e motivação aliadas à iniciativa individual. A Internet com menos de 50 anos de existência tem despertado o interesse em várias áreas do conhecimento principalmente no tocante ao uso da linguagem. As probabilidades linguísticas implicam cada vez mais a criação de situação de uso tanto na produção oral quanto na produção escrita. Sendo assim, há uma necessidade prelimi179 nar de fazer algumas considerações a respeito da língua e da linguagem a fim de que se possa clarear esta exposição. Ao longo dos séculos, vários estudiosos têm se debruçado em estudar a língua falada e a escrita, pois, ainda que exaustivamente analisada, apresentam diferenças entre a oralidade e a escrita, a primeira considerada como estrutura simples ou desestruturada, informal, e a segunda como complexa e formal. Os elementos pragmáticos referentes às desestruturas formais vão da hesitação às pausas, das ênfases aos truncamentos e sempre estiveram presentes na língua oral sendo considerados como o lugar do caos. No entanto, desde o surgimento do estudo do texto na década de 60, a linguagem deixa de ser vista como uma mera verbalização e passa a ser “[...] incorporada nas análises textuais, na observação das condições da produção de cada atividade interacional” (FÁVERO, 2005). Os linguistas voltam-se a analisar na língua falada como se instaura a conversação, esta definida como “[...] atividade na qual interagem dois ou mais interlocutores que se alternam constantemente, discorrendo sobre temas do cotidiano” (FÁVERO, 2005, p. 26). Ao analisarmos a linguagem oral no contexto virtual, existem diversos desafios apontados por Araújo e Biasi (2005, p. 13): As novas estratégias de comunicação e as formas de uso da linguagem que se diversificam tanto na escrita como na relação interpessoal. O acúmulo de informações: verdadeiros desafios cognitivos. Necessidade de uma maior formação por parte dos envolvidos para enfrentar problemas de compreensão. O papel que as condições externas (sociais, culturais, históricas, tecnológicas) exercem sobre o uso da língua sobrepondo-se às condições internas (formais e estruturais). Para os autores, a Internet é um espaço de grande plasticidade com recursos infindáveis para novas formas de in180 teração pela escrita – desafio promissor –, pois é “[...] o tipo de ruptura que constrói e não corrói”. A prática discursiva ambientada na WEB altera as nossas relações sociointerativas e as nossas habilidades tecnológicas em lidar com a oralidade e a escrita em um ambiente virtual. Ao tratar do uso da linguagem via Internet, como objetivo de construir um universo linguístico no qual as coisas acontecem, o professor deve definir quais são os objetivos propostos e como fazer para alcançá-los, de modo a promover a interação e a constituição de cada aluno em sujeito de sua aprendizagem e a construção de conhecimento. A proposta de assumir uma postura de interação e comunicação entre professor e aluno mostra que a Educação a Distância – EaD está descobrindo que pode ensinar de forma menos individualista, mantendo o equilíbrio, flexibilidade e interação. Todo texto apresenta várias possibilidades de leitura, sendo assim, a textualidade tem como objetivo levar o leitor a compreender determinado efeito, para determinado objetivo. Daí o fato de a ênfase em algum recurso ficar a cargo da capacidade criativa do autor ou emissor da mensagem assim como do receptor. Com relação à textualidade, esta é vista como o conjunto de características que fazem com que um texto seja um texto e não uma sequência de frases. Dentre os autores que discutem este assunto, podemos citar na sua própria historicidade Beaugrande e Dressller que, em 1981, definem texto como uma ocorrência comunicativa e procuram compreender como eles funcionam na interação humana como uma atividade crucial. Já em 1997, Beaugrande afirma ser essencial tomar o texto como um evento comunicativo no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais. Em 1981, os autores postulam sete princípios constitutivos da textualidade que definem, e criam o comportamento identificável como comunicação textual; estes princípios representam as atitudes dos usuários relativas aos padrões de textualidade que possibilitam uma perfeita comunicação na organização de um texto. 181 Neste contexto, podemos ver os três grandes pilares da textualidade envolvidos neste processo: o produtor/autor; o leitor/receptor; e o texto/evento. Sendo assim, o texto passa a ser visto como: – Processo: configuração linguística de cotextualidade (conhecimentos linguísticos a partir dos seguintes critérios: coesão e coerência. – Produto: como situação comunicativa de contextualidade: conhecimentos de mundo a partir dos seguintes critérios de aceitabilidade, informatividade, situacionalidade, intertextualidade e intencionalidade. Estes critérios permitem acesso à construção de sentido. A coerência cuida da construção do sentido do texto e manifesta-se na sua macroestrutura. Depende do contexto no qual o texto está inserido, daí a necessidade da ativação de fatores extralinguísticos: conhecimento partilhado, conhecimento de mundo, experiências cotidianas, inferências on-line. A coesão se manifesta no nível microtextual e refere-se aos modos como os componentes do universo textual, isto é, as palavras que ouvimos ou vemos, estão ligados entre si dentro de uma sequência que se constrói a partir de elementos que sinalizam relações entre os componentes da superfície textual. A aceitabilidade define a atitude do leitor diante do texto, aceitando-o como coerente e coeso, relevante e possível de ser utilizado na comunicação, além de incluir uma tolerância do leitor ao aceitar desvios e reformulações do texto. De acordo com estes fatores, passamos a analisar alguns textos retirados do ambiente virtual de aprendizagem da disciplina “Estudo dos Clássicos”. Excerto 1 (aluno): Re: Boas vindas. Olá Professora! Seja também bem-vinda! Tenho certeza que esta nova etapa será muito importante para nós! Adorei esta disciplina e estou animada com os debates que ela vai proporcionar! Abraços, Maria. 182 A informatividade faz com que um texto se torne mais interessante de acordo com o grau de informações que ele traz, assim como as expectativas e conhecimentos dos usuários; cabe ao produtor buscar sempre a novidade, alternada com o já conhecido, para que aconteça o envolvimento do leitor nos eventos não previsíveis do texto. Excerto 2 (professora): Título do fórum – Boas vindas. Olá pessoal, tudo joia? Sejam bem-vindos à nossa disciplina. Teremos em três unidades definidas a discussão das obras de Ihering, Rousseuau e Maquiavel. Além disso, em cada unidade, haverá tópicos importantes relativos à Língua Portuguesa. As discussões já estão começando... Ótimo! Alguns alunos já estão debatendo a primeira atividade no fórum permanente. Participem e até breve. A situacionalidade mostra que um texto é compreensível dentro de um determinado contexto e responsável por orientar o leitor na sua receptividade textual. Excerto 3 (professor): Título do fórum – O valor da sua participação Prezados alunas e alunos! Enquanto todos preparam o espírito para o início da nossa disciplina ‘Estudo dos Clássicos’, gostaria de reiterar o que expressei anteriormente a respeito da importância da sua respectiva participação. Naquela oportunidade, já dizia que ‘em curso dessa natureza e nível, pretendemos valorizar a sua participação em todas as formas possíveis, uma vez que reconhecemos, no envolvimento de cada um, valioso instrumento de produção, desenvolvimento e disseminação de ideias pertinentes’. Então, não se esqueçam: Expressem suas sugestões, preocupações e enriquecimentos. Espero muito de sua importante participação. Enriqueçamos nossos estudos!!! A intertextualidade trata da recepção e produção de textos relacionados com o conhecimento de outros textos, e esta dependência dos participantes do discurso, relacionando o 183 novo a outros já conhecidos, dará sentido estabelecendo-se a compreensão. Essa interação, de certa forma, implica intertextos e interdiscursos, na medida em que são formas de conhecimento armazenadas na memória de longo prazo que expandem e reduzem a informação nova durante o seu processamento memorial. Excerto 4 (aluna): Re: O valor da sua participação. Caro professor, estou um pouquinho desesperada... Somente tive acesso hoje (15/9) e já tenho que entregar a primeira atividade no dia 18/9, sendo que sequer sei por onde devo começar. Não tive tempo de explorar os recursos oferecidos por esta disciplina. Gostaria que me passasse alguma dica o mais rápido possível, para que pudesse fazer um bom trabalho até segunda-feira. Grata. Excerto 5 (professor): Re: O valor da sua participação. Cara Lyda, não se assuste (ainda!!!...), pois com certeza você conseguirá. Sugiro que leia as informações iniciais da disciplina e, se tiver alguma dúvida a respeito dos recursos do sistema, bem como da navegação por ele, contate-se com os Tutores. Eles colocam você a par de tudo. Dúvidas a respeito do conteúdo, fale comigo. Mas creio que você nem precisará de tudo isso, pois o andamento da disciplina está razoavelmente autoinstruído. Como você tem menos tempo, por chegar depois, adiantolhe que deverá participar o mais intensamente possível das discussões atuais (nesse momento sobre o primeiro tema – A discussão sobre a obra de Iehring) e elaborar texto pertinente que até dia 18 deverá ser depositado. Abraços e seja bem-vinda!!! A intencionalidade faz com que o produtor do texto organize seu texto coerente e coeso com o objetivo de informar, impressionar, convencer, persuadir, pedir, ordenar, no entanto esta construção exige ser de acordo com a situação comunicativa em que o texto se apresenta. 184 O texto é hoje considerado tanto como objeto de significação, ou seja, como um “tecido” organizado e estruturado quanto como objeto de comunicação, objeto de uma cultura, cujo sentido depende do contexto sócio-histórico. Na concepção de Marcuschi (2008, p. 34), o texto é visto como um: – Sistema de Conexões entre vários elementos: sons, palavras, enunciados, significações, participantes, contextos, ações. – Construção de multissemas, pois envolve aspectos linguísticos e não linguísticos no seu posicionamento (imagem, música). – Evento Interativo, pois não é monológico e solitário, e sim coprodução (coautoria em vários níveis). – Composição de Elementos Multifuncionais na composição de elementos, pois envolve som, palavra, significação, instrução. O ambiente virtual de aprendizagem é um espaço propício para se ensinar e aprender, pois redimensiona o papel de cada membro no uso da interação, participação, colaboração e autonomia. Ressalta-se, portanto, o aspecto dialógico da linguagem, pois a situação discursiva e o contexto obrigam o locutor a moldar a sua enunciação de acordo com as condições externas. Com relação a esta dialogia, tão necessária para o desenvolvimento da habilidade linguística, é fundamental que os componentes de uma comunidade virtual assumam um compromisso com a formação de um leitor autônomo e um competente produtor de texto. Sendo assim, é imprescindível o estudo de novos gêneros textuais e a renovação de outros já existentes e adaptados ao meio eletrônico, portanto uma atenção redobrada nas abordagens teórico-metodológicas voltadas aos novos recursos que estão sendo disponibilizados para se efetuarem as trocas de informações e conhecimento visando à interação comunicativa. 185 Referências ARAÚJO, Julio Cesar; BIASI, Bernadete Rodrigues (Orgs.). Interação na internet: novas formas de usar a linguagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. BEAUGRANDE, Robert de; DRESSLER, Wolfang Ulrich. Introducion to text linguistics. London; New York: Longman, 1981. BEAUGRANDE, Robert de. New Foundations for a Science of Text and Discourse. Greenwich, CT: Ablex, 1997. BERLO, David K. 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Palavras-chave: Educação Profissional, Ensino de Línguas, Práticas Pedagógicas The teaching of languages in the Vocational education: the historical conflicts and the classroom challenges Abstract: This paper presents a brief historical overview on vocational and technological teaching at CEFET-MT. It also presents a reflection about the institutional changes over time and how they have influenced the Portuguese language teaching in its courses. Considering the several modifications imposed by the Ministry of Education and Cultures (MEC) and complying the new language teaching approach, based on the Theory of Genres of Discourses, we describe recent experiences at the institution and we instigate teachers to implement a pedagogical methodology focused on the effective language use in order to answer the discursive demands on the vocational education. Keywords: Vocational Education, Language Teaching, Pedagogical Practices 1 Mestre em Estudos de Linguagem pelo MeEL/UFMT, Professora de Língua Portuguesa do CEFET/MT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 189-202 2009 issn 0104-687x Introdução O ensino técnico e tecnológico tem despertado bastante a atenção do Governo Federal nestes tempos de crescimento econômico. Da mesma forma como a educação profissional teve sua importância em outras épocas da história do Brasil, devido à ânsia e à necessidade de capacitar a mão-de-obra para atender às empresas, hoje tal fato se avizinha novamente e desperta os olhares de instituições que querem continuar atendendo à formação profissional sem perder seu espaço na sociedade e sem sofrer danos ao seu sustento financeiro para continuar com seu status de excelência no ensino. Esse é o caso das Instituições Federais de Ensino Técnico e Tecnológico que hoje são conhecidas, principalmente, pela sigla de CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica). Diante desse cenário de lutas ideológicas em cujas ações políticas sobressaem aquelas que visam unicamente à permanência de alguns no poder, impõem-se reformas e mais reformas governamentais, sem abrir espaços para a reflexão e construção de ações educacionais que atendam à formação humana e profissional de forma satisfatória. Criam-se momentos de discussão, mas eles não são suficientes para a efetiva mudança nas concepções do ensino por parte dos servidores de um modo geral. Com o objetivo de compreender um pouco mais o quadro educacional vivido pela instituição, apresento, inicialmente, um percurso histórico sobre a educação profissional no Brasil e em especial no CEFET-MT. O objetivo é mostrar como as constantes mudanças têm influenciado o currículo e as áreas do conhecimento dos cursos. Destaco, aqui, a disciplina Língua Portuguesa, por ser ela o foco das pesquisas que venho desenvolvendo desde o período de Mestrado, com um olhar para as práticas pedagógicas voltadas para as habilidades de leitura e escrita que atendem às demandas de formação acadêmica e profissional dos nossos alunos. 190 1. Um breve histórico da instituição – lócus da pesquisa As escolas técnicas federais no Brasil, desde a sua criação, objetivou atender à formação profissional dos cidadãos. E, assim, conforme a demanda tecnológica das empresas cresce em decorrência da modernidade, o Governo Federal vai criando novos modelos, buscando sintonia com os novos discursos do mercado de trabalho. Quando foi instalada em Cuiabá, a instituição recebeu o título de “Escola de Aprendizes Artífices de Mato Grosso”, em 1909. No percurso histórico da instituição, vários outros nomes foram sendo dados de acordo com a implantação dos novos modelos. Recebeu, em 1937, o título de “Liceu Industrial de Mato Grosso”; em 1942, passou a ser chamada de “Escola Industrial de Cuiabá”. Já em 1965 era conhecida por “Escola Industrial Federal de Mato Grosso”, alterada em 1968, para o seu nome mais conhecido: “Escola Técnica Federal de Mato Grosso”. E, finalmente, com o decreto presidencial de 19 de agosto de 2002, teve o nome mudado para CEFET-MT. Mais uma proposta de mudança está em curso nos discursos governamentais: a transformação dos CEFETs em IFETs – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. O novo modelo do MEC é resultado do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) e os novos IFETs integrarão os Centros Federais de Educação Tecnológica, as Escolas Técnicas e as Agrotécnicas Federais. As mudanças propostas pelas constantes resoluções do Ministério da Educação revelam as coerções sincronizadas com o perfil do mercado de trabalho de um capitalismo global irrestrito. Entretanto, os professores, em especial, vêem-se inseguros quando convocados a assimilaram um novo modelo. Surgem diversos conflitos de vozes que vão construindo as práticas discursivas no espaço social da instituição. E isso certamente tem influenciado significativamente as práticas educacionais no cotidiano dos diferentes sujeitos que se relacionam no espaço interno e externo da sala de aula do CEFET-MT. 191 2. Metodologia As análises e os resultados apresentados neste texto resultam de uma pesquisa interpretativa, por envolver dados e fatos de significação social. No período do Mestrado, a observação participante e as entrevistas semi-estruturadas foram essenciais para a coleta dos dados. A pesquisa reveste-se também de um caráter etnográfico, pois o processo de investigação tomou o pesquisador, primeiramente, em seu ambiente motivador, no caso o CEFET-MT, com o foco no ensino de Línguas nos cursos técnicos. Nesse tipo de pesquisa, a atenção do pesquisador voltase para o processo da pesquisa e não apenas para os resultados ou produtos. As práticas sociais, analisadas no processo em que ocorrem, são influenciadas pelas “regras” culturais, e vice-versa. E vão ressignificando contextos, promovendo, assim, mudanças constantes. (GARFINKEL, 1967 apud ERICKSON, 1990, p. 106). Após o Mestrado, vi a necessidade de continuar o processo de investigação, pois constatei que as práticas pedagógicas relacionadas com as habilidades de leitura e escrita não estavam sintonizadas com o novo paradigma de ensino de línguas e, portanto, não atendiam às demandas de formação acadêmica e profissional dos nossos alunos. Essa constatação me fazia desejar ultrapassar a observação passiva das práticas discursivas dos sujeitos. Sentia-me impelida a promover ações concretas que pudessem reorganizar as práticas pedagógicas para a melhoria da qualidade do ensino na instituição. Assim, recorri também à pesquisa-ação, pois ela é de aplicação prática, compreendendo que o processo de investigação não é mera observação, mas também ocasião para que mudanças nas práticas discursivas em torno da educação profissional do CEFET-MT e resultados efetivos sejam alcançados. (THIOLLENT, 2003). Por esse motivo, criamos um grupo de pesquisa com os professores de Língua Portuguesa com o objetivo de promover um espaço de discussões teóricas e práticas sobre o ensino de línguas, a fim de implementar ações referentes ao processo de ensino-aprendizagem voltado para a formação 192 profissional desenvolvida nos diferentes cursos oferecidos pelo CEFET-MT. Com a criação do grupo, ações já foram implementadas e registro aqui algumas reflexões realizadas por meio delas. 3. Referencial Teórico As práticas discursivas dos sujeitos participantes da pesquisa constituíram o objeto de análise e elas foram interpretadas sob a ótica da Análise do Discurso Crítica (ADC), proposta por Fairclough (2001). Um dos motivos que me levaram a tal escolha diz respeito ao caráter militante de crítica ideológica assumida pela ADC e a possibilidade de o discurso contribuir para a transformação da sociedade e não apenas para a sua reprodução. Diante dessa vocação, a ADC focaliza, sobremaneira, as contradições patentes nas práticas discursivas que sinalizam que há mudanças em curso. Afinal, as “práticas discursivas em mutação são um elemento importante na mudança social”. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 82). Considero que analisar discursos seja uma atividade produtiva, pois, segundo Fairclough (2001, p. 91), “discurso é uma prática, não de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado”. Portanto, para a Análise do Discurso os sentidos são produzidos pelos sujeitos enquanto membros de uma comunidade social e discursiva. Vejo, também, a Teoria dos Gêneros Discursivos como uma resposta adequada aos anseios da sala de aula e do ensino de Línguas. Compreendo que propostas pedagógicas devam ser organizadas em torno do eixo uso-reflexão-uso da língua portuguesa e que, para isso, é preciso tomar os gêneros textuais como objeto de ensino. Estabeleço, assim, um diálogo com autores como Dolz e Schneuwly (2004, p. 51). Para eles, “comunicar-se oralmente ou por escrito pode e deve ser ensinado sistematicamente”. Para isso eles propõem uma “seqüência didática”, ou seja, uma “seqüência de módulos de ensino, organizados conjuntamente para melhorar uma determinada prática de linguagem”. 193 4. Práticas discursivas no CEFET-MT – sentidos e história 4.1. Mudanças – gerando inquietações e conflitos O CEFET-MT, como órgão federal de ensino, está sujeito às mudanças estabelecidas pelo Governo e em especial pelo Ministério da Educação e pela Secretária de Educação Profissional e Tecnológica. Entre as mudanças estão, em especial, a reconfiguração de seus antigos cursos técnicos ou criação de outros conforme a demanda socioeconômica e o surgimento de cursos de nível superior tecnológico. As constantes mudanças geram dúvidas e preocupações entre os sujeitos-professores: “o que fazer agora?!”; “o que ensinar aos nossos alunos?”; “mal conseguimos nos adaptar a um modelo ou proposta curricular, e surgem novas mudanças?!”. Como se pode observar, os sentidos que emergem na voz dos professores demonstram conflitos diante das imposições ditadas pelo MEC. Eles enunciam suas inquietações em relação às constantes transformações pelas quais a instituição vem passando, sem, contudo, proporcionar momentos para repensar conceitos enraizados historicamente e filiados, por exemplo, a saudosismo exacerbado como o do tempo do “Coronel2” ou de outros momentos áureos da instituição. Tais inquietudes, incertezas e conflitos continuarão a existir, principalmente agora que a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia já se efetivou politicamente. O Projeto de Lei nº 177/2008, proveniente da Câmara dos Deputados, foi aprovado pelo Senado Federal no dia 03 de dezembro de 2008 e seguiu para sanção presidencial. Portanto, o que nem se esperava que fosse acontecer neste ano, já está se tornando uma realidade entre nós, servidores e sociedade brasileira. A logomarca do Instituto já foi criada, como se pode comprovar na imagem a seguir, e, de acordo com alguns 2 Quando os professores relembram o tempo do Coronel, fazem referência a um militar que exerceu o cargo de Diretor de Educação no CEFETMT e que deixou marcas de autoritarismo, mas também de competência e amor à instituição. É realmente uma figura histórica que se tornou mito na voz de muitos funcionários. 194 depoimentos, o Governo espera que o título de “Instituto Federal” se torne uma marca forte na mente dos brasileiros da mesma forma como é o das Universidades Federais. Figura 01 – Logomarca do Instituto Fonte: http://portal.mec.gov.br/setec/. As mudanças têm marcado o quadro educacional da instituição e potencializado conflitos entre as áreas das disciplinas técnicas e as do núcleo comum. A pergunta “qual é a verdadeira vocação da instituição – formação técnica-profissionalizante ou formação geral do núcleo comum?” sempre emerge nos discursos dos sujeitos quando enunciam em defesa de sua área de atuação, evidenciando conflitos históricos. No excerto a seguir, recortado de uma entrevista realizada no período da pesquisa de Mestrado, tem-se o discurso representativo da área técnica que defende a formação técnica como a verdadeira vocação do CEFET-MT. Pode-se observar, ainda, que a mudança do nome da instituição não foi assimilada por completo pelo professor. “Nós somos uma Escola Técnica Federal de Mato Grosso, Centro Federal de Educação Tecnológica. Qual que é a essência dessa escola? Cursos técnicos, cursos tecnológicos. (...) alguns colegas do ensino médio às vezes entendem o contrário, acham que o ensino médio é que é... Não é, a essência da escola é técnica. Mas (esse conflito) sempre existiu, vai existir. Sempre existiu, sempre existiu. (...) (Entrevista - Antônio3, 28/02/2000) O fenômeno da interincompreensão, empregado por Maingueneau (2005, p. 103), certamente tem se evidenciado nos discursos, ou seja, há “um desentendimento recí3 O nome do professor é fictício, com vistas a preservar sua identidade. 195 proco”, pois cada área tem seu “discurso fundado em uma grade semântica”. Cada um toma uma posição discursiva conforme o lugar de onde enuncia. E assim, a área técnica defende a formação técnica como a principal nos cursos e, do outro lado, o núcleo comum constantemente ergue a voz na tentativa de conquistar um espaço maior para trabalhar seus conteúdos nos cursos. Os professores de Português se enquadram neste segundo grupo. Não há como negar que a vocação do CEFET seja a educação profissional, no entanto, é imprescindível que seja quebrada a lógica do “nós humanistas – eles tecnicistas”, pois se assim não for, estaremos fadados a diálogos que não passarão de conversas de surdo. Continuaremos reformando ao infinito, mas não mudaremos nada concreta e significativamente na instituição. 5. Ensino Profissional – desafios em meio a conflitos sociais, lingüísticos e históricos A seguir, apresento dois sub-tópicos que contextualizam o quadro educacional a que os professores de Língua Portuguesa precisam se adaptar e adequar a sua prática. 5.1. Professores da área técnica e a concepção instrumental de língua Considero importante registrar aqui algumas concepções de ensino de língua enunciadas nos discursos dos professores da área técnica. Tais sentidos foram evidenciados nas entrevistas que colhi por ocasião da pesquisa de Mestrado, entretanto, elas podem ser ouvidas constantemente pelos corredores da instituição, em conversas informais ou ainda em reuniões pedagógicas. O quadro a seguir apresenta as principais concepções. 196 Quadro 1 – As concepções sobre o ensino de Línguas - “As habilidades lingüísticas têm como base o domínio do vocabulário técnico” - “O ensino de Português deve ser direcionado às especificidades da profissão” - “A Língua Portuguesa é responsável pelo ensino de metodologia científica” - “O domínio da Língua Portuguesa passa pelo desenvolvimento da oralidade” - “O professor de português é apenas um corretor ortográfico” - “Oposição às leituras polissêmicas e implícitas em favor da leitura objetiva e monossêmica dos textos técnicos. - “Escrever é um dom, poucos o possuem”. Essas diferentes concepções acabam, muitas vezes, por se imprimir nas grades curriculares dos cursos. Muitos deles, em épocas passadas, foram criados sem a participação de um professor de Língua Portuguesa para auxiliar na escolha do nome da disciplina, na construção da ementa e da carga horária. Hoje há uma participação mais efetiva de professores do núcleo comum na elaboração de projetos de cursos novos, na reformulação dos que já existem e na criação das ementas. 5.2. Diferentes cursos – diferentes concepções de língua Nos quadros a seguir faço um painel de como o ensino de Língua Portuguesa se configura nos cursos técnicos e tecnológicos da instituição. Não foram contemplados, nessa tabela, os cursos de Nível Médio Integrado em Informática, Secretariado, Turismo Regional e Meio Ambiente, pelo fato de eles, ao integrarem disciplinas técnicas ao antigo Ensino Médio, manterem o antigo nome da disciplina – Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. 197 Quadro 2 – A disciplina de Língua Portuguesa nos cursos técnicos CURSOS TÉCNICOS Telecomunicações Habilidades de redigir relatórios técnicos e ler e interpretar textos técnicos. Eletrônica Língua Portuguesa Aplicada Eletrotécnica Língua Portuguesa Técnico em alimentos Redação Técnica Edificações Português Instrumental e Redação Técnica Geomensura Relatório Técnico Turismo Língua Portuguesa I e II Quadro 3 – A disciplina de Língua Portuguesa nos cursos tecnológicos CURSOS TÉCNOLÓGICOS Controle de Obras Habilidades de Redigir Relatórios Técnicos, Ler e Interpretar Textos Técnicos, Redigir Carta Proposta Comercial. Automação Industrial Comunicação Oral e Escrita Gestão Ambiental Comunicação Lingüística. Sistemas para Internet Práticas de Linguagem Redes de computadores Comunicação e Expressão 5.3. Realidade lingüística dos sujeitos-alunos do CEFET-MT O CEFET-MT, com os seus quase 100 anos de história, presenciou diversas mudanças sociais no seu corpo discente. Inicialmente foi criado para atender aos “pobres desvalidos da sorte”, ou seja, o ensino enquadrava-se numa política assistencialista do Governo Federal. Os alunos ingressavam na instituição para aprender uma profissão prática, como marcenaria, carpintaria, etc. e recebiam, ainda, auxílios na alimentação e no vestuário. Aprendiam a repetir mecanicamente o que os outros faziam e não a pensar sobre o que faziam. Quando se transformou em Escola Técnica Federal de Mato Grosso, passou a receber alunos conhecidos como os 198 filhos da elite. Isso porque era considerada uma instituição de ensino médio que garantia qualidade na formação profissional para inserção no mercado de trabalho e também preparação para ingresso imediato na Universidade. Com a criação dos cursos técnicos subseqüentes começaram a ingressar na instituição alunos que necessitavam de formação rápida, a fim de obter capacitação para o mercado de trabalho. Vale a pena registrar as vozes que ecoam na fala de professores, quando fazem referência aos alunos da instituição nos diferentes períodos históricos em que ela viveu: • “é muito fácil dar aula para a elite”. • “a escola era melhor quando recebíamos alunos de nível social médio alto”.4 Na voz dos professores, reconhecem-se os diferentes grupos sociais dos alunos que a instituição recebeu. Ao mesmo tempo, percebe-se a avaliação positiva dos professores ao enunciarem sobre o período áureo vivido pelo CEFET-MT, quando era conhecido como ETF ou Escola Técnica. No nível do pressuposto, os professores enunciam também que preferem trabalhar com a “classe mais alta da população”, excluindo um dos propósitos essenciais da educação – o da inclusão social. 5.4. Novas tecnologias – novas linguagens Com a transformação de Escola Técnica para CEFETMT, foram implantados os cursos superiores de tecnologia. Surgiram, então, novos desafios ao ensino de línguas: a tecnologia da folha de papel, em suas diferentes cores, texturas e tamanhos, deixou de ser apenas o suporte para o texto. Hoje tem-se a tela do computador, onde são abertas “janelas” que podem ser consideradas semelhantes a folhas em branco ou páginas de livros, mas que exigem novas estratégias de ensino na prática do professor de línguas. Se apenas se deseja ler os textos, não se tem acesso à materialidade da escrita no papel, mas da tela como su4 Os enunciados apresentados referem-se a registros de conversas entre professores ocorridas em momentos informais em que se discutia a instituição. 199 porte de um texto virtual, passível de alterações conforme o toque de um botão ou de um sensor. (RIBEIRO, 2005). E é nessa tecnologia de leitura e de escrita em que se está imerso hoje e não há qualquer possibilidade de ignorá-la. Se os suportes sofrem mudanças, os gêneros discursivos também são recriados pelo homem. A exemplo disso tem-se o e-mail que, concebido como uma variante da carta, passou a fazer parte do cotidiano das práticas sociais, cumprindo as mais diferentes funções de interação, sejam elas pessoais, comerciais ou oficiais. 5.5. Linguagem e Ensino – desafios e perspectivas Diante deste cenário de novas tecnologias e suas linguagens com seus diferentes textos, suportes e formas, os professores sentem-se desafiados a reorganizar suas práticas pedagógicas para atender efetivamente às novas demandas de aprendizagem da escrita nos cursos de formação profissional, sejam eles de nível médio integrado, técnico subseqüente ou tecnológico. Como a formação sociocultural dos estudantes que hoje ingressam no CEFET/MT não é homogênea e muito menos “ideal”, é preciso articular as referências trazidas para a sala de aula e socializar aquelas que foram sistematizadas nas diversas disciplinas que compõem os currículos escolares. Como a prática da leitura e da escrita nem sempre está presente na vida desses alunos, principalmente em uma era em que as linguagens não-verbais passaram a ser as que prevalecem na leitura do cotidiano, enfrenta-se o desafio de fomentar essa necessidade entre eles. E isso não se consegue de imediato, é preciso que esse imperativo seja assumido por todos os professores das áreas da formação profissional específica de cada curso e também do núcleo comum. (GUEDES e SOUZA, 2001). Considerações finais O professor de português precisa organizar os conteúdos de sua disciplina de acordo com a nova proposta de ensino de línguas, nucleada pelo tripé das práticas (prática de produção de textos, prática de leitura de textos e prática 200 de análise lingüística), bem como de acordo com o eixo uso => reflexão => uso. Considero, ainda, que a interdisciplinaridade seja uma proposta adequada para o ensino de línguas nos cursos técnicos e tecnológicos. Em atividades práticas, como ensaios e experimentos, é possível desenvolver um trabalho de leitura e de produção de textos da área específica do curso. Ao mesmo tempo em que se analisam os gêneros textuais comuns às práticas discursivas do mundo do trabalho, desenvolve-se o objetivo primordial do ensino de línguas: a competência genérica e o uso efetivo da língua em diferentes contextos profissionais. Referências Erickson, F. Qualitative Methods. In: LINN, R.L; ERICKSON, F. Research in Teaching and Learning. V. 2. New York/London: Macmillan Publishing Company, 1990. Guedes, p. c.; Souza, j. m. Leitura e escrita são tarefas da escola e não só do professor de português. In: NEVES, I. C. B. et alli (orgs.). Ler e Escrever: compromisso de todas as áreas. 4. ed. Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 2001. FAIRCLOUGH, N. Discurso e Mudança Social. (Coord. Trad.) Izabel Magalhães. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2001. Ribeiro, A. E. Ler na tela – letramento e novos suportes de leitura e escrita. In: COSCARELLI, C.; RIBEIRO, A. E. (orgs.). Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas. Belo Horizonte: Ceale; Autêntica, 2005. SCHNEUWLY, B.; DOLZ, J. Gêneros orais e escritos na escola. (trad. e org.) Roxane Rojo e Glaís Sales Cordeiro. Campinas – SP: Mercado de Letras, 2004. THIOLLENT, M. Metodologia da Pesquisa-Ação. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2003. VALEZI, S. C. L. O ensino de Língua Portuguesa em cursos técnicos do CEFET-MT: o conflito entre as vozes dos professores. Cuiabá –MT: UFMT, 2005. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem – MeEL), Instituto de Linguagens, Universidade Federal de Mato Grosso, 2005. 201 EDUCAÇÃO INDÍGENA EM CONTEXTOS URBANOS DOS MUNICÍPIOS DE BARRA DO GARÇAS, PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGARÇAS: DESAFIOS DE NOVOS TEMPOS Marly Augusta Lopes Magalhães1 RESUMO: Este trabalho é resultado da convivência de dez anos com alunos indígenas da etnia xavante matriculados em escolas públicas das cidades de Barra do Garças, Pontal do Araguaia-MT e Aragarças-GO, cuja meta principal é fazer um estudo sociolinguístico interacional que proporcione uma visão mais detalhada de como esses alunos são recebidos pela comunidade não indígena. Tal convivência trouxe a possibilidade de um maior entrosamento com esses jovens e, consequentemente, vem despertando o desejo de ajudá-los a melhorar as condições de vida nos espaços urbanos, pois, embora fortes e valentes, são levados a caminhos tortuosos e sem volta, causando um grande prejuízo a sua cultura e, principalmente, a sua língua. PALAVRAS-CHAVE: Alunos Xavante, Escolas Públicas, Estudo Sociointeracional IndigenouS EDUCATION IN URBAN CONTEXTS OF THE CITIES OF BARRA DO GARÇAS, PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGRAÇAS: CHALLENGing NEW TIMES ABSTRACT: This work is the result of the living together during ten years with students of the indigenous group Xavante registered in public schools in the cities of Barra do Garças and Pontal do Araguaia in the state of Mato Grosso, and Aragarças in Goiás. Its primary goal was to carry out an interactional sociolinguistic study that would provide deeper insight of how these students are received by the non-indigenous community. Living together enabled a better relationship with these young people and, therefore, awakened the desire to help them improve the living conditions in urban areas because although being strong and brave 1 Professora do Departamento de Letras da UFMT, campus IuniAraguaia. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 203-213 2009 issn 0104-687x they are led down agonizing paths with no return causing great harm in their culture and language. KEYWORDS: Xavante Students, Public Schools, Social Interactional Study A sala de aula é um espaço em que o aluno indígena vai conviver com quem nunca fez parte dos seus significados. Eles se prostram diante do desconhecido, do inusitado, muitos nunca experimentaram tal situação. A presença desses alunos, no contexto escolar urbano, muitas vezes é costurada pelo fio da insegurança que invade todos os seus espaços tanto culturais como linguísticos. Tudo isso dilui automaticamente a sua identidade, ali naquele cenário eles não sabem se são iguais ou se são diferentes, às vezes, olham para tudo e para todos indistintamente, sem, no entanto, saber quais são as suas verdadeiras atitudes. Todavia percebe-se na lente de seus olhos a imagem do medo, da desconfiança e acima de tudo do pessimismo, talvez porque já perceberam a sua fragilidade diante do novo mundo. Isso porque eles são incapazes de formular qualquer tipo de palavras, seja por medo, seja pelos princípios de sua cultura, seja ainda talvez pelo simples fato de não conseguirem entender o que os outros colegas falam e muito menos a fala da professora. “Falar uma língua, em sua modalidade oral-aural, está entre os saberes universalmente partilhados pelos homens, quaisquer que sejam suas etnias” (COX; ASSIS-PETERSON, 2001, p. 56). Percebe-se que ali naquele espaço eles vivem na condição de vítimas, são intrusos, desconhecidos, diferentes. Enquanto para o não-índio existe a condição de afeto, para o aluno indígena a centralidade é o abandono. A relação de conhecidos e desconhecidos é fortemente marcada pelo sentimento de insegurança, de dependência, de aprisionamento, fazendo-os cada vez mais silenciosos e reticentes. Essa postura muitas vezes fortalece o conceito de “ignorantes”, de que “não entendem nada”, tão frequentes nos ambientes escolares urbanos. Nesse conflito de identidades em que eles são confundidos, existe uma mistura de papéis dentro da mesma moldura. Há a insegurança do professor, porque desconhece 204 totalmente a língua desses alunos e, principalmente, a sua cultura; por outro lado, o aluno indígena, que foi invadido por algo estranho e totalmente diferente de tudo o que ele deixou em suas aldeias. Para ambos, professores não-índios e alunos indígenas, não deixa de ser uma violência terrível, porque para cada um desses segmentos houve uma invasão em seus horizontes de sentidos, invasão de suas potencialidades. O professor não-índio e os alunos indígenas ficam em uma posição de alienação. O professor, por não entender a cultura do índio, não luta para ajudá-los, os alunos indígenas, alienam-se nas mãos de pessoas que a princípio seriam para eles o elemento possibilitador, ou seja, a pessoa que iria ajudá-los a superar as dificuldades encontradas no cenário escolar. Observa-se que esses alunos são cerceados, impedidos de tudo que pode torná-los um bom conhecedor da segunda língua (portuguesa) e também um pouco da cultura do não-índio, objetivos pelos quais eles deixam o seu habitat, pois acreditam que o aprendizado do português é a condição primeira para a sua ascensão à cultura do não-índio. Segundo Comenius (2006, p. 256): Cada língua deve ser aprendida em dado tempo, para que não se torne principal o que é secundário, e não se perca com palavras o tempo devido ao estudo das coisas. A língua materna requer necessariamente vários anos, pois está ligada às coisas que aos poucos se apresentam a nossa mente. Para eles o aprendizado da língua portuguesa é uma forma de encontrar a própria identidade, não são capazes de perceber que para que isso aconteça é necessário um processo bem mais longo e complexo de mudança. Existe aí toda uma estrutura social que precisa ser abalada, modificada em seus quadros de referência, para que possa servir a esses alunos de ancoragem concreta no mundo das tão frequentes desigualdades sociointeracionais. Foi o que Hall (2006) chamou de “[...] perda de um sentido de si”. O que o aluno indígena ainda não é capaz de perceber é que existe um espaço limitado, que a sua própria identidade constitui um limite. 205 Quando a pessoa tem conhecimento de seus limites, ou seja, de sua identidade, torna-se mais fácil para ela encontrar as suas possibilidades. O que o aluno indígena ainda não é capaz de explorar são as suas potencialidades, não conseguiram ainda aprender e conhecer esse novo processo de mudanças. Consequentemente tudo isso os torna mais fragilizados, impotentes, agredidos em suas identidades, porque existe uma confusão a respeito daquilo que eles são e do que não são, o que se percebe é uma ausência de si mesmos. Notase então que há nessa moldura de troca de saberes um alto grau de complexidade em tudo que envolve o aluno indígena no cenário urbano. O deslocamento desses alunos da aldeia para a cidade representa para eles a ausência de seus horizontes de sentidos, a eles são negados quase todos os seus elementos de identificação com o seu mundo natural. O que é mais preocupante, eles não conseguem potencializar as suas qualidades, e isso os torna iscas fáceis para serem desviados de seus centros de subjetividade, é “uma forma de estar sem estar, de viver sem viver”. Os jovens indígenas não sabem o que buscar, não se fixam na cidade, porque não encontram apoio, há sempre negações que são latentes, não se fixam nas aldeias porque acreditam que na cidade podem encontrar a possibilidade de ascensão social e até individual. Essa perda de identidade muitas vezes provoca desvio de comportamento, não vão para as escolas, objetivo primeiro, ou ainda se perdem nas drogas, bebidas, nas lan houses, na alimentação artificial dos pit dogs, porque se sentem privados em determinados espaços urbanos. Privados de suas liberdades, passam a ser vítimas de quase todos os processos sociais do não-índio. Ao vir para a cidade, acreditam que vão encontrar novas oportunidades para refazer suas vidas, ou seja, modificá-las, esperam reencontrar, nos espaços urbanos, uma sociedade que os recebam com dignidade, e que as portas de um trabalho possam se abrir, acreditam ainda na reintegração do nãoíndio com o indígena, e isso é muito difícil de acontecer. E como resposta a esses anseios e se levarmos em consideração que estamos em um tempo de derrubar barreiras, 206 vencer preconceitos e mudar paradigmas, é que não podemos admitir que fato como o seguinte possa acontecer ainda em nossos dias: Recentemente, nas proximidades de uma escola situada no centro de nossa cidade, deparamo-nos com uma cena inusitada, para não dizer caótica. Por volta das 6h45min da manhã, chovia muito, estávamos do outro lado da rua, embaixo de uma marquise para nos abrigarmos da chuva. Nesse momento um jovem indígena de mais ou menos 12 ou 13 anos de idade aproximou-se do portão de acesso às dependências escolares. Ele não entrou, ficou ali estático, encostou-se ao muro como se quisesse se proteger da chuva, todavia continuou molhando, pois na posição em que ele se encontrava era impossível qualquer tipo de proteção. Por incrível que pareça, passaram pelo local outros alunos, supostamente alguns de seus colegas, se não de sala, pelo menos de estabelecimento. Passaram quase todos os professores daquele horário e passou também a diretora do estabelecimento. Naquele momento, aquele “índio” foi ignorado por toda a comunidade escolar, técnicos, alunos, professores e até pelo diretor. No mundo dos objetos, isso pode acontecer, alguns não serem reconhecidos, outros não serem notados, outros serem totalmente abandonados, mas com pessoas, não importa que seja índio ou não-índio, o que importa é o ser humano. “Um objeto pode ser repetido, mas o ser humano, nunca”. Naquele momento, o que se pôde perceber é que aquele jovem foi ameaçado, foi invadido em sua própria identidade, ali parado, molhado, tentando torcer sua camiseta que ficava sempre mais encharcada pela chuva que caía sem parar. Ali, naquele momento, nos perguntamos, será que o seu desejo não era voltar e reencontrar o que havia deixado lá em sua aldeia, lá no seu ambiente familiar? Olhava de um lado para o outro como se não conseguisse entender por que estava ali, estava imobilizado pela própria condição de ser índio, por pessoas que às vezes nos fazem ser o que não somos. Ali distante de seus significados, qual seria a sua oportunidade? Depois desse enfrentamento, a sua vida jamais poderá ser a mesma; depois de ter se de207 frontado com espaços tão estranhos, como reencontrar a beleza de seus sonhos aqui na cidade? No contexto escolar urbano, a realidade para esse aluno se tornou cada vez mais sem brilho. Os transeuntes não eram capazes de perceber que aquele jovem é um cofre que guarda valores imensuráveis, as vozes de muitos anciãos ditas em todas as manhãs, lá no seu ambiente de aprendizado, o que muitos dos não-índios, na sua insensibilidade, não conseguem perceber. O que se pôde notar é que cada um dos que ali passaram, se fecharam em seu subjetivismo, agiram de acordo com o seu mundo interior, com sua história individual, com seus valores, nos seus (pré) julgamentos, em seus (pré) conceitos. Infelizmente, a maioria dos não-índios engloba muitas particularidades imanentes em suas ações que extrapolam os limites da intolerância com relação aos povos indígenas. Para Gil (2007, p. 11): O ser humano torna-se efetivamente um ‘ser-sujeito’ à medida que, integrado ao seu contexto, reflete sobre ele e toma consciência de sua historicidade. A educação tornase, portanto, fator de suma importância na passagem das formas mais primitivas de consciência para uma consciência crítica. Sendo o ser humano sujeito de sua própria educação, as ações educativas devem ter como principal objetivo promovê-lo e não ajustá-lo à sociedade. Dessa forma, tornou-se difícil para o corpo docente perceber a unidade de todos os fragmentos dispersos que lhe acerca. No entanto, na medida em que as autoridades competentes dos sistemas escolares não conseguem oferecer um significado adequado a essa nova realidade, isso pode gerar nesse aluno uma crise de sentido, levando-o a sentir-se frustrado, angustiado pelas dificuldades de entendimento e mesmo de interrelacionamento com a comunidade escolar não-indígena. A ausência de seu habitat lhe proporciona a capacidade de poder mensurar o tamanho do espaço perdido por força dos costumes que evidencia o que antes era desconhecido e o que jamais havia experimentado. A falta de uma verdadeira informação entre os professores não-indígenas e os alunos indígenas intensifica ainda 208 mais a ansiedade de ambos de que estão em um mundo que não compreendem e que também não são compreendidos. Tendo em vista os aspectos positivos da globalização, há discussões propostas nos Parâmetros Curriculares Nacionais, da Lei nº. 9.394 de dezembro de 1996, que estabelecem as diretrizes e bases da educação nacional, em seu Título VIII. Das Disposições Gerais. Art. 78. O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos povos indígenas [...] (BRASIL, 1999). É preciso não esquecer que todo homem, apesar do todo, se constitui como um mosaico, com seus desejos, com suas angústias, com seus temores, com suas paixões e sentimentos. Os povos indígenas são uma realidade nacional, ou melhor, uma realidade mundial, embora representem para muitos nãoíndios fatos isolados, fatos ignorados, “objetos” que podem ser desprezados, que são, portanto, desprovidos de quaisquer sentimentos sociointeracionais. É preciso não esquecer que eles também são componentes do mesmo mosaico e que possuem, acima de tudo, sua individualidade linguística e cultural. A eles é negado o mínimo daquilo pelo qual eles deixam suas aldeias, um ensino, que embora não seja de qualidade, mas pelo menos que lhes seja ministrado com respeito e dignidade. Eles não aprendem quase nada, mesmo sendo os maiores interessados em seu próprio crescimento escolar. O mais preocupante é que eles não percebem de imediato a ineficácia do seu aprendizado. Essa percepção, geralmente, costuma chegar tarde demais, e a própria carência linguística e cultural dificulta qualquer tipo de reclamação. O que se pode observar é que esses alunos indígenas, muitas vezes, são condicionados pelo próprio sistema escolar urbano, pois acreditam que eles são os verdadeiros culpados da não-aprendizagem da segunda língua, sobretudo, do próprio insucesso. Apesar do consenso e da boa vontade de muitos alunos e mesmo de alguns pais indígenas, a qualidade de ensino que esses alunos recebem nas escolas públicas urbanas vem patinando, assustadoramente. 209 O que se atribui a essa dissonância é que a práxis é tomada por um viés ideológico de que o índio é ignorante, que a sua capacidade de aprendizagem é lenta e a sua incompetência como seres humanos dificulta seu desenvolvimento escolar. Nota-se que essa abordagem enfatiza, sobretudo, os aspectos sociointeracionais que não envolvem somente a aprendizagem da segunda língua, mas também suas ações educativas. Mesmo sendo um ser humano dotado de capacidade recriadora, a inserção da segunda língua ao aprendizado desses alunos muitas vezes fica entregue aos próprios limites, tanto por parte dos professores como por parte dos alunos indígenas, pois cada um dos envolvidos busca uma forma que possa fortalecer suas identidades. Embora possam se mover em busca de suas perspectivas individuais, de acordo com seus próprios atributos e seus limites, esbarram na burocracia e na indiferença daqueles que não são favoráveis à sua permanência nos espaços urbanos. A maioria das pessoas que “aceita” a presença do índio em sua comunidade, esquece que ele abdicou da sua condição de índio, deixou seu ambiente de liberdade, de inter-relação com o seu povo e com o seu meio, para viver a condição de subjugado, em condições muitas vezes desumanas. A sobrevivência do aluno indígena, na cidade, é uma afronta para aqueles que têm medo de ousar. Não é fácil tratar com aquele ser fragilizado que sempre foi justificado pela preguiça existencial, como se antes de começarem a luta para a sua sobrevivência nos espaços urbanos já tivessem perdido a batalha. Muitos se esquecem de que os povos indígenas têm o poder do fortalecimento de sua cultura e de sua identidade. O aluno indígena transita pelos terrenos minados da estrutura do não-índio e sofre na condição de um ser desprotegido. Está sempre trancado no cativeiro de sua cultura, porque ele é incapaz de manifestar-se, contrariamente, diante de seu professor, como fazem os alunos não-indígenas, o que acelera ainda mais o processo de distanciamento entre o que ele sabe e o que lhe é ensinado. Nessa tentativa de acertar e de sobreviver fora de suas aldeias, muitos deles se perdem no mundo das bebidas, das 210 drogas, dos jogos e, com isso, perdem a oportunidade de fazer valer os direitos já constituídos. A Legislação Indigenista Brasileira (MAGALHÃES, 2003) deu início a um ciclo de discussões na agenda que trata dos direitos dos povos indígenas em nosso País, tendo como paradigma as conquistas estabelecidas na Constituição de 5 de outubro de 1988. Os termos nela contidos serviram para nortear o processo de repensar o futuro das nações indígenas, tendo em vista as implicações que acarretam a preservação de suas culturas, seus direitos como cidadãos, bem como de suas fontes linguísticas. Repensar, sobretudo, na dinâmica e crescente integração tanto nas dimensões sociais, como espaciais. Para tanto, o debate sobre o tema educação, sem exaurir, contudo, o seu crescimento tanto nos espaços rurais como nos espaços urbanos, são exercícios que se revestem atualmente de enorme importância, quando se leva em consideração as incertezas tão frequentes em nossas molduras nacionais. As discussões inseridas nos termos da Constituição (1988), Lei 001/19/12/1973, em seus artigos 1º., 2º. e 3º., no âmbito da Educação, apresentaram uma visão prospectiva sobre as principais áreas que são essenciais para o desenvolvimento sociointeracional desses povos. O que não pode acontecer com as escolas urbanas é que elas venham perder o fio condutor das conquistas estabelecidas pela Constituição de 1988. Assim, é preciso fazer cumprir as determinações apresentadas em seu teor legal. É preciso remover os obstáculos que impedem o crescimento dos alunos indígenas e criar um ambiente que remova também as desigualdades sociais. Para que isso venha a acontecer, é necessário proceder a uma reforma daquilo que ainda está pendente com relação a esses povos, é preciso ainda vencer as resistências e dar passos adiante. O texto da Constituição faz um recorte de pontos importantes no sentido de simplificar e modernizar o sistema atual de ensino. Não é mais admissível continuar convivendo com atitudes individuais e institucionais que ignoram os direitos desses alunos que deixam suas aldeias em busca de oportunidades nas escolas urbanas. Muitas vezes, a falta de entendimento 211 dos representantes das escolas sobre a cultura dos povos indígenas leva à perda de oportunidade de promover várias reformas administrativas que venham garantir a sua sustentabilidade enquanto sistema moderno de ensino. O intercâmbio entre as instituições de ensino e os povos indígenas tornou-se uma grande necessidade na busca de uma maior participação de ambos. Isso porque, se, por um lado, existe o aluno indígena que pretende aprofundar os seus conhecimentos, agilizar a aprendizagem da segunda língua, para que haja uma maior interação entre essas pessoas de línguas e culturas diferentes, por outro lado, as escolas poderiam assegurar aos alunos indígenas mais conhecimento, mais segurança, mais ensino. A finalidade disso é que eles avancem em seus propósitos e venham atuar junto à sociedade não-indígena no sentido de ampliar suas redes socioculturais e linguísticas para além daquelas com as quais estão habituados a se relacionar, sem, no entanto, atentar contra a cultura e a língua de suas origens. A escola passa a configurar então um espaço de constituição das práticas sociointeracionais que vão tecendo no dia-a-dia desses alunos na cidade. Enfim, há muito trabalho para ser feito, e os desafios são cada vez maiores. O que se pode perceber então é que os discursos que circulam na Constituição sobre os direitos dos povos indígenas são silenciados dentro e fora das molduras escolares. Mais do que estar atento a esses acontecimentos, deve haver também a preocupação com os caminhos e trajetórias percorridos por esses alunos nos espaços urbanos, independentemente de qualquer vínculo com o sistema escolar. Referências BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: Ensino Médio. Secretaria de Educação Média. Brasília: MEC/SEFM, 1999. COMÉNIO, João Amós. Didática magna. Tradução Ivone Castilho Benedetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. COX, Maria Inês Pagliarini; ASSIS-PETERSON, Ana Antônia de (Orgs.). Cenas de sala de aula. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2001. 212 GIL, Antônio Carlos. Didática do ensino superior. São Paulo: Atlas, 2007. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. MAGALHÃES, E. D. Legislação indigenista brasileira e normas correlatas. 2. ed. Brasília: FUNAI; CGDOC, 2003. 213 ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS NA REDE PÚBLICA DO ESTADO DE MATO GROSSO: A REALIDADE DOS OBJETIVOS ATRAVÉS DO CURRÍCULO Sergio Flores Pedroso1 RESUMO: Este trabalho propõe a necessidade de buscar as causas da atenuação cada vez maior da relevância dos objetivos no ensino de línguas estrangeiras na rede pública do país, em geral, e no Estado de Mato Grosso, em particular. Trata-se de uma estratégia argumentativa que, mesmo sendo paradoxal, diminui a culpa resultante de não pensar e aplicar políticas que permitam satisfazer as expectativas da sociedade com relação às línguas estrangeiras na rede pública. PALAVRAS-CHAVE: Ensino de Línguas Estrangeiras, Escola pública, Análise do Discurso The teaching of Foreign languages in the public school SYSTEM of the state of mato grosso: the reality of the objectives through the curriculum ABSTRACT: This paper proposes to search for the causes of the increasing attenuation of the relevance of the objectives of the foreign language teaching favoring discourses on syllabus as it occurs in general in Brazil and, particularly, in the state of Mato Grosso. I justify this issue as an argumentative strategy, that even being paradoxical, aims to reduce the guilt for not to thinking and practicing policies to satisfy the needs of society concerning foreign language teaching in the public school system. KEYWORDS: Foreign Language Teaching, Public School, Discourse Analysis 1 Professor doutor atuante no curso de graduação em Letras (habilitação em Língua Espanhola) e no Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem (área de Estudos Linguísticos), na UFMT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 215-223 2009 issn 0104-687x Introdução Entre professores e estudantes da rede pública em Mato Grosso, circula uma opinião consensual sobre o ensino de línguas estrangeira de que, desde os anos iniciais até o último ano do nível médio, eles têm sido incapaz de “ensinar” as línguas estrangeiras contempladas na grade curricular – inglês e espanhol. Isso vem gerando no processo, como consequência, uma escala de rejeição atitudinal que se retroalimenta das insatisfações que a cada ano são produzidas, insatisfações essas de ambas as partes da interação em sala de aula: alunos e professores. Acima, salientei o termo “ensinar” porque se trata, principalmente, de explicitar o que está sendo concebido como tal ou, antes e principalmente, como aprender, que é o efeito mais visível do ensinar. Isto no intuito de estabelecer as causas mais gritantes da frustração nas expectativas dos participantes do processo. E é relevante levar em consideração que não há expectativas produzidas à margem das necessidades reais ou imaginárias, sendo que as últimas obedecem à tradição. As necessidades “reais” podem se dever às urgências imediatas da instituição escolar, cujo funcionamento é considerado como voltado para si mesmo – a dimensão “endo” da escola, apesar da cobrança cada vez maior da sociedade que, aos poucos, vai mostrando resultados satisfatórios ao subordinar os interesses próprios da instituição a planejamentos e implementações do processo em função da relevância que o ensino-aprendizagem tem na inserção do formando na dinâmica social em atenção às suas necessidades – a dimensão “exo”. O ensino de línguas estrangeiras (LE) deve se coadunar com ambas as necessidades referidas acima, para que, consensualmente, seja assumido como um ensino de sucesso. Para isso, a princípio e como principal ponto de partida, é preciso este nosso ensino ser abordado a partir da sua perspectiva “exo”, postura que historicamente tem justificado o ensino de LE. Isso apesar dos desvios que atravessaram a escola e a “enobreceram” desde os finais do século retrasado por meio de concepções extremamente 216 elitistas de saber e de poder, através desse saber fundado na concepção positivista de ciência. A modificação dessa postura tradicional da escola, refletida no currículo, tem como ponto de partida a determinação daquilo que se quer com o ensino, em geral, e com as disciplinas, em particular. Assim a explicitação dos objetivos está na base de qualquer tentativa do fazer pedagógico. Quando os objetivos se obscurecem ou se nublam sendo confundidos com os meios, a ponto de não serem mencionados como tais, emerge a origem das incongruências, cujos efeitos visíveis são o divórcio entre as necessidades sociais e o trabalho da escola materializado no estudante. É isto que no meu entendimento justifica o sentimento de insatisfação já referido. Em toda ocasião, quando a organização e a qualidade do ensino são discutidas, fala-se do currículo como se ele subordinasse a si mesmo o ponto de chegada do fazer pedagógico, e não fosse, como em verdade é, subordinado a finalidades que passam por ele, porque as torna exequíveis. A relação entre objetivos e currículo não se pauta pela reversibilidade. Sustentar o contrário é instaurar um processo de fetichização do currículo (SILVA, 1996, p. 71-109) sempre com resultados indesejados, se partirmos de uma concepção social do ponto de vista discursivo da educação. 1. Os objetivos do ensino de LE Considero, assim como Nérici (1985, p. 34), que o fazer pedagógico se legitima na instauração/modificação de comportamentos nos/dos formandos. Isto remete à vocação “exo” do ensino-aprendizagem e justifica que, quando as LE são pensadas, organizadas e implementadas, deve estar fora de toda cogitação ignorar que é em função das necessidades e das expectativas da prática social que essas línguas devem ser aprendidas. Essa ideia não nos priva do bônus da novidade. A história do ensino de LE consiste nos diversos modos como, diante das diversas configurações das práticas sociais através do tempo – relações político-econômicas e as subsequentes ou prévias relações culturais –, o fazer pedagógico tem dado 217 atenção às necessidades do momento. As modificações que gradativamente se refletiram na didática explicam a razão de se estudar LE em cada momento, e essas razões impuseram as metas a alcançar com esse ensino. A partir do levantamento das necessidades, os objetivos foram pensados e, junto com eles e passíveis de constante readequação, os meios para materializá-los. Entre estes se encontra a organização curricular. Que situação da contemporaneidade faz modificar/reforçar objetivos da abordagem mais bem-sucedida da história do ensino de LE: a abordagem comunicativa? Através da história da humanidade, a necessidade de interação entre grupos humanos, países, regiões e continentes, em função da sobrevivência, do poder, do conhecimento e do melhoramento ou aumento do nível de bemestar pela via de maior acesso ao consumo, tinha a escrita como principal instrumento. O que hoje consideramos precário e excludente acesso ao contato físico direto entre os interlocutores provocou que a tecnologia do grafismo fosse a principal mediadora para a divulgação noticiosa e de conhecimentos. A escola tem a escrita por vocação, ponto de partida, plataforma processual e demonstração formal do seu resultado. O ensino se dá pela escrita real ou mentalizada porque, através dela, se produzia o acesso à produção tanto do conhecimento do receptor como do irradiador. Assim sendo, as LE eram ensinadas em função da compreensão da escrita, dessa dinâmica, principalmente, e da interlocução. A contração das distâncias pelo desenvolvimento de tecnologias, antes já em funcionamento, e o barateamento da deslocação das pessoas entre países e regiões potencializaram, de modo exponencial, as relações econômicas – a circulação de mercadorias – e também as políticas e culturas. Um elemento determinante desse processo foi o surgimento e expansão da tecnologia da informática. A partir das novas condições, a oralidade, enquanto qualidade mais natural da linguagem verbal, apropriou-se de vez da primazia do uso para a interação inclusiva, modificando a escrita pela interação informal via internet. 218 A oralidade que, como chegou a ser argumentado nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental – PCNEF (BRASIL, 1998), era uma opção menor, dado que “[...] o uso que se faz da língua estrangeira [é pela] via [da] leitura [...]”, permitindo desconsiderar “[...] outras habilidades comunicativas em função da especialidade de algumas línguas estrangeiras e das condições existentes no contexto escolar” (p. 15), nas condições atuais, passa a ter que ser considerada prioritária numa ordem em que a leitura e a produção de textos lhe sucedem. As condições que propiciaram essa modificação na concepção do ensino de LE são devidas principalmente ao fato de que não é mais uma utopia visualizar este ensinoaprendizagem em função da interação com usuários nativos ou estrangeiros da língua em tempo real, à distância ou diretamente, tendo em vista o dramático aumento das possibilidades tecnológicas e de deslocamento. Somam-se a isso a divulgação oral ou impressa de informações noticiosas também em tempo real, a maciça circulação da produção de conhecimento e os textos instrucionais para o funcionamento de novas tecnologias, principalmente em língua inglesa. Assim o modo como principalmente se dá o uso natural de línguas naturais não pode ser mais contornado como antigamente em função de um utilitarismo que se justificava com a atenção a necessidades do momento, desconsiderando-se que as chamadas habilidades da linguagem não se dão em assepsia umas das outras: a pessoa oraliza mentalmente quando lê – há até movimento dos órgãos de fonação –, e a prática da escrita é também exercício de leitura morfológica e interpretativa. Os tempos mudam trazendo novas necessidades. Na educação como um todo, não há a possibilidade de os objetivos serem concebidos fora de sintonia com as necessidades do momento, sendo que a constatação da instauração de um novo tempo acontece apenas através da descoberta de novas necessidades. Uma decorrência disso se encontra na inferência coletiva de professores e estudantes de que aprender uma LE é conseguir se expressar oralmente com ela, compreendê-la quando usada de modo natural 219 por seus falantes naturais. Ler significa interpretar textos produzidos nela e conseguir produzir enunciados escritos com ela, obedecendo ao seu uso formal no contexto em que funciona como materna. O senso comum, baseado na experiência prática, coincide com a expectativa descrita acima, porque a referência de ensino bem-sucedido de LE são os institutos particulares de idiomas (ASSIS-PETERSON; COX, 2008) e porque, como venho argumentando aqui, a cobrança das novas condições da prática social potencializa essa representação de aprendizagem. O documento oficial que ampara a gestão do ensino de LE no país, PCN para o Ensino Médio – PCNEM (BRASIL, 1999, p. 93) endossa a mesma postura: [...] o aluno inicia o aprendizado de LE no ensino fundamental, o que implica o cumprimento de etapas bemdelineadas que, no ensino médio, culminarão com o domínio de competências e habilidades que permitirão ao aluno utilizar esse conhecimento em múltiplas esferas de sua vida pessoal, acadêmica e profissional. A situação problemática a respeito dos objetivos do ensino de LE na escola pública, parcialmente definidos nos documentos oficiais citados e totalmente inferidos por professores e estudantes através do sentimento de frustração, encontra-se no fato de que não existem minimamente condições materiais – físicas e financeiras – que possam propiciar um modo de ensino que corresponda às expectativas da dinâmica atual da sociedade brasileira e mundial. Refiro-me a aspectos como: – organizar as turmas de LE em número menor de estudantes; – aumentar o número de professores; – habilitar ou construir mais salas de aula; – suprir as escolas com equipamentos adequados para o ensino de LE; – atualizar os materiais didáticos de que se dispõe nas escolas; – garantir a formação continuada dos professores de LE. 220 Isso, dentre várias outras iniciativas que realmente são necessidades e a que também Assis-Peterson e Cox (2008, p. 46-51) se referem, mas que, nas condições atuais, não têm como ser implementadas. Talvez seja por isso que, em documentos oficiais, se façam manobras de efeitos fugidios com a determinação sintática, como na citação acima da página 93 dos PCNEM, para evitar o compromisso tácito com o cumprimento do ensino das chamadas quatro habilidades. Ou ainda como na citação da página 15 dos PCNEF (BRASIL, 1998), em que se trabalha com a formulação para oferecer a possibilidade de dispensar outras habilidades, como se isso fosse possível em curso ministrado por professores sem formação em língua instrumental e com dificuldades no domínio da LE. Um modo alternativo que, me parece, pode contribuir para driblar o que se assemelha muito a uma inconsistência devida à falta de imbricação entre o compromisso que os PCN e as Orientações Curriculares Nacionais – OCN (BRASIL, 2006) apresentam, comprometendo-se a reforçar a opção “exo” da política educacional, é a inscrição também parcial da discursividade desses documentos na pósmodernidade através da estratégia nietzscheana do final, “em aberto”, de argumentar reservando convenientemente as conclusões para os interlocutores. Por último, a chamada pedagogia rizomática, inspirada em Gille Deleuze, começou a ganhar publicidade a partir do Rio de Janeiro onde, em 2004, num evento intitulado “O devir-mestre: entre Deleuze e a educação”, foi construído um nexo entre a postura desse filósofo e a educação. Isso resultou na publicação do volume “Entre Deleuze e a Educação” (DOSSIÊ, 2005), onde se exacerba a atenção ao particular a partir da dispensa de tudo aquilo que produza efeitos genéricos, o que ali é defendido, pois, afinal de contas, são reducionistas e preconceituosos, o que justifica que os objetivos sejam alijados do espaço reservado ao protagonismo na educação, uma postura que é em si paradoxal e inviável. A escola trabalha com a interdição do equívoco (ORLANDI, 1998, p. 210), a partir da construção de uma subjetividade institucional. Sem a organização do fazer pedagógico, a partir de sujeitos-alunos e sujeitos-professores em função 221 de metas para o médio e longo prazo, as quais se revertam para um sujeito-cidadão brasileiro, é concebível uma instituição chamada escola, cujo encargo é mínimo, igualar o solo referencial-significativo dos formandos? Conclusão Neste trabalho tentei problematizar a dispersão da relevância dos objetivos que se tem expandido dentro dos discursos da comunidade educacional como um todo, favorecendo o destaque aos aspectos curriculares. Na área de LE, essa estratégia tem efeitos contraproducentes em relação às expectativas da sociedade e dos atores principais da comunidade escolar. Defendi que o comportamento teórico por mim abordado não se dá de modo fortuito, mas obedece a razões políticas, através de estratégias argumentativas que tentei explicitar e que são acionadas por motivos financeiros, burocráticos e organizativos impostos pelas circunstâncias atuais. Defendo que eles são contornáveis a partir também da criação e aplicação de políticas mais atentas à relevância da escola como depositária de um encargo social que aumenta a percepção do seu peso, na mesma medida em que as desatende. Isto se, nas vontades, está a abordagem crítica do status quo. Referências ASSIS-PETERSON, A. A. de; COX PAGLIARINI, M. I. O drama do ensino de inglês na escola pública brasileira. In: ASSISPETERSON, Ana Antônia de (Org.). Línguas estrangeiras: para além do método. São Carlos: Pedro & João Editores; Cuiabá: EdUFMT, 2008. BRASIL. Ministério de Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Brasília: MEC, 1998. BRASIL. Ministério de Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Brasília: MEC, 1999. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Orientações Curriculares Nacionais. Brasília: MEC, 2006. 222 DOSSIÊ. Entre Deleuze e a educação. Educação e Sociedade, S.P.: Campinas, v. 26, n. 95, p. 1167-1338, set./dez. 2005. NÉRICI, I. G. Introdução à didática geral. 15. ed. São Paulo: Atlas, 1985. ORLANDI, E. P. Identidade linguística escolar. In: SIGNORINI, Inês. Lingua(gem) e identidade. Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 203-212. SILVA, M. A. da. Currículo para além da pós-modernidade. 1005-2006. http://www.anped.org.br/reunioes/29ra/trabalhos/ trabalho/GT12-2444--Int.pdf>. Acessado em: 11-05-2009. SILVA, T. T. O currículo como fetiche. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. 223 PRÁTICAS DE LINGUAGEM E(M) FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LÍNGUA MATERNA Maria Rosa Petroni1 De fato, por um lado, na interação social que se estende pela história, é que se ‘dicionariza’ o significado dos elementos lexicais, que as expressões se conformam a princípios e regras de construção, que se organizam os sistemas de representação de que se servem os falantes para interpretar essas expressões ... Por outro lado, é ainda na interação social, condição de desenvolvimento da linguagem, que o sujeito se apropria desse sistema linguístico, no sentido de que constrói, com os outros, os objetos linguísticos sistemáticos de que se vai utilizar, na medida em que se constitui a si próprio como locutor e aos outros como interlocutores (FRANCHI, 2006, p. 48). RESUMO: A questão que se coloca nesse momento é a busca de alternativas para solucionar a “crise da e na linguagem” que tem ocupado a mídia, com estardalhaço, e as discussões de lingüistas e educadores, com reais preocupações sociais. Teoricamente, todos parecem saber quais são essas alternativas e não faltam propostas e parâmetros para a oferta de um ensino de qualidade. Cursos são oferecidos pelas secretarias. É paradoxal, entretanto, que poucas mudanças sejam constatadas. Nesse panorama, torna-se ainda mais relevante o papel dos cursos de formação docente, especialmente daqueles destinados aos responsáveis pelo ensino de leitura e escrita. Neste artigo, discuto brevemente o “espaço” e os objetos destinados às práticas lingüísticas, bem como as implicações de tais atividades no processo de habilitação do profissional de Letras. Se a sala de aula deve ser o laboratório do professor, ele precisa ter conhecimentos teóricos e práticos para assumir seu papel nesse processo. As atividades de atualização, aperfeiçoamento e acompanhamento se impõem como condição para capacitá-lo a oferecer um ensino que transforme pessoas em cidadãos. 1 Professora do Curso de Letras e do Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem da UFMT. POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 225-238 2009 issn 0104-687x PALAVRAS-CHAVE: Formação Docente, Leitura e Escrita, Práticas Linguísticas LANGUAGE PRACTICES and/in the teacher education of the Brazilian Portuguese teacher ABSTRACT: An issue at the present time is the search for alternatives to solve “the crisis of and in the language” that has kept the media busy and raising uproar and that has involved discussions of linguists and educators worried about real social issues. Theoretically, all seem to know what the alternatives are and there is no lack of proposals and parameters towards the offer of quality education. Courses are offered by city governments. It is paradoxical, however, that only few changes are found. In this view, it becomes even more relevant the role of the courses of teacher education, particularly those intended for whom are responsible for the teaching of reading and writing. In this paper, I examine the “space” and the objects intended for the language practices as well as their implications in the process of the qualification of the professional of Letters. If the classroom should be the teacher laboratory, he/she needs theoretical and practical knowledge to take on his role in this process. The activities of continuing education become a condition to provide the teacher with the necessary competencies to offer an education to transform people into citizens. KEYWORDS: Teacher Education, Reading and Writing, Language Practices 226 Introdução A formação docente é um processo contínuo de construção de conhecimentos teóricos e metodológicos, que se implicam mutuamente. Tal formação se realiza tanto nos cursos de licenciatura e de pós-graduação lato e stricto sensu, quanto nas formações continuadas (atualização e aperfeiçoamento). No momento atual, sentimos o descompasso entre a proposta de ensino de leitura e produção escrita com base nos gêneros do discurso e a formação ainda calcada em outros conceitos, que não se fundamentam no processo da interação social como uma das vias de acesso à aprendizagem. Os objetivos e ações estabelecidos para a oferta de um ensino de qualidade – aliados a reformas educacionais, elaboração de documentos oficias (PCN, PCN+, OCEM), criação de órgãos responsáveis pela avaliação como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e instituição de agências de controle, como o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) – não podem ser alcançados nem efetivados sem uma adequada formação do professores. A qualidade da educação é uma questão enfrentada não só pelo Brasil, como evidenciado no Fórum das Américas, promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e realizado no Brasil, em junho de 2005, cujo tema central foi “qualidade da educação”. É, sem dúvida, uma questão complexa que envolve fatores sociais, políticos e econômicos, com implicações diretas no processo de implementação da formação docente. O discurso da escola para todos, que antes parecia retórico, tornou-se realidade. A escola tem alcançado os lugares mais inacessíveis e todas as camadas da sociedade; porém, tal ação não resultou em uma educação de qualidade e os índices de avaliação do ensino apresentados pelo governo por meio de avaliações oficiais (SAEB e ENEM) refletem a fragilidade do sistema e direcionam a atenção para o professor e, conseqüentemente, para sua formação. Os investimentos aplicados na educação foram desproporcionais em relação à ampliação da rede de ensino. O aumento crescente da população escolar resultou em um aumento significativo no número de professores, promo227 vendo, indiscriminadamente, a expansão e criação de cursos de licenciatura, principalmente, no ensino superior privado. Como reflexo dessa situação, iniciou-se um processo de desvalorização do magistério, redução de salários, sobrecarga de trabalho e queda na qualidade de ensino. Nesse cenário, encontramos o professor da educação básica, sob constante pressão, frente a uma instabilidade desconcertante e perdendo, progressivamente, sua autonomia intelectual e profissional. Para Apple e Jung (apud NÓVOA, 1992, p. 24): A intensificação leva os professores a seguir por atalhos, a economizar esforços, a realizar apenas o essencial para cumprir a tarefa que têm entre mãos, obriga os professores a apoiar-se cada vez mais nos especialistas, à espera que lhes digam o que fazer, iniciando-se um processo de depreciação da experiência e das capacidades adquiridas ao longo dos anos. A qualidade cede o lugar à quantidade [...] Perdem-se competências colectivas à medida que se conquistam competências administrativas. Finalmente, é a estima profissional que está em jogo, quando o próprio trabalho se encontra dominado por outros actores. Os cursos de formação inicial necessitam não apenas expor os futuros professores às disciplinas teóricas, mas levá-los a realizar a transposição desses conhecimentos para a situação didática. Ampliam-se, nessa perspectiva, as possibilidades de rompimento com o tradicional modelo dos cursos de formação, com ênfase na transmissão do conhecimento, na desarticulação entre a teoria e a prática, sem oportunizar aos alunos a discussão e a reflexão sobre a sua própria construção do conhecimento e sobre o processo de ensino que vivenciaram. Além do aspecto pedagógico envolvido nessa discussão, podemos nos basear em um aspecto legal, para discutir a formação docente. Trata-se do disposto no Artigo 61, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996), que no tocante à formação dos profissionais da educação estabelece: “I - a associação entre teorias e práticas, inclusive mediante a capacitação em serviço”. A importância dessa relação teoria-prática é reiterada no Decreto nº 3.276, de dezembro de 1999, artigo 4º, inciso 228 II, § 2º: “Qualquer que seja a vinculação institucional, os cursos de formação de professores para a educação básica deverão assegurar estreita articulação com os sistemas de ensino, essencial para a associação teoria-prática no processo de formação”. O mesmo Decreto prevê no artigo 5º, § 1º, a necessidade de que, durante a formação, sejam desenvolvidas determinadas competências pelos professores, a saber: I – comprometimento com os valores estéticos, políticos e éticos inspiradores da sociedade democrática; II – compreensão do papel social da escola; III –domínio dos conteúdos a serem socializados, de seus significados em diferentes contextos e de sua articulação interdisciplinar; IV –domínio do conhecimento pedagógico, incluindo as novas linguagens e tecnologias, considerando os âmbitos do ensino e da gestão, de forma a promover a efetiva aprendizagem dos alunos; V – conhecimento de processos de investigação que possibilitem o aperfeiçoamento da prática pedagógica; VI –gerenciamento do próprio desenvolvimento profissional. Como podemos observar, as diretrizes que regem a formação docente, assim como os PCN, apontam para uma formação por competência, o que nos faz refletir acerca da “homologia dos processos”, ou seja, a construção das competências em situações sociais envolvendo a prática e a teoria, e não pela transmissão de saberes científicos, que a maioria dos professores reproduz em sala de aula. Conforme Grellet (s/d, p. 02), O professor, enquanto aprendiz de sua profissão, é um aluno e essa condição traz algumas implicações. Sua experiência como aluno (...) é constitutiva do papel que exercerá como docente. É necessário, portanto, que o futuro professor experiencie enquanto aluno, o que se pretende que venha a desempenhar nas suas práticas pedagógicas. 229 1. Formação do professor de língua portuguesa: PCNLP e gêneros do discurso A atuação do professor de Língua Portuguesa (LP), que, juntamente com a dos profissionais das demais áreas de ensino, tem sido questionada e criticada, é representada, quase sempre, pelo discurso do fracasso e da necessidade de reformulação do ensino e das práticas pedagógicas. Esse professor, em tal contexto, parece atravessar uma crise de identidade. A ele não cabe mais o papel de “guardião” da língua, sempre à caça de “erros” por parte daqueles que não utilizam o modelo padrão de língua, a norma culta, única e “correta”, instituída em um passado marcado pelo poder econômico. Como esse professor também não fala essa língua, coube-lhe repetir o tradicional ensino recebido em sua formação, pautado na metalinguagem. Diante das críticas a esse ensino descontextualizado, centrado na norma, na gramática, foram propostas mudanças que resultaram, na década de 1990, na adoção do atual paradigma para o ensino de Língua Portuguesa, oficializado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNLP, 1998). Esse documento, instituído pelo governo e elaborado por um grupo de pesquisadores da área, traz orientações sobre esse ensino, partindo do pressuposto de que deva se dar a partir de dois eixos: o uso da língua oral e escrita, e a reflexão sobre a língua e a linguagem (PCNLP, 1998, p. 34). Os PCNLP propõem um trabalho no qual o ponto de partida e chegada do ensino de leitura e escrita seja o uso da linguagem, privilegiando, para tanto, o trabalho com os gêneros. Sem desconsiderar as críticas cabíveis aos PCNLP (1998), é preciso reconhecer que trazem avanços consideráveis para o ensino-aprendizagem da leitura e da escrita, destacandose o estudo da língua a partir do uso e não mais da metalinguagem, o respeito às variedades lingüísticas, o estímulo ao desenvolvimento da competência discursiva dos alunos e, o que consideramos fundamental, a adoção dos gêneros como objeto de ensino. A concepção sócio-histórica da linguagem, apontada no documento, privilegia o desenvolvimento de competências discursivas que um ensino descontextualizado, prescritivo e normativo não consegue alcançar. O ensino 230 de Língua Portuguesa, proposto nos parâmetros, articula-se a partir de dois eixos: o eixo “uso”, que compreende a língua oral e escrita, e o eixo “reflexão”, que envolve a língua e a linguagem. Cabe ressaltar a importância dada pelo documento à língua oral, o que caracteriza uma inovação, uma vez que há uma certa resistência ao ensino do oral, dada a supremacia atribuída à língua escrita na esfera escolar. Barbosa (2000, p. 149-50) reconhece que a elaboração dos PCN, assim como outras ações que vêm sendo realizadas, a exemplo da implantação de sistemas de avaliação de ensino (SAEB) e sistemas de avaliação pedagógica dos livros didáticos (PNLD), representam uma possibilidade de mudança do atual quadro de ensino de leitura e escrita, porém destaca: “... para que seus efeitos possam ser potencializados a médio e a longo prazos, fazem-se necessárias outras modalidades de intervenção”, dentre as quais se destaca a formação continuada de professores e demais educadores. Diante da adoção dos gêneros como objeto de ensino, é imprescindível compreender o significado dessa escolha na tentativa de relacioná-la aos fundamentos teóricos que subjazem aos Parâmetros Curriculares de Língua Portuguesa. Para esse trabalho é importante identificar, inicialmente, o conceito de linguagem apresentado nos PCNLP (BRASIL, 1998, p. 20): “ação interindividual orientada por uma finalidade específica, um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos de sua história”. No mesmo documento, lê-se: “os textos organizam-se sempre dentro de certas restrições de natureza temática, composicional e estilística, que os caracterizam como pertencentes a este ou aquele gênero. Desse modo, a noção de gênero, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de ensino” (BRASIL, 1998, p. 23). Nessa concepção, podemos observar a base dialógica e a preocupação com o contexto sócio-histórico, que refletem a perspectiva enunciativa proposta por Bakhtin e, ainda, a referência aos diversos gêneros do discurso, teoria também elaborada pelo referido autor. 231 2. Entre o real e o oficial Esse paradigma supõe que o professor seja preparado para as mudanças propostas e que as compreenda, crítica e teoricamente. Entretanto, acompanhando o desenvolvimento de projetos de pesquisa calcados na formação docente e na prática de ensino de leitura e escrita, constatamos que, seja pela ausência do conteúdo na formação inicial, seja pela qualidade dos cursos de formação continuada e dos materiais usados para tal fim, ainda não se implementou um processo formativo suficiente para o ensino na perspectiva discursiva, em que se fundamenta o trabalho com os gêneros do discurso. Nos limites deste artigo, atentos exclusivamente ao objeto de nossa discussão, observando rapidamente ementas de algumas universidades, públicas e particulares, locais e nacionais, podemos verificar o espaço destinado ao trabalho com a linguagem na formação docente. Universidade 1 (local, particular) Língua Portuguesa I: Concepções de língua, de linguagem, de texto, de leitura, de variação lingüística (sociolingüística); Produção de texto nas mais variadas condições de produção; Aspectos da gramática normativa – norma padrão – a serem observadas nas produções. Língua Portuguesa V: Relações externas do texto: condições de produção, análise do discurso, pragmática. Língua Portuguesa VI: Tipologia discursiva: descrição, narração, dissertação; prática da produção de textos (do aluno de Letras); Prática de análise lingüística e epilingüística (correção de acordo com a norma padrão e com as condições de produção) dos textos de alunos de 1º e 2º Graus. Didática: A didática e a formação do educador; Planejamento (importância, fases níveis, elementos). A questão da metodologia de ensino e da prática do professor. Avaliação enquanto “termômetro” que reinventa a ação educativa. A prática pedagógica do professor. Prática no Ensino na Escola de 1º Grau sob Forma de Estágio Supervisionado (Língua Portuguesa): Unidades básicas do ensino/ a prática de leitura; A prática de produção de textos / a prática da análise lingüística; coesão e coerência; Paráfrase e polissemia; Intertextualidade; Contexto; Portadores de Textos; Análise de estruturas; noticias e reportagens; Relatório Técnico; Relatório científico e polissêmico; Diversidade de produção; Originalidade; Criatividade; Diversidade de Textos; Atividades teoria versus práxis/metodologia do ensino da gramática. Prática de Ensino na Escola de 2º Grau sob Forma de Estágio Supervisionado (Língua Portuguesa): A prática pedagógica do professor.; Atividade teórico prática de elaboração de um planejamento de ensino (fases); Estudo do conteúdo por série; O ensino da Literatura Brasileira; A literatura infantojuvenil; Análise do material didático; Regência. 232 Embora possamos identificar vários termos relativos ao trabalho com os gêneros do discurso, não há nenhuma referência explícita a ele ou aos PCNLP. Observamos o trabalho com a tradicional tipologia discursiva - descrição, narração e dissertação - e a preocupação com a diversidade de textos. Na disciplina Prática de Ensino na Escola de 1º Grau, encontramos a referência aos gêneros notícia e reportagem; porém, ela aparece logo após o item “análise de estruturas”, o que nos leva pensar que pode até haver um trabalho com gêneros específicos, mas privilegiando a perspectiva da linguística textual, hipótese reforçada pelos outros elementos presentes na ementa, como “coesão e coerência; paráfrase e polissemia; intertextualidade”. Universidade 2 (local, pública) Língua Portuguesa I: Reflexão sobre linguagem, heterogeneidade dialetal. Leitura e prática de produção de textos acadêmicos. Caracterização e organização do texto dissertativo-argumentativo. Estudo de tópicos da gramática da norma culta. Trabalho com as normas da ABNT. Língua Portuguesa IV: Textualidade. Teorias textuais: percurso e momentos. Coesão. Coerência. Os fatores de textualidades externas ao texto. O estudo da textualidade e o ensino de língua portuguesa. Didática: Reflexões teórico-práticas sobre os fundamentos do processo de ensino/aprendizagem subjacentes às tendências pedagógicas da educação brasileira; o planejamento de ensino e suas principais perspectivas, as implicações deste na organização e implementação do trabalho pedagógico na escola e na sala de aula; a compreensão da avaliação escolar como elemento de democratização do ensino. Ao analisarmos essa grade, não observamos nenhuma menção à teoria dos gêneros discursivos nem aos PCN. Encontramos na disciplina Língua Portuguesa IV, a exemplo do ocorrido com a grade anterior, as marcas características do trabalho com textos a partir de elementos da Lingüística Textual. Elementos como “textualidade”, “teorias textuais”, “fatores de textualidade” reforçam a ênfase que parece estar no texto. Notamos, ainda, a presença das tipologias textuais na disciplina Língua Portuguesa I, fazendo referência ao “texto dissertativo-argumentativo”. 233 Universidade 3 (local, particular) Língua Portuguesa I: Produção de leitura de textos de diferentes modalidades discursivas, tanto de gêneros primários quanto de secundários, numa perspectiva da análise do discurso. Prática de Ensino II: Análise das teorias métodos e/ou abordagens que sustentam o ensino de Línguas (materna e estrangeira). Teorias de aquisição da língua. A avaliação. Reflexão da prática pedagógica. O professor pesquisador: dimensões da teoria e prática. Prática de Ensino III: Reflexão sobre os gêneros discursivos e a progressão, funcionalidade e circulação dos gêneros textuais nas esferas sociais. Condição de produção: adequação conceitual e formal da língua e os critérios de correção. A formação do professor (competência implícita e aplicada). Habilidades integradas. Prática de Ensino IV: Abordagem dos instrumentos e perspectivas institucionais da educação nos espaços escolares: DCN’s, PCN’s, Programas Governamentais e Sistemas de Ensino. Projetos Político-pedagógico e Projeto de Ensino disciplinar, multidisciplinar e interdisciplinar. Análise da estrutura teórico-metodológica dos livros didáticos. Elaboração de projeto de investigação e observação na escola. Na disciplina Língua Portuguesa I, notamos a presença dos gêneros e a referência aos gêneros primários e secundários nos remete a Bakhtin (1952-1953/2003) e sua teoria enunciativo-discursiva. A referência ao trabalho com gêneros aparece, também, na Prática de Ensino III, revelando a preocupação com os novos parâmetros apresentados para o ensino de LP; porém, observamos um aspecto que deve ser destacado: a confusão estabelecida entre gêneros discursivos e gêneros textuais, cujos termos são tomados, muitas vezes, pelo mesmo significado, mas que, de acordo com Rojo (2005), Brait (2000), Figueiredo (2005), representam duas vertentes da teoria dos gêneros. Tomar um termo pelo outro não implica apenas em uma escolha lexical, pois são olhares diferentes sobre o mesmo objeto de ensino e a opção por uma ou outra vertente se reflete na prática docente. É preciso observar que, se tal confusão está presente no curso de formação, conseqüentemente entre os professores formadores, é de se esperar que ela esteja presente também entre os graduandos, futuros professores, que tiveram acesso a essas informações. Na disciplina Prática de Ensino IV, encontramos a referência aos discursos oficiais sobre o ensino, PCN e, ainda, ao trabalho com projetos. 234 Universidade 4 (nacional, pública) Prática de Textos: Análise de textos de diversas naturezas. Produção de textos para diversos interlocutores, em diferentes situações e com diversos objetivos. Desenvolvimento de estratégias individuais de planejamento; processamento; seleção; hierarquização e organização de idéias; produção de rascunhos; avaliação; reestruturação e revisão de textos de diversas naturezas; com ênfase no texto dissertativo-argumentativo. Leitura Crítica de Textos: Teoria da leitura; teoria da recepção; semiótica de textos; codificação e decodificação. Exercícios de leitura. Resolução de problemasde codificação obscura ou inadequada: ambigüidade, imprecisão, etc. Interpretação de mensagens e hierarquização de elementos estilísticos. Língua Portuguesa 1: Língua padrão e variação regional, social e funcional/ dissertação e elaboração de monografia. Modalidade oral e escrita. Estrutura morfossintática do período e do parágrafo. Desenvolvimento de habilidades de leitura. Técnicas de pesquisa bibliográfica. Prática de expressão escrita: narração, descrição. Políticas Públicas de Educação: Sociedade, Estado e Educação. A política educacional no contexto das políticas públicas. Perspectivas e tendências contemporâneas das políticas educacionais expressas nas reformas educacionais, na legislação de ensino e nos projetos educacionais. Políticas públicas de educação com ênfase na educação básica. Processos de leitura e escrita: natureza da leitura e escrita. Teorias lingüísticas sobre leitura. Relação leitor-texto. O processo da escrita: análise lingüística e retórica. Planejamento. Prática de elaboração de textos científicos. Estágio Supervisionado em Língua Portuguesa-Literatura 1: Articulação entre os conceitos de educação, linguagem e ensino. Integração das práticas de leitura, gramática e produção de textos no 1. grau. Análise crítica de documentos currículos de 1. grau. O planejamento das práticas de ensino no 1. grau. Atividades de observação, participação e regência. Na disciplina Prática de Textos, podemos observar um trabalho voltado para a diversidade de textos e que faz menção às condições de produção, o que poderia sugerir o trabalho com gêneros; porém, isso não fica claro, principalmente porque logo a seguir encontramos a expressão “com ênfase no texto dissertativo-argumentativo”, fazendo referência ao trabalho com tipologias textuais, prática também sugerida na disciplina Língua Portuguesa I, “Prática de expressão escrita: narração, descrição”. Chamou-nos a atenção nessa mesma disciplina o trabalho com as modalidades oral e escrita, necessidade apontada pelos PCN, mas incipiente nas práticas escolares e na formação dos educadores. Em relação às discussões propostas pelos documentos oficiais, é possível que essa questão esteja presente no Estágio Supervisionado de Língua Portuguesa-Literatura. 235 Universidade 5 (nacional) Teorias de Leitura e Produção Escrita: As concepções teórico-metodológicas sobre os processos de leitura e de produção textual, em suas dimensões sociais, cognitivas e discursivas. A leitura e a escrita como processos de produção: suas condições de produção e os expedientes para a (re)construção da significação. Conseqüências da adoção dos construtos teóricos para a prática (de ensino ou de pesquisa). Gêneros do Discurso: Ensino e Pesquisa: Introdução à pesquisa e ao trabalho pedagógico com gêneros do discurso, a partir do aprofundamento deste conceito, do estudo de procedimentos para a descrição de gêneros e para a elaboração de atividades didáticas. Currículos de Língua Portuguesa: dos documentos oficiais aos planos de ensino: Leitura crítica de leis, documentos oficiais e propostas curriculares de língua portuguesa para depreensão das diferentes concepções de língua e perspectivas metodológicas e reflexão sobre suas decorrências para o ensino. Subsídios para a elaboração de planos de ensino com base na leitura crítica dos documentos analisados. Encontramos, em nossa análise, duas disciplinas que tratam dos quesitos que estamos colocando em discussão, Gêneros do Discurso: Ensino e Pesquisa, contemplando o trabalho com gêneros, especificamente com os gêneros do discurso, e Currículos de Língua Portuguesa: dos documentos oficiais aos planos de ensino, abrangendo a leitura crítica das novas propostas curriculares presentes nos documentos oficiais que tratam do ensino de LP. Esse trabalho sinaliza que as mudanças estão acontecendo, que professores e pesquisadores têm se empenhado em adequar a formação inicial do professor ao atual paradigma apontado para ensino de LP, reforçado, ainda, como observamos na disciplina Teorias de Leitura e Produção Escrita, pela preocupação com as dimensões sociais, cognitivas e discursivas. Pela brevíssima observação das grades, podemos considerar que, apesar de algumas mudanças se projetarem no cenário pedagógico, ainda há muito a ser feito, especialmente pelos cursos de Letras oferecidos pelas instituições de nossa região. No entanto, é preciso observar que, nos outros cursos, as disciplinas selecionadas privilegiam o trabalho com textos a partir de sua materialidade lingüística, nos moldes da Lingüística Textual. É, inegavelmente, um trabalho importante, mas acreditamos ser essencial, na formação do professor de LP, aliar a esse trabalho a valorização das dimensões sócio-históricas no estudo da linguagem. Por essa razão, defendemos o trabalho com gê236 neros discursivos, pois acreditamos que, pelo seu caráter social, cultural e histórico, essa prática pode amenizar a lacuna existente entre as práticas de letramento propostas na esfera escolar e as específicas de outras esferas sociais, das quais os alunos fazem parte. À guisa de conclusão A adequada formação do professor de Língua Portuguesa é um desafio tanto para as universidades, especificamente para os cursos de Licenciatura em Letras, responsáveis por essa formação inicial, quanto para os especialistas, formadores de professores e pesquisadores que, por meio de cursos de extensão, atuam na formação continuada. É um desafio, também, para o professor, que precisa não apenas refletir sobre sua prática, mas agir em busca da superação de eventuais dificuldades na tentativa de garantir qualidade ao seu trabalho. Não há como negar a necessidade de reformulação dos cursos e programas de formação docente, pois se alteraram os paradigmas da ciência, da tecnologia e das fronteiras do saber, bem como o público que acorre às licenciaturas. No entanto, esses cursos ainda permanecem presos às suas “grades curriculares”, com a reprodução do saber. Na perspectiva de Castro e Romero (2006, p. 127), essa abordagem reprodutivista “não é conducente à construção da criticidade, nem de um sujeito capaz de lidar com um mundo em constante transformação, em que – marca de novo milênio – tudo não tem a característica estável do ser, mas se equilibra na dinâmica do estar”. Para Miranda (2001, p. 203), o perfil dos alunos mudou, mas os cursos de Letras não acompanharam tal mudança, uma vez que “nossos paradigmas de formação são os mesmos e caracterizam-se pela rigidez estrutural da grade ou ´cadeia` curricular, pela perspectiva da reprodução e acumulação do saber”. A autora destaca, também, a “fragmentação dos conteúdos (apesar da “cadeia” de prérequisitos)” como traço evidente do descompasso entre o real e o necessário na formação docente. A reformulação deve estar fundamentada na análise da prática docente, tendo em vista as exigências decorrentes da experiência em sala de aula. O professor que irá cobrar de seus alunos a competência na leitura e na produção textual, 237 necessariamente, precisa tê-la desenvolvido. Se as pesquisas acadêmicas buscam contribuir para a melhoria da formação desse profissional, é essencial que suas necessidades de conhecimento sejam consideradas e atendidas. Referências BAKHTIN, M. (1952-1953) Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BARBOSA, J. P. Do professor suposto pelos PCNs ao professor real de língua portuguesa: são os PCNs praticáveis? In: ROJO, Roxane (Org.). A prática de linguagem em sala de aula: praticando os PCNs. São Paulo: EDUC; Campinas (SP): Mercado de Letras, 2000. BRAIT, Beth. PCNs, gêneros e ensino de língua: faces discursivas da textualidade. In: ROJO, R. (org.) A prática de linguagem em sala de aula. Praticando os PCNs. São Paulo: EDUC/Mercado de Letras, 2000. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em ftp://ftp.fnde.gov.br/web/siope_web/lei_n9394_20121996. pdf.> Acesso em 10 mar.2009. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais para 3º e 4º Ciclos do Ensino Fundamental - Língua Portuguesa. Brasília, DF: MEC/ SEF, 1998. CASTRO, S. T. R., ROMERO, T. R. S. A linguagem na formação do educador. In: ______. (orgs.) Formação do profissional docente: contribuições de pesquisas em Lingüística Aplicada. Taubaté, SP: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2006. GRELLET, Vera. Formação de professores: diretrizes gerais, histórico e fundamentação legal. Disponível em <http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2001/em1/em1txt1. htm> Acesso em 24 mar.2009. FIGUEIREDO, L. I. B. Gêneros Discursivos/Textuais e Cidadania: um estudo comparativo entre os PCN de Língua Portuguesa e os Parâmetros em Ação. Dissertação de Mestrado, PUC – SP/LAEL, 2005. FRANCHI, C. Criatividade e gramática. In: POSSENTI, S. (org.). Mas o que é mesmo “gramática”? São Paulo: Parábola Editorial, 2006 (Na ponta da língua, 15). MIRANDA, N. S. Uma proposta curricular para a formação de professores de português. In: ABRALIN: Boletim da Associação Brasileira de Lingüística. Nº 25. Fortaleza: Imprensa Universitária/ UFC, 2001. NÓVOA, A. Os Professores e a sua Formação. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1992. 238 “EU AMO A LÍNGUA PORTUGUESA!”: O DISCURSO DE USUÁRIOS DO ORKUT Dánie Marcelo de Jesus1 RESUMO: O objetivo deste trabalho é investigar as práticas discursivas de usuários de três comunidades virtuais do Orkut – Salvem a Língua Portuguesa!!!, Não mate a Língua Portuguesa!, Pérolas da Língua Portuguesa – com a finalidade de compreender quais concepções de língua portuguesa subjazem ao discurso dos participantes. O estudo inserese na linha da Análise Crítica do Discurso (FAIRCLOUGH, 1995). A metodologia de pesquisa é de caráter interpretativo e a análise buscou apreender as ideologias que se materializam nas escolhas linguísticas dos usuários das comunidades. As conclusões apontam para uma concepção de língua formalista calcada na gramática normativa. PALAVRAS-CHAVE: Ideologia, Ensino de línguas, Análise Crítica do Discurso “I LOVE PORTUGUESE LANGUAGE!”: THE DISCOURSE OF ORKUT USERS ABSTRACT: The aim of this paper is to investigate the users’ discursive practices of three virtual Orkut communities – Save Portuguese!!!, Don’t kill Portuguese!, Pearls of Portuguese – to understand what conceptions of the Portuguese Language are embedded in the participants’ discourse. The study is based on Critical Discourse Analysis (FAIRCLOUGH, 1995). The research methodology is interpretative and the analysis focuses on the ideologies encoded in the linguistic choices of the members of the communities. The conclusions lead to a formal conception of language based on the normative grammar. KEYWORDS: Ideology, Language Teaching, Critical Discourse Analysis 1 Professor do Departamento de Letras da UFMT/Campus Universitário de Rondonópolis e do Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem -MeEL [email protected] POLIFONIA CUIABÁ EDUFMT Nº 17 P. 239-253 2009 issn 0104-687x O crescente acesso de usuários à Internet e o surgimento de vários gêneros textuais têm possibilitado alteração de nossas interações cotidianas e, em alguns casos, a maneira de encararmos a escrita e suas convenções ortográficas. Essas mudanças podem ser vislumbradas em comunidades virtuais como o Orkut que vem arrebatando jovens e adultos. Nessa comunidade, por exemplo, é comum a quebra de normas ortográficas e a introdução de elementos icônicos como emoticons, imagens e fotos para o intercâmbio entre os pares ou entre os grupos, criando redes sociais que ligam pessoas com interesses comuns. Para isso, os participantes criam comunidades virtuais em torno de diversos temas, com a finalidade de reunir o maior número de pessoas que possuam afinidade com assunto em pauta. Os participantes apresentam suas opiniões, suas crenças e suas críticas sobre um determinado assunto. Dessa maneira, as comunidades do Orkut acabam se estruturando a partir de diferentes ideologias. Por conseguinte, torna-se um ambiente propício à investigação de linguistas preocupados com a dinamicidade do ambiente digital e suas consequências sociais. Essas comunidades também são reveladoras quanto à forma como certos segmentos da sociedade brasileira interagem com determinados temas. Portanto, ao compreendermos como esses usuários representam determinados assuntos, podemos ter pistas de como certas ideologias são constituídas no pensamento social. Diante disso, procuramos investigar diferentes comunidades estruturadas em torno do tema “língua portuguesa”, com o objetivo de mapear algumas ideologias e como elas se materializam nos discursos dos internautas. Nessa busca, deparamo-nos com comunidades especialistas em analisar, criticar e oferecer apoio com relação a inadequações linguísticas observadas na interação face a face ou entre os participantes no universo do Orkut. Percebemos que, nessas comunidades, os usuários mantinham-se na posição de policiadores da norma padrão. Diante desse fato, decidimos investigar tais posturas com relação à língua materna, que, a nosso ver, são de origem ideológica. Utilizamos, para isso, a ferramenta teórica da Análise Crítica do Discurso, bem 240 como a pesquisa interpretativa que, acreditamos, dialoga com o olhar discursivo escolhido. 1. Análise Crítica do Discurso Fairclough (2001, p. 89) define sua abordagem como um arcabouço teórico que reúne uma análise do discurso orientada linguisticamente pelo viés sistêmico-funcional, juntamente com um pensamento crítico de base social e política apropriado de teóricos sociais como Althusser (1985), Giddens (1991) e Gramsci (2000) e do discurso como Foucault (1971), com a finalidade de entender o processo de mudança social. Para ele, discurso é entendido como forma de prática social que constrói o mundo em significações. Essas práticas sociais do discurso contribuem para compor as identidades dos sujeitos e suas relações sociais, bem como suas crenças e seus conhecimentos. Assim, em sua visão de linguagem, Fairclough focaliza a relação de poder e a ideologia, constitutivas das dimensões sociais do conhecimento, das relações e da identidade social. A ideologia, no entender de Fairclough (2001, p.116), está sedimentada em três proposições. A primeira afirma que a ideologia tem sua existência própria nas práticas das instituições e, por isso, possibilita a investigação das práticas discursivas como formas materiais de ideologia. Para a segunda, a ideologia perpassa o sujeito, constituindo-o. A terceira proposição evidencia que os aparelhos ideológicos do Estado (escola, mídia, igreja, família etc) são demarcadores da luta de classe e, em consequência, das lutas no interior do discurso. Partindo dessas três proposições, Fairclough (2001, p.117) define ideologia como: significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, para a reprodução ou para a transformação das relações de dominação. As “práticas discursivas” constituem a dimensão do uso da linguagem que envolve os processos de produção, distribuição e consumo dos textos, variando de acordo com os 241 tipos de discursos e fatores sociais. As práticas discursivas têm um caráter convencional que reproduz as condições de produção da sociedade como valores, comportamentos e crenças sociais do mundo capitalista, constituindo uma complexa teia de luta de poder, gerador de ideologias diversas que se auto-alimentam. É dessa forma que as pessoas assumem ideias e atitudes que não são suas, mas que lhes são impostas de forma tão sutil que elas as defendem como suas próprias. Sendo assim, poderíamos pensar que o indivíduo é um assujeitado e é sempre um instrumento de reprodução das relações de produção capitalista. Essa concepção é profundamente rejeitada por Fairclough. Para ele, as práticas discursivas, além do processo convencional ou reprodutor, trazem no seu bojo a capacidade de transformar as relações de poder com suas respectivas ideologias. Desse ponto de vista, o agente social, mesmo em uma sociedade capitalista, pode ser instrumento de mudanças e é justamente neste princípio que o trabalho de Fairclough está sedimentado. Ele acredita, inexoravelmente, na capacidade de mudança social, enfatizando a possibilidade de o indivíduo, mesmo sob forte domínio da sociedade, poder contra ela se rebelar e alterá-la. É a capacidade de dar novos sentidos ao antigo, transformando-o de fato em uma situação nova, tornando realidade aquilo que como possibilidade estava latente. Mais ainda, é o que faz renascer a fênix de um pensamento inovador, de uma produção artística, de um movimento pelos direitos humanos e de uma resistência ao despotismo e o triunfo contra ele. Por isso, Fairclough vê as práticas discursivas dentro de uma perspectiva dialética, ou seja, não é seu objetivo apagar a história que descortina quão dominante tem sido o papel exercido pela sociedade capitalista sobre sujeito que dela faz parte, silenciando-o, oprimindo-o, assujeitando-o, das mais diversas formas e nos mais diferentes lugares. Por outro lado, Fairclough não esquece o papel do processo criativo de mudança que as práticas discursivas exercem na sociedade. Essa superação das práticas discursivas reprodutoras pode constituir uma “ameaça” para aqueles que detêm o poder, criando tensões entre as forças convencionais e as criativas. 242 Já em um plano textual, Fairclough advoga a importância de compreendemos que todos os enunciados ditos remetem a outros, chamando esse recurso de que dispomos para compor significados de “intertextualidade”. Em outras palavras, intertextualidade é a relação de um texto com outro texto: é como se os textos funcionassem como um mosaico para outros textos. Um texto dialoga com outros, pressupondo que o leitor partilhe com ele um mesmo conjunto de informações a respeito de um universo cultural. Para Fairclough (2001), a historicidade do texto exerce um papel significativo na mudança sociocultural da sociedade. Portanto, para a Análise Crítica do Discurso, é importante mapear os processos intertextuais e seus limites para compreender como se processam e se estruturam as lutas hegemônicas no interior do discurso, para que possamos contestá-las e reestruturar a ordem de discurso, entendida como práticas discursivas de uma instituição e as relações entre elas (FAIRCLOUGH, 2001, p. 39) Por essa razão, o significado no texto é de natureza heterogênea, com diversos ecos de significação que se sobrepõem e se contradizem, fazendo com que o texto seja altamente ambíguo e aberto às múltiplas interpretações. Isso requer do intérprete uma capacidade de reduzir essa ambivalência pela opção de um sentido particular ou de sentidos alternativos (FAIRCLOUGH, 2001, p. 103). Revisitado o viés teórico, vamos, então, conhecer o caminho metodológico e o contexto da pesquisa. 2. Metodologia da pesquisa Este estudo se baseia na pesquisa interpretativista ou naturalística (Erickson,1986/1990, p. 77-78), que subsume que o contexto natural e os participantes nele envolvidos são de relevância para a compreensão do que ocorre no momento em que os interlocutores se comunicam. O adjetivo interpretativista foi o escolhido por o considerarmos um termo mais inclusivo do que outros (etnografia, estudo de casos, qualitativa). Também evita a definição dessas abordagens como essencialmente não-quantitativas. O ponto central dessa abordagem é o significado das ações 243 na vida social, bem como sua elucidação e exposição pelo pesquisador. A abordagem interpretativista compreende a realidade não como um fato, mas como interpretação do discurso dos diferentes participantes que compõem o ambiente pesquisado. Por esse ponto de vista, a pesquisa interpretativa parece estar em sintonia com a visão teórica da Análise Crítica do Discurso. 3. Contexto da pesquisa Para compreendermos qual a concepção de alguns usuários do Orkut sobre a língua portuguesa, seguimos alguns critérios para sistematização dos dados. Primeiramente, foram observadas comunidades que versavam diretamente sobre a língua portuguesa. Nessa busca, deparamo-nos com 312 comunidades. Destas, foram selecionadas três comunidades pelo seu objetivo enfático de defesa da língua portuguesa e pelo número mais expressivo de participantes, são elas: Salvem a Língua Portuguesa!!! (70.078 membros), Não mate a Língua Portuguesa! (3.081 membros), Pérolas da Língua Portuguesa (2.295 membros). A análise levou em consideração as imagens vinculadas às comunidades por considerá-las elementos fundamentais na compreensão do discurso dos participantes. Por meio dos dados coletados e mediante uma leitura cuidadosa, procuramos constatar temas recorrentes no discurso dos usuários das comunidades. Encontramos tópicos com relação a elementos apelativos para salvação da língua portuguesa e diagnóstico de “erros linguísticos” de falantes de língua portuguesa. No plano icônico, percebemos uma alusão a elementos que representam ambiente escolar como lápis, caderno de anotação e professor. 4. Elementos icônicos Uma imagem não produz apenas o que é visível, pois a sua presença em determinado contexto se constitui em significado, conclamando o leitor, por meio do processo de interpretação, a reconstruir o efeito de sentido que se institui entre a imagem e o leitor. Por esse ângulo, qualquer imagem é ideológica, à medida que constrói uma determi244 nada realidade. Por exemplo, as escolhas não-verbais das comunidades do Orkut revelam um efeito ideológico de sustentação e manutenção do discurso verbal. Nesse caso, a linguagem não-verbal parece conduzir o leitor para um sentido único, traduzindo em imagem o que está escrito de forma apelativa. Vejamos a imagem a seguir: Salvem a Língua Portuguesa!!! Essa imagem remete-nos à figura de uma provável professora, horrorizada pelos possíveis erros linguísticos apresentados por alguém, no nosso caso, pela página da comunidade Salvem a Língua Portuguesa!!!. Essa imagem acaba assumindo um status de monitor da língua, já que é na escola que vivenciamos situações de uso formal da língua padrão. Como qualquer processo de interpretação, esse também é histórico, já que a imagem de um professor remete-nos a uma das funções sociais da escola: vigiar, punir e controlar as diversas manifestações linguísticas. Até mesmo, a etimologia da palavra professor – aquele que professa uma crença, uma religião (HOUAIS, 2001) – traz no seu bojo a concepção de salvador de uma norma. Daí, o título da comunidade Salvem a Língua Portuguesa!!! também evocar a noção religiosa na sua constituição semântica. São essas vozes herdeiras de um tecido social que impregna nossa voz, nossas escolhas linguísticas que constituem a arquitetura das representações sociais. Assim, quer seja implícita ou explicitamente, as vozes de outros sujeitos penetram na voz daquele que escreve ou materializa suas 245 posições, quer seja verbalmente ou não. Assim, essa comunidade, ao apresentar a imagem de uma professora em estado desesperador nos remete a algo anteriormente dito, ou seja, à nossa memória discursiva que nos impulsiona a rever fatos escolares, momentos desesperadores de nossas antigas professoras com nossas próprias produções acadêmicas. Essa posição parece perseguir outras comunidades do Orkut. Visualizemos o exemplo a seguir: Nossa Língua Portuguesa De modo semelhante à comunidade anterior, a comunidade Nossa Língua Portuguesa parece se basear na premissa da primazia da escrita sobre a fala. Nessa comunidade, a imagem que se destaca é de um lápis e um caderno, aludindo, dessa forma, a um saber escolar fruto de uma ideologia que nega qualquer outra manifestação linguística que não a escrita padrão. Dentro dessa concepção, o erro deve ser tratado, consertado e se possível sanado. Assim, instaura um poder que consolida uma verdade: a aprendizagem de uma língua materna se restringe às regras gramaticais e a um rol de nomenclaturas. A vinculação da gramática à escrita, retratada na imagem, conclama-nos a uma tradição que considera o registro e a sistematização de uma variedade eleita por uma classe dominante que detém o poder e cujo objetivo é a comunicação entre os participantes desse grupo social por intermédio 246 de um código específico que exclui a classe estigmatizada. O argumento constantemente utilizado para justificar a gramática é a legitimidade de valores nacionais, ou seja, a defesa de uma cultura e de um saber que caracterize nossa identidade. Essa preocupação identitária parece revelar preconceitos que se materializam em enunciados que buscam perpetuar um sistema de referência construída no caminhar de nossa história. Entretanto, o aspecto mais nefasto dessa ideologia é a negação que os indivíduos têm de si mesmo, pois, ao considerar falantes de língua materna como incompetentes, tira-lhes o direito da palavra e, portanto, de serem sujeitos. Apresentadas as imagens que compõem as comunidades do Orkut, passamos a analisar a materialidade linguística dos enunciados. 5. Elementos apelativos para a salvação da língua portuguesa As páginas introdutórias das comunidades do Orkut trazem, de um modo geral, os objetivos, o público-alvo e os tópicos que serão discutidos. Como podemos perceber nos excertos que seguem: Quem nunca sentiu uma pontada no coração ao ler coisas do tipo... Amiga, não vou pq estou com SINOZITE. Fui CONS meus pais. Nossa quanta CONHECIDÊNCIA! Eu sei que é ruim MAIS tem coisa pior. Aaaaaaaahhh!! Por favor!! Não vamos assistir calados a esse crime hediondo (pelamordedeus, não é ODIONDO)!! Postem aqui as pérolas e vamos tentar salvar a Língua Portuguesa da morte!!!!! Deus abençõe a cada membro da comunidade (Salvem nossa Língua Portuguesa!!!) A comunidade Salvem nossa Língua Portuguesa !!! parece tomar para si a defesa inexorável dos aparentes ataques à língua portuguesa. O próprio título da comunidade se 247 traduz em um discurso imperativo que conclama todos participantes a vivenciarem um processo de militância em favor dos ideais de pureza da língua. O verbo “salvar”, por exemplo, nos remete a ecos de outras cruzadas públicas em prol de algo em risco de extermínio como: “Salvem o planeta!! Salvem as baleias”, produzindo o efeito de sentido de que a extinção ronda bem de perto a nossa língua. Essa imagem de aparente possibilidade de morte é reforçada pela metáfora da dor (Quem nunca sentiu uma pontada no coração ao ler coisas do tipo...) que faz alusão a uma morte cardíaca. Essa concepção tem suas raízes ideológicas no mito da unidade linguística (BAGNO, 2002). Aqueles que a defendem acreditam que existe apenas uma norma – a norma padrão – que deve ser utilizada e respeitada, ou seja, para eles vivemos em mundo sob a égide da homogeneidade, da transparência e da não-contradição. Essa atitude parece requerer dos leitores desses enunciados uma opção única de sentido, temos apenas uma verdade: uma língua padrão que nos orienta e nos governa. Não podemos deixar de notar que as críticas irônicas, feitas pela comunidade “Salvem nossa Língua Portuguesa!!!”, destacam apenas o aspecto ortográfico (SINOZITE, CONS, CONHECIDÊNCIA!, MAIS). Na verdade, ao destacar os “erros ortográficos”, a voz apelativa da comunidade acaba evidenciando uma luta hegemônica no interior do discurso. Assim, uma relação dicotômica entre o certo e o errado é materializada, utilizando para isso o recurso de caixas altas e negrito, bem como pela evocação religiosa (Deus abençõe a cada membro da comunidade) que permitem criar visualmente o distanciamento entre o discurso da voz denunciadora e o dos que cometem equívocos linguísticos. Outras comunidades parecem assumir uma característica menos preconceituosa. Como podemos perceber no exemplo a seguir: Nossa Língua Portuguesa necessita de atenção especial no que diz respeito à valorização de nossa gramática, aos estudos linguístico, cujo objetivo é oferecer as mais diversas ferramentas necessárias para concatenarmos nossas ideias e podermos utilizar as várias linguagens, de acordo 248 com o contexto, bem como interpretar o universo que nos cerca. (comunidade Nossa Língua Portuguesa). A comunidade Nossa Língua Portuguesa, apesar de afirmar a necessidade do contexto para o usuário da língua, ainda parece ignorar outras variedades linguísticas e também outras línguas que coexistem com português. Ao utilizar o pronome “nossa”, a voz que pronuncia parece assumir que os participantes compartilham igualitariamente a mesma variedade. Daí, a importância de preservá-la (Nossa Língua Portuguesa necessita de atenção especial no que diz respeito à valorização de nossa gramática). O ponto central do enunciador reside em assumir que temos uma única gramática a ser seguida. Como nos incutiu a nossa formação escolar, vemos a necessidade de repreender toda forma linguística que desvie da variedade padrão, a exemplo da voz que fala no extrato que segue: Esta comunidade está aqui para você que já cometeu várias pérolas ou tem amigos que conseguem assassinar a nossa língua a cada palavra que diz. Se você é essa pessoa, entre para essa comunidade e desabafe! (Pérolas da Língua Portuguesa). Respaldado em motivações sociais, o discurso da comunidade Pérolas da Língua Portuguesa rubrica o incorreto como uma irônica comparação com uma jóia de altíssimo valor. Quem enuncia se apresenta como uma persona, uma voz que fala e que designa seu interlocutor pelo pronome “você”. Essa relação é desigual, pois quem fala parece assumir uma atitude de autoridade de um terapeuta de comportamentos linguísticos desviantes, convidando os participantes a se desabafarem, expondo suas próprias imperfeições ou denunciando as dos outros. A palavra “desabafo” demonstra o quanto esses “erros” linguísticos podem se tornar angustiantes para aqueles preocupados com a normatização da língua. Isso nos leva a supor que os normatizadores do Orkut parecem assumir um papel de intolerância em relação à alteridade linguística. Essa atitude evidencia uma violência simbólica (BOURDIEU & PASSERON, 1975), um poder arbitrário da comunidade de silenciar, de ironizar, de constranger um grupo pela força de outro. 249 Esse jogo de poder acaba evidenciando as distâncias sociais na nossa sociedade. Daí, as ironias, os gracejos comuns nas comunidades do Orkut, cujos participantes vivem sob a égide de um desejo por uma modalidade escrita que não faz parte nem mesmo de seu próprio cabedal linguístico. 6. Diagnóstico de “erros” linguísticos No interior das comunidades observadas, os internautas procuram avaliar os textos dos participantes à luz da gramática, atribuindo-lhes uma nota pelo seu desempenho linguístico, como demonstra o exemplo seguinte: David - 8,5 * A pontuação no texto está bem inovadora! “Do tipo Incapaz de (...)” A letra maiúscula era para enfatizar? Só isso! Avaliar, entre muitas coisas, significa julgar, dar um valor a determinado objeto. No exemplo acima, o participante coloca-se na posição de quem pode estabelecer a valia de um saber, no caso, a produção linguística de outro sujeito. Como sabemos, todo discurso é uma ação que inscreve o sujeito no mundo, demarcando sua posição, ora selecionando ou excluindo determinados sentidos. No nosso exemplo, o sujeito dentro de um regime de verdade constitui o discurso do outro a partir de uma ideologia dicotômica de certo ou errado. Isso nos leva a refletir que o sujeito fala de um lugar social demarcado por regras que definem o que pode e como deve ser dito algo. É somente nesse lugar que podemos entender o discurso do usuário (David) que, em outro contexto de produção, assume novas configurações semânticas e que pode ser contraditório pela própria natureza da linguagem. Vejamos o exemplo: David – Na verdade, eu quis dizer ONDE mesmo. Aonde só se usa quando o verbo for regido pela preposição a, como: - Aonde você vai? - Irei à “tal lugar”. Não é este o caso. CARLÃO ESSE “FOR” É DO VERBO “IR” E, PORTANTO, O CERTO É “AONDE” Kaká Você precisa estudar mais um pouquinho antes de tentar corrigir os outros. O certo é ONDE 250 David - Obrigado Jorge! Kaká, Errar uma vez é humano. Persistir no erro é... humano também! =) Como em qualquer arena social, a palavra é disputada pelos indivíduos para assumir um poder. Aquele que a domina, ou pelo menos pensa que o faz, desempenha um papel de liderança. Por conta disso, no excerto, vemos os participantes lutando para ocupar um espaço que eles desejam – o direito de poder criticar o discurso do outro. Como dito antes, esse saber é historicamente consagrado pelo conhecimento gramatical. Entretanto, aquele que julga pode ser objeto futuro de julgamento como é o caso de David que passa da condição de avaliador à condição de vítima do saber, assumindo a sua contradição (Errar uma vez é humano. Persistir no erro é... humano também! ). David demonstra o quanto sua posição de juiz é contraditória e passível de ser também questionada. Assim, aqueles que julgam que detém um saber são constantemente engolidos por esse poder que se manifesta em contradições que, longe de serem negativas, são reveladoras do dinamismo e da natureza do discurso, afetando mesmo aqueles que pensam que estão imunes à inexorável ação dialética do discurso. A respeito disso, Foucault (2005, p. 171) assim se manifesta: O discurso é o caminho de uma contradição a outra: se dá lugar às que vemos, é que obedecem à que oculta. Analisar o discurso é fazer com que desapareçam e reapareçam as contradições, é mostrar o jogo que nele elas desempenham; é manifestar como ele pode exprimi-las, dar-lhes corpo, ou emprestar-lhes uma fugidia aparência. Algumas considerações Ao longo deste texto, buscamos analisar o discurso de três comunidades do Orkut. As escolhas lexicais e não-verbais apresentadas na materialidade linguística evidenciaram como os participantes dessas comunidades caracterizavam a “realidade linguística” nos seus textos. Percebemos que o discurso dos participantes está sedimentado na concepção da imutabilidade e da unidade da língua, percepção forjada 251 ao longo de nossa história de escolaridade. Assim, como vimos, as opções de palavras ou frases não nascem de um acaso, mas estão diretamente relacionadas a processos sociais e culturais mais amplos (FAIRCLOUGH,1992, p. 01). Esses processos decorrem da nossa interação com outro que tece os fios delicados das redes sociais que nos alimentam e constituem nossas práticas discursivas, que, em muitos casos, não são conscientes. Isso não quer dizer que somos meros frutos do meio ambiente como acreditavam alguns romancistas naturalistas, mas nossa capacidade de pensar e agir é constituída socialmente. Como Fairclough (2001), acreditamos que é possível desvelar e talvez alterar certas concepções que nutrem o discurso hegemônico. Ao desvelá-las, podemos refletir e nos (re) constituir para que um dia possamos encontrar uma sociedade mais igualitária. A análise de comunidades do Orkut revela também o quando nossa sociedade ainda tem dificuldade de entender a natureza heterogênea da linguagem, apesar do avanço das pesquisas linguísticas. As forças ideológicas que sustentam essa visão social parecem se fortalecer, à medida que milhares de pessoas são alijadas de uma educação de qualidade. O discurso dos internautas apenas demonstra a necessidade de uma linguística crítica capaz de problematizar os efeitos das ideologias que mascaram e subjugam os sujeitos. Referências ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos do Estado. 3. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1985. BAGNO, M. Preconceito linguístico: O que é,como se faz. 11ª ed. Loyola: São Paulo, 2002. BOURDIEU, P & PASSERON, J.C. A. Reprodução. Elementos para uma teoria do ensino. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. ERICKSON, F. Qualitative methods in research on teaching. Handbook of the research on teaching 3d edition. M. WITTROCK, ed. New York: Macmillan. Also, 1986/1990. FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: Ed. UNB, 2001. 252 FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. São Paulo: Vozes, 1971. ______________. A arqueologia do saber. ed.7°. Rio de janeiro: Forense Universitária, 2005. GIDDENS, A. Modernity and self-identity: self and society in the late modern age. Cambridge: Polity Press, 1991. GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. 253 INSTRUÇÕES AOS AUTORES PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS NO PERIÓDICO POLIFONIA A revista POLIFONIA publica artigos originais na área de linguagens, em português, inglês, francês e espanhol. Uma vez publicada, cada articulista receberá três exemplares. Além da versão impressa, a Polifonia é também disponibilizada no site do MeEL/UFMT (http://www.ufmt.br/meel). Para o envio de artigos, devem ser obedecidas as seguintes instruções: 1. Os artigos devem ser enviados para o e-mail polifonia@ ufmt.br, digitado com o processador de texto MSWORD FOR WINDOWS, tamanho A4 (210 mm x 297mm), com título, sem o nome do(s) autor(es). 1.1. A identificação do autor deverá ser feita em um arquivo à parte, com as seguintes informações: • título do trabalho; • nome completo do(s) autor(es); • titulação acadêmica máxima, instituição onde trabalha(m), atividades exercidas • telefone, e-mail (indicar se o e-mail pode ser divulgado na revista) e endereço completo para correspondência; • apontar (caso necessário) a origem do trabalho, a vinculação a outros projetos, a obtenção de auxílio para a realização do projeto e quaisquer outros dados relativos à sua produção. 1.2. Formatação do texto: • título do trabalho: em português, antes do Resumo e das Palavras-chave e, em inglês, antes do Abstract e Keywords. Usar maiúsculas e negrito, fonte Times, 12, centralizado; 255 • Texto: deverá ter de 12 a 20 laudas. Espaço 1,5. • Resumo: máximo de 08 linhas, seguido de 3 a 5 palavras-chave, ambos em português e inglês. • Títulos das seções e subseções: letra minúscula e negrito • Caso haja necessidade de destacar algum termo, no texto, fazê-lo em itálico. • Citações: com três linhas ou mais, deverão ser recuadas em 4 cm da margem esquerda. A margem da 1ª linha deve ser de 1,5 cm. Times New Roman, alinhamento justificado, espaço simples, fonte 11. Elas serão indicadas no corpo do texto por chamadas assim: (CHAUI, 2002, p. 57). Citação com até duas linhas: sem recuo, no próprio corpo do texto, entre aspas, seguida da indicação bibliográfica (CHAUI, 2002, p. 57). • Citações em outras línguas (opcional): caso o autor queira fazer a tradução, esta deverá ser colocada em rodapé, antecedida pela expressão Tradução do autor. • Rodapé: deve ser usado apenas para notas explicativas e não mais para referência bibliográfica, que deve ser feita no próprio texto. Ex: (ANDRADE, 1980, p. 7). • Referências bibliográficas: USAR SÓ A PALAvRA “REFERÊNCIAS”. Devem ser apresentadas nas Referências somente aquelas obras que foram efetivamente citadas no corpo do texto. Quando citados no corpo do texto, os títulos das obras devem ser colocados em itálico. As Referências devem ser colocadas em ordem alfabética ao final do texto, seguindo a NBR 6023. Transcrevemos dessas normas, abaixo, alguns casos de maior ocorrência: LIVRO GOMES, L.G.F.F. Novela e sociedade no Brasil. Niterói: EdUFF, 1998. (Coleção Antropologia e Política) 256 ARTIGO EM PERIÓDICO GUIRRA, M.C.S. Da teoria à prática: o lugar da constituição do professor de Língua Portuguesa. Revista Panorâmica. Cuiabá, v. 06, p. 25-37, jan.jul. 2006. CAPÍTULO DE LIVRO SANTAELLA, L. A crítica das mídias na entrada do século 21. In: PRADO, J. L. A (Org.) Crítica das práticas midiáticas: da sociedade de massa às ciberculturas. São Paulo: Hacker Editores, 2002. p. 44-56. TRABALHO APRESENTADO EM EVENTO BRAYNER, A R A; MEDEIROS, C.B. Incorporação do tempo em SGDB orientado a objetos. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE BANCO DE DADOS, 9...*, 1994, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 1994, p.16-29. *NUMERAÇÃO DO EVENTO (SE HOUVER) DOCUMENTO COM AUTORIA DE ENTIDADE BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil). Relatório da DiretoriaGeral: 1984. Rio de Janeiro, 1985, 40p. ARTIGO E/OU MATÉRIA DE REVISTA, BOLETIM ETC EM MEIO ELETRÔNICO RIBEIRO, P.S.G. Adoção à brasileira: uma análise sóciojurídica. Dataveni@, São Paulo, ano 3, n.18, ago.1998. Disponível em: <http://www.datavenia.inf.br/frame.artig. html > Acesso em: 10 set. 1998. • São permitidas imagens, mas a impressão será feita em preto e branco. No caso de fotografias, deve-se anexar o nome do fotógrafo e autorização dele para publicação, além da autorização das pessoas fotografadas. • Após a aprovação do artigo para publicação, a Editoria irá comunicar e enviar ao autor a ‘Carta de Autorização para Publicação’, na qual ele ainda declare sua responsabilidade pelo conteúdo do respectivo texto. 257