O país medalhado Eu nunca fui medalhado pelo Presidente da República, nunca recebi um Globo de Ouro, a revista Nova Gente nunca me achou merecedor de um dos seus galardões, em nenhuma ocasião algum jornal ou associação recreativa me agraciou com um prémio de mérito. Este facto faz de mim um caso raro. Raro não, raríssimo! Se, ao menos, eu tivesse conseguido um lugar de vereador… Inaugurava um fontanário ou dez metros de alcatrão e talvez algum autarca me atribuísse a Medalha de Honra da sua freguesia. E que honra seria! São muitos os prémios e medalhas que se atribuem em Portugal. Um funcionário que sempre tenha cumprido as suas funções com empenho e zelo corre o sério risco de receber uma medalha de mérito antes da reforma. Caso contrário, apenas receberá o seu merecido prémio aos 65 anos (ou a título póstumo, dependendo do que acontecer primeiro). Neste particular, os grandes campeões são os nossos políticos "mainstream". O Primeiro Ministro, por exemplo, está sujeito a receber 308 medalhas de honra municipais (ou apenas 134 pois são esses os concelhos onde o PSD tem maioria absoluta), milhares de prémios do tipo "O Marquês de Ouro" e muitas outras distinções, o que fará dele uma espécie de Carl Lewis da política nacional. É pelo menos essa a vontade do nosso município ao ter-lhe atribuído a Medalha de Honra de Pombal quando todos sabemos que, deste concelho, Durão Barroso provavelmente conhecerá apenas a estação da CP e o arroz de tomate. Esta "medalhite aguda" confere aos prémios a atribuir um estatuto democrático, uma vez que são acessíveis a toda a gente. Errado! Quando se pensa que ser democrata é distinguir todos por igual (ou oferecer, no Bodo, espectáculos caríssimos que se pagariam a si mesmo com facilidade), está-se a prestar um mau serviço à democracia. Sou totalmente favorável ao reconhecimento do mérito quando for caso disso. No entanto, este só deve ser traduzido em medalhas e títulos em ocasiões excepcionais. Os prémios de mérito tornaram-se tão banais que em vez de distinguir quem os recebe, promovem quem ainda não os recebeu. Num país onde a expressão de Almeida Garrett (que acabou por ser agraciado com o título de Visconde) "Foge cão que te fazem Barão! Para onde, se me fazem Visconde?" já subiu à categoria de provérbio popular, quem nunca foi agraciado no 10 de Junho ou no 11 de Novembro será, muito em breve, apontado na rua como um "freak": "Lá vai o (a)normalzinho!". A este propósito vale a pena lembrar Jorge Luís Borges e a sua convicção de que haveria de ficar para a História como o escritor a quem nunca foi atribuído o Prémio Nobel. Esta questão dos prémios tem ainda um outro aspecto que considero ridículo: quem os atribui não tem, na maioria dos casos, autoridade para o fazer. O Município de Alguidares de Cima atribui o prémio José Afonso ao cantor pimba que mais discos vendeu em 2003; a Associação de Estudantes do Instituto Superior de Tecnologia, polo de Alhadas de Baixo, distingue com o prémio "Carreira", a título póstumo, o ilustre cientista Albert Einstein, que, infelizmente, não compareceu na cerimónia de entrega do prémio; o Grupo dos Amigos do Bicho da Seda reconhece, com a medalha de ouro, o escritor José Saramago pela honrosa citação ao venerável bicho no seu último romance. Para ajudar à festa vou, também eu, criar alguns prémios e medalhas de mérito que pretendo atribuir a personalidades do nosso concelho. São eles: o prémio "Ditadorzinho da Treta" para o autarca que mais convencido estiver que a razão só a ele pertence; a "Medalha de Ouro do Clube dos Doentes de Alzheimer" para o infeliz paciente que mais apologia fizer ao tempo da outra senhora, esquecendo-se de como era vergonhoso e mesquinho o país de então; a "Medalha de Mérito dos Amigos do Camaleão" para o cidadão que mais vezes mudou de casaca a fim de conseguir um tacho político e o prémio "Nunca Mais se Cala" para o articulista da imprensa local que pior uso fizer da língua portuguesa (pode ser que este me calhe a mim). Apesar de ter as minhas preferências, desafio o leitor a enviar as suas para o meu endereço de email: [email protected]. Já que se fala de prémios, e pedindo desculpa pelo tom mais íntimo com que termino este artigo, não resisto à tentação de divulgar o muito pessoal prémio Mamede do Bodo. Assim, o meu prémio Mamede do Bodo 2003 vai para o meu amigo Miguel Silva, o "Miguelito", que faltou, sem justificação válida, às festas deste ano. O leitor, com certeza, terá outra opinião. Pois bem: atribua o seu e vá de férias descansado. Adérito Araújo (Publicado no jornal “O Eco” em Julho de 2003)