Pró-Reitoria de Graduação Curso de Biomedicina Trabalho de Conclusão de Curso AS INTERFERÊNCIAS DO SANEAMENTO BÁSICO NA SAÚDE HUMANA BRASILEIRA Autora: Renata Alessandra Rocha da Costa Orientador: PhD. Luiz Fernando Whitaker Kitajima Brasília - DF 2015 RENATA ALESSANDRA ROCHA DA COSTA AS INTERFERÊNCIAS DO SANEAMENTO BÁSICO NA SAÚDE HUMANA BRASILEIRA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Biomedicina da Universidade Católica de Brasília como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Biomedicina. Orientador: PhD. Luiz Fernando W. Kitajima Brasília-DF 2015 Projeto de TCC II, de autoria de Renata Rocha, intitulado “As Interferências do Saneamento Básico na Saúde Humana”, apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Biomedicina da Universidade Católica de Brasília, em maio de 2015, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada: ____________________________________________________ Prof. PhD. Luiz Fernando W. Kitajima Orientador Curso de Biomedicina – UCB _____________________________________________________ Prof. MsC. Willem Willy de Paula Barbosa Curso de Engenharia Ambiental – UCB _____________________________________________________ Profa. PhD. Regina Célia Rebouças Dalston Curso de Química – UCB Brasília-DF 2015 Pelo carinho, companheirismo e principalmente pelo amor, dedicados a mim por minha família no decorrer de minha vida acadêmica e em todos os outros momentos, dedico este trabalho como um pequeno gesto de gratidão. AGRADECIMENTO Agradeço a Deus, pela saúde, pela calma, pela perseverança e pelo amor. Agradeço ao meu orientador, Luiz Fernando Kitajima por me encorajar e me apoiar nesta etapa final do curso, e também pelo carinho com que sempre me acolheu. Agradeço aos demais professores e aos meus colegas de turma pelo apoio e companheirismo. Agradeço à minha família, pela paciência de todos esses anos de graduação e agradeço ainda mais pelo carinho. RESUMO Referência: COSTA, Renata Alessandra Rocha da. As interferências do saneamento básico na saúde humana brasileira. 2015. 56 páginas. Monografia parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Biomedicina da Universidade Católica de Brasília, em maio de 2015 O crescimento populacional promoveu um aumento da demanda de uma qualidade ambiental necessária para manter a qualidade de vida e saúde. Essa demanda é objeto do saneamento básico, que constitui em um conjunto de ações que visam, principalmente, a proporcionar o acesso à agua tratada e no recolhimento e disposição final adequada dos resíduos, líquidos ou sólidos. A falta ou deficiência destas ações ou serviços está relacionada com a propagação de diversas doenças e portanto, afeta a saúde pública. O presente trabalho procura mostrar essa relação para casos brasileiros, estudados através de órgãos como o IBGE e o Ministério da Saúde. São vinte municípios estudados, divididos em dois grupos de dez, um grupo com melhores índices e outro grupo com índices piores de saúde pública. O grupo que apresenta maiores taxas de internação por diarreia apresentam menores taxas de acesso da população à infraestrutura de saneamento (tratamento de água, recolhimento de esgotos e resíduos sólidos). A diferença com os gastos com saúde nos dois grupos não é necessariamente muito diferente, porém estes gastos podem ser associados, no caso dos municípios com maiores taxas de internação, com os gastos com hospital e tratamento médico, e não em infraestrutura e prevenção. Outro indicador de saúde está na ocorrência de doenças associadas a resíduos sólidos, sendo que neste caso estudou-se a leishmaniose no país por região, indicando que as regiões norte, nordeste e centro-oeste têm maiores incidências e apresentam menores taxas de coleta ou de disposição adequada de resíduos. Portanto, a falta de acesso a agua tratada, coleta adequada de esgoto e resíduos sólidos, e correta destinação final reflete-se na qualidade da saúde no Brasil, mas deve-se notar que outros parâmetros, como o valor dos investimentos em saúde ou mesmo o índice de desenvolvimento humano (IDH) podem em alguns casos não expressar plenamente essa relação. Palavras-chave: Saneamento. Saúde. Esgotos. Resíduos sólidos. Investimentos públicos. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 10 2 REVISÃO BIBLIGRÁFICA .............................................................................................. 14 2.1 CONTEXTO HISTÓRICO ................................................................................................. 14 2.2 O SANEAMENO BÁSICO ................................................................................................ 16 2.2.1 Abastecimento de Água ................................................................................................. 16 2.2.2 Sistema de Esgotos ......................................................................................................... 18 3.2.3 Disposição do resíduo sólido ......................................................................................... 19 3.2.4 Drenagem Urbana ......................................................................................................... 20 3.2 O SANEAMENTO BÁSICO E SUAS INTERFERÊNCIAS NA SAÚDE HUMANA.... 221 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO ...................................................................................... 277 3.1 SELEÇÃO DAS CIDADES PARA ESTUDO – RANKING PELAS DOENÇAS DIARRÉICAS ........................................................................................................................ 277 3.2 DOENÇAS RELACIONADAS COM O RESÍDUO SÓLIDO .......................................... 42 CONCLUSÃO......................................................................................................................... 48 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 50 10 1 INTRODUÇÃO O saneamento é definido como o controle de todos os fatores do meio físico do homem e que exercem (ou podem exercer) efeitos nocivos sobre o bem estar físico, mental e social, segundo a OMS (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2008). O saneamento também é definido de acordo com Ribeiro e Rooke (2010) por um conjunto de ações socioeconômicas que tem por objetivo alcançar salubridade ambiental ou de melhores condições para a saúde. O saneamento básico representa um aspecto importante da saúde pública mundial na atualidade, especialmente devido ao acelerado crescimento populacional, crescente urbanização e mudança nos aspectos econômicos e sociais das populações. Uma demonstração da importância do saneamento é que se estima que 80% das doenças e mais de 1/3 da taxa de mortalidade em todo o mundo decorram devido a falta de saneamento básico adequado (BARROSO, 2007). Como exemplo destas doenças há a hepatite A, dengue, cólera, diarréia, leptospirose, febre tifóide e paratifóide, esquistossomose, infecções intestinais, entre outras, que afetam particularmente crianças de até 5 (cinco) anos, não obstante atingindo também adultos jovens e idosos (BENÍCIO; MONTEIRO, 2000). Essa situação da saúde em cada sociedade está estreitamente relacionada como seu modo de vida e com todos os processos que a caracterizam, sendo composto pelas diversas condições sócio-econômico-cultural-ambiental dos diferentes setores da população que a compõe. Essa definição deve levar em consideração variações de estilo de vida para indivíduos ou pequenos grupos (BUSS, 2002). O conjunto de ações socioeconômicas deve ser executado pelo poder público e que visa à prevenção de doenças e moléstias que podem advir da falta de condições básicas de higiene e limpeza numa escala maior é o chamado saneamento básico. (HELLER; NASCIMENTO 2004). Por sua vez, a definição legal de saneamento básico no Brasil está estabelecida pela Lei 11.445, de 5 de janeiro de 2007 (BRASIL, 2007), conhecida como a Lei de Saneamento que estabelece ser um “conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo de águas pluviais urbanas”. Os serviços de saneamento básico devem ser oferecidos de modo a garantir qualidade compatível com a proteção de saúde humana e em quantidade suficiente para a garantia de 11 condições básicas de conforto, uma vez que a inexistência ou deficiência em ações concretas de saneamento podem trazer sérias consequências para a saúde humana (BOVOLATO, 2010). Um exemplo destas consequências são os indicadores do saneamento no Brasil. Embora as informações estatísticas sejam incompletas, estima-se que, em média, apenas 58,9% da população sejam atendidos por rede coletora de esgoto e que 92,1% dos domicílios sejam abastecidos pela rede geral de distribuição de água. Ou seja: quase 10% da população não têm acesso à água tratada, sem considerar as áreas rurais da região norte (IBGE, 2010). Considerando que a população atual brasileira seja de cerca de 200 milhões de habitantes, (IBGE, 2010) então há cerca de 20 milhões de pessoas vivendo sem água e esgoto tratados. Convém lembrar que embora tenha tido significativa melhora no saneamento no país há discrepâncias em relação às diferentes regiões brasileiras, visto que esses percentuais apresentados se referem a uma média de todo o Brasil. Estas lacunas existentes são fortemente observadas em algumas regiões, em detrimento a outras. Existem problemas crônicos nas grandes metrópoles mas o maior percentual de pessoas desassistidas por uma política de saneamento adequada está concentrado nas grandes periferias e regiões mais interiores do Brasil (IBGE, 2010). Dentre os principais serviços ou ações ligados ao saneamento básico pode-se destacar (BOVOLATO, 2010): -o abastecimento de água às populações, com qualidade compatível com a proteção de sua saúde e em quantidade suficiente para a garantia de condições básicas de conforto; -a coleta, tratamento e disposição ambientalmente adequada e sanitariamente segura dos esgotos sanitários, nestes incluídos os rejeitos provenientes das atividades domésticas, comercial e de serviços, industrial e pública; -a coleta, tratamento e disposição ambientalmente adequada e sanitariamente segura dos resíduos sólidos rejeitados pelas mesmas atividades; -a coleta de águas pluviais e controle de empoçamentos e inundações; o controle de vetores de doenças transmissíveis (insetos, roedores, moluscos). Observa-se que a destinação correta de resíduos líquidos, sólidos e gasosos é de grande importância no saneamento. O destino incorreto destes resíduos causam sérios danos ao homem e ao meio, causando poluição das águas, solos e ar (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Como citado anteriormente, os serviços e ações de saneamento básico devem garantir a saúde ao ser humano e a sociedade. Portanto, a ausência delas, terá um impacto direto na saúde humana, por exemplo na forma de várias epidemias e endemias de doenças, em particular as que são transmitidas por vetores (ex.: febre amarela), por via hídrica (ex.: febre 12 tifóide) e pelo ar (ex.: tuberculose). Os indivíduos mais afetados são os que vivem em condições de pobreza, em geral na periferia, sem estrutura de saneamento básico, com má alimentação e com renda insuficiente para manter um padrão mínimo de sobrevivência. Também contribuíram para o aparecimento de algumas dessas doenças os problemas ambientais, como o desmatamento descontrolado. Com o aumento das ações de saneamento básico houve uma melhora no quadro das epidemias e endemias, mas mesmo com os avanços técnicos e científicos ocorridos, ainda é difícil evitar o aparecimento dessas doenças e controlá-las (BYDLOWSKI; WESTPHAL; PEREIRA, 2004). A relação entre o saneamento e as condições de saúde do indivíduo e da sociedade são estreitamente relacionadas, especialmente para o caso do Brasil, sendo um elemento importante no trabalho dos biomédicos, e portanto o presente trabalho procura apresentar exemplos ou números referentes aos resultados destas ações de saneamento básico. O objetivo principal do presente trabalho é estabelecer as interferências do saneamento básico, especialmente no que diz respeito à água tratada e sistema de esgotamento eficiente, na saúde humana da população brasileira. Os objetivos secundários são demonstrar as variações do número de casos de doenças com a situação do saneamento básico e da população e desenvolver a compreensão sobre como combinar dados distintos para se visualizar a realidade da saúde pública nas diversas cidades ou regiões do Brasil. A pesquisa realizada neste trabalho de pesquisa visa apoiar a ideia de que o saneamento básico influi na saúde dos seres humanos, e esta pesquisa é quantitativa, tendo como método a descrição de dados e revisão de literatura, além da análise de dados contidos em pesquisas realizadas por institutos governamentais e privados. A realização deste trabalho, que consiste essencialmente em uma pesquisa bibliográfica, pode ser dividida em duas fases: -foi realizada uma pesquisa bibliográfica nos dados disponíveis em meio eletrônico ou impresso, sobre a saúde e saneamento nas cidades brasileiras, com a obtenção de dados estatísticos pertencentes aos principais institutos de pesquisa governamentais e nãogovernamentais relacionados ao tema, como o IBGE e o Ministério da Saúde. -após a obtenção destes dados, foi decidida uma escolha de pelo menos vinte (20) cidades para servir de exemplo comparativo. -os dados foram colocados em tabela e combinados em figuras confeccionados com o software EXCEL® para interpretação. 13 Os dados utilizados na confecção do presente trabalho foram sobre: -ocorrência de determinadas doenças (diarreia e leishmaniose) -acesso a serviços de saneamento básico (esgotos e resíduo sólido) -outros dados, a saber: população, índice de desenvolvimento humano (IDH) e gastos com saúde. A fonte destes dados incluiu estudos realizados por órgãos públicos como o IBGE e Ministério da Saúde, dados estes disponíveis no sistema DATASUS do Governo Federal, no banco de dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), ou no website do IBGE. Também foram consultadas publicações disponíveis on-line que agregam estes dados provenientes das pesquisas governamentais. Um exemplo é o Instituto Trata Brasil, uma Organização Não-Governamental (ONG) voltada para a questão do saneamento básico no Brasil e que oferece várias publicações, entre elas o Ranking Nacional de Saneamento Básico, que foram empregadas no presente trabalho (OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA, 2014). Também foram pesquisados outros textos e artigos sobre o assunto que foram de origens diversas, como revistas de universidades, por exemplo da Universidade Federal de Tocantins (BOVOLATO, 2010). Portanto, no presente trabalho, para poder fazer a correlação entre o saneamento, saúde pública e renda, foi feita a escolha de municípios no Brasil para a comparação em Tabelas e Figuras. Essa escolha foi feita por meio dos dados disponíveis no SNIS – Sistema Nacional de informações sobre Saneamento e do IBGE, através do Instituto Trata Brasil - ITB (KRONEMBERGER 2013, OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA 2014). O parâmetro para comparação utilizado foi o número de internações por diarreia, uma vez que essas doenças, estão relacionadas principalmente por saneamento inadequado. Os anos estudados foram os de 2008 a 2011. De posse dos dados necessários, procurou-se estabelecer uma relação direta entre falta de saneamento básico e aumento de problemas de saúde na população, e claro, o contrário disso, ou seja, populações melhores assistidas por programas de saneamento são menos suscetíveis a certos tipos de doença. 14 2 REVISÃO BIBLIGRÁFICA 2.1 CONTEXTO HISTÓRICO A questão sanitarista tem seu surgimento no Brasil por volta do ano de 1850. Sob a ótica do que foi denominado de higienismo, começam a surgir ações de organização de um sistema de saneamento em resposta às situações epidêmicas, mesmo antes da identificação dos agentes causadores das doenças (SOARES; BERNARDES; CONDEIRO NETTO, 2002). Por volta de 1900 a 1930, o cientista Oswaldo Cruz, que com suas pesquisas científicas em bases modernas, provocou uma grande agitação política em torno da questão sanitária. Nesse período houve um aumento no número de cidades com abastecimento de água, além de uma mudança na tecnologia do tratamento de esgotos (SOARES; BERNARDES; CONDEIRO NETTO, 2002). Em 1934 foi criado então o primeiro instrumento de controle dos recursos hídricos no Brasil, o Código das Águas, que estabelecia o abastecimento público com prioritário. Então o setor de saúde começou a coordenar as ações de saúde pública e saneamento básico. O Código das Águas estabeleceu a estrutura de regulação dos serviços de saneamento básico e de energia elétrica no Brasil, fundamentando princípios de um sistema híbrido que associava o regime de concessões ao de regulação econômica pela taxa de retorno. O referido Código constitui-se na primeira meio de regulação de serviços públicos do país, com influência sobre os demais setores (BRITTO, 2001). Já na década de 1970, nos países em desenvolvimento notou-se uma visão da necessidade de esgotamento sanitário e abastecimento de água tratada como forma da diminuição das taxas de mortalidade em geral, contudo as ações ainda são tímidas, principalmente na atenção primária à saúde. No âmbito político surgiu, nesse período, no Brasil, o PLANASA – Plano Nacional de Saneamento, que tinha como principal ponto o abastecimento de água. Em 1973 foi criada a Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA), que já trazia à tona os conceitos de ecologia e meio ambiente, notando-se uma preocupação ambiental (SOARES; BERNARDES; CONDEIRO NETTO, 2002). O PLANASA foi um instrumento criado pelo Sistema Financeiro de Saneamento (SFS) em 1971, objetivando racionalizar os investimentos no setor e ampliar significativamente a cobertura de serviços em um prazo de dez anos. O PLANASA e o SFS foram os principais núcleos de regulação e controle das políticas de saneamento, 15 representando a forma definitiva de intervenção do governo federal na gestão dos serviços (BRITTO, 2001). Com um enfoque ainda mais político do que técnico, a década de 1980 é marcada pela formulação de mecanismos mais rigorosos com a saúde populacional, sendo instaurada uma série de instrumentos legais definidores de políticas e ações do governo brasileiro, como a Política Nacional de Meio Ambiente, a Lei 6938/81 (BRASIL, 1981). Nesse período também foi feita uma revisão técnica das legislações pertinentes aos padrões de qualidade das águas (SOARES; BERNARDES; CONDEIRO NETTO, 2002). Finalmente, dos anos 1990 até o período atual (ano de 2015), passou a prevalecer a ideia de que o saneamento básico deve também ter ênfase na conservação e preservação do meio ambiente, e particularmente nos recursos hídricos. Como consequência dessa ideia surge em 1997 a Lei 9433/97, que preconiza a Política e o Sistema Nacional de Recursos Hídricos, que considera o consumo de água potável com a manutenção deste recurso no ambiente. Surgem também as primeiras avaliações dos efeitos e consequências das atividades de saneamento para o meio ambiente (SOARES; BERNARDES; CONDEIRO NETTO, 2002). Deve-se lembrar que a visão sanitarista foi dominante nesse período (década de 1980), onde o saneamento é uma questão de saúde pública e não envolve o meio ambiente, ao contrário das concepções atuais. Na atualidade, há a Lei 11.445/2007 (BRASIL, 2007) estabelece as diretrizes nacionais atuais para o saneamento básico. Dentre outras abordagens e aspectos ela traz a definição de saneamento básico, que se segue: [...] Art. 3o Para os efeitos desta Lei, considera-se: I - saneamento básico: conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de: a) abastecimento de água potável: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações necessárias ao abastecimento público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e respectivos instrumentos de medição; b) esgotamento sanitário: constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários, desde as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente; 16 c) limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos: conjunto de atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta, transporte, transbordo tratamento e destino final do resíduo sólido doméstico e do resíduo sólido originário da varrição e limpeza de logradouros e vias públicas; d) drenagem e manejo das águas pluviais urbanas: conjunto de atividades, infraestruturas e instalações operacionais de drenagem urbana de águas pluviais, de transporte, detenção ou retenção para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas; [...] Essa Lei define o que deveria estar sendo praticado nos estados e municípios do Brasil. Entretanto, pode-se observar diariamente, seja pelo noticiário ou pela observação direta, deficiências e problemas encontrados no cotidiano das mais diversas cidades, onde muitas vezes o saneamento básico é inexistente (CHUVA..., 2014; TERRENO..., 2015). A legislação a respeito do tema é bem mais ampla e abrangente, estando presente nos âmbitos estaduais e municipais. Contudo, a não aplicabilidade dessas leis interfere diretamente na qualidade de vida e na saúde da população. No Brasil, como um todo, nota-se grandes discrepâncias na execução das mesmas, concorrendo assim, diversos problemas de saúde humana advindos dessas gestões deficientes. 2.2 O SANEAMENO BÁSICO 2.2.1 Abastecimento de Água A água potável é a água destinada ao consumo humano e para ser assim considerada, ela deve atender aos padrões de potabilidade. Se houver substâncias que desrespeitam estes padrões, ela será considerada imprópria para o consumo humano. As substâncias que indicam esta poluição por matéria orgânica são compostos nitrogenados, oxigênio consumido e cloretos. O Sistema de Abastecimento de Água representa o conjunto de obras, equipamentos e serviços destinados ao abastecimento de água potável de uma comunidade para fins de consumo doméstico, serviços públicos, consumo industrial e outros usos. Para o 17 abastecimento de água, a melhor saída é a solução coletiva, exceto no caso das comunidades rurais que se encontram muito afastadas (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Portanto, um sistema de abastecimento de água é composto pelas seguintes unidades, ilustradas esquematicamente na Figura 1 a seguir: − Manancial: fonte de onde se retira a água; − Captação: conjunto de equipamentos e instalações utilizado para a tomada de água do manancial; − Adução: transporte da água do manancial para a estação de tratamento de água ou da água tratada para a reservação; − Tratamento: melhoria das características qualitativas da água, dos pontos de vista físico, químico, bacteriológico e organoléptico, a fim de que se torne própria para o consumo. É feito nas Estações de Tratamento de Água (ETA); − Reservação: armazenamento da água para atender a diversos propósitos, como a variação de consumo e a manutenção da pressão mínima na rede de distribuição; − Rede de distribuição: condução da água para os edifícios e pontos de consumo, por meio de tubulações instaladas nas vias públicas. Figura 1: Esquema de um sistema de captação e distribuição de água potável . Fonte: Mota (2006) A importância da implantação do sistema de abastecimento de água, dentro do contexto do saneamento básico, deve ser considerada tanto no aspectos sanitário e social quanto nos aspectos econômicos (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Nos aspectos sanitário e social: − melhoria da saúde e das condições de vida de uma comunidade; − diminuição da mortalidade em geral, principalmente da infantil; 18 − aumento da esperança de vida da população; − diminuição da incidência de doenças relacionadas à água; − implantação de hábitos de higiene na população; − facilidade na implantação e melhoria da limpeza pública; − facilidade na implantação e melhoria dos sistemas de esgotos sanitários; − possibilidade de proporcionar conforto e bem-estar; − incentivo ao desenvolvimento econômico. Nos aspectos econômicos: − aumento da vida produtiva dos indivíduos economicamente ativos; − diminuição dos gastos particulares e públicos com consultas e internações hospitalares; − facilidade para instalações de indústrias, onde a água é utilizada como matériaprima ou meio de operação; − incentivo à indústria turística em localidades com potencialidades para seu desenvolvimento. 2.2.2 Sistema de Esgotos O sistema de esgotos sanitários é o conjunto de obras e instalações que propicia coleta, transporte e afastamento, tratamento, e disposição final das águas residuárias, de uma forma adequada do ponto de vista sanitário e ambiental. Esse sistema reduz o risco de contato de dejetos humanos com a população, com as águas de abastecimento, com vetores de doenças e alimentos (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Com a construção de um sistema de esgotos sanitários em uma comunidade procura-se atingir os seguintes objetivos: afastamento rápido e seguro dos esgotos; coleta dos esgotos individual ou coletiva (fossas ou rede coletora); tratamento e disposição adequada dos esgotos tratados, visando atingir benefícios como conservação dos recursos naturais; melhoria das condições sanitárias locais; eliminação de focos de contaminação e poluição; eliminação de problemas estéticos desagradáveis; redução dos recursos aplicados no tratamento de doenças; diminuição dos custos no tratamento de água para abastecimento (RIBEIRO; ROOKE, 2010). 19 3.2.3 Disposição do resíduo sólido O resíduo sólido é o conjunto de resíduos sólidos resultantes da atividade humana, constituído de substâncias putrescíveis, combustíveis e incombustíveis (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Essa definição coloca o resíduo sólido como sendo um resíduo sólido pela Lei 12.305/10, de 2010, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010a). Quando o resíduo sólido é disposto de forma inadequada, em lixões a céu aberto, por exemplo, há problemas sanitários e ambientais. Estes locais tornam-se propícios para a atração de animais que acabam por se constituírem em vetores de diversas doenças, especialmente para as populações que vivem da catação, uma prática comum nestes locais. Também são responsáveis pela poluição do ar, quando ocorre a queima dos resíduos, da poluição do solo e das águas superficiais e subterrâneas (Figura 2). Estes problemas podem ser minimizados ou evitados se houver uma adequada disposição final, reciclagem e outras técnicas destinadas a redução do volume ou disposição do resíduo sólido (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Figura 2: Fotografia da “piscina” de chorume do Aterro Controlado da Estrutural. Fonte: Kitajima, 2013. Mesmo nos aterros controlados, embora os problemas sanitários sejam minimizados em relação aos lixões, com o recobrimento dos resíduos com terra, os problemas ambientais ainda persistem, uma vez que são responsáveis pelo comprometimento das águas (subterrâneas e superficiais) e do ar, pois não adotam medidas como: -a impermeabilização da base do aterro, 20 -não haver tratamento dos líquidos percolados pela decomposição do resíduo sólido, -não há coleta e o tratamento do biogás (RIBEIRO; ROOKE, 2010). Já os aterros sanitários incorporam avanços tecnológicos da Engenharia Sanitária e Ambiental, e por isso mesmo minimizam os impactos em relação aos sistemas anteriores. Além de promoverem a adequada disposição final dos resíduos, são áreas impermeabilizadas com mantas sintéticas de alta resistência que minimizam o comprometimento dos lençóis freáticos. A captação e o tratamento dos líquidos percolados são outras medidas que colocam estes sistemas entre aqueles que podem ser utilizados para a disposição adequada do resíduo sólido urbano (RIBEIRO; ROOKE, 2010). A boa operação e a incorporação dessas modernas tecnologias, no entanto não eliminam a necessidade de políticas públicas voltadas para mudanças nos padrões de consumo, incentivo à minimização da geração de resíduos, à coleta seletiva e à reciclagem, também importantes ferramentas do processo de gerenciamento integrado de resíduos sólidos que está cada vez mais deixando de ser resíduo para se transformar em novos produtos, num círculo virtuoso para a saúde pública e o meio ambiente (APETRES, 2014). 3.2.4 Drenagem Urbana Os sistemas de drenagem urbana são essencialmente sistemas preventivos de inundações, empoçamentos, erosões, ravinamento e assoreamentos, principalmente nas áreas mais baixas das comunidades que estão sujeitas a alagamentos ou comunidades marginais de cursos naturais de água. Um adequado sistema de drenagem urbana, quer de águas superficiais ou subterrâneas, onde esta drenagem for viável, proporcionará uma série de benefícios, tais como: -desenvolvimento do sistema viário; -redução de gastos com manutenção das vias públicas; -valorização das propriedades existentes na área beneficiada; -escoamento rápido das águas superficiais, reduzindo os problemas do trânsito e da mobilidade urbana por ocasião das precipitações; -eliminação da presença de águas estagnadas e lamaçais; -rebaixamento do lençol freático; -recuperação de áreas alagadas ou alagáveis; -segurança e conforto para a população (RIBEIRO; ROOKE, 2010). 21 A ausência de um sistema de drenagem urbana, ou de um sistema adequado de drenagem urbana, causa transtornos diversos como inundações e alagamentos, especialmente nos períodos chuvosos. Estes problemas são agravados pela urbanização acelerada e sem planejamento de muitas cidades na atualidade. Um exemplo são os problemas de alagamento nas cidades do Distrito Federal durante o período de chuvas (CHUVA DERRUBA TETO DE GINÁSIO, 2015 ). 3.2 O SANEAMENTO BÁSICO E SUAS INTERFERÊNCIAS NA SAÚDE HUMANA A falta ou deficiência de saneamento básico interfere direta e negativamente na saúde e na qualidade de vida das pessoas, ao passo que um eficiente sistema de saneamento têm influência positiva no bem-estar de todos os indivíduos. Diversos estudos indicam uma estreita relação entre saneamento e saúde pública. Por exemplo, Heller e Nascimento (2005) fizeram uma revisão da literatura então disponível, e concluíram que os estudos já realizados permitem atestar a melhoria dos indicadores de saúde pública em função do abastecimento de água e esgotamento sanitário. Esta relação entre saneamento e saúde já era conhecida, ainda que de forma intuitiva, pela humanidade (CAVINATTO 1992 Apud RIBEIRO; ROOKE, 2010). Por exemplo, observou-se que a água poluída por dejetos e resíduos podia transmitir doenças. Há exemplo de civilizações, como a grega e a romana, que desenvolveram técnicas de tratamento e distribuição da água. A descoberta de que seres microscópios eram responsáveis pelas moléstias só ocorreu séculos mais tarde (por volta de 1850), com as pesquisas realizadas pelo cientista francês Louis Pasteur e outros cientistas. A partir de então descobriu-se que mesmo solos e águas aparentemente limpos podiam conter organismos patogênicos introduzidos por material contaminado ou fezes de pessoas doentes. Como explica Cavinatto (1992 Apud RIBEIRO; ROOKE, 2010): Evitar a disseminação de doenças veiculadas por detritos na forma de esgotos e resíduo sólido é uma das principais funções do saneamento básico. Os profissionais que atuam nesta área são também responsáveis pelo fornecimento e qualidade das águas que abastecem as populações. 22 Por exemplo, andar descalço no solo pode expor um ser humano a microrganismos que ali foram lançados, como as verminoses que podem infectar o organismo através do contato com a pele. Ainda hoje, populações no mundo inteiro sofrem com as moléstias causadas pela falta de saneamento básico. Por exemplo, no Brasil atual, as péssimas condições sanitárias que ainda são verificadas em muitas das bacias hidrográficas densamente e desordenadamente ocupadas, resultam na degradação generalizada dos elementos naturais e dos recursos hídricos. Ocorre o lançamento de esgotos sanitários não tratados, a disposição inadequada de resíduos sólidos nas mediações de cursos d’água ou em locais sem infra-estrutura adequada, loteamentos clandestinos e outras. A importância do saneamento para o desenvolvimento do país, embora seja reconhecido pelos diversos segmentos sociais e governamentais, não tem guardado correspondência com a baixa prioridade reservada ao setor. As carências e as iniquidades acumuladas, junto com a insuficiente articulação governamental, são constatadas e têm sido objeto de reivindicações visando à sua correção. Contudo, apenas constatar a importância da área de saneamento para o país e a sociedade, sem qualificar seu papel e, sobretudo, o benefício potencialmente dela esperado, pode ser insuficiente, em especial quando não há evidências cientificamente sólidas, frequentes no setor (HELLER; NASCIMENTO, 2005). A constatação destes problemas relacionados como saneamento e a população são importantes para garantir apoio à pesquisa na área, sendo que aqueles que atuam na área fornecem dados para outros, como órgãos governamentais, que possuem os recursos necessários para a solução ou mitigação destes problemas. Esse intercâmbio é essencial para definir questões relevantes para se determinar sobre como e quando agir. É importante também no campo da pesquisa e desenvolvimento, já que, dado o quadro de carências e necessidades do setor, este também tem opções e rumos, com um leque de possibilidades (HELLER; NASCIMENTO, 2005). As ações neste setor podem ser baseadas nos seguintes princípios (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2008): − Universalidade: atendimento universal da população alvo das intervenções. − Equidade: equivalência na qualidade sanitária dos serviços, independente das condições sócio-econômicas do usuário e da realidade urbanística de onde vive. − Integralidade: atendimento pelos serviços de saneamento com uma visão integral, que entenda o saneamento como um conjunto de ações, envolvendo, pelo menos, o 23 abastecimento de água, o esgotamento sanitário, a limpeza pública, a drenagem pluvial e o controle de vetores. − Titularidade municipal: reconhecimento e respeito à autonomia municipal, em coerência com o preceito constitucional. − Gestão pública: a compreensão de que os serviços de saneamento são, por definição, públicos, prestados sob regime de monopólio, essenciais e vitais para o funcionamento das cidades, para a determinação das condições de vida da população urbana e rural, para a preservação do meio ambiente e para o desenvolvimento da economia. − Participação e controle social: como requisito indispensável para tornar visível e legitimada a diversidade de interesses, bem como para a apropriação dos equipamentos de saneamento pela população. − Intersetorialidade: integração com o desenvolvimento urbano, a saúde pública e com as áreas ambiental e de recursos hídricos, entendida como indispensável para se atingir o pleno êxito das ações, por natureza complexas. − Qualidade dos serviços: incluindo a regularidade, a continuidade, a eficiência, a segurança, a atualidade, a cortesia e a modicidade dos custos. − Acesso: compatibilização da política tarifária com o poder aquisitivo do usuário, mediante a prática da modicidade dos preços. Os efeitos da ausência ou inadequação dos serviços sanitários, são portanto (HELLER; NASCIMENTO, 2005): 1. efeitos sobre a saúde - morbi-mortalidade ampliada devido à inadequação de saneamento ambiental, 2. efeitos de natureza ambiental - ecossistemas comprometidos; 3. efeitos de natureza sócio-política - exclusão social e redução dos níveis de cidadania. Com estes referenciais sobre o necessário para as ações de saneamento, pode-se definir a lacuna entre o que existe (materiais, estrutura, política, etc.) e o que seria adequado ou necessário (HELLER; NASCIMENTO, 2005). A seguir, nas Tabelas 1, 2, 3 e 4 são observadas as relações das principais doenças que estão diretamente ligadas à deficiência ou falta de saneamento básico, na forma de: -Ausência de rede de esgoto (Tabela 1) -Águas contaminadas (Tabela 2) 24 -Ausência de tratamento de esgotos (Tabela 3). -Disposição inadequada de resíduo sólido (Tabela 4) Tabela 1: Doenças Relacionadas com a Ausência de Rede de Esgotos Grupos Doenças Feco-orais bacterianas) de Formas de Transmissão (não Contato de pessoa para pessoa, quando não se tem higiene pessoal e doméstica adequada. Feco-orais (bacterianas) Helmintos transmitidos solo pelo Tênias (solitárias) na carne de boi e de porco Helmintos associados à água Insetos vetores relacionados com as fezes Principais Doenças Relacionadas Poliomielite Hepatite tipo A Giardíase Disenteria amebiana Diarreia por vírus Formas de Prevenção » Melhorar as moradias e as instalações sanitárias » Implantar sistema de abastecimento de água » Promover a educação sanitária Contato de pessoa para Febre tifoide Implantar sistema adequado pessoa, ingestão e Febre paratifoide de disposição de esgotos contato com alimentos Diarreias e melhorarem as moradias e as contaminados e disenterias instalações sanitárias contato com fontes de bacterianas, como a » Implantar sistema de águas contaminadas cólera abastecimento de água » Promover a educação pelas fezes. sanitária Ingestão de alimentos Ascaridíase » Construir e manter limpas contaminados e (lombriga) as instalações sanitárias contato da pele com o Tricuríase » Tratar os esgotos antes da solo. Ancilostomíase disposição no solo » Evitar contato direto da (amarelão) pele com o solo (usar calçado) Ingestão de carne mal Teníase » Construir instalações cozida de animais Cisticercose sanitárias adequadas infectados » Tratar os esgotos antes da disposição no solo » Inspecionar a carne e ter cuidados na sua preparação Contato da pele com Esquistossomose » Construir instalações água contaminada sanitárias adequadas » Tratar os esgotos antes do lançamento em curso d’água » Controlar os caramujos » Evitar o contato com água contaminada Procriação de insetos Filariose » Combater os insetos em locais (elefantíase) transmissores. contaminados pelas » Eliminar condições que fezes possam favorecer criadouros » Evitar o contato com criadouros e utilizar meios de proteção individual. Fonte: Dossiê do Saneamento, ONG Esgoto é Vida, 2006 (http://www.esgotoevida.org.br/) 25 Tabela 2 - Doenças Relacionadas com Água Contaminada Grupos de Doenças Formas de Transmissão Transmitidas pela via feco-oral (alimentos contaminados por fezes) O organismo patogênico (agente causador da doença) é ingerido Controladas pela limpeza com água A falta de água e a higiene pessoal insuficiente criam condições favoráveis para sua disseminação. O patogênico penetra pela pele ou é ingerido. Associadas à água (uma parte do ciclo de vida do agente infeccioso ocorre em um animal aquático Principais Doenças Relacionadas Leptospirose Amebíase Hepatite infecciosa diarreias e disenterias, como a cólera e a giardíase. Infecções na pele e nos olhos, como o tracoma e o tifo relacionado com piolhos, e a escabiose Esquistossomose Formas de Prevenção » Proteger e tratar as águas de abastecimento e evitar o uso de fontes contaminadas. » Fornecer água em quantidade adequada e promover a higiene pessoal, doméstica e dos alimentos. Fornecer água em quantidade adequada e promover a higiene pessoal e doméstica » Adotar medidas adequadas para a disposição de esgotos » Evitar o contato de pessoas com águas infectadas » Proteger mananciais » Combater o hospedeiro intermediário Transmitidas por As doenças são Malária » Eliminar condições que possam vetores que se propagadas por insetos Febre amarela favorecer criadouros relacionam com a que nascem na água ou Dengue » Combater os insetos água picam perto dela. Elefantíase transmissores » Evitar o contato com criadouros » Utilizar meios de proteção individual Fonte: Dossiê do Saneamento, ONG Esgoto é Vida, 2006 (http://www.esgotoevida.org.br/) Tabela 3 - Doenças e Outras Consequências da Ausência de Tratamento do Esgoto Sanitário Poluentes Patogênicos Parâmetro Caracterização » Coliformes Sólidos em suspensão » Sólidos em suspensão totais » Domésticos » Industriais Matéria orgânica biodegradável » Demanda bioquímica de oxigênio » Nitrogênio » Fósforo » Domésticos » Industriais » Pesticidas » Detergentes » Outros » Industriais » Agrícolas Nutrientes Compostos nãobiodegradáveis de Tipo de Esgotos » Domésticos » Domésticos » Industriais Consequência » Doenças de veiculação hídrica » Problemas estéticos » Depósitos de lodo » Absorção de poluentes » Proteção de patogênicos » Consumo de oxigênio » Mortandade de peixes » Condições sépticas » Crescimento excessivo de algas » Toxidade aos peixes » Doenças em recém-nascidos (nitratos) » Toxidade » Espumas » Redução da transferência de oxigênio » Não biodegradabilidade » Maus odores Fonte: Dossiê do Saneamento, ONG Esgoto é Vida, 2006 (http://www.esgotoevida.org.br/) 26 Tabela 4 - Doenças relacionadas com o resíduo sólido e transmitidas por vetores Vetores Ratos Formas de transmissão através da mordida, urina e fezes; através da pulga que vive no corpo do rato. Moscas por via mecânica (através das asas, patas e corpo); através das fezes e saliva. Mosquitos através da picada da fêmea. Baratas Suínos Aves Principais doenças peste bubônica; leptospirose. tifo febre tifóide; salmonelose; amebíase; disentería; giardíase. murino; cólera; malária; leishmaniose; febre amarela; dengue; filariose. por via mecânica (através das asas, febre tifóide; cólera; giardíase. patas e corpo); através das fezes. pela ingestão de carne contaminada cisticercose; toxoplasmose; triquinelose; teníase. através das fezes. toxoplasmose. Fonte: Ribeiro; Rooke, 2010 De acordo com as tabelas e com o discutido anteriormente, as ações que um sistema de saneamento básico deveria englobar são muito amplas, o que demanda dinheiro, gestão eficiente e participação da população de forma efetiva. No Brasil, a não aplicação desses três fatores, aliados a outros, contribuem para uma ação muito deficiente de medidas sanitárias adequadas, principalmente nas periferias das grandes cidades e regiões mais interiorizadas do país. A Pesquisa Nacional de Saneamento Básica (PNSB) realizada em 2008 e coordenada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) (IBGE, 2008) mostrou o que realmente vem acontecendo no Brasil. Seu relatório baseou-se na coleta de dados divididos por áreas, quais sejam: abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo de águas pluviais e manejo de resíduos sólidos, que são os cernes do sistema de saneamento. Este relatório indica que, apesar de ter aparentemente havido uma melhora nas condições de saneamento básico desde a pesquisa de 2000 até a de 2008, alguns índices de saúde pública ainda são preocupantes. Por exemplo, a ONG ITB - Instituto Trata Brasil, baseada em pesquisas particulares, apontou que, em 60 das 100 cidades estudadas no Brasil, os baixos índices de atendimento resultaram em altas taxas de internação por diarreias (KRONEMBERGER 2013, OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA 2014). 27 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 3.1 SELEÇÃO DAS CIDADES PARA ESTUDO – RANKING PELAS DOENÇAS DIARRÉICAS A falta de saneamento básico está muito associada à pobreza afetando principalmente a população de baixa renda, que é mais vulnerável devido à subnutrição e pela higiene inadequada. Doenças relacionadas a sistemas de água e esgoto inadequados e as deficiências com a higiene causam a morte de milhões de pessoas todos os anos, especialmente nos países de baixa renda, com PIB per capita inferior a US$825,00 (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2008). Nos países de clima quente as diarreias ocorrem mais durante a estação chuvosa, e tanto as inundações quanto as secas aumentam o risco de ocorrência dessas doenças, tais como a cólera, giardíase, infecção por shiguella, febre tifóide, infecção por E. coli, entre outras. No Brasil, as doenças de transmissão feco-oral, especialmente as diarreias, representam em média mais de 80% das doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado (IBGE, 2012). Ter ou não acesso a uma água de qualidade e um bom sistema de coleta e tratamento de esgotos faz toda a diferença para afastar estas doenças que sobrecarregam o sistema de saúde, ocupam milhares de leitos hospitalares, afetam as crianças e as cidades como um todo. As doenças diarreicas consideradas nos estudos consultados foram: cólera, shiguelose, amebíase, infecções por salmonella, infecções intestinais bacterianas, doenças intestinais por protozoários, infecções intestinais virais, diarreia e gastroenterite de origem infecciosa presumível. Na Tabela 5 a seguir estão os 10 municípios com melhor situação no país (com menor taxa de internação) e os 10 com pior situação (maior taxa de internação). Os números correspondem à posição no ranking para os anos de 2008 até 2011 (para fins de comparação). A Figura 3 a seguir mostra a localização destes municípios no mapa do Brasil. 28 Tabela 5 - Ranking da taxa de internação hospitalar por paciente de diarreia (20 melhores e 10 piores cidades 2008-2011) Melhores Municípios Taubaté Praia Grande São Bernardo do Campo Suzano Rio de Janeiro Bauru Caxias do Sul Campinas Montes Claros Betim Piores Municípios Maceió João Pessoa Santarém Campina Grande Vitória da Conquista Várzea Grande Belém Anápolis Belford Roxo Ananindeua 2008 1 2 5 2009 3 1 2 2010 1 2 3 2011 1 2 3 3 7 9 19 4 11 12 5 12 9 7 6 11 16 4 6 10 9 7 15 19 4 5 6 7 8 9 10 2008 90 91 96 93 97 2009 88 91 90 94 98 2010 89 91 92 94 96 2011 91 92 93 94 95 83 99 92 94 100 95 99 93 97 100 97 98 99 95 100 96 97 98 99 100 Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptados de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades. 29 Figura 3 – Mapa do Brasil com a de localização dos municípios estudados. Os números correspondem à posição no ranking indicado na Tabela 5. Os círculos indicam os municípios melhor colocados no ranking e os quadrados, pior colocados no ranking (para o ano de 2011). Fonte: Desenho de Kitajima (2015) com dados de KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptados de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades. A Tabela 6 mostra a população, o produto interno bruto (PIB), o PIB por pessoa (per capita) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) destes municípios. O IDH utilizado é o de 2010, o mais recente disponível, através do Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, publicado pelo PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e que foi publicado em 2013 (ÍNDICE, 2013). 30 Tabela 6 – Produto interno bruto dos melhores e piores municípios (referente ao saneamento). Municipio População (2011) 281.336 PIB (Reais) (2011) 9,8 bilhões 267.307 3,9 bilhões PIB per capita IDH (2010) (Reais) (2011) 34.680 0,800 (muito alto) 14.903 0,754 (alto) 770.253 36,4 bilhões 47.175 265.074 6.355.949 5,8 bilhões 209 bilhões 21.838 32.940 346.077 8,0 bilhões 23.036 Caxias do Sul 441.332 (RS) 1.090.386 Campinas (SP) 16,6 bilhões 37.696 40 bilhões 37.165 Montes Claros (MG) Betim (MG) MÈDIA Maceió (AL) João Pessoa (PB) Santarém (PA) Campina Grande (PB) Vitória da Conquista (BA) Várzea Grande (MT) Belém (PA) Anápolis (GO) Belford Roxo (RJ) Ananindeua (PA) MÉDIA 366.135 4,9 bilhões 13.276 0,805 (muito alto) 0,770 (alto) 383.571 733.155 780.738 297.040 387.643 28 bilhões 37 bilhões 13,7 bilhões 10,1 bilhões 2,5 bilhões 5,5 bilhões 73.220 33.633 14.572 13.786 8.383 14.070 0,749 (alto) 0,78 (alto) 0,739 (alto) 0,763 (alto) 0,691 (médio) 0,720 (alto) 310.129 3,8 bilhões 12.370 0,678 (médio) 255.448 4,1 bilhões 15.846 0,734 (alto) 1.402.056 338.545 472.008 20,6 bilhões 12,1 bilhões 3,5 bilhões 14.575 33.480 7.140 0,746 (alto) 0,737 (alto) 0,742 (alto) 477.999 4,2 bilhões 8.589 0,718 (alto) 8,0 bilhões 14.281 0,730 (alto) Taubaté (SP) Praia Grande (SP) São Bernardo do Campo (SP) Suzano (SP) Rio de Janeiro (RJ) Bauru (SP) 0,805 (muito alto) 0,765 (alto) 0,799 (alto) 0,801 (muito alto) 0,782 (alto) Fontes: IBGE (2015), ÍNDICE (2013) Na lista observa-se que destes municípios o mais populoso é o do Rio de Janeiro, seguido pelos de Belém, Campinas e Maceió, sendo que os municípios do Rio de Janeiro e Campinas estão no grupo dos melhores enquanto que os de Maceió e Belém nos de piores índices (Figura 4) 31 Figura 4 – relação município com população. O município do Rio de Janeiro não está contabilizado devido a sua grande população (seis milhões de habitantes). População 1600000 1400000 1200000 1000000 800000 600000 400000 200000 0 População . Fonte: IBGE (2015) Uma informação que se destaca é a de que os municípios com melhores índices no que se refere ao problema de internação com diarreias apresentam PIB mais alto (os maiores são do Rio de Janeiro, Campinas, Betim e São Bernardo do Campo) e PIB per capita acima de 9.000 reais, sendo que o menor PIB por capita do grupo é o de Montes Claros com 13.276 reais e o menor PIB é o de Praia Grande com 2,9 bilhões de reais (Figuras 5 e 6). A média do PIB deste grupo é de 37 bilhões de reais de PIB e de 33.633 reais de PIB per capita. As cidades com os piores índices apresentaram valores de PIB e PIB per capita menores, sendo o maior PIB de Belém, com 20,6 bilhões de reais, enquanto Anápolis tem o maior PIB per capita, em torno de 33.480 reais. A média do PIB do grupo é de 8 bilhões de reais (cerca de um quarto do PIB médio do grupo com melhores índices) e o PIB per capita médio é de 14.281 reais (menos da metade do outro grupo). 32 Figura 5 – Relação entre municípios e seus produtos internos brutos, em bilhões de reais. Ano de 2010. Observação: Rio de Janeiro não está contabilizado devido ao alto valor de seu PIB (221 bilhões de reais). PIB (Bilhões de Reais) 40 35 30 25 20 15 10 5 0 Fonte: IBGE, 2015. Figura 6 – Relação entre municípios e seus produtos internos brutos per capita, em reais. Ano de 2010. PIB per capita (Reais) 70000 60000 50000 40000 30000 20000 0 Taubaté (SP) Praia Grande (SP) São Bernardo do Campo… Suzano (SP) Rio de Janeiro (RJ) Bauru (SP) Caxias do Sul (RS) Campinas (SP) Montes Claros (MG) Betim (MG) Maceió (AL) João Pessoa (PB) Santarém (PA) Campina Grande (PB) Vitória da Conquista (BA) Várzea Grande (PI) Belém (PA) Anápolis (GO) Belford Roxo (RJ) Ananindeua (PA) 10000 Fonte: IBGE, 2015. PIB per capita (Reais) 33 Os municípios com melhores índices estão concentrados na região Sul-Sudeste do país (cinco no estado de São Paulo, dois no estado de Minas Gerais, um no Rio de Janeiro e um no Rio Grande do Sul). Os municípios que apresentam piores números no que se refere a internação estão, por sua vez, localizados principalmente na região Norte-Nordeste, sendo que três estão no estado do Pará, dois na Paraíba, uma em cada na Bahia, Rio de janeiro, Goiás, Piauí e Alagoas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um índice desenvolvido para determinar o progresso em três áreas: educação, saúde e renda (PNUD, 2015). Por envolver os parâmetros de renda e saúde que, conforme discutidos antes, estão relacionados com o estudo do saneamento e saúde no presente trabalho, eles foram considerados para comparação entre os municípios. Assim, observou-se que mesmo os municípios que apresentam a posição entre os dez mais baixos no ranking das internações por diarreia na Tabela 7 têm IDHs médios a altos, entre 0,61 e 0,763, porém nenhum é classificado como baixo. A Figura 7 abaixo mostra a relação dos IDHs dos municípios. Figura 7 – Relação dos IDHs com os municípios IDH 0,85 0,8 0,75 0,7 0,65 IDH 0,6 (Fonte: ÍNDICE, 2013). Estas Figuras indicam que os municípios de piores índices apresentam valores de IDH menores, em média (valor médio de 0,73), do que o grupo dos dez melhores (valor médio de 0,78), assim como têm um PIB per capita menor, como mostrado em Figura anterior. Entretanto, observa-se estes municípios não necessariamente são os mais populosos, já que 34 Rio de Janeiro e Campinas estão no grupo dos de melhores índices e estão entre os mais populosos. Portanto, observa-se que pelo IDH e aspectos como PIB e PIB per capita há uma correlação entre o dado de saúde indicado pelas internações por diarreia e PIB/IDH. Agora, tendo em base esta relação, pesquisou-se a existência de uma infraestrutura de saneamento na forma de coleta e tratamento do esgoto. Para isso, comparadas o índice (em porcentagem) da população atendida por coleta de esgoto e a proporção de esgoto que é efetivamente tratada, já que o lançamento de esgoto sem tratamento pode significar impactos negativos ao ambiente, como por exemplo o lançamento de águas contendo ovos de parasitas e microorganismos patogênicos (HELLER E NASCIMENTO, 2005), Conforme mostrado na Tabela 7 a seguir. Tabela 7 - Índice de Coleta de esgoto, Tratamento (esgoto tratado por água consumida) e taxa de internação por diarreia nos municípios estudados (dados de 2010). Município Taubaté Praia Grande São Bernardo do Campo Suzano Rio de Janeiro Campinas Caxias do Sul Bauru Montes Claros Betim Maceió João Pessoa Santarém Campina Grande Belford Roxo Vitória da Conquista Várzea Grande Belém Anápolis Ananindeua Índice de população com coleta de esgoto (%) 94,8 58,4 Proporção de esgoto tratado por água consumida (%) 57,65 42,11 Taxa Internação por diarreia / 100 mil hab. 2,5 5,3 88 16,97 5,5 81,4 70,1 83 77,8 97 95,2 86,9 34,4 45,1 26,5 69,1 39,3 52,1 13,1 7,7 47 51,14 53,23 47,37 10,11 0 78,07 17,03 34,37 45,05 5,7 15,2 16,3 17,4 19,8 23,8 27 230,5 246,4 265,8 341,1 359,9 386,2 439 505,4 520,3 1802,8 69,1 2,21 52,12 13,14 1,83 46,95 Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades 35 Os municípios com menores números de internação por diarreia também são os que apresentam maiores índices de coleta de esgoto (acima de 60% da população atendida). No que se refere ao tratamento do esgoto, há uma aparente semelhança entre os níveis de tratamento entre os dois grupos de municípios, embora o município com maior taxa de tratamento seja o de Montes Claros (MG) com quase 80% do esgoto tratado (Figuras 8 e 9). Entretanto, os dados de internação por diarreia por 100.000 habitantes reflete a diferença entre os grupos, conforme mostrado no Figura 10. Figura 8 – Dados do índice da população atendida por coleta de esgoto (2010). Índice de população com coleta de esgoto (%) 120 100 80 60 40 20 0 Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades Figura 9 – Dados da proporção de esgoto que é tratado por município (2010). Proporção de esgoto tratado por água consumida (%) 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades 36 Figura 10 – número de internações por 100.000 habitantes por município (2010). Taxa Internação por diarreia / 100 mil hab. 2000 1800 1600 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades As Figuras a seguir mostram os dados referentes ao acesso a rede de esgoto e tratamento de esgoto com o número de internações. Observa-se uma clara separação entre as cidades com posições superiores no ranking e que tem maior acesso a rede de esgoto (Figura 11), em que estas apresentam menores taxas de internação. Entretanto, observa-se na Figura 12 a seguir que, embora várias cidades bem posicionadas no ranking tenham baixos números de internações, estas apresentam cidades que tem uma alta taxa de tratamento porém com altas taxas de internação, assim como cidades com baixas taxas de tratamento de esgoto e baixas taxas de internação. Assim, em 2010, cerca de 35% do número de internações nas 100 maiores cidades ocorreram nestes 10 municípios: Ananindeua, Belford Roxo, Anápolis, Belém, Várzea Grande, Vitória da Conquista, Campina Grande, Santarém, João Pessoa e Maceió. Já nas 10 melhores cidades em 2010 foram internadas apenas o equivalente a 2% do total de internações nas 100 cidades. Os melhores foram Taubaté, Praia Grande, São Bernardo do Campo, Suzano, Rio de Janeiro, Bauru, Caxias do Sul, Campinas, Montes Claros, Betim, Caxias do Sul e Rio de Janeiro também têm aparecido constantemente entre os melhores no país. 37 Figura 11- Relação entre índice da população com coleta de esgoto e taxa de internação por diarreia. OBSERVAÇÃO: o município de Ananindeua não aparece pois não há dados. Taxa de internação por diarréia / 100 mil hab. Relação entre índice da população com coleta de esgoto e taxa de internação por diarréia 600 500 400 Melhores municípios 300 Piores municípios 200 100 0 0 20 40 60 80 100 Índice da população com coleta de esgoto (%) Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades Taxa de internação por diarréia / 100 mil hab. Figura 12 - Relação entre índice da proporção de esgoto tratado com água consumida e a e taxa de internação por diarreia. OBSERVAÇÃO: os municípios de Ananindeua e de Santarém não constam por falta de dados. Relação entre índice da proporção de esgoto tratado com água consumida e a e taxa de internação por diarréia 600 500 400 300 Melhores municipios 200 Piores municipios 100 0 0 20 40 60 80 100 Índice da proporção de esgoto tratado com água consumida (%) Fonte: KRONEMBERGER (2013), OLIVEIRA; SCAZUFCA; AROUCA (2014). Adaptado de dados do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre saneamento, Ministério das Cidades 38 Um fato importante é a vulnerabilidade das crianças aos problemas de saneamento básico e saúde deficientes. Em 2010, em 45% dos municípios analisados mais da metade das internações foi representada por crianças, sendo que 138.447 crianças menores de 5 anos foram internadas por diarreia. Estes resultados reforçam que as crianças são a parcela da população mais vulnerável ao saneamento básico inadequado e às diarreias. Significa que as carências de saneamento atingem não somente a população atual, mas deixam sequelas para o futuro. Em 2010, em 60 das 100 cidades analisadas os baixos índices de população com coleta de esgoto foram acompanhados por altas taxas de internação por diarreias, e observa-se essa relação no Figura 8. Nas 10 piores cidades por Taxa de Internação por Diarreia, ocorreu em média, 29% de população atendida por coleta de esgotos. Já a taxa de internação média nestas cidades foi de 516 casos. Ou seja, em 2010 nas 10 piores cidades por Taxa de Internação por Diarreia há 2,7 vezes menos pessoas atendidas com coleta de esgotos e 29 vezes mais casos de internação do que nas 10 melhores cidades (ver Figuras 8 e 10). Esse maior número de internações implica em maiores gastos públicos nos hospitais e postos de saúde. Na Tabela 8 abaixo estão os dados de internação para 2010, em reais, nos municípios estudados. Tabela 8 – Custo de internação no SUS por paciente com diarreia. Município Valor em reais (2010) Taubaté (SP) 1.346 Praia Grande (SP) São Bernardo do Campo (SP) Suzano (SP) Rio de Janeiro (RJ) Bauru (SP) Caxias do Sul (RS) Campinas (SP) Montes Claros (MG) Betim (MG) Maceió (AL) João Pessoa (PB) Santarém (PA) Campina Grande (PB) Vitória da Conquista (BA) Várzea Grande (PI) Belém (PA) 2.802 3.205 6.147 6.477 9.978 7.280 8.096 21.808 21.614 85.899 88.508 91.676 121.708 133.248 155.873 185.796 39 Anápolis (GO) Belford Roxo (RJ) Ananindeua (PA) 193.702 124.676 612.532 FONTE: KRONEMBERGER (2013) Os gastos com internações são muito maiores nas cidades pior posicionadas no ranking. Por exemplo, Maceió apresenta gastos quatro vezes maiores que Betim, no que se refere aos gastos de internação com diarreia. Isso é correlacionado com o maior número de ocorrências, conforme na Figura 13 a seguir. Esta Figura mostra que devido ao maior número de internações, maiores os gastos hospitalares. Figura 13– relação entre a taxa de internação por diarréia e os gastos de internação. Gastos X Internações 600 Taxa de internação / 100.000 hab. 500 400 300 200 100 0 0 50000 100000 150000 200000 250000 Gastos em reais FONTE: KRONEMBERGER 2013. A respeito dos gastos com o SUS, convém falar sobre os gastos com saúde e saneamento nos municípios estudados. A Tabela 9 a seguir mostra os dados dos municípios com seus gastos (em valores absolutos) e gastos per capita (por habitante) em saúde e saneamento. Os dados a seguir foram obtidos pelo site Deepask, que contém dados do DATASUS (http://tabnet.datasus.gov.br/tabdata/sim/dados/cid10_indice.htm) e do IPEA (http://www.ipeadata.gov.br/). 40 Tabela 9 – dados sobre os gastos em saúde e saneamento, em valores absolutos e per capita, para o ano de 2010 (por habitante) Município Taubaté Praia Grande São Bernardo do Campo Suzano Rio de Janeiro Campinas Caxias do Sul Bauru Montes Claros Betim Maceió João Pessoa Santarém Campina Grande Belford Roxo Vitória da Conquista Várzea Grande Belém Anápolis Ananindeua Gastos (em milhões de reais) 103,8 136,1 551,1 88,4 2689,7 669,9 361,1 151,4 194,2 331,1 430,1 394,3 70,4 167,4 109,6 115,8 90,5 551 161 116,8 Gastos (per capita) em reais 372,3 519,5 720 336,7 425,6 620,3 829,1 440,1 536,6 875,7 461,1 545 238,9 434,5 233,5 377,2 358,1 395,3 481,3 247,4 FONTE: DEEPASK (2015) Observa-se que em termos absolutos, os municípios com piores colocação no ranking podem ter investimentos em saúde e saneamento comparáveis aos daqueles que estão mais bem posicionados no ranking, conforme pode ser visto na Figura 14 a seguir. Por exemplo, o município de Belém investe mais do que os municípios mais bem colocados no ranking, exceto Rio de Janeiro, São Bernardo do Campo e Campinas. 41 Figura 14 – Investimentos em saúde e saneamento dos municípios em 2010. Rio de Janeiro não foi incluído devido ao valor alto de seus investimentos (mais de 2 bilhões de reais). 800 700 600 Milhões de reais 500 400 300 200 100 0 Fonte: DEEPASK (2015) Entretanto, ao se comparar os gastos por pessoa, há uma tendência para um maior gasto por pessoa nos municípios mais bem colocados no ranking (Figura 15). Mesmo assim pode-se notar que municípios como Campina Grande, Maceió, João Pessoa e Anápolis tem gastos, por habitante, comparáveis a municípios como Suzano, Taubaté, Rio de Janeiro e Bauru, melhores posicionados no ranking. Esses resultados indicam que o volume de gastos não representa, necessariamente (ou sempre) um indicador de uma condição saudável de saneamento ou de saúde pública. Isso pode representar: -maiores injeções de recursos financeiros em áreas que sofrem com falta de infraestrutura -áreas com infra-estrutura mais bem desenvolvida não necessitam de grandes recursos por já tê-los disponíveis -atendimento urgencial de casos de doenças, relacionado com os maiores números de casos de internação, ou seja, falta de investimento na prevenção das doenças, conforme indicado na Figura 15. -problemas relacionados à má administração dos recursos disponíveis. 42 Figura 15 – Investimento per capita (por habitante) em saúde e saneamento nos municípios em 2010. ). Valores em reais 1000 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0 Fonte: DEEPASK (2015) 3.2 DOENÇAS RELACIONADAS COM O RESÍDUO SÓLIDO Várias doenças podem ser transmitidas quando não há coleta e disposição adequada do resíduo sólido. Por exemplo, tem grande importância na transmissão de doenças através de vetores que nele encontram alimento, abrigo e condições adequadas para proliferação. O resíduo sólido propriamente dito também pode conter substâncias tóxicas ou nocivas à saúde. A queima do resíduo sólido pode produzir gases tóxicos. São muitas as doenças relacionadas ao acúmulo de resíduo sólido e a sua falta de tratamento (Conforme Tabela 4). Uma das doenças transmitidas pelos mosquitos que proliferam no resíduo sólido é a leishmaniose tegumentar americana. Sabe-se que os mosquitos proliferam em ambientes propícios à sua reprodução, que em geral são locais sem higiene, onde o resíduo sólido é descartado de forma errada ou não recolhido. Esses ambientes se concentram principalmente em grandes áreas (lixões) e em área rural, onde a coleta é precária, obrigando o habitante a enterrar ou incinerar o resíduo sólido. A Tabela 10 a seguir mostra os dados sobre a ocorrência de novos casos desta doença no Brasil por região (não foi possível obter dados por município) para o ano de 2005 (BRASIL 2010b) 43 Tabela 10– Número de casos novos de leishmaniose tegumentar americana registrados por região do Brasil para os anos de 2000-2005 Região Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste 2000 11140 13078 2938 853 4605 2001 8117 10849 2133 478 4727 2002 10328 9437 2943 937 4918 2003 13549 7980 3255 930 5000 2004 13095 7818 2529 603 4458 2005 10703 8071 2764 535 4303 Fonte: BRASIL, 2010b Esta tabela mostra que a ocorrência de casos novos desta doença apresenta uma queda desde o ano de 2003, em todas as regiões do Brasil, sendo de forma mais acentuada na região Norte. Entretanto, ocorreu um leve aumento no número de casos no ano de 2005 nas regiões Sudeste e Nordeste (ver Figura 16 a seguir). Figura 16 – Número de casos de leishmaniose tegumentar, entre os anos de 2000 e 2005, para todo o Brasil. 16000 14000 12000 Norte Número de casos 10000 Nordeste 8000 Sudeste 6000 Sul Centro-Oeste 4000 2000 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 Fonte: BRASIL, 2010b. As principais regiões do Brasil com incidência dessa doença são a Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Para mostrar esta distribuição, escolheu-se o ano de 2005 conforme mostrado no Figura 17 a seguir. Estas três regiões, no ano de 2005, representaram cerca de 87% do total de novos casos. 44 Figura 17 – Distribuição dos novos casos de leishmaniose tegumentar no Brasil, para o ano de 2005. Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: BRASIL, 2010b. Esta distribuição pode ser explicada pelas diferenças na disposição final do resíduo sólido nas diferentes regiões do Brasil. A Tabela 11 a seguir mostra, para o ano de 2005, as diferentes formas de disposição final do resíduo sólido, por domicílio, tanto em regiões urbanas quanto rurais (DEEPASK 2013, com dados do Sistema de Informação da Atenção Básica do Sistema Único de Saúde SUS). Tabela 11– formas de deposição do resíduo sólido, por % de domicílios, por região do Brasil, para o ano de 2005 – regiões urbanas e rurais Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Coletado Combustão enterrado 57,7 56,6 86,9 80,6 83,6 27,5 16,4 9,1 16,7 13,2 ou Depositado à céu aberto 14,8 24,9 3,6 2,4 3 FONTE: DEEPASK (2013), com dados do SIAB. A Região Nordeste apresenta o menor percentual de coleta de resíduo sólido, com 56,6 dos domicílios apresentando resíduo sólido coletado, enquanto que o Norte segue com 57,7% e o Centro-Oeste com 83,6 % do resíduo sólido coletado. A região Sul apresenta 80,6% do resíduo sólido coletado e o Sudeste com 86,9%. Ou seja, observa-se que as regiões com menores incidências da doença têm uma taxa maior de coleta de resíduo sólido, com exceção do caso do Centro-Oeste. 45 A queima de resíduo sólido ou seu enterro é uma atividade muito comum para a disposição final do mesmo. Nesse caso, no Brasil, é a forma mais comum de disposição final, em especial nas região Norte, seguido pelas regiões Sul e Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste (Figura 18). Figura 18 – percentual de resíduo sólido enterrado ou queimado nas regiões do Brasil. % de domicilios com combustão de resíduos ou enterrado 30 25 20 15 10 5 0 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: DEEPASK (2013), com dados do SIAB. O lançamento em terreno baldio ou céu aberto é também uma prática comum, conforme pode ser observada na Figura 19 adiante. O lançamento em terreno baldio é mais comum no nordeste (25% do resíduo sólido tem esta destinação), seguido pela região Norte (quase 15% do resíduo sólido produzido nos domicílios). Portanto, a partir dos dados acima, observa-se que as regiões com as maiores taxas de ocorrência da leishmaniose são aquelas que tem, em geral (mas não exclusivamente) : -menores taxas de coleta de resíduo sólido, -maiores taxas de lançamento de resíduo sólido no ambiente (terreno baldio), -e que dão preferencia a queima do resíduo sólido como meio de disposição final. 46 Figura 19- percentual de resíduo sólido lançado em terreno baldio nas regiões do Brasil. % de domicilios com resíduo sólido a céu aberto 30 25 20 15 10 5 0 Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: DEEPASK (2013), com dados do SIAB. A falta de coleta em si já pode causar o acúmulo de resíduo sólido em áreas rurais e urbanas que por sua vez causam a formação de ambientes adequados a proliferação da leishmaniose. Estes resíduos podem, por sua vez, atrair animais como cachorros que servem de hospedeiro ao organismo causador da leishmaniose. Por isso é que são necessárias campanhas de vacinação dos animais contra esse problema (SANABRI, 2014). Neste caso, na região norte a coleta ocorre em apenas 0,3% do resíduo sólido produzido, o que implica na possibilidade de um grande acúmulo deste resíduo sólido. Deve-se notar ainda que a região norte, pela sua extensão, clima quente e chuvoso e infraestrutura precária de transporte, dificulta o trabalho de coleta de resíduo sólido nas regiões rurais. O lançamento de resíduo sólido em terreno baldio, fato muito comum na Região Norte e Nordeste acarreta os mesmos problemas da ausência de coleta de resíduo sólido, com o agravante de criar áreas propícias para a proliferação de doenças em áreas urbanas com alta densidade populacional, em especial em áreas mais pobres, com menor acesso a coleta de resíduo sólido, tratamento de doenças e qualquer infraestrutura de saneamento básico. 47 É importante ressaltar que neste caso, há a obrigação do dono do terreno de limpá-lo e isolá-lo para evitar multas e outras ações do poder público, pois o dono é considerado responsável por qualquer problema derivado do resíduo sólido ou entulho acumulado (TERRENO.... 2015). Há ainda o lançamento de resíduo sólido nas águas (rios, lagos e mares), que é mais comum na Região Norte, sendo que no ano de 2009 cerca de 1,8% do resíduo sólido produzido nas áreas rurais é lançado na extensa rede de rios da região (IBGE, 2012). Nas demais regiões do Brasil esse tipo de lançamento de resíduo sólido não passa de 0,2% do resíduo sólido produzido. Embora esse descarte seja realizado para uma proporção menor do resíduo sólido produzido no Brasil, representa também um grande problema. O descarte do resíduo sólido nas águas evita o acúmulo do resíduo sólido em terra, por sua vez causa riscos de poluição da água com os produtos químicos ou organismos patógenos que existam no resíduo sólido, ou então pode ocorrer a contaminação dos peixes e outros organismos que sejam fonte de alimento a população. O resíduo sólido lançado nas águas pode parar novamente em terra, empurrado pelas correntes, marés ou inundações, causando os mesmos problemas do resíduo sólido acumulado em terra, o que inclui a incidência de doenças como a leishmaniose. Além disso o resíduo sólido acumulado em rios pode promover problemas como entupimento de tubulações, canais e outros (RONDONIAGORA 2015). Embora a queima do resíduo sólido seja um método bastante comum de disposição final, esse processo pode trazer inconvenientes se não for bem feito, em especial com a liberação de gases tóxicos produzidos pela queima de plásticos e outros produtos sintéticos, e pela disposição de qualquer resíduo da queima (JUSTIÇA..., 2014). Portanto, a ausência ou deficiência no sistema de coleta de resíduo sólido, um elemento importante na infraestrutura do saneamento básico (RIBEIRO E ROOKE, 2010) reflete-se na ocorrência de doenças associadas a esta deficiência, no caso a leishmaniose. 48 CONCLUSÃO Tanto na prevenção de doenças, quanto na preservação do meio ambiente, é inegável a importância dos serviços de saneamento básico. Embora o contexto ambiental seja considerado nas ações de saneamento, de acordo com a legislação, é preciso criar condições para que os serviços de saneamento sejam implantados e acessíveis a todos: a universalização dos serviços, princípio maior do marco regulatório do saneamento básico no Brasil, a Lei 11.445/2007 (BRASIL, 2007). A falta de saneamento básico no Brasil expõe a população a vários riscos à saúde humana. Doenças relacionadas a sistemas de água e esgoto inadequados e as deficiências com a higiene ainda causam a internação ou a morte de pessoas todos os anos, especialmente nos países de baixa renda. No presente estudo foi considerado os exemplos dos dez municípios mais bem situados no que se refere ao saneamento e saúde no Brasil (KRONEMBERGER, 2013), e comparados com os dez piores colocados neste ranking. Os municípios mais bem colocados são em sua maioria das regiões Sul e Sudeste, a saber: Taubaté, Praia Grande, São Bernardo do Campo, Campinas, Bauru e Suzano (estado de São Paulo); Rio de Janeiro (estado do Rio de Janeiro); Caxias do Sul (estado do Rio Grande do Sul); Montes Claros (estado de Minas Gerais). Os municípios menos bem posicionados são predominantemente das regiões Norte e Nordeste, a saber: Maceió (estado de Alagoas); Vitória da Conquista (estado da Bahia); João Pessoa e Campina Grande (estado da Paraíba); Santarém, Belém e Ananindeua (estado do Pará); Belford Roxo (estado do Rio de Janeiro); Anápolis (estado de Goiás); Várzea Grande (estado do Mato Grosso). Neste particular, a maior concentração de municípios nas regiões Norte e Nordeste mostra as consequências das desigualdades regionais no Brasil, em que o Sul e Sudeste, com maiores rendas, contam com melhores indicadores do que no resto do país. Observou-se que os municípios mais bem posicionados no ranking: - apresentam um índice de desenvolvimento humano (IDH) maiores, refletindo assim a relação do fator saúde no desenvolvimento social dos mesmos, -apresentam menores taxas de internação por diarreias, ao mesmo tempo que tem maiores taxas de acesso a água tratada e coleta / tratamento de esgotos 49 Em contraste, os municípios pior posicionados tem maiores taxas de internação e menores taxas de disponibilidade de saneamento aos seus habitantes. Esse aumento é de 30 vezes o número de internações, com o número de pessoas atendidas por redes de esgoto correspondendo a um terço daquelas que são atendidas nos municípios com melhores indicadores. Outro ponto importante é a vulnerabilidade das crianças aos problemas causados pela insuficiência de um sistema de saneamento adequado No que se refere aos resíduos sólidos (resíduo sólido) observou-se que as regiões com menores índices de coleta de resíduo sólido domiciliar (Norte e Nordeste) apresentavam maiores taxas de ocorrência de leishmaniose. Portanto, a presença de infraestrutura de saneamento na forma de redes de coleta e tratamento de esgotos, assim como sistemas de coleta e correta disposição final de resíduo sólido, impactam positivamente na saúde das populações. Entretanto, foi notado que no que se refere a gastos, tanto em termos absolutos, como em termos relativos (gasto dividido por número de habitantes, ou per capita), embora os municípios mais bem posicionados tenham gastos maiores, foi observado que os municípios com piores posições no ranking também apresentam gastos comparáveis aos municípios mais bem posicionados. Em outras palavras, o simples gasto financeiro com saúde e saneamento não se traduz necessariamente em melhores condições de saúde pública. Por exemplo, os municípios que tem mais problemas de saneamento apresentam mais internações, que por sua vez representam maiores gastos com os atendimentos nos hospitais, que são computados como gastos com a saúde. Isso significa que há também outros fatores envolvidos na melhoria da saúde pública, como por exemplo: -melhor administração dos recursos, pois podem ocorrer problemas na destinação final dos mesmos; -educação na área da higiene, como meio de prevenção que começa com o cidadão; -mais empenho com prevenção de doenças, não apenas no saneamento, mas também no comportamento dos indivíduos (como melhor meio de acondicionar resíduo sólido, procurar tratamento, educar os demais membros da família, escola, etc.). 50 REFERÊNCIAS APETRES. Associação Paulista das Empresas de Tratamento e Destinação de Resíduos Urbanos. Disposição inadequada do resíduo sólido causa problemas sanitários e ambientais. 2014. Disponível em: <http://www.apetres.org.br/residuos_problemasanitario. htm>. Acesso em: 10 ago. 2014. BARROSO, L. R.. Saneamento básico: competências constitucionais da União, Estados e Municípios. Revista eletrônica de direito administrativo econômico. Número 11, 2007. Salvador, Bahia. Disponível em: < http://www.direitodoestado.com/revista/REDAE-11AGOSTO-2007-LUIS%20ROBERTO%20BARROSO.pdf > . Acessado em março de 2015. BENÍCIO, M. H. D.; MONTEIRO, C. A.. Tendência secular da doença diarreica na infância na cidade de São Paulo (1984-1996). Revista de Saúde Pública. Número 34 (6 supl), 83-90. São Paulo, FSP/USP, 2000. Disponível em < http://www.revistas.usp.br/rsp/article/viewFile/25078/26905 > Acessado em março de 2015. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia de Assuntos Jurídicos. Lei número 6938, 31 de agosto de 1981. 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The present work seeks in showing this relationship in Brazilian examples, studied thanks to information from government institutions like IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) and the Ministery of Public Health (Ministério da Saúde). It was studied twenty counties, divided in two groups of ten, one with better indicators and the other with worse indicators. The group with higher rates of hospitalization due to diarrhea presents lower rates of population access to sanitary infrastructure (water purification, sewage plumbing). The differences with spending on public health between the two groups is not much different, but this spending, on the case of the counties with higher rates of hospitalization, can be associated to the expenses on the hospital and medical care and not on infrastructure and on preventing diseases. Another health indicator is in the occurrence of diseases related to solid residues (leishmaniasis), and ion this case were studied the country by region, where the regions with higher rates of occurrence of this disease are the Northern Northeastern and Center-West, where there is a lower rate of access to correct final disposal of the solid residues. Henceforth the lack of access to purified drinking water, adequate sewage systems and solid residues adequate final destination reflects upon the public health quality in Brazil, but must be noted that other parameters, like the rates of public health spending or the human development index (HDI) may not always fully or correctly show this relationship. Keywords: Sanitation. Public Health. Sewage. Solid residues. Public spending.