O CICLO DE CONSTRUÇÃO DO ETHOS EM TRÊS
FASES – A IMAGEM DE DILMA ROUSSEFF
MAYARA SUELLEN DE SOUSA
Centro Universitário de Itajubá – FEPI
Av. Dr. Antônio Braga Filho, 687 – 37501-002 – Itajubá – MG – Brasil
[email protected]
Resumo. Como se dá, a construção da imagem da mulher na política para
que ela alcance o sucesso? Como as mulheres precisam atuar e se
comportar para quebrar o preconceito ligado à imagem delas? Este
trabalho analisa um trecho do pronunciamento da candidata à presidência,
Dilma Rousseff. Refletindo sobre a construção da imagem da presidente sob
três teorias que se assemelham ao discutir as fases da construção do ethos.
Palavras-chave. Ethos. Dilma. Rousseff. Política.
Abstract. How is the construction of the image of women in politics to make it
achieve success? Because women need to act and behave to break the prejudice
attached to the image of them? This paper analyzes an excerpt from the speech
of (then) presidential candidate, Dilma Rousseff. Reflecting on the construction
of the image of the president under three theories that resemble discuss the
construction phases of the ethos.
Keywords. Ethos. Dilma. Rousseff. Politics.
1. Introdução
Hoje, podemos conceber a noção de Ethos de forma mais ampla do que a
apresentada por Aristóteles em sua Retórica. Com o desenvolvimento de estudos das ciências
da linguagem e o interesse pelo funcionamento dos mecanismos da interação verbal, a noção
de ethos, então, tornou-se importante, pois aborda a relação entre os sujeitos e o mecanismo
das diferentes modalidades discursivas.
Podemos resumir, então, que na Análise do Discurso a nomenclatura ethos trata de
expressões orais ou escritas, nas quais os enunciadores oferecem uma imagem de si através
do discurso. O discurso é o meio utilizado pelos enunciadores para a criação de suas imagens,
por isso o discurso carregas as marcas daqueles que interagem no processo discursivo,
enunciador e co-enunciador. E é essa construção da imagem de si no discurso que se
convencionou chamar de ethos.
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2. Teorias de construção do Ethos
Segundo Maingueneau (2006, p. 53), o ethos serviria para construir uma imagem de
si que fosse capaz de convencer o auditório, esse ethos se daria a partir da construção do
discurso pelo enunciador. A avaliação do ethos levaria em conta então, tom de voz,
modulação da fala, escolha das palavras e dos argumentos, gestos, mímicas, olhar, postura,
adornos, imagens psicológicas e sociológicas comunicadas pelo enunciador, para causar ao
auditório a imagem do orador em questão. Deste modo, o destinatário constrói de forma
eficaz a representação do locutor por meio de sua própria fala, não sendo esse um processo
estático.
Por isso, para Maingueneau (2005) o ethos está ligado fortemente ao ato da
enunciação, e não se pode negar a construção do ethos não só por aquele que enuncia como
também pelo público, que pode construir representações sobre o enunciador antes mesmo
que o discurso comece.
A interação de diversos fatores, no discurso, resulta no ethos. Então para
Maingueneau (2005. P.18):
O ethos de um discurso resulta da interação de diversos fatores: ethos prédiscursivo, ethos discursivo (ethos mostrado), mas também os fragmentos do texto
nos quais o enunciador evoca sua própria enunciação (ethos dito) – diretamente (“é
um amigo que lhes fala”) ou indiretamente, por meio de metáforas ou de alusões a
outras cenas de fala, por exemplo.
Assim, para distinguirmos o ethos prévio do ethos discursivo, definiremos o primeiro
como uma imagem já existente ou já definida anteriormente e que “condiciona a construção
do ethos discursivo e demanda a reelaboração dos estereótipos desfavoráveis que podem
diminuir a eficácia do argumento.” (AMOSSY, 2005, p.148). O ethos discursivo pode
“afirmar-se ou infirmar-se”, segundo Maingueneau (Apud AMOSSY, 2005, p.71), e levar
probabilidades até mesmo por meio do gênero do discurso, pois o coenunciador pode
provocar uma imagem prévia do enunciador, no caso do discurso analisado, só pelo fato de
saber que se trata de um gênero político.
Para Charaudeau (2006, p. 114) o ethos “é um dado preexistente ao discurso” e “o
orador deve mostrar ao auditório independente de sua sinceridade a fim de causar boa
impressão”. Porém Charaudeau afirma haver analistas do discurso que crêem em uma
concepção discursiva que inscreve o ethos no ato de enunciação, isto é, no próprio dizer do
sujeito que fala. Deste modo, o ethos passar a existir no ato de linguagem. Assim sendo,
ethos é o conjunto de voz, caráter, representação que o sujeito faz sobre si e sobre o outro.
Charaudeau, para explicar seu parecer sobre o ethos construído e pré-construído, nos
propõe dois questionamentos a respeito da construção do ethos:
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(i) Enquanto construção de si, o ethos liga-se à pessoa real que fala (o Locutor) ou à
pessoa como ser que fala (o enunciador)? (ii) A questão da imagem de si concerne
apenas ao indivíduo ou pode dizer respeito a um grupo de indivíduos?
(CHARAUDEAU. 2006. p.114)
Como resposta para o questionamento Charaudeau afirma que há duas posições,
existentes desde a antiguidade. Para os retóricos da idade clássica o “Ethos é um „dado
preexistente ao discurso‟” (CHARAUDEAU. 2006. p.114), pois se consideraria as
qualidades preexistentes do locutor. “Para eles, parece mais virtuoso, sincero e amável
quando se é, de fato, virtuoso, sincero e amável” (Charaudeau. 2006. p.114).
O ethos pré-construído (ou pré-discursivo) seria composto pelo status social do
locutor e a legitimidade que ele detém isso permitiria ao auditório construir uma imagem
antes mesmo que se inicie o discurso. Por outro lado o locutor pode transformar essa imagem
a partir de reconfigurações, já que é uma estratégia confirmar esse ethos pré-discursivo ou
modificá-lo, segundo as intenções do próprio orador – esse seria o ethos construído.
Já Dascal (2005) nos apresenta a teoria da tematização e projeção dos ethé, segundo
a qual a construção das imagens de si no discurso se realiza em dois níveis: em um primeiro
nível, mais superficial, em que surge o ethos tematizado e, em um nível mais profundo, o
ethos projetado. Essas considerações sugerem o jogo do explícito/implícito.
Ethos tematizado é aquele em que o enunciador demonstra de modo explícito o
caráter, que passa a constituir o conteúdo declarado das hipóteses compreendidas em um
argumento. E continua Dascal (2005, p.61) a respeito desse tipo de ethos “... sua eficácia
reside em sua capacidade de ser (...) consciente e inteligentemente „admitida‟ pelo auditório já
que está expresso como é o caso das proposições que são explicitamente submetidas a sua
atenção”. Assim, o caráter, quando tematizado, apresenta ao auditório uma maior
probabilidade de seu questionamento e avaliação.
Já o segundo tipo de ethos apontado por Dascal refere-se ao caráter projetado pelo
comportamento discursivo do enunciador sobre a legitimidade de seus argumentos. Seu
poder sobre o auditório demonstra-se de modo indireto e de forma mais sutil, fazendo esse
caráter projetado passar-se por natural e, consecutivamente, tornar-se mais resistente a
julgamentos. O auditório processaria a apreensão desse caráter por meio de deduções a partir
de observações feitas sobre o comportamento, discursivo ou não, do locutor. A eficácia
argumentativa dessa projeção não se submete aos critérios normais de avaliação, sua eficácia
está na sua capacidade de ser “absorvida” e não “admitida” pelo auditório.
Em resumo, o ethos tematizado forma-se no plano dos enunciados, enquanto o ethos
projetado constitui-se, taticamente, após o credenciamento da imagem institucional
constatada no plano tematizado. Esse ethos projetado precisa estar apto a produzir, de forma
inferencial, um efeito perlocucionário no espírito do auditório, diferente daquele produzido
por aquela primeira imagem.
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3. Análise do Corpus
Sabemos que o sujeito político precisa trabalhar a imagem que constrói de si e deve
ter ciência de sua apreensão não só no momento na enunciação, mas também na interseção
daquilo que já foi dito e crido como verdadeiro pelo público, na imagem pré-construída do
discurso.
Tendo conhecimento de que o ethos prévio e o pré-discursivo ocorrem a partir da
imagem que o interlocutor ou auditório tem em mente antes da enunciação do discurso pelo
locutor, podemos considerar a imagem de Dilma, antes do discurso como
Nascida em 14 de dezembro de 1947, Dilma Rousseff, dedicou-se à luta armada no
Brasil Ditatorial e foi presa de 1070 a 1973. Em 1979 filia-se ao PDT e ocupou
diversos cargos políticos. Em 2001, filia-se ao PT e coordena a equipe de infraestrutura do governo de transição entre Fernando Henrique e Lula. Ministra de
Minas e energia entre 2003 e junho de 2005 e ministra-chefe da casa civil em
2005. (POZZEBOM, s/d)
Por meio dessa resumida biografia de Dilma Rousseff podemos considerar algumas
imagens concebidas pelo imaginário popular anteriormente ao discurso, tais como: O ethos da
mulher, por muito tempo, esteve ligado ao estereótipo de sexo frágil. No entanto ao mesmo
tempo vemos ser construído o ethos de competência, pois observamos que o discurso não
tece citações sobre a vida particular de Dilma, somente fazer referência a sua militância
durante a ditadura e dá ênfase para os diversos cargos públicos já exercidos por ela.
Esse ethos de competência pode ser apontado no trecho do discurso onde Dilma
refere-se ao poder feminino: “Sim, a mulher pode” (Rousseff, 2010). Consideramos, então,
que o público, ao ouvir ou ler essa frase, possa fazer uma ligação entre o que já conhece
sobre a mulher e política Dilma Rousseff (ethos de competência) e o que a própria enuncia
em seu pronunciamento. No trecho o uso do verbo “poder” faz referência ao que o
interlocutor já conhece dela, retomando assim o ethos de competência previamente
construído.
No trecho escolhido para a análise podemos observar a tentativa de reforçar o ethos
de competência, já pré-concebido na que consideramos como a primeira fase de construção
do ethos. Essa tentativa se dá pelo fato de durante o discurso o locutor poder reformular seu
discurso, utilizando estratégias que dêem ênfase à imagem que ele pretende construir em seu
público em detrimento do ethos que se pode ter e intenção de modificar. Isso se dá, segundo
Maingueneau (2005) porque o locutor tem a intenção de reelaborar os estereótipos
desfavoráveis que podem diminuir a eficácia dos argumentos utilizados. No pronunciamento
notamos a tentativa de reformulação de uma dualidade gerada na primeira fase do discurso, a
imagem de Dilma como mulher, e por isso como ser frágil, em contraposição com o ethos
que a locutora pretende afirmar, que é o ethos de competência.
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Notamos que a locutor utiliza vocábulos que retomam o ethos de mulher já
conhecido pelo interlocutor, como: mães, meninas, a mulher e uma mulher. Observa-se que o
locutor recorda o ethos da mulher, mas utiliza estratégias para no mesmo enunciado
reelaborar esse mesmo ethos para desvincular o ethos de mulher da imagem de ser frágil. Para
tal feito o interlocutor utiliza um argumento pragmático (PERELMAN, OLBRECHTSTYTECA, 1996) que associa o ethos de mulher ao ethos de competência: “a presença de
uma mulher na Presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão
democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania” (ROUSSEFF, 2010).
Como vimos o ethos projetado irá se construir após o credenciamento do ethos no
plano tematizado, o que abordamos nessa análise como segunda fase de construção do ethos,
e esse ethos precisa produzir um efeito perlocucionário no auditório, de modo diferente
daquele produzido por aquela primeira imagem. Fazendo assim uma construção verdadeira
do ethos, que pôde cumprir o papel de se projetar no interlocutor persuadindo-o.
Consideramos, então, o ethos projetado como fase final na construção do ethos, pois
essa construção será útil na geração de um ethos que cumpre as intenções do locutor e que
pode se tornar um “novo” ethos prévio, que produza a imagem desejada pelo locutor.
Considerações finais
Consideramos a construção dessas três fases como um ciclo onde acontece a
melhoria da imagem que o interlocutor deseja transmitir, fazendo, assim, com que consiga
persuadir um maior público.
No contexto do corpus analisado essa transformação do ethos fez-se necessária para
que se esquivasse do estereótipo da imagem de mulher frágil, sem deixar de lado o ethos da
mulher, mas o relacionando ao ethos de competência. Pois como mulher inserida na política
cabe a ela, como locutora do discurso, ir além da imagem pré-concebida de seu auditório pela
sua condição de mulher. As mulheres na política conscientes desse fato tentam construir para
si imagens vinculadas ao universo masculino (ethos de competência, de força), pois sabem
que essa é a referência esperada pelo seu auditório. Por isso a necessidade de fazer com que
os olhares do orador e do seu público se cruzem, que um se reflita no outro para que o ethos
construído tenha o efeito desejado. O ethos político deve, deste modo, estar projetado nos
imaginários populares mais amplamente partilhados, uma vez que deve atingir o maior
número, em nome de uma espécie de contrato de reconhecimento subentendido.
Assim, pode-se confirmar que o ethos inserido no ciclo que propusemos pode ser
construído e projetado de modo a atingir a expectativa do locutor, pois o ethos construído na
política deve buscar uma identificação com as crenças do público a fim de conquistar o maior
número possível de indivíduos. Somente assim, o sujeito político (no caso a mulher) será
digno de credibilidade e legitimado pela população.
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Referências Bibliográficas
AMOSSY, R (org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo:
Contexto, 2005.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso Político. São Paulo: Contexto, 2006a. (Tradução
Fabiana Komesu e Dilson Ferreira da Cruz).
DASCAL, M. O ethos na argumentação: uma abordagem pragma-retórica. In:
AMOSSY, R (org.) Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo:
Contexto, 2005. p. 57-68.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. Tradução de
Cecília P. de Souza e Silva e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2001.
____________, Dominique. Gênese dos discursos. Tradução de Sírio Possenti.
Curitiba:
Criar Edições, 2005a.
_______________, Dominique. Ethos, cenografia e incorporação. In: AMOSSY,
Ruth. Imagens de si no discurso: a construção do ethos. São Paulo: Contexto, 2005b.
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____________, Dominique. Discurso Literário. Tradução de Adail Sobral. São
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POZZEBOM, F.R. Dilma Rousseff Bibliografia.. UOL Educação. São Paulo. Disponível
em: http://educacao.uol.com.br/biografias/dilma-rousseff.jhtm. Acesso em 03 de
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ROUSSEF, D. In: Pronunciamento da presidente eleita Dilma Rousseff. (31 de outubro
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2010)
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/especiais/eleicoes
2010/noticia/2010/10/leia-integra-do-pronunciamento-da-presidente-eleita-dilma rousseff
.html. Acesso em: 03 de Novembro 2010.
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