Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 Preparação de dados e qualificação de medidas para a busca de resultados mais confiáveis no emprego da Análise Fatorial e Regressão Múltipla Sólon Bevilacqua, Especialista em Engenharia de Produção [email protected] UFRGS Resumo Observa-se no Brasil um crescimento no emprego de métodos quantitativos nos âmbitos acadêmico e empresarial, principalmente em virtude da popularização das técnicas de análise multivariada e da oferta de softwares especializados. Ocorre que se registra com igual intensidade, erros de emprego dessas técnicas, sobretudo Análise Fatorial e Regressão Múltipla, as mais populares, quando o pesquisador abandona a preocupação pela precisão e confiabilidade das medidas, bem como pela preparação dos dados, e busca um mero exercício de emprego da técnica estatística. A problemática desse estudo é caracterizada na abordagem do roteiro de qualificação das medidas e preparação dos dados, apresentando a interação entre ambas, amparadas na bibliografia de Aaker (2001) e Malhotra (2001), tendo como metodologia de pesquisa, a aplicação direta de questionário junto a 314 respondentes e posterior análise quantitativa dos dados. Visando minimizar estes problemas detectados, o estudo irá confrontar os resultados encontrados com o emprego das duas técnicas, demonstrando a importância do cumprimento do roteiro que se inicia na preparação dos dados e culmina com a escolha acertada da técnica de análise. Palavras-Chave: Preparação, Análise Fatorial, Regressão Múltipla. Title: Data preparation and qualification of measures in search of more reliable results in use of Factorial Analysis and Multiple Regression. Abstract: In Brazil, a growth in the use of quantitative methods has been noticed in academic and business scopes, mainly due to the popularisation of the multivariable analysis techniques and the specialized softwares supply. A number of mistakes of these techniques, specially Factorial Analysis and Multiple Regression, have been registered with similar intensity, when the researcher abandons the preoccupation with accuracy and reliability of measures, as well as data preparations, and aims a mere practise of a statistics technique. This study is characterized © Copyright 2004 1 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 in the approach of the qualification measures script and data preparation, presenting an interaction between them, based on Aaker (2001) and Malhotra’s (2001) bibliography, using as searching methodology, the direct application of questionnaries to 314 repliers and subsequent data quantitative analysis. The aim of these paper is to minimize these detected problems, also the study may compare the results from the use of both techniques, demonstrating the importance of carrying out the script, which starts in the data preparation and ends with the right choice of the analysis technique. Key-Words: Preparation, Factorial Analysis, Multiple Regression Introdução O interesse pelo emprego de métodos estatísticos, amparados por recursos computacionais, tem crescido a taxas sem precedentes, conforme se comprova pelas recentes publicações brasileiras dos artigos que adotam Análise Fatorial e Regressão Múltipla como principal ferramenta de análise de dados - Balassiano, Benitez (2000), Biolchi (2003), Bloch (1998), Böhm (2003), Gonzáles e Formoso (1995), Leite e Bailarine (1988), Lombardi e Moori (1993), Maribondo (2001), Oliveira e Tamayo (200X), Osmar, Guimarães e Ferreira (2003), Pamplona (1994), Perin, Fonseca e Dallaroza (1997), Piccirillo (2003), Pontes (2003), Pontes (2003). Porcaro (1994), Ramos (1995), Rocha (1993), Rocha (2003) Rodrigues (2002), Rolin e Santos (2002), Rondon e Andrade (2004), Silveira (1994), Souza (2002), Tonelas e Rodrigues (2003), Vasconcelos (1996) e Vidal e Takaoka (1996) Conforme comenta Silva (2004), o charme dos testes empíricos e a disponibilidade de ferramental estatístico sofisticado é combinação irresistível, que atrai os pesquisadores e é incentivada pelo meio editorial. Fica evidenciado, portanto uma lacuna que questiona se os critérios consagrados de emprego dessas técnicas estão sendo preservados. Se um pesquisador apenas exercita o emprego de uma técnica e abandona o fundamento do problema e alcance de objetivos, esse exemplo não possui contribuição para a ciência, e muitas vezes serve de contribuição negativa, quando ocorre violação da técnica e conseqüente interpretação errônea dos resultados. Aaker (2001) e Malhotra (2001), propõem a adoção de quatro fundamentais passos para a qualidade das medidas de um estudo de mercado, sendo que na maioria das publicações anteriormente citadas, não houve esse tipo de preocupação. Esse descuido recebe agravamento quando outro erro é somado, acarretado pela escolha equivocada da técnica e violação dos princípios estatísticos, parafraseando Silva (2004), “pura pirotecnia estatística”. © Copyright 2004 2 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 O tema tem sido discutido, inclusive com proposições brasileiras, conforme fica evidenciado nas publicações de Rossi e Slongo (1997), quando propõe um método brasileiro para a pesquisa de satisfação e Cunha, Borges e Fachel (1998), quando propõe uma medida para mensuração da satisfação, adotando indicadores oriundos da Análise de Fatores. O objetivo desse artigo é abordar as regras elementares para (1) preparação dos dados e (2) qualificação das medidas para o emprego das duas técnicas estatísticas mais utilizadas atualmente para tratamento de variáveis métricas, para isso será utilizado um exemplo real de pesquisa, quando se avaliou a importância de critérios para uma escola de ensino médio. Após discussão de elementos teóricos a respeito do emprego da técnica de Regressão Múltipla, associada com a Análise Fatorial, o estudo de caso é apresentado para demonstração prática dos resultados (e abordagem para contornar os erros comumente praticados). Na seqüência, o roteiro de qualificação das medidas proposto por Aaker (2002) e Malhotra (2001) é apresentado - (1) avaliação dos impactos dos missing values e decisões derivadas, (2) identificação de outliers e a (3) verificação das premissas estatísticas. Fundamentação Teórica A opção por uma técnica multivariada, obedece à premissa de dependência ou interdependência que há entre as variáveis e da escala das mesmas, conforme Dillon & Goldstein (1984), portanto para relações de dependência, tendo uma variável critério, com escala métrica, utiliza-se a Regressão Múltipla e para relações de interdependência, com escala métrica, utilizase Análise Fatorial (o conceito de variáveis dummy’s, será discutido a seguir). Ocorre que freqüentemente a violação dessas suposições tem ocorrido, quando se adota em uma técnica robusta, como por exemplo, Análise Fatorial, que exige variáveis intervalar ou razão, e se emprega as ordinais, conforme Churchill (1987). Essa prática ocorre na Regressão Múltipla, com a transformação de variáveis nominais ou categóricas, que são transformadas para variáveis prognosticadoras independentes, codificadas como variáveis dummy’s, conforme Malhotra (2001, p. 473). Tuli & Hawkins (1990 apud LATIF, 1994), defende em publicações uma escala de diferencial semântico de 7 pontos para estudos de preferência, fornecendo portanto mais um exemplo de violação de conceito para esquemas robustos, tais com os já citados. © Copyright 2004 3 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 Ainda sobre essa questão, Churchill (1987 apud LATIF, 1994), reforça o esquema conceitual com a seguinte declaração: “O coeficiente de correlação do momento produto, por exemplo, tem-se mostrado ser completamente robusto as violações da suposição de variáveis contínuas nas quais estão baseadas. Então, ele pode ser usado para acessar o grau de associação entre duas variáveis quando os dados têm escala intervalar, ordinal, mesmo quando uma ou ambas as variáveis são dicotômicas”. O emprego de ambas as técnicas, tem ocorrido com muita freqüência pelos acadêmicos de Marketing e profissionais do segmento, com registros de proposições de indicadores e criações de esquemas práticos para a mensuração de satisfação de clientes. Rossi e Slongo (1997) apresentam um esquema conceitual brasileiro para a pesquisa de satisfação: “Para analisar e interpretar os resultados desta fase quantitativa das pesquisas de satisfação de clientes que realizamos temos utilizado, além da análise descritiva, baseada em valores absolutos e percentuais, procedimentos estatísticos baseados, principalmente, em análise fatorial e regressão múltipla. A primeira com vistas a agrupar indicadores de satisfação estatisticamente correlacionados e a segunda com vistas a avaliar a capacidade de explicação de cada indicador de satisfação sobre a avaliação de satisfação geral com a empresa” (ROSSI e SLONGO, 1997; p.13). Posteriormente, Perin, Fonseca e Dallaroza (1997) apresentam uma solução prática para o problema da mensuração de satisfação de clientes baseadas nas Análises Fatorial e de Regressão Múltipla, quando se referem à criação de variáveis de fechamento de bloco (satisfação intermediária) e de uma variável de satisfação geral. Em continuidade a esse debate acerca do emprego das duas técnicas para satisfação de clientes, Cunha, Borges e Fachel (1997), propõe um esquema de mensuração da satisfação através da técnica de análise fatorial, indicada para a análise variáveis não observáveis, denominado esquema CBF. Ainda sobre o emprego das técnicas de Regressão Múltipla e Análise Fatorial, se faz necessário discutir a importância de se confrontar os resultados obtidos com ambos os recursos. Abordando por exemplo a questão de satisfação, que seria um tema exaustivamente explorado em publicações acadêmicas, Dillon, White, Filak e Rao (1997 apud CUNHA, BORGES E FACHEL 1997) comentam sobre a dificuldade de explorar esse tema através de questionários comuns. “... por mensuração entendemos a habilidade de investigar a fidedignidade e a validade de escalas usadas para medir constructos que são difíceis, e freqüentemente impossíveis, de serem diretamente medidos, como é o caso da © Copyright 2004 4 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 satisfação” e que “O constructo satisfação, é complexo e multifacetado refletindo não somente atributos de produtos e de serviços, mas também relacionando preço/valor e imagens mentais”. A associação de emprego entre as duas técnicas fica evidenciada quando Marr e Crosby (1993 apud CUNHA, BORGES E FACHEL 1997), sugerem a análise de “top two box” e análise de regressão, quando adota-se uma variável escalar de 5 postos, o percentual de cliente satisfeitos seria o somatório das freqüências dos itens 4 e 5 da escala. Metodologia da Pesquisa A pesquisa aplicada obedeceu ao critério consagrado por autores como Morgan (1988), Greenbaum (1993), Krueger (1994) e Kesller (1996), que defendem a identificação das variáveis chaves (e construção de um questionário estruturado) a partir de um estudo exploratório e sua metodologia detalhada encontra-se amplamente descrita em Bevilacqua (2004, p. 12). O foco do presente estudo é a preparação dos dados e qualificação das medidas, bem como o confronto dos resultados obtidos entre as duas técnicas, para maiores detalhes acerca da metodologia adotada, sugere-se a consulta ao artigo com os dados primários. Adotou-se a escala Likert, variando de 0 a 10 (com os extremos sendo representados por “totalmente insatisfeito” e “totalmente satisfeito”), em virtude da familiaridade com o método de avaliação proposto aos alunos no decorrer do ensino médio e fundamental. Adicionalmente, foram incluídas ao final do questionário 4 variáveis de fechamento de bloco e uma de satisfação geral, com o objetivo de comparar as duas técnicas abordadas nesse estudo. O primeiro passo para o emprego das técnicas em questão, foi à identificação dos missing values, função que os softwares SPSS® e Systat® desempenham automaticamente quando se emprega uma técnica multivariada. A retirada dos outliers é uma operação criteriosa e que caracteriza o segundo passo desse tópico. Igualmente os principais softwares estatísticos auxiliam automaticamente nessa função, no entanto nessa etapa o procedimento é mais interativo, podendo ser realizado junto com a interpretação da carta de dados. O cálculo complementar para a identificação da qualidade da medida (fidedignidade), é o Alpha de Crombach, que aplicado no caso presente, resultou em medidas razoáveis, nesse caso a medida foi aplicada para cada uma das 21 variáveis prognosticadoras, (quando se trata de Análise Fatorial, o correto é aplicar para cada bloco de variáveis reduzidas). © Copyright 2004 5 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 10 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Validação Cruzada Malhotra (2001, p. 472), define essa abordagem como: “Avaliação desse modelo para problemas relacionados à Regressão, portanto Validação Cruzada determina se o modelo de regressão permanece válido para dados comparáveis não utilizados na estimação... é o seguinte: (1) Estima-se o modelo de regressão utilizando-se todo conjunto de dados, (2) ...separe-se os dados em amostra de estimação e a amostra de validação, onde a primeira contem cerca de 50% a 90% da amostra total. (3) Estima-se o modelo da Regressão utilizando-se apenas os dados da amostra de estimação e (4) aplica-se o modelo estimado aos dados da amostra de validação e finalmente (5) Os valores observados e preditos são correlacionados para determinar o r2 que é comparado com o R2 para a amostra total e com R2 da amostra de estimação...” (tem-se portanto o grau de contração). Não sendo objetivo desse estudo, detalhar os passos para o cálculo relacionados a Regressão Múltipla, serão detalhados os passos para a identificação da fidedignadade do modelo, (desconsiderando portanto os procedimentos para calculo dos Coeficientes de Regressão Parcial, b). 20 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla). Intensidade da Associação Mede-se a intensidade da associação pelo coeficiente de determinação múltipla, R2, e nesse caso ele não pode ser menor do que o maior bivariado, r2 de qualquer variável independente individual. Segundo Aaker (2001), R2 será maior quando as correlações entre as variáveis independentes forem baixas, não pode haver decréscimo com o incremento de novas variáveis independentes na equação. 30 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Precisão da Predição Quando calculado o valor da estatística F e testada as hipóteses, é identificada se a relação entre as variáveis é significativa (testada as hipóteses), o próximo passo é estimar a precisão da predição, conforme Malhotra (2001). Para tanto, calcula-se o erro padrão da estimativa, EPE ou SEE, que igualmente é fornecido junto aos cálculos feitos pelos principais softwares estatísticos e planilhas eletrônicas. © Copyright 2004 6 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 40 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Teste de significância A hipótese nula para o teste é que o coeficiente de determinação múltiplo é zero, (equivalente a hipótese nula), H 0 : β1 = β 2 = β 3 = ... = β k = 0 , sendo o teste global com a estatística F O exame de resíduos é feito plotando-se o gráfico das variáveis prognosticadoras e os resíduos, onde se espera uma apresentação normal no histograma (68% ou 95%). O gráfico da seqüência de observações não deverá apresentar tendência e sim aleatoriedade, seja positiva seja negativa. 50 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Durbin-Watson Talvez o mais popular dos testes para detectar o problema, consiste em computar uma soma ponderada dos resíduos, de tal forma que seja possível detectar algum padrão no seu comportamento. Possui o problema de captar apenas a autocorrelação de primeira ordem. Igualmente é um cálculo automático, fornecido por softwares como o SPSS®. 60 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Breush-Godfrey: Consiste em efetuar uma regressão do resíduo como variável explicada tendo como explicativas o próprio resíduo defasado no tempo e as variáveis explicativas do modelo original. Usa-se a estatística “F” de significância conjunta dos parâmetros da equação de teste. Este teste talvez seja o mais indicado para verificar autocorrelação, pois considera a possibilidade de resíduos correlacionados com valores acima de um período e pode ser usada com variáveis explicativas defasadas. 70 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Multicolinearidade Considerando que, segundo Malhotra (2001, p. 472), a intercorrelação entre as variáveis prognosticadoras (multicolinearidade), pode ocasionar erros padrão elevados, variação de magnitude e sinais dos coeficientes de regressão parcial e finalmente torna-se difícil quando © Copyright 2004 7 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 avalia a importância relativa das variáveis independentes (se o objetivo é explicar a variação na dependente). Para contornar esse problema, adota-se a Análise dos Componentes Principais para transformar o conjunto de variáveis independentes em um novo conjunto de prognosticadoras mutuamente independentes. Malhotra (2001) acrescenta, que ridge regression e latent root regression, são opções mais especializadas para essa transformação em variáveis mutuamente independentes. O descarte de variáveis independentes sem importância relativa, é obtido a partir de várias abordagens, que segundo Aaker (2001), compreende o teste F, quadrado do coeficiente da correlação parcial (R yx kjx ), 2 i k que representa o controle dos efeitos das outras variáveis independentes e finalmente a regressão passo a passo, onde se utiliza a ordem que os preditores entram em uma equação de regressão, ou quando saem dela. 80 passo – Qualificação das Medidas (Regressão Múltipla) Análise dos Resíduos Aaker (2001) define resíduos como sendo a diferença entre o valor observado de Yi e o valor ^ Yi , prognosticado pelo valor da regressão, que permitem uma relevante visão das suposições e da validade do modelo em ajuste. Através da verificação visual se observa a normalidade da distribuição, e caso seja necessário mais evidências, determina-se o intervalo para a porcentagem de resíduos em ± 1 SE ou ± 2 SE. No gráfico, os resíduos devem dispor-se aleatoriamente, com dispersão relativamente igual em torno de zero. 10 passo – Qualificação das Medidas (Análise Fatorial) Cálculo da matriz de correlação O principal passo para a Qualificação das medidas é o cálculo da matriz de correlação para a verificação do grau de associação entre as variáveis (duas a duas), o objetivo é ter alguns fatores representando grande parte da variabilidade dos dados. © Copyright 2004 8 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 20 passo – Qualificação das Medidas (Análise Fatorial) Teste de Esfericidade de Bartlett Verifica em que medida há correlação entre as variáveis, sendo que um valor elevado acompanhado de uma significância menor que 0,05 indica o uso da análise fatorial, conforme Morgan e Griego (1998). Esse teste considera que a matriz de correlação da matriz da população é uma matriz identidade, ou seja, cada variável se correlaciona perfeitamente com ela mesma (r =1), mas não apresenta correlação com outra variável. (MALHOTRA 2002, p. 505). 0 3 passo – Qualificação das Medidas (Análise Fatorial) Medida de Adequação da Amostra de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) Indica se a correlação entre os pares de variáveis pode ser explicada por outras variáveis, sendo que para valores acima de 0,6 já é recomendável o uso da análise fatorial, afirma Aaker (2001). A estatística compara o valor das correlações observadas com os valores das correlações parciais. Pequenos valores de KMO indicam que as correlações entre os pares de variáveis não podem ser explicadas por outras variáveis e que, assim, a análise fatorial não é indicada. Hair et al. (1998) e Malhotra (1996) recomendam 0,50 como valor mínimo para a estatística KMO, isto é, valores iguais ou superiores a 0,50 indicam que, no geral, o tamanho da amostra é adequado para os indicadores considerados. 40 passo – Qualificação das Medidas (Análise Fatorial) Comunalidade É a parcela da variância que uma variável compartilha com as demais variáveis que estiverem relacionadas, representando igualmente, a proporção de variância explicada pelos valores comuns. Em se tratando de Análise Fatorial, variáveis com baixa comunalidade, devem ser excluídas do modelo e reespecificado. Extração dos fatores mais significativos, nessa etapa é que se identifica o quão bem o modelo está representando os dados. Análise Para atingir os objetivos do estudo e analisar os resultados da pesquisa, frente às duas técnicas, o primeiro passo é seguir o rumo comum às duas estatísticas, inicialmente preparar os © Copyright 2004 9 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 dados e qualificar as medidas. Executando a função de Missing Value Analysis e identificando 3 outliers, apurou-se 42 casos que interferiam significativamente nos resultados da pesquisa. Ficou evidenciado, ao executar a função de Análise em Componentes Principais, que havia Multicolinearidade entre as variáveis independentes, sendo necessário retirar 4 variáveis (realização de aulas extras/plantões, horários disponíveis, vagas na turma, assuntos..., adequação do conteúdo às necessidades dos alunos e aparencia do curso – externa e interna), proporcionando uma estrutura mais coerente. Os resultados apurados com a extração dos outliers e missing values, bem como das 4 variáveis, representaram uma diferença significativa no resultado da Regressão Múltipla, conforme evidenciado na tabela 1: Tabela 1: Resultado Regressão Múltipla Primeira Execução R Múltiplo R Quadrado R Quadrado Ajustado Erro Padrão 0.390 0.152 0.081 8.752 Segunda Execução R Múltiplo R Quadrado R Quadrado Ajustado Erro Padrão 0.942 0.887 0.809 0.964 A estatística Durbin Watson (2,161) testa os resíduos para determinar se existe alguma correlação significativa baseada na ordem em que eles ocorrem no arquivo de dados. Desde que o valor será maior do que 1,4, não há autocorrelação significativa nos resíduos. Assim como na análise de Regressão Múltipla, os procedimentos para a elaboração das conclusões não são relevantes para o atingimento dos objetivos desse estudo, e sim as etapas preliminares, as etapas intermediárias do estudo serão consideradas secundárias. Sendo nível do teste de esfericidade considerado pequeno (teste de esfericidade de Bartlett), no valor zero, a técnica de Análise Fatorial foi considerada adequada. A próxima etapa é a constatação se a correlação entre cada par de variáveis pode ser explicada pelas demais (aplicação do teste de KMO, obtendo 0,658, satisfatório portanto). Após a aplicação da Análise Fatorial, com o teste da rotação Varimax e Oblimin (optouse pela primeira), constatou-se que 60,015% do total da variância era explicada pelo primeiro fator, 5,068% pelo segundo e 4,699% pelo terceiro. Os critérios para a escolha do número de fatores foram a análise do scree plot que apresentou mudança brusca de direção quando do terceiro fator e a análise dos eingenvalues, que © Copyright 2004 10 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 divididos um a um pela soma total, apresentou o percentual de participação de 92,17% para o primeiro fator, 7,78% para o terceiro e 0,01% para o terceiro, com a soma total de 99,95% (bem acima dos 60% exigido pela bibliografia sugerida). Tabela 2: Resultado da Análise em Componentes Principais. Fonte: (BEVILACQUA, 2004). Administração e Metodologia Informações acadêmicas Material didático entregue ao aluno Segurança do local Relacionamento da teoria com a prática efetuada pelo professor Eficiência na realização de matrículas Nível de divulgação das informações sobre os acontecimentos/eventos Eficiência do Teleatendimento (telefone...) Recursos disponíveis (videoteca, multimídia, banco de provas...) A motivação despertada nos alunos pelo professor Cordialidade e prestreza dos funcionários de apoio Professores e conteúdo Domínio do conteúdo pelos professores Relacionamento dos professores com os alunos Forma/tipo de aula adequado aos objetivos da matéria em estudo Conteúdo e design do site – home page Qualificação profissional dos professores Interesse dos professores pelos problemas dos alunos Condições Físicas Condições físicas (tamanho, limpeza, iluminação, ...) dos corredores, ... Condições físicas (tamanho, limpeza, iluminação, ...) das salas de aula,... 1 0.85 0.82 0.80 0.78 0.77 0.76 0.62 0.61 0.58 0.54 2 0.97 0.79 0.71 0.67 0.58 0.47 3 α Corr. 0.66 0.59 0.65 0.82 0.74 0,93 0.48 0.62 0.55 0.77 0.64 0.79 0.81 0.77 0,88 0.66 0.72 0.74 0.97 0.61 0,82 0.61 0.69 Administração e Metodologia, Professores e conteúdo e Condições Físicas foram, portanto as três variáveis reduzidas criadas a partir da Análise em Componentes Principais, priorizadas por essa ordem de importância. Observa-se que a seqüência de importância das variáveis observadas são distintas para as duas técnicas empregadas (afinal na segunda tem-se uma redução das variáveis em fatores, enquanto na primeira se considera apenas a contribuição). Comparativo entre as duas técnicas Em análise fatorial se analisa todas as variáveis como relações de interdependência, distintamente da Regressão Múltipla, onde tem-se uma variável dependente e duas ou mais, independentes. Conforme Malhotra (2001, p. 505),...matematicamente, a análise fatorial é algo semelhante à análise de regressão múltipla, pelo fato de cada variável ser expressa com uma combinação linear de fatores subjacentes. Ocorre que o apelo de emprego das duas técnicas deve sofrer interpretações distintas, ou seja, enquanto uma sofre redução de variáveis, afinal elas são agrupadas em fatores, a Regressão Múltipla utiliza diversas variáveis para explicar uma de fechamento de bloco (no caso presente, a variável de fechamento de bloco foi satisfação geral). © Copyright 2004 11 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 Contesta-se muito atualmente a aplicação da Regressão Múltipla como recurso estatístico para a mensuração da satisfação, afinal tem-se um constructo multifacetado para análise, mesmo com a adoção de variáveis dummy’s e a robustez da técnica, enquanto que no caso da Análise Fatorial, com a criação de pesos para as variáveis originadas a partir de fatores, pode-se chegar a resultados mais precisos. Tais considerações podem gerar discussões futuras, afinal o objetivo desse estudo é explicitar acerca das medidas e procedimentos para auferir resultados mais precisos e confiáveis. Conclusão Após a evidência de que a preocupação maior por parte dos pesquisadores é a aplicação das técnicas em questão, em detrimento da qualidade das medidas e preparação dos dados, registra-se a hipótese de que os resultados auferidos em recentes publicações estariam comprometendo as conclusões. A apuração de resultados confiáveis é obrigatoriamente uma conseqüência da coleta dos dados (inclusive da execução de um pré-teste) caso contrário a mera manipulação das funções de um software estatístico não confere segurança ao relatório. Os objetivos desse estudo são atingidos e a hipótese validada, quando se evidencia a necessidades de preservação de tais procedimentos (independente da constatação dos resultados da Análise Fatorial e Regressão Múltipla não serem os mesmos). A necessidade do emprego de um método estatístico para prever ou diagnosticar uma tendência, um comportamento, é determinada por um problema de pesquisa, e seus objetivos, sucedido de procedimentos que confiram precisão aos resultados, portanto a seqüência proposta objetiva trazer segurança ao trabalho, não descartando a necessidade de um estudo qualitativo como fundamento. Limitações e sugestões futuras Uma variável de fechamento de bloco (satisfação geral) é incapaz de sintetizar um modelo complexo e multidimensional como é o caso da satisfação de clientes que foi avaliada com uma séria de variáveis. Estas implicações não são derivadas apenas da comparação dos resultados, que apresentaram diferenças significativas, mas também dos trabalhos conceituais que indicam a complexidade do esquema de satisfação, conforme Dillon, White, Filak e Rao (1997). Sugere-se, portanto, a adoção de exemplos de dados que não esteja associados a satisfação, mas sim a temas que não exijam violação das técnicas, afinal conforme já comentado, © Copyright 2004 12 Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção n.4, p. 01 – 16, fev 2005 Regressão e Análise de fatores, são semelhantes apenas matematicamente falando. Fica sugestionado o desenvolvimento de um estudo para identificação de métodos para preparação dos dados e qualificação das medidas para as demais técnicas de análise multivariada. Referências Bibliográficas AAKER, D. A; KUMAR, V; DAY, G. S. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Editora Atlas, 2001. BENITEZ R. M. A infra-estrutura, sua relação com a produtividade total dos fatores e seu reflexo sobre o produto regional. Planejamento e Políticas Públicas. no 19 - jun DE 1999. BEVILACQUA. S. Estudo de satisfação de clientes, a validação do esquema CBF. Revista Pesquisa e Desenvolvimento Engenharia de Produção. n. 02, p. 69-84, jul. 2004. 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