PRÁTICAS CURRICULARES: UM ESTUDO DE CASO NO ENSINO FUNDAMENTAL EM VITÓRIA DA CONQUISTABA Benedito Gonçalves Eugênio (UESB) Andressa Mendes da Silva Dias Renata Dutra Queiroz Rubenailde Oliveira dos Santos Tamires Dias dos Santos (UESB) Resumo O presente apresenta as concepções sobre o currículo de uma professora do ensino fundamental, de uma escola pública localizada no município de Vitória da Conquista-Ba. Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada e analisados à luz de autores que discutem o currículo a partir de uma perspectiva crítica. Inicialmente fazemos uma breve apresentação das teorias curriculares e, na sequencia, apresentamos os dados coletados. As conclusões assinalam o processo de reconfiguração do trabalho docente atualmente e como este interfere diretamente nas práticas curriculares na escola. Palavras-chave: Currículo. Escola pública. Teorias curriculares. Abstract This presents the views on the curriculum of a school teacher in a public school located in Vitória da Conquista-Ba. Data were collected through semi-structured interviews and analyzed in light of authors who discuss the curriculum from a critical perspective. Initially do a short overview of curriculum theories, and in the sequel, present the data collected. The findings indicate the reconfiguration process of teaching today and how this interferes directly in the school curriculum practices. Key-words: curriculum, public school, curriculum teory. Professor Adjunto da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Doutor em Educação (UNICAMP). E-mail: [email protected] Graduandas em Pedagogia pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. 1 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs Introdução Este artigo tem como finalidade discutir as concepções de uma docente do ensino fundamental acerca do currículo. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada na Escola Municipal Maria Santana, localizada no bairro Patagônia, no Loteamento Kadija, na cidade de Vitória da Conquista-BA. Esta escola atende alunos dos bairros Comveima I e outros circunvizinhos. Entretanto, o espaço utilizado pela unidade escolar não é pertencente à escola, pois o prédio é alugado em decorrência das péssimas condições de estrutura física em que se encontrava o colégio de origem, no Bairro Comveima I. O artigo está assim estruturado: inicialmente fazemos uma discussão acerca das teorias curriculares; em seguida, apresentamos os dados coletados. As conclusões assinalam o processo de reconfiguração do trabalho docente atualmente e como este interfere diretamente nas práticas curriculares na escola. Teorias curriculares: alguns apontamentos iniciais O termo currículo provém do étimo latino currere, cujo significado é caminho, jornada, trajetória, percurso a seguir. Do vocábulo latino derivam as palavras cursus e curriculum. Essas considerações históricas são importantes porque segundo Saviani (2000, p.20), o estudo histórico do currículo deve compreender “tanto a análise da evolução do termo, desde seu surgimento no vocabulário pedagógico, como também os contextos de seu emprego e suas múltiplas implicações na vasta rede de relações inerentes à atividade educacional a que ele se refere”. Desde o início de seu emprego, por volta do século XVI, o currículo apresenta uma estreita relação com as ideias de unidade, ordem e sequência. Como campo especializado de estudos, data do século XX. De acordo com Silva (2005), a emergência do currículo como campo de estudo está ligado a alguns elementos: a formação de um corpo de especialistas na temática; a formação de disciplinas e departamentos universitários; a institucionalização de setores especializados sobre currículo na burocracia educacional do estado; o surgimento de revistas especializadas. Assim, a primeira obra publicada acerca do currículo como objeto de estudo específico foi escrita por Franklin Bobbit, em 1918 e intitulada The Curriculum. Inspirado nos princípios 2 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs do Taylorismo, Bobbit pretendia que o currículo fosse concebido e praticado tal qual a organização de uma fábrica: “[...] precisar os objetivos e obter, pelas ações minuciosamente conhecidas e fragmentadas, a eficiência e a eficácia, transformou-se no método eleito e no caminho aceito científica e academicamente para se obter a formação relevante para o contexto americano emergente” (MACEDO, 2007, p.35). Segundo Moreira e Silva (2002, p.08), o currículo “mesmo antes de se constituir em objeto de estudo de especialização do conhecimento pedagógico”, passou a interessar aos estudiosos que pretendiam, por meio da organização, compreender os processos educacionais. Entendido inicialmente como uma área técnica, voltada para questões relativas a procedimentos, técnicas e métodos, tal qual na perspectiva acima descrita, o currículo, a partir das transformações econômicas e sociais do século XX, passou a ser orientado por questões epistemológicas, sociológicas e políticas. As primeiras teorias sobre currículo, denominadas por Silva (2005) como tradicionais, percebiam-no como um artefato neutro, inocente e desinteressado. É somente na segunda metade do século passado que as denominadas teorias críticas deixam de lado o “como” e passam a se pergunta pelo “porque”. Desconfiando do status quo, essas teorias direcionam seu olhar para as iniqüidades e a injustiças sociais provocadas pelo currículo, particularmente ao selecionar os conhecimentos considerados relevantes. A teoria crítica volta-se para compreender o que o currículo faz com as pessoas e as instituições. Moreira e Silva (2002) destacam que a partir de uma conferência realizada em 1973, na Universidade de Rochester, passa-se a criticar o conceito que se tem de currículo e a pensar numa outra proposta que não admitia o caráter meramente behaviorista e empirista. Esses especialistas que tentam compreender o currículo por outro ângulo são chamados de reconceptualistas e dividem-se em duas correntes: neomarxistas, como Michael Apple e Henry Giroux e humanistas, como William Pinar. Apesar de compartilharem da mesma ideia de que o conceito de currículo atual deveria ser modificado, apresentam divergências visíveis: Para os neomarxistas, os humanistas secundarizavam a base social e o caráter contingencial da experiência individual. Estes últimos por sua vez, acusavam os primeiros de subordinar a experiência humana à estrutura de classes, dela eliminando a especificidade, a inventividade, bem como a capacidade de resistência e de transcendência (MOREIRA E SILVA, 2002, p.38). 3 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs Por meio dos ideários reconceptualistas emerge uma nova sociologia da educação que visa à compreensão dos fatores que envolvem os acontecimentos escolares, tendo como mais relevante intuito a análise do currículo, a chamada Nova Sociologia da Educação, cujo marco é a publicação da obra Knowledge and control, organizada por Michael Young em 1971. A teoria critica pode ser dividida em dois momentos importantes: a teoria da reprodução social representada por Louis Althusser e Bowles e Gintes, tendo “como tema central a noção de que a escola desempenha papel importante, se não crítico das formações sociais, necessárias para sustentar as relações capitalistas de produção” e a teoria da reprodução cultural com as obras de Bourdieu que procurou “desenvolver uma sociologia do currículo que unisse cultura, classe e dominação com a lógica e os imperativos da escolarização” (GIROUX, 1983, p.35). De acordo com Giroux (1983), a partir dos trabalhos de Louis Althusser é construída uma teoria baseada na mediação existente entre classe dominante e classe dominada que controlam, por meio de práticas do Estado, o movimento da sociedade. Essas práticas são constituídas pelos Aparelhos Repressivos do Estado, que valem-se da força para coagir aqueles que saem dos padrões impostos. São representados pela polícia, exército, prisões etc. e os Aparelhos Ideológicos do Estado, que agem nos indivíduos de maneira inconsciente, promovendo por meio do consenso, a aceitação das normas. São representados pelas instituições escolares, igrejas, sindicatos etc. O mais importante aparelho ideológico do estado é a escola e é dentro desta instituição que estes aparelhos podem ser melhor observados (GIROUX, 1983). De acordo com Silva (2005): A escola atua ideologicamente através de seu currículo, seja de uma forma mais direta, através das matérias mais suscetíveis ao transporte de crenças explícitas sobre a desejabilidade das estruturas sociais existentes, como Estudos Sociais, História, Geografia, por exemplo; seja de uma forma mais indireta, através de disciplinas mais “técnicas”, como Ciências e Matemática. Além disso, a ideologia atua de forma discriminatória: ela inclina as pessoas das classes subordinadas á submissão e à obediência, enquanto as pessoas das classes dominantes aprendem a comandar e controlar. Essa diferenciação é garantida pelos mecanismos seletivos que fazem com que as crianças das classes dominadas sejam expelidas da escola antes de chegarem àqueles níveis onde se aprendem os hábitos e habilidades próprios das classes dominantes (SILVA, 2005, p.31). Bowles e Gintes, diferentemente de Louis Althusser, para quem a ideologia é transmitida na escola por meio do currículo, trabalham como o “princípio da 4 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs correspondência”, fazendo uma ponte entre a escola e a indústria, isto é, levam em consideração as relações sociais que acontecem no interior da escola para formar trabalhadores como requer a sociedade capitalista, levando os alunos a adquirirem práticas como obediência, assiduidade, capacidade de liderança etc. O reflexo das ações sociais voltadas à preparação para o emprego dentro da escola se materializa quando realmente os indivíduos vão assumir suas funções no mercado industrial. Em síntese, a escola ensina de acordo com os princípios das fábricas, tornando-se um método de ensino biunívoco, ou seja, o mercado espera pessoas suficientemente competentes a atuarem nas indústrias e para tanto recebem uma educação específica na instituição escolar. O trabalho desses dois autores foi alvo de inúmeras críticas. De acordo com Andrade e Vares (2010, p. 129), “[...] parte dessas críticas se direciona à ausência de contradições, resistências e tensões. Em outras palavras, faltaria a percepção de uma pedagogia crítica e de mudança social, além de uma teoria capaz de abarcar a constituição da subjetividade da classe trabalhadores” (VARES, 2010, p.129). A Teoria da Reprodução Cultural tem como principal representante o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que utiliza da cultura para explicar o processo de reprodução social, ao contrário de Althusser, que aponta a força e a ideologia como responsáveis por manter a sociedade no estado de submissão inconsciente. Bourdieu elabora o conceito de “Violência Simbólica”, apropriado pela classe dominante para se impor sobre a classe dominada, por meio de uma cultura exclusiva e de um currículo escolar tendo como base a cultura dos que detêm o poder. Giroux (1983) aponta que a ideologia não é mecanicamente imposta aos dominados, e para explicar essa questão, Bourdieu usa o conceito de “habitus”, isto é, os dominados reproduzem sua própria cultura e ao entrarem em contato com a cultura dominante se vêem completamente perdidos, ou seja, “[...] de um lado a imposição e, de outro, a ocultação de que se trata de uma imposição, que aparece, então, como natural” (GIROUX, 1983, p.50). Segundo Giroux (1983), de acordo com as concepções de Bourdieu, não há no indivíduo a possibilidade de mudança, visto que apenas reproduz-se, não se cria e nem inovase. Um exemplo disso é reprodução da força de trabalho: as gerações seguintes de uma família sempre darão continuidade à mesma profissão de seus antecedentes. A teoria da reprodução cultural de Bourdieu, de acordo com Giroux (1983), apresenta diferentes problemas. O primeiro é com relação à passividade ou falta de conflito 5 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs entre as diferentes classes ou entre elas próprias, não há reivindicação ou luta. O segundo trata da homogeneidade dos sujeitos e a ausência de um pensamento que envolva o conceito de complexidade social. A teoria pós-crítica de currículo, presente principalmente a partir dos anos 1990, fundamenta-se no pós-estruturalismo e pós-modernismo e nas contribuições de autores como Deleuze, Foucault, Derrida, Morin, Maturama, dentre outros, os estudos de gênero, identidade, poder-saber, diferença e grupos sociais diferenciados” (PACHECO, 2007). Não adentraremos as questões da teoria pós-critica de currículo, pois se trata de uma abordagem muito mais complexa, que demandaria um estudo à parte, principalmente por conta de suas diferentes perspectivas teórico-metodológicas. O currículo no espaço-tempo da escola Sacristán (1998) aponta a existência de um currículo comum ou nacional que rege conhecimentos homogêneos, servindo de base para organização do sistema educacional, ordenando-se sequencialmente por nível de aprendizagem. Este artefato cultural precisa ser contextualizado de acordo com a realidade vivenciada pelas instituições de ensino, assim como dos fatores sociais e históricos, visto que envolve pressupostos econômicos, políticos e administrativos que podem variar de acordo modelo estatal vigente, o que nos leva a inferir a existência de uma política curricular que determina e seleciona o que deve ser ensinado nas escolas e ao mesmo tempo permite a adaptação do currículo ao seu contexto. Pode-se identificar como adaptação do currículo nas instituições, mais especificamente na Escola Municipal Maria Santana, o Projeto Político-Pedagógico (PPP). O texto escrito do PPP inicia apresentando um levantamento histórico da escola e caracterizando-a diante da realidade local. Este documento constitui um elemento importante na análise do currículo, visto que nele estão contidos os pressupostos que orientação o desenvolvimento do trabalho pedagógico da escola, dando-lhe, assim, uma ação orientada para a intencionalidade, pois, como afirma Gadotti (2000): Não se constrói um projeto sem uma direção política, um norte, um rumo. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é também político. O projeto pedagógico da escola é, por isso mesmo, sempre um processo inconcluso, uma etapa em direção a uma finalidade que permanece como horizonte da escola (GADOTTI, 2000, p.87) 6 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs Essa compreensão do caráter político e pedagógico do PPP nos indica a necessidade de considerar dois pontos: a) a função social da educação e da escola na atual sociedade capitalista, cada vez mais excludente, o que pode fazer com que a educação se torne, contraditoriamente, tanto um espaço de produção, manutenção, reprodução e reforço das formas de dominação e exclusão, quanto um espaço de construção de um novo projeto social emancipatório; b) a necessidade de organicidade entre o PPP e os anseios da comunidade escolar. É na ação pedagógica da escola que se efetivam práticas sociais emancipatórias; nessa ação se cumpre a intencionalidade do PPP como um dos elementos que constitui a base da organização curricular da escola. Para que se torne de fato um instrumento que provoque inovações na ação docente e no currículo, cremos que o PPP deve assumir uma feição emancipatória, assim definida por Veiga (2003) : Sob essa ótica, o projeto é um meio de engajamento coletivo para integrar ações dispersas, criar sinergias no sentido de buscar soluções alternativas para diferentes momentos do trabalho pedagógico-administrativo, desenvolver o sentimento de pertença, mobilizar os protagonistas para a explicitação de objetivos comuns, definindo o norte das ações a serem desencadeadas, fortalecer a construção de uma coerência comum, mas indispensável, para que a ação produza seus efeitos (VEIGA, 2003, p.275) A partir da entrevista com a professora foi possível identificar uma concepção de currículo que se baseia, de certa forma, nos pressupostos da perspectiva emancipatória acima descritos: Para você desenvolver o currículo da sua escola, você precisa saber quem é a comunidade que você vai atender, quem são esses alunos, de onde veio essa comunidade, quais os problemas dessa comunidade. Então currículo é isso, não é você receber aquele conteúdo pronto, vindo da secretaria municipal de educação, ou da coordenação da escola sem esse planejamento prévio. Cabe ressaltar que o currículo faz parte de uma cultura selecionada e organizada de acordo com o contexto político, social e cultural de uma determinada escola. Deste modo, é necessário introduzir no currículo elementos que compreendam a cultura escolar; além disso, a sua formulação está diretamente condicionada a um processo que atrela a relação entre cultura e conteúdos curriculares (SACRISTÁN, 1998). O currículo nunca é somente um elemento neutro de conhecimentos, que aparece de forma descontextualizada nas salas de aula. Parte de uma “tradição inventada” e seleciona o 7 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs conhecimento considerado como verdadeiro. Em virtude disso, é fruto de tensões, conflitos e concessões culturais, políticas e econômicas que organizam a sociedade. No Brasil, além de existir um currículo nacional proposto pelo Estado e configurado nos Parâmetros Curriculares Nacionais, há aquele que é moldado na sala de aula pelo professor a partir do contexto de cada educando, tendo como base a proposta pedagógica da escola, seu PPP, cabendo ao educador a concretização desse processo, pois é no espaço da sala de aula que o currículo efetivamente é praticado. É preciso estar atento, entretanto, ao fato de que ainda que o docente tenha autonomia dentro da sala de aula para adaptar o currículo conforme a realidade vivenciada, existem outros fatores que pré-configuram sua ação no âmbito de atuação, pois ele age mediante as normas de funcionamento da instituição. Mesmo que a escola não admita a sua intervenção no trabalho do professor, há uma interferência indireta. Um exemplo disso é a escolha do livro didático. Na escola investigada, segundo a professora entrevistada: E o livro que nós, os livros didáticos que a escola, nós recebemos uma instrução da secretaria municipal de educação, que é fazer uma seleção dos livros. A gente reúne com os professores e escolhe o livro. O livro que a Escola Maria Santana escolheu se chama “A escola é nossa”. Eu uso esse livro com as crianças da minha turma. Eh, nós escolhemos esse livro né, não foi uma escolha minha, foi uma escolha do grupo. Os pressupostos básicos para a formulação do livro didático são os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), que partem de um princípio comum do que deve ser ensinado nas escolas de todo país. Esse material didático é diretamente controlado e utilizado para “facilitar” a prática do professor ao trabalhar com uma grande quantidade de alunos. Os PCNs foram projetados com o intuito de viabilizar princípios que nortearão a elaboração dos currículos da educação básica no Brasil. Supostamente não é constituído de um modelo que deve ser aplicado sob todas as circunstâncias, mas sim, um referencial curricular comum que orienta e permite ser reconfigurado de acordo com o cotidiano vivenciado pelas secretarias de educação ou pelas instituições de ensino. proporcionando aos educandos o acesso aos conhecimentos que são considerados relevantes para a formação do sujeito (BRASIL, 1997). Porém, estes ficaram reduzidos a conteúdos que serão cobrados em exames nacionais (Prova Brasil, ENEM) ou estaduais e a função da escola restringiu-se a transmissão de programas pré-definidos e previstos para cada disciplina. 8 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs Outro ponto que norteia a fala da professora entrevistada é a sua compreensão do que é currículo. Sim,eh eh. Quando eu estava durante minha formação né, a gente pensava que currículo era só você receber o programa no inicio do ano. A formação que eu fiz, o curso de pedagogia, tinha uma disciplina de currículo, a qual foi muito interessante... Então currículo, não é você receber aquele conteúdo pronto, vindo da secretaria municipal de educação, ou da coordenação da escola sem esse planejamento prévio. Em suma, a professora compreende o currículo como uma construção coletiva de fundamental importância para a escola e não apenas como um simples documento neutro para o cumprimento de uma burocracia. Sendo assim, há o entendimento de que o currículo interfere na vida e na formação dos indivíduos. Na citação a seguir, a professora elenca uma das principais dificuldades enfrentas por ela na escola, que seria a transferência da responsabilidade que é conjunta (escola-famíla), somente para a escola e para o professor em sala de aula: Olha, as dificuldades que os professores em geral tem hoje são muitas, muitas dificuldades, mas o que a gente percebe que tem atrapalhado muito e a falta de acompanhamento da família. A família hoje, muitos pais, muitas mães, deixam as crianças soltas, entregam as crianças na escola, coloca as responsabilidades que é delas para escola. A gente recebe crianças, em que a mãe chega falando que não agüenta mais,para gente dar um jeito, pra gente cuidar dessa criança, que a criança ta dando muito trabalho, então a escola, o professor né fica, o papel do professor perde o seu papel, o papel do professor não é esse. O trabalho docente atualmente mostra-se cada vez mais desgastante e complexo, em um contexto de regulações materiais e simbólicas que atinge diretamente o professor. Um dos principais pontos dessa questão, de acordo com a professora, é o crescimento das funções da escola e a transferência das responsabilidades da família para a escola. E além do mais, o currículo tem que abordar cada vez mais questões que dizem respeito a sexualidades, identidades culturais, relações de gênero e étnico-raciais, cidadania, padrões de convivência social, meio ambiente, conscientização política, dentre outros, tendo em vista a ampliação das funções da escola na modernidade tardia. Contudo, precisamos nos perguntar como fica o docente diante de tudo isso. É preciso reverter o discurso que atribui ao professor as mudanças por que se espera efetuar na 9 Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISNN 2179-9636, Ano 1, numero 4, dezembro de 2011. www.faceq.edu.br/regs sociedade, pois estar para além de suas forças a realização da escola pública contemporânea sem que se modifiquem as condições objetivas e subjetivas em que realiza seu trabalho. Referências ANDRADE, Flávio R.; VARES, Sidnei F. O “princípio da correspondência” em Samuel Bowles e Herbert Gintes: uma reflexão em torno da relação educação-trabalho. Revista da Faculdade de Educação, ano VII, n.14, 2010. APPLE, W. Michael. A política do conhecimento oficial: faz sentido a idéia de um currículo nacional? In: MOREIRA, Antonio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Currículo, Cultura e Sociedade, 7. ed. São Paulo: Cortez, 2002. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais . Secretaria de Educação Fundamental. 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