AQUISIÇÃO FONOLÓGICA EM CRIANÇAS DE 3 A 8 ANOS: A
INFLUÊNCIA DO NÍVEL SÓCIO ECONÔMICO
Palavras Chave: Criança, Fala, Desenvolvimento da Linguagem
Introdução: A aquisição do sistema fonológico ocorre durante os primeiros anos de vida da
criança, período em que os fonemas são adquiridos e estabilizados de acordo com a
comunidade lingüística onde está inserida. Para adquirir uma língua a criança deve dominar o
inventário fonético e o sistema fonológico considerados como padrão, ou seja, a norma
encontrada na fala do adulto de sua comunidade lingüística 1. Problemas na aquisição de sons
levam não só à dificuldade na comunicação como também à dificuldade na aquisição da língua
e conseqüentemente na vida escolar de uma criança, as conseqüências a partir daí são
óbvias. Neste sentido, o presente estudo teve por objetivo investigar a influência do nível sócio
econômico no processo de aquisição fonológica de crianças falantes do Português Brasileiro.
Método: Foram avaliadas 480 crianças, residentes na cidade do Rio de Janeiro, de ambos os
sexos, com idades entre 03 e 08 anos. As crianças foram divididas em 05 grupos, de forma
que cada grupo fosse composto de 96 crianças, sendo 48 meninas e 48 meninos. Do total de
crianças 240 eram de nível sócio econômico alto e 240 de nível sócio econômico baixo. Os
participantes de nível sócio econômico alto eram estudantes de escolas particulares que
podem ser consideradas como representativas da classe média alta, da cidade do Rio de
Janeiro com base na localização na cidade e o preço da mensalidade escolar. As crianças de
nível sócio econômico baixo foram selecionadas em escolas públicas da cidade do Rio de
Janeiro e Baixada Fluminense. Foram incluídas na pesquisa apenas as crianças que não
apresentassem nenhum problema auditivo, neurológico ou de fala/linguagem, de acordo com a
observação das professoras e coordenadoras pedagógicas e triagem realizada pelas
pesquisadoras. As crianças que estavam ou já haviam feito tratamento fonoaudiológico
também foram excluídas da amostra.
A coleta de dados foi realizada através de um teste de nomeação composto de 79
palavras apresentadas impressas em papel fotográfico, tamanho 15X21, desenvolvida no
Programa de Mestrado Profissional da Universidade Veiga de Almeida. As crianças foram
avaliadas nas escolas em salas silenciosas e as amostras de fala foram gravadas em formato
digital em áudio apenas. A notação fonética (normas do Alfabeto Fonético Internacional - IPA
1993) foi realizada durante a avaliação e reavaliada posteriormente utilizando a gravação
digital. Os dados foram confrontados com a análise de um segundo avaliador com
competência na área. Após a comparação, esclarecidas as divergências possíveis entre as
duas notações, foi definida a notação final.
Os dados foram analisados buscando determinar 1) o inventario fonético (quantas e quais
consoantes estavam adquiridas) 2) o percentual de consoantes corretas - PCC e 3) os
1
processos fonológicos presentes. Os dados foram comparados em relação à idade, ao sexo e
ao nível sócio econômico.
Resultados: Na análise do Inventario fonético, foi utilizado um critério de 75% de produção
correta para que um som fosse considerado como adquirido 2 e foi observado que a
completude do mesmo aumenta com a idade. Com o aumento da idade também foi observado
a diminuição da variabilidade entre as crianças como indicado pelo desvio padrão (tabela 1).
Tabela 1. Inventário fonético. Número de sons adquiridos (máximo de 21) por faixa etária.
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
média
18.11
19.39
19.79
20.58
20.49
mínimo
9
13
11
14
16
máximo
21
21
21
21
21
DP
2.35
1.82
1.78
0.93
0.91
Ao se considerar cada grupo etário separadamente, não foram observadas diferenças
significativas entre meninos e meninas (p>0.05). No entanto ao se analisar o grupo como um
todo, observou-se que a completude do inventário fonético foi maior no sexo feminino, apesar
da pequena diferença (média de consoantes adquiridas 19.93 vs. 19.49 respectivamente;
Mann-Whitney U test Z = -2,442; p = 0. 015). A comparação entre as classes sociais
demonstrou que as crianças da classe alta apresentam um inventário fonético mais completo
do que às da classe baixa, a partir de 4 anos. (tabela 2). Os sons que demonstraram estar
adquiridos mais precocemente (aos 3 anos) foram as consoantes plosivas /p/, /b/, /t/, /d/, /k/,
/g/ , as nasais /m/, /n/, / ɲ /, as africadas /tʃ/ and / dʒ / e as fricativas /f/, /v/ and /S/. As
crianças da classe baixa demonstraram de um modo geral um processo de aquisição mais
tardio do que as crianças de classe alta. Especialmente nas consoantes líquidas este dado se
apresentou de forma mais acentuada. Notou-se também maior dificuldade das crianças com
estruturas silábicas mais complexas, por exemplo, apenas 56.3% das crianças demonstraram
ter adquirido o fonema /l/ em onset complexo aos 8 anos (tabela 3).
Tabela 2. Inventário Fonético. Comparação entre as classes alta e baixa.
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
N° médio de sons adquiridos
classe alta classe baixa p
18.46
17.78
0.445
19.77
19.02
0.041
20.62
19.33
<0.001
20.92
20.25
<0.001
20.96
20.00
<0.001
Tabela 3. Porcentagem de crianças que já adquiriram o som (critério: 75% de produção correta)
idade
classe
som
N
CV1 p
CV2 b
CV3 t
CV4 d
CV5 k
CV6 g
CV7 f
CV8 v
Baixa
240
97.9
97.9
100
100
100
95.8
95.8
100
3-4 anos
Alta
240
100
100
100
100
100
100
97.9
97.9
Total
480
99
99
100
100
100
97.9
96.9
99
Baixa
240
100
97.9
100
100
100
100
97.9
97.9
4-5 anos
Alta
240
100
100
100
100
100
100
100
100
Total
480
100
99
100
100
100
100
99
99
Baixa
240
100
100
100
100
97.9
93.8
100
100
5-6 anos
Alta
240
100
100
100
100
100
100
100
100
Total
480
100
100
100
100
99
96.9
100
100
Baixa
240
100
100
100
100
100
100
100
100
6-7 anos
Alta
240
100
100
100
100
100
100
100
100
Total
480
100
100
100
100
100
100
100
100
Baixa
240
100
100
100
100
97.9
100
100
100
7-8 anos
Alta
240
100
100
100
100
100
100
100
100
Total
480
100
100
100
100
99
100
100
100
2
CV9 s
CV10 z
85.4
91.7
83.3
97.9
91.7
85.4
91.7
91.7
84.4
93.8
91.7
95.8
95.8
93.8
93.8
94.8
92.7
94.8
89.6
89.6
97.9
100
100
100
94.8
94.8
99
95.8
100
97.9
100
100
100
97.9
100
99
100
100
97.9
100
100
100
100
100
99
CV12 ʒ
91.7
89.6
90.6
100
93.8
96.9
100
100
100
95.8
100
97.9
97.9
100
99
CV13 tʃ
100
100
100
100
97.9
99
100
100
100
100
100
100
100
100
100
CV14 dʒ
CV15 m
CV16 n
97.9
100
99
100
97.9
99
100
100
100
97.9
100
99
95.8
100
97.9
95.8
100
83.3
100
100
81.3
97.9
100
82.3
100
100
85.4
100
100
95.8
100
100
90.6
97.9
100
93.8
100
100
91.7
99
100
92.7
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
97.9
100
100
100
100
100
99
97.9
81.3
89.6
97.9
85.4
91.7
100
95.8
97.9
100
95.8
97.9
100
97.9
99
68.8
91.7
93.8
97.9
97.9
100
100
97.9
87.5
100
100
50
31.3
97.9
56.3
81.3
93.8
100
100
100
100
97.9
97.9
97.9
97.9
16.7
64.6
95.8
62.5
86.5
93.8
99
99
100
100
97.9
92.7
99
99
33.3
47.9
96.9
87.5
95.8
95.8
100
97.9
97.9
100
100
97.9
100
97.9
60.4
41.7
97.9
77.1
100
97.9
100
100
100
100
100
100
100
100
54.2
85.4
100
82.3
97.9
96.9
100
99
99
100
100
99
100
99
57.3
63.5
99
89.6
97.9
97.9
100
100
100
100
100
91.7
100
100
72.9
56.3
100
87.5
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
83.3
93.8
100
88.5
99
99
100
100
100
100
100
95.8
100
100
78.1
75
100
97.9
100
100
100
100
100
100
100
97.9
100
100
95.8
64.6
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
97.9
97.9
100
99
100
100
100
100
100
100
100
99
100
100
96.9
81.3
100
95.8
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
77.1
56.3
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
97.9
100
100
97.9
100
100
100
100
100
100
100
100
100
100
87.5
78.1
100
47.9
50
49
72.9
83.3
78.1
72.9
97.9
81.4
81.3
100
90.6
83.3
100
91.7
O PCC
3
CV11 ʃ
CV17 λ
CV18 ɲ
CV19 r
CV20 R
CV21 l
CCV1 p
CCV2 b
CCV3 t
CCV4 d
CCV5 k
CCV6 g
CCV7 f
CCV8 v
CCV19 r
CCV21 l
CVC11 ʃ
CVC20 R
também mostrou uma tendência a aumentar com a idade e a variabilidade
entre as crianças a diminuir (tabela 4). Nenhuma diferença foi observada entre meninos e
meninas (média respectivamente 94.33 vs. 93.03; Mann-Whitney U test Z = -1,445; p = 0. 146).
A comparação entre as crianças de classe alta e baixa apontou para um PCC mais alto para a
classe alta a partir dos 5 anos (tabela 5).
Tabela 4. Porcentagem de consoantes corretas – PCC
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
média
86.32
91.94
94.91
97.69
97.54
mínimo
55.60
73.03
70.54
77.18
78.43
máximo
99.59
100.00
100.00
100.00
100.00
DP
8.70
6.32
6.55
3.52
3.56
Tabela 5. PCC. Comparação entre as crianças de classe alta e baixa
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
classe alta
85.65
92.85
96.69
99.12
99.78
PCC
classe baixa
86.99
91.02
93.12
96.26
95.28
p
0.275
0.104
<0.001
<0.001
<0.001
A análise dos processos fonológicos demonstrou que poucos processos ocorrem além
de 6 anos (tabela 6). Os processos mais frequentemente observados nos grupos mais jovens
foram redução de encontro consonantal, apagamento de consoante final e lateralização. Aqui
também não foram observadas diferenças entre os sexos (média para meninas e meninos
3.53 vs. 3.97 respectivamente; Mann-Whitney U test Z = -1,600; p = 0. 110), mas entre as
classes sociais observou-se maior ocorrência de processos na classe baixa em quase todas
3
as faixas etárias (tabela 7). Curioso observar que 58,3% das crianças de classe baixa fizeram
uso do processo de substituição do /l/ pelo /r/, até a idade de 8 anos, o que não foi observado
nas crianças de classe alta. O processo de apagamento de consoante final também chama a
atenção, uma vez que foi observado em 83,3% das crianças de classe baixa até a idade de 8
anos (tabela 8).
Tabela 6. Número de processos fonológicos utilizados
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
Média
6.37
4.92
3.12
2.18
2.12
mínimo
1
0
0
0
0
máximo
16
12
11
8
8
DP
2.91
2.78
2.42
2.38
2.34
Tabela 7. Número de processos fonológicos utilizados: Comparação entre as crianças de classe alta e
baixa
Idade
3-4
4-5
5-6
6-7
7-8
Média de processos
Classe alta Classe baixa
5.80
6.96
3.65
6.21
2.02
4.23
0.42
3.94
0.25
4.00
p
0.064
<0.001
<0.001
<0.001
<0.001
Tabela 8. Porcentagem de crianças utilizando os processos
idade
classe
processos
N
RED ENC
CONS
AP SIL ÁTONA
AP CONS
FINAL
REDUPLICAÇÃ
O
EPÊNTESE
APÓCOPE
METÁTESE
3-4 anos
Alta Tota
l
240 480
88.5
91.
7
42.7
41.7
43.
7
83.3
89.6
77.
1
2.1
2.1
2.1
0
0
0
5-6 anos
Alta Tota
l
240 480
53.1
27.
1
13.5
12.5
14.
6
63.5
85.4
41.
7
0
0
0
5.2
0
59.4
12.5
0
58.3
9.4
0
52.1
2.1
0
50
8.3
5.2
40.6
16.7
6.2
14.6
9.4
3.1
15.6
6.4
4.2
10.4
37.5
54.2
40.6
25
12.5
12.5
6.2
0
45.
8
2.1
0
16.
7
27.
1
8.3
10.4
14.6
66.7
41.7
49
25
11.5
12.5
56.
2
0
6.2
46.9
29.2
45.8
39.6
12.
5
35.
Baix
a
240
85.4
6.2
0
64.6
PLOSIVIZAÇÃO
AFRICAÇÃO
ANTERIORIZ
14.6
10.4
37.5
POSTERIORIZ
47.9
ENSURDECI
14.6
LATERALIZ
64.6
SEMIVOCALIZ
12.5
MONOTONG
41.7
ASSIMILAÇÃO
47.9
4.2
0
54.
2
2.1
0
43.
7
27.
1
10.
4
68.
7
10.
4
52.
1
43.
4-5 anos
Alta Tota
l
240 480
79.2
72.
9
27.1
43.7
10.
4
91.7
50
70.8
Baix
a
240
85.4
Baix
a
240
79.2
Baix
a
240
68.7
6.2
6-7 anos
Alta Tota
l
240 480
39.6
10.
4
2.1
4.2
Baix
a
240
77.1
7-8 anos
Alta Tota
l
240 480
6.3
42.7
4.2
0
2.1
85.4
0
42.7
83.3
2.1
42.7
0
0
0
0
0
0
2.1
0
34.4
0
0
37.5
1
0
24
3.1
0
5.2
0
2.1
12.5
2.1
0
10.
4
0
0
0
2.1
0
47.
9
0
0
6.3
2.1
0
49
4.2
0
50
3.2
2.1
8.3
6.2
0
8.3
0
0
18.
7
0
0
2.1
12.
5
0
18.7
33.3
0
16.7
18.2
0
9.4
7.3
8.3
0
4.2
2.1
0
1
21.9
35.4
2.1
18.7
47.9
0
24
2.1
18.
7
4.2
3.1
0
0
0
2.1
0
1
20.8
14.6
2.1
8.3
6.2
2.1
4.2
12.5
0
6.2
37.5
20.8
22.
21.9
31.2
2.1
16.7
20.8
4.2
12.5
0
1
6.2
4
APAG LIQUIDA
37.5
DESAFRICAÇÃ
O
ACRÉSCIMO
SONORORIZ
SUBST l > r
4.2
7
45.
8
0
18.7
8.3
45.8
2.1
0
0
41.7
25
2.1
0
4
14.
6
4.2
10.4
4.2
20.8
4.2
44.2
2.1
0
0
19.8
20.8
9
2.1
11.5
4.2
2.1
3.1
12.5
0
6.2
2.1
2.1
0
1
0
0
0
2.1
0
1
11.5
2.1
6.2
4.2
39.6
0
0
0
3.1
2.1
0
2.1
45.8
0
0
0
0
1
4.2
4.2
58.3
0
0
0
2.1
2.1
Conclusão: Os resultados do presente estudo vêm contribuir para o desenvolvimento de
dados normativos, que podem ajudar o fonoaudiólogo na avaliação e tratamento de crianças
com transtornos dos sons da fala. É importante ressaltar que os dados não podem ser
generalizados para outras populações, como por exemplo, a região rural. Os resultados
indicam uma diferença entre as crianças das classes alta e baixa em relação ao inventario
fonético e o PCC, principalmente acima dos 5 anos. No que se refere aos processos
fonológicos essa diferença ocorre desde os 3 anos.
Tomando como panorama a realidade descrita acima, compreendemos que as famílias
que fazem parte dela, muitas vezes não utilizam a fala padrão (utilizada pela classe dominante
e legitimada pela escola). Em vista disso, as crianças só passam a ter acesso a essa
linguagem no ambiente escolar. Os dados demonstram uma necessidade de desenvolvimento
de programas que busquem diminuir as diferenças entre as classes sociais e que possam
checar o modelo lingüístico oferecido nas escolas públicas.
Referências
1.Wertzner, H, F. Fonologia: Desenvolvimento e alterações. In: Ferreira, LP.; Befi-Lopes, D M.; Limongi,
S C. O. Tratado de fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 2004. P. 772-786.
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3. Shriberg Ld, Austion D, Lewis Ba, Mscweeny Jl, Wilson Dl. The percentage of consonants correct
(PCC) Metric: Extensions and Reliability Data. . J Speech Lang Hear Res 1997 aug; 40:708-22.
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aquisição fonológica em crianças de 3 a 8 anos