1 GT 4 - SOCIOLOGIA DAS CRENÇAS RELIGIOSAS - SESSÃO ÚNICA COORDENADXR E DEBATEDXR: DR. ANDRÉ RICARDO DE SOUZA E DRA. CLAUDIRENE BANDINI 16 DE JUNHO DE 2015 – 14H LOCAL: AUDITÓRIO DO DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA – ÁREA SUL SISTEMA DE DÁDIVA OU EMPREENDEDORISMO? IMPACTOS DA ADESÃO RELIGIOSA NAS RELAÇÕES DE TRABALHO DE FIÉIS DE IGREJAS PENTECOSTAIS E NEOPENTECOSTAIS NA CIDADE DE UBERLÂNDIA-MG Nayara dos Santos Abreu - UFU1 [email protected] FAPEMIG GT 4: Sociologia das crenças religiosas Esta pesquisa aborda o impacto que as igrejas evangélicas produzem nas relações de trabalho dos fiéis, compreendendo uma possível relação entre a expansão do pentencostalismo e do neopentecostalismo no Brasil e o redimensionamento do mercado de trabalho no país nos últimos anos. A relação dos fiéis com a igreja e com os outros membros pode acarretar duas formas de inserção no mercado de trabalho: por intermédio de redes de solidariedade de fiéis, ou na possibilidade de inserção em carreiras religiosas. O foco desta pesquisa é o primeiro caso. Dessa forma, buscou-se observar se, junto aos fiéis das igrejas Congregação Cristã do Brasil e Universal do Reino de Deus, se há a reposição de algum tipo de sistema de dádiva, seguindo os princípios que regem a obrigação mútua de dar, receber e retribuir. Em contrapartida retratou a dificuldade da ocorrência da dádiva na contemporaneidade, que é marcada pela radicalização da individualização. A pesquisa se iniciou em agosto de 2013 e foi finalizada em janeiro de 2015, a metodologia usada foi a hermenêutica, compreendendo o 1 Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia, de 2009 a 2015. Bolsista do subprojeto de sociologia do Programa Institucional de bolsa de Iniciação à Docência (PIBIC), de março de 2011 até março de 2013. Voluntária do Programa Institucional Voluntário de Iniciação Científica (PIVIC), de fevereiro de 2014 até março de 2015, com o objetivo de desenvolver pesquisa científica na área de Sociologia da Religião. Mestranda do PPGCS/UFU (Programa de pós-graduação em Ciências Sociais/ Universidade Federal de Uberlândia) e bolsista FAPEMIG desde de março de 2015. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 contexto social a partir dos diálogos estabelecidos com os fiéis. Como conclusão, temos a ausência da dádiva em prol do laço social no meio religioso evangélico atual, de modo que a reciprocidade entre fiéis no pentecostalismo ocorre quando acreditam ser essa a vontade de Deus, e no neopentecostalismo, constituído, principalmente, pela “ralé estrutural”, pretende-se alcançar a prosperidade não pela ajuda mútua entre os fiéis, mas a partir de uma barganha com o divino, trocando dinheiro por bens simbólicos. INTRODUÇÃO Marcel Mauss (2005) ao pesquisar tribos arcaicas identificou a existência do sistema de dádiva usado para pautar as trocas entre aqueles indivíduos. Afastados da equivalência mercantil, que é baseada em maximizar o lucro e minimizar o prejuízo, tais sociedade clânicas estabelecem as trocas em nome do laço social. Nesses grupos a matriz do laço se encontrava na reciprocidade, provocando o aumento de status ao grupo que doava mais ao outro. Nas economias precedentes, antes da criação das instituições de mercadores e sua principal invenção, a moeda, as trocas se baseavam na tríplice obrigação de dar, receber e retribuir. Não se faziam simples trocas de bens em um mercado composto por indivíduos, pois os membros da sociedade não se concebiam enquanto indivíduos, mas enquanto coletividades que se obrigavam mutualmente inseridos em um sistema de troca e contrato. Essa dádiva deveria ser espontânea e gratuita, não no sentido de que não existiria retorno, mas no sentido de que o que circula não corresponde às regras do mercado (GOUDBOUT; CAILLÉ, 1999). Nas sociedades arcaicas tudo que constitui o meio social se mistura. As esferas econômica, política e cultural ainda não estão divididas, havendo uma unidade cosmológica do mundo. Dessa forma, o sistema de dádiva não troca exclusivamente bens, mas também gentilezas, banquetes, ritos, danças, mulheres, constituindo um laço mais geral e permanente entre aqueles povos. Essas prestações e contraprestações se estabelecem de forma voluntária, embora sejam no fundo rigorosamente obrigatórias, sob pena de guerra privada ou pública. O que motivou esta pesquisa foi descobrir se o sistema de dádiva estaria presente nas relações criadas no âmbito das igrejas pentecostais e neopentecostais e quais os impactos poderiam ser gerados nas relações de trabalho. O estudo abarca a relação entre religião e economia, que são esferas separadas, mas que se influenciam mutuamente, pois ambas fazem parte da constituição da vida do indivíduo que vive em sociedade, principalmente quando cresce, cada vez mais, os novos movimentos religiosos, que exercem influência no meio político e, consequentemente, no meio social. O objeto de pesquisa são essas novas denominações religiosas que surgiram no Brasil a partir de 1910 e 1977, sendo duas pentecostais clássicas e duas neopentecostais, Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 pertencentes à Congregação Cristã e à Igreja Universal do Reino de Deus, respectivamente, sendo que uma igreja de cada denominação se situa na região central, e a outra no bairro Santa Mônica, todas em Uberlândia – MG. A pesquisa foi realizada de agosto de 2013 a janeiro de 2015. Weber (2004) encontrou uma conexão de sentido entre o plano econômico e religioso, no momento histórico analisado em seu livro “A ética protestante e o „espírito‟ do capitalismo. ”. O autor encontrou “afinidades eletivas” entre as ideias puritanas e o desenvolvimento do capitalismo, mostrando que o crescimento de uma religião individualizante combinava com o capitalismo industrial em seu desenvolvimento inicial. Entretanto, tal conexão analisada por Weber (2004) não se encaixa na sociedade brasileira contemporânea, pois tanto a forma religiosa como a modo de produção capitalista se transformaram. A proposta é analisar a relação entre religião e economia nessa nova perspectiva, adaptada ao modelo contemporâneo dos processos político-econômicos e dos novos movimentos religiosos no Brasil. Fato é que a religião atua no processo de mudança da sociedade, e o estudo sobre as religiões no Brasil é consistente, desde a década de 50, quando Candido Procópio Ferreira de Camargo (1973) já se interessava pelas mudanças ocorridas no cenário religioso num contexto de intensa migração rural-urbana, percebendo o declínio do catolicismo e o processo de expansão do pentecostalismo, do kardecismo e da umbanda. Outros estudiosos da Sociologia da religião como Antônio Flávio Pierucci (1996), Reginaldo Prandi (1996) e Ricardo Mariano (1999), já na década de 90, reforçaram o estudo desse campo compreendendo que as diversas modalidades religiosas procuravam se adequar às transformações da sociedade brasileira dando sentido às formas de vida dos fiéis. Além desses autores, há uma bibliografia diversa sobre os novos movimentos religiosos, principalmente sobre o neopentecostalismo e, em particular, a Igreja Universal do Reino de Deus, como o trabalho de Ari Pedro Oro (2001) que pesquisou a relação de magia e dinheiro no neopentecostalismo, e Ronaldo Almeida (2009) que realizou um estudo etnográfico intitulado “A igreja Universal e seus demônios”. Há também o trabalho de Jesse de Souza (2010) que mostrou o encontro entre classe e religião ao analisar que no interior da camada periférica de trabalhadores urbanos teria uma distinção numa mesma fração de classe: os “batalhadores” e a “ralé-estrutural”. A principal diferença entre eles é que, ao contrário da “ralé”, os “batalhadores” buscam uma inserção Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 mais estável no mercado de trabalho. Tendo isso em vista, o autor estabeleceu uma afinidade com relação à religião para cada seguimento; de modo que os “batalhadores”, em sua maioria, se vinculam ao pentecostalismo clássico, enquanto a “ralé” prefere o neopentecostalismo. No entanto, não se sabe de algum trabalho que vislumbrou compreender se haveria uma relação de reciprocidade entre os fiéis, ou qual seria a motivação subjetiva que proporcionaria a tão divulgada prosperidade. Por isso uma das hipóteses deste trabalho se sustenta na observação da melhora de vida relatada por diversos fiéis enquanto consequência da ajuda mútua entre os membros de uma mesma congregação, pelo menos no que diz respeito às igrejas do pentecostalismo clássico, cujos fiéis seriam compostos em sua maioria por “batalhadores”. Este trabalho representa uma interface entre Sociologia e Antropologia e desse modo trabalhou tanto com paradigmas antropológicos quanto sociológicos que possibilitaram a reflexão e a discussão teórica em torno da problematização proposta: se há a reposição do sistema de dádiva nas igrejas pentecostais e neopentecostais e qual o impacto gerado nas relações de trabalho dos fiéis. Para o embasamento da análise as obras utilizadas foram de especialistas que tratam da religião no Brasil, do sistema de dádiva, e das mudanças sociais atuais, tais como: Sabourin (2008); Martins (2002); Godbout e Caillé, (1999); Mariano (1999), Bauman (2001), Harvey (1992) Pierucci (1996), Prandi (1996) e outros. Na pesquisa de campo os instrumentos de coleta de dados foram as técnicas de observação e aplicação e entrevistas com cinco membros de cada uma das quatro unidades (centro e bairro) das duas denominações: pentecostal (Congregação Cristã do Brasil) e neopentecostal (Universal do Reino de Deus). Foi preservado o anonimato dos entrevistados, denominando-os de entrevistado 1 a entrevistado 20 A fim de identificar a realidade do universo pesquisado, em cada encontro dialoguei com algum membro da igreja a respeito do discurso do pastor e de suas impressões, pois a abordagem metodológica tratou a “cultura como texto” que tem como característica a forma interpretativa de análise, que propõe interpretar o fluxo do discurso social. Essa maneira de estudar a cultura é chamada de hermenêutica, que por sua vez entende que “o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu” (GEERTZ, 1978, p. 15). Desse modo foi expressa as contradições existentes na realidade social não criando uma explicação homogênea para um sistema que é composto de elementos tão desiguais. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 A anti-dádiva: a radicalização da individualização na sociedade contemporânea Ao analisar o sistema de dádiva nas sociedades arcaicas tem-se, como exemplo, o Potlatch, que significa doar e que consiste em uma cerimônia praticada entre tribos indígenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl. Nesse ritual, realiza-se uma oferta de bens em que o ganhador é quem mais consegue doar, baseado na ideia de que quem perde bens, ganha status (GOUDBOUT; CAILLÉ, 1999). Esse ritual consiste em uma forma de buscar aliança entre os membros das tribos, pois na sociedade arcaica não se sabe o que fazer com o desconhecido se não puder transformá-lo em aliado. E significava mais que um ritual. Trata-se do que Marcel Mauss (2005) denominou “fato social total”, uma espécie de instituição que permeava as trocas através da “economia do dom”, que poderia ser também muito competitiva, mas em uma lógica oposta à contemporânea, pois o objetivo não era a acumulação, uma vez que se considerava vencedor o que conseguisse doar uma maior quantidade (GOUDBOUT; CAILLÉ, 1999). Ou seja: ao doar, o sujeito não apenas oferece algo de si, vai além, pois acresce o seu ser, constituindo um prestigio maior, um status (SABOURIN, 2008). A partir das análises sobre a sociedade contemporânea e as análises sobre o sistema da dádiva, esta pesquisa teve como finalidade identificar se ocorria essa mesma ideia nas igrejas pentecostais e neopentecostais. No caso das primeiras, buscou-se observar se as redes de reciprocidade entre os membros que frequentam uma congregação estável de fiéis fomentam um sistema de dádiva entre eles. No caso das últimas, buscou-se observar se ao doar maiores quantias em dinheiro o fiel acaba por ganhar prestígio moral entre os membros, servindo assim de motivação simbólica, que transforma a realidade do sujeito, à medida que essa ação poderá construir alianças e alimentar o vínculo com os membros da igreja. Contudo, nas igrejas, parte-se da hipótese de que o prestígio seria apenas individual, e não das coletividades, como ocorria em sociedades clânicas, em rituais como o Potlach. Com as transformações ocorridas nas sociedades ocidentais e com o sistema capitalista vigente, torna-se cada vez mais difícil a presença da dádiva, pois a contemporaneidade é marcada pelo imediatismo, individualidade e consumismo; de forma que o indivíduo tende a se afastar de obrigações com o próximo, preferindo ocupar o tempo com a busca pela independência, para que a partir dela consiga consumir o que é considerado Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 necessário. Seabrook (apud BAUMAN, 2001, p. 100) descreve as transformações sociais do capitalismo contemporâneo que provocou mudanças diretas na vida dos sujeitos: O capitalismo não entregou os bens às pessoas; as pessoas foram crescentemente entregue aos bens; o que quer dizer que o próprio caráter e sensibilidade das pessoas foi reelaborado, reformulado, de forma que elas se agrupam aproximadamente... com as mercadorias, experiências e sensações... cuja venda é o que dá forma e significado a suas vidas (SEABROOK, apud BAUMAN, 2001, p. 100). Isso marca a diferença básica entre a sociedade arcaica e a moderna no sentido de como são formados os sujeitos, pois enquanto uma sociedade clânica se importa em criar pessoas, a sociedade capitalista – que é baseada na economia de mercado – pretende apenas produzir coisas, chegando até a produzir pessoas como se fossem coisas (GOUDBOUT; CAILLÉ, 1999). Tais transformações foram caracterizadas por alguns autores como a emergência da “modernidade líquida” (BAUMAN, 2001), da “condição pós-moderna” (HARVEY, 1996), da “sociedade reflexiva” (GIDDENS, 1994), da “sociedade de risco” (BECK, 1992), ou também denominado pós-modernidade (JAMESON, 2002) ou neoliberalismo2 (FOUCAULT, 2008c). Para esses autores, a era da modernidade, baseada nos preceitos iluministas, que buscavam a emancipação humana por meio das forças tecnológicas, cientificas e racionais, cede lugar a uma sociedade fragmentada, instável, que impede o indivíduo de se representar de forma coerente e de estabelecer estratégias para a produção de um futuro melhor (HARVEY, 1996). Michel Foucault (2008c) propõe que o neoliberalismo deve ser interpretado não apenas como uma política econômica do Estado, mas uma forma de conduzir os indivíduos que se generaliza por toda a sociedade. No neoliberalismo a governamentalidade herdada do liberalismo recebe uma reelaboração e o princípio do fatalismo (as coisas são como são, não se pode ir contra o jogo do mercado) é radicalizado: a desigualdade passa a ser considerada parte inerente ao capitalismo, para satisfazer alguns, outros precisam ser prejudicados (FOUCAULT, 2008c). O sistema neoliberal propaga uma liberdade que se restringe a uma liberdade em consumir, e não a uma liberdade emancipadora do sujeito. Dessa forma, livra o indivíduo das 2 Foucault (2008c) entende o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade, indo além de uma política de Estado, pois seus preceitos se generalizam por toda a sociedade, conduzindo o indivíduo a conceber sua vida pelo molde neoliberal. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 responsabilidades com o outro, o que é uma utopia sedutora, à medida que oferece facilidade de sair de uma relação que não mais agrada; e instiga o indivíduo a preferir viver relações pontuais, baseadas na lei da equivalência e da otimização, fomentando um laço fraco e superficial entre os seres humanos. E assim propõem-se uma liberdade plena, mas com a condição de que todos os valores, crenças e paixões sejam transformadas em demanda de bens de consumo. Se antes a produção de mercadorias era definida como algo a serviço das necessidades individuais, ela se torna o valor supremo, um fim em si mesmo, impulsionando o consumo ignóbil (BAUMAN, 2001). Nesse contexto da “modernidade líquida” e da crescente individualização, cada um de nós passa toda a vida redefinindo nossa identidade. Essa redefinição perpétua da identidade apoia-se na teoria do capital humano, criada pelo economista neoliberal Gary Becker (VIANNA 2011). O indivíduo torna-se ele próprio um agenciador de capitais: as relações criadas passam a ser puramente de investimento, sendo assim não se faz amizades e sim se investe no capital social; não se vive um amor, e sim se investe no capital afetivo e até mesmo não se oferta dádivas, mas investe-se no capital de caridade. E, nesse contexto, o indivíduo também se responsabiliza pelo possível fracasso, pois se não consegue prosperar na vida é por falta de investimento em si mesmo; e não por problemas estruturais que deveriam ser solucionados por políticas públicas provindas do Estado. No sentido neoliberal toda a sociedade deveria ser reformatada segundo o modelo de empresa, reconstituindo uma série de valores morais e culturais, surgindo uma nova governamentalidade que não pretende mais mudar a mentalidade dos “jogadores”, mas sim as regras do “jogo”3 (FOUCAULT, 2008a). Pentecostais e neopentecostais no Brasil A presença dos evangélicos no país é antiga, surgiu com a vinda de missionários estrangeiros no século XIX, representantes do protestantismo histórico que criaram templos das igrejas Luterana, Presbiteriana, Congregacional, Anglicana, Metodista, Batista, Adventista. Tais igrejas surgiram a partir da Reforma Protestante, são religiões mais racionalizadas e éticas, não possuem formas de mediação com Deus, pois acreditam se tratar de uma entidade supramundana e inacessível (WEBER, 2005). 3 A governamentalidade neoliberal garante uma liberdade, mas não como ideologia, é na verdade uma tecnologia de poder, que exige que o próprio indivíduo seja agenciador de capitais, ou seja, responsáveis por investir em si mesmo em um contexto de regras que mudam permanentemente. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 Para a compressão das mudanças ocorridas na religião pentecostal para o atual neopentecostalismo, diversos pesquisadores da área passaram a separar esse campo religioso em três ondas, não significando, contudo, eventos fechados, pois cada uma das ondas se entremeia, influenciando mutuamente. O objetivo é ordenar os acontecimentos e tornar mais claro a evolução histórica dessa religião e suas distinções teológicas (MARIANO,1999). As primeiras denominações evangélicas que surgiram no Brasil, representantes da primeira onda do pentecostalismo são: Congregação Cristã no Brasil (1910) e a Assembleia de Deus (1911). Ao contrário do protestantismo histórico, restituíram a mediação dos homens com elementos mágicos e divinos, destacando os dons do Espírito Santo – como falar em línguas estranhas, ter o dom da cura e o discernimento de espíritos, por exemplo – e retornando a crenças e costumes do cristianismo primitivo, tais como a cura a partir de expulsão de demônios, a concessão divina de benção e a realização de milagres. Outra característica dessa onda é a criação de um corpo burocrático para administrar a igreja, para que continuasse existindo além da vida de seus fundadores (MARIANO. 1999). A segunda onda é chamada de pentecostalismo neoclássico, que iniciou nos anos 50, com a chegada de missionários dos EUA que criaram a Cruzada Nacional de Evangelização. A partir da Cruzada, novas igrejas pentecostais surgiram: a Igreja do Evangélico Quadrangular (1951, São Paulo), Brasil para Cristo (1955, São Paulo), Deus é amor (1962, São Paulo), Casa da benção (1964, Minas Gerais), além de outras de menor porte. Essas igrejas possuem a forma de mediação eclesiástica trazida pela primeira onda, e uma inovação com o uso do rádio para pregação, além da criação de um evangelismo itinerante em tendas espalhadas pelo País, tendo em vista a ascensão dos evangélicos (MARIANO, 1999). A terceira onda do pentecostalismo, denominada de neopentecostalismo, tem como a sua maior representante a Igreja Universal do Reino de Deus (1977). É a vertente evangélica que mais cresceu no Brasil, principalmente a partir dos anos 90. Seus representantes possuem uma grande participação política partidária e utilizam cada vez mais as mídias eletrônicas como meio de divulgação. Já os adeptos são, em sua maioria, de camadas menos favorecidas e que estão em situações vulneráveis, sendo facilmente atraídos por serviços mágicoreligiosos que prometem resolver problemas sem soluções imediatas, tais como: desemprego, degradação familiar, doenças, entre outros. Os crentes fazem isso assumindo uma guerra espiritual contra o diabo, que seria o culpado por todos os males, de forma a vitima-lo. Além disso, a Teologia da Prosperidade, exige que se dê para receber de volta, e ao doar os fiéis Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 devem ser desprendidos, corajosos e apostadores (MARIANO, 1999). Se igualando as características requeridas a um capacitado capitalista neoliberal. O fiel neopentecostal se iguala, nesse sentido, ao apostador em bolsa de valores, mas ao invés de acreditar no poder de lucro de determinada empresa, acredita no poder soberano de Deus, investe-se na fé buscando multiplicar bênçãos. O neopentecostalismo faz uma ruptura com o protestantismo histórico ao depreciar a Teologia da Predestinação e crer na Teologia da Prosperidade. Por meio dos dons do Espírito Santo o homem ganha poder, pois é através dele que o divino se manifesta: fala em línguas, profetiza, promove curas; aproxima os homens e Deus novamente, e abre a possibilidade de negociação com o divino, de forma a barganhar as graças que se deseja alcançar. No neopentecostalimo o fiel não é visto como um sujeito ético que toma as decisões de sua própria vida, ele é vítima, pois os problemas nos empreendimentos terrenos são obras do diabo, mas para alcançar a prosperidade não basta apenas se livrar do mal, precisa também ser “pró-ativo” na doação para ter uma vida prospera. E só através de inúmeros simpatias e regalos oferecidos a Deus é que o fiel alcançará bênçãos, que são recompensas mundanas tais como dinheiro, saúde, trabalho, amor; e a salvação, é a recompensa para o outro mundo (MARIANO, 1999). O neopentecostalismo, que representa a terceira onda, é um movimento religioso que inaugura um tipo de racionalidade diferente da analisada por Weber em sua Sociologia das religiões. Para o sociólogo alemão, o processo de racionalização das religiões significa a eliminação da magia e a implementação da ética na orientação das condutas (MARIANO, 1999). O neopentecostalismo, ao contrário, propõe uma remagificação nos ritos ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, institui uma racionalização na forma de se organizar, que tem o caráter empresarial, de maneira a instituir o modo racional não no sentido ético, como o sociólogo imaginava que aconteceria. Dessa forma, por meio da espiritualidade, e se baseando na fragilidade dos indivíduos, seja ela material, emocional ou física, coloca-os frente a um Deus que apenas retribui. O indivíduo doador depende somente do seu sacrifício para conseguir alcançar a sua prosperidade (MARIANO, 1999). E assim, como no neoliberalismo, transfere para os indivíduos a responsabilidade por suas conquistas ou fracassos. O neopentecostalismo e o novo espírito do capitalismo Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 O capitalismo se tornou flexível se contrapondo a ordem metódica estabelecida pelo fordismo, e a religião passa a se organizar de acordo com as regras do mercado, oferecendo serviços mágico-religiosos para uma imensidão de almas ávidas por prosperidade, contrariando a “possibilidade objetiva” que Weber (2005) vislumbrou ao imaginar que a religião se tornaria mais ética eliminando a magia de sua prática. As mudanças do espírito do capitalismo, se iniciaram, pois, após a crise fordista em 1973 em que há a emergência, de um novo regime de produção capitalista, chamado por David Harvey (1996) de acumulação flexível. Esse novo modo de produção propôs uma quebra da rigidez no interior das empresas buscando novas estratégias de controle. Além disso, no modelo capitalista muda-se a forma de gerir a empresa. As políticas neoliberais, e consequentemente seus efeitos no âmbito social, ocuparam lugar no Brasil a partir dos anos 90. Após a redemocratização, o país se abre para novas tecnologias, para a terceirização de serviços. Tais mudanças alteraram a vida do brasileiro em direção a liberdade de escolha, e por outro lado, ao crescimento do individualismo e da violência. Além disso, o Estado em prol de garantir a segurança, limita, cada vez mais, os direitos individuais. Isso porque no “estado de exceção” as leis se suspendem e passa a se governar por decretos: isso gera uma zona de indiferenciação entre o legal e o ilegal, o lícito do ilícito, de forma que a exceção se torna a regra. O foco da tensão está em conduzir os indivíduos por meio de um “dispositivo gestionário” (TELLES, 2010), tratando-os como “vida nua”4 (AGAMBEN, 2002). O espírito do capitalismo que outrora foi mostrado por Weber (2005) que exigia um agente econômico rotineiro e metódico encontrou na Teologia calvinista de Predestinação os aparatos necessários para se alavancar, pois o Deus calvinista distribuía as graças ao acaso, o que acabou gerando nos devotos uma necessidade de se provarem efeitos por meio de uma postura racional, obediente e muito disciplinada. Já nesse novo “espírito” do capitalismo, por ser flexível, exige-se que o indivíduo seja cada vez mais desprendido, corajoso e apostador. Tais características se igualam, como veremos, às exigidas de um fiel do neopentecostalismo, que não por acaso foi a religião que mais cresceu também a partir dos anos 90. O número de evangélicos na população brasileira passou de 2,6% na década de 40 para 22,2% no ano de 2010. Dos que se declararam evangélicos 2.289.634 pertenciam à Congregação Cristã e Conceito do filósofo político Giorgio Agambem (2002) que entende por “vida nua” uma vida matável e insacrificável, marcando o deslocamento de pessoa para população. 4 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 1.873.243 da Universal do Reino de Deus segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O neoliberalismo não é apenas uma política econômica, pois influencia toda a sociedade, inclusive as religiões neopentecostais. Nesse sentido, pretendemos realizar um trabalho sobre as “afinidades eletivas” entre o neoliberalismo e o neopentecostalismo, mostrando como o discurso religioso se adapta aos preceitos econômicos, com o transporte de estratégias usadas no mercado para o campo religioso, no esforço de aumentar o número de adeptos/clientes. O grande êxito das igrejas neopentecostais, principalmente nas camadas menos favorecidas, se deve, em grande medida, pelas estratégias empresariais e de marketing que buscam promover o atendimento mágico-religioso oferecido por tais igrejas, que prometem soluções imediatas a problemas de pessoas que se encontram em situações precárias e por isso vulneráveis a esse proselitismo. Segundo Mariano (1999) há nessa denominação religiosa uma acomodação ao mundo, que deixa para trás vários traços sectários, hábitos ascéticos e outros estereótipos pelos quais os “crentes” eram reconhecidos, aumentando a possibilidade de mais pessoas poderem participar, pois não há uma doutrina rígida a ser seguida. No neopentecostalismo não se produz ascese porque se explica a desigualdade do mundo pelo dualismo entre Deus e o diabo, de forma que para se livrar das angustias não é necessário internalizar uma disciplina ascética, mas livrar-se do mal, pois tudo que não é justo não é obra de Deus, mas provem do diabo. O diabo representa assim uma figura ambígua: ao mesmo tempo em que é inimigo é também necessário para que Deus possa provar o seu poder. Estudo de caso 1: A rede de relações de reciprocidade entre fiéis em um templo da Congregação Cristã do Brasil A etnografia realizada na Congregação Cristã do Brasil iniciou em agosto de 2014 e terminou em janeiro de 2015. Os cultos ocorrem em três dias na semana, com duração de uma hora e meia. A pesquisa foi realizada em duas unidades, uma no Centro e outra no bairro Santa Mônica, em Uberlândia (MG). Os templos dessa congregação seguem o mesmo padrão arquitetônico. O método usado nesta investigação foi a observação participante; o objetivo foi dialogar e conviver com os fiéis de acordo com os costumes locais, mostrando interesse pelo Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 que era importante para eles. Além das conversas informais, entrevistei dez membros sendo os cinco primeiros (entrevistados 1 a 5) da unidade do bairro Santa Mônica e os cinco últimos (entrevistado 6 ao 10) pertencentes a unidade central. Trechos dessas entrevistas irão compor este texto. O que um fiel da Congregação pretende alcançar em primeiro lugar é a salvação e não as bênçãos mundanas. Desse modo, a igreja pode ser classificada como ética e de negação do mundo, em que os bens buscados são extramundanos; opostamente ao neopentecostalismo que se remagificou para barganhar com Deus bens mundanos para essa vida, se tratando de uma religião de afirmação do mundo. Quando questionados sobre a aliança existente entre os membros que moveria uma reciprocidade entre eles, as respostas foram divergentes: 30% dos entrevistados afirmaram que a aliança seria unicamente com Deus, e 70% dizia haver uma ajuda mútua entre os membros. Um dos que optaram pela primeira resposta, o entrevistado 3, afirmou: Tudo que a gente faz a gente busca primeiro de Deus, nós temos que ter uma resposta de Deus para gente fazer as coisas, entendeu? E aquilo que é tocado no nosso coração, a gente faz conforme Deus mostra pra gente, tá? Não é que eu vou pensar: “Ah o Fulano lá está precisando”, e eu vou e ajudo. Muitas das vezes a pessoa que está precisando, ela não fez uma coisa assim que seja agradável aos olhos de Deus, por isso que ela está passando por aquele processo. Então ela não tem que ver comigo, ela tem que buscar de Deus, pra Deus dar a resposta pra ela, porque que ela está passando por aquilo. Observa-se aqui, com essa declaração, que ainda há na igreja pentecostal traços históricos religiosos da ética protestante, analisada por Weber (2005)5, que previa uma desconfiança na amizade e ajuda dos homens e pregava a confiança de verdade mesmo apenas em Deus. A respeito da preferência comercial e prestação de serviço entre os irmãos, que acarretaria em um impacto nas relações de trabalho, o resultado se dividiu: 50% afirmavam sempre dar preferência para o comércio e contratação de membros da Congregação; a outra metade respondeu que às vezes sim, mas que não era sempre. Sobre isso os motivos “[...] forma mais extrema da exclusividade da confiança em Deus, [...]. [...] contra toda confiança na ajuda e na amizade dos homens. Profunda desconfiança dos amigos, inclusive do amigo mais próximo” (WEBER, 2004: 96-97). 5 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 13 variavam: não fazerem distinção de pessoas ou por não terem conhecimento de alguém que ofertava os serviços no momento que precisaram. A entrevistada 1, que é comerciante no ramo alimentício, pertencente à Congregação desde criança respondeu: “Não privilegiamos nenhuma pessoa em especial, para nós todos são iguais, pertencendo ou não a congregação. Dos seus funcionários quantos pertencem a congregação? Oito servem a Deus, e quatro não”. Nesse contexto, mesmo quando se diz que não há a preferência, ao analisar a realidade de fato, é possível perceber essa relação da irmandade influenciando na contratação para o trabalho, embora não seja possível afirmar que há uma rede de reciprocidade pautada pela dádiva, pois o objetivo não é criar um laço entre eles, o que se esperar é fazer a vontade de Deus, só se faz o bem ao próximo para cumprir um desejo divino. Em grupos religiosos dessa natureza, acredita-se fortemente que a alternativa para acabar com as maldades do mundo é a salvação religiosa, e não a transformação da humanidade, seja por meios disciplinares (FOUCAULT, 2000), seja através de uma autonomia política (MARX, 2005), ou pela capacidade de formação de uma “ágora” (BAUMAN, 2001) capaz de transpor problemas privados para espaço público, procurando encontrar soluções coletivas e reconstruir a polis tal como os gregos. Esses, ao contrário do que fazemos hoje, não optavam por soluções individuais para problemas que são socialmente produzidos. Mas ao que parece tais saídas não tem muito espaço na “modernidade líquida”, e por isso cresce a procura de soluções no campo religioso, impulsionando o pentecostalismo e neopentecostalismo (CÔRTES, 2007). Na Congregação Cristã do Brasil pede-se o dízimo, mas isso é feito de forma discreta. Há, na entrada da igreja, uma caixinha com separações para se depositar o dízimo que pode ser direcionando para a manutenção da igreja, obra da piedade, construção, coletas especiais e coletas gerais. Quem determina a quantidade e para onde vai a quantia é o próprio fiel. Nas denominações pentecostais é possível perceber uma construção de uma ética ascética, mostrando ao indivíduo como ele deve se comportar, mas na maioria das vezes, isso é feito de forma proibitiva, criam-se tabus acerca do que agrada ou não a Deus. Ou seja, é uma ética negativa, que privilegia ressaltar o que não deve ser feito pelo indivíduo. Dessa forma não o conduz necessariamente a ser uma pessoa melhor para o próximo, o que poderia causar um efeito de fato na realidade em que se vive nesse mundo, mas o direciona a ser uma pessoa melhor para Deus, objetivando o extramundano. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 14 Por isso as relações criadas no interior dessa instituição religiosa não repõem um sistema de dádiva, pois não importa o laço que possa existir entre os membros; a relação que se objetiva manter é com Deus. Entretanto, o fiel ao se propor agradar a Deus, pode, em algumas situações, oferecer ajuda a alguém da irmandade, preferenciando o comércio ou serviço, ou ainda ofertando um vínculo empregatício. Mas isso só ocorre se sentirem ser essa a vontade de Deus. Estudo de caso 2: A exacerbação da individualização na relação do indivíduo com Deus na Teologia da Prosperidade em uma denominação da Igreja Universal do Reino de Deus O trabalho de campo na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) iniciou-se no mês de agosto de 2013 e finalizou em janeiro de 2015. Foram escolhidas duas unidades da IURD sendo uma localizada no bairro Santa Mônica e outra no Centro, ambas da cidade de Uberlândia (MG). Os cultos ocorrem diariamente as 7h30, 10h, 12h, 15h, 19h30 e 22h. Além da observação, realizei dez entrevistas com membros da igreja. Na IURD há cultos temáticos para cada dia da semana, delimitando o público a partir da demanda buscada por cada um (curas, problemas financeiros, sentimentais, entre outros.). No domingo, é dia de louvor e busca do Espírito Santo; na segunda-feira é dia da prosperidade financeira (Congresso Empresarial); a terça-feira é reservada às sessões de descarrego; na quarta-feira reunião dos filhos de Deus; quinta-feira é reservada à terapia do amor; sexta-feira é dia da libertação e sábado é a reunião do jejum das causas impossíveis. As minhas visitas às igrejas concentraram-se na segunda-feira, pois é o culto destinado aos empreendedores, e o objetivo da pesquisa é referente a eles. Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, conseguiu gerir uma religião nos moldes empresariais, por meio de um corpo administrativo e uma rede de subordinados (pastores, bispos, obreiros). Dessa forma, a IURD conseguiu ampliar sua rede de fiéis fazendo uso de uma lei do mercado: a da oferta e da procura (CAMPOS, 2012). O mercado e seu discurso flexível, característico do novo espírito do capitalismo, ocupam lugar também na religião neopentecostal, no seu modo de organização, seguindo moldes empresariais, e também no discurso, pois exige dos adeptos a capacidade de serem desprendidos para se desfazer de seus bens em troca de bênçãos. Mas não seguindo o modelo Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 15 do sistema de dádiva, pois o que interessa é o retorno, aproximando-se então de um jogo de apostas, que segue a lógica de quanto mais se aposta, mais há chance de ganhar. Em uma conversa informal, uma pessoa idosa me disse: “coloquei um terreno no altar”. E a graça que ela queria alcançar era que os filhos aceitassem o fato dela ser da igreja, ainda que a atitude de doação de um bem imóvel da família provavelmente possa ter gerado o efeito contrário. Além disso, mesmo doando grandes quantias não se cria um status ou prestígio moral entre os membros que poderiam construir uma aliança ou alimentar um vínculo entre eles, pois isso não é divulgado; só se evidencia as graças alcançadas, os testemunhos só abarcam a questão da prosperidade, ficando subentendido que o fiel tenha se sacrificado (doado) bastante para alcançá-la. A IURD prega que se a pessoa passa por dificuldades financeiras ou não consegue arrumar emprego, a causa disso é a falta de Deus, que possibilita o diabo a ocupar o lugar, conduzindo o indivíduo a cometer pecados, e se entregar ao vício e a miséria. Mas como sabemos as dificuldades sofridas pelos indivíduos das camadas mais pobres da sociedade, que são maioria do público da IURD, decorre de um problema estrutural, que provém do sistema capitalista vigente. Pois, ao propor o modelo neoliberal como molde da sociedade, valorizando a competição e responsabilizando o indivíduo pelas suas conquistas e também pelos seus fracassos, elimina-se a responsabilidade do Estado em proporcionar segurança, saúde e educação para todos, transformando aparatos básicos de sobrevivência em mercadoria. O assunto predominante no discurso do pastor é sempre a oferta, ressaltando a importância de se ter fé e de se aliar com Deus, entregando a sua vida a ele e sendo obediente com o pagamento do dízimo, que significa a sua fidelidade com Deus, e sendo fiel, terá retorno. Realizei cinco entrevistas em cada unidade da IURD: os entrevistados de 11 a 15 são adeptos/clientes da unidade localizada no bairro Santa Mônica, e os entrevistados de 16 a 20 frequentam a IURD central. O entrevistado 18 é obreiro, tem 69 anos, reside em Uberlândia há 29 anos, e frequenta a igreja há 13 anos. Ao ser questionado acerca da aliança entre os membros, ele disse haver uma união em oração e ressaltou uma característica importante: “[...] a Igreja Universal é uma igreja diferente, toda reunião tem gente de primeira vez, é grande demais a rotatividade”. Porque aqui, se você ver, essa igreja lotada cabe 1800 pessoas, se tiver 1800 pessoas eu te falo que mais da metade não é convertida”. O entrevistado 11, de Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 16 64 anos, militar aposentado, afirmou: “o pessoal aqui é totalmente diferente, não é aquele povo que termina o culto e fica aqui batendo um papo, cada um como se diz „cuida de si‟”. Ou seja, não há uma ajuda mútua que provoque impactos nas relações de trabalho entre os membros, pois muitos deles estão de passagem pela igreja. Como já havia ressaltado Jessé Souza, ao relacionar os grupos de uma determina fração de classe com a inclinação para determinada religiosidade, a maioria dos adeptos do neopentecostalismo pertencem a “raléestrutural” e procuram a religião como uma espécie de pronto socorro objetivando resolver casos urgentes. A contradição intrínseca do Congresso Empresarial é: como membros da ralé serão capitalistas empreendedores? Nessa difícil tentativa, há discursos que ressaltam a necessidade de ser empreendedor mesmo sem condições, porque segundo o pastor, são as grandes ideias que transformam a realidade do sujeito, e para isso mostram vídeos motivacionais de pessoas que não tinham trabalho, mas a partir de uma iniciativa construíram algum empreendimento e puderam ser empreendedores mesmo provindos da ralé. Considerações finais As duas denominações pesquisadas são bem diferentes uma da outra: no discurso religioso, na forma de organização da igreja e na relação com Deus e com os outros membros. Enquanto na Congregação Cristã o objetivo principal é a salvação, na IURD as bênçãos que se espera são mundanas. Hoje no Brasil o campo religioso é marcado por uma competição entre as Igrejas, e o catolicismo é o que perde mais adeptos, principalmente para o neopentecostalismo. Os dados dos entrevistados acerca da origem religiosa, apenas por denominação pentecostal e neopentecostal e não por bairro – pois a amostragem coletada é muito reduzida – podem ser observados no Gráfico 1. Gráfico 1 – Origem religiosa dos entrevistados Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 17 Fonte: Dados apurados pela pesquisa Observa-se que como a formação da IURD é relativamente nova (1970), não há muitas pessoas que pertencem a ela desde sempre. No caso das dez pessoas que entrevistei não havia nenhuma. Já na Congregação 20% frequentam a igreja desde criança, 30% não fazia parte de nenhuma religião e 50% eram anteriormente católicos. Enquanto na IURD essa porcentagem é ainda maior, 70% deixaram o catolicismo, sendo que o principal motivo citado entre os entrevistados era que ensinavam a palavra de Deus de forma errada. A entrevistada 20, de 59 anos, funcionária pública federal aposentada, disse: “Porque não me trouxe nada, só me tirou, e eu nem sabia ler a bíblia quando eu tava lá, a gente lia era um jornal na missa”. Já o entrevistado 11, de 64 anos, militar aposentado, que pertenceu a Quadrangular por 23 anos e está há pouco mais de um ano na IURD, afirmou: “Fui batizado lá. Mas lá é muito diferente daqui, porque o ensinamento de lá é limitado. Aqui o pastor leva mais a gente a fazer um sacrifício, ensina mais como a gente permanecer na fé. E lá, e em diversas Quadrangulares que eu fui, pregam a palavra e ficam só naquilo, não abrem assim um leque, como abrem aqui, de você deve fazer isso, você deve fazer aquilo para alcançar o que deseja”. Ou seja, nesse novo panorama as pessoas esperam que a religião auxilie a vida na terra, e não uma salvação que não seja tangível (PIERUCCI, 1996). Campos (2012) afirma que a Congregação Cristã do Brasil caiu 8% na última década. Isso porque as pessoas buscam a religião pensando em bens mais palpáveis, mesmo porque com as grandes adversidades que se vive pela não inclusão nos padrões de consumo, o que se espera é superar isso, acabar com o desemprego, com algum problema de saúde para cujo tratamento não há condições de custeio, etc. Dessa forma, o fiel busca melhorar essa vida, ou seja, se viver melhor com a ajuda da religião (PIERUCCI, 1996). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 18 A respeito das profissões em cada denominação comprovou-se a tese de Jessé Souza (2010), de modo que 50% dos entrevistados da Congregação Cristã no Brasil disseram possuir o próprio negócio, mesmo que seja “uma portinha de marmitex”, como respondeu a entrevistada 4, de 49 anos e que pertence a igreja há 18 anos, compondo o grupo dos “batalhadores”. Contudo, os resultados obtidos a partir das entrevistas com os fiéis neopentecostais acabaram em parte comprometidos porque foram acessados através de uma intervenção enviesada do pastor que influenciou na seleção dos entrevistados, uma vez que essa não foi feita por mim, o que impediu que eu entrevistasse membros da “ralé”, que é o público mais denso da IURD. Minha amostra acabou se limitando a pessoas que auxiliam o culto como os obreiros, e outros membros que tem algum tipo de relação mais íntima com igreja conforme ilustra o Gráfico 2. Gráfico 2 – Profissões dos entrevistados por igrejas Fonte: Dados apurados pela pesquisa A respeito da preferência comercial, 70% dos entrevistados da IURD responderam não privilegiar algum serviço ou comércio de membros da igreja. O entrevistado 19, de 22 anos, que frequenta a igreja há um ano, disse: “Nunca cheguei a olhar por esse lado, mas não dou preferência para lugares próximos a de onde eu trabalho e de onde eu moro”. Apenas 30% responderam que às vezes, mas não souberam citar exemplos das vezes que preferenciaram algum membro. Já na Congregação Cristã, 50% responderam que sim e os outros 50% afirmaram que às vezes. A entrevistada 2, que pertence a igreja desde criança e é sócia de um salão de beleza, comprovou: “De vez em quando, não é sempre. Mas muitas mulheres da igreja procuram a gente aqui, dão preferência. E quando a gente precisa e tem algum irmão para indicar, por Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 19 exemplo, já peguei serviços de pedreiro, costureira, eu dou preferência sim.”. O resultado dessa indagação é ilustrada no Gráfico 3. Gráfico 3 – Preferência de serviços comerciais entre os entrevistados Fonte: Dados apurados pela pesquisa Desse modo conclui-se que entre os “batalhadores” da Congregação Cristã do Brasil há uma rede de sociabilidade entre os fiéis, mas não seguindo a lógica do sistema de dádiva, pois o que motiva a ajuda é a vontade divina e não a criação e manutenção do laço social entre os membros. Em contrapartida, o mesmo não foi possível observar na IURD, pois prevalece entre a “ralé” uma relação individualizada com Deus através da mediação do sacrifício. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Ronaldo de. A Igreja Universal e seus demônios. Um estudo etnográfico. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009. AGAMBEN, Giorgio. O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001. CAILLÉ, Alain; GRAEBER, David. Introdução. In: MARTINS, Paulo Henrique (org.) 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Na dissertação foram pesquisados pastores de duas denominações neopentecostais: Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus, a primeira constará deste escrito. Dos diversos temas trabalhados, pode-se dividir entre os subjacentes e os centrais; como temas subjacentes: a história de vida dos pastores, a experiência individual da conversão, a questão do carisma, as estratégias de evangelização e o trânsito religioso entre fiéis. Os temas centrais, por sua vez, estão embasados na sociologia de Anthony Giddens com relação à sociedade pós-tradicional que, da mesma forma, encontram-se conceitualizados com base nas demandas que esta sociedade impõe aos indivíduos. Desta forma, os temas centrais expostos procuram observar: quais são as demandas, em condições pós-tradicionais, que os indivíduos trazem aos pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus e os motivos pelos quais algumas pessoas não conseguem a resolução desses problemas da vida. Destaca-se ainda, nesta vertente central, a causa desses problemas e se os indivíduos se preocupam com a salvação da alma ou com a resolução das demandas. Todos esses assuntos, tratados na dissertação, podem ser objetos de consulta, na íntegra, uma vez que não será possível 1 Mestre em Ciências Sócias pela UNESP – Marília (2014). Possui Graduação em Ciências Sócias – Bacharelado e Licenciatura pela UNESP – Araraquara (2006). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase nas pesquisas em Sociologia da Religião; Modernidade e Tradição. Link para acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/1332610251785033 2 Atualmente é Professor Assistente Doutor na Universidade Estadual Paulista – Campus Marília. Tem experiência na área de Ciências Sociais, Direito e Relações Internacionais com ênfase em Sociologia Política, atuando principalmente nos seguintes temas: cooperação, cidadania, Direito, Direitos Humanos, razão – tradição, religião e questão ambiental. Graduação em Ciências Sociais – UNESP (1989), Mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP (1994) e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP (1999). Link para acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/6120166601512351 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 trabalhar todos neste artigo; porquanto o destaque, para dois temas considerados essenciais e expostos como parte da formulação do pensamento social destes pastores. Assim, o intuito é de instigar o leitor, não apenas na apreciação deste artigo, mas, também, na leitura da dissertação. Introdução Este artigo é fragmento da dissertação de mestrado intitulada: Religiões neopentecostais brasileiras no contexto da sociedade pós-tradicional: uma análise a partir da perspectiva dos pastores i , defendida em maio de 2014 junto ao Programa de Pósgraduação em Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP – Campus de Marília – SP. Trata-se de um extenso trabalho que contou com a participação de 23 pastores titulares das igrejas Mundial do Poder de Deus e Internacional da Graça de Deus, em 13 municípios do interior paulista, a saber: Rio Claro, Piracicaba, Americana, Santa Bárbara do Oeste, Saltinho, São Pedro, Santa Maria da Serra, Rio das Pedras, Artur Nogueira, Engenheiro Coelho, Conchal, Charqueada e Itirapina. Com relação aos pastores que colaboraram com a dissertação, todos tiveram a permissão de seus superiores hierárquicos ii e participaram de livre e espontânea vontade; preferiu-se trabalhar apenas com os titulares, pois estes possuem vasta experiência no pastorado neopentecostal, tendo todos percorrido diversas cidades iii antes daquela em que estavam no momento da entrevista. Assim, a exclusão dos pastores auxiliares por possuírem menor experiência pastoral, por serem mais novos e solteiros. Antes de tratar sobre os temas trabalhados, especial atenção deve ser dada às metodologias aplicadas ao trabalho da dissertação: sob a perspectiva da pesquisa qualitativa, observação participante, entrevistas e história de vida dos pastores. Na história de vida, por exemplo, procura-se observar a origem social dos pastores, local de nascimento, condição social familiar e demandas familiares e individuais que os levaram à experiência da conversão. O caminho traçado até o pastorado, as etapas pelas quais passaram, o trânsito religioso que verificam entre as pessoas que frequentam, ou frequentaram, suas denominações e as estratégias de evangelização são temas subjacentes àqueles considerados essenciais e que foram moldando todo o trabalho. Dos temas centrais pode-se destacar: quais as demandas iv , em condições póstradicionais, que as pessoas trazem até os pastores; como os pastores oferecem respostas a Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 estas demandas; por que elas existem; como respondem aos motivos pelos quais as pessoas não conseguem resolver suas demandas na igreja, se as pessoas estão mais preocupadas com a salvação da alma ou a resolução imediata de seus problemas e a questão do carisma. Como será impossível tratar todos esses temas neste artigo, foram selecionados dois em especial: quais as demandas recebidas e quais as respostas àquelas pessoas que não conseguem as bênçãos que procuram. Destes vastos e curiosos materiais empíricos, gravados e transcritos com rigor, obedecendo inclusive o modo de falar de cada pastor, seria estéril se não fosse conceitualizado. Os conceitos servem como baliza para a pesquisa empírica. Assim sendo, destaque para autores como Max Weber, Pierre Bourdieu, Peter Berger, mas, sobretudo à sociologia de Anthony Giddens, seus conceitos e reflexões sobre a sociedade pós-tradicional e radicalização da modernidade em conjunto, também, com autores como Scott Lash, Ulrich Beck e Stuart Hall. Por fim, antes de conceitualizá-lo, cabe ressaltar, que por uma questão de espaço e adequação, neste artigo serão apresentados apenas o trabalho realizado junto aos pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus. A sociologia de Anthony Giddens como pano de fundo. A sociedade atual, pós-tradicional, impõe aos indivíduos uma série de mudanças que podem ser percebidas nas mais diversas esferas da vida cotidiana que transforma a ordem social, causando uma sensação de mal estar e de que a vida parece estar fora de controle: ... da sensação de que muitos de nós temos sido apanhados num universo de eventos que não compreendemos plenamente, e que parecem em grande parte estar fora de nosso controle ... Em vez de estarmos entrando num período de pós-modernidade, estamos alcançando um período em que as consequências da modernidade estão se tornando cada vez mais radicalizadas e universalizadas do que antes. (Giddens, 1991, p. 12). Esses eventos, aos quais se refere o autor, podem ser percebidos pelos mais simples indivíduos sem o esforço de uma reflexão conceitual, todavia a apropriação de conceitos vindos do exterior merece todo o cuidado por parte do sociólogo para que não se generalizem os casos e não se faça uma sociologia sem o devido cuidado e responsabilidade: “A sociologia é um campo muito amplo e diverso, e quaisquer generalizações sobre ela são questionáveis.” Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 (Giddens, 1991, p. 20). Desta forma, o que pode ser sentido enquanto demanda pelos indivíduos em centros urbanos, pode não ser para outros indivíduos em outras localidades, ou rincões mais longínquos desde país. Os indivíduos em centros urbanos sentem-se perdidos, inseguros e impotentes frente às demandas em condições pós-tradicionais. Os benefícios colhidos pela industrialização acabam por gerar outros tantos fatores que desnorteiam homens e mulheres, modificando, assim, parte daquilo que era um mundo sólido. Neste sentido, as tradições são um bom exemplo de evidências, a sensação que os indivíduos possuem do esvaziamento das tradições estão postos na vida cotidiana. O que compõe a tradição, num sentido mais amplo, não é apenas repetição envolve, também, outros aspectos como os próprios indivíduos, sentimentos de pertencimento, memória e, fincada no presente com vistas ao passado, orienta para o futuro, envolve da mesma forma ritos e aqueles que possuem como missão salvaguardá-la: “Os guardiães, sejam eles idosos, curandeiros, mágicos ou funcionários religiosos, têm muita importância dentro da tradição porque se acredita que eles são os agentes, ou mediadores essenciais, de seus poderes causais...” (Giddens, 2012, p. 102). Muito provavelmente, um dos papéis dos pastores seja guardar as tradições, por exemplo, a do casamento ou da família nuclear. Entretanto, em condições pós-tradicionais, a tendência é de uma secularização maior, ou seja, num sentido prático, pode não fazer diferença para alguns indivíduos, mas o contraditório, da mesma forma, é verdadeiro: indivíduos que se apegam às tradições, sejam elas religiosas, familiares ou que acreditem num casamento que perdure por décadas. Desta forma, as pessoas continuarão a frequentar determinada religião, continuarão se casando e constituindo família, mesmo que observem as mudanças repentinas nestas esferas da vida. Porquanto as tradições não são estáticas, elas podem assumir outra roupagem e se modificarem: “Na ordem pós-tradicional, mesmo na mais modernizada das sociedades atuais, as tradições não desaparecem totalmente; na verdade, em alguns aspectos, e em alguns contextos, elas florescem.” (Giddens, 2012, p. 155). É verdade então, que entre a sensação de esvaziamento das tradições, a secularização da vida social e a reinvenção da tradição, o indivíduo pós-tradicional está submerso nesta névoa, ao menos na tentativa de compreender o que se passa ao seu redor. Outro ponto importante na análise do autor é a questão da compulsão e dos vícios, em condições pós-tradicionais, pois indivíduos podem desenvolver diversos tipos de compulsões: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 “Em um mundo em que se pode ser viciado em qualquer coisa (drogas, álcool, café, mas também em trabalho, exercícios, esporte, cinema, sexo ou amor), a anorexia é um entre outros vícios relacionados à alimentação.” (Giddens, 2012, p. 111). Mais a frente o leitor irá observar, nos relatos dos pastores, que a questão dos vícios é corriqueira. Conforme observado, os indivíduos podem se tornar viciados em diversos aspectos e estilos de vida. A lista apresentada é extensa, isso sem contar com outros tantos problemas psicológicos como ansiedade, depressão, transtorno de bipolaridade, esquizofrenia. Todavia, não rara a comparação da devastação dos vícios em drogas e álcool, que além de causar danos àquele que faz uso, desencadeia a co-dependência familiar: “A ideia do “codependente” veio substituir aquela do propiciador, pois ficou claro que tal indivíduo poderia estar sofrendo tanto quanto a pessoa, ou até mais, com a dependência química.” (Giddens, 1993, p. 101). Assim sendo, pais e mães de viciados sofrem tanto quanto sem saber como resolver esta questão, seja ela por diversos fatores desde a falta de esclarecimento ou a vergonha do estigma. Nota-se que muitos dos dilemas vivenciados em condições pós-tradicionais recaem sobre os indivíduos, entretanto a maioria deles resvala na família e quando este fato ocorre deixa de ser individual para se tornar coletivo; outrora assuntos que pertenciam apenas à esfera da vida privada passam para a esfera da vida pública, o que faz com que surjam corpos de especialistas para tentar oferecer explicações às aflições humanas, sejam eles psicólogos, psiquiatras, médicos, padres, pastores ou sociólogos. Com relação à família, o divórcio tem como consequência direta a reestruturação de laços parentais: “Na sociedade da separação e do divórcio, a família nuclear gera uma diversidade de novos laços de parentesco associada, por exemplo, às chamadas famílias recombinadas.” (Giddens, 1993, p. 109). Cada vez mais o ideal de família nuclear, composto pelas figuras do pai, da mãe e dos filhos, dá lugar às famílias recombinadas; assim entendido: casais de segundas núpcias que co-habitam na mesma casa com filhos (as) do primeiro casamento. Este fato pode tanto ser manejado com tranquilidade e certa estabilidade, como pode ser conflituoso. Ainda pela questão do divórcio, existem diversas variantes para reflexão, principalmente no caso das mulheres, primeiro que seria reducionista o viés da entrada da mulher no mercado de trabalho como único fator que desencadeou sua emancipação, logicamente que este fator colaborou para mudanças de comportamento, mas não apenas isso: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 “As mulheres não admitem mais a dominação sexual masculina, e ambos os sexos devem lidar com as implicações desse fenômeno. A vida pessoal tornou-se um projeto aberto, criando novas demandas e novas ansiedades.” (Giddens, 1993, p. 18). Ao conquistarem sua autonomia, muitas mulheres não admitem a prisão de um casamento fracassadov ou mesmo agressões por parte dos maridos. A sexualidade - antes privada, agora pública – é parte das reivindicações das mulheres, da mesma forma que homens, do prazer sexual que outrora era exclusivo do sexo masculino. Não fazendo alusão que a falta do prazer sexual, por si, é motivo para divórcio, entretanto cabe ressaltar que a mulher era tolhida com relação a sua sexualidade: “A sexualidade emergiu como uma fonte de preocupação, necessitando de soluções; as mulheres que almejavam prazer sexual eram definitivamente anormais.” (Giddens, 1993, p. 33). Desta forma, cada vez mais as mulheres desejam se equipararem aos homens, no campo do direito, das conquistas no mercado de trabalho, da dignidadevi e do prazer sexual. O prazer sexual não está restrito apenas aos casais heterossexuais, mas está presente nos relacionamentos homossexuais, que não só desejam ao prazer, mas, sobretudo, ao reconhecimento de uniões estáveis: Mas desde que o casamento „no sentido tradicional‟ está desaparecendo, os gays são os pioneiros nesse aspecto – os primeiros experimentadores do cotidiano. Já faz algum tempo que eles vêm vivenciando o que está cada dia se tornando mais comum para os casais heterosexuais. (Giddens, 1993, p. 150). Reivindicação legítima, porém conflituosa para alguns setores da sociedade que ainda não admitem relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, outro aspecto é que esses indivíduos, sem generalizações, sofrem preconceito dentro do próprio seio familiar, além do mercado de trabalho e de olhares esguios no espaço social. Em condições pós-tradicionais, esses casais devem estar preparados para a luta, infelizmente, do preconceito. Para encerrar essas breves considerações sobre a sociedade pós-tradicional, a questão das identidades construídas – o eu social – que num passado, vii não muito distante, eram rígidas, pouco flexíveis e garantiam a segurança e certa estabilidade, hoje tornam-se flexíveis e abrem-se numa gama maior de escolhas: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. (Hall, 2006, p. 7). Assim, os indivíduos no decurso da vida realizam o acoplar de novas identidades e descarte de velhas identidades, o que não era possível no passado. Em décadas passadas, o indivíduo geralmente mantinha-se em apenas um emprego até a aposentadoria, possuía um casamento, sem divorciar-se, e se fosse religioso permaneceria em sua religião sem partir para outra. O que significa, em condições pós-tradicionais, que as identidades não garantem mais a sensação de segurança para os indivíduos, que no decurso da vida, acoplam e descartam dependendo da necessidade e do gosto. A cada mudança de carreira ou emprego, por exemplo, ao fim de um casamento através do divórcio, as conversões religiosas, dentre as mais banais como estilos de vida, pode-se com facilidade ir do rock ao samba, do clássico ao country numa rapidez e fluidez que somente são observáveis nos dias atuais. Até este ponto procurou-se demonstrar uma pequena parte conceitual da sociedade pós-tradicional, vista como uma sociedade de risco, que impõe aos indivíduos dilemas a serem enfrentados. Estes indivíduos sentem-se sozinhos, com medos, angústias e percebem as mudanças em diversas esferas da vida; seja na família, com vícios, uso de drogas; na tradição, no trabalho. Longe de ser um cenário apocalíptico, não deixa de ser constatações sociológicas e daqui a diante, serão apresentadas a pesquisa empírica que valer-se-á para a constatação de problemas vivenciados, de fato, por indivíduos comuns em centros urbanos. A pesquisa com os pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus. Foram entrevistados os seguintes pastores da regional da Igreja Internacional da Graça de Deus em Piracicaba/SP, na ordem: Pr. Roberto Carlos de Oliveira – Rio Claro; Pr. José Maria – Rio Claro; Pr. Silvio Luiz Gonçalves – São Pedro; Pr. Claudinei Trajano – Piracicaba; Pr. Robson Elton Vasconcelos – Piracicaba; Pr. Eder – Rio das Pedras; Pr. Rodrigo Antonio Paes – Santa Bárbara d‟Oeste; Pr. Adilson Ferreira Nunes – Santa Bárbara d‟Oeste; Pr. Nelson Augustinho – Santa Bárbara d´Oeste. Totalizando 9 pastores, ratifica-se que por uma questão de espaço e para respeitar a fala dos pastores (sem cortes), infelizmente, ficarão fora deste artigo os 14 pastores da Igreja Mundial do Poder de Deus. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 A pergunta colocada para cada um dos pastores foi diretiva: quais são as demandas ou problemas da vida que as pessoas trazem ao senhor aqui na Igreja Internacional da Graça? A começar, desta forma, pela resposta do Pr. Roberto Carlos que colabora da seguinte maneira: [...] Pra casos de vícios na família, vêm mães aqui que o filho está nas drogas [...], têm também casos de senhoras, já tem caso de homens também, que vêm com problema sentimental. O casamento está acabando, né! E caso também de casamento tá em crise né! [...] E também casos financeiro. [...]. Já atendi pessoas aqui que elas chegaram: Pastor, eu estou nas drogas preciso de uma ajuda [...] Pessoas que vêm, por exemplo, falar do problema dela né! Algumas traz os problemas dos filhos da família, mas muitas traz os seus próprios problemas, que elas têm depressão as vezes tão doentes né!, um problema que a gente chama problema espiritual, que ela tá doente, tá desmotiva, tá abatida, sem vontade de viver, quer dizer, cai na depressão. Algumas têm problemas espirituais como insônia, pesadelo, pânico, síndrome de pânico, medo né!, transtornos né! [...]. Olha, já apareceu casos de doenças tanto, vamos dizer, aquelas que a sociedade pode dizer mais comum, dores, infecções, como também aquelas que, vamos dizer que, não é tão comum como câncer, como leucemia, que é um tipo de câncer também, e outros tipos de doenças graves que são crônicas, também doenças crônicas, também já aconteceu e muitas dessas pessoas já pegamos testemunhos de pessoas que foram curadas [...]. Esta é a primeira resposta, das demais, que irão demonstrar as queixas trazidas pelas pessoas até os pastores. O Pr. José Maria diz: Olha são vários né! [...] tem muitas pessoas com vários tipos de problemas, não é o mesmo, não é igual. Tem pessoas que têm problema no casamento, tem pessoas que têm problema na vida financeira. Então é por aí a fora [...]. Às vezes o problema, uma porta de emprego, às vezes não se abre. Ou às vezes a pessoa trabalhou e não recebeu [...]. Saúde, também pessoa procura muito mais que as pessoa procuram [...] doença, enfermidade, tipo assim [...]. Já recebi aqui no decorrer do tempo que tô aqui, pessoa que tem problema com câncer, já veio até mim já me procuraram então outros que ficaram doentes né! assim nada grave mas já passaram por isso, já venceu. Agora tem aquele que faz tratamento [...], famílias que procuram que tem filho envolvido em drogas [...]. Apesar de destacar diversos problemas, aqueles com relação ao casamento, família, filhos envolvidos com drogas, aparecem. O Pr. Silvio Gonçalves contribui: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 Na maioria das vezes é familiar né! Familiar, conjugal né!, financeiro, profissional, todas essas demandas a gente enfrenta né! A gente tá sempre ouvindo pessoas né! nos procurar porque o casamento não vai bem, porque o filho né! está assim tomando um rumo ruim né!, mal, nas droga né! Tenho visto muito isso né. Reclamações de pais que os filhos estão nas drogas, que estão se relacionando muito cedo né! A gente fica até triste que, às vezes, a gente ouve pessoas nos procurar e falar: olha minha filha está com 14, 15 anos está esperando filho. Isso é muito triste! E sem estrutura né! Problemas, casamento também, sabe, violência no lar, agressão no lar né! Às vezes de filho contra pai também né!, contra os pais agredindo os pais [...], filhos presos também né! “ow, pastor ore pelo meu filho né! meu filho que tá preso.” Na resposta acima, os problemas na família continuam a aparecer: drogas, violência doméstica e filhos presos. O Pr. Claudinei Trajano diz: Os problemas maiores são na vida conjugal né!, alcoolismo, drogas. Agora surgiu essa doença aí, a depressão. Então, são esses os problemas maiores que as pessoas vêm trazer pra gente [...]. Inclusive temos um trabalho aqui, „mães de joelho filhos de pé‟, que é de quinta-feira, que já é um trabalho novo que está começando, começou pouco tempo, que trata assim, diretamente, desse assunto. É um grupo de mulheres que intercede por essas mães que têm os filhos com problemas de drogas, alcoolismo. Estas mães vêm pra Igreja e começa a buscar, tem uma apostila, todo um ensino, uma orientação que é passado pra elas como se comportar com uma situação como essa [...]. Já recebi usuários de drogas e tem casos que a pessoa, ela não precisou procurar assim outro meio de ajuda de autoajuda. Ela, por perseverar, ela conseguiu se libertar dessas drogas [...]. Isso é constante aqui [...]. Nunca se viu tanto problemas conjugais como está tendo hoje. Até este momento, o leitor deve perceber que são recorrentes os problemas conjugais. O pastor acima ressalta esses problemas e destaca um trabalho específico para mulheres cujos filhos têm problemas com drogas e alcoolismo. O Pr. Robson Elton colabora e diz: Todos, todos, você pode imaginar de todos problemas! De todos tipos de problemas a gente tem aqui na Igreja, mas os maiores problemas da sociedade é drogas e casamento né! Esses são os maiores problemas da Igreja drogas, casamento e um terceiro aí, saúde. Muita gente procura a Igreja por estarem doentes. Então, têm casos de pessoas com câncer, casos de pessoas com problemas de visão, audição, problemas sistema nervoso [...]. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 Apesar da Igreja Internacional da Graça de Deus trabalhar enfaticamente com a questão da cura, pode-se observar que as demandas principais estão na esfera da família, como mostra a resposta acima. O Pr. Eder diz: Olha, cada região, cada lugar que a gente passa é problemas diferentes. Nunca você vai sair de um lugar, de uma cidade e ir pra outra e, problema vai ser o mesmo né! Então, cada lugar que você vai, o problema é diferente né! Mas aqui, pelo que eu tenho percebido, Rio das Pedras é uma cidade, é mais problema familiar né! familiar é bastante, casamento né! casamento é tem bastante, dificuldade das pessoas, mas cada lugar que você vai é diferente né! separação, divórcio. Piracicaba era mais vícios né! Vício, como é que eu posso especificar, vício discussão também, problemas na família né! mas lá era mais vícios [...]. Pessoas cancerosas que nem essa semana agora passada, fui no hospital visitar uma pessoa que era cancerosa, tem pessoa com câncer, têm pessoas com AIDS, diversos casos né!, não tem assim específico né!, pessoas que sofrem de câncer, AIDS e outras aí, e outras doenças, doenças psicológicas né! Então, diversos casos né! Depressão, síndrome do pânico [...]. Apesar da resposta contemplar problemas de saúde com AIDS e câncer, os problemas familiares e vícios são recorrentes. O Pr. Rodrigo Paes de forma sucinta afirma: Problemas financeiros, de saúde, casamento e problemas com filhos – drogas. Nome sujo SPC, Serasa [...]. O que existe muito é problemas de casamento, separação, adultério, problemas conjugais [...], problemas com filhos, drogas. Problemas espirituais e mesmo de saúde. Problemas de saúde, desde a mínima doença à gripe, pneumonia, ao câncer, à AIDS. [...]. Hoje as pessoas largam dos seus maridos, de suas esposas e vêm com amante na Igreja! É normal [...]. Demandas financeiras, nome sujo, SPC, Serasa ganharam espaço na resposta acima, entretanto família, adultério, separação e filhos nas drogas, da mesma forma, são observados pelo pastor. Outro que responde de forma sucinta é o Pr. Adilson Nunes: Oitenta por cento é problema familiar, o que nos procura problema familiar né! Dentro desse problema família aí, casamento, filhos, vida financeira, então a maioria dos problemas pessoas elas são verdadeiramente familiar. É o que eu posso dizer problemas dentro da casa né! [...]. Sem delongas, para a resposta acima, a quase totalidade das demandas enfrentadas pelas pessoas estão na esfera da família. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 O Pr. Nelson Augustinho encerra esta etapa das demandas recebidas: É, Eduardo, são vários né! inúmeros! Às vezes você tem cem membros numa reunião e oitenta por cento é cada um com uma dificuldade! Então são inúmeros os problemas, familiar, saúde, financeiro e espiritual, então, são vários problemas que trazem muitas pessoas à casa de Deus né! pra buscar uma solução né!, pra buscar uma ajuda. Então, são inúmeras situações [...] vícios, bebidas, drogas [...]. Infelizmente, hoje é destruição conjugal né! Infelizmente, os casamentos hoje estão muito vulneráveis né! e também, drogas né!, os filhos [...]. Tudo que elas querem é ser livres da enfermidade. [...] também têm aquelas pessoas que têm de fato, na ciência, talvez use outro nome né!, mas no mundo espiritual, pessoas que têm perturbações né!, pessoas que não consegue ter paz, vive em depressão, em tristeza, angústia, desespero [...]. Nesta última resposta destaca-se problemas relacionados às questões de saúde e financeira, todavia vícios em bebidas, drogas e problemas no casamento aparecem. Notas das demandas da vida. Na totalidade das respostas, para as demandas da vida em condições pós-tradicionais, conclui-se que os maiores problemas estão na esfera da vida familiar como, por exemplo, casamentos destruídos, divórcios, adultério, filhos nas drogas ou presos, maridos nas drogas ou alcoolismo e violência doméstica. Justamente é na esfera da família que recaem as maiores transformações no que diz respeito às tradições, aos costumes e as identidades, o que faz com que os indivíduos fiquem perdidos frente às demandas; pais, mães ou responsáveis não sabem como lidar com o comportamento de filhos que se envolvem com drogas ou criminalidade, casais que se divorciam por diversas variantes, os rearranjos familiares, muitas vezes conflituosos, os comportamentos violentos ou vícios por parte de maridos. Desta forma, a esfera da vida privada passa para a esfera da vida pública e esses fatos aparecem em uma proporção muito maior que no passado. Outras demandas também são destacadas pelos pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus como problemas financeiros e enfermidades; no que diz respeito às enfermidades desde as mais simples: gripe, dores, pneumonia, problemas de visão; os problemas interpretados como espirituais como depressão e síndrome do pânico até os problemas mais complexos: AIDS e câncer. Essas demandas aparecem por diversas variantes Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 seja por desespero da própria pessoa, por um atendimento precário na área da saúde ou desconhecimento da própria enfermidade; o fato é que são demandas que fogem ao controle do indivíduo. Assim sendo, todas as demandas em condições pós-tradicionais possuem como características fatores que fogem ao controle dos indivíduos, que os fazem sentir sozinhos, com medo, angustiados e, de certa maneira, buscam refúgio para a resolução desses problemas na Igreja Internacional da Graça de Deus, assim como em outras igrejas neopentecostais e nas religiões de um modo geral; todavia nem todos aqueles que buscam conseguem. Assim, a seguir, serão apresentadas as respostas elaboradas pelos pastores para aquelas pessoas que não conseguem alcançar a resolução dos problemas da vida. Por que algumas pessoas não conseguem a resolução dos problemas da vida?viii Supondo que nem todos aqueles que procuram solução na Igreja Mundial do Poder de Deus, procura-se nesta pergunta observar como os pastores oferecem respostas para tal fato, todavia não se trata de mensurar quantas recebem e quantas não recebem, apenas a constatação de que afinal nem todos recebem, ou seja, não conseguem resolução para as demandas em condições pós-tradicionais. Para abrir as respostas o Pr. Roberto Carlos diz: Olha, eu entendo que é pelo nível de espiritual de fé de cada um! Tá! E pra ter a fé suficiente, pra ser curado é necessário a pessoa ouvir, a pessoa se envolver com as coisas espirituais, ela vai adquirir fé pra ser curada. Agora há casos de pessoas que a fé dela não tá tão amadurecida eu posso unir minha fé com ela e Deus curar [...]. Eu entendo pela palavra de Deus que a falta de fé que impede a pessoa ser curada. Ainda no intuito de levar o leitor às interpretações das respostas dos pastores, esta primeira deixa claro que as pessoas não recebem resoluções para suas demandas por falta de fé. O Pr. José Maria diz: Aí vai também por crer né! Por que têm pessoas que ela busca, ela não recebe, não recebeu aquilo que ela queria? Por quê? Porque o estado, a situação ta agravante. Ela não crê mais naquilo. Têm muitos que já não crê mais assim. [...]. A resposta acima não afirma taxativamente a falta de fé, entretanto se o componente da fé seria o crer, consequentemente a incredulidade seria resumidamente a perda da fé. O Pr. Silvio Gonçalves contribui: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 13 Por mais que a pessoa, Eduardo, diz: assim, eu fiz de tudo, eu me empenhei e não consegue, por mais que ela diz: eu fiz tudo isso, na verdade ela não fez tudo [...]. Têm muitas pessoas que acham que as coisas vai cair do céu, não é assim! Outras pessoas é porque, por causa da fé dela também, ela não tem fé [...]. Pessoas não conseguem a resolução do seus problemas uma por falta de conhecimento né! e também por falta de fé. Apesar de uma pequena menção à falta de conhecimento como empecilho, a falta de fé aqui recebe o destaque. O Pr. Claudinei Trajano diz: Porque elas verdadeiramente não se firmam [...], elas não consegue resolver porque não se firma verdadeiramente, porque toda pessoa que se firma na palavra de Deus, o problema dela são resolvido [...]. Então, eu vejo que os problemas das pessoas, a pessoa vem. Eles não são solucionados, resolvidos por quê? Porque a pessoa, ela não se firma na palavra de Deus. O pastor acima contraria as demais respostas e argumenta que as pessoas não recebem a resolução de suas demandas, pois não se firmam na igreja e na palavra de Deus. O Pr. Robson Elton apresenta uma resposta um pouco mais longa: É a fé! A Igreja é uma coisa, é um lugar que você pra receber alguma coisa, você precisa fé. Então, a Bíblia fala assim que sem fé é impossível agradar a Deus. [...]. Outras pessoas não recebem pela intenção do coração, que Deus é o que sonda os nossos corações. Então, Deus sabe que têm pessoas que se ela receber a benção hoje, hoje mesmo ela não volta mais à Igreja. Então existem esses tipos de coisas. Mas na verdade é fé. Se você tem fé, você coloca o pé na primeira vez na Igreja e você vem naquela certeza de que eu vou sair daqui hoje liberto e curado. Meu amigo, não tem erro! Você bate o pé, mas tem gente que vem tentar: eu vou lá pra ver se melhora! Então, aí, não melhora nada! Isso não é fé, isso é duvida! Então ela tá até duvidando de Deus, não vamos ver se vai dar certo, não! Com Deus não vamos ver se vai dar certo, Deus pode tudo! Ao associar a Igreja como um lugar de exercício da fé, automaticamente aquelas pessoas que não a possuem, deixam de receber aquilo que procuram; nota-se pequena fala ao desejo do coração como algo que poderia atrapalhar o não recebimento do milagre. De forma sucinta o Pr. Rodrigo Paes diz: Porque talvez não estão ainda com fé! Não estão obedecendo [...], mas quando existe a fé e a obediência, a gente resolve. Agora, quando não há fé e a obediência não tem como acontecer o milagre. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 14 Apesar de citar a desobediência, o que prevalece na resposta é a questão da fé como preponderante. O Pr. Adilson Nunes colabora: [...]. Têm pessoas que não recebe, têm pessoas que não recebe com certeza! Se eu falar pra você é falta de fé, não é! Não é falta de fé! Às vezes, a pessoa faz assim, uma coisa da fé, mas a fé é uma coisa simples [...]. Pra criar uma fé que seja operante, a palavra tem que ir lá no coração e aí vai trazer uma fé na pessoa, uma confiança, uma certeza daquilo que Deus tá falando pra ela [...]. É falta de não abrir o coração e falta também, da maneira como as pessoas vêm buscar a Deus [...]. Então, assim, a pessoa vem buscar e Deus tá vendo que se Ele der a pessoa, aí que a pessoa vai sair mesmo, não vai, então ela não vai receber. Outra explicação concedida, contrariando a falta de fé, é esta apresentada acima com o argumento de abrir o coração. Assim, para a pessoa resolver sua demanda ela precisa abrir o coração e ouvir a palavra para que sua fé seja operante. Para encerrar estas ilustrações, o Pr. Nelson Augustinho diz: Então, aí Eduardo, é algo que, como nós falamos né! são inúmeras situações, é muito grande e complexo o porquê não alcançar uma benção. Vai desde a pessoa não ter o conhecimento do direito dela naquela benção até os mistérios de Deus! [...]. Então é muito complexo falar: olha, você não alcançou a benção por causa disso. Se fosse assim todo mundo alcançava a benção, [risos] era facilmente. São diversas situações né!, são diversas situações individual de cada pessoa. Às vezes, nós sabemos que o que mais impede né! o filho de Deus de não alcançar a benção, a gente sabe que muitas vezes né! infelizmente, também, é falta de fé, é falta de crer, que querendo ou não o ser humano acaba tendo. Como já falamos várias vezes, ninguém é perfeito e infelizmente, somos passíveis de erros né! e, às vezes, nesses erros, o Diabo aproveita pra prender nossa benção e atrapalhar Deus de realizar em nosso coração. E, às vezes, o “não” de Deus é a maior benção na vida da pessoa. Porque o “não” de Deus ele é milagre! É benção também. Às vezes, a pessoa fala: não consegui por quê? Agradeça a Deus né!, louve a Deus e tenha de fato fé que Deus vai prover o melhor. Nesta última resposta, apesar do pastor apresentar outras variantes para resposta acaba por enfatizar a falta de fé para aquelas pessoas que não conseguem alcançar resolução das demandas da vida. Notas a respeito da não resolução da demandas da vida. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 15 Como detentores do sagrado, é parte da responsabilidade dos pastores oferecer respostas àqueles que frequentam a igreja. Essas respostas são tanto para o sim quanto para o não; neste caso a explicação dos motivos pelos quais as pessoas não alcançam aquilo que buscam, ou não conseguem a resolução para as demandas da vida em condições póstradicionais. Pode-se chegar à conclusão que, neste quesito, a maioria dos pastores da Igreja Internacional da Graça de Deus atribui à falta de fé como resposta plausível àqueles que não conseguem alcançar aquilo que procuram. Outras respostas minoritárias aparecem como: a desobediência, o não se firmar na palavra, a falta de abrir o coração e o desejo do coração, mesmo assim são respostas elaboradas e oferecidas que fogem à explicação principal, mas que são reproduzidas da mesma forma. Contudo, cabe destacar a falta de fé como empecilho para a não resolução das demandas em condições pós-tradicionais, o que não é de se estranhar, pois na Igreja Internacional da Graça de Deus e nas aparições do Missionário R. R. Soares, a oração da fé, principalmente para a cura de enfermidades, é destacada desta forma. Sem esse componente, a pessoa não consegue aquilo que deseja, seja a cura ou outros tantos problemas destacados no item anterior: casamentos destruídos, divórcios, filhos nas drogas ou filhos presos. O fato é que todas essas demandas fogem ao controle dos indivíduos, seja na esfera da família ou seja uma enfermidade, pois sentem-se, sem dúvidas, perdidos, ansiosos, aflitos e sozinhos características próprias em condições pós-tradicionais. Em resumo, ao oferecer essa resposta (explicação) da falta de fé para as pessoas que não conseguem a resolução das demandas da vida, o que está em questão são três vertentes: primeira é que Deus, em sua perfeição, é infalível, assim não é culpado pela não resolução; segundo é que o pastor é eximido de qualquer responsabilidade e terceiro, a responsabilidade que é retirada do pastor é repassada para a própria pessoa. Assim, a culpa por não resolver as demandas da vida é da pessoa que é responsabilizada por não ter fé suficiente. Desta forma, esta é a mensagem que é produzida e reproduzia para as pessoas que frequentam a denominação pesquisada. i A dissertação está disponível na biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp Marília – SP e, em breve, a versão on line no site do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais. ii Por sugestão dos pastores de Rio Claro foram mantidos contatos com seus superiores – Bispos – da regional de Piracicaba no caso de ambas denominações e Limeira como exceção na busca de mais pastores da Igreja Mundial do Poder de Deus. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 16 iii É prática das igrejas neopentecostais transferirem de tempos em tempos seus pastores para outras cidades ou até mesmo estados. O que oferece maior experiência a estes pastores. Com a ressalva que os pastores da Igreja Internacional da Graça são transferidos com menor intensidade. Foram encontrados pastores que estão no mesmo município há anos, para maior esclarecimento consultar dissertação. iv Demandas devem ser entendidas como problemas da vida. v Não raro os casos de mulheres que se separam, se veem obrigadas a cuidar dos filhos sozinhas. Porquanto as variantes não aceitam reducionismos. vi A Lei Maria da Penha é exemplo de uma demanda em condições pós-tradicionais, que procura defender a dignidade da mulher em caso de violência doméstica – física ou psicológica. vii Que o leitor pense num período de tempo de oitenta a cem anos atrás, o que não representa tanto tempo assim. viii O Pr. Eder é o único que não responde a questão proposta neste item. Referências CALDEIRÃO, José Eduardo. Religiões neopentecostais brasileiras no contexto da sociedade pós-tradicional: uma análise a partir da perspectiva dos pastores. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais), UNESP, Marília, 2014. GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991. GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Editora Unesp, 1993. GIDDENS, Anthony; LASH, Scott; BECK, Ulrich. Modernização reflexiva: política, tradição e estética na ordem social moderna. São Paulo: Editora Unesp, 2012. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 1 “Ide e pregai o evangelho”: modernidade e religiosidade segundo estudo de caso de uma Congregação de Testemunhas de Jeová do interior de São Paulo Joéverson Domingues Evangelista (NEREP/UFSCar)1 [email protected] GT 4 – Sociologia das crenças religiosas Resumo Para além de uma “sociologia do catolicismo em declínio”, como bem definia Antonio Pierucci, o presente trabalho busca nas margens do pluralismo cristão brasileiro (também designado como neocristianismo) novas indagações, desafios metodológicos e perspectivas a fim de compreender o fenômeno religioso na modernidade. Deslocando o olhar para as Testemunhas de Jeová de Cravinhos, SP, procuramos formas de entendimento de como a percepção do “atual estado das coisas” (correspondente êmico da noção de Modernidade e que precederia o Armagedon ou “final dos tempos” e o restabelecimento do reino de Deus na Terra) e a urgência da tarefa de conversão determinada pelos evangelhos (kerigma) determinam a atuação do grupo na sociedade e a interação com outras denominações cristãs. Tendo como central a noção de crença e sua relação com o estudo bíblico que é característico do grupo, pretendemos traçar como a teodiceia do grupo corresponde a uma complexa imersão no texto sagrado de referência, implicando em diretrizes estritas quanto a conduta e abrangentes a vários aspectos da vida dx devotx, especialmente nos dilemas oriundos das tensões tidas como próprias dos tempos atuais. Será na sua escatologia e na sua interpretação dos “sinais dos tempos” que procuraremos compreender como as simpáticas e persistentes Testemunhas de Jeová empreendem sua sociodiceia religiosa no seio da modernidade – muitas vezes se valendo dos recursos tecnológicos proporcionados por ela a fim de manter o crescimento continuado no número de adeptos, numa ambiguidade reveladora. Palavras-chave: Testemunha de Jeová; Crença; Modernidade; Escatologia. Introdução Com cerca de 1,3 milhão de integrantes2, as Testemunhas de Jeová são um grupo religioso que comporta uma mensagem obstinada de pregação e uma interpretação rigorosa do texto bíblico. Em suas próprias palavras, “sociedade mundial de pessoas que dão ativamente 1 Professor de Sociologia e Filosofia, membro do NEREP/UFSCar (2015), Mestre em Antropologia Social PPGAS/UFRGS (2010), bacharel em Ciências Sociais UFSCar (2007). Pesquisador na área de Sociologia das Religiões e Sociologia Urbana (nas áreas de Modernidade e Periferia). 2 Salvo quando indicado diferente, os dados aqui apresentados são do Censo do IBGE de 2010 (disponível no site ibge.gov.br – acessado em 29 de maio de 2015). Vale ressaltar que no grupo das Testemunhas há uma distinção entre membros ativos e simpatizantes ou desassociados inativos na congregação que faz com, nas contabilidades internas do grupo, o número do censo seja ligeiramente maior. Cf. Silva, 2010, p.17 (inclusive nota). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 testemunho sobre Jeová Deus e Seus propósitos com a humanidade (...)” (Watch Tower Bible and Society of Pennsylvania, 1985, p.384). Dar este testemunho, que não por acaso se associa ao nome pelo qual a Associação Torre de Vigia da Bíblia e Tratados3 é conhecida, significa, principalmente, pregar à toda parte as Boas Novas do Reino (Mt 24:14)4, seguindo tal preceito evangélico não só no intuito de salvar a si mesmo, mas a todxs quanto possível. Tudo isso através da ida, de casa em casa, segundo uma organização e determinação características de um grupo facilmente alocado como milenarista (Coutinho, 2008; Bornholdt, 2012) – mesmo quando essa classificação, apesar de recorrente, se revela problemática num nível interessante, como nos lembra Suzana Coutinho: O milenarismo do grupo aqui pesquisado se estabelece não a partir de elementos de pobreza, miséria e injustiça social, conforme apresentam diversos autores que trataram o tema. O movimento milenarista das Testemunhas de Jeová não está limitado à ideologia dos grupos marginalizados, e a idéia vinculada somente ao pobre não é adequada a este estudo de caso. Não estamos tratando de um grupo que sofre uma opressão econômica e grande estado de miséria, mas sim, de um grupo que traz elementos de sofrimento e perseguição, elaborando uma auto-atribuição vitimizada muito forte. O sonho de construção de uma “antisociedade” não se funda em um protesto pela miséria, injustiça e pobreza. Estes são vistos como indicativos do fim dos tempos. A finalidade do trabalho proselitista/missionário das Testemunhas de Jeová é o de garantir as condições para a salvação no momento do Armagedom. Só assim povoarão uma sociedade justa e perfeita onde todos viverão em paz e harmonia por vontade de Jeová. (2014, p. 47) Pelo número de “nãos” utilizados pela autora podemos perceber que existe uma dificuldade de classificação do grupo. De milenarismo, mesmo, só a utopia e a espera de uma nova era, um restabelecimento do paraíso terrestre enquadrariam as Testemunhas de Jeová ao lado de outros movimentos reconhecidos como tipicamente milenaristas. Essas dificuldades de classificação, de enquadramento, por sua vez, não só revelam a excentricidade tão propalada e eivada no senso comum, no que se refere a percepção que se tem das Testemunhas: revelam também eventuais limites que a análise do fenômeno religioso encontra quando os recursos disponíveis conceitualmente remontam a movimentos religiosos, instituições e contextos sociais dos quais a crise deles tem como as Testemunhas mais como sintoma do que como reflexo, variação ou desdobramento puro e simples. Mas isso ainda seria dizer pouco. 3 Nome oficial da versão brasileira da Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania. As citações bíblicas sempre se referirão à Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada em sua versão em língua portuguesa editada no ano de 2015 pela Associação Torre de Vigia de Bíblia e Tratados. 4 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 Quando Antônio Pierucci designa a sociologia da religião no Brasil e na América Latina como “sociologia do catolicismo em declínio”, ressaltando inclusive que “mesmo os estudos sociológicos voltados para religiões não-católicas, se enfocarem a expansão quantitativa de uma delas, seja qual for, estarão sempre fazendo, pelo avesso, uma sociologia do declínio do catolicismo” (2004, p. 19) provocativamente nos coloca diante de uma grande dificuldade: como, então, abandonar essa espécie catolicocentrismo? E mais: como poderemos elaborar um repertório capaz de acompanhar as transformações do campo religioso no seio da Modernidade, sem descurar da real dimensão dessas transformações, almejando produzir inovações teóricas e metodológicas que poderão superar esse olhar hegemônico sobre as minorias religiosas nas margens do “pluralismo cristão brasileiro” (Souza, 2012), cuja presença apresenta seus próprios desafios quando confrontadas ao desafio de uma análise das religiosidades na contemporaneidade? No intuito de responder tais perguntas, ou provocações, este artigo pretende encontrar nas margens do pluralismo cristão brasileiro (também designado como neocristianismo) novas indagações, desafios metodológicos e perspectivas a fim de compreender o fenômeno religioso na modernidade. A partir das concepções êmicas sobre “o sistema atual de coisas”, correspondente do grupo, segundo nossa hipótese, da concepção de Modernidade, pretendemos entender qual o papel que a religiosidade adquire no contexto atual e quais demandas essa religião oriunda de um caldo no qual combinava-se releitura do texto bíblico, busca pela “religião verdadeira” e os dilemas da vida moderna, numa reconfiguração do campo religioso, sob a égide da busca através do estudo da bíblia das respostas àquilo que o cotidiano impunha como desafio. Quando confrontada à noção de crença (Giumbelli, 2011) as resposta da pergunta o que a religião faz na modernidade? (p. 328) apresenta uma possibilidade de colapsar dualidades clássicas, no espírito de justamente superar ou realocar as ambigüidades que o discurso religioso, longe de declinar em nosso tempo moderno, produz em termos de ressignificação não só da religiosidade em particular, da crença e experiência religiosas, mas do próprio conceito de moderno, afinal. Será, portanto, na sua escatologia (quer seja essencialmente milenarista, quer enquanto uma atualização desse conceito) e na sua interpretação dos “sinais dos tempos” que procuraremos compreender como as simpáticas e persistentes Testemunhas de Jeová empreendem sua sociodiceia religiosa no seio da modernidade – muitas vezes se valendo dos Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 recursos tecnológicos proporcionados por ela a fim de manter o crescimento continuado no número de adeptos, numa ambiguidade reveladora das relações dessa religião em particular com os meios técnicos proporcionados pela era atual, na contramão do que despontava há alguns anos atrás em estudos sobre o mesmo grupo (Coutinho, 2008, p.4). Importante ressaltar que essa virada na estratégia do grupo lhe é historicamente rastreável na adaptação para difusão de seu Querigma (Silva, 2010, p...) Por fim, a partir da noção de crença, presente na reflexão da relação entre Modernidade e Religiosidades (Giumbelli, 2011) será posta em perspectiva conjuntamente com a teoria sociológica sobre a Modernidade e suas consequências (Giddens, 1991), cuja centralidade das noções de confiança e reencantamento do mundo, mesmo sob o domínio da técnica, podem se revelar pontos de partida importante para deslindar alguns nós que a presença de religiosidades as mais variadas no seio da Modernidade oferecem axs analistas da religião atualmente. É preciso “descrever esse universo rico e diferenciado não tanto pela quantidade de semelhanças, mas pela qualidade das diferenças (...)” (Brandão, 2004, 264, grifo nosso); para tal, é necessário imergir um pouco mais no Universo sob a perspectiva deles. Um pouco de história, um pouco de doutrina: as Testemunhas de Jeová e seu esforço Querigmático e a interpretação da Modernidade segundo sua escatologia Para contribuir nessa imersão inicial, se faz necessário revelar alguns aspectos do trajeto histórico da religião, apresentando de forma algo esquemática os principais aspectos doutrinários, algumas das facetas de sua cosmologia e a centralidade do esforço de propagar o Querigma que marca de forma muito peculiar a percepção que outros grupos religiosos tem das Testemunhas e que fazem eco por vezes ao que as Testemunhas pretendem apresentar. Surgida na década de 1870, a organização que viria ser mundialmente conhecida como As Testemunhas de Jeová se formou a partir de um grupo de Estudantes da Bíblia, coordenados por Charles Taze Russel5 (1852-1916). Foi motivado por um contexto de acirramento sobre a verdadeira doutrina cristã que marcou a passagem do século XIX para o 5 Segundo o site da organização (jw.org), Jesus é o verdadeiro fundador do cristianismo, não sendo Charles T. Russel além de um homem com boas intenções e membro de um grupo de estudantes sinceros da Bíblia que iniciou a publicação do periódico mais longevo e mais famoso do grupo: Sentinela anunciando o Reino de Jeová. Cf. http://www.jw.org/pt/testemunhas-de-jeova/perguntas-frequentes/fundador. Acesso em 15 de maio de 2015, às 19h. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 XX, que Russel fez seu percurso entre denominações mais liberais, mas com o resultado de ainda não se convencer de qualquer uma delas ensinava de forma fidedigna aquilo que a Bíblia transmitia. Aliás, esse percurso entre denominações religiosas em busca da verdadeira palavra de Deus é muito relatado pelxs integrantes das Testemunhas até hoje: está mormente associado ao que se chama no grupo de sistema de coisas atual, onde dilemas existenciais e as tragédias que assolam a humanidade confirmam o final dos tempos, o retorno de Cristo e o restabelecimento de um governo justo e fraterno, cristão de fato em lugar das formas corrompidas que afligem atualmente a humanidade: o Paraíso, que será na Terra limpa de toda iniqüidade dos governos humanos, reaproximando de Jeová-Deus de suas amadas e desobedientes criações. O avanço da ciência podia ter proporcionado um conforto material e tecnológico que viabilizaria resposta para muitos dos problemas técnicos do mundo, mas muito pouco ou quase nada podiam fazer para aplacar certos dilemas existenciais: a quantidade de guerras que, num crescendo, vão atingir o auge na primeira metade do século XX com a indústria nazista de morte (da qual Testemunhas de Jeová foram também alvo6), mostravam que esse conforto técnico não correspondia ao conforto espiritual. Na busca de descobrir qual a razão para tanto sofrimento diante de processos anômicos caracterizados pela erosão de valores e aparente falta de direção clara dos tempos modernos, um grupo de pessoas em vez de perguntar à ciência se volta para o livro mais famoso do Ocidente a fim de encontrar as respostas. Tendo a firme crença de que a obra era de fato a palavra de Deus e que esta só podia ser clara e livre das contradições que pareciam proliferar sem descanso naquela vira de século, esses estudantes norte-americanos fundam um movimento que, apesar de não ser tão expressivo, segue em acelerada expansão de seus adeptos, não obstante a aparente antipatia que outras denominações cristãs e seus adeptos tem em até admiti-la como uma religião genuinamente cristã. Daí que, com a ampliação dos meios de comunicação de massa, do incremento da tecnologia da informação e do uso criativo que grupos religiosos passaram a se fazer do fonógrafo, do cinematógrafo etc. tornou-se possível atingir uma grande quantidade de pessoas 6 Identificados com Triângulos Roxos (no mesmo estilo que as estrelas de Davi amarelas identificavam os Judeus na Alemanha Nazista e nos territórios ocupados), as Testemunhas de Jeová que não rejeitaram os princípios pacifistas e de não envolvimento político característicos do grupo também foram enviados para Campos de Concentração e executados. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 com palavras de fé, se tornando uma espécie de contra-prova à dificuldade de adaptação que as religiões cristãs atravessavam com a consolidação da Modernidade: as constantes divisões e a troca de acusações de apostasia, num clima de evidente animosidade, contribuíam para que outros atores, estudiosos e pensadores se convidassem a refletir sobre a questão espiritual do nosso tempo: qual o sentido da vida? Por que tanto sofrimento?7 As Testemunhas de Jeová, por sua vez, foram protagonistas dessa apropriação do mundo tecnológico em seu esforço de conversão: com discos, publicações e a pregação de casa em casa empreenderam um portentoso grupo religioso a partir de Estudantes da Bíblia (denominação, aliás, que comumente Testemunhas usam quando se dirigem a ouvintes de fora do grupo) preocupados com os flagelos de uma modernidade cada vez mais radicalizada (SILVA, 2010, p.28-29). Sua chegada ao Brasil, no começo da década de 1920, se deu através de marinheiros brasileiros que, em contato com as publicações em Nova York, se converteram em seus primeiros pregadores na cidade do Rio de Janeiro. Lá, também, foi o local em que se estabeleceu a primeira Betel8 da América do Sul, de onde poderiam ser feitos os documentos e brochuras na língua nativa, possibilitando que as doutrinas do grupo atingissem um número ainda maior de pessoas. Daí em diante, a igreja veio constantemente angariando novos adeptos e tem presente marcante no campo religioso brasileiro. Tal postulado é caracterizado por se utilizar de todos os meios para a conversão, compartilhando o Querigma9 a todos dispostos a ouvir o testemunho dos verdadeiros cristãos. Como está na chave da inclusão, o termo clássico proselitismo não parece abranger de forma clara o principal pressuposto da doutrina das Testemunhas: o povo eleito são todos, e até o final dos tempos, é preciso manter esse esforço a fim de garantir a salvação do máximo de pessoas possíveis. Chamar tal atividade de proselitismo pode evitar de percebê-la como 7 Vale lembrar que outras questões envolvendo a política e qual a religião verdadeira para se obter o Paraíso Eterno também eram correlacionadas intimamente à época. Até hoje, aliás, Testemunhas de Jeová apresentam tais questões ou versões atualizadas destas em suas publicações. Uma síntese dessa discussão se encontra no material do grupo (brochura) intitulado Qual o objetivo da vida? : a partir de discussões científicas, apresentam os principais pontos doutrinários e o porquê da profunda divergência com outras denominações consideradas “cristãs” – as aspas são do documento. 8 As Sedes fundadas em diversos países são conhecidas pelo nome de Betel, que significa Casa de Deus. Atualmente, a sede brasileira é no município de Cesário Lage, interior de São Paulo. 9 Do grego kêrugma: “proclamação em alta voz, anúncio”. Podendo significar não só a transmissão da doutrina cristã, mas o próprio cerne dessa doutrina (cf. Querigma no dicionário Houaiss de Língua Portuguesa – versão on-line). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 dotada de um propósito universalizante, uma vez que Jeová-Deus falou à humanidade através da Bíblia, não só aos já convertidos. Essa mudança se fez necessária diante de como a abertura das reuniões e da adesão de novos membros se faz entre as Testemunhas: para elas, o propósito de suas vidas é a pregação da Boa Nova onde quer que haja ouvidos para escutá-la e olhos para lê-la diretamente da Bíblia. Por isso, o domínio da navegação no texto sagrado, suas inúmeras referências cruzadas se torna indispensável na estratégia de convencimento, além da proverbial simpatia estimulada nas reuniões cujo tema é justamente o chamado Ministério Teocrático, onde através de reflexões e resenhas das atividades querigmáticas do grupo são passadas a limpo e orientadas pelas publicações advindas da sede internacional da igreja. Como parte desse esforço, se encontram também os temas que são objeto de suas publicações: a temática do sofrimento e de seu fim, dos flagelos e tragédias que assolam a humanidade e a ausência de respostas objetivas, baseadas na Bíblia, das demais denominações cristãs abrem um importante campo discursivo onde as Testemunhas pretendem deixar claro que a lacuna de resposta se encontra na falta de compromisso das outras denominações religiosas em explorar a sabedoria da Bíblia de forma sistemática. De recomendações financeiras a noções sobre do que é composta a alma ou existência do inferno, a Bíblia responde tudo. E as publicações e seus publicadores (as pessoas encarregadas de apresentar e estimular a leitura de não-membros no esforço querigmático de porta em porta) estão para mediar a relação do fiel com a verdade que está disponível na Bíblia. Vale notar, igualmente, que é muito importante levar em consideração que para uma Testemunha o autor da Bíblia é Jeová-Deus. Os humanos por ele inspirados e que efetivamente escreveram a Bíblia, fizeram a transcrição para que nós conseguíssemos entender as Verdades divinas. Só um humano, pois, poderia simplificar a outro humano a linguagem das Verdades Eternas e Imutáveis presentes no texto sagrado (Watch Tower, 1993, p. 14-15). Isso em outras palavras que dizer que a validade da Bíblia e de suas orientações são inatacáveis. E como se consideram estudiosas sinceras, as Testemunhas de Jeová impediriam a continuidade de apostasia que o cristianismo tradicional impôs por ter se corrompido ao se associar às práticas mundanas de poder. Mas um humano não poderia rivalizar com Jeová-Deus no governo da Terra: sua desobediência e o consequente afastamento de criador e criatura tem como resultado imediato o fracasso de todo e qualquer intento humano em governar o mundo e fazê-lo justo e sem Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 sofrimento; mais: esse período todo desde a expulsão do Éden seria uma sucessão de infortúnios e aflições justamente para provar aos humanos sua fragilidade e incapacidade de viver uma boa vida sem Jeová. E o que faria deste tempo atual, diferente de todos os outros? A julgar por tudo que aconteceu, parece-me que às Testemunhas de Jeová a sucessão de eras, governos, impérios e experiências de governo corresponderiam a uma unidade contínua, praticamente indistinta; os tempos atuais, pois, são especiais porque as profecias bíblicas estaria por se cumprir, o Armageddon chegará após o tempo da “grande atribulação”, qual seja, a radicalização da Modernidade e seu inevitável fracasso como projeto político, social e até mesmo ambiental. A prosperidade da terra, da justiça e o fim da morte e das doenças seriam implementadas de uma vez só quando do pronto restabelecimento do Paraíso, na Nova Terra. A Modernidade, nessa perspectiva é o próprio fim do mundo, sinal de um tempo que deve passar e que, segundo a Bíblia, deve ser recebido com alegria por causa das benesses eternas e incomparáveis, a despeito de todo o sofrimento que antecede. Com a presença de tais sinais, um desafio óbvio se impõe às Testemunhas: levar a esperança sob forma de pregação do Evangelho a todos os cantos da Terra o mais rápido possível. E como a Bíblia é a fonte única de sabedoria e de conhecimento, tudo nela registrado servirá de guia para vencer os medos que a agudização das crises que estão por vir acarretaria, reinterpretando eventos funestos sob o signo da alegria pelos tempos que virão. Após esse sobrevoo esquemático por sobre a história e alguns dos aspectos doutrinários mais significativos, cabe-nos agora elencar os desafios que esta visão impõe e como a contribuição crítica da perspectiva de Anthony Giddens pode apontar algumas das pistas para uma inovação capaz de dar conta de oferecer novo fôlego para a interpretação das margens desse pluralismo cristão à brasileira. Para além do milenarismo: os desafios da religiosidade na Modernidade a partir das Testemunhas de Jeová Quando Max Weber brilhantemente descreve o processo de desencantamento (desmagificação) do mundo como um traço preponderante na relação com o sagrado a partir da reforma protestante (2004, p. 96), nos surge a possibilidade de entender como que, cerca de duzentos anos depois um grupo de “peregrinos de religião”, que erravam entre diversos Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 ramos do protestantismo tradicional, foram desembocar numa espécie de culto “dessacralizado”, com o mínimo de elementos cênicos no altar e com uma ritualística que se apresenta como profundamente racionalizada, prática e meticulosamente cronometrada. A tal ponto organizada que o grupo das Testemunhas de Jeová não considera sua atividade como ritual: no auge de uma concepção desmagificada do mundo, atribui apenas ao Criador, Jeová-Deus o dom de produzir a novidade, a ruptura e a transformação necessária para apaziguar os espíritos agitados da Modernidade. Suas atividades são vistas como meros exercícios de adoração/reverência a Jeová, estudo de sua mensagem revelada na Bíblia e reuniões semanais a fim de melhor exercer seu mandato evangélico de pregação, previsto por Jesus Cristo quando de seu retorno dos mortos logo após de sua putativa ressurreição. O ritual não-ritual das Testemunhas de Jeová e a racionalização presente em sua hermenêutica bíblica parecem configurar o auge do que Weber delineou como sendo o repúdio “como superstição e sacrilégio todos os meios mágicos de busca da salvação (...)”. Mais ainda: a intolerância das Testemunhas para qualquer traço de paganismo em comemorações como Páscoa, Natal e até o singelo aniversário indicam o aprofundamento daquele novo tipo de ascese inaugurado pela Reforma, onde o fortalecimento segundo preceitos bíblicos de regras de conduta de natureza não ecumênica e de revolta com qualquer forma de sincretismo religioso é estimulado e ensaiado em dramatizações realizadas nas reuniões semanais10. Mas e a concepção de Modernidade das Testemunhas de Jeová estabelece que diálogo com sua crença? É um diálogo, na visão delas, muito simples: basta esperar alegremente que este “estado de coisas” desapareça e se restabeleça o governo divino de Jesus Cristo, reinando em nome de Jeová-Deus na reedição do Paraíso terrestre, auxiliado pelos 144 mil eleitos (ungidos). A crença das Testemunhas de Jeová levam-nas a perceber mesmo o pior cenário engendrado pela Modernidade como motivo de alegria sincera uma vez que é um “sinal do tempo”, a inauguração de uma nova era que cessará com todo o descalabro que marca a trajetória humana sobre a terra. A beleza da Modernidade, pois, é que ela desaparece... E a mão contrária: como que a Modernidade concebe as religiões em seu seio? Giumbelli (2011), no esforço de responder essa questão, apresenta um diálogo imaginado 10 Um exemplo se deu numa das reuniões onde duas mulheres encenaram uma situação-problema em que uma delas, para não ser mal vista pelxs colegas, acaba por admitir sua participação numa festinha de aniversário. A mulher que fazia as vezes de conselheira da mais jovem, enfatizava muito a necessidade de coragem para seguir à risca os preceitos da religião verdadeira. Tudo ilustrado com o devido exemplo bíblico de teste de fé. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 entre Bruno Latour e Talal Asad, onde a premissa que mais nos interessou foi a de que “podemos ganhar mais inteligibilidade sobre a Modernidade se refletirmos sobre o modo como definiu o que seja religião” (p.328). A partir dela, estudar as religiões na Modernidade passa também a ser uma espécie de estudo sobre a visão que na Modernidade emerge quando o tema é a religião. De saída cabe salientar que é na Modernidade que se dá a inauguração da religião como categoria, apresentando uma série de ambigüidades nesse processo de produção, encerrando nessas variações verificáveis no pluralismo religioso que a Modernidade engendrou as margens cada vez mais fluidas entre os fenômenos religiosos e uma interpretação inovadora deles. No caso do Brasil, por exemplo, nos lembra Paula Montero que (...) apesar da diversidade religiosa brasileira, a literatura privilegiou basicamente o estudo do catolicismo e das religiões afro-brasileiras. (....) Para além da importância sociológica dessas religiões, esse privilégio pode ser explicado pelo modo como os estudiosos percebem a sociedade brasileira e os prognósticos que fazem a respeito de seu futuro. O estudo dessas religiões tornou-se, na verdade, campo privilegiado para a equação dos dilemas clássicos que ocuparam nossos intelectuais ao longo deste século [XX]: a construção da nação e as possibilidades de modernização (1999, p. 328 – grifo nosso). Isso se harmoniza muito com o que Giumbelli traz em sua reflexão crítica sobre o pensamento de Talal Asad: “(...) religião como categoria está sendo contantemente definida dentro de contextos sociais e históricos, e que as pessoas possuem razões específicas para defini-la de um modo ou de outro” (2011, p.337). O privilégio de uma centralidade conferida às religiões católicas, de ramos protestantes em expansão desde os anos 1980 (os chamados “evangélicos”) e as de matriz afro-brasileira se identifica muito com o tipo de problemática que é colocada pelos intelectuais ao longo do século passado. E mais: revela muito mais sobre a dinâmica no seio da intelectualidade brasileira no tema das religiões do que a dinâmica do próprio “mercado de bens de salvação” em sua versão mais descarnada e racionalizada. A presença tímida de estudos sobre religiões outras que não essas mais tradicionais apontadas por Paula Montero revela, por sua vez, que quando se pensa na religião na Modernidade, tende-se a replicar a tensão presente no catolicismo e no ramo protestante mais tradicional, praticamente ignorando as religiões que justamente surgem mais recentemente e se estruturam a partir da crença numa continuidade entre o projeto empreendido por elas hoje e aquele iniciado nos tempos bíblicos. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 A maior prova disso é a insistência das Testemunhas em afirmar que o único fundador da sua igreja é Jesus Cristo e que ela estaria em ligação direta com a comunidade cristã primitiva, conforme apresentado inclusive no site do grupo. Aliás, é interessante notar que, se na década passada os trabalhos escassos que tinham sobre as Testemunhas de Jeová sempre demarcavam a religião como sendo arredia ao uso de meios tecnológicos ligados à alta modernidade, numa repressão e “invisibilidade” na plataforma digital. Hoje podemos dizer, sem sobre de dúvida, que o entusiasmo com que jovens adultxs se valem de diversos gadgets para dinamizar e facilitar a consulta das inúmeras publicações do grupo (que para tal se valem de um aplicativo gratuito de grande valia) revela que uma característica certeira ao se falar das Testemunhas é que elas não dormem no ponto quando o assunto é se reinventar. Aqui, mais uma vez, é preciso fazer uma pausa para discutir uma dos elementos principais do grupo: sua escatologia é completamente fundada na bíblia e se caracteriza por anunciar as boas novas do Reino de Jeová uma vez que esse Reino está perto. E durante muito tempo, prever o fim do mundo era a principal arma para exercício desse mandato evangélico de pregação da boa nova. O que se fez quando todas as previsões que envolviam dados exatos, datas e qualquer sinal inapelável não se concretizaram? Reconhecer as limitações dos humanos em realizar esse tipo de profecia, pois só o próprio Deus saberá com certeza qual será a hora e que tudo irá acontecer. Essa breve ilustração de um ponto já mencionado antes é repisada aqui para deixar mais clara a ideia de que uma religião com faceta tipicamente moderna como a professada pelas Testemunhas de Jeová, em um curto espaço de tempo, teve desafios e inovações de tal monta que colocam em perspectiva a dificuldade de adaptação de outros grupos mais hegemônicos cristãos. Grupos estes que não apresentam taxas de crescimento tão grandes, ou então, apresentam visíveis dificuldades em lidar com o legado moderno. Se as religiões foram as parteiras da ordem moderna, ou mesmo de sua busca, as Testemunhas de Jeová podem ser consideradas as que tentaram domar seus efeitos deletérios sob a égide pesada de uma escatologia rica em simbolismos, mas que não deixa de entender os fatos concretos que nos circundam como meios de acessar as promessas feitas por Jesus Cristo. O “curto-circuito” descrito por Giumbelli quando se ele se refere às exigências que se faz à palavra religiosa, na perspectiva latouriana, que só caberiam a outros modos de enunciação: a noção de crença, para Latour, sendo definidora do religioso não contemplaria o Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 paradoxo de que, se essa noção pede informação é justamente informação o que menos o discurso religioso teria a oferecer (Giumbelli, 2011, p.342) Mais uma vez aqui vemos os efeitos deletérios de uma visão teórica catolicocêntrica se faz sentir: as Testemunhas de Jeová, por exemplo, mais fazem é produzir informação, sob as mais diversas formas. É uma informação que se quer de qualidade, onde o papel das traduções das publicações e das versões de sua bíblia assumem um protagonismo fundamental. Além disso, a informação se quer racionalizada, dedutível logicamente, baseando-se num criterioso entrecruzamento de referências, onde as publicações específicas do grupo servem para orientar e justificar. Quando Bruno Latour apresenta essa característica do enunciado religioso, lhe conferindo um descompasso com a realidade demandada na Modernidade, ele não tinha as Testemunhas em mente. Por outro lado, cabe trazermos o sociólogo Anthony Giddens e sua definição altamente heurística de Modernidade para esse debate: “’modernidade’ refere-se ao estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência” (1991: 11). Importante ressaltar que, embora tenha esse caráter abrangente, a modernidade não é apreendida da mesma forma nas regiões onde sua influência se estendeu, gerando conflitos e tensões a medida que entrava em contato com sistemas culturais e políticos diversos (o Brasil é um exemplo importante disso). Naquela equação apresentada por Paula Montero e que caracterizaria nossos percursos intelectuais, inclusive e especialmente no tema da religião, o processo de modernização e as características que adquiriram no Brasil foram centrais para o esforço intelectual de entender como certos processos se deram deste lado do paralelo do Equador. Esse estilo sucintamente descrito por Giddens e que nos é facilmente identificável como objeto, mas que dificilmente conseguimos ver uma unidade em face da diversidade de sujeitos, essa organização tipicamente moderna encontra nas diversas manifestações de religiosidade formas de se acessar de forma crítica seu próprio legado, uma vez que os eventos da vida religiosa européia, por exemplo, são fundantes desse “costume de vida”, de onde surgiram o ethos, o código de convivência e um certo ambiente onde se desenvolveram e proliferam visões negativas da Modernidade, especialmente a partir das religiosidades mais recentes. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 13 Esse discurso, eivado de um tipo de informação que a própria Modernidade permite avançar (e o sistema de hiperlinks, por exemplo, torna ainda mais inteligível todas as referências presentes em cada publicação do grupo) agora passa por uma transmutação quando tenta dar conta dos limites que a ideia de progresso, desenvolvimento técnicocientífico e o consequente vazio deixado quando da forja desse sujeito moderno desencantado. A teodiceia, recuperando o sentido que Berger confere ao termo (1985), busca hoje um sentido que a ciência parece ter retirado do mundo, qual seja, a de que a sucessão dos dias não se compõe de aleatoriedades, mas pelo contrário, tudo faz parte de um grande plano. E se as Testemunhas de Jeová não são as únicas a crerem nisso, parecem ser das poucas agremiações religiosas que levam isso às últimas conseqüências, inclusive ressignificando a tradição religiosa reexaminando a própria experiência de viver na Modernidade, constituindo sua utopia a partir de uma escatologia que vê a Modernidade como o ápice do processo de desligamento de Jeová e a consequente dominação deste planeta pelo grande adversário, Satanás. A Modernidade, para as Testemunhas de Jeová, é o Reino do Mal, mas que é necessário. As atribulações são o sentido último de uma sociodiceia, posto que como lembra Bourdieu, “toda teodicéia é uma sociodicéia na medida que é uma interrogação social a respeito das causas e razões das injustiças e privilégios sociais" (1982, p.49). E as razões são as melhores possíveis, por pior que sejam. Considerações finais O presente artigo tentou apresentar de forma inteligível uma série de apontamentos sobre como a necessidade de sairmos do eixo consolidado pelos estudos de religião do Brasil é necessária para abarcar aspectos do religioso que podem ser postos de lado nas afinidades eletivas que marcam o percurso intelectual atualmente. Aqui enfatizamos os caracteres mais coletivos dessa experiência, do seu compartilhamento; a dimensão mais subjetiva que essas sociodiceias em torno do que afinal de contas é a Modernidade, produzidas por um grupo que está nas margens do pluralismo cristão brasileiro deverá nos deter numa nova oportunidade de reflexão: o que se espera aqui é a compreensão da centralidade da noção de crença para o entendimento do religioso não pode estar dissociada do quanto esta mesma noção se apresenta para entender a Modernidade. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 14 O conceito de confiança que Giddens apresenta como uma das conseqüências do estatuto moderno, de sua implementação e limites, posto que toda confiança por mais racionalmente orientada, no limite, é cega e baseada numa fé que não pode ser simplesmente elidida racionalmente da discussão. Em outras palavras, é por acreditar numa série de pressupostos que se torna possível viver no mundo onde, mesmo com informação abundante, a qualidade dessa informação nem sempre caminha a fim de restaurar o sentido da existência humana, como lembra-nos Berger que é o objetivo de toda teodiceia, independente de sua satisfação puramente teológica (1985, p.85). Afinal de contas, não é só de teologia que se trata, nem mesmo só de salvação: mas de sentido de existência, dos limites para o entendimento desse sentido e, principalmente, qual a mensagem que nos é legada à luz de tanta atribulação que nem o império da técnica conseguiu dirimir de todo. Parece que quanto mais tentamos entender o papel da religiosidade na Modernidade, mais temos de nos debruçar sobre a dificuldade que essa própria Modernidade tem de compreender a si mesma. Às Testemunhas de Jeová, a equação se resolve de forma simples: basta esperar que a atribulação passe e a recompensa virá, num com uma racionalidade característica do protestantismo tradicional, mas sob a égide de uma conduta de vida e reencantamento do mundo a partir da utopia. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 15 Bibliografia BORNHOLDT, Suzana Ramos Coutinho. “Proclamadores do Reino de Deus”: Missão e as Testemunhas de Jeová. Dissertação (Antropologia Social), UFSC, Florianópolis, 2004. _____________. “A Internet e seus perigos”: Individualismo, Missão e Poder entre as Testemunhas de Jeová. Contemporanea, vol. 6, nº 1, 2008 BERGER, Peter Ludwig. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985. BOURDIEU, Pierre."Gênese e Estrutura do Campo Religioso". In: __________. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1982. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Fronteira da fé – Alguns sistemas de sentido, crenças e religiões no Brasil de hoje. In: Revista de Estudos Avançados 18, São Paulo, 2004. COUTINHO, Suzana Ramos. Tempo e Milênio: missão e as Testemunhas de Jeová. In: Ciencias Sociales y Religion/ Ciências Sociais e Religião, ano 16, n.21, Porto Alegre, jul-dez de 2014. GIDDENS, Anthony. 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São Paulo: Companhia das Letras, 2004. . Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 1 RISCOS SEM RISCOS: A FOLKCOMUNICAÇÃO RELIGIOSA DO ANÔNIMO LANZA, Fábio (UEL)1 [email protected] ALMEIDA, Villenon E. O. (UEL)2 [email protected] PIBID/CAPES GT: Sociologia das crenças religiosas Resumo: Esta pesquisa partiu das formulações teóricas sobre folkcomunicação – categoria analítica de Luis Beltrão (1980) – que elucida as relações sociais de indivíduos que buscam espaços alternativos ou protegidos para estabelecerem suas formas de comunicação. A investigação ocorreu nos banheiros do CLCH da Universidade Estadual de Londrina-PR. Tais relações foram identificadas e caracterizadas a partir do estudo da escrita nas superfícies e paredes existentes nesses espaços. Tratou-se dessa realidade, mesmo havendo o desinteresse das pessoas frente a esse contexto social, que na maioria das vezes passa despercebido no cotidiano. As inscrições de banheiro chamaram a atenção de pesquisadores como Beltrão (1980) e Brandão (2003) que as nomeou de “folkcomunicação de latrina”. Com a pesquisa qualitativa, por meio de registros fotográficos e anotações em caderno de campo, foi possível coletar as mensagens das comunicações indiretas, anônimas e corriqueiras, pois, não há contato direto entre os sujeitos não identificados, porém se estabelecem como diálogos. Os dados coletados manifestam as mais diversas perspectivas, como: homofóbicas, sexuais, legalização da maconha, posicionamentos políticos e, inclusive, as religiosas – algo que chama a atenção, devido ao caráter “transgressor” ou “desviante” do ato. Como resultados finais, foi possível ver aspectos que vão além do que foi relatado pelos autores já citados, utilizando a teoria de Becker (2008) sobre outsiders, que trata das formas de desvio existentes. Baseando-se nas perspectivas do autor, podemos afirmar que, a exposição, por meio do anonimato, pode ser um facilitador para esse tipo de ações tidas como desviantes. Acreditamos nisso, devido a imensa dificuldade de encontrar o sujeito desse desvio secreto. Palavras chaves: Sociologia das Religiões. Folkcomunicação de latrina. Outsiders. Pichação religiosa. 1 Doutor em Ciências Sociais pela PUC SP, Professor Adjunto do Departamento e Programa de PósGraduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina/UEL-PR. Líder do Grupo de Pesquisa “História, Sociedade e Religiões” (CNPq/UEL). Membro do Laboratório de Estudos sobre Religiões e Religiosidades LERR-UEL. 2 Graduando do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina, membro do Grupo de Pesquisa “História, Sociedade e Religiões” (CNPq/UEL) e PROIC UEL; Estagiário colaborador do IPAC/LDA – “Inventário e Proteção do Acervo Cultural de Londrina”; Bolsista do PIBID – Ciências Sociais/CAPES-UEL. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 1. INTRODUÇÃO A pesquisa a seguir ocorreu na cidade de Londrina, localizada na região norte do estado do Paraná, com população estimada em 543.003 habitantes para 20143, a 369 km4 da capital paranaense, Curitiba. Trata-se da segunda maior cidade paranaense e sede da sua região metropolitana. Na “cadência” dessa cidade, encontramos a Universidade Estadual de Londrina (UEL), macrouniverso da investigação realizada. Com uma comunidade universitária composta por 18.817 estudantes, 1.682 docentes e 3.841 agentes universitários, a UEL possui 54 cursos de graduação e um vasto leque de pós-graduações5. A universidade “[...] localiza-se em agradável campus de 235 ha, cercado de áreas verdes, onde o compromisso é com a excelência aliada à qualidade de vida.” (PROPLAN – UEL, 2014, p. 7). Um lugar de múltiplas facetas e único, nos mais variados termos. Quem conhece, não consegue sair de lá sem a dúvida: é um bosque dentro de uma universidade, ou uma universidade dentro de um bosque? Porém, será que tudo se “limita” ao conhecimento ali produzido e disseminado, ou à incrível diversidade da comunidade lá presente? E os laços sociais que surgem, desencadeiam-se de quais maneiras? Como as pessoas que lá estão buscam se expressar? Será que os espaços “reservados” para expressão atendem as demandas de todos/as? E as cabines dos banheiros possuem relação com esse contexto ou são espaços assépticos e neutros? Tentaremos refletir sobre isso neste artigo, porém, especificamente, partindo das relações sociocomunicacionais que surgem a partir de inscritos nos banheiros6 do Centro de Línguas e Ciências Humanas (CLCH), da UEL. Chegamos à pesquisa, a partir do uso desses banheiros, que a cada dia mais nos intrigava. Há que se ressaltar, porém, que as perguntas do parágrafo anterior, quase sempre, serão respondidas com hipóteses, pois não existe uma regra 3 Segundo IBGE: <http://cod.ibge.gov.br/233H4> acessado em 26/04/2015 às 19h 30. Segundo site oficial da Prefeitura de Londrina: <http://www.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=category&id=5&Itemid=4> acessado em: 26/04/2015 às 19h 35. 5 Segundo UEL EM DADOS, divulgado pela PROPLAN: <http://issuu.com/jornalnoticiauel/docs/uelemdados2014> acessado em: 26/05/2015 às 19h 48. 6 Nesse trabalho são analisadas apenas inscrições das cabines de banheiros femininos, devido à proximidade das temáticas. Mas, destacamos que há a presença de inscrições ou referências religiosas também nas cabines dos banheiros masculinos, porém, trazem outras discussões e temáticas, que serão trabalhadas em outra oportunidade. 4 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 que rege com exatidão as relações exercidas pelos usuários desses banheiros, posto que, além de tratar-se de espaços públicos, de uso livre, são geograficamente localizados em corredores onde ocorre trânsito de pessoas entre o ponto de ônibus e centros de estudos mais próximos, como CECA7 e CESA8. Além disso, há alunos de outros centros que cursam disciplinas no espaço físico do CLCH, existindo grande possibilidade de serem também usuários desses banheiros. E há ainda mais um fator importante que abrange o entorno da Universidade: além das diversas moradas voltadas para a demanda estudantil e construídas no decorrer dos anos, existem bairros cujos moradores também têm acesso ao campus9. Sempre ouvíamos falar dos banheiros, com comentários como: não há papel para secar a mão; não estão limpos; me abordaram no banheiro, à procura de sexo, ou de supostas relações sexuais que ali poderiam estar acontecendo, porém não se notavam comentários sobre os conteúdos escritos e/ou desenhadas nesse local, salvo raras exceções10. Tratava-se de algo que as pessoas viam, mas às quais não davam atenção ou importância. Resolvemos iniciar a pesquisa11 tirando fotos e anotando aquilo que não ficasse nítido nelas. E sempre nos surpreendíamos com as formas de comunicação que ali se encontravam escritas ou desenhadas, as diversas opiniões e ideologias, a criatividade. Na formulação da problematização, pensamos: O que leva as pessoas a produzirem inscrições nas paredes das cabines dos banheiros? Qual o motivo de usar aquele espaço, que não foi criado para aquela finalidade, mas que, ao mesmo tempo, traz uma visibilidade considerável? Essa comunicação seria aquilo que Luis Beltrão (1980) descreve como Folkcomunicação? A maneira de transmissão da informação influencia como essa mensagem vai ser recebida? Outra discussão a ser feita sobre essa atividade é que, se analisada ao “pé da letra”, é considerada ilegal devido ao enquadramento como pichação segundo a Legislação Brasileira12 7 CECA: Centro de Educação, Comunicação e Artes. CESA: Centro de Estudos Sociais Aplicados. 9 Apesar de terem construído um muro para limitar esse acesso, cercando somente os bairros considerados “perigosos”, na realidade, com a desculpa de “resolver” o problema da violência. <http://www.jornaldelondrina.com.br/online/conteudo.phtml?tl=1&id=851565&tit=Muro-da-UELdeve-comecar-a-ser-construido-no-proximo-mes> acessado em: 27/05/2015 às 12h 12. 10 A primeira vez que cogitamos a pesquisa, foi em uma conversa no Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UEL. 11 Projeto de Iniciação Científica, registrado na PROPPG da UEL como parte do projeto 07868 ESTUDO SOBRE RELIGIOSIDADE E MÍDIA RELIGIOSA, com o título: A COMUNICAÇÃO DOS OUTSIDERS: Marginalizados na Liberdade do Isolamento. 8 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 e também não é aceita socialmente, pois é considerada uma prática marginal, tendo o reforço das mídias de massa e outras instituições sociais, usando a lei para isso. Não queremos, porém, questionar a legalidade dos fatos, mas analisar as circunstâncias e o processo sociocomunicacional. Será que o fato de o ato ser marginalizado reforça a iniciativa da pessoa de se esconder na cabine do banheiro para fazê-lo? E seriam esses atos enquadrados como desviantes, com base na obra Outsiders de Howard Becker (2008)? Inúmeras inscrições nas cabines expressam diferentes perspectivas, porém há também registro da abordagem e do pensamento religioso. Estes são alguns dados coletados: “quero rola”; “no cch só tem vadia e sapatão”; “peixeiro sem pegada é sushiman...”, “arrependei-vos, pois o reino de Deus está próximo.” Enfim, um ambiente múltiplo e que nos causou curiosidade e nos instigou para a investigação a partir dos referenciais das Ciências Sociais. Na sequência, serão apresentadas as fundamentações teóricas utilizadas para a estruturação do estudo e, logo a seguir, os dados da pesquisa de campo realizada no período de janeiro a dezembro de 2013. 2. FOLKCOMUNICOMUNICADORES E OUTSIDERS: “MARGINAIS” E “DESVIANTES” A definição de Luis Beltrão para o termo folkcomunicação é: “O conjunto de procedimentos de intercâmbio de informações, ideias, opiniões e atitudes dos públicos marginalizados urbanos e rurais, através de agentes e de meios direta ou indiretamente ligados ao folclore" (BELTRÃO, 1980, p.24). Uma observação a fazer é que não temos o intuito de discutir o folclore em si, por alguns considerado como termo para minimizar ou depreciar formações culturais não hegemônicas. Vamos, sim, considerar a folkcomunicação, segundo Beltrão, como uma expressão que denomina formações culturais marginalizadas por grupos hegemônicos. A Folkcomunicação preenche o hiato, quando não o vazio, não só da informação jornalística como de todas as demais funções da comunicação: educação, promoção e diversão, refletindo o viver, o querer e o sonhar das LEI Nº 12.408, DE 25 DE MAIO DE 2011, que altera o Artigo 65 da LEI Nº 9.605, que diz: “Pichar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. ” 12 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 massas populares excluídas por diversas razões e circunstâncias do processo civilizatório, e exprimindo-se em linguagem e códigos que são um desafio ao novo e já vigoroso campo de estudo e pesquisa da Semiologia. (BELTRÃO, 1980, p. 26) Assim, devemos também esclarecer como ocorre afinal o fenômeno da folkcomunicação. Na prática, o processo se dá como descreve Fábio Corniani: Uma fonte transmite uma mensagem através de um canal, que no processo é representado pelos meios de comunicação de massa, chegando até uma audiência, onde estão contidos os líderes de opinião, estes intitulados por Beltrão como Líderes-comunicadores. Em um processo comunicacional padrão (fonte-mensagem-canal-receptor) o fluxo pararia por aqui. Mas no processo folkcomunicacional, neste ponto inicia-se um novo ciclo no fluxo da mensagem. Os líderes se tornam comunicadores e transmitem uma mensagem através de um canal folk, chegando então ao que Beltrão intitulou de audiência Folk. (CORNIANI, 2002, p. 2) Beltrão (1980) diz que os grupos marginalizados são os responsáveis pela folkcomunicação. Para ele, existem três categorias: o marginalizado urbano, o marginalizado rural e o culturalmente marginalizado. O último perpassa pelas duas primeiras categorias. Aqui entramos num ponto de divergência. Se, obrigatoriamente, os grupos culturalmente marginalizados pertencem aos grupos marginalizados urbanos e/ou rural, esbarramos em uma problemática. O que leva alguns religiosos que, normalmente, não são marginalizados socialmente a usarem o mesmo canal folk de grupos, como legalize (o uso da maconha), homossexuais, que até mesmo uma parte das instituições religiosas (cristãs, por exemplo) contestam e/ou não toleram? Supomos que o(s) sujeito(s) que faz(em) esses inscritos religiosos nesse canal folk, talvez seja(m) de origem cristã, pois usa(m) frases bíblicas. Contudo, não podemos negar que há a presença religiosa nesse espaço, independentemente de quem é/são o/a(s) autor(es/as) do fato. Fazendo uso de tal suposição, podemos levantar mais hipóteses. Talvez as pessoas não vejam espaço suficiente para si, mesmo dentro de todo o imenso cenário religioso existente. Ou, pelo fato de a universidade ser laica, busquem a sua cristianização, mesmo que por meios não tradicionais. Quem sabe seja para tentar “distribuir” mais “harmonia e paz” dentro daquelas cabines, que, como veremos, parecem um “hostil” campo de disputa. Ou então, seja só mais um elemento participando dessas disputas, dentre outras possíveis hipóteses. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 O fato de as expressões religiosas estarem presentes nesse canal folk é, sim, compreensível, partindo-se do entendimento de que, na sociedade brasileira, há uma forte influência das mais diversas vertentes religiosas, principalmente do cristianismo. Por acaso, a cidade de Londrina traz uma característica importante e interessante consigo: ter um percentual populacional das religiões cristãs evangélicas de 30%, maior que a média nacional, que é de 22,2%, segundo dados do censo IBGE (2010), destoando assim, do cenário geral presente no restante do país. Essas influências de questões ideológicas, morais e de crenças presentes na sociedade podem interferir nas inscrições de banheiro. Nota-se que o banheiro não é – para as pessoas envolvidas nesses fenômenos – somente um lugar de passagem, cuja finalidade é meramente a higiene pessoal e as necessidades básicas. Ele é ressignificado pelos comunicadores e receptores dessas informações expressas. Isso não que dizer, porém, que essa é a forma exclusiva de ressignificação desse mesmo lugar e podemos ver isso em outros trabalhos sobre relações sociais em banheiros. Essa possibilidade de ressignificações permite a esse objeto ser muito rico e cheio de lacunas a serem trabalhadas, um lugar onde as pessoas podem se “transformar” em relação a como agem no seu cotidiano, ou mostrar o que realmente pensam, um espaço de “transgressão”, de “desvio” dos padrões sociais aceitos. A privacidade garante ao comunicador proteção e anonimato num espaço que promove segurança. O comunicador de sanitário é, nesse caso, um comunicador anônimo que não estabelece comprometimento com sua audiência, pois não é possível saber quem deixou sua mensagem na porta. O banheiro é o espaço no qual a mensagem individual ou de um grupo torna-se pública. (BRANDÃO, 2003, p. 1) Como se pode notar, essas reflexões também estão voltadas às da Sociologia do desvio, trabalhada por Becker (2008) em Outsiders. Dessa forma, não podemos deixar de apresentar a definição do que é um outsider para o autor: Quando uma regra é imposta, a pessoa que presumivelmente a infringiu pode ser vista como um tipo especial, alguém de quem não se espera viver de acordo com as regras estipuladas pelo grupo. Essa pessoa é encarada como um outsider. (BECKER, 2008, p. 15) Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 O outsider está em desacordo com as regras de algum ou alguns grupos a que pertence, sendo considerado como um desviante das atitudes esperadas por eles. O folkcomunicador, no caso deste estudo, é desviante, quando olhamos a partir dos padrões sociais, pois se trata de um ato ilegal (crime de pichação), algo moralmente condenável por diversas instâncias sociais. A questão é a seguinte: quando esse indivíduo entra na cabine, torna-se invisível para a sociedade – como Brandão (2003) mostra –, ele pode fazer o que deseja sem ser repreendido (desde que seja garantida a privacidade que se espera dentro do ambiente). Então, esse ator desviante enquadra-se na categoria de desviante secreto – como trata Becker (2008) –, que ninguém sabe quem é o sujeito. Mas esse “desviante” tem um diferencial. O ato “desviante” dele é percebido pela sociedade, diferentemente daquele desviante secreto que não é visível, nem o seu ato, por exemplo, usuários de sites pornográficos. Em outras palavras, o desviante é secreto, porém, o desvio não, é um desvio puro, como mostra a seguinte tabela: Tipos de comportamento desviante Comportamento apropriado Comportamento infrator Percebido como desviante Falsamente acusado Desviante puro Não percebido como desviante Apropriado Desviante secreto Fonte: Livro: Outsiders, de Howard Becker (2008), página 31. Podemos definir que estamos tratando de sujeito(s) que é/são usuário(s) de um canal comunicacional folk, “julgado(s)” como outsider(s), pois comete(m) ato(s) considerado(s) desviante(s), que pode(m) ser visto(s) por qualquer um que for ao banheiro, sendo, porém, anônimo(s) o(s) autor(es). Devido esse caráter, dizemos que são riscos sem riscos, pois a chance de ser apanhado dentro das cabines, ou ser descoberto fora delas, a possibilidade beira o zero. Contudo, não podemos nos deter a essas questões, há a necessidade de ter um olhar investigador com cuidado metodológico, pois, é possível não ver ou analisar aspectos, características ou conteúdos, como alerta Becker: À medida que supõem que atos infratores de regras são inerentemente desviantes, e assim deixam de prestar atenção a situações e processos de Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 julgamento, a visão de senso comum sobre o desvio e as teorias científicas que partem de suas premissas podem deixar de lado uma variável importante. (BECKER, 2008, p. 17). Dessa maneira, apresentamos o objeto de estudo da pesquisa, tendo, assim, uma compreensão teórica prévia, capacitando-nos para pensá-lo além do senso comum. No próximo tópico estão dados da pesquisa. 3. OS RISCOS Corniani (2002) lembra que Beltrão menciona três grupos “[...] culturalmente marginalizados que se distinguem pela sua maior freqüência em ações comunicacionais [...]: o messiânico, o político-ativista e o erótico-pornográfico. ” (CORNIANI, 2002 p. 6). Foi possível perceber, a partir da investigação, a presença dos três grupos mencionados por Beltrão, em alguns momentos, até convergindo em espaços onde ocorrem embates dos inscritos, como as seguintes frases: “A vida é bela a gente fode ela”; “Eu amo Jesus sacramentado” (Anexo A); tendo ao fundo um desenho que representa o rosto de uma mulher. A primeira frase contém um termo do linguajar coloquial, “fode”, dando a entender que se estraga a vida, contudo esse vocabulário também remete ao ato sexual (“fode ela”). Logo em seguida há uma referência ao sentimento sagrado cristão: “amor”, que é um fundamento dentro dos princípios cristãos (“Jesus” é considerado o messias de mais importância para essa vertente), seguido da palavra “sacramentado” que se refere à impossibilidade de se questionar sua soberania sobre o restante, talvez em relação ao erótico pornográfico presente na frase anterior. Essa relação entre o que se considera sagrado (para muitos) e o que se considera profano (também para muitos), ou, nos termos de Beltrão (1980), o messiânico e o eróticopornográfico, pode causar impacto no observador, por serem representados como antagônicos em outros meios sociais. Portanto, o comportamento representado, não a ação de realizar inscritos no banheiro, mais sim, o conteúdo transmitido, por não ser considerado desviante, talvez forneça o aval (quem sabe, no subconsciente do sujeito), para que cometa o ato transgressor na tentativa de combater aquilo que se vê como desviante, o “profano”. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 Em outro banheiro, é possível encontrar esse inscrito: “Eu sou da igreja metodista biscateriana” (Anexo B), posteriormente foi rasurado com corretivo branco na possível tentativa de descaracterizar a frase e a vertente religiosa metodista, que foi satirizada. Neste, podemos notar a intolerância religiosa através da sátira. Se ignorarmos o fato de todo o ato de pichação ser visto como desviante, como já dito, chegando ao nível de crime, pode-se dizer que, partindo de uma ideia moral religiosa, houve desrespeito com os presbiterianos e metodistas. Olhando por um ponto de vista moral “inverso”, quem rasurou com corretivo fez uso da censura, não permitindo a contestação do sacro, pareando relações sociais de mulheres “biscates”13 ao “mesmo nível” da religião metodista, no caso. Trata-se de uma disputa em que diferentes formas de ver o mundo não se aceitam, supostamente, considerando-se ambíguas, mas, agindo da mesma maneira, em um mesmo espaço. “Alegrai-vos pois ele enxugará do seus olhos toda lágrima”, frase feita com corretivo na porta do banheiro (Anexo C), sendo, da palavra “ele” em diante, um trecho de apocalipse 21: 4, da Bíblia. Há, porém, algo mais nessa frase. Por cima das letras “e” “x” e “u”, da palavra “enxugará”, foi passado algo que se assemelha a um marca-texto verde, formando a palavra “exu”. A presença religiosa nas cabines parece ser, majoritariamente, cristã. Nesse caso, tivemos uma intervenção “discreta”, dentro de uma intervenção supostamente cristã, que parece ser a presença religiosa afro-brasileira. Talvez a quase inexistência de intervenções desse tipo se deva ao fato de que os praticantes de religiões afro-brasileiras sejam menos de 1% da população brasileira14. Uma hipótese também seria que, por serem muito discriminados socialmente, não sentem a liberdade para se colocar nem mesmo nesse espaço, talvez por haver o medo de sofrer discriminação mais uma vez, por um “meio novo”. Essa intervenção sobre outra nos mostra que talvez haja uma indignação por parte da pessoa que escreveu “exu”, baseando-se no fato de a presença cristã ser majoritária na sociedade brasileira, e agora tentando tomar posse, até mesmo, de espaços marginalizados e usando meios desviantes. Assim sendo, existe a possibilidade de haver uma tentativa de disputa religiosa por esse espaço. 13 Sendo aqui na região, no linguajar popular como: mulheres com que se tem relações sexuais facilmente, ou, profissionais do sexo. 14 Segundo Dados do Censo 2010 do IBGE: <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/0000000935250612201225522928 5110.pdf> acessado em: 27/05/2015 às 14:09. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 Já um grupo de três inscritos distintos (Anexo D), contém as seguintes frases: “os que confiam no senhor são como os montes de Sião que não se abalam ma[i]s permanecem firmes para sempre”; “para de reproduzir o q o pastor fala e vai aprender gramática” (a palavra “mais” da frase anterior foi circulada e uma seta indicava para essa segunda frase, contudo percebe-se que o “i” da palavra foi retirado posteriormente) e “qr dizer q quem ñ acredita ta perdido, é? ”. A segunda e a terceira frase, provavelmente, foram feitas depois, porque fazem referência à primeira. Nota-se que há o embate e o questionamento do religioso, de uma forma irônica e/ou satírica, menosprezando a frase religiosa, por conter erro gramatical e, também, acusando-a de ser mera reprodução de discurso propagado por um tipo de líder religioso. Além do questionamento moral, que aparece na outra frase, há também o questionando da legitimidade do que foi escrito, supostamente, de maneira irônica. Dessa forma, podemos fazer um paralelo entre as análises dos três últimos anexos, onde os inscritos religiosos são satirizados, questionados ou marginalizados. Entretanto, ocorre reação à contestação do religioso nos anexos B e D, já no C mostra-se uma provável disputa entre presenças religiosas pelo canal folk. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os folkcomunicadores de latrina, no caso investigado do CLCH da Universidade Estadual de Londrina, acabam participando de uma disputa pelo canal folk, em que não há censura, nem censura para a censura. As regras simplesmente parecem não existir. Ao mesmo tempo que parece ser um espaço democrático, por não haver restrições ou filtros controladores, existem sujeitos que atuam na supressão ou tentam oprimir as expressões inscritas feitas por outrem. No que se refere às expressões e frases religiosas, dificilmente as encontramos sem questionamentos ou modificações que buscam alterar seus conteúdos. Os dados coletados sempre apresentaram alguma contestação, observação ou problematizações. Ainda podemos considerar que são as intervenções religiosas que estão promovendo o papel inverso no espaço folk (marginalizado e secreto), aspecto notado nos elementos apreciados e ilustrados nos anexos. Pressupondo que parte do(s) autor(es/as) das intervenções no canal folk é/são religioso(s/as), podemos dizer que não se preocupam com o fato de Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 estarem praticando um ato considerado desviante, tornando-se um outsider ou mesmo, sob a perspectiva da legislação brasileira, um pichador. É possível considerar que o sujeito religioso só faça uso desse meio por saber que é um desviante secreto, pois não é/será penalizado e/ou marginalizado por seus atos diante da sociedade ou até mesmo do grupo/denominação religioso/a que está vinculado. Sob a perspectiva da Sociologia das Religiões, cabe analisar e interpretar o resultado final do ato de desvio folkcomunicacional com características do âmbito religioso, evidenciando a ênfase e a presença de expressões, valores e inscrições religiosas em lugares inesperados e historicamente marginais. Esse elemento sugere uma busca dos sujeitos religiosos por maior espaço na sociedade contemporânea brasileira, seja em locais secretos, na esfera pública ou política15. Por último, partindo de todas as formulações e hipóteses produzidas até aqui, uma última inquietação deste trabalho: seria, então, esse canal folk (considerado marginal e secreto), a presença de uma forma de expressão do “novo cenário religioso brasileiro”16? REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BECKER, Howard S. Outsiders – estudos de sociologia do desvio; 1ª ed.; Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed. 2008. BELTRÃO, L. Folkcomunicação – A Comunicação dos Marginalizados; São Paulo: Cortez, 1980. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Fronteira da fé- Alguns sistemas de sentido, crenças e religiões no Brasil de hoje. Revista Estudos Avançados; volume 52. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ea/v18n52/a17v1852.pdf>. Acesso em: 24 de fev. 2014. Sobre a temática sugerimos a obra publicada de Vital e Lopes (2013) intitulada “Religião e Política” disponível em: 15 http://br.boell.org/sites/default/files/publicacao_religiao_e_politica_chris_vital_e_paulo_victor_14mar_webfinal. pdf, acessada em 30/05/2015, às 10h. 16 Para maior aprofundamento sobre aspectos da realidade religiosa brasileira ver: Brandão (2004) artigo “Fronteira da fé - Alguns sistemas de sentido, crenças e religiões no Brasil de hoje”; e Montes (1998) capítulo “Figuras do Sagrado: entre o público e o privado”. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 BRANDÃO, T.S. Folkcomunicação da latrina: estudo dos grafitos de sanitário da UnespBauru. Revista Internacional de Folkcomunicação, v. 01, 2003. BRASIL. Lei nº 12.408, de 25 de maio de 2011. CORNIANI, Fábio. Afinal, o que é Folkcomunicação? 2002. Disponível em: <http://www2.metodista.br/unesco/agora/pmc_acervo_pingos_fabio.pdf. > Acesso em: 10/04/2015, 14h 15. FERNANDES, Mariana; FALCHETTO, Giovanna; VIEIRA, Helena; NOGUEIRA, Rafaela; DE CARVALHO, Ângela Maria. Folkcomunicação: Análise das Influências do Conceito desde sua Gênese até a Contemporaneidade. XVIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Bauru – SP, 2013. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião <http://cod.ibge.gov.br/234JG> acesso em: 23/04/2015, às 17h 33. ______. Censo Demográfico 2010: Características Gerais da População, Religião e Pessoas com Deficiência. 2012. <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/000000093525061220122 55229285110.pdf> acessado em: 27/05/2015 às 14:09. ______. Paraná – Londrina. <http://cod.ibge.gov.br/233H4> acesso em: 23/04/2015, às 17h 05. ______. – Paraná Londrina – Síntese das informações. <http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/csv.php?lang=&idtema=16&codmun=411370> acesso em: 23/04/2015, às 17h 15. MARTINS, João Batista; YABUSHITA, Irineu Jun. Ruídos na Cidade Pichações na Cidade de Londrina - Aproximações.... Disponível em: http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=1970979. Acessado em: 25/11/2012. 21h. MONTES, Maria Lucia. Figuras do Sagrado: Entre o público e o privado. In: História da vida privada no Brasil. Vol. 4, São Paulo, Companhia das Letras, 1998. PREFEITURA DE LONDRINA. A cidade. <http://www.londrina.pr.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1251&Ite mid=4> acesso em: 23/04/2015, às 20h 14. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 13 PROPLAN - PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA. UEL EM DADOS. 2014. <http://issuu.com/jornalnoticiauel/docs/uelemdados2014> acesso em: 26/05/2015, às 20h 40. VITAL, Christina. LOPES, Paulo Victor Leite. Religião e Política - uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll & Instituto de Estudos da Religião (ISER), 2013. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 1 EXPRESSÕES DO PENSAMENTO CATÓLICO: GÊNESE CONSERVADORA E CONTRADIÇÕES “LIBERTADORAS” NO JORNAL CATÓLICO O SÃO PAULO Fabio Lanza (UEL)1 [email protected] José Wilson A. Neves Junior(UEL)2 [email protected] Luiz Ernesto Guimarães(UEL/UNESP-Marília)3 [email protected] CNPq/CAPES GT: Sociologia das crenças religiosas RESUMO O seguinte trabalho analisou o universo católico, com atenção à Arquidiocese de São Paulo a partir da pesquisa documental nos arquivos do seu meio de comunicação social o jornal semanário “O São Paulo”. O período estudado foi de 1956 a 1985, o percurso metodológico documental partiu da seleção intencional de editoriais e manchetes da primeira página do respectivo jornal, que permitiu compreender as diferentes formas do pensamento católico e seu direcionamento ideológico; de forma complementar, recorremos ao arquivo de matérias censuradas d‟O São Paulo durante a década de 1970 pelos militares, apoiados na doutrina de Segurança Nacional. Assim a problematização acerca do direcionamento do pensamento católico na Arquidiocese de São Paulo permitiu identificar o pêndulo entre o conservadorismo católico ultramontano com seu alinhamento junto aos grupos de extrema direita – como o movimento da TFP – e a “opção preferencial pelos pobres” – fomentado pela Teologia da Libertação e vinculado aos movimentos sociais. Como resultado, podemos identificar que houve uma mudança na direção do pensamento católico paulistano consolidando uma perspectiva católica “progressista” que caracterizou as décadas de 1970 e 1980. Palavras-chave: Igreja Católica; Ditadura Militar (1964-1985); Meios de Comunicação Social. 1 Doutor em Ciências Sociais, Professor Adjunto do Departamento de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina/UEL-PR. Bolsista do CNPq de Pós-Doutorado no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais na PUC/SP. E-mail: [email protected] 2 Mestrando e bolsista CAPES pelo Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisador vinculado ao grupo de pesquisa CNPq/UEL “História, Sociedade e Religião” e ao projeto de pesquisa “Estudos sobre religiosidade e mídia religiosa”. Email: [email protected] 3 Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – Campus Marília (Brasil). Professor colaborador junto ao Departamento de Ciências Sociais. Pesquisador vinculado ao grupo de pesquisa CNPq/UEL “História, Sociedade e Religião” e ao projeto de pesquisa “Estudos sobre religiosidade e mídia religiosa”. E-mail: [email protected] Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 A gênese d’O São Paulo: catolicismo e status quo Os trabalhos de pesquisa sobre o meio católico sempre implicam em alguns cuidados epistemológicos, tendo em vista que ao falar de Igreja Católica temos uma dificuldade em larga escala, haja vista que é uma instituição transnacional e com características próprias em cada país ou região. Ainda, falando da mesma instituição religiosa há inúmeros grupos sociais ou segmentos organizativos que a compõem e não possuem posicionamentos ideológicos ou teológicos similares. Dessa forma, é relevante nos apoiarmos nas produções das Ciências Sociais e, antes de apresentar a investigação e resultados, definirmos o campo católico enquanto espaço de análise a partir de Pierre Bourdieu e a “teoria dos campos”. Segundo o autor, os campos são: “espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem das posições nestes espaços, podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes” (BOURDIEU, 1983, p. 89). A partir das contribuições de Bourdieu (1983), sobre a teoria dos campos, é possível identificar que grupos ou clérigos católicos se posicionaram em favor ao golpe militar de 19644 ou à campanha anticomunista motivada por parte da imprensa nacional, elites civis e a CIA vinculada aos Estados Unidos da América. Enquanto parte da Igreja se posicionava contra a desumanidade e a violação dos Direitos Humanos praticadas pelos militares e, inclusive, passou a ser suporte para os movimentos contestatórios à ditadura principalmente no final da década de 1960 e ao longo dos anos de 1970. Aprofundando essa discussão por meio das contribuições e análises políticas de Antônio Gramsci sobre a Igreja Católica, pode-se observar, de acordo com sua obra Concepção Dialética da História, que toda religião, inclusive a católica (ou antes, notadamente a católica, precisamente pelos seus esforços de permanecer “superficialmente” unitária, a fim de não fragmentar-se em igrejas nacionais e em estratificações sociais), é na realidade uma multidão de religiões distintas, freqüentemente contraditórias: há um catolicismo dos camponeses, um catolicismo dos pequeno-burgueses e dos operários urbanos, 4 Novos debates são esclarecedores sobre o contexto do golpe de 1964, “Naquele momento, o governo de João Goulart contava com 76% [...] de aprovação da opinião pública, „elevado índice de popularidade, não obstante a formidável campanha que as oposições interna e externa promoveram, com o objetivo de o desestabilizar‟ (BANDEIRA, in TOLEDO, 1997, p. 95). Ainda, segundo pesquisas do IBOPE, João Goulart seria um candidato com chances reais de vencer as eleições de 1965. Ele tinha a maioria das intenções de voto em todas as capitais. Perdia apenas em Belo Horizonte e Fortaleza para Juscelino Kubitschek (FICO, 2014. p. 8). No entanto, uma emenda constitucional seria necessária para essa candidatura acontecer. A constituição de 1946 não permitia que uma pessoa exercesse o cargo de presidente por dois mandatos consecutivos.” (SILVA, 2014, p. 71) Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 um catolicismo para mulheres e um catolicismo dos intelectuais, também este variado e desconexo (GRAMSCI, 1978, p. 144). As diferenças na Igreja Católica são encontradas tanto nas visões teológicas quanto em sua organização, no clero, nas ordens religiosas, nos movimentos, nas pastorais, na sua composição social e em outros aspectos. No caso brasileiro, algumas particularidades e contradições devem ser destacadas no que tange a relação Igreja Nacional e Estado Nacional, com o peso histórico das aproximações entre a Igreja e Estado, a ideologia dominante – mesmo não sendo religiosa – está impregnada de catolicismo. A contradição expressa-se em ocasiões em que setores representativos do governo, ou das classes dominantes, se sentem no direito de opinar e defender interpretações, em nome da ortodoxia, sobre teologia, eclesiologia e demais dimensões da vida religiosa, e o que é legítimo ou não para a sociedade do País. [...] Na história do País, em conjunturas decisivas, sempre houve tensões entre membros das duas instituições, atingindo números e níveis variáveis. E, em alguns casos especiais, expulsões, repressões e perseguições, claras ou veladas. O ponto crítico, no tópico em causa, está: (a) na continuidade – de uma posição que, em última instância, sempre acabou por prevalecer – da Igreja como legitimadora da ordem estabelecida; ou (b) dela assumir uma postura de conflito com o Estado ao se comprometer com ações de apoio direto aos oprimidos e injustiçados pelo sistema, especificamente, por parte de setores restritos, em recusar o próprio sistema vigente (WANDERLEY, 1978, p. 97). O estudo apresentado a seguir sobre a Igreja Católica paulistana e seu jornal semanário O São Paulo trata de um universo que permitiu perceber essas nuances do campo católico ou mesmo as diferentes fases históricas que a instituição religiosa estava envolvida entre 1956 e 1985. No contexto da década de 1950, a gestão do Arcebispo Cardeal Motta, marcou profundamente a trajetória da respectiva instituição católica. Foi sob seu cajado que houve a criação da Pontifícia Universidade Católica (PUC SP), a rádio Nove de Julho e o jornal semanário estudado. A prospecção inicial relacionou o respectivo contexto e as publicações iniciais d‟O São Paulo, no primeiro exemplar editado do semanário, em 25 de janeiro de 1956 edição de lançamento, sob a fase final do arcebispado de cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, há uma série de artigos que tratam da vida e das obras do apóstolo Paulo, associada ao lançamento do jornal e às expectativas vinculadas à atuação desse meio de comunicação da Arquidiocese na imprensa paulistana. Essa primeira publicação trouxe 16 páginas editadas em papel jornal tamanho “tablóide”, com a primeira página composta pela foto do arcebispo e um texto de apresentação do semanário em duas formas: manuscrita, com sua rubrica, e tipográfica, com a foto do apóstolo Paulo ao lado. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 O exemplar expôs um texto apresentado pelo então arcebispo de São Paulo, cardeal Motta, trouxe a importância da discussão sobre a relação entre a Igreja Católica, a metrópole paulistana e a imprensa. Essa abordagem indicou a relevância dada pelo arcebispo aos meios de comunicação social (MCS) e, ao mesmo tempo, enfatiza sua importância como líder maior da Igreja Católica em São Paulo. A edição d‟O São Paulo representa um marco para a Igreja Católica de São Paulo na sua relação com os MCS e com a história da cidade de São Paulo. Retomando a referência sobre a imprensa, as palavras de cardeal Motta exortam significativamente que: os diretores deste semanário estão cientes e conscientes da dignidade e da responsabilidade da missão social da imprensa, no livro e no jornal. Bem sabem que tão incontrastável (sic!) é a força da imprensa, na vida moderna, que já é cognominada de “Quarto Poder” do Estado: completando os poderes Legislativo, Judiciário, Executivo (CARDEAL MOTTA, ano I, n. 1, p. 1, 25 jan.1956). As indicações acima permitem perceber o posicionamento assumido pela Arquidiocese de São Paulo frente à sociedade da época, incluindo advertências quanto aos limites e prejuízos da imprensa: “é preciso que se tenha a sinceridade de reconhecer e a coragem de dizer que a maior parte da degradação moral contemporânea é causada pelos malefícios impressos nos compêndios e nas folhas” (CARDEAL MOTTA, ano I, n. 1, p. 1, 25 jan. 1956). Com exagero e em tom exclusivamente moralista, a imprensa é responsabilizada por ele pelo decisivo papel na “degradação moral contemporânea”, porém, ao mesmo tempo, indica-se que a “imprensa digna” é fundamental para a “saúde mental de uma nação” e se ressalta, num pronunciamento ufanista, que “o futuro de uma pátria é a tinta da imprensa”. Dessa forma, a Igreja Católica chama a si a responsabilidade de promover o Bem contra o Mal, “uma imprensa que supere as armas do poder das trevas”. Para cardeal Motta, a relação da Igreja com a imprensa era, portanto, clara e definida. É possível perceber que a equipe responsável pelo jornal O São Paulo, empossada por cardeal Motta, estava em consonância plena com os ideais de defesa da doutrina e da moral católicas. A utilização dos MCS era a “arma” necessária para a luta contra vários aspectos do “mundo moderno”, assim como o avanço das Igrejas protestantes, representantes de um “recuo deplorável”. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 A perspectiva do semanário católico no momento de sua fundação encontrava-se em consonância com a Encíclica Miranda Prorsus5 (sobre cinema, rádio e televisão) que só foi publicada em 8 de setembro de 1957 e que traçou os dons e perigos dos meios eletrônicos: “quisermos confiar-vos, veneráveis irmãos, as nossas preocupações, por vós certamente comparticipadas, acerca dos perigos que o uso não reto das técnicas audiovisuais pode constituir para a fé e integridade moral do povo cristão” (apud DARIVA, 2003, p. 64). Apresentando, desta forma, as repercussões que as ideias difundidas pelo semanário deveriam promover, na sociedade paulistana. Há a intenção de construção de uma sociedade católica que combate e impede “os desmandos e abusos, inqualificáveis e talvez insanáveis, da imprensa de nossos tempos”, porque estava em descompasso com o “uso reto” que visa à solidificação da fé dos cristãos. Ainda que devesse enfrentar todos os recursos da má-fé, associados a concorrência, fraudes e exploração dos leitores, porque “os valores permanentes da ordem espiritual são os únicos capazes de assegurar a salvação da civilização moderna” (MANCHETE, ano I, n. 7, pp. 1-2, 11 mar. 1956). Nos anos iniciais de publicação O São Paulo, evidenciava a prestação de serviços aos órgãos da Igreja e divulgação de suas atividades internas – a publicação da temática religiosa era uma das suas principais funções.Essas características revelam a importância dada às ações da hierarquia católica, assim como aos direcionamentos vindos de Roma, aspecto preponderante para a definição da matriz ideológica que inspirou esse período da história d‟O São Paulo. O semanário, com sua matriz ideológica conservadora, possuía uma perspectiva política que expressava os vínculos sólidos entre a Igreja de São Paulo e o Estado. Ainda, manifestava uma simpatia no plano internacional em relação aos governantes dos Estados Unidos da América – devido a referências aos seus presidentes ou aos grandes feitos norteamericanos. No entanto, a pesquisa documental no arquivo d‟O São Paulo permitiu caracterizar os períodos distintos a partir das suas publicações semanais e a descoberta do material censurado pela ditadura militar foi algo inspirador no processo de investigação que ampliou a compreensão do papel do respectivo meio de comunicação e as mudanças do 5 Encíclica sobre os MCS: “nesse campo, como em vários outros, entretanto, o precursor de Vaticano II foi o papa Pio XII, de modo especial com a Encíclica „Miranda Prorsus‟” (DALE, 1973, pp. 15-9). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 pensamento católico paulistano, vinculado à Arquidiocese, consolidando uma perspectiva católica “progressista6” que caracterizou as décadas de 1970 e 1980. O conservadorismo católico e o combate aos “inimigos” da moral cristã A imprensa católica era apresentada como a detentora da verdade, da “boa-nova” e das bênçãos necessárias, porque possuía a capacidade para efetivar o “bom combate” contra qualquer tipo de “inimigo”, mas principalmente contra todos os que negavam ou combatiam a religião; o medo do perigo “comunista” compõe um dos cernes de combate católico, motivador de ações católicas nas mais diferentes esferas de atuação da Igreja. Nesse sentido, o editorial intitulado “Um General Falando sobre o Comunismo”, a seguir, representou uma estreita ligação ideológica entre a versão militar e o catolicismo paulistano. A adoção da fala do general Flotiano de Lima Brayner, chefe do Estado-Maior do Exército, em uma conferência de abertura do ano letivo da Escola de Comando e EstadoMaior do Exército contribui para a melhor compreensão do referido aspecto e do posicionamento do semanário: ... a atuação dos estudantes, que se deixam continuamente envolver em campanhas e movimentos, às vezes os mais estranhos aos interesses imediatos da classe, e cujo objetivo é criar a mentalidade revolucionária nos moços, distraí-los dos estudos, incapacitá-los para exercer a verdadeira influência, tornando-os profissionais sem preparo nem descortino, facilmente domináveis pelas forças que se preparam para dominar a Nação. (EDITORIAL, ano V, n. 215, p. 3, 13 mar. 1960, grifos nossos) Nessa época, o mundo vivia sob a égide da Guerra Fria (Hobsbawn, 1995) e o posicionamento das elites políticas brasileiras em geral estava atrelado às ideias da civilização capitalista e seus principais líderes (Estados Unidos, França, Inglaterra), que tinha como grande inimigo o comunismo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Assim, a salvaguarda nacional contra o comunismo foi representada pelas Forças Armadas e o semanário O São Paulo deixava clara sua anuência em favor do capitalismo e dos militares brasileiros. A matriz política adotada pelo semanário frente ao embate Estados Unidos versus Cuba subsidiava inúmeras reportagens e matérias contra o Estado cubano pós-revolução ou qualquer outro país que se vinculasse à URSS. Na perspectiva de combate ao comunismo e suas idéias, inúmeras matérias e reportagens difundiam informações sobre perseguições aos membros da Igreja Católica em 6 Devemos considerar que o termo progressista é amplo demais e que o jornal consolidou-se como progressista dentro do próprio eixo conservador de seu processo histórico inicial com as características ultramontanas e da Igreja Católica enquanto instituição ultraconservadora que começava a se adaptar à realidade político-social da época. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 Havana, desde a Revolução Cubana (1959), e a opção daquele país por alinhar-se à URSS (no início da década de 1960). O semanário permaneceu em campanha contra o comunismo internacional e o projeto socialista cubano, como é possível observar: O Peixe das Catacumbas Reaparece em Havana Havana (NC) – O mesmo peixe que foi símbolo dos cristãos perseguidos nas catacumbas há 20 séculos aparece cada vez mais pelos locais públicos de Havana como embrema (sic!) da resistência contra o comunismo. Em geral, ao lado dos cartazes de propaganda oficial do célebre “piscis”, que os primeiros cristãos consideravam a figura de Cristo, pois suas letras formam as iniciais da frase grega “Cristo, filho de Deus, Salvador”. (PRIMEIRA PÁGINA, ano VI, n. 262, p. 1, 5 fev. 1961). Como um contraponto a Cuba – e reafirmando a opção preferencial pelo capitalismo –, várias reportagens durante o ano de 1961 enfatizaram a figura de Kennedy – presidente católico dos Estados Unidos, por exemplo: Na Venezuela e na Colômbia – Viagem de Kennedy revela novo clima na América Latina – O entusiasmo com que o presidente Kennedy e sua encantadora esposa Jacqueline foram recebidos nesta semana na Venezuela e na Colômbia, demonstraram o fracasso total dos comunistas empenhados em demonstrar uma oposição acirrada aos planos de cooperação entre estas nações e os Estados Unidos no combate ao subdesenvolvimento destes países. (MANCHETE, ano VI, n. 308, p.1, 24 dez. 19617) A matriz ideológica que subsidiava os textos e análises contidas n’O São Paulo possuía um perfil católico ultraconservador, negador das mudanças vistas na década de 1950, que prenunciaram os grandes questionamentos promovidos pelos jovens nos anos 60. Ali já era possível notar a tônica anticomunista que norteou vários anos de publicação do semanário, em que ficou visível a contraposição do ocidente-cristão em relação ao oriente-ateu-soviético. Além dos aspectos religiosos existia a clara presença das contradições internas que permeiam a estrutura da Igreja Católica em todo o mundo. Nesse sentido, o semanário O São Paulo realizou, a partir de 1961, uma série de reportagens e discussões a respeito da reforma agrária no Brasil. A manifestação católica, de forma oficial e hierárquica, sobre as relações sociais que envolvem o capital, a propriedade privada, relações de trabalho, justiça, desenvolvimento econômico e social indicam a preocupação constante frente às mudanças do mundo contemporâneo, mas também eram reflexo da tomada de posição diante das manifestações sociais pró-socialistas ou comunistas na América Latina e no mundo – por isso, foi um 7 Espantosamente, essa chamada vem ocupando o lugar privilegiado da mensagem de Natal, destaque dado à manchete de primeira página, costumeiramente publicada na semana próxima ao dia 25 de dezembro. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 direcionamento dado ao público leitor católico de como se posicionar na busca das soluções para os principais dilemas nacionais ou internacionais. A participação política estimulada pela Igreja Católica nessa época ficou restrita ao voto, tanto que o vínculo das edições do semanário com as crises políticas pelas quais passava o País muitas vezes era inexistente. Confirmação dessa abordagem de pseudo “neutralidade” jornalística frente os fatos políticos verifica-se na não-cobertura jornalística dada ao golpe militar de 1964. O jornal católico paulistano e o Golpe militar de 1964 É destacável a ênfase dada às edições de 22 e 29 de março e 5 de abril de 1964, que estiveram vinculadas às temáticas religiosas, como a Festa da Páscoa e os eventos internos da Igreja Católica. Na edição de 5 de abril, foi publicado o seguinte comunicado: Mensagem do Episcopado Paulista É com a maior preocupação paternal que nos dirigimos a todos os nossos fiéis diocesanos conclamando-os a que se unam nesta hora grave, no amor fraterno, traduzindo-o em fervorosas preces a Deus, por intercessão de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, para que se firme na Pátria conturbada clima de “verdade, justiça caridade e liberdade” (João XXIII, Pacem in terris), evitando toda e qualquer violência que venha derramar sangue de irmãos. São Paulo, 1 de abril de 1964. (PRIMEIRA PÁGINA, n. 427, p. 1, 5 abr. 1964) Vários acontecimentos nacionais evidenciavam a crise instalada entre o Comando das Forças Armadas e o então presidente João Goulart (Fausto, 2001), porém nada dos aspectos associados à crise política era tratado nas edições do semanário. O pronunciamento de cardeal Motta tem um zelo religioso e devocional ao discutir o grave acontecimento político institucional de quebra de mandato de um presidente eleito democraticamente pela população brasileira. Ficou evidente também a forma indireta de se informar a mudança no Poder Executivo, conforme os destaques na citação acima. Na edição de 12 de abril de 1964, a manchete continua com a abordagem religiosa, Dia Mundial das Vocações, seguida da matéria a esse respeito que ocupou a maior parte de toda a primeira página. Foi deixado um pequeno espaço destinado a mais três pequenas matérias, sendo uma delas sobre a situação política nacional, a seguir: Brasil Tem Novo Presidente Um movimento revolucionário iniciado pelos governadores de MG, SP, Guanabara e Rio Grande do Sul e apoiado pelas Forças Armadas, conseguiu, em poucas horas, derrubar o presidente João Goulart. O III Exército, sediado no Rio Grande do Sul, tentou resistir, mas vendo que seria inglória a sua luta decidiu entregar-se. Os chefes do movimento revolucionário que teve como escudo o combate ao comunismo estão efetuando várias prisões de brasileiros e estrangeiros acusados de se acharem a serviço dessa ideologia materialista e anticristã. (PRIMEIRA PÁGINA, n. 428, p. 1, 12 abr. 1964, grifos nossos) Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 A opção jornalística ao trabalhar com as informações acima explicitou a adesão à terminologia adotada pelo Comando das Forças Armadas, que designou a ação golpista como “movimento revolucionário”. Esta é a manifestação de como a Igreja Católica e, no caso, a paulistana – mantinha seus vínculos com o poder instituído pelos militares, que eram os defensores da Pátria contra o comunismo e possuíam credibilidade para tirar de circulação, por meio de prisões, os indivíduos que ameaçassem a sociedade brasileira capitalista e cristã. Ao discutir essa temática com os argumentos acima, faz-se necessário apontar as contradições internas da Igreja Católica, que se refletem nas suas posições frente à política nacional. O catolicismo e a Igreja conseguem manter-se como renovados e relevantes interlocutores da cultura. No campo aberto da/pela política, encontramos-lhes como espaço de produção de sentidos do humano nas lides entre classes e grupos sociais. Sua longuíssima tradição serviu de lugar hermenêutico legitimador para posições conservadoras, reacionárias, reformistas ou revolucionárias no período do golpe de Estado de 1964. (SILVA, 2014, p.68) A crença do alto clero da Igreja Católica de São Paulo no Comando das Forças Armadas e no “movimento revolucionário de 1964” não era unanimidade. Tanto que Dom Angélico Sândalo Bernardino8, ao ser questionado sobre sua interpretação sobre a deposição do João Goulart, afirmou: Coligação, coligação daquilo que havia de mais atrasado, das oligarquias nesse País, tanto das classes dirigentes da cidade com as oligarquias do campo, auxiliadas, apoiadas, incentivadas pelos Estados Unidos, pela CIA. Então [...] um frear do avanço dos movimentos que queriam um Brasil mais digno, de acesso da população marginalizada e excluída à terra, à educação, à moradia, à escola. Então, eles quiseram frear, com a desculpa do perigo comunista... (BERNARDINO, 2001) As contradições internas se tornaram tão evidentes e incomodaram a direção hierárquica da Igreja de São Paulo a tal ponto que um editorial d‟O São Paulo as discutiu, tentando negá-las e impor um autoconsenso institucional: Existe uma opinião manifestadamente desconhecedora dos mais altos desígnios da Doutrina Social da Igreja [...]. E teima-se em afirmar que a Igreja, ou pela parte do clero, tem estendido desesperadamente a mão para as esquerdas. Resulta isto de falta de compreensão exata do que seja o ensinamento social da Igreja. Não se trata com efeito de uma “ideologia”, limitada historicamente a um determinado complexo social, mas de um “testemunho” da vocação sobrenatural do homem. Os que acusam a Igreja de manter compromissos com o capitalismo liberal ou com movimentos pró-comunistas cultivam a confusão (EDITORIAL, n. 428, p. 2, 12 abr. 1964). 8 A sua nomeação episcopal ocorreu em 1974, e a sua ordenação episcopal para São Paulo em 1975. Cf. Chiaradia Pereira, Dom Angélico Sândalo Bernardino foi “quem substituiu Frei Romeu Dale [na direção d‟O São Paulo em 1977, inclusive, aprimorou o aspecto visual do semanário sem comprometer a visão crítica implantada por Dale” (2005, p. 80). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 A fundamentação da argumentação do Editorial acima explicitou uma base moralreligiosa; a Igreja foi entendida com uma instituição acima de toda a sociedade, como se fosse possível o seu não envolvimento com as principais questões ou problemas políticos, econômicos e sociais. Buscou-se negar os reflexos das principais contradições sociais dentro da sua organização institucional. As mudanças no plano político nacional ocorriam pari passu às alterações na Arquidiocese de São Paulo. Na edição de 3 de maio de 1964, o cardeal Motta comunicou oficialmente sua partida para a Arquidiocese de Aparecida (SP). Ratificando o debate proposto pelo Editorial acima e ampliando a compreensão sobre os processos políticos da época, Teodoro Silva indicou: Os conflitos aconteciam pródiga e intensamente no seu meio que, registremos, reproduzia no seu interno as lides da sociedade civil. Segue um exemplo: o jornal católico Brasil, Urgente9, que era um dos órgãos dos setores de esquerda da nação, publicou o artigo: “Cardeais e imposturas”. Nele há a notícia da fundação da “Liga cristã contra o comunismo”. Essa fundação fora amplamente noticiada pelos jornais O Globo e o Estado de São Paulo. A presidência de honra dessa liga fora dada ao papa Paulo VI; ao cardeal de São Paulo, Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta e ao deputado Plínio Salgado. Esse semanário, por meio desse artigo, busca desautorizar a Liga informando que o cardeal, entusiasta do jornal Brasil, Urgente desde sua fundação, havia informado não ter sido convidado para essa presidência e que se o fosse a recusaria. Ele revela que a alta hierarquia da Igreja Católica na arquidiocese de São Paulo não apoiava o anti-comunismo como era conduzido pelos setores reacionários do catolicismo. (SILVA, 2014, p. 68) Nos meses iniciais da ditadura militar (1964-85), as contradições internas da Igreja Católica, frente à conjuntura nacional, intensificaram-se e já se evidenciavam nas próprias edições d‟O São Paulo: ... se a Revolução teve a intenção de arrancar o País ao comunismo – lembram os bispos – de fazer valer a Justiça, o Direito e o bom senso, tem pela frente ingente tarefa. Há de expurgar as causas da desordem, mas sem arbitrariedade e sem violência, garantindo aos acusados o sagrado direito de defesa, para que não medrem as desforras e as vinganças mesquinhas que se costumam valer dessas oportunidades (EDITORIAL O Episcopado e a Revolução, n. 437, p. 3, 14 jun. 1964, grifos nossos). Existe, escancaradamente, a concordância do alto clero paulistano com a ação golpista de 196410, porque ela era tida como responsável pela reinstalação da ordem ameaçada pelo avanço bolchevista no Brasil. No entanto, ficaram expostas as preocupações acerca do uso da violência e arbitrariedade policial, que não eram suficientes para resolver os demais 9 Edição de número 52, de 7 a 13 de março de 1964. Os: na citação original trata-se da nota de rodapé n.2. Segundo Silva (2014) a partir de sua fonte oral, Frei dominicano Carlos Josapha, há discordância no que se refere a essa afirmação. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/interacoes/article/view/7366/7087, acessado em 30/05/2015, às10h. 10 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 problemas da sociedade brasileira. Mais ainda, contrariamente ao protocolo militar, reafirmou-se o “sagrado direito de defesa” dos acusados presos nas ações policiais. Transição no Catolicismo Paulistano: contradições e o início de uma nova época O semanário O São Paulo acompanhou e publicou todas as fases preparatórias, assim como os diversos momentos de realização do Concílio Vaticano II. Inúmeros documentos foram editados na íntegra a partir de 1961 e, dada a sua significância 11, o novo arcebispo, cardeal Rossi, aproveitou o término do Concílio e, logo após, já fez alguns encaminhamentos: no seu primeiro contato com o clero da Arquidiocese, na reunião do dia 20 de dezembro, estabeleceu o emmo. (sic!) Sr. Arcebispo Metropolitano, cardeal Rossi, as bases do trabalho que deverá ser efetuado em São Paulo. A tarefa da Hierarquia, dos sacerdotes e dos católicos em geral é agora fazer penetrar na vida católica, com em toda a sociedade, as normas ditadas pelo Concílio Ecumênico Vaticano II. Demandará isso tempo e, sobretudo, uma grande docilidade e zelo da parte de padres e leigos, tanto mais que se hão de vencer hábitos e mentalidades fixadas às vezes desde séculos, de modificar costumes arraigados e alterar maneiras de ver e de julgar profundamente inseridas. (EDITORIAL, ano XI, n. 518, p. 3, 2 jan. 1966) Dessa forma, fica bem indicada a transitoriedade da sua administração. O período de Arcebispado de Dom Agnelo Rossi (1964-70) é característico por não se tratar apenas da Igreja pós-conciliar de São Paulo, mas também por não haver, ainda, uma nova identidade constituída que apontasse mudanças na postura da Igreja em suas relações estabelecidas com a sociedade paulistana. No avanço da transitoriedade, em maio de 1966, houve a chegada de dois bispos auxiliares de cardeal Rossi: Novos Bispos Auxiliares para os Trabalhos Religiosos da Arquidiocese, Dom Bruno Maldaner, Dom Evaristo P. Arns, nomeados por Paulo VI, destacando os vínculos de D. Paulo com a educação e os MCS. A linha jornalística do semanário continuava, contudo, alinhada com a matriz conservadora, que vinha desde o período de cardeal Motta: a temática religiosa e seus eventos e a proximidade com os governantes militares no poder, além das críticas ao comunismo internacional, que eram a tônica das reportagens nos anos iniciais (1964, 1965, 1966) do Arcebispado do cardeal Rossi. A relação Estado/Igreja era tão sólida que várias reportagens d‟O São Paulo enalteciam o papel dos militares na história brasileira, ou os feitos realizados por eles na administração do Estado após o Golpe. Nesse sentido o semanário, ainda, destacou as 11 “O Concílio Vaticano II, encerrado, solenemente, pelo papa Paulo VI, no dia de 8 de dezembro [de 1965], após seis anos de esforços ininterruptos, apresenta uma longa pauta de trabalhos realizados. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 medidas de Castelo Branco relativas à proteção dos trabalhadores, classificando sua presidencia como constituida por um: governo que desdenha a impopularidade e que se preocupou, exclusivamente com os interesses superiores do País, qualquer que seja a repercussão das medidas que adota, o presidente Castelo Branco, sem qualquer propaganda ou exploração demagógica, baixou decreto-lei que reforça a proteção do trabalhador brasileiro (EDITORIAL, ano XI, n. 570, p. 3, 1 jan. 1967). No mês de janeiro de 1967 o Congresso Nacional foi reaberto, tendo em vista que havia sido fechado pelo presidente Castelo Branco às vésperas das eleições, no final de 1966. Alguns parlamentares não retornaram, devido às cassações de mandatos instituídas pelo Comando Militar, porém, totalmente alinhado ao status quo da ditadura militar, o semanário fez a seguinte publicação de primeira página: O presidente da República recebe com júbilo a Carta Promulgada O marechal Castelo Branco, em discurso pronunciado, no Palácio do Planalto, no dia 24, ao receber os líderes congressistas logo após a promulgação da Carta, manifestou júbilo e otimismo no futuro do Brasil sob a égide da nossa Constituição. “No magno ato há pouco realizado no Congresso Nacional – afirmou – privativo da sua soberania, agora aqui, mais por um gesto político do que por mero formalismo, o senador Auro Moura Andrade e seus companheiros me permitem compartilhar do júbilo de um dos grandes dias da história do Brasil” (PRIMEIRA PÁGINA, ano XII, n. 570, p. 1, 29 jan. 1967) O posicionamento político da reportagem acima abdicou de qualquer crítica ao processo de elaboração da Carta Magna e valorizou a perspectiva ufanista, difundida pelo marketing político dos militares junto à população em geral. Com referência ao processo de transição característico dos anos 1966-70, que envolveu mudanças nas concepções da Igreja de São Paulo junto aos MCS, na sua relação com o poder político estabelecido, com a sociedade paulistana e no direcionamento dado pelo arcebispo frente à realidade institucional e social, em meados de 1967 Dom Paulo Evaristo Arns passou a escrever semanalmente n‟O São Paulo, em uma coluna intitulada “Almas que Procuram”, em que também eram respondidas cartas dos leitores. A presença de Dom Paulo E. Arns na equipe editorial do semanário permitiu uma nova possibilidade jornalística, tanto que houve a publicação de um manifesto da Ação Católica Operária contra o governo federal, que entrou em conflito com as informações difundidas em uma Manchete no início de 1967, reproduzido a seguir: Ação Católica Operária – manifesta-se contra política do Governo S. PAULO (Asapress) – A Ação Católica Operária do Estado de São Paulo divulgou no dia 7 manifesto contra a atual situação político-econômica do País, conclamando os trabalhadores a lutarem pela mudança deste estado de coisas (ano XII, n. 615, p. 8, 12 nov. 1967) Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 13 O referido processo de transição (que marca a crise que envolve a matriz conservadora da Igreja para uma nova fase) contribuiu para que o semanário publicasse, de forma inédita, matérias abertamente contrárias aos interesses do Comando Militar que governava o País: Bispos examinam situação criada entre Igreja e Exército ... Dom Waldir [bispo de Volta Redonda, RJ, que teve o Palácio invadido por militares] [...] Disse que os acontecimentos que culminaram com a prisão dos quatro seminaristas não foram os primeiros que se seguiram à Revolução e que “o movimento de março de 1964 não foi uma revolução e sim um simples golpe de Estado” (MANCHETE, ano XII, n. 618, p. 1, 3 dez. 1967, grifos nossos) Nesse sentido, passavam a ser freqüentes matérias que indicavam o distanciamento, pelo menos em parte, da Igreja Católica e do Estado, como pode ser evidenciado no grifo acima no depoimento de Dom Waldir, quando afirmou que o ocorrido em 1° de abril de 1964 foi um Golpe militar. Essa atitude possuía um significado claro de ruptura com a posição política dominante, que se autodenominou “Revolução de 1964”. Existem, ainda, outros exemplos que reforçam essa nova contradição exposta n‟O São Paulo, como o título da manchete: “Até o Evangelho Pode Ser Encarado como Subversivo” (MANCHETE, ano XII, n. 620, p. 1, 17 dez. 1967). Deixando cada vez mais evidentes as contradições internas da Igreja Católica nas matérias editadas por O São Paulo, além de indicar possibilidades de um afastamento das posições políticas governamentais. Essa nova perspectiva, nunca antes vista n‟O São Paulo, exigiu também uma reformulação na sua abordagem jornalística, em que foi possível evidenciar que a discussão sobre a opinião pública na Igreja não é um tema novo, porém nem todos a compreendem corretamente, e com freqüência é causa de mal-entendidos. [...] A imprensa poderia e deveria ser o lugar do diálogo interno da Igreja. [...] Mas convém lembrar que precisamente, em nossos dias, um grande público sente uma necessidade completamente nova e demonstra interesse por problemas teológicos e político-religiosos. [...] Durante o Concílio um bispo levantou a voz para dizer: “À imprensa católica falta algo da personalidade, de decisão e de criação que é próprio do jornalismo, que deveria exercer diante da resistência interna da Igreja” (MANCHETE, ano XII, n. 624, p. 1, 14 jan. 1968, grifos nossos). O ponto de partida para uma ampla discussão, relacionada à opinião pública, implica um processo de debate e conflito de idéias, que, segundo a citação acima, é também responsabilidade da imprensa católica. Mas, quando se afirmou que durante o Concílio Vaticano II houve uma nova necessidade que envolve problemas teológicos, estava-se afirmando uma crise na teologia tradicional, que era característica predominante da Igreja Católica, quando se propôs debater aspectos teológicos e abriu-se uma nova possibilidade de formulação teológica – como foi o caso da Teologia da Libertação. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 14 As contradições são ricas e evidentes frente à matriz ideológica conservadora que subsidiava a abordagem jornalística d‟O São Paulo, porque o alinhamento à política governamental ainda era uma característica predominante do semanário, assim como o cerceamento às mudanças no campo moral e à própria imprensa nacional. Frente à discussão sobre o papel da imprensa católica, a manchete “Muda a Imprensa na Renovação da Igreja” trouxe mais elementos que enfatizam as contradições sobre a temática vinculada aos MCS e que valorizou o Decreto Conciliar Inter mirifica: A imprensa católica não deve ser somente uma imprensa para os católicos; no futuro ela deve significar mais o trabalho dos católicos para todos os homens da Terra. [...] O Decreto IM [Inter mirifica] foi o documento promulgado pelo Concílio. Um formoso gesto do Concílio, dedicado a sublinhar o significado dos meios de comunicação no tempo atual. A imprensa foi compreendida no Concílio dentro dos meios de comunicações sociais. (MANCHETE, ano XIII, n. 651, p. 1, 21 jul. 1968) Na perspectiva inspirada nessa nova matriz ideológica, Dom Paulo E. Arns publicou uma matéria, afirmando que: não há mais dúvida, o Povo de Deus, quer queira quer não, está hoje imerso nos acontecimentos e se vê obrigado a participar deles. É um bem [sobre os meios de comunicação], não resta dúvida. Mas é igualmente uma nova responsabilidade diante de Deus e dos homens. Não teríamos nunca chegado a sentir toda a extensão de nossos males, não existissem os meios de comunicação social. Por exemplo, nosso subdesenvolvimento e nosso analfabetismo chegam a apresentar-se hoje como um desafio. Existiram sempre e fizeram, durante séculos inúmeras vítimas. Poucos lhes atribuíam importância e poucos, por isso mesmo, se engajavam na luta hoje (ARNS, ano XIII, n. 640, p. 2, 5 maio 1968). A apresentação dos argumentos de Dom Paulo explicita uma nova leitura da realidade, publicada n‟O São Paulo. A lógica, segundo a qual os MCS podem levar à tomada de consciência e contribuir para que as pessoas lutem e se organizem de forma engajada para a transformação da realidade, era uma leitura que entendia o mundo com suas contradições e processos históricos, onde Igreja e povo são desafiados frente às injustiças e desigualdades sociais da realidade brasileira. Com o episódio da prisão dos padres em Belo Horizonte - MG, no início de dezembro de 1968, houve uma ampla discussão sobre o conceito de subversão, que colocou “por terra” toda a ação militar ou paramilitar que acontecia no País contra os civis, que prestavam algum tipo de serviço às camadas populares ou eram questionadores do status quo. O conceito de subversão foi apresentado no semanário e com certeza, foi um grande Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 15 escândalo no plano político nacional, tendo em vista que indica uma ruptura com as elites nacionais (militares, políticas e econômicas). O editorial afirmava que: Sacerdotes Presos Em Belo Horizonte, ainda uma vez padres são presos. A acusação é a mesma: subversão da ordem. [...] No fundo é a proclamação do Evangelho que grita bem alto as bem-aventuranças dos que padecem por amor à verdade e à justiça. Aqueles que realmente subvertem não são presos, como, por exemplo, os fazendeiros de Goiás e mesmo de S. Paulo que [querem] impedir os camponeses de se sindicalizarem ou verem aplicados os benefícios do Estatuto do Trabalhador da Terra (EDITORIAL, ano XIII, n. 670, p. 2, 8 dez. 1968, grifos nossos). Deve ser salientado, ainda, mais uma contrariedade comum a essa fase d‟O São Paulo: nas edições do mês de dezembro de 1968 não houve nenhuma alusão ao AI-5, indicativo atribuído à perspectiva jornalística conservadora ainda existente. Esse “nãopronunciamento” era comum em vários outros momentos de profunda crise na conjuntura política nacional, como já citado na primeira parte deste Capítulo. Somente em 26 de janeiro de 1969 é que houve a pronúncia de cardeal Rossi sobre a situação política nacional e o AI-5: Igreja e Exército: Posições Diversas Abalam a Opinião Pública [...] ATO Nº 5 Se o ato de 13 de dezembro último, que foi geralmente recebido com surpresa, inquietação e decepção, der ao governo força para moralizar a administração pública, suscitar o espírito de responsabilidade, punir os grandes e reais responsáveis de nossos males, introduzir as reformas para que se firme, no País, a justiça social, então o sacrifício que o Brasil paga hoje à liberdade será benéfico para nosso porvir. Se, ao contrário, tal não suceder, não podemos nem sequer prever as conseqüências futuras desse ato (ROSSI, ano XIV, n. 677, p. 3, 26 jan. 1969). O posicionamento de cardeal Rossi foi moderado e permitiu um lastro de confiança e seriedade às Forças Armadas brasileiras12, tal qual à Igreja, independente do cerceamento das liberdades que iam sendo expropriadas a cada Reforma Constitucional ou a cada Ato Institucional. Por último, outro aspecto relevante que indica a transitoriedade do período de atuação do arcebispo cardeal Rossi n‟O São Paulo, tendo em vista as mudanças já indicadas acima, foi a saída de Dom J. Lafayette F. Álvares da Direção do semanário, já co-dirigido por Dom Paulo E. Arns. É significativa essa alteração no quadro diretor, tendo em vista que Dom Lafayette foi um dos fundadores d‟O São Paulo, junto com cardeal Motta, em 1956. É possível afirmar que a matriz conservadora que norteava a linha jornalística das edições também estava associada a ele. 12 A não ser pela pequena ressalva: “Hoje, porém, por causa de mentalidades e posições diversas, tanto na Igreja como no Exército, a opinião pública está abalada, embora suas simpatias se voltem mais para a Igreja”. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 16 Os ataques aos componentes da Igreja (leigos e clericais), entre outras lideranças sociais, aceleraram o processo de transição e ruptura com o conservadorismo hegemônico que predominou até 1968 e que possuía algumas características como: o atrelamento ao governo (ainda presente, porém com uma relação não tão solidificada), o personalismo e a supervalorização de imagens hierárquicas (expressão da romanização) do arcebispo e do papa (encontradas com menor freqüência nas publicações), além das críticas ao comunismo (que foram perdendo espaço dentro do semanário). Um novo norte jornalístico foi implementado em meio à perspectiva conservadora que existia entre os de 1969 e 1970, o qual valorizou temas de cunho político, social, trabalhista, dos movimentos sociais, dos jovens, urgência das reformas de base e, principalmente, da reforma agrária, entre outros. Tais mudanças eram oriundas do Concílio Vaticano II. Encerrando as análises sobre os aspectos que retrataram o processo de transição, que caracterizou a segunda metade do período de administração de cardeal Rossi na Arquidiocese de São Paulo, em 1970 ocorreu a nomeação do cardeal Rossi para prefeito da Sagrada Congregação no Vaticano. Por conseguinte, marcava-se a posse de Dom Paulo Evaristo Arns13 na Catedral da Sé como novo arcebispo e o último período estudado nesse trabalho (até 1985 quando ocorreu o fim da ditadura militar). Contradições “libertadoras” n’O São Paulo Os estudos acerca da ditadura militar são, de certa forma, a expressão da responsabilidade acadêmica frente o silêncio e censura impostos pelos militares no poder Executivo entre 1964 e 1985. O historiador Carlos Fico que trabalha a partir da perspectiva histórica do “Tempo Presente” e dos “traumas” do processo de formação brasileiro, indicou que existem traumas brasileiros ao longo do século XX, Há certa generalização nesse uso, mas não deixa de ser útil considerarmos a questão do trauma no caso brasileiro. Diferentemente da Argentina (para mencionarmos um exemplo próximo), o traço marcante da memória sobre a ditadura militar brasileira não é o trauma pela violência, mas a frustração das esperanças. Naturalmente, trauma e frustração não são a mesma coisa, mas integram o vocabulário psicanalítico que predomina no debate que estamos mencionando. Talvez seja possível identificar dois momentos culminantes que nos permitiriam entender a ditadura brasileira como um fenômeno que "não terminou", ambos marcados pela frustração: refiro-me à Lei de Anistia, de 1979, e à Campanha das Diretas, em 1984 (FICO, 2012, p. 50) 13 O período de sua gestão enquanto arcebispo foi de 1970 a 1998. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 17 Sob essa compreensão de Fico (2012) os estudos documentais sobre o arquivo censurado do jornal O São Paulo, buscaram de certa forma superar essa sensação traumática de um período que não teve fim. Foi pela primeira vez, no meio acadêmico, que as fontes vetadas e não publicadas integralmente ou parcialmente foram publicizadas. A seguir, estão análises que vinculam os documentos recebidos pela Editoria e ou matérias jornalísticas, que expressam esse momento de “catolicismo progressista” (WANDERLEY, 1978) e que são dados da realidade que caracterizam essa fase analisada entre 1970 e 1985, da gestão do arcebispo dom Paulo Evaristo Arns. Ao analisar as matérias selecionadas do semanário O São Paulo que sofreram censura no período da ditadura militar (1964 – 1985), é possível perceber em muitos casos que os temas abordados nesse periódico estão diretamente ligados ao discurso adotado pelos denominados “teólogos da libertação”, ou seja, aqueles religiosos cristãos que desenvolveram em setores da Igreja Católica, e também em algumas igrejas protestantes. Nesses materiais selecionados havia um posicionamento crítico ao modelo desenvolvimentista que caracterizava os países da América Latina. Os respectivos discursos censurados, observavam que, na América Latina, as desigualdades sociais eram historicamente existentes, em que pequenos grupos experimentavam privilégios econômico e político, enquanto faltava à grande parcela da população acesso aos meios básicos de subsistência, como: saúde, alimentação, moradia, saneamento básico, trabalho, educação etc. Por ser a religião católica resultado de missões estrangeiras, especialmente provenientes da Europa. No Brasil do século XX, o catolicismo institucional sofreu influência do viés ultramontano, ou seja, tendo a construção de um modelo de Igreja inspirado no Vaticano, realidade essa que destoa completamente do contexto do hemisfério sul. Assim, o desenvolvimento de segmentos religiosos críticos a essa maneira com que a Igreja Católica desenvolveu-se na América Latina, bem como o modelo político e econômico em vigor na região, sistematizou-se, ganhando o termo conhecido por Teologia da Libertação. Com o avanço da pesquisa no material censurado do semanário O São Paulo, foi possível identificar uma grande quantidade de matérias elaboradas sob a perspectiva da Teologia da Libertação, estabeleceram um diálogo entre religião e política, sob o contexto da América Latina e, especialmente, a experiência política que o Brasil enfrentava com a ditadura militar (1964-1985). Por exemplo, no arquivo censurado d‟O São Paulo, existem textos abordando as injustiças no campo; a violência por parte dos órgãos de repressão; o Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 18 desprezo dos governantes pelas regiões Norte/Nordeste do Brasil; a censura; a questão carcerária; o envolvimento da Igreja com questões de ordem política; demarcação de terras indígenas etc. Em algumas ocasiões, as produções com as respectivas temáticas eram liberadas com cortes pelos censores. Os editores d‟O São Paulo podiam publicar apenas parte do conteúdo, evidenciando o receio por parte da ditadura militar em ter assuntos dessa natureza divulgados. É visível num número considerável de matérias vetadas à identificação do autor. Os documentos vetados d‟O São Paulo muitas vezes não possuem ou fazem referência à autoria. Há sim, menção às pastorais e órgãos religiosos como o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra), que assumiram um posicionamento crítico aos problemas sociais da época, demonstrando alinhamento às proposições dos teólogos da libertação. Percebe-se também menção de nomes que tiveram atuação religiosa próxima dessa vertente teológica de libertação, como é o caso de D. Tomás Balduíno (bispo de Goiás); D. Hélder Câmara (arcebispo de Olinda e Recife); D. Paulo Evaristo Arns (arcebispo de São Paulo); D. Henrique Froehlich (bispo da Diocese de Diamantino, no Mato Grosso); D. Adriano Hipólito (bispo da Diocese de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro); D. José Gomes (bispo de Chapecó, Santa Catarina) e Dom Antônio Batista Fragoso (Crateús CE). Embora alguns possuam maior visibilidade quando se fala de Teologia da Libertação, o certo é que todos estão diretamente relacionados às práticas de libertação, que não se circunscrevem ao campo religioso apenas. Há relatos denunciando as injustiças cometidas contra povos indígenas. Em um deles, é feita a citação de um comunicado da Coordenação regional Sul do CIMI, com a denúncia de haver abuso e violência contra índios Kaigangs no Rio da Várzea, Rio Grande do Sul. A denúncia, que relata casos de espancamentos, estupros e destruição de casas desses índios, por parte de guardas florestais da Secretaria de Agricultura do Rio Grande do Sul, foi assinada pelo bispo de Chapecó, SC, Dom José Gomes, pelos conselheiros do CIMI, padres Egon Dionísio Neck (SC) e Natalício José Weschenfelder (PR), e pelos padres Geraldo Eugênio Saleme (SP) e Hélio Welter (RS) (OSP, Indios Kaigang, lauda 1). Segundo esses religiosos, esses acontecimentos têm sua origem em 1949, “quando o governo do Estado do Rio Grande do Sul, iludindo a Assembleia Legislativa, Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 19 grilou a área de 19.998 hectares, pertencentes ao toldo indígena de Nonoai, tentando, sempre, a pressionar os índios para abandonarem suas terras” (OSP, Indios Kaigang, lauda 2). A defesa de interesses indígenas demonstra uma posição pouco comum na religiosidade católica no Brasil e América Latina, região povoada primeiramente por essas pessoas. A crítica dirigida ao Estado do Rio Grande do Sul como responsável por tais atrocidades cometidas arbitrariamente contra indígenas, implica em uma tomada de posição em dois momentos: primeiro, rompe com o binômio Igreja e Estado, existente no Brasil desde a colonização, ou seja, a Igreja, ou pelo menos parte dela, não estava encobertando os erros cometidos pelo Estado, colocando-se assim, à parte de tal instituição. Em segundo, a crítica ao Estado estabelece um diálogo entre religião e política, que vai além das relações institucionais Igreja e Estado, rompidas oficialmente após o advento da República em 1889, e que, no entanto, não eliminou as parcerias estabelecidas no passado. Nesse sentido, a reflexão política a partir do campo religioso permite a elaboração de um pensamento descomprometido com interesses institucionais, seja de ordem política ou mesmo religiosa. O texto censurado encerra com um apelo às autoridades do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e à Funai (Fundação Nacional do Índio) para cumprirem imediatamente suas promessas aos colonos e aos índios, visando o reassentamento definitivo dos primeiros, em outras áreas, e para os segundos, a reintegração na posse plena das terras que tradicionalmente lhes pertencem” (OSP, Indios Kaigang, lauda 3). Em outro documento – intitulado “A CNBB informa” -, o texto abordou a assassinato dos padres Rodolfo Lunkenbein e João Bosco Penido Burnier, o sequestro de Dom Adriano Hipólito, as censuras à Dom Hélder Câmara e ao próprio semanário O São Paulo etc. Há também a crítica à “ideologia da Segurança Nacional colocada acima da Segurança Pessoal” que se espalhava pela América Latina. Sob o pretexto do desenvolvimento econômico e na luta contra o comunismo, era declarada a “guerra antisubversiva”, promovendo o advento do “Estado de exceção”: O treino para esta “guerra anti-subversiva”, na América Latina, contra o comunismo, além de levar ao embrutecimento crescente de seus agentes, gera um novo tipo de fanatismo, um clima de violência e de medo. São sacrificadas as liberdades de pensamento e de imprensa, são supressas as garantias individuais (OSP, 11.12.1976, lauda 2) Após levantar a questão a espoliação do índio expulso de suas terras, a insegurança que vivem os pequenos, a fome dos pobres e a desnutrição das crianças, o texto encerrou da seguinte forma: “Houve um tempo em que nossas pregações ao povo Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 20 aconselhavam sobretudo a paciência e a resignação. Hoje, sem deixar de fazê-lo, nossa palavra se dirige também aos grandes e poderosos para apontar-lhes suas responsabilidades pelos sofrimentos do povo” (OSP, 11.12.1976, lauda 3 – grifo nosso). Essa constatação de que “houve um tempo” de paciência e resignação na Igreja e que “hoje” há o apontamento aos poderosos pelo sofrimento do povo, indica a percepção de mudanças na religião católica. Se “antes” a Igreja possuía uma postura mais acanhada diante dos problemas sociais no continente latino-americano, “hoje” houve uma transformação, levando-a a procurar respostas para tais problemas. A Igreja de “hoje”, que aponta os problemas, cita responsáveis por práticas de injustiça, enfrenta o Estado e seu aparelho repressivo, denuncia o “Estado de exceção” instalado pelos militares no poder executivo, é o segmento de uma instituição religiosa permeada pela contribuição dos teólogos da libertação, que, juntamente com as ciências humanas e sociais, contribuíram na formulação de uma práxis religiosa, que buscava compreender a realidade do tempo presente. Considerações Finais A partir das análises empreendidas a respeito do semanário católico paulistano O São Paulo foi estabelecida a existência de três diferentes períodos de sua existência (no recorte temporal aqui analisado, 1956-1985) condicionados não só pelos destoantes posicionamentos político-ideológicos, como também pela direção editorial que encontrava-se vigente no jornal, sendo eles: o período ultramontano (cardeal Motta); o período de transição (cardeal Rossi); e o período “progressista” (cardeal Arns). Fundado em 1956 pelo cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta O São Paulo tinha como preceitos à perspectiva ultramontana, romanizada, de reestabelecer o poder da Igreja Católica em meio a sociedade ocidental, que encontrava-se inserida em um contexto de gradual decadência – decorrida da disseminação dos ideais liberais, materialistas, socialistas e comunistas, assim como da proliferação da religião protestante. Para tanto, durante o período de direção de seu fundador (1956-1964) é visível a preocupação quase que exclusiva do seminário em disseminar conteúdo de orientação para a ordem, a disciplina e a moral (pautada nos conceitos católicos), assim como constantes críticas ao socialismo, comunismo, marxismo e, até mesmo, o liberalismo. Com a chegada de dom Agnelo Rossi (1964-1970) ao arcebispado de São Paulo, e consecutivamente a adoção de novos membros na equipe de edição do semanário, deu-se Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 21 início a fase de transição deste meio de comunicação católico. Deve ser salientada a importância da vinda do bispo auxiliar dom Paulo Evaristo Arns à Arquidiocese de São Paulo (1966), e sua participação direta na produção do jornal O São Paulo. Nessa fase de transição o semanário católico comportou a convivência das diferentes perspectivas em suas páginas: a ultramontana e a “progressista”. A mudança interna n‟O São Paulo era concomitante às mudanças na sociedade brasileira, que passava a viver mais intensamente os ditames ditatoriais e as ações repressivas, principalmente após o Ato Institucional n. 5 de dezembro de 1968. A nova abordagem jornalística, implantada na década de 1970 com a posse do arcebispo dom Paulo E. Arns contribuiu para que o semnário publicasse semanalmente demandas sociais/políticas e não apenas elementos internos da Igreja Católica. Os vínculos que a Arquidiocese e o semanário passaram a consolidar com grupos católicos ou movimentos sociais que questionavam o ordenamento ditatorial do governo federal produziram inúmeros conflitos junto aos órgãos de censura e a política de Segurança Nacional. Por último, até 1972 foram publicadas matérias contrárias aos interesses do Comando Militar que governava o País (e das elites civis que os apoiavam), a partir desse ano a censura prévia foi instalada n‟O São Paulo e a liberdade de expressão foi cerceada até 197814. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983. CHIARADIA PEREIRA, José Aurélio. Mídia e Igreja: do pensamento à ação comunicacional de Frei Romeu Dale. 2005. Dissertação (Mestrado) apresentada à Pós-Graduação em Comunicação Social da Umesp, São Bernardo do Campo. DALE, Frei Romeu.(Org.) Igreja e Comunicação Social. São Paulo, Paulinas, 1973. DARIVA, Noemi (Org.). Comunicação social na Igreja: documentos fundamentais. São Paulo, Paulinas, 2003. FAUSTO, Boris. História Concisa do Brasil. São Paulo, Edusp/Imprensa Oficial, 2001. GRAMSCI, Antônio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. FICO, Carlos. História do Tempo Presente, eventos traumáticos e documentos sensíveis: o caso brasileiro. Varia hist. [online]. 2012, vol.28, n.47, pp. 43-59. http://dx.doi.org/10.1590/S010487752012000100003. HOBSBAWM, E. Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo, Cia das Letras, 1995. LANZA, Fabio. A Ditadura Militar no Discurso-Memória da Igreja Católica Arquidiocese de São Paulo (1964-1985). 2001. Dissertação (Mestrado) apresentada à Faculdade de História, Direito e Serviço Social da Unesp. Franca. _____ et al. Fontes sobre a ditadura militar: matérias e documentos censurados do jornal “O São Paulo” (1972-1978). Londrina: UEL, 2015. 14 Para maior aprofundamento sobre as matérias e documentos censurados d‟O São Paulo ver LANZA et al (2015) disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/socreligioes/pages/paginas-censuradas-d-o-sao-paulo.php. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 22 SILVA, Wellington Teodoro da. O catolicismo e o golpe civil-militar de 1964. Interações – cultura e comunidade. Belo Horizonte, v.9 n.15, jan./jun.2014, p.62-80. WANDERLEY, Luiz Eduardo W. Igreja e Sociedade no Brasil (1950-1964/1964-1975). Revista Religião e Sociedade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. Fontes Orais: BERNARDINO, Angélico Sândalo. Entrevista na Residência Episcopal em 15 de outubro de 1999 sobre a Igreja Católica em São Paulo e a ditadura militar. In: LANZA, Fabio. A Ditadura Militar no Discurso-Memória da Igreja Católica Arquidiocese de São Paulo (1964-1985). 2001. Dissertação (Mestrado) apresentada à Faculdade de História, Direito e Serviço Social da Unesp. Franca. Fontes Documentais publicadas: ARNS, Cardeal. Meios de Comunicação Social: diálogo imenso e permanente, ano XIII, n. 640, p. 2, 5 de maio de 1968. CARDEAL MOTTA, ano I, n. 1, p.1, 25 jan.1956. EDITORIAL, ano V, n. 215, p. 3, 13 mar. 1960. EDITORIAL, n. 428, p. 2, 12 abr. 1964. EDITORIAL, O Episcopado e a Revolução, n. 437, p. 3, 14 jun. 1964. EDITORIAL, ano XI, n. 518, p. 3, 2 jan. 1966. EDITORIAL, ano XI, n. 570, p. 3, 1 jan. 1967. EDITORIAL, ano XIII, n. 670, p. 2, 8 dez. 1968. MANCHETE, ano I, n. 7, pp. 1-2, 11 mar. 1956. MANCHETE, ano II, n. 88, 29 set. 1957. MANCHETE, ano VI, n. 308, p.1, 24 dez. 1961. 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E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 1 OS DESAFIOS DO SETOR TURÍSTICO RELIGIOSO NA OCUPAÇÃO DE ESPAÇOS PÚBLICOS: INVESTIMENTOS E EXPERIÊNCIAS DA JMJ E DO SANTUÁRIO DE APARECIDA Pedro Augusto Ceregatti Moreno – UFSCar [email protected] FAPESP GT 4 – Sociologia das crenças religiosas O setor do turismo religioso no Brasil experimenta nos últimos anos um significativo processo de profissionalização de suas atividades, seja na oferta de pacotes e roteiros, bem como no acolhimento e aparelhos receptivos de peregrinos e turistas. Vários agentes estão relacionados no aprimoramento dessa prática: agências e operadoras de viagens passaram a integrar pacotes a seus produtos visando atender a demanda religiosa; o papel dos governos também merece efetiva atenção, pois representa grande fluxo de investimentos em capacitação e obras de adequação nos pontos tradicionais de peregrinação; esse movimento também foi considerado pela igreja Católica, que instalou, por meio de sua conferência nacional, a Pastoral do Turismo, visando o gerenciamento de peregrinações e santuários. Esse cenário foi incrementado com a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2013, no Rio de Janeiro, evento que marcou um ciclo de megaeventos na cidade, sendo protagonizado pelo papa Francisco, que configurou uma das maiores aglomerações populares em só uma cidade no país. Tais fatores reforçaram a demanda órgãos públicos de massivos gastos no sentido de garantir a segurança dos fiéis e da comitiva papal, bem como dar suporte urbano ao evento. Esse trabalho explora o potencial da atividade turística religiosa, que representa um campo promissor do empreendedorismo, a um só tempo religioso e econômico, a partir do viés da demanda de investimentos no espaço urbano, na infraestrutura hoteleira e de transportes. Enfatizando ainda as limitações estruturais verificadas durante eventos como a JMJ e o aumento do número de fiéis no Santuário de Nossa Senhora, em Aparecida – SP, e a interação de agentes promotores do setor. Palavras-chave: turismo religioso; Aparecida; Jornada Mundial da Juventude; Pastoral do Turismo; CNBB. Introdução A realização de peregrinações e romarias sempre foi uma prática comum arraigada no catolicismo tradicional. O surgimento de santos populares que despertavam a devoção dos fiéis criou rotas de deslocamentos até pontos considerados sagrados, para os quais rumavam aqueles que firmavam promessas ou recorriam na necessidade de um pedido. No Brasil a prática de peregrinações e romarias é realizada há séculos, esse fenômeno está na essência da Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 consolidação do catolicismo no Brasil. Segundo Azzi (1977): “a romaria era um dos atos mais sagrados da devoção popular, tida como um sacrifício: o de ir visitar o santo em sua casa. Uma das expressões fundamentais da fé residia na promessa: pagar promessa era uma das obrigações fundamentais do catolicismo popular”. Com o passar dos anos foram se confluindo vários interesses distintos que possibilitaram a formação de estruturas turísticas que receberiam turistas e peregrinos, sejam em santuários, igrejas históricas ou festas populares. Inicialmente esse fenômeno estava estritamente vinculado com ocorrências esporádicas e autônomas, ou seja, viagens de curta duração, geralmente organizadas por leigos em suas comunidades e paróquias de origem, que pouco utilizavam serviços ou estruturas receptivas, como hotéis. Porém nos últimos dez anos verificou-se no Brasil o processo de racionalização da gestão do turismo religioso. Em outras palavras, o abandono gradual de uma lógica espontânea e desvinculada de grupos especializados na realização de romarias e peregrinações, para um momento de produção de um mercado especializado para o setor. Nesse esforço de gestão do turismo religioso os peregrinos e turistas passaram a contar com estruturas de receptividade e consumo balizadas por profissionais especializados, que perceberam a capacidade de atração e movimentação financeira do setor, seja nacional ou internacionalmente. O turismo religioso apresenta-se como um elemento que promove a relação entre esferas sagradas e profanas, criando uma ambiguidade conceitual-teórica, dada a combinação de prática religiosa e atividade comercial, gratuidade devocional e consumo deliberado (Silveira, 2004). Poderíamos falar de uma intersecção entre a "perspectiva da necessidade", aqui representada pelo exercício da religiosidade e a "perspectiva da liberdade", evidenciada nas práticas turísticas (Silveira, 2000). O setor turístico religioso brasileiro e seus destaques A partir de meados dos anos 70, o turismo se projetou como uma das mais importantes indústrias do mundo. Segundo a Organização Mundial de Turismo, este setor movimenta mais de US$ 3,5 trilhões, anualmente, sendo que mais de 180 milhões de pessoas vivem direta ou indiretamente dessa atividade. No Brasil, o turismo emprega mais de 10 milhões de pessoas e movimenta cerca de 3,6% da nossa economia. Ele está hoje segmentado em várias áreas de atuação, como: turismo cultural, turismo religioso, turismo esportivo, turismo de lazer, turismo infantil, turismo da terceira idade, Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 turismo gastronômico, turismo rural, turismo de eventos, turismo de aventura, turismo ecológico ou ecoturismo e outros. O turismo religioso é um dos principais ramos desse setor e um dos que experimentam maior crescimento. Ele está voltado aos retiros, peregrinações, romarias, comemorações religiosas, visitação a espaços e edificações religiosas. As festas religiosas, a propósito, estão entre as mais fortes expressões da nossa cultura. A grande motivação do turista religioso é a busca de experiências ligadas a sua fé. Esse turista sente a necessidade de estar em lugares onde a fé apresenta mais intensidade. Um campo em movimentação contínua, buscando seu alinhamento com fatores que possibilitem maior controle e coordenação das ações. A bibliografia produzida pelos pensadores das ciências sociais e do turismo apresenta a ambiguidade entre os termos, por colocar um contato esferas que tradicionalmente eram antagônicas: a religiosidade e o lazer. Apesar dessas ponderações o que se vê é que peregrinos e turistas passam a usufruir de estruturas de receptividade comum, sendo assim podem ser estudados como promotores de efeitos semelhantes no mercado turístico nacional. Os números são animadores e ajudam a alavancar as ações no setor que é dependente de muitos agentes para alcançar o êxito. Sejam esforços da iniciativa privada, com investimentos em hotéis, linhas de transporte ou estrutura para alimentação; ou então a partir das demandas públicas sob responsabilidade dos entes governamentais. Esse cenário pode ser ilustrado com os números relativos a movimentação turística com motivação de fé em 2014, contabilizados pelo departamento de estudos e pesquisas do Ministério do Turismo, dando conta de 17,7 milhões de viagens2. Sendo que desse total cerca de 10 milhões fizeram viagens sem pernoitar no destino (excursionistas) e outros 7,7 milhões permaneceram pelo menos uma noite no local. Para efeito de comparação em 2010 a fé moveu 6,6 milhões de brasileiros até outros estados, 3,6% das 186 milhões de viagens domésticas registradas pelo Ministério do Turismo; e trouxe ao Brasil 250 mil fiéis de outros países, 0,5% dos 5,1 milhões de turistas estrangeiros registrados no ano. No mundo esse segmento atrai mais de 300 milhões de turistas pelo mundo. A região expoente do desenvolvimento do turismo religioso no país é o Vale do Paraíba, que abriga um dos maiores aglomerados de pontos e atrações de interesse religioso no país: o mais significativo é o Santuário Nacional de Aparecida, em Aparecida (SP) que Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 recebeu em 2014 12 milhões de peregrinos e turistas3; Guaratinguetá (SP) também compõe o roteiro por ser a cidade natal do primeiro santo brasileiro, Santo Antônio de Santana Galvão (o são Frei Galvão); Cachoeira Paulista (SP) também é um destaque, sede da Comunidade Canção Nova, onde são realizados missas especiais, retiros e acampamentos, no final de 2014 foi inaugurado Santuário do Pai das Divinas Misericórdias com capacidade para 10 mil pessoas; outra cidade é Canas (SP), onde está sendo construída a sede nacional da RCC, nas margens da rodovia Presidente Dutra, contando com complexo de eventos, capelas, hospedagem, anfiteatro e estacionamentos. Entre os destinos de turismo religioso consolidados no país também estão o Círio de Nazaré (Belém, PA), uma das maiores festas religiosas do mundo, que reúne cerca de um milhão e meio de pessoas em outubro; a Romaria à Juazeiro (Juazeiro do Norte, CE), terra do Padre Cícero, recebeu 2,5 milhões de peregrinos para celebrações só no ano de 2011 – mais do que o total de viagens domésticas feitas por paraguaios no mesmo ano; e a Romaria à Nova Trento (Nova Trento, SC), onde está o Santuário da Madre Paulina, considerada a primeira santa brasileira, com cerca de 20 mil peregrinos por mês. O que se percebe ainda é a conjunção de interesses na formatação de roteiros de fé, como é o caso das cidades do estado de São Paulo de Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá, que formam o "Circuito Turístico Religioso do Vale do Paraíba", fomentado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), buscando agregar opções de entretenimento e consumo a mais de 13 milhões de visitante em 20134 (SEBRAE-SP). Segundo o então reitor do Santuário Nacional de Aparecida, Pe. Domingos Sávio, foi percebido esse movimento de incremento significativo de público e consequentemente necessidade de investimentos na estrutura do complexo, a partir de 2007 com a vinda do então papa Bento XVI, para a abertura da reunião do CELAM (Conferência Episcopal Latinoamericana e Caribenha). Se analisada a tabela de peregrinos em Aparecida verifica-se um aumento médio anula de peregrinos na faixa de 5%, em 2014 o dia da padroeira foi o mais movimentado dos últimos 10 anos, quando o complexo do santuário nacional recebeu 195 mil pessoas em um só dia. Muitos são os desafios desse setor no país, esse tardio processo de profissionalização sentido apenas nos últimos dez anos, reflete em deficiências urbanísticas e logísticas que Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 comprometem um pleno desenvolvimento do setor. Segundo o prefeito da estância turística religiosa de Aparecida-SP, Antônio Márcio da Siqueira, faltam investimentos que possibilitem obras e adequações, além daquelas consideradas prioritárias, para atender a demanda de público que recorre à cidade. Como visto, em dias de festas ou feriados o município chega a receber um número de peregrinos cinco vezes maior que a sua população, que é de 36 mil habitantes, segundo o Censo 2010 do IBGE. Recentemente o governo de São Paulo assinou um projeto de lei que busca favorecer essas cidades atrativas turisticamente, para que realizem obras e estimulem as potencialidades5. Em 1998 foi inaugurado há alguns metros do altar central o Centro de Apoio ao Romeiro (CAR), a fim de garantir alimentação, entretenimento e compras em lojas variadas que oferecem desde artigos religiosos até equipamentos eletrônicos e importados. O complexo cultural ainda conta com parques temáticos e visitas dirigidas, além da cobrança dos estacionamentos no pátio do santuário para veículos de passeio e ônibus que trazem os peregrinos. Segundo Oliveira (1999) o CAR é um local para grandes romarias, com 720 lojas onde se pretende estruturar o tempo e o consumo do romeiro de forma alegre e descontraída. Em Aparecida a hotelaria ganhou força significativa sendo que a cidade conta, segundo o Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes de Aparecida e Vale Histórico (Sinhores), com 33 mil leitos distribuídos em 175 meios de hospedagens, como hotéis, pousadas e pensões. O sindicato que representa a categoria promove capacitação frequente e alerta para as dificuldades urbanas da cidade: placas informativas em pelo menos dois idiomas, de calçadas com acessibilidade, de estacionamento e de mobilidade urbana, o que demandará maior investimento do setor público. Esse processo de abandono gradativo da forma aleatória de realização de romarias e peregrinações não reguladas em prol de um caráter empresarial de receptividade, cujas estruturas foram racionalmente idealizadas para acolher um tipo específico de público, e garantir-lhes, além do exercício da fé, o consumo e o lazer, compõe o contexto de desenvolvimento do turismo religioso. Apesar das categorizações, ambas as vertentes utilizam as mesmas ferramentas turísticas, tais como: o sistema de hospedagem, alimentação e transporte, além de realizaram suas viagens em período de tempo livre (DIAS, 2003). Devido a compulsória utilização de estruturas que não estejam relacionadas a fé, alguns autores não utilizam termos como Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 romeiro ou peregrino, por entenderem que essas pessoas em trânsito e consumindo são considerados turistas em essência. Em 2013 a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, contou com grande fluxo de turistas e peregrinos e foi a grande vitrine desse mercado. Configurando, segundo o estudo do Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR) e da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) a maior aglomeração turística em uma só cidade no país, atingindo a movimentação financeira de aproximadamente 1,8 bilhões de reais. Muitos simbolismos permeavam esse encontro mundial, que foi pensado por Bento XVI antes de sua renúncia, o principal deles foi a primeira viagem apostólica do pontificado de Francisco. A vinda do primeiro papa latino americano da história ao continente, em um momento de enfrentamento de questões consideradas delicada para a igreja, no seu âmbito moral como organizacional, no que diz respeito a uma reforma na cúria romana. A opinião pública, de alguma maneira, questionou os gastos públicos no evento, que atenderam as demanda de segurança do papa Francisco, e dos participantes, além da preparação urbana para receptividade dos eventos centrais da JMJ. Segundo levantamento do jornal O Globo, a visita do pontífice custou aos cofres públicos, municipais, estaduais e federais uma somatório em torno de 118 milhões de reais. Além da participação pública o evento contou com o pagamento das inscrições efetuadas pelos peregrinos, que adquiriram pacotes que lhes conferiam um kit de produtos personalizados do evento, e em alguns pacotes de alimentação e hospedagem. A edição brasileira da JMJ recebeu mais de 355 mil inscrições6 de peregrinos, sendo 220 mil peregrinos brasileiros e demais vindos de 175 países, além de 60 mil voluntários. Os valores dos pacotes de inscrições variavam entre R$ 106,00 e R$ 608,00 dependendo das modalidades escolhidas pelos peregrinos7, que poderiam incluir alojamento, transporte e alimentação, segundo dados da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Os valores pagos pelos peregrinos chegam a 100 milhões de reais. O evento contou ainda com doações de empresas privadas e de fiéis através da campanha "Quero mais JMJ", veiculada nas redes sociais e no site oficial da Jornada. Após a realização do encontro mundial, segundo o jornal O Globo, o comitê organizador ainda era responsável por uma dívida de 90 milhões de reais, sendo que a venda de um imóvel rendeu 46 milhões para o abatimento. A fim de quitar o restante dos débitos Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 iniciou-se outra campanha, "Doe de coração", exaltando a magnitude do evento e seu proporcional investimento, buscando assim sensibilizar novamente os fiéis para que colaborassem com a arquidiocese carioca. Outra expectativa é quanto a próxima vinda ao Brasil do papa Francisco em 2017, por ocasião dos trezentos anos do aparecimento da imagem da padroeira nacional, em Aparecida. Essa visita marcará dez anos desse movimento de profissionalização do turismo religioso no país, incentivada em grande medida por essas três visitas papais à São Paulo, Rio de Janeiro e à Aparecida. O maior símbolo do turismo religioso católico nacional, Aparecida, busca, agora, projetar-se internacionalmente, em especial com o objetivo de atrair peregrinos da América Latina, motivados, essencialmente, por esse possível retorno do papa Francisco. Nesse esforço de internacionalização, foi realizada entre o santuário nacional de Aparecida e o santuário de Fátima, em Portugal, uma interação de eventos que contou com a entronização de imagem de suas padroeiras no outro país. Também os sindicatos e associações representativas do turismo religioso daquela região estão se preocupando com a expansão de peregrinos internacionais. O Sinhores – Sindicato dos Hotéis e Restaurantes de Aparecida e Vale Histórico, está realizando congressos e formações periódicas na preocupação de um treinamento especializado para atender essa demanda estrangeira, além de discussões de adequação da estrutura urbana e turística, como por exemplo, placas de sinalização bilíngue ou material de divulgação adaptados a possíveis barreiras linguísticas e culturais. Agentes promotores do turismo religioso nacional O setor turístico com motivações religiosas no Brasil é fomentado essencialmente por três frentes: a iniciativa privada, representada por agências e operadoras de viagens; os governos, a partir de fluxos de investimentos das secretarias e Ministério do Turismo; e por fim, pela igreja, através da ação da Pastoral do Turismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). No âmbito da inserção de agências e operadoras a consolidação de pacotes exclusivos para atender o turismo religioso nacional é evidente. Há de se ponderar que viagens internacionais já são realizadas há muito mais tempo, principalmente roteiros da Terra Santa e santuário marianos europeus. No Brasil, se começa a vivenciar experiências de algumas Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 empresas que direcionam seus pacotes exclusivamente para turismo religioso, diferenciando, inclusive, interesses de turistas católicos e evangélicos. Cada vez mais surgem pacotes que privilegiam os destinos nacionais, congregando visitas às regiões atrativas e também participação em festas típicas, como é o caso de Trindade-GO com a Festa do Divino e Belém-PA com o Círio de Nazaré. Ou seja, o público procura pacotes que vinculem o momento de fé e devoção, mas também proporcione lazer e diversão. Dessa maneira, não só empresas exclusivamente religiosas, mas também de turismo geral passam a oferecer produtos que atendam essa demanda, que varia na escala de possibilidades financeiras. Dois exemplos relevantes no Brasil são: a holding turística CVC, que realiza turismo geral, passou a comercializar também pacotes religiosos, em especial peregrinações internacionais e de eventos, como foi o caso da canonização do papa João Paulo II, no Vaticano. No campo das empresas de caráter religioso, o expoente do setor é a Catedral Viagens, especializada em turismo religioso católico. Oferece diversidade de pacotes e entre eles opções nacionais de visitação aos santuários. Outro braço de promoção do turismo religioso nacional são os órgãos públicos. Como já foi dito, durante a JMJ no Brasil secretarias e o próprio Ministério do Turismo apoiaram o evento. Como destacou o então ministro do turismo, Vinicius Lajes, durante entrevista de pesquisa concedida ao andamento da pesquisa que originou esse artigo, os caminhos para apoio público no setor são dois: ações que são ligadas ao apoio à eventos, através de editais que são lançados periodicamente e que pode favorecer algumas dessas práticas e manifestações. Outro tipo de investimento que o ministério pode fazer é a melhoria da infraestrutura turística, ou seja, melhoras as vias, no centro de atendimento ao turista nesses sítios religiosos. Os trabalhos públicos buscam apoiar e financiar informações sobre a atividade turística, para orientação de peregrinos. O ministério e as secretarias locais podem ajudar os eventos através de editais, pode orientar através de orçamentos, para que queira desenvolver uma atividade turística ligada a esse fenômeno; e pode também ajuda na informação, através de atividades compartilhadas, seja na EMBRATUR ou então dento do próprio departamento de marketing. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 E também assume postura de ação no setor a própria igreja Católica, através da Pastoral do Turismo, vinculada ao setor de Mobilidade Humana da Comissão Episcopal para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da CNBB – Conferência Nacional dos bispos do Brasil, tem como objetivo anunciado ser um referencial dessa atividade turística no país. Conta com estratégias de ação que vise a criação de equipes de agentes, incentivos e treinamento para acolhimento de peregrinos, elaboração de roteiros além do fomento da informação sobre os destinos (Chiquim, 2013). Esse organismo eclesial busca marcar presença e ocupar espaço nas áreas de turismo, sejam com motivação religiosa ou não, aonde os turistas os peregrinos irão fazer suas férias de descanso, de lazer, de cultura, de conhecimento e sem dúvida do exercício da fé. Tem como prelado referencial o arcebispo de Maringá, dom Anuar Batistti, e é coordenada por uma equipe de atuação nacional, formada por leigos e religiosos. Assim como demais pastorais do catolicismo, esses trabalhos acontecem em diferentes países, instalado nas realidades locais de dioceses e paróquia, nesse caso em especial, naquelas com potencia receptivo de turistas. Em um primeiro momento da instalação da pastoral no Brasil foi assumida uma postura de gerado de políticas de mercado, ou seja, o organismo assumiu a comercialização de pacotes e produtos turísticos. Porém, com a mudança da coordenação nacional afastou-se de práticas como essa, mas por estar imersa em uma realidade concorrencial, como é o mercado turístico, tem sempre que lidar com a ambiguidade do encontro das esferas religiosa e econômica. O que está em discussão é o trabalho geralmente desempenhado por iniciativas como essa na igreja, as quais estão vinculadas a uma percepção de gratuidade, ao passo que nessa realidade da Pastoral do Turismo fulguram em um campo de concorrência comercial, cujo público alvo, geralmente, é um consumidor de bens turísticos. Em prol de um trabalho pastoral sustentável financeiramente a coordenação admite a possibilidade de parceria com empresas privadas do setor, segundo eles sem fazer de um agência ou operadora a “oficial” da pastoral no país. Desafios do setor no Brasil Apresentados todos os elementos e perspectivas da estruturação do turismo religioso na Brasil passarei a destacar algumas limitações que impedem o pleno desenvolvimento desse setor no país, concluindo assim esse artigo. Como dito anteriormente, o peregrino acaba por Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 utilizar os mesmo recursos turísticos que o turista convencional emprega. Dessa forma, os fatores que acometem o turismo receptivo acabam por atingir a prática religiosa, sejam nas precárias condições de estradas, conservação de monumentos e praças públicas por parte das administrações locais; ou então na necessidade de ampliação do sistema hoteleiro, de restaurantes e suporte. Podemos pontuar ainda a falta de incentivos de linhas de crédito e financiamento para essas adequações, bem como as descontinuidades dos transportes no país que passem a ligar grandes centros aos pontos de peregrinação mais rapidamente, seja de forma rodoviária ou aérea. Apesar de ter apontado a perspectiva da ação de agências e operadoras de turismo no campo religioso, é possível afirmar que os esforços concentram-se na emissão de peregrinos para roteiros estrangeiros. A oferta de destinos nacionais ainda é pouco significante frente a demanda, o que gera no peregrino que busca esse tipo de gerenciamento a necessidade da organização de caravanas autônomas. Uma das principais publicações sobre turismo religioso no Brasil, o portal "Viagens de Fé", destacou que esse comportamento da iniciativa privada acaba por gerar um "círculo vicioso", desperdiçando potenciais clientes e deixando de irradiar reflexos positivos para outros setores da economia turística nacional. Segundo a publicação esse cenário deve-se a falta de capilaridade na formação de roteiros que atendam esse público por parte das operadoras de viagens, responsáveis pela elaboração dos pacotes que serão comercializados pelas agências. É primordial destacar, por fim, que ao falarmos de turismo religioso no Brasil estamos nos referindo essencialmente ao turismo cristão católico. Há de se ponderar a profundidade dos costumes, porém isso demonstra a necessidade de articulação de outras igrejas, sejam evangélicas, de raízes afro-brasileira ou orientais, no sentido da motivação e viabilização de pontos de recepção turística religiosa. Viabilizar meios seguros e confiáveis para que peregrinos e turistas cheguem até os centros de atração turística religiosa, como Aparecida-SP, Guaratinguetá-SP, a Canção Nova (Cachoeira Paulista-SP), Nova Trento-SC, Trindade-GO dentre outros, garantirá a superação do caráter independente do turismo religioso, muito ligada a formação de grupos nas igrejas, entre amigos e parentes. Iniciativas que garantam a maior permanência nos destinos, além da Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 conjugação de interesses do turismo cultural e até mesmo de lazer agregam relevância aos produtos. Referências bibliográficas AZZI, R. Catolicismo Popular e Autoridade Eclesiástica na Evolução Histórica do Brasil. Rio de Janeiro: Revista Religião e Sociedade, 1977 CHIQUIM, Carlos Alberto. Pastoral do Turismo: Orientações. 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Igreja Católica e mercados: a ambivalência entre a solidariedade e a competição. Religião & Sociedade. Rio de Janeiro, v. 27, nº 1, pp. 156-174, 2007. STEIL, Carlos Alberto. Peregrinação, romaria e turismo religioso. In: ABUMANSSUR, Abumanssur (Org). Turismo religioso: ensaios antropológicos sobre religião e turismo. Campinas (SP): Papirus, 2003. p. 29-51. WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. V. 1. Brasília: Editora da UnB, 1991. Notas 2 Relatório de Tendências da WTN Latin America 2015. A pesquisa, em parceria com o Euromonitor International, destaca as tendências emergentes em viagens e turismo no mercado latino-americano. Foi apresentado durante a feira WTM-LA 2015. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 3 Em torno de 12 milhões de pessoas passaram em 2014 pelo Santuário Nacional de Aparecida, no interior de São Paulo, segundo estimativas da Igreja citadas pela consultoria Euromonitor. É praticamente o dobro da quantidade de pessoas que foram em 2013 na Torre Eiffel, símbolo máximo de Paris, capital da França - o país mais visitado do mundo. O Ministério do Turismo estima que 7,7 milhões de viagens domésticas no Brasil foram motivadas pela fé em 2014, o mesmo número de viagens domésticas feitas em todo o Uruguai em 2012. 4 O Circuito Turístico Religioso do Vale do Paraíba foi criado em 2007 pelo Sebrae-SP com o objetivo de desenvolver e estruturar o segmento receptivo na região, estimulando o fluxo contínuo de visitantes por meio da formulação de roteiros integrados e ações de aprimoramento dos serviços e produtos oferecidos ao turista. Os empresários que aderirem ao programa irão participar de palestras, cursos, oficinas, consultorias, missões empresarias e rodadas de negócios, com o objetivo de aprimorar a gestão dos empreendimentos. As atividades vão abordar as mais novas tendências do turismo religioso, além de apresentar ferramentas práticas para a melhoria da gestão e o aumento da lucratividade. 5 Projeto de Lei Complementar 32/2012, que prevê a ampliação do número de municípios beneficiários com os recursos vinculados ao Fundo de Melhorias das Estâncias. A ação institui que 140 municípios paulistas serão de interesse turístico. Todas as cidades, exceto as estâncias já existentes, concorrerão a esse grupo e, para participar, os municípios deverão preencher alguns critérios, como ter potencial turístico dispondo de serviços básicos como hospedagem e serviços de alimentação, entre outros. Com a sanção, o governo estadual amplia a abrangência de políticas públicas para o desenvolvimento do turismo no Estado através de um fundo constitucional que, para esse ano, prevê um investimento de 268 milhões de reais para 70 Cidades Estâncias. Além das 70 estâncias existentes hoje no Estado, há 140 municípios de interesse turístico, 34 regiões turísticas e 30 circuitos organizados e segmentados. Em julho de 2014 foi aprovado, pela Assembleia Legislativa, o projeto de lei que transforma Guaratinguetá em uma estância turística, recebendo investimento do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (DADE) – ligado à Secretaria Estadual de Turismo, a fim de investir no turismo e infraestrutura local. 6 O público inscrito ficou abaixo da expectativa inicial da organização que era de 500 mil peregrinos. O numero da jornada brasileira não ultrapassou os 475 mil inscritos na Jornada realizada em Madri, na Espanha, em 2011. As principais quantidades de inscritos por país: Brasil - 215.335 peregrinos inscritos; Argentina - 22.965 peregrinos inscritos; Estados Unidos - 10.725 peregrinos inscritos; Chile - 9.152 peregrinos inscritos; Itália 7.703 peregrinos inscritos; Venezuela - 6.153 peregrinos inscritos; França - 5.490 peregrinos inscritos; Peru 4.664 peregrinos inscritos; Paraguai - 4.649 peregrinos inscritos; México - 4.446 peregrinos inscritos. 7 Os peregrinos inscritos ganham o kit peregrino, que contém uma mochila, blusa, squeeze, cruz, livros litúrgicos e um boné. De acordo com o pacote escolhido, o jovem poderia receber ainda um vale-refeição e um valetransporte. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 1 A REDE VIDA ENTRE A TV INSTITUCIONAL E O EMPREENDIMENTO FAMILIAR Giulliano Placeres - UFSCar1 [email protected] FAPESP GT 4 - Sociologia das crenças religiosas No mundo contemporâneo, as organizações religiosas prosseguem ocupando espaço, porém diversificam suas atividades, de modo que a propagação de sua mensagem, definitivamente, não se dá mais apenas no limite da estrutura física de seus templos, por meio de missas e cultos. Cada vez mais, são recorrentes as ações voltadas às mídias eletrônicas. As denominações religiosas buscam manter seus adeptos e conquistar outros mais, através da modernização de seus meios de comunicação social. Empreendimentos como emissoras de televisão, rádio e provedores de internet de caráter religioso vêm se desenvolvendo aos moldes empresariais. No caso da Igreja Católica, em face da forte concorrência pentecostal, tal investimento é feito bem mais para resistir, tanto quanto possível, à evasão de fiéis. Há um conjunto de relações sociais e econômicas envolvidas nesse processo. Elas compreendem desde membros do clero até leigos, voluntários, funcionários e empresários detentores de negócios midiáticos que atuam representados por meio de investidores financeiros através de acordos comerciais. Decorrente de uma pesquisa apoiada pela FAPESP, este artigo aborda a maior emissora televisiva católica nacional: Rede Vida, sua atuação como um empreendimento econômico-religioso-midiático. É dado enfoque ao caráter ambíguo dessa emissora, levando em conta sua vinculação institucional com a cúpula católica no país e sua realidade enquanto uma empresa de propriedade e gestão familiar. 1 Bacharel em Ciências Sociais e mestrando em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos – Integrante do NEREP – (Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 2 1. Introdução Este artigo trata sobre a atuação da Rede Vida de Televisão, maior emissora católica brasileira como um empreendimento econômico-religioso-midiático. É apresentado preliminarmente um breve histórico das ações que resultaram no processo de inserção católica na mídia brasileira, sobretudo na televisão. Estas possibilitaram em grande medida a instalação desses canais religiosos no país a partir da década de 80. Neste contexto foi criada a Rede Vida, por meio de laços sociais, especialmente políticos e religiosos. Projeto de seu fundador, João Monteiro de Barros Filho, jornalista e empresário leigo, que a administra há duas décadas juntamente com sua família. Aborda-se também a concorrência da emissora em termos estrutura técnica e abrangência com outros canais católicos, como Canção Nova, TV Aparecida e TV Século XXI. 2. Inserção católica brasileira na televisão A instituição católica romana, historicamente manteve postura totalmente adversa a qualquer tipo de documento que questionasse ou discutisse qualquer seus preceitos e dogmas. Durante vários séculos, qualquer tipo de comunicação que se referenciasse a Igreja e que não fosse de sua própria autoria, era duramente reprimido como um inimigo a ser combatido. Só a partir do século XX, sobretudo nas atividades do Concílio Vaticano II, em 1962, iniciou-se uma discussão da postura católica frente os diversos meios de comunicação com destaque para o rádio e a então chegada televisão. A partir dos vários decretos aprovados no concílio, a Igreja passa então a aceitar em larga escala a entrada de indivíduos leigos no tocante a auxiliar suas ações perante os novos meios midiáticos em ascensão. No Brasil, A história da implantação da televisão se dá na década de cinquenta e posteriormente com a transmissão dos primeiros eventos católicos em rede nacional, com destaque para as celebrações dominicais, que sempre contou com a presença direta e indireta de empreendedores e parceiros comerciais. A começar pela participação e grande influência destes que alavancaram financeiramente os projetos para que fosse possível a instalação das redes televisivas, e que igualmente já trabalhavam anteriormente em outros setores ligados à comunicação em geral, como o exemplo de Assis Chateaubriand, responsável pela implementação da primeira emissora nacional, TV TUPI, com sede na capital paulista. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 3 Em alguma medida, sua inserção se assemelha, sobretudo no processo de gestão com alguns pontos em comum relativos à criação das primeiras emissoras católicas nacionais na década de 80. A começar pela experiência em mídias de seus fundadores que primeiramente tiveram experiências em outros meios de comunicação: Assim como Chateaubriand, padre Eduardo Dougherty, hoje da TV século XXI, monsenhor Jonas Abib, da TV Canção Nova e Monteiro Filho, na Rede Vida tiveram experiências anteriores com emissoras de radiodifusão. E posteriormente contaram também com o auxílio e a participação de vários outros atores sociais, sobretudo na esfera política para a obtenção de concessões e outorgas públicas para o que seus canais pudessem realizar transmissões. 3. A Rede Vida e sua ambiguidade estrutural A maior emissora católica brasileira na atualidade foi criada a partir da presença de diversos atores sociais das mais distintas instituições, perpassando religiosos, juristas, banqueiros, e políticos. Seu fundador, João Monteiro de Barros Filho, na década de 50, começou a trabalhar como jornalista esportivo, já atuando no setor comercial propagandístico da Rádio Barretos. Em um curto espaço de tempo, deixa de ser funcionário e por meio de um pagamento parcelado tornou-se proprietário desta mesma rádio em que havia ingressado anteriormente. Antes de adentrar no meio televisivo especificamente, Monteiro, já possuía a experiência de décadas à frente do setor comunicacional em Barretos por meio de estações de rádio e do jornal impresso O Diário que também fundou em 1969. Com a atividade no setor de comunicação social estruturada mediante a propriedade dos veículos midiáticos em Barretos, na década de setenta partiu para a empreitada no campo político, por meio da disputa a prefeito do munícipio. Mesmo que esta não tenha sido concretizada, futuramente seria essencial pela diversidade de laços sociais firmados de grande relevância para a concessão de outorga da emissora realizada posteriormente. Durante a década de 80, é criado o grupo empresarial “Monteiro de Barros” (GMB), carregando o sobrenome da família representada agora não apenas pela imagem de seu fundador, mas também de seus filhos: Luiz António e João Monteiro de Barros Neto, estes passaram a cuidar da parte administrativa dos empreendimentos, participando ativamente igualmente de todo o processo de criação Rede Vida. Destaca-se o fato de João Monteiro de Barros Filho sempre se declarar católico, sua família sempre foi adepta da religião advinda de Roma. O vínculo entre o empresário e a Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 4 instituição cristã que resultaria na criação da emissora ganhou força por meio do então primeiro bispo de Barretos dom José de Matos Pereira, que apresentaria a Monteiro Filho a seu sucessor, dom António Maria Mucciolo, maior apoiador da criação da Rede Vida por parte da igreja: Nós ficamos muito amigos no período em que ele passou por Barretos, ai ele falou: “Monteiro seja amigo do meu sucessor”, “Tenta ser um colaborador dele”. Ai veio dom António bispo de Barretos, eu disse pra ele quando o conheci lá na cidade de Sorocaba onde era ela padre: “Em precisando conte comigo em Barretos”. Um dia ele me procurou: “Eu queria um terreno para construir uma casa de encontros aqui em Barretos, você me ajuda?”. Ajudo, [...] Ganhamos de um fazendeiro cinco alqueires [...] Construímos a “cidade de Maria” que é um centro de espiritualidade da Diocese de Barretos [...] (Fonte: Anais do Senado Federal, homenagem aos 15 anos da Rede Vida). A relação de amizade entre o empresário e bispo foi decisiva posteriormente para que representantes da alta cúpula da CNBB tomassem conhecimento do projeto midiático televisivo. Contudo, o apoio católico não era suficiente para levar o projeto adiante. Neste novo cenário, os laços políticos que o empresário havia conseguido anteriormente concorrendo às eleições municipais de Barretos foram imprescindíveis para chegar a funcionários públicos do alto escalão do governo federal à época como Augusto Marzagão, natural de Barretos, secretário particular do então presidente da república José Sarney e que já havia trabalhado no meio televisivo na emissora mexicana Televisa como vice-presidente de operações internacionais. Esta proximidade expressiva com representantes de autoridades tanto da esfera pública quanto do religioso, somadas a sua experiência em mídias, impulsionou o jornalista e empresário a disputar a concorrência pública aberta em 1989 para a exploração do serviço de rádio e difusão sonora e de imagem, na cidade de São José do Rio Preto. (BARROS FILHO, 2003). Desde a abertura do processo de concessão do novo canal até o início das atividades da emissora em 1995, o Brasil enfrentou um contexto político conturbado com a posse de José Sarney após a morte de Tancredo Neves, decretando oficialmente o fim do regime militar e posteriormente com o governo de Fernando Collor de Mello que terminou em processo de impeachment do mesmo. Salienta-se este curto período (1985-1990), pois a concessão vencida pela família Monteiro de Barros que culminou na criação da TV Independente, de propriedade da mesma que viria se tornar uma prestadora de serviços da Rede Vida foi resultado como já demonstrado, de uma participação efetiva das esferas públicas: municipal, Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 5 e, sobretudo federal no chamado “jogo eleitoral", tendo como expoentes políticos a época José Sarney e seu ministro das comunicações já falecido, António Carlos Magalhães. Segundo dados colhidos na Junta Comercial do Estado de São Paulo, a “Televisão Independente de São José do Rio Preto”, oficialmente cadastrada no nome de Monteiro e seus dois filhos, foi constituída no final do ano de 1989 com um capital declarado de R$ 340.000,00 Cruzados Novos, valor de fato relevante até os dias de hoje, levando-se em conta o contexto inflacionário em que vivia o país na época, demonstrando investimento maciço por parte do grupo familiar empreendedor. A ideia de ceder a TV Independente para a CNBB, montar uma TV Católica foi apresentada somente durante a transição de governos entre o processo de impeachment de Collor e a entrada de Itamar Franco. Contudo, mesmo com o apoio da CNBB, a problemática girava em torno de quem atuaria como responsável administrativamente pelo canal televisivo uma vez que, o órgão católico não poderia assumir esta responsabilidade, sobretudo por envolver questões financeiras de grande monta: Em Agosto de 1992, em São Paulo, foi realizado um encontro com o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, dom Ivo Loirscheiter e Dom António Maria Mucciolo. Dom Ivo [...] disse: - A CNBB não tem interesse em participar do projeto para a formação da Rede de Televisão. (MONTEIRO FILHO, 2003). Com este cenário de recusa da CNBB, Monteiro Filho necessitava de algum instrumento que funcionasse então como mantenedor do projeto da rede televisiva católica, e inicialmente cogitou-se criar uma fundação que operasse a emissora. Assim posto, resolveu consultar colegas e especialistas na área jurídica, com destaque para Ives Gandra da Silva Martins, professor universitário e membro da Opus Dei e Celso Neves, advogado por mais de três décadas do grupo de bebidas Antarctica e também professor, falecido em 2006. Orientado então pela experiência de ambos juristas, ainda em 1992, Monteiro Filho juntamente com seus filhos e apoiado por dom António Maria Mucciolo lançaram as bases para a criação do Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (INBRAC). Atuando como uma associação civil mantenedora da Rede Vida de Televisão, o instituto foi formado então por diversos conselhos, dentre eles: Conselho Superior de Orientação e Administração – (Consup), Conselho Consultivo, formado por sócios beneméritos, conselho fiscal, constituído por sócios contribuintes e uma diretoria executiva com dirigentes contratados, Mauro Dias presidente, Marcelo Aparecido Coutinho, vicepresidente. (MONTEIRO FILHO, 2003.) Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 6 Com grande apoio de várias instituições católicas espalhadas pelo Brasil, o seguinte passo para a consolidação do INBRAC, foi o de estabelecer parcerias que envolviam a parte estrutural técnica da emissora de televisão do grupo empresarial. Deste modo, o instituto estava viabilizando a formação da Rede Vida de Televisão, a partir da geradora da TV Independente, canal da Embratel, conseguido em audiência com o presidente Renato Archer e Romeu Grandinetti Filho, diretor de operações nacionais. (MONTEIRO FILHO, 2003, p.44 62). O primeiro, já falecido, atuou como militar durante décadas no seu estado de origem Maranhão antes de ingressar na política. Em 1984 participou ativamente da campanha nacional pelas eleições diretas para a Presidência da República. Em novembro daquele ano, foi indicado por Tancredo Neves para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Com a abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor e seu afastamento do cargo, em setembro de 1992, Archer voltou ao governo como presidente da Embratel. (Fonte: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil). Obtendo a aprovação da concessão via governo federal e Ministério das Comunicações e por intermédio de seus colegas juristas, responsáveis pela parte administrativa da criação do instituto mantenedor da emissora, juntamente com o apoio de boa parte do clero nacional, o fundador da Rede Vida realizou viagens internacionais visando conhecer outras iniciativas televisivas vinculadas ao catolicismo, bem como para a arrecadação de recursos financeiros para a compra dos primeiros equipamentos eletrônicos. Para isto, João Monteiro de Barros Filho foi até a Alemanha juntamente com Hans Stapel; nascido naquele país, frade franciscano popularmente conhecido como frei Hans mudou-se para o Brasil já na década de 70 e atualmente coordena o projeto “Fazenda da Esperança”, uma comunidade terapêutica que fornece tratamento para dependentes químicos no município paulista de Guaratinguetá (Fonte: website – Fazenda da Esperança). Monteiro e Hans estavam instalados em uma casa de freiras do país germânico, porém a tentativa de ajuda financeira não havia se concretizado, dessa forma, realmente o suporte financeiro que a emissora necessitava preliminarmente foi negado. Quando o empresário já falava da viagem de volta para o Brasil, explicitou a situação para uma das freiras que ali residia e a mesma resolveu interferir, auxiliando na negociação se responsabilizando pelo empréstimo e tornando-se avalista da transação financeira, mediante vários de seus bens penhorados, mesma situação de Monteiro e seus filhos. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 7 Dessa forma, a partir do empréstimo concedido a emissora obteve um capital considerável para poder iniciar suas atividades. A relação entre religião, economia e política, envolvendo também indivíduos da iniciativa privada aparece de maneira explícita em vários pontos de toda a trajetória do canal, e com seu primeiro anunciante, não seria diferente: No Natal de 94, o arcebispo de Botucatu recebeu um telefonema de Andrade Vieira, anunciando que o Bamerindus seria o primeiro anunciante [...] pagando os anúncios antecipadamente. O banco foi o primeiro anunciante da Rede Vida e com a verba pudemos lançar a TV num prédio moderno em Rio Preto. (Fonte: Portal Rede Vida). Destaca-se que José Eduardo de Andrade Vieira, além de presidente do banco a época, já havia ocupado o cargo de Ministro da Agricultura do Brasil em 1993 e após o período em que foi presidente da instituição financeira, voltaria novamente ao ministério dois anos após a sua primeira passagem. Um semestre após o anuncio do apoio financeiro advindo da instituição bancária privada, a emissora estreava sua programação. A presença dos empreendedores foi essencial para que a abrangência do sinal da emissora fosse aumentando substancialmente ao passar dos anos por meio de diversas concessões para retransmitir a programação, e esta ação também demandou suporte financeiro considerável, pois em grande parte do país já é possível assistir a programação do canal em alta definição. As instalações da Rede Vida de Televisão estão distribuídas em três regiões do país, das quais no Sudeste em São José Do Rio Preto, São Paulo e Rio de Janeiro, Centro Oeste: Brasília e Sul: Porto alegre. Na sede pioneira, localizada no interior paulista, quando inaugurada em 1995, existia apenas o edifício de dois andares, sendo que no térreo localizamse os dois estúdios de gravação da emissora com um modelo de aparelhagem que permite a criação de diferentes cenários, dessa maneira proporcionando apresentação de diversos programas que podem ser exibidos e gravados no mesmo estúdio. É no interior destes dois estúdios que são produzidas os programas semanais ao vivo: “O terço” e os noticiários: JCTV, este voltado exclusivamente para notícias sobre o universo católico e o Jornal da Vida que trata de temas de interesse da sociedade como um todo. Ainda no mesmo andar, há também a recepção, e várias salas; de visitas, dos jornalistas, dos funcionários responsáveis pela administração do website da emissora. Já no andar superior, localizam-se estúdios de edição, montagem e produção das matérias que vão ao ar diariamente, bem como a edição de reportagens de conteúdo religioso advindas de várias dioceses brasileiras e também de outras operadoras de TV vinculadas à emissora. Posteriormente, foi construído ao seu lado o “Santuário da Vida”, [...] Um espaço Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 8 que a Rede Vida abriu para receber não só os fiéis que acompanham a Missa pela televisão, mas também caravanas, equipes de celebração e ministérios de todo o Brasil (Fonte: Portal Rede Vida). Ainda dentro dele existem alguns dormitórios destinados a recepcionar visitantes da emissora bem como do próprio santuário. Sua programação é distribuída para outras diversas localidades do país por cerca de 450 aparelhos de retransmissão de sinal2 que recepcionam o sinal em todas as unidades da Federação, com destaque para São Paulo, que dispõe de 185 desses aparelhos, somando mais de 40% do total. Em vista disto, existe uma única geradora da emissora, isto quer dizer que qualquer programa vinculado a ela que tenha sido gravado, ou está sendo produzido ao vivo em qualquer lugar do Brasil, primeiramente tem que ter o seu sinal transmitido para São José do Rio Preto, e posteriormente então é lançado no satélite do canal para pode ser veiculado em rede nacional. Na capital paulista há um edifício no bairro de Perdizes, com dois andares denominado: dom António Maria Mucciolo, referência ao arcebispo de Botucatu que anteriormente havia sido bispo da Diocese de Rio Preto e a todo momento esteve junto com Monteiro Filho no processo de estruturação da emissora durante a década de noventa. A construção abriga as salas referentes, sobretudo à administração financeira, local de trabalho do outro filho do fundador: Monteiro Neto. A partir dos exemplos citados envolvendo, laços políticos e a presença intrínseca da instituição romana que permeia as atividades da emissora ressalta-se então uma ambiguidade estrutural da Rede Vida. Ou seja, é uma emissora com feições institucionais como se fosse pertencente a uma diocese ou congregação, porém se trata efetivamente de uma empresa familiar dos Monteiro de Barros. Foi estabelecida por meio do contrato entre INBRAC e a Televisão Independente de São José do Rio Preto, firmado em 1992. Portanto, o fato concreto é que ela é uma empresa a serviço da Igreja Católica no Brasil, porém pertencente a uma família de leigos. Algo que ilustra isso foi o fato de a CNBB ter recusado apoiar financeiramente o então projeto de montagem da emissora, o que levou João Monteiro de Barros a buscar capital estrangeiro. 2 A diferença em número de retransmissoras de sinal entre Rede Vida e sua maior concorrente Canção Nova é de aproximadamente 140, uma vez que a segunda possui o total de 310, o que coloca a emissora rio-pretense a frente em abrangência de satélites e recepção de imagens (fonte: Portal Donos da Mídia). Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 9 Entre a cúpula católica brasileira e essa família de empresários, há uma relação de auxílio mútuo, na medida em que a emissora recebe aval institucional e, por sua vez veicula a mensagem religiosa, beneficiando a igreja como um todo. Essa combinação de interesses prossegue desde a fundação da Rede Vida. Embora seus dirigentes sejam católicos fervorosos e engajados em ações em prol daquilo que avaliam como o bem da igreja, é inegável que procedem movidos também por interesses empresariais. Ou seja, a forte identidade católica de sua empresa também atende a finalidade econômica. A ambiguidade, portanto, consiste no fato de a Rede Vida ser uma emissora reconhecida pelo público que a assiste como “uma emissora da igreja”, mas que na verdade é propriedade de uma família. Por isso, seu slogan: O canal da família, decorrente da moral familiar católica, pode ser sociologicamente interpretado como algo de duplo significado. 4. Concorrência e acordos com outras emissoras católicas Considerando o catolicismo como maior vertente religiosa brasileira, porém em forte enfrentamento a concorrência evangélica, é especialmente por intermédio das emissoras televisivas e de modo mais destacado através das relações sociais presentes nelas que incorporam aspectos econômicos, que a igreja romana vem tentando ao menos conter sua constante queda no número de adeptos. Por consequência, mesmo as emissoras católicas sendo concorrentes diretas, levando em conta estratégias de caráter comercial como nível de audiência, exibição de atrações e o alcance territorial de seus satélites, trabalham com o mesmo fim: o de difundir os valores católicos por meios de programas religiosos e incluindo a apresentação de celebrações como as missas e terços. Destacam-se por sua abrangência quatro veículos midiáticos católicos televisivos brasileiros: Rede Vida, Canção Nova, TV Século XXI e TV Aparecida. Ambas sempre obtiveram apoio institucional, acima da tudo da CNBB, porém, somente a primeira, foi resultado de um projeto elaborado por um leigo. Já as outras emissoras decorrem do trabalho de autoridades da Igreja Católica A concorrência entre as quatro principais emissoras católicas nacionais, sediadas todas no estado de São Paulo, aparece explicitada por meio de suas estruturas técnicas, que resultam no alcance nacional delas e pela quantidade de retransmissores e grupos midiáticos afiliados. Por meio da coleta de dados junto ao portal Donos da Mídia, foram elaborados gráficos comparativos que demonstram alguns números desta concorrência: Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 10 Retransmissorsa de Sinal - Emissoras Católicas TV Século XXI 16 TV Aparecida Rede Vida 18 Canção Nova Canção Nova TV Aparecida 305 TV Século XXI Rede Vida 445 0 100 200 300 400 500 Gráfico 1 – Número de retransmissores de sinal das emissoras católicas Fonte: Portal Donos Da Mídia – www.donosdamidia.com.br Acessada em 27/05/2015 Destaca-se a disputa entre Rede Vida e Canção Nova. Esta, na última década, aumentou consideravelmente seu número de retransmissoras. Grande parte dos recursos financeiros que propiciaram este crescimento advém de seus telespectadores carismáticos. A emissora rio-pretense, em contrapartida, tem o maior sinal em alta definição (HD) entre emissoras religiosas de televisão aberta. Já entre o número de veículos satélites que incluem as estações de rádio e jornais vinculadas às emissoras, a TV Aparecida desponta na frente das duas maiores citadas acima. Esta significativa relevância deve-se à parceria existente entre ela e o grupo responsável pelo jornal O Estado de São Paulo, ambos compartilham seus veículos, consequentemente esta ligação entre a instituição e religiosa e o jornal eleva o número de veículos disponíveis. Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 11 Veículos - Satélites 20 17 15 13 12 10 5 2 0 Rede Vida Canção Nova Tv Aparecida TV Século XXI Gráfico 2 – Número de Veículos Satélites Fonte: Portal Donos Da Mídia - www.donosdamidia.com.br - Acessado em 03/05/2015 Entre os agentes empresariais de mídias afiliados as emissoras televisivas católicas, a Rede Vida se sobressai sobre suas concorrentes, com três grupos afiliados: A própria Organização Monteiro de Barros, administrada pelos fundadores do canal, Grupo Solano de Comunicação, situado em Cascavel, Paraná e a Fundação Educadora de Comunicação, localizada em Bragança, no estado do Pará. O canal Canção Nova assim como a TV Aparecida, possui dois grupos: o primeiro é afiliado a sua própria fundação João Paulo II, juntamente com a Fundação Fraternidade, do município gaúcho de Porto Alegre. Já emissora da padroeira nacional é ligada à Congregação do Santíssimo Redentor (Redentoristas), também de Aparecida, e como citado acima, compartilha veículos com o grupo Estado, da capital paulista, responsável pelo jornal impresso: O Estadão (Fonte: Portal Donos da Mídia). Grupos Afiliados 1 3 2 2 Rede Vida Canção Nova Tv Aparecida TV Século XXI Gráfico 3 – Número de grupos Afiliados Fonte: Portal Donos Da Mídia - www.donosdamidia.com.br - Acessado em 12/11/2015 Programa de Pós Graduação em Sociologia Universidade Federal de São Carlos, Centro de Educação e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia. E-mail: [email protected] Telefone: (16) 3351-8673 12 5. Considerações Finais A presença empresarial e empreendedora dos indivíduos leigos representados aqui particularmente pelo grupo Monteiro de Barros e diversos outros atores sociais, responsáveis em todo processo de formação da Rede Vida de Televisão foram cruciais para que a experiência de lançar uma emissora de caráter católico em nível nacional pudesse ser concretizada. Os laços sociais de representantes do clero católico tem somaticamente se estreitado com as iniciativas públicas por meio da presença de leigos. O exemplo demonstrado com a concessão do canal em São José do Rio Preto contou com diversos agentes da esfera secular. A experiência anterior no setor de rádio difusão que seu fundador Monteiro Filho possuía foi fundamental no recrutamento de funcionários também leigos para operar a emissora católica em seus primeiros anos e até os dias atuais. Porém, vale destacar que mesmo a emissora sendo controlada em grande medida por indivíduos leigos, seu mantenedor o INBRAC, é composto essencialmente por representantes do clero católico, ou seja, as principais decisões tomadas em diversas áreas do canal tem que obrigatoriamente passar pelo crivo destes. Sendo assim, com esta administração compartilhada o canal está prestes a completar duas décadas de existência mesclando valores cristãos com uma lógica liberal-mercadológica, pois sem a presença de investimento privado, dificilmente a emissora possuiria recursos próprios para a sua manutenção, visto a viagem ao continente europeu realizada do fundador com o objetivo de angariar fundos para compra dos primeiros equipamentos. 6. Referências bibliográficas BARROS FILHO, J. M. O que é INBRAC. 2. ed. São Paulo: INBRAC; Barretos: O Diário, 2003. BOURDIEU, Pierre. Economia das trocas simbólicas. São Paulo, Editora Perspectiva, 1974. MARIANO, Ricardo. 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