DEPARTAMENTO DE SAÚDE INDÍGENA – DESAI. Primer Foro Nacional De Salud De Los Pueblos Indígenas San José – Costa Rica, 26, 27 y 28 de octubre/2005. A Formação de Agentes Indígenas de Saúde – AIS no âmbito da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas Brasil - 1999 a 2005 Paulo Morais Técnico da COPAS/DESAI/FUNASA/MS. Outubro de 2005. SUMÁRIO I – INTRODUÇÃO 03 II – CARACTERIZAÇÃO /CENÀRIO ATUAL DA SAÚDE INDÍGENA 03 III – OS DISTRITOS SANITÁRIOS ESPECIAIS INDÍGENAS 05 IV – PROGRAMA DE FORMAÇÃO INICIAL DE AGENTES INDÍGENAS DE SAÚDE 07 V – DIFICULDADES DIAGNÓSTICADAS NO DECORRER DO PROCESSO DE FORMAÇÃO DO AIS. 09 I – Introdução Saúde Indígena no Brasil A Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas integra a Política Nacional de Saúde, compatibilizando as determinações da Lei Orgânica da Saúde com as da Constituição Federal, que reconhece aos povos indígenas suas especificidades étnicas e culturais bem como estabelece seus direitos sociais. Estes direitos são reafirmados pela Convenção 169, ratificada pelo Brasil em 25 de julho de 2003 e aprovada pelo Decreto no. 5.051, de 19 de abril de 2004 cujos princípios já se encontravam, contudo, contemplados na Carta Magna. O Subsistema, de Saúde Indígena, do Sistema Único de Saúde (SUS) está organizado em Distritos Sanitários Especiais Indígenas – DSEI, em territórios que respeitam a distribuição geográfica, antropológica e de acesso aos serviços de saúde pelos povos indígenas. As principais normas que regem a saúde indígena são a Lei 9836/1999, o Decreto 3156/1999 e as Portarias 1163/1999 do Ministério da Saúde e ainda as portarias ministeriais No. 069 e 070/GM. II – Caracterização - Cenário atual da saúde indígena Atualmente, pode-se constatar crescimento demográfico entre os povos indígenas do Brasil, fato este associado, freqüentemente, aos esforços de conservação do ambiente natural, estabilização das relações interétnicas, demarcação das terras indígenas e melhoria do acesso aos serviços de atenção básica de saúde. No entanto, o perfil da morbidade é marcado por alta incidência de infecções respiratórias e gastrintestinais agudas, malária, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis, desnutrição e doenças preveníveis por vacinas. Nota-se também, em regiões onde a população indígena tem um relacionamento estreito com as comunidades não indígenas, o aparecimento de novos agravos à saúde, relacionados às mudanças nos seus modos de vida. Assim, problemas como hipertensão arterial, diabetes, cárie dental e doença periodontal, câncer, alcoolismo, depressão e suicídio são cada vez mais freqüentes. Referência Estados com aldeias: DSEI Pólos Base Municípios com aldeias Aldeias Famílias População indígena Total no País 24 34 322 379 3.726 93.340 445.103 Fonte: Sistema de Informação da Atenção da Saúde Indígena – SIASI-FUNASA/MS, 20/07/2005. Referência Povos indígenas Línguas faladas Total no País 210 170 Terras indígenas 618 Fonte: DAF/FUNAI, março de 2004. Recursos Humanos Profissionais Médicos Odontólogos Enfermeiros Auxiliares de Enfermagem AIS AISAN Assistentes Sociais Antropólogos SAS/MS 244 207 294 904 1838 192 0 0 Convênios 215 230 341 1271 2913 521 124 15 Total 459 437 635 2175 4751 713 124 15 Total 3679 5630 9309 Fonte: COMOA-DESAI/FUNASA/MS, fevereiro de 2005. Escolarização Indígena O Censo Escolar 2004 aponta a existência de 2.228 escolas funcionando nas terras indígenas atendendo a 148 mil estudantes. Nestas escolas trabalham aproximadamente 7.500 professores, 88% deles indígenas. Escolas indígenas segundo a esfera administrativa Esfera administrativa Municipais Estaduais Particulares* Total Número Porcentagem de escolas 1.099 49,3% 1.099 49,3% 30 1,4% 2.228 100,0% * Escolas indígenas mantidas por projetos especiais, como da Eletronorte, e por entidades religiosas. Número de estudantes indígenas por modalidades / níveis de ensino: Modalidades / níveis de ensino Educação Infantil 1a. a 4a. série 5a. a 8a. série Ensino Médio Educ. Jovens e Adultos (EJA) Total Número de estudantes 14.152 99.632 19.371 2.025 12.369 147.549 Porcentagem de Estudantes Indígenas por nível de ensino: Em Médio EJA 1,4 % 8,4 % Educ Inf 9,6 % 5a. a 8a. 13,1 % 1a. a 4a. 67,5 % Distribuição dos estudantes indígenas: Regiões Nº de estudantes % Brasil Norte 75.629 51,4 % Nordeste 36.876 25,0 % Centro-Oeste 21.707 14,8 % Sudeste 3.904 2,6 % 9.433 6,4 % Sul Total Brasil 147.549 100,0% Fonte: Ministério da Educação / Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade / Departamento de Educação para a Diversidade e Cidadania / Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena III – Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas – (DSEI) A atenção à saúde indígena está baseada na concepção de Distritos Sanitários como processos de mudanças das práticas de saúde, no intuito de provocar impactos na situação de saúde da população1. Isto significa que, a responsabilidade pela prestação dos serviços é federal, e, estes serviços devem ser orientados para um espaço sociocultural, geográfico e administrativo bem delimitado, requerendo a reordenação da rede de assistência e das práticas sanitárias2. As características da assistência à saúde dos povos indígenas determinam a necessidade de uma ampla articulação intra e intersetorial. 1 Os Distritos Sanitários como modelo de organização dos serviços de saúde são uma proposta que nasceu no bojo do movimento da Reforma Sanitária, organizado no Brasil a partir da década de 1970 (Cf. Vilaça Mendes. O Distrito Sanitário. São Paulo: HUCITEC, Rio de Janeiro: ABRASCO, 1993). 2 A definição territorial dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas, atualmente, leva em conta os seguintes critérios de organização: (1) população, área geográfica e perfil epidemiológico; (2) vias de acesso aos serviços instalados na localidade e à rede regional do sus; (3) relações sociais entre os diferentes povos indígenas do território e a sociedade de entorno; (4) distribuição demográfica tradicional dos povos indígenas – que não coincide necessariamente com os limites de estados e municípios onde estão localizadas as terras indígenas; e (5) disponibilidade de serviços, recursos humanos e infra-estrutura nos serviços de retaguarda. O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena está organizado na forma de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e como um subsistema em articulação com o Sistema Único de Saúde, atendendo as seguintes condições: • • • Considerar os conceitos de saúde e doença da população e os aspectos intersetoriais de seus determinantes; Ser construído coletivamente a partir de um processo de planejamento participativo; Possuir instâncias de controle social formalizados em todos os níveis de gestão. O DSEI é uma unidade organizacional da Funasa e deve ser entendido como uma base territorial e populacional sob responsabilidade sanitária claramente identificada, enfeixando conjunto de ações de saúde necessárias à atenção básica, articulado com a rede do Sistema Único de Saúde - SUS, para referência e contrareferência, composto por equipe mínima necessária para executar suas ações e com controle social por intermédio dos Conselhos Locais e Distrital de Saúde. Cada distrito está organizado numa rede de serviços de saúde em seu território, integrada e hierarquizada, com complexidade crescente e articulada com a rede do SUS. Fluxo da Atenção à saúde Indígena A constituição da rede de serviços leva em conta a estrutura de serviços de saúde já existentes nas terras indígenas, sendo adequada e ampliada de acordo com as necessidades de cada local. Saneamento nas aldeias As ações de saneamento que serão desenvolvidas no Dsei terão como base critérios epidemiológicos, visando levar às áreas indígenas os serviços de água, esgotamento sanitário, coleta, remoção e destino final do lixo. Os Agentes Indígenas de Saneamento serão selecionados por suas comunidades e capacitados para: 1. identificar as condições ambientais da comunidade e os mananciais disponíveis para o abastecimento de água; 2. reconhecer as doenças relacionadas com a água, dejetos e lixo, e promover melhorias nas condições de saneamento; 3. promover e orientar a execução de sistemas alternativos para abastecimento de água, destino de dejetos, melhoria habitacional e controle de vetores e roedores de acordo com a realidade de sua comunidade; 4. auxiliar e supervisionar na operação dos sistemas de abastecimento de água e outros projetos de saneamento implantados na sua área de atuação, bem como a manutenção preventiva e corretiva dos mesmos; 5. executar inquéritos sanitários domiciliares e auxiliar em estudos preliminares para a implantação de pequenas obras de saneamento como proteção de fontes, poços rasos, cisternas, banheiros, fossas secas, fossas sépticas e outros. IV – Programa de Formação Inicial dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) – Política Nacional de Atenção á Saúde Indígena de Saúde – Brasil. O Programa de Formação dos Agentes Indígenas de Saúde faz parte da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas, como um dos pilares da construção dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas – DSEI. Busca, além das ações assistenciais de saúde, a autonomia dos povos indígenas. O AIS é um interlocutor entre a medicina tradicional indígena e a medicina ocidental. Sua formação deve ser baseada num diálogo intercultural, envolvendo, respeitando e considerando os pajés (ou curadores tradicionais) e os profissionais de saúde da Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI). Sua formação deve considerar as visões de mundo e os conceitos sobre o processo saúde-doença, o adoecer e o cuidar/curar, característicos de cada cultura, estabelecendo assim, uma relação integrada e complementar a favor da saúde e bem estar da população. A rede de serviços tem como base de organização o processo de trabalho estruturado nas aldeias. Cada aldeia contará com a atuação do Agente Indígena de Saúde, cujas atividades estão vinculadas a um posto de saúde. A formação dos AIS vem ocorrendo em serviço e de forma continuada, inserida no processo de trabalho organizado no âmbito do DSEI, sob a responsabilidade da equipe multidisciplinar de saúde indígena. O processo está elaborado dentro dos marcos preconizados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira, no que diz respeito ao ensino básico, direcionado para a construção de competências/habilidades, visando facilitar o prosseguimento da profissionalização nos níveis médio (técnico) e superior (tecnológico). Objetivo O programa de Formação Inicial tem como objetivo valorizar, fortalecer e qualificar o trabalho que vem sendo desenvolvido pelos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) em todo o Brasil e propiciar àqueles que estão sendo contratados, novas bases para seu processo de formação e inserção na equipe multidisciplinar de saúde indígena. Características e estrutura do curso O processo de formação é executado em serviço sob responsabilidade da Funasa, por meio dos DSEI em parceria com as organizações conveniadas. Intersetorialidade: a formação dos AIS se dá em parceria com as Escolas Técnicas do SUS, legitimando-a e possibilitando a certificação dos AIS no âmbito da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB (Lei nº 9394/96). É feito em parceria com o Ministério da Educação e as Secretarias Estaduais de Educação, buscando garantir a escolarização dos indígenas e o seu melhor desempenho como alunos (AIS). Busca-se seguir o itinerário educativo previsto nas leis atuais de ensino profissionalizante. Os cursos de formação são feitos de forma modular (seis módulos). Cada módulo é estruturado em duas etapas (concentração e dispersão). As discussões teórico-práticas estão organizadas em períodos de Concentração e podem reunir pessoas de diversas aldeias. Ao retornarem às suas aldeias, na Dispersão, os agentes de saúde integram-se ao processo de trabalho implementado pela EMSI, desenvolvendo as ações de saúde na realidade do serviço e da comunidade. Formação em serviço: o ambiente formador é o espaço de trabalho instituído no cotidiano das aldeias indígenas, o que proporciona as condições para a formação integrando ensino-serviço-comunidade. A instrutoria dos módulos, supervisão e condução do processo de formação são realizadas pelos profissionais membros das Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena – EMSI, que desempenham ações de atenção à saúde indígena integrando-as à formação dos AIS. Os profissionais de saúde contratados para as EMSI são previamente preparados pedagogicamente para desenvolverem suas atribuições de instrutores /supervisores dos AIS. Metodologia: a metodologia proposta está fundamentada na pedagogia problematizadora, inserindo-se no campo de uma educação crítica. Tem por princípio a integração teoria-prática, a integração ensino-serviço-comunidade, a construção coletiva do conhecimento a partir do referencial cultural dos próprios agentes e a relação indissociável entre o processo de formação e a organização dos serviços. O Conteúdo é contextualizado ao perfil epidemiológico e às relações interculturais. A avaliação do processo de ensino-aprendizagem deve ser feita de forma processual, diagnóstica e qualitativa. Princípios pedagógicos: interdisciplinaridade; integração teoria-prática; integração ensino-serviço-comunidade. V – Dificuldades diagnosticadas no decorrer do processo de formação do AIS. 1- A proposta do curso está baseada na formação em serviço. Entretanto, algumas dificuldades inerentes à organização e construção de cada DSEI, prejudicam a criação de um ambiente (ou de um processo de trabalho nas aldeias) favorável à formação dos AIS. Nesse aspecto, podem ser elencados alguns problemas estruturais como: - Atrasos no repasse de recursos para pagamento dos profissionais das ONGs conveniadas com a FUNASA; - Dificuldade de quantidade e qualidade profissionais das EMSI e grande rotatividade de profissionais; - Pouco envolvimento, na formação dos AIS, de profissionais contratados por prefeituras para atuarem na saúde indígena; - Deficiência no funcionamento da rede de referência e contra-referência junto aos hospitais dos municípios e estados, e na implementação do Sistema de Informações; - Deficiência no processo seletivo de AIS e EMSI. 2- Dificuldade do DESAI de realizar monitoramento, acompanhamento e supervisão das ações, nos DSEI e CORE referente às várias instâncias do processo de formação. 3- Dificuldade do DESAI em consolidar os dados e produzir informações nacionais sobre o processo de formação, situações em que se encontram os DSEI, assim como, dificuldade dos DSEI em produzir estas informações. 4- Dificuldade em avaliar o impacto das capacitações dos profissionais e dos AIS no serviço e na saúde indígena. 5- Estratégias deficientes para resolver o problema da rotatividade dos Profissionais das EMSI, AIS e demais profissionais da Saúde Indígena (Gestores, técnicos, etc.). 6- Pouco ou deficiente envolvimento dos profissionais das EMSI na formação dos AIS (despreparo antropológico, visão assistencialista, tipo de vínculo empregatício, pouco perfil para trabalhar com populações indígenas). 7- Dificuldade de realização da etapa de dispersão dos módulos de formação. Falha na organização e arquivamento de registros e fichas de avaliação dos AIS. 8- Dificuldade de articulação e celebração de convênios ou parceria com as Escolas Técnicas do Sistema Único de Saúde para acompanhamento do processo de formação e certificação do AIS. 9- Baixa escolaridade dos AIS em relação à necessidade de escolarização em que foram estruturados os módulos de formação (conteúdo, linguagem e complexidade temática) mesmo considerando a legislação nacional que garante o acesso universal em nível de formação inicial, ou seja, não exigência de escolarização para ingressar no curso profissionalizante. 10- Necessidade, em algumas regiões, de estrutura adequada para realização na área indígena dos cursos dos AIS (etapas de concentração) considerando a inadequação de serem realizados nas cidades (e.g. facilitando o alcoolismo, choque cultural, DST/AIDS, conflitos pessoais ou familiares etc.). Algumas dificuldades relatadas pelos AIS para desenvolver seu trabalho. (Observadas durante o processo de formação) 1- Necessidade de se sentir integrado à equipe de saúde e demais profissionais que vão às aldeias. 2- Conflitos locais, divergências entre famílias, subgrupos, etc. 3- Dificuldade de realizar suas atribuições por falta de perfil (principalmente nos vários casos de ter sido indicado pelo Cacique por interesses pessoal). 4- Necessidade de continuar seus afazeres pessoais, cuidar da família, caçar, etc. 5- Dificuldade com o Português(leitura, interpretação e escrita). 6- Ser reconhecido e respeitado pela comunidade sem interferir na relação de poder entre chefes e curadores. 7- Poucas mulheres como AIS para acompanhamento a gestantes, cuidados íntimos, etc. 8- Dificuldade de AIS masculinos em atender ou examinar as mulheres, em alguns casos. Fontes consultadas: Site www.funasa.gov.br Documentos Internos Fundação Nacional de Saúde – FUNASA/MS/Brasil. Relatórios e Pareceres Técnicos – Consultor Paulo Morais – Coordenação de Apoio à Gestão e à Participação Social – COPAS/DESAI/FUNASA/MS. Coordenação Geral de Educação Escolar Indígena - Ministério de Educação e Cultura. Responsável por este documento: Paulo Morais - Técnico Consultor - COPAS / DESAI. Brasília, DF – 18/10/2005. ([email protected] ; [email protected])