A INFLUÊNCIA DO AFETO NA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO NA
APRENDIZAGEM DE LINGUA ESTRANGEIRA
Carlos Eduardo Alves Lopes¹
Neuda Lago² (Orientadora)
RESUMO
Graças ao surgimento da Linguística Aplicada (LA), os estudos relacionados à linguagem
ganharam uma nova direção, com enfoque no falante. Madeira (2008) aponta que tais estudos,
de cunho humanista, propiciam o destaque de fatores como sentimentos, pensamentos e
emoções interiores do aprendiz. Pesquisas como a de Tassoni (2000) apontam a afetividade
como um fator que influencia fortemente a maneira de aprender. Sabendo que uma das
maneiras na qual o processo de aprendizagem ocorre é através da interação entre professor e
aluno, apresentaremos, nesta comunicação, uma pesquisa cujo objetivo foi dar voz ao aprendiz
e desvendar como a relação professor-aluno influenciou seu processo de aprendizagem de
língua estrangeira (LE). Para tanto, analisamos como a afetividade influenciou o processo de
aprendizagem de alunos do nível I de inglês de um curso de idiomas do interior de Goiás. Os
dados foram coletados através de questionários semi-abertos e narrativas. Os resultados
mostram que os fatores afetivos têm um impacto muito mais amplo do que a importância a eles
atribuída no cenário das pesquisas nacionais.
Palavras-chave: Ensino-Aprendizagem; Língua Estrangeira; Afetividade
INTRODUÇÃO
A Linguística Aplicada (L.A) é uma área das ciências da linguagem que abrange uma
vasta gama de campos, e é em um destes que o presente trabalho se foca: Os fatores afetivos e
suas relações com o processo de aquisição de uma língua estrangeira.
Vale a pena ressaltar que o estudo dos fatores em questão nem sempre foi bem visto.
Uma das possíveis razões se dá através de questão histórica que está relacionada à concepção
dualista dos indivíduos. Tal pensamento divide o homem entre razão x emoção, e não vê sentido
em tornar objeto de estudo “parte da dimensão anímica” (LEITE, 2012, p.356), ou seja, os
fatores que estão vinculados à parte emocional dos seres. Entretanto, com o passar dos séculos,
surge a concepção monista cuja perspectiva acredita que a razão e a emoção são fatores
indissociáveis, quebrando assim, com a visão dualista.1
Ao longo das últimas décadas, o campo que estuda a aquisição de L.E (Doravante
Língua Estrangeira) e L.2 (Doravante Segunda língua) tem usado uma vertente do monismo, a
perspectiva humanista, por levar em consideração que os fatores afetivos exercem algum tipo
de influência no processo cognitivo (SILVA, 2007, p.1).
O que acaba de ser exposto entra em sintonia com a definição de perspectiva humanista
proposta por Andres (2002)
Humanistic education is related to a concern for personal development, selfacceptance, and acceptance by others, in other words making students be more human.
Humanistic education takes into consideration that learning is affected by how
students feel about themselves. It is concerned with educating the whole person —the
intellectual and the emotional dimensions. (ANDRES, 2002, p.4)
De Paula e De Faria (2010) afirmam que a “inter-relação entre os sentimentos, os afetos
e as intuições na construção do conhecimento tem sido enfatizada por diversos autores.” (p.2)
Pensando nesta inter-relação, proponho-me aqui discutir como o afeto entre professoraluno influência o processo de aprendizado de L.E/L2. A ideia para este trabalho veio depois
de ser professor de uma turma de nível básico de inglês em uma escola de idiomas localizada
no interior de Goiás. Ao longo da minha jornada com tal turma, passei a perceber um certo afeto
por parte dos alunos e a insistência deles para que eu continuasse sendo seu professor nos níveis
seguintes. Com isso, comecei a refletir sobre como os fatores afetivos podem influenciar o
aprendizado.
OBJETIVO GERAL E ESPECÍFICOS
O objetivo geral deste trabalho é buscar compreender a influência que a relação afetiva
entre professor-aluno exerce na aprendizagem deste último.
Como objetivos específicos, temos:

Investigar o papel da afetividade no processo de aprendizagem, principalmente no que
tange ao de uma língua estrangeira;
1
Universidade Federal de Goiás – Jatai. E-mail: [email protected]¹ ; ²Universidade Federal de Goiás.
Email: [email protected]²

Verificar as impressões dos alunos acerca do afeto na sua aprendizagem de inglês
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Definir “afetividade” não é uma tarefa fácil, visto que o termo tem sido usado em
diversos contextos (Bown & White, 2010, p.3) e é frequentemente associado a outros construtos
como “personality features, self-referential judgments, emotions, self-efficacy, beliefs,
attitudes, motivation, cognitive styles, and learning strategies”. Entretanto, a autora se baseia
na definição psicológica do termo e sinaliza afetividade como “um aspecto central da
mentalidade humana com sua vida social” (p.2). Almeida Filho (1999) define afetividade como
sentimentos e desejos que estão completamente ligados ao processo de desenvolvimento da
cognição, “a inteligência não se desenvolve sem afetividade, e vice-versa, pois ambas compõem
uma unidade de contrários.” (p.29).
Agora que temos a noção de que a afetividade é construída através de uma relação do
ser com o meio no qual está inserido, como podemos associar tal fator com a linguagem,
pensando em afetividade enquanto um fator intrínseco no indivíduo. Como ela pode influenciar
o processo de aprendizagem em geral? E de uma segunda língua? Como ela influência?
Stevick (1980, p.4) afirma que o sucesso em aprender um novo idioma está além dos
“materiais, técnicas e analises linguísticas”, mas sim nas relações “dentro e entre as pessoas”
na sala de aula. Arnold (2011) aponta que as palavras “dentro” e relação “entre pessoas” é
basicamente a definição do que seria afetividade no contexto de se aprender uma L.E ou L.2.
Sowden (2007) afirma que a chave do sucesso na aprendizagem de uma segunda língua
está no aprendiz. De certa forma, o mesmo reconhecimento é dado ao professor, entretanto este
é posto como o fator determinante no processo de ensino. O autor utiliza os adjetivos “repleto
de habilidades”, “confiante” e “experiente” para definir esse bom professor. De acordo com o
teórico, os professores que possuírem essas características terão seu ensino efetivado porque o
resultado “será um produto de quem eles são, e os alunos receberão da mesma maneira” (p.308).
Podemos concluir, baseado na fala do autor, que ensinamos aquilo que somos.
the teacher as person is coming to be recognized as the determining factor
in the teaching process, just as the learner as person has been recognized
as the key to successful learning. This ‘good teacher’, a well-rounded,
confident and experienced individual, will be at ease in their classroom role:
their teaching will be effective because it will be a natural product of who
they are, and be received as such by their students. (SOWDEN, 2007, p.308)
Como percebemos, é impossível separar afetividade da cognição. Assim sendo, ao
professor cabe estar ciente que a visão dualista razão x emoção não deve ser concebida dentro
de uma sala de aula, que lidamos com individualidades e devemos ter esse senso de percepção
afim de lidar com as diversas singularidades que podem aparecer durante o caminho à
aprendizagem.
METODOLOGIA
Neste trabalho, optamos, por realizar uma pesquisa-ação de cunho qualitativointerpretativista para levantar e interpretar dados coletados em uma sala de nível préintermediário de Inglês. A pesquisa-ação tem como objetivo, como afirma Thiollent (1998,
p.74), “produzir informações e conhecimentos de uso mais efetivo” para que assim possamos
promover transformações na sala de aula. O mesmo é expresso por Tripp (2005), “A pesquisaação educacional é principalmente uma estratégia para o desenvolvimento de professores e
pesquisadores de modo que eles possam utilizar suas pesquisas para aprimorar seu ensino e, em
decorrência, o aprendizado de seus alunos” (p.445).
A pesquisa presente neste trabalho foi realizada em um curso de idiomas de uma
Universidade Federal do interior de Goiás, com alunos do nível II de Inglês. 10 alunos foram
voluntários para a pesquisa. Os dados foram coletados através de questionários, apoiado por
Escala Likert, vinham com afirmações as quais haviam as seguintes opções para se marcar:
Discordo totalmente, discordo, nem concordo nem discordo, concordo, concordo totalmente.
Abaixo de cada afirmação, havia um espaço para comentário livre no qual os participantes
poderiam desenvolver melhor a opção escolhida. No questionário havia o total de 20
afirmações. Durante a análise, alguns dos itens não foram utilizado, pois não se encaixava na
proposta do trabalho.
A análise de dados foi realizada do seguinte modo: Analisamos os dados dos
comentários livres, qualitativamente. Categorizamos esses dados utilizando o critério de
ocorrência dupla. Ou seja, toda vez que dois alunos respondem algo semelhante, se cria uma
categoria em comum para as respostas.
Todos os participantes foram orientados a colocarem pseudônimos nos instrumentos
afim de preservar suas identidades.
ANALISE DE DADOS
Nesta seção, serão apresentados os dados coletados através dos questionários. Ao todo,
dez estudantes participaram da pesquisa, respondendo acerca de como o professor pode
influenciar seu processo de aprendizagem.
Se gosto do meu professor, minha aprendizagem ocorre facilmente.
Na primeira afirmação do questionário “1- Gostar do meu professor influencia na minha
aprendizagem”, percebemos que os participantes acreditam que a boa relação entre professor e
aluno resulta em um processo de aprendizagem com bons resultados.
“Acredito que este sentimento ‘gostar” pode influenciar bastante, uma vez que este
(aluno) poderá conseguir um foco melhor no aprendizado” – Weuller (Questionário
aberto)
“Acredito que para que haja um bom desenvolvimento da aprendizagem em sala de
aula, um bom relacionamento entre professor e aluno também é necessário” – Julius
(Questionário aberto)
Gostar do meu professor faz com que o ambiente de aprendizagem se torne mais
confortável.
Ainda no item 1, concluímos pelas falas dos participantes que o fato de gostar do professor
pode proporcionar um ambiente agradável e livre de medo.
“O fato de gostar deixa o aluno mais à vontade para questionamentos” – Bruna
(Questionário aberto)
“O estudante sente-se mais à vontade para interagir com o professor e com o grupo,
tendo consciência que em um espaço de aprendizagem em comum.” – Sandra
(Questionário aberto)
A afetividade tem um papel importante na minha aprendizagem
No item “2. – Aprendo mais quando meu professor é afetivo comigo”, é nítido pelas falas dos
participantes que a afetividade é um fator importante que desperta nos alunos a vontade de
aprender.
“A afetividade é um sentimento recíproco, se eu gosto dele [professor] tenho vontade
de estudar, se ele gosta de mim terá vontade de me ensinar” - Fernanda (Questionário
Aberto)
“O professor tendo atenção com os alunos faz com que a classe evolua mais.” – João
(Questionário aberto)
Meu professor me intimida e isso me atrapalha.
No próxima afirmação “3. Meu professor me intimida e isso influencia meu processo de
aprendizagem”, a maioria dos participantes veem o sentimento de intimidação como um fator
que contribui negativamente para o processo de aprendizagem, como por exemplo, a inibição.
“Muitos se sentem intimidados e isso pode fazer com que nem um aluno discuta suas
dúvidas.” – Anônimo (Questionário aberto)
“Quando há intimidação, o estudante cria uma barreira com relação ao seu professor”
– Sandra (Questionário aberto)
A correção faz parte da aprendizagem
O item 4 se refere a como a correção pode gerar um sentimento de vergonha. A intenção
era saber se tal sentimento influencia negativamente o processo de aprendizagem. Pelas falas,
concluímos que os alunos tem noção de que a correção tem um papel importante em tal processo
e o sentimento nem é abordado nas respostas.
“Acho bom a correção, pois assim aprendemos” – Larissa (Questionário aberto)
“O fato dele me corrigir pode significar que ele esteja tentando me mostrar a forma
correta” – Anônimo (Questionário aberto)
O professor é responsável por manter um ambiente agradável na sala de aula.
No item 5, temos a seguinte afirmação “É importante que meu professor mantenha um
clima agradável na sala de aula”. Os alunos enxergam que um ambiente agradável e confortável
ajuda positivamente o processo de aprendizagem e cria laços entre aqueles que ali estão.
“Sim, o clima agradável une o grupo e estabelece vinculo de respeito, admiração,
amizade e aprendizagem.” – Fernanda (Questionário aberto)
“Esse clima [agradável] vai manter o clima na sala e contribuir para que possamos
ajudar um aos outros.” – Weuller (Questionário aberto)
Meu professor se mostra disponível para ajudar. Isso é bom!
Na afirmação “6 – O fato do meu professor mostrar disponibilidade e vontade, para tirar
dúvidas, ajuda no meu processo de aprendizagem” é explicito que os alunos se sentem mais
confortáveis para tirar dúvidas com professores que possuem tais características.
“O aluno não sente que está incomodado quando o professor se mostra disponível.” –
Bruna (Questionário aberto)
“O professor demonstra interesse pelo seu estudante e valoriza as particularidades de
cada um.” – Sandra (Questionário aberto)
Receber elogios do professor me deixa feliz.
No item “8 – Fico contente quando meu professor elogia meu desempenho na frente dos
colegas”, os participantes abordaram que se sentem valorizados quando recebem elogios de seu
professor, acarretando assim um aumento em sua autoestima.
“Essa atitude eleva minha autoestima e faz com que eu adquira mais segurança nos
meus estudos” – Fernanda (Questionário aberto)
“O elogio faz parte da arte de educar e aprender. Valoriza o esforço, a atitude como o
estudante se porta em sala.” – Sandra (Questionário aberto)
Além de dominar o conteúdo, um bom professor de inglês deve transmiti-lo de forma
agradável.
Em seguida, temos a seguinte afirmação “10. Um bom professor de inglês deve ser aquele
domine o conteúdo e saiba transmitir o mesmo de maneira agradável e afetuosa.” Aqui, é
reforçado o papel que a afetividade exerce no ensino, podendo ser um fator motivante e capaz
de melhorar o relacionamento entre professor e aluno.
“Se o professor domina o conteúdo e transmite-o com prazer, os alunos também
despertam a vontade de aprender” – Fernanda (Questionário aberto)
“Assim há melhor comunicação entre os alunos e os professores” – João (Questionário
aberto)
Admiro meu professor.
Com item “15 – Tenho admiração pelo meu professor”, me objetivei a coletar as
qualidades que um bom professor deve ter, na concepção dos alunos caso eles concordassem
com a afirmação. Percebemos que tais aprendizes admiram um professor que possui o
conhecimento específico, é dedicado, atencioso, respeitoso, paciente, ou seja, que se mostra
afetivo.
“Concordo, pois ele tem conhecimento na área, paciência para ensinar os alunos” –
Bruna (Questionário aberto)
“Ele é esforçado, dedicado, estudioso, não tem preferência por algum aluno, trata
todos com respeito, profissionalismo e amizade” - Fernanda (Questionário aberto)
Entender o que meu professor diz mostra que estou evoluindo e me sinto bem com isso.
No item “17 – Gosto do meu professor quando entendo o que ele diz” percebemos uma
recepção totalmente positiva da afirmação, o argumento dos alunos se baseia que entender o
professor é uma forma de feedback particular que eles tem consigo mesmos, pois conseguem
avaliar o rendimento de seus esforços o que leva a um aumento na autoestima.
“Gosto dele e de mim por estar compreendendo o que ele diz” – Fernanda
(Questionário aberto)
“Mostra que as aulas estão sendo bem aproveitadas e eu estou aprendendo” – Bruno
(Questionário)
O incentivo do professor me motiva.
No item “19 – Gosto do meu professor quando ele me incentiva”, vemos que o fato do
professor incentivar os alunos os deixam mais confiantes e os motivam a continuar estudando.
“A motivação é um dos fatores mais importantes para adquirir confiança para
continuar os estudos” – Fernanda (Questionário aberto)
“Às vezes com a rotina corrida e as dificuldades de aprendizagem, podemos querer
desistir e é bom quando somos incentivados” – Bruna (Questionário aberto)
O professor deve incentivar o aluno
No último item do questionário, “20 – Não gosto do meu professor quando ele não me
incentiva”, observamos que os alunos enxergam o incentivo como um fator importante para o
processo de aprendizagem.
“Às vezes o professor tem que ‘pegar no pé’ para que o resultado seja alcançado” –
Bruna (Questionário aberto)
“O professor precisa incentivar o aluno, mesmo que seja um pequeno incentivo” –
Larissa (Questionário aberto)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos através dos dados analisados nos reforçam o papel do professor
durante o processo de aprendizagem. Tal profissional não deve ser vazio de emoções durante
seu ato, pois, como os resultados sugerem, quando a relação professor-aluno ocorre através da
afetividade, o ensino se torna muito mais prazeroso e proporciona um ambiente agradável no
qual “o estudante se sente mais à vontade para interagir com o professor e com o grupo” (Sandra
– Questionário aberto). Inferimos, também, que o fato do aluno ter um afeto por seu professor
gera um “bom desenvolvimento da aprendizagem em sala de aula” (Julius – Questionário
aberto).
Percebemos como a afetividade molda a visão dos alunos em relação ao professor. Um
bom professor não é aquele que possui o domínio sobre o conteúdo que leciona, mas sim, o que
consegue transmiti-lo de forma afetiva, que é responsável por manter um ambiente tranquilo,
que é respeitoso, paciente, e que motiva e incentiva seus alunos. Vemos pelas falas de alguns
entrevistados que o professor, quando faz tudo isso, é referência para a aprendizagem.
Finalmente, concluímos que a afetividade possui uma grande influência no processo de
aprendizagem, não podemos dualizar a razão da emoção, pois ambos são “duas faces da mesma
moeda”, ou seja, estão presentes no interior de cada indivíduo. O conhecimento proporcionado
pelo mundo exterior se internaliza de maneira mais agradável quando há afetividade envolvida
no processo.
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