ATÉ ONDE CHEGA A POLUIÇÃO Naquela tarde de sábado, algo parecia estranho, as águas estavam agitadas e turvas e as espécies de peixes encontravam-se muito alteradas, nadando agitadamente. Entretanto, ouviu-se um estrondo muito forte que se fez escutar por todo o fundo do mar. Nadei logo para fora do castelo para ver o que se passava, quando reparei que se tratava de um naufrágio. - Rei Luscos, Rei Luscos! – chamei agitada. - Porque me chamais, velha Aia? - perguntou indignado o rei. - Veja! – exclamei. A velha profecia tinha acontecido, o naufrágio de um moliceiro. Este, ao entrar em contacto com o fundo do mar, revestira-se em prata e os pescadores que nele navegavam transformaram-se em fanecas. A profecia ainda rezava que estes homens teriam que servir o rei até que este feitiço se quebrasse. Numa longa conversa, os pescadores apresentaram-se. Vinham duma terra chamada Torreira, que pertencia ao concelho da Murtosa. Eram homens trabalhadores que saíam para o mar com o objetivo de poderem sustentar as suas famílias que os esperava, já com saudade. O rei também se apresentou: - Chamo-me Luscos, sou o rei e mando neste Reino. O meu nome deriva dos meus antepassados e surgiu devido ao nome científico da nossa espécie Trisopteus Luscos. Foi então entregue a primeira tarefa aos pescadores, que era limpar o Reino todo. Nenhum deles percebera o que se estava a passar, muito menos o motivo daquela transformação toda. Então começou o alvoroço, uns gritavam, outros questionavam mais calmamente. - Velha aia! – chamou o rei, arrogantemente. - Explicai aos pescadores o motivo pelo qual lhes foi atribuído esta tarefa, explicai ainda que é eterna. – continuou o rei, ausentando-se. Esperei um pouco. Pensei … e foi então que decidi explicar-lhes que no fundo do mar existiam inúmeros reinos, todos eles feitos em ouro para proporcionarem uma maior claridade, devido à escuridão das profundezas. No fundo do mar, os reinos não são mais ricos devido ao ouro, são considerados ricos ou pobres consoante a limpeza apresentada. Um reino limpo, sem poluição vinda da Terra, é um reino exemplar, mas ultimamente, devido à poluição que os homens fazem no planeta, é cada vez mais complicado manter-se um reino limpo e transparente. - Vocês, Homens! Poluem o vosso habitat e o nosso, por isso é que a vossa tarefa é tao importante! - alertei então com uma voz triste. Quando acabei de falar, instalou-se um silêncio. Acreditei que tinham percebido a posição do rei. O rei comunicou à rainha Trisa, sua esposa, o que estava a acontecer no reino e ela concordara com todas as decisões do monarca. Porém, a rainha tinha outras preocupações que para ela eram mais importantes. Era meticulosa na comida exata que podia comer, essencialmente à base de vermes e de lulas. Era igualmente muito vaidosa e luxuosa. Apenas se contentava com produtos de ótima qualidade, nem que para isso tivesse que os mandar vir de outro oceano. A princesa Help, que era a sua filha, já não era assim. Dava-se muito bem comigo, respeitava-me e não me chamava de aia nem de criada, o que para a rainha era um absurdo. Help era bastante bondosa e gostava muito de ajudar os outros. Poucos dias depois do naufrágio, decidira falar com os pescadores para conhecer um pouco melhor as suas culturas, religião e hábitos alimentares. Após algumas conversas com eles, Help começou a perceber o desespero daqueles homens, ao pensarem que nunca mais iriam regressar a suas casas para poderem ver as suas famílias. Tempos depois, os pescadores revoltaram-se e começaram uma batalha contra o nosso povo. Passaram dias, semanas, meses e a batalha continuara. Já havia feridos, casas destruídas, até as fanecas pequeninas choravam desesperadamente. Infelizmente, o rei não dava o braço a torcer e os pescadores também não. Help ainda foi falar com o pai, mas nada o fazia mudar de ideias. - Help, Já disse! Este povo invadiu o nosso Reino, poluem constantemente os rios, os mares, os oceanos e a atmosfera! Não merecem perdão e permanecerão aqui até o feitiço acabar, ou melhor, até eu querer – informou o rei furioso. - Pai, peço-lhe apenas que estabeleça um acordo entre os dois povos – pediu Help, mas sem sucesso. - Filha, vou apenas explicar-te a razão pela qual estou a tomar esta decisão. Este povo, que pertence à espécie humana, tem capacidades para distinguir o bem e o mal! Sabe que a poluição é prejudicial para eles e para os outros seres vivos, tanto aquáticos, terrestres como aéreos? Mesmo assim, poluem todos os dias, acabando por provocar a extinção de algumas espécies. Help, no fundo, concordava com o pai, mas queria encontrar uma solução para que nenhuma das partes saísse prejudicada. Então decidira falar comigo. Juntas pensámos em elaborar um acordo que demorou alguns dias a ser concluído. O acordo consistia em que os pescadores cumprissem a ordem do rei. Teriam que limpar o Reino e ainda todo o fundo do mar. Para além disso, após a conclusão das limpezas, teriam que fazer um juramento perante o rei que, ao regressarem à Torreira, deveriam expandir a palavra de como se encontrava o fundo do mar, bastante sujo e poluído, para que o povo da Murtosa e arredores ficassem sensibilizados, com esta realidade. Os pescadores teriam, igualmente, que responsabilizar o povo a preservar a sua Terra e a incutir esses valores aos turistas. Estava também registado neste pacto que a pessoa que não cumprisse essa ordem seria expulsa da Terra e enviada para o fundo do mar, onde serviria o rei Luscos, para toda a eternidade. Após termos elaborado este acordo, Help teve que o apresentar ao rei, pois eu não o poderia fazer, uma aia não tem opinião perante o rei. Help deu a conhecer o documento ao seu pai e conseguiu convencê-lo de que o acordo seria a melhor opção. Foram então informar os pescadores que, já exaustos de tanto lutar, concordaram. De imediato, assinaram o acordo, fizeram o juramento e começaram com as limpezas. Passaram-se muitos dias, meses e talvez alguns anos quando os pescadores finalizaram as limpezas. Eufóricos, regressaram ao reino. No entanto, a felicidade de imediato se transformara em tristeza quando se aperceberam que o reino estaria novamente a ser poluído pelos habitantes da Terra. O Rei chamou os pescadores e tristemente agradecera a limpeza realizada. - Obrigado, pescadores. Cumpriram parte do acordo, mas os habitantes da Terra não param de poluir. Por isso, vou-vos enviar na mesma para a vossa Terra com a finalidade de cumprirem a outra parte do acordo. Deste modo, o rei decidira quebrar o feitiço. O barco revestido de prata transformou-se num belo moliceiro, os pescadores recuperaram os seus corpos humanos e eu, que fui com eles, transformei-me numa esbelta mulher e regressámos então à Terra. Quando chegámos à costa, algumas famílias ainda esperavam pelos seus homens, outras já tinham partido. A chegada foi emocionante, houve lágrimas, sorrisos e partilha de histórias. Mas quando os pescadores narraram as peripécias que ocorreram com os mesmos nas profundezas do mar, o povo ficou admirado, mas também chocado, pois não imaginavam que provocavam tanta poluição ao planeta. Os pescadores contaram que apanharam garrafas de vidro, bocados de pranchas, brinquedos partidos, plásticos entre outros lixos e que iriam demorar muitos anos a decompor-se. Falaram também do juramento que fizeram e todo o povo concordou em passar a palavra e proteger a sua Terra. Eu acabei por me apresentar e dar a minha opinião acerca do quanto a poluição era prejudicial para todos os seres vivos, para a atmosfera, para as águas dos mares e oceanos. Referi também o quanto era importante encontrar-se um sítio, uma terra ou um país limpos. Após o meu discurso, os pescadores e as suas famílias decidiram juntar-se e, com o apoio das Juntas de Freguesia, criaram o Grupo Ambientalista da Murtosa (GAM). Foram desenvolvidos trabalhos pelas crianças do município, onde foi possível ver por toda a região desenhos, textos, estátuas, bem como se fizeram peças de teatros que permitiram sensibilizar os turistas e as pessoas murtoseiras para preservarem o ambiente. Poucos anos após a fundação deste grupo verificou-se uma maior adesão às iniciativas e a poluição reduziu significativamente. Também se conseguiu o apoio de algumas terras vizinhas, como Torreira, Pardilhó, Veiros e Avanca, que entenderam a nossa preocupação e que passaram igualmente a pertencer à nossa Fundação. A partir de então, começou a respirar-se um ar mais puro, o mar apresentou uma cor magnífica e eu resolvi juntar-me ao meu reino, pois verifiquei que tinha cumprido a minha missão e já me encontrava com imensas saudades dos meus amigos. Ana Júlia Pinho Lopes, 4.º ano, Escalão A (Prosa) – Menção Honrosa EB1 S. Silvestre