A ESCOLA PÚBLICA MUNICIPAL DO RECIFE NA PASSAGEM DO SÉCULO XIX PARA O SÉCULO XX. Pedro Correa de Araujo Peres. Prefeitura do Recife. 1- A EDUCAÇÃO NO BRASIL NA 1ª REPÚBLICA O regime republicano inaugurado em 1889 trazia perspectiva de um regime democrático. O poder foi descentralizado, os Estados da federação ganharam autonomia. Estando próximo das comunidades locais, em tese haveria condições do povo opinar e fiscalizar os atos dos governantes. Grupos de políticos e intelectuais debatem temas nacionais como democracia, federalismo, educação popular, visando à democratização da sociedade e à superação do atraso econômico do país. A disseminação da instrução pública procurava atender a demanda de setores urbanos por melhores condições de vida e oportunidade de ascensão social. Passou a se fortalecer a idéia de que, pela multiplicação das instituições escolares e disseminação da educação popular, seria possível incorporar camadas da população no progresso nacional e colocar o Brasil no caminho das grandes nações. As esperanças, no entanto, foram frustradas. O que se viu foi a constituição de uma República Oligárquica, dominada em nível federal, pelas oligarquias paulista e mineiras. Também, na educação, não demorou muito para que o desânimo e a frustração tomassem conta dos que encaminhavam o debate educacional. O sistema dual de ensino aprovado na constituição de 1891 deixava claro que pouco mudava na educação desde o império, colocando o ensino secundário e superior sob a competência da União e acessível às elites e, por outro lado, o ensino primário, normal e profissional ficava sob a responsabilidade dos Estados e Municípios, limitado às classes trabalhadoras. 2- O SURGIMENTO DA ESCOLA MUNICIPAL DO RECIFE Recife, no final do século XIX, reforçava sua posição de centro comercial, por conta do fortalecimento da retaguarda agrícola e da ligação de seu porto com o mercado externo e o mercado interno, especialmente o regional. Os eventos econômicos e urbanos que evidenciavam as mudanças na cidade foram: a expansão das ferrovias, o aumento e diversificação de mercadorias, a reforma do porto do Recife. Em nível social, o crescimento da classe operária e de camadas médias urbanas indicavam a emergência de novos atores sociais, numa cidade que aumentava seus contingentes populacionais. Com a República, a autonomia municipal é instituída e a pressão por serviços urbanos tornou-se crescente. Solicitações de moradia, canais, postes, estradas, hospitais, escolas passaram a ser respondidas pelas autoridades que davam satisfações à população, visando a atender seus pleitos e a legitimar-se frente à sociedade, consolidando o poder republicano, que, teoricamente, "emanava do povo". Estudando as fontes disponibilizadas na nossa pesquisa, tiramos algumas conclusões importantes acerca dos relatos dos inspetores, autoridades e estudos de intelectuais que se debruçaram sobre a época analisada. A implantação das primeiras escolas municipais aconteceu em parceria com o Governo do Estado. Apesar do quantitativo de 100 escolas municipais em 1897, o que se evidenciava nos relatórios era a precariedade das escolas. A grande maioria das escolas,escolas isoladas, de uma sala só. Analisando as três primeiras décadas do século, o quantitativo de escolas praticamente continuou o mesmo, podendo se tirar as conclusões de que a expansão da incipiente rede foi lenta e sem uniformidade. Nos documentos oficiais pesquisados, as autoridades municipais davam satisfações aos pleitos feitos pelos moradores da cidade. As comunidades dos arrabaldes enviava petições e solicitações, visando à implantação dos mesmos serviços urbanos que eram realizados nos bairros centrais da cidade pelo governo municipal: serviços de esgotos, de abastecimento de água, de saúde, de educação. Analisamos que, diversos fatores combinados, colaboraram com o surgimento e a expansão do ensino municipal do Recife. Foram eles: a pressão das comunidades dos arrabaldes e do centro por escolas; os caminhos traçados pelos transportes urbanos, o crescimento econômico, o adensamento populacional, dentre outros; revelando o papel de centro comercial e regional que o Recife adquirira. 3. A ORIGEM SOCIAL DOS ALUNOS DA ESCOLA PÚBLICA MUNICIPAL DO RECIFE Quem era este povo a quem o poder republicano delegava poderes de autonomia e liberdade? Afinal, qual foi o povo atendido pela escola pública do Recife. Foram os pobres, os setores médios ou os ricos? Pela análise de algumas estatísticas escolares podermos comprovar que o quantitativo dos alunos atendidos pelo serviço escolar era bem menor do que a população em idade escolar não atendida. Em um censo de 1915, para um universo de 19.683 alunos em escolas públicas estaduais, havia 300 mil crianças em idade escolar. Nos censos escolares municipais, podemos averiguar que também o quantitativo de crianças atendidas em relação à população total da cidade era muito pouco. Portanto, antes de analisarmos quem eram os alunos matriculados, devemos saber quem ficava fora da escola. Numa cidade em crescimento como o Recife, havia extratos sociais emergentes como a pequena burguesia, camada média de intelectuais, padres, militares. Das camadas pobres da população, havia um enorme contingente vindo do interior, muito deles ex-escravos, que se ocupava do trabalho assalariado nas fábricas e serviços urbanos em crescimento. E, uma grande quantidade que vivia do sub-emprego, como biscate e serviços de criadagem. No universo das crianças mais pobres existia um razoável contingente de crianças e adolescente abandonados do Recife, o que atesta a existência de casas correcionais para menores abandonados, na década de 1920. Uma tese escrita em 1931 comprovava a impossibilidade de acesso á escola por parte dos mais pobres: "É ele que, motivando a falta de roupa e de calçado, contribui, de outro modo, para que numerosos pais, se sintam materialmente impossibilitados de mandar os filhos aos centros de educação, concorrendo, assim, para aumentar a acentuada evasão das escolas da população em idade escolar", e lançava proposta para solucionar o problema! "Sendo proibido, em Recife, o comparecimento às escolas atuais de crianças maltrapilhas e descalças, os pais pobres cruzam os braços diante de tais obstáculos, e ficam a espera de melhores dias"(1). Em 1904, em relatório apresentado ao Prefeito do Recife também é diagnosticado o problema: " Santo Amaro das Salinas é um bairro da freguesia da Boa Vista que possuem tão grande quantidade de meninos crescidos, o local é muito populoso e de habitantes no geral pobres, os quais não podem morar em outros pontos da cidade e procuram como refúgio aquela parte".(2) Outro aspecto da origem social dos alunos da escola municipal refere-se à localização das escolas municipais na cidade. Nas escolas próximas do centro o acesso era dado aos alunos de famílias com melhores condições sócio-econômica. É o que nos diz a critica de Ulisses (1) ANDRADE, Geraldo de. A Escola e a formação da Mentalidade Popular no Brasil, Recife - Imprensa Industrial, 1931 (2) Relatório da Industrialização Pública do Município do Recife apresentado do Exmo. Sr. Comendador Prefeito - Tip. Do Diário de Pernambuco, 1904 Pernambucano fazia ao Jardim de Infância da Escola João Barbalho que dava "preferência aos filhos de famílias ricas e abonadas"(3). Em relação aos arrabaldes mais distantes do centro, nós temos o depoimento oral de uma ex-aluna da Escola Municipal Pinto Damaso localizado na freguesia da Várzea, aonde ela cita que os alunos eram, na sua maioria, filhos de operários de uma fábrica de tecidos (Fábrica Anita) e que ela era uma das que tinha melhor situação econômica, pois era filha de um funcionário público. O que podemos deduzir de sua afirmação é que o serviço escolar nos arrabaldes era prestados de acordo com a importância do local, pois numa região onde já havia uma fábrica, a escola surgia como um serviço complementar e necessário para um bairro que crescia e se desenvolvia economicamente. O que podemos concluir das poucas fontes que nos foi possível analisar, é que o aluno da escola pública municipal do início do nosso século, por pertencer a um pequeno número de crianças que eram atendidas pela escola, possuía uma condição social um pouco melhor do que os mais pobres. Os atendidos eram os filhos dos operários e trabalhadores em geral, que eram "selecionados", tanto por uma condição social, como por sua importância econômica para a sociedade, como no caso dos filhos dos operários da fábrica da Várzea. E, nas escolas mais próximas do centro ou que tinha uma população em seu redor de melhores condições econômicas, era dado o acesso, majoritariamente aos setores médios da sociedade, filhos de profissionais liberais e trabalhadores de melhores salários. 4. OS PROFESSORES MUNICIPAIS DO RECIFE Há poucas fontes sobre os primeiros mestres das escolas municipais. Os poucos registro existentes são documentos de nomeações, jubilações de professores. Os relatórios dos inspetores escolares também são importantes. Fontes como livros e teses de mestrados nos dão as informações sobre a educação em Pernambuco e no Brasil. O problema mais comum levantado era o da inabilidade do professor. São comuns denúncias sobre a precariedade de sua formação. Em sua maioria, eram professores leigos, que não tinha se preparado para o exercício do magistério. Mesmo que quisessem, não teriam escolas para se formarem. As poucas que existiam ainda eram "laboratórios" das escolas primárias conhecidas como escolas de primeiras letras, de aprender a ler - contar e escrever. Onde os professores se tornavam professores no próprio curso primário. (3) CARVALHO, Rosangela Tenório de. O Contexto Político do Atendimento Pré-Escolar em Pernambuco. Dissertação de Mestrado em Sociologia, UFPE, 1985. A primeira escola normal em Pernambuco foi criada em 1864. Em 1872, a Sociedade Propagadora da Instrução Pública criou a Escola Normal Pinto Júnior. E, em 1875, foram abertas vagas para o sexo feminino. A situação de precariedade na formação do professor não foi modificada com a República. Só com a Reforma Carneiro Leão, em 1928, foi possível profissionalizar o magistério primário e melhorar a formação do professor em Pernambuco. No caso do Recife, existiam professoras formadas nas escolas normais nas primeiras décadas do século. Existem denúncias em Pernambuco de que os critérios de apadriamento político são levados em conta na hora de nomear professores. A lotação de professores nas escolas acontecia através de nomeações, remoções, promoções e transferências de professores. "Muitos depoimentos atestam a influência política sobre a vida de professoras primárias"(4) Questões relatada sobre o professor, nos documentos municipais, dão conta dos problemas enfrentados por eles no ensino municipal. São problemas de baixos salários; de falta de apoio pedagógico; de prédios e salas de aulas com condições precárias de ensino; dos constantes deslocamentos de professores tornando a profissão muito instável e pouco valorizada. Um relatório de 1920 relacionava algumas condições de trabalho do professor com a baixa freqüência dos alunos nas escolas municipais; "São múltiplas as causas de algumas nossas escolas não apresentarem freqüência animadora"(5) No relatório são enumerados dez problemas das escolas, dentre eles, grande parte responsabilizando o professor pela baixa freqüência. São eles: "as constantes mudanças; transferência dos professores no meio do ano letivo; não residir o professor na sede escolar; a falta de um método racional, gradativo na transmissão do ensino; o pouco interesse de alguns de nossos professores aliados aos pequenos conhecimentos da profissão que exercem..."(6) Em relação aos salários dos professores podemos afirmar que a reclamação maior é de que eram baixos: "... e o nosso professorado com a remuneração que tem não pode absolutamente gozar desse conforto para o bom desempenho de sua árdua e espinhosa tarefa"(7). (4) CAVALCANTI, Zaida Maria da Costa - DEC.: A Biografia de uma Instituição Centenária - Recife: Secretaria de Educação de Pernambuco, 1986, 03. (5) Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Coronel Eduardo de Lima Castro, Prefeito do Município do Recife, pelos Inspetores das Escolas do Mesmo Município, em 18/05/1920, 33. (6) IDEM: 1920, 33. (7) Relatório apresentada ao Exm. Sr. Coronel Eduardo de Lima Castro, Prefeito do Município do Recife, pelos inspetores das escolas do mesmo município, em 18/05/1920, 39. Sobre as condições de trabalho dos professores, as condições físicas das escolas influenciam negativamente no seu trabalho. Existem muitas criticas às escolas isoladas. Mesmo em escolas maiores há reclamações de falta de mobiliário suficiente, de salas de aulas inadequadas para enfrentar o calor da cidade. Em 1940, uma revista revelava que as condições de trabalhos dos professores, ao longo do tempo, não melhorou: "... junte-se tudo isso ao acúmulo de alunos em salas exíguas e mal arejadas, como são em gerais as escolas isoladas...escolas que fazem criar um mal estar físico insuportável, não só aos alunos mas, a própria professora e que torna os meninos irritáveis e brigões, e teremos uma série de causas do pouco rendimento escolar"(8) Pelas fontes citadas deduz-se que havia professores inadequados para o exercício do magistério, com pouca ou quase nenhuma formação, mas uma parte deles obtinha uma certa formação docente através das escolas normais. Em relação ao gênero, as mulheres eram a maioria na composição da rede escolar municipal. A maioria das citações de nomes de professores pesquisados eram do sexo feminino. Este era o espaço público e profissional permitido à mulher nos centros urbanos. A escola era uma continuação do lar e as mulheres desempenhariam com dedicação seus "dotes femininos" na educação das crianças. Os baixos salários estavam reservados a elas. 5 – EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA DOS PROFESSORES MUNICIPAIS No final do séc. XIX e início do séc. XX, o ensino era individual e cada aluno era orientado, pelo professor a estudar a sua lição e depois o aluno dava a lição ao professor. Nesse tipo de ensino ministrado em escolas isoladas o professor podia usar os alunos mais capazes para ensinar aos outros, pois conviviam em uma mesma sala desde o aluno que não sabia ler até aquele que já sabia ler e contar. O professor tinha obrigação de garantir uma freqüência mínima de alunos sob pena de ser responsabilizado pelo fracasso escolar. Em toda a rede municipal do Recife 40% dos alunos matriculados não freqüentavam. O que explica esse fato é a falta de conforto (bancas escolares para os alunos). Contudo, há escolas no centro da cidade que apesar de ter melhores condições para o trabalho pedagógico, têm um índice de evasão semelhante às escolas dos arrabaldes.Nesse caso o único culpado segundo o prefeito cel. Eduardo de Lima Castro é a (8) Secretária do Interior - Revista de Educação(Vol.1) - Recife: Artes Gráficas - E.T.P.M., 1940 “Incompetência ou pouco caso do magistério...” que deve ser corrigida através de uma seleção dos professores eliminando os incompetentes. Nos anos 20, o entusiasmo pela educação e o otimismo pedagógico supervalorizavam a instrução pública, pois o analfabetismo era visto como uma ameaça para a República. Acreditava-se que através da extensão da escola elementar ao povo é que seriam resolvidos os problemas do país.É nesse contexto que a inaptidão dos professores tornar-se um inconveniente gravíssimo que precisava ser corrigido. O analfabetismo era considerado uma grande ameaça para a República, por aqueles que viam a instrução pública como uma solução para os grandes problemas n acionais. Era um perigo ter uma grande parte da população ignorante, que podia ser manipulada por qualquer um. O fortalecimento da República depende da melhoria nas condições de ensino, na formação de cidadãos. É nesse contexto, que a incompetência dos professores assumia uma importância tão grande.”.. penso que o mal tem sua origem na ignorância que infelizmente lavra na grande massa da população, e que só da escola nos pode advir a salvação.”(9) O Prefeito do Recife recorre aos seus técnicos (os inspetores) para fazer um diagnóstico da rede escolar municipal. Ele quer um relatório minucioso das necessidades das escolas mas o que o preocupa de fato é a competência do magistério. Para resolver o problema das faltas constantes dos alunos, o Prefeito exigiu a observância do nº21 do art. 21 Regimento Interno das Escolas Preliminares,que manda fazer reuniões periódicas dos professores para divulgar entre eles os melhores métodos de ensino.Percebemos que a inspeção não tinha apenas um caráter fiscalizador.Entretanto, os inspetores deixaram de cumprir com a dimensão pedagógica do seu trabalho e ficaram com o caminho mais fácil: a fiscalização. O método analítico: uma nova proposta para o ensino municipal. “Saber de cor n ao é saber” Montagne. A partir do relatório dos inspetores surge uma nova proposta para o ensino municipal: o método analítico.Este método procurava desenvolver na criança a capacidade de observação. Rejeitava o ensino de regras decoradas,estabelecia que se devia partir sempre do simples para o composto, do concreto para o abstrato, do conhecido para o desconhecido. (9) Primeira Exposição lida perante o Conselho Municipal pelo prefeito do Recife Cel. Eduardo de Lima Castro-1920. Lutando contra os métodos arcaicos baseados na memorização da tabuada e das lições de cor, os inspetores tomam emprestado de Montaigne o seu mote”saber de cor n ao e saber”. Ele é o contraponto às concepções dos professores da época, que ficavam felizes com respostas automáticas. Para eles o importante era responder sem pensar. Os inspetores divulgam as vantagens do método: “Divulguemos em nossas escolas o método analítico;... desenvolvamos na criança a faculdade de observação; combatamos o ensino de regrinhas decoradas, das análises fastidiosas que nada exprimem; ...”(10) O objetivo dos inspetores com esse relatório é convencer o prefeito do Recife e o Conselho Municipal (a quem o prefeito prestava contas) a investir na instrução pública. O que era necessário para realizar as mudanças?: 1.fazer salas apropriadas para as escolas; 2. dotar as escolas com o material pedagógico adequado; 3.Enviar pessoa competente para estudar em São Paulo ou Minas os métodos adotados, para que possa divulga-los no município. 6. OS TIPOS DE ESCOLAS Para mudar a realidade diagnosticada pela Equipe de Inspetores, eles propuseram a criação dos grupos escolares. Neles a seriação do ensino,m o uso de um espaço adequado à atividade pedagógica e a presença do diretor, seria a garantia que as mudanças seriam executadas. Naquela época o quadro escolar apresentava-se da seguinte forma : “São três os tipos das escolas destinadas ao ensino primário: escolas isoladas, escolas reunidas e grupos escolares.” (11). As dificuldades para mudar a realidade existente eram muitas. A existência de um grande número de escolas isoladas, isto é, escola de uma só professora, sem seriação do ensino . Os problemas de transporte que levavam muitas vezes a professora a ter que residir na mesma casa onde ensinava nos arrabaldes mais distantes, e a inadequação das casas usadas como escolas (mal iluminadas, mal ventiladas, sem mobiliário adequado, e com poucos (10) Relatório apresentado ao Exmo Sr. Cel. Eduardo de Lima Castro. Prefeito do Município do Recife, pelos inspetores, pág.37, em 18/05/1920. (11) Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Cel. Eduardo de Lima Castro, prefeito do município do Recife, pelos inspetores, pág. 28, em 18/05/1920. recursos pedagógicos). Vemos que eram muitos os fatores que comprometiam a qualidade do ensino. As escolas reunidas são a união de duas ou mais escolas isoladas em uma mesma casa. Mas na prática cada professora continua ensinando como se estivesse isolada. O ensino usado nas escolas isoladas e reunidas era individual. Mesmo defendendo a criação dos grupos escolares, os inspetores reconhecem que era possível melhorar as escolas isoladas. E esse melhoramento deveria começar pela construção de salas adequadas e aparelhadas com material pedagógico adequado. Aqui os inspetores querem submeter à instalação de escolas a critérios técnicos. Pois há muitas escolas funcionando em salas inadequadas quase no coração da cidade, comprometendo a qualidade da prática escolar: “...basta dizer que escolas há, quase no coração da cidade, invadidas pelo sol desde 10:30 horas às 15; umas crianças agrupam-se ou melhor apinham-se em determinados pontos da sala por não poderem suportar o sol que as queima desapiedosamente; (12) Após pintar esse quadro do sofrimento dos alunos, que passam 5 horas nessas salas. Fica claro para nós que esse tipo de escola não tem nenhum atrativo sobre o alunado. Por isso eles desaconselham a matrícula de crianças com menos de 7 anos nas escolas preliminares. Para modificar essa realidade, os inspetores propõem Uma modificação no tempo escolar, pois consideram que nas condições em que as escolas se encontram 5 horas de aula é antipedagógico (de 9:30 ás 14:30 horas). Os inspetores propõem adaptações, como transformar a carga horária de 5 para 2 horas e meia,separando os alunos mais novos que estão sendo alfabetizados, dos que já sabem ler e escrever). Na impossibilidade de transformar todas as escolas isoladas e reunidas no ensino seriadas, pelo menos se padronizam o trabalho pedagógico separando os alunos alfabetizados dos analfabetos. Essa simples divisão dá mais homogeneidade ao fazer pedagógico, ao mesmo tempo em que aumenta o controle do professor sobre o seu trabalho. Ele passa a planejar aulas para grupos e não a fazer um trabalho para cada aluno individualmente. (12) idem, pág.31-32. Essas pequenas adaptações são importantíssimas e levam a um trabalho pedagógico mais racional, preocupado com as condições mais adequadas ao aprendizado e inclusive apontando para a necessidade de uma nova postura do professor- enfim exigindo um novo tipo de professor. É dentro dessa nova realidade que a Inspeção da Instrução Pública também muda a sua ação. Não apenas fiscalizar o professor mas interagir com ele para melhorar o seu trabalho, leva-lo a interagir com outros professores para provocar uma nova prática. Assim temos a busca de uma uniformização: do método, do tempo escolar, do professor, da avaliação do aluno e dos livros. È o nascimento de uma nova pedagogia mais racional, mais próxima da busca da equiparação com o mundo desenvolvido. Enfim, da construção de um novo homem: o homem republicano.