Simulação de um corredor azul entre as cidades de Campinas e São Paulo: estimativas de emissões veiculares BRITO, Thiago Luis Felipe1 GALBIERI, Rodrigo2 COSTA, Hirdan Katarina de Medeiros3 MOUTINHO DOS SANTOS, Edmilson4 MOUETTE, Dominique5 Resumo: Este trabalho centra-se na questão da substituição de combustíveis utilizados pelos veículos pesados de modo a comparar a utilização do gás natural comprimido (GNC) em substituição ao óleo diesel. Objetiva-se estimar as emissões de gases de efeito estufa e poluentes tóxicos oriundos dos combustíveis utilizados por caminhões que circulam no Estado de São Paulo. Simula-se a substituição da frota movida a óleo diesel por veículos de mesmo porte movidos a GNC. O modelo elaborado é inspirado no conceito de corredores azuis, que é uma rota para veículos pesados, abastecidos com gás natural. Observou-se que a frota de caminhões que circula na região delineada pelo corredor azul proposto poderia emitir 30% (690 toneladas) a menos de gases de efeito estufa por dia, em caso de substituição completa pelo GNC. Com relação aos poluentes nota-se a redução das emissões de CO pela metade, de NMHC em 99% e de MP a zero. Porém, observou-se um aumento de 45% das emissões de NOx e de cerca de 3 toneladas anuais de aldeídos. A despeito desse aumento nas emissões de NOx e aldeídos, ambas as emissões desses gases estão dentro do Limite do Proconve, fase P7 (equivalente a EURO 5). Palavras-chave: Gás Natural Comprimido, Corredor Azul, Substituição de Combustível, Veículo Pesado, Emissões Veiculares. 1 - BRITO, Thiago Luis Felipe - Doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente – USP. Bolsista CAPES. (11) 9 6319-2121.Email: [email protected] 2 - GALBIERI, Rodrigo - Pós-doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente – USP. (11) 9 82325611 Email: [email protected] 3 - COSTA, Hirdan Katarina de Medeiros Professora Visitante do PRH04/MCTI no Instituto de Energia e Ambiente – USP. (11) 9 9909-9592 Email: [email protected] 4 - MOUTINHO DOS SANTOS, Edmilson Professor Associado do Instituto de Energia e Ambiente – USP (11) 9 9614-5989 Email: [email protected] 5 - MOUETTE, Dominique Professora Doutora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades – USP. (11) 3091-1929 Email: [email protected] Abstract: This paper focuses on fuel shifting used by heavy vehicles in order to compare the use of compressed natural gas (CNG) in replacement to diesel oil. The goal is to estimate emissions of greenhouse gases and toxic pollutants from fuel used by trucks running in São Paulo State. A simulation that replaces the fleet of diesel engine trucks for vehicles of the same size that run on CNG is done. The developed model is inspired by the concept of blue corridors, which is a route for heavy vehicles fueled with natural gas. Authors observed that the fleet of trucks circulating in the region, delineated by the proposed blue corridor, could emit 30% (690 tons) less greenhouse gases per day in case of complete shifting to CNG. For pollutants reductions of CO emissions by half, Non Methane Hydrocarbons by 99% and PM to zero is observed. However, there are increases in NOx by 45% and about 3 tons of aldehydes. Despite this increase in emissions, both values are within the Proconve’s Limit, phase P7 (equivalent to EURO 5). Keywords: Compressed Natural Gas, Blue Corridor, Fuel Shifting, Heavy Duty Vehicles, Vehicles Emissions. 2 Introdução Em tempos recentes, a promoção do transporte urbano sustentável tem se tornado alvo de interesse cada vez maior, tanto pelos gestores públicos como pela sociedade em geral. Externalidades impostas, por exemplo, pela poluição, ruído e congestionamento são cada vez maiores. Dentre a vasta de gama de opções para promoção do transporte sustentável, este trabalho centra-se na questão da substituição de combustíveis utilizados pelos veículos pesados (caminhões e ônibus). Este artigo compara a utilização do gás natural comprimido (GNC) 6 no transporte pesado em substituição ao óleo diesel. A pesquisa baseia-se em uma perspectiva ambiental através do uso de um modelo de simulações inspirado no conceito de ‘corredores azuis’ (CA – em inglês, blue corridors). Um corredor azul é uma rota para veículos pesados, abastecidos com gás natural que permite a conexão entre centros urbanos (IGU&ECE, 2012). Experiências internacionais indicam o GNC como um combustível mais sustentável para substituir o diesel em diversos aspectos, especialmente quando encarado como um combustível de transição para fontes mais limpas e renováveis (ALTERMOTIVES, 2010; MOUTINHO DOS SANTOS et al, 2013; BRITO, 2015). As abundantes reservas de gás natural no mundo e no Brasil levam ao reconhecimento de gás como uma solução de energia aceitável para o setor de transportes, desde que seja fornecido com condições técnicas adequadas, e viáveis econômica e ambientalmente. O objetivo deste trabalho é estimar as emissões totais de gases de efeito estufa (GEE) e poluentes tóxicos oriundos dos combustíveis utilizados por veículos pesados de carga que circulam no Estado de São Paulo. Pretende-se simular a substituição da frota de caminhões com motores a óleo diesel por veículos de mesmo porte movidos a gás natural comprimido (GNC). O modelo elaborado é inspirado no conceito de Corredores Azuis, descrito mais adiante. O item 1 traz breve discussão sobre os benefícios ambientais e econômicos dos veículos a gás natural, assim como a descrição de projetos de Corredores Azuis (CA). No item 2 apontam-se os benefícios de se criar um CA no estado de São Paulo. O tópico 3 aborda a metodologia e as fontes de dados utilizados. Os resultados obtidos encontramse no item 4. Por fim, realiza-se uma breve discussão dos resultados e as considerações finais. 6 Pelo costume acadêmico e da indústria no Brasil, este trabalho utiliza as terminologias GNC e GNV como sinônimas, exceto quando especificado o contrário. 3 1. Veículos a gás natural Boa parte da literatura sobre o tema aponta para três principais motivadores para a utilização de GNV (e, consequentemente, o desenvolvimento de corredores azuis): benefícios ambientais e na saúde humana; econômicos; e segurança energética (ECE, 2003; ALTER-MOTIVES, 2010; VINCENZO et al, 2010; STOCCHETTI, VOLPATO, 2010; COPPE, 2012; MOUTINHO DOS SANTOS et al., 2013). Os benefícios ambientais ocorrem devido ao potencial de redução das emissões de poluentes nas cidades, que é associada ao aumento de internações por doenças respiratórias e câncer de pulmão, causando perda de anos de vida e custos econômicos ao sistema de saúde pública (ISS, 2013). Veículos a gás natural produzem menos poluentes tóxicos que veículos a gasolina e a diesel. A redução de gases de efeito estufa (em especial o CO2) também é um benefício do uso do Gás Natural (ECE, 2003), uma vez que estes gases provocam a intensificação do efeito estufa a nível global, contribuindo para as mudanças climáticas. O fator econômico do uso do GNV é também bastante atrativo. Ao usar o gás natural como combustível é possível que companhias de transporte aprimorem sua competitividade através da redução das tarifas de seus serviços ou reduzindo custos, apesar dos custos gerados pela conversão dos veículos e implantação dos postos de abastecimento. Porém, as facilidades geradas pela infraestrutura de um CA permitiriam uma economia maior ainda, uma vez que poderiam ser oferecidas vantagens fiscais (redução de impostos, preço do combustível) ou faixas exclusivas de tráfego para veículos que utilizam combustíveis alternativos (ECE, 2003). A disponibilidade de abastecimento do gás natural é crescente no mundo, a despeito de ainda necessitar de mais investimentos em expansões da rede de distribuição (gasodutos e postos de abastecimento). O GNV é considerado um combustível de transição para fontes renováveis e mais limpas, como hidrogênio e biogás – a infraestrutura do gás natural pode ser adaptada à estas fontes no futuro, quando estas forem mais competitivas (RIBEIRO, 2001). 4 1.1 Corredores Azuis Corredores azuis são rotas para transporte rodoviário (em geral de veículos pesados) que utilizam gás natural veicular comprimido – GNC – ou liquefeito – GNL. O principal fator de viabilidade para os CA é a existência de postos de abastecimento, de modo a incentivar o uso de veículos movidos a gás natural, quebrando o ciclo vicioso “do ovo e da galinha”7 (IGU&ECE, 2012). O documento Blue Corridor Project (ECE, 2003) desenvolvido por um grupo de trabalho no Gas Inland Transport Commitee da Comissão Europeia para Economia (ECE) reuniu três iniciativas de Corredores Azuis no território Europeu. A Figura 1 mostra um deles: a rota Moscou – Minsk – Varsóvia – Berlim. Esse projeto foi iniciado pela Fundação Vernadsky (Federação Russa) no início do ano 2000, tendo como objetivo estabelecer um corredor europeu com infraestrutura para veículos que utilizam gás natural como combustível. A Fundação Vernadsky desenvolve projetos de sustentabilidade, cooperação internacional e proteção ambiental (http://www.vernadsky.ru, em russo). Figura 1: Exemplo de projeto de corredor azul Moscou-Berlim Fonte: ECE, 2003, Anexo 4, p. 35. 7 O que deve vir primeiro: os postos de abastecimento ou os veículos a GNV? Se não há como abastecer, ninguém compra veículos; e se não há veículos a gás rodando, não há como recuperar os investimentos feitos na construção de postos, e, portanto, não são construídos; e assim por diante. 5 Após o projeto europeu, várias outras propostas de construção de Corredores Azuis se desenvolveram ao redor do mundo. Iniciativas interessantes são o European GasHighWay Project e os corredores para GNL na Europa e nos Estados Unidos. Em um documento atualizado da ECE em conjunto a International Gas Union (IGU) são reportados os principais avanços em diversos países no mercado, indústria e infraestrutura do gás natural até o final do ano de 2011 (IGU&ECE, 2012). 2. Porque fazer um corredor azul no estado de São Paulo? A ideia de simular de um Corredor Azul para o Estado de São Paulo, que é a proposta deste projeto, se justifica pelos elementos já apontados. Segundo a Companhia Ambiental de São Paulo – CETESB (2013), a frota veículos pesados, em 2012, foi superior a 448 mil unidades, representando apenas 3% do total de veículos circulantes no Estado, que são mais de 14,3 milhões. No entanto, veículos pesados com motor a diesel são responsáveis pela emissão de mais de 17,4 mil toneladas de CO2 (cerca de um terço do total emitido em 2011) e da maior parte das emissões de óxidos de nitrogênio (NOx), material particulado fino (PM10) e óxidos de enxofre (SOx) (CETESB, 2013). Atribui-se a estes e outros poluentes um total de pelo menos 100 mil mortes e 70 mil internações por complicações respiratórias em todo o Estado de São Paulo entre 2006 e 2011 (ISS, 2013). Como diversas rodovias brasileiras passam próximas às principais áreas urbanas, pode-se afirmar que o transporte rodoviário impacta na qualidade do ar das cidades. Outra justificativa para o incremento do uso do GNV é a segurança energética, fragilizada pela dependência de importações de óleo diesel. Segundo dados do Balanço Energético Nacional – BEN (EPE, 2014), o Brasil importou, em 2013, mais de 8,5 mil toneladas equivalentes de petróleo na forma de óleo diesel. A conversão da frota de veículos pesados para GNV possui, portanto, um potencial para reduzir drasticamente essa necessidade de importação de óleo Diesel e até postergar investimentos no parque de refino brasileiro (MOUTINHO DOS SANTOS et al, 2013). Este incremento da demanda por gás natural poderá ser gradualmente suprido pela produção crescente oriunda dos campos pré-sal, cujas reservas eram mais de 3,7 milhões de m³ em 2013 (ANP, 2014). O pré-sal aumenta consideravelmente as reservas 6 totais de gás natural do Brasil. Segundo a Pré-Sal Petróleo (PPSA), apenas o campo de Libra, leiloado em outubro de 2013 pode dobrar as reservas do país8. Defende-se aqui que o uso veicular desse gás seria um aproveitamento mais eficiente deste recurso. 3. Metodologia e dados Este trabalho desenvolveu uma simulação de modo a estimar os impactos ambientais, em termos de emissões de gases de efeito estufa e poluentes, causados pela frota de caminhões que circula no trecho demarcado na Figura 2. Assume-se dois cenários: toda a frota se mantém a óleo diesel9, ou é totalmente substituída por GNC (tecnologia dedicada). Estudos futuros desenvolverão cenários de substituição parcial. A metodologia foi inspirada em ECE (2003) e IPCC (2006), também utilizadas em MMA (2011), GALBIERI (2013), MOUTINHO DOS SANTOS et al. (2013) e BRITO (2015). Figura 2: Modelo de Corredor Azul Campinas - São Paulo Fonte: Elaboração própria no Google Maps. 8 Nas camadas pós-sal, o Brasil dispõe atualmente de 458,2 bilhões de m³ de GN, apenas o campo pré-sal de Libra acrescenta de 314 a 470 bilhões de m³ (SALLOWICZ, 2014). 9 No Brasil, é estabelecida por lei uma mistura de 5% de biodiesel ao diesel de petróleo (B5). No entanto, este estudo assume que os veículos pesados utilizam somente diesel. 7 Como é possível observar na Figura 2, simulou-se a construção de postos de abastecimentos10 nas cidades de Campinas e São Paulo (marcadas pelas setas azuis). Pelo fato de os veículos a gás natural possuem uma autonomia limitada a 200 km, tais estações podem potencialmente servir à área compreendida num raio de 100 km. Tal área engloba tanto as vias que ligam Campinas a São Paulo, quanto diversas cidades próximas. Os dados de viagens foram extraídos do resumo executivo da ‘Pesquisa de Origem e Destino do Transporte Rodoviário e Aéreo do Estado de São Paulo’ (SÃO PAULO, 2006). Esse estudo realizou entrevistas em diversos pontos da malha rodoviária do Estado de São Paulo quanto à origem e destino destes veículos durante o ano de 2005. Na pesquisa, o Estado foi dividido em um conjunto de 63 zonas de produção e atração de viagens, compreendidas entre as 15 microrregiões costumeiramente utilizadas pelo IBGE (Figura 3). Aqui, foram utilizados apenas os dados referentes às zonas correspondentes ao trecho do corredor azul. Exclui-se, portanto, os fluxos que se originaram ou foram atraídos para zonas externas ao corredor e os fluxos de passagem. Figura 3: Microrregiões e zonas de tráfego do Estado de São Paulo Fonte: SÃO PAULO, 2006, p. 39. 10 Para efeitos dessa modelagem não é relevante estimar a quantidade e a capacidade destes postos de abastecimento. Estudos futuros buscarão estimar estes valores, assim como os custos de construção destas instalações. Por hora, assume-se uma infraestrutura suficiente para suprir a demanda estimada mais adiante. 8 O documento ao qual se obteve acesso foi o Relatório Executivo da pesquisa realizada pela Secretaria dos Transportes do Estado de São Paulo, que listam os 10 maiores fluxos interzonais de caminhões (direita da Tabela 1). Intercâmbios de Caminhões Intercâmbios de Caminhões Viagens Internas Intrazonais Viagens Internas Interzonais Intercâmbio Viagens % Intercâmbio Campinas – Campinas S. José do Rio Preto – S. José do Rio Preto Limeira – Limeira Registro – Registro Itapecerica da Serra - Itapecerica da Serra Sorocaba – Sorocaba Bauru – Bauru Presidente Prudente - Presidente Prudente Osasco – Osasco Ourinhos - Ourinhos Subtotal 8.391 2.671 1.999 1.819 1.757 1.600 1.004 971 898 783 21.893 25,3 8,1 6,0 5,5 5,3 4,8 3,0 2,9 2,7 2,4 66,0 São Paulo – Campinas Campinas – São Paulo São Paulo - Sorocaba Sorocaba – São Paulo Santos – São Paulo São Paulo – Jundiaí São José dos Campos – São Paulo Campinas – Bragança Paulista São Paulo – São José dos Campos Osasco - Sorocaba Subtotal Demais Intercâmbios 11.265 34,0 Demais Intercâmbios 33.158 100 TOTAL TOTAL Viagens % 3.127 3.112 2.898 2.438 2.328 1.789 1.745 1.634 1.445 1.371 21.887 2,1 2,0 1,9 1,6 1,5 1,2 1,1 1,1 1,0 0,9 14,4 130.189 85,6 152.076 100 Tabela 1: Principais Intercâmbios de Caminhões Fonte: SÃO PAULO, 2006, p 78, com adaptações. No caso das viagens intrazonais (parte da esquerda na Tabela 1), onde a maior parte dos intercâmbios ocorre, a fonte apresenta duas limitações. A primeira é que: “os fluxos intrazonais da zona São Paulo são atendidos em sua maior parte pelo sistema viário municipal, tal como Marginais, Av. do Estado, Anel Metropolitano e por isso não foram detectadas na pesquisa” (SÃO PAULO, 2006, p. 73). Para tentar solucionar tal problema, o modelo estima que o número de intercâmbios na cidade de São Paulo é equivalente a uma porcentagem média que os fluxos intrazonais conhecidos representam em suas respectivas zonas. Outra limitação é que a distância média percorrida em cada um dos fluxos intrazonais não é apresentada11. Em vista disso, o modelo busca estimar tais valores com base na área total de cada região. A Tabela 2 apresenta os dados de viagens, distância, viagens*quilômetro (apenas para os trajetos internos ao Corredor Azul - Figura 2) e consumo total de 11 No caso das viagens interzonais, este problema não ocorre, uma vez o estudo especifica as cidades origem e de destino dos veículos ao invés da zona. Os dados das distâncias entre as cidades foram extraídos do site IBGE – Cidades (2015). 9 combustíveis12. Como os dados das viagens foram obtidos em 2005, considerou-se um aumento do número de viagens, baseado no aumento da frota de caminhões de São Paulo com base nos dados do Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN, 2005; 2015). Entre 2005 e 2015 houve um crescimento de 39% da frota de caminhões no Estado. Viagens por dia Origem Destino Campinas Campinas Em 2005 8.391 Em 2015 11.677 Campinas São Paulo 3.112 Campinas Bragança Paulista São Paulo Distânci a (km) Viagens*K M Consumo 14,1 164.641 Diesel (L) 54.331 GNC (m3) 60.917 4.331 98,8 427.860 141.194 158.308 1.634 2.274 65,3 148.481 48.999 54.938 São Paulo 14.224 19.793 19,5 385.964 165.964 208.420 São Paulo Campinas 3.127 4.351 95,3 414.692 136.848 153.436 São Paulo Sorocaba 2.898 4.033 100,0 403.277 133.081 149.212 São Paulo Jundiaí 1.789 2.490 59,1 147.130 48.553 54.438 1.445 2.011 89,7 180.370 59.522 66.737 1.600 2.227 10,6 23.601 7.788 8.732 2.428 3.379 100,0 337.873 111.498 125.013 898 1.250 4,0 4.999 1.650 1.849 Sorocaba São José dos Campos Sorocaba Sorocaba São Paulo Osasco Osasco Osasco Sorocaba 1.371 1.908 82,3 157.015 51.815 58.096 Limeira Limeira 1.999 2.782 12,0 33.381 11.016 12.351 Itapecerica da Serra Itapecerica da Serra 1.757 2.445 6,1 14.914 4.922 5.518 Santos São Paulo 1.745 2.428 72,7 176.536 58.257 65.319 São José dos Campos São Paulo 2.328 3.240 89,4 289.618 95.574 107.159 3.310.351 1.131.01 2 1.290.444 São Paulo TOTAL 50.746 70.616 Tabela 2: Dados do Estudo - Viagens*KM e consumo de combustíveis Fonte: ECE (2003); SÃO PAULO (2005); MMA (2011); CETESB (2013); DENATRAN, (2015); IBGE - Cidades (2015); MOUTINHO DOS SANTOS et al (2013). Os dados referentes aos fatores de emissão para os GEE: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) foram extraídos de MMA (2011) e EFDB (2015). A estes se aplicou a equivalência em CO2 (Global Warming Potencial – GWP) também disponível nas mesmas fontes. Para o caso dos poluentes utilizou-se como referência o Relatório de Emissões Atmosféricas, desenvolvido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA, 2011) e contemplou os seguintes poluentes: monóxido de carbono 12 Consumo de caminhões a diesel em cidade: 0,43 L/km; e em rodovia: 0,33 L/km. Consumo de caminhões a GNC em cidade: 0,54 m3/km; e em rodovia: 0,37 m3/km (Fonte: idem Tabela 2). O consumo em cidade foi considerado apenas para as viagens intrazonais da cidade de São Paulo. 10 (CO), óxidos de nitrogênio (NOx), Materiais particulados totais (MP), Hidrocarbonetos não-metano (NMHC) e aldeídos (RCHO). Foi considerado relevante que também se modelasse as emissões utilizando os mesmos fatores que a Vernadsky Foundation, responsável pela elaboração de ECE (2003), de onde este trabalho foi inspirado. Deste modo, calculou-se as emissões de CO, CH4, NOx e MP de acordo com os coeficientes disponíveis no estudo. É valido lembrar que o estudo da Vernadsky Foundation utiliza dados de 2003 e, portanto, uma vez que a legislação e a tecnologia eram diferentes, os valores são consideravelmente maiores do que os atuais. No entanto, a Fundação utiliza um indicador chamado ‘índice de emissões de poluentes reduzido’13, o que permite converter a magnitude dos impactos em termos de CO equivalente. Assim, é possível comparar todos os poluentes em uma mesma métrica. 4. Resultados O modelo foi desenvolvido em uma planilha dinâmica que permite a alteração e/ou correção dos dados. Aqui são apresentados os principais resultados referentes às emissões de gases de efeito estufa e poluentes obtidos no modelo. A sessão seguinte discute e tece algumas considerações finais sobre os mesmo. No apêndice, encontram-se os resultados mais detalhados. 3.500 3307 3.000 2617 2.500 2.000 1.500 1.000 500 0 CO2 CH4 Diesel N2O Total GNC A Figura 4 apresenta o gráfico comparativo de emissões de gases de efeito estufa em CO2 equivalente assumindo que a frota seja totalmente a óleo diesel ou a GNC. A 13 Do Inglês: reduced pollutant emission index (ECE, 2003, p. 10). 11 Tabela 3 do Apêndice disponibiliza os fatores de emissão e o potencial de contribuição para o aquecimento global (taxas de CO2 equivalente) adotados nesta pesquisa, e os resultados. A Figura 5 apresenta dois gráficos 14 comparativos das emissões anuais (considerando 255 dias úteis em média) de poluentes assumindo que a frota seja totalmente a óleo diesel ou a GNC. A Tabela 4 do Apêndice apresenta os valores obtidos segundo os respectivos fatores de emissão. A Tabela 5 do Apêndice estima e compara as emissões cujos fatores são apresentados em ECE (2003), assim como sua equivalência em CO. Estes resultados são apenas usados como referência na análise, uma vez que os dados dos fatores de emissão (FE) são referentes a 2003 e não representam a realidade atual regulatória e dos novos motores e catalisadores utilizados em veículos pesados. 3.500 3307 3.000 2617 2.500 2.000 1.500 1.000 500 0 CO2 CH4 N2O Diesel Total GNC Figura 4: Emissões Diárias de Gases de Efeito Estufa em toneladas de CO2 Equivalente Fonte: MMA (2011), Emission Factors Database (EFDB, 2015), elaboração própria. 14 Elaborou-se dois gráficos para representar escalas e disponibilidades de dados diferentes. 12 25 20 15 10 5 0 MP RCHO (Aldeídos) Emissões anuais (255 dias úteis) de MP e Aldeídos em toneladas 2500 2000 1500 1000 500 0 CO NOx NMHC Emissões anuais (255 dias úteis) de poluentes em toneladas Figura 5: Emissões Anuais de Poluentes Fonte: MMA (2011), elaboração própria. Conclusões Com relação aos GEE observou-se que, apesar da redução substancial de CO2 através do uso do gás natural comprimido, em comparação com o óleo diesel, há um aumento relativo intenso para os outros gases. O GNC emite 45 vezes mais CH4 e três vezes mais N2O que o diesel, cujos potenciais de aquecimento global são, respectivamente, 21 e 310 vezes maiores do que aquele gás. Ainda assim, como dióxido de carbono representa 99% do total de emissões de GEE, as emissões deste gás oriundas do GNC são inferiores às do diesel, em CO2 equivalente. Isso quer dizer que a frota de caminhões que circula na região delineada pelo corredor azul proposto poderia emitir 30% (690 toneladas) a menos de gases de efeito estufa por dia, em caso de substituição completa pelo GNC. Com relação aos poluentes observou-se o uso do GNC, quando comparado ao óleo diesel, reduz das emissões de CO praticamente pela metade, de NMHC em 99% e de MP a zero. No entanto, observou-se um aumento de 45% das emissões de NOx e de 13 cerca de 3 toneladas anuais de aldeídos. Essa redução pode contribuir significativamente para a qualidade do ar da região, uma vez que metade deste fluxo é intrazonal, ou seja, nas imediações dos centros urbanos. Com relação ao aumento das emissões de NOx e aldeídos, nova tecnologias de catalisadores podem reduzir a emissão destes gases15. Urge ressaltar, que mesmo a despeito desse aumento nas emissões de NOx e aldeídos, ambos as emissões desses gases estão dentro do Limite do Proconve – fase P7). Apesar de este estudo ter assumido a substituição total da frota a diesel por GNC, os autores não defendem a ideia de que este combustível deva ser adotado por 100% da frota. Entende-se que a diversificação da matriz de combustíveis veiculares é o caminho ideal para um transporte mais sustentável e para maior segurança energética nacional, especialmente quando há a necessidade de importação destes, como no caso do óleo diesel e outros derivados de petróleo. A análise econômica desta substituição (veículos, postos de abastecimento e preço do combustível), assim como a elaboração de meios e sugestões de políticas públicas para a implantação deste modelo (caso viável) será abordados em estudos futuros. Nestes estudos buscar-se-á a elaboração de cenários de substituição parcial do diesel pelo GNC e por outros combustíveis alternativos. 15 Para mais informações a respeito sistemas de pós-tratamento para emissões oriundas da queima de GNC, consultar MARQUES et al (2008) e CAPELA (2015). 14 Referências ALTER-MOTIVES. Documentation and Evaluation of International Case Studies: Deriving effective least-cost policy strategies for alternative automotive concepts and alternative fuels. 2010. Disponível em CD-ROM BRITO. Thiago Luis Felipe. Modelagem ambiental e Análise Qualitativa Comparativa de políticas de implantação de Gás Natural Veicular em ônibus. 2015. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós Graduação em Energia, Universidade de São Paulo. São Paulo. 2015. CAPELA, Sandra. Innovative exhaust post-treatment systems for a NGV application: SCR-CH4– Nitrogen oxides reduction by the action of unburned methane. IN: 26th World Gas Conference. Paris. 2015. CETESB. Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental. Relatório de Qualidade do ar no Estado de São Paulo, 2013. COPPE. Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia. Alternativas tecnológicas para ônibus no Rio de Janeiro, 2012. DENATRAN – Departamento Nacional de Trânsito. 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CO2 CO2 989,26 740,37 1 3.274.797.785 2.450.884.536 3.274.797.785 2.450.884.536 CH4 0,020 0,900 21 66.207 2.979.316 1.390.347 62.565.633 N2O 0,030 0,101 310 99.311 334.345 30.786.264 103.647.088 3.307 2.617 Total (t) Tabela 3: Emissões de Diárias Gases de Efeito Estufa Totais e em CO2 Equivalente Fonte: MMA (2011), Emission Factors Database (EFDB, 2015) Emissões Totais(t) Diesel GNC Poluente g/km FE Diesel FE GNC CO 1,060 0,560 894,79 472,71 NOx 0,200 0,290 168,83 244,80 MP 0,023 - 19,41 - NMHC 2,300 0,026 1.941,52 21,95 RCHO (Aldeídos) - 0,004 - 3,21 Tabela 4: Emissões Anuais de Poluentes Totais - Valores de FE Atuais Fonte: MMA (2011) Poluente g/km FE Diesel FE CNC COeq CO 18,0 9,1 CH4 2,2 NOx MP Emissões totais (g) Em COeq (g) 1 Diesel 59.586.317 GNC 30.124.194 Diesel 59.586.317 GNC 30.124.194 4,3 2 7.282.772 14.234.509 14.565.544 28.469.018 12,1 5,4 70 40.055.247 17.875.895 2.803.867.258 1.251.312.661 0,4 0,03 60 1.324.140 99.311 79.448.423 5.958.632 2.957 1.316 Total (t) Tabela 5: Emissões Diárias de Poluentes Totais e em CO Equivalente – Valores de FE de 2003 Fonte: Vernadsky Foundation & ECE (2003) 17