DOSSIÊ DE TOMBAMENTO
RUA POUSO ALEGRE, 404
CONJUNTO URBANO BAIRRO FLORESTA
Françoise Jean de Oliveira Souza
Historiadora DIPC
Karime Gonçalves Cajazeiro
Arquiteta Urbanista DIPC
ABRIL 2009
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
1. Considerações Iniciais
O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte-CDPCM/BH,
em reunião realizada em 08 de outubro de 1996, deliberou pela proteção do Conjunto Urbano
Bairro Floresta, definindo o perímetro desta proteção e as edificações que receberiam o
tombamento específico (processo nº. 01.106250.95-57).
Em reunião realizada em 16 de dezembro de 1996, embora reconhecendo o valor
arquitetônico,
histórico
e
referencial
do
Conjunto
Urbano
e
dos
bens
tombados
provisoriamente, o mesmo Conselho decidiu pelo acatamento de algumas impugnações ao
tombamento, considerando inoportuno ratificar, naquela ocasião, o tombamento definitivo. Esta
decisão deu-se com base na “perspectiva de uma política de proteção que contemple as
possibilidades pedagógicas de esclarecimento e criação de uma consciência de preservação”
com a “perspectiva de que o conceito de patrimônio cultural, seja cada vez mais debatido,
entendido”.1
Diante de um maior amadurecimento da política de patrimônio cultural em Belo Horizonte e,
conseqüentemente, da necessidade de rever as diretrizes estabelecidas para o bairro da
Floresta e de adequá-las às novas demandas surgidas ao longo de uma década, a Diretoria de
Patrimônio Cultural desenvolveu, ao longo do ano de 2005, um novo estudo do Conjunto
Urbano Bairro Floresta, sugerindo a revisão do grau de proteção de determinados imóveis, das
Diretrizes Especiais de Projeto e das diretrizes altimétricas.
Em sessão extraordinária, realizada em 26 de abril de 2006, o CDPCM-BH deliberou, com
base no estudo do Conjunto Urbano Bairro Floresta, aprovar a revisão das diretrizes gerais de
proteção do conjunto, bem como o seu mapeamento cultural (Deliberação 040/2006, publicada
no DOM de 27 de abril de 2006). Neste mapeamento, a casa da rua Pouso Alegre, 404
manteve-se indicada para proteção por tombamento.
Em 02 de março de 2009, o Sr. Cláudio Sousa Santos, proprietário da casa em questão,
solicitou que o CDPCM-BH desse celeridade à definição do grau de proteção do imóvel, visto
1 Ata da Reunião do CDPCM-BH de 16/12/1996.
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que o mesmo encontra-se em péssimo estado de conservação, estando, segundo laudo
técnico a defesa civil, sob o risco de desabamento.
Este dossiê de tombamento refere-se ao processo 01037016-09-05 que, por sua vez, encontrase apensado ao processo 01.059.214.95.17 do Conjunto Urbano Bairro Floresta.
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2. Política de Patrimônio Histórico Cultural
A visão da preservação abrangendo conjuntos e centros urbanos e não apenas o objeto
arquitetônico isolado começou a ser considerada em todo o mundo a partir das grandes
reformas urbanas no século XIX. A origem dos conceitos atuais de "patrimônio urbano" liga-se
ao arquiteto e urbanista italiano Gustavo Giovannonni, que em 1931, na obra Vecchie Città ed
Edilizia Nuova2, reconhece o valor estético e histórico das partes antigas das cidades e a
relação de complementaridade que têm com as partes novas.
As recomendações contidas na “Carta de Atenas” de 1931 sobre a proteção de monumentos e
sítios urbanos, baseadas nos conceitos de Giovannonni, serviram, dos anos 1930 até os anos
1970, como suporte para as ações de proteção. No Brasil, em 1937, o Decreto-lei nº 25
organiza a proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Na época, prevaleciam as
ações de preservação de áreas urbanas bastante homogêneas, de estilo colonial, sendo
freqüentes, inclusive, os “retoques” para a eliminação de detalhes arquitetônicos pertencentes
a tendências estilísticas ecléticas, estranhas ao padrão colonial.3 A valorização das raízes
nacionais e as conseqüentes ações de proteção do patrimônio cultural harmonizavam-se com
os interesses do poder político central, representado inicialmente pelo Estado Novo e depois,
nos anos 1970, pelos governos militares, os quais usaram a idéia de preservação para a
promoção da integração nacional e do turismo regional.
Nos anos 1970 promove-se uma nova e abrangente visão de patrimônio, reconhecendo-se o
valor dos bens intangíveis. Recuperava-se, portanto, a idéia original de Mário de Andrade que,
mesmo antes do Decreto-lei nº 25, considerava como bens a serem preservados as chamadas
manifestações intangíveis, como a maneira de preparar uma comida, costumes, manifestações
folclóricas, etc.
2
GIOVANNONNI, Gustavo. L' urbanisme face aux villes anciennes. Paris: Éditions du Seuil, 1998, com introdução
de Françoise Choay.
3
Ressalte-se que no Brasil houve uma forte vinculação entre as idéias de preservação e o movimento moderno
brasileiro e, assim como em outros países da América Latina, a arquitetura moderna é influenciada pelos códigos
formais oriundos da arquitetura colonial. Os modernistas, também pioneiros das idéias de preservação no Brasil e
que condenavam a presença de elementos ecléticos no tecido colonial, admitiam, no entanto, a inserção de obras
modernas neste mesmo tecido, como é o caso do Grande Hotel de Ouro Preto e de Diamantina, de Oscar Niemeyer,
demonstrando o grau de flexibilidade com que no Brasil se entendeu a idéia de homogeneidade estilística dos
conjuntos urbanos, preconizada Giovannonni.
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A consolidação dos conceitos ligados à memória e ao patrimônio é resultado da formulação de
idéias e apresentação das experiências dos países participantes dos vários encontros
internacionais sobre a proteção ao Patrimônio Mundial, promovidos pela UNESCO. Em tais
encontros produziram-se documentos referenciais, entre os quais cita-se a Carta de Veneza,
de 1964; a Declaração de Amsterdã, de 1975; a Recomendação de Nairobi, de 1976; a
Declaração do Conselho da Europa, de 1978; a Carta de Toledo, de 1987 e a Conferência de
Helsinki, em 1996.
A partir dos anos 1980, baseando-se nos conceitos da Carta de Amsterdã de 1975, há uma
revisão conceitual propondo-se uma leitura acurada da diversidade arquitetônica existente nos
lugares e das marcas que os processos históricos deixam no espaço, questionando-se a idéia
vigente da valorização prioritária da homogeneidade estilística e o antagonismo entre “velho” e
“antigo”. Assim, o espaço urbano é considerado como referencial simbólico e, em termos
arquitetônicos, considera-se que não somente o patrimônio colonial, mas todas as intervenções
estilísticas e períodos históricos têm interesse para a preservação, sempre que reforcem uma
ambiência e contribuam para a coesão e manutenção dos valores identificados em um conjunto
urbano. Neste sentido, considera-se que o que deve ser lembrado ou esquecido, preservado
ou desaparecido não se liga necessariamente a acontecimentos e pessoas consideradas
notáveis, mas a todas as manifestações sociais. Segundo Maria Beatriz Silva:
tanto o exercício da memória, quanto a formação da identidade são, a
nível individual, capacidades humanas, como andar, comer, dormir;
porém, quando tomadas coletivamente, passam à categoria de direitos a
conquistar, aos quais o maior obstáculo parece ser o interesse individual
ou corporativo. 4
De fato, afirma Márcia Santianna:
Esse novo conceito de cidade-documento justificou, assim, ao longo de
toda a década de 80, a proteção de áreas urbanas sem grande interesse
artístico ou estético, portadoras de conjuntos arquitetônicos
heterogêneos e já bastante fracionados, mas que tinham muito a dizer
sobre a história urbana do país. Os critérios de intervenção praticados
anteriormente sofrem duras críticas nesse período, em favor de uma
abordagem mais histórica e menos estética do patrimônio urbano.5
Em Belo Horizonte, desde 1994, a concepção de bem cultural da Carta de Amsterdã vem
fundamentando as políticas de proteção do patrimônio, que se baseiam no conceito de
4 SILVA, Maria Beatriz Setubal de Rezende. Preservação na Gestão das Cidades. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional N - Cidadania. Rio de Janeiro:
IPHAN, 1996. N.º 24.
5 SANTIANNA, Márcia, Critérios de intervenção em sítios urbanos históricos: uma análise crítica - em http://www.archi.fr/SIRCHAL/ em 27 de março de 2004.
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conjunto urbano e ambiência. Os conjuntos urbanos são agrupamentos de construções e
espaços dentro da cidade onde se reconhece um grau expressivo de coesão e valores
estéticos, arquitetônicos, sócio-culturais e históricos.6 O limite de proteção de tais conjuntos
normalmente é definido por edificações referenciais, espaços polarizadores ou ambiências
características, entendendo-se por ambiência o quadro natural ou construído que influi na
percepção estática ou dinâmica desses conjuntos, ou a eles vincula-se de maneira imediata no
espaço, ou por laços sociais, econômicos ou culturais7. De fato:
(...) É importante ressaltar que essa ambiência pode incluir bens
culturais dos mais variados usos, como residências, casas comerciais,
instituições públicas, áreas verdes e de lazer. Essa pluralidade também
se expressa nas opções construtivas que podem abranger desde ricos
projetos arquitetônicos, como também edificações mais modestas,
erigidas a partir do desejo de seus respectivos proprietários. Considerase que em ambos os casos estão expressas visões de mundo,
experiências de vida, enfim, história rica em informações culturais que
criam laços de pertinência e identidade do homem e sua cidade. 8
Na definição da proteção dos conjuntos urbanos a perspectiva de múltiplos olhares sobre a
cidade ultrapassa o levantamento casa por casa, lote por lote, e registra o conjunto de seu
cenário urbano, que se configura por suas especificidades internas e ao mesmo tempo como
referência externa, quando alguém atravessa uma determinada parte da cidade. Os usos e
apropriações do espaço são estudados segundo os conceitos de mancha urbana, pedaço,
trajeto, pórtico, desenvolvidos pelo Núcleo de Antropologia Urbana NAU/USP, coordenado pelo
professor doutor José Guilherme Cantor Magnani, assim definidos:
A categoria pedaço é formada por dois elementos básicos: um de ordem
espacial, físico que configura um território claramente demarcado. (...) O
segundo elemento - a rede de relações - instaura um código capaz de
separar, ordenar, classificar. É no horizonte da vida do dia-a-dia que o
pedaço se inscreve, possibilitando o ingresso e participação naquelas
práticas de forma coletiva e ritualizada. 9
(...) O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o
privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade
básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais
6 A Recomendação relativa à salvaguarda dos conjuntos históricos e sua função na vida contemporânea, 19ª Sessão UNESCO - Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura, realizada em Nairobi em 26 de novembro de 1976, considera: “conjunto histórico ou tradicional todo agrupamento de construções e de
espaços, inclusive os sítios arqueológicos e palenteológicos, que constituam um assentamento humano, tanto no meio urbano quanto no rural e cuja coesão e valor são
reconhecidos do ponto-de-vista arqueológico, arquitetônico, pré-histórico, histórico, estético ou sócio-cultural”.
7 Definição contida na Recomendação de Nairobi op.cit.
8 Cartilha elaborada pela Gerência de Patrimônio Histórico Urbano da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2002.
9 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Da periferia ao centro: pedaços & trajetos. In: Revista de Antropologia. São Paulo: USP, 1992.
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densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas
impostas pela sociedade. 10.
(...) A mancha, ao contrário - sempre aglutinada em torno de um ou
mais estabelecimentos, apresenta uma implantação mais estável, tanto
na paisagem como no imaginário. (...) Uma área contígua do espaço
urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando uma atividade ou prática predominante. 11
(...) uma mancha é recortada por trajetos e pode também abrigar vários
pedaços. (...) as marcas dessas duas formas de apropriação e uso do
espaço - pedaço e mancha - na paisagem mais ampla da cidade, são
diferentes. No primeiro caso, onde o determinante é o componente
simbólico, o espaço enquanto ponto de referência é restrito,
interessando mais a seus habitues. Com facilidade muda-se de ponto,
quando então leva-se junto o pedaço. (...) A mancha, ao contrário,
sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos, apresenta
uma implantação mais estável, tanto na paisagem como no imaginário.
As atividades que oferece e as práticas que propicia são o resultado de
uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e
vias de acesso, o que garante uma maior continuidade, transformando-a,
assim, em ponto de referência físico, visível e público para um número
mais amplo de usuários.12
(...) O trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e
no interior das manchas urbanas. Na paisagem mais ampla e
diversificada da cidade, trajetos ligam pontos e manchas,
complementares ou alternativos. (...) No interior das manchas os trajetos
são de curta extensão, na escala do andar.13
(...) O termo trajeto surgiu da necessidade de categorizar uma forma de
uso do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito
pela categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto, remete a
um território que funciona como ponto de referência – e, no caso da vida
no bairro, evoca a permanência de laços de família, de vizinhança,
origem e outros – trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente
da cidade e no interior das manchas urbanas. Não que não se possa
reconhecer sua ocorrência no bairro, mas é justamente para pensar a
abertura do particularismo do pedaço que essa categoria foi elaborada.
É a extensão e principalmente a diversidade do espaço urbano para
além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por
regiões distantes e não contíguas: esta é uma primeira aplicação da
categoria. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos
ligam pontos e manchas, complementares ou alternativos: casa /trabalho
/casa; casa /cinema /restaurante /bar; casa /posto de saúde /hospital
/curandeiro - eis alguns exemplos, dos mais corriqueiros, de trajetos
possíveis.
(...) os trajetos levam de um ponto a outro através dos pórticos. Trata-se
de espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram
10 MAGNANI, José Guilherme Cantor in: Festa no Pedaço: Cultura Popular e Lazer na Cidade. São Paulo, Hucietec, 1998.
11 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Revista de Antropologia. 1992. Op cit.
12 http://www.aguaforte.com/antropologia/Rua1.html - 2003.
13 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Revista de Antropologia. 1992. Op cit.
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passagens. Lugares que já não pertencem ao pedaço ou mancha de lá,
mas ainda não se situam nos de cá; escapam aos sistemas de
classificação de um e outra e como tal apresentam a "maldição dos
vazios fronteiriços". Terra de ninguém, lugar do perigo, preferido por
figuras liminares e para a realização de rituais mágicos, muitas vezes
lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os
lados. 14
14 http://www.aguaforte.com/antropologia/Rua1.html - 2003.
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3. Histórico do Bairro Floresta
A paisagem da Floresta insere-se na complexidade da dinâmica urbana de Belo Horizonte:
chácaras, vilas, casas, chalés e bangalôs, barracões e cafuas, jardins, varandas, escadas e
quintais, escolas e colégios, bares e botequins, lojas, sorveterias, confeitarias, padarias e
mercados, supermercados, hotéis e pensões, ruas, becos, avenidas e praças, calçadas e
arborização e iluminação públicas, além das relações de vizinhanças, dentro e fora do anel da
avenida do Contorno, o que lhe confere singularidade.
Em primeiro lugar, ressalta a disposição das casas que, perpendiculares
à rua, se alongam em direção aos seus respectivos quintais. (...)
Coladas ou não umas às outras e (...) à rua, parecem um “cinturão” ou
uma “muralha” que envolve um miolo constituído por todos os quintais
contidos no quarteirão. De imediato, separam-se a rua, espaço conotado
pela externalidade e o quintal que, não sendo casa, é, no entanto, da
casa; que apesar de externo, não é a rua. Da rua não se vê o quintal e
vice-versa. A casa, porém, “olha” igualmente para a rua e para o quintal.
Esse olhar da casa para a rua não é o simétrico inverso da vista da casa
para o quintal. Da casa olha-se para a rua, que, sendo pública, é de
todos. A vista do quintal deve ser, em contrapartida, limitada ao nosso
quintal pois, a materialidade dos anteparos (muros, cercas vivas,
trepadeiras, etc.) expressa o direito a uma relativa invisibilidade. Essas
fronteiras do respeito mútuo unem e separam ao mesmo tempo. Os
quintais, enquanto parte do espaço privado da habitação, servem como
palco para o desempenho de um conjunto de atividades. (...) O quintal
enquanto extensão da casa, adquire, em primeiro lugar, um significado
de intimidade. O acesso a esta área só é possível literal e
metaforicamente, através da casa e, portanto, a “pessoa da casa”. No
quintal se expõe uma dimensão da vida cotidiana que é recorrentemente
escondida. (...) Arma-se um círculo vicioso: a vida na rua vai ficando
problemática; a decadência, artificialmente provocada, justifica que se
acelere o processo de destruição. (...) Demolir casas, afinal de contas,
significa muito mais do que desfazer abrigos. Significa, às vezes,
derrubar um modo de vida (...).15
A pesquisa documental e de campo no bairro da Floresta que subsidiou a proteção do seu
Conjunto Urbano considerou as especificidades da sua paisagem e do seu cotidiano uma vez
que a melhoria da qualidade de vida, tão ameaçada nos dias de hoje, depende em parte desse
conhecimento e da valorização da cultura que nos cerca. Tão importante quanto preservar a
natureza é também manter a feição dos lugares, prédios, ruas e outros ambientes que
conformam a localidade em que vivemos e são incorporados e apreciados no nosso cotidiano.
Não podemos esquecer, contudo, que ainda hoje, na prática, nem todos os segmentos sociais
têm igual acesso ao conhecimento e ao significado desses bens culturais, seja pelas condições
15 SANTOS, Carlos Nelson F. dos et alli. Quando a rua vira casa: a apropriação de espaços de uso coletivo em um Centro de bairro. 1985.
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de vida e pela baixa escolarização de grande parte da população, seja pela pouca divulgação
que lhes é dada.16
Antiga face a um moderno que se construiu para fora e para além dela, a
Floresta aparentemente conformou-se com o fato de que o progresso
não se constrói em suas ruas, mas ao contrário passa célere por ela,
rasga seus becos, dilacera sua arquitetura, devora suas entranhas - o
que não foi transmutado na voragem de mutação da paisagem, foi
reduzido a ruínas, resíduos do tempo, relíquia de um passado
irremediavelmente morto. 17
Ao contrário do que o senso comum acredita, a Belo Horizonte projetada pela Comissão
Construtora, em fins do século XIX, não se restringiu à área interna anel de contorno. A área
suburbana com suas ruas e praças constam da planta original, embora tenha sofrido grandes
alterações devidas às apropriações espontâneas. Desse modo, os bairros da região ao redor
da avenida do Contorno foram se formando, com suas ruas e praças, casas e quintais,
chácaras e sítios, vilas e sobrados sem esperar as designações oficiais e desafiando a
racionalidade do espaço urbano projetado.
Assim, do outro lado do Ribeirão Arrudas, surge a Floresta, em uma
elevação geográfica que revela a cidade desdobrando-se até a Serra do
Curral. Surge sem nome certo, de início quase como um alongamento da
Estação Ferroviária, abrigando primeiro operários envolvidos na
construção da nova Capital. Depois, vieram os funcionários da Rede, os
profissionais liberais, enfim toda a gente que se mudava para a Capital e
se via atraída pela possibilidade de morar barato, estrategicamente
próximo ao centro da cidade e em lotes com características de chácara18
A 14ª seção urbana nem chegou a ser implantada de acordo com a
planta inicial, mas sofreu modificações tão profundas que, hoje, com
suas ruas abertas em diversas direções, algumas tortuosas e estreitas,
não parece parte da zona urbana.19
A origem do nome Floresta para o bairro tem várias versões. De acordo com Abílio Barreto,
remonta à época em que na subida da avenida do Contorno foi instalado o Hotel Floresta,
famosa casa de boemia de propriedade dos senhores Carlos Monte Verde e Eduardo Spiller. A
fama do referido estabelecimento parece ter durado ainda vários anos espalhando-se para
além do bairro Floresta.
O Hotel Floresta era uma grande sala de frente com botequim, tendo aos
fundos uma porção de quartinhos de porta e janella, um cortiço ou bom16 MARIANI, Alayde Wanderley. In: MEMÓRIA E EDUCAÇÃO. Rio de Janeiro: IBPC, 1992.
17 PAISAGEM FLORESTA. op. cit.
18 STARLING, Gustavo A M et. alli. Paisagem Floresta. Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de Histórico de bairros da Região Leste, Secretaria Municipal de
Cultura/PBH, 1990.
19 NUNES, Ismaília de M. in GOMES, Leonardo J. M. Memória de ruas: dicionário toponímico da cidade de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura,
1992.
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será, na gyria do povo installado especialmente para hospedagem de
horizontaes, era um hotel bulhento, de orgias e escandalos, onde se
reunia, até altas horas da noite, a bohemia inveterada, em desbragados
regabofes de comes-e-bebes, ao som de uma concertina, que o socio
Spiller sanfonava todas as noites, aboletado sobre um tamborete a um
angulo da sala. Não havia, então, outra coisa de que a rapaziada
bohemia de Bello Horizonte mais falasse do que no Hotel Floresta, que
era o prato do dia na chronica policial. E assim, de tanto ser falado o seu
famigerado nome, este se foi radicando ao local que não tinha
denominação alguma anteriormente; de sorte que, quando, mais tarde,
foi surgindo o lindo bairro, que é hoje um dos mais importantes e bellos
da Capital, começou a ser designado pelo nome de Floresta,
denominação que foi sanccionada pela Prefeitura, quando inaugurou,
mais tarde, a linha de bondes para alli, collocando no carro que iria
circular no bairro a taboleta –Floresta.20
Na curva das onze, sobe o bonde em direção à Pensão Floresta, a mais
famosa “casa de encontros” da Capital. Michê disputado, rivalizava-se
tanto com o portão inacessível de Madame Olímpia na avenida
Oiapoque, quanto com as vedetes da rua Guaicurus - Zezé Bagunça,
Maria Bango Bango, Geralda Jacaré. Dependendo da bolsa, o freguês
subia para a pensão Floresta ou descia as ladeiras do Arrudas doze
quarteirões de casas que desaguavam no quadrilátero da zona. Descer
ou não descer, meditava Pedro Nava nos idos de 22 - eis a questão.21
Outra versão para a origem do nome Floresta é a de que o bairro passou a ser assim chamado
em decorrência das muitas árvores existentes na região, então ocupada por chácaras e sítios.
De vários pontos da cidade, o olhar podia avistar uma imensa área verde.
Muita gente achava que o nome teria a ver com uma floresta que iria até
a Vila Maria Brasilina, onde existia a fazenda de João Gualberto, hoje
Sagrada Família, ou mesmo até o Matadouro, agora bairro São Paulo.
Há quem ache que Floresta se deve às chácaras que havia na região,
entre elas a dos Negrão de Lima - toda a área entre as ruas Pouso
Alegre, Itajubá, Salinas e Jacuí - e a dos Mendes, onde hoje existem as
ruas Raul Mendes e Bueno Brandão.22
Ainda em relação à origem do nome do bairro, uma terceira versão afirma a existência de um
bar próximo à linha férrea que pertencia a um espanhol que tinha o apelido de Floresta. Não há
como constatar, com certeza, qual das três versões é a inteiramente correta.23
Talvez venha das chácaras, das antigas bananeiras, dos jatobás e
jenipapos, o nome do bairro. Ou talvez venha dos eucaliptos plantados
ao longo do trecho da avenida do Contorno, entrada da Floresta. De
certo, conta-se que havia primeiro um bar, nos fundos da Estação,
20 BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva - história antiga e história média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e
Culturais, 1995.
21 STARLING, Gustavo A.M. et alli, op. cit.
22 CASAL VINTE (pseudônimo) Floresta: onde o “flirt” fechava o trânsito Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste de Belo Horizonte,
Secretaria Municipal de Cultura/ PBH, 1990.
23 Segundo crônica de Moacyr Andrade reproduzida em: Floresta, onde o “Flirt” fechava o trânsito. op. cit.
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subida para o bairro, por onde os operários passavam por volta de 1896,
e que tinha na tabuleta o nome de Floresta. Mais certo ainda, foi a
existência do Hotel Floresta, também localizado no subida do bairro, de
preços acessíveis e por isto mesmo muito popular, de movimento
intenso e ponto da boemia da época. Por que motivo bar e hotel se
chamavam Floresta, não há como saber com precisão histórica.24
A cidade fora idealizada para ser o centro administrativo do Estado e a falta de previsão, pelos
planejadores, de um espaço de moradia para os trabalhadores fez com que a ocupação de
região tão próxima à área central ocorresse à revelia dos planos e projetos, propiciando,
inclusive, a existência de muitas vilas. Nas imediações de onde se situa hoje a rua Sapucaí
havia uma vila de operários que trabalharam na construção da cidade e da estrada de ferro. Na
esquina da avenida do Contorno com rua Sapucaí funcionou, segundo fontes orais, o primeiro
cartório de Belo Horizonte, de propriedade do senhor João Bracarense. Ainda existe ali a
pequena Vila Bracarense, onde moram alguns de seus descendentes. A falta de previsão,
pelos planejadores, de um espaço de moradia para os trabalhadores fez com que a ocupação
de região tão próxima à área central ocorresse à revelia dos planos e projetos.
Com a construção da Estrada de Ferro, chegaram muitos imigrantes
italianos que se instalaram na hospedaria construída pela Comissão, às
margens do Rio Arrudas, bem no início do bairro Floresta. Também
nestes arredores, através da Estação, foram construídos aglomerados
de barracões que chamaram de “Favela” (nome de um morro do Rio de
Janeiro, naquela época. Favela é também uma árvore pequena da
família das leguminosas, de flores amarelas que fornece madeira própria
para marcenaria. Foi trazida para o Rio de Janeiro pelos ex-escravos
baianos, e hoje é nativa de Pernambuco até São Paulo) e que foram
demolidos por ocasião da inauguração da cidade para dar lugar a novas
casas. 25
A maioria dos imigrantes que vieram para Belo Horizonte tinha profissões no setor agrícola
(43.998), mas os dados registram 6.316 imigrantes sem profissão definida e 2.268 artistas.
Nesse período, os custos de imigração foram arcados, majoritariamente, pelo Governo do
Estado. 26 Durante a construção da nova capital, pelo menos duas visões sobre a cidade vão
sendo construídas, uma no discurso oficial, outra na prática operária:
Inexistentes no discurso oficial, a não ser como “mão de obra” a ser
aumentada ou reduzida, os trabalhadores, “construtores” de fato da
cidade, tem também sua palavra sobre Belo Horizonte que pode ser
encontrada no jornal “O operário” da Liga Operária onde a presença de
italianos é absolutamente preponderante. (...) Enquanto que para os
engenheiros positivistas, O TRABALHO é cantado em versos como
24 STARLING, Gustavo A.M. et alli. op.cit.
25 A vida é Esta.... Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste - bairro Floresta, Secretaria Municipal de Cultura / PBH, 1990.
26 MONTEIRO, Norma Góes. Imigração e Colonização em Minas: 1889-1930. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1973.
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abstração, para os membros da Liga Operária de inspiração anarquista,
ser trabalhador dá direito a viver na cidade e não além dos muros, direito
de se organizar dentro e fora do trabalho, de ter lazer em praça pública
da cidade oficial.27
Na memória de Osvaldo Rossi, morador antigo da Floresta, a imigração da Itália para o Brasil e
o trabalho na construção de Belo Horizonte misturam-se com a própria formação do bairro.
Olha, tem mais de cem anos que ele [o pai] veio. Ele estava ajudando a
construir a Secretaria do Interior, ele ajudou a fazer o Palacete Dantas.
Ele trabalhou muito tempo ali com um escultor, que morreu, que também
era italiano. Ele é da Província de Ravena. Então ele veio e primeiro
tinha assim um acampamento lá na Igreja da Boa Viagem. Depois ele
mudou aqui para Santa Efigênia que também tinha um conjunto de
estrangeiros, de muitos italianos. Então ele comprou esse terreno. Aqui
era duzentos réis o metro quadrado. Tem até, me parece, o recibo do
lote ainda escrito... isso aqui era colônia. Aqui era tudo chácara. A rua
Floresta ali tinha árvores grossas assim, sabe? Aqui na rua Salinas tinha
uma árvore bonita, quase em frente à rua Ipiranga era tudo cheio de
árvores, era uma mata. Ali tinha uma chácara que era só mangueira,
mas tinha umas cinquenta. E quando foi em 1920, ele elevou dois
cômodos lá na frente, que as minhas irmãs já estavam mocinhas, então
ele fez aqueles dois cômodos lá na frente mais bem feito,
moldurado...Os pedreiros antigos eram todos italianos, eram todos
quase escultores.28
Naquela época, a avenida 17 de Dezembro - que desde o início ficou conhecida como
Contorno - já dividia o bairro ao meio. Um lado de dentro do anel, na área urbana, e outro de
fora, na área suburbana, uma parte centro, outra parte bairro. Os dois lados, entretanto,
parecem ter ignorado tal separação. Ao contrário, integraram-se num todo estabelecendo para
o bairro outros limites não muito rígidos. Bem diferente do traçado urbano interno à avenida do
Contorno, as ruas do bairro não obedeceram ao traçado inicial da Comissão Construtora,
mesmo aquelas que se encontram na zona urbana.
Como mencionado anteriormente, a ocupação urbana da Floresta teve o seu embrião na
Favela, também conhecida como Alto da Estação. Na favela, ficou evidente a oposição ao
esquema disciplinar projetado pela Comissão Construtora para a moderna capital do Estado.
Ali residiram trabalhadores, aventureiros e imigrantes com um modo de vida diferenciado em
relação aos pressupostos da higiene, da arte e da regularidade idealizados.29 Este
27 LE VEN, Michel M. Engenheiros e cidade no século XIX. Belo Horizonte, (mimeo), 1996
28 Oswaldo Rossi, entrevista realizada em 08/09/1995. O lote e a casa a que se refere ainda existe na rua Salinas, nº 683.
29 LIMA, Fábio José Martins de. Bello Horizonte: um passo de modernidade. Salvador: FAUFBA, 1994, mimeo.
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antagonismo da ocupação inicial refletiu-se na consolidação do bairro Floresta na 14ª seção
urbana e parte das 6ª e 7ª seções suburbanas.
Acima da projetada rua Sapucaí, (onde) ia-se adensando uma povoação
de cafuas e barracões de zinco, (...) onde morava gente operária, (um)
aglomerado de gente pobre, (no morro atrás da estação Minas, o grande
portal de entrada e saída da cidade) (...) um provisório barracão de
tábuas coberto de zinco, plantado no meio de uma esplanada que estava
sendo preparada. Além da Favela a cidade tinha grandes núcleos
populosos, tais como: Lagoinha, Calafate, Pampulha, Cardoso, Pastinho,
Menezes, Bom Sucesso e outros. Nos pequenos montes e vales
circunvizinhos existem núcleos igualmente populosos, também na sua
maioria, formados de casas de construção ligeira e grosseira,
denominadas cafuas, cujos moradores, na maior parte, são operários.
(...) Durante os dias era aquele ardor de trabalho por todos os ângulos
da localidade e às noites, enquanto o centro do arraial habitado pela
gente ordeira e morigerada descansava sob a vigilância do capitão
Lopes, os dois grandes e barulhentos bairros de cafuas e barracões
provisórios - a Favela e o Leitão - fervilhavam em orgias e algazarras
dos vadios e das mundanas, que ali enxameavam em promiscuidade
com pobres famílias de operários (...)"30
Quem consultar a planta original de Belo Horizonte, aquela dos tempos
do Aarão Reis, encontrará nela o bairro da Floresta. Porém com um
traçado bem diferente. As ruas têm outra disposição, outros nomes,
muitas delas não existiam. Muitas casas mudaram e continuam a mudar.
Já naquela época a Floresta era um bairro por onde ‘se passava’.
Passava gente a pé indo ‘pra cidade’, passava boiada indo pro
matadouro, passava gente a cavalo indo para os bairros mais humildes
da periferia, passava o bonde, passava o trem!31
A apropriação do lugar, feita por meio de moradias improvisadas, transgrediu o traçado
geométrico delineado na planta geral, para o urbano e o suburbano, pela Comissão
Construtora.
Situado nas franjas da avenida do Contorno, o bairro Floresta surge
insubmisso, desafiando o risco de racionalidade com que Aarão Reis
pretendia controlar o crescimento e o desenvolvimento do espaço
urbano. Em princípio, o bairro apenas reflete o movimento da cidade:
Belo Horizonte se contorce e solta, território desordenado, espalhandose sem limites. A rigor, e ao longo dos anos seguintes, a cidade apenas
traduz, com perfeição, os limites da modernidade desencantada que a
gerou no coração arcaico das Minas. Construída na imagem sedutora do
moderno, impregnada por uma fé absoluta na idéia de progresso, a
cidade transforma-se ela mesma, em ícone da modernidade: nutre-se do
progresso, desatando a voracidade de uma visão transformadora da
paisagem; incorpora, em seu próprio movimento, a máquina e a
30 BARRETO, Abílio. op. cit.
31 FLORESTA CANTO DE GALO E APITO DE TREM
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explosão, igualmente signos de uma modernidade que purifica e destrói,
é alicerce do progresso e base do ritual de passagem para ele.32
Os barracões e cafuas feitos com restos de materiais, muitos deles situados no morro atrás da
estação, registravam uma outra forma de ocupação do território, uma outra paisagem na
moderna capital planejada sobre o antigo arraial.
Casas velhas, cafuas, choupanas, ruas estreitas e tortas, largos e praças
irregulares - eis o que se nota ainda do velho Curral del Rei. Umas
centenas de cafuas e barracões que se vêem agrupados ou
disseminados aqui, acolá, são tendas dos operários da nova cidade, e
que são demolidos com a mesma facilidade com que são construídos
(...). (...) Contraste de velharias e novidades: ao pé de uma cafua de
barro coberta de capim ou de zinco eleva-se um edifício elegante e
sólido; ao lado de um edifício velho do Curral del Rei surge um
primoroso palacete da nova capital; junto de uma estreita e pobre rua,
formada de casas e choupanas de todos os tons e categorias, que
atestam a modéstia ou a pobreza dos antigos (e dos novos) habitantes
do Curral, estira-se desafrontada, larga e extensa rua da nova cidade.
Mas essas cafuas, essas velhas casas e essas ruas irregulares do
Curral vão desaparecendo, pouco a pouco, ao passo que, como por
encanto, surgem outras novas. 33
Essa ocupação, que se deu lado a lado com a edificação de Belo Horizonte, decorreu de
expressões culturais distintas, quase sempre reprimidas. Entre os anos 1911 e 1914, a
erradicação do Alto da Estação foi implementada. Os seus moradores foram removidos para a
Barroca e para a Pedreira Prado Lopes, em locais desprovidos de qualquer tipo de serviços. As
favelas do Leitão e a do Alto da Estação estavam formadas em 1895; a da Barroca surgiu em
1925, a da Cachoeirinha em 1930 e a dos Marmiteiros em 1942. Toda essa população foi
deslocada, excluída pela racionalidade da planificação, e como favelada permaneceu nos belos
horizontes da Capital Mineira. Nos anos 50, nas proximidades do Ribeirão Arrudas e do
Matadouro Perrela uma outra favela compôs parte da paisagem da Floresta.
Os jornais (...) reportavam do fluxo contínuo de pessoas de cor.
Jornalistas escreviam sobre a emergência de grupos de cultos Afrobrasileiros que se espalhavam nos subúrbios da cidade. Não satisfeitos
com este desenvolvimento, uma nota oficial invocava a ação da polícia
no sentido de prevenir essa mistura de ramificações negras preservando
hábitos e costumes congoleses e senegaleses em uma capital civilizada
como Belo Horizonte.34
A Ilha dos Urubus era uma pequena favela, (...) um desafio a todas as
regras de higiene. Ali viviam em torno de 2000 pessoas em total miséria.
Das favelas da cidade, era o tipo mais rudimentar. Mas os seus
32 PAISAGEM FLORESTA. op. cit.
33 BARRETO, Abílio. op. cit.
34 ADELMAN, Jeffry. Urban planning and reality in epublican Brazil: Belo Horizonte, 1890-1930. Bloomington: Indiana University, 1974, mimeo.
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moradores tinham ali um lugar privilegiado, nas imediações das
indústrias e próximo da zona central da cidade35
Uma outra forma de ocupação foi a colônia agrícola, assentamento proposto pela Comissão
Construtora para a produção de gêneros alimentares. Uma das primeiras, o núcleo do Córrego
da Matta, que posteriormente recebeu a denominação de Colônia Américo Werneck, situava-se
além dos limites da avenida do Contorno, abrangendo uma parte significativa do que hoje é a
Floresta, Santa Tereza e Horto. A sua criação foi deliberada pela Lei nº 150, de 20 de julho de
1896, juntamente com a colônia agrícola do Carlos Prates, e foi instalada antes mesmo da
regulamentação da citada lei. A colônia, hoje bairro Carlos Prates, compreendia os terrenos
dos vales dos córregos do Pastinho, Pinto e Ribeirão Arrudas. A Colônia Américo Werneck
situada na VII Seção Suburbana, com uma área de 144,8 hectares, englobou as terras do Sítio
da Matta, uma das propriedades adquiridas pelo Estado por meio das desapropriações
efetuadas pela Comissão Construtora. Em 1899, pelo Decreto nº 1276, foram criadas mais três
colônias agrícolas: Bias Fortes, no vale do Córrego do Cardoso, Afonso Pena, no vale do
Córrego Leitão e Adalberto Ferraz, no vale do Córrego do Acaba-mundo.36
O bairro, nos idos dos anos 1910, limitava-se a alguns quarteirões da Pouso Alegre entre
Januária e Jacuí, onde o menino Pedro Nava viveu parte da sua infância, junto com muitos
parentes. O tio de Nava, um arquiteto conhecido como Coronel Júlio Pinto, adquiriu na Floresta
várias casas onde foi se acomodando parte da família do escritor vinda do interior de Minas. O
próprio Pedro Nava morou em casas diferentes na Floresta, com a vizinhança ilustre de Carlos
Drummond de Andrade. Outro antigo morador do bairro descreve a Chácara que ocupava todo
o quarteirão acima da Januária:
A Mata do Sabino Barroso situava-se na área compreendida pelas ruas
Pouso Alegre, Jacuí e Ponte Nova. No meio da linda mata, havia um
castelinho de cúpula grande no meio, ladeada por duas menores; uma
escadaria larga em baixo, estreitando para cima, jardins gramados com
palmeiras e muitas árvores frutíferas. Situava-se no meio da rua
Januária, dando frente para a Barroso, e atraía muita gente para
conhecê-lo. Foi demolido por volta da década de 40 dando lugar a
continuação da rua Januária.37
Um quarteirão abaixo da Januária fica a rua Célio de Castro, antiga rua Rio Preto onde ficou
famoso o barranco do português Beltrão. Como a rua era muito íngreme, os meninos gostavam
35 TEULIÈRES, Roger. Bidonvilles du Brésil: les favelles de BH. In: REVUE LES CAHIERS D'OUTRE-MER. Bordeaux: tome VIII, 1955, p.30-55.
36 PLAMBEL - O processo de desenvolvimento de Belo Horizonte: 1897-1970. Belo Horizonte (mimeo) 1979.
37 BORGES, Marcos de C. Vamos Passear na Floresta. Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste - bairro Floresta, SMC/PBH, 1990.
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de nela escorregar sobre pedaços de tábuas, versão florestina, de esportes contemporâneos,
como o surf e o skate:
Seu Beltrão morava na rua Rio Preto entre rua Januária e Artur Lobo, em
uma casa onde hoje existe uma casa de freiras. Neste trecho a rua não
estava aberta, isto é, não havia ligação entre Januária e Artur Lobo. (...)
Era uma rua sem saída, tendo de um lado as casas e do outro o
“Barranco do Seu Beltrão”. (...) De vez em quando apareciam caminhões
fazendo bota-fora de terra o que permitira que os meninos viessem
correndo na rua e dessem grandes saltos na terra fofa pelo barranco
abaixo. Às vezes a confusão era maior e o seu Beltrão aparecia gritando
e xingando e os meninos com medo debandavam. Ele era barrigudo,
andava com relativa dificuldade, ajudado por uma bengala e a única
agressão era verbal, mesmo assim impunha respeito.38
Numa das casas do barranco morou a família Figueiredo Souza, Dona Maria e Seu Henrique,
pais do Betinho, do Henriquinho - o Henfil - e do Chiquinho, para citar apenas seus filhos mais
famosos. Na esquina com Jacuí, a rua terminava com um grande muro da Chácara do Dr.
Célio de Castro, dentista cuja entrada era na avenida do Contorno nº 333 e onde mais tarde
funcionaram sucessivamente a Escola de Comércio, o Colégio Humberto Rosas e a sede da
UTE - União dos Trabalhadores do Ensino. À direita, esquina com rua Plombagina, era a
chácara da Família Sales.39 Na rua Pouso Alegre, à esquerda, próxima à rua Varginha, ficava a
chácara da viúva Olinta Negrão, onde ainda existe um terreno murado com pedras da época e
uma ruína. No próximo quarteirão, entre Januária e Jacuí instalou-se, em 1909, o Colégio
Santa Maria no terreno da mata do senhor Sabino Barroso. O Colégio, da Congregação das
Irmãs Dominicanas do Santo Rosário, foi fundado em 1903 e começou a funcionar na casa do
Dr. Antônio Olinto dos Santos Pires (já demolida), que ficava na esquina da rua da Bahia com
Aimorés. Depois foi transferido para a casa do Conde de Santa Marinha na rua Januária, nº
130, já no bairro Floresta. Somente mais tarde foi construído o prédio na rua Jacuí, 237. O
projeto de José Verdussem para o Pavilhão de Nossa Senhora foi concluído em 1909 e nele o
Colégio Santa Maria instalou sua sede definitiva. A este pavilhão original foram agregando-se
outras edificações nos anos 1920. Em 1936, foi construída a capela neogótica pelo engenheiro
Carneiro de Rezende, e da França vieram a lâmpada do Santíssimo e as imagens. Em 1953,
foi construído o Teatro Santa Maria. Em 1954 foi concluída a edificação hoje existente no
alinhamento das ruas Pouso Alegre e Jacuí. O pavilhão original mantém a fachada frontal e os
jardins são hoje um belo pátio interno. O Colégio Santa Maria tornou-se famoso na formação
38 A Vida é Esta... 1990, op. cit.
39 A Vida é Esta... 1990, op. cit.
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das filhas de respeitados senhores da capital e do interior. Foi o primeiro colégio para moças
em Belo Horizonte tendo sido agraciado pela Câmara Municipal de Belo Horizonte com o
diploma da Ordem dos Pioneiros. Até então, as mulheres, quando estudavam fora de casa, iam
para internatos em Campanha e Diamantina, ou para o Rio de Janeiro. A educação das
mulheres estava condicionada à posse das famílias, como no período colonial, onde as filhas
das famílias ricas estudavam nos Recolhimentos de Macaúbas ou do Tejuco. O Colégio Santa
Maria funcionou desde o início, com o regime de internato, semi-internato e de externato. A
Escola Santa Catarina de Sena foi criada em 1917, pelas freiras do Colégio Santa Maria, para
atender meninas pobres. Tal instituição proporcionava, além dos estudos normais, aulas de
bordado, costura, trabalhos manuais e tudo o mais que era considerado útil às mulheres
daquela época. Em 1941, as Dominicanas fundaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras Santa Maria, embrião da PUC-MG, criada em 1949. A Paróquia de São Pedro Apóstolo
foi criada em 1953, mas as missas ainda continuaram sendo celebradas na Capela do Santa
Maria. Para a construção da Igreja, a Diocese comprou das Irmãs Dominicanas, por preço
simbólico, uma área do bosque do Colégio Santa Maria, constituída das ruas Jacuí, Ponte
Nova e Januária. A Igreja foi inaugurada somente em junho de 1968. Em março de 1918, o
Colégio Batista iniciou suas atividades numa casa da rua Pouso Alegre, nº 602. O colégio
funcionou numa casa, tipo castelo, da rua Pouso Alegre, bem defronte da rua Januária e dizem
que ali fora residência do Senador Sabino Barroso. Atualmente, o colégio funciona na rua
Ponte Nova, nº 665, esquina com rua Plombagina e dá nome a região conhecida como Colégio
Batista e não mais como Floresta. Outros colégios católicos surgiram na Floresta, como o
Colégio Nossa Senhora das Dores situado na avenida Francisco Sales, nº 77, na esquina da
rua Itajubá, e nesta rua funcionou também, por muitos anos, o Colégio Nossa Senhora de
Fátima, dirigido pelo Padre Afonso.
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Bairro Floresta, por volta dos anos 20, visto pela rua
varginha. Fonte: APCBH
Vista do Colégio Batista nas imediações do
bairro Floresta.
Fonte: APCBH
Na década de 20, as ex-colônias foram anexadas à cidade tendo os seus terrenos parcelados
em lotes, por companhias de desenvolvimento e por especuladores. A conversão das fazendas
em vilas ampliou as áreas residenciais de Belo Horizonte e aumentou o lucro imobiliário. A
ampliação do sistema de bondes, que favoreceu muito o sucesso dos empreendimentos, atesta
o aumento da população na área externa da avenida do Contorno.40
No dia 23 de setembro de 1923 é inaugurado o prolongamento da linha
de bondes da Floresta, que partindo da praça São João del Rey ia ter à
rua Hemílio Alves, seguindo pela avenida Contorno.41
Esta ampliação periférica incentivou a construção de edificações ao longo dos itinerários de
bondes. Os empreendedores adquiriram terrenos extensos, grande parte por compra direta do
Estado
42
, dividiram as propriedades em pequenos lotes, ordenaram as ruas e, de maneira
vigorosa, anunciaram a sua venda, com promessas de suprimento de água, serviço de bondes,
praças e escolas. Dos serviços oferecidos, somente o sistema de bondes atendia a maioria dos
habitantes. As linhas permitiam o acesso da população, que ocupava a periferia, ao centro da
cidade, como a linha Contorno-Horto, que atendia aos moradores de áreas localizadas muito
além dos limites previstos pelo planejamento da cidade.
Rangiam os trilhos na rua Pouso Alegre, viravam os bancos, retornava o
bonde do fim da linha, descia atrasado a Floresta, em direção ao bar do
Ponto, aos abrigos da rua Ceará e Pernambuco. Atravessava a cidade,
cortava a arquitetura eclética de suas casas, platibandas, colunas,
40 TEIXEIRA, Maria Cristina Ville Fort. Preservação e percepção de um bairro pericentral: a Floresta. Belo Horizonte: IGC/UFMG, 1996.
41 STIEL, Waldemar Corrêa. História do transporte urbano no Brasil.
42 REGISTRO DE LOTES DA EX-COLÔNIA AMÉRICO WERNECK. Bello Horizonte: Prefeitura, s.d.
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capitéis, molduras de feitios geométricos ou floral; passava pelos ficcus
da Contorno (...) suspiravam os rapazes quando, em um cruzamento
repentino, encontravam, inalcançavel, o bonde particular do Colégio
Santa Maria que trazia para o bairro as mais belas moças da cidade,
mas guardava também a freira severa e rígida a vigiar os olhares furtivos
trocados por entre os carros - Ah, era por vezes inatingível este bairro da
Floresta!"43
Uma das formas de ocupação do bairro, já mencionada, foi a das vilas, que:
constituem um aspecto de um processo mais amplo de
construção de habitações.(...). A presença de vilas, isto é,
conjuntos de casas construídas no interior de um terreno, o qual
contem uma entrada que comunica a via pública à via interna para qual
as casas estão voltadas. Esta descrição corresponde ao modelo mais
usual de vilas, embora haja muitas variações dele. Há vilas de todos os
tamanhos e de variada estruturação interna, comportando desde uma
rua apenas até várias ruas, jardim, praça de esportes e outros bens de
uso coletivo44
As vilas marcaram presença tanto no urbano como no suburbano da cidade, o que alterou o
traçado projetado pela Comissão Construtora. Em 1930, existiam 25 vilas em Belo Horizonte. A
sua adequação à urbanística da nova capital foi feita por meio de ajustamentos dos
regulamentos para a construção. Além das iniciativas no âmbito privado, o Poder Público
intervinha também para a criação das vilas através da concessão de títulos de propriedade. A
moradia dos operários, desconsiderada no planejamento urbano, foi implementada através das
vilas, que se consolidaram na da cidade. Na Floresta, as vilas representaram uma forma
importante de ocupação:
A Vila Gruta Floresta, situada na esquina da avenida do Contorno com
rua Curvelo, a Vila Sebastiana, localizada na rua Sapucaí e a Vila Inhá,
fixada na rua Floresta.45
A preocupação do Governo em localizar os operários em vilas
‘provisórias e gratuitas’, não permitindo a permanência dos mesmos em
outros pontos, denuncia o critério segregativo que norteou a ocupação
do espaço (da capital mineira).46
Nas primeiras décadas deste século, as alterações da paisagem urbana de Belo Horizonte
foram influenciadas pelos modismos rápidos e episódicos.47 A cidade expandida implicou,
como ainda implica, em recorrentes surtos de modernização, que tornam obsoletos, com
enorme rapidez, os avanços anteriores. A Floresta com o seu urbano-suburbano passou por
43 PAISAGEM FLORESTA. op. cit.
44 BLAY, Eva Alterman.Eu não tenho onde morar: vilas operárias na cidade de São Paulo. São Paulo: Nobel, 1985
45 TEIXEIRA, Maria Cistina Ville Fort. op. cit.
46 PLAMBEL, op. cit.
47 ADELMAN, Jeffry op. cit.
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essas mudanças, como pode ser constatado nas alterações da paisagem do bairro, no curso
deste século. Ainda nos anos 30, o Parque Municipal, idealizado para ser um dos maiores e
mais belos da América do Sul, foi reduzido à metade. Aproximadamente a terça parte da sua
área inicial, inserida na Floresta, foi convertida em lotes edificáveis. Ao longo do ribeirão
Arrudas e margeando a via férrea, foram implantadas indústrias cerâmicas, serrarias e de
beneficiamento de pedras - consolidando um processo iniciado antes da virada do século.
Esta foi outra novidade incorporada nos trabalhos de construção da
cidade, na administração do engenheiro Francisco Bicalho, que
substituiu Aarão Reis na direção da Comissão Construtora: “instalação
de estabelecimentos industriais, que serão notável elemento de vida
para a nova cidade, por proporcionarem matéria prima para as novas
construções.48
No eixo da Assis Chateaubriand e em suas adjacências foram implantadas imponentes
edificações - chalés, bangalôs, solares, além das variações das casas-tipo da Comissão
Construtora vinculadas ao ecletismo - que marcam a arquitetura do bairro.
Até 1934 era Belo Horizonte a 'cidade vergel' cheia de lindos e
numerosos 'bungalows'. Bairros como o de Santo Antônio, Serra e
Floresta, ostentavam os mais variados tipos de residências, obedecendo
a esse decantado estilo arquitetônico. A arborização ensombrando as
ruas largas era então mais notada, pois o casario ficava sob as cúpulas
frondosas dos já crescidos 'Ficus benjaminis'. A cidade vista do alto
parecia uma imensa floresta cujas árvores fossem mais ordenadas,
mais simétricas, do que as que formam as selvas naturais49
Construídas em períodos distintos, muitas dessas edificações destacam-se, ainda hoje, em
meio aos prédios edificados posteriormente. A arquitetura vertical da Floresta foi inaugurada
pelo edifício Chagas Dória que, projetado por Alfredo Carneiro Maretrof, em 1934, na esquina
da rua Sapucaí com a avenida Assis Chateaubriand é um dos únicos na Floresta que se impõe
com singularidade, marcando a paisagem do bairro.
Os novos prédios altos alteraram em parte a imagem urbana da Floresta que, no entanto, ainda
mantém uma horizontalidade predominante, entre um e quatro pavimento, conforme
levantamento altimétrico apresentado em mapa anexo. O uso residencial, entretanto, foi sendo
substituído pelo uso comercial e de serviços. A interferência na paisagem do bairro dessa
48 LIMA, Fabio José Martins. op. cit.
49 BARRETO, Abílio. Resumo histórico de Belo Horizonte: 1701-1947. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1950.
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forma de ocupação verticalizada, bem como a alteração de uso, acarretaram a demolição de
casas, e alteraram os modos de vida na Floresta.
Anteriores ao processo de verticalização, os viadutos de Santa Tereza e da Floresta
constituem-se em pórticos do bairro e marcam espaços que pertencem, também, a um outro
conjunto urbano protegido por tombamento: a Praça da Estação. O Viaduto de Santa Tereza foi
inaugurado em 1928, com iluminação instalada no ano seguinte. Além de acabar com os
choques entre bondes e locomotivas, foi construído numa perspectiva de embelezamento e
monumentalidade, que influenciava as obras da engenharia desde o oitocentos.
A construção do Viaduto Arthur Bernardes (Santa Tereza) veio resolver o
problema da ligação entre o centro e o bairro Floresta, e o problema de
passagem para os bondes. As linhas dos bondes que faziam esse
percurso cruzavam com as linhas da Central do Brasil e da Rede Mineira
de Viação. Algumas vezes aconteceram acidentes: os bondes perdiam
os freios na rampa e trombavam nos trens, ou atingiam os bondes,
fazendo vítima50
O viaduto foi projetado pelo engenheiro Emilio Henrique Baumgart, que formado pela
Politécnica do Rio de Janeiro, a antiga Escola Central,51 foi um dos inovadores da engenharia
estrutural no Brasil. Todo em concreto armado, seguindo as linhas do estilo Art Déco,0 o
viaduto é um marco da engenharia civil e um referencial não somente para o bairro Floresta,
mas para moradores e visitantes de Belo Horizonte. Ele marcou também o início das obras
viárias para facilitar o acesso à região Leste da cidade.
Em outubro de 1937, foi inaugurado o Viaduto da Floresta. A sua construção foi iniciada em
fevereiro de 1936 para conclusão em 180 dias úteis. Uma série de contratempos decorrentes
de modificações introduzidas no projeto - pensado inicialmente em curva - fez com que obra se
alongasse muito além do que esperava o então prefeito Otacílio Negrão de Lima. Mais
despojado em termos construtivos do que o de Santa Tereza, o Viaduto da Floresta prolonga a
avenida do Contorno, e favorece trajetos de pedestres e trânsito de veículos.
Mesmo após a implantação dos viadutos (...) o centro comercial do
bairro
Floresta
manteve
polarização
significativa,
servindo,
principalmente, ao setor nordeste da cidade, para onde o aglomerado
urbano se estendia em ritmo crescente e progressivo - Horto, bairro da
Graça e Concórdia. No período de independência relativa, cujo auge
verificou-se nas décadas de 20 e 30, a rua Itajubá exerceu
50 RECORDAÇÕES DO BAIRRO FLORESTA: 1990, op. cit.
51 FICHER, Sylvia. Edifícios altos no Brasil. In ESPAÇO & DEBATES: REVISTA DE ESTUDOS REGINAIS E URBANOS. São Paulo: NERU, n.137, 1994.
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territorialmente, o papel de uma "main street" abrangendo áreas urbanas
e suburbanas: o segmento compreendido entre a avenida do Contorno e
a rua Pouso Alegre funcionou como área predominantemente comercial,
enquanto que, em seu trecho urbano ao sul, compreendido entre as
avenidas do Contorno e Francisco Sales, predominava a função
residencial. Este último uso também se estendia até a avenida Silviano
Brandão, cujas tendências atuais de desenvolvimento quebraram a
continuidade dessa função residencial. (...) Esses fatores contribuíram
para que a Floresta fosse considerada semelhante a uma cidade do
interior, sob a alegação de ser ela uma área com grande autonomia
dentro do contexto da cidade. O alcance regional daquele centro de
comércio afirmou-se ainda mais quando seu núcleo foi abrangido pelo
decreto que estabeleceu a zona comercial para o centro de Belo
Horizonte, em meados da década de 40, que possibilitava altos índices
de aproveitamento nas construções em lotes da citada zona, tendo como
conseqüência uma alta valorização dos terrenos.52
Vista do Viaduto de Santa Tereza.
Fonte: APCBH
Vista do Viaduto da Floresta por volta
dos anos de 1950.Fonte APCBH.
Na esteira dos viadutos outros projetos viários foram implementados. Hoje, após todas essas
intervenções, a Floresta tornou-se um lugar de trânsito intenso, embora restem algumas ilhas
de tranqüilidade.
A avenida Silviano Brandão, de fundo de vale, implantada na década de
40, sob o caráter modernizante da atuação do Poder Público, gerando o
binômio viário Silviano Brandão-Pouso Alegre, mas que só se efetivou
com a implantação do complexo viário da avenida Cosmópolis, atual
Cristiano Machado, na década de 70. (...) Na metade da década de 60, o
surgimento do loteamento Cidade Nova, com alto padrão de urbanização
significou uma frente de ocupação diferente dos bairros próximos - dado
52 TEIXEIRA, op.cit. O decreto que dispôs sobre a delimitação da zona comercial de Belo Horizonte foi o DECRETO LEI n. 1910 de 13 de novembro de 1946.
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que, já no início de sua implantação, apresentou grande incidência de
edificações multifamiliares, e trouxe como resultado o surgimento de
uma série de mudanças estruturais e funcionais, que gradativamente foi
alterando o padrão das ocupações e usos naquela área. Uma das
conseqüências diretas da implantação desse novo setor sobre o bairro
Floresta foi o considerável aumento do fluxo do tráfego de transposição
que, já intenso, buscava as demais áreas no setor nordeste de Belo
Horizonte através deste quadrante da cidade.53
Ainda em 1949, a obra do Túnel da Lagoinha tinha a finalidade de ligar diretamente o centro
urbano com o Matadouro e o Horto Florestal, abrangendo assim os bairros da Concórdia,
Renascença e algumas vilas. A construção do túnel ficou interrompida até o ano de 1959, foi
retomada apenas nos anos 60, e inaugurado em 13 de maio de 1971. A ligação LagoinhaConcórdia passou por uma imensa reformulação e ampliação, na década de 80, e recebeu a
denominação de Túnel Tancredo Neves. Se por um lado essa solução viária contribuiu para o
descongestionamento do trânsito no bairro Floresta, por outro, facilitou o acesso de veículos, o
que pode ser comprovado pela intensidade do tráfego na esquina das ruas Pitangui e Jacuí.
Todos os cruzamentos com a via férrea, em passagens de nível, nos acessos à Floresta foram
substituídos por passarelas e viadutos. A prioridade de tráfego para o trem obrigava a
interrupção temporária do trânsito de veículos causando inquietação e, muitas vezes,
acidentes. Na metade da década de 80 foi construído o viaduto que permitiu à rua Varginha
uma ligação mais direta com o centro da cidade, conjugado com uma passarela exclusiva para
pedestres. A extensão da rua Januária por meio de uma passarela construída ao lado da casa
do Conde Santa Marinha facilitou o acesso àquela área do bairro. No que se refere à
ampliação das possibilidades de acesso de veículos, mais do que de pedestres, os benefícios
são evidentes. Essas facilidades de acesso criaram corredores de trânsito contínuo, que
configuraram um dos maiores problemas do bairro nos dias atuais. Além disso, as degradações
geradas nos interstícios criados pelos viadutos, sem destinação de usos ou apropriados de
maneira improvisada, permitem o acúmulo do lixo e o conseqüente entupimento da rede pluvial
e sanitária, ou são apropriados pelos automóveis em estacionamentos públicos e privados,
sem nenhum critério urbanístico. Esses vazios urbanos, sobras típicas de terrenos públicos,
apropriados de forma inadequada, têm transtornado a vida dos moradores de Belo Horizonte,
que, todavia resistem.54
O bairro permanece sendo caminho de ligação do centro da cidade com
os bairros servidos pela avenida Cristiano Machado. (...) Seja como for,
53 TEIXEIRA, op. cit.
54 CAMPOLINA, Joel. Espaços públicos residuais atípicos em Belo Horizonte/MG: reabilitação via pré-arquitetura. São Paulo: USP, 1992, mimeo.
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há que se destacar que foram vontades políticas determinadas que
fizeram do bairro aquilo que hoje ele é; (...) e somente a manifestação de
vontades políticas - atuantes, capazes de pensar o coletivo - pode fazer
a Floresta diferente. (...) Trata-se de recuperar para o próprio bairro
aquele traço de singularidade que o marcou desde a sua origem e que
foi perdido quando de sua integração à multidão - tornar possível hoje,
nas condições atuais, o que o passado rememorado da Floresta nos
conta: o bairro como possibilidade de uma vida melhor porquanto
existência labiríntica do indivíduo em relação com outros indivíduos; (...)
repensar o bairro nesses termos significa, em primeiro lugar, estabelecer
com os habitantes da cidade uma relação de reconhecimento entre
bairro e cidade, e não de superposição; em segundo lugar, significa
apontar à cidade não só a possibilidade e conseqüências da
descaracterização de seus outros inúmeros bairros, mas sobretudo a
importância de se reverter esse processo, como forma de
recuperar/manter a qualidade de vida e de convivência de seus
habitantes em níveis e condições sociais satisfatórias.55
Vista aérea do bairro Floresta. Data provável: 1960. Fonte APCBH
55 PAISAGEM FLORESTA.
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3- Histórico do Bem Cultural
A história do bem cultural da rua Pouso Alegre, 404 está intimamente associada à história da
família Agretti, composta por imigrantes italianos que, assim como muitos outros estrangeiros,
ajudaram no processo inicial de ocupação do bairro da Floresta. Parte desta história foi
recuperada por meio do depoimento fornecido por Carlos Correia de Aquino (12/01/1928) à
Equipe da DIPC56. Viúvo, professor da Faculdade de Direito de Itaúna e pai de seis Filhos,
Carlos Correia é neto do primeiro proprietário do bem cultural, o senhor Francisco Agretti.
Vale ressaltar que dentre os imigrantes que ajudaram a conformar o bairro da Floresta, os
italianos foram os que vieram em maior número, pois a Comissão Construtora adotou uma
política de imigração para arregimentar mão-de-obra, por meio de propaganda em jornais
italianos, descrevendo as vantagens da imigração.
Em 1898, Francisco Agretti (1857-1922), italiano da cidade de Imola, decidiu mudar-se com a
sua esposa Adélia Séptimo Agretti e seu filho Amílcar Agretti (1887-1968) para o Brasil. Na
ocasião, Francisco desempenhava a atividade de pintor e decorador, tendo se formado na
Escola de Belas Artes de Bolonha. As razões de sua vinda para o Brasil são desconhecidas.
Sabe-se que a partir da década de 1870, os italianos começaram a imigrar em número
significativo para o Brasil, impulsionados pelas transformações socioeconômicas em curso na
península itálica e que afetaram, sobretudo, a propriedade da terra. Eram, portanto, imigrantes
agricultores, em sua maioria. Este não foi, entretanto, o caso da família Agretti que não possuía
origens rurais. Ao contrário disto, segundo as palavras de Carlos Correia, o seu avô Francisco
era um homem letrado, um latinista e poeta.
Chegando ao Brasil, a família Agretti residiu, inicialmente, em Lorena, São Paulo. Em 1903,
mudou-se para Minas Gerais, tendo residido em Mariana, localidade onde nasceu o segundo
filho do casal, Aurélia Agretti. Segundo o Dicionário Biográfico de Construtores e Artistas de
56
Entrevista realizada em 16 de março de 2009.
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Belo Horizonte (1894-1940)57, Francisco e sua família teriam se transferido para a capital
mineira em 1905. Todavia, Carlos Correia assegura que o avô chegou em Belo Horizonte em
1904, visto que nesta data nasceu o seu terceiro filho, Aristides Agretti, quando então a família
residia em um imóvel na avenida Amazonas. Em 1906, nasceu a última filha do casal, Helena
Agretti, quando a família já morava na casa da rua Pouso Alegre, 404. Com base nestas datas,
Carlos deduz que o bem cultural ora estudado tenha sido construída entre 1903 e 1906.
Segundo microfilme localizado nos arquivos da prefeitura de Belo Horizonte, a casa foi
construída pelo suíço João Morandi, arquiteto e escultor com
o qual Francisco e Amílcar Agretti trabalharam na ocasião da
construção do edifício do Palácio da Liberdade e da Estação
Oeste de Minas. Não consta do microfilme a data da
edificação do bem cultural para que se possa confirmar a
data inferida por Carlos Correia.
Com exceção de Aurélia, todos os demais filhos de
Francisco Agretti dedicaram-se à pintura, o que permitiu à
família destacar-se no cenário artístico da nova capital
mineira. Por volta de 1920, tornou-se moda em Belo
Horizonte o uso de pinturas decorativas das fachadas
laterais,
especialmente
de
alpendres.
Havia
uma
preocupação em tratar de maneira artística os elementos
construtivos das casas, como as colunas, treliças, guardacorpos, pisos, forros, escadas e, sobretudo, o paramento
das paredes externas à residência, mas internas aos
alpendres. Os temas usados nas pinturas eram de
paisagens
Pintura de Amílcar Agretti. Av.
Getúlio Vargas, 923 (demolida).
campestres,
marinhas,
natureza
morta,
aparecendo também pessoas, barcos, animais, pontes e
igrejas. Para Ivo Porto de Menezes58, é difícil precisar a
fonte de inspiração da maioria dos painéis. O estudioso percebe, porém, que alguns imitam
cartões postais, outros, num gesto de saudosismo, retratam cenas da terra natal do
57
Dicionário biográfico de construtores e artistas de Belo Horizonte:18989/1940. Instituto Estadual do Patrimônio
Histórico e Artístico de Minas Gerais.Belo Horizonte: IEPHA/MG, 1997.
58
Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo Geraldo lemes Filho,
1997, p.111.
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proprietário. Já das pinturas marinhas, nas quais são retratados mar e navios, pode-se inferir a
presença de referências vinculadas às viagens vivenciadas pelos imigrantes europeus ao
Brasil, visto que grande parte destes pintores parietais era de origem italiana. Quanto às
técnicas utilizadas, estas variavam de acordo com a formação dos pintores e ao sabor de seu
trabalho, sendo utilizado quase exclusivamente o óleo, que era empregado de maneiras
diferentes, ora em pinceladas longas e rápidas, ora com o uso de espátulas, dando impressões
variadas ao observador. Quanto ao colorido:
era variado, predominando, em alguns, as cores terrosas, outras verdes. As
composições, geralmente assimétricas, variam de camadas horizontais, a sugerir
tranqüilidade, a predominância das árvores verticais a marcarem a paisagem.
Entremeiam composições sinuosas em “C” ou seu inverso circulares, abertas, em
geral, par ao espectador, marcadas, principalmente, por desenrolar do caminho,
do rio, das margens e dos elementos dominantes59.
É neste contexto que a família Agretti ganhou notoriedade na prática da pintura parietal,
desenvolvendo trabalhos em diversas casas residenciais e edifícios públicos. Os trabalhos de
Francisco Agretti podem ser encontrados no Palácio da Liberdade (1898), na Estação Central
(1920-1922), na Estação Oeste de Minas (1922) e no palacete João Pinheiro (1922). Já
Amílcar Agretti foi responsável por pinturas decorativas em várias edificações da cidade, como
o palacete João Pinheiro (1909), já demolido, e em diversas casas para funcionários. Merecem
ser citadas edificações na rua Alagoas, 813, Residência de Joaquim Furtado de Menezes
(demolida), na avenida Getúlio Vargas, 923, residência de Lúcio José dos Santos (demolida),
na rua Pouso Alegre, 259 (demolida), na rua Santa Rita Durão, 848, residência de Álvares da
Silveira (demolida), na rua Itapecerica, 70 (demolida) e na rua da Bahia, 1764, residência de
Alvimar Carneiro de Rezende (demolida).60 Além destas casas, Amílcar seria o autor das
pinturas existentes na casa da rua Pouso Alegre, 404, com presume Carlos Correia.
Segundo Ivo Porto de Menezes, Amílcar pintava a óleo, preparando antes suas próprias tintas,
misturando pigmentos, desenhando, previamente, em giz e carvão e usando pinceladas
grossas. Não usava modelos, e sempre pintava a mão livre61. Embora tenha ganhado destaque
por suas pinturas nas paredes, Amílcar não se restringiu a estas, dedicando-se também à
pintura em tela. Por conta delas, participou da Exposição Brasileira de Belas-Artes, em São
59
Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura....p.109.
Dicionário biográfico de construtores e artistas de Belo Horizonte:18989/1940. Instituto Estadual do Patrimônio
Histórico e Artístico de Minas Gerais.Belo Horizonte: IEPHA/MG, 1997.
61
Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura....p.109.
60
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Paulo (1911/1912) e do Salão Mineiro de Bellas Artes de Belo Horizonte, em 1938. Também
Carlos Correa de Aquino lembra-se bem de ver o tio Amílcar andando pelas ruas da Floresta
com uma prancheta na mão. Qualquer pessoa ou paisagem que lhe despertasse o interesse
ele procurava reproduzir. Desta maneira, ficou conhecido no bairro como uma figura pitoresca.
Pintura de Amílcar Agretti. Rua Pouso Alegre, 259 (demolida). Fonte: Ivo Porto de Menezes.Belo
Horizonte, Residências, Arquitetura...1997.
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Pintura de Amílcar Agretti. Rua Santa Rita Durão, 848 (demolida). Fonte: Ivo Porto de
Menezes.Belo Horizonte, Residências, Arquitetura...1997.
Assim como o pai e o irmão, Aristides Agretti realizou trabalhos de pintura em paredes.
Contudo, ele se dedicou mais às pinturas em tela, tendo havido vários de seus trabalhos
adornando as salas das famílias belo-horizontinas. Quanto aos trabalhos de Helena, não
obtivemos maiores registros. Acredita-se, no entanto, que ela tenha se dedicado à pintura em
tela, tal como seu irmão Aristides. O seu sobrinho Carlos Correa lembra-se, por exemplo, de ter
ido a algumas exposições das obras dos três tios, realizadas conjuntamente no Antigo Teatro
Municipal de Belo Horizonte.
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Pintura de Aristides Agretti feita para seu sobrinho Carlos Correia de Aquino. Fonte: Acervo
pessoal de Carlos Correia de Aquino.
Pintura de Aristides Agretti. Rua Niquelina, 97 (demolida). Fonte: Ivo Porto de Menezes.Belo
Horizonte, Residências, Arquitetura...1997.
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Em data não identificada, Amílcar Agretti fundou uma escola de pintura no porão da casa da
rua Pouso Alegre, 404. Carlos Correia lembra-se de que no porão da casa havia uma mesa
bem grande, em torno da qual os alunos se sentavam e, sobre eles, uma luminária que vinha
do teto e se colocava sobre suas a cabeças. Sempre cheia de pessoas em função do ir e vir
dos alunos, Carlos descreve a casa dos avós como tendo sido muito alegre e muito
freqüentada. Lembra-se também que os tios Amílcar e Aristides conviviam com muitos artistas
da cidade, dentre os quais destaca Guignard e Aníbal Matos62, o que nos permite crer que o
bem cultural em questão tornou-se um espaço de encontro e sociabilidade de pintores e
membros da elite cultural mineira da primeira metade do século XX. Além das aulas em casa,
Amílcar foi também professor de pintura no extinto Instituto João Pinheiro, escola pública de
aprendizes e artífices que existiu na Avenida Amazonas entre 1909 e 1934.
Apesar de todas estas atividades, Carlos Correia afirma que a família não possuía muitas
posses, tendo tido no máximo, uma condição remediada. Afinal, não foram poucas as vezes
em que viu o seu pai, Hercílio dos Reis de Aquino, sugerir aos cunhados Amílcar e Aristides
que fizessem maiores investimentos na escola de pintura e vendessem os quadros por um
preço mais rentável, dizendo-os “muito humildes”. A estas sugestões, os irmãos respondiam
sempre que a “arte não tem preço”, diz Carlos Correia.
Com o falecimento de Francisco Agretti em 1922, sua filha Aristides, já casada, morou na casa
da rua Pouso Alegre com seu marido para fazer companhia à mãe por alguns anos. Nesta
62
Aníbal Matos fez seus primeiros estudos de desenho no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e,
posteriormente, estudou na Escola Nacional de Belas Artes na mesma cidade, tendo sido aluno de João Batista de
Costa, Daniel Berard e João Zeferino da Costa. Em 1910, aos 24 anos de idade, recebeu o prêmio de viagem ao
estrangeiro no Salão Nacional do Rio de Janeiro.
Foi reconhecido pela Escola Nacional de Belas Artes com a obtenção de três menções honrosas, uma
medalha de ouro em 1912 e uma medalha de prata em 1916. Representante da mesma instituição, participou em
1914 do Congresso Acadêmico no Peru, tendo sido orador oficial de todas as delegações dos estudantes da
América.
Na trajetória de Matos, o período que mais interessa à abordagem deste texto, tem seu início no ano de 1917,
momento em que se transfere para Belo Horizonte a convite de Bias Fortes para ocupar o cargo de professor da
Escola Modelo. A cidade já conhecia o trabalho de Aníbal desde 1913, data das primeiras exposições realizadas
nessa cidade como verificado nas matérias de jornais como o Diário de Minas.
Em 1930, participou da fundação da Escola de Arquitetura e Belas Artes da Universidade de Minas Gerais na
qual continuou trabalhando durante 27 anos, quatro dos quais como diretor. Atuou também como fundador da
Biblioteca Mineira de Cultura, das Edições Apollo e do Centro de Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico
Mineiro, tendo lutado pela fundação de museus históricos locais em Ouro Preto, Diamantina, São João Del Rei e
Belo Horizonte. Foi, ainda, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e, em 1936, presidente da
Academia Mineira de Letras. Publicou ainda vários livros. Fonte: site: maccouto.sites.uol.com.br/anibal.htm - 59k.
Consultado em 17 de março de 2009.
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ocasião, em 1928, nasceu Carlos Correia de Aquino. Após o falecimento de Aurélia Séptimo
Agretti, em 1944, a casa passou a ser habitada por Helena e Amílcar Agretti. Após o
falecimento deste último, em 1968, Helena permaneceu morando sozinha no imóvel até o seu
falecimento, por volta de 1989. A partir de então, a casa permanece desabitada. Em 2008, a
casa foi leiloada, sendo adquirida pelo Sr. Cláudio Souza Santos.
O arquiteto, construtor e escultor João Morandi nasceu na Suíça, em 1862, tendo estudado na
Escola de Belas-Artes de Berna (Suíça), na de Clermont-Ferrant, na França e na Escola de Arquitetura
de Lausanne. Trabalhou em La Plata, na Argentina, transferindo-se, em 1896, para Belo Horizonte, a
convite da Comissão Construtora da Nova Capital. No ano seguinte, montou atelier anexo à sua
residência, denominado “Construção de Obras e Fábrica de Pedras Plásticas”. Exercia as atividades de
arquiteto, projetando residências e edifícios, e de escultor, realizando trabalhos ornamentais. Seus
principais trabalhos como escultor em Belo Horizonte foram: Palácio da Liberdade, Secretarias de
Estado, Instituto de Educação, Igreja São José, Capela do Rosário, Conservatório Mineiro de Música,
Palácio da Justiça, Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, Igreja Nossa Senhora de Lourdes, Prédios da
Estação Central do Brasil e Estação Oeste de Minas. Como arquiteto, foi responsável pelo projeto das
seguintes edificações: Palacete Dolabela, localizado onde, atualmente, encontra-se o Edifício Niemeyer,
propriedade de Leopoldo de Paula Andrade, na rua Tamoios, 530 (demolida), edificação na rua Sergipe,
877 (demolida), propriedade de Leopoldo de Paula Andrade, na rua Tamoios 530 (demolida), edificação
na avenida Paraná, 94 (demolida), remodelação, em 1923, do atual Colégio Minas Gerais, localizado na
avenida Augusto de Lima, 104, residência de Fausto Ferraz, conhecida por Vila Anita, localizada na rua
Sergipe, 440 (demolida). São também de sua responsabilidade os bustos dos governadores Antônio
Carlos, João Pinheiro e Raul Soares, a alegoria da Caridade que ornava a antiga Santa Casa de
Misericórdia (demolida) e a imagem do Bom Pastor, do Asilo Bom Pastor63.
63
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4.
Caracterização Urbanística e Arquitetônica
A paisagem urbana do bairro Floresta, estampada ao longo do seu traçado, revela a própria
evolução urbanística do bairro. A pesquisa documental e de campo, realizada por ocasião dos
estudos para o tombamento do Conjunto Urbano, apontou vários pedaços, que se distinguem
pelos seus equipamentos comunitários e urbanos, os usos, os modos de apropriação material
e simbólica dos espaços físicos. A Floresta é peculiar pelas nuanças da sua paisagem que
mescla o popular e o erudito, a começar pelo próprio traçado urbano. Ao lado de um bulevar
expressivo como a avenida Assis Chateaubriand com sua arborização, passeios largos e
arquiteturas imponentes, há a simplicidade do Beco São Geraldo e da rua David Campista,
ambos com pavimentação em pedras irregulares ressaltando sob o asfalto que os recobre em
parte. Ao lado de uma rua de comercio como a Pouso Alegre, a rua Célio de Castro, com o que
restou de edificações residenciais. A rua Jacuí tem no seu longo percurso residências, escolas,
hotéis, comércio e serviços. A praça Comendador Negrão de Lima, próxima ao movimentado
centro comercial, surpreende pelo seu ambiente verde e tranqüilo. A avenida Bernardo
Monteiro se interrompe, assim como outras vias, nos limites das linhas do metrô de superfície e
do trem. O curto espaço desta avenida, na Floresta, foi apropriado pelos lavadores de carro. As
ruas Brasópolis e Mucuri se tangenciam em uma das poucas praças da Floresta, a praça Lions.
A avenida Francisco Salles, bastante arborizada, desemboca na rua Sapucaí, e faz a ligação
dos viadutos da Floresta e de Santa Tereza, constituindo-se como um grande mirante para o
centro da cidade. Na Floresta as ruas
mudam muito de direção, como a rua
Salinas, onde predomina o uso residencial
Praça Negrão de Lima
mesmo com uma faixa de intenso comércio
Célio de Castro e adjacências
no seu trecho sobre o Centro Comercial.
Centro Comercial
Assim, foram definidos cinco ‘pedaços’ que
compõe o conjunto: Rua Aquiles Lobo,
Assis Chateaubriand e Adjacências
Praça Comendador Negrão de Lima, Centro
Comercial, Avenida Assis Chateaubriand e,
por fim, pedaço Rua Célio de Castro, no
Aquiles Lobo e Adjacências
Os Pedaços do Conjunto Urbano Bairro Floresta
qual se localiza o bem cultural da rua Pouso
Alegre n.° 404.
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Rua Pouso Alegre n.° 404
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Conjunto Urbano Bairro Floresta, segundo a planta da cidade
Conjunto Urbano Bairro Floresta, segundo a planta da geral
de Belo Horizonte, elaborada pela Diretoria Geral do Serviço
da cidade de Belo Horizonte, organizada pela 1ª Secção da
de Estatística em 1930. Região da casa da rua Pouso Alegre
sub diretoria de obras de 1928-1929. Região da casa da rua
n.° 404, em destaque.
Pouso Alegre n.° 404, em destaque.
O pedaço Rua Célio de Castro caracteriza-se, do ponto de vista de seu patrimônio edificado,
por um grande número de edificações ecléticas implantadas junto ao alinhamento frontal e pela
existência de bens culturais que se constituem em referências que extrapolam o limite do
pedaço e do Conjunto Urbano – o Teatro Giramundo de Bonecos e o Hotel Palladium. A
ambiência do lugar, formada por elementos de ordem espacial e pela rede de relações sociais
que se estabelecem em seus espaços, é estruturada a partir do eixo da rua Célio de Castro e
caracteriza-se, fisicamente, pela predominância da ocupação horizontal, com verticalização
evidenciada apenas em alguns pontos.
A rede de relações sociais se estabelece, prioritariamente, pelo uso residencial e pelas
atividades vinculadas a ele, destacando-se desse contexto, aquelas que constituem referência
municipal como o Colégio Santa Maria e o Grupo Giramundo.O Grupo Giramundo constitui
referência que extrapola o município de Belo Horizonte, por suas atividades que visam ao
atendimento a um público variado: Museu Giramundo, Girabrinque e as atividades
permanentes de formação e montagem de espetáculos.
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A casa da rua Pouso Alegre n.° 404 foi construída nos lotes 19 e 20 do quarteirão 008C, Sexta
Seção Suburbana. Os referidos lotes já figuravam, com as mesmas dimensões atuais, na
planta de subdivisão de lotes aprovada em 27 de fevereiro de 1920, na gestão do prefeito
Affonso Vaz de Mello. Os lotes figuram, ainda, no levantamento cadastral datado de 1942,
realizado durante a gestão de Juscelino Kubitschek frente à Prefeitura de Belo Horizonte (1940
a 1945). Nesta oportunidade, foi realizado um levantamento da cidade com o objetivo de
realizar um cadastro territorial e imobiliário para fins de ação tributária, tarefa que gerou um
minucioso trabalho de detalhamento dos imóveis que, no mapeamento, aparecem numerados
e desenhados em planta baixa.64
No referido levantamento cadastral, nota-se que a região na qual se localiza a casa em
questão já possuía ocupação consolidada na década de 1940 e, dentre os exemplares
remanescentes do princípio do século XX aos anos 1940 localizados na rua Pouso Alegre, no
entorno imediato do bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 404, foram indicados para proteção
por tombamento as edificações localizadas nos n.°s 338, 361, 252, 262, 290, 273 e 303.
Outros bens culturais situados nas imediações, cujas construções são do mesmo período, são
o Hotel Palladium - rua Varginha n.° 210, e a atual sede do grupo Giramundo, na rua Varginha
n.° 235, ambos protegidos por tombamento. Em data posterior ao citado período foram
construídas as edificações da rua Pouso Alegre n.° 331, que já se encontra tombada, além das
casas situadas nos números 282 e 295, indicadas para tombamento.
64
FJP/Centro de Estudos Históricos e Culturais. Panorama de Belo Horizonte: atlas histórico. Belo Horizonte:FJP,
1997. P. 66
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Planta de parcelamento aprovada em 1920, com destaque para os lotes 19 e 20 do então quarteirão 008,
atual 008C da Sexta Seção Suburbana. Fonte: CP-026017D, disponível em intranet.smaru.pbh.
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Cópia do levantamento cadastral realizado na administração de Juscelino Kubitschek, com
destaque a localização da casa da rua Pouso Alegre n.° 404. Fonte: CP-JK-020101, disponível em
intranet.smaru.pbh.
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Trecho do mapa anterior, com destaque para a casa da rua Pouso Alegre n.° 404 e para outros
bens construídos entre o início do século XX e os anos 1940 que se encontram indicados para
proteção por tombamento. Fonte: CP- CP-JK-020101, disponível em intranet.smaru.pbh.
Destaque para a quadra 008C e para o bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 404. Fonte: CP-JK020101, disponível em intranet.smaru.pbh.
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381
381
381
371
371
371
371
371
480
480
480
480
480
480
382
382
382
382
382
-
81
81
81
81
81
352
352
352
352
352
337
337
337
337
337
59
59
59
59
59
59
334
334
334
334
334
47
47
47
47
47
315
315
315
315
315
315
295
295
295
295
295
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273
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303
303
273
273
303
303
303
219
219
219
219
219
290
290
RUA
RUA
POUSO
POUSO
ALEGRE
290
242
290
290
242
242
242ALEGRE
224
224
224
262
262
262
224
224 262
262
262
218
218
218
-242
218
218
218
252
-
391
391
391
391
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308
308
308
308
308
377
377
377
377
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343
343
343
343
343
401
401
401
401
401
401
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437
437
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338
338
338
338
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310
310
310
310
310
-
384
384
384
384
384
404
404
404
404
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356
356
356
356
228
228
228
228
228
228
A
A161
185
185
185
185
185
161
161
161
161
EIRAS
EIRAS
217
217
217
217
217
217
189
189
189
189
189
189
151
151
151
151
151
210
210
210
210
210
210
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198
198
277
198
277
277
198
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195
195
195
195
195
237
237
237
237
237
311
311
311
311
311
315
315
315
315
315
315
347
347
347
347
347
367
367
367
367
367
O
CASTRO
DE CASTR
CÉLIO
RUA
CÉLIO DE
RUA
162
162
162
162
162
162
296
296
296
296
296
282
282
282
282
282
70
70
70
70
70
48
48
48
48
48
109
109
109
71
71
71
71
71
43
43
43
43
43
8
8
6
66
66
6
22
22
22
22
22
489
489
489
489
489
489
14
14
14
14
14
14
521
521
521
521
521 533
533
533
533
533
353
245
245
245
245
245
215
215
215
215
215
447
447
447
453
447
447
447 453
453
453
453
310
310
310
310
310
310
388
388
388
388
388
RUA
RUA POUSO
POUSO ALEGRE
ALEGRE
RUA ARTUR
ARTUR LOBO
LOBO
RUA
259
259
259
259
259
259
RU
R
UA
AV
VA
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A
H
HA
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MA
A
239
239
239
239
239
35
35
35
35
35
35
600
600
600
RUA
RUA PLOMBAG
PLOMBAG
358
358
358
358
358
358
RUA
RUA PEDRO
PEDRO CARV
CAR
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
430
430
430
430
430 444
444
444
444
444
472
472
472
472
472
472
488
488
488 eee 504
504
504
277
277
277
429
429
429
429
429 437
437
437
437
437
437
-
447
eee
453
447
e 453
453
447 e
453
447
447
453
142
142
142
142
142
54
5
54
524
524
538
54
5
524
538
524
524 538
538 54
277
277
277
467
467
467
467
467
467
405
405
405
405
405
25
25
25
450
450
450
450
450
215
215
215
215
215
3521
3521
3521
3521
3521
45
45
45
45
45
181
181
181
181
181
Tombado
Registro documental
Indicado para tombamento
Registro documental concluído
Mapeamento cultural em vigor, aprovado segundo deliberação 040/2006 do Conselho Deliberativo Cultural
do Município – CDPCM/BH. Fonte: arquivos DIPC
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
Casa da rua Pouso Alegre n.° 404, objeto deste
dossiê de tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos
DIPC.
Casa da rua Pouso Alegre n.° 353, indicada
para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 338, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 303, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 295, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 273, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
Rua Pouso Alegre n.° 290, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 282, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 262, indicada para
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 252, indicada para
tombamento. Fonte: arquivos DIPC.
Hotel Palladium - rua Varginha n.° 210, protegida por
tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC.
Bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 331,
protegido por tombamento. Jan/2006. Fonte:
arquivos DIPC.
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Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
Sede do Grupo Giramundo – rua Varginha n.°235,
protegida por tombamento.
O bem cultural em questão, implantado junto ao alinhamento das ruas Pouso Alegre e Arthur
Lobo, desenvolve-se em um pavimento sobre porão alto e apresenta partido retangular, em
bloco único. A estrutura é formada por alvenaria de tijolos maciços, o piso em tabuado
assentado sobre barroteamento e a cobertura em engradamento de madeira sobre o qual foi
instalada a cobertura em telhas francesas, dispostas em duas águas. O acesso principal,
voltado para a rua Pouso Alegre e em nível com esta via, é feito através de portão metálico,
localizado na porção direita da fachada principal, e após este, por porta em madeira
almofadada de acesso ao interior da edificação.
Representante do ecletismo característico dos primeiros anos de ocupação da capital, o bem
cultural em questão apresenta fachada principal, voltada para a rua Pouso Alegre, composta
com a predominância de planos cheios sobre os vazados e acabamento em argamassa com
pintura. Os vãos, em verga reta e dotados de cercaduras em massa, receberam fechamento
em esquadrias de madeira pintada, com folha em veneziana, na porção inferior, e vidro na
superior, além de bandeira fixa em madeira e vidro. Complementa a composição o coroamento
feito pela platibanda, separada do paramento da fachada principal por cornija aplicada em toda
a extensão da fachada e, nas extremidades, os falsos pilares em ressalto. Destaca-se que em
relação ao projeto original, verifica-se a alteração nos vãos desta fachada: o vão central, que
correspondia a porta principal de acesso no projeto inicial, foi transformado em janela que, no
entanto, possui as mesmas características das demais.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
Cópia do microfilme do projeto original. Fonte: arquivos DIPC
A fachada voltada para a rua Arthur Lobo apresenta o mesmo esquema compositivo, mas
nesta já se faz evidente o embasamento, também revestido em argamassa com pintura, que
corresponde ao porão alto.
Já a fachada posterior é marcada pela predominância dos planos vazios, definidos pelo
alpendre no primeiro pavimento e pela arcada na porção correspondente ao porão alto. O
alpendre é sustentado por pilaretes em madeira, forro em madeira e parede ornamentada por
pinturas parietais, de autoria presumível de Amílcar Agretti. Os vãos voltados para o alpendre,
em verga reta, são vedados por esquadrias com folhas em madeira com pintura e vidro e
bandeira fixa, também em madeira com pintura e vidro.
Internamente, devido ao estado de conservação do bem cultural, não foi possível descrever
detalhadamente o agenciamento interno e os materiais de acabamento, mas verificam-se
perdas no piso em tabuado, no forro em madeira e nas esquadrias em madeira. Apesar do
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precário estado de conservação do bem cultural, é possível notar a existência de diversas
pinturas parietais também na parte interna do bem cultural.
Levantamento fotográfico – Casa da rua Pouso Alegre n.° 404
Vista geral da fachada voltada para a rua Pouso
Alegre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC
Acesso principal, com porta de folha em madeira e
bandeira fixa em madeira e vidro. Mar/2009.
Fonte: arquivos DIPC.
Vão da fachada principal, parcialmente
emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Outra vista do vão parcialmente emparedado.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
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Vista parcial da fachada voltada para a rua Pouso
Alegre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista da calçada da rua Pouso Alegre, em frente
ao bem cultural em análise.
Detalhe dos tijolos, na porção correspondente ao
embasamento.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista de outro trecho do embasamento. Notar
porção inferior do baldrame trabalhado de forma
abaulada. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
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Acesso principal, voltado para a rua Pouso Alegre.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista parcial da fachada lateral esquerda;
revestimento em argamassa com pintura e beiral
conformado pelo prolongamento da cobertura.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista parcial da fachada externa do porão alto e da
arcada. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Outra vista da fachada externa do porão alto.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
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Detalhe do vão do porão alto, parcialmente
emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Outra vista de trecho do porão alto. Mar/2009.
Fonte: arquivos DIPC.
Vista da arcada com vãos em arco pleno.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista parcial da arcada e do alpendre. Mar/2009.
Fonte: arquivos DIPC.
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Detalhe da arcada e do vão do porão alto,
parcialmente emparedado. Mar/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Vista parcial da fachada posterior. Notar pinturas
parietais do alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos
DIPC.
Outra vista do alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos
DIPC.
Outra vista parcial da fachada posterior. Nota-se
também as pinturas parietais no alpendre.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
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Vista do piso do alpendre, em madeira,
completamente danificado. Mar/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Forro do alpendre, em madeira. Mar/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Vista geral do quintal. Mar/2009. Fonte: arquivos
DIPC.
Vista geral do quintal. Mar/2009. Fonte: arquivos
DIPC.
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Vista da estrutura da cobertura. Mar/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Vista interna da janela em madeira e bandeira fixa.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Vista interna da sala do bem cultural. Piso
arruinado, com barroteamento a vista. Mar/2009.
Fonte: arquivos DIPC.
Outra vista interna. Mar/2009. Fonte: arquivos
DIPC.
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Vista das pinturas parietais internas. Mar/2009.
Fonte: arquivos DIPC.
Outra vista das pinturas parietais internas.
Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC.
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5. O sentido da preservação
É na condição espacial, e principalmente na cidade, que as principais atividades humanas são
realizadas. Portanto, para compreender o homem é necessário interpretar a história ocorrida na
cidade. Conclui-se que espaço e tempo são dimensões complementares, pois a formação
histórica referencia as pessoas nestas dimensões, dando-lhes consciência clara do
espaço/momento em que vivem, sendo possível então, através da história conhecer a nossa
identidade, distinguindo-a da universalidade ou da massificação.
A arquitetura, ao se transformar em espaço de representação simbólica e referencial urbano,
facilita a compreensão do processo de formação das cidades. Ela dá a escala do tempo e nos
ajuda a entender as condições de vida sociais e econômicas das gerações anteriores.
Portanto, a cidade e sua arquitetura contam parte da trajetória percorrida pelo homem no
tempo e no espaço.
Portanto, a preservação do nosso patrimônio arquitetônico tem como premissa a manutenção
da memória urbano-social, em sua dimensão material e simbólica e o cumprimento uma
demanda social uma vez que deve ser entendida e assumida como mais um elemento dentro
da dinâmica da cidade. A preservação tem o intuito de promover a qualidade de vida dos
cidadãos e o patrimônio cultural da cidade.
A melhoria da qualidade de vida (...), tão ameaçada nos dia de hoje, depende em
parte desse conhecimento e da valorização da cultura que nos cerca. Tão
importante quanto preservar a natureza é também manter a feição dos lugares,
ruas e outros ambientes que conformam a localidade em que vivemos e são
incorporados e apreciados no nosso cotidiano.65
Assim, a cidade deve torna-se a guardiã de sua tradição e de sua memória através da
manutenção de seus múltiplos espaços sócio-culturais.
É neste sentido que a preservação do bem cultural situado na rua Pouso Alegre, 404, ganha
importância, visto que esta edificação corresponde a um raro exemplar característico de
65
MARIANI, Alayde Wanderley. In: Memória e educação. RJ: IBPC, 1992.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
tradicionais bairros de Belo Horizonte como o Funcionários, a Floresta, a Lagoinha e outros
tantos que marcaram a primeira fase de ocupação da cidade, com o esplendor de suas
residências e suas fachadas, alpendres, jardins e pinturas decorativas. Sua presença física, por
meio de seus elementos arquitetônicos e de suas cuidadosas pinturas, remete a um momento
histórico no qual as casas “eram os lugares de diálogo, de encontro, onde se aprendia a
socializar-se, conviver e integrar o outro nas próprias vidas. Colocadas às ruas com seus
porões vazados, ornamentados com a delicadeza das curvas, as casas eram o contrário dos
atuais “bunkers”: trincheiras contra o medo, contra o perigo, ligar da fuga, da mudez.66”
A preservação do bem cultural ora analisado torna-se mais importante e premente se
consideramos o fato de que edificações a ele similares, típicas de uma época em que “ a
cidade se arrumou para ser vista67” através de fachadas e painéis decorativos, foram quase
todas demolidas. Acrescente-se a isto o fato de não terem sido identificadas outras edificações
residenciais que ainda preservem pinturas de autoria de Amilcar e Francisco Agretti, dois
pintores que participaram ativamente da conformação de um modo particular de viver e habitar
e que, portanto, marcaram o cenário cultural de Belo Horizonte em seus primeiros anos de
existência. Portanto, a arte dos Agretti tem na edificação da rua Pouso Alegre, 404, uma das
últimas representantes.
Diante do exposto, a DIPC/FMC compreende como necessário o estabelecimento do terceiro
grau de proteção para o imóvel situado na rua Pouso Alegre n.° 404, de forma a garantir sua
existência, bem como a preservação de seu entorno visando a permanência da situação atual,
como forma de manter a memória urbano-social do local.
66
CASTRO, Célio. IN: Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo
Geraldo lemes Filho, 1997.
67
DULCI, Luiz Soares. IN: Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo
Geraldo lemes Filho, 1997.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
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6. Diretrizes de intervenção
A fim de viabilizar a recuperação do bem cultural em questão, a Diretoria de Patrimônio Cultural
entende que se faz necessário repensar a altimetria prevista para os lotes 19 e 20 do
quarteirão 008C, nos quais foi construída a casa da rua Pouso Alegre n.° 404.
Na revisão do Conjunto Urbano do Bairro da Floresta, ocorrida em 2005, o CDPCM-BH
estabeleceu que a altimetria para os lotes que possuem bens protegidos por tombamento tem
como referência a altura do próprio bem protegido. Entretanto, no caso específico da casa da
rua Pouso Alegre 404, é possível uma revisão desta diretriz, o que facilitará a viabilização
econômica da restauração do imóvel, visto que, para que esta ocorra, o proprietário do mesmo
alega precisar construir uma nova edificação nos fundos do terreno.
A exceção aberta neste caso se justifica pelas condições topográficas do local, posto que o
terreno, em declive a partir da rua Pouso Alegre, possui desnível aproximado de 10,0 metros.
Em função disto, entende-se que a adoção de altimetria que tome por referência, não o imóvel
tombado, mas a altura da edificação ao lado, isto é, rua Pouso Alegre n.°384 (com 04
pavimentos mais caixa d’água) poderá viabilizar economicamente a recuperação do bem sem
provocar impactos significativos no mesmo.
Outra visada do mesmo local. Abr/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Rua Pouso Alegre n.° 384. Abr/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
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Vista geral do entorno imediato, com a rua Pouso Alegre n.° 404 e seu vizinho imediato, localizado no n.°
384, com quatro pavimentos. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Visada do mesmo local a partir de outro ponto da rua Pouso Alegre. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC.
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
Visada da casa da rua Pouso Alegre n.° 404, a partir da parte baixa da rua Arthur Lobo. Abr/2009. Fonte:
arquivos DIPC.
Outra visada do mesmo local. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC
Dossiê de Tombamento
Rua Pouso Alegre n.° 404
Conjunto Urbano Bairro Floresta
293
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RUA
VARG
INHA
886655
RE
RUA POUSO
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338
338
338
338
338
310
310
310
310
310
404
404
404
404
404
384
384
384
384
384
886600
356
356
356
244
244
244
244
244
D
D
228
228
228
228
228
885555
151
151
151
151
151
210
210
885500
277
277
277
277
277
311
311
311
311
311
311
315
315
315
307
307
307
307
307
329
329
329
329
329
337
337
337
337
337
347
347
347
347
347
347
353
353
353
353
353
367
367
367
367
367
RUA CÉLIO DE CASTRO
RUA
162
162
162
162
162
RUA ARTUR LOBO
865
865
-
198
198
198
198
198
RUA PE
P
315
315
315
315
315
315
RUA
V
Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura
430
430
430
430
430
458
458
458
458
458
458
444
444
444
444
444
444
429
429
429
429
429
156
156
156
156
156
-156
472
472
472
472
472
437
437
437
437
437
142
142
142
142
142
405
405
405
405
405
405
391
391
391
391
391
Trecho do mapeamento cultural, com destaque para as curvas de nível e o lotes 019 e 20.
Fonte: arquivos DIPC.
Bem tombado
Registro Documental entregue
Bem Indicado para tombamento
Altimetria 07 metros
Registro Documental
Altimetria
Conforme levantamento planialtimétrico da PRODABEL, a rua Pouso Alegre se situa,
aproximadamente, na cota 865. Considerando uma edificação com quatro pavimentos mais
caixa d’água a partir deste nível, o limite altimétrico para a nova edificação seria a cota 880, ou
seja, considerando o nível mais baixo dos terrenos, cota aproximada 855, seria possível a
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construção de edifício com aproximadamente 25 metros de altura, como pode se perceber a
partir da simulação abaixo:
Destaca-se, no entanto, que a nova edificação deverá guardar afastamento mínimo de 5,0
metros do bem protegido, a fim de preservar a visibilidade do alpendre, com suas pinturas e da
arcada do porão alto.
Resumidamente, destacamos as diretrizes propostas para a construção de nova edificação nos
lotes 19 e 20 do quarteirão 008C:
- Considerando o levantamento planialtimétrico da PRODABEL, a nova edificação terá como
limite altimétrico a cota 880;
- A nova edificação deverá guardar afastamento mínimo de 5,0metros em relação ao bem
protegido;
- O volume relativo à caixa d’água deverá estar incluindo no limite altimétrico e compor o
volume principal da nova edificação;
- Não poderão ser utilizados materiais reflexivos no tratamento das fachadas.
Em relação à restauração do bem cultural, convém destacar que esta é um conjunto medidas
necessárias à conservação (preservação) e à recuperação dos valores arquitetônicos e
artísticos de um determinado imóvel. Essa abordagem é diferenciada do projeto convencional,
que tem como dados o elenco de necessidades (programa), o terreno, a orientação, etc. No
caso de uma restauração, o objeto é portador de valores outros que têm que ser considerados.
A qualidade do próprio objeto é que vai definir a metodologia.
O objetivo do projeto de restauração é propor soluções que se harmonizem à configuração
físico-espacial do edifício e que não alterem a sua concepção arquitetônica original. O projeto
pressupõe a atitude crítica do restaurador frente às diversas soluções de cada caso, além de
amplo conhecimento técnico especializado.
O restauro, como um ato crítico-criativo, considera que quanto mais íntegra a obra, mais
limitada deve ser a intervenção e que o uso não é a finalidade da restauração, mas deve ser
compatível. Não se deve impregnar a obra com valores da época da restauração. A ação
criativa deve buscar unidade entre o novo e o velho. As possíveis intervenções deverão ser
graduadas em função da escala de deterioração bem como ser identificáveis, diferenciáveis e
reversíveis, sem configurar mimetismos e fingimentos. O respeito à historicidade e a
importância estética devem existir e se equilibrar.
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A recuperação do imóvel deve ser realizada a partir de projeto global de restauração que
deverá contemplar, entre outros aspectos:
•
Manutenção da visibilidade da edificação a partir da rua Arthur Lobo;
•
Restauração das pinturas parietais externas e internas;
•
Recuperação das esquadrias originais;
•
Recuperação do barroteamento e do piso em tabuado;
•
Recuperação dos forros em madeira;
•
Recuperação da cobertura com manutenção da inclinação do telhado, do tipo de telha e
do engradamento em madeira;
•
Recuperação do reboco das alvenarias das fachadas;
•
Manutenção da volumetria original, incluindo a inclinação da cobertura, a sacada e
alpendre posteriores;
•
Recuperação dos vãos e das esquadrias da fachada da rua Pouso Alegre;
•
As arcadas do porão, voltadas para a fachada posterior, deverão ter a lacuna existente
(trecho demolido posteriormente)
recomposta em tijolo maciço, seguindo o raio da
arcada existente.
•
Demolição dos pilares em concreto feitos para reforço do meio arco, na porção
posterior, junto ao porão.
Demais aspectos referentes à restauração do bem cultura deverão ser previamente discutidas
com a equipe técnica da DIPC. O referido projeto deverá ser encaminhado para análise do
CDPCM/BH.
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7. Bibliografia
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