DOSSIÊ DE TOMBAMENTO RUA POUSO ALEGRE, 404 CONJUNTO URBANO BAIRRO FLORESTA Françoise Jean de Oliveira Souza Historiadora DIPC Karime Gonçalves Cajazeiro Arquiteta Urbanista DIPC ABRIL 2009 Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 1. Considerações Iniciais O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte-CDPCM/BH, em reunião realizada em 08 de outubro de 1996, deliberou pela proteção do Conjunto Urbano Bairro Floresta, definindo o perímetro desta proteção e as edificações que receberiam o tombamento específico (processo nº. 01.106250.95-57). Em reunião realizada em 16 de dezembro de 1996, embora reconhecendo o valor arquitetônico, histórico e referencial do Conjunto Urbano e dos bens tombados provisoriamente, o mesmo Conselho decidiu pelo acatamento de algumas impugnações ao tombamento, considerando inoportuno ratificar, naquela ocasião, o tombamento definitivo. Esta decisão deu-se com base na “perspectiva de uma política de proteção que contemple as possibilidades pedagógicas de esclarecimento e criação de uma consciência de preservação” com a “perspectiva de que o conceito de patrimônio cultural, seja cada vez mais debatido, entendido”.1 Diante de um maior amadurecimento da política de patrimônio cultural em Belo Horizonte e, conseqüentemente, da necessidade de rever as diretrizes estabelecidas para o bairro da Floresta e de adequá-las às novas demandas surgidas ao longo de uma década, a Diretoria de Patrimônio Cultural desenvolveu, ao longo do ano de 2005, um novo estudo do Conjunto Urbano Bairro Floresta, sugerindo a revisão do grau de proteção de determinados imóveis, das Diretrizes Especiais de Projeto e das diretrizes altimétricas. Em sessão extraordinária, realizada em 26 de abril de 2006, o CDPCM-BH deliberou, com base no estudo do Conjunto Urbano Bairro Floresta, aprovar a revisão das diretrizes gerais de proteção do conjunto, bem como o seu mapeamento cultural (Deliberação 040/2006, publicada no DOM de 27 de abril de 2006). Neste mapeamento, a casa da rua Pouso Alegre, 404 manteve-se indicada para proteção por tombamento. Em 02 de março de 2009, o Sr. Cláudio Sousa Santos, proprietário da casa em questão, solicitou que o CDPCM-BH desse celeridade à definição do grau de proteção do imóvel, visto 1 Ata da Reunião do CDPCM-BH de 16/12/1996. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura que o mesmo encontra-se em péssimo estado de conservação, estando, segundo laudo técnico a defesa civil, sob o risco de desabamento. Este dossiê de tombamento refere-se ao processo 01037016-09-05 que, por sua vez, encontrase apensado ao processo 01.059.214.95.17 do Conjunto Urbano Bairro Floresta. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 2. Política de Patrimônio Histórico Cultural A visão da preservação abrangendo conjuntos e centros urbanos e não apenas o objeto arquitetônico isolado começou a ser considerada em todo o mundo a partir das grandes reformas urbanas no século XIX. A origem dos conceitos atuais de "patrimônio urbano" liga-se ao arquiteto e urbanista italiano Gustavo Giovannonni, que em 1931, na obra Vecchie Città ed Edilizia Nuova2, reconhece o valor estético e histórico das partes antigas das cidades e a relação de complementaridade que têm com as partes novas. As recomendações contidas na “Carta de Atenas” de 1931 sobre a proteção de monumentos e sítios urbanos, baseadas nos conceitos de Giovannonni, serviram, dos anos 1930 até os anos 1970, como suporte para as ações de proteção. No Brasil, em 1937, o Decreto-lei nº 25 organiza a proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Na época, prevaleciam as ações de preservação de áreas urbanas bastante homogêneas, de estilo colonial, sendo freqüentes, inclusive, os “retoques” para a eliminação de detalhes arquitetônicos pertencentes a tendências estilísticas ecléticas, estranhas ao padrão colonial.3 A valorização das raízes nacionais e as conseqüentes ações de proteção do patrimônio cultural harmonizavam-se com os interesses do poder político central, representado inicialmente pelo Estado Novo e depois, nos anos 1970, pelos governos militares, os quais usaram a idéia de preservação para a promoção da integração nacional e do turismo regional. Nos anos 1970 promove-se uma nova e abrangente visão de patrimônio, reconhecendo-se o valor dos bens intangíveis. Recuperava-se, portanto, a idéia original de Mário de Andrade que, mesmo antes do Decreto-lei nº 25, considerava como bens a serem preservados as chamadas manifestações intangíveis, como a maneira de preparar uma comida, costumes, manifestações folclóricas, etc. 2 GIOVANNONNI, Gustavo. L' urbanisme face aux villes anciennes. Paris: Éditions du Seuil, 1998, com introdução de Françoise Choay. 3 Ressalte-se que no Brasil houve uma forte vinculação entre as idéias de preservação e o movimento moderno brasileiro e, assim como em outros países da América Latina, a arquitetura moderna é influenciada pelos códigos formais oriundos da arquitetura colonial. Os modernistas, também pioneiros das idéias de preservação no Brasil e que condenavam a presença de elementos ecléticos no tecido colonial, admitiam, no entanto, a inserção de obras modernas neste mesmo tecido, como é o caso do Grande Hotel de Ouro Preto e de Diamantina, de Oscar Niemeyer, demonstrando o grau de flexibilidade com que no Brasil se entendeu a idéia de homogeneidade estilística dos conjuntos urbanos, preconizada Giovannonni. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura A consolidação dos conceitos ligados à memória e ao patrimônio é resultado da formulação de idéias e apresentação das experiências dos países participantes dos vários encontros internacionais sobre a proteção ao Patrimônio Mundial, promovidos pela UNESCO. Em tais encontros produziram-se documentos referenciais, entre os quais cita-se a Carta de Veneza, de 1964; a Declaração de Amsterdã, de 1975; a Recomendação de Nairobi, de 1976; a Declaração do Conselho da Europa, de 1978; a Carta de Toledo, de 1987 e a Conferência de Helsinki, em 1996. A partir dos anos 1980, baseando-se nos conceitos da Carta de Amsterdã de 1975, há uma revisão conceitual propondo-se uma leitura acurada da diversidade arquitetônica existente nos lugares e das marcas que os processos históricos deixam no espaço, questionando-se a idéia vigente da valorização prioritária da homogeneidade estilística e o antagonismo entre “velho” e “antigo”. Assim, o espaço urbano é considerado como referencial simbólico e, em termos arquitetônicos, considera-se que não somente o patrimônio colonial, mas todas as intervenções estilísticas e períodos históricos têm interesse para a preservação, sempre que reforcem uma ambiência e contribuam para a coesão e manutenção dos valores identificados em um conjunto urbano. Neste sentido, considera-se que o que deve ser lembrado ou esquecido, preservado ou desaparecido não se liga necessariamente a acontecimentos e pessoas consideradas notáveis, mas a todas as manifestações sociais. Segundo Maria Beatriz Silva: tanto o exercício da memória, quanto a formação da identidade são, a nível individual, capacidades humanas, como andar, comer, dormir; porém, quando tomadas coletivamente, passam à categoria de direitos a conquistar, aos quais o maior obstáculo parece ser o interesse individual ou corporativo. 4 De fato, afirma Márcia Santianna: Esse novo conceito de cidade-documento justificou, assim, ao longo de toda a década de 80, a proteção de áreas urbanas sem grande interesse artístico ou estético, portadoras de conjuntos arquitetônicos heterogêneos e já bastante fracionados, mas que tinham muito a dizer sobre a história urbana do país. Os critérios de intervenção praticados anteriormente sofrem duras críticas nesse período, em favor de uma abordagem mais histórica e menos estética do patrimônio urbano.5 Em Belo Horizonte, desde 1994, a concepção de bem cultural da Carta de Amsterdã vem fundamentando as políticas de proteção do patrimônio, que se baseiam no conceito de 4 SILVA, Maria Beatriz Setubal de Rezende. Preservação na Gestão das Cidades. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional N - Cidadania. Rio de Janeiro: IPHAN, 1996. N.º 24. 5 SANTIANNA, Márcia, Critérios de intervenção em sítios urbanos históricos: uma análise crítica - em http://www.archi.fr/SIRCHAL/ em 27 de março de 2004. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura conjunto urbano e ambiência. Os conjuntos urbanos são agrupamentos de construções e espaços dentro da cidade onde se reconhece um grau expressivo de coesão e valores estéticos, arquitetônicos, sócio-culturais e históricos.6 O limite de proteção de tais conjuntos normalmente é definido por edificações referenciais, espaços polarizadores ou ambiências características, entendendo-se por ambiência o quadro natural ou construído que influi na percepção estática ou dinâmica desses conjuntos, ou a eles vincula-se de maneira imediata no espaço, ou por laços sociais, econômicos ou culturais7. De fato: (...) É importante ressaltar que essa ambiência pode incluir bens culturais dos mais variados usos, como residências, casas comerciais, instituições públicas, áreas verdes e de lazer. Essa pluralidade também se expressa nas opções construtivas que podem abranger desde ricos projetos arquitetônicos, como também edificações mais modestas, erigidas a partir do desejo de seus respectivos proprietários. Considerase que em ambos os casos estão expressas visões de mundo, experiências de vida, enfim, história rica em informações culturais que criam laços de pertinência e identidade do homem e sua cidade. 8 Na definição da proteção dos conjuntos urbanos a perspectiva de múltiplos olhares sobre a cidade ultrapassa o levantamento casa por casa, lote por lote, e registra o conjunto de seu cenário urbano, que se configura por suas especificidades internas e ao mesmo tempo como referência externa, quando alguém atravessa uma determinada parte da cidade. Os usos e apropriações do espaço são estudados segundo os conceitos de mancha urbana, pedaço, trajeto, pórtico, desenvolvidos pelo Núcleo de Antropologia Urbana NAU/USP, coordenado pelo professor doutor José Guilherme Cantor Magnani, assim definidos: A categoria pedaço é formada por dois elementos básicos: um de ordem espacial, físico que configura um território claramente demarcado. (...) O segundo elemento - a rede de relações - instaura um código capaz de separar, ordenar, classificar. É no horizonte da vida do dia-a-dia que o pedaço se inscreve, possibilitando o ingresso e participação naquelas práticas de forma coletiva e ritualizada. 9 (...) O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais 6 A Recomendação relativa à salvaguarda dos conjuntos históricos e sua função na vida contemporânea, 19ª Sessão UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, realizada em Nairobi em 26 de novembro de 1976, considera: “conjunto histórico ou tradicional todo agrupamento de construções e de espaços, inclusive os sítios arqueológicos e palenteológicos, que constituam um assentamento humano, tanto no meio urbano quanto no rural e cuja coesão e valor são reconhecidos do ponto-de-vista arqueológico, arquitetônico, pré-histórico, histórico, estético ou sócio-cultural”. 7 Definição contida na Recomendação de Nairobi op.cit. 8 Cartilha elaborada pela Gerência de Patrimônio Histórico Urbano da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2002. 9 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Da periferia ao centro: pedaços & trajetos. In: Revista de Antropologia. São Paulo: USP, 1992. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura densa, significativa e estável que as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade. 10. (...) A mancha, ao contrário - sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos, apresenta uma implantação mais estável, tanto na paisagem como no imaginário. (...) Uma área contígua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando uma atividade ou prática predominante. 11 (...) uma mancha é recortada por trajetos e pode também abrigar vários pedaços. (...) as marcas dessas duas formas de apropriação e uso do espaço - pedaço e mancha - na paisagem mais ampla da cidade, são diferentes. No primeiro caso, onde o determinante é o componente simbólico, o espaço enquanto ponto de referência é restrito, interessando mais a seus habitues. Com facilidade muda-se de ponto, quando então leva-se junto o pedaço. (...) A mancha, ao contrário, sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos, apresenta uma implantação mais estável, tanto na paisagem como no imaginário. As atividades que oferece e as práticas que propicia são o resultado de uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso, o que garante uma maior continuidade, transformando-a, assim, em ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários.12 (...) O trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos ligam pontos e manchas, complementares ou alternativos. (...) No interior das manchas os trajetos são de curta extensão, na escala do andar.13 (...) O termo trajeto surgiu da necessidade de categorizar uma forma de uso do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito pela categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto, remete a um território que funciona como ponto de referência – e, no caso da vida no bairro, evoca a permanência de laços de família, de vizinhança, origem e outros – trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas. Não que não se possa reconhecer sua ocorrência no bairro, mas é justamente para pensar a abertura do particularismo do pedaço que essa categoria foi elaborada. É a extensão e principalmente a diversidade do espaço urbano para além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por regiões distantes e não contíguas: esta é uma primeira aplicação da categoria. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos ligam pontos e manchas, complementares ou alternativos: casa /trabalho /casa; casa /cinema /restaurante /bar; casa /posto de saúde /hospital /curandeiro - eis alguns exemplos, dos mais corriqueiros, de trajetos possíveis. (...) os trajetos levam de um ponto a outro através dos pórticos. Trata-se de espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram 10 MAGNANI, José Guilherme Cantor in: Festa no Pedaço: Cultura Popular e Lazer na Cidade. São Paulo, Hucietec, 1998. 11 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Revista de Antropologia. 1992. Op cit. 12 http://www.aguaforte.com/antropologia/Rua1.html - 2003. 13 MAGNANI, José Guilherme Cantor. Revista de Antropologia. 1992. Op cit. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura passagens. Lugares que já não pertencem ao pedaço ou mancha de lá, mas ainda não se situam nos de cá; escapam aos sistemas de classificação de um e outra e como tal apresentam a "maldição dos vazios fronteiriços". Terra de ninguém, lugar do perigo, preferido por figuras liminares e para a realização de rituais mágicos, muitas vezes lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os lados. 14 14 http://www.aguaforte.com/antropologia/Rua1.html - 2003. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 3. Histórico do Bairro Floresta A paisagem da Floresta insere-se na complexidade da dinâmica urbana de Belo Horizonte: chácaras, vilas, casas, chalés e bangalôs, barracões e cafuas, jardins, varandas, escadas e quintais, escolas e colégios, bares e botequins, lojas, sorveterias, confeitarias, padarias e mercados, supermercados, hotéis e pensões, ruas, becos, avenidas e praças, calçadas e arborização e iluminação públicas, além das relações de vizinhanças, dentro e fora do anel da avenida do Contorno, o que lhe confere singularidade. Em primeiro lugar, ressalta a disposição das casas que, perpendiculares à rua, se alongam em direção aos seus respectivos quintais. (...) Coladas ou não umas às outras e (...) à rua, parecem um “cinturão” ou uma “muralha” que envolve um miolo constituído por todos os quintais contidos no quarteirão. De imediato, separam-se a rua, espaço conotado pela externalidade e o quintal que, não sendo casa, é, no entanto, da casa; que apesar de externo, não é a rua. Da rua não se vê o quintal e vice-versa. A casa, porém, “olha” igualmente para a rua e para o quintal. Esse olhar da casa para a rua não é o simétrico inverso da vista da casa para o quintal. Da casa olha-se para a rua, que, sendo pública, é de todos. A vista do quintal deve ser, em contrapartida, limitada ao nosso quintal pois, a materialidade dos anteparos (muros, cercas vivas, trepadeiras, etc.) expressa o direito a uma relativa invisibilidade. Essas fronteiras do respeito mútuo unem e separam ao mesmo tempo. Os quintais, enquanto parte do espaço privado da habitação, servem como palco para o desempenho de um conjunto de atividades. (...) O quintal enquanto extensão da casa, adquire, em primeiro lugar, um significado de intimidade. O acesso a esta área só é possível literal e metaforicamente, através da casa e, portanto, a “pessoa da casa”. No quintal se expõe uma dimensão da vida cotidiana que é recorrentemente escondida. (...) Arma-se um círculo vicioso: a vida na rua vai ficando problemática; a decadência, artificialmente provocada, justifica que se acelere o processo de destruição. (...) Demolir casas, afinal de contas, significa muito mais do que desfazer abrigos. Significa, às vezes, derrubar um modo de vida (...).15 A pesquisa documental e de campo no bairro da Floresta que subsidiou a proteção do seu Conjunto Urbano considerou as especificidades da sua paisagem e do seu cotidiano uma vez que a melhoria da qualidade de vida, tão ameaçada nos dias de hoje, depende em parte desse conhecimento e da valorização da cultura que nos cerca. Tão importante quanto preservar a natureza é também manter a feição dos lugares, prédios, ruas e outros ambientes que conformam a localidade em que vivemos e são incorporados e apreciados no nosso cotidiano. Não podemos esquecer, contudo, que ainda hoje, na prática, nem todos os segmentos sociais têm igual acesso ao conhecimento e ao significado desses bens culturais, seja pelas condições 15 SANTOS, Carlos Nelson F. dos et alli. Quando a rua vira casa: a apropriação de espaços de uso coletivo em um Centro de bairro. 1985. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura de vida e pela baixa escolarização de grande parte da população, seja pela pouca divulgação que lhes é dada.16 Antiga face a um moderno que se construiu para fora e para além dela, a Floresta aparentemente conformou-se com o fato de que o progresso não se constrói em suas ruas, mas ao contrário passa célere por ela, rasga seus becos, dilacera sua arquitetura, devora suas entranhas - o que não foi transmutado na voragem de mutação da paisagem, foi reduzido a ruínas, resíduos do tempo, relíquia de um passado irremediavelmente morto. 17 Ao contrário do que o senso comum acredita, a Belo Horizonte projetada pela Comissão Construtora, em fins do século XIX, não se restringiu à área interna anel de contorno. A área suburbana com suas ruas e praças constam da planta original, embora tenha sofrido grandes alterações devidas às apropriações espontâneas. Desse modo, os bairros da região ao redor da avenida do Contorno foram se formando, com suas ruas e praças, casas e quintais, chácaras e sítios, vilas e sobrados sem esperar as designações oficiais e desafiando a racionalidade do espaço urbano projetado. Assim, do outro lado do Ribeirão Arrudas, surge a Floresta, em uma elevação geográfica que revela a cidade desdobrando-se até a Serra do Curral. Surge sem nome certo, de início quase como um alongamento da Estação Ferroviária, abrigando primeiro operários envolvidos na construção da nova Capital. Depois, vieram os funcionários da Rede, os profissionais liberais, enfim toda a gente que se mudava para a Capital e se via atraída pela possibilidade de morar barato, estrategicamente próximo ao centro da cidade e em lotes com características de chácara18 A 14ª seção urbana nem chegou a ser implantada de acordo com a planta inicial, mas sofreu modificações tão profundas que, hoje, com suas ruas abertas em diversas direções, algumas tortuosas e estreitas, não parece parte da zona urbana.19 A origem do nome Floresta para o bairro tem várias versões. De acordo com Abílio Barreto, remonta à época em que na subida da avenida do Contorno foi instalado o Hotel Floresta, famosa casa de boemia de propriedade dos senhores Carlos Monte Verde e Eduardo Spiller. A fama do referido estabelecimento parece ter durado ainda vários anos espalhando-se para além do bairro Floresta. O Hotel Floresta era uma grande sala de frente com botequim, tendo aos fundos uma porção de quartinhos de porta e janella, um cortiço ou bom16 MARIANI, Alayde Wanderley. In: MEMÓRIA E EDUCAÇÃO. Rio de Janeiro: IBPC, 1992. 17 PAISAGEM FLORESTA. op. cit. 18 STARLING, Gustavo A M et. alli. Paisagem Floresta. Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de Histórico de bairros da Região Leste, Secretaria Municipal de Cultura/PBH, 1990. 19 NUNES, Ismaília de M. in GOMES, Leonardo J. M. Memória de ruas: dicionário toponímico da cidade de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura será, na gyria do povo installado especialmente para hospedagem de horizontaes, era um hotel bulhento, de orgias e escandalos, onde se reunia, até altas horas da noite, a bohemia inveterada, em desbragados regabofes de comes-e-bebes, ao som de uma concertina, que o socio Spiller sanfonava todas as noites, aboletado sobre um tamborete a um angulo da sala. Não havia, então, outra coisa de que a rapaziada bohemia de Bello Horizonte mais falasse do que no Hotel Floresta, que era o prato do dia na chronica policial. E assim, de tanto ser falado o seu famigerado nome, este se foi radicando ao local que não tinha denominação alguma anteriormente; de sorte que, quando, mais tarde, foi surgindo o lindo bairro, que é hoje um dos mais importantes e bellos da Capital, começou a ser designado pelo nome de Floresta, denominação que foi sanccionada pela Prefeitura, quando inaugurou, mais tarde, a linha de bondes para alli, collocando no carro que iria circular no bairro a taboleta –Floresta.20 Na curva das onze, sobe o bonde em direção à Pensão Floresta, a mais famosa “casa de encontros” da Capital. Michê disputado, rivalizava-se tanto com o portão inacessível de Madame Olímpia na avenida Oiapoque, quanto com as vedetes da rua Guaicurus - Zezé Bagunça, Maria Bango Bango, Geralda Jacaré. Dependendo da bolsa, o freguês subia para a pensão Floresta ou descia as ladeiras do Arrudas doze quarteirões de casas que desaguavam no quadrilátero da zona. Descer ou não descer, meditava Pedro Nava nos idos de 22 - eis a questão.21 Outra versão para a origem do nome Floresta é a de que o bairro passou a ser assim chamado em decorrência das muitas árvores existentes na região, então ocupada por chácaras e sítios. De vários pontos da cidade, o olhar podia avistar uma imensa área verde. Muita gente achava que o nome teria a ver com uma floresta que iria até a Vila Maria Brasilina, onde existia a fazenda de João Gualberto, hoje Sagrada Família, ou mesmo até o Matadouro, agora bairro São Paulo. Há quem ache que Floresta se deve às chácaras que havia na região, entre elas a dos Negrão de Lima - toda a área entre as ruas Pouso Alegre, Itajubá, Salinas e Jacuí - e a dos Mendes, onde hoje existem as ruas Raul Mendes e Bueno Brandão.22 Ainda em relação à origem do nome do bairro, uma terceira versão afirma a existência de um bar próximo à linha férrea que pertencia a um espanhol que tinha o apelido de Floresta. Não há como constatar, com certeza, qual das três versões é a inteiramente correta.23 Talvez venha das chácaras, das antigas bananeiras, dos jatobás e jenipapos, o nome do bairro. Ou talvez venha dos eucaliptos plantados ao longo do trecho da avenida do Contorno, entrada da Floresta. De certo, conta-se que havia primeiro um bar, nos fundos da Estação, 20 BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva - história antiga e história média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1995. 21 STARLING, Gustavo A.M. et alli, op. cit. 22 CASAL VINTE (pseudônimo) Floresta: onde o “flirt” fechava o trânsito Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Cultura/ PBH, 1990. 23 Segundo crônica de Moacyr Andrade reproduzida em: Floresta, onde o “Flirt” fechava o trânsito. op. cit. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura subida para o bairro, por onde os operários passavam por volta de 1896, e que tinha na tabuleta o nome de Floresta. Mais certo ainda, foi a existência do Hotel Floresta, também localizado no subida do bairro, de preços acessíveis e por isto mesmo muito popular, de movimento intenso e ponto da boemia da época. Por que motivo bar e hotel se chamavam Floresta, não há como saber com precisão histórica.24 A cidade fora idealizada para ser o centro administrativo do Estado e a falta de previsão, pelos planejadores, de um espaço de moradia para os trabalhadores fez com que a ocupação de região tão próxima à área central ocorresse à revelia dos planos e projetos, propiciando, inclusive, a existência de muitas vilas. Nas imediações de onde se situa hoje a rua Sapucaí havia uma vila de operários que trabalharam na construção da cidade e da estrada de ferro. Na esquina da avenida do Contorno com rua Sapucaí funcionou, segundo fontes orais, o primeiro cartório de Belo Horizonte, de propriedade do senhor João Bracarense. Ainda existe ali a pequena Vila Bracarense, onde moram alguns de seus descendentes. A falta de previsão, pelos planejadores, de um espaço de moradia para os trabalhadores fez com que a ocupação de região tão próxima à área central ocorresse à revelia dos planos e projetos. Com a construção da Estrada de Ferro, chegaram muitos imigrantes italianos que se instalaram na hospedaria construída pela Comissão, às margens do Rio Arrudas, bem no início do bairro Floresta. Também nestes arredores, através da Estação, foram construídos aglomerados de barracões que chamaram de “Favela” (nome de um morro do Rio de Janeiro, naquela época. Favela é também uma árvore pequena da família das leguminosas, de flores amarelas que fornece madeira própria para marcenaria. Foi trazida para o Rio de Janeiro pelos ex-escravos baianos, e hoje é nativa de Pernambuco até São Paulo) e que foram demolidos por ocasião da inauguração da cidade para dar lugar a novas casas. 25 A maioria dos imigrantes que vieram para Belo Horizonte tinha profissões no setor agrícola (43.998), mas os dados registram 6.316 imigrantes sem profissão definida e 2.268 artistas. Nesse período, os custos de imigração foram arcados, majoritariamente, pelo Governo do Estado. 26 Durante a construção da nova capital, pelo menos duas visões sobre a cidade vão sendo construídas, uma no discurso oficial, outra na prática operária: Inexistentes no discurso oficial, a não ser como “mão de obra” a ser aumentada ou reduzida, os trabalhadores, “construtores” de fato da cidade, tem também sua palavra sobre Belo Horizonte que pode ser encontrada no jornal “O operário” da Liga Operária onde a presença de italianos é absolutamente preponderante. (...) Enquanto que para os engenheiros positivistas, O TRABALHO é cantado em versos como 24 STARLING, Gustavo A.M. et alli. op.cit. 25 A vida é Esta.... Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste - bairro Floresta, Secretaria Municipal de Cultura / PBH, 1990. 26 MONTEIRO, Norma Góes. Imigração e Colonização em Minas: 1889-1930. Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1973. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura abstração, para os membros da Liga Operária de inspiração anarquista, ser trabalhador dá direito a viver na cidade e não além dos muros, direito de se organizar dentro e fora do trabalho, de ter lazer em praça pública da cidade oficial.27 Na memória de Osvaldo Rossi, morador antigo da Floresta, a imigração da Itália para o Brasil e o trabalho na construção de Belo Horizonte misturam-se com a própria formação do bairro. Olha, tem mais de cem anos que ele [o pai] veio. Ele estava ajudando a construir a Secretaria do Interior, ele ajudou a fazer o Palacete Dantas. Ele trabalhou muito tempo ali com um escultor, que morreu, que também era italiano. Ele é da Província de Ravena. Então ele veio e primeiro tinha assim um acampamento lá na Igreja da Boa Viagem. Depois ele mudou aqui para Santa Efigênia que também tinha um conjunto de estrangeiros, de muitos italianos. Então ele comprou esse terreno. Aqui era duzentos réis o metro quadrado. Tem até, me parece, o recibo do lote ainda escrito... isso aqui era colônia. Aqui era tudo chácara. A rua Floresta ali tinha árvores grossas assim, sabe? Aqui na rua Salinas tinha uma árvore bonita, quase em frente à rua Ipiranga era tudo cheio de árvores, era uma mata. Ali tinha uma chácara que era só mangueira, mas tinha umas cinquenta. E quando foi em 1920, ele elevou dois cômodos lá na frente, que as minhas irmãs já estavam mocinhas, então ele fez aqueles dois cômodos lá na frente mais bem feito, moldurado...Os pedreiros antigos eram todos italianos, eram todos quase escultores.28 Naquela época, a avenida 17 de Dezembro - que desde o início ficou conhecida como Contorno - já dividia o bairro ao meio. Um lado de dentro do anel, na área urbana, e outro de fora, na área suburbana, uma parte centro, outra parte bairro. Os dois lados, entretanto, parecem ter ignorado tal separação. Ao contrário, integraram-se num todo estabelecendo para o bairro outros limites não muito rígidos. Bem diferente do traçado urbano interno à avenida do Contorno, as ruas do bairro não obedeceram ao traçado inicial da Comissão Construtora, mesmo aquelas que se encontram na zona urbana. Como mencionado anteriormente, a ocupação urbana da Floresta teve o seu embrião na Favela, também conhecida como Alto da Estação. Na favela, ficou evidente a oposição ao esquema disciplinar projetado pela Comissão Construtora para a moderna capital do Estado. Ali residiram trabalhadores, aventureiros e imigrantes com um modo de vida diferenciado em relação aos pressupostos da higiene, da arte e da regularidade idealizados.29 Este 27 LE VEN, Michel M. Engenheiros e cidade no século XIX. Belo Horizonte, (mimeo), 1996 28 Oswaldo Rossi, entrevista realizada em 08/09/1995. O lote e a casa a que se refere ainda existe na rua Salinas, nº 683. 29 LIMA, Fábio José Martins de. Bello Horizonte: um passo de modernidade. Salvador: FAUFBA, 1994, mimeo. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura antagonismo da ocupação inicial refletiu-se na consolidação do bairro Floresta na 14ª seção urbana e parte das 6ª e 7ª seções suburbanas. Acima da projetada rua Sapucaí, (onde) ia-se adensando uma povoação de cafuas e barracões de zinco, (...) onde morava gente operária, (um) aglomerado de gente pobre, (no morro atrás da estação Minas, o grande portal de entrada e saída da cidade) (...) um provisório barracão de tábuas coberto de zinco, plantado no meio de uma esplanada que estava sendo preparada. Além da Favela a cidade tinha grandes núcleos populosos, tais como: Lagoinha, Calafate, Pampulha, Cardoso, Pastinho, Menezes, Bom Sucesso e outros. Nos pequenos montes e vales circunvizinhos existem núcleos igualmente populosos, também na sua maioria, formados de casas de construção ligeira e grosseira, denominadas cafuas, cujos moradores, na maior parte, são operários. (...) Durante os dias era aquele ardor de trabalho por todos os ângulos da localidade e às noites, enquanto o centro do arraial habitado pela gente ordeira e morigerada descansava sob a vigilância do capitão Lopes, os dois grandes e barulhentos bairros de cafuas e barracões provisórios - a Favela e o Leitão - fervilhavam em orgias e algazarras dos vadios e das mundanas, que ali enxameavam em promiscuidade com pobres famílias de operários (...)"30 Quem consultar a planta original de Belo Horizonte, aquela dos tempos do Aarão Reis, encontrará nela o bairro da Floresta. Porém com um traçado bem diferente. As ruas têm outra disposição, outros nomes, muitas delas não existiam. Muitas casas mudaram e continuam a mudar. Já naquela época a Floresta era um bairro por onde ‘se passava’. Passava gente a pé indo ‘pra cidade’, passava boiada indo pro matadouro, passava gente a cavalo indo para os bairros mais humildes da periferia, passava o bonde, passava o trem!31 A apropriação do lugar, feita por meio de moradias improvisadas, transgrediu o traçado geométrico delineado na planta geral, para o urbano e o suburbano, pela Comissão Construtora. Situado nas franjas da avenida do Contorno, o bairro Floresta surge insubmisso, desafiando o risco de racionalidade com que Aarão Reis pretendia controlar o crescimento e o desenvolvimento do espaço urbano. Em princípio, o bairro apenas reflete o movimento da cidade: Belo Horizonte se contorce e solta, território desordenado, espalhandose sem limites. A rigor, e ao longo dos anos seguintes, a cidade apenas traduz, com perfeição, os limites da modernidade desencantada que a gerou no coração arcaico das Minas. Construída na imagem sedutora do moderno, impregnada por uma fé absoluta na idéia de progresso, a cidade transforma-se ela mesma, em ícone da modernidade: nutre-se do progresso, desatando a voracidade de uma visão transformadora da paisagem; incorpora, em seu próprio movimento, a máquina e a 30 BARRETO, Abílio. op. cit. 31 FLORESTA CANTO DE GALO E APITO DE TREM Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura explosão, igualmente signos de uma modernidade que purifica e destrói, é alicerce do progresso e base do ritual de passagem para ele.32 Os barracões e cafuas feitos com restos de materiais, muitos deles situados no morro atrás da estação, registravam uma outra forma de ocupação do território, uma outra paisagem na moderna capital planejada sobre o antigo arraial. Casas velhas, cafuas, choupanas, ruas estreitas e tortas, largos e praças irregulares - eis o que se nota ainda do velho Curral del Rei. Umas centenas de cafuas e barracões que se vêem agrupados ou disseminados aqui, acolá, são tendas dos operários da nova cidade, e que são demolidos com a mesma facilidade com que são construídos (...). (...) Contraste de velharias e novidades: ao pé de uma cafua de barro coberta de capim ou de zinco eleva-se um edifício elegante e sólido; ao lado de um edifício velho do Curral del Rei surge um primoroso palacete da nova capital; junto de uma estreita e pobre rua, formada de casas e choupanas de todos os tons e categorias, que atestam a modéstia ou a pobreza dos antigos (e dos novos) habitantes do Curral, estira-se desafrontada, larga e extensa rua da nova cidade. Mas essas cafuas, essas velhas casas e essas ruas irregulares do Curral vão desaparecendo, pouco a pouco, ao passo que, como por encanto, surgem outras novas. 33 Essa ocupação, que se deu lado a lado com a edificação de Belo Horizonte, decorreu de expressões culturais distintas, quase sempre reprimidas. Entre os anos 1911 e 1914, a erradicação do Alto da Estação foi implementada. Os seus moradores foram removidos para a Barroca e para a Pedreira Prado Lopes, em locais desprovidos de qualquer tipo de serviços. As favelas do Leitão e a do Alto da Estação estavam formadas em 1895; a da Barroca surgiu em 1925, a da Cachoeirinha em 1930 e a dos Marmiteiros em 1942. Toda essa população foi deslocada, excluída pela racionalidade da planificação, e como favelada permaneceu nos belos horizontes da Capital Mineira. Nos anos 50, nas proximidades do Ribeirão Arrudas e do Matadouro Perrela uma outra favela compôs parte da paisagem da Floresta. Os jornais (...) reportavam do fluxo contínuo de pessoas de cor. Jornalistas escreviam sobre a emergência de grupos de cultos Afrobrasileiros que se espalhavam nos subúrbios da cidade. Não satisfeitos com este desenvolvimento, uma nota oficial invocava a ação da polícia no sentido de prevenir essa mistura de ramificações negras preservando hábitos e costumes congoleses e senegaleses em uma capital civilizada como Belo Horizonte.34 A Ilha dos Urubus era uma pequena favela, (...) um desafio a todas as regras de higiene. Ali viviam em torno de 2000 pessoas em total miséria. Das favelas da cidade, era o tipo mais rudimentar. Mas os seus 32 PAISAGEM FLORESTA. op. cit. 33 BARRETO, Abílio. op. cit. 34 ADELMAN, Jeffry. Urban planning and reality in epublican Brazil: Belo Horizonte, 1890-1930. Bloomington: Indiana University, 1974, mimeo. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura moradores tinham ali um lugar privilegiado, nas imediações das indústrias e próximo da zona central da cidade35 Uma outra forma de ocupação foi a colônia agrícola, assentamento proposto pela Comissão Construtora para a produção de gêneros alimentares. Uma das primeiras, o núcleo do Córrego da Matta, que posteriormente recebeu a denominação de Colônia Américo Werneck, situava-se além dos limites da avenida do Contorno, abrangendo uma parte significativa do que hoje é a Floresta, Santa Tereza e Horto. A sua criação foi deliberada pela Lei nº 150, de 20 de julho de 1896, juntamente com a colônia agrícola do Carlos Prates, e foi instalada antes mesmo da regulamentação da citada lei. A colônia, hoje bairro Carlos Prates, compreendia os terrenos dos vales dos córregos do Pastinho, Pinto e Ribeirão Arrudas. A Colônia Américo Werneck situada na VII Seção Suburbana, com uma área de 144,8 hectares, englobou as terras do Sítio da Matta, uma das propriedades adquiridas pelo Estado por meio das desapropriações efetuadas pela Comissão Construtora. Em 1899, pelo Decreto nº 1276, foram criadas mais três colônias agrícolas: Bias Fortes, no vale do Córrego do Cardoso, Afonso Pena, no vale do Córrego Leitão e Adalberto Ferraz, no vale do Córrego do Acaba-mundo.36 O bairro, nos idos dos anos 1910, limitava-se a alguns quarteirões da Pouso Alegre entre Januária e Jacuí, onde o menino Pedro Nava viveu parte da sua infância, junto com muitos parentes. O tio de Nava, um arquiteto conhecido como Coronel Júlio Pinto, adquiriu na Floresta várias casas onde foi se acomodando parte da família do escritor vinda do interior de Minas. O próprio Pedro Nava morou em casas diferentes na Floresta, com a vizinhança ilustre de Carlos Drummond de Andrade. Outro antigo morador do bairro descreve a Chácara que ocupava todo o quarteirão acima da Januária: A Mata do Sabino Barroso situava-se na área compreendida pelas ruas Pouso Alegre, Jacuí e Ponte Nova. No meio da linda mata, havia um castelinho de cúpula grande no meio, ladeada por duas menores; uma escadaria larga em baixo, estreitando para cima, jardins gramados com palmeiras e muitas árvores frutíferas. Situava-se no meio da rua Januária, dando frente para a Barroso, e atraía muita gente para conhecê-lo. Foi demolido por volta da década de 40 dando lugar a continuação da rua Januária.37 Um quarteirão abaixo da Januária fica a rua Célio de Castro, antiga rua Rio Preto onde ficou famoso o barranco do português Beltrão. Como a rua era muito íngreme, os meninos gostavam 35 TEULIÈRES, Roger. Bidonvilles du Brésil: les favelles de BH. In: REVUE LES CAHIERS D'OUTRE-MER. Bordeaux: tome VIII, 1955, p.30-55. 36 PLAMBEL - O processo de desenvolvimento de Belo Horizonte: 1897-1970. Belo Horizonte (mimeo) 1979. 37 BORGES, Marcos de C. Vamos Passear na Floresta. Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste - bairro Floresta, SMC/PBH, 1990. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura de nela escorregar sobre pedaços de tábuas, versão florestina, de esportes contemporâneos, como o surf e o skate: Seu Beltrão morava na rua Rio Preto entre rua Januária e Artur Lobo, em uma casa onde hoje existe uma casa de freiras. Neste trecho a rua não estava aberta, isto é, não havia ligação entre Januária e Artur Lobo. (...) Era uma rua sem saída, tendo de um lado as casas e do outro o “Barranco do Seu Beltrão”. (...) De vez em quando apareciam caminhões fazendo bota-fora de terra o que permitira que os meninos viessem correndo na rua e dessem grandes saltos na terra fofa pelo barranco abaixo. Às vezes a confusão era maior e o seu Beltrão aparecia gritando e xingando e os meninos com medo debandavam. Ele era barrigudo, andava com relativa dificuldade, ajudado por uma bengala e a única agressão era verbal, mesmo assim impunha respeito.38 Numa das casas do barranco morou a família Figueiredo Souza, Dona Maria e Seu Henrique, pais do Betinho, do Henriquinho - o Henfil - e do Chiquinho, para citar apenas seus filhos mais famosos. Na esquina com Jacuí, a rua terminava com um grande muro da Chácara do Dr. Célio de Castro, dentista cuja entrada era na avenida do Contorno nº 333 e onde mais tarde funcionaram sucessivamente a Escola de Comércio, o Colégio Humberto Rosas e a sede da UTE - União dos Trabalhadores do Ensino. À direita, esquina com rua Plombagina, era a chácara da Família Sales.39 Na rua Pouso Alegre, à esquerda, próxima à rua Varginha, ficava a chácara da viúva Olinta Negrão, onde ainda existe um terreno murado com pedras da época e uma ruína. No próximo quarteirão, entre Januária e Jacuí instalou-se, em 1909, o Colégio Santa Maria no terreno da mata do senhor Sabino Barroso. O Colégio, da Congregação das Irmãs Dominicanas do Santo Rosário, foi fundado em 1903 e começou a funcionar na casa do Dr. Antônio Olinto dos Santos Pires (já demolida), que ficava na esquina da rua da Bahia com Aimorés. Depois foi transferido para a casa do Conde de Santa Marinha na rua Januária, nº 130, já no bairro Floresta. Somente mais tarde foi construído o prédio na rua Jacuí, 237. O projeto de José Verdussem para o Pavilhão de Nossa Senhora foi concluído em 1909 e nele o Colégio Santa Maria instalou sua sede definitiva. A este pavilhão original foram agregando-se outras edificações nos anos 1920. Em 1936, foi construída a capela neogótica pelo engenheiro Carneiro de Rezende, e da França vieram a lâmpada do Santíssimo e as imagens. Em 1953, foi construído o Teatro Santa Maria. Em 1954 foi concluída a edificação hoje existente no alinhamento das ruas Pouso Alegre e Jacuí. O pavilhão original mantém a fachada frontal e os jardins são hoje um belo pátio interno. O Colégio Santa Maria tornou-se famoso na formação 38 A Vida é Esta... 1990, op. cit. 39 A Vida é Esta... 1990, op. cit. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura das filhas de respeitados senhores da capital e do interior. Foi o primeiro colégio para moças em Belo Horizonte tendo sido agraciado pela Câmara Municipal de Belo Horizonte com o diploma da Ordem dos Pioneiros. Até então, as mulheres, quando estudavam fora de casa, iam para internatos em Campanha e Diamantina, ou para o Rio de Janeiro. A educação das mulheres estava condicionada à posse das famílias, como no período colonial, onde as filhas das famílias ricas estudavam nos Recolhimentos de Macaúbas ou do Tejuco. O Colégio Santa Maria funcionou desde o início, com o regime de internato, semi-internato e de externato. A Escola Santa Catarina de Sena foi criada em 1917, pelas freiras do Colégio Santa Maria, para atender meninas pobres. Tal instituição proporcionava, além dos estudos normais, aulas de bordado, costura, trabalhos manuais e tudo o mais que era considerado útil às mulheres daquela época. Em 1941, as Dominicanas fundaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria, embrião da PUC-MG, criada em 1949. A Paróquia de São Pedro Apóstolo foi criada em 1953, mas as missas ainda continuaram sendo celebradas na Capela do Santa Maria. Para a construção da Igreja, a Diocese comprou das Irmãs Dominicanas, por preço simbólico, uma área do bosque do Colégio Santa Maria, constituída das ruas Jacuí, Ponte Nova e Januária. A Igreja foi inaugurada somente em junho de 1968. Em março de 1918, o Colégio Batista iniciou suas atividades numa casa da rua Pouso Alegre, nº 602. O colégio funcionou numa casa, tipo castelo, da rua Pouso Alegre, bem defronte da rua Januária e dizem que ali fora residência do Senador Sabino Barroso. Atualmente, o colégio funciona na rua Ponte Nova, nº 665, esquina com rua Plombagina e dá nome a região conhecida como Colégio Batista e não mais como Floresta. Outros colégios católicos surgiram na Floresta, como o Colégio Nossa Senhora das Dores situado na avenida Francisco Sales, nº 77, na esquina da rua Itajubá, e nesta rua funcionou também, por muitos anos, o Colégio Nossa Senhora de Fátima, dirigido pelo Padre Afonso. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Bairro Floresta, por volta dos anos 20, visto pela rua varginha. Fonte: APCBH Vista do Colégio Batista nas imediações do bairro Floresta. Fonte: APCBH Na década de 20, as ex-colônias foram anexadas à cidade tendo os seus terrenos parcelados em lotes, por companhias de desenvolvimento e por especuladores. A conversão das fazendas em vilas ampliou as áreas residenciais de Belo Horizonte e aumentou o lucro imobiliário. A ampliação do sistema de bondes, que favoreceu muito o sucesso dos empreendimentos, atesta o aumento da população na área externa da avenida do Contorno.40 No dia 23 de setembro de 1923 é inaugurado o prolongamento da linha de bondes da Floresta, que partindo da praça São João del Rey ia ter à rua Hemílio Alves, seguindo pela avenida Contorno.41 Esta ampliação periférica incentivou a construção de edificações ao longo dos itinerários de bondes. Os empreendedores adquiriram terrenos extensos, grande parte por compra direta do Estado 42 , dividiram as propriedades em pequenos lotes, ordenaram as ruas e, de maneira vigorosa, anunciaram a sua venda, com promessas de suprimento de água, serviço de bondes, praças e escolas. Dos serviços oferecidos, somente o sistema de bondes atendia a maioria dos habitantes. As linhas permitiam o acesso da população, que ocupava a periferia, ao centro da cidade, como a linha Contorno-Horto, que atendia aos moradores de áreas localizadas muito além dos limites previstos pelo planejamento da cidade. Rangiam os trilhos na rua Pouso Alegre, viravam os bancos, retornava o bonde do fim da linha, descia atrasado a Floresta, em direção ao bar do Ponto, aos abrigos da rua Ceará e Pernambuco. Atravessava a cidade, cortava a arquitetura eclética de suas casas, platibandas, colunas, 40 TEIXEIRA, Maria Cristina Ville Fort. Preservação e percepção de um bairro pericentral: a Floresta. Belo Horizonte: IGC/UFMG, 1996. 41 STIEL, Waldemar Corrêa. História do transporte urbano no Brasil. 42 REGISTRO DE LOTES DA EX-COLÔNIA AMÉRICO WERNECK. Bello Horizonte: Prefeitura, s.d. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura capitéis, molduras de feitios geométricos ou floral; passava pelos ficcus da Contorno (...) suspiravam os rapazes quando, em um cruzamento repentino, encontravam, inalcançavel, o bonde particular do Colégio Santa Maria que trazia para o bairro as mais belas moças da cidade, mas guardava também a freira severa e rígida a vigiar os olhares furtivos trocados por entre os carros - Ah, era por vezes inatingível este bairro da Floresta!"43 Uma das formas de ocupação do bairro, já mencionada, foi a das vilas, que: constituem um aspecto de um processo mais amplo de construção de habitações.(...). A presença de vilas, isto é, conjuntos de casas construídas no interior de um terreno, o qual contem uma entrada que comunica a via pública à via interna para qual as casas estão voltadas. Esta descrição corresponde ao modelo mais usual de vilas, embora haja muitas variações dele. Há vilas de todos os tamanhos e de variada estruturação interna, comportando desde uma rua apenas até várias ruas, jardim, praça de esportes e outros bens de uso coletivo44 As vilas marcaram presença tanto no urbano como no suburbano da cidade, o que alterou o traçado projetado pela Comissão Construtora. Em 1930, existiam 25 vilas em Belo Horizonte. A sua adequação à urbanística da nova capital foi feita por meio de ajustamentos dos regulamentos para a construção. Além das iniciativas no âmbito privado, o Poder Público intervinha também para a criação das vilas através da concessão de títulos de propriedade. A moradia dos operários, desconsiderada no planejamento urbano, foi implementada através das vilas, que se consolidaram na da cidade. Na Floresta, as vilas representaram uma forma importante de ocupação: A Vila Gruta Floresta, situada na esquina da avenida do Contorno com rua Curvelo, a Vila Sebastiana, localizada na rua Sapucaí e a Vila Inhá, fixada na rua Floresta.45 A preocupação do Governo em localizar os operários em vilas ‘provisórias e gratuitas’, não permitindo a permanência dos mesmos em outros pontos, denuncia o critério segregativo que norteou a ocupação do espaço (da capital mineira).46 Nas primeiras décadas deste século, as alterações da paisagem urbana de Belo Horizonte foram influenciadas pelos modismos rápidos e episódicos.47 A cidade expandida implicou, como ainda implica, em recorrentes surtos de modernização, que tornam obsoletos, com enorme rapidez, os avanços anteriores. A Floresta com o seu urbano-suburbano passou por 43 PAISAGEM FLORESTA. op. cit. 44 BLAY, Eva Alterman.Eu não tenho onde morar: vilas operárias na cidade de São Paulo. São Paulo: Nobel, 1985 45 TEIXEIRA, Maria Cistina Ville Fort. op. cit. 46 PLAMBEL, op. cit. 47 ADELMAN, Jeffry op. cit. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura essas mudanças, como pode ser constatado nas alterações da paisagem do bairro, no curso deste século. Ainda nos anos 30, o Parque Municipal, idealizado para ser um dos maiores e mais belos da América do Sul, foi reduzido à metade. Aproximadamente a terça parte da sua área inicial, inserida na Floresta, foi convertida em lotes edificáveis. Ao longo do ribeirão Arrudas e margeando a via férrea, foram implantadas indústrias cerâmicas, serrarias e de beneficiamento de pedras - consolidando um processo iniciado antes da virada do século. Esta foi outra novidade incorporada nos trabalhos de construção da cidade, na administração do engenheiro Francisco Bicalho, que substituiu Aarão Reis na direção da Comissão Construtora: “instalação de estabelecimentos industriais, que serão notável elemento de vida para a nova cidade, por proporcionarem matéria prima para as novas construções.48 No eixo da Assis Chateaubriand e em suas adjacências foram implantadas imponentes edificações - chalés, bangalôs, solares, além das variações das casas-tipo da Comissão Construtora vinculadas ao ecletismo - que marcam a arquitetura do bairro. Até 1934 era Belo Horizonte a 'cidade vergel' cheia de lindos e numerosos 'bungalows'. Bairros como o de Santo Antônio, Serra e Floresta, ostentavam os mais variados tipos de residências, obedecendo a esse decantado estilo arquitetônico. A arborização ensombrando as ruas largas era então mais notada, pois o casario ficava sob as cúpulas frondosas dos já crescidos 'Ficus benjaminis'. A cidade vista do alto parecia uma imensa floresta cujas árvores fossem mais ordenadas, mais simétricas, do que as que formam as selvas naturais49 Construídas em períodos distintos, muitas dessas edificações destacam-se, ainda hoje, em meio aos prédios edificados posteriormente. A arquitetura vertical da Floresta foi inaugurada pelo edifício Chagas Dória que, projetado por Alfredo Carneiro Maretrof, em 1934, na esquina da rua Sapucaí com a avenida Assis Chateaubriand é um dos únicos na Floresta que se impõe com singularidade, marcando a paisagem do bairro. Os novos prédios altos alteraram em parte a imagem urbana da Floresta que, no entanto, ainda mantém uma horizontalidade predominante, entre um e quatro pavimento, conforme levantamento altimétrico apresentado em mapa anexo. O uso residencial, entretanto, foi sendo substituído pelo uso comercial e de serviços. A interferência na paisagem do bairro dessa 48 LIMA, Fabio José Martins. op. cit. 49 BARRETO, Abílio. Resumo histórico de Belo Horizonte: 1701-1947. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1950. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura forma de ocupação verticalizada, bem como a alteração de uso, acarretaram a demolição de casas, e alteraram os modos de vida na Floresta. Anteriores ao processo de verticalização, os viadutos de Santa Tereza e da Floresta constituem-se em pórticos do bairro e marcam espaços que pertencem, também, a um outro conjunto urbano protegido por tombamento: a Praça da Estação. O Viaduto de Santa Tereza foi inaugurado em 1928, com iluminação instalada no ano seguinte. Além de acabar com os choques entre bondes e locomotivas, foi construído numa perspectiva de embelezamento e monumentalidade, que influenciava as obras da engenharia desde o oitocentos. A construção do Viaduto Arthur Bernardes (Santa Tereza) veio resolver o problema da ligação entre o centro e o bairro Floresta, e o problema de passagem para os bondes. As linhas dos bondes que faziam esse percurso cruzavam com as linhas da Central do Brasil e da Rede Mineira de Viação. Algumas vezes aconteceram acidentes: os bondes perdiam os freios na rampa e trombavam nos trens, ou atingiam os bondes, fazendo vítima50 O viaduto foi projetado pelo engenheiro Emilio Henrique Baumgart, que formado pela Politécnica do Rio de Janeiro, a antiga Escola Central,51 foi um dos inovadores da engenharia estrutural no Brasil. Todo em concreto armado, seguindo as linhas do estilo Art Déco,0 o viaduto é um marco da engenharia civil e um referencial não somente para o bairro Floresta, mas para moradores e visitantes de Belo Horizonte. Ele marcou também o início das obras viárias para facilitar o acesso à região Leste da cidade. Em outubro de 1937, foi inaugurado o Viaduto da Floresta. A sua construção foi iniciada em fevereiro de 1936 para conclusão em 180 dias úteis. Uma série de contratempos decorrentes de modificações introduzidas no projeto - pensado inicialmente em curva - fez com que obra se alongasse muito além do que esperava o então prefeito Otacílio Negrão de Lima. Mais despojado em termos construtivos do que o de Santa Tereza, o Viaduto da Floresta prolonga a avenida do Contorno, e favorece trajetos de pedestres e trânsito de veículos. Mesmo após a implantação dos viadutos (...) o centro comercial do bairro Floresta manteve polarização significativa, servindo, principalmente, ao setor nordeste da cidade, para onde o aglomerado urbano se estendia em ritmo crescente e progressivo - Horto, bairro da Graça e Concórdia. No período de independência relativa, cujo auge verificou-se nas décadas de 20 e 30, a rua Itajubá exerceu 50 RECORDAÇÕES DO BAIRRO FLORESTA: 1990, op. cit. 51 FICHER, Sylvia. Edifícios altos no Brasil. In ESPAÇO & DEBATES: REVISTA DE ESTUDOS REGINAIS E URBANOS. São Paulo: NERU, n.137, 1994. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura territorialmente, o papel de uma "main street" abrangendo áreas urbanas e suburbanas: o segmento compreendido entre a avenida do Contorno e a rua Pouso Alegre funcionou como área predominantemente comercial, enquanto que, em seu trecho urbano ao sul, compreendido entre as avenidas do Contorno e Francisco Sales, predominava a função residencial. Este último uso também se estendia até a avenida Silviano Brandão, cujas tendências atuais de desenvolvimento quebraram a continuidade dessa função residencial. (...) Esses fatores contribuíram para que a Floresta fosse considerada semelhante a uma cidade do interior, sob a alegação de ser ela uma área com grande autonomia dentro do contexto da cidade. O alcance regional daquele centro de comércio afirmou-se ainda mais quando seu núcleo foi abrangido pelo decreto que estabeleceu a zona comercial para o centro de Belo Horizonte, em meados da década de 40, que possibilitava altos índices de aproveitamento nas construções em lotes da citada zona, tendo como conseqüência uma alta valorização dos terrenos.52 Vista do Viaduto de Santa Tereza. Fonte: APCBH Vista do Viaduto da Floresta por volta dos anos de 1950.Fonte APCBH. Na esteira dos viadutos outros projetos viários foram implementados. Hoje, após todas essas intervenções, a Floresta tornou-se um lugar de trânsito intenso, embora restem algumas ilhas de tranqüilidade. A avenida Silviano Brandão, de fundo de vale, implantada na década de 40, sob o caráter modernizante da atuação do Poder Público, gerando o binômio viário Silviano Brandão-Pouso Alegre, mas que só se efetivou com a implantação do complexo viário da avenida Cosmópolis, atual Cristiano Machado, na década de 70. (...) Na metade da década de 60, o surgimento do loteamento Cidade Nova, com alto padrão de urbanização significou uma frente de ocupação diferente dos bairros próximos - dado 52 TEIXEIRA, op.cit. O decreto que dispôs sobre a delimitação da zona comercial de Belo Horizonte foi o DECRETO LEI n. 1910 de 13 de novembro de 1946. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura que, já no início de sua implantação, apresentou grande incidência de edificações multifamiliares, e trouxe como resultado o surgimento de uma série de mudanças estruturais e funcionais, que gradativamente foi alterando o padrão das ocupações e usos naquela área. Uma das conseqüências diretas da implantação desse novo setor sobre o bairro Floresta foi o considerável aumento do fluxo do tráfego de transposição que, já intenso, buscava as demais áreas no setor nordeste de Belo Horizonte através deste quadrante da cidade.53 Ainda em 1949, a obra do Túnel da Lagoinha tinha a finalidade de ligar diretamente o centro urbano com o Matadouro e o Horto Florestal, abrangendo assim os bairros da Concórdia, Renascença e algumas vilas. A construção do túnel ficou interrompida até o ano de 1959, foi retomada apenas nos anos 60, e inaugurado em 13 de maio de 1971. A ligação LagoinhaConcórdia passou por uma imensa reformulação e ampliação, na década de 80, e recebeu a denominação de Túnel Tancredo Neves. Se por um lado essa solução viária contribuiu para o descongestionamento do trânsito no bairro Floresta, por outro, facilitou o acesso de veículos, o que pode ser comprovado pela intensidade do tráfego na esquina das ruas Pitangui e Jacuí. Todos os cruzamentos com a via férrea, em passagens de nível, nos acessos à Floresta foram substituídos por passarelas e viadutos. A prioridade de tráfego para o trem obrigava a interrupção temporária do trânsito de veículos causando inquietação e, muitas vezes, acidentes. Na metade da década de 80 foi construído o viaduto que permitiu à rua Varginha uma ligação mais direta com o centro da cidade, conjugado com uma passarela exclusiva para pedestres. A extensão da rua Januária por meio de uma passarela construída ao lado da casa do Conde Santa Marinha facilitou o acesso àquela área do bairro. No que se refere à ampliação das possibilidades de acesso de veículos, mais do que de pedestres, os benefícios são evidentes. Essas facilidades de acesso criaram corredores de trânsito contínuo, que configuraram um dos maiores problemas do bairro nos dias atuais. Além disso, as degradações geradas nos interstícios criados pelos viadutos, sem destinação de usos ou apropriados de maneira improvisada, permitem o acúmulo do lixo e o conseqüente entupimento da rede pluvial e sanitária, ou são apropriados pelos automóveis em estacionamentos públicos e privados, sem nenhum critério urbanístico. Esses vazios urbanos, sobras típicas de terrenos públicos, apropriados de forma inadequada, têm transtornado a vida dos moradores de Belo Horizonte, que, todavia resistem.54 O bairro permanece sendo caminho de ligação do centro da cidade com os bairros servidos pela avenida Cristiano Machado. (...) Seja como for, 53 TEIXEIRA, op. cit. 54 CAMPOLINA, Joel. Espaços públicos residuais atípicos em Belo Horizonte/MG: reabilitação via pré-arquitetura. São Paulo: USP, 1992, mimeo. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura há que se destacar que foram vontades políticas determinadas que fizeram do bairro aquilo que hoje ele é; (...) e somente a manifestação de vontades políticas - atuantes, capazes de pensar o coletivo - pode fazer a Floresta diferente. (...) Trata-se de recuperar para o próprio bairro aquele traço de singularidade que o marcou desde a sua origem e que foi perdido quando de sua integração à multidão - tornar possível hoje, nas condições atuais, o que o passado rememorado da Floresta nos conta: o bairro como possibilidade de uma vida melhor porquanto existência labiríntica do indivíduo em relação com outros indivíduos; (...) repensar o bairro nesses termos significa, em primeiro lugar, estabelecer com os habitantes da cidade uma relação de reconhecimento entre bairro e cidade, e não de superposição; em segundo lugar, significa apontar à cidade não só a possibilidade e conseqüências da descaracterização de seus outros inúmeros bairros, mas sobretudo a importância de se reverter esse processo, como forma de recuperar/manter a qualidade de vida e de convivência de seus habitantes em níveis e condições sociais satisfatórias.55 Vista aérea do bairro Floresta. Data provável: 1960. Fonte APCBH 55 PAISAGEM FLORESTA. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 3- Histórico do Bem Cultural A história do bem cultural da rua Pouso Alegre, 404 está intimamente associada à história da família Agretti, composta por imigrantes italianos que, assim como muitos outros estrangeiros, ajudaram no processo inicial de ocupação do bairro da Floresta. Parte desta história foi recuperada por meio do depoimento fornecido por Carlos Correia de Aquino (12/01/1928) à Equipe da DIPC56. Viúvo, professor da Faculdade de Direito de Itaúna e pai de seis Filhos, Carlos Correia é neto do primeiro proprietário do bem cultural, o senhor Francisco Agretti. Vale ressaltar que dentre os imigrantes que ajudaram a conformar o bairro da Floresta, os italianos foram os que vieram em maior número, pois a Comissão Construtora adotou uma política de imigração para arregimentar mão-de-obra, por meio de propaganda em jornais italianos, descrevendo as vantagens da imigração. Em 1898, Francisco Agretti (1857-1922), italiano da cidade de Imola, decidiu mudar-se com a sua esposa Adélia Séptimo Agretti e seu filho Amílcar Agretti (1887-1968) para o Brasil. Na ocasião, Francisco desempenhava a atividade de pintor e decorador, tendo se formado na Escola de Belas Artes de Bolonha. As razões de sua vinda para o Brasil são desconhecidas. Sabe-se que a partir da década de 1870, os italianos começaram a imigrar em número significativo para o Brasil, impulsionados pelas transformações socioeconômicas em curso na península itálica e que afetaram, sobretudo, a propriedade da terra. Eram, portanto, imigrantes agricultores, em sua maioria. Este não foi, entretanto, o caso da família Agretti que não possuía origens rurais. Ao contrário disto, segundo as palavras de Carlos Correia, o seu avô Francisco era um homem letrado, um latinista e poeta. Chegando ao Brasil, a família Agretti residiu, inicialmente, em Lorena, São Paulo. Em 1903, mudou-se para Minas Gerais, tendo residido em Mariana, localidade onde nasceu o segundo filho do casal, Aurélia Agretti. Segundo o Dicionário Biográfico de Construtores e Artistas de 56 Entrevista realizada em 16 de março de 2009. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Belo Horizonte (1894-1940)57, Francisco e sua família teriam se transferido para a capital mineira em 1905. Todavia, Carlos Correia assegura que o avô chegou em Belo Horizonte em 1904, visto que nesta data nasceu o seu terceiro filho, Aristides Agretti, quando então a família residia em um imóvel na avenida Amazonas. Em 1906, nasceu a última filha do casal, Helena Agretti, quando a família já morava na casa da rua Pouso Alegre, 404. Com base nestas datas, Carlos deduz que o bem cultural ora estudado tenha sido construída entre 1903 e 1906. Segundo microfilme localizado nos arquivos da prefeitura de Belo Horizonte, a casa foi construída pelo suíço João Morandi, arquiteto e escultor com o qual Francisco e Amílcar Agretti trabalharam na ocasião da construção do edifício do Palácio da Liberdade e da Estação Oeste de Minas. Não consta do microfilme a data da edificação do bem cultural para que se possa confirmar a data inferida por Carlos Correia. Com exceção de Aurélia, todos os demais filhos de Francisco Agretti dedicaram-se à pintura, o que permitiu à família destacar-se no cenário artístico da nova capital mineira. Por volta de 1920, tornou-se moda em Belo Horizonte o uso de pinturas decorativas das fachadas laterais, especialmente de alpendres. Havia uma preocupação em tratar de maneira artística os elementos construtivos das casas, como as colunas, treliças, guardacorpos, pisos, forros, escadas e, sobretudo, o paramento das paredes externas à residência, mas internas aos alpendres. Os temas usados nas pinturas eram de paisagens Pintura de Amílcar Agretti. Av. Getúlio Vargas, 923 (demolida). campestres, marinhas, natureza morta, aparecendo também pessoas, barcos, animais, pontes e igrejas. Para Ivo Porto de Menezes58, é difícil precisar a fonte de inspiração da maioria dos painéis. O estudioso percebe, porém, que alguns imitam cartões postais, outros, num gesto de saudosismo, retratam cenas da terra natal do 57 Dicionário biográfico de construtores e artistas de Belo Horizonte:18989/1940. Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.Belo Horizonte: IEPHA/MG, 1997. 58 Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo Geraldo lemes Filho, 1997, p.111. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura proprietário. Já das pinturas marinhas, nas quais são retratados mar e navios, pode-se inferir a presença de referências vinculadas às viagens vivenciadas pelos imigrantes europeus ao Brasil, visto que grande parte destes pintores parietais era de origem italiana. Quanto às técnicas utilizadas, estas variavam de acordo com a formação dos pintores e ao sabor de seu trabalho, sendo utilizado quase exclusivamente o óleo, que era empregado de maneiras diferentes, ora em pinceladas longas e rápidas, ora com o uso de espátulas, dando impressões variadas ao observador. Quanto ao colorido: era variado, predominando, em alguns, as cores terrosas, outras verdes. As composições, geralmente assimétricas, variam de camadas horizontais, a sugerir tranqüilidade, a predominância das árvores verticais a marcarem a paisagem. Entremeiam composições sinuosas em “C” ou seu inverso circulares, abertas, em geral, par ao espectador, marcadas, principalmente, por desenrolar do caminho, do rio, das margens e dos elementos dominantes59. É neste contexto que a família Agretti ganhou notoriedade na prática da pintura parietal, desenvolvendo trabalhos em diversas casas residenciais e edifícios públicos. Os trabalhos de Francisco Agretti podem ser encontrados no Palácio da Liberdade (1898), na Estação Central (1920-1922), na Estação Oeste de Minas (1922) e no palacete João Pinheiro (1922). Já Amílcar Agretti foi responsável por pinturas decorativas em várias edificações da cidade, como o palacete João Pinheiro (1909), já demolido, e em diversas casas para funcionários. Merecem ser citadas edificações na rua Alagoas, 813, Residência de Joaquim Furtado de Menezes (demolida), na avenida Getúlio Vargas, 923, residência de Lúcio José dos Santos (demolida), na rua Pouso Alegre, 259 (demolida), na rua Santa Rita Durão, 848, residência de Álvares da Silveira (demolida), na rua Itapecerica, 70 (demolida) e na rua da Bahia, 1764, residência de Alvimar Carneiro de Rezende (demolida).60 Além destas casas, Amílcar seria o autor das pinturas existentes na casa da rua Pouso Alegre, 404, com presume Carlos Correia. Segundo Ivo Porto de Menezes, Amílcar pintava a óleo, preparando antes suas próprias tintas, misturando pigmentos, desenhando, previamente, em giz e carvão e usando pinceladas grossas. Não usava modelos, e sempre pintava a mão livre61. Embora tenha ganhado destaque por suas pinturas nas paredes, Amílcar não se restringiu a estas, dedicando-se também à pintura em tela. Por conta delas, participou da Exposição Brasileira de Belas-Artes, em São 59 Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura....p.109. Dicionário biográfico de construtores e artistas de Belo Horizonte:18989/1940. Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.Belo Horizonte: IEPHA/MG, 1997. 61 Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura....p.109. 60 Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Paulo (1911/1912) e do Salão Mineiro de Bellas Artes de Belo Horizonte, em 1938. Também Carlos Correa de Aquino lembra-se bem de ver o tio Amílcar andando pelas ruas da Floresta com uma prancheta na mão. Qualquer pessoa ou paisagem que lhe despertasse o interesse ele procurava reproduzir. Desta maneira, ficou conhecido no bairro como uma figura pitoresca. Pintura de Amílcar Agretti. Rua Pouso Alegre, 259 (demolida). Fonte: Ivo Porto de Menezes.Belo Horizonte, Residências, Arquitetura...1997. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Pintura de Amílcar Agretti. Rua Santa Rita Durão, 848 (demolida). Fonte: Ivo Porto de Menezes.Belo Horizonte, Residências, Arquitetura...1997. Assim como o pai e o irmão, Aristides Agretti realizou trabalhos de pintura em paredes. Contudo, ele se dedicou mais às pinturas em tela, tendo havido vários de seus trabalhos adornando as salas das famílias belo-horizontinas. Quanto aos trabalhos de Helena, não obtivemos maiores registros. Acredita-se, no entanto, que ela tenha se dedicado à pintura em tela, tal como seu irmão Aristides. O seu sobrinho Carlos Correa lembra-se, por exemplo, de ter ido a algumas exposições das obras dos três tios, realizadas conjuntamente no Antigo Teatro Municipal de Belo Horizonte. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Pintura de Aristides Agretti feita para seu sobrinho Carlos Correia de Aquino. Fonte: Acervo pessoal de Carlos Correia de Aquino. Pintura de Aristides Agretti. Rua Niquelina, 97 (demolida). Fonte: Ivo Porto de Menezes.Belo Horizonte, Residências, Arquitetura...1997. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Em data não identificada, Amílcar Agretti fundou uma escola de pintura no porão da casa da rua Pouso Alegre, 404. Carlos Correia lembra-se de que no porão da casa havia uma mesa bem grande, em torno da qual os alunos se sentavam e, sobre eles, uma luminária que vinha do teto e se colocava sobre suas a cabeças. Sempre cheia de pessoas em função do ir e vir dos alunos, Carlos descreve a casa dos avós como tendo sido muito alegre e muito freqüentada. Lembra-se também que os tios Amílcar e Aristides conviviam com muitos artistas da cidade, dentre os quais destaca Guignard e Aníbal Matos62, o que nos permite crer que o bem cultural em questão tornou-se um espaço de encontro e sociabilidade de pintores e membros da elite cultural mineira da primeira metade do século XX. Além das aulas em casa, Amílcar foi também professor de pintura no extinto Instituto João Pinheiro, escola pública de aprendizes e artífices que existiu na Avenida Amazonas entre 1909 e 1934. Apesar de todas estas atividades, Carlos Correia afirma que a família não possuía muitas posses, tendo tido no máximo, uma condição remediada. Afinal, não foram poucas as vezes em que viu o seu pai, Hercílio dos Reis de Aquino, sugerir aos cunhados Amílcar e Aristides que fizessem maiores investimentos na escola de pintura e vendessem os quadros por um preço mais rentável, dizendo-os “muito humildes”. A estas sugestões, os irmãos respondiam sempre que a “arte não tem preço”, diz Carlos Correia. Com o falecimento de Francisco Agretti em 1922, sua filha Aristides, já casada, morou na casa da rua Pouso Alegre com seu marido para fazer companhia à mãe por alguns anos. Nesta 62 Aníbal Matos fez seus primeiros estudos de desenho no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro e, posteriormente, estudou na Escola Nacional de Belas Artes na mesma cidade, tendo sido aluno de João Batista de Costa, Daniel Berard e João Zeferino da Costa. Em 1910, aos 24 anos de idade, recebeu o prêmio de viagem ao estrangeiro no Salão Nacional do Rio de Janeiro. Foi reconhecido pela Escola Nacional de Belas Artes com a obtenção de três menções honrosas, uma medalha de ouro em 1912 e uma medalha de prata em 1916. Representante da mesma instituição, participou em 1914 do Congresso Acadêmico no Peru, tendo sido orador oficial de todas as delegações dos estudantes da América. Na trajetória de Matos, o período que mais interessa à abordagem deste texto, tem seu início no ano de 1917, momento em que se transfere para Belo Horizonte a convite de Bias Fortes para ocupar o cargo de professor da Escola Modelo. A cidade já conhecia o trabalho de Aníbal desde 1913, data das primeiras exposições realizadas nessa cidade como verificado nas matérias de jornais como o Diário de Minas. Em 1930, participou da fundação da Escola de Arquitetura e Belas Artes da Universidade de Minas Gerais na qual continuou trabalhando durante 27 anos, quatro dos quais como diretor. Atuou também como fundador da Biblioteca Mineira de Cultura, das Edições Apollo e do Centro de Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Mineiro, tendo lutado pela fundação de museus históricos locais em Ouro Preto, Diamantina, São João Del Rei e Belo Horizonte. Foi, ainda, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e, em 1936, presidente da Academia Mineira de Letras. Publicou ainda vários livros. Fonte: site: maccouto.sites.uol.com.br/anibal.htm - 59k. Consultado em 17 de março de 2009. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura ocasião, em 1928, nasceu Carlos Correia de Aquino. Após o falecimento de Aurélia Séptimo Agretti, em 1944, a casa passou a ser habitada por Helena e Amílcar Agretti. Após o falecimento deste último, em 1968, Helena permaneceu morando sozinha no imóvel até o seu falecimento, por volta de 1989. A partir de então, a casa permanece desabitada. Em 2008, a casa foi leiloada, sendo adquirida pelo Sr. Cláudio Souza Santos. O arquiteto, construtor e escultor João Morandi nasceu na Suíça, em 1862, tendo estudado na Escola de Belas-Artes de Berna (Suíça), na de Clermont-Ferrant, na França e na Escola de Arquitetura de Lausanne. Trabalhou em La Plata, na Argentina, transferindo-se, em 1896, para Belo Horizonte, a convite da Comissão Construtora da Nova Capital. No ano seguinte, montou atelier anexo à sua residência, denominado “Construção de Obras e Fábrica de Pedras Plásticas”. Exercia as atividades de arquiteto, projetando residências e edifícios, e de escultor, realizando trabalhos ornamentais. Seus principais trabalhos como escultor em Belo Horizonte foram: Palácio da Liberdade, Secretarias de Estado, Instituto de Educação, Igreja São José, Capela do Rosário, Conservatório Mineiro de Música, Palácio da Justiça, Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, Igreja Nossa Senhora de Lourdes, Prédios da Estação Central do Brasil e Estação Oeste de Minas. Como arquiteto, foi responsável pelo projeto das seguintes edificações: Palacete Dolabela, localizado onde, atualmente, encontra-se o Edifício Niemeyer, propriedade de Leopoldo de Paula Andrade, na rua Tamoios, 530 (demolida), edificação na rua Sergipe, 877 (demolida), propriedade de Leopoldo de Paula Andrade, na rua Tamoios 530 (demolida), edificação na avenida Paraná, 94 (demolida), remodelação, em 1923, do atual Colégio Minas Gerais, localizado na avenida Augusto de Lima, 104, residência de Fausto Ferraz, conhecida por Vila Anita, localizada na rua Sergipe, 440 (demolida). São também de sua responsabilidade os bustos dos governadores Antônio Carlos, João Pinheiro e Raul Soares, a alegoria da Caridade que ornava a antiga Santa Casa de Misericórdia (demolida) e a imagem do Bom Pastor, do Asilo Bom Pastor63. 63 Dicionário biográfico de construtores e artistas de Belo Horizonte.... Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 4. Caracterização Urbanística e Arquitetônica A paisagem urbana do bairro Floresta, estampada ao longo do seu traçado, revela a própria evolução urbanística do bairro. A pesquisa documental e de campo, realizada por ocasião dos estudos para o tombamento do Conjunto Urbano, apontou vários pedaços, que se distinguem pelos seus equipamentos comunitários e urbanos, os usos, os modos de apropriação material e simbólica dos espaços físicos. A Floresta é peculiar pelas nuanças da sua paisagem que mescla o popular e o erudito, a começar pelo próprio traçado urbano. Ao lado de um bulevar expressivo como a avenida Assis Chateaubriand com sua arborização, passeios largos e arquiteturas imponentes, há a simplicidade do Beco São Geraldo e da rua David Campista, ambos com pavimentação em pedras irregulares ressaltando sob o asfalto que os recobre em parte. Ao lado de uma rua de comercio como a Pouso Alegre, a rua Célio de Castro, com o que restou de edificações residenciais. A rua Jacuí tem no seu longo percurso residências, escolas, hotéis, comércio e serviços. A praça Comendador Negrão de Lima, próxima ao movimentado centro comercial, surpreende pelo seu ambiente verde e tranqüilo. A avenida Bernardo Monteiro se interrompe, assim como outras vias, nos limites das linhas do metrô de superfície e do trem. O curto espaço desta avenida, na Floresta, foi apropriado pelos lavadores de carro. As ruas Brasópolis e Mucuri se tangenciam em uma das poucas praças da Floresta, a praça Lions. A avenida Francisco Salles, bastante arborizada, desemboca na rua Sapucaí, e faz a ligação dos viadutos da Floresta e de Santa Tereza, constituindo-se como um grande mirante para o centro da cidade. Na Floresta as ruas mudam muito de direção, como a rua Salinas, onde predomina o uso residencial Praça Negrão de Lima mesmo com uma faixa de intenso comércio Célio de Castro e adjacências no seu trecho sobre o Centro Comercial. Centro Comercial Assim, foram definidos cinco ‘pedaços’ que compõe o conjunto: Rua Aquiles Lobo, Assis Chateaubriand e Adjacências Praça Comendador Negrão de Lima, Centro Comercial, Avenida Assis Chateaubriand e, por fim, pedaço Rua Célio de Castro, no Aquiles Lobo e Adjacências Os Pedaços do Conjunto Urbano Bairro Floresta qual se localiza o bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 404. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Conjunto Urbano Bairro Floresta, segundo a planta da cidade Conjunto Urbano Bairro Floresta, segundo a planta da geral de Belo Horizonte, elaborada pela Diretoria Geral do Serviço da cidade de Belo Horizonte, organizada pela 1ª Secção da de Estatística em 1930. Região da casa da rua Pouso Alegre sub diretoria de obras de 1928-1929. Região da casa da rua n.° 404, em destaque. Pouso Alegre n.° 404, em destaque. O pedaço Rua Célio de Castro caracteriza-se, do ponto de vista de seu patrimônio edificado, por um grande número de edificações ecléticas implantadas junto ao alinhamento frontal e pela existência de bens culturais que se constituem em referências que extrapolam o limite do pedaço e do Conjunto Urbano – o Teatro Giramundo de Bonecos e o Hotel Palladium. A ambiência do lugar, formada por elementos de ordem espacial e pela rede de relações sociais que se estabelecem em seus espaços, é estruturada a partir do eixo da rua Célio de Castro e caracteriza-se, fisicamente, pela predominância da ocupação horizontal, com verticalização evidenciada apenas em alguns pontos. A rede de relações sociais se estabelece, prioritariamente, pelo uso residencial e pelas atividades vinculadas a ele, destacando-se desse contexto, aquelas que constituem referência municipal como o Colégio Santa Maria e o Grupo Giramundo.O Grupo Giramundo constitui referência que extrapola o município de Belo Horizonte, por suas atividades que visam ao atendimento a um público variado: Museu Giramundo, Girabrinque e as atividades permanentes de formação e montagem de espetáculos. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura A casa da rua Pouso Alegre n.° 404 foi construída nos lotes 19 e 20 do quarteirão 008C, Sexta Seção Suburbana. Os referidos lotes já figuravam, com as mesmas dimensões atuais, na planta de subdivisão de lotes aprovada em 27 de fevereiro de 1920, na gestão do prefeito Affonso Vaz de Mello. Os lotes figuram, ainda, no levantamento cadastral datado de 1942, realizado durante a gestão de Juscelino Kubitschek frente à Prefeitura de Belo Horizonte (1940 a 1945). Nesta oportunidade, foi realizado um levantamento da cidade com o objetivo de realizar um cadastro territorial e imobiliário para fins de ação tributária, tarefa que gerou um minucioso trabalho de detalhamento dos imóveis que, no mapeamento, aparecem numerados e desenhados em planta baixa.64 No referido levantamento cadastral, nota-se que a região na qual se localiza a casa em questão já possuía ocupação consolidada na década de 1940 e, dentre os exemplares remanescentes do princípio do século XX aos anos 1940 localizados na rua Pouso Alegre, no entorno imediato do bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 404, foram indicados para proteção por tombamento as edificações localizadas nos n.°s 338, 361, 252, 262, 290, 273 e 303. Outros bens culturais situados nas imediações, cujas construções são do mesmo período, são o Hotel Palladium - rua Varginha n.° 210, e a atual sede do grupo Giramundo, na rua Varginha n.° 235, ambos protegidos por tombamento. Em data posterior ao citado período foram construídas as edificações da rua Pouso Alegre n.° 331, que já se encontra tombada, além das casas situadas nos números 282 e 295, indicadas para tombamento. 64 FJP/Centro de Estudos Históricos e Culturais. Panorama de Belo Horizonte: atlas histórico. Belo Horizonte:FJP, 1997. P. 66 Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Planta de parcelamento aprovada em 1920, com destaque para os lotes 19 e 20 do então quarteirão 008, atual 008C da Sexta Seção Suburbana. Fonte: CP-026017D, disponível em intranet.smaru.pbh. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Cópia do levantamento cadastral realizado na administração de Juscelino Kubitschek, com destaque a localização da casa da rua Pouso Alegre n.° 404. Fonte: CP-JK-020101, disponível em intranet.smaru.pbh. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Trecho do mapa anterior, com destaque para a casa da rua Pouso Alegre n.° 404 e para outros bens construídos entre o início do século XX e os anos 1940 que se encontram indicados para proteção por tombamento. Fonte: CP- CP-JK-020101, disponível em intranet.smaru.pbh. Destaque para a quadra 008C e para o bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 404. Fonte: CP-JK020101, disponível em intranet.smaru.pbh. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta 105 105 105 105 105 105 RU R UA AV VA AR RG GIIN NH HA A 381 381 381 381 381 381 371 371 371 371 371 480 480 480 480 480 480 382 382 382 382 382 - 81 81 81 81 81 352 352 352 352 352 337 337 337 337 337 59 59 59 59 59 59 334 334 334 334 334 47 47 47 47 47 315 315 315 315 315 315 295 295 295 295 295 273 273 273 303 303 303 273 273 303 303 303 219 219 219 219 219 290 290 RUA RUA POUSO POUSO ALEGRE 290 242 290 290 242 242 242ALEGRE 224 224 224 262 262 262 224 224 262 262 262 218 218 218 -242 218 218 218 252 - 391 391 391 391 391 308 308 308 308 308 377 377 377 377 377 343 343 343 343 343 401 401 401 401 401 401 437 437 437 437 437 331 338 338 338 338 338 338 310 310 310 310 310 - 384 384 384 384 384 404 404 404 404 404 356 356 356 356 356 228 228 228 228 228 228 A A161 185 185 185 185 185 161 161 161 161 EIRAS EIRAS 217 217 217 217 217 217 189 189 189 189 189 189 151 151 151 151 151 210 210 210 210 210 210 277 198 198 277 198 277 277 198 198 277 195 195 195 195 195 237 237 237 237 237 311 311 311 311 311 315 315 315 315 315 315 347 347 347 347 347 367 367 367 367 367 O CASTRO DE CASTR CÉLIO RUA CÉLIO DE RUA 162 162 162 162 162 162 296 296 296 296 296 282 282 282 282 282 70 70 70 70 70 48 48 48 48 48 109 109 109 71 71 71 71 71 43 43 43 43 43 8 8 6 66 66 6 22 22 22 22 22 489 489 489 489 489 489 14 14 14 14 14 14 521 521 521 521 521 533 533 533 533 533 353 245 245 245 245 245 215 215 215 215 215 447 447 447 453 447 447 447 453 453 453 453 310 310 310 310 310 310 388 388 388 388 388 RUA RUA POUSO POUSO ALEGRE ALEGRE RUA ARTUR ARTUR LOBO LOBO RUA 259 259 259 259 259 259 RU R UA AV VA AR RG GIIN NH HA A H HA AÚ ÚM MA A 239 239 239 239 239 35 35 35 35 35 35 600 600 600 RUA RUA PLOMBAG PLOMBAG 358 358 358 358 358 358 RUA RUA PEDRO PEDRO CARV CAR Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 430 430 430 430 430 444 444 444 444 444 472 472 472 472 472 472 488 488 488 eee 504 504 504 277 277 277 429 429 429 429 429 437 437 437 437 437 437 - 447 eee 453 447 e 453 453 447 e 453 447 447 453 142 142 142 142 142 54 5 54 524 524 538 54 5 524 538 524 524 538 538 54 277 277 277 467 467 467 467 467 467 405 405 405 405 405 25 25 25 450 450 450 450 450 215 215 215 215 215 3521 3521 3521 3521 3521 45 45 45 45 45 181 181 181 181 181 Tombado Registro documental Indicado para tombamento Registro documental concluído Mapeamento cultural em vigor, aprovado segundo deliberação 040/2006 do Conselho Deliberativo Cultural do Município – CDPCM/BH. Fonte: arquivos DIPC Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Casa da rua Pouso Alegre n.° 404, objeto deste dossiê de tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Casa da rua Pouso Alegre n.° 353, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 338, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 303, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 295, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 273, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Rua Pouso Alegre n.° 290, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 282, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 262, indicada para tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 252, indicada para tombamento. Fonte: arquivos DIPC. Hotel Palladium - rua Varginha n.° 210, protegida por tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Bem cultural da rua Pouso Alegre n.° 331, protegido por tombamento. Jan/2006. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Sede do Grupo Giramundo – rua Varginha n.°235, protegida por tombamento. O bem cultural em questão, implantado junto ao alinhamento das ruas Pouso Alegre e Arthur Lobo, desenvolve-se em um pavimento sobre porão alto e apresenta partido retangular, em bloco único. A estrutura é formada por alvenaria de tijolos maciços, o piso em tabuado assentado sobre barroteamento e a cobertura em engradamento de madeira sobre o qual foi instalada a cobertura em telhas francesas, dispostas em duas águas. O acesso principal, voltado para a rua Pouso Alegre e em nível com esta via, é feito através de portão metálico, localizado na porção direita da fachada principal, e após este, por porta em madeira almofadada de acesso ao interior da edificação. Representante do ecletismo característico dos primeiros anos de ocupação da capital, o bem cultural em questão apresenta fachada principal, voltada para a rua Pouso Alegre, composta com a predominância de planos cheios sobre os vazados e acabamento em argamassa com pintura. Os vãos, em verga reta e dotados de cercaduras em massa, receberam fechamento em esquadrias de madeira pintada, com folha em veneziana, na porção inferior, e vidro na superior, além de bandeira fixa em madeira e vidro. Complementa a composição o coroamento feito pela platibanda, separada do paramento da fachada principal por cornija aplicada em toda a extensão da fachada e, nas extremidades, os falsos pilares em ressalto. Destaca-se que em relação ao projeto original, verifica-se a alteração nos vãos desta fachada: o vão central, que correspondia a porta principal de acesso no projeto inicial, foi transformado em janela que, no entanto, possui as mesmas características das demais. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Cópia do microfilme do projeto original. Fonte: arquivos DIPC A fachada voltada para a rua Arthur Lobo apresenta o mesmo esquema compositivo, mas nesta já se faz evidente o embasamento, também revestido em argamassa com pintura, que corresponde ao porão alto. Já a fachada posterior é marcada pela predominância dos planos vazios, definidos pelo alpendre no primeiro pavimento e pela arcada na porção correspondente ao porão alto. O alpendre é sustentado por pilaretes em madeira, forro em madeira e parede ornamentada por pinturas parietais, de autoria presumível de Amílcar Agretti. Os vãos voltados para o alpendre, em verga reta, são vedados por esquadrias com folhas em madeira com pintura e vidro e bandeira fixa, também em madeira com pintura e vidro. Internamente, devido ao estado de conservação do bem cultural, não foi possível descrever detalhadamente o agenciamento interno e os materiais de acabamento, mas verificam-se perdas no piso em tabuado, no forro em madeira e nas esquadrias em madeira. Apesar do Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura precário estado de conservação do bem cultural, é possível notar a existência de diversas pinturas parietais também na parte interna do bem cultural. Levantamento fotográfico – Casa da rua Pouso Alegre n.° 404 Vista geral da fachada voltada para a rua Pouso Alegre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC Acesso principal, com porta de folha em madeira e bandeira fixa em madeira e vidro. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vão da fachada principal, parcialmente emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista do vão parcialmente emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Vista parcial da fachada voltada para a rua Pouso Alegre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista da calçada da rua Pouso Alegre, em frente ao bem cultural em análise. Detalhe dos tijolos, na porção correspondente ao embasamento. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista de outro trecho do embasamento. Notar porção inferior do baldrame trabalhado de forma abaulada. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Acesso principal, voltado para a rua Pouso Alegre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista parcial da fachada lateral esquerda; revestimento em argamassa com pintura e beiral conformado pelo prolongamento da cobertura. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista parcial da fachada externa do porão alto e da arcada. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista da fachada externa do porão alto. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Detalhe do vão do porão alto, parcialmente emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista de trecho do porão alto. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista da arcada com vãos em arco pleno. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista parcial da arcada e do alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Detalhe da arcada e do vão do porão alto, parcialmente emparedado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista parcial da fachada posterior. Notar pinturas parietais do alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista do alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista parcial da fachada posterior. Nota-se também as pinturas parietais no alpendre. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Vista do piso do alpendre, em madeira, completamente danificado. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Forro do alpendre, em madeira. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista geral do quintal. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista geral do quintal. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Vista da estrutura da cobertura. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista interna da janela em madeira e bandeira fixa. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Vista interna da sala do bem cultural. Piso arruinado, com barroteamento a vista. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista interna. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Vista das pinturas parietais internas. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra vista das pinturas parietais internas. Mar/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 5. O sentido da preservação É na condição espacial, e principalmente na cidade, que as principais atividades humanas são realizadas. Portanto, para compreender o homem é necessário interpretar a história ocorrida na cidade. Conclui-se que espaço e tempo são dimensões complementares, pois a formação histórica referencia as pessoas nestas dimensões, dando-lhes consciência clara do espaço/momento em que vivem, sendo possível então, através da história conhecer a nossa identidade, distinguindo-a da universalidade ou da massificação. A arquitetura, ao se transformar em espaço de representação simbólica e referencial urbano, facilita a compreensão do processo de formação das cidades. Ela dá a escala do tempo e nos ajuda a entender as condições de vida sociais e econômicas das gerações anteriores. Portanto, a cidade e sua arquitetura contam parte da trajetória percorrida pelo homem no tempo e no espaço. Portanto, a preservação do nosso patrimônio arquitetônico tem como premissa a manutenção da memória urbano-social, em sua dimensão material e simbólica e o cumprimento uma demanda social uma vez que deve ser entendida e assumida como mais um elemento dentro da dinâmica da cidade. A preservação tem o intuito de promover a qualidade de vida dos cidadãos e o patrimônio cultural da cidade. A melhoria da qualidade de vida (...), tão ameaçada nos dia de hoje, depende em parte desse conhecimento e da valorização da cultura que nos cerca. Tão importante quanto preservar a natureza é também manter a feição dos lugares, ruas e outros ambientes que conformam a localidade em que vivemos e são incorporados e apreciados no nosso cotidiano.65 Assim, a cidade deve torna-se a guardiã de sua tradição e de sua memória através da manutenção de seus múltiplos espaços sócio-culturais. É neste sentido que a preservação do bem cultural situado na rua Pouso Alegre, 404, ganha importância, visto que esta edificação corresponde a um raro exemplar característico de 65 MARIANI, Alayde Wanderley. In: Memória e educação. RJ: IBPC, 1992. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura tradicionais bairros de Belo Horizonte como o Funcionários, a Floresta, a Lagoinha e outros tantos que marcaram a primeira fase de ocupação da cidade, com o esplendor de suas residências e suas fachadas, alpendres, jardins e pinturas decorativas. Sua presença física, por meio de seus elementos arquitetônicos e de suas cuidadosas pinturas, remete a um momento histórico no qual as casas “eram os lugares de diálogo, de encontro, onde se aprendia a socializar-se, conviver e integrar o outro nas próprias vidas. Colocadas às ruas com seus porões vazados, ornamentados com a delicadeza das curvas, as casas eram o contrário dos atuais “bunkers”: trincheiras contra o medo, contra o perigo, ligar da fuga, da mudez.66” A preservação do bem cultural ora analisado torna-se mais importante e premente se consideramos o fato de que edificações a ele similares, típicas de uma época em que “ a cidade se arrumou para ser vista67” através de fachadas e painéis decorativos, foram quase todas demolidas. Acrescente-se a isto o fato de não terem sido identificadas outras edificações residenciais que ainda preservem pinturas de autoria de Amilcar e Francisco Agretti, dois pintores que participaram ativamente da conformação de um modo particular de viver e habitar e que, portanto, marcaram o cenário cultural de Belo Horizonte em seus primeiros anos de existência. Portanto, a arte dos Agretti tem na edificação da rua Pouso Alegre, 404, uma das últimas representantes. Diante do exposto, a DIPC/FMC compreende como necessário o estabelecimento do terceiro grau de proteção para o imóvel situado na rua Pouso Alegre n.° 404, de forma a garantir sua existência, bem como a preservação de seu entorno visando a permanência da situação atual, como forma de manter a memória urbano-social do local. 66 CASTRO, Célio. IN: Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo Geraldo lemes Filho, 1997. 67 DULCI, Luiz Soares. IN: Ivo Porto de Menezes. Belo Horizonte, Residências, Arquitetura. Belo Horizonte: Grupo Geraldo lemes Filho, 1997. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 6. Diretrizes de intervenção A fim de viabilizar a recuperação do bem cultural em questão, a Diretoria de Patrimônio Cultural entende que se faz necessário repensar a altimetria prevista para os lotes 19 e 20 do quarteirão 008C, nos quais foi construída a casa da rua Pouso Alegre n.° 404. Na revisão do Conjunto Urbano do Bairro da Floresta, ocorrida em 2005, o CDPCM-BH estabeleceu que a altimetria para os lotes que possuem bens protegidos por tombamento tem como referência a altura do próprio bem protegido. Entretanto, no caso específico da casa da rua Pouso Alegre 404, é possível uma revisão desta diretriz, o que facilitará a viabilização econômica da restauração do imóvel, visto que, para que esta ocorra, o proprietário do mesmo alega precisar construir uma nova edificação nos fundos do terreno. A exceção aberta neste caso se justifica pelas condições topográficas do local, posto que o terreno, em declive a partir da rua Pouso Alegre, possui desnível aproximado de 10,0 metros. Em função disto, entende-se que a adoção de altimetria que tome por referência, não o imóvel tombado, mas a altura da edificação ao lado, isto é, rua Pouso Alegre n.°384 (com 04 pavimentos mais caixa d’água) poderá viabilizar economicamente a recuperação do bem sem provocar impactos significativos no mesmo. Outra visada do mesmo local. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC. Rua Pouso Alegre n.° 384. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Vista geral do entorno imediato, com a rua Pouso Alegre n.° 404 e seu vizinho imediato, localizado no n.° 384, com quatro pavimentos. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC. Visada do mesmo local a partir de outro ponto da rua Pouso Alegre. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura Visada da casa da rua Pouso Alegre n.° 404, a partir da parte baixa da rua Arthur Lobo. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC. Outra visada do mesmo local. Abr/2009. Fonte: arquivos DIPC Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta 293 293 293 293 293 293 334 334 334 334 334 334 47 47 47 47 47 324 324 324 324 324 35 35 35 35 35 -35 391 391 391 391 391 308 308 308 308 308 377 377 377 377 377 303 303 303 303 303 343 343 343 343 343 381 381 381 381 381 357 357 357 357 357 489 489 489 489 489 447 447 447 447 447 447 401 401 401 401 401 401 48 48 48 48 48 14 14 14 14 14 437 437 437 437 437 RUA VARG INHA 886655 RE RUA POUSO 338 338 338 338 338 338 310 310 310 310 310 404 404 404 404 404 384 384 384 384 384 886600 356 356 356 244 244 244 244 244 D D 228 228 228 228 228 885555 151 151 151 151 151 210 210 885500 277 277 277 277 277 311 311 311 311 311 311 315 315 315 307 307 307 307 307 329 329 329 329 329 337 337 337 337 337 347 347 347 347 347 347 353 353 353 353 353 367 367 367 367 367 RUA CÉLIO DE CASTRO RUA 162 162 162 162 162 RUA ARTUR LOBO 865 865 - 198 198 198 198 198 RUA PE P 315 315 315 315 315 315 RUA V Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 430 430 430 430 430 458 458 458 458 458 458 444 444 444 444 444 444 429 429 429 429 429 156 156 156 156 156 -156 472 472 472 472 472 437 437 437 437 437 142 142 142 142 142 405 405 405 405 405 405 391 391 391 391 391 Trecho do mapeamento cultural, com destaque para as curvas de nível e o lotes 019 e 20. Fonte: arquivos DIPC. Bem tombado Registro Documental entregue Bem Indicado para tombamento Altimetria 07 metros Registro Documental Altimetria Conforme levantamento planialtimétrico da PRODABEL, a rua Pouso Alegre se situa, aproximadamente, na cota 865. Considerando uma edificação com quatro pavimentos mais caixa d’água a partir deste nível, o limite altimétrico para a nova edificação seria a cota 880, ou seja, considerando o nível mais baixo dos terrenos, cota aproximada 855, seria possível a Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura construção de edifício com aproximadamente 25 metros de altura, como pode se perceber a partir da simulação abaixo: Destaca-se, no entanto, que a nova edificação deverá guardar afastamento mínimo de 5,0 metros do bem protegido, a fim de preservar a visibilidade do alpendre, com suas pinturas e da arcada do porão alto. Resumidamente, destacamos as diretrizes propostas para a construção de nova edificação nos lotes 19 e 20 do quarteirão 008C: - Considerando o levantamento planialtimétrico da PRODABEL, a nova edificação terá como limite altimétrico a cota 880; - A nova edificação deverá guardar afastamento mínimo de 5,0metros em relação ao bem protegido; - O volume relativo à caixa d’água deverá estar incluindo no limite altimétrico e compor o volume principal da nova edificação; - Não poderão ser utilizados materiais reflexivos no tratamento das fachadas. Em relação à restauração do bem cultural, convém destacar que esta é um conjunto medidas necessárias à conservação (preservação) e à recuperação dos valores arquitetônicos e artísticos de um determinado imóvel. Essa abordagem é diferenciada do projeto convencional, que tem como dados o elenco de necessidades (programa), o terreno, a orientação, etc. No caso de uma restauração, o objeto é portador de valores outros que têm que ser considerados. A qualidade do próprio objeto é que vai definir a metodologia. O objetivo do projeto de restauração é propor soluções que se harmonizem à configuração físico-espacial do edifício e que não alterem a sua concepção arquitetônica original. O projeto pressupõe a atitude crítica do restaurador frente às diversas soluções de cada caso, além de amplo conhecimento técnico especializado. O restauro, como um ato crítico-criativo, considera que quanto mais íntegra a obra, mais limitada deve ser a intervenção e que o uso não é a finalidade da restauração, mas deve ser compatível. Não se deve impregnar a obra com valores da época da restauração. A ação criativa deve buscar unidade entre o novo e o velho. As possíveis intervenções deverão ser graduadas em função da escala de deterioração bem como ser identificáveis, diferenciáveis e reversíveis, sem configurar mimetismos e fingimentos. O respeito à historicidade e a importância estética devem existir e se equilibrar. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura A recuperação do imóvel deve ser realizada a partir de projeto global de restauração que deverá contemplar, entre outros aspectos: • Manutenção da visibilidade da edificação a partir da rua Arthur Lobo; • Restauração das pinturas parietais externas e internas; • Recuperação das esquadrias originais; • Recuperação do barroteamento e do piso em tabuado; • Recuperação dos forros em madeira; • Recuperação da cobertura com manutenção da inclinação do telhado, do tipo de telha e do engradamento em madeira; • Recuperação do reboco das alvenarias das fachadas; • Manutenção da volumetria original, incluindo a inclinação da cobertura, a sacada e alpendre posteriores; • Recuperação dos vãos e das esquadrias da fachada da rua Pouso Alegre; • As arcadas do porão, voltadas para a fachada posterior, deverão ter a lacuna existente (trecho demolido posteriormente) recomposta em tijolo maciço, seguindo o raio da arcada existente. • Demolição dos pilares em concreto feitos para reforço do meio arco, na porção posterior, junto ao porão. Demais aspectos referentes à restauração do bem cultura deverão ser previamente discutidas com a equipe técnica da DIPC. O referido projeto deverá ser encaminhado para análise do CDPCM/BH. Dossiê de Tombamento Rua Pouso Alegre n.° 404 Conjunto Urbano Bairro Floresta Diretoria de Patrimônio Cultural/Fundação Municipal de Cultura 7. Bibliografia A vida é Esta.... Belo Horizonte: I Concurso de Monografias de História de bairros da Região Leste - bairro Floresta, Secretaria Municipal de Cultura / PBH, 1990. ADELMAN, Jeffry. Urban planning and reality in epublican Brazil: Belo Horizonte, 1890-1930. Bloomington: Indiana University, 1974, mimeo. BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: memória histórica e descritiva - história antiga e história média. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1995. BLAY, Eva Alterman. Eu não tenho onde morar: vilas operárias na cidade de São Paulo. São Paulo: Nobel, 1985 BORGES, Marcos de C. Vamos Passear na Floresta. 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