Escola Superior Nautica Infante D. Henrique ORGÃOS DE MÁQUINAS Embraiagens e Freios Compilado por: Victor Franco Correia Escola Superior Nautica Infante D. Henrique - 2012 Ref: Shigley , Mischke & Budynas – Mechanical Engineering Design Moura Branco, M. Ferreira, D. Costa, S. Ribeiro – Projecto de Orgãos de Máquinas, F. C. Gulbenkian. Representação simplificada de uma embraiagem de fricção ou de um freio: Duas inércias de rotação I1 e I2, rodando inicialmente com as velocidades angulares ω1 e ω2, em que uma delas pode ser nula, como acontece no caso de um freio, passam a rodar com a mesma velocidade final após o processo de embraiagem ou frenagem. Embraiagem ou Freio No processo, ocorre necessariamente um escorregamento, uma vez que os dois elementos estão inicialmente a rodar a velocidades diferentes e será dissipada energia durante o processo de actuação. Os seguintes parâmetros são importantes ao analisar o desempenho de uma embraiagem ou um freio: - Força de actuação - Binário transmitido - Dissipação de energia - Aumento de temperatura Nota: Hydraulic CSC – Concentric Slave Cylinders, combine releaser and slave cylinder in one compact unit. Noção de auto-accionamento: Forças actuantes numa sapata articulada Efectuando o equilíbrio estático da sapata, temos: M 0 F b N b f N a F 0 R f p A F 0 R p A F A x x y a y a Resultando: F fN Assumindo uma distribuição de pressão uniforme na sapata, temos N = pa A, sendo A a área de contacto da sapata e pa a pressão. pa A(b f a) b Se fizermos b = f.a , o numerador desta equação anula-se, o que significa que não é necessário aplicar qualquer força para gerar a força de atrito. Esta condição exprime a situação, usualmente designada por autobloqueio (self-locking ou self-acting) Freios e Embraiagens de tambor com sapatas internas Embraiagem de tambor com sapatas internas de actuação centrífuga Freios e Embraiagens de tambor com sapatas internas Freio de tambor com sapatas internas de actuação hidráulica Geometria de uma sapata interior Pressões na sapata rotação Consideremos uma pressão p que actua sobre um elemento de área dA=b r dθ , do material da guarnição, localizado a um angulo θ medido a partir do ponto de articulação, A, da sapata. Designando por pa , a pressão máxima localizada a um angulo θa a partir do ponto de articulação A, a relação de pressões é: pa pa p p sen sen sen a sen a Esta expressão indica que a pressão p tem uma variação sinusoidal com θ. Se a sapata é curta, a pressão máxima na guarnição é pa e ocorre na extremidade mais afastada da sapata, ie em θ2. Se a sapata é longa a pressão máxima é pa e ocorre para θa = 90º. Assim, o material da guarnição mais perto do ponto de articulação contribui muito pouco para a acção de frenagem ou embraiagem. É comum que o material da guarnição não seja colocado logo junto ao ponto de articulação da sapata. O projecto da embraiagem ou freio é determinado pela pressão máxima admissível da guarnição. Forças na sapata: Momento das forças de atrito em relação ao ponto de articulação da sapata A: f dN (r a cos )d f p br sen (r a cos )d sen Ma 2 a a 1 2 2 f pa br sen 2 r cos a 1 sen a 2 1 Momento das forças normais, em relação ao ponto de articulação A: M N dN (a sen )d dN pbr d pa b r sen d sen a 2 p a bra sen a p a bra sen a sen 2 d 1 sen 2 2 2 4 1 Equilibrio (cont) Para o equilíbrio estático, o momento da força actuante F tem de equilibrar os momentos da força de atrito e da força normal: F MN Ma c Desta equação, verifica-se que se MN = Ma, resulta F = 0, ou seja obtém-se a situação de autobloqueio. O binário aplicado ao tambor pela sapata corresponde ao momento das forças de atrito em relação ao eixo de rotação: T f dN r f p a br 2 sen a 2 sen d 1 f p a br 2 (cos 1 cos 2 ) sen a Equilibrio (cont) No caso de o sentido de rotação do tambor ser o contrário aquele que está representado na figura, as equações anteriores são aproveitadas invertendo o sentido do momento da força de atrito, obtendo-se: F MN Ma c Como os momentos MN e Ma , passam a ter o mesmo sentido, F nunca será nula, perde-se assim o efeito de autobloqueio. Nota: a dimensão a refere-se à distância radial do centro do tambor ao ponto de articulação da sapata (ie. não necessariamente horizontal, como indicado na figura) A dimensão c refere-se à distância do ponto de articulação da sapata à linha de actuação da força de actuação F. Exemplo: Freio de tambor com sapata interior, com actuação pneumática e por mola através da rotação de uma came S Sistema de travagem típico em semi-reboques e camiões pesados, embora mais recentemente se tenha evoluído para os sistemas de travagem com disco (ver adiante) continuação Exemplo numérico 1: Exemplo 12.2 M.Branco et al. O freio de tambor e sapatas interiores ilustrado na figura tem um diâmetro de 200 mm e é actuado por um mecanismo que exerce a mesma força F em cada sapata. As sapatas são idênticas e têm uma largura de guarnição igual a 25 mm. A guarnição de “asbestos” moldados com um coeficiente de atrito de 0.3 e uma pressão limite de 1000 KPa. Calcular: a) A força F actuante b) A capacidade de travagem. F = 1246 qN TD= 118 Nm; TE= 56 Nm; T= 174 Nm Exemplo numérico 2: Exemplo 16-2 Shigley et al. O freio de tambor e sapatas interiores ilustrado na figura tem um diâmetro de 300 mm e é actuado por um mecanismo que exerce a mesma força F em cada sapata. As sapatas são idênticas e têm uma largura de guarnição igual a 32 mm. A guarnição de “asbestos” moldados com um coeficiente de atrito de 0.32 e uma pressão limite de 1000 KPa. Calcular: a) A força F actuante b) A capacidade de travagem. F = 2.29 kN TD= 366 Nm; TE=162 Nm; T= 528 Nm Freios e Embraiagens com tambor e sapatas externas Freios e Embraiagens com tambor e sapatas externas Para o sentido de rotação indicado na figura, tanto o momento da força de atrito, como o momento da força normal, são positivos. Assim, a força actuante que equilibra estes momentos é: F MN Ma c Para o sentido de rotação contrário ao indicado (ie anti-horário), o termo relativo às forças de atrito invertese, resultando: F MN Ma c Freios de sapata exterior simétrica articulada Freio de tambor e sapatas externas simétricas articuladas Neste tipo de freio, verifica-se que a distribuição de pressões na guarnição é do tipo: p( ) pa sen sendo pa o valor máximo da pressão. A força normal é: dN pbr d dN pa br cos d A distancia a é calculada por forma a que o momento das forças de atrito, em relação a A, seja nulo, o que ocorre para: 4r sen 2 a 2 2 sen 2 2 Nesta condição, o desgaste da guarnição é uniforme. O momento de travagem é dado por: T a f N Freio/embraiagem com tambor e cinta Devido ao atrito e ao sentido da rotação do tambor, a força actuante P2 é menor que a força de reacção no pino P1. Qualquer elemento da cinta, com comprimento infinitésimal r dθ tem de estar em equilíbrio sob a acção das forças representadas. Freio/embraiagem com tambor e cinta (cont.) Efectuando o equilíbrio estático na direcção vertical e na horizontal, temos: d d Psen dN 0 2 2 d d Fh 0 ( P dP) cos P cos f dN 0 2 2 Fv 0 ( P dP) sen Sendo para pequenos ângulos: sen dθ/2 ≈ dθ/2 e cos dθ/2 ≈ 1 , obtemos dN Pd dP f dN 0 Substituindo a 1ª equação na 2ª e integrando: P1 dP P2 P f P1 ef P2 0 d P1 ou ln f P2 Freio/embraiagem com tambor e cinta (cont.) O binário de frenagem/embraiagem pode ser calculado pela equação: T ( P1 P2 ) D 2 A força normal que actua num elemento de área de largura b e comprimento r dθ será: dN pbr d Substituindo o valor de dN, obtido atrás: P d pbr d p P 2P br bD A pressão é proporcional à tracção na cinta. A pressão máxima pa ocorre na extremidade da cinta onde P é máximo, com o valor pa 2 P1 bD Exemplo numérico: Considere o freio de banda ilustrado esquematicamente na figura. A pressão máxima admissível na banda é de 620 kPa e o coeficiente de atrito entre o tambor e a banda é de 0.30. Utilizando um tambor com 350 mm de diâmetro, uma banda com largura de 25 mm e um ângulo de abraçamento ϕ = 270º, calcular: a) o maior momento de frenagem que pode ser obtido, b) a correspondente força de actuação P2 c) e a força de reacção na extremidade oposta P1. Embraiagens de contacto axial de discos Os elementos que promovem a força de atrito, responsável pela acção de embraiagem, têm um movimento numa direcção paralela ao eixo – axial. Veio do motor Veio da transmissão Embraiagens de contacto axial de discos Considerando o disco representado na figura, estamos interessados em obter a força axial necessária para produzir um binário T e uma pressão p. Há duas hipóteses básicas de cálculo: a) uma assumindo um desgaste axial uniforme; b) outra assumindo uma pressão uniforme em toda a área do disco. Se os discos forem suficientemente rígidos, então o maior desgaste ocorre nas áreas exteriores, dado que a energia dissipada por atrito é maior. Após a ocorrência de um determinado desgaste inicial, a distribuição da pressões altera-se e verifica-se um desgaste uniforme. Muitas embraiagens utilizam molas para obter uma pressão uniforme em toda a área do disco. Embraiagens de contacto axial de discos (cont.) Quando se assume um desgaste uniforme, obtém-se a seguinte expressão para o binário da embraiagem: T sendo: F f (D d ) n 4 n – numero de interfaces F – força axial de actuação, dada por: F pa d 2 (D d ) Quando se assume a hipótese de pressão uniforme, obtém-se a expressão alternativa: F f T 3 com: F p 4 D3 d 3 n D2 d 2 (D 2 d 2 ) Na prática, calcula-se a força axial tomando para p o valor máximo pa permitido pelo material da guarnição, e depois calcula-se o binário T. A hipótese de desgaste uniforme dá origem a uma capacidade da embraiagem inferior àquela que é obtida para a hipótese de pressão uniforme. Tal deve-se ao facto do elevado desgaste que ocorre inicialmente na zona mais exterior do disco, provocar um deslocamento da pressão máxima em direcção ao centro, proporcionando um braço menor no binário da embraiagem. As embraiagens deste tipo são normalmente projectadas na base da hipótese de desgaste uniforme – menor binário - proporcionando dessa forma, uma capacidade de binário adicional quando são novas. Uma embraiagem nova transmite sempre um maior binário que uma embraiagem com mais uso. Normalmente, estas embraiagens são dimensionadas com as seguintes proporções: 0.5 ≤ d/D ≤ 1 . Embraiagens e Freios cónicos Binário transmitido, T , obtido com a condição de desgaste uniforme: D/2 2 d f r dr T 2 p 2r sen d /2 f pa d 8 sen T D/2 r dr d /2 f pa d 2 (D d 2 ) 8 sen Binário relacionado com a força actuante, F : F f D d T 4 sen Ver: Shigley & Mischke, para detalhes sobre a obtenção das equações acima. A condição de pressão uniforme, permitiria obter o seguinte binário transmitido: F f D3 d 3 T 3 sen D 2 d 2 Freios de disco O “caliper” suporta um “piston” de actuação hidráulica, onde as guarnições das “pastilhas” são pressionadas contra o disco rotativo exercendo assim o binário de frenagem. Assumindo desgaste uniforme o binário de travagem, para cada pastilha, é dado por: T ( 2 1 ) f pa ri ro rdr ri 1 ( 2 1 ) f pa ri (ro2 ri2 ) 2 E a força de actuação é: F ( 2 1 ) pa ri (ro ri ) Quando se assume uma pressão uniforme, situação aproximada para um freio novo, p = pa tem-se, respectivamente, T ( 2 1 ) f pa ro ri 1 r 2 dr ( 2 1 ) f pa (ro3 ri3 ) 3 e F 1 ( 2 1 ) pa (ro2 ri2 ) 2 Exemplo numérico: ri = 98.4 mm ro = 139.7 mm 2 - 1 = 108º f = 0.37 Duas pastilhas, com os dados acima, são actuadas por um par de cilindros hidráulicos com 38 mm de diâmetro do êmbolo. Requere-se um momento de frenagem T = 1468.8 Nm. Assumindo desgaste uniforme, a) Estimar a máxima pressão pa b) Estimar a força de actuação F c) Estimar a pressão hidráulica de actuação Acoplamentos Flexible coupling: elastic coupling 40 - 1 000 000 Nm Flexible coupling max. 0.08 - 61 Nm Flexible coupling: elastic coupling 350 - 350 000 Nm Materiais para guarnições de embraiagens e freios Ref.: M.Branco et al. Projecto de Orgãos de Máquinas