Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
“Reformar-se: formar-se ou conformar-se”
Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de
Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição.
Dissertação de Mestrado em Ciências de Educação, na área de especialização de Educação
de Adultos
Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho
Orientador: Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro
Vila Real, Dezembro 2013
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
“Reformar-se: formar-se ou conformar-se”
Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de
Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição.
Dissertação de Mestrado em Ciências de Educação, na área de especialização de Educação
de Adultos
Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho
Orientador: Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro
Composição do Júri:
Presidente – Professora Doutora Maria Isabel Barros Morais Costa
Vogais –
Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro
Professor Doutor Agostinho Costa Diniz Gomes
II
Declaração
Nome:
Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho
E-mail:
[email protected]
Número do Cartão de Cidadão:
10679260
Título:
“Reformar-se: formar-se ou conformar-se” - Das razões apontadas pelos idosos inscritos
numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis
nessa instituição.
Orientador:
Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro
Mestrado:
Mestrado em Ciências da Educação – Área de Especialização em Educação de Adultos
É autorizada a reprodução parcial desta tese, apenas para efeitos de investigação, mediante
declaração escrita do interessado, que a tal se compromete.
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Dezembro de 2013
Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho
III
Carvalho, A. (2013). “Reformar-se: formar-se ou conformar-se” - Das razões apontadas
pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de
cursos disponíveis nessa instituição. Vila Real: A. Carvalho. Dissertação de Mestrado
apresentada à Universidade de Trás os Montes e Alto Douro.
Palavras-chave: ENVELHECIMENTO, UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE.
EDUCAÇÃO PERMANENTE, MOTIVAÇÃO.
IV
Este trabalho foi expressamente elaborado como
dissertação original para efeito de obtenção do grau de
Mestre em Ciências da Educação, sendo
apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro.
V
AGRADECIMENTOS
Àqueles que tornaram possível a concretização deste estudo expresso aqui os meus mais
sinceros agradecimentos:
À instituição em estudo, pela paciência e pelo indispensável
contributo.
Ao Professor Armando Loureiro, sempre presente e encorajador.
Ao Rui, pelo apoio e paciência.
Às princesas por compreenderem.
A ti, avó, mesmo já não estando entre nós sei que torces sempre por mim.
À minha família, amigos, aos meus pais, por tudo.
VI
RESUMO
Vivemos numa sociedade envelhecida, com o número de pessoas já em idade
avançada a aumentar cada vez mais num cenário de profundas transformações sociais,
urbanas, industriais e familiares, decorrentes em parte do envelhecimento acelerado da
população a nível mundial. Este envelhecimento, apesar de colocar desafios a nível social,
económico, político e cultural às sociedades actuais e futuras, é também um dos maiores
feitos do século XXI, fruto da evolução dos cuidados de saúde e do nível socioeconómico
da população bem como de uma mudança de atitudes sociais e culturais.
As Universidades para a Terceira Idade surgiram na década de 70 em França, em
parte para oferecer novos estilos de vida após a aposentação. Este movimento rapidamente
se espalhou pela Europa, chegando a Portugal em 1976. Portugal conta hoje com mais de
cento e noventa Universidades da Terceira Idade.
Este estudo foi realizado numa Universidade Sénior do distrito de Viseu e teve por
objectivo saber quais as razões dos idosos para se inscreverem num modelo de educação de
adultos deste tipo. A técnica de pesquisa usada foi a entrevista semiestruturada e contou
com a participação de doze alunos da instituição em causa. Usou-se a análise de conteúdo
para tratar o material recolhido nas entrevistas. A análise dai decorrente levou a concluir
que o projecto desta Universidade visa permitir que os adultos idosos se distanciem de
certas imagens e estereótipos negativos da velhice, assumidos pela sociedade em geral e
por eles próprios em particular.
Assim, a par da ocupação útil do tempo e manutenção da actividade, os utentes
desta instituição apontam o aumento do contacto social e do conhecimento como principais
motivos para a sua inscrição e frequência, devolvendo-lhes o sentido da vida e do tempo
após a reforma.
As Universidades para a Terceira Idade (UTI) promovem, assim, a participação
cívica e cultural dos idosos e permitem a cada um (re)ocupar o seu lugar na sociedade.
Palavras-chave:
Envelhecimento;
Universidades da Terceira Idade;
Educação permanente;
Motivação.
VII
ABSTRACT
We live in an aging society, the number of people already advanced in age increase
in a backdrop of profound social, urban, industrial and family changes, resulting in part
from accelerated aging of the population worldwide. This aging, despite putting challenges
to social, economic, political and cultural societies, present and future, is also one of the
greatest achievements of the century, the result of the evolution of health care and socioeconomic status of the population as well as a change of social and cultural attitudes.
Universities of the Third Age emerged in the 70's in France, in part to offer new
styles of life after retirement. This movement quickly spread across Europe, reaching
Portugal in 1976. Portugal now has over one hundred and ninety Universities of the Third
Age.
This was conducted in a Senior University of the District of Viseu and was aimed
to know the reasons for the elderly to enroll in an adult education model of this kind. The
research technique used was the semi structured interview and had the participation of
twelve students of the institution concerned. It used content analysis to treat the material
collected in the interviews. The analysis arising therefrom led to conclude that the project
of this University aims to enable older adults to distance themselves from certain images
and negative stereotypes of old age, assumed by society in general and themselves in
particular.
Thus, alongside the occupation useful time and continued activity, users of this institution
show increased social contact and knowledge as the main reasons for their enrollment and
attendance, returning them the meaning of life and of time after retirement.
Universities of the Third Age promote civic and cultural participation of older
people and allow each to (re)take their place in society.
Keywords:
Aging;
University of the Third Age;
Continuing education;
Motivation.
VIII
SIGLAS
DLD - Desemprego de longa duração
EP – Envelhecimento produtivo
RUTIS – Rede de Universidades da Terceira Idade
UTI – Universidade(s) para a Terceira Idade
IX
ÍNDICE
AGRADECIMENTOS ............................................................................................................... VI
RESUMO .............................................................................................................................. VII
ABSTRACT ........................................................................................................................... VIII
SIGLAS ................................................................................................................................... IX
ÍNDICE DE GRÁFICOS .......................................................................................................... XIII
ÍNDICE DE QUADROS .......................................................................................................... XIV
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1
Enquadramento e pertinência do trabalho ....................................................................... 1
Estrutura do trabalho ........................................................................................................ 4
PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA ...................................................................................... 5
CAPÍTULO 1 - O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL ............................................................ 7
1.1.
Significado do envelhecimento populacional na actual sociedade ....................... 9
1.2.
Tendências no mundo actual ............................................................................... 10
1.3.
Tendências na União Europeia ............................................................................. 12
1.4.
Tendências em Portugal ....................................................................................... 13
1.5.
O impacto do envelhecimento demográfico........................................................ 16
1.6.
Respostas ao desafio demográfico do envelhecimento populacional ................. 18
CAPÍTULO 2 – A VELHICE ..................................................................................................... 23
2.1.
O processo de envelhecimento – conceitos e perspectivas ................................ 24
2.2.
Teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento .......................................... 29
2.3.
Etiologia do envelhecimento ................................................................................ 31
2.4.
Mudanças que ocorrem na velhice ...................................................................... 33
2.5.
Estereótipos acerca do envelhecimento – O idadismo ........................................ 34
2.6.
Envelhecimento activo – Ano Europeu 2012 ....................................................... 42
2.7.
A qualidade de vida e o envelhecimento produtivo ............................................ 45
2.8.
O lazer como factor de qualidade de vida na velhice .......................................... 48
X
2.9.
O idoso na família e na sociedade – Reformado, e agora? .................................. 50
CAPÍTULO 3 – A EDUCAÇÃO E OS IDOSOS ........................................................................... 55
3.1.
Perspectiva histórica ............................................................................................ 55
3.2.
O processo de aprendizagem e as mudanças cognitivas na velhice .................... 58
3.3.
A gerontologia educativa ..................................................................................... 59
3.4.
Especificidades no processo educativo dos idosos .............................................. 63
CAPÍTULO 4 – AS UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE ..................................................... 67
4.1.
O surgimento – origem e desenvolvimento ......................................................... 67
4.2.
Breve contextualização da política da 3ª idade em Portugal à época do
surgimento da primeira UTI portuguesa ...................................................................................... 70
4.3.
As UTI em Portugal ............................................................................................... 71
4.4.
RUTIS – Associação Rede de Universidades da Terceira Idade ............................ 75
4.5.
As UTI como espaço de socialização e aprendizagem do idoso ........................... 76
4.6.
Os estilos motivacionais dos idosos para a frequência de uma Universidade da
Terceira Idade segundo alguns autores ....................................................................................... 80
PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO ............................................................................................. 83
CAPÍTULO 5 – METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO .............................................................. 85
5.1.
Introdução ............................................................................................................ 85
5.2.
Contexto da investigação – Caracterização da Instituição em estudo................. 85
5.3.
O Método, as Técnicas de Pesquisa e os Participantes no Estudo ...................... 88
5.3.1. Do problema ao método ................................................................................ 88
5.3.2. Instrumentos de pesquisa .............................................................................. 92
5.3.3. Guião da entrevista ........................................................................................ 94
5.3.4. Análise de conteúdo ....................................................................................... 94
5.3.5. Caracterização dos entrevistados - primeira e breve aproximação ............... 96
5.3.6. Ética da pesquisa ............................................................................................ 97
5.3.7. Limitações do estudo ..................................................................................... 97
CAPÍTULO 6 – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ........................ 99
XI
6.1.
Dados pessoais, académicos e profissionais ...................................................... 100
6.2.
Descrição do quotidiano .................................................................................... 111
6.3.
Descrição dos relacionamentos sociais .............................................................. 116
6.4.
Razões do ingresso na UTI .................................................................................. 118
6.5.
Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças introduzidas
na vida dos inquiridos ................................................................................................................ 122
CONCLUSÕES ..................................................................................................................... 129
LINHAS FUTURAS DE INVESTIGAÇÃO ................................................................................ 131
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................... 133
ANEXOS.............................................................................................................................. 139
Anexo 1 – Pedido formal de recolha de dados à Direcção da Universidade Sénior em
estudo......................................................................................................................................... 141
Anexo 2 – Preparação da entrevista (fase preparatória) .............................................. 143
Anexo 3 – Guião da entrevista ...................................................................................... 144
Anexo 4 – Entrevista ...................................................................................................... 146
XII
ÍNDICE DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Pirâmide de idades, Portugal 1960-1998 .......................................................... 14
Gráfico 2 - População com 65 e mais anos de idade, por sexo e por região, 1990/1998 ... 15
Gráfico 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI ........................................................ 100
Gráfico 4 - Distribuição dos entrevistados por intervalos de idade .................................. 102
Gráfico 5 - Estado civil dos entrevistados.......................................................................... 103
Gráfico 6- Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI ............................. 106
Gráfico 7 - Habilitações dos entrevistados por ciclo de ensino ........................................ 106
Gráfico 8 - Núcleos de relacionamentos sociais ................................................................ 116
XIII
ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1 - Políticas sociais gerontológicas implementadas em Portugal desde 2005 ....... 21
Quadro 2 – Caracterização geral dos entrevistados ........................................................... 97
Quadro 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI ....................................................... 100
Quadro 4 - Idade dos entrevistados/alunos da UTI .......................................................... 101
Quadro 5 - Peso percentual por categorias etárias........................................................... 102
Quadro 6 - Agregado familiar do entrevistado - situação inicial e actual ......................... 104
Quadro 7 - Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI ............................ 105
Quadro 8 - Percurso escolar dos entrevistados ................................................................ 107
Quadro 9 - Situação laboral actual dos entrevistados ...................................................... 108
Quadro 10 - Percurso profissional dos entrevistados ....................................................... 109
Quadro 11 - Planeamento da entrada na reforma............................................................ 110
Quadro 12 - Actividades diárias ........................................................................................ 112
Quadro 13 - Núcleos de relacionamentos sociais ............................................................. 116
Quadro 14- Razões do ingresso na UTI ............................................................................. 118
XIV
INTRODUÇÃO
Enquadramento e pertinência do trabalho
O panorama demográfico sofreu, ao longo dos últimos anos, grandes mudanças. A
nossa sociedade está envelhecida, com um número de pessoas em idade avançada a
aumentar cada vez mais num cenário de profundas transformações sociais, urbanas,
industriais e familiares, decorrentes em parte do envelhecimento acelerado da população a
nível mundial. De facto, a expectativa de vida nos países industrializados aumentou cerca
de 25 anos, sendo o grupo que apresenta maior crescimento o da população com idade na
casa dos 80 anos, o qual mostra tendência para continuar a crescer (Aranibar, 2001).
O envelhecimento que o ser humano atingiu nos dias de hoje, apesar de ser
entendido por alguns como uma ameaça para o futuro, porque coloca desafios a nível
social, económico, político e cultural às sociedades actuais e futuras, é também um dos
maiores feitos do século XXI, fruto da evolução dos cuidados de saúde e do nível
socioeconómico da população bem como de uma mudança de atitudes sociais e culturais
(Aranibar, 2001).
Este período da vida, chamado de “velhice”, “terceira idade” ou denominado por
expressões eufemísticas como “idade de ouro” ou “Outono da vida”, associa-se,
comummente, a uma menor qualidade de vida, a um estado funcional mais pobre, onde a
maioria dos sujeitos estará inactiva, sendo a disfuncionalidade presente não só na dimensão
física, mas também na dimensão psicológica e social (Glass, 2003). A angústia da
sociedade face ao envelhecimento, reflecte a sua incapacidade em apontar-lhe um sentido e
evidencia a visão redutora que tem da velhice. Ser idoso, além de ser um facto etário, é
também um conjunto de convenções sociais. O que pesa mais sobre a categoria social de
idoso, não são, tanto, as características próprias, mas sim, a ideia que se faz desta etapa da
vida baseada em imagens totalizantes e estereotipadas (Chamahian, 2009; Marques, 2011).
É também neste período que surge a aposentação por velhice, o “largar do
trabalho”, muitas vezes conotado com o largar da vida activa. A reforma pode acarretar
mudanças mais ou menos profundas na vida de quem a vive. Entre elas, destacamos a
alteração do ritmo de vida e da noção de tempo, passando de um tempo ritmado e
1
organizado em função do trabalho para um tempo contínuo, em que há o risco de os dias
parecerem todos iguais (Veloso, 2000).
Mesmo assim, há já alguns anos que a experiência da passagem à aposentação se
transformou. Percebido, inicialmente, como “antecâmara da morte”, sinónimo de
inutilidade social, este período de transição é, e terá de ser, cada vez menos, vivido de
forma problemática e cada vez mais desejado e antecipado (Caradec, 2004, citado por
Chamahian, 2009). Com efeito, o tempo da reforma pode estruturar o percurso de vida e
marcar a entrada numa nova etapa, permitindo a abertura de novas possibilidades.
Alguns indivíduos aposentados já fizeram uma escolha, inscrevendo-se em
estruturas de formação num quadro não formal, como o das Universidades Sénior ou
Universidades para a Terceira Idade (Chamahian, 2009).
As Universidades da Terceira Idade (UTI) surgiram na década de 70 em França.
Este movimento rapidamente se espalhou pela Europa, chegando a Portugal em 1976. As
razões para a criação deste tipo de instituições são variadas mas destacam-se o
envelhecimento da população e as suas repercussões na adaptação a novos estilos de vida
após a aposentação (Pinto, 2003).
Portugal conta hoje com mais de cento e noventa UTI. As Universidades para a
Terceira Idade são "a resposta socioeducativa, que visa criar e dinamizar regularmente
actividades sociais, culturais, educacionais e de convívio, preferencialmente para e pelos
maiores de 50 anos” (Monteiro & Neto, 2008). Para além de um modelo de formação de
adultos e de um espaço de cultura e convívio, as UTI são também um projecto de saúde
uma vez que – estudos de investigação comprovam-no - melhoram a qualidade de vida e
consequentemente a saúde dos seniores, assim como contribuem para a diminuição dos
sintomas de doença depressiva (Veras & Caldas, 2004). Segundo Veloso (2000, p. 5), “a
frequência das UTI devolve um ritmo e uma significação diferentes ao tempo vivido por
alguns reformados/idosos.”
De acordo com Vilelas (2009, p. 70), quando se refere à escolha temática para um
trabalho de investigação, “escolher o tema significa seleccionar um assunto, de acordo com
as inclinações, as possibilidades, as aptidões e as tendências de quem se propõe elaborar
um trabalho científico […]”.
Assim, após leitura e selecção de interesses, optou-se por trilhar um caminho de
gosto. O tema das Universidades Sénior é actual (ou não tivesse sido o ano transacto o Ano
Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações) e tem, para nós,
2
como investigadores, um interesse especial. A escolha do tema no que diz respeito à sua
localização, prendeu-se também, com aspectos de acessibilidade.
Este trabalho propõe-se determinar o que a Universidade Sénior pode aportar ao
indivíduo idoso e quais as suas motivações para se ter inscrito numa dessas instituições.
Após consulta de bibliografia e ponderação sobre a temática chegou-se à seguinte
questão de partida:
Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do
distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição?
Esta pesquisa visa, desta forma, saber mais sobre os indivíduos que, após a reforma,
escolhem voltar a estudar em universidades seniores, de forma a compreender melhor o
sentido deste retomar dos estudos e caracterizar os contornos que esta actividade educativa
pode assumir na vida diária destes reformados.
Pretende-se, com isto, satisfazer os seguintes objectivos, que segundo Vilelas
(2009, p. 378), “[…]devem ser delineados com o intuito de responder às nossas
indagações. São constituídos por um objectivo geral, abrangente, que reflecte o objecto que
se pretende estudar, e por vários objectivos específicos que revelam os diversos factos que
iremos pesquisar para alcançar o geral.”:
O objectivo geral deste trabalho é perceber as razões apontadas pelos utentes idosos
da Universidade Sénior para a inscrição nos cursos aí ministrados.
Os objectivos específicos são:
. Inferir acerca da importância das UTI que se assumem como organismos
promotores de bem-estar e perceber também quais os factores que poderão potenciar este
bem-estar.
. Conhecer a problemática que envolve a velhice e o envelhecimento.
. Compreender a contextualização das Universidades da Terceira Idade.
. Transversalmente, pretende-se divulgar as Universidades da Terceira Idade e a sua
influência nos meios de Educação e Saúde, bem como na comunidade em geral, ajudando
assim na credibilização desta modalidade de educação permanente.
3
Estrutura do trabalho
Após a exposição do tema, do objecto de estudo e da matéria a ser pesquisada, bem
como da justificação e dos objectivos do trabalho cabe-nos explicitar o modo como o
presente trabalho de investigação está organizado nas duas partes que o compõem.
Na primeira parte é feita uma revisão da literatura sobre o envelhecimento
populacional, a velhice, a educação de idosos e as Universidades da Terceira Idade, onde
será efectuada uma análise comentada do que já foi escrito sobre os temas de pesquisa de
forma a demonstrar os pontos de vista convergentes e divergentes dos autores. Esta parte,
será um auxiliar para a interpretação dos resultados e para ser formada uma linha de
raciocínio consubstanciada no conhecimento de outros autores, bem como para situar o
problema dentro de um quadro de referência teórico.
Na segunda parte, referente à parte empírica da investigação, será demonstrada a
forma como a pesquisa foi executada e o desenho metodológico utilizado. Será definida a
população-alvo da pesquisa, indicados os instrumentos de recolha de dados e os métodos
de análise dos mesmos.
Seguidamente serão apresentados os resultados obtidos, feita a apresentação,
análise e discussão dos resultados e emitidas conclusões, traçadas linhas futuras de
investigação e apresentadas as referências bibliográficas usadas.
4
PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA
5
6
CAPÍTULO 1 - O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL
O aumento da esperança de vida, os progressos científicos ao nível da medicina e a
consequente melhoria do estado de saúde das pessoas constituem grandes marcos do século
XX. Conjugado este facto com uma taxa de natalidade bastante reduzida, fala-se de um
impacto substancial no aumento e proporção das pessoas idosas, com implicações directas
na equidade entre gerações, nos estilos de vida, nas relações e estruturas familiares e na
própria economia das nações (Monteiro & Neto, 2008).
Segundo o The Ageing Report (European Comission, 2011c), a esperança de vida
tem vindo a crescer e o estudo feito pelo Eurostat prevê que a população dos Estados
Membros da União Europeia com mais de 65 anos passe de 87.5 milhões, em 2010, para
152.6 milhões, em 2060, alargando substancialmente a pirâmide etária nessa faixa e
passando de 18% actuais da população europeia para 30%. A faixa superior, dos 80 anos
em diante, tem uma previsão de aumento de 23.7 milhões em 2010 para 62.4 milhões em
2060.
A Europa conhece assim, hoje, alterações demográficas sem precedentes pela sua
escala e potencial gravidade.
Segundo a European Comission (2011b), estas mutações demográficas derivam de
três grandes tendências:
• O contínuo prolongamento da vida, resultado de progressos consideráveis na
saúde e na qualidade de vida de que beneficiam os europeus - a esperança de vida com
saúde aumenta a olhos vistos. Estes avanços devem continuar, com uma atenuação das
disparidades entre a esperança de vida entre sexos. Quatro gerações podem doravante
coexistir na mesma família.
• O aumento dos efectivos nas gerações com idades superiores a 60 anos
prosseguirá até 2030, altura em que as crianças do «baby boom» se tornarão seniores.
• Uma baixa natalidade persistente. As gerações do «baby boom» tiveram menos
filhos do que as anteriores. Vários factores explicam esta baixa natalidade: dificuldades de
inserção profissional, custo das habitações, protelação da idade em que os pais têm o
primeiro filho, escolhas diferentes em matéria de estudos, de vida profissional e de vida
familiar. A taxa de fecundidade é, em quase todo o lado, inferior ao limiar de renovação
das gerações. Em alguns países da Europa do Sul e de Leste é mesmo inferior a 1,3
crianças por mulher.
7
A sociedade assiste também a grandes alterações estruturais: os agregados
familiares evoluem; há mais trabalhadores mais velhos (55-64 anos), seniores (65-79 anos)
e muito idosos (80+ anos), menos crianças, jovens e adultos em idade activa. As transições
entre as diferentes etapas etárias da vida tornaram-se mais complexas: é particularmente
este o caso dos jovens que passam por certas fases da vida mais tardiamente (fim de
estudos, acesso ao emprego, independência, primeiro filho).
Mas, estas tendências inscrevem-se num quadro mais vasto em que todas as regiões
do mundo, segundo a Comissão das Comunidades Europeias, no seu Livro Verde - Uma
nova solidariedade entre gerações face às mutações demográficas (2005), conhecerão um
envelhecimento durante este século. Os Estados Unidos, verão a respectiva população
aumentar de 25,6% entre 2000 e 2025. Na China, por exemplo, este envelhecimento será
rápido, com uma diminuição da população a partir de 2025. Por outro lado, os vizinhos da
Europa, na África e no Médio Oriente, assistirão a um envelhecimento muito mais tardio: a
população é muito mais nova, com uma idade média de 20 anos ou inferior, contra mais de
35 anos na Europa (European Comission, 2011b).
As implicações regionais do envelhecimento populacional merecem, também elas,
destaque: as regiões em declínio demográfico e habitadas maioritariamente por idosos irão
conhecer dificuldades no que diz respeito à oferta de bens e serviços públicos essenciais
(saúde, habitação, transportes) com impacto também no equilíbrio ambiental.
As mudanças sociais começam, do mesmo modo, a atingir a composição familiar.
Um número crescente de idosos já vivem sós (28% das pessoas com 70 anos vivem nestas
condições e este número aumenta para 40% na faixa dos 80 anos) e a taxa de dependência
(número de pessoas com mais de 65 anos relativamente à faixa de 15 a 64 anos) duplicará
para atingir cerca de 51% até 2050, passando a União Europeia de quatro para duas
pessoas em idade activa por cada cidadão com mais de 65 anos (Comissão das
Comunidades Europeias, 2006).
As alterações demográficas configuram, desta forma, uma nova sociedade e tendem
a intensificar-se: cada vez menos jovens e adultos, números crescentes de trabalhadores
mais velhos, reformados e pessoas muito idosas. As nossas sociedades terão de inventar
novas vias para valorizar o potencial de crescimento que encerram as jovens gerações e os
cidadãos mais velhos (European Comission, 2011b).
8
1.1. Significado do envelhecimento populacional na actual sociedade
Se há algum tempo, o envelhecimento demográfico era pouco valorizado, hoje,
passou a ser para muitos, a causa de grande parte dos problemas sociais, políticos,
financeiros ou mesmo culturais que afectam as sociedades actuais (Rosa, 2012).
O fenómeno do envelhecimento surge, hoje, em muitos suportes, como uma
epidemia, uma “peste grisalha” (Rosa, 2012, p. 13) mais grave do que muitas outras que já
assolaram populações inteiras no passado. Giampaolo Lanzieri (2011), no seu estudo
estatístico para o Eurostat fala mesmo de um “acinzentar” da geração do baby-boom e de
uma aproximação de um “grandparent boom”.
Uma sociedade envelhecida representa vários desafios: para o mercado de trabalho,
para os sistemas de saúde e para o nível de vida após a reforma. Muitos temem que as
condições de vida piorem para os idosos e para as gerações mais jovens que terão imposto
sobre si pesado encargo (European Comission, 2012).
Para melhor compreensão do conceito de envelhecimento colectivo (termo que
Maria João Valente Rosa (2012), no seu livro O envelhecimento da sociedade portuguesa,
distingue claramente de envelhecimento individual), a autora refere os termos
envelhecimento societal e envelhecimento demográfico, sendo o primeiro referente à
sociedade e o segundo à própria população.
No envelhecimento demográfico, é preciso ter em conta as categorias fixas,
correspondentes a idades consensualmente aceites, em que os indivíduos são classificados
independentemente da sua condição (estado de saúde, capacidades, etc.). Rosa (2012)
identifica as categorias estatísticas usadas tradicionalmente: idade jovem (dos 0 aos 15
anos), activa (15 aos 64 anos) e idosa (65 e mais anos), em que esta última é também a
usual idade de reforma entre nós e idade a partir da qual se utiliza o termo terceira idade. É
a partir destas categorias estatísticas que se desenvolve o conceito de envelhecimento
demográfico como “uma evolução particular da composição etária da população que
corresponde ao aumento da importância estatística dos idosos […] ou à diminuição da
importância estatística dos jovens” (Rosa, 2012, p. 23). Este tipo de envelhecimento,
relativo à população, tem vários indicadores: o aumento da idade média da população, o
aumento da percentagem de idosos, o aumento da proporção de idosos em relação a
indivíduos em idade jovem, por exemplo, em suma, um aumento da importância da
população em idade idosa em termos estatísticos, que se traduz, sumariamente no termo
«população envelhecida” em determinado local.
9
Em relação ao envelhecimento societal, a autora ressalva que, embora se fale de
uma articulação com o envelhecimento demográfico no sentido em que dele parece
resultar, o facto é que uma população envelhecida em termos demográficos pode não o ser
em termos sociais, reagindo à alteração do curso dos acontecimentos e encontrando formas
adequadas de os superar. Rosa (2012) refere os sintomas do envelhecimento societal: uma
sociedade deprimida, ameaçada com as próprias mudanças e evolução etária.
É indiscutível que o envelhecimento demográfico acarreta um aumento da
importância dos grupos etários menos valorizados na estrutura produtiva e social,
aparentando ter consequências perigosas e indesejáveis, mas a autora questiona: “será que
o problema está no aumento da população idosa ou, antes, no papel social atribuído a estas
idades?” (p. 24). De facto, não existe fundamento científico no princípio de que uma
pessoa mais velha seja menos produtiva, menos receptiva e mais resistente às exigências
tecnológicas. Está apenas provado que em termos de condição física os mais jovens estarão
mais capacitados, o que actualmente não constitui um problema tão grande, dado que a
maioria das actividades não requer essa destreza física, mas sim destreza em termos de
conhecimento, o que pode até ser uma vantagem em idades mais avançadas. É possível, tal
como refere Rosa (2012) a assunção de que o envelhecimento leve a uma menor produção,
por várias razões, nomeadamente, razões de saúde, mas será errado dizer que o
envelhecimento acarreta ausência de produtividade.
Outra contribuição para a compreensão do envelhecimento demográfico vem-nos de
Barros de Oliveira (2008). Segundo o autor, existem dois tipos de envelhecimento
demográfico tendo em conta as pirâmides etárias, muito usadas na demografia: o
envelhecimento de base (em que há uma diminuição da percentagem de crianças e jovens)
e o envelhecimento de topo (em que se verifica um aumento do número de idosos). Esta
falta de equilíbrio provoca um impedimento para o renovar das gerações. Barros de
Oliveira refere que “[…] é cada vez maior o número de óbitos em relação ao dos
nascimentos, sendo necessários mais caixões do que berços” (2008, p. 16).
1.2. Tendências no mundo actual
A sociedade actual e futura encontra-se, hoje, num preocupante quadro
demográfico de envelhecimento crescente, tornando-o num dos principais desafios do
século XXI.
10
Algumas tendências são notáveis: actualmente existem 893 milhões de pessoas
acima de 60 anos em todo o mundo. Na metade deste século, esse número irá subir para 2,4
biliões (Osotimehin, 2011).
O aumento da longevidade e a capacidade crescente de controlo da natalidade
representam alguns dos grandes marcos da Humanidade dos últimos anos.
Deste modo, durante muito tempo pensou-se que a causa do envelhecimento residia
exclusivamente no aumento da esperança de vida. No entanto, hoje, sabe-se que o factor
principal será o declínio da natalidade. Para além disso, se conjugarmos a evolução da
esperança de vida à nascença e os níveis de fecundidade de qualquer sociedade,
compreenderemos mais facilmente o mecanismo do envelhecimento da população e das
suas relações com a própria evolução demográfica. Os primeiros, com efeitos directos na
dimensão dos efectivos mais jovens, Os segundos, com consequência directa e imediata na
estrutura etária da população, sobretudo em idade activa, e indirecta, pelas mudanças no
número de nascimentos que originam (Monteiro & Neto, 2008).
Em seis décadas, as mudanças nos perfis demográficos dos países demonstram que,
enquanto a expectativa de vida ao nascer subiu para 11 anos entre 1950 e 2010 nos países
mais desenvolvidos, o crescimento foi muito superior nas regiões menos desenvolvidas,
onde a expectativa de vida aumentou em 26 anos, no mesmo período (Fundo de População
das Nações Unidas, 2011). Esta transição demográfica, em que o fenómeno de fecundidade
e o de mortalidade são baixos transforma radicalmente as pirâmides etárias afunilando a
base (camadas mais jovens) e alargando substancialmente o topo, onde residem as camadas
idosas (Monteiro & Neto, 2008).
Hoje, mais 60% da população idosa vive em países em vias de desenvolvimento,
tendência esta que se prevê aumentar para 75% em 2025 e 85% em 2050. Também a taxa
de fecundidade sofrerá previsivelmente um grave declínio (abaixo de 2,1 criança por
mulher), não garantindo a renovação de gerações em todos os países (Monteiro & Neto,
2008).
A estratégia internacional para lidar com esta tendência do aumento da proporção
das pessoas idosas na população total centra-se em viabilizar a inclusão social deste grupo
da comunidade, reforçando o conceito de envelhecimento activo e optimizando as
oportunidades de bem-estar ao longo da vida e baseando-se nos direitos, necessidades,
preferências e capacidades dos idosos (Monteiro & Neto, 2008).
11
1.3. Tendências na União Europeia
Tal como se passa no resto do mundo, o envelhecimento demográfico da União
Europeia é devido, mais do que ao próprio aumento da esperança de vida, à acentuada
redução da natalidade. O nível de substituição das gerações não garante a manutenção da
população, pelo que nas próximas décadas, é previsível que os países da União Europeia
sejam confrontados com um envelhecimento da população (envelhecimento na base da
pirâmide etária) em números nunca antes vistos (Monteiro & Neto, 2008). Tal como refere
Rosa (2012), para que a renovação pudesse ser feita, seria preciso que cada mulher
deixasse uma futura mãe, ou seja, que procriasse um indivíduo do sexo feminino. Para tal,
seria necessária uma taxa de 2,1 criança por mulher, número ligeiramente superior a dois
filhos por forma a esbater a probabilidade maior do nascimento de indivíduos do sexo
masculino e não de 1,5 como acontece na Europa.
Também a idade média da população dos vinte e sete países da União Europeia
passará, dos 40,9 anos actuais para uma projecção de 47,6 anos em 2060. Assistiu-se, na
Europa, a um incremento considerável da proporção das pessoas com mais de 65 anos de
1990 a 2010. Este incremento foi particularmente grande em países com a Eslovénia, a
Alemanha, a Itália ou a Grécia (European Comission, 2011a)
De acordo com os autores Monteiro e Neto (2008), a esperança de vida à nascença
e a redução da natalidade, que muito têm condicionado o envelhecimento populacional,
têm sofrido, também, drásticas mudanças nos seus níveis. Os autores referem que “De
1970 a 1995, a esperança de vida à nascença dos homens passou de 64,2 para 71,5 anos
enquanto a das mulheres aumentou de 70,8 para 78,6 anos.” (p. 29).
Assim, segundo o Eurostat (European Comission, 2012), a população com idade
igual ou superior a 65 anos representará quase 30% da população em 2060 contra os 16%
em 2010, aumentando a um ritmo de dois milhões por ano. Em 2060, prevê-se que poderá
existir, deste modo, um idoso por cada duas pessoas activas.
Estima-se também, que a proporção da população com mais de 80 anos triplique
para 11,4% em 2050 (Comissão das Comunidades Europeias, 2006)
A Comissão das Comunidades Europeias (2006) resume em quatro grandes linhas
as tendências demográficas europeias:
- Um índice conjuntural de fecundidade fraco (número médio de filhos por mulher),
muito abaixo do índice de substituição de 2,1 necessário para estabilizar a dimensão
populacional.
12
- O declínio da fecundidade.
- O aumento da esperança de vida que ainda poderá aumentar 5 ou mais anos até
2050.
- Os importantes fluxos migratórios líquidos provenientes de países terceiros,
prevendo-se que mais 40 milhões de imigrantes acorram à União Europeia até 2050.
Em virtude destas quatro grandes tendências, prevê-se uma diminuição da
população da União Europeia, mas um consequente envelhecimento também.
1.4. Tendências em Portugal
Portugal surge como um dos países mais envelhecidos da Europa. De acordo com
projecções do Instituto Nacional de Estatística, os próximos vinte e cinco anos apontam
para uma duplicação do número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos), passando de 112
para 242 idosos para cada cem jovens (Marques, 2011).
Sabe-se que à semelhança de muitos outros países, Portugal trilha, deste modo, o
caminho para o envelhecimento. Tal como muitos outros países, também, Portugal
começou a confrontar-se com o que Rosa (2012) e Barros de Oliveira (2008) chamam de
“duplo envelhecimento”, ou seja, um envelhecimento na pirâmide etária na base, por
diminuição da natalidade e no topo, pelo aumento da esperança de vida. Também Monteiro
e Neto (2008), falam de um “às de espadas” como representação do formato da nova
pirâmide etária da população portuguesa. Assiste-se assim, ao fenómeno da "inversão" da
pirâmide de idades, como demonstra o gráfico a seguir.
13
Gráfico 1 - Pirâmide de idades, Portugal 1960-1998
1998
1960
Fonte: (Monteiro & Neto, 2008) adaptado de I.N.E. 1999.
Em território nacional, a idade média da população, tal como acontece na Europa e
no resto do mundo, evoluiu no sentido ascendente, com a agravante de que essa evolução
foi ainda mais forte do que na Europa, passando de 26 anos em 1950, para 38 em 2000 e
41 em 2010, prevendo-se chegar aos 50 anos em 2050, segundo as previsões das Nações
Unidas. O ritmo alucinante a que Portugal vai chegando é condicionado pela rapidez com
que
os
ritmos
de
fecundidade
e
mortalidade
baixaram,
inserindo-se
assim,
justificadamente, numa Europa conhecida por “Continente grisalho” (Rosa , 2012).
Portugal partiu de uma população menos envelhecida do que a média dos países
europeus nos anos 80, mas atingiu, nas últimas décadas, o estatuto de um dos países mais
envelhecidos da Europa e, como tal, do mundo.
Relembrando a situação em 1960, os jovens perfaziam 29% da população e os
idosos 8%. Actualmente, os números mudam para 15% de jovens e 19% de idosos. Pela
primeira vez na história, no ano 2000, o total de indivíduos com idade igual ou superior a
65 anos era maior do que o número de jovens. Também a parcela de indivíduos relativa a
idades superiores a 80 ou mais anos tem vindo a reforçar o seu peso estatístico ao longo do
tempo, tendo o seu número quadruplicado em Portugal, entre 1971 e a actualidade (Rosa,
14
2012). Monteiro e Neto (2008) baseando-se no estudo de 2002 do Instituto Nacional de
Estatística falam também em números como “[…] um decréscimo de cerca de 36% na
população jovem e um incremento de 140% da população idosa” entre 1960 e 2001.
Para reforçar estes factos, também a população em idade activa (15-64 anos) que
representa actualmente 66% da população residente em Portugal sofreu severas mudanças.
Este grupo também envelheceu, perdendo as idades activas mais jovens (15-24 anos)
importância progressiva (passou de 26% em 1960 para 16% actualmente).
Ainda outro dado importante é aquele que nos mostra que a relação estatística entre
o grupo de idade activa e os grupos de idades jovem e idosa se alterou profundamente,
evoluindo no sentido de reduzir o peso estatístico dos jovens e aumentar o peso estatístico
dos idosos (índice de dependência). Neste momento, existem pouco mais de três pessoas
em idade activa por cada pessoa em idade idosa e mais de quatro em idade activa por cada
jovem, facto que em 1960 era bem diferente: oito pessoas em idade activa por idoso e duas
em idade activa por jovem (Monteiro & Neto, 2008; Marques, 2011).
À semelhança do que se verifica a nível mundial, também no território português a
distribuição da população idosa não é homogénea, dadas as diferentes dinâmicas regionais.
Neste caso, é a região alentejana que apresenta um maior peso de idosos, seguindo-se o
Algarve e o Centro. No que toca às regiões menos envelhecidas do território, contam-se as
regiões autónomas, com níveis de envelhecimento menores (Monteiro & Neto, 2008).
Gráfico 2 - População com 65 e mais anos de idade, por sexo e por região, 1990/1998
Segundo dados do I.N.E. (1999) - (http://www.alea.pt/html/actual/html/act16.html)
15
A região Norte detinha, tanto em 1990 (11,4%) como em 1998 (12,8%) a mais
baixa percentagem de idosos no Continente como resultado das elevadas taxas de
natalidade observadas. A maior importância relativa de idosos em 1998 (21,6%) pertencia
ao Alentejo, tal como já acontecia em 1990 (19,3%). Esta situação decorre da evolução
demográfica do Alentejo se caracterizar por crescimentos efectivos negativos, o que
implicou perda de população em todos os grupos etários, excepto no grupo dos 65 e mais
anos. A R.A. dos Açores (11,9%) substituiu a R. A. da Madeira (12%) em 1998, passando
a pertencer-lhe o lugar de região com menor nível de envelhecimento.
Os estudos prospectivos do Instituto Nacional de Estatística prevêem que Portugal
continuará a envelhecer e de um modo particularmente intenso, continuando a população
próxima dos 10 milhões de pessoas mas com uma taxa de envelhecimento bem maior do
que a actual: o número de pessoas com 65 ou mais anos poderá ter valores três vezes
maiores do que o número de jovens, sendo que um em cada três portugueses poderá ter 65
ou mais anos (32%) contra os 19% actuais (um em cada cinco portugueses), havendo
sempre mais expressão na categoria feminina. Os indivíduos com 80 anos ou mais poderão
representar cerca de 13% da população residente. O número de pessoas em idade activa
por indivíduo em idade idosa poderá diminuir de um pouco mais de três para apenas dois
(Rosa, 2012).
1.5. O impacto do envelhecimento demográfico
Com a diminuição da população activa no decorrer desta década devido à reforma
da geração “baby-boom” algumas dúvidas se põem quanto ao impacto que este facto terá
no mercado de trabalho, na produtividade ou no crescimento económico (Comissão das
Comunidades Europeias, 2006; Comission Europénne sur l' Emploi et les Affaires
Sociales, 2012).
O já citado progressivo envelhecimento da população ao longo das últimas décadas
obrigou a maioria dos países europeus a estabelecer prioridades nas suas políticas
referentes ao assunto da velhice. De forma esquematizada, Vizcaíno Martí (2000), refere
três dos grandes temas a debater na actualidade:
- A viabilidade financeira futura do pagamento das pensões;
- O incremento de atenção que uma população envelhecida irá requerer a todos os
níveis;
16
- As linhas necessárias para garantir a plena integração social deste sector da
população;
É, segundo o autor, o primeiro tema aquele que tem vindo a suscitar mais debate e
preocupação, uma vez que os outros se cingem, de certa forma, a uma acção familiar e
profissional, ficando o âmbito social ainda muito aquém do que se pode apelidar de
verdadeira medida de resolução. Também a Comission Européenne sur l’Emploi et les
Affaires Sociales (2012) corrobora o assunto dizendo que as pensões são a maior fatia das
despesas no orçamento dos Estados Membros da Comunidade Europeia.
Segundo a Comissão das Comunidades Europeias (2006), este problema poderá ser
compensado temporariamente pela subida das taxas de emprego na União Europeia até
2017, nomeadamente, a subida do emprego feminino e o aumento da idade da reforma. No
entanto, prevê-se, após este prazo, uma diminuição de 30 milhões de pessoas empregadas
na EU até 2050, fazendo antever importantes e graves consequências nas taxas de
crescimento económico. Sendo assim, segundo a referida Comissão, a Europa terá de
apoiar-se cada vez mais nos ganhos de produtividade enquanto principal fonte de
crescimento económico e ver os trabalhadores mais velhos como parte crescente dos
recursos globais em termos de mão-de-obra e produção. Esta situação ainda deverá
percorrer um longo caminho no sentido da gestão dos recursos da mão-de-obra mais
envelhecida, uma vez que, neste momento, e segundo a Comissão da Comunidades
Europeias (2006), existe um recurso excessivo às reformas antecipadas, aos insuficientes
incentivos ao trabalho nos sistemas fiscais e sociais e à desfavorável gestão de idades em
local de trabalho, marcada por acesso insuficiente às formações e mesmo situações de
discriminação em relação aos trabalhadores mais velhos, que se traduzem normalmente em
estereótipos que interligam o trabalhador mais velho à menor produtividade.
Também no aumento da despesa pública o envelhecimento vai exercer pressões
significativas. Mais uma vez, a Comissão das Comunidades Europeias (2006) prevê um
possível aumento de 10% (variável de país para país) das despesas ligadas à idade
(reformas, saúde e serviços a idosos) nesta década e sobretudo entre 2020 e 2040 que pode
levar à insustentabilidade e ao comprometimento do equilíbrio futuro dos regimes de
pensões e protecção social com importantes consequências para o bem-estar futuro dos
reformados e contribuintes, caso os cidadãos não passem a desempenhar um papel mais
activo na constituição de poupanças para a reforma e à escolha do momento da
aposentação. No mesmo documento, a Comissão ambiciona uma redução de metade das
despesas públicas em matéria de saúde e cuidados de dependência através de uma melhor
17
adaptação dos serviços de saúde e de uma abordagem preventiva das doenças crónicas,
facto esse, possível, segundo a Comissão, com a utilização das novas tecnologias.
Ainda assim, segundo Sibila Marques (2011), a situação do impacto do
envelhecimento demográfico tem sofrido uma evolução positiva e verifica-se mesmo
algum crescimento das respostas sociais para as pessoas idosas embora haja muito a fazer e
a planear desde já.
1.6. Respostas
ao
desafio
demográfico
do
envelhecimento
populacional
Actualmente, a maioria dos países europeus preocupa-se (pelo menos ao nível do
discurso e intenções) com o desenvolvimento de políticas favoráveis às pessoas em idade
avançada. Estas políticas têm-se desenvolvido a ritmos distintos segundo as circunstâncias
e possibilidades de cada país. Um ponto em comum transparece destas medidas dos vários
países: todas parecem considerar que o objectivo principal dessas políticas em favor das
pessoas idosas será o incremento da inserção social normal durante o maior tempo
possível.
Jordi Vizcaíno Martí (2000) resume as principais intenções dessas políticas:
- Ao nível económico, esta opção pressupõe garantir um rendimento adequado a
partir da entrada na reforma.
- Ao nível de protecção social e da saúde, pressupõe conceder preferência às opções
de ajuda no domicílio ou outras soluções alternativas à institucionalização ou
hospitalização, de modo a manter as pessoas em idade avançada no seu meio e prevenir os
riscos de desinserção.
De qualquer modo, as circunstâncias demográficas actuais, bem como as projecções
a curto e médio prazo obrigam a repensar seriamente alguns aspectos de modo a assegurar
a viabilidade destes objectivos, adaptando-os a uma nova realidade social.
É tempo, segundo a Commission Européenne sur l’Emploi et les Affaires Sociales
(2012), que a sociedade reflicta sobre a população em idade avançada. Um processo de
reformulação da sociedade deve ser iniciado de modo a alargar as ofertas de inserção ao
sector mais idoso da população. Só assim este sector poderá trazer o que de melhor tem à
sociedade permanecendo activo e independente. É necessário um pensamento
intergeracional. Foi com este pensamento que se declarou o ano de 2012 como Ano
18
Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações. O envelhecimento
activo da população pode trazer benefícios consideráveis para a sociedade geral. Todavia,
deve revestir-se de uma mudança profunda das mentalidades e políticas (Comission
Europénne sur l' Emploi et les Affaires Sociales, 2012).
Nesta matéria, a Comissão das Comunidades Europeias (2006) fala da necessidade
de uma estratégia global e de uma avaliação das políticas existentes de modo a determinar
os eventuais ajustes a levar em conta devido às alterações demográficas actuais. Assim,
apresenta cinco orientações políticas que considera essenciais (2006, p. 7):
- Uma Europa que favoreça a renovação demográfica
- Uma Europa que valoriza o trabalho - mais empregos e uma vida activa mais longa e com
qualidade;
- Uma Europa mais produtiva e avançada;
- Uma Europa organizada para receber e integrar os migrantes;
- Uma Europa com finanças públicas viáveis - garante de uma protecção social adequada e
da equidade entre gerações;
O envelhecimento da população é a consequência inevitável de evoluções que, não
obstante, são positivas: o aumento da esperança de vida com qualidade de saúde
progressiva, uma decisão facilitada de e quando ter filhos, assumida por mulheres cada vez
mais instruídas e com acesso mais fácil ao mercado de trabalho. No entanto, estas
profundas alterações demográficas e socioeconómicas obrigam a reformular as instituições
actuais para chegar a uma maior eficiência económica e equidade social.
As políticas actuais são inviáveis a longo prazo na medida em que não permitem
fazer face à diminuição esperada da população activa e à perspectiva de insustentabilidade
das finanças. A origem do problema não está tanto no prolongamento da duração da vida
mas na incapacidade das políticas actuais de se adaptarem à nova situação demográfica e
na renitência das empresas e dos indivíduos em alterarem expectativas e comportamentos,
em especial, perante a modernização do mercado de trabalho. É possível dar resposta ao
desafio, embora este seja de grande envergadura para todos.
As políticas comunitárias e nacionais deverão ser adaptadas e reavaliadas para dar
resposta a esse desafio demográfico nas políticas futuras (Comissão das Comunidades
Europeias, 2006).
Todos os países enfrentam, desta maneira, vários desafios na hora de desenvolver
políticas sociais para a terceira idade.
19
As medidas desenvolvidas no nosso país visam, sobretudo, a participação activa
dos mais idosos na sociedade; o acesso e permanência dos idosos no mundo laboral
durante mais tempo; a criação de um sistema de aprendizagem ao longo da vida e
promoção do envelhecimento activo; a adequação das respostas e esquemas de protecção
social às mutações demográficas e sociais; a promoção da solidariedade intergeracional; a
promoção de uma vida mais autónoma e de maior qualidade; o alargamento da rede de
equipamentos e serviços de apoio e integração a comunidades de pertença.
A inclusão do envelhecimento em diversos programas de acção e medidas,
aplicadas de forma coordenada e consistente, tem-se traduzido no aumento das situações e
dos riscos cobertos, dos níveis de protecção conferidos, bem como nas alterações nos
critérios de elegibilidade, permitindo que um número maior de pessoas aceda às
prestações, aos serviços e aos equipamentos sociais. Assiste-se, assim, a um crescimento
gradual das despesas com a protecção social aos idosos, bem como a um crescente
envolvimento por parte dos diferentes organismos da Administração Pública, dos parceiros
sociais e das instituições particulares de solidariedade social.
Em Portugal, estas acções centram-se, principalmente no financiamento de
diferentes medidas políticas e na formação de know-how em termos de políticas sociais
gerontológicas.
Portugal desenvolveu as suas políticas sociais para a terceira idade assentes num
modelo assistencialista e operacionalizadas, sobretudo, através de protocolizações com
Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) (Martín & Lopes, 2008).
Desta forma, desde 2005, foram desenvolvidas cinco políticas sociais para a
terceira idade, sendo as quais (Martín & Lopes, 2008):
1) Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES);
2) Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCC);
3) Modelos de Qualidade para Centros de Dia e Serviços de Apoio Domiciliário;
4) Rendimento Solidário para Idosos (RSI);
5) Programa de Conforto Habitacional para pessoas Idosas (PCHI).
De seguida serão analisadas globalmente estas medidas políticas para a terceira
idade, tendo por base o artigo de Martín e Lopes (2008) e de Cristina Fangueiro (2008)
sendo cada uma individualmente avaliada na tabela adaptada que se segue:
20
Quadro 1 - Políticas sociais gerontológicas implementadas em Portugal desde 2005
Programa
Modelo político /Função
Limitações
Programa
de
Alargamento da Rede
de
Equipamentos
Sociais
(PARES)
Com este Programa procura-se
estimular, através de recursos
financeiros
exclusivamente
provenientes dos resultados líquidos
dos jogos sociais, o investimento
privado em equipamentos sociais,
com a finalidade de aumentar,
desenvolver
e
consolidar
a
capacidade instalada e respostas
sociais, nomeadamente para idosos.
Financiamento
de
entidades
promotoras de respostas sociais
baseando-se em critérios de avaliação
alheios à tipologia dos utentes ou dos
serviços específicos prestados.
Não mostra uma política clara
de
desenvolvimento
de
serviços sociais comunitários,
mantendo preferência por
respostas de internamento.
Rede
Nacional
de - Criar um terceiro sistema
Cuidados
intermédio entre o sistema social e o
Continuados (RNCC)
sistema de saúde;
- Sistema baseado em unidades de
pequena dimensão.
- Criação de um modelo muito
complexo
baseado
num
sistema de integração por
coordenação;
Dificuldade
na
sustentabilidade do modelo de
financiamento.
Modelos de Qualidade Criação de indicadores de processo
para Centros de Dia e que descrevem as tarefas da
Serviços de Apoio organização.
Domiciliário
- Não existe uma ligação clara
entre Modelo de Normalização
promovido pela Segurança
Social e o Sistema de
Acreditação
ISO9001, nem com o sistema
de fiscalização de respostas
sociais;
Vantagens
para
as
organizações promotoras do
sistema pouco claras.
Rendimento Solidário Assegurar aos idosos um rendimento
para Idosos (RSI)
mínimo. Os beneficiários deste
complemento
têm
benefícios
adicionais referentes às despesas de
saúde.
Processo administrativo denso,
principalmente no que se
refere aos Rendimentos Anuais
do Agregado Fiscal do(s)
filho(s) do Requerente.
Programa de Conforto Fundo financeiro estatal com gestão
Habitacional
para autárquica com o objectivo de
pessoas Idosas (PCHI)
prevenir a dependência e a
institucionalização dos cidadãos mais
idosos.
Selecção dos candidatos muito
difícil (desenvolvida a partir
da Rede Social);
- Programa que implica um
grande investimento financeiro
por utente.
Fonte: adaptado de (Martín & Lopes, 2008) e (Fangueiro, 2008).
21
Por último, é importante referir a importância da estratégia para o envelhecimento
activo, que consta do Plano Nacional de Emprego e que tem dois eixos fundamentais:
• Estimular os trabalhadores a permanecerem mais tempo no mercado de trabalho e
desincentivar a saída precoce do mercado de trabalho;
• Relançar a inserção dos cidadãos mais velhos em actividades de interesse social,
nomeadamente Programas Ocupacionais e o novo Programa Voluntariado Sénior
(Fangueiro, 2008).
O acesso da população idosa aos cuidados necessários de saúde e de acção social
nem sempre tem sido garantido, principalmente quando ao envelhecimento se associa a
perda de autonomia. No entanto, algumas medidas têm contribuído positivamente para a
garantia desse acesso.
Referimos apenas algumas das medidas mais emblemáticas do esforço que tem sido
feito para melhorar os índices de protecção social da população idosa. Apesar dos avanços
que se têm verificado nos últimos anos, é necessário um olhar permanente para a realidade
em que vivem as pessoas idosas, pois, só assim se consegue continuar a melhorar a sua
qualidade de vida. O modelo de intervenção, mais centrado nas exigências e expectativas,
tem de ser dinâmico e integrado, adaptando-se cada vez mais a essa realidade.
22
CAPÍTULO 2 – A VELHICE
Nas várias ciências humanas e/ou sociais existentes, não são certamente a idade
adulta e a velhice as fases de desenvolvimento mais estudadas. A psicanálise talvez tenha
sido um dos ramos científicos mais atentos às fases mais avançadas de idade do Homem,
com trabalhos como o de Jung e Freud, de Charlotte Buehler e Erikson, pioneiros no
estudo de toda a curva da vida. Em 1922 foi publicado um livro intitulado Senescence, the
second half of life, retratando o envelhecimento e a problemática da reforma do próprio
autor, Stanley Hall. Nessa obra, Hall igualava em importância a parte psicológica e
biológica do envelhecimento (Barros de Oliveira, 2008). Barros de Oliveira (2008) refere,
também, que em 1930, Jung escreveu um artigo onde descrevia a vida humana ao longo de
todo o seu ciclo, exortando o interesse e a beleza da segunda metade desse ciclo. Em 1933,
Buehler publicava também Der menschliche Lebenslauf als psychologisches Problem (o
curso da vida humana como problema psicológico) onde descrevia a vida “como um
período de expansão seguido de outro de restrição e de declínio” (Barros de Oliveira, 2008,
p. 21). Mais tarde, em 1968, Buehler junta-se a Massarik para desenvolver a sua teoria
anterior. Mas foi Erikson, em 1950 que descreveu com minúcia o desenvolvimento
humano, desde a primeira infância até à velhice na sua obra Childhood and Society,
embora os capítulos das fases infantis e juvenis estivessem mais desenvolvidos (idem).
A idade adulta e a velhice começaram, desde aí, a ser cada vez mais
estudadas e começaram a existir especializações em gerontologia. A velhice começou,
assim, a ser estudada desde diversos pontos de vista, como o psicológico ou o sociológico.
Em 1961 Birren escreveu uma muito breve história da psicologia do
envelhecimento, juntando-se mais tarde a Shaie para editar um Manual sobre psicologia do
envelhecimento, que passou a ser um dos livros mais importantes sobre esta matéria.
Em 2001, Birren e Schroots fazem a distinção entre psicologia do idoso (que
estuda particularmente aspectos patológicos, dentro de um modelo biomédico), psicologia
da idade (que compara transversalmente diferentes grupos etários, embora não explique
propriamente o processo de envelhecimento) e psicologia do envelhecimento (que se
coloca numa perspectiva desenvolvimental tentando analisar e explicar as mudanças,
ganhos e perdas ao longo de toda a vida, em especial na fase da velhice, atendendo às
dimensões cronológicas e biopsicossociais) (ibidem).
23
Barros de Oliveira (2008) refere ainda autores como Labouvie-Vief, Baltes
e Goulet, Reese e Lipsitt, que trouxeram vários contributos para a temática da velhice. O
autor alude ao ano de 1987, em que Baltes elabora princípios gerais sobre a natureza do
desenvolvimento, sobre as diferenças inter-individuais, sobre as semelhanças interpessoais
e sobre as condições que regem a plasticidade intra-individual, apresentando um modelo
multidimensional e multidireccional.
Não podíamos deixar de referir, com a ajuda de Barros de Oliveira (2008), a
contribuição para o estudo da velhice, por parte de alguns autores portugueses como
Merval Rosa, Marchand ou Fonseca.
2.1. O processo de envelhecimento – conceitos e perspectivas
O século presente caracteriza-se pelo envelhecimento da população observado na
grande maioria dos países, como pudemos verificar em pontos anteriores do nosso
trabalho. Segundo Barros de Oliveira (2008), o século XXI é o século dos idosos, pelo
menos para o mundo ocidental. Este é um assunto que interessa a todos na medida em que
os mais jovens de hoje serão os idosos de amanhã e, segundo expressão usada pelo autor:
“Do modo como a sociedade trata hoje os gerontes pode aferir-se dos seus valores e prever
os valores de amanhã” (Barros de Oliveira, 2008, p. 5).
Fazer referência ao envelhecimento da população implica necessariamente referirse à etapa da vida que denominamos de velhice. Os contextos que permitem determinar o
momento desta etapa variam em função do momento histórico e do contexto sociocultural.
A definição de velhice não é clara e reflecte ideologias que a moldam (Simões, 1999).
A velhice é uma das fases do desenvolvimento do indivíduo no seu ciclo vital.
Para muitos, este é um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e
psicológico. É inevitável e universal, porque é natural e não depende da vontade do
indivíduo, é, apesar dos grandes avanços no campo da medicina, irreversível, é
heterogéneo e individual, em cada espécie e, mais restritamente, há um ritmo próprio para
envelhecer (Monteiro & Neto, 2008). Assim, as manifestações do envelhecimento surgem
em variadas e complexas combinações, em diferentes idades, dependendo das
características genéticas de cada indivíduo e de vários factores ambientais, como o estilo
de vida, a dieta, os cuidados com a saúde, o exercício, entre outros (Glass, 2003; Monteiro
& Neto, 2008).
24
O processo de envelhecimento é, então, um fenómeno intrínseco a todo o ser
humano, capaz de desencadear mudanças biopsicossociais (Santín & Borowsky, 2008).
Berryman, Hargreaves, Herbert e Taylor (2002) falam do envelhecimento como
questão social e biológica, por exemplo. Biológica por herdarmos uma duração de vida
geneticamente estipulada e social porque qualquer sociedade definiu fases e expectativas
de vida em relação a comportamentos apropriados ou não à idade, sendo por vezes, mais a
fase de vida do que a idade que determina atitudes e comportamentos.
A velhice, ou fenómenos a ela ligados, sempre foram, desta maneira, alvo de
estudos e reflexão, dado que sempre houve pessoas a envelhecer (Monteiro & Neto, 2008).
Monteiro e Neto (2008) definem a velhice como um “estado de espírito” decorrente
da forma como a sociedade e a própria pessoa encaram esta fase da vida. A imagem da
sociedade sobre os idosos tende a ser negativa, partindo do declínio e da improdutividade,
constituindo a oposição jovem/idoso uma das mais fortes representações sociais em
desprestígio da velhice, facto que originou o aparecimento de vários mitos/estereótipos
(Veloso, 2011) como veremos mais adiante. Os defensores da visão positiva da velhice
encaram-na como mais uma etapa da vida, uma experiência de crescimento, etapa que
pode e deve ser significativa, já que a sua ausência seria a morte prematura.
A velhice é uma das fases do desenvolvimento da pessoa ao longo do ciclo vital,
um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e psicológico, um momento
de reflexão em que se faz o resumo de tudo o que se fez até àquele momento, devendo
constituir um período em que se deveria apreciar os frutos de toda uma experiência de vida
(Monteiro & Neto, 2008).
Fazendo uma reflexão apoiada em alguns estudos sobre terceira idade,
envelhecimento, velhice, ou outras palavras associadas ao tema podemos distinguir várias
vertentes e clarificar alguns conceitos.
O termo envelhecimento é-nos, com certeza, bastante familiar, no entanto, a sua
definição não é linear. A pergunta aparentemente simples, «o que é envelhecer?» não tem
uma resposta consensual.
Comecemos por compreender as raízes etimológicas dos conceitos ligados à velhice
para um melhor enquadramento e compreensão do assunto.
Termos do latim como velho, (do latim vétulus), ancião (do latim medieval
(antianus, através do provençal ancian e do francês ancien), idoso (do latim aetas, que tem
muita idade), sénior (do latim sénior de sénex, donde advém senescência, senilidade,
25
senado), geronte (do grego gérôn-ontos, que forma também gerontologia) tornam
secundário e variado o modo como apelidamos a velhice (Barros de Oliveira, 2008).
Segundo a Enciclopédia Verbo Fundamental (Vários, 1982, p. 1578), velhice é “o
mesmo que 3ª idade: fase da vida durante a qual aumenta progressivamente a
probabilidade de morte. […] Define-se pela deterioração progressiva das capacidades
tanto físicas como mentais. Atribui-se à involução, com ritmo variável, de todos os tecidos
e sistemas por determinismo genético da idade das células […]”. Já o termo
envelhecimento, é definido por Monteiro & Neto (2008, p. 21) como “ […] a manifestação
de mudanças biológicas que ocorrem ao longo de um período”.
O termo idade surge com a necessidade de delimitar o envelhecimento. Qualquer
limite cronológico para definir a pessoa idosa é impreciso e difícil de englobar nas várias
dimensões da evolução da vida humana (Monteiro & Neto, 2008).
Terceira idade é efectivamente um conceito também usado no que diz respeito a
este assunto, embora de forma mais recente. Segundo Veloso (2011, p. 23), “o conceito de
terceira idade pretende […] romper com uma imagem de velhice associada à decrepitude,
à indigência, à dependência e doença, passando a significar uma velhice autónoma, capaz e
activa”. Assim, embora normalmente corresponda ao final da vida activa, retrata ainda uma
fase de auto-suficiência, independência e responsabilidade pela sua própria existência. Este
termo surge assim para expressar novos padrões de comportamento de uma geração que se
aposenta e envelhece activamente. Surge também a partir da evolução da esperança de
vida, originando um outro termo, menos usado e difundido: a quarta idade, para os
indivíduos de 75 e mais anos (Monteiro & Neto, 2008).
Barros de Oliveira (2008) dedica um subcapítulo do seu livro “Psicologia do
Envelhecimento e do Idoso” à questão terminológica que se põe quando se hesita em usar
de forma sinónima as palavras velho e idoso. O autor defende que a expressão velho não é
depreciativa, podendo até ser carinhosa em alguns países ou línguas. No caso do português,
a palavra velho é sobretudo usada com carácter meigo no que diz respeito ao povo
brasileiro, já que em Portugal tem alguma conotação negativa. No caso do país vizinho, a
Espanha, é usado o termo mayores.
Podemos observar assim que os termos ligados à velhice e envelhecimento,
possuem um lato conjunto de definições e perspectivas que pressupõem uma reflexão. Esta
reflexão, requer uma abordagem multidisciplinar. Deste modo, segundo alguns autores,
podemos situar o envelhecimento em vários pontos de vista distintos como o biológico, o
psicológico, o sociológico, o demográfico, o cronológico, o religioso, o histórico, o
26
cultural, entre outros, de modo a melhor compreender o fenómeno (Martí, 2000; Monteiro
& Neto, 2008).
Segundo Martí (2000), o conceito de velhice pode ser analisado de pelo menos
quatro perspectivas diferentes: a perspectiva biológica, a perspectiva psicossocial, a
perspectiva cronológica e a perspectiva cultural.
Considerando a primeira, a perspectiva biológica, o autor descreve o
envelhecimento como um processo fisiológico que começa desde a concepção e origina
mudanças ao longo de toda a vida. Assim, a idade biológica de um indivíduo refere-se à
situação da pessoa em relação ao seu potencial ciclo de vida. Como este processo é gradual
e personalizado, torna-se difícil estabelecer a fasquia a partir da qual determinado
indivíduo pode ser considerado velho do ponto de vista biológico. Actualmente, esta
fasquia analisa-se sob a perspectiva do conjunto de acções necessárias para satisfazer as
necessidades deste sector da população, ou seja, da autonomia funcional. Deste modo,
podemos dizer que uma pessoa será considerada biologicamente velha em função das
limitações que a impedem de ser auto-suficiente. Santín e Borowsky (2008) que referem o
ponto de vista biológico como sendo talvez o mais observado e observável, caracterizam a
partir deste aspecto, a velhice e o idoso. Segundo estes autores, é nesta etapa que se
começam a evidenciar as fragilidades do corpo. Por predeterminação do próprio organismo
algumas hormonas deixam de ser produzidas, gerando diminuição da capacidade funcional
de órgãos e tecidos, desaceleração da velocidade do metabolismo e comprometimento do
sistema imunitário. Glass (2003) refere, no entanto, as variações de indivíduo para
indivíduo no que toca ao processo de envelhecimento.
A segunda perspectiva, a perspectiva psicossocial, é aquela que indica quando é que
uma pessoa passa a ser vista como pertencente ao grupo das pessoas «velhas». Também
aqui existe diversidade e torna-se difícil determinar o momento exacto dessa inclusão no
grupo. Apesar da idade da velhice ser incerta e flutuante segundo os indivíduos, esta está
no entanto inscrita na sociedade e nas suas instituições. Geralmente, adopta-se a idade de
65 anos como o início da velhice dado coincidir com a idade da aposentação. Hoje, com o
aumento da esperança de vida, esta idade não significa incapacidade funcional, mas antes,
uma possibilidade de iniciar uma nova etapa de vida, satisfatória individual e socialmente
(Simões, 1999; Martí, 2000).
Na perspectiva cronológica, existe uma necessidade de distinguir a «terceira idade»
da actualmente referida «quarta idade». Embora se aceitem os 65 anos como o início de um
novo ciclo vital, a tendência é a de adiar cada vez mais o início da «velhice». Rosa (1999)
27
refere que o envelhecimento cronológico resulta exclusivamente da idade e é um processo
universal, progressivo e inevitável, logo não se pode considerar sinónimo de doença.
Existem momentos de aceleração, não obstante a progressividade do processo, o que faz
parecer que é apenas a partir de certa idade que o processo acontece, quando na realidade
acontece desde que o indivíduo é concebido.
Por último, na perspectiva cultural, Martí (2000) refere a atitude colectiva
tendencialmente negativista em relação à velhice, caracterizada por um conjunto de
preconceitos, estereótipos e ideias discriminatórias aplicadas às pessoas conforme o
avançar da idade.
Interessante, também, será a perspectiva histórica e cultural do envelhecimento
humano, descrita, por exemplo, por Santín e Borowsky (2008), que se ocupa dos valores,
das crenças, do papel que o idoso desempenha na sociedade, da representação que dele se
faz, tecendo uma análise comparativa ao longo do tempo.
A velhice nem sempre foi vista da mesma forma, variando as perspectivas nos
diferentes momentos da História. Embora o envelhecimento sempre tenha existido houve
momentos históricos importantes, nos quais se evidenciam os diversos papéis assumidos
pelo idoso. Temos o exemplo da sociedade primitiva, em que a selecção natural e a
necessidade de sobrevivência faziam uma triagem que não era favorável aos idosos. Num
segundo momento, com a sedentarização dos povos, a introdução da agricultura e o
despontar da organização familiar, o patriarca exercia um papel fundamental e mantinha o
respeito e admiração de todos os que o rodeavam, dotando-o até, mais tarde, de poder
religioso que o apresentavam como indivíduo de elevada importância. Já na Roma antiga,
o idoso também era venerado e considerado poderoso, por ser ele o detentor de
propriedades e riquezas, detendo assim o poder social e económico da família, ficando um
pouco de parte as suas características como ser humano, dado que a sua força residia
nessas posses. Sendo assim, os idosos que não possuíam riquezas não poderiam obter
reconhecimento na sociedade ficando dependentes. Com o surgimento da Revolução
Industrial, surge também a expansão do capitalismo, que, inevitavelmente, levou a uma
desestruturação da sociedade e a uma inversão de valores. A capacidade de produção passa
a ser sobrevalorizada em detrimento do factor humano, instalando-se, inegavelmente, um
conceito negativo de velhice, por se considerar fase pouco produtiva. Mais tarde, no século
XX, a figura de família patriarcal acaba por aumentar a sua tendência para desaparecer. A
desvalorização do idoso torna-se ainda mais acentuada. Sobre ele, recai o peso da
inutilidade e decadência. Hoje, esta situação de desprezo e indiferença que perdurou
28
durante tanto tempo é questionada. São lançados movimentos que procuram reavaliar o
papel do idoso na sociedade, reencontrar a sua dignidade e providenciar a sua reinserção
social (Santín & Borowsky, 2008).
As conotações atribuídas à “ velhice “ e às atitudes para com os “ velhos “, são
sempre produto de uma cultura, historicamente moldadas segundo as interpretações
dominantes acerca da mobilização do corpo humano, na divisão social do trabalho.
2.2. Teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento
Existem várias teorias sobre o envelhecimento, facto este que tem vindo a fazer
crescer a literatura neste domínio nos últimos anos.
As teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento que Schroots (1996, citado
por Barros de Oliveira, 2008) sintetiza em três grandes períodos (período clássico,
moderno e recente) dão-nos uma perspectiva histórica sobre o envelhecimento. Em cada
um destes períodos existem diversas teorias que passamos a caracterizar brevemente:
Período Clássico
Dentro do período clássico, o autor define a teoria das tarefas de desenvolvimento,
a teoria psicossocial do desenvolvimento da personalidade, a teoria da reprodução, a teoria
do desinvestimento, a teoria da personalidade, da idade e do envelhecimento e a teoria
cognitiva da personalidade e do envelhecimento.
Teoria das tarefas de desenvolvimento, em que o desenvolvimento é entendido
como realização de sucessivas tarefas, divididas por seis estádios, que conduzem ao
envelhecimento.
Teoria psicossocial do desenvolvimento da personalidade, descrita em oito estádios
de desenvolvimento, cada um com a sua crise resultante do conflito entre tendências
opostas, passível de resoluções que serão condição para o crescimento.
Teoria da reprodução, que pressupõe que o desenvolvimento reproduz de alguma
forma o passado, sendo influenciado por ele.
Teoria do desinvestimento, em que o adulto, à medida que cresce, vai desinvestindo
os papéis sociais anteriores, centrando-se mais na sua pessoa e tendo menor envolvimento
29
social e emocional. Alguns autores teceram fortes críticas a esta teoria contrapondo que o
desinvestimento em relação a uns papéis é depois compensado nos papéis seguintes.
Teoria da personalidade, da idade e do envelhecimento, que rege o
desenvolvimento
por
acontecimento
expectáveis,
como
o
casamento,
a
maternidade/paternidade, etc. ou não esperados, como a morte de um filho, a viuvez
precoce, bem como pelo factor da personalidade que condiciona o envelhecimento,
possibilitando maior ou menor adaptação e satisfação com a vida.
Teoria cognitiva da personalidade e do envelhecimento, que tenta integrar os
domínios biocognitivo, afectivo-social em interacção constante, privilegiando a percepção
e expectativas do próprio idoso.
Período moderno
Teoria do desenvolvimento e do envelhecimento, define alguns princípios
enquadradores do desenvolvimento humano, como:
a)
O princípio de que o desenvolvimento se processa ao longo de toda a vida e
todos os períodos são importantes;
b)
O crescimento não é um processo unívoco e unidireccional, mas
multidimensional e multidireccional, assumindo diversas formas e direcções conforme as
pessoas e circunstâncias;
c)
O desenvolvimento processa-se através de equilíbrios constantes entre
ganhos e perdas;
d)
Existe plasticidade no desenvolvimento, e esta está dependente de diversas
condições culturais;
e)
O desenvolvimento depende de diversos contextos (idade, contexto
histórico, eventos não normativos) que podem provocar crise;
f)
O desenvolvimento, como fenómeno complexo que é, tem dimensão
multidisciplinar para a sua compreensão;
Teoria dos recursos reduzidos de processamento, que pode explicar em certa parte a
relação entre o relativo declínio cognitivo associado à velhice, através da redução de
recursos como a capacidade de atenção, a memória, a velocidade de processamento, etc.
Teorias da personalidade e do envelhecimento segundo os modelos de estádios, que
propõe vários estádios de desenvolvimento, divididos por idades, acrescentando alguns
30
estádios de transição, como a idade pré-adulta, a meia-idade, ou a idade adulta tardia, por
exemplo.
Teoria da personalidade e do envelhecimento segundo os traços, que explica o
desenvolvimento pela invariância estrutural fundamental da personalidade ou das suas
disposições/traços básicos ao longo da vida.
Período recente
Teoria da gerotranscendência, que postula que na velhice, a visão materialista da
vida vai dando lugar a uma visão mais transcendente que traz com ela uma maior
satisfação com a vida. Esta teoria aparece como reformulação da teoria do
desinvestimento, mas difere dela em aspectos fundamentais.
Teoria gerodinâmica ou teoria da bifurcação, que se inspira na teoria geral dos
sistemas, nomeadamente na segunda lei da termodinâmica e na teoria dos sistemas
dinâmicos. Deste modo, o envelhecimento é visto como uma série de transformações não
lineares onde vai dominando a desordem sobre a ordem, até à morte.
Em geral, o envelhecimento é ainda pintado de cores sombrias, mas em todo o caso,
é necessário que os idosos possam envelhecer em harmonia, desmistificando mitos e
estereótipos (de improdutividade, degenerescência, incapacidade, etc.) e promovendo as
suas capacidades, criando uma cultura de respeito pela ancianidade.
2.3. Etiologia do envelhecimento
O envelhecimento não é uma doença: vive-se, logo envelhece-se.
Não é muito conhecida a etiologia do envelhecimento, mas segundo Barros de
Oliveira (2008), os factores genéticos aliam-se, como causa, a outros factores como o sexo
ou a raça. Embora seja biologicamente individualizado, alguns factores como o tipo de
vida e as consequentes doenças fazem com que o envelhecimento não seja exclusivamente
uma fatalidade biológica. Para além do geneticamente programado, ou seja, a
hereditariedade, factores psicológicos como a depressão, a perda de entes queridos, a perda
do trabalho, do afecto familiar, a solidão, podem acelerar o processo de envelhecimento
também. Assim, a tentativa de explicação do fenómeno que é o envelhecimento, deve
31
incluir uma abordagem mais holística do envelhecer, uma tentativa de explicação que
aborde factores biopsicossociais.
Ao nível individual, o envelhecimento depende também do bom ou mau uso que se
tenha feito do corpo, da alimentação, dos hábitos saudáveis. Existem muitas pessoas que
chegam à idade avançada com saúde privilegiada, outros, no entanto, precipitaram o
envelhecimento por terem atentado contra a sua própria saúde, devido a excessos de peso,
álcool, tabaco, drogas, vida sedentária. Assim sendo, para além dos factores endógenos,
também os factores exógenos ou mesmo ambientais, e mesmo factores socioeconómicos
ou profissionais podem levar a um envelhecimento precoce. Vários estudos feitos a
populações específicas levam à conclusão de que certos condicionalismos podem
determinar o modo como se envelhece. Existe assim, de facto, uma tendência hereditária
mas o uso ou tratamento dado ao corpo condiciona também grandemente a longevidade ou
a qualidade de vida. O dado adquirido como certo é que o envelhecimento é diário,
individual e causas muito diversificadas mas convergentes contribuem para o modo como
se envelhece. Embora o começo do envelhecimento seja coincidente com o momento da
concepção (Martí, 2000; Monteiro & Neto, 2008), Barros de Oliveira (2008), aponta os 40
anos como a idade em que se iniciam uma série de alterações fisiológicas fulcrais e mais
visíveis, como a perda da capacidade de memória, a perda de massa muscular, o
embranquecimento dos cabelos, etc. Também é nesta idade que existe uma maior
incidência de doenças graves.
Mesmo não sendo conhecida a etiologia do envelhecimento, como referimos atrás,
este tem certamente factores genéticos, bem como outros como o sexo (as mulheres duram
em média mais anos), ou a raça. A pessoa envelhece, assim, como um todo, embora o
primeiro responsável possam ser as células, os tecidos, os órgãos ou os aparelhos, numa
perspectiva mais biológica. Mota Pinto (2000), citado por Barros de Oliveira (2008),
afirma que as teorias, quanto ao envelhecimento, podem dividir-se em dois grupos: as
teorias estocásticas, que são casuais ou conjunturais (o envelhecimento resulta de lesões
sucessivas que vão conduzir ao desgaste e à morte) e as teorias deterministas (em que o
envelhecimento é consequência directa de uma bagagem genética programada,
funcionando o genoma como relógio biológico).
De qualquer modo, como já referimos, todos estes factores não explicam a etiologia
do envelhecimento, só por si, e só numa abordagem muito holística, olhando o indivíduo
como um ser biopsicossocial se poderá compreender a grande interacção que existe entre o
corpo e o psíquico.
32
2.4. Mudanças que ocorrem na velhice
Interessa verificar quais as principais alterações sentidas à medida que o
envelhecimento normal ocorre, alterações essas resumidas em cinco palavras por Bee e
Mitchell (1980, pp. 182-184), citados por Simões (1982, p. 52). Os autores defendem que
com a idade, o organismo se torna mais pequeno (smaller), mais lento (slower), mais fraco
(weaker), mais escasso (lesser) e mais reduzido (fewer).
A estatura diminui devido a modificações a nível do tecido conjuntivo; o corpo
torna-se mais lento, o que se relaciona com a velocidade de condução dos impulsos
nervosos que diminui com a idade; o corpo torna-se mais fraco, devido às alterações
produzidas ao nível dos ossos, quer pela escassez do cálcio, quer pelo desgaste que sofrem
com o uso; os próprios sentidos também declinam com a idade; a nível das secreções
glandulares, existe uma diminuição do débito e por último, o corpo torna-se mais reduzido,
na medida em que vai ficando com menos células (musculares, etc.), menos cabelo, menos
papilas gustativas, entre outros (Simões A. , 1982).
No corpo, as mudanças na sua composição global, que passam pela diminuição da
massa magra, pelo aumento da proporção de gordura e diminuição de água, trazem como
consequência, um aumento dos riscos de diabetes, perturbações cardiovasculares,
osteoporose, assim como, cancro do cólon e da mama (Sousa, Figueiredo, & Cerqueira,
2006).
Glass (2003) lista dez das mudanças físicas mais frequentemente observadas no
processo de envelhecimento:
- Diminuição da massa muscular, sendo a degeneração progressiva.
- Diminuição da flexibilidade.
- Menor capacidade de resistência e diminuição da energia.
- Diminuição da capacidade de reserva.
- Diminuição da capacidade cardiovascular.
- Diminuição da capacidade pulmonar.
- Degeneração óssea com maior propensão a fracturas.
- Degeneração das articulações.
- Mudanças dermatológicas, como maior secura na pele e menor capacidade de
controlo da temperatura corporal.
33
- Diminuição da capacidade da bexiga.
A par destas mudanças físicas e fisiológicas, também as mudanças nos órgãos
sensoriais (visão e audição sobretudo) são referidas por Glass (2003).
A nível cognitivo, (nomeadamente a nível da memória, inteligência e
aprendizagem), destacam-se também algumas modificações, que explicitaremos mais
pormenorizadamente no capítulo 3. Resumidamente, estas alterações, foram durante muito
tempo, conotadas negativamente, considerando-se que o avançar dos anos, trazia
inevitavelmente, um declínio intelectual. Mesmo a nível científico, durante muito tempo se
pensou que com a idade se perdiam neurónios. No entanto, investigações mais recentes,
mostraram que ao longo da vida se desenvolvem novos neurónios, como comprova
Goldberg (2008) que afirma que “o nosso cérebro tem a capacidade de se restaurar e de se
rejuvenescer. Contrariamente às crenças, durante tanto tempo defendidas, os neurónios não
param de se desenvolver após a infância. Longe disso: eles continuam a crescer ao longo
da vida, quer seja ela numa fase adulta, quer seja numa idade já bem avançada” (p. 225).
2.5. Estereótipos acerca do envelhecimento – O idadismo
Tópicos, ditos, refrões, frases feitas, etiquetas verbais ou adjectivações a respeito de
pessoas e grupos, são alusões que frequentemente encontramos quer nas conversas diárias
da rua, quer nos meios de comunicação social. O mundo social e humano, dificilmente se
nos apresenta, em sua crua realidade objectiva, sem possuir adjectivações (frequentemente
estereotipadas), porque o estereótipo é precisamente uma percepção muito simplificada e
geralmente com ausência de matrizes. Na medida em que o conhecimento humano não é
capaz de ser sempre complexo, flexível e crítico podemos dizer que tendemos a cair no
estereótipo. Os estereótipos mais estudados actualmente são os que se referem a grupos
étnicos, no entanto existem estereótipos em todos os domínios da vida social: relativos a
ambos os sexos, às ocupações, ao ciclo vital, à família, à classe social, ao estado civil, aos
desvios sociais e a qualquer campo da vida que desejamos diferenciar. Estudos recentes
sobre o sociocognitivismo, reafirmam o papel crucial dos estereótipos na percepção de
outros seres humanos, havendo mesmo quem defenda que as pessoas utilizam
prioritariamente os estereótipos para interpretar a informação complexa sobre indivíduos e
grupos, buscando outras interpretações apenas, quando os estereótipos não oferecem
explicações suficientes.
34
O estereótipo é “uma representação social sobre os traços típicos de um grupo,
categoria ou classe social e caracteriza-se por ser um modelo lógico para resolver uma
contradição da vida quotidiana, e serve sobretudo para dominar o real. No entanto, também
contribui para o não reconhecimento da individualidade, a não reciprocidade, a não
duplicidade, o despotismo em determinadas situações (Martins & Rodrigues, 2004)
A literatura científica sobre os estereótipos é prolixa, pelo facto de se tratar de um
conceito multiunívoco – conceito categorial, generalizador, estável e definidor de um
grupo social. Contudo, existem múltiplos defensores que concebem os estereótipos como
preconcepções rígidas, mais ou menos falsas e irracionais.
Socialmente, e no caso dos idosos, a valorização dos estereótipos projecta sobre a
velhice uma representação social gerontofóbica e contribui para a imagem que estes têm se
si próprios, bem como das condições e circunstâncias que envolvem a velhice, pela
perturbação que causam uma vez que negam o processo de desenvolvimento. Este
problema surge, quando o fenómeno de envelhecer é considerado prejudicial, de menor
utilidade ou associado à incapacidade funcional. A rejeição e rotulagem de um grupo, em
particular de indivíduos, desenvolve-se porque as características individuais com traços
negativos, são atribuídas a todos os indivíduos desse grupo. Assim a palavra ”velhote”
descreve os sentimentos ou preconceitos resultantes de micro-concepções e dos “mitos”
acerca dos idosos. Os preconceitos envolvem geralmente crenças de que o envelhecimento
torna as pessoas senis, inactivas, fracas e inúteis (Martins & Rodrigues, 2004).
Das disfunções criadas ao longo dos tempos, referidas em ponto anterior, surgiram
preconceitos e estereótipos que definem a imagem do idoso na sociedade actual. Encarar a
velhice em todas as suas vertentes, numa sociedade em que a cultura da ancianidade
aparece como o resto que sobra das margens da sociedade industrial é certamente tarefa
árdua quando abundam tantos mitos na opinião pública. Surgem, incessantemente,
concepções erróneas, sem fundamento científico, que reflectem o estado da gerontologia
social. Berryman et al. (2002) referem o envelhecimento como sendo muito influenciado
por estereótipos de comportamento adequado à faixa etária. Moragas (2004) define e
responde a alguns desses mitos:
Mito 1- A velhice começa aos sessenta e cinco anos.
Resposta: a velhice é variável e individualizada não começando numa idade
cronológica definida.
Mito 2 – As capacidades dos idosos são muito limitadas.
Resposta: Os idosos possuem muitas capacidades.
35
Mito 3 – A velhice é uma etapa totalmente negativa.
Resposta: A velhice é uma etapa vital peculiar.
As próprias metáforas usadas para referir o envelhecimento têm o seu peso cultural,
e enquanto algumas, parecendo negativas, têm o seu lado positivo, como as metáforas
inspiradas na Natureza, como «idade crepuscular», «outono da vida», «idade da colheita»
(qualquer uma delas tem o seu lado belo), outras soam mais negativamente, como «idade
das perdas» ou «morte à vista».
Luísa Berger (1995, citada por Barros de Oliveira, 2008) também identifica sete
estereótipos a respeito dos idosos:
O idoso visto como pessoa:
- Doente;
- Infeliz;
- Improdutiva;
- Necessitada de ajuda;
- Conservadora;
- Igual a todos os outros velhos;
- Sofrendo de solidão e isolamento;
Barros de Oliveira (2008), citando Richard e Mateev-Dirkx (2004) aponta também
algumas características mais frequentemente imputadas aos idosos: crise de identidade
provocada por ele e pela sociedade, diminuição de auto-estima, dificuldade de adaptação a
novos papéis e lugares bem como a mudanças profundas e rápidas, falta de motivação para
planear o futuro, atitudes infantis ou infantilizadas como processo de mendigar atenção,
complexos diversos, diminuição da libido e do exercício da sexualidade, tendência à
depressão, à hipocondria ou somatização e mesmo tendências suicidas, surgimento de
novos medos, diminuição das faculdades mentais, nomeadamente, da memória, problemas
cognitivos motivacionais ou afectivos, entre outros.
Um estudo realizado na Université de Montreal por Champagne e Frennet (citado
por Martins e Rodrigues, 2004), permitiu identificar catorze estereótipos como os mais
frequentes relativos aos idosos:
* Os idosos não são sociáveis e não gostam de se reunir;
* Divertem-se e gostam de rir;
* Temem o futuro;
* Gostam de jogar às cartas e outros jogos;
* Gostam de conversar e contar as suas recordações;
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* Gostam do apoio dos filhos;
* São pessoas doentes que tomam muita medicação;
* Fazem raciocínios senis;
* Não se preocupam com a sua aparência;
* São muito religiosos e praticantes;
* São muito sensíveis e inseguros;
* Não se interessam pela sexualidade;
* São frágeis para fazer exercício físico;
* São na grande maioria pobres.
Monteiro e Neto (2008) também referem os estereótipos, escrevendo que
“Numa sociedade em que se privilegia a juventude, é fácil difundirem-se estereótipos
negativos relativamente à velhice.» (p. 19). Estes autores falam da associação entre o
preconceito de ser velho e de ser inútil para a sociedade, feita muitas vezes.
Uma reflexão sobre estas percepções permite-nos observar que a maioria destes
estereótipos está ligada, não a características específicas do envelhecimento, mas sim a
traços da personalidade e a factores socioeconómicos. E, se por um lado, a formação de
estereótipos simplifica a realidade, por outro, simplificam-na em demasia, levando muitas
vezes a uma ignorância acerca das características, minimizando as diferenças individuais
entre os membros de um determinado grupo. É disso, exemplo, o estereótipo de que “todos
os idosos são solitários”. Este, não tem em consideração os idosos que têm uma vida social
activa. Ainda com base neste estereótipo, os idosos activos socialmente, são considerados,
muitas vezes, como tendo um comportamento social atípico, pelo que se enquadram numa
excepção. Por outro lado são causa de enorme perturbação nos idosos, uma vez que negam
o seu processo de crescimento e os impedem de reconhecer as suas potencialidades, de
procurar soluções precisas para os seus problemas e de encontrar medidas adequadas.
Nesta perspectiva os estereótipos tornam-se inevitavelmente elementos impeditivos
na procura de soluções precisas e de medidas adequadas, tornando-se urgente o combate a
estas representações sociais gerontofóbicas e de carácter discriminatório, levando os
cidadãos a adoptar medidas e comportamentos adequados face aos idosos (Martins &
Rodrigues, 2004).
Urge uma mudança de paradigma. Para isso torna-se fundamental a ruptura de
estereótipos negativos atribuídos à velhice, estabelecer um novo olhar sobre essa etapa da
vida. Emerge a necessidade da desconstrução dessa imagem da velhice, negativa, do idoso
como excluído do convívio social e profissional. Portanto, é imprescindível o início da
37
transformação progressiva do lugar social da terceira idade, o reconhecimento da velhice e
do idoso como sujeito psíquico existente e como agente social, permitindo uma outra
maneira de redimensionamento e da inserção do idoso na ordem da temporalidade,
delineando a possibilidade de dimensão de futuro (Oliveira, 2007).
Marques (2011), discute, na sua obra “Discriminação da Terceira Idade”, o
preconceito contra as pessoas idosas, as suas origens e características distintivas, e,
introduz o conceito de «idadismo» como conceito central no modo como se pensa esta
temática. A autora expõe no seu ensaio várias situações de preconceito social em relação
aos idosos. Uma delas retrata o filme de animação «Up», estreado em 2010, cujo herói
principal é a personagem Carl Frederiksen de 78 anos. Este herói inusitado parte numa
aventura arriscada e perigosa, o que suscitou algumas críticas (apesar de ter sido filme
premiado no Festival de Cannes) menos positivas pelos analistas financeiros e demais
responsáveis pelo sucesso de vendas, uma vez que era pouco expectável que a faixa etária
para a qual o filme foi produzido se interessasse por heróis de tão avançada idade. No
entanto, segundo a autora, embora o preconceito contra as pessoas idosas prevaleça de
forma marcada na nossa sociedade, o filme «Up» pode representar um importante
contributo para chamar a atenção para este problema social e para o combate à exclusão
social. A nossa sociedade, cada vez mais envelhecida, começa a exigir pessoas saudáveis e
activas durante mais tempo, o que se torna incompatível com visões castradoras do
envelhecimento que insistem em depreciar as potencialidades de pessoas como o herói do
filme, que aos 78 anos demonstra uma capacidade enorme para percorrer o mundo e partir
à aventura. O êxito de bilheteira de «Up» pode considerar-se como um bom indicador de
que, apesar de ainda ser pontual a abordagem, a nossa sociedade está aberta à mudança e
pode tornar-se menos preconceituosa a longo prazo.
O termo «idadismo» (em inglês ageism), surge primeiramente em 1969 mediante o
esforço do psicólogo americano Roberto Butler para explicar as reacções negativas de uma
comunidade à construção de um empreendimento imobiliário para pessoas idosas na sua
vizinhança. Sendo que os potenciais moradores não correspondiam a nenhuma ameaça à
localidade, as reacções pareciam não ter explicação. A conclusão de Butler foi que o único
factor que transparecia da recusa dos moradores tinha relação com a idade dos inquilinos.
Depois dessa constatação e do uso do termo, vários outros países iniciaram estudos no
sentido de identificar e eliminar este tipo de manifestações contra os mais velhos
(Marques, 2011).
38
Também Berryman et al. (2002) concedem alguma da sua escrita, no seu livro “A
psicologia do desenvolvimento humano” a este tema, usando o termo inglês ageism. A
autora e seus colaboradores definem o conceito como discriminação negativa contra os
mais velhos, visível em atitudes, práticas, descrições ou até piadas sobre idosos.
Na publicação “Cadernos Mulheres da Europa” (Houdart-Blazy, 1997), fala-se já
de «agismo», transpondo para a Língua Portuguesa o termo «ageism» e associando-lhe
ideias como a dependência, doença, solidão, depressão e isolamento social.
Marques (2011) retoma dizendo que, no geral, o «idadismo» refere-se às atitudes e
práticas negativas generalizadas em relação a indivíduos de determinada idade (e não
apenas aos de idade mais avançada, pois há casos de manifestações «idadistas» contra
diferentes grupos etários). No Reino Unido, por exemplo, o «idadismo» parece ter mais
frequência relativamente aos indivíduos mais jovens. No caso de Portugal, este fenómeno
parece atingir sobretudo as pessoas de idade mais avançada. A este tipo especial de
«idadismo», alguns especialistas dão o nome de «gerontismo».
Existem, segundo Sibila Marques (2011) três componentes essenciais na definição
das atitudes «idadistas» (neste caso falaremos apenas do idadismo em relação às pessoas
idosas):
- O idadismo está associado a crenças ou estereótipos tidos relativamente ao grupo
de pessoas idosas, vistas como grupo homogéneo, que se caracteriza por determinados
traços negativos, como a incapacidade ou a doença).
- As atitudes idadistas estão relacionadas com o preconceito ou os sentimentos tidos
relativamente a este grupo etário, manifestando-se através do desprezo ou até sob forma de
piedade ou paternalismo.
- O idadismo está relacionado com actos efectivos de discriminação em relação aos
idosos, como o abuso e os maus-tratos.
O idadismo não é apenas um facto individual, mas deve ser levado em conta
também como facto institucional e cultural que espelha os valores e as práticas
institucionais de uma sociedade.
Em Portugal, este fenómeno é um problema social grave. Resultados do
Eurobarómetro Especial de 2009 relativo à Discrimination in EU in 2009 mostram que
53% dos portugueses consideram a discriminação pela idade muito frequente na nossa
sociedade e 57% das pessoas concordam que a frequência tem vindo a crescer. Também os
resultados verificados no módulo «Idadismo» do European Social Survey em 2009
mostram que a discriminação em relação à idade é a principal forma discriminatória
39
sentida pelo povo português (17%), ultrapassando as questões de discriminação pelo sexo
(13%) ou pela etnia (11%). Estes estudos demonstram que a faixa etária mais atingida é a
das pessoas mais velhas (indivíduos com mais de 80 anos): 30,6% destes indivíduos já se
sentiram tratados com pouco respeito, ignorados ou alvos de paternalismo e 26,8%
afirmam já ter sido maltratados, insultados, vítimas de abuso ou recusados em
determinados serviços por causa da sua idade (Marques, 2011).
Existem várias formas de discriminação em relação às pessoas idosas na nossa
sociedade. Além das formas mais flagrantes de abuso e maus tratos, existem outras formas
mais subtis, como já referimos, de paternalismo, ajuda excessiva ou sobreprotecção, que
embora nem sempre mal-intencionados acabam por ser prejudiciais por promoverem a
dependência e a incapacidade. Contam-se também as dificuldades no acesso a
determinados serviços como formas de tratamento negativo com consequências por vezes
graves.
A autora acima referida (2011) descreve no seu livro três aspectos essenciais que
influenciaram o aparecimento do fenómeno:
- O processo de categorização por idades.
- A inactividade das pessoas idosas e a percepção de ameaça dos gastos com o
envelhecimento;
- O predomínio da cultura da juventude;
O primeiro aspecto, o processo de categorização por idades, refere-se à
classificação das pessoas em categorias, que segundo a autora, é útil, embora possa ter
efeitos negativos porque torna as pessoas de determinada categoria como um grupo
homogéneo e diferente das outras categorias, deixando de atender às especificidades de
cada um. Marques (2011) fala das correlações negativas e ilusórias que as pistas como
«cabelos brancos» ou «rugas» podem trazer com conceitos como a «incapacidade» ou a
«falta de saúde».
O segundo aspecto, que diz respeito ao aspecto da inactividade das pessoas idosas e
a percepção de ameaça dos gastos com o envelhecimento, lembra-nos que o idadismo não
é exclusivo das nossas sociedades contemporâneas, antes esteve presente em várias épocas.
Como já vimos em ponto anterior, esta situação parece atravessar as épocas e quase
sempre, os que tinham possibilidade de transmissão de herança eram cuidados e olhados
com maior respeito. Certo é que a atribuição da reforma por velhice veio melhorar em
geral a situação das pessoas idosas em vários países, no entanto, apesar da situação
material dessas pessoas ter melhorado ao longo dos tempos, pouco tem sido feito, segundo
40
a autora, para melhorar a imagem enquanto grupo social. Associa-se muito a ideia da
reforma à inactividade e inutilidade. Numa cultura em que o trabalho é valorizado acima
de tudo, o facto de as pessoas idosas já não contribuírem de forma activa para a sociedade,
é encarado negativamente, apesar de já terem trabalhado e contribuído, na grande maioria
dos casos, durante toda a sua vida. Também o número crescente de pessoas idosas
preocupa os cidadãos activos, devido aos gastos suportados por estes, dado que existe, para
o pagamento das reformas, um princípio de justiça intergeracional, em que os activos
contribuem hoje para as reformas actuais e esperam que os activos futuros contribuam para
eles. No entanto, existem vários factores que dão a esta teoria um carácter de
insustentabilidade a longo prazo, tendência esta, que também contribui para a visão
negativa em relação às pessoas idosas.
Além dos factores económicos, parece haver também uma motivação de origem
cultural para o fenómeno do idadismo em relação às pessoas mais velhas. Vivemos numa
época em que o moderno e o novo são privilegiados, em que o avanço tecnológico é
considerado um valor primordial e em que o progresso parece estar dependente da
juventude É nos jovens que se investe a formação e a maturidade e experiência são
deixados para trás. Note-se também o culto da beleza, juventude, vitalidade, que
bombardeiam os media com tratamentos e promessas rejuvenescedores (Monteiro & Neto,
2008; Marques, 2011).
Claro que em alguns países, como os orientais, a tradição de respeito pelos mais
velhos minimiza esta tendência, considerando os idosos como modelos éticos e morais a
seguir. Também o facto de as pessoas habitarem em casas multigeracionais faz com que
neste tipo de organização social as pessoas idosas desempenhem um papel activo,
tornando-as não um fardo para a sociedade, mas antes uma parte integrante da economia e
da vida social (idem).
Assim, compreendemos que a industrialização e a modernização nem sempre são
sinónimos de negativismo em relação às pessoas mais velhas. Veja-se o exemplo de países
orientais como a China e o Japão. O Estado pode ter, desta forma, um papel importante,
atenuando os impactos destas tendências. A concepção de políticas adequadas pode
procurar garantir a valorização dos cidadãos mais velhos e desmistificar alguma
negligência para com a velhice (idem).
Compreender as diferentes formas que podem assumir este fenómeno é
importantíssimo para a sociedade de modo a que possam ser delineadas políticas
adequadas com vista a combater este tipo de atitudes.
41
Barros de Oliveira (2008) refere que não tem sido feito um esforço para que a
concepção em relação aos mais velhos modifique. O autor apresenta alguns estudos que
provaram que as crianças modificavam positivamente o seu conceito em relação aos idosos
depois de serem sujeitas a programas intergeracionais, daí a importância e necessidade de
programas educativos neste domínio e de maior contacto ou convívio entre novos e velhos.
Berryman et al. (2002) propõem medidas para combater o ageism, como um
rendimento adequado que torne possível a continuação da independência e da actividade,
legislação apropriada e, sobretudo, educação, uma vez que deve ser ensinado, desde a
infância, que os mais velhos têm os mesmos direitos que os jovens, que as desvantagens da
idade são reais mas têm soluções e que a velhice, tal como a juventude, pode ser um tempo
de felicidade e crescimento.
2.6. Envelhecimento activo – Ano Europeu 2012
A 23 de Setembro de 2011, a União Europeia designava, através da sua Decisão
940/2011/EU, o ano de 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da
Solidariedade entre Gerações (European Comission, 2011a). Esta iniciativa pretendia
“sensibilizar para o contributo dos idosos na sociedade e para o apoio que podemos prestar
nesse sentido. […] incentivar e mobilizar os decisores políticos e os principais actores a
todos os níveis para que actuem no intuito de criar melhores oportunidades de
envelhecimento activo e reforçar a solidariedade entre gerações.” (European Comission,
2012, p. 2).
Mas o que significa envelhecimento activo? Segundo a European Comission (2012,
p. 3), “Envelhecimento activo significa envelhecer com boa saúde e como pleno membro
da sociedade, com um maior sentido de realização profissional, maior independência na
vida quotidiana e maior participação enquanto cidadãos”.
O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações teve
o intuito de promover o envelhecimento activo em três domínios:
Emprego – com o aumento da esperança de vida e, consequentemente, da idade da
reforma em toda a Europa, teriam de ser promovidas oportunidades para os trabalhadores
mais velhos no mercado de trabalho através de: Aprendizagem ao longo da vida e
aquisição de novas competências, condições de trabalho saudáveis, estratégias de gestão da
idade nas empresas, serviços de emprego para candidatos mais velhos, não discriminação
42
com base na idade, sistemas fiscais e de segurança social favoráveis ao emprego,
transferência e experiência.
Participação na sociedade – O Ano Europeu 2012 pretendeu criar melhores
condições de apoio aos idosos e garantir um maior reconhecimento da sua importância
para a sociedade (como cuidadores de pais, cônjuges, netos) através de: Segurança dos
rendimentos dos idosos, apoio à participação social e ao voluntariado, apoio aos
cuidadores, conciliação entre trabalho e assistência, solidariedade e diálogo, redução do
fosso digital.
Promoção de uma vida independente – Tentou retardar o declínio da saúde de
várias formas, criando ambientes mais acolhedores para quem sofre de incapacidades e
problemas de saúde e ajudando a manter a independência durante o maior tempo possível
através de: Promoção da saúde e cuidados de saúde preventivos, adaptação das habitações,
transportes acessíveis e económicos, ambientes, bens e serviços adequados aos idosos,
maximização da autonomia nos cuidados a longo prazo, adaptações tecnológicas de
incentivo a uma vida independente.
Na nossa opinião, e apesar de a Comissão Europeia ter declarado 2012 como o ano
europeu do envelhecimento ativo e da solidariedade entre gerações, é de equacionar que
esta última aspiração está longe de ter sido garantida; aliás, o aumento exponencial do
desemprego entre as pessoas mais jovens sugere um enquadramento que lhe é mesmo
particularmente adverso. Como compatibilizar o encorajamento à retenção laboral das
pessoas de mais idade com a integração da população mais jovem no mercado de trabalho?
Esta é uma questão política e social de extrema importância e que remete para a urgência
de estratégias e políticas de emprego e de coesão social coerentes no espaço europeu.
Se é verdade que, neste momento, a geração jovem está mais sujeita à precariedade
laboral e ao desemprego, é entre as pessoas de idade mais avançada que estas condições se
revelam particularmente graves, dadas as dificuldades em encontrar um novo emprego. O
desemprego de longa duração atinge valores muito elevados em vários países europeus,
envolvendo mais de metade das trabalhadoras e dos trabalhadores desempregados com
idades entre os 55 e os 64 anos. Em Portugal, a situação é particularmente grave, dado que
o DLD (desemprego de longa duração) abrange praticamente três quartos das mulheres e
dos homens desempregados neste escalão etário (dados referentes a 2010), ao mesmo
tempo que as mulheres dominam no grupo das pessoas inativas desencorajadas. Importa
ponderar que esta questão, já por si particularmente preocupante, pode estar sujeita a um
maior agravamento em resultado dos programas de austeridade, das reformas nos sistemas
43
laborais e de segurança social. Em Portugal, por exemplo, a maior facilidade no
despedimento pode levar as entidades empregadoras a porem fim a relações contratuais
estáveis, substituindo pessoas de mais idade por trabalhadores e trabalhadoras com
vínculos precários e salários mais baixos. Concomitantemente, os cortes nas compensações
por despedimento, as reduções nas prestações sociais e no período coberto pelo subsídio de
desemprego poderão contribuir para um agravamento da vulnerabilidade económica e
social das pessoas desempregadas, empurrando-as para situações de pobreza persistente
(condição que atinge particularmente as mulheres). Acresce que, uma vez que as mulheres
auferem menos que os homens ao longo de toda a trajetória laboral e, em algumas
sociedades, tendem a ter uma participação menos intensiva ou mesmo descontínua (com
interrupção após o nascimento dos/as filhos/as), importa alertar para o facto de algumas
reformas introduzidas nos sistemas de pensões serem particularmente penalizadoras para a
população feminina.
As orientações políticas e as medidas associadas ao prolongamento da vida ativa
não têm, também, integrado a dimensão de género. O aumento da esperança média de vida
tem tido um impacto diferenciado nas experiências das trabalhadoras e dos trabalhadores
com mais de 55 anos de idade. As mulheres enfrentam agora uma maior probabilidade de
terem pessoas idosas ao seu cuidado, sobretudo naqueles contextos onde escasseiam os
equipamentos públicos e/ou estruturas formais de apoio à população idosa. O
envelhecimento activo acarreta, assim, novos desafios e tensões na vida de muitas
mulheres, cujo quotidiano se reparte pelo cumprimento de responsabilidades várias, seja na
esfera laboral, familiar (domínio onde são as principais prestadoras de cuidados a
elementos progenitores e/ou a crianças mais pequenas – netos e netas), seja ainda na
comunidade mais vasta. À excepção de um conjunto de boas práticas isoladas e de algumas
orientações seguidas em alguns países nórdicos (Dinamarca e Suécia), em geral as políticas
promotoras do envelhecimento activo têm negligenciado áreas relevantes de apoio – desde
a criação e disponibilização de equipamentos e serviços de assistência às famílias (tanto
destinados a crianças como a pessoas dependentes) até às oportunidades de aprendizagem
durante toda a vida activa. Acresce que, no que diz respeito às relações de género na esfera
privada, pouco se tem empreendido na monitorização sistemática das assimetrias de género
na repartição dos tempos, do trabalho doméstico e do cuidar, na avaliação dos custos
económicos e sociais dessa desigualdade, e em medidas concretas no sentido da respetiva
superação e da melhoria das condições de vida das mulheres. Afigura-se oportuna a
expressão utilizada pela filósofa e socióloga francesa Dominique Méda acerca da presente
44
revolução silenciosa. Ao mesmo tempo que é exigido às mulheres que prolonguem o seu
ciclo de vida laboral, a sociedade em torno permanece silenciosa e imobilizada perante os
desafios suscitados por essa mudança. O actual contexto de retração do estado social e de
austeridade incorre no risco de aprofundar esse silêncio (Casaca & Bould, 2012).
Resumindo, o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre
Gerações visou identificar e promover boas práticas, de modo a ultrapassar os obstáculos
ao envelhecimento activo e reforçar a solidariedade intergeracional nos dois sentidos: a das
pessoas idosas em relação aos jovens e o inverso. Urge ajudar as pessoas mais velhas a
manter o seu estatuto no mercado de trabalho e a partilhar a sua experiência, permitindolhes ter um papel mais activo na sociedade e viver de modo são e harmonioso.
O desafio para os responsáveis políticos e as partes intervenientes, como as
autoridades locais e regionais, empregadores e sindicatos, entre outros, é o de pôr este
projecto em prática nos vários domínios, como no emprego, nos cuidados de saúde, nos
serviços sociais, na formação de adultos, no voluntariado, na habitação, nos serviços
informáticos e nos transportes.
Os benefícios de um envelhecimento activo são consideráveis para toda a
sociedade. Todavia, este deve fazer-e acompanhar de uma profunda modificação das
políticas e mentalidades.
O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações foi,
pelo menos, o ponto de partida para a necessária transformação da nossa sociedade
(Comission Europénne sur l' Emploi et les Affaires Sociales, Une Année européenne
d'action, 2012).
2.7. A qualidade de vida e o envelhecimento produtivo
O reconhecimento de que a qualidade de vida constitui um tema importante para a
promoção da saúde física e mental e para o bem-estar social das pessoas tem estimulado
vários estudos envolvendo esse tema. A qualidade de vida foi definida pela Organização
Mundial de Saúde como “a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no
contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus
objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (Fleck, et al., 2000, p. 179).
As investigações sobre as condições que permitem uma boa qualidade de vida na
velhice revestem-se de grande importância científica e social. Carneiro et al. (2006)
45
mostram que a qualidade de vida do idoso pode estar relacionada com os seguintes
aspectos: capacidade funcional, estado emocional, interacção social, actividade intelectual
e autoprotecção de saúde. Já Frutuoso (1999) indica que muitos estudos referem um
aumento da qualidade de vida e da longevidade em idosos que apresentam uma vida social
intensa. Além disso, uma relação directa entre relacionamentos sociais, qualidade de vida e
capacidade funcional e uma relação inversa desses factores com a depressão têm sido
apontadas por diversos autores (Albuquerque, 2003). Esses dados sustentam a importância
dos relacionamentos sociais para o bem-estar físico e mental na velhice (idem) e,
consequentemente, uma vida com qualidade.
Promover a qualidade de vida numa etapa de vida em que algum declínio físico é
incontornável implica ter em conta critérios multidimensionais, como a manutenção da
rede social e de actividades significativas. A perspectiva do envelhecimento produtivo
enfatiza em simultâneo os contributos prestados pelos idosos à sociedade, através dos bens
que produzem, e o bem-estar e qualidade de vida derivados do processo.
Um envelhecimento bem-sucedido compreende selecção (delineação de objectivos
individuais face aos condicionamentos derivados do envelhecimento), optimização
(processo de procura e maximização das condições necessárias para fazer face ao
envelhecimento) e compensação (aquisição de meios, tangíveis ou simbólicos, para
alcançar os objectivos definidos) bem como mecanismos de adaptação interactivos que
procuram sempre a maximização dos ganhos e a minimização das perdas que ocorrem em
idades avançadas. Falar de envelhecimento bem-sucedido é falar também de qualidade de
vida que não deixa de compreender critérios mensuráveis e concretos como funcionamento
fisiológico ou manutenção das actividades de vida diária ou mais subjectivos como a
satisfação pessoal, que traduz o balanço entre expectativas e objectivos alcançados
(Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006). Segundo estes autores, o
ritmo a que sucede o declínio poderia ser evitado através de contextos socioculturais que
compensassem a perda de recursos biológicos. Surge assim, o conceito de Envelhecimento
Produtivo (EP) usado a partir da década de 70, em contextos sociais, académicos e
políticos para combater a imagem dos idosos de que eram pessoas dependentes, frágeis e
inúteis para a sociedade. Não existe uma definição consensual para o conceito mas
algumas características subjacentes que ajudam a compreendê-lo. Assim, o EP é um
envelhecimento em que existe a presença de “uma actividade significativa e satisfatória,
em que o idoso está envolvido de forma estruturada e continuada e que tem um impacto
positivo na sua vida” (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006, p. 139).
46
Existe então uma produção de bens ou serviços, voluntária, como por exemplo cuidar dos
netos, ou remunerada, como o trabalho sénior. Importa salientar que mesmo as actividades
voluntárias produzem bens, mesmo que de modo indirecto: ao cuidar dos netos, o idoso
permite aos seus filhos o aumento do tempo dedicado à sua carreira, possibilitando então a
optimização do seu desempenho. Encontramos então duas dimensões paralelas inerentes ao
conceito de EP: uma objectiva, que enfatiza os contributos realizados pelo idoso para com
os seus familiares, grupo social ou comunidade, e uma visão subjectiva, que privilegia a
componente afectiva do processo, no sentido das suas consequências positivas em termo de
bem-estar e qualidade de vida do idoso.
Deste modo, o paradigma subjacente ao EP conceptualiza o envelhecimento sob
uma perspectiva positiva, refutando estereótipos e valorizando o papel desempenhado
pelos idosos, bem como os contributos que prestam. À incapacidade e dependência, o EP
opõe uma imagem de saúde e bem-estar, onde a autonomia não só é possível como também
desejável; o idoso não é mais um personagem vulnerável e passivo, mas antes um agente
activo no seu envelhecimento, podendo continuar a tomada de decisão de modo
significativo (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006).
Segundo Martín e colaboradores (2006, citados por Gonçalves et al. 2006),
podemos estruturar as tarefas desempenhadas pelos idosos em torno de quatro eixos
essenciais:
(I)
Meio familiar, onde os papéis são desempenhados através da
transferência de tempo, da translação de dinheiro e da função educativa
dos netos;
(II)
Promoção social, maioritariamente nos programas de voluntariado
sénior e nos programas intergeracionais;
(III)
Trabalho sénior, no âmbito rural e dos serviços e meio político.
Seria agora necessário indagar sobre o impacto do desempenho destas tarefas
produtivas, quer a nível pessoal quer social. Assim, para os idosos, os benefícios são
condicionados pelas condições em que os papéis se desenvolvem, não sendo possível
afirmar peremptoriamente que os resultados são sempre positivos. Assim, Gonçalves et al
(2006) referem que a prestação de cuidados aos descendentes, de primeira ou segunda
geração, funciona como um factor promotor do bem-estar dos idosos, mas que a
acumulação de tarefas pode conduzir ao declínio do mesmo, a integração numa estrutura
de voluntariado formal permite ao idoso a manutenção de relações interpessoais,
47
diminuindo o isolamento e o impacto negativo que este tem na sua saúde, o
estabelecimento de novas relações e a aquisição de novos papéis tem um impacto positivo
na sua saúde e no seu bem-estar, prevenindo a perda de identidade e a doença mental e a
continuidade no posto de trabalho é uma fonte de auto-realização e satisfação permitindo a
manutenção do sentimento de utilidade social e familiar.
Cabe pois aos profissionais, que trabalham de modo directo ou indirecto com
idosos, em contextos sociais, de saúde ou políticos, garantir a implementação de estratégias
continuadas de EP, como meio para garantir a manutenção dos papéis e,
consequentemente, o seu bem-estar e qualidade de vida. O envelhecimento bem-sucedido
só será alcançado através de um esforço intencional e concertado por parte dos
profissionais. Promover o envelhecimento produtivo implica embargar os estereótipos
vigentes, que apresentam os idosos como frágeis, incapazes, doentes e pouco produtivos,
substituindo a imagem tradicional por outra mais actual, de recursos, capacidade e
disponibilidade (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006).
Podemos
concluir
que
os
estereótipos
de
fragilidade,
incapacidade
e
improdutividade ensombram o acesso a novas oportunidades e formas de desenvolvimento,
essenciais para a manutenção da qualidade de vida. O envelhecimento produtivo (EP)
adopta uma perspectiva optimista sobre as capacidades dos idosos, promovendo o acesso a
diferentes sectores e actividades, essenciais para o envelhecimento bem-sucedido.
2.8. O lazer como factor de qualidade de vida na velhice
O lazer e o bem-estar estão directamente relacionados com a qualidade de vida da
pessoa em geral e do idoso em particular, interferindo na solução dos seus problemas e no
equilíbrio de cada um (Davim, Dantas, Lima, & Lima, 2003).
Para Ferrari (1996 citado por Davim et al., 2003), o lazer é um assunto cujo
significado os estudiosos ainda não obtiveram consenso. O que se nota nas diversas
conceptualizações sobre o lazer é que são enfatizadas duas linhas de conhecimento.
A primeira linha envolve o aspecto psicológico. Nesta linha, o lazer é um estilo de
comportamento semelhante ao prazer, enfatizando-se o aspecto atitude, independentemente
de um tempo determinado, e, a partir daí, qualquer situação pode constituir uma
oportunidade para a prática do lazer. O estilo de vida seria definido como o modo pessoal
como cada indivíduo organiza sua vida quotidiana. A segunda linha envolve o aspecto
48
sociológico e privilegia o tempo, situando-o quer como escape do trabalho ao final do dia,
da semana, de um ano inteiro ou mesmo de uma vida de trabalho, quer como tempo livre,
não só do trabalho, mas de outras obrigações, sejam familiares, sociais, religiosas ou
políticas.
Dumazedier (1980), citado por Davim et al.( 2003) define o lazer como o tempo
que cada um tem para si, representado por ocupações não obrigatórias, às quais o indivíduo
pode se entregar de bom grado, para desenvolver informações ou formação
desinteressadas, participação social ou capacidade criadora, liberdade quanto a obrigações
profissionais, familiares, sociais, espirituais e políticas. Este ponto reúne as três funções do
lazer apontadas pelo autor, que seriam:
a) Descanso,
b) Divertimento, recreação e entretenimento,
c) Desenvolvimento pessoal.
Através destes conceitos, pode-se resumir que a palavra lazer remete para um
universo de significados, em que se mesclam interpretações da moral, da religião, da
filosofia e finalmente do senso comum, trazendo uma condição de felicidade e liberdade
para o indivíduo.
Também na concepção de Santini (1993), citado por Davim et al. (2003), a palavra
lazer não tem um significado muito claro. Reporta-se ao século XIII, quando apareceu na
língua francesa a palavra loisir, cuja raiz tem origem no termo latino licere, que contém na
sua essência a ideia de permissão. Tudo isto faz com que o sentido da palavra exprima a
ideia de ausência, - ausência de regras, de obrigações, de repressão ou de censura. Assim, o
lazer evoca ter tempo de fazer qualquer coisa de que se goste. Para o autor, o lazer, com
este sentido, evoca ausência de constrangimento que indique uma qualidade subjectiva de
acção. Portanto, na concepção do pesquisador Dumazedier (1980), citado por Davim et al.
(2003), as actividades de lazer são classificadas por áreas de interesse dos indivíduos,
assim relacionadas:
a) Manuais – são actividades práticas que trazem prazer através do manuseio de
matéria-prima, imprimindo-lhes um sentido estético e/ou utilitário;
b) Intelectuais – o lazer pode ser um exercício do conhecimento em qualquer
campo, pois tudo na vida é fonte de conhecimento, de informação e de aprendizagem;
c) Associativa – havendo um conteúdo de sociabilidade, expresso no contacto com
amigos, colegas de trabalho ou vizinhos, representado pelo convívio social com outras
pessoas;
49
d) Artísticas – ligadas ao campo estético, do belo, da emoção, do encantamento, do
sentimento;
e) Físicas – são aquelas actividades que levam o indivíduo a conhecer novos
lugares, novas formas de vida, permitindo num curto período alterar a rotina quotidiana,
com práticas como tirar férias e fins-de-semana, visitar monumentos, lugares de interesse
paisagístico ou ambiental, etc.
Em Portugal, bem como na maior parte do mundo, são diversos os programas de
lazer e convívio destinados às idades avançadas, como o Turismo Sénior, as Universidades
da Terceira Idade, os Centros de Convívio para idosos, a prática municipal de actividade
física para a Terceira Idade, etc.
Na velhice, o tempo de lazer, sem constrangimentos, é aproveitado por algumas
pessoas como sendo uma oportunidade para se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo
da liberdade, em que pode haver um acesso a actividades que preencham as horas livres de
forma gratificante e agradável (Monteiro & Neto, 2008).
2.9. O idoso na família e na sociedade – Reformado, e agora?
Como diz Barros de Oliveira (2008), a entrada para a terceira idade coincide com a
problemática da reforma, que pode trazer aspectos positivos ou não, de acordo com a
condição social e psíquica de cada idoso e da família que o cerca. O autor refere que “pode
ser um tempo de desgraça, se o reformado não sabe encontrar novas formas e viver e
conviver, de ocupar o seu tempo; mas normalmente torna-se tempo de graça, de maior
disponibilidade para finalmente e calmamente se poder fazer aquilo que mais se gosta” (p.
118).
Um desses factores de “graça”, podem ser os netos, que dão um novo sentido à vida,
sendo considerada muito positiva a intervenção dos avós na educação das crianças,
dependendo, claro está, de diversos factores como a idade, a formação e a personalidade,
entre outras circunstâncias (Barros de Oliveira, 2008).
Berryman et al. (2002) também referem aspectos positivos e menos positivos da
entrada na reforma. Positivos quando se relacionam com uma fase da vida livre de
exigências profissionais e familiares e negativos no que toca a factores como perda de
rendimento, perda de papel social ou identidade. Os autores associam mesmo, de forma
causal, a reforma a uma diminuição da moral, da saúde ou da satisfação.
50
Atchley (1976), citado por Berryman et al. (2002), sugere que quando as pessoas se
reformam podem vivenciar algumas fases de adaptação. A primeira, imediatamente após a
passagem à aposentação seria a fase chamada de “lua-de-mel”, seguida logo de seguida por
uma fase de desencanto e mais tarde de outro período de reorientação e estabilidade. Os
estudos feitos demonstram também que é, geralmente, menos problemática a reforma nas
mulheres do que nos homens, uma vez que elas continuam a exercer o seu papel doméstico
e porque estão mais adaptadas a uma certa inconstância de papéis ao longo da sua vida
adulta, embora em mulheres sós também tende a ser uma fase difícil pelas reformas
consideravelmente mais baixas no geral e as dificuldades do foro financeiro que daí podem
advir.
De qualquer forma, o impacto psicológico da reforma está intimamente ligado com
factores como o nível de rendimento, o estado de saúde e a existência de actividade
substituta – social, de lazer e familiar, antes e após a reforma (Berryman, Hargreaves,
Herbert, & Taylor, 2002).
É nesta perspectiva que as relações sociais do idoso têm um papel de extrema
importância na sua qualidade de vida.
O argumento a favor da ideia de que as relações sociais podem, de várias formas,
promover melhores condições de saúde tem sido salientado em vários estudos (Ramos,
2002). Por outro lado, a ausência de convívio social causa severos efeitos negativos na
capacidade cognitiva geral (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006), para
além de depressão. A pobreza de relações sociais como um factor de risco para a saúde tem
sido considerada tão danosa quanto o tabaco, a hipertensão, a obesidade e a ausência de
actividade física (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Este conjunto
de evidências sugere que a deterioração da saúde pode ser causada não somente por um
desgaste natural do organismo, sedentarismo ou uso de tabaco, mas, também, pela redução
da quantidade ou qualidade das relações sociais (Ramos, 2002). De uma forma geral, podese argumentar que as pessoas que têm maior contacto social vivem mais e com melhor
saúde do que as pessoas com menor contacto social (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette,
& Del Prette, 2006).
No entanto, Carneiro et al. (2006) ressaltam que a qualidade dos contactos sociais
é mais importante do que a sua quantidade. Como propõem os autores, uma pessoa que
tem uma conduta interpessoal efectiva é capaz de desenvolver redes sociais de apoio, que
operam como um dos factores mais relevantes na recuperação e prevenção dos problemas
de saúde mental. Cobb (1976) refere que o apoio social leva o indivíduo a acreditar que é
51
querido, amado e estimado e que faz parte de uma rede social com compromissos mútuos.
Declarações deste tipo apontam para a necessidade de não se confundir apoio social com
interacção social, salientando-se que nem todos os relacionamentos oferecem apoio e que
alguns relacionamentos podem ser, na realidade, muito stressantes. Assim, parece que a
capacidade de interagir socialmente é fundamental para o idoso, para conquistar e manter
redes de apoio social e, consequentemente, garantir melhor qualidade de vida (Carneiro,
Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006).
A constatação de que as habilidades sociais estão relacionadas com uma melhor
qualidade de vida vem despertando o interesse de especialistas e multiplicando as
pesquisas sobre o tema (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Por
outro lado, as deficiências e comprometimentos das habilidades sociais estão geralmente
associados a dificuldades nas relações interpessoais e a diversos tipos de transtornos
psicológicos como, por exemplo, a timidez, o isolamento social, o suicídio e a depressão. É
importante, deste modo, conforme Carneiro et. al (2006), diferenciar os termos habilidades
sociais, competência social e desempenho social: O desempenho social refere-se à emissão
de um comportamento ou sequência de comportamentos numa situação qualquer. Já o
termo habilidades sociais refere-se à existência de diferentes classes de comportamentos
sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das
situações interpessoais. A competência social tem sentido avaliativo que remete aos efeitos
do desempenho social nas situações vividas pelo indivíduo. Em estudo mais recente, esses
autores chamam a atenção para o uso cuidadoso desses conceitos. As habilidades sociais
devem ser tomadas num sentido descritivo, de caracterização do repertório do indivíduo.
Desta maneira, designar alguém como socialmente habilidoso não seria adequado, uma vez
que esse termo é mais avaliativo do que descritivo. A competência social, por sua vez,
deve ser compreendida sob uma perspectiva avaliativa a respeito da proficiência do
desempenho. Assim, a competência social está relacionada a capacidade de organizar
pensamentos, sentimentos e acções em função de seus objectivos e valores, articulando- os
num desempenho que atende às demandas mediatas e imediatas do ambiente. O conjunto
das habilidades requeridas para relações interpessoais satisfatórias inclui diferentes classes
e subclasses dentre as quais as habilidades de comunicação, assertivas, empáticas, de
civilidade, de expressividade emocional, de trabalho etc. (Carneiro, Falcone, Clark, Del
Prette, & Del Prette, 2006).
Apesar de se reconhecer a importância do repertório social do idoso, a literatura
especializada ainda é escassa em estudos de avaliação nessa área. Embora a literatura
52
aponte para uma associação entre relações interpessoais, apoio social e qualidade de vida
na terceira idade, são escassas as pesquisas que focalizam, especificamente, o repertório de
habilidades sociais de idosos e a sua relação empírica com essas variáveis. Pode-se supor
que o idoso que conta com uma rede de apoio social tende a ser socialmente mais
competente, além de possuir níveis mais elevados de qualidade de vida do que aquele que
interage apenas com o seu grupo familiar e com alguns amigos. Por outro lado, idosos
saudáveis institucionalizados, por carecerem de apoio social, podem apresentar
deficiências nas habilidades sociais, além de baixa qualidade de vida e, consequentemente,
níveis mais elevados de depressão (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette,
2006).
Também Monteiro e Neto (2008) dedicam um capítulo do seu livro a um aspecto
dos relacionamentos sociais dos idosos, ou melhor, à ausência de relacionamentos sociais a solidão. Os autores, citando Hawkley et al. (2006), sublinham que “a experiência da
solidão inclui sentimento de isolamento (ausência ou distância pessoal de outrem
significativo), sentimentos de desligamento (sentimento de que não se tem um confidente,
um amigo íntimo) e sentimentos de não pertencer (não se identificar com ou não ser aceite
por grupos sociais significativos) ” (2008, p. 85). Berryman et al. (2002, p. 298), baseandose em Cumming e Henry, definem o isolamento como “uma retirada mútua do indivíduo
da interacção social, e da sociedade do indivíduo”. Esse desligamento pode surgir por
diversas razões: as mudanças nos papéis laborais e familiares, a redução da saúde, energia
e forma física, as dificuldades de comunicação e o esquecimento são motivos para
dificultar as interacções sociais. Existe, segunda a autora, um outro motivo, embora visto
como tendência generalizada, para o isolamento: a vontade de reviver ou rememorar o
passado.
Embora Cumming e Henry (citados por Berryman et al., 2002) afirmassem que o
desligamento seria uma fase natural e inevitável da última fase da vida, outros autores
como Neugarten, Havighurst e Atchley (citados por Berryman et al., 2002) deram provas,
nos seus estudos, de que a actividade, sobretudo a actividade social tinha uma forte ligação
com os índices de felicidade, sendo “a interacção social desejável e necessária para
preservar a auto-estima e a moral na derradeira fase da vida”.
Assim, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008, p. 87) “uma das componentes
mais pertinentes para a qualidade de vida é o apoio da família, dos amigos e a participação
em actividades sociais. Baixos níveis de contactos sociais estão associados a uma pobre
qualidade de vida […]”.
53
54
CAPÍTULO 3 – A EDUCAÇÃO E OS IDOSOS
Colocar a educação e formação de adultos como um das prioridades
das políticas educativas deveria ser um imperativo de qualquer sociedade.
Helena L. M. Quintas (2008:7)
Desde os primórdios, em todo o Mundo, existe educação: educar alguém e ser
educado por outrem. O acesso à educação formal, não sendo ainda uma realidade em todos
os países, é uma intenção e muitas vezes, aspiração das sociedades. A democratização do
ensino, garante da igualdade de direitos em relação à educação para todos, faz com que a
educação de adultos tenha vindo a ganhar alguma força, levando, aos poucos, a que todos
tenham a hipótese de aprender, até mesmo os que não tiveram a oportunidade de ter uma
escolarização inicial. Noutras épocas, o abandono ou a não frequência da escola, era uma
opção virada para o mundo do trabalho. Actualmente, pelo contrário, procura-se estimular
e dar oportunidades de voltar, em qualquer idade, para iniciar, retomar ou procurar novas
formas de aprendizagem e novos conhecimentos (Castro & Franco, 1980).
Tende-se, no entanto, frequentemente, a confundir educação com escolaridade e,
consequentemente, associa-se a educação a um processo que só ocorre com crianças e
jovens. É verdade que a escola é uma instituição de extrema importância no contexto
educativo e na sociedade em geral, mas ainda mais importante que a escola é a própria
educação. Isto é, a escola nem sempre existiu, nem se sabe se irá perdurar, o que se sabe é
que o que sempre existiu e continuará a existir é a função educativa da sociedade
(Loureiro, 2006).
3.1. Perspectiva histórica
A Educação de Adultos foi definida, em 1976, na Conferência Geral das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura:
«A expressão “educação de adultos” designa o conjunto de processos organizados
de educação, qualquer que seja o seu conteúdo, o nível e o método, quer sejam formais ou
não formais, quer prolonguem ou substituam a educação inicial dispensada nos
estabelecimentos escolares e universitários e sob a forma de aprendizagem profissional,
55
graças aos quais pessoas consideradas como adultas pela sociedade de que fazem parte
desenvolvem as suas aptidões, enriquecem os seus conhecimentos, melhoram as suas
qualificações técnicas ou profissionais ou lhe dão uma nova orientação, e fazem evoluir as
suas atitudes ou o seu comportamento na dupla perspectiva de um desenvolvimento
socioeconómico e cultural equilibrado e independente» (UNESCO, 1976:2 citado por
Veloso, 2011:137).
Note-se a expressão « […] pessoas consideradas como adultas pela sociedade de
que fazem parte» que sabiamente chama a atenção para a possível heterogeneidade que
pode existir entre as diversas sociedades e o significado que «adulto» pode ter em cada
caso. Podendo esta expressão problematizar a idade mínima em que se considera o
indivíduo como um adulto, podemos também pensar a questão em relação ao tecto máximo
de idade. Veloso (2011) questiona se existirá alguma idade a partir da qual um indivíduo
deixa de ser considerado adulto e consequentemente, deixa de ter direitos ao nível da
educação. Esta questão leva a que se possa fazer outra: como é que a educação de adultos
tem perspectivado a categoria social dos idosos face ao seu direito à educação?
A autora (2011), tentando responder a esta última questão, verifica que apenas a
partir de 1972, na Terceira Conferência Internacional de Educação de Adultos realizada em
Tóquio, se fez a primeira referência aos diversos grupos mais marginalizados na educação,
entre eles, o grupo dos idosos, embora de forma muito ténue, e quase implícita face aos
outros grupos, como o das mulheres, jovens, emigrantes ou desempregados, que ao
contrário, mereceram recomendações específicas e diferenciadas.
Já na anterior citada Recomendação da UNESCO de 1976, sobre a Educação de
Adultos, a situação dos idosos é um pouco mais definida quando considera que deve haver
uma correcção das desigualdades de acesso ao ensino e formação, sobretudo no que deriva
da idade, condição geográfica ou social e especifica mais quando recomenda que a
educação de adultos não deve ser limitada por razões de vária ordem, entre elas, a idade e
preconiza mesmo algumas garantias que a educação de adultos deve dar aos idosos, como
a ajuda na compreensão entre gerações, a possibilidade de aproveitar os tempos livres, a
encontrar um melhor sentido para a vida, novas maneiras de enfrentar os problemas que se
põem aos reformados, ajuda na conservação das faculdades físicas e intelectuais e
continuação da participação na vida colectiva, etc. (Veloso, 2011).
Em 1985, na Quarta Conferência Internacional de Educação de Adultos, realizada,
desta vez, em Paris, os idosos continuam a merecer atenção específica, considerando já o
enquadramento do envelhecimento populacional. Nesta recomendação, é focado mais o
56
aspecto da promoção do acesso à educação e à cultura independentemente da idade, e
menos a função de manutenção das capacidades físicas e intelectuais, situando a acção
mais ao nível dos direitos e menos na linha da protecção. Nesta mesma Conferência, os
idosos deixam de ser considerados grupo desfavorecido e passam a fazer parte do grupo
com necessidades particulares em educação. Começa-se enfim a reconhecer o direito à
educação por parte de todas as pessoas e em particular pelas pessoas idosas (Veloso, 2011).
Em 1997, em Hamburgo, na Quinta Conferência sobre Educação de Adultos, é
realçado o peso demográfico da população mais velha, reconhecendo a esta faixa etária a
importância merecida. Nesta conferência é enfim assumido que a educação é um direito
inalienável para todos e deve concretizar-se tendo em conta as características e
necessidades de cada idade recorrendo a uma pedagogia centrada no indivíduo e
garantindo a participação nas mais diversas actividades educativas como cidadãos (idem).
No entanto, apesar de serem cada vez mais reconhecidos em diferentes instâncias
os problemas que afectam os idosos e a necessidade de intervenção no campo educativo, o
cenário não tem passado muito, segundo Veloso (2011), de declarações de intenção. A
concretização de políticas e respectivas medidas tem estado comprometida, logo, o direito
à educação dos adultos, nomeadamente, dos idosos, também, como a autora comprova ao
transcrever um excerto das conclusões do Comité de Direitos Económicos, Sociais e
Culturais de 1999, responsável por vigiar o cumprimento das obrigações assumidas no
Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais:
«O Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais considera que os Estados
Partes no Pacto devem prestar uma atenção especial à promoção e protecção dos direitos
económicos, sociais e culturais das pessoas idosas […] Os relatórios examinados até agora
não fornecem dados sistemáticos sobre a situação das pessoas idosas, no que se refere ao
cumprimento do Pacto […] O Comité verifica que a grande maioria dos relatórios dos
Estados Partes continua a referir-se pouco a esta importante questão» (Nações Unidas,
1999:4 citado por Veloso, 2011).
Desta forma, podemos resumir dizendo que a educação de adultos promovida pelo
Estado tem sido essencialmente caracterizada pela valorização de acções promotoras da
educação e formação profissional, destinando-se principalmente a jovens adultos e adultos
em idade activa. Os idosos, esses, em inactividade profissional, ficam quase de parte, tendo
uma diminuta participação, não tendo oferta educativa por razões financeiras, de gestão de
recursos humanos ou metodológicos, valorizando mais uma lógica de mercado (Veloso,
2011).
57
3.2. O processo de aprendizagem e as mudanças cognitivas na velhice
Como vimos em capítulo anterior, trata-se de uma visão estereotipada o facto de se
considerar uma associação entre a idade avançada e o declínio das capacidades intelectuais
e de aprendizagem. Aforismos populares como “Burro velho não aprende línguas” ou
“Não se ensinam truques novos a cão velho” são argumentos que mostram pontos de vista
exagerados ou mesmo totalmente incorrectos. Existe, na verdade, algum declínio mas em
idade bastante tardia, sendo que “alguns aspectos do desempenho são mais sensíveis que
outros aos efeitos da idade e, nas situações em que o desempenho é pior nas pessoas
idosas, poderão existir outras razões sem ser a falta de capacidade cognitiva” (Berryman,
Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002, p. 290). Segundo os autores, já foram feitos vários
estudos sobre mudanças cognitivas na idade adulta e avançada, mas todos de carácter
transversal, em que são testados grupos de diferentes idades e comparados entre si. Estes
estudos, embora úteis, esquecem as mudanças pessoais nos mesmos indivíduos e não têm
em conta as coortes de nascimento (tempo histórico do nascimento que também acarreta
diferenças substanciais). Seria assim, importante, serem efectuados estudos longitudinais
de modo a determinar variáveis nos mesmos indivíduos (Berryman, Hargreaves, Herbert,
& Taylor, 2002; Barros de Oliveira, 2008).
Marchand (2001), refere que se verifica que certos autores situam as perdas
intelectuais se manifestam a partir dos 30 anos, outros situam-nas mais cedo e outros ainda,
mais tarde. Simões (2001), citado por Monteiro & Neto (2008), diz que o declínio se
manifesta na rapidez perceptiva pelos cinquenta anos e o raciocínio indutivo e a orientação
espacial só a partir dos sessenta anos. Já perto dos setenta é que são verificadas perdas na
aptidão ou na memória verbal. Segundo Marchand (2001, p. 54), as áreas em que o
declínio é verificado são várias, como ”o tempo de reacção, a flexibilidade visuomotora, a
memória a curto prazo, a agilidade mental, a capacidade de transferência e a concentração
da atenção”. Barros de Oliveira (2008) também refere o declínio como sendo ligeiro e mais
ligado à eficiência verbal ou às funções perceptivas espaciais (com menor velocidade de
realização) mas acrescenta que “alguns idosos beneficiam de um funcionamento cognitivo
eficiente até ao fim da vida” (p. 50). Também justifica as perdas cognitivas com um menor
contacto com o mundo exterior, com a teoria do desuso, em que são menos usadas as
capacidades cognitivas do que em idades anteriores, ou mesmo os estados emocionais ou a
situação socioeconómica. Deste modo, embora possa existir um declínio em idades mais
58
avançadas, o declínio não é muito substancial em pessoas saudáveis e pode não colocar
qualquer problema na resolução de situações quotidianas. “As pessoas mais velhas, são no
geral, capazes de usar a experiência, o conhecimento e o senso comum para contornar
quaisquer diferenças teóricas que possam ter de enfrentar” (Berryman, Hargreaves,
Herbert, & Taylor, 2002, p. 292).
De qualquer maneira, as investigações mostram não só que a vida adulta tem tanto
potencial em termos de aprendizagem como as outras etapas da vida, como aquela assume,
durante a vida adulta, um papel de grande relevo.
A imagem negativa que prevalece do idoso e do seu desempenho e, por
consequência, as baixas expectativas sociais, quanto ao desempenho em tarefas de
aprendizagem, geram nos idosos a ideia de que, de facto, estão em desigualdade
relativamente a pessoas mais novas. Trata-se de uma profecia que se auto-realiza, uma vez
que os indivíduos mais velhos esperam tornar-se menos competentes, o que, efectivamente,
vem a acontecer. Em situação de teste, estes indivíduos sofrem um aumento de ansiedade e
ausência de confiança, levando a resultados menos positivos, concretizando assim o
previsto. E, desta forma, reproduz-se uma estereotipia cultural e social, acentuando a ideia
de um inevitável declínio na vida adulta avançada (Bogard, 1997).
Os adultos e os adultos de idade avançada são também mais sensíveis aos riscos de
mudança e ao erro e, por vezes, preferem proteger a sua imagem, não respondendo para
não correr o risco de dar uma resposta errada, no entanto, estas estratégias acabam por
reproduzir a imagem vigente sobre o desempenho intelectual na adultez.
Tendo em conta o potencial transformador da educação de adultos, cabe um
importante papel aos educadores de adultos, no sentido de lutar contra os estereótipos e
contra a imagem negativa que se tem do idoso. Se a educação visa a promoção do
educando, é básico, antes de mais, libertar o educador de idosos de visões distorcidas da
realidade (Chamahian, 2009). Cabe ao educador motivar e promover o empenho dos
educandos e isso só é possível se realmente acreditar no potencial dos mais velhos para
aprender.
3.3. A gerontologia educativa
A existência de fases distintas no desenvolvimento humano, assim como os
estereótipos ligados à idade, nomeadamente o estereótipo do declínio intelectual, são uma
59
marca das sociedades ocidentais. Como vimos em subcapítulo anterior, a idade acarreta no
universo das representações sociais, um sentido de diferenciação e de desigualdade,
levando a que se edifique socialmente a ideia de que o valor dos grupos etários é
diferenciado. Encarada como etapa terminal do desenvolvimento humano, como um
retorno à infância com perda de capacidades e autonomia, a idade avançada não é
normalmente vista como um tempo favorável à aprendizagem.
Os próprios idosos veiculam esta imagem negativa de si próprios. A idade surge,
assim, como uma barreira à aprendizagem. Não de forma natural, mas mais por via social,
através dos estereótipos. Não é raro que adultos de idade avançada acreditem que são
demasiado velhos para aprender novas actividades.
No entanto, vários estudos mostram não só que a vida adulta tem tanto potencial em
termos de aprendizagem como as outras etapas da vida, como aquela assume, durante a
vida adulta, um papel de grande relevo.
A época em que nos encontramos, nomeadamente tendo sido o ano transacto, o
Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, constitui uma
oportunidade única para serem mobilizados os saberes, a experiência e outras qualidades
que os cidadãos mais idosos podem trazer para a sociedade provando, se é que é
necessário, que a educação é permanente. O envelhecimento que responde à satisfação com
a vida deve enquadrar-se no contexto do desenvolvimento positivo, ou seja, um
envelhecimento consciente, produtivo, em suma, activo (Monteiro & Neto, 2008).
O indivíduo aprende constantemente ao longo da vida. Assim, a educação não pode
ser caracterizada apenas como uma etapa com tempo e espaço pré-determinados, sendo um
processo contínuo que só termina com a morte. Desta maneira, a educação enquanto
prática social permite que o homem constantemente aprenda, tornando-se possível pensar
numa transformação cultural e na própria sociedade (Oliveira, Scortegagna, & Oliveira,
2009).
Percebe-se assim, que a educação possui um carácter transformador, ultrapassando
a mera transmissão de informações (Oliveira, Scortegagna, & Oliveira, 2009).
A educação surge, também, como uma alavanca para o fortalecimento da auto
estima e da integração dos idosos na sociedade, procurando transpor as limitações e os
preconceitos impostos a esta faixa etária.
Surge assim a educação do idoso, que podemos denominar de gerontologia
educacional e/ou educação gerontológica (termo surgido em 1970 como tentativa de
aplicar o que se conhece sobre a educação e o envelhecimento em benefício da melhoria de
60
qualidade de vida dos idosos, contemplando a educação para os idosos, a educação para a
população em geral sobre a velhice e a formação de recursos humanos para o trabalho com
idosos) deve assumir um importante papel numa sociedade que ainda discrimina o idoso
assumindo a sua especificidade, não reproduzindo o modelo escolar, mas trilhando os seus
próprios caminhos (Cachioni & Neri, 2004; Monteiro & Neto, 2008).
Citando Glendenning, Veloso (2011), aponta a Universidade de Michigan como
pioneira na utilização da expressão gerontologia educativa, termo usado como título de um
programa de doutoramento sobre a educação nas pessoas idosas, promovido pelo Professor
de Educação Howard Y. Mclusky. Já Cachioni e Neri (2004) responsabilizam Peterson por
esse facto. Tanto Cachioni e Neri (2004), como Veloso (2011), afirmam que terá sido
Peterson, em 1976, o responsável por definir o termo como “campo de estudo e prática
desenvolvido na interface da educação de adultos e da gerontologia social” (Veloso, 2011,
p. 176) ou “a área responsável pelo estudo e pela prática das tarefas de ensino a respeito e
orientadas a pessoas envelhecidas e em processo de envelhecimento” (Cachioni & Neri,
2004, p. 105). Em 1980, Peterson completou a sua definição, acrescentando que se tratava
“da tentativa de aplicar o que se conhece sobre a educação e o envelhecimento em
benefício da melhoria de vida dos idosos” (Cachioni & Neri, 2004, p. 105).
Willis e Schaie (1981) propõem cinco objectivos para a educação do idoso ou
gerontologia educacional:
1) Ajudá-los a compreender as modificações corporais e do comportamento (em
particular mudanças cognitivas a nível da memória e na resolução de problemas) que se
manifestam na velhice;
2) Levá-los a compreender as mudanças tecnológicas e culturais da sociedade
contemporânea, mudanças extremamente rápidas, como a informática e tudo o que a ela
está ligado (como as novas tecnologias);
3) Torná-los aptos a desenvolver capacidades de luta contra as consequências, na
própria pessoa, das mudanças socioculturais e do envelhecimento;
4) Levá-los a adquirir novas aptidões para lidar com as novas situações;
5) Fazê-los aceder a um desenvolvimento satisfatório e a descobrir novos papéis,
como o voluntariado.
Qualquer abordagem ao tema da educação e formação dos adultos mais
velhos deve ter em conta uma série de conceitos e variáveis que se situam nos domínios da
Gerontologia. Com efeito, a discussão sobre o que ensinar (conteúdos), sobre como ensinar
(estratégias e metodologias), sobre o desenvolvimento das acções formativas (estruturas
61
pedagógicas) e ainda sobre o perfil do formador (competências específicas para ensinar
idosos), são atribuições especializadas do âmbito da Gerontologia Educativa.
“A formação de recursos humanos em Gerontologia, incluindo a formação de
professores de idosos, é de fundamental importância social, não só pelos benefícios que
podem advir para os idosos, mas também para promover mudanças culturais nas
concepções sociais sobre a velhice” (Cachioni & Neri, 2004).
Em Espanha a formação destes especialistas, denominados “gerontagogos”, tem
estado tradicionalmente a cargo dos cursos superiores de animação sociocultural, e até a
UNESCO mantém um curso de Formação de Animadores Socioculturais onde é estudada a
problemática do ensino dos idosos (Cachioni & Neri, 2004). Com efeito, não abundam
professores ou formadores com licenciatura, especialização ou pós graduação em
Gerontologia, donde a dificuldade das Universidades de Terceira Idade em constituírem o
seu corpo docente com estes especialistas (idem).
Como veremos no capítulo seguinte, em Portugal os professores de idosos
participam geralmente em regime de voluntariado, não sendo a formação em gerontologia
exigida para o exercício e funções nas UTI, como é sugerido pelo próprio Regulamento
Geral das Universidades da Terceira Idade aprovado em Reunião Magna da Rede das UTI
em Almeirim, em 18 de Outubro de 2007 (Rede de Universidades da Terceira Idade,
2013):
Artigo 8º
Professores/animadores
1 - As UTI devem funcionar maioritariamente com professores/animadores
voluntários maiores de 18 anos, incentivando deste modo o voluntariado social de
acordo com a Lei 71/98 de 3 de Novembro. Deve-se estabelecer um acordo de
voluntariado com os professores.
Para concluir podemos dizer que, não obstante a escassez de formação
gerontológica, a orientação relativa ao ensino de práticas orientadas às pessoas de terceira
idade e a questão do saber envelhecer são tema de reflexão graças à gerontologia
educativa, que vem sublinhar a importância da educação de idosos.
62
Tantas vezes se fala em longevidade ou em educação para toda a vida, mas o que se
quererá dizer com estas afirmações?
Pensamos que não se trata, efectivamente, de um tipo de educação formal,
tradicional, mas de uma educação de índole diferente, que valoriza a partilha de saberes, a
actualização de conhecimentos, bem como uma mais frequente participação na sociedade
enquanto cidadãos. Concordando com Quintas (2008, p. 29), trata-se essencialmente ”da
participação, os adultos desenvolvem ou adoptam atitudes e valores e fazem julgamentos
morais relacionados com os seus papéis enquanto cidadãos”. De acordo com o autor, a
educação para seniores deve assentar numa política de dinamismo e criatividade. A
educação dirigida aos seniores é encarada como “um processo de constante evolução,
como uma actividade que não confere ao conhecimento um cunho absoluto, relacionando-o
antes, entre outros, com experiências, com contextos pessoais, com valores, com crenças”
(p. 61) e, desse modo, devem ser valorizados “os saberes reflexivos e práticos, em
detrimento de uma aprendizagem técnica e de um conhecimento objectivo, que não
correspondem provavelmente ao que os seniores buscam” (p. 62).
Assim, os programas de educação para seniores não pretendem ter em vista a
qualificação dos seus alunos para o mercado de trabalho, mas a sua inserção na sociedade.
É importante que ao estarem numa sala de aula se sintam como se estivessem a actuar na
sociedade enquanto cidadãos activos e responsáveis. Quer dizer, “os programas no quadro
da educação para seniores não podem confundir-se com os programas que visam a lógica
do emprego e a qualificação de adultos, devem antes constituir uma oferta que assente no
que eles, enquanto seniores reformados ou não, procuram” (Quintas, 2008, p. 62).
Graças à gerontologia educacional, os idosos beneficiam de um sistema de
educação especial, já que “Não se trata por conseguinte de alguém que se limita a estar na
sala de aula. Quer isto dizer que os sujeitos da educação são indivíduos que querem
educar-se e é essa atitude deliberada que lhes confere o estatuto não só de indivíduos mas
sobretudo de sujeitos da educação “ (Quintas, 2008, p. 64).
3.4. Especificidades no processo educativo dos idosos
Segundo Giubilei (1993) e Escarbajal e Lopes (1998), ambos citados por Cachioni
e Neri (2004, p. 110), é “muito comum no campo da educação a tentativa de transplantar
os conhecimentos que se tem das características da criança e do adolescente para a
63
compreensão da personalidade do adulto”. É por causa deste facto que existe muitas vezes
um impacto negativo para o aluno adulto/idoso, que se sente incompreendido e deslocado,
como também para o próprio educador que não consegue alcançar os seus objectivos.
Jesús García Mínguez (2004, p. 118) citando Mariano Sánchez (2003, p. 60),
escreve: “no es el viejo o la vieja los que nos ocupa, sino la persona, el ser humano… com
una história, un acesso a los recursos de todo tipo, una capacidade de acción y un saber
hacer concretos”. Com efeito, a educação de idosos deve contemplar, em primeira
instância, o apreço e valorização da pessoa e da sua bagagem sociocultural.
O trabalho educativo direccionado para os idosos deve constituir-se, de preferência,
“com eles e não por eles e para eles” (Cachioni & Neri, 2004, p. 110). Deve ser virado
para as necessidades espirituais e biopsicossociais dos idosos, deve ajudar os idosos a
serem cidadãos competentes, a estarem aptos a viver numa sociedade em constante
mudança, deve proporcionar uma tomada de consciência sobre a riqueza da vida pessoal e
profissional, da partilha da experiência com os mais jovens, deve permitir a expressão e a
realização de aspirações educativas não realizadas durante a juventude.
Num estudo que visava analisar a capacidade de aprendizagem de alunos de um
programa educativo para seniores, Tamer (1999), citado por Cachioni e Neri (2004),
afirma que as capacidades de aprendizagem não dependem da idade, mas sim das
condições em que se realizam. Assim, promover ambientes educativos estimulantes
permite assegurar a qualidade de aprendizagem nas pessoas idosas. Esse ambiente deve ter
em conta certos aspectos, como:
- Ter uma concepção realista da velhice e das suas peculiaridades;
- Ver os idosos como os principais e reais sujeitos do próprio processo educativo;
- Permitir que os idosos sejam actores da transformação da sua realidade;
- Entender a educação de idosos como um sistema com aspectos específicos;
- Promover valores humanizantes sem cair no assistencialismo;
Também segundo Clavijo (1999), citado por Cachioni & Neri (2004), são
fundamentais os seguintes princípios na educação de idosos:
- A relação professor/aluno: a aprendizagem deve centrar-se no educando e ser
gerida por ele mesmo, sendo o professor apenas um facilitador do processo;
- O paradigma didáctico: as aulas devem ser lugares de encontro, interacção social,
partilha de experiência para a construção do conhecimento;
- A aprendizagem significativa: apenas os conhecimentos práticos e relevantes para
a vida do idoso são válidos como novos conhecimentos;
64
Só seguindo estes princípios poderão ocorrer consequências positivas para o aluno
sénior:
i)
No âmbito individual: o aluno será participante activo, observador,
motivado pela percepção de problemas reais. A aprendizagem estará ligada
a aspectos significativos do quotidiano.
ii)
No âmbito grupal: os participantes serão conhecedores da realidade da
instituição, cooperando na busca de soluções para os problemas comuns;
Aumentará o desenvolvimento intelectual do grupo devido ao maior
estímulo e desafio;
Assim, em virtude da heterogeneidade de necessidades, motivações e interesses em
grupos de idosos, geradas pelas próprias trajectórias de vida, devem ocorrer investimentos
na criação e melhoria de metodologias que valorizem a experiência e que tornem o aluno
idoso o agente do seu próprio processo de ensino/aprendizagem.
65
66
CAPÍTULO 4 – AS UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE
4.1. O surgimento – origem e desenvolvimento
Não é consensual o termo “Universidade” quando acompanhado da expressão
Terceira Idade. É um facto. Alguns preferem usar o termo academia, clube, outros instituto
ou associação seguidos da palavra cultural, de modo a evitar o vocábulo universidade. Esta
sensibilidade deve-se à questão da missão das instituições em causa, realmente distinta em
alguns aspectos da das universidades tradicionais. Por outro lado, também o termo
“terceira idade” no que toca a estas instituições, começa a revestir-se de alguma polémica
(dado que a abertura a outras idades para além da idade tida como idade idosa tem sido
crescente) e tem vindo a substituir-se por “seniores” ou por “para todos” (Pinto M. , 2003;
Pinto G. , 2008).
A denominação “Universidade da Terceira Idade” (UTI) deveu-se à analogia com
o início da história das Universidades, no tempo medieval, em que as aulas eram
conferências,
procuradas
pelos
indivíduos
interessados.
Igualmente,
as
actuais
Universidades da Terceira Idade oferecem, através de palestras ou similares, oportunidades
de estudo a pessoas idosas, ou acesso ao saber mais avançado (Jacob, 2012).
Pinto (2003, p. 467), aquando da sua participação numa Conferência intitulada
“Envelhecer em saúde”, considerou que a expressão “Universidades da Terceira Idade”
inclui “todas as instituições que se dedicam a dar resposta à procura de ensino informal em
variados domínios e à procura de actividades recreativas ou outras por parte da nossa
população sénior”.
Também Peixoto e Caldas (2004, p. 428), quando se referem à Universidade, em
termos tradicionais, nos dizem, assemelhando os dois tipos de instituições: “A
Universidade é tradicionalmente um espaço dos jovens, onde são gerados novos
conhecimentos, um lugar de novidade e juventude. As propostas de Universidades da
Terceira Idade (UTI) não fogem deste padrão, ao contrário”.
Segundo Luís Jacob (2012), as UTI são uma resposta social porque combatem o
isolamento e a exclusão social dos mais velhos, principalmente a seguir à reforma;
incentivam a participação dos seniores na sociedade; divulgam os direitos e oportunidades
que existem para esta população; reduzem o risco de dependência e são um pólo de
convívio.
67
Vários estudos nacionais e internacionais demonstraram que as UTI, para além de
um projecto educativo e formativo, são igualmente um projecto social e de saúde,
contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos seniores e prevenindo o isolamento
e exclusão social (Jacob, 2012).
Este movimento enquadra-se também no projecto europeu de formação ao longo da
vida ou educação permanente, que objectiva permitir aos cidadãos europeus passar
livremente de um ambiente de aprendizagem para um emprego ou o contrário, de uma
região ou de um país para outro com o fim de utilizar da melhor forma as respectivas
competências e qualificações. Assim, uma aprendizagem ao longo da vida aponta para um
percurso de aquisição de competências que vai do ensino pré-escolar até à pós reforma, e
abrange qualquer tipo de educação formal e/ou não-formal (Jacob, 2012).
São muitas as vantagens que as Universidades da Terceira Idade oferecem, desde a
ocupação dos tempos livres, à renovação do conhecimento, passando pela valorização da
experiência de vida e a oportunidade de adquirir conhecimentos noutras áreas até então
inacessíveis, como o contacto com uma língua estrangeira, o uso dos computadores, entre
outros (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013).
A aprendizagem ao longo da vida ou educação permanente é muito significativa
nesta faixa etária. A frequência de uma Universidade da Terceira Idade é um dos meios
usados hoje para que essa aprendizagem possa ocorrer.
O movimento das Universidades da Terceira Idade desenvolveu-se, assim, com
sucesso num programa global de educação de adultos, ampliando-se para todos os
continentes, com milhares de unidades com estruturas e programas diferentes (Monteiro &
Neto, 2008).
Podemos considerar, se tivermos em conta apenas os aspectos pedagógicos, uma
data tão longínqua como 1727 (ano em que Benjamin Franklin fundou, nos Estados Unidos
da América, um grupo de discussão e de estudos para os adultos, grupo que desempenhou
um papel de grande relevo no desenvolvimento da educação para adultos sem qualquer
tipo de discriminação) a data de origem dos primeiros passos para a criação de
Universidades para adultos. No entanto, só nos anos 60, surgem em França e nos EUA as
primeiras instituições destinadas exclusivamente a seniores, centradas apenas na forma de
ocupação dos tempos livres dos reformados (Pinto M. , 2003).
Na Europa, por exemplo, a criação das Universidades Sénior remonta à década de
70 acarretada pelo próprio envelhecimento da população e as suas consequentes
repercussões na adaptação a novos estilos de vida após a reforma. Os seus princípios
68
básicos mantêm-se inalteráveis até hoje: proporcionar aos mais velhos a possibilidade de
aprenderem ou ensinarem e promover o convívio salutar e útil entre gerações dando
primazia à divulgação cultural e científica (Pinto M. , 2003; Monteiro & Neto, 2008).
Deve-se a Pierre Vellas a ideia de associar ao entretenimento o ensino e a pesquisa.
Segundo a ideia deste ilustre professor de direito internacional da Universidade de Ciências
Sociais de Toulouse, as UTI são fundamentalmente instituições de saúde pública visando
elevar os níveis de saúde física, mental e social das pessoas da terceira idade bem como
colocar à sua disposição programas de actividades particularmente adaptados (Pinto M. ,
2003; Chamahian, 2009).
Em 1973 foi criada, deste modo, em Toulouse, em França a primeira Universidade
da Terceira Idade como movimento específico de ensino para os adultos ou seniores, não
sendo necessários mais que sete anos para que o seu número ascendesse a cinquenta e dois
(Pinto M. , 2003).
Existem, assim, dois modelos principais de Universidades da Terceira Idade,
destacando-se o modelo inglês e o francês com programas e objectivos diferenciados (Rede
de Universidades da Terceira Idade, 2013).
O modelo percursor das universidades francesas para a terceira idade existe desde
1970. Tem por objectivo principal a ocupação dos tempos livres dos idosos associando as
Universidades de Terceira Idade às Universidades Tradicionais. Desenvolveu-se tendo por
base as associações auto-organizadas sem fins lucrativos. Este modelo tem por base
logística (professores, salas, equipamento, organização) uma Universidade Tradicional (as
UTI são criadas pelas universidades tradicionais, têm professores remunerados, garantem
certificação, por exemplo). O modelo privilegia a pesquisa e investigação e pode criar
cursos superiores e de pós-graduação para seniores (Monteiro & Neto, 2008; Jacob, 2012).
No modelo britânico, as UTI nascem no seio de organizações sem fins lucrativos,
os professores são voluntários, são mais informais, baseando-se no modelo de auto-ajuda e
não garantem certificação. Os idosos podem assumir simultaneamente o papel de aluno e
professor e detêm o controlo dos programas implementados. As actividades podem
desenrolar-se em edifícios locais informais. Os horários, currículos e métodos são flexíveis
e não se exigem pré-requisitos para a sua frequência (Monteiro & Neto, 2008).
Qualquer que seja o modelo, acredita-se que as Universidades da Terceira Idade são
um movimento de sucesso em diversos países, criadoras de oportunidades e promotoras de
bem-estar nos adultos maduros e idosos que procuram um envelhecimento activo e bemsucedido (Monteiro & Neto, 2008).
69
Pinto (2003) refere três gerações de modelos de programas oferecidos até hoje pelas
várias instituições destinadas ao ensino de seniores, com objectivos bem diferenciados. Ora
vejamos:
A primeira geração, que os estudiosos da génese histórica dessas instituições datam
dos anos 60, corresponde a um modelo de serviços educativos (os “Elders hostels”) mais
dedicados ao convívio cultural, tendo por objectivo ocupar as pessoas da terceira idade e
facilitar-lhes a socialização. Tendo lugar num ambiente universitário, o tipo de ensino não
era necessariamente de nível universitário.
A segunda geração, a dos anos 70, tinha essencialmente como objectivo
incrementar o bem-estar mental do idoso através de actividades culturais consideradas de
interesse e desenvolver a sua capacidade de intervir na sociedade.
Finalmente, a terceira geração, que data dos anos 80, desenvolveu-se para
aproximar as três características de qualquer universidade tradicional: o ensino, a pesquisa
e o serviço à comunidade. Esta terceira geração procura dar resposta a uma população da
“terceira idade” cada vez mais jovem e mais instruída, que começa a exigir cursos que
possam ser reconhecidos. Surge assim a ideia de organizar programas conducentes a um
diploma, muito embora esses cursos possam também ser frequentados, a título livre, por
aqueles que não pretendem ser avaliados.
As UTI existentes actualmente em Portugal, como veremos no ponto a seguir,
apesar de não corresponderem a programas universitários para seniores e de não se
encontrarem sediadas nas universidades tradicionais, dão resposta aos objectivos traçados
pelas duas primeiras gerações atrás descritas. Resta-nos portanto preparar a terceira
geração, aquela que pretende ir ao encontro dos três atributos das verdadeiras
universidades, contando com o empenhamento das universidades tradicionais públicas ou
privadas, tomando como base a formação científico-pedagógica que os programas
universitários desta terceira geração requerem e não esquecendo aquilo que já foi feito até
agora.
4.2. Breve contextualização da política da 3ª idade em Portugal à
época do surgimento da primeira UTI portuguesa
A primeira UTI criada em Portugal foi fundada numa época em que se verificaram
certas conjunturas pertinentes para esta contextualização.
70
Um dos aspectos importantes foram as políticas de manutenção do idoso na sua
residência. Este aspecto prendeu-se com razões que contribuíram para a sua emergência e
para que fosse preconizada esta política pelo Estado. Para além de razões humanitárias e de
dignidade da vida dos mais velhos, as razões económicas, concretamente a redução da
despesa do Estado, foram factores muito significativos para que este defendesse uma nova
forma de intervir na velhice (Veloso, 2011, pp. 78-94).
Nesse sentido, criaram-se várias estratégias cujo objectivo era manter o idoso no
seu domicílio e promover um novo estilo de vida, contribuindo para a difusão de uma nova
imagem social do idoso, o que representava uma ruptura com a forma de intervir na
terceira idade desde o séc. XIX (Veloso, 2011).
A autora conclui que desde 1976 até 2008 se verificou a inexistência de uma
política de terceira idade que abrangesse de uma forma global e integrada esta categoria
social. Apesar das diferentes medidas implementadas no domínio da saúde e da acção
social ao longo dos anos, a questão da educação e formação, como um direito das pessoas
idosas, foi desvalorizada e esquecida, sendo emergente a articulação entre a educação e as
políticas para esta população (Veloso, 2011). Também é de assinalar que a falta de uma
política abrangente para a terceira idade foi uma constante durante todo este período de
análise, apesar das diferentes medidas que se foram implementando, principalmente na
área da acção social e da saúde, não tendo muita expressão as medidas e iniciativas noutras
áreas.
4.3. As UTI em Portugal
As Universidades da Terceira Idade em Portugal datam de 1976 (Pinto G. , 2008)
ou na versão de Veloso (2000), de 1978, tendo sido trazidas a Portugal pelo engenheiro
Herberto Miranda, na forma da Universidade Internacional da Terceira Idade na cidade de
Lisboa (Costa, 1999, citado por Monteiro & Neto, 2008; Marconcín, Real, Dias, &
Fonseca, (2010). Rapidamente surgiram mais cinco, na segunda metade dos anos 80, sendo
que três no Norte e duas em Lisboa. Durante a década de 90, principalmente na segunda
metade, assiste-se em Portugal à emergência da maioria das UTI (surgem sete na primeira
metade dos anos 90 e nove na segunda metade dessa década) (Veloso, 2000). Segundo
dados da RUTIS, antes do início da década de oitenta, existiam, apenas quatro
universidades seniores. Entre os anos de 1981 e 1985, são fundadas mais duas
71
universidades seniores, sendo a partir de 1996 que a expansão se começa a dar, de forma
mais clara. De 2004 a 2008 criam-se quarenta e nove universidades seniores em Portugal.
Em 2012, segundo dados da RUTIS, existiam 190 UTI, exemplos de vitalidade da
sociedade civil e do envelhecimento activo.
Cachioni (1999), citado por Monteiro & Neto (2008), refere que a criação da
primeira universidade sénior, pretendeu ir ao encontro de uma população que dispunha de
tempo livre e de condições económicas para tal.
Também neste país o termo “Universidade” para designar instituições dedicadas a
dar resposta à procura do ensino informal em variados domínios e à procura de actividades
recreativas ou outras por parte da população sénior não foi sempre consensual. Por cá, foi
objecto de reflexão e preocupação quando em 1982, o Ministério da Educação legisla a
permissão para o uso do termo caso as Universidades em questão se comprometessem a
não atribuir certificação ou grau académico aos cursos lá ministrados (Pinto G. , 2008).
Segundo dados da Rede de Universidades da Terceira Idade (Rede de Universidades da
Terceira Idade, 2013), em Julho de 2008, existiam em Portugal dezasseis universidades da
terceira idade, cinquenta e quatro universidades seniores, catorze associações seniores e
ainda dezoito instituições que optaram por uma designação diferente, totalizando cento e
duas instituições. Já em Março de 2012, os dados eram os seguintes: 123 (73%) eram
denominadas Universidade Sénior, 24 (14%) Academia Sénior, 13 (8%) Universidade da
Terceira Idade, 4 (2%) de Clube Sénior e as restantes 3% eram apelidadas com outras
designações1.
Na sua grande maioria, as UTI são associações sem fins lucrativos (existem, no
entanto, alguns casos pontuais como, por exemplo as Cooperativas e os Institutos, de
natureza jurídica um pouco diferente) e, de uma forma geral, têm como objectivos, entre
outros: a “promoção, a valorização e a integração do idoso”, “o contacto com a realidade e
a dinâmica social local”, “a ocupação dos tempos livres”, e “evitar o isolamento e a
marginalização”. Algumas das UTI têm existência autónoma e outras estão ligadas quer à
Santa Casa da Misericórdia, quer a associações, a centro paroquiais ou a centros sociais segundo A RUTIS, em Março de 2012, apenas 3% das UTI eram autónomas e 93%
pertenciam a outra instituição (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). Estas
últimas podem receber apoios da Segurança Social, dos poderes locais, da Igreja ou de
entidades privadas (Pinto G. , 2007).
1
Dados da Rede de Universidades da Terceira Idade de 2012
72
Uma das primeiras características que Veloso (2000) constatou, nos seus
contributos para a caracterização sobre as UTI em Portugal é que se trata de um fenómeno
principalmente urbano, com uma maior implantação geográfica no litoral do país,
registando-se uma elevada concentração no litoral Norte onde se encontravam, à data do
estudo, 50% das UTI. Apesar da natural concentração em zonas do litoral português,
actualmente, existe uma dispersão notória por todo o território, fazendo reflectir sobre a
importância que estas instituições têm vindo a desenvolver na sociedade nacional.
As UTI são o modelo de formação de adultos com maior sucesso a nível mundial e
que lhes proporciona um grande leque de actividade culturais, recreativas, científicas e
motiva a aprendizagem (Jacob, 2012).
As UTI portuguesas foram criadas pela sociedade civil e não pertencem ao sistema
escolar regular. Seguem, portanto, os princípios básicos do ensino informal. Por lei, não
podem nem avaliar, nem certificar. Também os seus alunos, segundo Pinto (2007, p. 7)
referem que “não desejam ser avaliados porque já o foram ao longo das suas vidas e não
pretendem continuar a sê-lo”.
A maior parte das actividades desenvolvidas nas Universidades da Terceira Idade
abrangem disciplinas, variando o seu número entre as diferentes instituições, desde o
mínimo de 10 até ao máximo de 64 disciplinas.
Em algumas Universidades da Terceira Idade é estabelecida uma diferenciação
entre as disciplinas que nomeiam “teóricas” e as que designam de “práticas”, sendo as
primeiras referentes às línguas e ciências sociais, por exemplo, e as segundas referentes à
pintura, outras artes plásticas e decorativas e o desporto. Para além destas actividades de
carácter mais curricular, existem as actividades a que denominam “extra - curriculares”.
Estas abarcam visitas de estudo, palestras, conferências, seminários, com uma
periodicidade mensal, na maioria dos casos (Veloso, 2000).
Em determinadas UTI existem alguns rituais académicos, vistos como momentos
de convívio, de sociabilidades e de socialização como é o caso da abertura do ano com a
“lição de sapiência” (o ritual mais comum), ou da semana académica, ou do encerramento
do ano “lectivo”.
Segundo Veloso (2000, p. 3), parece haver “uma lógica de academização das UTI,
visível nas actividades e no próprio modelo curricular que desenvolvem, assim como um
mimetismo em relação à instituição universitária, que se traduz pela própria designação de
Universidade da Terceira Idade e pelos rituais académicos”.
73
Em relação aos alunos, estes são maioritariamente mulheres (cerca de 80%) e as
idades dos participantes encontra-se, em média, entre os 60 e os 69 anos. A idade mínima
para a inscrição numa instituição deste tipo varia: umas não estabelecem limite mínimo,
outras aceitam inscrições a partir dos 40 ou 50 anos (Rede de Universidades da Terceira
Idade, 2013).
Segundo a RUTIS, no seu estudo sobre a caracterização do perfil dos professores
das UTI publicado em Julho de 2012, existem cerca de 30 000 alunos com grau de
instrução variável, desde a quarta classe ao doutoramento.
Relativamente às pessoas que ensinam nas UTI, algumas são profissionais e
recebem, deste modo, honorários simbólicos ou não e outras, a maioria, trabalham em
regime de voluntariado. A combinação das duas modalidades é também uma realidade e
pode mesmo dar-se o caso de alguns alunos serem simultaneamente professores em áreas
da sua especialidade. Os professores das UTI não carecem de qualquer formação
pedagógica destinada à população sénior para exercerem essas funções (Pinto G. , 2007),
embora segundo o estudo do perfil dos professores das UTI realizado em 2012 pela
RUTIS, 44% são ou foram professores na sua vida profissional.
Foi esse estudo, efectuado em 2012 pela RUTIS, publicado no livro “Educação
Sénior em Portugal” de Luís Jacob em Julho desse ano, que, em colaboração com as
Universidades Seniores do país, pretendeu fazer uma pequena caracterização dos 4000
professores que dão aulas nas UTI e que constituem um dos pilares de funcionamento
destas organizações. Após a realização do estudo, constatou-se que a maioria dos
professores é do sexo feminino (59%). A idade predominante desses professores situa-se
entre os 60 e os 70 anos. O grau de escolaridade prevalente é o superior (70,3%). A
maioria dos professores (82%), tal como atrás referido, exerce de forma voluntária e sem
qualquer tipo de remuneração, sendo que muitos ainda exercem a sua actividade
profissional a par desta outra actividade.
Pinto (2003) reconhece a elevada importância das Universidades da terceira Idade
num país como Portugal. A autora foca positivamente, sobretudo as UTI que têm como
alunos pessoas com níveis baixos de escolaridade, pois considera a manutenção ou o
incentivo da actividade intelectual como “investimento inestimável para um país que
pretenda propiciar a melhor qualidade de vida intelectual aos seus idosos daí tirando os
benefícios correspondentes” (p. 7).
O sucesso das UTI é devido ao aumento da participação dos idosos na sociedade e a
nível cultural, bem como a uma crescente necessidade destes se sentirem inseridos tanto
74
social como culturalmente, e ainda de continuarem activos e actualizados nas várias áreas
de conhecimento (Brasseul, 1981, citado por Veloso, 2000).
4.4. RUTIS – Associação Rede de Universidades da Terceira Idade
Não poderíamos falar de Universidades da Terceira Idade em Portugal sem referir a
Associação Rede de Universidades da Terceira Idade (RUTIS).
A RUTIS tem assumido um papel de destaque na afirmação das UTI portuguesas
na sociedade actual, situação que justifica a sua breve apresentação no presente trabalho.
Segundo Jacob (2012), calcula-se que existam cerca de 200 UTI localizadas um pouco por
todo o território nacional sendo que 190 UTI estavam inscritas na RUTIS em Março de
2012. Estes dados relevam a crescente presença desta entidade na nossa sociedade como
ainda: «o seu sucesso» conforme a afirmação de Jacob (2012). Posto isto, considera-se que
as investigações da RUTIS e de outros autores como Jacob (2012), Pinto (2008) e Veloso
(2011) contribuem para a permanente e rigorosa caracterização das UTI portuguesas.
Deste modo, a RUTIS é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS)
que representa as universidades seniores portuguesas. Fundada em 2005 e declarada IPSS
em 2006, a RUTIS representa actualmente 190 universidades seniores (Jacob, 2012). Esta
associação assume-se como motor das UTI em Portugal tendo como objectivo primordial o
apoio à família, à comunidade e aos seniores (Diário da República n.º11 III série de 16 de
Janeiro de 2006, 2006). No entanto, é relevante evidenciar outros objectivos
designadamente:
a) Contribuir para a melhoria da qualidade de vida da comunidade, em todas as
vertentes;
b) Criar e dinamizar actividades e respostas sociais, culturais, educacionais e de
saúde para a população, especialmente para os maiores de 50 anos;
c) Apoiar e reconhecer as Universidades e Academias da Terceira Idade;
d) Fomentar a cooperação para o desenvolvimento e a investigação académica e
científica na área da gerontologia e da cidadania;
e) Fomentar o voluntariado, na e para a comunidade, e a formação ao longo da
vida;
f) Promover os direitos humanos e cooperação entre povos, nomeadamente entre os
mais necessitados;
75
g) Contribuir para a defesa dos direitos e deveres dos utentes da RUTIS;
h) Promover outras actividades de cariz social que a RUTIS achar conveniente
(Diário da República n.º11 III série de 16 de Janeiro de 2006, 2006, p. 1120).
4.5. As UTI como espaço de socialização e aprendizagem do idoso
A socialização é um processo permanente e contínuo, logo não é um acto isolado
no tempo. Trata-se sim, de um sistema variável no tempo e no espaço, dado que as
sociedades não permanecem imutáveis, mas sofrem evolução no que respeita a
comportamentos e normas. Também é variável espacialmente, uma vez que em cada
sociedade existem características culturais próprias, valores e regras diferentes.
Ao longo do seu crescimento, o indivíduo interioriza mentalmente vários dados
sociais, isto é, existe uma construção da forma de pensar, sentir e agir, permitindo a
integração permanente no meio social de pertença. Esta aprendizagem é feita ao longo do
desenvolvimento através dos vários agentes de socialização, como a família, a religião, a
política e a escola. Segundo Dora Rosa (1999, p. 3), “A interiorização dos valores morais
se deu ao longo do tempo, através de processos de socialização desenvolvidos por
instituições, como a família e a religião, e profissionais especializados, como os filósofos e
pedagogos; mais tarde, já na Modernidade, através da escola.”. Deste modo, a escola passa
a ser agente socializador, não só para a criança, mas também para o adulto bem como para
o idoso.
Como foi dito anteriormente, não sendo um acto mas um processo, a socialização
estende-se necessariamente ao longo da vida do indivíduo, assegurando que a necessidade
de adaptação e integração social são permanentes, assim: “O ser humano torna-se homem
por meio da interacção com os outros. O processo de socialização inicia-se na infância e
prossegue por toda a vida, e o indivíduo é "ressocializado" a cada dia. Aprende-se a viver
em sociedade, adaptar-se a situações novas, a conversar, a reagir aos problemas, para onde
ir e como chegar. Adquire-se cultura, torna-se profissional e faz-se parte de uma
organização“ (Vilela, 2004, p. 6).
A palavra “ressocializado” usada por Vilela (2004) mostra que a velhice não pode
ser encarada como obstáculo à socialização. O indivíduo tem constante necessidade de
pertencer a uma organização, e o idoso não é uma excepção. A evolução da sociedade nos
demais domínios acarretou uma exigente e constante reactualização por parte do indivíduo
76
no sentido de continuar a pertencer ao grupo onde está inserido e neste sentido, os jovens
têm vantagem, enquanto os idosos demonstram mais dificuldade em integrar-se em
sociedade. Esta etapa de vida – a velhice - é caracterizada de acordo com várias rupturas
sociais, tendo reflexo na imagem que transmitem aos observadores externos bem como a si
próprios sentindo-se desamparados, ignorados e desintegrados da sociedade da qual
fizeram parte integrante até ao momento da reforma.
A reforma pode ser vista como um passo para a exclusão da sociedade, já que este
pode passar a ser visto como alguém que deixou de exercer uma função social importante
para o progresso do país. Assim, a socialização durante a velhice é de sobremaneira
importante. Neste caso a Universidade, pode ser a chave principal para “ressocializar”
idosos no que concerne a uma reintegração na sociedade, tal como diria Vilela (2004).
De acordo com Bogard (1997, p. 93), a revolução industrial permitiu desenvolver
novos sistemas de educação de acordo com a necessidade da população, isto é: “No
contexto sócio – económico específico da revolução industrial foi necessário conceber um
sistema educativo para as crianças e adolescentes”.
Actualmente deve pensar-se num novo estilo de educação que preencha as
necessidades dos adultos. A sociedade exige constantes actualizações a nível da
socialização, porque “Durante os últimos decénios, a nossa atenção concentrou-se sobre o
carácter mais evidente das modificações que sofrem as nossas sociedades, ou seja, o
desenvolvimento tecnológico. Uma das respostas mais urgentes tem sido e continua a ser,
sem dúvida, aumentar a formação técnica e profissional que é afectada por esta evolução”
(idem:94-95).
Esta necessidade de conquistar um lugar na sociedade e resgatar a socialização é
sentida essencialmente pelo extracto populacional mais envelhecido. Trata-se de um
grande desafio para a sociedade, pois esta terá de reunir condições adequadas aos idosos
para viverem com bem-estar, autonomia e inclusão na sociedade.
Deste modo, consideramos que a educação poderá ser encarada como uma solução
deveras viável para a reintegração do idoso na sociedade, ou seja “a educação é um meio
de acompanhar e de reforçar esta socialização em constante renovação” (Bogard, 1997, p.
95).
A socialização, efectivada através da educação em termos globais, não pode ser
dirigida apenas para uma camada populacional específica como os adultos, mas deve ser
conduzida também para os idosos, caso contrário estaríamos a falar de um caso de
marginalização como refere o mesmo autor: “Nesse sentido, convém evitar, o mais
77
possível, a transformação desta educação socializadora, num “sistema fechado” destinado
unicamente a certas categorias da população – o que só as levaria a uma maior
marginalização” (idem:96).
Para que a educação se possa estender aos idosos, Bogard (1997, p. 97) considera
ser necessário acabar com todos estereótipos que cercam o idoso, segundo o autor, torna-se
necessário denunciar “estereótipos sociais e imagens negativas, às vezes partilhadas pelos
próprios indivíduos que delas são objecto”. Assim sendo, os indivíduos sentir-se-ão mais
motivados para desenvolver as suas capacidades e usufruir dos “seus direitos e deveres na
sociedade contemporânea”.
A idade não pode ser vista como uma variável determinante para a inserção do
idoso na escola, ele continuará igualmente a aprender, aliás “é possível aprender, adaptarse a todas as situações sociais e isto até uma idade avançada” (idem:97).
O envelhecimento implica, socialmente, isolamento e solidão para o idoso, deste
modo, surgem as Universidades de Terceira Idade no sentido de permitir não apenas a
aprendizagem e reactualização de conhecimentos, mas também a inserção do indivíduo na
sociedade depois da reforma, como atesta Débora Sodré (2009, p. 5): “considerando que o
processo de envelhecimento gera um isolamento do idoso, a universidade aberta da terceira
idade vem com a proposta de integração, socialização, desenvolvimento e informação para
que haja um envelhecimento saudável e com isso a formação de novos papéis do idoso na
sociedade”.
No seu estudo, a autora teve como objectivo verificar a influência da universidade
da terceira idade no idoso. A sua análise incidiu em alguns aspectos particulares,
organizados em categorias como: “Aprendizagem pessoal. Liberdade. Optimismo.
Socialização. Lazer. Aprendizagem. Auto estima. Actividades em geral e adaptação”
(idem:5). No que diz respeito à aprendizagem, considerou não se descurar os
conhecimentos anteriormente adquiridos e agora permitir a sua concatenação, assim, a
aprendizagem pessoal refere-se à “reflexão diante dos fatos vivenciados ao longo da vida,
que interferem nos novos comportamentos a serem tomados” (idem:6).
Envelhecer não tem de ser sinónimo de dependência, o idoso pode ser autónomo na
tomada de decisões, na maneira de pensar e viver, daí que a liberdade tivesse sido uma das
categorias a ser estudada, estando “vinculada ao fato de não depender dos outros para se
locomover, tomar decisões, saber dos seus direitos, estar em contactos com outras pessoas
e viver novos desafios. É ser activo” (idem).
78
A socialização é um dos factores mais importantes a considerar, já que o idoso irá
começar a sentir-se mais útil tendo ainda a oportunidade de conviver com pessoas da
mesma idade, daí que “para os idosos a socialização é o factor mais importante dentro da
universidade, pois eles se relacionam com pessoas da sua própria idade e tem a
oportunidade de estar fazendo novos amigos, conversando, debatendo e participando de
coisas que durante toda a sua vida não tiveram oportunidades de fazer” (Sodré, 2009, p. 7)
considerando ainda que “as actividades externas favorecem a socialização entre os alunos,
deixando-os mais desinibidos, expressando o seu ponto de vista com mais liberdade, que
antes eram censurados, criando uma nova expectativa de vida“ (idem:9).
Desse modo, a autora admite que a universidade não é para os idosos apenas um
lugar educativo, mas é um centro onde poderão encontrar e usufruir de algo mais “como
divertimento, local de descontracção, reunião de amigos, com um ambiente considerado
óptimo, pelos alunos que favorece o desenvolvimento de cada um“ (idem:7), as aulas que
frequentam não são de carácter educativo, trata-se antes de momentos de “interacção nas
aulas com colegas, professores e coordenação. Essa aprendizagem é de acordo com a
capacidade de cada aluno e respeitada por todos que estão à sua volta” (idem).
Com este tipo de processo ensino - aprendizagem em que o aluno é activo, a autoestima e motivação tornam-se crescentes, uma vez que o aluno poderá igualmente escolher
dentre tantas actividades oferecidas as que mais lhe interessarem. Na universidade são
proporcionadas actividades recreativas, “ físicas, manuais, culturais e intelectuais, com o
intuito de melhoria na qualidade de vida dos alunos” (idem:8).
Considerando que a educação deve ser para todos, independentemente do género ou
idade, é de referir a importância da existência das Universidades Seniores, nascidas para
garantir o bem-estar do idoso, enquanto pessoa e cidadão. As Universidades Seniores
foram criadas com o objectivo de garantir melhor qualidade de vida aos idosos,
proporcionar uma contínua aprendizagem, um envelhecimento activo e uma crescente e
continuada socialização. Tal facto verifica-se na medida em que as ditas instituições
propõem actividades às quais os idosos se adaptam facilmente, como podemos comprovar
com o testemunho de Sodré (2009, p. 8): “essa adaptação ocorre devido ao fato de ser um
projecto destinado apenas ao idoso, com cursos diversificados e específicos de varias áreas,
fazendo assim com que tenham liberdade de escolha e possam ter maior variedade de
conhecimento, entretenimento e assim estejam sempre se actualizando e possam ter uma
nova visão sobre o que é estar na terceira idade”.
79
A educação tem de ser vista como processo permanente, conducente ao
desenvolvimento do indivíduo a vários níveis, ampliando a “participação activa do homem
no contexto social e cultural visando a uma melhoria nas relações interpessoais, na
qualidade de vida, na compreensão de mundo e na esperança de futuro melhor e mais
digno“ (Scortegagna & Oliveira, 2010, p. 6). Deste modo o indivíduo estará totalmente
integrado na sociedade da qual faz parte, podendo participar nela de forma activa. É o que
acontece com os idosos, através da educação proporcionada pela Universidade Sénior, pois
poderão “ encontrar um novo sentido em viver, mesmo quando estes já se encontram
desacreditados pela própria sociedade” (idem:7).
Conclui-se, assim, que o idoso tem direito à educação. Não podemos considerar que
as Universidades Seniores sejam vistas apenas como meros lugares de “assistencialismo ou
compensação” (idem:1), mas antes como espaços onde o idoso aprende “a ser, aprender a
fazer, aprender a conhecer e aprender a conviver” (Delors, 1999; citado por Scortegagna e
Oliveira, 2010:4).
Será através da educação, proporcionada pelas Universidades Seniores, que o idoso
terá a possibilidade de socializar, tal como referem as mesmas autoras: “Assim, o idoso
tem condições através do processo educativo de socializar-se, além de inserir-se num
contexto social maior, ampliando suas relações pessoais, conhecendo novas realidades,
desmistificando medos e percebendo todo o espaço que pode conhecer e vivenciar“
(idem:10).
4.6. Os estilos motivacionais dos idosos para a frequência de uma
Universidade da Terceira Idade segundo alguns autores
Não são frequentes os estudos que determinam os estilos motivacionais dos idosos
para frequentarem uma instituição como as Universidades da Terceira Idade.
Swindell (1993), citado por Monteiro e Neto (2008), tinha apurado duas categorias
para caracterizar o estilo motivacional dos idosos de uma UTI: a aquisição de
conhecimentos e factores de contacto social.
80
Jarvis e Walker, em 1997 (como citado em Monteiro & Neto, 2008), tinham
também definido os interesses cognitivos como principal razão para a associação a uma
UTI.
Néri e Cachioni (1999), também citados na obra de Monteiro e Neto (2008),
chegaram a resultados para definir os motivos preponderantes que incentivam os alunos a
frequentarem uma UTI, neste caso, a Universidade Sénior de Espinho, como: a busca de
contacto social, a busca de conhecimentos e actualização cultural e a ocupação dos tempos
livres.
Já Monteiro e Neto (2008), apresentam no seu estudo alguns resultados para
explicar o facto. Segundo os autores, “[…] as pessoas que frequentam estas instituições
fazem-no pelo prazer que usufruem das actividades que frequentam, pelo convívio que
permite desenvolver sentimentos afiliativos com outros com quem sentem afinidade, pela
actualização dos seus saberes o que os capacita a interactuarem com as gerações mais
novas de uma forma positiva, sentindo-se menos sós, provavelmente” (p. 151). Também
num estudo preliminar, os autores apontam o convívio, a criação de novos relacionamentos
sociais, a aquisição de novos conhecimentos e sua actualização como razões apontadas
pelos idosos para frequentarem as UTI.
Aline Chamahian (2010), no resumo da sua tese de doutoramento, honrosamente
mencionada no 19ème Concours de l’Observatoire national de la vie étudiante, alude ao
capital social e à procura da identidade como razões que levam os idosos a procurar
formação após a reforma. Refere também a procura de conhecimentos e a ocupação dos
tempos livres.
Marconcín e os seus colaboradores (2010) criaram no seu trabalho as seguintes
categorias para averiguar qual a representação que a Universidade tem para o idoso:
aumentar o conhecimento, aumentar o contacto social, ocupar o tempo livre de forma útil,
voltar ao passado.
Esmeraldina Veloso (2011, p. 287) refere, nas conclusões do seu estudo empírico,
que a frequência de uma UTI “devolve o sentido da vida e do tempo a muitos dos seus
associados que tinham vivenciado a reforma como um corte. O facto de poderem sentir-se
úteis prestando uma ajuda à comunidade ou sendo responsáveis por actividades culturais,
de conviverem ou de poderem aprender […]” será um motor para a frequência de uma
destas instituições.
81
Em suma, a participação nas Universidades Seniores significa para a maior parte
dos idosos a possibilidade de ampliarem a rede de relações sociais, encontrar novos
amigos, trocar experiências, sentirem-se acolhidos.
Reflectindo sobre a importância das Universidades Seniores, podemos antever,
desse já, o significado que elas podem ter na vida em idade mais avançada.
82
PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO
83
84
CAPÍTULO 5 – METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO
5.1. Introdução
Os estudos qualitativos consideram que existe uma relação dinâmica entre a
realidade e o sujeito, ou seja, “um vínculo indissociável entre o mundo objectivo e a
subjectividade do sujeito” (Vilelas, 2009, p. 105). O presente estudo insere-se numa
investigação de cariz qualitativo uma vez que decorreu no ambiente natural da instituição
em estudo.
Neste capítulo, é feita uma breve abordagem teórica à investigação qualitativa em
educação, incidindo particularmente no estudo de caso qualitativo. É feita também uma
breve descrição dos participantes na investigação. São ainda referidas as estratégias de
recolha de dados durante a investigação, nomeadamente através da observação directa e
dos inquéritos (por entrevista) e a maneira como estes foram tratados.
5.2. Contexto da investigação – Caracterização da Instituição em
estudo2
Começamos por abordar a questão do espaço, pois consideramos que, enquanto
protagonista fundamental da história, “o espaço, embora não determine as práticas dos
actores sociais, vai condicionar e influenciar as suas opções e acções quotidianas, no
sentido em que se transforma numa referência cultural dos indivíduos” (Vilaça & Guerra,
2000, p. 86).
Situado no Distrito de Viseu, região norte e sub-região do Douro, o concelho onde
se insere a escola em estudo, apresenta um total de 24 freguesias e estende-se por uma área
de 164,09 Km2. Segundo os Censos de 2011 a população residente é de 26.691.
O Município é limitado a Norte pelos municípios de Mesão Frio e Peso da Régua, a
Leste por Armamar, a Sudeste por Tarouca, a Sudoeste por Castro Daire e a Oeste por
Resende.
2
Fonte: Todos os dados referentes à caracterização da instituição, ao número de professores,
alunos, etc. foram fornecidos pela reitoria da Universidade.
85
O Concelho é um Município de elevada importância histórica e cultural na Região
do Douro Sul. As suas raízes são anteriores à fundação da nacionalidade.
A Universidade escolhida como objecto de estudo da nossa investigação é uma das
187 Universidades da Terceira Idade da rede RUTIS (Rede de Universidades de Terceira
Idade). Foi criada a partir da constituição, em notário, de uma associação com o mesmo
nome, em 1997. É, também, uma das 25 UTI da zona Aveiro/Viseu/Guarda. Foi declarada
Pessoa Colectiva de Utilidade Pública em 2008.
A sua criação, à semelhança das suas congéneres, surgiu para responder à
necessidade sentida pela população envelhecida, de uma integração na sociedade bem
como de um envelhecimento activo e consequentemente, de uma aprendizagem ao longo
da vida na região em questão.
Presta, segundo Despacho de Declaração de Utilidade Pública3, “úteis, relevantes e
contínuos serviços à comunidade, nomeadamente junto da população idosa da região onde
se insere, ao promover, através de uma variedade de iniciativas, a ocupação útil dos tempos
livres dos idosos, a cultura em geral e a integração social dos beneficiários das suas
acções.”
A Universidade funciona todos os dias úteis das 10.30 às 12.00 horas da parte da
manhã e das 14.30 às 16.30 horas da parte da tarde.
Actualmente, conta com 140 elementos, dentre os quais 17 pertencem à Direcção,
22 são formadores, há 1 funcionária a meio-tempo e 45 alunos (com uma média de idades
de 70 anos). Tendo em linha de conta que o estudo incidiu essencialmente em alunos com
65 e mais anos de idade, pudemos considerar para amostra 12 alunos que se voluntariaram
para a nossa entrevista.
Os 22 professores voluntários a leccionar na Universidade em questão,
caracterizam-se da seguinte maneira: 14 são do sexo masculino e 8 do sexo feminino. A
sua faixa etária maioritária situa-se acima dos 60 anos. Existem professores com
habilitação para a docência e outros sem formação pedagógica, mas especialistas numa
determinada área e que pretendem contribuir com a experiência e técnica que possuem. A
maioria tem o grau de bacharel ou licenciado, havendo três com mestrado e um com
doutoramento. Dezassete desses professores estão já em situação de reforma. Cada
professor dá em média duas horas semanais à Universidade.
3
Não se mencionam dados do referido Despacho, quer no corpo do trabalho, quer nas referências
bibliográficas, por questões de manutenção do anonimato da instituição em estudo.
86
No que respeita a apoios financeiros, a instituição funciona, neste momento, numas
instalações cedidas pela Câmara Municipal, subsistindo com as receitas das quotas e das
propinas dos sócios e dos alunos e de donativos pontuais.
Relativamente aos sócios, actualmente, a UTI em questão recebe uma quota anual
de 35 euros. As propinas podem ser pagas mensal, trimestral ou anualmente, de acordo
com a conveniência de cada um: dez euros mensais para uma disciplina e quinze por duas
ou mais, entre Outubro e Junho, inclusive.
Tem disponível uma oferta educativa de catorze disciplinas:
- Cavaquinhos
- Coisas de vária história
- Coral
- Educação Física
- Informática
- Interpretação da riqueza museológica do concelho
- Introdução à expressão dramática
- Jograis
- Língua Francesa
- Língua Inglesa
- Literatura Portuguesa - Formas Literárias
- O 25 de Abril no concelho
- Questões actuais
- Salazar e o seu tempo
E possui ainda 7 Ateliês:
- Artes decorativas (Arte Aplicada e Arte Sacra)
- Bainhas abertas
- Estanho
- Horticultura e Floricultura
- Lavores e bordados
- Pintura a aguarela
- Trabalhos em madeira
A Universidade conta com um grupo coral bastante activo, organiza colóquios e
exposições, visitas de estudo à região e a vários pontos do país com o fim de promover o
conhecimento do património nacional.
87
A Universidade Sénior dispõe de cinco salas equipadas com quadro, mesas e
cadeiras; possui alguns aparelhos audiovisuais, utilizados nas aulas, quando necessário. A
disciplina de Informática decorre num espaço ligado à autarquia, uma vez que a
universidade não dispõe de computadores suficientes para este fim.
5.3. O Método, as Técnicas de Pesquisa e os Participantes no Estudo
5.3.1. Do problema ao método
Segundo Fortin (2003, p. 15) “a investigação científica é um processo que permite
resolver problemas ligados ao conhecimento dos fenómenos do mundo real no qual
vivemos”. Para esta autora a diferença entre esta forma de o fazer e outras que identifica
como “intuição”, “as tradições e a autoridade”, “a experiência pessoal: tentativa e erro” e o
“raciocínio lógico”, reside no facto de a investigação científica ser o método mais
“rigoroso e o mais aceitável” por “assentar num processo racional” (Idem:17).
O processo de estudo científico inicia-se pela definição de um problema (Vilelas,
2009; Reis, 2010), que deve ser o ponto fulcral de um processo que será tanto mais válido
quanto mais concreta for a sua identificação, mas pode não se cingir a ele uma vez que
toda a investigação tem por base um problema inicial que se vai complexificando, em
interligações constantes com novos dados, até à procura de uma interpretação válida,
coerente e solucionadora, ou seja, questões acessórias que se interpõem entre o objectivo
do estudo e a sua materialização.
O problema inicial deste trabalho sobre o qual nos debruçámos foi, conforme já
explicitámos antes: Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa
Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis
nessa instituição?
Tendo um conhecimento mais abrangente da problemática, principalmente devido
ao trabalho realizado na revisão da literatura, surgiram outras questões e problemas que
também orientaram o nosso estudo, como:
- Porque voltam os idosos a querer estudar?
- Porque vão os idosos para as UTI?
- Qual a importância das UTI na qualidade de vida dos idosos?
88
Pretende-se, com isto, satisfazer os seguintes objectivos, que segundo Vilelas
(2009: 378), “[…]devem ser delineados com o intuito de responder às nossas indagações.
São constituídos por um objectivo geral, abrangente, que reflecte o objecto que se pretende
estudar, e por vários objectivos específicos que revelam os diversos factos que iremos
pesquisar para alcançar o geral.”:
■ Objectivos gerais da investigação
O objectivo geral deste trabalho é perceber as razões apontadas pelos utentes idosos
da Universidade Sénior para a inscrição nos cursos aí ministrados.
■ Objectivos específicos da investigação
Os objectivos específicos são:
. Inferir acerca da importância das UTI que se assumem como organismos
promotores de bem-estar e perceber também quais os factores que poderão potenciar este
bem-estar
. Conhecer a problemática que envolve a velhice e o envelhecimento.
. Compreender a contextualização das Universidades da Terceira Idade.
. Transversalmente, pretende-se divulgar as Universidades da Terceira Idade e a sua
influência nos meios de Educação e Saúde, bem como na comunidade em geral, ajudando
assim na credibilização desta modalidade de educação.
A metodologia usada para a concretização deste trabalho assentou, assim, em três
fases principais.
Numa primeira fase, essencialmente teórica, desenvolveu-se uma intensa pesquisa
de referências sobre as temáticas abordadas (Envelhecimento populacional, Velhice e
Universidades da Terceira Idade) visando a fundamentação do presente estudo. Tentámos
usar as mais recentes obras científicas disponíveis que tratam do assunto em causa, fazendo
um levantamento e análise do que já havia sido publicado sobre o tema. Várias foram as
pesquisas feitas, havendo uma compilação e organização das referências bibliográficas
usadas. Foram feitas fichas de leitura dos artigos mais relevantes, de modo a tornar mais
fácil a revisão da literatura.
Numa segunda fase, essencialmente prática, desenvolveu-se um estudo sobre as
razões apontadas pelos idosos de uma Universidade Sénior do distrito de Viseu para
estarem a frequentar os cursos lá ministrados. Assim, nesta fase, procedeu-se à
caracterização da população-alvo e à elaboração e aplicação das entrevistas. As entrevistas
foram realizadas no ambiente em estudo e depois de autorizado, gravadas em suporte
áudio, captando as conversas e respostas verbalizadas. Também as respostas não
89
verbalizadas são importantes e por isso foi tido em conta o comportamento não-verbal dos
entrevistados através da observação, que foram registadas em notas pós-entrevista. Os
objectivos das entrevistas foram sempre claramente explicitados aos entrevistados e foi
sempre valorizado e agradecido o tempo dispensado e o contributo para a investigação. De
modo a programar e situar melhor a entrevista, elaborámos um guião para a sua preparação
que apresentamos nos apêndices. Elaborámos o guião do decurso e da finalização da
entrevista. Os nossos apontamentos pessoais também foram um instrumento muito útil, na
medida em que aí foram registadas todas as anotações feitas ao longo deste processo de
estudo, que nos forneceram informações relevantes para a redacção do texto final.
Na terceira fase, após transcrição das entrevistas, procedeu-se à análise de conteúdo
de acordo com os objectivos previamente estipulados. Esta análise envolve o estudo dos
dados, a sua organização, divisão em unidades manipuláveis, síntese, procura de padrões,
descoberta de aspectos importantes e decisão sobre o que foi transmitido. A apresentação
de resultados da investigação contemplou todos os dados obtidos ao longo da pesquisa para
que o leitor possa ter conhecimento de tudo o que originou os resultados finais.
Em relação ao enquadramento do estudo, este é do tipo qualitativo na sua essência
(Vilelas, 2009), dado que se centra no modo como as pessoas interpretam e vivenciam as
suas experiências. A base desta investigação residiu, assim, numa abordagem interpretativa
da realidade social, traduzindo-se num paradigma claramente interpretativo, sendo que, o
objectivo deste estudo não foi descobrir leis universais de conduta humana, mas acima de
tudo, descobrir como as pessoas interpretam e agem sobre o mundo envolvente, fazendo
parte de uma situação dificilmente repetível, logo dificilmente generalizável, dado que é
um estudo de um caso (Os idosos que frequentam uma Universidade Sénior do Distrito de
Viseu).
Quanto à manipulação e controlo, a tendência foi a procura de padrões. Foi feita
análise de conteúdo. A análise de conteúdo, é, segundo Esteves (2006, p. 107), “[…] a
expressão genérica utilizada para designar um conjunto de técnicas possíveis para
tratamento de informação previamente recolhida”. A questão da validade é inerente ao
processo de análise de conteúdo e atravessa todas as suas etapas. Assegurámo-nos de que
foram medidos os dados pretendidos. A questão da fidelidade, tem algumas limitações
especiais, uma vez que qualquer conteúdo é susceptível de interpretações diferenciadas de
acordo com o seu codificador. Estando a categorização bem definida, essa questão terá
uma probabilidade menor de ambiguidade.
90
A população-alvo escolhida situa-se entre a totalidade de idosos (maiores de 65
anos) inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu no ano lectivo 2012/2013
dado que soubemos de antemão que o número de pessoas nestas condições era de cerca de
vinte e quatro pessoas, sendo por isso uma população exequível no que diz respeito à
aplicação de entrevistas.
Ao efectuar-se uma investigação podem-se utilizar diversas técnicas de recolha de
dados. Para o nosso projecto de investigação seleccionámos o inquérito por entrevista
semiestruturada (foi construído previamente um guião com objectivos definidos que
funcionou como um roteiro temático e que serviu como linha orientadora) como
instrumento, por acharmos servir melhor o objectivo do trabalho. As questões da entrevista
foram, logicamente, articuladas com os objectivos definidos e com a questão de partida.
Ao longo do trabalho, outras técnicas como a observação estruturada e a tomada de notas
de campo foram relevantes para este projecto.
A entrevista foi dirigida pelo investigador no local em estudo sendo feita
previamente uma apresentação onde se explanou o objecto e objectivos do estudo, nome e
contactos do investigador e um agradecimento. A formulação de perguntas da entrevista
teve como lema ser o mais explícita possível. Foi efectuado um pré-teste, dada a natureza
da população-alvo, no sentido de haver uma detecção de erros ou dificuldades de
compreensão. Esse pré-teste foi feito a pessoas com semelhante condição, alunos de uma
outra instituição sénior vizinha de modo a reproduzir o melhor possível os idosos da US.
Em relação às questões éticas, tal como refere Vilelas (2009, p. 371), “a
investigação que envolve seres humanos pode pôr em causa os direitos e liberdades da
pessoa”. Foram assim, consideradas todas as situações que visassem a obtenção objectiva,
livre e facultativa das informações pretendidas, respeitando o direito à autodeterminação e
à intimidade bem como a confidencialidade e anonimato. Foi também respeitando sempre
o direito a um tratamento justo e equitativo, de acordo com Fortin (1999, como citada em
Vilelas, 2009).
Tomou-se, assim e sempre, a iniciativa de informar os visados dos objectivos reais
do estudo, dando garantia de anonimato e ainda, liberdade de responder total ou
parcialmente às questões.
91
5.3.2. Instrumentos de pesquisa
Para recolher as representações dos entrevistados face aos objectivos, foi
previamente elaborado um guião de entrevista que culminou na organização das perguntas
da entrevista propriamente ditas. A elaboração do guião “constitui um momento importante
da investigação, na medida em que ele orientará a recolha de dados. Importa referir que
este guião pode ser afinado no decurso da investigação, em que algumas questões podem
tornar-se mais importantes do que outras, em função da pessoa entrevistada” (Albarello &
al, 1997, p. 217). Por isso, existe a necessidade de construir o guião com uma estrutura
maleável que permita se necessário, colocação de novas questões no decorrer da entrevista
e que permita a livre expressão das ideias e representações sem esquecer os objectivos
pretendidos.
A entrevista consiste num processo de comunicação no decurso do qual o
entrevistado responde a questões colocadas oralmente e previamente desenhadas em
função dos objectivos do estudo, permitindo, desta forma, a recolha de informações e
elementos de reflexão fundamentais à pesquisa (Quivy & Campenhoudt, 1998). Constituise como uma técnica recomendada para recolher dados descritivos na linguagem do
próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a
maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo, obtendo-se, assim, um
conhecimento mais holístico e contextualizado acerca do problema em estudo que nem
sempre se consegue mediante o recurso a outros métodos de investigação (Bogdan &
Bicklen, 1994; Valles, 1999).
A opção metodológica para a recolha dos dados neste estudo recaiu sobre a
realização da entrevista semiestruturada (Bardin, 1994). Neste tipo de entrevista, são
utilizadas perguntas-guia, a propósito das quais é imperativo receber uma informação por
parte do entrevistado, que fala abertamente mas, sempre que se afaste dos objectivos da
entrevista, é reencaminhado pelo entrevistador.
As vantagens da realização deste tipo de entrevista são diversas, quando
comparadas com outras técnicas de recolha dos dados, entre as quais destacamos as
seguintes:
i)
Possibilitam uma abertura e proximidade maiores entre entrevistador e
entrevistado;
ii)
Permitem uma maior elasticidade quanto à sua duração, admitindo uma
cobertura mais profunda sobre determinados assuntos;
92
iii)
Permite aprofundar temas abordados (ou respostas espontâneas) pelo
entrevistado que se revelem de interesse para o estudo;
iv)
Proporciona que o entrevistador esclareça os erros e interpretação que
detecte aquando do seu questionamento (Quivy & Campenhoudt, 1998).
Tendo por base os pressupostos referidos anteriormente e a revisão da literatura, a
construção do guião da entrevista semiestruturada teve em consideração os contributos de
carácter metodológico de diversos autores (Bardin, 1994; Quivy & Campenhoudt, 1998),
bem como os objectivos do estudo.
Tal como referimos acima, o estudo foi efectuado no ambiente natural da
instituição em estudo: uma Universidade Sénior do distrito de Viseu.
Tinham sido estabelecidos dois critérios fundamentais para a selecção dos
elementos a entrevistar:
i)
Ser aluno da instituição em causa no ano lectivo de 2012-2013;
ii)
Ter 65 ou mais anos de idade.
Participaram na nossa investigação doze alunos com idade igual ou superior a 65
anos. Participaram todos os que o aceitaram fazer de forma voluntária.
As entrevistas foram realizadas nos dias 26, 27 e 28 de Dezembro de 2012 e 6 e 11
e Fevereiro de 2013 e concretizaram-se em horário combinado numa sala da instituição
que reunia as condições adequadas para a realização das mesmas. No local apenas estavam
presentes a investigadora e o entrevistado, ou a entrevistada, a quem se pediu permissão
para gravar em áudio a entrevista. Na condução das entrevistas, conscientes do quão
importante seria o contributo dos intervenientes e sem querer deixar nenhum pormenor
descuidado, procurámos que as entrevistas decorressem sem qualquer tipo de
constrangimentos externos, dando aos sujeitos à vontade e liberdade para responder às
questões. No decurso das entrevistas, foi nosso intuito manifestar, por meio do nosso
comportamento não-verbal, interesse e atenção pelas palavras dos entrevistados,
estimulando-os a avançar. A excelente relação de abertura e disponibilidade, que se
estabeleceu desde o início com cada um dos doze entrevistados, foi sem dúvida essencial
no processo de recolha de dados. A duração global de cada entrevista foi variável, de
acordo com o tempo que cada entrevistado necessitava para se expressar, oscilando entre
12 e 33 minutos.
De modo a preservar a sua identidade e de acordo com a ordem de realização das
entrevistas os entrevistados foram numerados de E1 a E12 conforme a sequência da
93
realização das entrevistas a fim de assegurar o anonimato e o carácter confidencial das
informações prestadas.
5.3.3. Guião da entrevista
O guião da entrevista4 obedeceu a objectivos gerais e específicos, que, de certo
modo, ajudaram a delinear algumas categorias mais gerais.
O guião garante alguns aspectos gerais como a fase de explicação dos objectivos da
entrevista, a garantia dos aspecto éticos e deontológicos, os agradecimentos pela
participação e a disponibilização para recepção de sugestões ou questões por parte dos
entrevistados ou para futuro acesso a dados do estudo. Garante também a categorização das
questões da entrevista.
As primeiras cinco questões serviram para colectar dados pessoais: idade, estado
civil, composição actual e inicial do agregado familiar, nível de escolaridade e percurso de
vida escolar.
De seguida, pretendemos caracterizar a situação profissional actual e o próprio
percurso de vida profissional do entrevistado: situação de aposentação, percurso
profissional.
Existe também um conjunto de questões sobre o quotidiano: como passa o ia, como
ocupa os seus tempos livres, pertenças a grupos, seguida de uma descrição dos
relacionamentos sociais.
Vêm depois as questões relativas às razões da inscrição na UTI e sobre as opiniões
sobre as eventuais mudanças introduzidas na vida do entrevistado.
Após a realização das entrevistas procedeu-se à transcrição das mesmas e
posteriormente à execução da respectiva análise de conteúdo.
5.3.4. Análise de conteúdo
Considerando o objecto, os objectivos e os pressupostos teóricos em que assenta o
presente estudo, no que diz respeito à análise dos dados, optou-se pela análise de conteúdo.
4
Ver Anexo 3
94
A análise de conteúdo pode ser descrita como sendo “Um conjunto de técnicas de
análise das comunicações.” (Bardin, 1994, p. 31).
A análise de conteúdo é considerada a fase mais formal do trabalho do pesquisador.
Os conteúdos obtidos devem, então, ser categorizados sem, contudo, perder de vista a
relação desses elementos com todos os outros componentes.
A análise de conteúdo permite fazer inferências por meio da identificação
sistemática e objectiva do conteúdo da mensagem. A sua finalidade consiste em efectuar
interpretações relativas à informação sobre a qual é realizada a análise, no sentido a que
outras pessoas possam aferir o procedimento seguido. Assim, a análise de conteúdo tem
por objectivo efectuar inferências, assentando numa lógica explicitada, sobre mensagens
cujas características foram inventariadas e sistematizadas (Vala, 1986).
Segundo Bardin (1994) na análise de conteúdo é importante classificar, descrever,
sistematizar, quantificar as categorias inseridas no corpo documental com o objectivo de
explicitar e sistematizar o conteúdo descrito nas entrevistas.
A análise dos dados consiste na organização sistemática do material colhido no
terreno com o objectivo de, através dele, aumentar a nossa compreensão sobre o fenómeno
em estudo. Esta análise envolve “trabalhar com os dados, a sua organização, divisão em
unidades manipuláveis, sintaxe, procura de padrões, descoberta de aspectos importantes e
do que deve ser apreendido e a decisão sobre o que vai transmitido aos grupos” (Bogdan &
Bicklen, 1994, p. 205).
Nesta investigação, a informação foi tratada através de análise de conteúdo, com
recurso à decomposição do discurso em categorias. Como nos diz Bardin (1994, p. 11) “A
categorização é uma execução metódica de dados característicos de um conjunto, por
distinção e, nessa sequência, através de uma reunião de acordo com a relação de
semelhança entre objectos diferentes, com condições necessárias e suficientes
anteriormente fixadas”.
Relativamente ao procedimento da análise de conteúdo que utilizámos para as
entrevistas, estamos conscientes que se trata de um processo complexo, no entanto,
tentámos ultrapassar esta situação através de processos de validação, da análise dos dados
procedemos a uma análise categorial definida por Bardin (1994, p. 37) como “o método
das categorias, espécie de gavetas ou rubricas significativas que permitem a classificação
dos elementos de significação constitutivos da mensagem”. Para esta análise não foram
definidas categorias à partida, essas categorias foram delineadas a partir dos discursos dos
entrevistados. Procedeu-se, deste modo, a uma categorização emergente (Bardin, 1994, p.
95
119) em que “o sistema de categorias não é fornecido, antes resultando da classificação
analógica e progressiva dos elementos. (…) O título conceptual da cada categoria, somente
é definido no final da operação”.
Apoiamo-nos também em Vala (1986, p. 111) quando afirma que “a construção de
um sistema de categorias pode ser feita a priori ou a posteriori, ou ainda através da
combinação destes dois processos”.
Uma vez que os dados compilados se encontravam sob a forma de texto usámos os
procedimentos comuns de análise do conteúdo. A cada entrevistado foi atribuído um
número, no sentido de assegurar a confidencialidade, surgindo com a designação de
entrevistado E1, E2, E3, E4, E5…até E12, segundo a ordem em que foi feita a entrevista,
conforme já foi referido.
Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas com a máxima fidelidade
possível e procedemos à sua organização, tratamento e análise. Analisámos cada entrevista
individualmente e também as comparámos entre si.
Após a transcrição das mesmas, empreendemos uma primeira leitura geral a fim de
uma análise e conhecimento do texto deixando-nos invadir por impressões e orientações.
Depois realizámos várias leituras de uma forma mais aprofundada o que permitiu destacar
alguns temas e ideias centrais, ainda que provisórias.
Depois de termos em mente as concepções pessoais de cada entrevistado, a análise
de conteúdo das entrevistas foi organizada em sistemas e regras de codificação através das
quais se desenvolvem unidades de enumeração ou de contagem baseadas num processo
claro e objectivo, facilitador da categorização e contagem das frequências (Bardin, 1994).
Após a recolha e análise de todos os dados recebidos, foram feitos
Gráficos/Quadros para o registo dos mesmos.
5.3.5. Caracterização dos entrevistados - primeira e breve aproximação
Tendo em conta os pressupostos anteriores, participaram neste estudo 12 alunos da
UTI com idades compreendidas entre os 65 e os 84 anos (média de 74,9 anos). De salientar
que existem 9 indivíduos do sexo feminino e 3 do sexo masculino. Os seus níveis de
habilitações variam entre a antiga 4ª classe e a Licenciatura. Seguidamente apresentam-se,
num quadro, alguns elementos caracterizadores dos entrevistados.
96
Quadro 2 – Caracterização geral dos entrevistados
Aluno entrevistado
Idade
(anos)
Sexo
Habilitações
Académicas
E1
79
F
10º ano
E2
74
F
11º ano
E3
65
F
9º ano
E4
73
F
Magistério Primário
E5
80
F
Licenciatura
E6
77
F
Magistério Primário
E7
80
M
Curso Superior Militar
E8
65
F
4º ano
E9
65
F
10º ano
E10
77
F
9º ano
E11
80
M
9º ano
E12
84
M
Curso Superior Militar
5.3.6. Ética da pesquisa
Foram consideradas todas as situações que visam a obtenção objectiva, livre e
facultativa das informações pretendidas.
Tomou-se a iniciativa de informar a instituição em causa dos objectivos reais do
estudo, garantindo o anonimato e ainda, a liberdade de responder total ou parcialmente às
questões.5
5.3.7. Limitações do estudo
As limitações deste estudo prendem-se, sobretudo, com o seu carácter exploratório
e com o número limitado de sujeitos em estudo. De facto, foram apenas doze os
entrevistados. Nesse sentido, os resultados obtidos dizem respeito apenas a este grupo de
alunos. No entanto, devemos realçar que estes doze entrevistados são metade dos alunos
com 65 ou mais anos utentes da Universidade Sénior.
5
Ver anexo 1
97
Na nossa pesquisa não se partiu de hipóteses prévias e portanto o nosso objectivo
não foi a sua verificação, mas a construção de um conjunto de conclusões que pretendem
responder a uma problemática inicial. O nosso objectivo consistiu, portanto, em
explicar/aprofundar um determinado fenómeno, neste caso, saber: Quais as razões
apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para
a frequência de cursos disponíveis nessa instituição?
Face ao objectivo definido, o estudo permitiu obter todos os dados pretendidos.
Contudo, não pode deixar-se de referir alguns limites deste estudo, não para
desculpabilizar eventuais erros/lacunas, mas para evidenciar a consciência que se tem da
distância existente entre o objectivo pretendido e o objectivo produzido. Um primeiro
limite tem a ver com o espaço de tempo definido para a concretização deste estudo face à
disponibilidade perante as exigências profissionais e familiares. Outro limite prende-se
com a dificuldade em encontrar referências bibliográficas na temática em questão.
98
CAPÍTULO 6 – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS
RESULTADOS
Terminada a fase de recolha de dados, procedemos à sua organização, tratamento e
análise. Tendo sempre em mente o objectivo de perceber porque voltavam os idosos a
querer estudar, porque iam para a UTI e qual a importância da UTI na sua qualidade de
vida, começámos por analisar os discursos feitos pelos entrevistados, a fim de perceber o
que eles disseram a respeito da sua experiência enquanto alunos da UTI.
Consideramos que todos os dados reunidos com as entrevistas se destinaram
principalmente a esclarecer a nossa pergunta de partida: Quais as razões apontadas pelos
idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de
cursos ministrados nessa instituição? E é dentro deste princípio que passamos a
especificar as categorias, os respectivos indicadores de contagem, bem como a nossa
interpretação.
No quadro destas ideias, consideramos que esta fase de definição de categorias de
análise foi crucial, na medida em que nos permitiu simplificar o material recolhido e, desta
forma, permitiu fazer inferências sobre as mensagens cujas características foram
inventariadas e sistematizadas, de modo a fazer uma interpretação dos dados obtidos.
Como salienta Bardin (1994), é a inferência que permite a passagem da descrição à
interpretação, enquanto atribuição de sentido às características do material que foram
levantadas. Os resultados irão ser apresentados categoria a categoria. A definição das
dimensões e categorias de análise, como já referimos, foi efetuada a partir da leitura dos
discursos dos entrevistados. Este formato de recolha de dados permitiu-nos obter um
corpus de dados relativamente homogéneo, facilitando a sua análise, embora tivesse
havido a possibilidade para a expressão livre dos entrevistados.
Na tentativa de agrupar as unidades de análise análogas, colocámos os respectivos
excertos de frases, parágrafos ou períodos das entrevistas, que correspondiam ao discurso
proferido por cada entrevistado/a, o qual era considerado pertinente e significativo para
aquela dimensão de análise. No entanto, tivemos em atenção que uma unidade demasiado
pequena, repetitiva, perderia o seu significado.
99
6.1. Dados pessoais, académicos e profissionais
Nesta secção realiza-se uma caracterização dos entrevistados a partir dos seus
dados pessoais, académicos e profissionais, dados com os quais já realizámos uma primeira
aproximação acima.
Quadro 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI
Entrevistado
Género
E1
Feminino
E2
Feminino
E3
Feminino
E4
Feminino
E5
Feminino
E6
Feminino
E7
Masculino
E8
Feminino
E9
Feminino
E10
Feminino
E11
Masculino
E12
Masculino
Gráfico 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI
25%
Maculino
Feminino
75%
100
Os entrevistados dividem-se quanto ao seu género, em nove elementos do sexo
feminino (75%) e três do sexo masculino (25%), consolidando, os dados demográficos que
indicam uma maior expressão feminina nas pessoas idosas na estatística6, bem como a
afirmação da RUTIS quando diz que 80% dos utentes das UTI são mulheres 7. Diferentes
factores poderão contribuir para uma predominância do sexo feminino, tendo como
exemplo o desequilíbrio existente na própria composição populacional em termos
nacionais, derivado do registo de maiores taxas de mortalidade que se verificam no sexo
masculino, seja à nascença e nos primeiros anos de vida, seja nas idades mais avançadas.
Outro factor importante a considerar prende-se com a possibilidade de a mulher sair da
esfera privada para um espaço público, onde pode conviver e dedicar-se a certas
actividades culturais/recreativas, e que, anteriormente, pelas responsabilidades familiares e
laborais não pôde concretizar.
Quadro 4 - Idade dos entrevistados/alunos da UTI
Entrevistado
Idade
E1
79
E2
74
E3
65
E4
73
E5
80
E6
77
E7
80
E8
65
E9
65
E10
77
E11
80
E12
84
6
7
Ver Gráfico 2 na página 14.
Ver página 72.
101
Quadro 5 - Peso percentual por categorias etárias
Categorias etárias
Incidência
Peso Percentual
65 – 69 anos
3
25%
70 – 74 anos
2
17%
75 – 79 anos
3
25%
80 – 84 anos
4
33%
85 - 89 anos
0
0%
Gráfico 4 - Distribuição dos entrevistados por intervalos de idade
0%
25%
33%
65-69
70-74
75-79
80-84
17%
85-89
25%
Pela análise do gráfico anterior podemos concluir que a maioria dos entrevistados
se situa na categoria etária dos 80-84 anos, seguindo-se as categorias dos 65-69 e dos 7579 anos. Lembremos a caracterização das Universidades da Terceira Idade feita pela
RUTIS8 que situa a média de idade dos seus alunos a nível nacional nos 60-69 anos, o que
não coincide com a média aqui apresentada, talvez pelo tamanho da amostra não ser
8
Na página 72 deste trabalho.
102
representativo da real média desta instituição, que diz ter uma maioria de alunos na faixa
acima dos 60 anos9.
Os entrevistados são na sua maioria casados (8 - 67%), havendo também 4 viúvos
(33%).
Gráfico 5 - Estado civil dos entrevistados
4; 33%
casado
viúvo
8; 67%
No quadro número 6 podemos ver para além do estado civil dos entrevistados, o
seu agregado familiar inicial e actual.
9
Na página 81 deste trabalho.
103
Quadro 6 - Agregado familiar do entrevistado - situação inicial e actual
Entrevistado
Estado civil
Agregado familiar inicial
Agregado familiar actual
E1
Casada
Casal e 5 filhos
Casal
E2
Viúva
Casal
Vive só
E3
Casada
Casal e 3 filhos
Casal e 1 filho
E4
Casal
Casal e 2 filhos
Casal
E5
Viúva
Casal, 8 filhos, tio e cunhado
Vive só
E6
Casada
Casal e 2 filhos
Casal
E7
Casado
Casal e 3 filhos
Casal
E8
Casada
Casal e 3 filhos
Casal e pai
E9
Viúva
Casal e 3 filhos
Vive só
E10
Casada
Casal e 1 filha
Casal
E11
Viúvo
Casal e 1 filho
Vive só
E12
Casado
Casal e 3 filhos
Casal
Verifica-se que todos os viúvos (4) vivem sós, conservando a sua independência e
autonomia. Alguns tiveram propostas para ir viver com os filhos mas recusaram temendo
incomodar, como é o caso, por exemplo do E11:
“Vivo sozinho. Porque eu quis. Ele queria que eu ficasse em casa dele mas eu vi
que estava a prejudicar o meu neto. Estava a ficar sem quarto por minha causa e eu não
gostei […]”.
Um dos entrevistados (E3) vive com o marido e com um filho adulto com
problemas psicológicos, continuando, deste modo, as suas responsabilidades familiares de
mãe e esposa.
Outro entrevistado, o E8, assumiu a responsabilidade de cuidadora do pai:
“Estou só com o meu marido e o meu pai, que faz 92 anos no dia 15 de Março”.
Na página 43 deste trabalho fizemos referência a este facto:
O envelhecimento activo acarreta, assim, novos desafios e tensões na vida de
muitas mulheres, cujo quotidiano se reparte pelo cumprimento de responsabilidades várias,
seja na esfera laboral, familiar (domínio onde são as principais prestadoras de cuidados a
104
elementos progenitores e/ou a crianças mais pequenas – netos e netas), seja ainda na
comunidade mais vasta (Casaca & Bould, 2012).
Como podemos verificar pelo quadro e gráficos abaixo, os entrevistados têm
habilitações que variam entre o 4º ano (4ª classe) e a Licenciatura ou Cursos Superior
Militar, tal como afirmou a RUTIS, reportando-se ao grau de instrução variável dos alunos
da Universidades Sénior10. Optámos por utilizar a actual categorização por ciclos para uma
mais fácil leitura da formação dos alunos da UTI, excluindo dessa associação o Magistério
Primário que na altura não era considerado ensino superior. Assim, existe apenas um aluno
(8%) com o 4º ano, sendo a maior fatia (33%) a do Ensino secundário (até ao 11º ano, dado
que não existia 12º ano) seguido das fatias do 2º e 3º ciclo do Ensino Básico (até ao 9º ano)
e ensino superior (20%), neste caso, percentagem correspondente à referida por Jacob
(2012). Conclui-se deste modo que os entrevistados da Universidade em estudo têm
formação académica de grau maioritariamente elevado (ensino secundário e superior) num
total de 53% (8 indivíduos).
Quadro 7 - Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI
Entrevistado
Habilitações académicas
E1
10º ano
E2
11º ano
E3
9º ano
E4
Magistério Primário
E5
Licenciatura
E6
Magistério Primário
E7
Curso Superior Militar
E8
4º ano
E9
10º ano
E10
9º ano
E11
9º ano
E12
Curso Superior Militar
10
Ver página 72.
105
Gráfico 6- Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI
1; 8%
2; 17%
4º ano
9º ano
1; 8%
3; 25%
10º ano
11º ano
Magistério Primário
Licenciatura
2; 17%
Curso Superior Militar
2; 17%
1; 8%
Gráfico 7 - Habilitações dos entrevistados por ciclo de ensino
1; 7%
Ensino Básico (actual 1º CEB)
3; 20%
3; 20%
Ensino Básico (actual 2º CEB)
Ensino Básico (actual 3º CEB)
Ensino Secundário/Magistério
Primário
Ensino Superior
5; 33%
3; 20%
Como podemos ver pelo quadro seguinte a maioria dos nossos entrevistados foi
obrigada a parar de estudar.
106
Quadro 8 - Percurso escolar dos entrevistados
Categorias
Frequência
Sujeitos
C1 - Estudou até onde desejou
4
E3, E4, E7, E12
C2 - Parou de estudar por obrigações 2
E5, E11
familiares.
C3 - Não estudou porque não deixaram 5
E1, E2, E8, E9, E10
(pais/cônjuge)
C4 - Estudou por necessidade
1
E6
Nele podemos verificar também que a maioria dos nossos entrevistados foi
obrigada a parar de estudar por motivos alheios à sua vontade, ou porque os progenitores
não deixaram ou porque começando a namorar ou casando, o parceiro não concordou com
a continuidade dos estudos. Vejamos alguns exemplos:
E1 - “Fiz até ao 7º ano. Depois, saí porque o meu marido começou a namorar
comigo e não quis que eu estudasse mais. Entretanto fez-me falta […]”
E2 – “Casei. Depois ele já não deixou. [estudar].”
E8 – “Gostava muito de estudar, gostava de ser professora, mas era a mais
velha… nunca andei a trabalhar no campo, mas os meus pais mandaram-me para a
costura… Tive de tratar dos meus irmãos.”
E10 – “Não tirei curso nenhum. Os meus pais entenderam que eu não sairia de
casa. Só saí quando casei.”
Também se destaca um caso de interrupção dos estudos por obrigações familiares.
Neste caso, o entrevistado deixou de estudar para tratar de negócios de família:
E11 – “Os meus pais eram de ali de Fornos de Algodres e deixaram os terrenos
assim de qualquer maneira. E foi por isso mais que eu vim embora”
107
Um dos entrevistados estudou para fazer face aos fracos recursos económicos dos
pais:
E6 – “Sim, estudei porque quis e porque tive necessidade. Os meus pais não
tinham rendimentos para me terem e eu tirei um curso e fiquei melhor, protege-nos sempre
mais.”
Como já vimos, noutras épocas, o abandono ou a não frequência da escola, era uma
opção virada para o mundo do trabalho ou da família. Estudar era uma opção muito
secundária (Castro & Franco, 1980)11.
No quadro seguinte damos conta da situação laboral actual dos entrevistados.
Quadro 9 - Situação laboral actual dos entrevistados
Categorias
Frequência
Sujeitos
C1 – Reformado
9
E1, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E11, E12
C2 – Reformado por invalidez
1
E3
C3 – Nunca descontou
1
E10
C4 – Nunca trabalhou
1
E2
Todos os entrevistados estão, de uma maneira ou de outra, fora da vida laboral,
neste momento, quer por aposentação, quer por nunca terem tido uma profissão.
A maioria dos casos (9) está aposentado de forma natural após o tempo
regulamentar de trabalho. Existe uma entrevistada com 65 anos e reformada há 12 por
invalidez. Há também uma entrevistada que trabalhou até aos 52 anos sem nunca ter
descontado e que parou de trabalhar para cuidar da neta. Uma das entrevistadas, nunca teve
uma profissão, tendo ao longo da vida ajudado o marido nas suas empresas.
11
Ver página 54 deste trabalho.
108
Quadro 10 - Percurso profissional dos entrevistados
Entrevistado Profissão que exerceu
E1
Procuradora judicial
E2
Não trabalhou
E3
Fabricante de malhas
E4
Professora
E5
Professora
E6
Professora
E7
Militar
E8
Cozinheira
E9
Agricultora
E10
Cabeleireira
E11
Bancário
E12
Militar
Pela diversidade de profissões não fazemos aqui a categorização mas sim a
descrição de cada uma por entrevistado, de modo a obter assim, uma fácil leitura da
actividade profissional de cada entrevistado.
Deste modo, temos três professoras (E4, E5, E6), dois militares (E7, E12), uma
entrevistada que nunca exerceu nenhuma profissão (E2) e diversas profissões como
cozinheira, agricultora, cabeleireira, procuradora judicial, fabricante de malhas ou
bancário.
Esta diversidade de profissões pode indicar-nos que a frequência de uma UTI não
responde a nenhuma categoria profissional determinada, no caso concreto desta instituição.
Como podemos ver pelo quadro seguinte metade dos inquiridos (6) não planeou a
sua entrada na reforma.
109
Quadro 11 - Planeamento da entrada na reforma
Categorias
Frequência
Sujeitos
C1 – Planeou a aposentação
5
E4, E5, E7, E10, E12
C2 – Não planeou a aposentação
6
E1, E3, E6, E8, E9, E11
C3 – Não se aplica (não teve profissão)
1
E2
Os excertos das entrevistas abaixo exemplificam alguns dos casos de não
planificação das reformas:
E1 – “Sabia uma coisa… parada não havia de ficar… mas não…foi um dia de cada
vez… tinha tantas coisas para fazer que nem dei por isso.”
E3 – “Não planeei a minha reforma. Teve de ser… adoeci.”
E6 – “E eu disse: pronto, vou, já fico descansada, é melhor para a minha casa.
Nunca pensei em fazer nada.”
Veja-se o exemplo do inquirido E9 que diz não ter planeado a sua aposentadoria
por prever ter uma reforma muito reduzida:
E9 - “Não. Eu já sabia que a minha reforma era muito pequena”
Note-se o que foi dito na parte teórica, baseado em Casaca e Bould (2012) sobre a
importância de alertar para o facto de algumas reformas introduzidas nos sistemas de
pensões serem particularmente penalizadoras para a população feminina, o que certamente
diminui as expectativas em relação ao que se vai fazer no tempo pós-reforma, pela falta
dos meios financeiros necessários para a realização de certas actividades.
Os inquiridos que planearam a sua aposentação foram cinco. O outro entrevistado
não passou por esse processo uma vez que nunca teve uma profissão.
De qualquer forma, foi várias vezes referida a manutenção de actividade, como em:
E7 – “Eu pensei sempre na reforma, em utilizar as minhas capacidades, parar
não, de forma que eu programei a minha vida.”
110
E12 – “Eu antes de me reformar já tinha certas actividades [...]. Portanto quando
me reformei não tive receio de ficar na inactividade. Muitos quando passam à reforma
ficam aflitos, que é que eu vou fazer… eu estive sempre activo.”
Foi também referido no nosso enquadramento teórico, quando abordámos as
actividades de lazer, prazerosas e sem obrigações, como alternativa à profissão, na página
49 do nosso trabalho, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008), que na velhice, o tempo
de lazer, sem constrangimentos, é aproveitado por algumas pessoas como sendo uma
oportunidade para se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo da liberdade, em que pode
haver um acesso a actividades que preencham as horas livres de forma gratificante e
agradável. Veja-se o seguinte exemplo:
E4 - “Planeei a minha reforma porque durante o tempo que exerci a profissão
nunca pude fazer aquilo que gostava e então a partir do momento em que comecei a ser
aposentada comecei então a realizar o meu sonho.”
Ou ainda:
E4 - “Faço o que quero e foi a partir da reforma que explorei os dotes que Deus
me deu.”
6.2.Descrição do quotidiano
Nesta secção analisaremos os dados recolhidos nas entrevistas relativos ao
quotidiano dos inquiridos: actividades do dia-a-dia, ocupação dos tempos livres,
voluntariado ou pertença a grupos activos são alguns dos itens pesquisados. O quadro
abaixo sintetiza a informação recolhida.
111
Quadro 12 - Actividades diárias
Categorias
Frequência
C1 – Lida da casa
9
Sujeitos
E1, E3, E4 E5, E6, E7,
E8, E9, E10
C2 – Voluntariado
5
E1, E3, E9, E10, E12
C3 – Trabalhos agrícolas
2
E4, E9
C4 – Hobbies variados
9
E2, E3, E4, E5, E6, E7,
E8, E9, E10
C5 – Espiritualidade
7
E1, E5, E6, E7, E8, E9,
E12
C6 – Cuidados com pais, filhos ou netos
5
E1, E3, E7, E8, E10
C7 – Convívio (café, compras, passeios)
4
E2, E4, E5, E10
C8 – Exercício físico
1
E12
Dividimos em 8 categorias as actividades do quotidiano referidas pelos inquiridos.
É de salientar que existe uma actividade comum a todos que é a frequência da UTI (diária
para a grande maioria) mas que veremos mais adiante.
Os sujeitos, neste quadro, podem pertencer a várias categorias, pois apontaram mais
que uma actividade. Promover a qualidade de vida numa etapa de vida em que algum
declínio físico é incontornável implica ter em conta critérios multidimensionais, como a
manutenção da rede social e de actividades significativas.
Um dos inquiridos (E11) referiu não pertencer a nenhuma destas categorias,
levando uma vida mais sedentária, apenas preenchida com as aulas da UTI.
Nove dos inquiridos mantêm rotinas de lida da casa, alguns dos outros têm ajuda
nas tarefas domésticas.
E1 – “Faço a vidinha dentro de casa…nos dias em que não tenho empregada.”
E6 – “De manhã (saio todos os dias de manhã) vou às compras, vou à missa, fazer
qualquer recado que tenha de fazer, ir aos correios, pagar a luz, fazer as minhas voltas…”
112
E7 – “Ajudo a fazer a cama à minha mulher que ela não a faz sozinha e eu também
não faço…”
Já referimos neste trabalho Carneiro et al. (2006) que mostram que a qualidade de
vida do idoso pode estar relacionada com aspectos como a capacidade funcional, a
autonomia nas suas tarefas diárias.12
A grande maioria (9), diz ter um ou mais hobbies como pintura, desenho, costura,
dança, leitura, teatro, navegação na internet para além das actividades semelhantes das
disciplinas frequentadas na UTI. Lembremos Dumedazier (1980), citado por Davim et al.
(2003), que define o lazer como o ter tempo de fazer qualquer coisa de que se goste e que
classifica estas actividades por áreas de interesse dos indivíduos. Destacam-se aqui as
manuais e as estéticas.13
E3 – “Gosto de fazer tricot, bonecos.”
E4 – “E a partir daí comecei a dedicar-me à pintura e hoje sinto-me de facto feliz
porque grande parte do meu tempo é ocupado a pintar. É nas telas que eu me encontro, é
nas telas que eu me sinto jovem, tenho um espírito muito aberto, é nas telas que eu
combato o isolamento, não me sinto velha, pelo contrário, acho que tenho um espírito
muito jovem.”
E7 – “[…]depois fiz uns trabalhos, fiz uma exposição aqui no museu e estão lá em
casa. Tenho lá uns presépios, tenho quadros, com árvores feitas de corais… quando as
coisas não me agradam, faço e depois desfaço. A primeira pessoa a quem o trabalho tem
de agradar é a mim…”
E10 – “A pintura é uma coisa que me ocupa muito tempo e que me dá muita
satisfação.”
Um significativo número de entrevistados passou a dedicar-se à espiritualidade
após a reforma. Mantêm actividades como participação em coros, assistência em rituais
religiosos, visitas a doentes ou necessitados no âmbito da igreja, etc.
12
13
Na página 45 deste trabalho.
Na página 48 deste trabalho.
113
E5 – “Vou à missa dos dias de semana quando posso.”
E7 – “Exerço ali na minha paróquia. Sempre que é preciso estou lá. Tenho um dia
que vou lá de manhã, à quinta-feira. Sou juiz da Irmandade do Santíssimo dali da Sé.
Estou inserido nos coros de cristandade, sou ministro extraordinário da comunhão…são
actividades e sempre que precisam de mim…”
E12 – “De tarde exerço a minha espiritualidade, vou ao culto, missa, terço. Dentro
do espírito vicentino, vou visitar aqueles que precisam da nossa palavra, nos lares, idosos,
vou exercendo o meu espírito de solidariedade[…].”
Cinco dos inquiridos ainda têm a responsabilidade de cuidadores, quer de filhos que
ainda vivam em casa (como é o caso de E3), quer de netos ou dos próprios progenitores
(tal como E8 e E10 respectivamente):
E8 – “Estou só com o meu marido e o meu pai, que faz 92 anos no dia 15 de
Março.”
E10 – “[…] quando a minha neta nasceu […] fui criar a minha neta.”
O Ano Europeu 2012 pretendeu criar melhores condições de apoio aos idosos e
garantir um maior reconhecimento da sua importância para a sociedade (como cuidadores
de pais, cônjuges, netos) considerando que existe produção de bens ou serviços, mesmo
nas actividades voluntárias e indirectas: ao cuidar dos netos, o idoso permite aos seus
filhos o aumento do tempo dedicado à sua carreira, possibilitando então a optimização do
seu desempenho. Concordamos com Gonçalves et al (2006) quando referem que a
prestação de cuidados aos descendentes, de primeira ou segunda geração, funciona como
um factor promotor do bem-estar dos idosos e com Barros de Oliveira (2008) quando
indica que os netos, podem dar um novo sentido à vida, sendo considerada muito positiva a
intervenção dos avós na educação das crianças, dependendo, claro está, de diversos
factores como a idade, a formação e a personalidade, entre outras circunstâncias.14
14
Páginas 42-49 deste trabalho.
114
Só um inquirido diz manter actividade física para além da exercida na UTI,
contrariando assim os 14 estereótipos relativos aos idosos listados por Champagne e
Frennet (citados por Martins e Rodrigues, 2004): a ideia de que os idosos são demasiado
frágeis para fazer exercício físico.15
E12 – “Faço a minha ginasticazinha caseira. […] Dou as minhas pedaladas de
manhã.”
Outra actividade que reúne algum consenso (5 ocorrências) é o voluntariado. Essa
actividade é normalmente exercida em instituições locais ligadas à solidariedade social ou
em hospitais. Lembremos que segundo a European Comission (2012, p. 3), o
“Envelhecimento activo significa envelhecer com boa saúde e como pleno membro da
sociedade, com um maior sentido de realização profissional, maior independência na vida
quotidiana e maior participação enquanto cidadãos” e que o envelhecimento activo
pressupõe uma maior participação na sociedade, nomeadamente através do voluntariado.
Recorde-se que, segundo Martín e colaboradores (2006), citados por Gonçalves et
al. (2006), podemos estruturar as tarefas desempenhadas pelos idosos em torno de quatro
eixos essenciais, um dos quais é a promoção social, maioritariamente nos programas de
voluntariado sénior e nos programas intergeracionais.16
Vejamos alguns dados obtidos através das entrevistas feitas:
E1 – “Pertenço à Kolping. Vou às reuniões, faço… ainda agora no Natal fizemos
um auto de Natal…fomos aos velhinhos […], por acaso saiu muito bem, eles adoraram.”
E3 – “Animava aquela gente (do lar) e animava-me a mim também.”
E12 – “Vou visitar aqueles que precisam da nossa palavra, nos lares, idosos, vou
exercendo o meu espírito de solidariedade”.
Estes três exemplos mostram o quanto os inquiridos se sentem úteis e jovens
praticando este tipo de actividade, na medida em que, mesmo fazendo voluntariado em
15
16
Página 36 deste trabalho.
Página 46 deste trabalho.
115
lares onde os utentes são pouco mais velhos que eles, denotam um sentido quase de
condescendência em relação aos alvos do seu voluntariado.
Como diriam Monteiro e Neto (2008), na velhice, o tempo de lazer, sem
constrangimentos, é aproveitado por algumas pessoas como sendo uma oportunidade para
se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo da liberdade, em que pode haver um acesso a
actividades que preencham as horas livres de forma gratificante e agradável.
6.3. Descrição dos relacionamentos sociais
O quadro número 13, que tornamos mais visível através do gráfico número 8,
ilustra o relacionamento social mantido pelos participantes neste estudo.
Quadro 13 - Núcleos de relacionamentos sociais
Categorias
Frequência
C1 – Costuma estar com a família e amigos
11
Sujeitos
E1, E2, E3, E4, E5, E6,
E7, E8, E9, E11, E12
C2 – Costuma conviver só com a família
1
E10
Gráfico 8 - Núcleos de relacionamentos sociais
1; 8%
C1 - Costuma estar com a
família e amigos
C2 - Costuma conviver só com a
família
11; 92%
116
Onze inquiridos (92%) afirmaram conviver diariamente com a família e com
amigos. Apenas a entrevistada E10 afirmou ter uma relação social apenas com o marido e
esporadicamente com a filha quando esta vem de férias:
E10 – “Não saio com amigos. […] Conheço várias pessoas aqui mas não sou
pessoa de ir a casa de pessoas, nem de ser assim metediça, sou reservada.”
Todos os outros aludem à importância de ter amigos com quem conviver:
E6 – “Pelo menos todas as sextas-feiras depois da missa vou para ali e estamos ali
umas poucas reunidas, jogamos o totoloto…”
E12 – “É esta a minha divisa: conversar, comunicar, que é o principal do ser
humano. Para não viver isolado. Trocamos impressões.”
Referimos várias vezes, no estudo teórico, que as relações sociais do idoso têm um
papel de extrema importância na sua qualidade de vida.
A pobreza de relações sociais como um factor de risco para a saúde tem sido
considerada tão danosa quanto o tabaco, a hipertensão, a obesidade e a ausência de
actividade física (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Cobb (1976)
refere que o apoio social leva o indivíduo a acreditar que é querido, amado e estimado e
que faz parte de uma rede social com compromissos mútuos. Vejamos o exemplo da
entrevistada E5:
E5 – “Encontro-me com uma colega, converso […] ajudo-a nos problemas dela…
tenho necessidade de estar com ela porque sei que ela se distrai, sempre se vai
entretendo…ela precisa de conversa para manter a sua sanidade. O bem que ela tem é que
a gente tem podido estar pelo menos uma hora de manhã na conversa.”
Assim, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008, p. 87), também defendemos que
“uma das componentes mais pertinentes para a qualidade de vida é o apoio da família, dos
117
amigos e a participação em actividades sociais. Baixos níveis de contactos sociais estão
associados a uma pobre qualidade de vida […]”.
Através dos dados recolhidos nas entrevistas feitas aos alunos da instituição em
estudo, podemos verificar que não existem, nestes inquiridos, situações de isolamento.
6.4. Razões do ingresso na UTI
No quadro número 14 pode ver-se que encontrámos quatro grandes tipos de razões
apontadas pelos entrevistados para ingressarem na UTI.
Quadro 14- Razões do ingresso na UTI
Categorias
Frequência
Sujeitos
C1 – Aumentar o conhecimento
5
E6, E7, E9, E10, E12
C2 – Aumentar o contacto social
5
E1, E2, E8, E10, E11
C3 – Ocupar o tempo de forma útil/manter-se
9
E2, E3, E4, E5, E6, E7,
activo
E9, E10, E12
C4 – Voltar ao passado
3
E2, E7, E11
Ao realizarmos num primeiro momento, uma análise quantitativa, podemos
observar que a categoria que é mais representativa (75%) é a de “ocupar o tempo de forma
útil/manter-se activo” com nove ocorrências (salientamos que os inquiridos indicaram
várias opções como razão do seu ingresso na UTI). De seguida temos as categorias
“aumentar o conhecimento” e “aumentar o contacto social” com cinco ocorrências cada. A
categoria menos focada foi a de “voltar ao passado” com três ocorrências.
A preocupação com a ocupação dos tempos livres pode ser entendida como a
necessidade de compensar as perdas dos papéis tidos ao longo da vida activa (Cachioni &
Neri, 2004). Ocupando o seu tempo com novas actividades, o idoso pode desempenhar
118
novos papéis. Com a reforma, o grande aumento do tempo livre parece ser um grande
aliado da tendência para a depressão, para a inactividade e a consequente perda de
capacidades funcionais. Procurar alternativas que preencham o tempo é uma opção
adequada, logo que essa ocupação seja livre e agradável, o que a UTI pode proporcionar.
Podemos observar este facto em algumas alegações dos inquiridos:
E5 – “Ter fora de casa uma ocupação que me desse interesse e ao mesmo tempo
me distraísse… que me mantivesse a mente sã… especialmente… porque é a vantagem de
uma universidade… é ter a mente sã e o corpo são.”
E7 – “É manter a minha velhice activa. Eu pelo menos acho que é… manter a
minha velhice activa. Enquanto tiver alguma saúde quero manter-me activo… não quero
encostar… arquivar… estacionar ali no parque…”
E10 – “E era um modo de passar mais o tempo. Eu estava mais disponível que
entretanto a minha neta foi crescendo…”
O aumento do contacto social também foi uma categoria com bastantes ocorrências
(41,67%). O aumento da socialização propicia bem-estar, qualidade de vida, como vimos
no nosso quadro teórico. O argumento a favor da ideia de que as relações sociais podem,
de várias formas, promover melhores condições de saúde tem sido salientado em vários
estudos (Ramos, 2002). Desta forma, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008) podemos
ver a componente de socioterapia gerada pelas UTI, que promovem e estimulam a
integração social. É, também, na fase da idade mais avançada que existe uma confrontação
com a perda de entes queridos (cônjuges, irmãos, progenitores, amigos) (Berryman,
Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002) e desta forma, muitos idosos tendem a procurar
outros locais, como é o caso das UTI, para (re)construir algumas relações perdidas. As
entrevistas 2 e 11 fazem-nos reflectir melhor sobre isso:
E2 – “A gente quando eles morrem a gente pensa que também vai, sabe…e já lá
vão 18 anos…”
E11 – “O convívio e fazer-me esquecer o que me aconteceu.” (falecimento recente
da esposa).
119
A categoria “aumento do conhecimento” teve cinco ocorrências (41,67%). Ter a
capacidade de buscar novos conhecimentos parece ser uma maneira de se obterem outros
benefícios ligados a essa conquista: aumento da auto-estima, manutenção das capacidades
cognitivas e intelectuais (Marconcín, Real, Dias, & Fonseca, 2010). Alguns idosos
entrevistados mostraram ter grande vontade e empenho em aprender coisas novas.
Vejamos o entrevistado 12:
E12 – “Foi para me completar na cultura. Aprender para me cultivar. Para ser um
complemento da parca cultura que tenho para aumentar mais os conhecimentos.”
Note-se que alguns inquiridos refutaram esta categoria dizendo que a sua
aprendizagem já estava feita, ou que na UTI não se aprendia nada, corroborando, no caso
do inquirido 4 estereótipos apresentados no estudo teórico de que o idoso já não aprende:
E3 – “Isto aqui não há nenhuma cadeira, nenhuma disciplina que a gente frequente
que chegue ao fim… tenha certificação… eu até acho que são mais conversas em
família.[…] Aprende-se o quê? […] Venho para aqui todos os dias, posso não aprender
nada, que não aprendo, isto aqui não é para aprender nada. Serve para conviver, para
tomar ar, para arejar.”
E4 – “Nem é o aprender. A nossa aprendizagem já está feita […]”
A imagem negativa que prevalece do idoso e do seu desempenho e, por
consequência, as baixas expectativas sociais, quanto ao desempenho em tarefas de
aprendizagem, geram nos idosos a ideia de que, de facto, estão em desigualdade
relativamente a pessoas mais novas.
Alguns dos próprios idosos veiculam esta imagem negativa de si próprios. A idade
surge, assim, como uma barreira à aprendizagem. Não de forma natural, mas mais por via
social, através dos estereótipos. Não é raro que adultos de idade avançada acreditem que
são demasiado velhos para aprender novas actividades.
De qualquer modo a actualização de conhecimentos pode ser interpretada como o
atingir de uma meta de vida, completar uma educação formal e os alunos desta UTI
comprovam esta ideia.
120
Em relação à quarta categoria “Voltar ao passado”, obtivemos três ocorrências
(25%). Veja-se o entrevistado 2:
E2 – “[…]já que não estudei quando queria…”
Aqui está patente a vontade de recomeçar algo que ficou interrompido no tempo,
neste caso os estudos. Vejam-se outros casos:
E7 – “[…]Sinto curiosidade… aqui fala-se de tudo… há aqui um senhor que nos
fala do tempo do Salazar… eu estava em Moçambique nessa altura…”
E11 – “[…]história é uma maravilha e o inglês… o francês, já no tempo de escola
gostava e continuo a gostar.”
Note-se a melancolia com que os entrevistados falam do passado. A frequência da
UTI nestes casos indica bem a necessidade de recordar, de reviver o passado, tal como
Berryman e seus colaboradores (2002) focaram ao dizer que a tendência em alguns idosos
será a de rememorar a vida.
Assim, para alguns idosos entrevistados, uma das razões apontadas para o ingresso
na Universidade Sénior será o “voltar ao passado”, um rejuvenescer, um relembrar dos
tempos de escola, ou até mesmo significar novos sonhos, novas aspirações que fizeram
parte da juventude.
Note-se que as razões apontadas pelos idosos desta instituição diferem um pouco
das apresentadas no estudo de Monteiro e Neto (2008) que referem como categorias mais
frequentes a convivência e a busca de conhecimentos, embora dado a amostra ser muito
reduzida, os dados recolhidos não traduzirem, possivelmente, a representação geral dos
alunos da UTI em estudo. Também outros autores como Swindell (1993), Jarvis e Walker
(1997), Cachioni e Néri (1999), Chamahian (2009), Marconcín et al. (2010) e Esmeraldina
Veloso (2011) apuraram categorias semelhantes às do nosso trabalho, por vezes ordenadas
de modo diferente, mas as mesmas no geral.
121
6.5. Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças
introduzidas na vida dos inquiridos
À questão: “A frequência desta Universidade está a corresponder às suas
expectativas?”, os inquiridos indicaram várias opiniões.
Não criaremos aqui categorias dadas as diferenças no discurso dos inquiridos. Na
generalidade, os inquiridos responderam que a Universidade correspondia às expectativas
por eles criadas. Apenas uma inquirida (E3) relata que a experiência não corresponde
totalmente à expectativa, pois gostaria de ter mais disciplinas.
E3 – “Não totalmente, porque eu sei que há universidades que também têm outras
disciplinas mais chamativas, que me interessassem mais. Gostava de gerontologia, saúde,
alimentação natural, é mais esse tipo de coisas, agora cá querer saber da guerra e do 25
de Abril e do Salazar, quero lá saber… são temas muito massudos.”
De qualquer forma, embora esta inquirida tivesse respondido negativamente à
questão, a sua resposta não difere de várias outras, que também relatam que gostariam de
ter mais oferta educativa, embora respondam afirmativamente à pergunta.
E2 – “[…] há outras disciplinas que gostava que tivessem, mas nunca tiveram…
talvez assim… gosto muito de política…”
E9 – “Sim. Acho que devia haver mais disciplinas. Por exemplo dança, ginástica
temos há pouco tempo, culinária, essas coisas assim…”
E12 – “Ao nível das disciplinas poderiam haver outras para completar o nosso
programa, mas por vezes não há porque faltam os professores. A nossa escola está à
mercê dos fundos dos alunos, não temos professores remunerados. Estamos à mercê dos
que sabem e que nos podem transmitir o seu saber.”
Como referimos no enquadramento teórico, a maior parte das actividades
desenvolvidas nas Universidades da Terceira Idade abrangem disciplinas, variando o seu
número entre as diferentes instituições, desde o mínimo de 10 até ao máximo de 64
122
disciplinas. Neste caso a UTI em estudo oferece um leque de catorze disciplinas, situandose no intervalo referido por Pinto (2008).
Ao nível dos professores, estes exercem geralmente de forma voluntária e sem
qualquer tipo de remuneração, sendo que muitos ainda exercem a sua actividade
profissional a par desta outra actividade, tal como é sugerido pelo próprio Regulamento
Geral das Universidades da Terceira Idade aprovado em Reunião Magna da Rede das UTI
em Almeirim, em 18 de Outubro de 2007 (Rede de Universidades da Terceira Idade,
2013).
Alguns entrevistados (E1, E2, E4, E5) alegam directamente gostar do ambiente, dos
professores.
E1 – “Gosto dos professores todos.”
E2 – “Os professores também são muito bons. São todos muito animados.”
E4 – “Não mudava nada. Vão muito além das expectativas.”
É referida várias vezes a parte financeira, ou seja, as mensalidades e algumas
despesas extraordinárias com actividades extracurriculares:
E6 – “Paga-se pouco… Este ano até está mais barato…”
E8 – “[…] até vinha às aulas quase todas, mas fica um bocadinho dispendioso vir
lá de baixo da beira-rio até cá…”
E9 – “Não sei se toda a gente consegue vir para aqui… a vida está um bocadinho
difícil…”
E10 – “Fazem passeios aqui mas são muito caros e cada vez as despesas são
maiores. A mensalidade agora é maior. Agora nem sei quanto é… as aulas é que eu acho
muito caras, são de 3 em 3 meses 45 euros. Só tenho o ordenado do meu marido.”
E11 – “A Universidade tem uns preços acessíveis.”
123
A UTI em questão recebe uma quota anual de 35 euros. As propinas podem ser
pagas mensal, trimestral ou anualmente, de acordo com a conveniência de cada um: dez
euros mensais para uma disciplina e quinze por duas ou mais. Referimo-nos, na parte
teórica desta investigação, à perda de rendimento aquando da entrada na reforma.
Berryman et al. (2002) referem aspectos menos positivos dessa nova fase da vida no que
toca a factores como perda de rendimento, perda de papel social ou identidade. Este é um
aspecto que nos pode mostrar que a educação também a este nível não está efectivamente
ao alcance de todos, ficando de fora destas ofertas os mais desfavorecidos.
Também sobre a questão pedagógica são feitas algumas alegações. Os inquiridos
aludem à questão da não obrigatoriedade de frequência, como o fazem E3, E7 e E8:
E3 – “Há certas actividades para quem gosta, para quem aprecia, para quem
quer. Quem não quer… é livre… não vai… não há faltas… é o que me vale.”
E7 – “[…] e até sou preguiçoso para ir à informática porque é de manhã, e eu de
manhã custa-me…”
E8 – “Ó mãe, porque é que a mãe não vai até à Universidade Sénior, vai às aulas,
não são de obriga, vai quando quiser…[…] Á segunda-feira não venho porque é um dia…
há muita roupa, coisas para organizar… também nesse dia as aulas não me interessam.”
As UTI portuguesas foram criadas pela sociedade civil e não pertencem ao sistema
escolar regular. Seguem, portanto, os princípios básicos da educação não formal. Por lei,
não podem nem avaliar, nem certificar. Também os seus alunos, segundo Pinto (2007, p. 7)
referem que “não desejam ser avaliados porque já o foram ao longo das suas vidas e não
pretendem continuar a sê-lo”. Desta forma, não existe uma cláusula de assiduidade, tanto
que os seus utentes talvez a refutariam. Veloso (2011, p. 286) refere-o na sua conclusão:
“Também a avaliação e a obrigatoriedade de frequentar as actividades culturais são
características escolares que são recusadas por muitos dos associados”.
Igualmente, sobre a questão da adequação da oferta educativa à faixa etária em
questão e, consequentemente, ao seu capital cognitivo e personalidade, os inquiridos dão a
sua opinião:
124
E3 – “Não me interessa estar a fazer isso, e depois como tenho muito mau feitio
tenho um defeito muito grande: gosto de fazer as coisas à minha maneira. E como gosto de
fazer as coisas à minha maneira não gosto que me estejam a dizer “faz desta maneira ou
faz daquela”.[…] Se é assim eu fico, senão vou-me já embora![…] Isso para mim estar a
fazer uma coisa numa aula, de obrigação, a fazer a mesma coisa que os outros estão a
fazer, de obrigação de fazer aquilo, para mim não é aula, é trabalho. Eu estou aqui para
me distrair, não é para trabalhar. Não é para estar a trabalhar a mando de outra pessoa.”
E5 – “As pessoas já não vão estudar calhamaços… Um professor de história de 91
anos vem aqui meia hora de 15 em 15 dias… dar-nos uma aula… é curto e directo…
Temos também tópicos que têm interesse especialmente para nós aqui da cidade.”
E7 – “Só às disciplinas de senhoras é que eu não assisto. Não me diz respeito.”
E12 – “Os professores são todos acessíveis, compreendem as nossas deficiências
na aprendizagem. O cérebro por vezes já não abrange aquilo que era necessário. Eles
conduzem-nos de modo a aprendermos o necessário sem esforço. Para mim a importância
das universidades é essa. Os professores cativam-nos e daí aprendermos muito de bom.”
Mais uma vez referimos o carácter informal deste tipo de instituição. Com este tipo
de processo ensino - aprendizagem em que o aluno é activo, a auto-estima e motivação
tornam-se crescentes, uma vez que o aluno poderá igualmente escolher dentre tantas
actividades oferecidas as que mais lhe interessarem.
Qualquer abordagem ao tema da educação e formação dos adultos mais velhos deve
ter em conta uma série de conceitos e variáveis que se situam nos domínios da
Gerontologia. Com efeito, a discussão sobre o que ensinar (conteúdos), sobre como ensinar
(estratégias e metodologias), sobre o desenvolvimento das acções formativas (estruturas
pedagógicas) e ainda sobre o perfil do formador (competências específicas para ensinar
idosos), são atribuições especializadas do âmbito da Gerontologia Educativa, tal como
vimos na página 60 do nosso trabalho. Graças à gerontologia educacional, os idosos
beneficiam de um sistema de educação especial, já que “Não se trata por conseguinte de
alguém que se limita a estar na sala de aula. Quer isto dizer que os sujeitos da educação são
indivíduos que querem educar-se e é essa atitude deliberada que lhes confere o estatuto não
125
só de indivíduos mas sobretudo de sujeitos da educação “ (Quintas, 2008, p. 64), o que
parece verificar-se nesta instituição, segundo os dados recolhidos na entrevista 7 e 12.
O trabalho educativo direccionado para os idosos deve constituir-se, de preferência,
“com eles e não por eles e para eles” (Cachioni & Neri, 2004, p. 110). Deve ser virado
para as necessidades espirituais e biopsicossociais dos idosos, deve ajudar os idosos a
serem cidadãos competentes, a estarem aptos a viver numa sociedade em constante
mudança, deve proporcionar uma tomada de consciência sobre a riqueza da vida pessoal e
profissional, da partilha da experiência com os mais jovens, deve permitir a expressão e a
realização de aspirações educativas não realizadas durante a juventude.
No que diz respeito à última questão da nossa entrevista – Acha que desde que
começou a frequentar a Universidade Sénior, isso de algum modo trouxe mudanças para a
sua vida? – a esmagadora maioria dos inquiridos (10, correspondendo a 83,3%) respondeu
afirmativamente. As duas inquiridas que deram uma resposta negativa nomearam, mesmo
assim, algumas mudanças introduzidas, como aprendizagem ou convívio.
Vejamos algumas respostas que apontam para o sentido afirmativo:
E1 – “aqui é que é o meu refúgio…” (referindo-se à UTI).
E4 – “Trouxe, porque o vir aqui é uma obrigação e obriga-nos a sair de nós
próprios (não podemos estar aqui isolados), que nós estamos em núcleo, pessoas do
mesmo grupo etário e isso exige de nós um sair de nós próprios, não ficar uma tarde
inteira, eu sei lá… num café, numa inactividade, em casa, a ver televisão. […]a pessoa
acaba por sentir uma nostalgia que a vai dominando, e aqui combate-se isso tudo. Por
isso é que se diz: Dar anos à vida e mais vida aos anos! Os anos têm que ter vida! Não é
só viver os anos! É preciso vivê-los com vida!”
E5 – “Trouxe-me um certo preenchimento dos meus espaços, dos meus vazios.”
E7 – “O que as Universidades trazem de bom é manter as pessoas activas. E
mantê-las com a cabeça… se a cabeça parar… depois entra em Alzheimer… sabe como
é… vai-se mantendo activo porque os neurónios vão morrendo e a gente vai conseguindo
dar-lhe alguma saúde, e se for possível mantê-los activos. É uma falha grande na
126
sociedade e na comunidade se não houvesse isto… A não ser que em vez de… também
inventaram lá o vidrão, o pilhão, o papelão… punham lá o “velhão”…”
E8 –“Enquanto tive trabalho a minha vida foi um mar de rosas… eu sou muito
activa. Eu gosto de trabalhar, de ter o tempo ocupado. A cozinha (da quinta) fechou,
morri… Para mim foi um balde de água fria… Eu chorei. Foi como se me matassem. E
depois comecei a adoecer, a ter depressões e as coisas foram piorando.[…] (trouxe
mudanças) Para o meu interior. Sinto-me mais leve, não ando tão triste, tão obcecada.”
E11 – “Trouxe na parte do convívio. Porque eu noto a diferença. À noite quando
estou sozinho em casa e com as coisas todas dela em casa eu fico outra vez na mesma.”
Repare-se nas mudanças referidas: A universidade como refúgio, a pertença a um
grupo, o combate da depressão e nostalgia, o preenchimento de um certo vazio, a
manutenção da actividade e da capacidade cognitiva, o convívio.
Todos estes idosos focam aspectos que são, em suma, a resposta aos objectivos das
próprias Universidades para a Terceira Idade: a “promoção, a valorização e a integração do
idoso”, “o contacto com a realidade e a dinâmica social local” (Rede de Universidades da
Terceira Idade, 2013).
A reforma ou a perda de entes queridos são fases difíceis da vida que se concentram
geralmente em idades avançadas. A socialização durante a velhice é de sobremaneira
importante. Neste caso a Universidade, pode ser a chave principal para “ressocializar”
idosos no que concerne a uma reintegração na sociedade, tal como diria Vilela (2004).
O envelhecimento implica, socialmente, isolamento e solidão para o idoso, deste
modo, surgem as Universidades de Terceira Idade no sentido de permitir não apenas a
aprendizagem e reactualização de conhecimentos, mas também a inserção do indivíduo na
sociedade depois da reforma, como atesta Débora Sodré (2009, p. 5): “considerando que o
processo de envelhecimento gera um isolamento do idoso, a universidade aberta da terceira
idade vem com a proposta de integração, socialização, desenvolvimento e informação para
que haja um envelhecimento saudável e com isso a formação de novos papéis do idoso na
sociedade”.
Será através da educação, proporcionada pelas Universidades Seniores, que o idoso
terá a possibilidade de socializar: “Assim, o idoso tem condições através do processo
educativo de socializar-se, além de inserir-se num contexto social maior, ampliando suas
127
relações pessoais, conhecendo novas realidades, desmistificando medos e percebendo todo
o espaço que pode conhecer e vivenciar” (Scortegagna & Oliveira, 2010, p. 10).
128
CONCLUSÕES
Chegando ao final deste trabalho, importa procurar sistematizar os contributos mais
relevantes na busca de um sentido integrador e sugerir pistas que conduzam a pesquisas
subsequentes sobre os estilos motivacionais das pessoas mais idosas que frequentam uma
Universidade para a Terceira Idade, bem como o contributo destas instituições para a
qualidade de vida dessas pessoas.
Para dar cumprimento a estes propósitos, foi feita uma revisão bibliográfica sobre o
envelhecimento populacional, a velhice, a educação de idosos e as Universidades para a
Terceira Idade. Concomitantemente, fez-se uma reflexão sobre vários factores subjacentes
ao envelhecimento para poder descortinar o papel das UTI na vida dos seus utentes.
O movimento das Universidades da Terceira Idade, não sendo um modelo de
educação formal, subordina-se à necessidade de educação permanente que se faz sentir no
domínio dos tempos livres ao longo da vida. O principal motor deste tipo de educação é em
muito diferente ao do modelo escolar usado com as crianças, quer pelas suas
especificidades pedagógicas, quer pelos seus regulamentos. Ao contrário do modelo
infantil, a obrigatoriedade de frequência transforma-se num frequentar apenas pelo prazer,
sem compromissos efectivos, sem momentos avaliativos.
Fundamentalmente, pode dizer-se que o projecto desta Universidade visa permitir
que os adultos idosos se distanciem de certas imagens e estereótipos negativos da velhice,
assumidos pela sociedade em geral e por eles próprios em particular.
Assim, a par da ocupação útil do tempo e manutenção da actividade, os utentes
desta instituição apontam o aumento do contacto social e do conhecimento como principais
motivos para a sua inscrição e frequência, devolvendo-lhes o sentido da vida e do tempo
após a reforma.
A reforma, como vimos, pode originar alterações mais ou menos profundas na vida
de quem a vive, como a alteração do ritmo de vida, a noção do tempo, passando de um
tempo ritmado e organizado em função do trabalho para um tempo contínuo em que os
dias podem ser muito iguais uns aos outros. O facto de poderem sentir-se úteis à
comunidade, de conviverem ou poderem aprender são exemplos de dimensões da vida que
ganham outro valor para quem percepcionou a reforma ou o falecimento de entes queridos,
fenómenos ligados à idade avançada, de forma muito marcada.
129
Os alunos inquiridos, são, no geral, autónomos, independentes, supervisionam ou
executam as tarefas domésticas e, alguns, a educação dos filhos ou dos netos. Alguns deles
ainda são responsáveis pelos seus pais.
A existência destas instituições torna-se fundamental na medida em que contribui
para um envelhecimento mais satisfatório cumprindo, desta forma, os objectivos do
movimento das Universidades da Terceira Idade.
Em suma, as pessoas que frequentam esta instituição fazem-no pelo prazer que
usufruem das actividades que frequentam, pelo convívio que permite desenvolver
sentimentos afiliativos, pela actualização dos seus conhecimentos, o que os capacita para
interactuar com gerações mais novas de forma positiva, sentindo-se menos sós,
provavelmente.
Embora o movimento das Universidades para a Terceira Idade esteja a proliferar
um pouco por todo o país, torna-se urgente a sensibilização da população e do poder
político para o problema da velhice.
Com estas iniciativas, o idoso é trazido para a cena social, exigindo atenção e
cuidados anteriormente inexistentes, acabando por receber um reconhecimento simbólico
referente ao lugar social e cultural que nem sempre lhe foi atribuído. Negar a existência de
valores negativos relativos é tão nocivo quanto aceitá-los passivamente porque implica
assumir posições estereotipadas que em nada contribuem para a dignificação da velhice.
Portanto, é imprescindível o início da transformação progressiva do lugar social da
terceira idade, esboçando a possibilidade de reconhecimento do idoso como sujeito
psíquico existente e como agente social, permitindo uma outra maneira de
redimensionamento da inserção das pessoas em idade mais avançada na ordem da
temporalidade, delineando a possibilidade de dimensão de futuro.
Envelhecer activamente através da formação atravessa assim as esferas culturais,
intelectuais, cívicas, sociais e económicas da sociedade.
130
LINHAS FUTURAS DE INVESTIGAÇÃO
Para lá do que foi feito na nossa investigação achamos importante que outros
estudos sejam desenvolvidos no sentido de o aprofundar e tentar colmatar algumas
limitações:
(i)
Expandir o número de participantes em outras investigações, com outras
Universidades Seniores participando do estudo, noutras regiões do país;
(ii)
Comparar idosos utentes de Universidades Seniores com outros que não
frequentam, no que respeita o nível da qualidade de vida;
(iii)
Fazer um estudo sobre o bem-estar subjectivo dos idosos quando
frequentam uma Universidade Sénior;
(iv)
Fazer um estudo quantitativo com todos os utentes da Universidade
estudada neste trabalho de modo a aferir resultados totais sobre esta
instituição;
131
132
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138
ANEXOS
139
140
Anexo 1 – Pedido formal de recolha de dados à Direcção da
Universidade Sénior em estudo
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Mestrado em Ciências da Educação
Com Especialização em Educação de Adultos
Exmo Senhor Presidente da Direcção da Universidade Sénior *********
No âmbito da investigação que estou a desenvolver, no mestrado em Ciências de
Educação, especialidade de Educação de Adultos, orientada pelo Professor Doutor
Armando Paulo Loureiro, pretendo desenvolver uma investigação sobre as razões
apontadas pelos idosos inscritos nessa instituição para a frequência de cursos aí
disponíveis.
O objectivo da minha investigação é contribuir para uma melhor compreensão do
envelhecimento humano e da importância dos processos de aprendizagem na idade adulta
avançada.
Nesse sentido pretendo observar alunos que frequentam Universidades Seniores,
recolhendo dados, através de uma entrevista.
Os dados que pretendo recolher são de máxima importância para a elaboração do
meu trabalho e sem eles não poderei efectivamente desenvolver este projecto que trará
contributos para uma melhor compreensão do desenvolvimento ao longo da vida e dos
auxílios que a inserção em processos de aprendizagem, traz aos adultos de idade avançada.
Desta forma, solicito a sua colaboração no sentido de me autorizar a entrevistar
alunos da Instituição tutelada por Vossa Excelência.
Gostaria de salientar que os alunos terão o direito de não responder à entrevista e
que está absolutamente garantida a confidencialidade de todos os dados.
A minha intervenção será a mais discreta possível, não pretendendo causar qualquer
tipo de constrangimento no bom desenrolar das aulas ou do funcionamento da
Universidade.
141
Aprecio profunda e sinceramente a sua colaboração e ajuda e agradeço desde já,
toda a sua disponibilidade. No final da investigação, terei todo o gosto em fornecer-lhe
informações sobre os dados obtidos e as conclusões.
Caso tenha algumas questões por favor não hesite em contactar-me. Pessoalmente
ou por outro meio, terei toda a disponibilidade para prestar qualquer questão que considere
pertinente.
Com os meus melhores cumprimentos,
Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho
Mestranda em Ciências da Educação – Especialização em Educação de Adultos
Telemóvel
Email
142
Anexo 2 – Preparação da entrevista (fase preparatória)
Passos necessários
1.1.
Enquadramento da entrevista no estudo de
caso
1.2.
Definição dos objectivos da entrevista
1.3.
Entrevistados
1.4.
Entrevistadores
Descrição
O presente estudo de caso pretende
conhecer as motivações dos idosos inscritos
numa UTI do distrito de Viseu para
frequentar os cursos lá ministrados. Para
além de outros possíveis métodos de recolha
de dados, como a observação a entrevista
assume um papel importante porque permite
recolher directamente dos idosos as opiniões
ou informações que podem contribuir para
responder às questões da investigação.
De acordo com os objectivos da investigação.
- Perceber as razões apontadas pelos utentes
idosos da Universidade Sénior para a
inscrição nos cursos aí ministrados.
- Inferir acerca da importância das UTI’s que
se assumem como organismos promotores
de bem-estar e perceber também quais os
factores que poderão potenciar este bemestar;
. Conhecer a problemática que envolve a
velhice e o envelhecimento;
. Compreender a contextualização das
Universidades da Terceira Idade;
Os entrevistados serão todos os idosos
maiores de 65 anos inscritos na UTI em
estudo no ano lectivo de 2012/2013 que
aceitem realizar a entrevista. Sabemos de
antemão que o número poderá ascender a
24.
A autora deste projecto.
1.5.
Prazos
Outubro, Novembro e Dezembro de 2012,
conforme cronograma apresentado.
1.6.
Condições logísticas
Impressão de guiões.
Bloco de notas e gravador áudio.
Software necessário à elaboração do guião e
ao tratamento e análise de dados.
143
Anexo 3 – Guião da entrevista
Este guião é apenas uma prévia ideia daquilo que realmente foi a entrevista e foi
sendo corrigido, enriquecido ou alterado à medida dos avanços do trabalho.
Blocos
Objectivos Gerais
Objectivos Específicos
1- Apresentação
1.1- Apresentação da
entrevistadora e da
investigação
I-Informação/
Legitimação da
entrevista
2-Explicar os objectivos
da entrevista
2.1- Fornecer
informação sobre a
finalidade, os
objectivos, os
conteúdos e a duração
da entrevista;
2.2- Referir o contexto
da investigação e as
metodologias;
II- Dados biográficos
3- Garantir os aspectos
éticos e deontológicos
3.1- Agradecimento;
3.2 – Assegurar a
confidencialidade;
3.3 – Pedir autorização
para gravar;
3.4 – Informar sobre o
direito à não resposta;
3.5 – Assegurar o
esclarecimento de
dúvidas.
1 - Recolher dados
sociodemográficos e
informações sobre o
percurso de vida dos
sujeitos
1.1 - Idade; estado civil;
filhos; composição
do agregado familiar;
escolaridade;
1.2 Percurso de vida
(pessoal, escolar,
profissional)
2 - Caracterização da
situação profissional
actual e percurso
profissional
2.1- Situação profissional
actual; última profissão;
entrada na reforma
(planeamento)
3- Convidar à descrição
do seu quotidiano
3.1 – Descrição das
actividades que exerce;
pertença a grupos;
relacionamento familiar.
Questões
Orientadoras
Trata-se de um estudo
sobre as razões que
levam os alunos com
65 ou mais anos de
idade a frequentarem
Universidades Sénior,
sendo um tema
bastante relevante,
devido ao
envelhecimento
demográfico.
Para iniciarmos esta
nossa conversa,
gostaria de o/a
conhecer um pouco
e para isso gostaria
que me falasse um
pouco de si.
Está reformado/a? Há
quanto tempo se
reformou? Quer falar
um pouco do seu
percurso profissional?
Habitualmente como é
o seu dia? Como passa
o seu dia, desde o
levantar ao deitar?
Costuma exercer
alguma actividade, de
voluntariado, de
144
pertença a um grupo,
etc.? Como gosta de
ocupar os seus tempos
livres?
III- Relação com a
Universidade Sénior
4- Descrição dos
relacionamentos sociais
4.1– Verificar a
frequência e a qualidade
das relações sociais
No dia-a-dia, costuma
estar com a sua
família? E com os
amigos?
1- Perceber as razões do
ingresso na Universidade
Sénior
1.1 - Motivações e razões
para a inscrição na
Universidade Sénior.
O que levou a
inscrever-se na
Universidade Sénior?
Já frequentou outra?
Se sim porque mudou
para esta?
2 – Aferir a opinião
sobre a Universidade
Sénior e as eventuais
mudanças introduzidas
na sua vida
2.1- Opinião sobre a
Universidade Sénior,
aulas, professores e
actividades;
Está a corresponder às
expectativas?
Qual a sua opinião
acerca dos apoios
prestados nesta
instituição? Porquê?
2.2- Descrição e
caracterização de
eventuais mudanças na
sua vida decorrentes da
frequência das aulas.
Acha que desde que
começou a frequentar
as aulas, isso de algum
modo trouxe
mudanças para a sua
vida? O que mudou na
sua vida? Como avalia
essa mudança?
1- Agradecimento
1.1- Agradecimento aos
sujeitos pela
disponibilidade e
pela colaboração no
estudo;
2- Sugestões e questões
do entrevistado
1.2- Verificar se pretende
acrescentar alguma
informação, esclarecer
alguma dúvida ou fazer
comentários
3- Disponibilizar futuro
acesso aos dados
1.2- Informar da possível
disponibilização dos
resultados finais do
estudo, caso o
entrevistado esteja
interessado em
conhecê-los.
IV - Conclusão
145
Anexo 4 – Entrevista
Dados sociodemográficos e percurso escolar
Para iniciarmos a nossa conversa, gostaria, para que pudesse conhecê-lo melhor, que me falasse um
pouco sobre si.
Gostaria primeiramente, de saber a sua idade.
Qual seu estado civil?
Qual a composição inicial e actual do seu agregado familiar?
Qual o seu nível de escolaridade?
Pode falar-me um pouco do seu percurso de vida na escola?
Caracterização da situação profissional actual e percurso profissional
Está reformado? Há quanto tempo? Quer falar-me um pouco do seu percurso de vida profissional?
(apelar para a situação profissional actual, última profissão exercida, planeamento da entrada na reforma).
Descrição do quotidiano
Habitualmente, como passa o seu dia?
Costuma exercer alguma actividade de voluntariado, de pertença a um grupo?
Como gosta de ocupar os seus tempos livres?
Descrição dos relacionamentos sociais
No dia-a-dia costuma estar com a sua família?
E com amigos?
Razões do ingresso na Universidade Sénior
O que o levou a inscrever-se na Universidade Sénior?
Já frequentou outra?
Se sim, porque mudou para esta?
Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças introduzidas na sua vida
A frequência desta Universidade está a corresponder às suas expectativas?
Qual a sua opinião acerca dos apoios prestados nesta instituição? Porquê?
(opinião sobre a UTI, sobre os professores, as actividades, …)
Acha que desde que começou a frequentar as aulas da Universidade Sénior, isso de algum modo,
trouxe mudanças para a sua vida?
Em que medida?
Como avalia essa mudança?
146
147
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“Reformar-se: formar-se ou conformar-se”