Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro “Reformar-se: formar-se ou conformar-se” Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição. Dissertação de Mestrado em Ciências de Educação, na área de especialização de Educação de Adultos Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho Orientador: Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro Vila Real, Dezembro 2013 Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro “Reformar-se: formar-se ou conformar-se” Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição. Dissertação de Mestrado em Ciências de Educação, na área de especialização de Educação de Adultos Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho Orientador: Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro Composição do Júri: Presidente – Professora Doutora Maria Isabel Barros Morais Costa Vogais – Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro Professor Doutor Agostinho Costa Diniz Gomes II Declaração Nome: Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho E-mail: [email protected] Número do Cartão de Cidadão: 10679260 Título: “Reformar-se: formar-se ou conformar-se” - Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição. Orientador: Professor Doutor Armando Paulo Ferreira Loureiro Mestrado: Mestrado em Ciências da Educação – Área de Especialização em Educação de Adultos É autorizada a reprodução parcial desta tese, apenas para efeitos de investigação, mediante declaração escrita do interessado, que a tal se compromete. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Dezembro de 2013 Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho III Carvalho, A. (2013). “Reformar-se: formar-se ou conformar-se” - Das razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição. Vila Real: A. Carvalho. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade de Trás os Montes e Alto Douro. Palavras-chave: ENVELHECIMENTO, UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE. EDUCAÇÃO PERMANENTE, MOTIVAÇÃO. IV Este trabalho foi expressamente elaborado como dissertação original para efeito de obtenção do grau de Mestre em Ciências da Educação, sendo apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. V AGRADECIMENTOS Àqueles que tornaram possível a concretização deste estudo expresso aqui os meus mais sinceros agradecimentos: À instituição em estudo, pela paciência e pelo indispensável contributo. Ao Professor Armando Loureiro, sempre presente e encorajador. Ao Rui, pelo apoio e paciência. Às princesas por compreenderem. A ti, avó, mesmo já não estando entre nós sei que torces sempre por mim. À minha família, amigos, aos meus pais, por tudo. VI RESUMO Vivemos numa sociedade envelhecida, com o número de pessoas já em idade avançada a aumentar cada vez mais num cenário de profundas transformações sociais, urbanas, industriais e familiares, decorrentes em parte do envelhecimento acelerado da população a nível mundial. Este envelhecimento, apesar de colocar desafios a nível social, económico, político e cultural às sociedades actuais e futuras, é também um dos maiores feitos do século XXI, fruto da evolução dos cuidados de saúde e do nível socioeconómico da população bem como de uma mudança de atitudes sociais e culturais. As Universidades para a Terceira Idade surgiram na década de 70 em França, em parte para oferecer novos estilos de vida após a aposentação. Este movimento rapidamente se espalhou pela Europa, chegando a Portugal em 1976. Portugal conta hoje com mais de cento e noventa Universidades da Terceira Idade. Este estudo foi realizado numa Universidade Sénior do distrito de Viseu e teve por objectivo saber quais as razões dos idosos para se inscreverem num modelo de educação de adultos deste tipo. A técnica de pesquisa usada foi a entrevista semiestruturada e contou com a participação de doze alunos da instituição em causa. Usou-se a análise de conteúdo para tratar o material recolhido nas entrevistas. A análise dai decorrente levou a concluir que o projecto desta Universidade visa permitir que os adultos idosos se distanciem de certas imagens e estereótipos negativos da velhice, assumidos pela sociedade em geral e por eles próprios em particular. Assim, a par da ocupação útil do tempo e manutenção da actividade, os utentes desta instituição apontam o aumento do contacto social e do conhecimento como principais motivos para a sua inscrição e frequência, devolvendo-lhes o sentido da vida e do tempo após a reforma. As Universidades para a Terceira Idade (UTI) promovem, assim, a participação cívica e cultural dos idosos e permitem a cada um (re)ocupar o seu lugar na sociedade. Palavras-chave: Envelhecimento; Universidades da Terceira Idade; Educação permanente; Motivação. VII ABSTRACT We live in an aging society, the number of people already advanced in age increase in a backdrop of profound social, urban, industrial and family changes, resulting in part from accelerated aging of the population worldwide. This aging, despite putting challenges to social, economic, political and cultural societies, present and future, is also one of the greatest achievements of the century, the result of the evolution of health care and socioeconomic status of the population as well as a change of social and cultural attitudes. Universities of the Third Age emerged in the 70's in France, in part to offer new styles of life after retirement. This movement quickly spread across Europe, reaching Portugal in 1976. Portugal now has over one hundred and ninety Universities of the Third Age. This was conducted in a Senior University of the District of Viseu and was aimed to know the reasons for the elderly to enroll in an adult education model of this kind. The research technique used was the semi structured interview and had the participation of twelve students of the institution concerned. It used content analysis to treat the material collected in the interviews. The analysis arising therefrom led to conclude that the project of this University aims to enable older adults to distance themselves from certain images and negative stereotypes of old age, assumed by society in general and themselves in particular. Thus, alongside the occupation useful time and continued activity, users of this institution show increased social contact and knowledge as the main reasons for their enrollment and attendance, returning them the meaning of life and of time after retirement. Universities of the Third Age promote civic and cultural participation of older people and allow each to (re)take their place in society. Keywords: Aging; University of the Third Age; Continuing education; Motivation. VIII SIGLAS DLD - Desemprego de longa duração EP – Envelhecimento produtivo RUTIS – Rede de Universidades da Terceira Idade UTI – Universidade(s) para a Terceira Idade IX ÍNDICE AGRADECIMENTOS ............................................................................................................... VI RESUMO .............................................................................................................................. VII ABSTRACT ........................................................................................................................... VIII SIGLAS ................................................................................................................................... IX ÍNDICE DE GRÁFICOS .......................................................................................................... XIII ÍNDICE DE QUADROS .......................................................................................................... XIV INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1 Enquadramento e pertinência do trabalho ....................................................................... 1 Estrutura do trabalho ........................................................................................................ 4 PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA ...................................................................................... 5 CAPÍTULO 1 - O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL ............................................................ 7 1.1. Significado do envelhecimento populacional na actual sociedade ....................... 9 1.2. Tendências no mundo actual ............................................................................... 10 1.3. Tendências na União Europeia ............................................................................. 12 1.4. Tendências em Portugal ....................................................................................... 13 1.5. O impacto do envelhecimento demográfico........................................................ 16 1.6. Respostas ao desafio demográfico do envelhecimento populacional ................. 18 CAPÍTULO 2 – A VELHICE ..................................................................................................... 23 2.1. O processo de envelhecimento – conceitos e perspectivas ................................ 24 2.2. Teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento .......................................... 29 2.3. Etiologia do envelhecimento ................................................................................ 31 2.4. Mudanças que ocorrem na velhice ...................................................................... 33 2.5. Estereótipos acerca do envelhecimento – O idadismo ........................................ 34 2.6. Envelhecimento activo – Ano Europeu 2012 ....................................................... 42 2.7. A qualidade de vida e o envelhecimento produtivo ............................................ 45 2.8. O lazer como factor de qualidade de vida na velhice .......................................... 48 X 2.9. O idoso na família e na sociedade – Reformado, e agora? .................................. 50 CAPÍTULO 3 – A EDUCAÇÃO E OS IDOSOS ........................................................................... 55 3.1. Perspectiva histórica ............................................................................................ 55 3.2. O processo de aprendizagem e as mudanças cognitivas na velhice .................... 58 3.3. A gerontologia educativa ..................................................................................... 59 3.4. Especificidades no processo educativo dos idosos .............................................. 63 CAPÍTULO 4 – AS UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE ..................................................... 67 4.1. O surgimento – origem e desenvolvimento ......................................................... 67 4.2. Breve contextualização da política da 3ª idade em Portugal à época do surgimento da primeira UTI portuguesa ...................................................................................... 70 4.3. As UTI em Portugal ............................................................................................... 71 4.4. RUTIS – Associação Rede de Universidades da Terceira Idade ............................ 75 4.5. As UTI como espaço de socialização e aprendizagem do idoso ........................... 76 4.6. Os estilos motivacionais dos idosos para a frequência de uma Universidade da Terceira Idade segundo alguns autores ....................................................................................... 80 PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO ............................................................................................. 83 CAPÍTULO 5 – METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO .............................................................. 85 5.1. Introdução ............................................................................................................ 85 5.2. Contexto da investigação – Caracterização da Instituição em estudo................. 85 5.3. O Método, as Técnicas de Pesquisa e os Participantes no Estudo ...................... 88 5.3.1. Do problema ao método ................................................................................ 88 5.3.2. Instrumentos de pesquisa .............................................................................. 92 5.3.3. Guião da entrevista ........................................................................................ 94 5.3.4. Análise de conteúdo ....................................................................................... 94 5.3.5. Caracterização dos entrevistados - primeira e breve aproximação ............... 96 5.3.6. Ética da pesquisa ............................................................................................ 97 5.3.7. Limitações do estudo ..................................................................................... 97 CAPÍTULO 6 – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ........................ 99 XI 6.1. Dados pessoais, académicos e profissionais ...................................................... 100 6.2. Descrição do quotidiano .................................................................................... 111 6.3. Descrição dos relacionamentos sociais .............................................................. 116 6.4. Razões do ingresso na UTI .................................................................................. 118 6.5. Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças introduzidas na vida dos inquiridos ................................................................................................................ 122 CONCLUSÕES ..................................................................................................................... 129 LINHAS FUTURAS DE INVESTIGAÇÃO ................................................................................ 131 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................... 133 ANEXOS.............................................................................................................................. 139 Anexo 1 – Pedido formal de recolha de dados à Direcção da Universidade Sénior em estudo......................................................................................................................................... 141 Anexo 2 – Preparação da entrevista (fase preparatória) .............................................. 143 Anexo 3 – Guião da entrevista ...................................................................................... 144 Anexo 4 – Entrevista ...................................................................................................... 146 XII ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Pirâmide de idades, Portugal 1960-1998 .......................................................... 14 Gráfico 2 - População com 65 e mais anos de idade, por sexo e por região, 1990/1998 ... 15 Gráfico 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI ........................................................ 100 Gráfico 4 - Distribuição dos entrevistados por intervalos de idade .................................. 102 Gráfico 5 - Estado civil dos entrevistados.......................................................................... 103 Gráfico 6- Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI ............................. 106 Gráfico 7 - Habilitações dos entrevistados por ciclo de ensino ........................................ 106 Gráfico 8 - Núcleos de relacionamentos sociais ................................................................ 116 XIII ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 - Políticas sociais gerontológicas implementadas em Portugal desde 2005 ....... 21 Quadro 2 – Caracterização geral dos entrevistados ........................................................... 97 Quadro 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI ....................................................... 100 Quadro 4 - Idade dos entrevistados/alunos da UTI .......................................................... 101 Quadro 5 - Peso percentual por categorias etárias........................................................... 102 Quadro 6 - Agregado familiar do entrevistado - situação inicial e actual ......................... 104 Quadro 7 - Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI ............................ 105 Quadro 8 - Percurso escolar dos entrevistados ................................................................ 107 Quadro 9 - Situação laboral actual dos entrevistados ...................................................... 108 Quadro 10 - Percurso profissional dos entrevistados ....................................................... 109 Quadro 11 - Planeamento da entrada na reforma............................................................ 110 Quadro 12 - Actividades diárias ........................................................................................ 112 Quadro 13 - Núcleos de relacionamentos sociais ............................................................. 116 Quadro 14- Razões do ingresso na UTI ............................................................................. 118 XIV INTRODUÇÃO Enquadramento e pertinência do trabalho O panorama demográfico sofreu, ao longo dos últimos anos, grandes mudanças. A nossa sociedade está envelhecida, com um número de pessoas em idade avançada a aumentar cada vez mais num cenário de profundas transformações sociais, urbanas, industriais e familiares, decorrentes em parte do envelhecimento acelerado da população a nível mundial. De facto, a expectativa de vida nos países industrializados aumentou cerca de 25 anos, sendo o grupo que apresenta maior crescimento o da população com idade na casa dos 80 anos, o qual mostra tendência para continuar a crescer (Aranibar, 2001). O envelhecimento que o ser humano atingiu nos dias de hoje, apesar de ser entendido por alguns como uma ameaça para o futuro, porque coloca desafios a nível social, económico, político e cultural às sociedades actuais e futuras, é também um dos maiores feitos do século XXI, fruto da evolução dos cuidados de saúde e do nível socioeconómico da população bem como de uma mudança de atitudes sociais e culturais (Aranibar, 2001). Este período da vida, chamado de “velhice”, “terceira idade” ou denominado por expressões eufemísticas como “idade de ouro” ou “Outono da vida”, associa-se, comummente, a uma menor qualidade de vida, a um estado funcional mais pobre, onde a maioria dos sujeitos estará inactiva, sendo a disfuncionalidade presente não só na dimensão física, mas também na dimensão psicológica e social (Glass, 2003). A angústia da sociedade face ao envelhecimento, reflecte a sua incapacidade em apontar-lhe um sentido e evidencia a visão redutora que tem da velhice. Ser idoso, além de ser um facto etário, é também um conjunto de convenções sociais. O que pesa mais sobre a categoria social de idoso, não são, tanto, as características próprias, mas sim, a ideia que se faz desta etapa da vida baseada em imagens totalizantes e estereotipadas (Chamahian, 2009; Marques, 2011). É também neste período que surge a aposentação por velhice, o “largar do trabalho”, muitas vezes conotado com o largar da vida activa. A reforma pode acarretar mudanças mais ou menos profundas na vida de quem a vive. Entre elas, destacamos a alteração do ritmo de vida e da noção de tempo, passando de um tempo ritmado e 1 organizado em função do trabalho para um tempo contínuo, em que há o risco de os dias parecerem todos iguais (Veloso, 2000). Mesmo assim, há já alguns anos que a experiência da passagem à aposentação se transformou. Percebido, inicialmente, como “antecâmara da morte”, sinónimo de inutilidade social, este período de transição é, e terá de ser, cada vez menos, vivido de forma problemática e cada vez mais desejado e antecipado (Caradec, 2004, citado por Chamahian, 2009). Com efeito, o tempo da reforma pode estruturar o percurso de vida e marcar a entrada numa nova etapa, permitindo a abertura de novas possibilidades. Alguns indivíduos aposentados já fizeram uma escolha, inscrevendo-se em estruturas de formação num quadro não formal, como o das Universidades Sénior ou Universidades para a Terceira Idade (Chamahian, 2009). As Universidades da Terceira Idade (UTI) surgiram na década de 70 em França. Este movimento rapidamente se espalhou pela Europa, chegando a Portugal em 1976. As razões para a criação deste tipo de instituições são variadas mas destacam-se o envelhecimento da população e as suas repercussões na adaptação a novos estilos de vida após a aposentação (Pinto, 2003). Portugal conta hoje com mais de cento e noventa UTI. As Universidades para a Terceira Idade são "a resposta socioeducativa, que visa criar e dinamizar regularmente actividades sociais, culturais, educacionais e de convívio, preferencialmente para e pelos maiores de 50 anos” (Monteiro & Neto, 2008). Para além de um modelo de formação de adultos e de um espaço de cultura e convívio, as UTI são também um projecto de saúde uma vez que – estudos de investigação comprovam-no - melhoram a qualidade de vida e consequentemente a saúde dos seniores, assim como contribuem para a diminuição dos sintomas de doença depressiva (Veras & Caldas, 2004). Segundo Veloso (2000, p. 5), “a frequência das UTI devolve um ritmo e uma significação diferentes ao tempo vivido por alguns reformados/idosos.” De acordo com Vilelas (2009, p. 70), quando se refere à escolha temática para um trabalho de investigação, “escolher o tema significa seleccionar um assunto, de acordo com as inclinações, as possibilidades, as aptidões e as tendências de quem se propõe elaborar um trabalho científico […]”. Assim, após leitura e selecção de interesses, optou-se por trilhar um caminho de gosto. O tema das Universidades Sénior é actual (ou não tivesse sido o ano transacto o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações) e tem, para nós, 2 como investigadores, um interesse especial. A escolha do tema no que diz respeito à sua localização, prendeu-se também, com aspectos de acessibilidade. Este trabalho propõe-se determinar o que a Universidade Sénior pode aportar ao indivíduo idoso e quais as suas motivações para se ter inscrito numa dessas instituições. Após consulta de bibliografia e ponderação sobre a temática chegou-se à seguinte questão de partida: Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição? Esta pesquisa visa, desta forma, saber mais sobre os indivíduos que, após a reforma, escolhem voltar a estudar em universidades seniores, de forma a compreender melhor o sentido deste retomar dos estudos e caracterizar os contornos que esta actividade educativa pode assumir na vida diária destes reformados. Pretende-se, com isto, satisfazer os seguintes objectivos, que segundo Vilelas (2009, p. 378), “[…]devem ser delineados com o intuito de responder às nossas indagações. São constituídos por um objectivo geral, abrangente, que reflecte o objecto que se pretende estudar, e por vários objectivos específicos que revelam os diversos factos que iremos pesquisar para alcançar o geral.”: O objectivo geral deste trabalho é perceber as razões apontadas pelos utentes idosos da Universidade Sénior para a inscrição nos cursos aí ministrados. Os objectivos específicos são: . Inferir acerca da importância das UTI que se assumem como organismos promotores de bem-estar e perceber também quais os factores que poderão potenciar este bem-estar. . Conhecer a problemática que envolve a velhice e o envelhecimento. . Compreender a contextualização das Universidades da Terceira Idade. . Transversalmente, pretende-se divulgar as Universidades da Terceira Idade e a sua influência nos meios de Educação e Saúde, bem como na comunidade em geral, ajudando assim na credibilização desta modalidade de educação permanente. 3 Estrutura do trabalho Após a exposição do tema, do objecto de estudo e da matéria a ser pesquisada, bem como da justificação e dos objectivos do trabalho cabe-nos explicitar o modo como o presente trabalho de investigação está organizado nas duas partes que o compõem. Na primeira parte é feita uma revisão da literatura sobre o envelhecimento populacional, a velhice, a educação de idosos e as Universidades da Terceira Idade, onde será efectuada uma análise comentada do que já foi escrito sobre os temas de pesquisa de forma a demonstrar os pontos de vista convergentes e divergentes dos autores. Esta parte, será um auxiliar para a interpretação dos resultados e para ser formada uma linha de raciocínio consubstanciada no conhecimento de outros autores, bem como para situar o problema dentro de um quadro de referência teórico. Na segunda parte, referente à parte empírica da investigação, será demonstrada a forma como a pesquisa foi executada e o desenho metodológico utilizado. Será definida a população-alvo da pesquisa, indicados os instrumentos de recolha de dados e os métodos de análise dos mesmos. Seguidamente serão apresentados os resultados obtidos, feita a apresentação, análise e discussão dos resultados e emitidas conclusões, traçadas linhas futuras de investigação e apresentadas as referências bibliográficas usadas. 4 PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA 5 6 CAPÍTULO 1 - O ENVELHECIMENTO POPULACIONAL O aumento da esperança de vida, os progressos científicos ao nível da medicina e a consequente melhoria do estado de saúde das pessoas constituem grandes marcos do século XX. Conjugado este facto com uma taxa de natalidade bastante reduzida, fala-se de um impacto substancial no aumento e proporção das pessoas idosas, com implicações directas na equidade entre gerações, nos estilos de vida, nas relações e estruturas familiares e na própria economia das nações (Monteiro & Neto, 2008). Segundo o The Ageing Report (European Comission, 2011c), a esperança de vida tem vindo a crescer e o estudo feito pelo Eurostat prevê que a população dos Estados Membros da União Europeia com mais de 65 anos passe de 87.5 milhões, em 2010, para 152.6 milhões, em 2060, alargando substancialmente a pirâmide etária nessa faixa e passando de 18% actuais da população europeia para 30%. A faixa superior, dos 80 anos em diante, tem uma previsão de aumento de 23.7 milhões em 2010 para 62.4 milhões em 2060. A Europa conhece assim, hoje, alterações demográficas sem precedentes pela sua escala e potencial gravidade. Segundo a European Comission (2011b), estas mutações demográficas derivam de três grandes tendências: • O contínuo prolongamento da vida, resultado de progressos consideráveis na saúde e na qualidade de vida de que beneficiam os europeus - a esperança de vida com saúde aumenta a olhos vistos. Estes avanços devem continuar, com uma atenuação das disparidades entre a esperança de vida entre sexos. Quatro gerações podem doravante coexistir na mesma família. • O aumento dos efectivos nas gerações com idades superiores a 60 anos prosseguirá até 2030, altura em que as crianças do «baby boom» se tornarão seniores. • Uma baixa natalidade persistente. As gerações do «baby boom» tiveram menos filhos do que as anteriores. Vários factores explicam esta baixa natalidade: dificuldades de inserção profissional, custo das habitações, protelação da idade em que os pais têm o primeiro filho, escolhas diferentes em matéria de estudos, de vida profissional e de vida familiar. A taxa de fecundidade é, em quase todo o lado, inferior ao limiar de renovação das gerações. Em alguns países da Europa do Sul e de Leste é mesmo inferior a 1,3 crianças por mulher. 7 A sociedade assiste também a grandes alterações estruturais: os agregados familiares evoluem; há mais trabalhadores mais velhos (55-64 anos), seniores (65-79 anos) e muito idosos (80+ anos), menos crianças, jovens e adultos em idade activa. As transições entre as diferentes etapas etárias da vida tornaram-se mais complexas: é particularmente este o caso dos jovens que passam por certas fases da vida mais tardiamente (fim de estudos, acesso ao emprego, independência, primeiro filho). Mas, estas tendências inscrevem-se num quadro mais vasto em que todas as regiões do mundo, segundo a Comissão das Comunidades Europeias, no seu Livro Verde - Uma nova solidariedade entre gerações face às mutações demográficas (2005), conhecerão um envelhecimento durante este século. Os Estados Unidos, verão a respectiva população aumentar de 25,6% entre 2000 e 2025. Na China, por exemplo, este envelhecimento será rápido, com uma diminuição da população a partir de 2025. Por outro lado, os vizinhos da Europa, na África e no Médio Oriente, assistirão a um envelhecimento muito mais tardio: a população é muito mais nova, com uma idade média de 20 anos ou inferior, contra mais de 35 anos na Europa (European Comission, 2011b). As implicações regionais do envelhecimento populacional merecem, também elas, destaque: as regiões em declínio demográfico e habitadas maioritariamente por idosos irão conhecer dificuldades no que diz respeito à oferta de bens e serviços públicos essenciais (saúde, habitação, transportes) com impacto também no equilíbrio ambiental. As mudanças sociais começam, do mesmo modo, a atingir a composição familiar. Um número crescente de idosos já vivem sós (28% das pessoas com 70 anos vivem nestas condições e este número aumenta para 40% na faixa dos 80 anos) e a taxa de dependência (número de pessoas com mais de 65 anos relativamente à faixa de 15 a 64 anos) duplicará para atingir cerca de 51% até 2050, passando a União Europeia de quatro para duas pessoas em idade activa por cada cidadão com mais de 65 anos (Comissão das Comunidades Europeias, 2006). As alterações demográficas configuram, desta forma, uma nova sociedade e tendem a intensificar-se: cada vez menos jovens e adultos, números crescentes de trabalhadores mais velhos, reformados e pessoas muito idosas. As nossas sociedades terão de inventar novas vias para valorizar o potencial de crescimento que encerram as jovens gerações e os cidadãos mais velhos (European Comission, 2011b). 8 1.1. Significado do envelhecimento populacional na actual sociedade Se há algum tempo, o envelhecimento demográfico era pouco valorizado, hoje, passou a ser para muitos, a causa de grande parte dos problemas sociais, políticos, financeiros ou mesmo culturais que afectam as sociedades actuais (Rosa, 2012). O fenómeno do envelhecimento surge, hoje, em muitos suportes, como uma epidemia, uma “peste grisalha” (Rosa, 2012, p. 13) mais grave do que muitas outras que já assolaram populações inteiras no passado. Giampaolo Lanzieri (2011), no seu estudo estatístico para o Eurostat fala mesmo de um “acinzentar” da geração do baby-boom e de uma aproximação de um “grandparent boom”. Uma sociedade envelhecida representa vários desafios: para o mercado de trabalho, para os sistemas de saúde e para o nível de vida após a reforma. Muitos temem que as condições de vida piorem para os idosos e para as gerações mais jovens que terão imposto sobre si pesado encargo (European Comission, 2012). Para melhor compreensão do conceito de envelhecimento colectivo (termo que Maria João Valente Rosa (2012), no seu livro O envelhecimento da sociedade portuguesa, distingue claramente de envelhecimento individual), a autora refere os termos envelhecimento societal e envelhecimento demográfico, sendo o primeiro referente à sociedade e o segundo à própria população. No envelhecimento demográfico, é preciso ter em conta as categorias fixas, correspondentes a idades consensualmente aceites, em que os indivíduos são classificados independentemente da sua condição (estado de saúde, capacidades, etc.). Rosa (2012) identifica as categorias estatísticas usadas tradicionalmente: idade jovem (dos 0 aos 15 anos), activa (15 aos 64 anos) e idosa (65 e mais anos), em que esta última é também a usual idade de reforma entre nós e idade a partir da qual se utiliza o termo terceira idade. É a partir destas categorias estatísticas que se desenvolve o conceito de envelhecimento demográfico como “uma evolução particular da composição etária da população que corresponde ao aumento da importância estatística dos idosos […] ou à diminuição da importância estatística dos jovens” (Rosa, 2012, p. 23). Este tipo de envelhecimento, relativo à população, tem vários indicadores: o aumento da idade média da população, o aumento da percentagem de idosos, o aumento da proporção de idosos em relação a indivíduos em idade jovem, por exemplo, em suma, um aumento da importância da população em idade idosa em termos estatísticos, que se traduz, sumariamente no termo «população envelhecida” em determinado local. 9 Em relação ao envelhecimento societal, a autora ressalva que, embora se fale de uma articulação com o envelhecimento demográfico no sentido em que dele parece resultar, o facto é que uma população envelhecida em termos demográficos pode não o ser em termos sociais, reagindo à alteração do curso dos acontecimentos e encontrando formas adequadas de os superar. Rosa (2012) refere os sintomas do envelhecimento societal: uma sociedade deprimida, ameaçada com as próprias mudanças e evolução etária. É indiscutível que o envelhecimento demográfico acarreta um aumento da importância dos grupos etários menos valorizados na estrutura produtiva e social, aparentando ter consequências perigosas e indesejáveis, mas a autora questiona: “será que o problema está no aumento da população idosa ou, antes, no papel social atribuído a estas idades?” (p. 24). De facto, não existe fundamento científico no princípio de que uma pessoa mais velha seja menos produtiva, menos receptiva e mais resistente às exigências tecnológicas. Está apenas provado que em termos de condição física os mais jovens estarão mais capacitados, o que actualmente não constitui um problema tão grande, dado que a maioria das actividades não requer essa destreza física, mas sim destreza em termos de conhecimento, o que pode até ser uma vantagem em idades mais avançadas. É possível, tal como refere Rosa (2012) a assunção de que o envelhecimento leve a uma menor produção, por várias razões, nomeadamente, razões de saúde, mas será errado dizer que o envelhecimento acarreta ausência de produtividade. Outra contribuição para a compreensão do envelhecimento demográfico vem-nos de Barros de Oliveira (2008). Segundo o autor, existem dois tipos de envelhecimento demográfico tendo em conta as pirâmides etárias, muito usadas na demografia: o envelhecimento de base (em que há uma diminuição da percentagem de crianças e jovens) e o envelhecimento de topo (em que se verifica um aumento do número de idosos). Esta falta de equilíbrio provoca um impedimento para o renovar das gerações. Barros de Oliveira refere que “[…] é cada vez maior o número de óbitos em relação ao dos nascimentos, sendo necessários mais caixões do que berços” (2008, p. 16). 1.2. Tendências no mundo actual A sociedade actual e futura encontra-se, hoje, num preocupante quadro demográfico de envelhecimento crescente, tornando-o num dos principais desafios do século XXI. 10 Algumas tendências são notáveis: actualmente existem 893 milhões de pessoas acima de 60 anos em todo o mundo. Na metade deste século, esse número irá subir para 2,4 biliões (Osotimehin, 2011). O aumento da longevidade e a capacidade crescente de controlo da natalidade representam alguns dos grandes marcos da Humanidade dos últimos anos. Deste modo, durante muito tempo pensou-se que a causa do envelhecimento residia exclusivamente no aumento da esperança de vida. No entanto, hoje, sabe-se que o factor principal será o declínio da natalidade. Para além disso, se conjugarmos a evolução da esperança de vida à nascença e os níveis de fecundidade de qualquer sociedade, compreenderemos mais facilmente o mecanismo do envelhecimento da população e das suas relações com a própria evolução demográfica. Os primeiros, com efeitos directos na dimensão dos efectivos mais jovens, Os segundos, com consequência directa e imediata na estrutura etária da população, sobretudo em idade activa, e indirecta, pelas mudanças no número de nascimentos que originam (Monteiro & Neto, 2008). Em seis décadas, as mudanças nos perfis demográficos dos países demonstram que, enquanto a expectativa de vida ao nascer subiu para 11 anos entre 1950 e 2010 nos países mais desenvolvidos, o crescimento foi muito superior nas regiões menos desenvolvidas, onde a expectativa de vida aumentou em 26 anos, no mesmo período (Fundo de População das Nações Unidas, 2011). Esta transição demográfica, em que o fenómeno de fecundidade e o de mortalidade são baixos transforma radicalmente as pirâmides etárias afunilando a base (camadas mais jovens) e alargando substancialmente o topo, onde residem as camadas idosas (Monteiro & Neto, 2008). Hoje, mais 60% da população idosa vive em países em vias de desenvolvimento, tendência esta que se prevê aumentar para 75% em 2025 e 85% em 2050. Também a taxa de fecundidade sofrerá previsivelmente um grave declínio (abaixo de 2,1 criança por mulher), não garantindo a renovação de gerações em todos os países (Monteiro & Neto, 2008). A estratégia internacional para lidar com esta tendência do aumento da proporção das pessoas idosas na população total centra-se em viabilizar a inclusão social deste grupo da comunidade, reforçando o conceito de envelhecimento activo e optimizando as oportunidades de bem-estar ao longo da vida e baseando-se nos direitos, necessidades, preferências e capacidades dos idosos (Monteiro & Neto, 2008). 11 1.3. Tendências na União Europeia Tal como se passa no resto do mundo, o envelhecimento demográfico da União Europeia é devido, mais do que ao próprio aumento da esperança de vida, à acentuada redução da natalidade. O nível de substituição das gerações não garante a manutenção da população, pelo que nas próximas décadas, é previsível que os países da União Europeia sejam confrontados com um envelhecimento da população (envelhecimento na base da pirâmide etária) em números nunca antes vistos (Monteiro & Neto, 2008). Tal como refere Rosa (2012), para que a renovação pudesse ser feita, seria preciso que cada mulher deixasse uma futura mãe, ou seja, que procriasse um indivíduo do sexo feminino. Para tal, seria necessária uma taxa de 2,1 criança por mulher, número ligeiramente superior a dois filhos por forma a esbater a probabilidade maior do nascimento de indivíduos do sexo masculino e não de 1,5 como acontece na Europa. Também a idade média da população dos vinte e sete países da União Europeia passará, dos 40,9 anos actuais para uma projecção de 47,6 anos em 2060. Assistiu-se, na Europa, a um incremento considerável da proporção das pessoas com mais de 65 anos de 1990 a 2010. Este incremento foi particularmente grande em países com a Eslovénia, a Alemanha, a Itália ou a Grécia (European Comission, 2011a) De acordo com os autores Monteiro e Neto (2008), a esperança de vida à nascença e a redução da natalidade, que muito têm condicionado o envelhecimento populacional, têm sofrido, também, drásticas mudanças nos seus níveis. Os autores referem que “De 1970 a 1995, a esperança de vida à nascença dos homens passou de 64,2 para 71,5 anos enquanto a das mulheres aumentou de 70,8 para 78,6 anos.” (p. 29). Assim, segundo o Eurostat (European Comission, 2012), a população com idade igual ou superior a 65 anos representará quase 30% da população em 2060 contra os 16% em 2010, aumentando a um ritmo de dois milhões por ano. Em 2060, prevê-se que poderá existir, deste modo, um idoso por cada duas pessoas activas. Estima-se também, que a proporção da população com mais de 80 anos triplique para 11,4% em 2050 (Comissão das Comunidades Europeias, 2006) A Comissão das Comunidades Europeias (2006) resume em quatro grandes linhas as tendências demográficas europeias: - Um índice conjuntural de fecundidade fraco (número médio de filhos por mulher), muito abaixo do índice de substituição de 2,1 necessário para estabilizar a dimensão populacional. 12 - O declínio da fecundidade. - O aumento da esperança de vida que ainda poderá aumentar 5 ou mais anos até 2050. - Os importantes fluxos migratórios líquidos provenientes de países terceiros, prevendo-se que mais 40 milhões de imigrantes acorram à União Europeia até 2050. Em virtude destas quatro grandes tendências, prevê-se uma diminuição da população da União Europeia, mas um consequente envelhecimento também. 1.4. Tendências em Portugal Portugal surge como um dos países mais envelhecidos da Europa. De acordo com projecções do Instituto Nacional de Estatística, os próximos vinte e cinco anos apontam para uma duplicação do número de pessoas idosas (com 65 ou mais anos), passando de 112 para 242 idosos para cada cem jovens (Marques, 2011). Sabe-se que à semelhança de muitos outros países, Portugal trilha, deste modo, o caminho para o envelhecimento. Tal como muitos outros países, também, Portugal começou a confrontar-se com o que Rosa (2012) e Barros de Oliveira (2008) chamam de “duplo envelhecimento”, ou seja, um envelhecimento na pirâmide etária na base, por diminuição da natalidade e no topo, pelo aumento da esperança de vida. Também Monteiro e Neto (2008), falam de um “às de espadas” como representação do formato da nova pirâmide etária da população portuguesa. Assiste-se assim, ao fenómeno da "inversão" da pirâmide de idades, como demonstra o gráfico a seguir. 13 Gráfico 1 - Pirâmide de idades, Portugal 1960-1998 1998 1960 Fonte: (Monteiro & Neto, 2008) adaptado de I.N.E. 1999. Em território nacional, a idade média da população, tal como acontece na Europa e no resto do mundo, evoluiu no sentido ascendente, com a agravante de que essa evolução foi ainda mais forte do que na Europa, passando de 26 anos em 1950, para 38 em 2000 e 41 em 2010, prevendo-se chegar aos 50 anos em 2050, segundo as previsões das Nações Unidas. O ritmo alucinante a que Portugal vai chegando é condicionado pela rapidez com que os ritmos de fecundidade e mortalidade baixaram, inserindo-se assim, justificadamente, numa Europa conhecida por “Continente grisalho” (Rosa , 2012). Portugal partiu de uma população menos envelhecida do que a média dos países europeus nos anos 80, mas atingiu, nas últimas décadas, o estatuto de um dos países mais envelhecidos da Europa e, como tal, do mundo. Relembrando a situação em 1960, os jovens perfaziam 29% da população e os idosos 8%. Actualmente, os números mudam para 15% de jovens e 19% de idosos. Pela primeira vez na história, no ano 2000, o total de indivíduos com idade igual ou superior a 65 anos era maior do que o número de jovens. Também a parcela de indivíduos relativa a idades superiores a 80 ou mais anos tem vindo a reforçar o seu peso estatístico ao longo do tempo, tendo o seu número quadruplicado em Portugal, entre 1971 e a actualidade (Rosa, 14 2012). Monteiro e Neto (2008) baseando-se no estudo de 2002 do Instituto Nacional de Estatística falam também em números como “[…] um decréscimo de cerca de 36% na população jovem e um incremento de 140% da população idosa” entre 1960 e 2001. Para reforçar estes factos, também a população em idade activa (15-64 anos) que representa actualmente 66% da população residente em Portugal sofreu severas mudanças. Este grupo também envelheceu, perdendo as idades activas mais jovens (15-24 anos) importância progressiva (passou de 26% em 1960 para 16% actualmente). Ainda outro dado importante é aquele que nos mostra que a relação estatística entre o grupo de idade activa e os grupos de idades jovem e idosa se alterou profundamente, evoluindo no sentido de reduzir o peso estatístico dos jovens e aumentar o peso estatístico dos idosos (índice de dependência). Neste momento, existem pouco mais de três pessoas em idade activa por cada pessoa em idade idosa e mais de quatro em idade activa por cada jovem, facto que em 1960 era bem diferente: oito pessoas em idade activa por idoso e duas em idade activa por jovem (Monteiro & Neto, 2008; Marques, 2011). À semelhança do que se verifica a nível mundial, também no território português a distribuição da população idosa não é homogénea, dadas as diferentes dinâmicas regionais. Neste caso, é a região alentejana que apresenta um maior peso de idosos, seguindo-se o Algarve e o Centro. No que toca às regiões menos envelhecidas do território, contam-se as regiões autónomas, com níveis de envelhecimento menores (Monteiro & Neto, 2008). Gráfico 2 - População com 65 e mais anos de idade, por sexo e por região, 1990/1998 Segundo dados do I.N.E. (1999) - (http://www.alea.pt/html/actual/html/act16.html) 15 A região Norte detinha, tanto em 1990 (11,4%) como em 1998 (12,8%) a mais baixa percentagem de idosos no Continente como resultado das elevadas taxas de natalidade observadas. A maior importância relativa de idosos em 1998 (21,6%) pertencia ao Alentejo, tal como já acontecia em 1990 (19,3%). Esta situação decorre da evolução demográfica do Alentejo se caracterizar por crescimentos efectivos negativos, o que implicou perda de população em todos os grupos etários, excepto no grupo dos 65 e mais anos. A R.A. dos Açores (11,9%) substituiu a R. A. da Madeira (12%) em 1998, passando a pertencer-lhe o lugar de região com menor nível de envelhecimento. Os estudos prospectivos do Instituto Nacional de Estatística prevêem que Portugal continuará a envelhecer e de um modo particularmente intenso, continuando a população próxima dos 10 milhões de pessoas mas com uma taxa de envelhecimento bem maior do que a actual: o número de pessoas com 65 ou mais anos poderá ter valores três vezes maiores do que o número de jovens, sendo que um em cada três portugueses poderá ter 65 ou mais anos (32%) contra os 19% actuais (um em cada cinco portugueses), havendo sempre mais expressão na categoria feminina. Os indivíduos com 80 anos ou mais poderão representar cerca de 13% da população residente. O número de pessoas em idade activa por indivíduo em idade idosa poderá diminuir de um pouco mais de três para apenas dois (Rosa, 2012). 1.5. O impacto do envelhecimento demográfico Com a diminuição da população activa no decorrer desta década devido à reforma da geração “baby-boom” algumas dúvidas se põem quanto ao impacto que este facto terá no mercado de trabalho, na produtividade ou no crescimento económico (Comissão das Comunidades Europeias, 2006; Comission Europénne sur l' Emploi et les Affaires Sociales, 2012). O já citado progressivo envelhecimento da população ao longo das últimas décadas obrigou a maioria dos países europeus a estabelecer prioridades nas suas políticas referentes ao assunto da velhice. De forma esquematizada, Vizcaíno Martí (2000), refere três dos grandes temas a debater na actualidade: - A viabilidade financeira futura do pagamento das pensões; - O incremento de atenção que uma população envelhecida irá requerer a todos os níveis; 16 - As linhas necessárias para garantir a plena integração social deste sector da população; É, segundo o autor, o primeiro tema aquele que tem vindo a suscitar mais debate e preocupação, uma vez que os outros se cingem, de certa forma, a uma acção familiar e profissional, ficando o âmbito social ainda muito aquém do que se pode apelidar de verdadeira medida de resolução. Também a Comission Européenne sur l’Emploi et les Affaires Sociales (2012) corrobora o assunto dizendo que as pensões são a maior fatia das despesas no orçamento dos Estados Membros da Comunidade Europeia. Segundo a Comissão das Comunidades Europeias (2006), este problema poderá ser compensado temporariamente pela subida das taxas de emprego na União Europeia até 2017, nomeadamente, a subida do emprego feminino e o aumento da idade da reforma. No entanto, prevê-se, após este prazo, uma diminuição de 30 milhões de pessoas empregadas na EU até 2050, fazendo antever importantes e graves consequências nas taxas de crescimento económico. Sendo assim, segundo a referida Comissão, a Europa terá de apoiar-se cada vez mais nos ganhos de produtividade enquanto principal fonte de crescimento económico e ver os trabalhadores mais velhos como parte crescente dos recursos globais em termos de mão-de-obra e produção. Esta situação ainda deverá percorrer um longo caminho no sentido da gestão dos recursos da mão-de-obra mais envelhecida, uma vez que, neste momento, e segundo a Comissão da Comunidades Europeias (2006), existe um recurso excessivo às reformas antecipadas, aos insuficientes incentivos ao trabalho nos sistemas fiscais e sociais e à desfavorável gestão de idades em local de trabalho, marcada por acesso insuficiente às formações e mesmo situações de discriminação em relação aos trabalhadores mais velhos, que se traduzem normalmente em estereótipos que interligam o trabalhador mais velho à menor produtividade. Também no aumento da despesa pública o envelhecimento vai exercer pressões significativas. Mais uma vez, a Comissão das Comunidades Europeias (2006) prevê um possível aumento de 10% (variável de país para país) das despesas ligadas à idade (reformas, saúde e serviços a idosos) nesta década e sobretudo entre 2020 e 2040 que pode levar à insustentabilidade e ao comprometimento do equilíbrio futuro dos regimes de pensões e protecção social com importantes consequências para o bem-estar futuro dos reformados e contribuintes, caso os cidadãos não passem a desempenhar um papel mais activo na constituição de poupanças para a reforma e à escolha do momento da aposentação. No mesmo documento, a Comissão ambiciona uma redução de metade das despesas públicas em matéria de saúde e cuidados de dependência através de uma melhor 17 adaptação dos serviços de saúde e de uma abordagem preventiva das doenças crónicas, facto esse, possível, segundo a Comissão, com a utilização das novas tecnologias. Ainda assim, segundo Sibila Marques (2011), a situação do impacto do envelhecimento demográfico tem sofrido uma evolução positiva e verifica-se mesmo algum crescimento das respostas sociais para as pessoas idosas embora haja muito a fazer e a planear desde já. 1.6. Respostas ao desafio demográfico do envelhecimento populacional Actualmente, a maioria dos países europeus preocupa-se (pelo menos ao nível do discurso e intenções) com o desenvolvimento de políticas favoráveis às pessoas em idade avançada. Estas políticas têm-se desenvolvido a ritmos distintos segundo as circunstâncias e possibilidades de cada país. Um ponto em comum transparece destas medidas dos vários países: todas parecem considerar que o objectivo principal dessas políticas em favor das pessoas idosas será o incremento da inserção social normal durante o maior tempo possível. Jordi Vizcaíno Martí (2000) resume as principais intenções dessas políticas: - Ao nível económico, esta opção pressupõe garantir um rendimento adequado a partir da entrada na reforma. - Ao nível de protecção social e da saúde, pressupõe conceder preferência às opções de ajuda no domicílio ou outras soluções alternativas à institucionalização ou hospitalização, de modo a manter as pessoas em idade avançada no seu meio e prevenir os riscos de desinserção. De qualquer modo, as circunstâncias demográficas actuais, bem como as projecções a curto e médio prazo obrigam a repensar seriamente alguns aspectos de modo a assegurar a viabilidade destes objectivos, adaptando-os a uma nova realidade social. É tempo, segundo a Commission Européenne sur l’Emploi et les Affaires Sociales (2012), que a sociedade reflicta sobre a população em idade avançada. Um processo de reformulação da sociedade deve ser iniciado de modo a alargar as ofertas de inserção ao sector mais idoso da população. Só assim este sector poderá trazer o que de melhor tem à sociedade permanecendo activo e independente. É necessário um pensamento intergeracional. Foi com este pensamento que se declarou o ano de 2012 como Ano 18 Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações. O envelhecimento activo da população pode trazer benefícios consideráveis para a sociedade geral. Todavia, deve revestir-se de uma mudança profunda das mentalidades e políticas (Comission Europénne sur l' Emploi et les Affaires Sociales, 2012). Nesta matéria, a Comissão das Comunidades Europeias (2006) fala da necessidade de uma estratégia global e de uma avaliação das políticas existentes de modo a determinar os eventuais ajustes a levar em conta devido às alterações demográficas actuais. Assim, apresenta cinco orientações políticas que considera essenciais (2006, p. 7): - Uma Europa que favoreça a renovação demográfica - Uma Europa que valoriza o trabalho - mais empregos e uma vida activa mais longa e com qualidade; - Uma Europa mais produtiva e avançada; - Uma Europa organizada para receber e integrar os migrantes; - Uma Europa com finanças públicas viáveis - garante de uma protecção social adequada e da equidade entre gerações; O envelhecimento da população é a consequência inevitável de evoluções que, não obstante, são positivas: o aumento da esperança de vida com qualidade de saúde progressiva, uma decisão facilitada de e quando ter filhos, assumida por mulheres cada vez mais instruídas e com acesso mais fácil ao mercado de trabalho. No entanto, estas profundas alterações demográficas e socioeconómicas obrigam a reformular as instituições actuais para chegar a uma maior eficiência económica e equidade social. As políticas actuais são inviáveis a longo prazo na medida em que não permitem fazer face à diminuição esperada da população activa e à perspectiva de insustentabilidade das finanças. A origem do problema não está tanto no prolongamento da duração da vida mas na incapacidade das políticas actuais de se adaptarem à nova situação demográfica e na renitência das empresas e dos indivíduos em alterarem expectativas e comportamentos, em especial, perante a modernização do mercado de trabalho. É possível dar resposta ao desafio, embora este seja de grande envergadura para todos. As políticas comunitárias e nacionais deverão ser adaptadas e reavaliadas para dar resposta a esse desafio demográfico nas políticas futuras (Comissão das Comunidades Europeias, 2006). Todos os países enfrentam, desta maneira, vários desafios na hora de desenvolver políticas sociais para a terceira idade. 19 As medidas desenvolvidas no nosso país visam, sobretudo, a participação activa dos mais idosos na sociedade; o acesso e permanência dos idosos no mundo laboral durante mais tempo; a criação de um sistema de aprendizagem ao longo da vida e promoção do envelhecimento activo; a adequação das respostas e esquemas de protecção social às mutações demográficas e sociais; a promoção da solidariedade intergeracional; a promoção de uma vida mais autónoma e de maior qualidade; o alargamento da rede de equipamentos e serviços de apoio e integração a comunidades de pertença. A inclusão do envelhecimento em diversos programas de acção e medidas, aplicadas de forma coordenada e consistente, tem-se traduzido no aumento das situações e dos riscos cobertos, dos níveis de protecção conferidos, bem como nas alterações nos critérios de elegibilidade, permitindo que um número maior de pessoas aceda às prestações, aos serviços e aos equipamentos sociais. Assiste-se, assim, a um crescimento gradual das despesas com a protecção social aos idosos, bem como a um crescente envolvimento por parte dos diferentes organismos da Administração Pública, dos parceiros sociais e das instituições particulares de solidariedade social. Em Portugal, estas acções centram-se, principalmente no financiamento de diferentes medidas políticas e na formação de know-how em termos de políticas sociais gerontológicas. Portugal desenvolveu as suas políticas sociais para a terceira idade assentes num modelo assistencialista e operacionalizadas, sobretudo, através de protocolizações com Instituições Privadas de Solidariedade Social (IPSS) (Martín & Lopes, 2008). Desta forma, desde 2005, foram desenvolvidas cinco políticas sociais para a terceira idade, sendo as quais (Martín & Lopes, 2008): 1) Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES); 2) Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCC); 3) Modelos de Qualidade para Centros de Dia e Serviços de Apoio Domiciliário; 4) Rendimento Solidário para Idosos (RSI); 5) Programa de Conforto Habitacional para pessoas Idosas (PCHI). De seguida serão analisadas globalmente estas medidas políticas para a terceira idade, tendo por base o artigo de Martín e Lopes (2008) e de Cristina Fangueiro (2008) sendo cada uma individualmente avaliada na tabela adaptada que se segue: 20 Quadro 1 - Políticas sociais gerontológicas implementadas em Portugal desde 2005 Programa Modelo político /Função Limitações Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES) Com este Programa procura-se estimular, através de recursos financeiros exclusivamente provenientes dos resultados líquidos dos jogos sociais, o investimento privado em equipamentos sociais, com a finalidade de aumentar, desenvolver e consolidar a capacidade instalada e respostas sociais, nomeadamente para idosos. Financiamento de entidades promotoras de respostas sociais baseando-se em critérios de avaliação alheios à tipologia dos utentes ou dos serviços específicos prestados. Não mostra uma política clara de desenvolvimento de serviços sociais comunitários, mantendo preferência por respostas de internamento. Rede Nacional de - Criar um terceiro sistema Cuidados intermédio entre o sistema social e o Continuados (RNCC) sistema de saúde; - Sistema baseado em unidades de pequena dimensão. - Criação de um modelo muito complexo baseado num sistema de integração por coordenação; Dificuldade na sustentabilidade do modelo de financiamento. Modelos de Qualidade Criação de indicadores de processo para Centros de Dia e que descrevem as tarefas da Serviços de Apoio organização. Domiciliário - Não existe uma ligação clara entre Modelo de Normalização promovido pela Segurança Social e o Sistema de Acreditação ISO9001, nem com o sistema de fiscalização de respostas sociais; Vantagens para as organizações promotoras do sistema pouco claras. Rendimento Solidário Assegurar aos idosos um rendimento para Idosos (RSI) mínimo. Os beneficiários deste complemento têm benefícios adicionais referentes às despesas de saúde. Processo administrativo denso, principalmente no que se refere aos Rendimentos Anuais do Agregado Fiscal do(s) filho(s) do Requerente. Programa de Conforto Fundo financeiro estatal com gestão Habitacional para autárquica com o objectivo de pessoas Idosas (PCHI) prevenir a dependência e a institucionalização dos cidadãos mais idosos. Selecção dos candidatos muito difícil (desenvolvida a partir da Rede Social); - Programa que implica um grande investimento financeiro por utente. Fonte: adaptado de (Martín & Lopes, 2008) e (Fangueiro, 2008). 21 Por último, é importante referir a importância da estratégia para o envelhecimento activo, que consta do Plano Nacional de Emprego e que tem dois eixos fundamentais: • Estimular os trabalhadores a permanecerem mais tempo no mercado de trabalho e desincentivar a saída precoce do mercado de trabalho; • Relançar a inserção dos cidadãos mais velhos em actividades de interesse social, nomeadamente Programas Ocupacionais e o novo Programa Voluntariado Sénior (Fangueiro, 2008). O acesso da população idosa aos cuidados necessários de saúde e de acção social nem sempre tem sido garantido, principalmente quando ao envelhecimento se associa a perda de autonomia. No entanto, algumas medidas têm contribuído positivamente para a garantia desse acesso. Referimos apenas algumas das medidas mais emblemáticas do esforço que tem sido feito para melhorar os índices de protecção social da população idosa. Apesar dos avanços que se têm verificado nos últimos anos, é necessário um olhar permanente para a realidade em que vivem as pessoas idosas, pois, só assim se consegue continuar a melhorar a sua qualidade de vida. O modelo de intervenção, mais centrado nas exigências e expectativas, tem de ser dinâmico e integrado, adaptando-se cada vez mais a essa realidade. 22 CAPÍTULO 2 – A VELHICE Nas várias ciências humanas e/ou sociais existentes, não são certamente a idade adulta e a velhice as fases de desenvolvimento mais estudadas. A psicanálise talvez tenha sido um dos ramos científicos mais atentos às fases mais avançadas de idade do Homem, com trabalhos como o de Jung e Freud, de Charlotte Buehler e Erikson, pioneiros no estudo de toda a curva da vida. Em 1922 foi publicado um livro intitulado Senescence, the second half of life, retratando o envelhecimento e a problemática da reforma do próprio autor, Stanley Hall. Nessa obra, Hall igualava em importância a parte psicológica e biológica do envelhecimento (Barros de Oliveira, 2008). Barros de Oliveira (2008) refere, também, que em 1930, Jung escreveu um artigo onde descrevia a vida humana ao longo de todo o seu ciclo, exortando o interesse e a beleza da segunda metade desse ciclo. Em 1933, Buehler publicava também Der menschliche Lebenslauf als psychologisches Problem (o curso da vida humana como problema psicológico) onde descrevia a vida “como um período de expansão seguido de outro de restrição e de declínio” (Barros de Oliveira, 2008, p. 21). Mais tarde, em 1968, Buehler junta-se a Massarik para desenvolver a sua teoria anterior. Mas foi Erikson, em 1950 que descreveu com minúcia o desenvolvimento humano, desde a primeira infância até à velhice na sua obra Childhood and Society, embora os capítulos das fases infantis e juvenis estivessem mais desenvolvidos (idem). A idade adulta e a velhice começaram, desde aí, a ser cada vez mais estudadas e começaram a existir especializações em gerontologia. A velhice começou, assim, a ser estudada desde diversos pontos de vista, como o psicológico ou o sociológico. Em 1961 Birren escreveu uma muito breve história da psicologia do envelhecimento, juntando-se mais tarde a Shaie para editar um Manual sobre psicologia do envelhecimento, que passou a ser um dos livros mais importantes sobre esta matéria. Em 2001, Birren e Schroots fazem a distinção entre psicologia do idoso (que estuda particularmente aspectos patológicos, dentro de um modelo biomédico), psicologia da idade (que compara transversalmente diferentes grupos etários, embora não explique propriamente o processo de envelhecimento) e psicologia do envelhecimento (que se coloca numa perspectiva desenvolvimental tentando analisar e explicar as mudanças, ganhos e perdas ao longo de toda a vida, em especial na fase da velhice, atendendo às dimensões cronológicas e biopsicossociais) (ibidem). 23 Barros de Oliveira (2008) refere ainda autores como Labouvie-Vief, Baltes e Goulet, Reese e Lipsitt, que trouxeram vários contributos para a temática da velhice. O autor alude ao ano de 1987, em que Baltes elabora princípios gerais sobre a natureza do desenvolvimento, sobre as diferenças inter-individuais, sobre as semelhanças interpessoais e sobre as condições que regem a plasticidade intra-individual, apresentando um modelo multidimensional e multidireccional. Não podíamos deixar de referir, com a ajuda de Barros de Oliveira (2008), a contribuição para o estudo da velhice, por parte de alguns autores portugueses como Merval Rosa, Marchand ou Fonseca. 2.1. O processo de envelhecimento – conceitos e perspectivas O século presente caracteriza-se pelo envelhecimento da população observado na grande maioria dos países, como pudemos verificar em pontos anteriores do nosso trabalho. Segundo Barros de Oliveira (2008), o século XXI é o século dos idosos, pelo menos para o mundo ocidental. Este é um assunto que interessa a todos na medida em que os mais jovens de hoje serão os idosos de amanhã e, segundo expressão usada pelo autor: “Do modo como a sociedade trata hoje os gerontes pode aferir-se dos seus valores e prever os valores de amanhã” (Barros de Oliveira, 2008, p. 5). Fazer referência ao envelhecimento da população implica necessariamente referirse à etapa da vida que denominamos de velhice. Os contextos que permitem determinar o momento desta etapa variam em função do momento histórico e do contexto sociocultural. A definição de velhice não é clara e reflecte ideologias que a moldam (Simões, 1999). A velhice é uma das fases do desenvolvimento do indivíduo no seu ciclo vital. Para muitos, este é um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e psicológico. É inevitável e universal, porque é natural e não depende da vontade do indivíduo, é, apesar dos grandes avanços no campo da medicina, irreversível, é heterogéneo e individual, em cada espécie e, mais restritamente, há um ritmo próprio para envelhecer (Monteiro & Neto, 2008). Assim, as manifestações do envelhecimento surgem em variadas e complexas combinações, em diferentes idades, dependendo das características genéticas de cada indivíduo e de vários factores ambientais, como o estilo de vida, a dieta, os cuidados com a saúde, o exercício, entre outros (Glass, 2003; Monteiro & Neto, 2008). 24 O processo de envelhecimento é, então, um fenómeno intrínseco a todo o ser humano, capaz de desencadear mudanças biopsicossociais (Santín & Borowsky, 2008). Berryman, Hargreaves, Herbert e Taylor (2002) falam do envelhecimento como questão social e biológica, por exemplo. Biológica por herdarmos uma duração de vida geneticamente estipulada e social porque qualquer sociedade definiu fases e expectativas de vida em relação a comportamentos apropriados ou não à idade, sendo por vezes, mais a fase de vida do que a idade que determina atitudes e comportamentos. A velhice, ou fenómenos a ela ligados, sempre foram, desta maneira, alvo de estudos e reflexão, dado que sempre houve pessoas a envelhecer (Monteiro & Neto, 2008). Monteiro e Neto (2008) definem a velhice como um “estado de espírito” decorrente da forma como a sociedade e a própria pessoa encaram esta fase da vida. A imagem da sociedade sobre os idosos tende a ser negativa, partindo do declínio e da improdutividade, constituindo a oposição jovem/idoso uma das mais fortes representações sociais em desprestígio da velhice, facto que originou o aparecimento de vários mitos/estereótipos (Veloso, 2011) como veremos mais adiante. Os defensores da visão positiva da velhice encaram-na como mais uma etapa da vida, uma experiência de crescimento, etapa que pode e deve ser significativa, já que a sua ausência seria a morte prematura. A velhice é uma das fases do desenvolvimento da pessoa ao longo do ciclo vital, um processo contínuo de crescimento intelectual, emocional e psicológico, um momento de reflexão em que se faz o resumo de tudo o que se fez até àquele momento, devendo constituir um período em que se deveria apreciar os frutos de toda uma experiência de vida (Monteiro & Neto, 2008). Fazendo uma reflexão apoiada em alguns estudos sobre terceira idade, envelhecimento, velhice, ou outras palavras associadas ao tema podemos distinguir várias vertentes e clarificar alguns conceitos. O termo envelhecimento é-nos, com certeza, bastante familiar, no entanto, a sua definição não é linear. A pergunta aparentemente simples, «o que é envelhecer?» não tem uma resposta consensual. Comecemos por compreender as raízes etimológicas dos conceitos ligados à velhice para um melhor enquadramento e compreensão do assunto. Termos do latim como velho, (do latim vétulus), ancião (do latim medieval (antianus, através do provençal ancian e do francês ancien), idoso (do latim aetas, que tem muita idade), sénior (do latim sénior de sénex, donde advém senescência, senilidade, 25 senado), geronte (do grego gérôn-ontos, que forma também gerontologia) tornam secundário e variado o modo como apelidamos a velhice (Barros de Oliveira, 2008). Segundo a Enciclopédia Verbo Fundamental (Vários, 1982, p. 1578), velhice é “o mesmo que 3ª idade: fase da vida durante a qual aumenta progressivamente a probabilidade de morte. […] Define-se pela deterioração progressiva das capacidades tanto físicas como mentais. Atribui-se à involução, com ritmo variável, de todos os tecidos e sistemas por determinismo genético da idade das células […]”. Já o termo envelhecimento, é definido por Monteiro & Neto (2008, p. 21) como “ […] a manifestação de mudanças biológicas que ocorrem ao longo de um período”. O termo idade surge com a necessidade de delimitar o envelhecimento. Qualquer limite cronológico para definir a pessoa idosa é impreciso e difícil de englobar nas várias dimensões da evolução da vida humana (Monteiro & Neto, 2008). Terceira idade é efectivamente um conceito também usado no que diz respeito a este assunto, embora de forma mais recente. Segundo Veloso (2011, p. 23), “o conceito de terceira idade pretende […] romper com uma imagem de velhice associada à decrepitude, à indigência, à dependência e doença, passando a significar uma velhice autónoma, capaz e activa”. Assim, embora normalmente corresponda ao final da vida activa, retrata ainda uma fase de auto-suficiência, independência e responsabilidade pela sua própria existência. Este termo surge assim para expressar novos padrões de comportamento de uma geração que se aposenta e envelhece activamente. Surge também a partir da evolução da esperança de vida, originando um outro termo, menos usado e difundido: a quarta idade, para os indivíduos de 75 e mais anos (Monteiro & Neto, 2008). Barros de Oliveira (2008) dedica um subcapítulo do seu livro “Psicologia do Envelhecimento e do Idoso” à questão terminológica que se põe quando se hesita em usar de forma sinónima as palavras velho e idoso. O autor defende que a expressão velho não é depreciativa, podendo até ser carinhosa em alguns países ou línguas. No caso do português, a palavra velho é sobretudo usada com carácter meigo no que diz respeito ao povo brasileiro, já que em Portugal tem alguma conotação negativa. No caso do país vizinho, a Espanha, é usado o termo mayores. Podemos observar assim que os termos ligados à velhice e envelhecimento, possuem um lato conjunto de definições e perspectivas que pressupõem uma reflexão. Esta reflexão, requer uma abordagem multidisciplinar. Deste modo, segundo alguns autores, podemos situar o envelhecimento em vários pontos de vista distintos como o biológico, o psicológico, o sociológico, o demográfico, o cronológico, o religioso, o histórico, o 26 cultural, entre outros, de modo a melhor compreender o fenómeno (Martí, 2000; Monteiro & Neto, 2008). Segundo Martí (2000), o conceito de velhice pode ser analisado de pelo menos quatro perspectivas diferentes: a perspectiva biológica, a perspectiva psicossocial, a perspectiva cronológica e a perspectiva cultural. Considerando a primeira, a perspectiva biológica, o autor descreve o envelhecimento como um processo fisiológico que começa desde a concepção e origina mudanças ao longo de toda a vida. Assim, a idade biológica de um indivíduo refere-se à situação da pessoa em relação ao seu potencial ciclo de vida. Como este processo é gradual e personalizado, torna-se difícil estabelecer a fasquia a partir da qual determinado indivíduo pode ser considerado velho do ponto de vista biológico. Actualmente, esta fasquia analisa-se sob a perspectiva do conjunto de acções necessárias para satisfazer as necessidades deste sector da população, ou seja, da autonomia funcional. Deste modo, podemos dizer que uma pessoa será considerada biologicamente velha em função das limitações que a impedem de ser auto-suficiente. Santín e Borowsky (2008) que referem o ponto de vista biológico como sendo talvez o mais observado e observável, caracterizam a partir deste aspecto, a velhice e o idoso. Segundo estes autores, é nesta etapa que se começam a evidenciar as fragilidades do corpo. Por predeterminação do próprio organismo algumas hormonas deixam de ser produzidas, gerando diminuição da capacidade funcional de órgãos e tecidos, desaceleração da velocidade do metabolismo e comprometimento do sistema imunitário. Glass (2003) refere, no entanto, as variações de indivíduo para indivíduo no que toca ao processo de envelhecimento. A segunda perspectiva, a perspectiva psicossocial, é aquela que indica quando é que uma pessoa passa a ser vista como pertencente ao grupo das pessoas «velhas». Também aqui existe diversidade e torna-se difícil determinar o momento exacto dessa inclusão no grupo. Apesar da idade da velhice ser incerta e flutuante segundo os indivíduos, esta está no entanto inscrita na sociedade e nas suas instituições. Geralmente, adopta-se a idade de 65 anos como o início da velhice dado coincidir com a idade da aposentação. Hoje, com o aumento da esperança de vida, esta idade não significa incapacidade funcional, mas antes, uma possibilidade de iniciar uma nova etapa de vida, satisfatória individual e socialmente (Simões, 1999; Martí, 2000). Na perspectiva cronológica, existe uma necessidade de distinguir a «terceira idade» da actualmente referida «quarta idade». Embora se aceitem os 65 anos como o início de um novo ciclo vital, a tendência é a de adiar cada vez mais o início da «velhice». Rosa (1999) 27 refere que o envelhecimento cronológico resulta exclusivamente da idade e é um processo universal, progressivo e inevitável, logo não se pode considerar sinónimo de doença. Existem momentos de aceleração, não obstante a progressividade do processo, o que faz parecer que é apenas a partir de certa idade que o processo acontece, quando na realidade acontece desde que o indivíduo é concebido. Por último, na perspectiva cultural, Martí (2000) refere a atitude colectiva tendencialmente negativista em relação à velhice, caracterizada por um conjunto de preconceitos, estereótipos e ideias discriminatórias aplicadas às pessoas conforme o avançar da idade. Interessante, também, será a perspectiva histórica e cultural do envelhecimento humano, descrita, por exemplo, por Santín e Borowsky (2008), que se ocupa dos valores, das crenças, do papel que o idoso desempenha na sociedade, da representação que dele se faz, tecendo uma análise comparativa ao longo do tempo. A velhice nem sempre foi vista da mesma forma, variando as perspectivas nos diferentes momentos da História. Embora o envelhecimento sempre tenha existido houve momentos históricos importantes, nos quais se evidenciam os diversos papéis assumidos pelo idoso. Temos o exemplo da sociedade primitiva, em que a selecção natural e a necessidade de sobrevivência faziam uma triagem que não era favorável aos idosos. Num segundo momento, com a sedentarização dos povos, a introdução da agricultura e o despontar da organização familiar, o patriarca exercia um papel fundamental e mantinha o respeito e admiração de todos os que o rodeavam, dotando-o até, mais tarde, de poder religioso que o apresentavam como indivíduo de elevada importância. Já na Roma antiga, o idoso também era venerado e considerado poderoso, por ser ele o detentor de propriedades e riquezas, detendo assim o poder social e económico da família, ficando um pouco de parte as suas características como ser humano, dado que a sua força residia nessas posses. Sendo assim, os idosos que não possuíam riquezas não poderiam obter reconhecimento na sociedade ficando dependentes. Com o surgimento da Revolução Industrial, surge também a expansão do capitalismo, que, inevitavelmente, levou a uma desestruturação da sociedade e a uma inversão de valores. A capacidade de produção passa a ser sobrevalorizada em detrimento do factor humano, instalando-se, inegavelmente, um conceito negativo de velhice, por se considerar fase pouco produtiva. Mais tarde, no século XX, a figura de família patriarcal acaba por aumentar a sua tendência para desaparecer. A desvalorização do idoso torna-se ainda mais acentuada. Sobre ele, recai o peso da inutilidade e decadência. Hoje, esta situação de desprezo e indiferença que perdurou 28 durante tanto tempo é questionada. São lançados movimentos que procuram reavaliar o papel do idoso na sociedade, reencontrar a sua dignidade e providenciar a sua reinserção social (Santín & Borowsky, 2008). As conotações atribuídas à “ velhice “ e às atitudes para com os “ velhos “, são sempre produto de uma cultura, historicamente moldadas segundo as interpretações dominantes acerca da mobilização do corpo humano, na divisão social do trabalho. 2.2. Teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento Existem várias teorias sobre o envelhecimento, facto este que tem vindo a fazer crescer a literatura neste domínio nos últimos anos. As teorias subjacentes ao conceito de envelhecimento que Schroots (1996, citado por Barros de Oliveira, 2008) sintetiza em três grandes períodos (período clássico, moderno e recente) dão-nos uma perspectiva histórica sobre o envelhecimento. Em cada um destes períodos existem diversas teorias que passamos a caracterizar brevemente: Período Clássico Dentro do período clássico, o autor define a teoria das tarefas de desenvolvimento, a teoria psicossocial do desenvolvimento da personalidade, a teoria da reprodução, a teoria do desinvestimento, a teoria da personalidade, da idade e do envelhecimento e a teoria cognitiva da personalidade e do envelhecimento. Teoria das tarefas de desenvolvimento, em que o desenvolvimento é entendido como realização de sucessivas tarefas, divididas por seis estádios, que conduzem ao envelhecimento. Teoria psicossocial do desenvolvimento da personalidade, descrita em oito estádios de desenvolvimento, cada um com a sua crise resultante do conflito entre tendências opostas, passível de resoluções que serão condição para o crescimento. Teoria da reprodução, que pressupõe que o desenvolvimento reproduz de alguma forma o passado, sendo influenciado por ele. Teoria do desinvestimento, em que o adulto, à medida que cresce, vai desinvestindo os papéis sociais anteriores, centrando-se mais na sua pessoa e tendo menor envolvimento 29 social e emocional. Alguns autores teceram fortes críticas a esta teoria contrapondo que o desinvestimento em relação a uns papéis é depois compensado nos papéis seguintes. Teoria da personalidade, da idade e do envelhecimento, que rege o desenvolvimento por acontecimento expectáveis, como o casamento, a maternidade/paternidade, etc. ou não esperados, como a morte de um filho, a viuvez precoce, bem como pelo factor da personalidade que condiciona o envelhecimento, possibilitando maior ou menor adaptação e satisfação com a vida. Teoria cognitiva da personalidade e do envelhecimento, que tenta integrar os domínios biocognitivo, afectivo-social em interacção constante, privilegiando a percepção e expectativas do próprio idoso. Período moderno Teoria do desenvolvimento e do envelhecimento, define alguns princípios enquadradores do desenvolvimento humano, como: a) O princípio de que o desenvolvimento se processa ao longo de toda a vida e todos os períodos são importantes; b) O crescimento não é um processo unívoco e unidireccional, mas multidimensional e multidireccional, assumindo diversas formas e direcções conforme as pessoas e circunstâncias; c) O desenvolvimento processa-se através de equilíbrios constantes entre ganhos e perdas; d) Existe plasticidade no desenvolvimento, e esta está dependente de diversas condições culturais; e) O desenvolvimento depende de diversos contextos (idade, contexto histórico, eventos não normativos) que podem provocar crise; f) O desenvolvimento, como fenómeno complexo que é, tem dimensão multidisciplinar para a sua compreensão; Teoria dos recursos reduzidos de processamento, que pode explicar em certa parte a relação entre o relativo declínio cognitivo associado à velhice, através da redução de recursos como a capacidade de atenção, a memória, a velocidade de processamento, etc. Teorias da personalidade e do envelhecimento segundo os modelos de estádios, que propõe vários estádios de desenvolvimento, divididos por idades, acrescentando alguns 30 estádios de transição, como a idade pré-adulta, a meia-idade, ou a idade adulta tardia, por exemplo. Teoria da personalidade e do envelhecimento segundo os traços, que explica o desenvolvimento pela invariância estrutural fundamental da personalidade ou das suas disposições/traços básicos ao longo da vida. Período recente Teoria da gerotranscendência, que postula que na velhice, a visão materialista da vida vai dando lugar a uma visão mais transcendente que traz com ela uma maior satisfação com a vida. Esta teoria aparece como reformulação da teoria do desinvestimento, mas difere dela em aspectos fundamentais. Teoria gerodinâmica ou teoria da bifurcação, que se inspira na teoria geral dos sistemas, nomeadamente na segunda lei da termodinâmica e na teoria dos sistemas dinâmicos. Deste modo, o envelhecimento é visto como uma série de transformações não lineares onde vai dominando a desordem sobre a ordem, até à morte. Em geral, o envelhecimento é ainda pintado de cores sombrias, mas em todo o caso, é necessário que os idosos possam envelhecer em harmonia, desmistificando mitos e estereótipos (de improdutividade, degenerescência, incapacidade, etc.) e promovendo as suas capacidades, criando uma cultura de respeito pela ancianidade. 2.3. Etiologia do envelhecimento O envelhecimento não é uma doença: vive-se, logo envelhece-se. Não é muito conhecida a etiologia do envelhecimento, mas segundo Barros de Oliveira (2008), os factores genéticos aliam-se, como causa, a outros factores como o sexo ou a raça. Embora seja biologicamente individualizado, alguns factores como o tipo de vida e as consequentes doenças fazem com que o envelhecimento não seja exclusivamente uma fatalidade biológica. Para além do geneticamente programado, ou seja, a hereditariedade, factores psicológicos como a depressão, a perda de entes queridos, a perda do trabalho, do afecto familiar, a solidão, podem acelerar o processo de envelhecimento também. Assim, a tentativa de explicação do fenómeno que é o envelhecimento, deve 31 incluir uma abordagem mais holística do envelhecer, uma tentativa de explicação que aborde factores biopsicossociais. Ao nível individual, o envelhecimento depende também do bom ou mau uso que se tenha feito do corpo, da alimentação, dos hábitos saudáveis. Existem muitas pessoas que chegam à idade avançada com saúde privilegiada, outros, no entanto, precipitaram o envelhecimento por terem atentado contra a sua própria saúde, devido a excessos de peso, álcool, tabaco, drogas, vida sedentária. Assim sendo, para além dos factores endógenos, também os factores exógenos ou mesmo ambientais, e mesmo factores socioeconómicos ou profissionais podem levar a um envelhecimento precoce. Vários estudos feitos a populações específicas levam à conclusão de que certos condicionalismos podem determinar o modo como se envelhece. Existe assim, de facto, uma tendência hereditária mas o uso ou tratamento dado ao corpo condiciona também grandemente a longevidade ou a qualidade de vida. O dado adquirido como certo é que o envelhecimento é diário, individual e causas muito diversificadas mas convergentes contribuem para o modo como se envelhece. Embora o começo do envelhecimento seja coincidente com o momento da concepção (Martí, 2000; Monteiro & Neto, 2008), Barros de Oliveira (2008), aponta os 40 anos como a idade em que se iniciam uma série de alterações fisiológicas fulcrais e mais visíveis, como a perda da capacidade de memória, a perda de massa muscular, o embranquecimento dos cabelos, etc. Também é nesta idade que existe uma maior incidência de doenças graves. Mesmo não sendo conhecida a etiologia do envelhecimento, como referimos atrás, este tem certamente factores genéticos, bem como outros como o sexo (as mulheres duram em média mais anos), ou a raça. A pessoa envelhece, assim, como um todo, embora o primeiro responsável possam ser as células, os tecidos, os órgãos ou os aparelhos, numa perspectiva mais biológica. Mota Pinto (2000), citado por Barros de Oliveira (2008), afirma que as teorias, quanto ao envelhecimento, podem dividir-se em dois grupos: as teorias estocásticas, que são casuais ou conjunturais (o envelhecimento resulta de lesões sucessivas que vão conduzir ao desgaste e à morte) e as teorias deterministas (em que o envelhecimento é consequência directa de uma bagagem genética programada, funcionando o genoma como relógio biológico). De qualquer modo, como já referimos, todos estes factores não explicam a etiologia do envelhecimento, só por si, e só numa abordagem muito holística, olhando o indivíduo como um ser biopsicossocial se poderá compreender a grande interacção que existe entre o corpo e o psíquico. 32 2.4. Mudanças que ocorrem na velhice Interessa verificar quais as principais alterações sentidas à medida que o envelhecimento normal ocorre, alterações essas resumidas em cinco palavras por Bee e Mitchell (1980, pp. 182-184), citados por Simões (1982, p. 52). Os autores defendem que com a idade, o organismo se torna mais pequeno (smaller), mais lento (slower), mais fraco (weaker), mais escasso (lesser) e mais reduzido (fewer). A estatura diminui devido a modificações a nível do tecido conjuntivo; o corpo torna-se mais lento, o que se relaciona com a velocidade de condução dos impulsos nervosos que diminui com a idade; o corpo torna-se mais fraco, devido às alterações produzidas ao nível dos ossos, quer pela escassez do cálcio, quer pelo desgaste que sofrem com o uso; os próprios sentidos também declinam com a idade; a nível das secreções glandulares, existe uma diminuição do débito e por último, o corpo torna-se mais reduzido, na medida em que vai ficando com menos células (musculares, etc.), menos cabelo, menos papilas gustativas, entre outros (Simões A. , 1982). No corpo, as mudanças na sua composição global, que passam pela diminuição da massa magra, pelo aumento da proporção de gordura e diminuição de água, trazem como consequência, um aumento dos riscos de diabetes, perturbações cardiovasculares, osteoporose, assim como, cancro do cólon e da mama (Sousa, Figueiredo, & Cerqueira, 2006). Glass (2003) lista dez das mudanças físicas mais frequentemente observadas no processo de envelhecimento: - Diminuição da massa muscular, sendo a degeneração progressiva. - Diminuição da flexibilidade. - Menor capacidade de resistência e diminuição da energia. - Diminuição da capacidade de reserva. - Diminuição da capacidade cardiovascular. - Diminuição da capacidade pulmonar. - Degeneração óssea com maior propensão a fracturas. - Degeneração das articulações. - Mudanças dermatológicas, como maior secura na pele e menor capacidade de controlo da temperatura corporal. 33 - Diminuição da capacidade da bexiga. A par destas mudanças físicas e fisiológicas, também as mudanças nos órgãos sensoriais (visão e audição sobretudo) são referidas por Glass (2003). A nível cognitivo, (nomeadamente a nível da memória, inteligência e aprendizagem), destacam-se também algumas modificações, que explicitaremos mais pormenorizadamente no capítulo 3. Resumidamente, estas alterações, foram durante muito tempo, conotadas negativamente, considerando-se que o avançar dos anos, trazia inevitavelmente, um declínio intelectual. Mesmo a nível científico, durante muito tempo se pensou que com a idade se perdiam neurónios. No entanto, investigações mais recentes, mostraram que ao longo da vida se desenvolvem novos neurónios, como comprova Goldberg (2008) que afirma que “o nosso cérebro tem a capacidade de se restaurar e de se rejuvenescer. Contrariamente às crenças, durante tanto tempo defendidas, os neurónios não param de se desenvolver após a infância. Longe disso: eles continuam a crescer ao longo da vida, quer seja ela numa fase adulta, quer seja numa idade já bem avançada” (p. 225). 2.5. Estereótipos acerca do envelhecimento – O idadismo Tópicos, ditos, refrões, frases feitas, etiquetas verbais ou adjectivações a respeito de pessoas e grupos, são alusões que frequentemente encontramos quer nas conversas diárias da rua, quer nos meios de comunicação social. O mundo social e humano, dificilmente se nos apresenta, em sua crua realidade objectiva, sem possuir adjectivações (frequentemente estereotipadas), porque o estereótipo é precisamente uma percepção muito simplificada e geralmente com ausência de matrizes. Na medida em que o conhecimento humano não é capaz de ser sempre complexo, flexível e crítico podemos dizer que tendemos a cair no estereótipo. Os estereótipos mais estudados actualmente são os que se referem a grupos étnicos, no entanto existem estereótipos em todos os domínios da vida social: relativos a ambos os sexos, às ocupações, ao ciclo vital, à família, à classe social, ao estado civil, aos desvios sociais e a qualquer campo da vida que desejamos diferenciar. Estudos recentes sobre o sociocognitivismo, reafirmam o papel crucial dos estereótipos na percepção de outros seres humanos, havendo mesmo quem defenda que as pessoas utilizam prioritariamente os estereótipos para interpretar a informação complexa sobre indivíduos e grupos, buscando outras interpretações apenas, quando os estereótipos não oferecem explicações suficientes. 34 O estereótipo é “uma representação social sobre os traços típicos de um grupo, categoria ou classe social e caracteriza-se por ser um modelo lógico para resolver uma contradição da vida quotidiana, e serve sobretudo para dominar o real. No entanto, também contribui para o não reconhecimento da individualidade, a não reciprocidade, a não duplicidade, o despotismo em determinadas situações (Martins & Rodrigues, 2004) A literatura científica sobre os estereótipos é prolixa, pelo facto de se tratar de um conceito multiunívoco – conceito categorial, generalizador, estável e definidor de um grupo social. Contudo, existem múltiplos defensores que concebem os estereótipos como preconcepções rígidas, mais ou menos falsas e irracionais. Socialmente, e no caso dos idosos, a valorização dos estereótipos projecta sobre a velhice uma representação social gerontofóbica e contribui para a imagem que estes têm se si próprios, bem como das condições e circunstâncias que envolvem a velhice, pela perturbação que causam uma vez que negam o processo de desenvolvimento. Este problema surge, quando o fenómeno de envelhecer é considerado prejudicial, de menor utilidade ou associado à incapacidade funcional. A rejeição e rotulagem de um grupo, em particular de indivíduos, desenvolve-se porque as características individuais com traços negativos, são atribuídas a todos os indivíduos desse grupo. Assim a palavra ”velhote” descreve os sentimentos ou preconceitos resultantes de micro-concepções e dos “mitos” acerca dos idosos. Os preconceitos envolvem geralmente crenças de que o envelhecimento torna as pessoas senis, inactivas, fracas e inúteis (Martins & Rodrigues, 2004). Das disfunções criadas ao longo dos tempos, referidas em ponto anterior, surgiram preconceitos e estereótipos que definem a imagem do idoso na sociedade actual. Encarar a velhice em todas as suas vertentes, numa sociedade em que a cultura da ancianidade aparece como o resto que sobra das margens da sociedade industrial é certamente tarefa árdua quando abundam tantos mitos na opinião pública. Surgem, incessantemente, concepções erróneas, sem fundamento científico, que reflectem o estado da gerontologia social. Berryman et al. (2002) referem o envelhecimento como sendo muito influenciado por estereótipos de comportamento adequado à faixa etária. Moragas (2004) define e responde a alguns desses mitos: Mito 1- A velhice começa aos sessenta e cinco anos. Resposta: a velhice é variável e individualizada não começando numa idade cronológica definida. Mito 2 – As capacidades dos idosos são muito limitadas. Resposta: Os idosos possuem muitas capacidades. 35 Mito 3 – A velhice é uma etapa totalmente negativa. Resposta: A velhice é uma etapa vital peculiar. As próprias metáforas usadas para referir o envelhecimento têm o seu peso cultural, e enquanto algumas, parecendo negativas, têm o seu lado positivo, como as metáforas inspiradas na Natureza, como «idade crepuscular», «outono da vida», «idade da colheita» (qualquer uma delas tem o seu lado belo), outras soam mais negativamente, como «idade das perdas» ou «morte à vista». Luísa Berger (1995, citada por Barros de Oliveira, 2008) também identifica sete estereótipos a respeito dos idosos: O idoso visto como pessoa: - Doente; - Infeliz; - Improdutiva; - Necessitada de ajuda; - Conservadora; - Igual a todos os outros velhos; - Sofrendo de solidão e isolamento; Barros de Oliveira (2008), citando Richard e Mateev-Dirkx (2004) aponta também algumas características mais frequentemente imputadas aos idosos: crise de identidade provocada por ele e pela sociedade, diminuição de auto-estima, dificuldade de adaptação a novos papéis e lugares bem como a mudanças profundas e rápidas, falta de motivação para planear o futuro, atitudes infantis ou infantilizadas como processo de mendigar atenção, complexos diversos, diminuição da libido e do exercício da sexualidade, tendência à depressão, à hipocondria ou somatização e mesmo tendências suicidas, surgimento de novos medos, diminuição das faculdades mentais, nomeadamente, da memória, problemas cognitivos motivacionais ou afectivos, entre outros. Um estudo realizado na Université de Montreal por Champagne e Frennet (citado por Martins e Rodrigues, 2004), permitiu identificar catorze estereótipos como os mais frequentes relativos aos idosos: * Os idosos não são sociáveis e não gostam de se reunir; * Divertem-se e gostam de rir; * Temem o futuro; * Gostam de jogar às cartas e outros jogos; * Gostam de conversar e contar as suas recordações; 36 * Gostam do apoio dos filhos; * São pessoas doentes que tomam muita medicação; * Fazem raciocínios senis; * Não se preocupam com a sua aparência; * São muito religiosos e praticantes; * São muito sensíveis e inseguros; * Não se interessam pela sexualidade; * São frágeis para fazer exercício físico; * São na grande maioria pobres. Monteiro e Neto (2008) também referem os estereótipos, escrevendo que “Numa sociedade em que se privilegia a juventude, é fácil difundirem-se estereótipos negativos relativamente à velhice.» (p. 19). Estes autores falam da associação entre o preconceito de ser velho e de ser inútil para a sociedade, feita muitas vezes. Uma reflexão sobre estas percepções permite-nos observar que a maioria destes estereótipos está ligada, não a características específicas do envelhecimento, mas sim a traços da personalidade e a factores socioeconómicos. E, se por um lado, a formação de estereótipos simplifica a realidade, por outro, simplificam-na em demasia, levando muitas vezes a uma ignorância acerca das características, minimizando as diferenças individuais entre os membros de um determinado grupo. É disso, exemplo, o estereótipo de que “todos os idosos são solitários”. Este, não tem em consideração os idosos que têm uma vida social activa. Ainda com base neste estereótipo, os idosos activos socialmente, são considerados, muitas vezes, como tendo um comportamento social atípico, pelo que se enquadram numa excepção. Por outro lado são causa de enorme perturbação nos idosos, uma vez que negam o seu processo de crescimento e os impedem de reconhecer as suas potencialidades, de procurar soluções precisas para os seus problemas e de encontrar medidas adequadas. Nesta perspectiva os estereótipos tornam-se inevitavelmente elementos impeditivos na procura de soluções precisas e de medidas adequadas, tornando-se urgente o combate a estas representações sociais gerontofóbicas e de carácter discriminatório, levando os cidadãos a adoptar medidas e comportamentos adequados face aos idosos (Martins & Rodrigues, 2004). Urge uma mudança de paradigma. Para isso torna-se fundamental a ruptura de estereótipos negativos atribuídos à velhice, estabelecer um novo olhar sobre essa etapa da vida. Emerge a necessidade da desconstrução dessa imagem da velhice, negativa, do idoso como excluído do convívio social e profissional. Portanto, é imprescindível o início da 37 transformação progressiva do lugar social da terceira idade, o reconhecimento da velhice e do idoso como sujeito psíquico existente e como agente social, permitindo uma outra maneira de redimensionamento e da inserção do idoso na ordem da temporalidade, delineando a possibilidade de dimensão de futuro (Oliveira, 2007). Marques (2011), discute, na sua obra “Discriminação da Terceira Idade”, o preconceito contra as pessoas idosas, as suas origens e características distintivas, e, introduz o conceito de «idadismo» como conceito central no modo como se pensa esta temática. A autora expõe no seu ensaio várias situações de preconceito social em relação aos idosos. Uma delas retrata o filme de animação «Up», estreado em 2010, cujo herói principal é a personagem Carl Frederiksen de 78 anos. Este herói inusitado parte numa aventura arriscada e perigosa, o que suscitou algumas críticas (apesar de ter sido filme premiado no Festival de Cannes) menos positivas pelos analistas financeiros e demais responsáveis pelo sucesso de vendas, uma vez que era pouco expectável que a faixa etária para a qual o filme foi produzido se interessasse por heróis de tão avançada idade. No entanto, segundo a autora, embora o preconceito contra as pessoas idosas prevaleça de forma marcada na nossa sociedade, o filme «Up» pode representar um importante contributo para chamar a atenção para este problema social e para o combate à exclusão social. A nossa sociedade, cada vez mais envelhecida, começa a exigir pessoas saudáveis e activas durante mais tempo, o que se torna incompatível com visões castradoras do envelhecimento que insistem em depreciar as potencialidades de pessoas como o herói do filme, que aos 78 anos demonstra uma capacidade enorme para percorrer o mundo e partir à aventura. O êxito de bilheteira de «Up» pode considerar-se como um bom indicador de que, apesar de ainda ser pontual a abordagem, a nossa sociedade está aberta à mudança e pode tornar-se menos preconceituosa a longo prazo. O termo «idadismo» (em inglês ageism), surge primeiramente em 1969 mediante o esforço do psicólogo americano Roberto Butler para explicar as reacções negativas de uma comunidade à construção de um empreendimento imobiliário para pessoas idosas na sua vizinhança. Sendo que os potenciais moradores não correspondiam a nenhuma ameaça à localidade, as reacções pareciam não ter explicação. A conclusão de Butler foi que o único factor que transparecia da recusa dos moradores tinha relação com a idade dos inquilinos. Depois dessa constatação e do uso do termo, vários outros países iniciaram estudos no sentido de identificar e eliminar este tipo de manifestações contra os mais velhos (Marques, 2011). 38 Também Berryman et al. (2002) concedem alguma da sua escrita, no seu livro “A psicologia do desenvolvimento humano” a este tema, usando o termo inglês ageism. A autora e seus colaboradores definem o conceito como discriminação negativa contra os mais velhos, visível em atitudes, práticas, descrições ou até piadas sobre idosos. Na publicação “Cadernos Mulheres da Europa” (Houdart-Blazy, 1997), fala-se já de «agismo», transpondo para a Língua Portuguesa o termo «ageism» e associando-lhe ideias como a dependência, doença, solidão, depressão e isolamento social. Marques (2011) retoma dizendo que, no geral, o «idadismo» refere-se às atitudes e práticas negativas generalizadas em relação a indivíduos de determinada idade (e não apenas aos de idade mais avançada, pois há casos de manifestações «idadistas» contra diferentes grupos etários). No Reino Unido, por exemplo, o «idadismo» parece ter mais frequência relativamente aos indivíduos mais jovens. No caso de Portugal, este fenómeno parece atingir sobretudo as pessoas de idade mais avançada. A este tipo especial de «idadismo», alguns especialistas dão o nome de «gerontismo». Existem, segundo Sibila Marques (2011) três componentes essenciais na definição das atitudes «idadistas» (neste caso falaremos apenas do idadismo em relação às pessoas idosas): - O idadismo está associado a crenças ou estereótipos tidos relativamente ao grupo de pessoas idosas, vistas como grupo homogéneo, que se caracteriza por determinados traços negativos, como a incapacidade ou a doença). - As atitudes idadistas estão relacionadas com o preconceito ou os sentimentos tidos relativamente a este grupo etário, manifestando-se através do desprezo ou até sob forma de piedade ou paternalismo. - O idadismo está relacionado com actos efectivos de discriminação em relação aos idosos, como o abuso e os maus-tratos. O idadismo não é apenas um facto individual, mas deve ser levado em conta também como facto institucional e cultural que espelha os valores e as práticas institucionais de uma sociedade. Em Portugal, este fenómeno é um problema social grave. Resultados do Eurobarómetro Especial de 2009 relativo à Discrimination in EU in 2009 mostram que 53% dos portugueses consideram a discriminação pela idade muito frequente na nossa sociedade e 57% das pessoas concordam que a frequência tem vindo a crescer. Também os resultados verificados no módulo «Idadismo» do European Social Survey em 2009 mostram que a discriminação em relação à idade é a principal forma discriminatória 39 sentida pelo povo português (17%), ultrapassando as questões de discriminação pelo sexo (13%) ou pela etnia (11%). Estes estudos demonstram que a faixa etária mais atingida é a das pessoas mais velhas (indivíduos com mais de 80 anos): 30,6% destes indivíduos já se sentiram tratados com pouco respeito, ignorados ou alvos de paternalismo e 26,8% afirmam já ter sido maltratados, insultados, vítimas de abuso ou recusados em determinados serviços por causa da sua idade (Marques, 2011). Existem várias formas de discriminação em relação às pessoas idosas na nossa sociedade. Além das formas mais flagrantes de abuso e maus tratos, existem outras formas mais subtis, como já referimos, de paternalismo, ajuda excessiva ou sobreprotecção, que embora nem sempre mal-intencionados acabam por ser prejudiciais por promoverem a dependência e a incapacidade. Contam-se também as dificuldades no acesso a determinados serviços como formas de tratamento negativo com consequências por vezes graves. A autora acima referida (2011) descreve no seu livro três aspectos essenciais que influenciaram o aparecimento do fenómeno: - O processo de categorização por idades. - A inactividade das pessoas idosas e a percepção de ameaça dos gastos com o envelhecimento; - O predomínio da cultura da juventude; O primeiro aspecto, o processo de categorização por idades, refere-se à classificação das pessoas em categorias, que segundo a autora, é útil, embora possa ter efeitos negativos porque torna as pessoas de determinada categoria como um grupo homogéneo e diferente das outras categorias, deixando de atender às especificidades de cada um. Marques (2011) fala das correlações negativas e ilusórias que as pistas como «cabelos brancos» ou «rugas» podem trazer com conceitos como a «incapacidade» ou a «falta de saúde». O segundo aspecto, que diz respeito ao aspecto da inactividade das pessoas idosas e a percepção de ameaça dos gastos com o envelhecimento, lembra-nos que o idadismo não é exclusivo das nossas sociedades contemporâneas, antes esteve presente em várias épocas. Como já vimos em ponto anterior, esta situação parece atravessar as épocas e quase sempre, os que tinham possibilidade de transmissão de herança eram cuidados e olhados com maior respeito. Certo é que a atribuição da reforma por velhice veio melhorar em geral a situação das pessoas idosas em vários países, no entanto, apesar da situação material dessas pessoas ter melhorado ao longo dos tempos, pouco tem sido feito, segundo 40 a autora, para melhorar a imagem enquanto grupo social. Associa-se muito a ideia da reforma à inactividade e inutilidade. Numa cultura em que o trabalho é valorizado acima de tudo, o facto de as pessoas idosas já não contribuírem de forma activa para a sociedade, é encarado negativamente, apesar de já terem trabalhado e contribuído, na grande maioria dos casos, durante toda a sua vida. Também o número crescente de pessoas idosas preocupa os cidadãos activos, devido aos gastos suportados por estes, dado que existe, para o pagamento das reformas, um princípio de justiça intergeracional, em que os activos contribuem hoje para as reformas actuais e esperam que os activos futuros contribuam para eles. No entanto, existem vários factores que dão a esta teoria um carácter de insustentabilidade a longo prazo, tendência esta, que também contribui para a visão negativa em relação às pessoas idosas. Além dos factores económicos, parece haver também uma motivação de origem cultural para o fenómeno do idadismo em relação às pessoas mais velhas. Vivemos numa época em que o moderno e o novo são privilegiados, em que o avanço tecnológico é considerado um valor primordial e em que o progresso parece estar dependente da juventude É nos jovens que se investe a formação e a maturidade e experiência são deixados para trás. Note-se também o culto da beleza, juventude, vitalidade, que bombardeiam os media com tratamentos e promessas rejuvenescedores (Monteiro & Neto, 2008; Marques, 2011). Claro que em alguns países, como os orientais, a tradição de respeito pelos mais velhos minimiza esta tendência, considerando os idosos como modelos éticos e morais a seguir. Também o facto de as pessoas habitarem em casas multigeracionais faz com que neste tipo de organização social as pessoas idosas desempenhem um papel activo, tornando-as não um fardo para a sociedade, mas antes uma parte integrante da economia e da vida social (idem). Assim, compreendemos que a industrialização e a modernização nem sempre são sinónimos de negativismo em relação às pessoas mais velhas. Veja-se o exemplo de países orientais como a China e o Japão. O Estado pode ter, desta forma, um papel importante, atenuando os impactos destas tendências. A concepção de políticas adequadas pode procurar garantir a valorização dos cidadãos mais velhos e desmistificar alguma negligência para com a velhice (idem). Compreender as diferentes formas que podem assumir este fenómeno é importantíssimo para a sociedade de modo a que possam ser delineadas políticas adequadas com vista a combater este tipo de atitudes. 41 Barros de Oliveira (2008) refere que não tem sido feito um esforço para que a concepção em relação aos mais velhos modifique. O autor apresenta alguns estudos que provaram que as crianças modificavam positivamente o seu conceito em relação aos idosos depois de serem sujeitas a programas intergeracionais, daí a importância e necessidade de programas educativos neste domínio e de maior contacto ou convívio entre novos e velhos. Berryman et al. (2002) propõem medidas para combater o ageism, como um rendimento adequado que torne possível a continuação da independência e da actividade, legislação apropriada e, sobretudo, educação, uma vez que deve ser ensinado, desde a infância, que os mais velhos têm os mesmos direitos que os jovens, que as desvantagens da idade são reais mas têm soluções e que a velhice, tal como a juventude, pode ser um tempo de felicidade e crescimento. 2.6. Envelhecimento activo – Ano Europeu 2012 A 23 de Setembro de 2011, a União Europeia designava, através da sua Decisão 940/2011/EU, o ano de 2012 como o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações (European Comission, 2011a). Esta iniciativa pretendia “sensibilizar para o contributo dos idosos na sociedade e para o apoio que podemos prestar nesse sentido. […] incentivar e mobilizar os decisores políticos e os principais actores a todos os níveis para que actuem no intuito de criar melhores oportunidades de envelhecimento activo e reforçar a solidariedade entre gerações.” (European Comission, 2012, p. 2). Mas o que significa envelhecimento activo? Segundo a European Comission (2012, p. 3), “Envelhecimento activo significa envelhecer com boa saúde e como pleno membro da sociedade, com um maior sentido de realização profissional, maior independência na vida quotidiana e maior participação enquanto cidadãos”. O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações teve o intuito de promover o envelhecimento activo em três domínios: Emprego – com o aumento da esperança de vida e, consequentemente, da idade da reforma em toda a Europa, teriam de ser promovidas oportunidades para os trabalhadores mais velhos no mercado de trabalho através de: Aprendizagem ao longo da vida e aquisição de novas competências, condições de trabalho saudáveis, estratégias de gestão da idade nas empresas, serviços de emprego para candidatos mais velhos, não discriminação 42 com base na idade, sistemas fiscais e de segurança social favoráveis ao emprego, transferência e experiência. Participação na sociedade – O Ano Europeu 2012 pretendeu criar melhores condições de apoio aos idosos e garantir um maior reconhecimento da sua importância para a sociedade (como cuidadores de pais, cônjuges, netos) através de: Segurança dos rendimentos dos idosos, apoio à participação social e ao voluntariado, apoio aos cuidadores, conciliação entre trabalho e assistência, solidariedade e diálogo, redução do fosso digital. Promoção de uma vida independente – Tentou retardar o declínio da saúde de várias formas, criando ambientes mais acolhedores para quem sofre de incapacidades e problemas de saúde e ajudando a manter a independência durante o maior tempo possível através de: Promoção da saúde e cuidados de saúde preventivos, adaptação das habitações, transportes acessíveis e económicos, ambientes, bens e serviços adequados aos idosos, maximização da autonomia nos cuidados a longo prazo, adaptações tecnológicas de incentivo a uma vida independente. Na nossa opinião, e apesar de a Comissão Europeia ter declarado 2012 como o ano europeu do envelhecimento ativo e da solidariedade entre gerações, é de equacionar que esta última aspiração está longe de ter sido garantida; aliás, o aumento exponencial do desemprego entre as pessoas mais jovens sugere um enquadramento que lhe é mesmo particularmente adverso. Como compatibilizar o encorajamento à retenção laboral das pessoas de mais idade com a integração da população mais jovem no mercado de trabalho? Esta é uma questão política e social de extrema importância e que remete para a urgência de estratégias e políticas de emprego e de coesão social coerentes no espaço europeu. Se é verdade que, neste momento, a geração jovem está mais sujeita à precariedade laboral e ao desemprego, é entre as pessoas de idade mais avançada que estas condições se revelam particularmente graves, dadas as dificuldades em encontrar um novo emprego. O desemprego de longa duração atinge valores muito elevados em vários países europeus, envolvendo mais de metade das trabalhadoras e dos trabalhadores desempregados com idades entre os 55 e os 64 anos. Em Portugal, a situação é particularmente grave, dado que o DLD (desemprego de longa duração) abrange praticamente três quartos das mulheres e dos homens desempregados neste escalão etário (dados referentes a 2010), ao mesmo tempo que as mulheres dominam no grupo das pessoas inativas desencorajadas. Importa ponderar que esta questão, já por si particularmente preocupante, pode estar sujeita a um maior agravamento em resultado dos programas de austeridade, das reformas nos sistemas 43 laborais e de segurança social. Em Portugal, por exemplo, a maior facilidade no despedimento pode levar as entidades empregadoras a porem fim a relações contratuais estáveis, substituindo pessoas de mais idade por trabalhadores e trabalhadoras com vínculos precários e salários mais baixos. Concomitantemente, os cortes nas compensações por despedimento, as reduções nas prestações sociais e no período coberto pelo subsídio de desemprego poderão contribuir para um agravamento da vulnerabilidade económica e social das pessoas desempregadas, empurrando-as para situações de pobreza persistente (condição que atinge particularmente as mulheres). Acresce que, uma vez que as mulheres auferem menos que os homens ao longo de toda a trajetória laboral e, em algumas sociedades, tendem a ter uma participação menos intensiva ou mesmo descontínua (com interrupção após o nascimento dos/as filhos/as), importa alertar para o facto de algumas reformas introduzidas nos sistemas de pensões serem particularmente penalizadoras para a população feminina. As orientações políticas e as medidas associadas ao prolongamento da vida ativa não têm, também, integrado a dimensão de género. O aumento da esperança média de vida tem tido um impacto diferenciado nas experiências das trabalhadoras e dos trabalhadores com mais de 55 anos de idade. As mulheres enfrentam agora uma maior probabilidade de terem pessoas idosas ao seu cuidado, sobretudo naqueles contextos onde escasseiam os equipamentos públicos e/ou estruturas formais de apoio à população idosa. O envelhecimento activo acarreta, assim, novos desafios e tensões na vida de muitas mulheres, cujo quotidiano se reparte pelo cumprimento de responsabilidades várias, seja na esfera laboral, familiar (domínio onde são as principais prestadoras de cuidados a elementos progenitores e/ou a crianças mais pequenas – netos e netas), seja ainda na comunidade mais vasta. À excepção de um conjunto de boas práticas isoladas e de algumas orientações seguidas em alguns países nórdicos (Dinamarca e Suécia), em geral as políticas promotoras do envelhecimento activo têm negligenciado áreas relevantes de apoio – desde a criação e disponibilização de equipamentos e serviços de assistência às famílias (tanto destinados a crianças como a pessoas dependentes) até às oportunidades de aprendizagem durante toda a vida activa. Acresce que, no que diz respeito às relações de género na esfera privada, pouco se tem empreendido na monitorização sistemática das assimetrias de género na repartição dos tempos, do trabalho doméstico e do cuidar, na avaliação dos custos económicos e sociais dessa desigualdade, e em medidas concretas no sentido da respetiva superação e da melhoria das condições de vida das mulheres. Afigura-se oportuna a expressão utilizada pela filósofa e socióloga francesa Dominique Méda acerca da presente 44 revolução silenciosa. Ao mesmo tempo que é exigido às mulheres que prolonguem o seu ciclo de vida laboral, a sociedade em torno permanece silenciosa e imobilizada perante os desafios suscitados por essa mudança. O actual contexto de retração do estado social e de austeridade incorre no risco de aprofundar esse silêncio (Casaca & Bould, 2012). Resumindo, o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações visou identificar e promover boas práticas, de modo a ultrapassar os obstáculos ao envelhecimento activo e reforçar a solidariedade intergeracional nos dois sentidos: a das pessoas idosas em relação aos jovens e o inverso. Urge ajudar as pessoas mais velhas a manter o seu estatuto no mercado de trabalho e a partilhar a sua experiência, permitindolhes ter um papel mais activo na sociedade e viver de modo são e harmonioso. O desafio para os responsáveis políticos e as partes intervenientes, como as autoridades locais e regionais, empregadores e sindicatos, entre outros, é o de pôr este projecto em prática nos vários domínios, como no emprego, nos cuidados de saúde, nos serviços sociais, na formação de adultos, no voluntariado, na habitação, nos serviços informáticos e nos transportes. Os benefícios de um envelhecimento activo são consideráveis para toda a sociedade. Todavia, este deve fazer-e acompanhar de uma profunda modificação das políticas e mentalidades. O Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações foi, pelo menos, o ponto de partida para a necessária transformação da nossa sociedade (Comission Europénne sur l' Emploi et les Affaires Sociales, Une Année européenne d'action, 2012). 2.7. A qualidade de vida e o envelhecimento produtivo O reconhecimento de que a qualidade de vida constitui um tema importante para a promoção da saúde física e mental e para o bem-estar social das pessoas tem estimulado vários estudos envolvendo esse tema. A qualidade de vida foi definida pela Organização Mundial de Saúde como “a percepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objectivos, expectativas, padrões e preocupações” (Fleck, et al., 2000, p. 179). As investigações sobre as condições que permitem uma boa qualidade de vida na velhice revestem-se de grande importância científica e social. Carneiro et al. (2006) 45 mostram que a qualidade de vida do idoso pode estar relacionada com os seguintes aspectos: capacidade funcional, estado emocional, interacção social, actividade intelectual e autoprotecção de saúde. Já Frutuoso (1999) indica que muitos estudos referem um aumento da qualidade de vida e da longevidade em idosos que apresentam uma vida social intensa. Além disso, uma relação directa entre relacionamentos sociais, qualidade de vida e capacidade funcional e uma relação inversa desses factores com a depressão têm sido apontadas por diversos autores (Albuquerque, 2003). Esses dados sustentam a importância dos relacionamentos sociais para o bem-estar físico e mental na velhice (idem) e, consequentemente, uma vida com qualidade. Promover a qualidade de vida numa etapa de vida em que algum declínio físico é incontornável implica ter em conta critérios multidimensionais, como a manutenção da rede social e de actividades significativas. A perspectiva do envelhecimento produtivo enfatiza em simultâneo os contributos prestados pelos idosos à sociedade, através dos bens que produzem, e o bem-estar e qualidade de vida derivados do processo. Um envelhecimento bem-sucedido compreende selecção (delineação de objectivos individuais face aos condicionamentos derivados do envelhecimento), optimização (processo de procura e maximização das condições necessárias para fazer face ao envelhecimento) e compensação (aquisição de meios, tangíveis ou simbólicos, para alcançar os objectivos definidos) bem como mecanismos de adaptação interactivos que procuram sempre a maximização dos ganhos e a minimização das perdas que ocorrem em idades avançadas. Falar de envelhecimento bem-sucedido é falar também de qualidade de vida que não deixa de compreender critérios mensuráveis e concretos como funcionamento fisiológico ou manutenção das actividades de vida diária ou mais subjectivos como a satisfação pessoal, que traduz o balanço entre expectativas e objectivos alcançados (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006). Segundo estes autores, o ritmo a que sucede o declínio poderia ser evitado através de contextos socioculturais que compensassem a perda de recursos biológicos. Surge assim, o conceito de Envelhecimento Produtivo (EP) usado a partir da década de 70, em contextos sociais, académicos e políticos para combater a imagem dos idosos de que eram pessoas dependentes, frágeis e inúteis para a sociedade. Não existe uma definição consensual para o conceito mas algumas características subjacentes que ajudam a compreendê-lo. Assim, o EP é um envelhecimento em que existe a presença de “uma actividade significativa e satisfatória, em que o idoso está envolvido de forma estruturada e continuada e que tem um impacto positivo na sua vida” (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006, p. 139). 46 Existe então uma produção de bens ou serviços, voluntária, como por exemplo cuidar dos netos, ou remunerada, como o trabalho sénior. Importa salientar que mesmo as actividades voluntárias produzem bens, mesmo que de modo indirecto: ao cuidar dos netos, o idoso permite aos seus filhos o aumento do tempo dedicado à sua carreira, possibilitando então a optimização do seu desempenho. Encontramos então duas dimensões paralelas inerentes ao conceito de EP: uma objectiva, que enfatiza os contributos realizados pelo idoso para com os seus familiares, grupo social ou comunidade, e uma visão subjectiva, que privilegia a componente afectiva do processo, no sentido das suas consequências positivas em termo de bem-estar e qualidade de vida do idoso. Deste modo, o paradigma subjacente ao EP conceptualiza o envelhecimento sob uma perspectiva positiva, refutando estereótipos e valorizando o papel desempenhado pelos idosos, bem como os contributos que prestam. À incapacidade e dependência, o EP opõe uma imagem de saúde e bem-estar, onde a autonomia não só é possível como também desejável; o idoso não é mais um personagem vulnerável e passivo, mas antes um agente activo no seu envelhecimento, podendo continuar a tomada de decisão de modo significativo (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006). Segundo Martín e colaboradores (2006, citados por Gonçalves et al. 2006), podemos estruturar as tarefas desempenhadas pelos idosos em torno de quatro eixos essenciais: (I) Meio familiar, onde os papéis são desempenhados através da transferência de tempo, da translação de dinheiro e da função educativa dos netos; (II) Promoção social, maioritariamente nos programas de voluntariado sénior e nos programas intergeracionais; (III) Trabalho sénior, no âmbito rural e dos serviços e meio político. Seria agora necessário indagar sobre o impacto do desempenho destas tarefas produtivas, quer a nível pessoal quer social. Assim, para os idosos, os benefícios são condicionados pelas condições em que os papéis se desenvolvem, não sendo possível afirmar peremptoriamente que os resultados são sempre positivos. Assim, Gonçalves et al (2006) referem que a prestação de cuidados aos descendentes, de primeira ou segunda geração, funciona como um factor promotor do bem-estar dos idosos, mas que a acumulação de tarefas pode conduzir ao declínio do mesmo, a integração numa estrutura de voluntariado formal permite ao idoso a manutenção de relações interpessoais, 47 diminuindo o isolamento e o impacto negativo que este tem na sua saúde, o estabelecimento de novas relações e a aquisição de novos papéis tem um impacto positivo na sua saúde e no seu bem-estar, prevenindo a perda de identidade e a doença mental e a continuidade no posto de trabalho é uma fonte de auto-realização e satisfação permitindo a manutenção do sentimento de utilidade social e familiar. Cabe pois aos profissionais, que trabalham de modo directo ou indirecto com idosos, em contextos sociais, de saúde ou políticos, garantir a implementação de estratégias continuadas de EP, como meio para garantir a manutenção dos papéis e, consequentemente, o seu bem-estar e qualidade de vida. O envelhecimento bem-sucedido só será alcançado através de um esforço intencional e concertado por parte dos profissionais. Promover o envelhecimento produtivo implica embargar os estereótipos vigentes, que apresentam os idosos como frágeis, incapazes, doentes e pouco produtivos, substituindo a imagem tradicional por outra mais actual, de recursos, capacidade e disponibilidade (Gonçalves, Martín, Guedes, Cabral-Pinto, & Fonseca, 2006). Podemos concluir que os estereótipos de fragilidade, incapacidade e improdutividade ensombram o acesso a novas oportunidades e formas de desenvolvimento, essenciais para a manutenção da qualidade de vida. O envelhecimento produtivo (EP) adopta uma perspectiva optimista sobre as capacidades dos idosos, promovendo o acesso a diferentes sectores e actividades, essenciais para o envelhecimento bem-sucedido. 2.8. O lazer como factor de qualidade de vida na velhice O lazer e o bem-estar estão directamente relacionados com a qualidade de vida da pessoa em geral e do idoso em particular, interferindo na solução dos seus problemas e no equilíbrio de cada um (Davim, Dantas, Lima, & Lima, 2003). Para Ferrari (1996 citado por Davim et al., 2003), o lazer é um assunto cujo significado os estudiosos ainda não obtiveram consenso. O que se nota nas diversas conceptualizações sobre o lazer é que são enfatizadas duas linhas de conhecimento. A primeira linha envolve o aspecto psicológico. Nesta linha, o lazer é um estilo de comportamento semelhante ao prazer, enfatizando-se o aspecto atitude, independentemente de um tempo determinado, e, a partir daí, qualquer situação pode constituir uma oportunidade para a prática do lazer. O estilo de vida seria definido como o modo pessoal como cada indivíduo organiza sua vida quotidiana. A segunda linha envolve o aspecto 48 sociológico e privilegia o tempo, situando-o quer como escape do trabalho ao final do dia, da semana, de um ano inteiro ou mesmo de uma vida de trabalho, quer como tempo livre, não só do trabalho, mas de outras obrigações, sejam familiares, sociais, religiosas ou políticas. Dumazedier (1980), citado por Davim et al.( 2003) define o lazer como o tempo que cada um tem para si, representado por ocupações não obrigatórias, às quais o indivíduo pode se entregar de bom grado, para desenvolver informações ou formação desinteressadas, participação social ou capacidade criadora, liberdade quanto a obrigações profissionais, familiares, sociais, espirituais e políticas. Este ponto reúne as três funções do lazer apontadas pelo autor, que seriam: a) Descanso, b) Divertimento, recreação e entretenimento, c) Desenvolvimento pessoal. Através destes conceitos, pode-se resumir que a palavra lazer remete para um universo de significados, em que se mesclam interpretações da moral, da religião, da filosofia e finalmente do senso comum, trazendo uma condição de felicidade e liberdade para o indivíduo. Também na concepção de Santini (1993), citado por Davim et al. (2003), a palavra lazer não tem um significado muito claro. Reporta-se ao século XIII, quando apareceu na língua francesa a palavra loisir, cuja raiz tem origem no termo latino licere, que contém na sua essência a ideia de permissão. Tudo isto faz com que o sentido da palavra exprima a ideia de ausência, - ausência de regras, de obrigações, de repressão ou de censura. Assim, o lazer evoca ter tempo de fazer qualquer coisa de que se goste. Para o autor, o lazer, com este sentido, evoca ausência de constrangimento que indique uma qualidade subjectiva de acção. Portanto, na concepção do pesquisador Dumazedier (1980), citado por Davim et al. (2003), as actividades de lazer são classificadas por áreas de interesse dos indivíduos, assim relacionadas: a) Manuais – são actividades práticas que trazem prazer através do manuseio de matéria-prima, imprimindo-lhes um sentido estético e/ou utilitário; b) Intelectuais – o lazer pode ser um exercício do conhecimento em qualquer campo, pois tudo na vida é fonte de conhecimento, de informação e de aprendizagem; c) Associativa – havendo um conteúdo de sociabilidade, expresso no contacto com amigos, colegas de trabalho ou vizinhos, representado pelo convívio social com outras pessoas; 49 d) Artísticas – ligadas ao campo estético, do belo, da emoção, do encantamento, do sentimento; e) Físicas – são aquelas actividades que levam o indivíduo a conhecer novos lugares, novas formas de vida, permitindo num curto período alterar a rotina quotidiana, com práticas como tirar férias e fins-de-semana, visitar monumentos, lugares de interesse paisagístico ou ambiental, etc. Em Portugal, bem como na maior parte do mundo, são diversos os programas de lazer e convívio destinados às idades avançadas, como o Turismo Sénior, as Universidades da Terceira Idade, os Centros de Convívio para idosos, a prática municipal de actividade física para a Terceira Idade, etc. Na velhice, o tempo de lazer, sem constrangimentos, é aproveitado por algumas pessoas como sendo uma oportunidade para se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo da liberdade, em que pode haver um acesso a actividades que preencham as horas livres de forma gratificante e agradável (Monteiro & Neto, 2008). 2.9. O idoso na família e na sociedade – Reformado, e agora? Como diz Barros de Oliveira (2008), a entrada para a terceira idade coincide com a problemática da reforma, que pode trazer aspectos positivos ou não, de acordo com a condição social e psíquica de cada idoso e da família que o cerca. O autor refere que “pode ser um tempo de desgraça, se o reformado não sabe encontrar novas formas e viver e conviver, de ocupar o seu tempo; mas normalmente torna-se tempo de graça, de maior disponibilidade para finalmente e calmamente se poder fazer aquilo que mais se gosta” (p. 118). Um desses factores de “graça”, podem ser os netos, que dão um novo sentido à vida, sendo considerada muito positiva a intervenção dos avós na educação das crianças, dependendo, claro está, de diversos factores como a idade, a formação e a personalidade, entre outras circunstâncias (Barros de Oliveira, 2008). Berryman et al. (2002) também referem aspectos positivos e menos positivos da entrada na reforma. Positivos quando se relacionam com uma fase da vida livre de exigências profissionais e familiares e negativos no que toca a factores como perda de rendimento, perda de papel social ou identidade. Os autores associam mesmo, de forma causal, a reforma a uma diminuição da moral, da saúde ou da satisfação. 50 Atchley (1976), citado por Berryman et al. (2002), sugere que quando as pessoas se reformam podem vivenciar algumas fases de adaptação. A primeira, imediatamente após a passagem à aposentação seria a fase chamada de “lua-de-mel”, seguida logo de seguida por uma fase de desencanto e mais tarde de outro período de reorientação e estabilidade. Os estudos feitos demonstram também que é, geralmente, menos problemática a reforma nas mulheres do que nos homens, uma vez que elas continuam a exercer o seu papel doméstico e porque estão mais adaptadas a uma certa inconstância de papéis ao longo da sua vida adulta, embora em mulheres sós também tende a ser uma fase difícil pelas reformas consideravelmente mais baixas no geral e as dificuldades do foro financeiro que daí podem advir. De qualquer forma, o impacto psicológico da reforma está intimamente ligado com factores como o nível de rendimento, o estado de saúde e a existência de actividade substituta – social, de lazer e familiar, antes e após a reforma (Berryman, Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002). É nesta perspectiva que as relações sociais do idoso têm um papel de extrema importância na sua qualidade de vida. O argumento a favor da ideia de que as relações sociais podem, de várias formas, promover melhores condições de saúde tem sido salientado em vários estudos (Ramos, 2002). Por outro lado, a ausência de convívio social causa severos efeitos negativos na capacidade cognitiva geral (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006), para além de depressão. A pobreza de relações sociais como um factor de risco para a saúde tem sido considerada tão danosa quanto o tabaco, a hipertensão, a obesidade e a ausência de actividade física (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Este conjunto de evidências sugere que a deterioração da saúde pode ser causada não somente por um desgaste natural do organismo, sedentarismo ou uso de tabaco, mas, também, pela redução da quantidade ou qualidade das relações sociais (Ramos, 2002). De uma forma geral, podese argumentar que as pessoas que têm maior contacto social vivem mais e com melhor saúde do que as pessoas com menor contacto social (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). No entanto, Carneiro et al. (2006) ressaltam que a qualidade dos contactos sociais é mais importante do que a sua quantidade. Como propõem os autores, uma pessoa que tem uma conduta interpessoal efectiva é capaz de desenvolver redes sociais de apoio, que operam como um dos factores mais relevantes na recuperação e prevenção dos problemas de saúde mental. Cobb (1976) refere que o apoio social leva o indivíduo a acreditar que é 51 querido, amado e estimado e que faz parte de uma rede social com compromissos mútuos. Declarações deste tipo apontam para a necessidade de não se confundir apoio social com interacção social, salientando-se que nem todos os relacionamentos oferecem apoio e que alguns relacionamentos podem ser, na realidade, muito stressantes. Assim, parece que a capacidade de interagir socialmente é fundamental para o idoso, para conquistar e manter redes de apoio social e, consequentemente, garantir melhor qualidade de vida (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). A constatação de que as habilidades sociais estão relacionadas com uma melhor qualidade de vida vem despertando o interesse de especialistas e multiplicando as pesquisas sobre o tema (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Por outro lado, as deficiências e comprometimentos das habilidades sociais estão geralmente associados a dificuldades nas relações interpessoais e a diversos tipos de transtornos psicológicos como, por exemplo, a timidez, o isolamento social, o suicídio e a depressão. É importante, deste modo, conforme Carneiro et. al (2006), diferenciar os termos habilidades sociais, competência social e desempenho social: O desempenho social refere-se à emissão de um comportamento ou sequência de comportamentos numa situação qualquer. Já o termo habilidades sociais refere-se à existência de diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais. A competência social tem sentido avaliativo que remete aos efeitos do desempenho social nas situações vividas pelo indivíduo. Em estudo mais recente, esses autores chamam a atenção para o uso cuidadoso desses conceitos. As habilidades sociais devem ser tomadas num sentido descritivo, de caracterização do repertório do indivíduo. Desta maneira, designar alguém como socialmente habilidoso não seria adequado, uma vez que esse termo é mais avaliativo do que descritivo. A competência social, por sua vez, deve ser compreendida sob uma perspectiva avaliativa a respeito da proficiência do desempenho. Assim, a competência social está relacionada a capacidade de organizar pensamentos, sentimentos e acções em função de seus objectivos e valores, articulando- os num desempenho que atende às demandas mediatas e imediatas do ambiente. O conjunto das habilidades requeridas para relações interpessoais satisfatórias inclui diferentes classes e subclasses dentre as quais as habilidades de comunicação, assertivas, empáticas, de civilidade, de expressividade emocional, de trabalho etc. (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Apesar de se reconhecer a importância do repertório social do idoso, a literatura especializada ainda é escassa em estudos de avaliação nessa área. Embora a literatura 52 aponte para uma associação entre relações interpessoais, apoio social e qualidade de vida na terceira idade, são escassas as pesquisas que focalizam, especificamente, o repertório de habilidades sociais de idosos e a sua relação empírica com essas variáveis. Pode-se supor que o idoso que conta com uma rede de apoio social tende a ser socialmente mais competente, além de possuir níveis mais elevados de qualidade de vida do que aquele que interage apenas com o seu grupo familiar e com alguns amigos. Por outro lado, idosos saudáveis institucionalizados, por carecerem de apoio social, podem apresentar deficiências nas habilidades sociais, além de baixa qualidade de vida e, consequentemente, níveis mais elevados de depressão (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Também Monteiro e Neto (2008) dedicam um capítulo do seu livro a um aspecto dos relacionamentos sociais dos idosos, ou melhor, à ausência de relacionamentos sociais a solidão. Os autores, citando Hawkley et al. (2006), sublinham que “a experiência da solidão inclui sentimento de isolamento (ausência ou distância pessoal de outrem significativo), sentimentos de desligamento (sentimento de que não se tem um confidente, um amigo íntimo) e sentimentos de não pertencer (não se identificar com ou não ser aceite por grupos sociais significativos) ” (2008, p. 85). Berryman et al. (2002, p. 298), baseandose em Cumming e Henry, definem o isolamento como “uma retirada mútua do indivíduo da interacção social, e da sociedade do indivíduo”. Esse desligamento pode surgir por diversas razões: as mudanças nos papéis laborais e familiares, a redução da saúde, energia e forma física, as dificuldades de comunicação e o esquecimento são motivos para dificultar as interacções sociais. Existe, segunda a autora, um outro motivo, embora visto como tendência generalizada, para o isolamento: a vontade de reviver ou rememorar o passado. Embora Cumming e Henry (citados por Berryman et al., 2002) afirmassem que o desligamento seria uma fase natural e inevitável da última fase da vida, outros autores como Neugarten, Havighurst e Atchley (citados por Berryman et al., 2002) deram provas, nos seus estudos, de que a actividade, sobretudo a actividade social tinha uma forte ligação com os índices de felicidade, sendo “a interacção social desejável e necessária para preservar a auto-estima e a moral na derradeira fase da vida”. Assim, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008, p. 87) “uma das componentes mais pertinentes para a qualidade de vida é o apoio da família, dos amigos e a participação em actividades sociais. Baixos níveis de contactos sociais estão associados a uma pobre qualidade de vida […]”. 53 54 CAPÍTULO 3 – A EDUCAÇÃO E OS IDOSOS Colocar a educação e formação de adultos como um das prioridades das políticas educativas deveria ser um imperativo de qualquer sociedade. Helena L. M. Quintas (2008:7) Desde os primórdios, em todo o Mundo, existe educação: educar alguém e ser educado por outrem. O acesso à educação formal, não sendo ainda uma realidade em todos os países, é uma intenção e muitas vezes, aspiração das sociedades. A democratização do ensino, garante da igualdade de direitos em relação à educação para todos, faz com que a educação de adultos tenha vindo a ganhar alguma força, levando, aos poucos, a que todos tenham a hipótese de aprender, até mesmo os que não tiveram a oportunidade de ter uma escolarização inicial. Noutras épocas, o abandono ou a não frequência da escola, era uma opção virada para o mundo do trabalho. Actualmente, pelo contrário, procura-se estimular e dar oportunidades de voltar, em qualquer idade, para iniciar, retomar ou procurar novas formas de aprendizagem e novos conhecimentos (Castro & Franco, 1980). Tende-se, no entanto, frequentemente, a confundir educação com escolaridade e, consequentemente, associa-se a educação a um processo que só ocorre com crianças e jovens. É verdade que a escola é uma instituição de extrema importância no contexto educativo e na sociedade em geral, mas ainda mais importante que a escola é a própria educação. Isto é, a escola nem sempre existiu, nem se sabe se irá perdurar, o que se sabe é que o que sempre existiu e continuará a existir é a função educativa da sociedade (Loureiro, 2006). 3.1. Perspectiva histórica A Educação de Adultos foi definida, em 1976, na Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura: «A expressão “educação de adultos” designa o conjunto de processos organizados de educação, qualquer que seja o seu conteúdo, o nível e o método, quer sejam formais ou não formais, quer prolonguem ou substituam a educação inicial dispensada nos estabelecimentos escolares e universitários e sob a forma de aprendizagem profissional, 55 graças aos quais pessoas consideradas como adultas pela sociedade de que fazem parte desenvolvem as suas aptidões, enriquecem os seus conhecimentos, melhoram as suas qualificações técnicas ou profissionais ou lhe dão uma nova orientação, e fazem evoluir as suas atitudes ou o seu comportamento na dupla perspectiva de um desenvolvimento socioeconómico e cultural equilibrado e independente» (UNESCO, 1976:2 citado por Veloso, 2011:137). Note-se a expressão « […] pessoas consideradas como adultas pela sociedade de que fazem parte» que sabiamente chama a atenção para a possível heterogeneidade que pode existir entre as diversas sociedades e o significado que «adulto» pode ter em cada caso. Podendo esta expressão problematizar a idade mínima em que se considera o indivíduo como um adulto, podemos também pensar a questão em relação ao tecto máximo de idade. Veloso (2011) questiona se existirá alguma idade a partir da qual um indivíduo deixa de ser considerado adulto e consequentemente, deixa de ter direitos ao nível da educação. Esta questão leva a que se possa fazer outra: como é que a educação de adultos tem perspectivado a categoria social dos idosos face ao seu direito à educação? A autora (2011), tentando responder a esta última questão, verifica que apenas a partir de 1972, na Terceira Conferência Internacional de Educação de Adultos realizada em Tóquio, se fez a primeira referência aos diversos grupos mais marginalizados na educação, entre eles, o grupo dos idosos, embora de forma muito ténue, e quase implícita face aos outros grupos, como o das mulheres, jovens, emigrantes ou desempregados, que ao contrário, mereceram recomendações específicas e diferenciadas. Já na anterior citada Recomendação da UNESCO de 1976, sobre a Educação de Adultos, a situação dos idosos é um pouco mais definida quando considera que deve haver uma correcção das desigualdades de acesso ao ensino e formação, sobretudo no que deriva da idade, condição geográfica ou social e especifica mais quando recomenda que a educação de adultos não deve ser limitada por razões de vária ordem, entre elas, a idade e preconiza mesmo algumas garantias que a educação de adultos deve dar aos idosos, como a ajuda na compreensão entre gerações, a possibilidade de aproveitar os tempos livres, a encontrar um melhor sentido para a vida, novas maneiras de enfrentar os problemas que se põem aos reformados, ajuda na conservação das faculdades físicas e intelectuais e continuação da participação na vida colectiva, etc. (Veloso, 2011). Em 1985, na Quarta Conferência Internacional de Educação de Adultos, realizada, desta vez, em Paris, os idosos continuam a merecer atenção específica, considerando já o enquadramento do envelhecimento populacional. Nesta recomendação, é focado mais o 56 aspecto da promoção do acesso à educação e à cultura independentemente da idade, e menos a função de manutenção das capacidades físicas e intelectuais, situando a acção mais ao nível dos direitos e menos na linha da protecção. Nesta mesma Conferência, os idosos deixam de ser considerados grupo desfavorecido e passam a fazer parte do grupo com necessidades particulares em educação. Começa-se enfim a reconhecer o direito à educação por parte de todas as pessoas e em particular pelas pessoas idosas (Veloso, 2011). Em 1997, em Hamburgo, na Quinta Conferência sobre Educação de Adultos, é realçado o peso demográfico da população mais velha, reconhecendo a esta faixa etária a importância merecida. Nesta conferência é enfim assumido que a educação é um direito inalienável para todos e deve concretizar-se tendo em conta as características e necessidades de cada idade recorrendo a uma pedagogia centrada no indivíduo e garantindo a participação nas mais diversas actividades educativas como cidadãos (idem). No entanto, apesar de serem cada vez mais reconhecidos em diferentes instâncias os problemas que afectam os idosos e a necessidade de intervenção no campo educativo, o cenário não tem passado muito, segundo Veloso (2011), de declarações de intenção. A concretização de políticas e respectivas medidas tem estado comprometida, logo, o direito à educação dos adultos, nomeadamente, dos idosos, também, como a autora comprova ao transcrever um excerto das conclusões do Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais de 1999, responsável por vigiar o cumprimento das obrigações assumidas no Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais: «O Comité de Direitos Económicos, Sociais e Culturais considera que os Estados Partes no Pacto devem prestar uma atenção especial à promoção e protecção dos direitos económicos, sociais e culturais das pessoas idosas […] Os relatórios examinados até agora não fornecem dados sistemáticos sobre a situação das pessoas idosas, no que se refere ao cumprimento do Pacto […] O Comité verifica que a grande maioria dos relatórios dos Estados Partes continua a referir-se pouco a esta importante questão» (Nações Unidas, 1999:4 citado por Veloso, 2011). Desta forma, podemos resumir dizendo que a educação de adultos promovida pelo Estado tem sido essencialmente caracterizada pela valorização de acções promotoras da educação e formação profissional, destinando-se principalmente a jovens adultos e adultos em idade activa. Os idosos, esses, em inactividade profissional, ficam quase de parte, tendo uma diminuta participação, não tendo oferta educativa por razões financeiras, de gestão de recursos humanos ou metodológicos, valorizando mais uma lógica de mercado (Veloso, 2011). 57 3.2. O processo de aprendizagem e as mudanças cognitivas na velhice Como vimos em capítulo anterior, trata-se de uma visão estereotipada o facto de se considerar uma associação entre a idade avançada e o declínio das capacidades intelectuais e de aprendizagem. Aforismos populares como “Burro velho não aprende línguas” ou “Não se ensinam truques novos a cão velho” são argumentos que mostram pontos de vista exagerados ou mesmo totalmente incorrectos. Existe, na verdade, algum declínio mas em idade bastante tardia, sendo que “alguns aspectos do desempenho são mais sensíveis que outros aos efeitos da idade e, nas situações em que o desempenho é pior nas pessoas idosas, poderão existir outras razões sem ser a falta de capacidade cognitiva” (Berryman, Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002, p. 290). Segundo os autores, já foram feitos vários estudos sobre mudanças cognitivas na idade adulta e avançada, mas todos de carácter transversal, em que são testados grupos de diferentes idades e comparados entre si. Estes estudos, embora úteis, esquecem as mudanças pessoais nos mesmos indivíduos e não têm em conta as coortes de nascimento (tempo histórico do nascimento que também acarreta diferenças substanciais). Seria assim, importante, serem efectuados estudos longitudinais de modo a determinar variáveis nos mesmos indivíduos (Berryman, Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002; Barros de Oliveira, 2008). Marchand (2001), refere que se verifica que certos autores situam as perdas intelectuais se manifestam a partir dos 30 anos, outros situam-nas mais cedo e outros ainda, mais tarde. Simões (2001), citado por Monteiro & Neto (2008), diz que o declínio se manifesta na rapidez perceptiva pelos cinquenta anos e o raciocínio indutivo e a orientação espacial só a partir dos sessenta anos. Já perto dos setenta é que são verificadas perdas na aptidão ou na memória verbal. Segundo Marchand (2001, p. 54), as áreas em que o declínio é verificado são várias, como ”o tempo de reacção, a flexibilidade visuomotora, a memória a curto prazo, a agilidade mental, a capacidade de transferência e a concentração da atenção”. Barros de Oliveira (2008) também refere o declínio como sendo ligeiro e mais ligado à eficiência verbal ou às funções perceptivas espaciais (com menor velocidade de realização) mas acrescenta que “alguns idosos beneficiam de um funcionamento cognitivo eficiente até ao fim da vida” (p. 50). Também justifica as perdas cognitivas com um menor contacto com o mundo exterior, com a teoria do desuso, em que são menos usadas as capacidades cognitivas do que em idades anteriores, ou mesmo os estados emocionais ou a situação socioeconómica. Deste modo, embora possa existir um declínio em idades mais 58 avançadas, o declínio não é muito substancial em pessoas saudáveis e pode não colocar qualquer problema na resolução de situações quotidianas. “As pessoas mais velhas, são no geral, capazes de usar a experiência, o conhecimento e o senso comum para contornar quaisquer diferenças teóricas que possam ter de enfrentar” (Berryman, Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002, p. 292). De qualquer maneira, as investigações mostram não só que a vida adulta tem tanto potencial em termos de aprendizagem como as outras etapas da vida, como aquela assume, durante a vida adulta, um papel de grande relevo. A imagem negativa que prevalece do idoso e do seu desempenho e, por consequência, as baixas expectativas sociais, quanto ao desempenho em tarefas de aprendizagem, geram nos idosos a ideia de que, de facto, estão em desigualdade relativamente a pessoas mais novas. Trata-se de uma profecia que se auto-realiza, uma vez que os indivíduos mais velhos esperam tornar-se menos competentes, o que, efectivamente, vem a acontecer. Em situação de teste, estes indivíduos sofrem um aumento de ansiedade e ausência de confiança, levando a resultados menos positivos, concretizando assim o previsto. E, desta forma, reproduz-se uma estereotipia cultural e social, acentuando a ideia de um inevitável declínio na vida adulta avançada (Bogard, 1997). Os adultos e os adultos de idade avançada são também mais sensíveis aos riscos de mudança e ao erro e, por vezes, preferem proteger a sua imagem, não respondendo para não correr o risco de dar uma resposta errada, no entanto, estas estratégias acabam por reproduzir a imagem vigente sobre o desempenho intelectual na adultez. Tendo em conta o potencial transformador da educação de adultos, cabe um importante papel aos educadores de adultos, no sentido de lutar contra os estereótipos e contra a imagem negativa que se tem do idoso. Se a educação visa a promoção do educando, é básico, antes de mais, libertar o educador de idosos de visões distorcidas da realidade (Chamahian, 2009). Cabe ao educador motivar e promover o empenho dos educandos e isso só é possível se realmente acreditar no potencial dos mais velhos para aprender. 3.3. A gerontologia educativa A existência de fases distintas no desenvolvimento humano, assim como os estereótipos ligados à idade, nomeadamente o estereótipo do declínio intelectual, são uma 59 marca das sociedades ocidentais. Como vimos em subcapítulo anterior, a idade acarreta no universo das representações sociais, um sentido de diferenciação e de desigualdade, levando a que se edifique socialmente a ideia de que o valor dos grupos etários é diferenciado. Encarada como etapa terminal do desenvolvimento humano, como um retorno à infância com perda de capacidades e autonomia, a idade avançada não é normalmente vista como um tempo favorável à aprendizagem. Os próprios idosos veiculam esta imagem negativa de si próprios. A idade surge, assim, como uma barreira à aprendizagem. Não de forma natural, mas mais por via social, através dos estereótipos. Não é raro que adultos de idade avançada acreditem que são demasiado velhos para aprender novas actividades. No entanto, vários estudos mostram não só que a vida adulta tem tanto potencial em termos de aprendizagem como as outras etapas da vida, como aquela assume, durante a vida adulta, um papel de grande relevo. A época em que nos encontramos, nomeadamente tendo sido o ano transacto, o Ano Europeu do Envelhecimento Activo e da Solidariedade entre Gerações, constitui uma oportunidade única para serem mobilizados os saberes, a experiência e outras qualidades que os cidadãos mais idosos podem trazer para a sociedade provando, se é que é necessário, que a educação é permanente. O envelhecimento que responde à satisfação com a vida deve enquadrar-se no contexto do desenvolvimento positivo, ou seja, um envelhecimento consciente, produtivo, em suma, activo (Monteiro & Neto, 2008). O indivíduo aprende constantemente ao longo da vida. Assim, a educação não pode ser caracterizada apenas como uma etapa com tempo e espaço pré-determinados, sendo um processo contínuo que só termina com a morte. Desta maneira, a educação enquanto prática social permite que o homem constantemente aprenda, tornando-se possível pensar numa transformação cultural e na própria sociedade (Oliveira, Scortegagna, & Oliveira, 2009). Percebe-se assim, que a educação possui um carácter transformador, ultrapassando a mera transmissão de informações (Oliveira, Scortegagna, & Oliveira, 2009). A educação surge, também, como uma alavanca para o fortalecimento da auto estima e da integração dos idosos na sociedade, procurando transpor as limitações e os preconceitos impostos a esta faixa etária. Surge assim a educação do idoso, que podemos denominar de gerontologia educacional e/ou educação gerontológica (termo surgido em 1970 como tentativa de aplicar o que se conhece sobre a educação e o envelhecimento em benefício da melhoria de 60 qualidade de vida dos idosos, contemplando a educação para os idosos, a educação para a população em geral sobre a velhice e a formação de recursos humanos para o trabalho com idosos) deve assumir um importante papel numa sociedade que ainda discrimina o idoso assumindo a sua especificidade, não reproduzindo o modelo escolar, mas trilhando os seus próprios caminhos (Cachioni & Neri, 2004; Monteiro & Neto, 2008). Citando Glendenning, Veloso (2011), aponta a Universidade de Michigan como pioneira na utilização da expressão gerontologia educativa, termo usado como título de um programa de doutoramento sobre a educação nas pessoas idosas, promovido pelo Professor de Educação Howard Y. Mclusky. Já Cachioni e Neri (2004) responsabilizam Peterson por esse facto. Tanto Cachioni e Neri (2004), como Veloso (2011), afirmam que terá sido Peterson, em 1976, o responsável por definir o termo como “campo de estudo e prática desenvolvido na interface da educação de adultos e da gerontologia social” (Veloso, 2011, p. 176) ou “a área responsável pelo estudo e pela prática das tarefas de ensino a respeito e orientadas a pessoas envelhecidas e em processo de envelhecimento” (Cachioni & Neri, 2004, p. 105). Em 1980, Peterson completou a sua definição, acrescentando que se tratava “da tentativa de aplicar o que se conhece sobre a educação e o envelhecimento em benefício da melhoria de vida dos idosos” (Cachioni & Neri, 2004, p. 105). Willis e Schaie (1981) propõem cinco objectivos para a educação do idoso ou gerontologia educacional: 1) Ajudá-los a compreender as modificações corporais e do comportamento (em particular mudanças cognitivas a nível da memória e na resolução de problemas) que se manifestam na velhice; 2) Levá-los a compreender as mudanças tecnológicas e culturais da sociedade contemporânea, mudanças extremamente rápidas, como a informática e tudo o que a ela está ligado (como as novas tecnologias); 3) Torná-los aptos a desenvolver capacidades de luta contra as consequências, na própria pessoa, das mudanças socioculturais e do envelhecimento; 4) Levá-los a adquirir novas aptidões para lidar com as novas situações; 5) Fazê-los aceder a um desenvolvimento satisfatório e a descobrir novos papéis, como o voluntariado. Qualquer abordagem ao tema da educação e formação dos adultos mais velhos deve ter em conta uma série de conceitos e variáveis que se situam nos domínios da Gerontologia. Com efeito, a discussão sobre o que ensinar (conteúdos), sobre como ensinar (estratégias e metodologias), sobre o desenvolvimento das acções formativas (estruturas 61 pedagógicas) e ainda sobre o perfil do formador (competências específicas para ensinar idosos), são atribuições especializadas do âmbito da Gerontologia Educativa. “A formação de recursos humanos em Gerontologia, incluindo a formação de professores de idosos, é de fundamental importância social, não só pelos benefícios que podem advir para os idosos, mas também para promover mudanças culturais nas concepções sociais sobre a velhice” (Cachioni & Neri, 2004). Em Espanha a formação destes especialistas, denominados “gerontagogos”, tem estado tradicionalmente a cargo dos cursos superiores de animação sociocultural, e até a UNESCO mantém um curso de Formação de Animadores Socioculturais onde é estudada a problemática do ensino dos idosos (Cachioni & Neri, 2004). Com efeito, não abundam professores ou formadores com licenciatura, especialização ou pós graduação em Gerontologia, donde a dificuldade das Universidades de Terceira Idade em constituírem o seu corpo docente com estes especialistas (idem). Como veremos no capítulo seguinte, em Portugal os professores de idosos participam geralmente em regime de voluntariado, não sendo a formação em gerontologia exigida para o exercício e funções nas UTI, como é sugerido pelo próprio Regulamento Geral das Universidades da Terceira Idade aprovado em Reunião Magna da Rede das UTI em Almeirim, em 18 de Outubro de 2007 (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013): Artigo 8º Professores/animadores 1 - As UTI devem funcionar maioritariamente com professores/animadores voluntários maiores de 18 anos, incentivando deste modo o voluntariado social de acordo com a Lei 71/98 de 3 de Novembro. Deve-se estabelecer um acordo de voluntariado com os professores. Para concluir podemos dizer que, não obstante a escassez de formação gerontológica, a orientação relativa ao ensino de práticas orientadas às pessoas de terceira idade e a questão do saber envelhecer são tema de reflexão graças à gerontologia educativa, que vem sublinhar a importância da educação de idosos. 62 Tantas vezes se fala em longevidade ou em educação para toda a vida, mas o que se quererá dizer com estas afirmações? Pensamos que não se trata, efectivamente, de um tipo de educação formal, tradicional, mas de uma educação de índole diferente, que valoriza a partilha de saberes, a actualização de conhecimentos, bem como uma mais frequente participação na sociedade enquanto cidadãos. Concordando com Quintas (2008, p. 29), trata-se essencialmente ”da participação, os adultos desenvolvem ou adoptam atitudes e valores e fazem julgamentos morais relacionados com os seus papéis enquanto cidadãos”. De acordo com o autor, a educação para seniores deve assentar numa política de dinamismo e criatividade. A educação dirigida aos seniores é encarada como “um processo de constante evolução, como uma actividade que não confere ao conhecimento um cunho absoluto, relacionando-o antes, entre outros, com experiências, com contextos pessoais, com valores, com crenças” (p. 61) e, desse modo, devem ser valorizados “os saberes reflexivos e práticos, em detrimento de uma aprendizagem técnica e de um conhecimento objectivo, que não correspondem provavelmente ao que os seniores buscam” (p. 62). Assim, os programas de educação para seniores não pretendem ter em vista a qualificação dos seus alunos para o mercado de trabalho, mas a sua inserção na sociedade. É importante que ao estarem numa sala de aula se sintam como se estivessem a actuar na sociedade enquanto cidadãos activos e responsáveis. Quer dizer, “os programas no quadro da educação para seniores não podem confundir-se com os programas que visam a lógica do emprego e a qualificação de adultos, devem antes constituir uma oferta que assente no que eles, enquanto seniores reformados ou não, procuram” (Quintas, 2008, p. 62). Graças à gerontologia educacional, os idosos beneficiam de um sistema de educação especial, já que “Não se trata por conseguinte de alguém que se limita a estar na sala de aula. Quer isto dizer que os sujeitos da educação são indivíduos que querem educar-se e é essa atitude deliberada que lhes confere o estatuto não só de indivíduos mas sobretudo de sujeitos da educação “ (Quintas, 2008, p. 64). 3.4. Especificidades no processo educativo dos idosos Segundo Giubilei (1993) e Escarbajal e Lopes (1998), ambos citados por Cachioni e Neri (2004, p. 110), é “muito comum no campo da educação a tentativa de transplantar os conhecimentos que se tem das características da criança e do adolescente para a 63 compreensão da personalidade do adulto”. É por causa deste facto que existe muitas vezes um impacto negativo para o aluno adulto/idoso, que se sente incompreendido e deslocado, como também para o próprio educador que não consegue alcançar os seus objectivos. Jesús García Mínguez (2004, p. 118) citando Mariano Sánchez (2003, p. 60), escreve: “no es el viejo o la vieja los que nos ocupa, sino la persona, el ser humano… com una história, un acesso a los recursos de todo tipo, una capacidade de acción y un saber hacer concretos”. Com efeito, a educação de idosos deve contemplar, em primeira instância, o apreço e valorização da pessoa e da sua bagagem sociocultural. O trabalho educativo direccionado para os idosos deve constituir-se, de preferência, “com eles e não por eles e para eles” (Cachioni & Neri, 2004, p. 110). Deve ser virado para as necessidades espirituais e biopsicossociais dos idosos, deve ajudar os idosos a serem cidadãos competentes, a estarem aptos a viver numa sociedade em constante mudança, deve proporcionar uma tomada de consciência sobre a riqueza da vida pessoal e profissional, da partilha da experiência com os mais jovens, deve permitir a expressão e a realização de aspirações educativas não realizadas durante a juventude. Num estudo que visava analisar a capacidade de aprendizagem de alunos de um programa educativo para seniores, Tamer (1999), citado por Cachioni e Neri (2004), afirma que as capacidades de aprendizagem não dependem da idade, mas sim das condições em que se realizam. Assim, promover ambientes educativos estimulantes permite assegurar a qualidade de aprendizagem nas pessoas idosas. Esse ambiente deve ter em conta certos aspectos, como: - Ter uma concepção realista da velhice e das suas peculiaridades; - Ver os idosos como os principais e reais sujeitos do próprio processo educativo; - Permitir que os idosos sejam actores da transformação da sua realidade; - Entender a educação de idosos como um sistema com aspectos específicos; - Promover valores humanizantes sem cair no assistencialismo; Também segundo Clavijo (1999), citado por Cachioni & Neri (2004), são fundamentais os seguintes princípios na educação de idosos: - A relação professor/aluno: a aprendizagem deve centrar-se no educando e ser gerida por ele mesmo, sendo o professor apenas um facilitador do processo; - O paradigma didáctico: as aulas devem ser lugares de encontro, interacção social, partilha de experiência para a construção do conhecimento; - A aprendizagem significativa: apenas os conhecimentos práticos e relevantes para a vida do idoso são válidos como novos conhecimentos; 64 Só seguindo estes princípios poderão ocorrer consequências positivas para o aluno sénior: i) No âmbito individual: o aluno será participante activo, observador, motivado pela percepção de problemas reais. A aprendizagem estará ligada a aspectos significativos do quotidiano. ii) No âmbito grupal: os participantes serão conhecedores da realidade da instituição, cooperando na busca de soluções para os problemas comuns; Aumentará o desenvolvimento intelectual do grupo devido ao maior estímulo e desafio; Assim, em virtude da heterogeneidade de necessidades, motivações e interesses em grupos de idosos, geradas pelas próprias trajectórias de vida, devem ocorrer investimentos na criação e melhoria de metodologias que valorizem a experiência e que tornem o aluno idoso o agente do seu próprio processo de ensino/aprendizagem. 65 66 CAPÍTULO 4 – AS UNIVERSIDADES DA TERCEIRA IDADE 4.1. O surgimento – origem e desenvolvimento Não é consensual o termo “Universidade” quando acompanhado da expressão Terceira Idade. É um facto. Alguns preferem usar o termo academia, clube, outros instituto ou associação seguidos da palavra cultural, de modo a evitar o vocábulo universidade. Esta sensibilidade deve-se à questão da missão das instituições em causa, realmente distinta em alguns aspectos da das universidades tradicionais. Por outro lado, também o termo “terceira idade” no que toca a estas instituições, começa a revestir-se de alguma polémica (dado que a abertura a outras idades para além da idade tida como idade idosa tem sido crescente) e tem vindo a substituir-se por “seniores” ou por “para todos” (Pinto M. , 2003; Pinto G. , 2008). A denominação “Universidade da Terceira Idade” (UTI) deveu-se à analogia com o início da história das Universidades, no tempo medieval, em que as aulas eram conferências, procuradas pelos indivíduos interessados. Igualmente, as actuais Universidades da Terceira Idade oferecem, através de palestras ou similares, oportunidades de estudo a pessoas idosas, ou acesso ao saber mais avançado (Jacob, 2012). Pinto (2003, p. 467), aquando da sua participação numa Conferência intitulada “Envelhecer em saúde”, considerou que a expressão “Universidades da Terceira Idade” inclui “todas as instituições que se dedicam a dar resposta à procura de ensino informal em variados domínios e à procura de actividades recreativas ou outras por parte da nossa população sénior”. Também Peixoto e Caldas (2004, p. 428), quando se referem à Universidade, em termos tradicionais, nos dizem, assemelhando os dois tipos de instituições: “A Universidade é tradicionalmente um espaço dos jovens, onde são gerados novos conhecimentos, um lugar de novidade e juventude. As propostas de Universidades da Terceira Idade (UTI) não fogem deste padrão, ao contrário”. Segundo Luís Jacob (2012), as UTI são uma resposta social porque combatem o isolamento e a exclusão social dos mais velhos, principalmente a seguir à reforma; incentivam a participação dos seniores na sociedade; divulgam os direitos e oportunidades que existem para esta população; reduzem o risco de dependência e são um pólo de convívio. 67 Vários estudos nacionais e internacionais demonstraram que as UTI, para além de um projecto educativo e formativo, são igualmente um projecto social e de saúde, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos seniores e prevenindo o isolamento e exclusão social (Jacob, 2012). Este movimento enquadra-se também no projecto europeu de formação ao longo da vida ou educação permanente, que objectiva permitir aos cidadãos europeus passar livremente de um ambiente de aprendizagem para um emprego ou o contrário, de uma região ou de um país para outro com o fim de utilizar da melhor forma as respectivas competências e qualificações. Assim, uma aprendizagem ao longo da vida aponta para um percurso de aquisição de competências que vai do ensino pré-escolar até à pós reforma, e abrange qualquer tipo de educação formal e/ou não-formal (Jacob, 2012). São muitas as vantagens que as Universidades da Terceira Idade oferecem, desde a ocupação dos tempos livres, à renovação do conhecimento, passando pela valorização da experiência de vida e a oportunidade de adquirir conhecimentos noutras áreas até então inacessíveis, como o contacto com uma língua estrangeira, o uso dos computadores, entre outros (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). A aprendizagem ao longo da vida ou educação permanente é muito significativa nesta faixa etária. A frequência de uma Universidade da Terceira Idade é um dos meios usados hoje para que essa aprendizagem possa ocorrer. O movimento das Universidades da Terceira Idade desenvolveu-se, assim, com sucesso num programa global de educação de adultos, ampliando-se para todos os continentes, com milhares de unidades com estruturas e programas diferentes (Monteiro & Neto, 2008). Podemos considerar, se tivermos em conta apenas os aspectos pedagógicos, uma data tão longínqua como 1727 (ano em que Benjamin Franklin fundou, nos Estados Unidos da América, um grupo de discussão e de estudos para os adultos, grupo que desempenhou um papel de grande relevo no desenvolvimento da educação para adultos sem qualquer tipo de discriminação) a data de origem dos primeiros passos para a criação de Universidades para adultos. No entanto, só nos anos 60, surgem em França e nos EUA as primeiras instituições destinadas exclusivamente a seniores, centradas apenas na forma de ocupação dos tempos livres dos reformados (Pinto M. , 2003). Na Europa, por exemplo, a criação das Universidades Sénior remonta à década de 70 acarretada pelo próprio envelhecimento da população e as suas consequentes repercussões na adaptação a novos estilos de vida após a reforma. Os seus princípios 68 básicos mantêm-se inalteráveis até hoje: proporcionar aos mais velhos a possibilidade de aprenderem ou ensinarem e promover o convívio salutar e útil entre gerações dando primazia à divulgação cultural e científica (Pinto M. , 2003; Monteiro & Neto, 2008). Deve-se a Pierre Vellas a ideia de associar ao entretenimento o ensino e a pesquisa. Segundo a ideia deste ilustre professor de direito internacional da Universidade de Ciências Sociais de Toulouse, as UTI são fundamentalmente instituições de saúde pública visando elevar os níveis de saúde física, mental e social das pessoas da terceira idade bem como colocar à sua disposição programas de actividades particularmente adaptados (Pinto M. , 2003; Chamahian, 2009). Em 1973 foi criada, deste modo, em Toulouse, em França a primeira Universidade da Terceira Idade como movimento específico de ensino para os adultos ou seniores, não sendo necessários mais que sete anos para que o seu número ascendesse a cinquenta e dois (Pinto M. , 2003). Existem, assim, dois modelos principais de Universidades da Terceira Idade, destacando-se o modelo inglês e o francês com programas e objectivos diferenciados (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). O modelo percursor das universidades francesas para a terceira idade existe desde 1970. Tem por objectivo principal a ocupação dos tempos livres dos idosos associando as Universidades de Terceira Idade às Universidades Tradicionais. Desenvolveu-se tendo por base as associações auto-organizadas sem fins lucrativos. Este modelo tem por base logística (professores, salas, equipamento, organização) uma Universidade Tradicional (as UTI são criadas pelas universidades tradicionais, têm professores remunerados, garantem certificação, por exemplo). O modelo privilegia a pesquisa e investigação e pode criar cursos superiores e de pós-graduação para seniores (Monteiro & Neto, 2008; Jacob, 2012). No modelo britânico, as UTI nascem no seio de organizações sem fins lucrativos, os professores são voluntários, são mais informais, baseando-se no modelo de auto-ajuda e não garantem certificação. Os idosos podem assumir simultaneamente o papel de aluno e professor e detêm o controlo dos programas implementados. As actividades podem desenrolar-se em edifícios locais informais. Os horários, currículos e métodos são flexíveis e não se exigem pré-requisitos para a sua frequência (Monteiro & Neto, 2008). Qualquer que seja o modelo, acredita-se que as Universidades da Terceira Idade são um movimento de sucesso em diversos países, criadoras de oportunidades e promotoras de bem-estar nos adultos maduros e idosos que procuram um envelhecimento activo e bemsucedido (Monteiro & Neto, 2008). 69 Pinto (2003) refere três gerações de modelos de programas oferecidos até hoje pelas várias instituições destinadas ao ensino de seniores, com objectivos bem diferenciados. Ora vejamos: A primeira geração, que os estudiosos da génese histórica dessas instituições datam dos anos 60, corresponde a um modelo de serviços educativos (os “Elders hostels”) mais dedicados ao convívio cultural, tendo por objectivo ocupar as pessoas da terceira idade e facilitar-lhes a socialização. Tendo lugar num ambiente universitário, o tipo de ensino não era necessariamente de nível universitário. A segunda geração, a dos anos 70, tinha essencialmente como objectivo incrementar o bem-estar mental do idoso através de actividades culturais consideradas de interesse e desenvolver a sua capacidade de intervir na sociedade. Finalmente, a terceira geração, que data dos anos 80, desenvolveu-se para aproximar as três características de qualquer universidade tradicional: o ensino, a pesquisa e o serviço à comunidade. Esta terceira geração procura dar resposta a uma população da “terceira idade” cada vez mais jovem e mais instruída, que começa a exigir cursos que possam ser reconhecidos. Surge assim a ideia de organizar programas conducentes a um diploma, muito embora esses cursos possam também ser frequentados, a título livre, por aqueles que não pretendem ser avaliados. As UTI existentes actualmente em Portugal, como veremos no ponto a seguir, apesar de não corresponderem a programas universitários para seniores e de não se encontrarem sediadas nas universidades tradicionais, dão resposta aos objectivos traçados pelas duas primeiras gerações atrás descritas. Resta-nos portanto preparar a terceira geração, aquela que pretende ir ao encontro dos três atributos das verdadeiras universidades, contando com o empenhamento das universidades tradicionais públicas ou privadas, tomando como base a formação científico-pedagógica que os programas universitários desta terceira geração requerem e não esquecendo aquilo que já foi feito até agora. 4.2. Breve contextualização da política da 3ª idade em Portugal à época do surgimento da primeira UTI portuguesa A primeira UTI criada em Portugal foi fundada numa época em que se verificaram certas conjunturas pertinentes para esta contextualização. 70 Um dos aspectos importantes foram as políticas de manutenção do idoso na sua residência. Este aspecto prendeu-se com razões que contribuíram para a sua emergência e para que fosse preconizada esta política pelo Estado. Para além de razões humanitárias e de dignidade da vida dos mais velhos, as razões económicas, concretamente a redução da despesa do Estado, foram factores muito significativos para que este defendesse uma nova forma de intervir na velhice (Veloso, 2011, pp. 78-94). Nesse sentido, criaram-se várias estratégias cujo objectivo era manter o idoso no seu domicílio e promover um novo estilo de vida, contribuindo para a difusão de uma nova imagem social do idoso, o que representava uma ruptura com a forma de intervir na terceira idade desde o séc. XIX (Veloso, 2011). A autora conclui que desde 1976 até 2008 se verificou a inexistência de uma política de terceira idade que abrangesse de uma forma global e integrada esta categoria social. Apesar das diferentes medidas implementadas no domínio da saúde e da acção social ao longo dos anos, a questão da educação e formação, como um direito das pessoas idosas, foi desvalorizada e esquecida, sendo emergente a articulação entre a educação e as políticas para esta população (Veloso, 2011). Também é de assinalar que a falta de uma política abrangente para a terceira idade foi uma constante durante todo este período de análise, apesar das diferentes medidas que se foram implementando, principalmente na área da acção social e da saúde, não tendo muita expressão as medidas e iniciativas noutras áreas. 4.3. As UTI em Portugal As Universidades da Terceira Idade em Portugal datam de 1976 (Pinto G. , 2008) ou na versão de Veloso (2000), de 1978, tendo sido trazidas a Portugal pelo engenheiro Herberto Miranda, na forma da Universidade Internacional da Terceira Idade na cidade de Lisboa (Costa, 1999, citado por Monteiro & Neto, 2008; Marconcín, Real, Dias, & Fonseca, (2010). Rapidamente surgiram mais cinco, na segunda metade dos anos 80, sendo que três no Norte e duas em Lisboa. Durante a década de 90, principalmente na segunda metade, assiste-se em Portugal à emergência da maioria das UTI (surgem sete na primeira metade dos anos 90 e nove na segunda metade dessa década) (Veloso, 2000). Segundo dados da RUTIS, antes do início da década de oitenta, existiam, apenas quatro universidades seniores. Entre os anos de 1981 e 1985, são fundadas mais duas 71 universidades seniores, sendo a partir de 1996 que a expansão se começa a dar, de forma mais clara. De 2004 a 2008 criam-se quarenta e nove universidades seniores em Portugal. Em 2012, segundo dados da RUTIS, existiam 190 UTI, exemplos de vitalidade da sociedade civil e do envelhecimento activo. Cachioni (1999), citado por Monteiro & Neto (2008), refere que a criação da primeira universidade sénior, pretendeu ir ao encontro de uma população que dispunha de tempo livre e de condições económicas para tal. Também neste país o termo “Universidade” para designar instituições dedicadas a dar resposta à procura do ensino informal em variados domínios e à procura de actividades recreativas ou outras por parte da população sénior não foi sempre consensual. Por cá, foi objecto de reflexão e preocupação quando em 1982, o Ministério da Educação legisla a permissão para o uso do termo caso as Universidades em questão se comprometessem a não atribuir certificação ou grau académico aos cursos lá ministrados (Pinto G. , 2008). Segundo dados da Rede de Universidades da Terceira Idade (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013), em Julho de 2008, existiam em Portugal dezasseis universidades da terceira idade, cinquenta e quatro universidades seniores, catorze associações seniores e ainda dezoito instituições que optaram por uma designação diferente, totalizando cento e duas instituições. Já em Março de 2012, os dados eram os seguintes: 123 (73%) eram denominadas Universidade Sénior, 24 (14%) Academia Sénior, 13 (8%) Universidade da Terceira Idade, 4 (2%) de Clube Sénior e as restantes 3% eram apelidadas com outras designações1. Na sua grande maioria, as UTI são associações sem fins lucrativos (existem, no entanto, alguns casos pontuais como, por exemplo as Cooperativas e os Institutos, de natureza jurídica um pouco diferente) e, de uma forma geral, têm como objectivos, entre outros: a “promoção, a valorização e a integração do idoso”, “o contacto com a realidade e a dinâmica social local”, “a ocupação dos tempos livres”, e “evitar o isolamento e a marginalização”. Algumas das UTI têm existência autónoma e outras estão ligadas quer à Santa Casa da Misericórdia, quer a associações, a centro paroquiais ou a centros sociais segundo A RUTIS, em Março de 2012, apenas 3% das UTI eram autónomas e 93% pertenciam a outra instituição (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). Estas últimas podem receber apoios da Segurança Social, dos poderes locais, da Igreja ou de entidades privadas (Pinto G. , 2007). 1 Dados da Rede de Universidades da Terceira Idade de 2012 72 Uma das primeiras características que Veloso (2000) constatou, nos seus contributos para a caracterização sobre as UTI em Portugal é que se trata de um fenómeno principalmente urbano, com uma maior implantação geográfica no litoral do país, registando-se uma elevada concentração no litoral Norte onde se encontravam, à data do estudo, 50% das UTI. Apesar da natural concentração em zonas do litoral português, actualmente, existe uma dispersão notória por todo o território, fazendo reflectir sobre a importância que estas instituições têm vindo a desenvolver na sociedade nacional. As UTI são o modelo de formação de adultos com maior sucesso a nível mundial e que lhes proporciona um grande leque de actividade culturais, recreativas, científicas e motiva a aprendizagem (Jacob, 2012). As UTI portuguesas foram criadas pela sociedade civil e não pertencem ao sistema escolar regular. Seguem, portanto, os princípios básicos do ensino informal. Por lei, não podem nem avaliar, nem certificar. Também os seus alunos, segundo Pinto (2007, p. 7) referem que “não desejam ser avaliados porque já o foram ao longo das suas vidas e não pretendem continuar a sê-lo”. A maior parte das actividades desenvolvidas nas Universidades da Terceira Idade abrangem disciplinas, variando o seu número entre as diferentes instituições, desde o mínimo de 10 até ao máximo de 64 disciplinas. Em algumas Universidades da Terceira Idade é estabelecida uma diferenciação entre as disciplinas que nomeiam “teóricas” e as que designam de “práticas”, sendo as primeiras referentes às línguas e ciências sociais, por exemplo, e as segundas referentes à pintura, outras artes plásticas e decorativas e o desporto. Para além destas actividades de carácter mais curricular, existem as actividades a que denominam “extra - curriculares”. Estas abarcam visitas de estudo, palestras, conferências, seminários, com uma periodicidade mensal, na maioria dos casos (Veloso, 2000). Em determinadas UTI existem alguns rituais académicos, vistos como momentos de convívio, de sociabilidades e de socialização como é o caso da abertura do ano com a “lição de sapiência” (o ritual mais comum), ou da semana académica, ou do encerramento do ano “lectivo”. Segundo Veloso (2000, p. 3), parece haver “uma lógica de academização das UTI, visível nas actividades e no próprio modelo curricular que desenvolvem, assim como um mimetismo em relação à instituição universitária, que se traduz pela própria designação de Universidade da Terceira Idade e pelos rituais académicos”. 73 Em relação aos alunos, estes são maioritariamente mulheres (cerca de 80%) e as idades dos participantes encontra-se, em média, entre os 60 e os 69 anos. A idade mínima para a inscrição numa instituição deste tipo varia: umas não estabelecem limite mínimo, outras aceitam inscrições a partir dos 40 ou 50 anos (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). Segundo a RUTIS, no seu estudo sobre a caracterização do perfil dos professores das UTI publicado em Julho de 2012, existem cerca de 30 000 alunos com grau de instrução variável, desde a quarta classe ao doutoramento. Relativamente às pessoas que ensinam nas UTI, algumas são profissionais e recebem, deste modo, honorários simbólicos ou não e outras, a maioria, trabalham em regime de voluntariado. A combinação das duas modalidades é também uma realidade e pode mesmo dar-se o caso de alguns alunos serem simultaneamente professores em áreas da sua especialidade. Os professores das UTI não carecem de qualquer formação pedagógica destinada à população sénior para exercerem essas funções (Pinto G. , 2007), embora segundo o estudo do perfil dos professores das UTI realizado em 2012 pela RUTIS, 44% são ou foram professores na sua vida profissional. Foi esse estudo, efectuado em 2012 pela RUTIS, publicado no livro “Educação Sénior em Portugal” de Luís Jacob em Julho desse ano, que, em colaboração com as Universidades Seniores do país, pretendeu fazer uma pequena caracterização dos 4000 professores que dão aulas nas UTI e que constituem um dos pilares de funcionamento destas organizações. Após a realização do estudo, constatou-se que a maioria dos professores é do sexo feminino (59%). A idade predominante desses professores situa-se entre os 60 e os 70 anos. O grau de escolaridade prevalente é o superior (70,3%). A maioria dos professores (82%), tal como atrás referido, exerce de forma voluntária e sem qualquer tipo de remuneração, sendo que muitos ainda exercem a sua actividade profissional a par desta outra actividade. Pinto (2003) reconhece a elevada importância das Universidades da terceira Idade num país como Portugal. A autora foca positivamente, sobretudo as UTI que têm como alunos pessoas com níveis baixos de escolaridade, pois considera a manutenção ou o incentivo da actividade intelectual como “investimento inestimável para um país que pretenda propiciar a melhor qualidade de vida intelectual aos seus idosos daí tirando os benefícios correspondentes” (p. 7). O sucesso das UTI é devido ao aumento da participação dos idosos na sociedade e a nível cultural, bem como a uma crescente necessidade destes se sentirem inseridos tanto 74 social como culturalmente, e ainda de continuarem activos e actualizados nas várias áreas de conhecimento (Brasseul, 1981, citado por Veloso, 2000). 4.4. RUTIS – Associação Rede de Universidades da Terceira Idade Não poderíamos falar de Universidades da Terceira Idade em Portugal sem referir a Associação Rede de Universidades da Terceira Idade (RUTIS). A RUTIS tem assumido um papel de destaque na afirmação das UTI portuguesas na sociedade actual, situação que justifica a sua breve apresentação no presente trabalho. Segundo Jacob (2012), calcula-se que existam cerca de 200 UTI localizadas um pouco por todo o território nacional sendo que 190 UTI estavam inscritas na RUTIS em Março de 2012. Estes dados relevam a crescente presença desta entidade na nossa sociedade como ainda: «o seu sucesso» conforme a afirmação de Jacob (2012). Posto isto, considera-se que as investigações da RUTIS e de outros autores como Jacob (2012), Pinto (2008) e Veloso (2011) contribuem para a permanente e rigorosa caracterização das UTI portuguesas. Deste modo, a RUTIS é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que representa as universidades seniores portuguesas. Fundada em 2005 e declarada IPSS em 2006, a RUTIS representa actualmente 190 universidades seniores (Jacob, 2012). Esta associação assume-se como motor das UTI em Portugal tendo como objectivo primordial o apoio à família, à comunidade e aos seniores (Diário da República n.º11 III série de 16 de Janeiro de 2006, 2006). No entanto, é relevante evidenciar outros objectivos designadamente: a) Contribuir para a melhoria da qualidade de vida da comunidade, em todas as vertentes; b) Criar e dinamizar actividades e respostas sociais, culturais, educacionais e de saúde para a população, especialmente para os maiores de 50 anos; c) Apoiar e reconhecer as Universidades e Academias da Terceira Idade; d) Fomentar a cooperação para o desenvolvimento e a investigação académica e científica na área da gerontologia e da cidadania; e) Fomentar o voluntariado, na e para a comunidade, e a formação ao longo da vida; f) Promover os direitos humanos e cooperação entre povos, nomeadamente entre os mais necessitados; 75 g) Contribuir para a defesa dos direitos e deveres dos utentes da RUTIS; h) Promover outras actividades de cariz social que a RUTIS achar conveniente (Diário da República n.º11 III série de 16 de Janeiro de 2006, 2006, p. 1120). 4.5. As UTI como espaço de socialização e aprendizagem do idoso A socialização é um processo permanente e contínuo, logo não é um acto isolado no tempo. Trata-se sim, de um sistema variável no tempo e no espaço, dado que as sociedades não permanecem imutáveis, mas sofrem evolução no que respeita a comportamentos e normas. Também é variável espacialmente, uma vez que em cada sociedade existem características culturais próprias, valores e regras diferentes. Ao longo do seu crescimento, o indivíduo interioriza mentalmente vários dados sociais, isto é, existe uma construção da forma de pensar, sentir e agir, permitindo a integração permanente no meio social de pertença. Esta aprendizagem é feita ao longo do desenvolvimento através dos vários agentes de socialização, como a família, a religião, a política e a escola. Segundo Dora Rosa (1999, p. 3), “A interiorização dos valores morais se deu ao longo do tempo, através de processos de socialização desenvolvidos por instituições, como a família e a religião, e profissionais especializados, como os filósofos e pedagogos; mais tarde, já na Modernidade, através da escola.”. Deste modo, a escola passa a ser agente socializador, não só para a criança, mas também para o adulto bem como para o idoso. Como foi dito anteriormente, não sendo um acto mas um processo, a socialização estende-se necessariamente ao longo da vida do indivíduo, assegurando que a necessidade de adaptação e integração social são permanentes, assim: “O ser humano torna-se homem por meio da interacção com os outros. O processo de socialização inicia-se na infância e prossegue por toda a vida, e o indivíduo é "ressocializado" a cada dia. Aprende-se a viver em sociedade, adaptar-se a situações novas, a conversar, a reagir aos problemas, para onde ir e como chegar. Adquire-se cultura, torna-se profissional e faz-se parte de uma organização“ (Vilela, 2004, p. 6). A palavra “ressocializado” usada por Vilela (2004) mostra que a velhice não pode ser encarada como obstáculo à socialização. O indivíduo tem constante necessidade de pertencer a uma organização, e o idoso não é uma excepção. A evolução da sociedade nos demais domínios acarretou uma exigente e constante reactualização por parte do indivíduo 76 no sentido de continuar a pertencer ao grupo onde está inserido e neste sentido, os jovens têm vantagem, enquanto os idosos demonstram mais dificuldade em integrar-se em sociedade. Esta etapa de vida – a velhice - é caracterizada de acordo com várias rupturas sociais, tendo reflexo na imagem que transmitem aos observadores externos bem como a si próprios sentindo-se desamparados, ignorados e desintegrados da sociedade da qual fizeram parte integrante até ao momento da reforma. A reforma pode ser vista como um passo para a exclusão da sociedade, já que este pode passar a ser visto como alguém que deixou de exercer uma função social importante para o progresso do país. Assim, a socialização durante a velhice é de sobremaneira importante. Neste caso a Universidade, pode ser a chave principal para “ressocializar” idosos no que concerne a uma reintegração na sociedade, tal como diria Vilela (2004). De acordo com Bogard (1997, p. 93), a revolução industrial permitiu desenvolver novos sistemas de educação de acordo com a necessidade da população, isto é: “No contexto sócio – económico específico da revolução industrial foi necessário conceber um sistema educativo para as crianças e adolescentes”. Actualmente deve pensar-se num novo estilo de educação que preencha as necessidades dos adultos. A sociedade exige constantes actualizações a nível da socialização, porque “Durante os últimos decénios, a nossa atenção concentrou-se sobre o carácter mais evidente das modificações que sofrem as nossas sociedades, ou seja, o desenvolvimento tecnológico. Uma das respostas mais urgentes tem sido e continua a ser, sem dúvida, aumentar a formação técnica e profissional que é afectada por esta evolução” (idem:94-95). Esta necessidade de conquistar um lugar na sociedade e resgatar a socialização é sentida essencialmente pelo extracto populacional mais envelhecido. Trata-se de um grande desafio para a sociedade, pois esta terá de reunir condições adequadas aos idosos para viverem com bem-estar, autonomia e inclusão na sociedade. Deste modo, consideramos que a educação poderá ser encarada como uma solução deveras viável para a reintegração do idoso na sociedade, ou seja “a educação é um meio de acompanhar e de reforçar esta socialização em constante renovação” (Bogard, 1997, p. 95). A socialização, efectivada através da educação em termos globais, não pode ser dirigida apenas para uma camada populacional específica como os adultos, mas deve ser conduzida também para os idosos, caso contrário estaríamos a falar de um caso de marginalização como refere o mesmo autor: “Nesse sentido, convém evitar, o mais 77 possível, a transformação desta educação socializadora, num “sistema fechado” destinado unicamente a certas categorias da população – o que só as levaria a uma maior marginalização” (idem:96). Para que a educação se possa estender aos idosos, Bogard (1997, p. 97) considera ser necessário acabar com todos estereótipos que cercam o idoso, segundo o autor, torna-se necessário denunciar “estereótipos sociais e imagens negativas, às vezes partilhadas pelos próprios indivíduos que delas são objecto”. Assim sendo, os indivíduos sentir-se-ão mais motivados para desenvolver as suas capacidades e usufruir dos “seus direitos e deveres na sociedade contemporânea”. A idade não pode ser vista como uma variável determinante para a inserção do idoso na escola, ele continuará igualmente a aprender, aliás “é possível aprender, adaptarse a todas as situações sociais e isto até uma idade avançada” (idem:97). O envelhecimento implica, socialmente, isolamento e solidão para o idoso, deste modo, surgem as Universidades de Terceira Idade no sentido de permitir não apenas a aprendizagem e reactualização de conhecimentos, mas também a inserção do indivíduo na sociedade depois da reforma, como atesta Débora Sodré (2009, p. 5): “considerando que o processo de envelhecimento gera um isolamento do idoso, a universidade aberta da terceira idade vem com a proposta de integração, socialização, desenvolvimento e informação para que haja um envelhecimento saudável e com isso a formação de novos papéis do idoso na sociedade”. No seu estudo, a autora teve como objectivo verificar a influência da universidade da terceira idade no idoso. A sua análise incidiu em alguns aspectos particulares, organizados em categorias como: “Aprendizagem pessoal. Liberdade. Optimismo. Socialização. Lazer. Aprendizagem. Auto estima. Actividades em geral e adaptação” (idem:5). No que diz respeito à aprendizagem, considerou não se descurar os conhecimentos anteriormente adquiridos e agora permitir a sua concatenação, assim, a aprendizagem pessoal refere-se à “reflexão diante dos fatos vivenciados ao longo da vida, que interferem nos novos comportamentos a serem tomados” (idem:6). Envelhecer não tem de ser sinónimo de dependência, o idoso pode ser autónomo na tomada de decisões, na maneira de pensar e viver, daí que a liberdade tivesse sido uma das categorias a ser estudada, estando “vinculada ao fato de não depender dos outros para se locomover, tomar decisões, saber dos seus direitos, estar em contactos com outras pessoas e viver novos desafios. É ser activo” (idem). 78 A socialização é um dos factores mais importantes a considerar, já que o idoso irá começar a sentir-se mais útil tendo ainda a oportunidade de conviver com pessoas da mesma idade, daí que “para os idosos a socialização é o factor mais importante dentro da universidade, pois eles se relacionam com pessoas da sua própria idade e tem a oportunidade de estar fazendo novos amigos, conversando, debatendo e participando de coisas que durante toda a sua vida não tiveram oportunidades de fazer” (Sodré, 2009, p. 7) considerando ainda que “as actividades externas favorecem a socialização entre os alunos, deixando-os mais desinibidos, expressando o seu ponto de vista com mais liberdade, que antes eram censurados, criando uma nova expectativa de vida“ (idem:9). Desse modo, a autora admite que a universidade não é para os idosos apenas um lugar educativo, mas é um centro onde poderão encontrar e usufruir de algo mais “como divertimento, local de descontracção, reunião de amigos, com um ambiente considerado óptimo, pelos alunos que favorece o desenvolvimento de cada um“ (idem:7), as aulas que frequentam não são de carácter educativo, trata-se antes de momentos de “interacção nas aulas com colegas, professores e coordenação. Essa aprendizagem é de acordo com a capacidade de cada aluno e respeitada por todos que estão à sua volta” (idem). Com este tipo de processo ensino - aprendizagem em que o aluno é activo, a autoestima e motivação tornam-se crescentes, uma vez que o aluno poderá igualmente escolher dentre tantas actividades oferecidas as que mais lhe interessarem. Na universidade são proporcionadas actividades recreativas, “ físicas, manuais, culturais e intelectuais, com o intuito de melhoria na qualidade de vida dos alunos” (idem:8). Considerando que a educação deve ser para todos, independentemente do género ou idade, é de referir a importância da existência das Universidades Seniores, nascidas para garantir o bem-estar do idoso, enquanto pessoa e cidadão. As Universidades Seniores foram criadas com o objectivo de garantir melhor qualidade de vida aos idosos, proporcionar uma contínua aprendizagem, um envelhecimento activo e uma crescente e continuada socialização. Tal facto verifica-se na medida em que as ditas instituições propõem actividades às quais os idosos se adaptam facilmente, como podemos comprovar com o testemunho de Sodré (2009, p. 8): “essa adaptação ocorre devido ao fato de ser um projecto destinado apenas ao idoso, com cursos diversificados e específicos de varias áreas, fazendo assim com que tenham liberdade de escolha e possam ter maior variedade de conhecimento, entretenimento e assim estejam sempre se actualizando e possam ter uma nova visão sobre o que é estar na terceira idade”. 79 A educação tem de ser vista como processo permanente, conducente ao desenvolvimento do indivíduo a vários níveis, ampliando a “participação activa do homem no contexto social e cultural visando a uma melhoria nas relações interpessoais, na qualidade de vida, na compreensão de mundo e na esperança de futuro melhor e mais digno“ (Scortegagna & Oliveira, 2010, p. 6). Deste modo o indivíduo estará totalmente integrado na sociedade da qual faz parte, podendo participar nela de forma activa. É o que acontece com os idosos, através da educação proporcionada pela Universidade Sénior, pois poderão “ encontrar um novo sentido em viver, mesmo quando estes já se encontram desacreditados pela própria sociedade” (idem:7). Conclui-se, assim, que o idoso tem direito à educação. Não podemos considerar que as Universidades Seniores sejam vistas apenas como meros lugares de “assistencialismo ou compensação” (idem:1), mas antes como espaços onde o idoso aprende “a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer e aprender a conviver” (Delors, 1999; citado por Scortegagna e Oliveira, 2010:4). Será através da educação, proporcionada pelas Universidades Seniores, que o idoso terá a possibilidade de socializar, tal como referem as mesmas autoras: “Assim, o idoso tem condições através do processo educativo de socializar-se, além de inserir-se num contexto social maior, ampliando suas relações pessoais, conhecendo novas realidades, desmistificando medos e percebendo todo o espaço que pode conhecer e vivenciar“ (idem:10). 4.6. Os estilos motivacionais dos idosos para a frequência de uma Universidade da Terceira Idade segundo alguns autores Não são frequentes os estudos que determinam os estilos motivacionais dos idosos para frequentarem uma instituição como as Universidades da Terceira Idade. Swindell (1993), citado por Monteiro e Neto (2008), tinha apurado duas categorias para caracterizar o estilo motivacional dos idosos de uma UTI: a aquisição de conhecimentos e factores de contacto social. 80 Jarvis e Walker, em 1997 (como citado em Monteiro & Neto, 2008), tinham também definido os interesses cognitivos como principal razão para a associação a uma UTI. Néri e Cachioni (1999), também citados na obra de Monteiro e Neto (2008), chegaram a resultados para definir os motivos preponderantes que incentivam os alunos a frequentarem uma UTI, neste caso, a Universidade Sénior de Espinho, como: a busca de contacto social, a busca de conhecimentos e actualização cultural e a ocupação dos tempos livres. Já Monteiro e Neto (2008), apresentam no seu estudo alguns resultados para explicar o facto. Segundo os autores, “[…] as pessoas que frequentam estas instituições fazem-no pelo prazer que usufruem das actividades que frequentam, pelo convívio que permite desenvolver sentimentos afiliativos com outros com quem sentem afinidade, pela actualização dos seus saberes o que os capacita a interactuarem com as gerações mais novas de uma forma positiva, sentindo-se menos sós, provavelmente” (p. 151). Também num estudo preliminar, os autores apontam o convívio, a criação de novos relacionamentos sociais, a aquisição de novos conhecimentos e sua actualização como razões apontadas pelos idosos para frequentarem as UTI. Aline Chamahian (2010), no resumo da sua tese de doutoramento, honrosamente mencionada no 19ème Concours de l’Observatoire national de la vie étudiante, alude ao capital social e à procura da identidade como razões que levam os idosos a procurar formação após a reforma. Refere também a procura de conhecimentos e a ocupação dos tempos livres. Marconcín e os seus colaboradores (2010) criaram no seu trabalho as seguintes categorias para averiguar qual a representação que a Universidade tem para o idoso: aumentar o conhecimento, aumentar o contacto social, ocupar o tempo livre de forma útil, voltar ao passado. Esmeraldina Veloso (2011, p. 287) refere, nas conclusões do seu estudo empírico, que a frequência de uma UTI “devolve o sentido da vida e do tempo a muitos dos seus associados que tinham vivenciado a reforma como um corte. O facto de poderem sentir-se úteis prestando uma ajuda à comunidade ou sendo responsáveis por actividades culturais, de conviverem ou de poderem aprender […]” será um motor para a frequência de uma destas instituições. 81 Em suma, a participação nas Universidades Seniores significa para a maior parte dos idosos a possibilidade de ampliarem a rede de relações sociais, encontrar novos amigos, trocar experiências, sentirem-se acolhidos. Reflectindo sobre a importância das Universidades Seniores, podemos antever, desse já, o significado que elas podem ter na vida em idade mais avançada. 82 PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO 83 84 CAPÍTULO 5 – METODOLOGIA DA INVESTIGAÇÃO 5.1. Introdução Os estudos qualitativos consideram que existe uma relação dinâmica entre a realidade e o sujeito, ou seja, “um vínculo indissociável entre o mundo objectivo e a subjectividade do sujeito” (Vilelas, 2009, p. 105). O presente estudo insere-se numa investigação de cariz qualitativo uma vez que decorreu no ambiente natural da instituição em estudo. Neste capítulo, é feita uma breve abordagem teórica à investigação qualitativa em educação, incidindo particularmente no estudo de caso qualitativo. É feita também uma breve descrição dos participantes na investigação. São ainda referidas as estratégias de recolha de dados durante a investigação, nomeadamente através da observação directa e dos inquéritos (por entrevista) e a maneira como estes foram tratados. 5.2. Contexto da investigação – Caracterização da Instituição em estudo2 Começamos por abordar a questão do espaço, pois consideramos que, enquanto protagonista fundamental da história, “o espaço, embora não determine as práticas dos actores sociais, vai condicionar e influenciar as suas opções e acções quotidianas, no sentido em que se transforma numa referência cultural dos indivíduos” (Vilaça & Guerra, 2000, p. 86). Situado no Distrito de Viseu, região norte e sub-região do Douro, o concelho onde se insere a escola em estudo, apresenta um total de 24 freguesias e estende-se por uma área de 164,09 Km2. Segundo os Censos de 2011 a população residente é de 26.691. O Município é limitado a Norte pelos municípios de Mesão Frio e Peso da Régua, a Leste por Armamar, a Sudeste por Tarouca, a Sudoeste por Castro Daire e a Oeste por Resende. 2 Fonte: Todos os dados referentes à caracterização da instituição, ao número de professores, alunos, etc. foram fornecidos pela reitoria da Universidade. 85 O Concelho é um Município de elevada importância histórica e cultural na Região do Douro Sul. As suas raízes são anteriores à fundação da nacionalidade. A Universidade escolhida como objecto de estudo da nossa investigação é uma das 187 Universidades da Terceira Idade da rede RUTIS (Rede de Universidades de Terceira Idade). Foi criada a partir da constituição, em notário, de uma associação com o mesmo nome, em 1997. É, também, uma das 25 UTI da zona Aveiro/Viseu/Guarda. Foi declarada Pessoa Colectiva de Utilidade Pública em 2008. A sua criação, à semelhança das suas congéneres, surgiu para responder à necessidade sentida pela população envelhecida, de uma integração na sociedade bem como de um envelhecimento activo e consequentemente, de uma aprendizagem ao longo da vida na região em questão. Presta, segundo Despacho de Declaração de Utilidade Pública3, “úteis, relevantes e contínuos serviços à comunidade, nomeadamente junto da população idosa da região onde se insere, ao promover, através de uma variedade de iniciativas, a ocupação útil dos tempos livres dos idosos, a cultura em geral e a integração social dos beneficiários das suas acções.” A Universidade funciona todos os dias úteis das 10.30 às 12.00 horas da parte da manhã e das 14.30 às 16.30 horas da parte da tarde. Actualmente, conta com 140 elementos, dentre os quais 17 pertencem à Direcção, 22 são formadores, há 1 funcionária a meio-tempo e 45 alunos (com uma média de idades de 70 anos). Tendo em linha de conta que o estudo incidiu essencialmente em alunos com 65 e mais anos de idade, pudemos considerar para amostra 12 alunos que se voluntariaram para a nossa entrevista. Os 22 professores voluntários a leccionar na Universidade em questão, caracterizam-se da seguinte maneira: 14 são do sexo masculino e 8 do sexo feminino. A sua faixa etária maioritária situa-se acima dos 60 anos. Existem professores com habilitação para a docência e outros sem formação pedagógica, mas especialistas numa determinada área e que pretendem contribuir com a experiência e técnica que possuem. A maioria tem o grau de bacharel ou licenciado, havendo três com mestrado e um com doutoramento. Dezassete desses professores estão já em situação de reforma. Cada professor dá em média duas horas semanais à Universidade. 3 Não se mencionam dados do referido Despacho, quer no corpo do trabalho, quer nas referências bibliográficas, por questões de manutenção do anonimato da instituição em estudo. 86 No que respeita a apoios financeiros, a instituição funciona, neste momento, numas instalações cedidas pela Câmara Municipal, subsistindo com as receitas das quotas e das propinas dos sócios e dos alunos e de donativos pontuais. Relativamente aos sócios, actualmente, a UTI em questão recebe uma quota anual de 35 euros. As propinas podem ser pagas mensal, trimestral ou anualmente, de acordo com a conveniência de cada um: dez euros mensais para uma disciplina e quinze por duas ou mais, entre Outubro e Junho, inclusive. Tem disponível uma oferta educativa de catorze disciplinas: - Cavaquinhos - Coisas de vária história - Coral - Educação Física - Informática - Interpretação da riqueza museológica do concelho - Introdução à expressão dramática - Jograis - Língua Francesa - Língua Inglesa - Literatura Portuguesa - Formas Literárias - O 25 de Abril no concelho - Questões actuais - Salazar e o seu tempo E possui ainda 7 Ateliês: - Artes decorativas (Arte Aplicada e Arte Sacra) - Bainhas abertas - Estanho - Horticultura e Floricultura - Lavores e bordados - Pintura a aguarela - Trabalhos em madeira A Universidade conta com um grupo coral bastante activo, organiza colóquios e exposições, visitas de estudo à região e a vários pontos do país com o fim de promover o conhecimento do património nacional. 87 A Universidade Sénior dispõe de cinco salas equipadas com quadro, mesas e cadeiras; possui alguns aparelhos audiovisuais, utilizados nas aulas, quando necessário. A disciplina de Informática decorre num espaço ligado à autarquia, uma vez que a universidade não dispõe de computadores suficientes para este fim. 5.3. O Método, as Técnicas de Pesquisa e os Participantes no Estudo 5.3.1. Do problema ao método Segundo Fortin (2003, p. 15) “a investigação científica é um processo que permite resolver problemas ligados ao conhecimento dos fenómenos do mundo real no qual vivemos”. Para esta autora a diferença entre esta forma de o fazer e outras que identifica como “intuição”, “as tradições e a autoridade”, “a experiência pessoal: tentativa e erro” e o “raciocínio lógico”, reside no facto de a investigação científica ser o método mais “rigoroso e o mais aceitável” por “assentar num processo racional” (Idem:17). O processo de estudo científico inicia-se pela definição de um problema (Vilelas, 2009; Reis, 2010), que deve ser o ponto fulcral de um processo que será tanto mais válido quanto mais concreta for a sua identificação, mas pode não se cingir a ele uma vez que toda a investigação tem por base um problema inicial que se vai complexificando, em interligações constantes com novos dados, até à procura de uma interpretação válida, coerente e solucionadora, ou seja, questões acessórias que se interpõem entre o objectivo do estudo e a sua materialização. O problema inicial deste trabalho sobre o qual nos debruçámos foi, conforme já explicitámos antes: Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição? Tendo um conhecimento mais abrangente da problemática, principalmente devido ao trabalho realizado na revisão da literatura, surgiram outras questões e problemas que também orientaram o nosso estudo, como: - Porque voltam os idosos a querer estudar? - Porque vão os idosos para as UTI? - Qual a importância das UTI na qualidade de vida dos idosos? 88 Pretende-se, com isto, satisfazer os seguintes objectivos, que segundo Vilelas (2009: 378), “[…]devem ser delineados com o intuito de responder às nossas indagações. São constituídos por um objectivo geral, abrangente, que reflecte o objecto que se pretende estudar, e por vários objectivos específicos que revelam os diversos factos que iremos pesquisar para alcançar o geral.”: ■ Objectivos gerais da investigação O objectivo geral deste trabalho é perceber as razões apontadas pelos utentes idosos da Universidade Sénior para a inscrição nos cursos aí ministrados. ■ Objectivos específicos da investigação Os objectivos específicos são: . Inferir acerca da importância das UTI que se assumem como organismos promotores de bem-estar e perceber também quais os factores que poderão potenciar este bem-estar . Conhecer a problemática que envolve a velhice e o envelhecimento. . Compreender a contextualização das Universidades da Terceira Idade. . Transversalmente, pretende-se divulgar as Universidades da Terceira Idade e a sua influência nos meios de Educação e Saúde, bem como na comunidade em geral, ajudando assim na credibilização desta modalidade de educação. A metodologia usada para a concretização deste trabalho assentou, assim, em três fases principais. Numa primeira fase, essencialmente teórica, desenvolveu-se uma intensa pesquisa de referências sobre as temáticas abordadas (Envelhecimento populacional, Velhice e Universidades da Terceira Idade) visando a fundamentação do presente estudo. Tentámos usar as mais recentes obras científicas disponíveis que tratam do assunto em causa, fazendo um levantamento e análise do que já havia sido publicado sobre o tema. Várias foram as pesquisas feitas, havendo uma compilação e organização das referências bibliográficas usadas. Foram feitas fichas de leitura dos artigos mais relevantes, de modo a tornar mais fácil a revisão da literatura. Numa segunda fase, essencialmente prática, desenvolveu-se um estudo sobre as razões apontadas pelos idosos de uma Universidade Sénior do distrito de Viseu para estarem a frequentar os cursos lá ministrados. Assim, nesta fase, procedeu-se à caracterização da população-alvo e à elaboração e aplicação das entrevistas. As entrevistas foram realizadas no ambiente em estudo e depois de autorizado, gravadas em suporte áudio, captando as conversas e respostas verbalizadas. Também as respostas não 89 verbalizadas são importantes e por isso foi tido em conta o comportamento não-verbal dos entrevistados através da observação, que foram registadas em notas pós-entrevista. Os objectivos das entrevistas foram sempre claramente explicitados aos entrevistados e foi sempre valorizado e agradecido o tempo dispensado e o contributo para a investigação. De modo a programar e situar melhor a entrevista, elaborámos um guião para a sua preparação que apresentamos nos apêndices. Elaborámos o guião do decurso e da finalização da entrevista. Os nossos apontamentos pessoais também foram um instrumento muito útil, na medida em que aí foram registadas todas as anotações feitas ao longo deste processo de estudo, que nos forneceram informações relevantes para a redacção do texto final. Na terceira fase, após transcrição das entrevistas, procedeu-se à análise de conteúdo de acordo com os objectivos previamente estipulados. Esta análise envolve o estudo dos dados, a sua organização, divisão em unidades manipuláveis, síntese, procura de padrões, descoberta de aspectos importantes e decisão sobre o que foi transmitido. A apresentação de resultados da investigação contemplou todos os dados obtidos ao longo da pesquisa para que o leitor possa ter conhecimento de tudo o que originou os resultados finais. Em relação ao enquadramento do estudo, este é do tipo qualitativo na sua essência (Vilelas, 2009), dado que se centra no modo como as pessoas interpretam e vivenciam as suas experiências. A base desta investigação residiu, assim, numa abordagem interpretativa da realidade social, traduzindo-se num paradigma claramente interpretativo, sendo que, o objectivo deste estudo não foi descobrir leis universais de conduta humana, mas acima de tudo, descobrir como as pessoas interpretam e agem sobre o mundo envolvente, fazendo parte de uma situação dificilmente repetível, logo dificilmente generalizável, dado que é um estudo de um caso (Os idosos que frequentam uma Universidade Sénior do Distrito de Viseu). Quanto à manipulação e controlo, a tendência foi a procura de padrões. Foi feita análise de conteúdo. A análise de conteúdo, é, segundo Esteves (2006, p. 107), “[…] a expressão genérica utilizada para designar um conjunto de técnicas possíveis para tratamento de informação previamente recolhida”. A questão da validade é inerente ao processo de análise de conteúdo e atravessa todas as suas etapas. Assegurámo-nos de que foram medidos os dados pretendidos. A questão da fidelidade, tem algumas limitações especiais, uma vez que qualquer conteúdo é susceptível de interpretações diferenciadas de acordo com o seu codificador. Estando a categorização bem definida, essa questão terá uma probabilidade menor de ambiguidade. 90 A população-alvo escolhida situa-se entre a totalidade de idosos (maiores de 65 anos) inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu no ano lectivo 2012/2013 dado que soubemos de antemão que o número de pessoas nestas condições era de cerca de vinte e quatro pessoas, sendo por isso uma população exequível no que diz respeito à aplicação de entrevistas. Ao efectuar-se uma investigação podem-se utilizar diversas técnicas de recolha de dados. Para o nosso projecto de investigação seleccionámos o inquérito por entrevista semiestruturada (foi construído previamente um guião com objectivos definidos que funcionou como um roteiro temático e que serviu como linha orientadora) como instrumento, por acharmos servir melhor o objectivo do trabalho. As questões da entrevista foram, logicamente, articuladas com os objectivos definidos e com a questão de partida. Ao longo do trabalho, outras técnicas como a observação estruturada e a tomada de notas de campo foram relevantes para este projecto. A entrevista foi dirigida pelo investigador no local em estudo sendo feita previamente uma apresentação onde se explanou o objecto e objectivos do estudo, nome e contactos do investigador e um agradecimento. A formulação de perguntas da entrevista teve como lema ser o mais explícita possível. Foi efectuado um pré-teste, dada a natureza da população-alvo, no sentido de haver uma detecção de erros ou dificuldades de compreensão. Esse pré-teste foi feito a pessoas com semelhante condição, alunos de uma outra instituição sénior vizinha de modo a reproduzir o melhor possível os idosos da US. Em relação às questões éticas, tal como refere Vilelas (2009, p. 371), “a investigação que envolve seres humanos pode pôr em causa os direitos e liberdades da pessoa”. Foram assim, consideradas todas as situações que visassem a obtenção objectiva, livre e facultativa das informações pretendidas, respeitando o direito à autodeterminação e à intimidade bem como a confidencialidade e anonimato. Foi também respeitando sempre o direito a um tratamento justo e equitativo, de acordo com Fortin (1999, como citada em Vilelas, 2009). Tomou-se, assim e sempre, a iniciativa de informar os visados dos objectivos reais do estudo, dando garantia de anonimato e ainda, liberdade de responder total ou parcialmente às questões. 91 5.3.2. Instrumentos de pesquisa Para recolher as representações dos entrevistados face aos objectivos, foi previamente elaborado um guião de entrevista que culminou na organização das perguntas da entrevista propriamente ditas. A elaboração do guião “constitui um momento importante da investigação, na medida em que ele orientará a recolha de dados. Importa referir que este guião pode ser afinado no decurso da investigação, em que algumas questões podem tornar-se mais importantes do que outras, em função da pessoa entrevistada” (Albarello & al, 1997, p. 217). Por isso, existe a necessidade de construir o guião com uma estrutura maleável que permita se necessário, colocação de novas questões no decorrer da entrevista e que permita a livre expressão das ideias e representações sem esquecer os objectivos pretendidos. A entrevista consiste num processo de comunicação no decurso do qual o entrevistado responde a questões colocadas oralmente e previamente desenhadas em função dos objectivos do estudo, permitindo, desta forma, a recolha de informações e elementos de reflexão fundamentais à pesquisa (Quivy & Campenhoudt, 1998). Constituise como uma técnica recomendada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo, obtendo-se, assim, um conhecimento mais holístico e contextualizado acerca do problema em estudo que nem sempre se consegue mediante o recurso a outros métodos de investigação (Bogdan & Bicklen, 1994; Valles, 1999). A opção metodológica para a recolha dos dados neste estudo recaiu sobre a realização da entrevista semiestruturada (Bardin, 1994). Neste tipo de entrevista, são utilizadas perguntas-guia, a propósito das quais é imperativo receber uma informação por parte do entrevistado, que fala abertamente mas, sempre que se afaste dos objectivos da entrevista, é reencaminhado pelo entrevistador. As vantagens da realização deste tipo de entrevista são diversas, quando comparadas com outras técnicas de recolha dos dados, entre as quais destacamos as seguintes: i) Possibilitam uma abertura e proximidade maiores entre entrevistador e entrevistado; ii) Permitem uma maior elasticidade quanto à sua duração, admitindo uma cobertura mais profunda sobre determinados assuntos; 92 iii) Permite aprofundar temas abordados (ou respostas espontâneas) pelo entrevistado que se revelem de interesse para o estudo; iv) Proporciona que o entrevistador esclareça os erros e interpretação que detecte aquando do seu questionamento (Quivy & Campenhoudt, 1998). Tendo por base os pressupostos referidos anteriormente e a revisão da literatura, a construção do guião da entrevista semiestruturada teve em consideração os contributos de carácter metodológico de diversos autores (Bardin, 1994; Quivy & Campenhoudt, 1998), bem como os objectivos do estudo. Tal como referimos acima, o estudo foi efectuado no ambiente natural da instituição em estudo: uma Universidade Sénior do distrito de Viseu. Tinham sido estabelecidos dois critérios fundamentais para a selecção dos elementos a entrevistar: i) Ser aluno da instituição em causa no ano lectivo de 2012-2013; ii) Ter 65 ou mais anos de idade. Participaram na nossa investigação doze alunos com idade igual ou superior a 65 anos. Participaram todos os que o aceitaram fazer de forma voluntária. As entrevistas foram realizadas nos dias 26, 27 e 28 de Dezembro de 2012 e 6 e 11 e Fevereiro de 2013 e concretizaram-se em horário combinado numa sala da instituição que reunia as condições adequadas para a realização das mesmas. No local apenas estavam presentes a investigadora e o entrevistado, ou a entrevistada, a quem se pediu permissão para gravar em áudio a entrevista. Na condução das entrevistas, conscientes do quão importante seria o contributo dos intervenientes e sem querer deixar nenhum pormenor descuidado, procurámos que as entrevistas decorressem sem qualquer tipo de constrangimentos externos, dando aos sujeitos à vontade e liberdade para responder às questões. No decurso das entrevistas, foi nosso intuito manifestar, por meio do nosso comportamento não-verbal, interesse e atenção pelas palavras dos entrevistados, estimulando-os a avançar. A excelente relação de abertura e disponibilidade, que se estabeleceu desde o início com cada um dos doze entrevistados, foi sem dúvida essencial no processo de recolha de dados. A duração global de cada entrevista foi variável, de acordo com o tempo que cada entrevistado necessitava para se expressar, oscilando entre 12 e 33 minutos. De modo a preservar a sua identidade e de acordo com a ordem de realização das entrevistas os entrevistados foram numerados de E1 a E12 conforme a sequência da 93 realização das entrevistas a fim de assegurar o anonimato e o carácter confidencial das informações prestadas. 5.3.3. Guião da entrevista O guião da entrevista4 obedeceu a objectivos gerais e específicos, que, de certo modo, ajudaram a delinear algumas categorias mais gerais. O guião garante alguns aspectos gerais como a fase de explicação dos objectivos da entrevista, a garantia dos aspecto éticos e deontológicos, os agradecimentos pela participação e a disponibilização para recepção de sugestões ou questões por parte dos entrevistados ou para futuro acesso a dados do estudo. Garante também a categorização das questões da entrevista. As primeiras cinco questões serviram para colectar dados pessoais: idade, estado civil, composição actual e inicial do agregado familiar, nível de escolaridade e percurso de vida escolar. De seguida, pretendemos caracterizar a situação profissional actual e o próprio percurso de vida profissional do entrevistado: situação de aposentação, percurso profissional. Existe também um conjunto de questões sobre o quotidiano: como passa o ia, como ocupa os seus tempos livres, pertenças a grupos, seguida de uma descrição dos relacionamentos sociais. Vêm depois as questões relativas às razões da inscrição na UTI e sobre as opiniões sobre as eventuais mudanças introduzidas na vida do entrevistado. Após a realização das entrevistas procedeu-se à transcrição das mesmas e posteriormente à execução da respectiva análise de conteúdo. 5.3.4. Análise de conteúdo Considerando o objecto, os objectivos e os pressupostos teóricos em que assenta o presente estudo, no que diz respeito à análise dos dados, optou-se pela análise de conteúdo. 4 Ver Anexo 3 94 A análise de conteúdo pode ser descrita como sendo “Um conjunto de técnicas de análise das comunicações.” (Bardin, 1994, p. 31). A análise de conteúdo é considerada a fase mais formal do trabalho do pesquisador. Os conteúdos obtidos devem, então, ser categorizados sem, contudo, perder de vista a relação desses elementos com todos os outros componentes. A análise de conteúdo permite fazer inferências por meio da identificação sistemática e objectiva do conteúdo da mensagem. A sua finalidade consiste em efectuar interpretações relativas à informação sobre a qual é realizada a análise, no sentido a que outras pessoas possam aferir o procedimento seguido. Assim, a análise de conteúdo tem por objectivo efectuar inferências, assentando numa lógica explicitada, sobre mensagens cujas características foram inventariadas e sistematizadas (Vala, 1986). Segundo Bardin (1994) na análise de conteúdo é importante classificar, descrever, sistematizar, quantificar as categorias inseridas no corpo documental com o objectivo de explicitar e sistematizar o conteúdo descrito nas entrevistas. A análise dos dados consiste na organização sistemática do material colhido no terreno com o objectivo de, através dele, aumentar a nossa compreensão sobre o fenómeno em estudo. Esta análise envolve “trabalhar com os dados, a sua organização, divisão em unidades manipuláveis, sintaxe, procura de padrões, descoberta de aspectos importantes e do que deve ser apreendido e a decisão sobre o que vai transmitido aos grupos” (Bogdan & Bicklen, 1994, p. 205). Nesta investigação, a informação foi tratada através de análise de conteúdo, com recurso à decomposição do discurso em categorias. Como nos diz Bardin (1994, p. 11) “A categorização é uma execução metódica de dados característicos de um conjunto, por distinção e, nessa sequência, através de uma reunião de acordo com a relação de semelhança entre objectos diferentes, com condições necessárias e suficientes anteriormente fixadas”. Relativamente ao procedimento da análise de conteúdo que utilizámos para as entrevistas, estamos conscientes que se trata de um processo complexo, no entanto, tentámos ultrapassar esta situação através de processos de validação, da análise dos dados procedemos a uma análise categorial definida por Bardin (1994, p. 37) como “o método das categorias, espécie de gavetas ou rubricas significativas que permitem a classificação dos elementos de significação constitutivos da mensagem”. Para esta análise não foram definidas categorias à partida, essas categorias foram delineadas a partir dos discursos dos entrevistados. Procedeu-se, deste modo, a uma categorização emergente (Bardin, 1994, p. 95 119) em que “o sistema de categorias não é fornecido, antes resultando da classificação analógica e progressiva dos elementos. (…) O título conceptual da cada categoria, somente é definido no final da operação”. Apoiamo-nos também em Vala (1986, p. 111) quando afirma que “a construção de um sistema de categorias pode ser feita a priori ou a posteriori, ou ainda através da combinação destes dois processos”. Uma vez que os dados compilados se encontravam sob a forma de texto usámos os procedimentos comuns de análise do conteúdo. A cada entrevistado foi atribuído um número, no sentido de assegurar a confidencialidade, surgindo com a designação de entrevistado E1, E2, E3, E4, E5…até E12, segundo a ordem em que foi feita a entrevista, conforme já foi referido. Após a realização das entrevistas, estas foram transcritas com a máxima fidelidade possível e procedemos à sua organização, tratamento e análise. Analisámos cada entrevista individualmente e também as comparámos entre si. Após a transcrição das mesmas, empreendemos uma primeira leitura geral a fim de uma análise e conhecimento do texto deixando-nos invadir por impressões e orientações. Depois realizámos várias leituras de uma forma mais aprofundada o que permitiu destacar alguns temas e ideias centrais, ainda que provisórias. Depois de termos em mente as concepções pessoais de cada entrevistado, a análise de conteúdo das entrevistas foi organizada em sistemas e regras de codificação através das quais se desenvolvem unidades de enumeração ou de contagem baseadas num processo claro e objectivo, facilitador da categorização e contagem das frequências (Bardin, 1994). Após a recolha e análise de todos os dados recebidos, foram feitos Gráficos/Quadros para o registo dos mesmos. 5.3.5. Caracterização dos entrevistados - primeira e breve aproximação Tendo em conta os pressupostos anteriores, participaram neste estudo 12 alunos da UTI com idades compreendidas entre os 65 e os 84 anos (média de 74,9 anos). De salientar que existem 9 indivíduos do sexo feminino e 3 do sexo masculino. Os seus níveis de habilitações variam entre a antiga 4ª classe e a Licenciatura. Seguidamente apresentam-se, num quadro, alguns elementos caracterizadores dos entrevistados. 96 Quadro 2 – Caracterização geral dos entrevistados Aluno entrevistado Idade (anos) Sexo Habilitações Académicas E1 79 F 10º ano E2 74 F 11º ano E3 65 F 9º ano E4 73 F Magistério Primário E5 80 F Licenciatura E6 77 F Magistério Primário E7 80 M Curso Superior Militar E8 65 F 4º ano E9 65 F 10º ano E10 77 F 9º ano E11 80 M 9º ano E12 84 M Curso Superior Militar 5.3.6. Ética da pesquisa Foram consideradas todas as situações que visam a obtenção objectiva, livre e facultativa das informações pretendidas. Tomou-se a iniciativa de informar a instituição em causa dos objectivos reais do estudo, garantindo o anonimato e ainda, a liberdade de responder total ou parcialmente às questões.5 5.3.7. Limitações do estudo As limitações deste estudo prendem-se, sobretudo, com o seu carácter exploratório e com o número limitado de sujeitos em estudo. De facto, foram apenas doze os entrevistados. Nesse sentido, os resultados obtidos dizem respeito apenas a este grupo de alunos. No entanto, devemos realçar que estes doze entrevistados são metade dos alunos com 65 ou mais anos utentes da Universidade Sénior. 5 Ver anexo 1 97 Na nossa pesquisa não se partiu de hipóteses prévias e portanto o nosso objectivo não foi a sua verificação, mas a construção de um conjunto de conclusões que pretendem responder a uma problemática inicial. O nosso objectivo consistiu, portanto, em explicar/aprofundar um determinado fenómeno, neste caso, saber: Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos disponíveis nessa instituição? Face ao objectivo definido, o estudo permitiu obter todos os dados pretendidos. Contudo, não pode deixar-se de referir alguns limites deste estudo, não para desculpabilizar eventuais erros/lacunas, mas para evidenciar a consciência que se tem da distância existente entre o objectivo pretendido e o objectivo produzido. Um primeiro limite tem a ver com o espaço de tempo definido para a concretização deste estudo face à disponibilidade perante as exigências profissionais e familiares. Outro limite prende-se com a dificuldade em encontrar referências bibliográficas na temática em questão. 98 CAPÍTULO 6 – APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Terminada a fase de recolha de dados, procedemos à sua organização, tratamento e análise. Tendo sempre em mente o objectivo de perceber porque voltavam os idosos a querer estudar, porque iam para a UTI e qual a importância da UTI na sua qualidade de vida, começámos por analisar os discursos feitos pelos entrevistados, a fim de perceber o que eles disseram a respeito da sua experiência enquanto alunos da UTI. Consideramos que todos os dados reunidos com as entrevistas se destinaram principalmente a esclarecer a nossa pergunta de partida: Quais as razões apontadas pelos idosos inscritos numa Universidade Sénior do distrito de Viseu para a frequência de cursos ministrados nessa instituição? E é dentro deste princípio que passamos a especificar as categorias, os respectivos indicadores de contagem, bem como a nossa interpretação. No quadro destas ideias, consideramos que esta fase de definição de categorias de análise foi crucial, na medida em que nos permitiu simplificar o material recolhido e, desta forma, permitiu fazer inferências sobre as mensagens cujas características foram inventariadas e sistematizadas, de modo a fazer uma interpretação dos dados obtidos. Como salienta Bardin (1994), é a inferência que permite a passagem da descrição à interpretação, enquanto atribuição de sentido às características do material que foram levantadas. Os resultados irão ser apresentados categoria a categoria. A definição das dimensões e categorias de análise, como já referimos, foi efetuada a partir da leitura dos discursos dos entrevistados. Este formato de recolha de dados permitiu-nos obter um corpus de dados relativamente homogéneo, facilitando a sua análise, embora tivesse havido a possibilidade para a expressão livre dos entrevistados. Na tentativa de agrupar as unidades de análise análogas, colocámos os respectivos excertos de frases, parágrafos ou períodos das entrevistas, que correspondiam ao discurso proferido por cada entrevistado/a, o qual era considerado pertinente e significativo para aquela dimensão de análise. No entanto, tivemos em atenção que uma unidade demasiado pequena, repetitiva, perderia o seu significado. 99 6.1. Dados pessoais, académicos e profissionais Nesta secção realiza-se uma caracterização dos entrevistados a partir dos seus dados pessoais, académicos e profissionais, dados com os quais já realizámos uma primeira aproximação acima. Quadro 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI Entrevistado Género E1 Feminino E2 Feminino E3 Feminino E4 Feminino E5 Feminino E6 Feminino E7 Masculino E8 Feminino E9 Feminino E10 Feminino E11 Masculino E12 Masculino Gráfico 3 - Género dos entrevistados/alunos da UTI 25% Maculino Feminino 75% 100 Os entrevistados dividem-se quanto ao seu género, em nove elementos do sexo feminino (75%) e três do sexo masculino (25%), consolidando, os dados demográficos que indicam uma maior expressão feminina nas pessoas idosas na estatística6, bem como a afirmação da RUTIS quando diz que 80% dos utentes das UTI são mulheres 7. Diferentes factores poderão contribuir para uma predominância do sexo feminino, tendo como exemplo o desequilíbrio existente na própria composição populacional em termos nacionais, derivado do registo de maiores taxas de mortalidade que se verificam no sexo masculino, seja à nascença e nos primeiros anos de vida, seja nas idades mais avançadas. Outro factor importante a considerar prende-se com a possibilidade de a mulher sair da esfera privada para um espaço público, onde pode conviver e dedicar-se a certas actividades culturais/recreativas, e que, anteriormente, pelas responsabilidades familiares e laborais não pôde concretizar. Quadro 4 - Idade dos entrevistados/alunos da UTI Entrevistado Idade E1 79 E2 74 E3 65 E4 73 E5 80 E6 77 E7 80 E8 65 E9 65 E10 77 E11 80 E12 84 6 7 Ver Gráfico 2 na página 14. Ver página 72. 101 Quadro 5 - Peso percentual por categorias etárias Categorias etárias Incidência Peso Percentual 65 – 69 anos 3 25% 70 – 74 anos 2 17% 75 – 79 anos 3 25% 80 – 84 anos 4 33% 85 - 89 anos 0 0% Gráfico 4 - Distribuição dos entrevistados por intervalos de idade 0% 25% 33% 65-69 70-74 75-79 80-84 17% 85-89 25% Pela análise do gráfico anterior podemos concluir que a maioria dos entrevistados se situa na categoria etária dos 80-84 anos, seguindo-se as categorias dos 65-69 e dos 7579 anos. Lembremos a caracterização das Universidades da Terceira Idade feita pela RUTIS8 que situa a média de idade dos seus alunos a nível nacional nos 60-69 anos, o que não coincide com a média aqui apresentada, talvez pelo tamanho da amostra não ser 8 Na página 72 deste trabalho. 102 representativo da real média desta instituição, que diz ter uma maioria de alunos na faixa acima dos 60 anos9. Os entrevistados são na sua maioria casados (8 - 67%), havendo também 4 viúvos (33%). Gráfico 5 - Estado civil dos entrevistados 4; 33% casado viúvo 8; 67% No quadro número 6 podemos ver para além do estado civil dos entrevistados, o seu agregado familiar inicial e actual. 9 Na página 81 deste trabalho. 103 Quadro 6 - Agregado familiar do entrevistado - situação inicial e actual Entrevistado Estado civil Agregado familiar inicial Agregado familiar actual E1 Casada Casal e 5 filhos Casal E2 Viúva Casal Vive só E3 Casada Casal e 3 filhos Casal e 1 filho E4 Casal Casal e 2 filhos Casal E5 Viúva Casal, 8 filhos, tio e cunhado Vive só E6 Casada Casal e 2 filhos Casal E7 Casado Casal e 3 filhos Casal E8 Casada Casal e 3 filhos Casal e pai E9 Viúva Casal e 3 filhos Vive só E10 Casada Casal e 1 filha Casal E11 Viúvo Casal e 1 filho Vive só E12 Casado Casal e 3 filhos Casal Verifica-se que todos os viúvos (4) vivem sós, conservando a sua independência e autonomia. Alguns tiveram propostas para ir viver com os filhos mas recusaram temendo incomodar, como é o caso, por exemplo do E11: “Vivo sozinho. Porque eu quis. Ele queria que eu ficasse em casa dele mas eu vi que estava a prejudicar o meu neto. Estava a ficar sem quarto por minha causa e eu não gostei […]”. Um dos entrevistados (E3) vive com o marido e com um filho adulto com problemas psicológicos, continuando, deste modo, as suas responsabilidades familiares de mãe e esposa. Outro entrevistado, o E8, assumiu a responsabilidade de cuidadora do pai: “Estou só com o meu marido e o meu pai, que faz 92 anos no dia 15 de Março”. Na página 43 deste trabalho fizemos referência a este facto: O envelhecimento activo acarreta, assim, novos desafios e tensões na vida de muitas mulheres, cujo quotidiano se reparte pelo cumprimento de responsabilidades várias, seja na esfera laboral, familiar (domínio onde são as principais prestadoras de cuidados a 104 elementos progenitores e/ou a crianças mais pequenas – netos e netas), seja ainda na comunidade mais vasta (Casaca & Bould, 2012). Como podemos verificar pelo quadro e gráficos abaixo, os entrevistados têm habilitações que variam entre o 4º ano (4ª classe) e a Licenciatura ou Cursos Superior Militar, tal como afirmou a RUTIS, reportando-se ao grau de instrução variável dos alunos da Universidades Sénior10. Optámos por utilizar a actual categorização por ciclos para uma mais fácil leitura da formação dos alunos da UTI, excluindo dessa associação o Magistério Primário que na altura não era considerado ensino superior. Assim, existe apenas um aluno (8%) com o 4º ano, sendo a maior fatia (33%) a do Ensino secundário (até ao 11º ano, dado que não existia 12º ano) seguido das fatias do 2º e 3º ciclo do Ensino Básico (até ao 9º ano) e ensino superior (20%), neste caso, percentagem correspondente à referida por Jacob (2012). Conclui-se deste modo que os entrevistados da Universidade em estudo têm formação académica de grau maioritariamente elevado (ensino secundário e superior) num total de 53% (8 indivíduos). Quadro 7 - Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI Entrevistado Habilitações académicas E1 10º ano E2 11º ano E3 9º ano E4 Magistério Primário E5 Licenciatura E6 Magistério Primário E7 Curso Superior Militar E8 4º ano E9 10º ano E10 9º ano E11 9º ano E12 Curso Superior Militar 10 Ver página 72. 105 Gráfico 6- Habilitações académicas dos entrevistados/alunos da UTI 1; 8% 2; 17% 4º ano 9º ano 1; 8% 3; 25% 10º ano 11º ano Magistério Primário Licenciatura 2; 17% Curso Superior Militar 2; 17% 1; 8% Gráfico 7 - Habilitações dos entrevistados por ciclo de ensino 1; 7% Ensino Básico (actual 1º CEB) 3; 20% 3; 20% Ensino Básico (actual 2º CEB) Ensino Básico (actual 3º CEB) Ensino Secundário/Magistério Primário Ensino Superior 5; 33% 3; 20% Como podemos ver pelo quadro seguinte a maioria dos nossos entrevistados foi obrigada a parar de estudar. 106 Quadro 8 - Percurso escolar dos entrevistados Categorias Frequência Sujeitos C1 - Estudou até onde desejou 4 E3, E4, E7, E12 C2 - Parou de estudar por obrigações 2 E5, E11 familiares. C3 - Não estudou porque não deixaram 5 E1, E2, E8, E9, E10 (pais/cônjuge) C4 - Estudou por necessidade 1 E6 Nele podemos verificar também que a maioria dos nossos entrevistados foi obrigada a parar de estudar por motivos alheios à sua vontade, ou porque os progenitores não deixaram ou porque começando a namorar ou casando, o parceiro não concordou com a continuidade dos estudos. Vejamos alguns exemplos: E1 - “Fiz até ao 7º ano. Depois, saí porque o meu marido começou a namorar comigo e não quis que eu estudasse mais. Entretanto fez-me falta […]” E2 – “Casei. Depois ele já não deixou. [estudar].” E8 – “Gostava muito de estudar, gostava de ser professora, mas era a mais velha… nunca andei a trabalhar no campo, mas os meus pais mandaram-me para a costura… Tive de tratar dos meus irmãos.” E10 – “Não tirei curso nenhum. Os meus pais entenderam que eu não sairia de casa. Só saí quando casei.” Também se destaca um caso de interrupção dos estudos por obrigações familiares. Neste caso, o entrevistado deixou de estudar para tratar de negócios de família: E11 – “Os meus pais eram de ali de Fornos de Algodres e deixaram os terrenos assim de qualquer maneira. E foi por isso mais que eu vim embora” 107 Um dos entrevistados estudou para fazer face aos fracos recursos económicos dos pais: E6 – “Sim, estudei porque quis e porque tive necessidade. Os meus pais não tinham rendimentos para me terem e eu tirei um curso e fiquei melhor, protege-nos sempre mais.” Como já vimos, noutras épocas, o abandono ou a não frequência da escola, era uma opção virada para o mundo do trabalho ou da família. Estudar era uma opção muito secundária (Castro & Franco, 1980)11. No quadro seguinte damos conta da situação laboral actual dos entrevistados. Quadro 9 - Situação laboral actual dos entrevistados Categorias Frequência Sujeitos C1 – Reformado 9 E1, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E11, E12 C2 – Reformado por invalidez 1 E3 C3 – Nunca descontou 1 E10 C4 – Nunca trabalhou 1 E2 Todos os entrevistados estão, de uma maneira ou de outra, fora da vida laboral, neste momento, quer por aposentação, quer por nunca terem tido uma profissão. A maioria dos casos (9) está aposentado de forma natural após o tempo regulamentar de trabalho. Existe uma entrevistada com 65 anos e reformada há 12 por invalidez. Há também uma entrevistada que trabalhou até aos 52 anos sem nunca ter descontado e que parou de trabalhar para cuidar da neta. Uma das entrevistadas, nunca teve uma profissão, tendo ao longo da vida ajudado o marido nas suas empresas. 11 Ver página 54 deste trabalho. 108 Quadro 10 - Percurso profissional dos entrevistados Entrevistado Profissão que exerceu E1 Procuradora judicial E2 Não trabalhou E3 Fabricante de malhas E4 Professora E5 Professora E6 Professora E7 Militar E8 Cozinheira E9 Agricultora E10 Cabeleireira E11 Bancário E12 Militar Pela diversidade de profissões não fazemos aqui a categorização mas sim a descrição de cada uma por entrevistado, de modo a obter assim, uma fácil leitura da actividade profissional de cada entrevistado. Deste modo, temos três professoras (E4, E5, E6), dois militares (E7, E12), uma entrevistada que nunca exerceu nenhuma profissão (E2) e diversas profissões como cozinheira, agricultora, cabeleireira, procuradora judicial, fabricante de malhas ou bancário. Esta diversidade de profissões pode indicar-nos que a frequência de uma UTI não responde a nenhuma categoria profissional determinada, no caso concreto desta instituição. Como podemos ver pelo quadro seguinte metade dos inquiridos (6) não planeou a sua entrada na reforma. 109 Quadro 11 - Planeamento da entrada na reforma Categorias Frequência Sujeitos C1 – Planeou a aposentação 5 E4, E5, E7, E10, E12 C2 – Não planeou a aposentação 6 E1, E3, E6, E8, E9, E11 C3 – Não se aplica (não teve profissão) 1 E2 Os excertos das entrevistas abaixo exemplificam alguns dos casos de não planificação das reformas: E1 – “Sabia uma coisa… parada não havia de ficar… mas não…foi um dia de cada vez… tinha tantas coisas para fazer que nem dei por isso.” E3 – “Não planeei a minha reforma. Teve de ser… adoeci.” E6 – “E eu disse: pronto, vou, já fico descansada, é melhor para a minha casa. Nunca pensei em fazer nada.” Veja-se o exemplo do inquirido E9 que diz não ter planeado a sua aposentadoria por prever ter uma reforma muito reduzida: E9 - “Não. Eu já sabia que a minha reforma era muito pequena” Note-se o que foi dito na parte teórica, baseado em Casaca e Bould (2012) sobre a importância de alertar para o facto de algumas reformas introduzidas nos sistemas de pensões serem particularmente penalizadoras para a população feminina, o que certamente diminui as expectativas em relação ao que se vai fazer no tempo pós-reforma, pela falta dos meios financeiros necessários para a realização de certas actividades. Os inquiridos que planearam a sua aposentação foram cinco. O outro entrevistado não passou por esse processo uma vez que nunca teve uma profissão. De qualquer forma, foi várias vezes referida a manutenção de actividade, como em: E7 – “Eu pensei sempre na reforma, em utilizar as minhas capacidades, parar não, de forma que eu programei a minha vida.” 110 E12 – “Eu antes de me reformar já tinha certas actividades [...]. Portanto quando me reformei não tive receio de ficar na inactividade. Muitos quando passam à reforma ficam aflitos, que é que eu vou fazer… eu estive sempre activo.” Foi também referido no nosso enquadramento teórico, quando abordámos as actividades de lazer, prazerosas e sem obrigações, como alternativa à profissão, na página 49 do nosso trabalho, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008), que na velhice, o tempo de lazer, sem constrangimentos, é aproveitado por algumas pessoas como sendo uma oportunidade para se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo da liberdade, em que pode haver um acesso a actividades que preencham as horas livres de forma gratificante e agradável. Veja-se o seguinte exemplo: E4 - “Planeei a minha reforma porque durante o tempo que exerci a profissão nunca pude fazer aquilo que gostava e então a partir do momento em que comecei a ser aposentada comecei então a realizar o meu sonho.” Ou ainda: E4 - “Faço o que quero e foi a partir da reforma que explorei os dotes que Deus me deu.” 6.2.Descrição do quotidiano Nesta secção analisaremos os dados recolhidos nas entrevistas relativos ao quotidiano dos inquiridos: actividades do dia-a-dia, ocupação dos tempos livres, voluntariado ou pertença a grupos activos são alguns dos itens pesquisados. O quadro abaixo sintetiza a informação recolhida. 111 Quadro 12 - Actividades diárias Categorias Frequência C1 – Lida da casa 9 Sujeitos E1, E3, E4 E5, E6, E7, E8, E9, E10 C2 – Voluntariado 5 E1, E3, E9, E10, E12 C3 – Trabalhos agrícolas 2 E4, E9 C4 – Hobbies variados 9 E2, E3, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E10 C5 – Espiritualidade 7 E1, E5, E6, E7, E8, E9, E12 C6 – Cuidados com pais, filhos ou netos 5 E1, E3, E7, E8, E10 C7 – Convívio (café, compras, passeios) 4 E2, E4, E5, E10 C8 – Exercício físico 1 E12 Dividimos em 8 categorias as actividades do quotidiano referidas pelos inquiridos. É de salientar que existe uma actividade comum a todos que é a frequência da UTI (diária para a grande maioria) mas que veremos mais adiante. Os sujeitos, neste quadro, podem pertencer a várias categorias, pois apontaram mais que uma actividade. Promover a qualidade de vida numa etapa de vida em que algum declínio físico é incontornável implica ter em conta critérios multidimensionais, como a manutenção da rede social e de actividades significativas. Um dos inquiridos (E11) referiu não pertencer a nenhuma destas categorias, levando uma vida mais sedentária, apenas preenchida com as aulas da UTI. Nove dos inquiridos mantêm rotinas de lida da casa, alguns dos outros têm ajuda nas tarefas domésticas. E1 – “Faço a vidinha dentro de casa…nos dias em que não tenho empregada.” E6 – “De manhã (saio todos os dias de manhã) vou às compras, vou à missa, fazer qualquer recado que tenha de fazer, ir aos correios, pagar a luz, fazer as minhas voltas…” 112 E7 – “Ajudo a fazer a cama à minha mulher que ela não a faz sozinha e eu também não faço…” Já referimos neste trabalho Carneiro et al. (2006) que mostram que a qualidade de vida do idoso pode estar relacionada com aspectos como a capacidade funcional, a autonomia nas suas tarefas diárias.12 A grande maioria (9), diz ter um ou mais hobbies como pintura, desenho, costura, dança, leitura, teatro, navegação na internet para além das actividades semelhantes das disciplinas frequentadas na UTI. Lembremos Dumedazier (1980), citado por Davim et al. (2003), que define o lazer como o ter tempo de fazer qualquer coisa de que se goste e que classifica estas actividades por áreas de interesse dos indivíduos. Destacam-se aqui as manuais e as estéticas.13 E3 – “Gosto de fazer tricot, bonecos.” E4 – “E a partir daí comecei a dedicar-me à pintura e hoje sinto-me de facto feliz porque grande parte do meu tempo é ocupado a pintar. É nas telas que eu me encontro, é nas telas que eu me sinto jovem, tenho um espírito muito aberto, é nas telas que eu combato o isolamento, não me sinto velha, pelo contrário, acho que tenho um espírito muito jovem.” E7 – “[…]depois fiz uns trabalhos, fiz uma exposição aqui no museu e estão lá em casa. Tenho lá uns presépios, tenho quadros, com árvores feitas de corais… quando as coisas não me agradam, faço e depois desfaço. A primeira pessoa a quem o trabalho tem de agradar é a mim…” E10 – “A pintura é uma coisa que me ocupa muito tempo e que me dá muita satisfação.” Um significativo número de entrevistados passou a dedicar-se à espiritualidade após a reforma. Mantêm actividades como participação em coros, assistência em rituais religiosos, visitas a doentes ou necessitados no âmbito da igreja, etc. 12 13 Na página 45 deste trabalho. Na página 48 deste trabalho. 113 E5 – “Vou à missa dos dias de semana quando posso.” E7 – “Exerço ali na minha paróquia. Sempre que é preciso estou lá. Tenho um dia que vou lá de manhã, à quinta-feira. Sou juiz da Irmandade do Santíssimo dali da Sé. Estou inserido nos coros de cristandade, sou ministro extraordinário da comunhão…são actividades e sempre que precisam de mim…” E12 – “De tarde exerço a minha espiritualidade, vou ao culto, missa, terço. Dentro do espírito vicentino, vou visitar aqueles que precisam da nossa palavra, nos lares, idosos, vou exercendo o meu espírito de solidariedade[…].” Cinco dos inquiridos ainda têm a responsabilidade de cuidadores, quer de filhos que ainda vivam em casa (como é o caso de E3), quer de netos ou dos próprios progenitores (tal como E8 e E10 respectivamente): E8 – “Estou só com o meu marido e o meu pai, que faz 92 anos no dia 15 de Março.” E10 – “[…] quando a minha neta nasceu […] fui criar a minha neta.” O Ano Europeu 2012 pretendeu criar melhores condições de apoio aos idosos e garantir um maior reconhecimento da sua importância para a sociedade (como cuidadores de pais, cônjuges, netos) considerando que existe produção de bens ou serviços, mesmo nas actividades voluntárias e indirectas: ao cuidar dos netos, o idoso permite aos seus filhos o aumento do tempo dedicado à sua carreira, possibilitando então a optimização do seu desempenho. Concordamos com Gonçalves et al (2006) quando referem que a prestação de cuidados aos descendentes, de primeira ou segunda geração, funciona como um factor promotor do bem-estar dos idosos e com Barros de Oliveira (2008) quando indica que os netos, podem dar um novo sentido à vida, sendo considerada muito positiva a intervenção dos avós na educação das crianças, dependendo, claro está, de diversos factores como a idade, a formação e a personalidade, entre outras circunstâncias.14 14 Páginas 42-49 deste trabalho. 114 Só um inquirido diz manter actividade física para além da exercida na UTI, contrariando assim os 14 estereótipos relativos aos idosos listados por Champagne e Frennet (citados por Martins e Rodrigues, 2004): a ideia de que os idosos são demasiado frágeis para fazer exercício físico.15 E12 – “Faço a minha ginasticazinha caseira. […] Dou as minhas pedaladas de manhã.” Outra actividade que reúne algum consenso (5 ocorrências) é o voluntariado. Essa actividade é normalmente exercida em instituições locais ligadas à solidariedade social ou em hospitais. Lembremos que segundo a European Comission (2012, p. 3), o “Envelhecimento activo significa envelhecer com boa saúde e como pleno membro da sociedade, com um maior sentido de realização profissional, maior independência na vida quotidiana e maior participação enquanto cidadãos” e que o envelhecimento activo pressupõe uma maior participação na sociedade, nomeadamente através do voluntariado. Recorde-se que, segundo Martín e colaboradores (2006), citados por Gonçalves et al. (2006), podemos estruturar as tarefas desempenhadas pelos idosos em torno de quatro eixos essenciais, um dos quais é a promoção social, maioritariamente nos programas de voluntariado sénior e nos programas intergeracionais.16 Vejamos alguns dados obtidos através das entrevistas feitas: E1 – “Pertenço à Kolping. Vou às reuniões, faço… ainda agora no Natal fizemos um auto de Natal…fomos aos velhinhos […], por acaso saiu muito bem, eles adoraram.” E3 – “Animava aquela gente (do lar) e animava-me a mim também.” E12 – “Vou visitar aqueles que precisam da nossa palavra, nos lares, idosos, vou exercendo o meu espírito de solidariedade”. Estes três exemplos mostram o quanto os inquiridos se sentem úteis e jovens praticando este tipo de actividade, na medida em que, mesmo fazendo voluntariado em 15 16 Página 36 deste trabalho. Página 46 deste trabalho. 115 lares onde os utentes são pouco mais velhos que eles, denotam um sentido quase de condescendência em relação aos alvos do seu voluntariado. Como diriam Monteiro e Neto (2008), na velhice, o tempo de lazer, sem constrangimentos, é aproveitado por algumas pessoas como sendo uma oportunidade para se manterem activos. É, ou pode ser, o tempo da liberdade, em que pode haver um acesso a actividades que preencham as horas livres de forma gratificante e agradável. 6.3. Descrição dos relacionamentos sociais O quadro número 13, que tornamos mais visível através do gráfico número 8, ilustra o relacionamento social mantido pelos participantes neste estudo. Quadro 13 - Núcleos de relacionamentos sociais Categorias Frequência C1 – Costuma estar com a família e amigos 11 Sujeitos E1, E2, E3, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E11, E12 C2 – Costuma conviver só com a família 1 E10 Gráfico 8 - Núcleos de relacionamentos sociais 1; 8% C1 - Costuma estar com a família e amigos C2 - Costuma conviver só com a família 11; 92% 116 Onze inquiridos (92%) afirmaram conviver diariamente com a família e com amigos. Apenas a entrevistada E10 afirmou ter uma relação social apenas com o marido e esporadicamente com a filha quando esta vem de férias: E10 – “Não saio com amigos. […] Conheço várias pessoas aqui mas não sou pessoa de ir a casa de pessoas, nem de ser assim metediça, sou reservada.” Todos os outros aludem à importância de ter amigos com quem conviver: E6 – “Pelo menos todas as sextas-feiras depois da missa vou para ali e estamos ali umas poucas reunidas, jogamos o totoloto…” E12 – “É esta a minha divisa: conversar, comunicar, que é o principal do ser humano. Para não viver isolado. Trocamos impressões.” Referimos várias vezes, no estudo teórico, que as relações sociais do idoso têm um papel de extrema importância na sua qualidade de vida. A pobreza de relações sociais como um factor de risco para a saúde tem sido considerada tão danosa quanto o tabaco, a hipertensão, a obesidade e a ausência de actividade física (Carneiro, Falcone, Clark, Del Prette, & Del Prette, 2006). Cobb (1976) refere que o apoio social leva o indivíduo a acreditar que é querido, amado e estimado e que faz parte de uma rede social com compromissos mútuos. Vejamos o exemplo da entrevistada E5: E5 – “Encontro-me com uma colega, converso […] ajudo-a nos problemas dela… tenho necessidade de estar com ela porque sei que ela se distrai, sempre se vai entretendo…ela precisa de conversa para manter a sua sanidade. O bem que ela tem é que a gente tem podido estar pelo menos uma hora de manhã na conversa.” Assim, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008, p. 87), também defendemos que “uma das componentes mais pertinentes para a qualidade de vida é o apoio da família, dos 117 amigos e a participação em actividades sociais. Baixos níveis de contactos sociais estão associados a uma pobre qualidade de vida […]”. Através dos dados recolhidos nas entrevistas feitas aos alunos da instituição em estudo, podemos verificar que não existem, nestes inquiridos, situações de isolamento. 6.4. Razões do ingresso na UTI No quadro número 14 pode ver-se que encontrámos quatro grandes tipos de razões apontadas pelos entrevistados para ingressarem na UTI. Quadro 14- Razões do ingresso na UTI Categorias Frequência Sujeitos C1 – Aumentar o conhecimento 5 E6, E7, E9, E10, E12 C2 – Aumentar o contacto social 5 E1, E2, E8, E10, E11 C3 – Ocupar o tempo de forma útil/manter-se 9 E2, E3, E4, E5, E6, E7, activo E9, E10, E12 C4 – Voltar ao passado 3 E2, E7, E11 Ao realizarmos num primeiro momento, uma análise quantitativa, podemos observar que a categoria que é mais representativa (75%) é a de “ocupar o tempo de forma útil/manter-se activo” com nove ocorrências (salientamos que os inquiridos indicaram várias opções como razão do seu ingresso na UTI). De seguida temos as categorias “aumentar o conhecimento” e “aumentar o contacto social” com cinco ocorrências cada. A categoria menos focada foi a de “voltar ao passado” com três ocorrências. A preocupação com a ocupação dos tempos livres pode ser entendida como a necessidade de compensar as perdas dos papéis tidos ao longo da vida activa (Cachioni & Neri, 2004). Ocupando o seu tempo com novas actividades, o idoso pode desempenhar 118 novos papéis. Com a reforma, o grande aumento do tempo livre parece ser um grande aliado da tendência para a depressão, para a inactividade e a consequente perda de capacidades funcionais. Procurar alternativas que preencham o tempo é uma opção adequada, logo que essa ocupação seja livre e agradável, o que a UTI pode proporcionar. Podemos observar este facto em algumas alegações dos inquiridos: E5 – “Ter fora de casa uma ocupação que me desse interesse e ao mesmo tempo me distraísse… que me mantivesse a mente sã… especialmente… porque é a vantagem de uma universidade… é ter a mente sã e o corpo são.” E7 – “É manter a minha velhice activa. Eu pelo menos acho que é… manter a minha velhice activa. Enquanto tiver alguma saúde quero manter-me activo… não quero encostar… arquivar… estacionar ali no parque…” E10 – “E era um modo de passar mais o tempo. Eu estava mais disponível que entretanto a minha neta foi crescendo…” O aumento do contacto social também foi uma categoria com bastantes ocorrências (41,67%). O aumento da socialização propicia bem-estar, qualidade de vida, como vimos no nosso quadro teórico. O argumento a favor da ideia de que as relações sociais podem, de várias formas, promover melhores condições de saúde tem sido salientado em vários estudos (Ramos, 2002). Desta forma, baseando-nos em Monteiro e Neto (2008) podemos ver a componente de socioterapia gerada pelas UTI, que promovem e estimulam a integração social. É, também, na fase da idade mais avançada que existe uma confrontação com a perda de entes queridos (cônjuges, irmãos, progenitores, amigos) (Berryman, Hargreaves, Herbert, & Taylor, 2002) e desta forma, muitos idosos tendem a procurar outros locais, como é o caso das UTI, para (re)construir algumas relações perdidas. As entrevistas 2 e 11 fazem-nos reflectir melhor sobre isso: E2 – “A gente quando eles morrem a gente pensa que também vai, sabe…e já lá vão 18 anos…” E11 – “O convívio e fazer-me esquecer o que me aconteceu.” (falecimento recente da esposa). 119 A categoria “aumento do conhecimento” teve cinco ocorrências (41,67%). Ter a capacidade de buscar novos conhecimentos parece ser uma maneira de se obterem outros benefícios ligados a essa conquista: aumento da auto-estima, manutenção das capacidades cognitivas e intelectuais (Marconcín, Real, Dias, & Fonseca, 2010). Alguns idosos entrevistados mostraram ter grande vontade e empenho em aprender coisas novas. Vejamos o entrevistado 12: E12 – “Foi para me completar na cultura. Aprender para me cultivar. Para ser um complemento da parca cultura que tenho para aumentar mais os conhecimentos.” Note-se que alguns inquiridos refutaram esta categoria dizendo que a sua aprendizagem já estava feita, ou que na UTI não se aprendia nada, corroborando, no caso do inquirido 4 estereótipos apresentados no estudo teórico de que o idoso já não aprende: E3 – “Isto aqui não há nenhuma cadeira, nenhuma disciplina que a gente frequente que chegue ao fim… tenha certificação… eu até acho que são mais conversas em família.[…] Aprende-se o quê? […] Venho para aqui todos os dias, posso não aprender nada, que não aprendo, isto aqui não é para aprender nada. Serve para conviver, para tomar ar, para arejar.” E4 – “Nem é o aprender. A nossa aprendizagem já está feita […]” A imagem negativa que prevalece do idoso e do seu desempenho e, por consequência, as baixas expectativas sociais, quanto ao desempenho em tarefas de aprendizagem, geram nos idosos a ideia de que, de facto, estão em desigualdade relativamente a pessoas mais novas. Alguns dos próprios idosos veiculam esta imagem negativa de si próprios. A idade surge, assim, como uma barreira à aprendizagem. Não de forma natural, mas mais por via social, através dos estereótipos. Não é raro que adultos de idade avançada acreditem que são demasiado velhos para aprender novas actividades. De qualquer modo a actualização de conhecimentos pode ser interpretada como o atingir de uma meta de vida, completar uma educação formal e os alunos desta UTI comprovam esta ideia. 120 Em relação à quarta categoria “Voltar ao passado”, obtivemos três ocorrências (25%). Veja-se o entrevistado 2: E2 – “[…]já que não estudei quando queria…” Aqui está patente a vontade de recomeçar algo que ficou interrompido no tempo, neste caso os estudos. Vejam-se outros casos: E7 – “[…]Sinto curiosidade… aqui fala-se de tudo… há aqui um senhor que nos fala do tempo do Salazar… eu estava em Moçambique nessa altura…” E11 – “[…]história é uma maravilha e o inglês… o francês, já no tempo de escola gostava e continuo a gostar.” Note-se a melancolia com que os entrevistados falam do passado. A frequência da UTI nestes casos indica bem a necessidade de recordar, de reviver o passado, tal como Berryman e seus colaboradores (2002) focaram ao dizer que a tendência em alguns idosos será a de rememorar a vida. Assim, para alguns idosos entrevistados, uma das razões apontadas para o ingresso na Universidade Sénior será o “voltar ao passado”, um rejuvenescer, um relembrar dos tempos de escola, ou até mesmo significar novos sonhos, novas aspirações que fizeram parte da juventude. Note-se que as razões apontadas pelos idosos desta instituição diferem um pouco das apresentadas no estudo de Monteiro e Neto (2008) que referem como categorias mais frequentes a convivência e a busca de conhecimentos, embora dado a amostra ser muito reduzida, os dados recolhidos não traduzirem, possivelmente, a representação geral dos alunos da UTI em estudo. Também outros autores como Swindell (1993), Jarvis e Walker (1997), Cachioni e Néri (1999), Chamahian (2009), Marconcín et al. (2010) e Esmeraldina Veloso (2011) apuraram categorias semelhantes às do nosso trabalho, por vezes ordenadas de modo diferente, mas as mesmas no geral. 121 6.5. Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças introduzidas na vida dos inquiridos À questão: “A frequência desta Universidade está a corresponder às suas expectativas?”, os inquiridos indicaram várias opiniões. Não criaremos aqui categorias dadas as diferenças no discurso dos inquiridos. Na generalidade, os inquiridos responderam que a Universidade correspondia às expectativas por eles criadas. Apenas uma inquirida (E3) relata que a experiência não corresponde totalmente à expectativa, pois gostaria de ter mais disciplinas. E3 – “Não totalmente, porque eu sei que há universidades que também têm outras disciplinas mais chamativas, que me interessassem mais. Gostava de gerontologia, saúde, alimentação natural, é mais esse tipo de coisas, agora cá querer saber da guerra e do 25 de Abril e do Salazar, quero lá saber… são temas muito massudos.” De qualquer forma, embora esta inquirida tivesse respondido negativamente à questão, a sua resposta não difere de várias outras, que também relatam que gostariam de ter mais oferta educativa, embora respondam afirmativamente à pergunta. E2 – “[…] há outras disciplinas que gostava que tivessem, mas nunca tiveram… talvez assim… gosto muito de política…” E9 – “Sim. Acho que devia haver mais disciplinas. Por exemplo dança, ginástica temos há pouco tempo, culinária, essas coisas assim…” E12 – “Ao nível das disciplinas poderiam haver outras para completar o nosso programa, mas por vezes não há porque faltam os professores. A nossa escola está à mercê dos fundos dos alunos, não temos professores remunerados. Estamos à mercê dos que sabem e que nos podem transmitir o seu saber.” Como referimos no enquadramento teórico, a maior parte das actividades desenvolvidas nas Universidades da Terceira Idade abrangem disciplinas, variando o seu número entre as diferentes instituições, desde o mínimo de 10 até ao máximo de 64 122 disciplinas. Neste caso a UTI em estudo oferece um leque de catorze disciplinas, situandose no intervalo referido por Pinto (2008). Ao nível dos professores, estes exercem geralmente de forma voluntária e sem qualquer tipo de remuneração, sendo que muitos ainda exercem a sua actividade profissional a par desta outra actividade, tal como é sugerido pelo próprio Regulamento Geral das Universidades da Terceira Idade aprovado em Reunião Magna da Rede das UTI em Almeirim, em 18 de Outubro de 2007 (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). Alguns entrevistados (E1, E2, E4, E5) alegam directamente gostar do ambiente, dos professores. E1 – “Gosto dos professores todos.” E2 – “Os professores também são muito bons. São todos muito animados.” E4 – “Não mudava nada. Vão muito além das expectativas.” É referida várias vezes a parte financeira, ou seja, as mensalidades e algumas despesas extraordinárias com actividades extracurriculares: E6 – “Paga-se pouco… Este ano até está mais barato…” E8 – “[…] até vinha às aulas quase todas, mas fica um bocadinho dispendioso vir lá de baixo da beira-rio até cá…” E9 – “Não sei se toda a gente consegue vir para aqui… a vida está um bocadinho difícil…” E10 – “Fazem passeios aqui mas são muito caros e cada vez as despesas são maiores. A mensalidade agora é maior. Agora nem sei quanto é… as aulas é que eu acho muito caras, são de 3 em 3 meses 45 euros. Só tenho o ordenado do meu marido.” E11 – “A Universidade tem uns preços acessíveis.” 123 A UTI em questão recebe uma quota anual de 35 euros. As propinas podem ser pagas mensal, trimestral ou anualmente, de acordo com a conveniência de cada um: dez euros mensais para uma disciplina e quinze por duas ou mais. Referimo-nos, na parte teórica desta investigação, à perda de rendimento aquando da entrada na reforma. Berryman et al. (2002) referem aspectos menos positivos dessa nova fase da vida no que toca a factores como perda de rendimento, perda de papel social ou identidade. Este é um aspecto que nos pode mostrar que a educação também a este nível não está efectivamente ao alcance de todos, ficando de fora destas ofertas os mais desfavorecidos. Também sobre a questão pedagógica são feitas algumas alegações. Os inquiridos aludem à questão da não obrigatoriedade de frequência, como o fazem E3, E7 e E8: E3 – “Há certas actividades para quem gosta, para quem aprecia, para quem quer. Quem não quer… é livre… não vai… não há faltas… é o que me vale.” E7 – “[…] e até sou preguiçoso para ir à informática porque é de manhã, e eu de manhã custa-me…” E8 – “Ó mãe, porque é que a mãe não vai até à Universidade Sénior, vai às aulas, não são de obriga, vai quando quiser…[…] Á segunda-feira não venho porque é um dia… há muita roupa, coisas para organizar… também nesse dia as aulas não me interessam.” As UTI portuguesas foram criadas pela sociedade civil e não pertencem ao sistema escolar regular. Seguem, portanto, os princípios básicos da educação não formal. Por lei, não podem nem avaliar, nem certificar. Também os seus alunos, segundo Pinto (2007, p. 7) referem que “não desejam ser avaliados porque já o foram ao longo das suas vidas e não pretendem continuar a sê-lo”. Desta forma, não existe uma cláusula de assiduidade, tanto que os seus utentes talvez a refutariam. Veloso (2011, p. 286) refere-o na sua conclusão: “Também a avaliação e a obrigatoriedade de frequentar as actividades culturais são características escolares que são recusadas por muitos dos associados”. Igualmente, sobre a questão da adequação da oferta educativa à faixa etária em questão e, consequentemente, ao seu capital cognitivo e personalidade, os inquiridos dão a sua opinião: 124 E3 – “Não me interessa estar a fazer isso, e depois como tenho muito mau feitio tenho um defeito muito grande: gosto de fazer as coisas à minha maneira. E como gosto de fazer as coisas à minha maneira não gosto que me estejam a dizer “faz desta maneira ou faz daquela”.[…] Se é assim eu fico, senão vou-me já embora![…] Isso para mim estar a fazer uma coisa numa aula, de obrigação, a fazer a mesma coisa que os outros estão a fazer, de obrigação de fazer aquilo, para mim não é aula, é trabalho. Eu estou aqui para me distrair, não é para trabalhar. Não é para estar a trabalhar a mando de outra pessoa.” E5 – “As pessoas já não vão estudar calhamaços… Um professor de história de 91 anos vem aqui meia hora de 15 em 15 dias… dar-nos uma aula… é curto e directo… Temos também tópicos que têm interesse especialmente para nós aqui da cidade.” E7 – “Só às disciplinas de senhoras é que eu não assisto. Não me diz respeito.” E12 – “Os professores são todos acessíveis, compreendem as nossas deficiências na aprendizagem. O cérebro por vezes já não abrange aquilo que era necessário. Eles conduzem-nos de modo a aprendermos o necessário sem esforço. Para mim a importância das universidades é essa. Os professores cativam-nos e daí aprendermos muito de bom.” Mais uma vez referimos o carácter informal deste tipo de instituição. Com este tipo de processo ensino - aprendizagem em que o aluno é activo, a auto-estima e motivação tornam-se crescentes, uma vez que o aluno poderá igualmente escolher dentre tantas actividades oferecidas as que mais lhe interessarem. Qualquer abordagem ao tema da educação e formação dos adultos mais velhos deve ter em conta uma série de conceitos e variáveis que se situam nos domínios da Gerontologia. Com efeito, a discussão sobre o que ensinar (conteúdos), sobre como ensinar (estratégias e metodologias), sobre o desenvolvimento das acções formativas (estruturas pedagógicas) e ainda sobre o perfil do formador (competências específicas para ensinar idosos), são atribuições especializadas do âmbito da Gerontologia Educativa, tal como vimos na página 60 do nosso trabalho. Graças à gerontologia educacional, os idosos beneficiam de um sistema de educação especial, já que “Não se trata por conseguinte de alguém que se limita a estar na sala de aula. Quer isto dizer que os sujeitos da educação são indivíduos que querem educar-se e é essa atitude deliberada que lhes confere o estatuto não 125 só de indivíduos mas sobretudo de sujeitos da educação “ (Quintas, 2008, p. 64), o que parece verificar-se nesta instituição, segundo os dados recolhidos na entrevista 7 e 12. O trabalho educativo direccionado para os idosos deve constituir-se, de preferência, “com eles e não por eles e para eles” (Cachioni & Neri, 2004, p. 110). Deve ser virado para as necessidades espirituais e biopsicossociais dos idosos, deve ajudar os idosos a serem cidadãos competentes, a estarem aptos a viver numa sociedade em constante mudança, deve proporcionar uma tomada de consciência sobre a riqueza da vida pessoal e profissional, da partilha da experiência com os mais jovens, deve permitir a expressão e a realização de aspirações educativas não realizadas durante a juventude. No que diz respeito à última questão da nossa entrevista – Acha que desde que começou a frequentar a Universidade Sénior, isso de algum modo trouxe mudanças para a sua vida? – a esmagadora maioria dos inquiridos (10, correspondendo a 83,3%) respondeu afirmativamente. As duas inquiridas que deram uma resposta negativa nomearam, mesmo assim, algumas mudanças introduzidas, como aprendizagem ou convívio. Vejamos algumas respostas que apontam para o sentido afirmativo: E1 – “aqui é que é o meu refúgio…” (referindo-se à UTI). E4 – “Trouxe, porque o vir aqui é uma obrigação e obriga-nos a sair de nós próprios (não podemos estar aqui isolados), que nós estamos em núcleo, pessoas do mesmo grupo etário e isso exige de nós um sair de nós próprios, não ficar uma tarde inteira, eu sei lá… num café, numa inactividade, em casa, a ver televisão. […]a pessoa acaba por sentir uma nostalgia que a vai dominando, e aqui combate-se isso tudo. Por isso é que se diz: Dar anos à vida e mais vida aos anos! Os anos têm que ter vida! Não é só viver os anos! É preciso vivê-los com vida!” E5 – “Trouxe-me um certo preenchimento dos meus espaços, dos meus vazios.” E7 – “O que as Universidades trazem de bom é manter as pessoas activas. E mantê-las com a cabeça… se a cabeça parar… depois entra em Alzheimer… sabe como é… vai-se mantendo activo porque os neurónios vão morrendo e a gente vai conseguindo dar-lhe alguma saúde, e se for possível mantê-los activos. É uma falha grande na 126 sociedade e na comunidade se não houvesse isto… A não ser que em vez de… também inventaram lá o vidrão, o pilhão, o papelão… punham lá o “velhão”…” E8 –“Enquanto tive trabalho a minha vida foi um mar de rosas… eu sou muito activa. Eu gosto de trabalhar, de ter o tempo ocupado. A cozinha (da quinta) fechou, morri… Para mim foi um balde de água fria… Eu chorei. Foi como se me matassem. E depois comecei a adoecer, a ter depressões e as coisas foram piorando.[…] (trouxe mudanças) Para o meu interior. Sinto-me mais leve, não ando tão triste, tão obcecada.” E11 – “Trouxe na parte do convívio. Porque eu noto a diferença. À noite quando estou sozinho em casa e com as coisas todas dela em casa eu fico outra vez na mesma.” Repare-se nas mudanças referidas: A universidade como refúgio, a pertença a um grupo, o combate da depressão e nostalgia, o preenchimento de um certo vazio, a manutenção da actividade e da capacidade cognitiva, o convívio. Todos estes idosos focam aspectos que são, em suma, a resposta aos objectivos das próprias Universidades para a Terceira Idade: a “promoção, a valorização e a integração do idoso”, “o contacto com a realidade e a dinâmica social local” (Rede de Universidades da Terceira Idade, 2013). A reforma ou a perda de entes queridos são fases difíceis da vida que se concentram geralmente em idades avançadas. A socialização durante a velhice é de sobremaneira importante. Neste caso a Universidade, pode ser a chave principal para “ressocializar” idosos no que concerne a uma reintegração na sociedade, tal como diria Vilela (2004). O envelhecimento implica, socialmente, isolamento e solidão para o idoso, deste modo, surgem as Universidades de Terceira Idade no sentido de permitir não apenas a aprendizagem e reactualização de conhecimentos, mas também a inserção do indivíduo na sociedade depois da reforma, como atesta Débora Sodré (2009, p. 5): “considerando que o processo de envelhecimento gera um isolamento do idoso, a universidade aberta da terceira idade vem com a proposta de integração, socialização, desenvolvimento e informação para que haja um envelhecimento saudável e com isso a formação de novos papéis do idoso na sociedade”. Será através da educação, proporcionada pelas Universidades Seniores, que o idoso terá a possibilidade de socializar: “Assim, o idoso tem condições através do processo educativo de socializar-se, além de inserir-se num contexto social maior, ampliando suas 127 relações pessoais, conhecendo novas realidades, desmistificando medos e percebendo todo o espaço que pode conhecer e vivenciar” (Scortegagna & Oliveira, 2010, p. 10). 128 CONCLUSÕES Chegando ao final deste trabalho, importa procurar sistematizar os contributos mais relevantes na busca de um sentido integrador e sugerir pistas que conduzam a pesquisas subsequentes sobre os estilos motivacionais das pessoas mais idosas que frequentam uma Universidade para a Terceira Idade, bem como o contributo destas instituições para a qualidade de vida dessas pessoas. Para dar cumprimento a estes propósitos, foi feita uma revisão bibliográfica sobre o envelhecimento populacional, a velhice, a educação de idosos e as Universidades para a Terceira Idade. Concomitantemente, fez-se uma reflexão sobre vários factores subjacentes ao envelhecimento para poder descortinar o papel das UTI na vida dos seus utentes. O movimento das Universidades da Terceira Idade, não sendo um modelo de educação formal, subordina-se à necessidade de educação permanente que se faz sentir no domínio dos tempos livres ao longo da vida. O principal motor deste tipo de educação é em muito diferente ao do modelo escolar usado com as crianças, quer pelas suas especificidades pedagógicas, quer pelos seus regulamentos. Ao contrário do modelo infantil, a obrigatoriedade de frequência transforma-se num frequentar apenas pelo prazer, sem compromissos efectivos, sem momentos avaliativos. Fundamentalmente, pode dizer-se que o projecto desta Universidade visa permitir que os adultos idosos se distanciem de certas imagens e estereótipos negativos da velhice, assumidos pela sociedade em geral e por eles próprios em particular. Assim, a par da ocupação útil do tempo e manutenção da actividade, os utentes desta instituição apontam o aumento do contacto social e do conhecimento como principais motivos para a sua inscrição e frequência, devolvendo-lhes o sentido da vida e do tempo após a reforma. A reforma, como vimos, pode originar alterações mais ou menos profundas na vida de quem a vive, como a alteração do ritmo de vida, a noção do tempo, passando de um tempo ritmado e organizado em função do trabalho para um tempo contínuo em que os dias podem ser muito iguais uns aos outros. O facto de poderem sentir-se úteis à comunidade, de conviverem ou poderem aprender são exemplos de dimensões da vida que ganham outro valor para quem percepcionou a reforma ou o falecimento de entes queridos, fenómenos ligados à idade avançada, de forma muito marcada. 129 Os alunos inquiridos, são, no geral, autónomos, independentes, supervisionam ou executam as tarefas domésticas e, alguns, a educação dos filhos ou dos netos. Alguns deles ainda são responsáveis pelos seus pais. A existência destas instituições torna-se fundamental na medida em que contribui para um envelhecimento mais satisfatório cumprindo, desta forma, os objectivos do movimento das Universidades da Terceira Idade. Em suma, as pessoas que frequentam esta instituição fazem-no pelo prazer que usufruem das actividades que frequentam, pelo convívio que permite desenvolver sentimentos afiliativos, pela actualização dos seus conhecimentos, o que os capacita para interactuar com gerações mais novas de forma positiva, sentindo-se menos sós, provavelmente. Embora o movimento das Universidades para a Terceira Idade esteja a proliferar um pouco por todo o país, torna-se urgente a sensibilização da população e do poder político para o problema da velhice. Com estas iniciativas, o idoso é trazido para a cena social, exigindo atenção e cuidados anteriormente inexistentes, acabando por receber um reconhecimento simbólico referente ao lugar social e cultural que nem sempre lhe foi atribuído. Negar a existência de valores negativos relativos é tão nocivo quanto aceitá-los passivamente porque implica assumir posições estereotipadas que em nada contribuem para a dignificação da velhice. Portanto, é imprescindível o início da transformação progressiva do lugar social da terceira idade, esboçando a possibilidade de reconhecimento do idoso como sujeito psíquico existente e como agente social, permitindo uma outra maneira de redimensionamento da inserção das pessoas em idade mais avançada na ordem da temporalidade, delineando a possibilidade de dimensão de futuro. Envelhecer activamente através da formação atravessa assim as esferas culturais, intelectuais, cívicas, sociais e económicas da sociedade. 130 LINHAS FUTURAS DE INVESTIGAÇÃO Para lá do que foi feito na nossa investigação achamos importante que outros estudos sejam desenvolvidos no sentido de o aprofundar e tentar colmatar algumas limitações: (i) Expandir o número de participantes em outras investigações, com outras Universidades Seniores participando do estudo, noutras regiões do país; (ii) Comparar idosos utentes de Universidades Seniores com outros que não frequentam, no que respeita o nível da qualidade de vida; (iii) Fazer um estudo sobre o bem-estar subjectivo dos idosos quando frequentam uma Universidade Sénior; (iv) Fazer um estudo quantitativo com todos os utentes da Universidade estudada neste trabalho de modo a aferir resultados totais sobre esta instituição; 131 132 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Albarello, L., & al, e. (1997). 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O objectivo da minha investigação é contribuir para uma melhor compreensão do envelhecimento humano e da importância dos processos de aprendizagem na idade adulta avançada. Nesse sentido pretendo observar alunos que frequentam Universidades Seniores, recolhendo dados, através de uma entrevista. Os dados que pretendo recolher são de máxima importância para a elaboração do meu trabalho e sem eles não poderei efectivamente desenvolver este projecto que trará contributos para uma melhor compreensão do desenvolvimento ao longo da vida e dos auxílios que a inserção em processos de aprendizagem, traz aos adultos de idade avançada. Desta forma, solicito a sua colaboração no sentido de me autorizar a entrevistar alunos da Instituição tutelada por Vossa Excelência. Gostaria de salientar que os alunos terão o direito de não responder à entrevista e que está absolutamente garantida a confidencialidade de todos os dados. A minha intervenção será a mais discreta possível, não pretendendo causar qualquer tipo de constrangimento no bom desenrolar das aulas ou do funcionamento da Universidade. 141 Aprecio profunda e sinceramente a sua colaboração e ajuda e agradeço desde já, toda a sua disponibilidade. No final da investigação, terei todo o gosto em fornecer-lhe informações sobre os dados obtidos e as conclusões. Caso tenha algumas questões por favor não hesite em contactar-me. Pessoalmente ou por outro meio, terei toda a disponibilidade para prestar qualquer questão que considere pertinente. Com os meus melhores cumprimentos, Anabela de Sousa Campos Santos Carvalho Mestranda em Ciências da Educação – Especialização em Educação de Adultos Telemóvel Email 142 Anexo 2 – Preparação da entrevista (fase preparatória) Passos necessários 1.1. Enquadramento da entrevista no estudo de caso 1.2. Definição dos objectivos da entrevista 1.3. Entrevistados 1.4. Entrevistadores Descrição O presente estudo de caso pretende conhecer as motivações dos idosos inscritos numa UTI do distrito de Viseu para frequentar os cursos lá ministrados. Para além de outros possíveis métodos de recolha de dados, como a observação a entrevista assume um papel importante porque permite recolher directamente dos idosos as opiniões ou informações que podem contribuir para responder às questões da investigação. De acordo com os objectivos da investigação. - Perceber as razões apontadas pelos utentes idosos da Universidade Sénior para a inscrição nos cursos aí ministrados. - Inferir acerca da importância das UTI’s que se assumem como organismos promotores de bem-estar e perceber também quais os factores que poderão potenciar este bemestar; . Conhecer a problemática que envolve a velhice e o envelhecimento; . Compreender a contextualização das Universidades da Terceira Idade; Os entrevistados serão todos os idosos maiores de 65 anos inscritos na UTI em estudo no ano lectivo de 2012/2013 que aceitem realizar a entrevista. Sabemos de antemão que o número poderá ascender a 24. A autora deste projecto. 1.5. Prazos Outubro, Novembro e Dezembro de 2012, conforme cronograma apresentado. 1.6. Condições logísticas Impressão de guiões. Bloco de notas e gravador áudio. Software necessário à elaboração do guião e ao tratamento e análise de dados. 143 Anexo 3 – Guião da entrevista Este guião é apenas uma prévia ideia daquilo que realmente foi a entrevista e foi sendo corrigido, enriquecido ou alterado à medida dos avanços do trabalho. Blocos Objectivos Gerais Objectivos Específicos 1- Apresentação 1.1- Apresentação da entrevistadora e da investigação I-Informação/ Legitimação da entrevista 2-Explicar os objectivos da entrevista 2.1- Fornecer informação sobre a finalidade, os objectivos, os conteúdos e a duração da entrevista; 2.2- Referir o contexto da investigação e as metodologias; II- Dados biográficos 3- Garantir os aspectos éticos e deontológicos 3.1- Agradecimento; 3.2 – Assegurar a confidencialidade; 3.3 – Pedir autorização para gravar; 3.4 – Informar sobre o direito à não resposta; 3.5 – Assegurar o esclarecimento de dúvidas. 1 - Recolher dados sociodemográficos e informações sobre o percurso de vida dos sujeitos 1.1 - Idade; estado civil; filhos; composição do agregado familiar; escolaridade; 1.2 Percurso de vida (pessoal, escolar, profissional) 2 - Caracterização da situação profissional actual e percurso profissional 2.1- Situação profissional actual; última profissão; entrada na reforma (planeamento) 3- Convidar à descrição do seu quotidiano 3.1 – Descrição das actividades que exerce; pertença a grupos; relacionamento familiar. Questões Orientadoras Trata-se de um estudo sobre as razões que levam os alunos com 65 ou mais anos de idade a frequentarem Universidades Sénior, sendo um tema bastante relevante, devido ao envelhecimento demográfico. Para iniciarmos esta nossa conversa, gostaria de o/a conhecer um pouco e para isso gostaria que me falasse um pouco de si. Está reformado/a? Há quanto tempo se reformou? Quer falar um pouco do seu percurso profissional? Habitualmente como é o seu dia? Como passa o seu dia, desde o levantar ao deitar? Costuma exercer alguma actividade, de voluntariado, de 144 pertença a um grupo, etc.? Como gosta de ocupar os seus tempos livres? III- Relação com a Universidade Sénior 4- Descrição dos relacionamentos sociais 4.1– Verificar a frequência e a qualidade das relações sociais No dia-a-dia, costuma estar com a sua família? E com os amigos? 1- Perceber as razões do ingresso na Universidade Sénior 1.1 - Motivações e razões para a inscrição na Universidade Sénior. O que levou a inscrever-se na Universidade Sénior? Já frequentou outra? Se sim porque mudou para esta? 2 – Aferir a opinião sobre a Universidade Sénior e as eventuais mudanças introduzidas na sua vida 2.1- Opinião sobre a Universidade Sénior, aulas, professores e actividades; Está a corresponder às expectativas? Qual a sua opinião acerca dos apoios prestados nesta instituição? Porquê? 2.2- Descrição e caracterização de eventuais mudanças na sua vida decorrentes da frequência das aulas. Acha que desde que começou a frequentar as aulas, isso de algum modo trouxe mudanças para a sua vida? O que mudou na sua vida? Como avalia essa mudança? 1- Agradecimento 1.1- Agradecimento aos sujeitos pela disponibilidade e pela colaboração no estudo; 2- Sugestões e questões do entrevistado 1.2- Verificar se pretende acrescentar alguma informação, esclarecer alguma dúvida ou fazer comentários 3- Disponibilizar futuro acesso aos dados 1.2- Informar da possível disponibilização dos resultados finais do estudo, caso o entrevistado esteja interessado em conhecê-los. IV - Conclusão 145 Anexo 4 – Entrevista Dados sociodemográficos e percurso escolar Para iniciarmos a nossa conversa, gostaria, para que pudesse conhecê-lo melhor, que me falasse um pouco sobre si. Gostaria primeiramente, de saber a sua idade. Qual seu estado civil? Qual a composição inicial e actual do seu agregado familiar? Qual o seu nível de escolaridade? Pode falar-me um pouco do seu percurso de vida na escola? Caracterização da situação profissional actual e percurso profissional Está reformado? Há quanto tempo? Quer falar-me um pouco do seu percurso de vida profissional? (apelar para a situação profissional actual, última profissão exercida, planeamento da entrada na reforma). Descrição do quotidiano Habitualmente, como passa o seu dia? Costuma exercer alguma actividade de voluntariado, de pertença a um grupo? Como gosta de ocupar os seus tempos livres? Descrição dos relacionamentos sociais No dia-a-dia costuma estar com a sua família? E com amigos? Razões do ingresso na Universidade Sénior O que o levou a inscrever-se na Universidade Sénior? Já frequentou outra? Se sim, porque mudou para esta? Opinião sobre as Universidades Seniores e as eventuais mudanças introduzidas na sua vida A frequência desta Universidade está a corresponder às suas expectativas? Qual a sua opinião acerca dos apoios prestados nesta instituição? Porquê? (opinião sobre a UTI, sobre os professores, as actividades, …) Acha que desde que começou a frequentar as aulas da Universidade Sénior, isso de algum modo, trouxe mudanças para a sua vida? Em que medida? Como avalia essa mudança? 146 147